segunda-feira, 24 de março de 2014 By: Fred

{clube-do-e-livro} Livros Espíritas em TXT - O Amor Enxuga Lagrimas,Marcelo Cezar etc



Título: O Amor Enxuga as Lágrimas
Autor: Espírito Irmão Ivo
Médium: Sônia Tozzi




Sinopse:
Com "O Amor Enxuga as Lágrimas", o espírito Irmão Ivo nos ensina, com sensibilidade e emoção, que as perdas de entes queridos, principalemente filhos, não devem ser encaradas como castigo ou injustiça de Deus que conosco, mas sim como sublimes oportunidades de elevação espiritual e trabalho, pois a vida continua, ninguém morre e esses espíritos tão queridos estarão sempre ao nosso lado, compartilhando alegrias e conquistas para uma vida feliz.


Dedicatória
Este livro é dedicado especialmente àquelas pessoas que sofreram separações dolorosas e que encontraram ou encontram dificuldades em aceitar a vontade de Deus; e também aos irmãos que, obedecendo às leis divinas, não sofreram ainda separações marcantes e, em conseqüência disso, não podem avaliar o tamanho dessa dor.
Com certeza aqui encontrarão ensinamentos que os ajudarão a compreender o sofrimento alheio e a aceitar a própria dificuldade.
Dentro dessa conscientização, entenderão que nossa vida se desvia da rota traçada por nós, sem que possamos impedir isso, cumprindo a lei de causa e efeito.
Aceitar essas mudanças é o grande aprendizado da vida, e essa aceitação está relacionada à aceitação do amor universal.
Que Jesus abençoe a humanidade.
Irmão Ivo



Para um filho ausente


Como vai você, que partiu sem me dizer adeus.
Quisera neste instante saber da sua vida
Na Espiritualidade;
Seu trabalho... Suas conquistas... Sua paz!
Ah! Se eu pudesse lhe dizer agora
Que fui o alvo perfeito da dor;
Meu peito atingido só pôde encontrar alívio
Nas palavras mansas do Cristo,
E na certeza da continuação da vida.
Como vai você, parte de mim?
Que distância é essa que maltrata e parece não ter fim!
Que dor é essa que cresce a cada instante
Sem dar trégua ao meu coração sofrido,
E fere minhas entranhas!
O que faço com esse vazio que teima em me envolver!
Como vai você, filho da minha alma?
Eu... Você... Quer saber de mim?
Ah! Eu sou alguém ferido que mal suporta a fúria desses
Vendaval,
Mas se segura no amor de Deus,
Para continuar existindo.
Eu sou alguém que se apaga... Para que você brilhe;
Que se curva ante a vontade suprema de Deus
E espera com fé e confiança
A chegada do reencontro
Que se dará... Em algum lugar do futuro!
Homenagem da médium Sônia Tozzi para seu filho Ricardo Luiz, desencarnado no dia 11 de outubro de 1989.



SUMÁRIO

Prefácio
Separação dolorosa
Muita saudade
A caminho do esclarecimento
Vencendo a melancolia
Laís e Isabela
Problemas com André
No mundo das drogas
Segredo descoberto
Arrependimento
Em busca do perdão
Conversa franca
A passagem de Isabela
Ainda as drogas
Orientação espiritual
Medo e decepção
De volta ao lar
Conselhos de amigo
Marcos se complica...
Dia de festa
No limite da dor
Ausência de Deus
Noite de Natal
Novos tempos
Uma nova vida
Reencontro
Rubens e Júlia
A vida prossegue...
Palavras da médium



Prefácio


Sinto-me profundamente lisonjeado por ter a possibilidade de prefaciar este livro. Trata-se de uma deferência muito importante dada por Sônia Tozzi, minha sogra. Essa escolha deve-se mais ao vínculo familiar que à qualidade pessoal, pois todos somos aprendizes no que diz respeito aos ensinamentos da Doutrina Espírita.
Quero, primeiramente, falar sobre as qualidades pessoais da autora. Ela passou a se dedicar mais intensamente às letras mediúnicas após ter sofrido a grande perda de sua vida, seu filho amado — Ricardo Luiz —, na época com apenas vinte e seis anos de idade. Essa perda transformou totalmente sua vida como acontece com a personagem Marília. Até então, Sônia colaborava na qualidade de voluntária em entidades que atendiam às gestantes desamparadas. A partir do desencarne de seu filho amado, ela fundou sua própria entidade — Lar de Amparo à Gestante Ricardo Luiz — com sede em sua residência, proporcionando amparo a centenas de gestantes com cursos, enxovais e cestas básicas. Entregou-se completamente a esse trabalho de fraternidade e solidariedade com a colaboração de vários amigos. Tal trabalho vem sendo acompanhado pelas sessões espirituais realizadas semanalmente, também em sua residência, com o ensino da Doutrina Espírita segundo Alan Kardec. Suas obras sempre falam de amor. Ela procura efetivamente aplicar seus ensinamentos na vida prática. Trata-se de pessoa abnegada, que está sempre pronta para amparar seus familiares, proporcionando-lhes todos os recursos necessários.
Este livro — O Amor Enxuga as Lágrimas — alcançará, com certeza, um grande sucesso. Tal romance narra à história de uma mãe que também perdeu seu filho. Ela se vê diante de um sofrimento invencível e profundo. Irmão Ivo nos ensina como superar esse sofrimento. Não se trata de uma dor física, mas dor da própria alma. Como superar a dor da alma? Como transformar a tristeza em alegria? Somente o amor ao próximo poderá enxugar as lágrimas de nosso coração por meio do exercício da fraternidade e da solidariedade. E o trabalho incessante e contínuo que nos proporcionará a paz e o equilíbrio para continuar na caminhada da vida. Irmão Ivo nos ensina ainda que haja várias formas de amor, mas que uma não anula a outra, se verdadeira. É o encontro com Deus que nos fará compreender esse amor sublime. A perda permite-nos crescer aos olhos de Deus. "Tudo o que existe vem de Deus: nós viemos de Deus e é para Ele que retornaremos; o Pai nos une e nos separa por um curto espaço de tempo comparado à eternidade." Assim, quem não vem pelo amor, vem pela dor. Só que a dor é o caminho mais longo para se chegar a Deus. Mas é Ele que nos proporcionará a tão necessária evolução. Além disso, não basta sonhar com um mundo melhor; é preciso participar de todos os movimentos coletivos. É necessária a prática do amor fraternal (universal). É necessário o desapego aos bens materiais e a transformação deles em amor verdadeiro.
Precisamos, não há dúvida, realizar obras. Não estamos aqui para nos servir dos prazeres do mundo, mas devemos ficar em constante sintonia com o plano espiritual para melhor desenvolver nossos trabalhos que nos propusemos a realizar quando para cá viemos. É preferível errar pela ação que pela omissão. A médium, como se vê, conseguiu aliar a fé à suas obras, observando que esse binômio indissociável deve pautar a obra de Deus.
Aprendi muito com a leitura contemplativa e refletida deste maravilhoso romance. Ensinou-me o valor da vida. Esta vida relaciona-se com as demais vidas que, por sua vez, transforma-se em uma intensa luz que nos iluminará para toda a eternidade.
Luís Paulo Sirvinskas


SEPARAÇÃO DOLOROSA




Quando a morte vem ceifar nas vossas famílias levando sem moderação as pessoas jovens ao invés das velhas, dizeis freqüentemente: Deus não é justo, uma vez que sacrifica esse que é forte e pleno de futuro, para conservar aqueles que viveram longos anos plenos de decepções; uma vez que leva aqueles que são úteis e deixa aqueles que não servem mais para nada; uma vez que parte o coração de uma mãe privando-a da inocente criatura que fazia toda a sua alegria. Crede-me, a morte é preferível para a encarnação de vinte anos, a esses desregramentos vergonhosos que desolam famílias honradas, partem o coração de uma mãe e fazem, antes do tempo, branquear os cabelos dos pais. A morte prematura, freqüentemente, é um grande benefício que Deus concede àquele que se vai, e que se encontra, assim, preservado das misérias da vida, ou das seduções que teriam podido arrastá-lo à sua perdição. Aquele que morre na flor da idade não é vítima da fatalidade, mas Deus julga que lhe é útil não permanecer por mais tempo na Terra.
(Evangelho Segundo o Espiritismo — Capítulo V, item 21)


Madrugada fria de inverno.
A névoa envolvia toda a cidade emprestando-lhe um ar melancólico. Apenas poucos transeuntes se arriscavam a caminhar por aquelas ruas desertas, madrugada adentro agasalhados por grossos casacos de lã.
As luzes dos postes pouco ou nada clareavam sufocadas pelo forte nevoeiro. Era a paisagem típica do inverno rigoroso da cidade que todos os anos era o responsável pela morte de muitas pessoas que viviam ao relento.
Paulo estacionou o carro em frente ao hospital, e do veículo saíram apressadas duas senhoras. Marília, a mais nova, esposa de Paulo e mãe de três filhos - o mais velho internado com pneumonia dupla e o motivo pelo qual entravam no hospital àquela hora da madrugada -, e Inês, mãe de Marília.
Sem demora estavam em frente à recepção solicitando informações. Paulo, adiantando-se à mulher e à sogra, e mal disfarçando a enorme ansiedade que lhe maltratava o peito, perguntou à recepcionista:
— Por favor, fomos chamados pelo Dr. Rubens, em virtude do agravamento da saúde de nosso filho internado no CTI; poderia dar-nos maiores informações sobre o estado dele?
— Qual o nome do paciente? - perguntou a recepcionista sem nenhuma emoção, apresentando imunidade ao sofrimento que presenciava todos os dias.
— Fábio! - exclamou Paulo com voz trêmula.
— Fábio de quê, senhor?
— Fábio Dias...
— Um instante - respondeu a moça que os atendia.
Levantando-se foi ao telefone pelo qual se informou sobre o estado do garoto. Assim que obteve a informação desejada, tornou a dirigir-se a Paulo.
— Por favor, queiram se encaminhar até o CTI onde o médico os aguarda.
— Obrigado! É no quinto andar, não?
— Sim. Sigam pelo corredor à direita até o elevador; assim que saírem do elevador verão Dr. Rubens no saguão.
Subiram sem conseguir esconder uns dos outros a dor e o medo que os assaltavam. Assim que chegaram, o médico foi ao encontro deles. Não puderam deixar de perceber o ar consternado do médico que, sabendo o profundo desgosto que iria provocar naqueles corações aflitos, tentava ser o mais prudente e cuidadoso possível.
— Boa noite, doutor!
— Boa noite, Paulo.
— Então, doutor, o que está acontecendo com o nosso menino?
— Ele... Ele... Morreu? - perguntou Marília abatida.
— Não - respondeu o médico — ainda não, mas o estado dele se agravou muito e devemos esperar pelo pior.
— Por favor, doutor, não fale assim - sussurrou Marília, que mal conseguia disfarçar as lágrimas.
— Dona Marília, sinto muito causar-lhe tanto sofrimento, mas não posso omitir a gravidade do estado de saúde de seu filho. Estamos fazendo todo o possível para salvá-lo.
— Então faça o impossível! - gritou Marília sem se controlar.
— Senhora, não podemos lutar contra a vontade de Deus. A medicina está muito adiantada, mas, mesmo assim, às vezes, somos impotentes para solucionar determinados casos e situações. Acreditávamos que Fábio iria se salvar, que conseguiríamos reverter o quadro, mas, infelizmente, seu organismo não responde mais às medicações e tememos o pior.
— Por que, doutor, por quê? - falou Inês.
— Porque os médicos podem muito, senhora, mas não podem tudo. A medicina não é uma ciência exata, ela trabalha com seres humanos, e cada criatura, cada paciente, é um ser exclusivo e responde ao tratamento de acordo com essa exclusividade. A senhora me entende?
— Tento, mas não consigo; não quando meu coração não quer aceitar a razão.
Marília, adiantando-se, perguntou ao médico:
— Podemos vê-lo, doutor, só por uns instantes?
Dr. Rubens, tocado em sua sensibilidade, respondeu quase paternalmente:
— Sim. Podem vê-lo, mas, por favor, um de cada vez. Será necessário que vistam as roupas adequadas. Venham!
Acompanharam doutor Rubens. Marília foi a primeira a entrar. Aproximou-se do leito de seu filho querido e chorou copiosamente. Fábio estava em coma; os aparelhos ligados mantinham-no ainda no mundo dos encarnados. Ela sentiu que era só uma questão de poucas horas e seu filho querido partiria sem que nada se pudesse fazer. Olhando aquele rosto amado, as lembranças começaram a saltar ante seus olhos marejados de lágrimas. Marília transportou-se para anos atrás, quando Fábio, chorando muito, entrava para o mundo dos encarnados.
— Veja Paulo, como é lindo; perfeito e lindo!
— É verdade, querida, hum... Vamos ver: vai ser engenheiro como o pai!
— Não senhor, nada disso: vai ser médico! Sempre achei linda a medicina. O homem fica tão lindo de branco!
— Mas o que é isso? - dizia Dona Inês — A criança mal acabou de nascer e vocês estão decidindo o que vai ser na vida! Que tal deixar que ela mesma resolva essa questão no momento certo, heim, papai e mamãe corujas e apressados?
Todos riram felizes!
Marília olhava aquele corpo quase sem vida e parecia não acreditar no que estava acontecendo. Revia Fábio alegre e expansivo; outras vezes sério, triste, ou então contando suas histórias e seus ideais, sonhando com suas vitórias, e não conseguia entender nem aceitar a realidade que estava vivendo:
— Meu Deus, ele é uma criança, quinze anos apenas. Não conseguiu viver nenhum dos seus sonhos, realizar seus ideais de vida; enfim, não viveu nada ainda e o Senhor o chama! Por que, meu Deus, por quê?
— Dona Marília, a senhora está aí há muito tempo, é melhor sair para que seu marido possa entrar - dizia a enfermeira.
Marília parecia nada ouvir. Apenas conseguia ver seu filho crescendo, correndo alegre pela casa, gesticulando; enfim, negava-se a encarar a realidade dos fatos.
— Dr. Rubens, é melhor o senhor falar com ela, parece não ouvir nada do que digo.
— Vou vê-la - respondeu o médico.
Aproximou-se de Marília e colocou lentamente o braço em seu ombro. Ao perceber a presença do médico, Marília o interrogou:
— Dr. Rubens, pelo amor de Deus, diga-me por que não deu certo o tratamento, tantas pessoas se curam de pneumonia, por que justamente meu filho não se curou, o que faltou a ele?
Medindo bem as palavras e respeitando o momento de intensa dor daquela mãe, Dr. Rubens respondeu:
— Dona Marília, nada faltou a seu filho. Tudo o que podíamos fazer, fizemos, mas a doença se complicou agravando seu estado e perdemos o controle sobre ela, isso acontece. Os médicos não podem tudo, temos limitações apesar do avanço da medicina, e, além disso, acima da nossa vontade está a vontade de Deus e, acredite, será sempre como Ele quiser, não importa se queremos ou não.
— Mas não é justo, doutor!
— Deus é sempre justo. Dona Marília, e um dia saberemos o porquê do nosso sofrimento.

— Ele é apenas uma criança, um adolescente cheio de sonhos e expectativas de vida, e agora... O nada para ele.
— O que disse Dona Marília, o nada?!
— Sim, o nada!
— Não fale assim. Sabemos que existe algo mais forte que o corpo físico que, de verdade, é a essência, o ser em si. Temos de respeitar essa entidade, pois é a nossa alma que, por graça divina, não morre, é imortal. Esse ser, ao deixar o corpo físico, volta para seu lugar de origem, o lugar onde fez por merecer. Não é o nada que aguarda nosso querido Fábio, mas sim a vida em uma das muitas moradas na casa de Deus. O nada não existe, Dona Marília, a vida ocupa todos os lugares.
— Mas nada vemos!
— Porque são vidas microscópicas, e nossa visão é muito limitada. Nada é vazio ou inútil na natureza, pois a vida se expande por todos os lugares; nossa visão não a alcança porque temos a limitação da matéria. Mas, por favor, Dona Marília, vamos sair para que seu marido também possa vir vê-lo.
Como uma criança, Marília deixou-se conduzir até a sala de espera. Não suportando mais a dor imensa que sentia, abraçou sua mãe e entregou-se às lágrimas que caíram em um choro convulsivo, Dona Inês tentava consolar a filha com palavras doces e confortadoras, mas para Marília nada do que ouvia parecia fazer sentido, tudo soava vago e inútil.
Paulo, seguindo o médico, foi até Fábio. Ao ver o filho naquela situação desesperadora, não se importou com a presença do médico e dos enfermeiros, cobriu o rosto com as mãos e chorou.
— Sinto muito, Sr. Paulo, mas ninguém pode ir contra a vontade de Deus. Se nosso Pai quer assim, temos de nos curvar à Sua vontade e aceitar.
Paulo, ouvindo uma voz de mulher, virou-se e pôde observar uma enfermeira de porte pequeno, olhos claros e rosto suave que transparecia a bondade que lhe ia à alma. Experimentando o sentimento de confiança, perguntou-lhe com a voz entrecortada pela emoção:
— Diga-me: o que eu poderia ter feito para merecer castigo tão cruel?
— Não sei Sr. Paulo, realmente não sei. Eu mesma me pergunto por que um garoto tão jovem passa por momentos tão angustiantes; acho que a resposta só Deus é quem sabe.
— É muito difícil aceitar a vontade de Deus nesses momentos, senhora...
— Mirtes! - Exclamou a jovem enfermeira, olhando penalizada para aquele pai torturado pelo sofrimento.
Dr. Rubens, interferindo, pediu a Paulo que se retirasse e fosse juntar-se à esposa na sala de espera. Concordando com a cabeça, Paulo foi ter com Marília. As horas passavam lentas para aqueles corações entristecidos que viviam a expectativa da separação.
A madrugada dera lugar ao amanhecer.
— Por que não vão para casa descansar um pouco, devem estar exaustos - disse Mirtes.
— Obrigada - respondeu Marília. — Preferimos ficar aqui mais perto do nosso filho.
— Pelo menos vão até a cantina do hospital tomar um café quentinho ou um chocolate, vai fazer-lhes bem.
— Mais tarde iremos - respondeu Inês.
— Se precisarem de alguma coisa, saber notícias, é só tocar a campainha que alguém virá atendê-los.
— Obrigada - responderam a uma única voz.
— Filha, vamos orar entregar nosso sofrimento nas mãos de Jesus. Somente Ele poderá nos confortar.
— Mãe, por favor, nem Ele poderá tirar a dor que tenho dentro do peito, ferindo meu coração.
— Não diga isso, filha, confie e ore para que a paz possa envolvê-la, não permitindo pensamentos negativos que aumentarão ainda mais seu sofrimento.
— Por favor, mãe, deixe-me quieta; só quero ficar quieta, só isso.
— Está bem, minha filha.
As horas foram passando, e nenhum dos três encontrava ânimo para se levantar do lugar onde estavam. Dr. Rubens, aproximando-se, chamou-os.
Levantaram-se ao mesmo tempo. Marília tremia toda, esperando ouvir a terrível notícia, o que de fato aconteceu.
— Sinto muito dar-lhes essa notícia. Fábio deixou-nos e foi encontrar-se com nosso Pai.
Sem que nada pudessem fazer, ouviram um grito, e Marília caiu desfalecida no chão. Com presteza, Dr. Rubens atendeu-a. Compreendia a dor alheia e respeitava a maneira com que cada um respondia às agressões da vida, principalmente um sofrimento como esse. Apesar de viver situações como essa desde que se formara médico, há vinte anos, ainda vivia momentos de emoção sempre que se fazia necessário comunicar fatos dessa natureza. Aprendera, em todos esses anos, que não se pode tratar apenas um corpo físico, mas, sim, também da alma, da essência divina que fazia parte daquele corpo; assim, com essa consciência, cuidava dos seus pacientes com muito respeito e atenção, para não cometer nenhum engano. Era estimado por todos que o conheciam, principalmente por aqueles que dividiam com ele a bendita tarefa de salvar vidas.
— Dona Marília, a senhora já se sente melhor?
— Sim, doutor, ou melhor, não, doutor, quer dizer... Não sei. Minha cabeça está rodando e tenho a impressão de que vivo um pesadelo.
— Vou dar-lhe um remédio que vai auxiliá-la. Ficará bem.
— Meu filho, doutor! Não quero remédio, quero meu filho aqui comigo - gritava Marília completamente descontrolada.
Usando de toda sua experiência como médico, acostumado a situações como aquela, e compreensão, como espírita que era Rubens sentou-se ao lado de Marília, Paulo e Inês. Sem deixar que ninguém percebesse, por um segundo elevou o pensamento a Deus e solicitou, do Mais Alto, proteção. Confiando que o auxílio viria, iniciou:
— Não quero tirar de vocês o direito de chorar e sofrer pela separação de seu filho sei que é doloroso demais, mas também sei que, se entregarem o coração machucado por essa dor, que fere e consome a alma, a Jesus, com certeza sentirão força e coragem para suportar o peso da ausência física.
— Não quero ouvir nada! Não me diga nada e, principalmente, não me venha falar de Deus, de Jesus e sei lá o quê. O senhor fala assim porque nunca perdeu um filho e não sabe o que é sofrimento de verdade.
Os olhos do doutor brilharam por conta das lágrimas que quase rolaram por sua face, mas achando não ser o momento adequado preferiu nada dizer sobre ele próprio, a dor que trazia dentro do peito. Segurou as mãos de Marília e continuou.
— Por favor, Dona Marília, acalme-se e permita ser ajudada por aqueles que lhe querem bem. Nosso Pai Maior não quer o sofrimento de ninguém; se ofertar seu coração a Ele sentirá alívio para seu sofrimento e esperança para continuar vivendo.
— Dr. Rubens, se Deus se importasse com o meu sofrimento, não teria deixado morrer meu filho, um jovem de apenas quinze anos, na flor da idade. Que Deus é esse, diga-me, que Deus é esse que fere sem dó o coração de uma mãe?
— Querida - interveio Paulo — não blasfeme contra Deus. Você está sob forte emoção, é melhor se calar e esperar seu coração se acalmar. Como o doutor acabou de dizer, eu também acredito na bondade de Deus e na Sua justiça.
— Deixem-me vocês todos; se não sofre pelo Fábio, Paulo, eu sofro e minhas lágrimas demonstram o que sinto aqui dentro - dizendo isso, Marília bateu com força em seu peito.
— Querida, pelo amor de Deus, não duvide do meu amor pelo nosso filho nem do sofrimento que está queimando como brasa a minha alma, mas nem por isso vou me voltar contra aquele que nos criou, porque sei que somente Ele poderá me amparar nesse momento de tanta angústia.
Dona Inês, que até então tudo escutara calada, permitindo que lágrimas sentidas descessem pelo seu rosto, abraçou a filha e lhe disse com voz embargada pela emoção:
— Filha querida, confie em Deus. Precisamos confiar Nele para não morrermos de dor; acalme-se e vamos orar pelo nosso querido menino.
— Não consigo nem quero orar, mãe. Já disse que quero meu filho, quero meu filho, será que podem me entender! - exclamava Marília completamente descontrolada.
Rubens sentiu que não era hora de falar mais nada, pois nada que falasse Marília ouviria. Dirigindo-se a Paulo, disse-lhe constrangido:
— Podem ver seu filho, logo o levarão para o necrotério e o prepararão para o velório. Se precisarem de mim é só mandar me chamar.
Fazendo um sinal, chamou Mirtes para que os acompanhasse. Paulo, Marília e Inês aproximaram-se do corpo inerte de Fábio. A dor e o desespero eram tão grandes que nem conseguiram perceber a fisionomia serena do jovem. Marília, absolutamente desorientada, debruçou-se sobre ele e deu vazão a sua imensa dor.
— Fábio, filho querido, volte para sua mãe, não me deixe, eu imploro não me deixe sem você, ou então me leve com você...
Marília perdera completamente o controle de seu sofrimento e de sua emoção. Por mais que Paulo e Inês tentassem, era inútil, pois ela não os escutava. Mirtes delicadamente pegou-a pelo braço e pediu-lhe que a acompanhasse, o que, inexplicavelmente, Marília o fez seguida pelo marido e pela mãe. Seus olhos inchados e vermelhos traduziam sua dor.
Já na sala de espera, Mirtes perguntou-lhe se não queria ir até a capela do hospital para conversar um pouco com Deus e pedir-lhe que a confortasse naquele momento doloroso de sua vida.
— Já disse que não quero ir à capela alguma! - Marília respondeu aos gritos. — Como pedir conforto a Deus se foi ele mesmo que me jogou no fundo desse poço, tirando meu filho de mim sem a menor piedade, dando-me tamanho sofrimento! Esse Deus é injusto, já disse, e não se importa com o sofrimento de uma mãe!
— Não fale assim, minha filha, não se volte contra nosso Criador. Deus é Pai misericordioso, devemos ter fé sempre, principalmente agora que sofremos tanto.
— Não, mãe, não tenho fé. Não posso ter fé ou gratidão; tentei ser caridosa, a minha vida inteira me esforcei para ser boa, orei com fé e gratidão; enfim, tentei viver como uma cristã de verdade, e de que adiantou se hoje sofro a dor pior que alguém pode sentir? Não quero mais saber desse Deus impiedoso!
Paulo, apesar de padecer a mesma dor da esposa, tentava suportar com coragem o difícil momento que vivia. Reunindo forças, disse-lhe.
— Querida, o fato de sermos bons e caridosos não nos isenta de passarmos pelas provas da vida, de experimentarmos o sofrimento para fortalecer a nossa fé e aprender a ser sensível ao sofrimento alheio. Você foi tudo isso que acaba de dizer, mas foi tudo superficial.
— Superficial?! Por que diz isso, Paulo?

— Porque agiu como cristã enquanto sua vida transcorria sem nenhuma anormalidade, nenhum sofrimento ou desgosto maior, e é muito fácil acreditar e confiar em Deus quando temos a felicidade. O cristão de verdade, aquele que crê realmente em nosso Pai que está no céu, jamais o culpa pelo sofrimento que passa e, sim, apóia-se na fé e no amor de Deus para suportar os grandes acontecimentos que marcam nossa vida e enchem nossa alma de cicatrizes. O amor e a fé são reais quando continuam existindo no instante em que Deus nos experimenta e nos coloca à prova. Por favor, meu amor, mais uma vez eu lhe digo não se volte contra nosso Pai, mas, sim, para Ele, com o coração aberto e esperançoso, consciente de que somente o amor infinito de Deus poderá acalmar nosso coração nos momentos difíceis. Mas lembre-se de que isso só será possível se dermos essa chance para nós mesmos.
Paulo não percebia quanto estava amparado pelos espíritos benfeitores, verdadeiros tarefeiros de Cristo que trabalhavam anônimos e incansáveis nos hospitais, beneficiando com energia salutar os sofredores.
Marília ia responder, quando Mirtes veio informar-lhes que o corpo de Fábio estava pronto, apenas aguardando as providências legais para ser transportado ao velório. Foi então que Paulo se deu conta de que não tinha providenciado nada nem avisado a família. Deixando sua esposa e a sogra, saiu para tomar as medidas necessárias.
Dr. Rubens, em sua casa, tentava descansar um pouco para recuperar-se da longa noite que passara no hospital. Homem que conhecia e vivia a Doutrina Espírita, entregou-se silenciosamente ao Pai Maior e orou por aquela mãe cujo sofrimento a impedia de raciocinar com lucidez e permitia que o desespero envolvesse sua alma com a descrença. "Como é fácil", pensava, "orar e dizer ao Pai: 'seja feita a vossa vontade aqui na terra como no céu'; mas, quando a vontade divina vem se opor à nossa esquecemos facilmente tudo que dizemos, que acreditamos e nos entregamos à revolta e à descrença. É simples viver o Evangelho e seguir as leis divinas quando todas as coisas acontecem conforme nosso desejo, quando nada interfere na felicidade que vivemos, mas ao primeiro sinal de que nossa vida pode mudar e percebemos que somos impotentes para interferir e impedir os acontecimentos negamos tudo que dizíamos acreditar. Que Jesus se apiede de nós, de todos nós", - orava Rubens, "e que nos auxilie na compreensão da justiça divina". Terminando suas reflexões, levantou-se, tomou um refrescante banho para afastar o cansaço e seguiu no cumprimento de seu dever de médico e de cristão.
Regozijai-vos ao invés de vos lamentar, quando apraz a Deus retirar um de seus filhos desse vale de misérias. Não há egoísmo em desejar que ele aí permanecesse para sofrer convosco? Ah! Essa dor se concebe naquele que não tem fé, e que vê na morte uma separação eterna, mas vós, espíritas, sabeis que a alma vive melhor desembaraçada de seu envoltório corporal; mães sabeis que vossos filhos bem amados estão perto de vós; sim, bem perto; seus corpos fluídicos vos cercam, seus pensamentos vos protegem, vossa lembrança os embriaga de alegria; mas também vossas dores desarrazoadas os afligem, porque elas denotam uma falta de fé e são uma revolta contra a vontade de Deus. Vós que compreendas a vida espiritual, escutai as pulsações de vosso coração chamando esses entes bem amados, e se pedirdes a Deus para os abençoar, sentires em vós essas poderosas consolações que secam as lágrimas, essas aspirações maravilhosas que vos mostrarão o futuro prometido pelo soberano Senhor (Evangelho Segundo o Espiritismo — Capítulo V, § 21)


MUITA SAUDADE


Inês abriu a porta do quarto de Marília e o que viu deixou-a chocada e apreensiva. A filha, ainda com a roupa de dormir, permanecia sentada em sua cama, despenteada e olhando com um ar perdido a foto de Fábio. Tão absorta estava que não se deu conta da presença da mãe. Aproximando-se cautelosamente de Marília, Inês, apoiada pelo enorme carinho materno, disse-lhe baixinho, tendo o cuidado de não assustá-la:
— Filha, minha querida filha, não fique assim; volte para o seu mundo, para sua família. Paulo, André e Laís precisam de você, do seu carinho e da sua atenção.
Soluçando, Marília respondeu:
— Não posso! Não posso viver sem o Fábio. Ele se foi há quatro meses, são cento e vinte dias sem vê-lo, e isso está acabando comigo. Só tenho vontade de morrer, ir me encontrar com ele. Por que Deus fez isso comigo, mãe? Nada fiz para merecer castigo tão cruel.
— Marília, não fale em morte, fale em vida. Está se esquecendo de André e Laís, são seus filhos também. Querem o seu amor e têm direito a ele. Todos nós sabemos quanto é dolorosa a separação, mas temos de continuar vivendo. O fato de tentarmos retomar nossas tarefas, nossa rotina, não quer dizer que nos esquecemos do nosso Fábio. Ele está presente em nosso coração e estará sempre, porque faz parte da nossa vida, da nossa história, do nosso amor e nunca deixará de fazer. Se Deus não nos levou, é porque ainda não acabamos nossa missão aqui na Terra; o que necessitamos fazer é nos curvarmos ante a vontade de Deus e aceitá-la, mesmo com o coração sangrando de dor.
— Não penso assim, mãe. Não me conformo e não quero ouvir nada, quero apenas ficar com a minha dor e a minha saudade. Minha vida acabou não tem mais sentido, e gostaria que parassem de tentar me convencer que tudo é normal, que tudo será como antes, porque sei que não será. Nunca mais volto a sorrir, ou melhor, a viver.
— Marília, já se passaram quatro meses e você nem um dia pensou em André e Laís, em quanto os dois estão sofrendo e necessitam do seu carinho de mãe, do seu abraço. Eles estão tristes e inseguros. O Paulo, então, você não lhe dá a mínima atenção, não repara no esforço que ele faz para que a paz volte a este lar. Está destruindo seu casamento, sua família; não se arruma, não faz comida, enfim, parece mais morta que o Fábio.
Marília sobressaltou-se:
— O que disse?
— O que você ouviu Marília; você parece mais morta que o Fábio.
— Por que está me falando desse jeito, mãe?
— Paulo e eu temos conversado muito com o Dr. Rubens, e ele nos explicou muitas coisas que desconhecíamos. Tudo tão lógico, tão coerente, que nós estamos nos apoiando nesses conhecimentos para conseguirmos caminhar para o futuro.
— Quando a senhora diz que pareço mais morta que o Fábio está querendo me convencer de que o Fábio ainda vive em outro plano, como algumas pessoas acreditam?
— Exatamente, filha, é isso que estamos aprendendo com o Dr. Rubens, que nos explica tudo como um verdadeiro pai.
— Mãe, isso não é coisa de gente ignorante?
— Não, Marília, isso é coisa de gente que confia e acredita no poder absoluto de Deus e sabe que o Criador não iria destruir suas criaturas, porque, se assim fizesse, não faria sentido tê-las criado.
— Mãe, vamos admitir que isso seja verdade; o que adianta existir em outro plano se não posso vê-lo ou tocá-lo?
— Mas pode se confortar sabendo que seu filho amado continua existindo, que não se acabou como algo sem importância.
— Fale um pouco mais - pediu Marília.
— Minha filha, não me sinto apta para lhe esclarecer muita coisa, falar mais sobre o assunto, estou só começando, engatinhando nessa Doutrina; somente Dr. Rubens poderia lhe esclarecer melhor sobre suas dúvidas. Por que não se achega a nós para aprender também?
— Não sei mãe, essa religião me parece tão absurda tão doida.
— Engano seu, Marília, seus ensinamentos são baseados no Evangelho de Jesus; Paulo e eu percebemos tanta coerência que estamos dispostos a aprender cada vez mais.
— Mas o que ela ensina de tão importante?
— Vou lhe responder com o pouco que sei, mas esse pouco já penetrou em meu coração. Ela nos ensina que somos seres imperfeitos e que viemos ao mundo para aprender a amar, por isso devemos lutar contra nossas imperfeições por meio do amor ao semelhante, da prática da caridade, da solidariedade com nossos irmãos que passam por situações difíceis e conflitantes; enfim, devemos

tentar nos harmonizar com as leis divinas.
— Mas o que tem isso com o fato de a senhora dizer que o Fábio existe em outro plano?
— Marília, vamos fazer o seguinte: não estou pronta para esclarecer nada porque o que aprendi é ainda muito pouco para que eu cometa a imprudência de tentar ensinar alguma coisa a você ou a qualquer outra pessoa. Amanhã é sábado, o dia em que o Dr. Rubens nos visita desde a partida do Fábio; por que você não participa desse encontro?
— Dr. Rubens vem aqui todos os sábados?
— Sim!
— Como nunca soube disso, mãe?
— Porque há quatro meses você não sai desse quarto, não presta atenção em nada do que acontece em seu lar; enfim, não se preocupa a não ser com você mesma e com essa dor que você teima em achar que é exclusiva sua. Se notasse um pouquinho mais seu marido, perceberia quanto ele está magro e abatido, mas, ao contrário de você, luta para dar ao André e à Laís o lar de que eles precisam e têm direito.
— Mãe, não fale assim comigo, eu deixei de viver!
— Marília, ouça-me: não se mede a dor com fita métrica. Ela não é maior só porque quem a sente se entrega à apatia, à melancolia e ao medo de enfrentar a realidade; isso é fraqueza, falta de fé. Nem sempre aquele que chora copiosamente é o que mais sofre; devemos respeitar a maneira de cada um de vivenciar sua dor, portanto respeite seu marido e seus filhos.
— A senhora nem parece minha mãe, não me compreende!
— Ao contrário, por ser sua mãe e amá-la tanto é que quero ajudá-la a voltar à vida, entregar-se de novo àqueles que a amam e sofrem com sua distância.
— Está bem, mãe, sábado, quando o Dr. Rubens estiver aqui, pode me chamar, quero participar desse encontro, vou ouvir o que ele lhes diz.
— Filha! Que alegria me dá!
— Mas agora, por favor, deixe-me com minhas lembranças e com minhas lágrimas.
— Outra vez trancada no quarto, vó?
— Venham cá - e Inês abraçou os netos — Não chorem, tudo vai dar certo. Jesus há de trazer sua mãe de volta para nós.
—Tomara vó, tomara que isso aconteça - disse André.
— Mamãe só pensa no Fábio, esquece que eu e a Laís estamos aqui ao seu lado e precisando muito dela. Também estamos sofrendo.
— Eu sei meus queridos, a vovó sabe!
— Tenho pena do papai - falou Laís com sua vozinha doce. — Outro dia eu o vi chorando no escritório.
— Por que mamãe é tão diferente do papai?
— Porque não somos iguais, André. Não vamos julgar as atitudes de sua mãe, ela precisa de ajuda e nós vamos ajudá-la. Devemos respeitar as limitações e as fraquezas dos outros. Tudo dará certo. Vamos confiar em Deus.
— É, vó, mas vou lhe dizer uma coisa, não é porque não choro o dia inteiro que não sinto saudades do meu irmão - exclamou André. — Ele me faz muita falta.
— Eu também, vó - repetiu Laís —, sinto muita saudade do Fábio.
— Eu sei meus netinhos, todos nós estamos sofrendo muito, mas temos de ter muita fé em Deus e confiar que esse sofrimento vai se acalmar um dia. Agora, digam-me, o que querem para o lanche?
— Eu quero cachorro-quente! - exclamou André.
— Eu também, com bastante molho e coca-cola, ta bom?
— Ta bom - repetiu Inês — imitando a vozinha de Laís. Abraçou-os com muito carinho e levou-os para a cozinha para servir-lhes. — Quem comer tudo, sem confusão, poderá tomar sorvete. Que tal?
— Oba! - exclamaram juntos André e Laís.
Passaram-se alguns instantes, e Paulo apareceu à porta:
— Por favor. Dona Inês, a senhora poderia vir até o meu escritório? - perguntou com voz cansada.
— Claro, Paulo, estou indo! Crianças sirvam-se à vontade, mas não desperdicem. Evitem fazer barulho, papai parece cansado. Vovó não demora.
— Entre, Dona Inês, e sente-se.
Aceitando a sugestão do genro, Inês muito à vontade entrou e se acomodou em uma cadeira em frente a ele.
— Diga-me: o que está preocupando você, Paulo?
— Dona Inês, não sei mais o que fazer. Marília não melhora, e, o que é pior, não faz nenhum esforço para isso. Não quer ajuda, ignora a mim e aos filhos, não se importa com a casa nem com a aparência pessoal; enfim, construiu um mundo só para ela e não nos permite participar. Estou preocupado e sem saber como agir.
— Concordo com você, Paulo. Hoje mesmo tive uma conversa com ela. Falei-lhe dos nossos encontros com o Dr. Rubens e pedi-lhe que participasse conosco, quem sabe assim ela não consegue ir aos poucos superando essa melancolia e voltando para nós.
— Fez muito bem em conversar com ela. Dona Inês. Ela aceitou?
— Para minha surpresa, sim. Disse para chamá-la assim que ele chegasse. Estou esperançosa; hoje ela me fez muitas perguntas, mas infelizmente eu não soube respondê-las adequadamente.
— Não importa. Dr. Rubens saberá aconselhá-la. Vamos deixar as respostas para ele que é experiente e conhecedor do assunto. Mas que bom que a senhora tocou nessas reuniões com Marília e ela aceitou. Perdi meu filho e não quero perder também minha esposa.
— Tudo vai melhorar Paulo, vamos acreditar nisso.
— Acredito Dona Inês, e lhe agradeço por tudo que está fazendo por nós.
— Não me agradeça Paulo, vocês são minha família, sofro com vocês e sou feliz quando os vejo sorrir.
Paulo levantou-se e com carinho e profundo respeito depositou um beijo nas faces de sua sogra. Esta, emocionada, só conseguiu dizer:
— Obrigada, meu filho, pelo seu carinho.
Os dois, sentindo-se amparados um pelo outro, foram ter com as crianças.






A CAMINHO DO ESCLARECIMENTO


É comum nos sentirmos perdidos, sem coragem e, em muitos casos, desesperados, quando somos visitados por acontecimentos que ferem a nossa alma de maneira profunda. Deus atua em nosso benefício sempre, principalmente nos momentos de muita dor e sofrimento. Devemos lembrar que, se algum dia nosso coração estiver desalentado, sofrido e desesperado, é necessário prestar muita atenção porque, de alguma forma, chegará até nós a graça divina. Para cada pensamento negativo que cultivamos em nossa mente Deus terá sempre uma resposta positiva. É importante tomar cuidado para perceber a bênção de Deus em nossa vida, porque Ele virá em nosso auxílio por diversas maneiras.
Com Marília não foi diferente. Deus estava presente nas palavras de conforto, esclarecimento e esperança ditas por Dr. Rubens a todas as pessoas que, por um motivo ou outro, o procuravam. O importante é que ela aprendesse a ouvir e abrisse o coração, em vontade e fé, para ser agraciada com a Bênção da paz.
Sábado chegou, Inês e Paulo esperavam sempre com ansiedade os momentos que passavam conversando com o médico e amigo, pois era nesses momentos que a paz voltava a seus corações machucados e a seu lar entristecido. Assim que Rubens chegou, foi recebido com alegria, e mais felizes ficaram quando Marília desceu e se juntou a eles para participar do encontro.
Assim que todos se acomodaram, Marília, precipitando, dirigiu-se de imediato ao médico:
— Quero lhe dizer que o fato de eu estar aqui para lhe ouvir não quer dizer que aceito tudo o que fala, vim mais para atender um pedido de minha mãe.
Rubens esboçou ligeiro sorriso. Confiava na providência divina e sabia que era um bom começo para Marília.
— De início gostaria de fazer uma consideração sobre esse Deus que vocês dizem ser justo.
— Querida, por favor, mais cautela. Nosso amigo acabou de chegar - disse Paulo à esposa.
— Não se preocupe Paulo, estou aqui para isso, esclarecê-la em suas dúvidas. Pode dizer. Dona Marília, estou ouvindo.
— Vou provar a vocês quanto Ele é injusto. Vejam: deu para todos nós a memória, mas tira da nossa vida o ser que amamos, sabendo que iríamos recordar e sofrer. Não seria melhor não termos memória, assim não sofreríamos tanto, pois não recordaríamos o passado?
Rubens, com toda prudência e compreensão, respondeu a Marília.
— Dona Marília, vou responder-lhe narrando um conto chinês, cujo autor me é desconhecido. Por favor, preste atenção. Um velho sábio chinês caminhava por um campo de neve quando viu uma mulher chorando. "Por que choras?", perguntou ele. "Porque me lembro do passado, da minha juventude, da beleza que via no espelho, dos homens que amei; eu ia recordar a primavera da minha vida e chorar." O sábio ficou contemplando o campo de neve, com o olhar fixo em determinado ponto. A certa altura, a mulher parou de chorar e perguntou: "O que estás vendo aí?" "Um campo de rosas", disse o sábio. "Deus foi generoso comigo porque me deu memória. Ele sabia que, no inverno, eu poderia sempre recordar a primavera e sorrir."
Rubens continuou:
— Dona Marília, se a senhora não tivesse memória, não poderia recordar-se de seu filho, dos momentos felizes que passaram durante todos esses anos em que estiveram juntos; seu sorriso, sua voz, seus olhos que a olhavam com carinho.
Hoje, que o físico de seu filho não existe mais, não é gratificante e consolador poder lembrar-se dele? Deus não foi bom e generoso, permitindo que ele ainda permaneça em sua lembrança, trazendo-lhe de volta os momentos felizes? E mais sozinho aquele que não tem nada para recordar.
Calou-se e percebeu que os olhos de Marília encheram-se de lágrimas. Com um jeito quase de criança assustada, aquela mulher sofrida disse-lhe como um pedido de ajuda:
— Ainda não havia pensado dessa maneira. Talvez o senhor tenha razão. Cada vez que me lembro do Fábio, sinto um misto de tristeza e felicidade, e incomoda-me não conseguir entender o porquê da mistura desses dois sentimentos, principalmente a felicidade. É possível isso?
— É natural que isso aconteça, Dona Marília. A separação ocorreu há muito pouco tempo; a tristeza é fruto dessa separação dolorosa, e a felicidade é sua essência, trazendo para o consciente os momentos passados com ele, como a dizer-lhe: "essa é a felicidade que agora pode ter, agarre-se à lembrança que lhe pertence, que é sua, traga-a junto ao coração e encontrará a paz e o equilíbrio", mas tudo há seu tempo. Dona Marília, porque o tempo é o melhor consolo.

— Mas eu não quero me esquecer do Fábio!
— Não queira nem corra atrás do esquecimento, porque não conseguiria, mas, para que tudo possa acontecer com equilíbrio, para que a senhora e Fábio possam se harmonizar é preciso que a lembrança ocupe o lugar nobre do coração; sentir a saudade que nasce do coração e do amor, e não do apego, da teimosia, do desespero; somente assim, somente por meio do amor permitimos ao ser amado que se foi buscar da própria evolução e encontrar a paz. Quem ama deixa livre o ser amado para que ele não sofra, e entende que não temos a posse de ninguém. O que une as pessoas realmente é a afinidade espiritual e o amor que se tem. O amor quando verdadeiro não se retrai diante da distância, continua existindo pela eternidade.
— Desculpe-me, Dr. Rubens, mas fico pensando se o senhor não fala assim porque nunca passou por um tormento como esse.
O rosto do médico se contraiu em uma expressão de angústia, mas, mantendo a calma e o controle que lhe eram peculiares, respondeu a Marília.
— Senhora, quem sabe um dia não lhe conto a minha história; talvez, quando souber, merecerei mais credibilidade em minhas palavras.
— Por que não hoje?
— Desculpe-me, hoje não, outro dia qualquer, quem sabe.
Inês, tentando aliviar a tensão que percebeu no rosto do amigo, perguntou.
— Dr. Rubens, o senhor não aceita uma bebida, café, suco?
— Se não for causar-lhe incômodo, aceito um café.
— Incômodo nenhum, é só um instante.
Assim que saiu para buscar o café, Inês olhou para o médico e pensou no quanto era uma alma nobre. Paulo, demonstrando a grande simpatia que sentia por esse homem generoso, e disse-lhe:
— Dr. Rubens...
— Por favor, Paulo, apenas Rubens.
— Obrigado. Rubens, não posso esconder a grande admiração que sinto por você e cada vez interesso-me mais por essa Doutrina que o fez um homem tão especial.
— Agradeço-lhe, Paulo, mas não sou tão especial assim. Gostaria que me vissem como um homem perfeitamente comum, assim como você, com defeitos e qualidades, e que tenta melhorar a si mesmo. Quanto à Doutrina, faz muito bem em se interessar por ela, porque, quando ela entra de verdade no coração do homem, leva-o a repensar seus valores e suas atitudes diante da vida e promover a reforma interior.
— Pronto, aqui está o cafezinho, sirvam-se!
— Hum! Que aroma gostoso!
— Obrigada, Paulo!
Marília permanecera calada até então. Ignorou o café de Inês e, assim que viu Rubens terminar e elogiar o café saboroso, perguntou-lhe sem fazer cerimônia.
— Dr. Rubens, posso fazer-lhe uma última pergunta?
— Claro, faça quantas quiser.
— É que, desde que Fábio se foi, escuto falarem dele como se ele existisse em outro lugar. Poderia explicar-me por que e como alguém pode existir se seu corpo foi enterrado aqui, e que lugar é esse de que falam?
— Tenho enorme satisfação em poder esclarecer suas dúvidas, mas é necessário que seja uma de cada vez para que tudo fique bem compreendido. Para que todos possam entender, é necessário explicar quem somos nós.
Todos sabemos e aceitamos que Deus criou o homem à Sua imagem e semelhança. Ninguém nunca viu o Criador e, no entanto, cremos que Ele seja um Espírito puro, único, perfeito, onipotente, onipresente, soberano, infinitamente bom e justo. Como espírito, não possui um corpo de matéria como nós encarnados; para que sejamos à semelhança do Criador é fundamental que
tenhamos também um espírito, infinitamente menor e imperfeito, mas um espírito. Pois bem, para que esse espírito pudesse vir a Terra e ser visto, era necessário que se revestisse de um envoltório visível, que é o corpo de carne, nosso corpo físico. A partir do instante em que se realiza a junção do espírito com a matéria densa de carne, tornamo-nos seres encarnados, mas sem perder a condição de espíritos eternos criados à imagem e semelhança do Criador.
O corpo físico, assim como qualquer matéria, se acaba, volta à terra um dia quando acontece o desencarne, ou a morte como preferir; mas é somente a morte do corpo, porque o espírito não morre, volta para uma das muitas moradas no Reino de Deus, pois como espírito é eterno. Uma vez criado, jamais perecerá ou perderá sua individualidade, continuará existindo pela eternidade. Voltará a vestir o envoltório carnal sempre que Deus achar necessário para sua evolução retornar à vida física, por meio da reencarnação.
Fábio existe sim, somente seu corpo físico acabou; sua essência, seu espírito, está vivendo a vida real na espiritualidade. Todos voltaremos um dia para nossa verdadeira pátria. Consegui me fazer entender?
— Sim, acho que consegui compreender. Apesar de achar um pouco fantasioso, devo reconhecer que existe lógica em tudo o que esclareceu. Mas queria saber em que lugar ele está vivendo agora!
— Dona Marília, como já disse, existem muitas moradas na casa de Deus, e cada um será atraído para aquela cuja afinidade for maior. A colheita é sempre proporcional ao plantio; a morada de cada um será mais ou menos feliz de acordo com o que cada um fez com a oportunidade bendita de viver na Terra. Devemos nos esforçar para que nossa existência na Terra tenha êxito.
— Eu sei, eu sei, mas o que quero saber é do Fábio, onde ele está agora, o senhor não me disse.
— Não disse por que não sei. Acredito que em algum lugar de paz ao lado de seus familiares que o antecederam. Era um jovem e vivia dentro dos parâmetros da juventude saudável e cristã. Creio eu que possuía merecimentos para isso; mas nós aqui na Terra não temos de nos preocupar muito com isso, e sim orar para que ele perceba a claridade divina e não entre na revolta por ter desencarnado tão jovem. Nossas lágrimas desarrazoadas tumultuam o espírito daquele que amamos e que partiu, trazendo-lhe desconforto e desequilíbrio; em compensação, as orações sinceras sempre produzem bem-estar e alívio para os espíritos.
— Mas o que devemos fazer? - perguntou Inês.
— Dona Inês, sempre que oramos para alguém que se foi e dizemos "Deus te abençoe", promovemos paz para aquele que partiu e para nós mesmos.
— Nossa, doutor, sinto-me tão aliviada escutando suas palavras, nunca pensei que conseguiria.
— Isso é muito bom e fico feliz pela senhora, mas tudo precisa ser muito bem compreendido e não simplesmente aceito. Aconselharia a senhora a ler o Evangelho Segundo o Espiritismo, com certeza vai lhe fazer muito bem, trazendo-lhe conforto, consolação e, principalmente, entendimento. Compreenderá melhor que para aquele que fica a tarefa não terminou e é necessário fazer bom uso dessa oportunidade de ainda estar no mundo físico.
— Sim, farei isso!
— Rubens, você poderia elucidar-nos quanto às lembranças naquele que partiu; o Fábio se lembra de nós, continua nos querendo bem?
— Com certeza, Paulo, não só se lembra como sente saudades também, "essa lembrança aumenta-lhes a felicidade, se são felizes, e se são infelizes serve-lhes de alívio"

(Livro dos Espíritos — Capítulo VI — item IX — pergunta 320). O conhecimento disso deve trazer alívio e consolação a todos que se separarem de seus entes queridos, principalmente as mães que choram por seus filhos que partiram; eles continuam vivos e amando seus pais terrenos, e esperam também com ansiedade o dia do reencontro.

— Essa sua Doutrina é muito interessante - disse Paulo. Realmente é a única que traz conforto aos corações amargurados pela separação.
— A consolação está na palavra de Deus, dita aos homens por meio de seu filho Jesus; basta prestar atenção nas máximas de Jesus para presentear a alma, libertando-a dos pensamentos e sentimentos negativos. Quem se entrega à prática do bem e do amor ao próximo caminha em direção à felicidade.
— Gostei muito de ouvi-lo, doutor, fez-me muito bem, sinto meu coração mais aliviado.
— Agradeço-lhe, mas na realidade isso aconteceu porque seu coração já ansiava por um alívio e a senhora permitiu que minhas palavras tocassem sua alma.
— Tenho ainda dificuldade em entender por que o Fábio foi embora tão jovem.
— Porque todos nós viemos cumprir uma tarefa aqui na Terra e, ao terminar essa tarefa, o retorno se processa para cumprir a lei. A causa real, só nosso Pai que está no Céu tem conhecimento; para Fábio pode ter sido um benefício, e para vocês, uma prova. Para que se passe no teste é importante aceitar com dignidade, humildade e respeito à vontade de Deus, e a aceitação vem na continuação do cumprimento do nosso dever em relação às pessoas que nos rodeiam e à própria vida, não se esquecendo jamais de que todos têm direito à casa de Deus. A lei de causa e efeito se cumpre sempre. Dona Marília, mesmo contra nossa vontade.
Marília ia novamente questionar, quando este, levantando-se, disse aos presentes:
— Bem, já se faz tarde, preciso ir. Obrigado por esta tarde agradável que passei junto a vocês. Semana que vem se desejarem estarei aqui novamente para trocarmos idéias e conhecimentos. Até lá que Jesus os proteja para que tenham uma semana tranqüila.
— Nós que agradecemos ao senhor pela amizade e pa¬ciência com que nos ouve e socorre - disse Paulo. — Saiba que esta casa é sua e só nos causa alegria sua presença.
— Muito obrigado, Paulo!
Despediu-se dos amigos e se retirou.
Ao alcançar a rua, Rubens, com as mãos metidas nos bolsos da calça, andava pensativo, chutando o nada, tentando afastar as lembranças que, às vezes, teimavam em machucar seu coração.
— Meu Deus - pensava —, dai-me equilíbrio para aceitar sempre a vossa vontade sem lamentar, e sustentar junto à Isabela a prova penosa que me deste. Tenho medo de cair no desânimo, socorre-me!
O coração sensível de Rubens clamou por misericórdia. Seu espírito protetor aproximou-se e lhe inspirou ao ouvido: "O que é isso, meu amigo! Aquele que possui o coração cheio de amor para dar ao próximo, sem nada pedir em troca, jamais viverá sem a misericórdia de Jesus. Seus pensamentos nobres e suas atitudes dignas o tornam merecedor do amparo divino e da companhia dos amigos espirituais que lhe querem bem. O perfume do respeito com que trata as pessoas, pacientes ou não, transforma seu lar em um oásis na Terra, para que os espíritos do bem possam descansar de suas tarefas na crosta. Siga em frente, querido amigo, continue presenteando seu semelhante com esse amor que transborda de seu coração generoso.".

Rubens, sentindo alívio e retomando seu bem-estar, dirigiu-se alegre para sua casa.
Enquanto isso, na casa de Paulo:
— Querida, o que achou? Gostou de ouvir as explicações de Rubens? Não faz bem para nossa alma o que ele diz?
— Sim, Paulo, sinto-me mais leve e mais confortada.
— Ótimo querida! - exclamou Paulo sem esconder seu contentamento. — Sofro muito em vê-la apática e infeliz.
— Você poderia trazer para mim o livro que o doutor mencionou como é mesmo o nome?
— O Evangelho Segundo o Espiritismo! Com que prazer vou trazê-lo para você, meu bem.
Os olhos de Marília brilharam agradecidos pela paciên¬cia e pelo amor de seu marido. Pela primeira vez desde a desencarnação de Fábio, deu-se conta do quanto havia relegado ao segundo plano o bem-estar de Paulo, André e Laís. Seu coração apertou ao pensar nos filhos que ficaram, na maneira como os rejeitara, pensando só em si mesma. Percebeu que não soubera se dividir, a ela importara apenas o que sentia o que sofria e o que queria, sem se preocupar com os desejos e as necessidades de André e Laís, duas crianças ainda, que sofriam pela perda do irmão e pela indiferença da mãe.
— Meu Deus, o que fiz com a minha família! Quanto sofrimento causei a essas crianças que não têm qualquer culpa do que aconteceu; são meus filhos, e eu praticamente os aban¬donei. Meu Deus... meu Deus ajude-me a encontrar forças para recuperar meu equilíbrio e fazer felizes as pessoas que eu amo e que me querem bem.
Dizendo isso, ajoelhou-se e, sentindo novamente a con¬fiança no Pai Maior, orou pela primeira vez desde a separação de seu filho. Seu pensamento fluía naturalmente em direção ao Pai Celestial, confiante e angustiado. Assim que terminou, levantou-se e caminhou em direção ao quarto das crianças. Vendo-os tão tristes, deixou seu amor de mãe explodir e correu a abraçá-los, beijando-os com ternura. Mãe e filhos choraram e sorriram juntos, certos de que a partir daquele dia sofreriam muito, sim, mas estariam unidos pelo amor e esse amor daria suporte para conviverem com a grande saudade que sentiam do querido Fábio. Assim que os deixou, Marília foi até o escritório de Paulo. Ele estava sentado em frente a sua escrivaninha; o rosto entre as mãos escondia a tristeza imensa que lhe ia à alma. Marília aproximou-se devagar e com voz tímida e insegura disse ao marido:
— Paulo, me perdoe. Não fui capaz de compreendê-los nem perceber quanto vocês também sofriam, mas hoje, depois de ouvir o Dr. Rubens dizer todas aquelas coisas, fui perce¬bendo pouco a pouco quanto sou egoísta. Abandonei você e as crianças, não me importei com o que minha mãe me dizia; nunca perguntei a nenhum de vocês como estavam, do que necessitavam; enfim, abandonei minha casa e, creia, aban-donei a mim mesma. Hoje consegui orar a Deus pela primeira vez, senti alívio, uma paz acarinhou meu coração como se
fosse o Fábio a me beijar e me pedir que eu continuasse vi¬vendo. Tenho certeza agora de que Jesus vai me auxiliar a passar por entre os espinhos sem destruir minha alma.
Paulo interrompeu dizendo:
— Não se martirize Marília. Nós vamos ficar bem, todos ficam. Não somos os únicos a passar por esse tormento e não seremos os últimos. O tempo se encarregará de devolver-nos a paz perdida, e a alegria voltará ao nosso lar. André e Laís me¬recem isso, devemos isso a eles que precisam de nós. Nosso tão amado Fábio ocupará para sempre seu lugar em nosso coração e receberá sempre nosso amor e nossa saudade, onde ele estiver.
— Só lhe peço que me perdoe e que tenha um pouco mais de paciência comigo. Não me abandone, dê-me mais algum tempo; eu amo você e as crianças!
— Querida, nunca duvidei disso; darei o tempo de que você precisar. Nunca passou nem vai passar pela minha cabeça abandoná-la, jamais faria isso, e se o fizesse, o que faria com todo esse amor que sinto por você, diga-me? Só quero que lute por você mesma, para vencer essa melancolia, esse desespero, para não cair na revolta nem na depressão. Lembre-se de que o Fábio ficará feliz em nos ver bem e a felicidade dele continua a ser importante para nós, não acha?
— Acho sim, Paulo. Agora aprendi que o equilíbrio daqueles que ficam é importante para aquele que se vai, e nós queremos nosso menino indo em direção a Deus. Mas, se eu cair novamente, ajude-me a levantar e me perdoe, sim?
— Venha aqui, minha querida!
Abriu os braços e colocou Marília sentada em seu colo. Abraçou-a com ternura e os dois deixaram suas emoções, suas dores, suas angústias saírem de seus corações em forma de lágrimas que se misturavam nos rostos de cada um. Inês, que viera chamá-los para o jantar, parou e ficou olhando aqueles filhos queridos. Elevou o pensamento ao Alto e orou ao Senhor, agradecida pelo reencontro daquele casal, ainda jovem, mas tão machucado pelo sofrimento.






VENCENDO A MELANCOLIA


A vida na casa de Marília e Paulo continuava seguindo a rotina costumeira. Embora Marília tivesse percebido o erro no qual caíra, e despertado pelas palavras de Rubens, ainda não conseguia se equilibrar completamente. Paulo e Inês tratavam-na com paciência e muito carinho; respeitavam suas limitações, sua insegurança e sua brusca mudança de humor; passava do sorriso para as lágrimas com uma rapidez que impressionava a todos. André e Laís, embora ainda crianças, cobriam-na de carinho, falando-lhe palavras de amor e se esforçando para que a mãe sentisse o menos possível a falta de Fábio. Inventavam brincadeiras, cantavam, enfim, faziam o máximo que podiam para distrair a mãe, ajudando-a a sofrer menos.
Paulo olhava-os e pensava em quanto eram jovenzinhos e, no entanto, possuíam tamanha força espiritual. Agradecia a Deus, em silêncio, por tê-los premiado com filhos tão amorosos. Marília, por sua vez, sempre que os tinha por perto, abraçava-os tão forte como se temesse perdê-los também.
— Mãe - dizia Laís nesses momentos —, a senhora vai me quebrar toda - o que fazia Marília sorrir e beijar seu rostinho.
A menina, então, virava para seu irmão e dizia:
— Viu, fiz a mamãe sorrir!
Paulo e Inês conversavam sobre o comportamento de Marília, que os deixava preocupados. Embora ela já tivesse assumido suas tarefas como mãe, esposa e dona-de-casa, assustava-os a maneira diferente como passara a agir desde o triste acontecimento.
— Sabe, Dona Inês, estou pensando em falar com o Rubens sobre esse assunto; talvez ele recomendasse uma terapia para a Marília, não sei. O que a senhora acha?
— Concordo com você, Paulo. Sei que tudo faz para o bem de minha filha e sou grata por isso. Pode ser que ela precise mesmo de alguém especializado para ajudá-la. Faça isso, afinal, Dr. Rubens tornou-se nosso amigo e é um homem muito generoso.
— Tem razão. Dona Inês, é um homem no qual podemos confiar, vou procurá-lo no hospital hoje mesmo. Se eu me atrasar à noite, não se preocupe, estarei com ele.
— Vá sossegado, Paulo, tudo aqui estará bem.
— Obrigado, não sei o que teria sido de nós, principalmente das crianças, se não fosse à senhora estar conosco esses meses todos.
— Por favor, não me agradeça, Paulo. Já lhe disse uma vez e repito novamente, vocês são minha família e eu os amo.
Paulo, sensibilizado com o grande coração de sua sogra, deu-lhe um beijo afetuoso e saiu para o trabalho.
Após a saída do genro, Inês subiu até o quarto da filha e encontrou-a lendo o Evangelho Segundo o Espiritismo com o qual Paulo a presenteara, sob a indicação de Rubens.
— Filha, não vai descer para tomar seu desjejum?
— Já vou mãe, um instante só.
Inês sentou-se ao seu lado e aguardou. Em dado momento Marília fechou o livro, sem antes marcar com cuidado a página que lia e disse à sua mãe:
— Mãe, não sei o que faço!
— Sobre o quê, filha?
— Estava lendo no Evangelho sobre a melancolia, e aqui diz que devemos lutar contra ela, mas, mãe, eu não consigo! Ela me bate tão forte que não tenho vontade de fazer nada a não ser me entregar a esse sentimento que me deprime cada vez mais.
— Por favor, filha, leia para mim o que está escrito aí, vamos pensar juntas.
— Está bem, mãe.
Marília iniciou a leitura. Percebendo o nervosismo da filha, Inês a interrompeu.
— Marília, leia mais pausadamente, sem ansiedade, para que possamos compreender bem o ensinamento.
Marília respirou fundo e recomeçou.
— Sabeis por que uma vaga tristeza se apodera por vezes dos vossos corações e vos faz achar a vida tão amarga! E o vosso espírito que aspira à felicidade e à liberdade e que, preso ao corpo que lhe serve de prisão, se extenua em vãos esforços para dele sair.
Mas, vendo que são inúteis, cai no desencorajamento, e o corpo, suportando sua influência, a languidez, o abatimento e uma espécie de apatia se apoderam de vós, e vos achais infelizes.
Crede-me, resisti com energia a essas impressões que enfraquecem a vossa vontade. Essas aspirações para uma vida melhor são inatas no espírito de todos os homens, mas não as procureis neste mundo; e, atualmente, quando Deus vos envia seus espíritos para vos instruírem sobre a felicidade que vos reserva, esperai pacientemente o anjo da libertação que deve vos ajudar a romper os laços que mantêm vosso espírito cativo.
Lembrai-vos que tendes a cumprir, durante vossa prova na Terra, uma missão da qual não suspeitais, seja em vos devotando à vossa família seja cumprindo os diversos deveres que Deus vos confiou. E se, no curso dessa prova, e desempenhando vossa tarefa, vedes os cuidados, as inquietações, os desgostos precipitarem sobre vós, sede fortes e corajosos para os suportar afrontai-os francamente, eles são de curta duração e devem vos conduzir para perto dos amigos que chorais que se regozijarão com a vossa chegada entre eles e vos estenderão os braços para vos conduzir a um lugar onde os desgostos da terra não têm acesso. (Evangelho Segundo o Espiritismo — Capítulo V, §25). Então, mãe, o que achou?
— Marília, está tão claro, filha! Devemos lutar contra a melancolia, a tristeza e aceitar nossa estada aqui, sem perder a fé em nosso Criador, mesmo, e principalmente, quando somos atingidos por sofrimentos gigantescos, como o seu, minha filha. A luta para o equilíbrio deve ser constante, ininterrupta, a consciência sobre o porquê de estarmos na Terra e o que devemos fazer aqui, qual é a nossa tarefa, não deve ser abafada por nossos desgostos, ao contrário, deve nos dar forças para prosseguirmos na construção da nossa perfeição. Como diz o Evangelho é necessário ter coragem e força para suportarmos as dores do caminho.
— Mas por que para mim é tão difícil?
— Por que você vai e volta Marília, ou melhor, dá para si mesma a oportunidade de se melhorar, mas quando começa a galgar os primeiros degraus, recua e volta, com medo de ser feliz novamente. As coisas quando se repetem é porque não as aprendemos ainda, de verdade.
— Entendi o que a senhora quer dizer, mãe, mas o que devo fazer então?
— Ocupar-se, Marília, o trabalho é ótimo conselheiro. A ocupação dá alívio à nossa mente e ao nosso coração, pois nos impede de achar que somos os únicos a sofrer no mundo e tira de nós a tendência que o homem tem de se achar vítima. Quando nos ocupamos, preenchemos nosso coração com a lei do trabalho e nos protegemos de nós mesmos.
Marília, tentando mudar o assunto, perguntou:
— E Paulo, mãe?
— Já foi para o trabalho, avisou que chegará mais tarde hoje.
— Por quê?
— Irá até o hospital procurar o Dr. Rubens, deseja se aconselhar com ele.
— Aconselhar?! Sobre o quê, mãe?
— Não sei filha, assim que ele chegar com certeza dirá a você.
— Está bem!
— Você não vai descer tomar seu café, ajudar-me nos afazeres?
— Vou, mãe, vou sim. Espere só um instante que já desço.
— Aguardo você lá em baixo.
Dizendo isso, Inês desceu e foi até a cozinha.
Marília, aproveitando a ausência da mãe, retirou da gaveta da cômoda uma linda foto de Fábio e, apertando-a contra o peito, chorou. Assim ficou perdida em suas lembranças até que ouviu a voz de Inês chamando-a:
— Marília, desça!
— Estou indo, mãe!
Enxugou suas lágrimas, colocou a foto no lugar em que estava e desceu.
O dia passou sem novidades.
Assim que André e Laís chegaram da escola, Marília empregou todos os seus esforços e se dedicou inteiramente aos filhos que, recebendo o carinho da mãe, sentiram-se felizes. Enquanto Inês preparava a mesa para o jantar, o telefone tocou e Marília o atendeu.

— Querida, estou aqui com o Dr. Rubens e o convidei para jantar conosco, algum problema?
— Paulo, claro que não há problema algum, é um grande prazer para todos nós. A que horas chegam?
— Por volta das vinte e trinta - e, brincando, concluiu: — coloca mais água no feijão!
— Vou colocar - respondeu Marília também sorrindo. — Mãe, o Paulo vai trazer o Dr. Rubens para jantar conosco, tudo bem?
— Claro, minha filha, não se preocupe, temos peixe para o jantar, acho que estará bem para ele.
Organizaram melhor a mesa e aguardaram a chegada de Paulo e Rubens.
As vinte e quarenta e cinco, Paulo e Rubens chegaram e foram recebidos com alegria. André e Laís já tinham se acostumado com a presença do amigo de seus pais e demonstraram isso dando um gostoso abraço em Rubens, que retribuiu com satisfação.
O jantar transcorreu com harmonia. Todos se deliciaram com o peixe tão bem preparado por Inês.
— Parabéns, Dona Inês, a senhora é uma ótima cozinheira, todos aqui devem passar muito bem - brincou Rubens.
— Isso é verdade - concordou Paulo. — Minha sogra cozinha como ninguém!
Assim que terminaram, reuniram-se na sala de estar e Paulo, sem nenhum constrangimento, disse à esposa:
— Querida, fui procurar nosso amigo Rubens e pedi-lhe que viesse vê-la, porque ando muito preocupado com você.
— Comigo, Paulo?
— Sim, Marília, com você!
Paulo exclamou com voz firme, mas dirigindo um olhar carinhoso para a esposa.
— Paulo, diga-me, o que foi que eu fiz para você se preocupar assim comigo?
— Querida, ouça-me com atenção: não é o que você fez, especificamente, mas a maneira como vem se comportando. As suas variações constantes e repentinas de humor, enfim, penso que você necessita ainda ter uma atenção especial; não quero que adoeça.
— Como você é exagerado!
— Pode ser! Dr. Rubens poderá me dizer se minhas preocupações têm fundamento ou não. Você se importa de conversar com ele?
— Evidente que não! Sinto-me bem quando o ouço falar, gosto de sua maneira generosa de nos esclarecer.
— Pois bem. Dona Marília - disse Rubens — gostaria que me dissesse o que sente de verdade, enfim, o que a faz mudar de humor tão repentinamente.
Marília abaixou a cabeça e permaneceu assim por alguns minutos. Após esse tempo, olhou para o amigo e lhe disse timidamente:
— Dr. Rubens, eu mesma não sei. Tento me controlar, mas não posso, é mais forte do que eu é como se algo me impedisse. Sinto um vazio tão grande dentro de mim que mal consigo raciocinar direito.
Calou-se e Rubens percebeu um leve tremor em seus lábios. Sentiu quanto àquela mulher ainda sofria a falta de seu filho. Apiedou-se dela e, com sensatez, lhe disse:
— Dona Marília, imagino quanto à senhora ainda sofre. Sei da dificuldade que todos sentem quando se separam de seus entes queridos, mas não se pode entregar à melancolia e ao desânimo, pois, se assim o fizer, logo estará caindo em depressão. É importante manter a esperança e a fé no nosso Pai que está no céu, porque é nele que se deve buscar a fonte da vida, a água cristalina que equilibra nosso corpo e acalma nossa alma. Quando nos afastamos dessa fonte de amor, estamos impedindo a nós mesmos a possibilidade de alcançar a felicidade. Marília ouvia com atenção as palavras do amigo. Assim que ele deu uma pausa, tornou a interrogá-lo.
— Dr. Rubens, tenho-lhe muito respeito, carinho mesmo pela pessoa boníssima e generosa que o senhor sempre demonstrou ser, mas, às vezes, penso que, se o senhor tivesse passado por um sofrimento tão grande como o meu, é possível que não falasse ou pensasse assim. Perdoe-me, mas é o que penso.
— Não precisa se desculpar. Dona Marília, não a culpo por pensar dessa forma, mas, quando me dirijo à senhora ou qualquer outra pessoa que sofre a dor da separação, faço-o com muito respeito ao sentimento que existe em seu coração. Acredite se falo todas essas coisas é porque sei por experiência própria que é possível recobrar o equilíbrio, a paz e mesmo a felicidade quando nos entregamos ao Criador com confiança e certeza do auxílio. Passamos, então, a observar as outras pessoas e conseguimos perceber que a dor não é propriedade nossa e sempre haverá um caso mais grave e alguém com uma carga de sofrimento mais pesado que o nosso.
— Como assim, doutor, não entendi quando o senhor disse por experiência própria. Poderia explicar melhor?
— Claro Dona Marília! Uma vez lhe disse que, quando chegasse o momento certo, lhe contaria minha história; acho que a hora é esta.
— Verdade!
— Sim, se tiverem paciência para me ouvir!
Paulo se dirigiu ao médico:
— Rubens, faça se achar necessário, afinal, é sua vida íntima que estará expondo para nós. Quanto a ter paciência para lhe ouvir, por favor, tudo que queremos e necessitamos é aprender com o senhor.
— Pois bem, vou contar a vocês minha história de vida, creio que poderá auxiliar Dona Marília a superar suas ansiedades e angústias; é bom quando conseguimos aprender e aliviar nossas tensões com as experiências e atitudes alheias.
Rubens ajeitou-se na cadeira, serviu-se de um pouco de água que tinha à sua frente e, acreditando realmente que poderia ajudar Marília a suportar com mais valentia e coragem o momento delicado que passava, iniciou seu relato.
— Casei-me muito jovem com a mulher que amava e que sentia também por mim um grande e sincero amor. Fomos felizes durante muitos anos; construímos nossa casa com o esforço de ambos. Júlia era fisioterapeuta e trabalhávamos no mesmo hospital, esse mesmo no qual trabalho até hoje. Nosso sonho de construirmos uma família de verdade se realizou com a chegada de Francisco, Carlos e a pequena e meiga Isabela. Supúnhamos que ninguém poderia ser mais feliz que nós dois. Amávamo-nos como no primeiro dia em que nos conhecemos; nossos filhos eram lindos e saudáveis; davam-nos todas as alegrias que os pais esperam receber de seus filhos e por essa bênção agradecíamos a Deus por toda felicidade concedida a nós.
Quando completamos quinze anos de casamento, resolvemos promover uma festa e compartilhar nossa ventura com todos aqueles que queríamos bem e que sabíamos nos querer também. Júlia organizou a festa com o maior cuidado e expectativa, queria tudo perfeito para receber nossos amigos e familiares. No final da tarde, disse-me que iria até a casa da doceira buscar o bolo e os doces encomendados, e levaria os meninos para que a ajudassem com a bandeja do bolo, pois era grande e não queria correr o risco de quebrá-lo. Prontifiquei-me para ir, o que ela recusou dizendo que gostaria de verificar se estava tudo conforme o combinado. Preferia que eu ficasse e fosse colocando as bebidas e os refrigerantes no gelo, e assim foi feito. Passou-se mais ou menos uma hora, uma hora e meia e a campainha tocou.
— Dr. Rubens, por favor!
— Sou eu mesmo - exclamei já um pouco apreensivo. O que deseja senhor...
— Sargento Tomás, sou da polícia e infelizmente não lhe trago boas notícias.
— Pelo amor de Deus - disse já completamente assustado —, diga-me o que aconteceu, por favor!
— Sua esposa sofreu um acidente.
— Acidente?
— Sim, infelizmente seu carro chocou-se com um caminhão que ultrapassava um ônibus. Não sabemos ainda o que aconteceu, mas seu carro ficou espremido entre os dois veículos, causando a destruição total do automóvel.
— Minha esposa e meus filhos... eles... se machucaram muito?
— Sinto muito lhe informar, doutor, mas houve três mortes, sua senhora e dois meninos; a menina conseguimos tirar com vida e já foi encaminhada para o hospital.
Nesse ponto Rubens mostrou uma feição sofrida, transtornada, transpirava muito e parecia estar vivendo de novo toda aquela situação de completo sofrimento.
— Dr. Rubens - disse Inês —, não seria melhor parar, essas lembranças machucam muito. Aceita um café, uma água?
Rubens parecia não ouvir as palavras de Inês. Passou um lenço sobre o rosto e continuou:
— Esta é minha história. Dona Marília, perdi minha esposa e dois filhos na mesma hora e no dia em que imaginávamos ser só alegria.
— Desculpe-me, o senhor nos disse ter tido três filhos, e a menina?
— Minha pequena Isabela nunca mais pôde andar, vive hoje em uma cadeira de rodas; ficou paralítica.
Paulo não conseguiu esconder sua emoção, abraçou o grande homem que via à sua frente e sem esconder a admiração lhe disse:
— E pensávamos ser os únicos sofredores da Terra; que pessoa nobre é o senhor!
Marília não pôde conter as lágrimas.
— Diga-me, doutor, qual é a idade de Isabela?
— Minha menina está hoje com dez anos, Dona Marília, tinha apenas cinco aninhos quando tudo aconteceu; Francisco estava com treze e Carlos com dez.
— Ela mora com o senhor ou está internada?
— Dona Marília, jamais a internaria, ela mora comigo e uma senhora que cuida dela desde a época do acidente; não poderia viver longe de minha pequena Isabela, ela é o meu referencial de felicidade.
— Referencial de felicidade?
— Sim, Dona Inês, somos felizes os dois porque nos amamos muito e descobrimos que a nossa felicidade apenas mudou de roupagem e que poderíamos voltar a pensar em felicidade e em paz se continuássemos a acreditar na vida. Deus decidiu que continuássemos apenas os dois aqui na Terra, alguma razão há de ter. Acatamos a vontade Dele e procuramos viver da melhor maneira que podemos, sem deixar a revolta se instalar em nosso coração.
— Meu Deus, Dr. Rubens, o senhor é realmente uma pessoa especial! Estou envergonhada, ensine-me a reconquistar a minha paz - disse Marília lacrimosa.
— Não precisa se sentir envergonhada. Dona Marília, cada um de nós tem um tempo para se reequilibrar e sair do lamaçal da dor. A senhora reconquistará sua paz se aprender que o amor enxuga as lágrimas, e que é o único sentimento que nos mantém de pé e que nos faz enxergar além de nós mesmos. Nos primeiros momentos após a trágica separação de minha esposa e de meus filhos, também me senti perdido, angustiado, como se me faltasse o chão para pisar. Meu coração estava machucado e cada vez que olhava minha pequena Isabela presa em uma cadeira de rodas, sem nenhuma chance de voltar a andar, alimentava o desânimo, a inconformação, enfim, não entendia por que a felicidade escapara de minha vida como a água escorre por entre os dedos, mas após quatro meses do acontecido surgiu em minha vida uma luz e eu me agarrei a ela confiante, segui de coração aberto a orientação de amor e reencontrei a paz.
Cada vez mais interessada, Marília perguntou:
— Como assim, doutor, uma luz, poderia explicar que luz é essa?
— Claro que sim!
Fez uma pausa tentando novamente controlar sua emoção e retornou à narrativa.
— Passados quatro meses da separação, estávamos eu e Isabela sentados na varanda de nossa casa, recordando os dias de intensa ventura que havíamos vivido junto de Júlia, Francisco e Carlos, quando Isabela com os olhos tristes me disse: "Papai, sinto saudade da mamãe, queria ficar no colo dela!" "Querida,
vem, fica no colo do papai!" "Peguei-a com carinho e cuidado e coloquei-a em meu colo abraçando-a com profundo amor. Isabela aconchegou sua cabecinha em meu peito, e eu, vendo aquela criança tão pequena ainda, frágil e presa a uma cadeira, senti uma tristeza tão intensa, como se todo o meu ser estivesse mutilado, sem vida; meus olhos não seguraram as lágrimas e chorei copiosamente agarrado à minha filha. "Chora não papai, eu "tô" aqui com você e não vou te deixar nunca mais!"Isabela demonstrava uma força inexplicável para seus cinco aninhos. Abracei-a mais forte ainda e ela, encostando novamente sua cabecinha em mim, adormeceu em seguida. Orei a Deus pedindo força e coragem para suportar tamanha dor; de repente senti uma leve vertigem e ouvi uma voz que não sabia de onde vinha me dizer: "Transforme sua tristeza em alegria"! "Minha tristeza em alegria, impossível, jamais terei alegria novamente", exclamei mentalmente. "Não falo de sua alegria e sim da alegria de outras pessoas, de seu semelhante; vá à busca daquele que sofre e que não consegue enxergar nenhum caminho e ajude quanto puder. "Por meio da felicidade que proporcionar ao próximo encontrará a sua própria e construirá novamente a sua vida de paz e equilíbrio; lembre-se, somente o amor enxuga as lágrimas."
— Que lindo doutor! - exclamou Inês impressionada. E o senhor, o que fez?
— Deixei de sentir pena de mim e fui à busca dos sofredores para ajudá-los como médico e como irmão em Cristo.
— E o senhor é feliz?
— Sim, Dona Marília, meu coração se aquietou e vivo em harmonia usufruindo da felicidade que posso ter. Aprendi que Deus foi bom e generoso comigo, deixando-me Isabela que é a razão da minha vida; entreguei minha dor ao amor que posso sentir pelo meu próximo. A cruz ficou mais leve para eu carregar e o coração adquiriu a paz.
— Estou impressionada, doutor, quem o conhece não faz idéia do drama que o senhor viveu; por meio de seus conselhos, de suas palavras de puro otimismo e fé, imaginamos que está sempre de bem com a vida! - exclamou Marília. — Mais uma vez digo que me sinto envergonhada por minha descrença, minha revolta, enfim, envergonho-me da minha fraqueza e de minha pouca fé.
— Repito-lhe, não se envergonhe. Cada um de nós possui um tempo para compreender e aceitar o acontecimento que nos machuca e fere nossa alma, o importante é ir à busca do entendimento para conseguir ser feliz novamente e deixar que nossos entes queridos que partiram também possam ir à busca da sua evolução e serem felizes na espiritualidade. Quanto a estar de bem com a vida, estou sim, aprendi que a vida não maltrata ninguém, ela apenas responde às nossas agressões e imprudências cometidas, se não nessa, em encarnações passadas. Para tudo existe um por que, uma razão; Deus não quer nenhum de seus filhos sofrendo, mas nossa imperfeição nos faz cometer enganos dos quais teremos de prestar contas mais tarde.
— O senhor acha que eu poderia fazer alguma coisa pelos necessitados, isso me traria alívio?
— Se a senhora se deixar tocar pelo amor e pela fé. Dona Marília, com certeza sim; mas não se afobe, comece aos poucos, devagar, e vá deixando que o mais nobre dos sentimentos ocupe um lugar no seu coração, aí, então, verá como se tornará gigante para exercitar a lei do amor e da caridade. Ficará tão envolvida em espalhar a paz e a fraternidade à sua volta que não terá tempo para sentir pena de si mesma. É isso que nossos entes queridos que partem esperam de nós, a reformulação da nossa alma, para que eles possam seguir sua evolução em paz e com equilíbrio.
— O senhor acha conveniente Marília fazer uma terapia?
— A melhor terapia para esses casos, Paulo, é a terapia do amor, em que se coloca em atividade o abraço, o toque das mãos e a fraternidade; preencher a mente e o coração com o trabalho edificante, essa é a melhor terapia.
— Não sei o que dizer, nem como me expressar - falou Paulo. Nunca estive perto de alguém tão nobre; jamais ouvi palavras como as que o senhor diz; nunca poderia supor que alguém pudesse emergir de um sofrimento tão grande, conservando a alma tão pura e limpa. O senhor é, sim, uma pessoa especial, e nós o admiramos por isso e somos muito gratos pela atenção e pelo carinho com que nos presenteou. O senhor nos indicou um caminho, acendeu a chama da esperança em nossos corações e não sabemos como agradecer-lhe por isso.
— É verdade, doutor - completou Marília — minha alma está ansiando pela calmaria e vou encontrar meu equilíbrio aceitando suas palavras sensatas, admirando sua postura perante os vendavais da vida. O senhor me fez ver a importância de estar vivo, e agora compreendo que a missão de Fábio na Terra terminou e a minha, agora eu sei, mal começou.
— Alegra-me ouvi-la falar assim, Dona Marília, rogo a Jesus que a auxilie a encontrar seu caminho e que lhe dê coragem para percorrê-lo com força e consciência de todo o bem que se pode fazer a outrem, quando se deseja realmente; mas, por favor, não dê a mim maior importância do que mereço.
— Eu poderia lhe fazer um pedido?
— Claro, faça!
— É que... bem... eu gostaria de conhecer Isabela, o senhor permitiria que eu e a Laís fôssemos visitá-la?
— Por favor. Dona Marília, quem fica agradecido com seu interesse sou eu, vá quando desejar. Isabela ficará muito contente e feliz, tenho certeza disso.
— Obrigada, Dr. Rubens, muito obrigada!
Inês levantou-se e em seguida retornou trazendo um café fresquinho para servir aos presentes.
— O senhor deve estar cansado, doutor, e um cafezinho irá lhe fazer bem; reviveu muitas emoções.
— Obrigado, a senhora tem razão, estou precisando realmente.
— Faz bem em aceitar, ninguém faz um café como minha sogra.
— Está vendo, doutor, estou com ciúmes, ele nem se lembra do meu café!
Laís, que naquele momento entrava na sala, disse naturalmente:
— Também, mamãe, há quanto tempo a senhora não faz um café para o papai!
Marília, um pouco desconcertada, abraçou a filha e lhe disse:
— Isso vai acabar filha, a partir de agora tudo vai mudar, eu lhe prometo, a mamãe ama muito vocês, a vovó e o papai. Jesus vai ajudar a mamãe a fazer vocês felizes novamente.
— Que bom, mamãe, eu e o André gostamos mais do jeito que a senhora era antes!
— Eu também, filha, eu também!
Olhou para Paulo e se deu conta do marido bom e generoso que Deus tinha colocado ao seu lado.


LAÍS E ISABELA




Após a revelação de Rubens, alguma coisa mudou no coração de Marília. Sentia-se envergonhada por sua fraqueza, principalmente da desconfiança em relação ao Dr. Rubens, imaginando-o sem o menor conhecimento da intensidade da dor de perder um filho. Entendera finalmente que as pedras estão no caminho para serem retiradas. Tinha sido incrédula na justiça divina; culpara o Criador por todo o sofrimento que atingira seu lar e agora compreendia que nada acontece de importante na vida das criaturas sem que haja uma causa e com ela não poderia ser diferente.
— Deus é sempre justo — dizia para si mesma. Hoje eu sei com certeza que na justiça de Deus não há dois pesos e duas medidas. Se foi da vontade de Deus que Paulo e eu nos separássemos de nosso querido filho, sem sombra de dúvida foi para que aprendêssemos algo que ainda não sabemos, ou quitássemos alguma dívida que, como diz Dr. Rubens, pode ter sido contraída em vidas passadas.
Marília, ao mencionar o nome do médico amigo, percebeu crescer dentro de si a grande admiração que sentia por ele. Ouvindo passos, voltou-se deparando com sua mãe que a observava.
— Oi, mãe, não reparei que estava aí!
— Cheguei há pouco, filha, estava tão pensativa que não quis incomodá-la. Em que pensava?
— Venha, mãe, sente-se aqui ao meu lado, quero conversar uma coisa com a senhora.
Inês sentou-se perto da filha e docemente incentivou-a a dizer o que pretendia.
— Pronto, Marília, diga-me o que deseja.
— Mãe, pensava nas coisas que o Dr. Rubens nos disse e não consegui entender como pode alguém que tanto sofreu conservar o coração limpo, sereno e confiante em Deus e na vida. Não perder a esperança nem se revoltar contra tudo e contra todos; pode-se dizer mãe, foi e ainda é três vezes maior que o meu e de Paulo. Nós perdemos um filho e quase nos desesperamos, entretanto ele perdeu no mesmo dia a esposa e dois filhos, tendo ainda que conviver diariamente com essa situação conflitante que é ver sua única filha presa a uma cadeira de rodas, para sempre, pois não existe nenhuma possibilidade de reverter esse quadro. Como ele consegue força para suportar tanto sofrimento? Diga-me, como é possível?
— É verdade, filha, ele é um homem admirável, especial mesmo. Não permitiu que a tristeza o separasse de Deus, ao contrário, uniu-se mais a Ele, e essa união o levou a amar o próximo, trazendo paz para sua alma.
— É... enquanto eu me escondia usando a dor como escudo, ele se mostrava para o mundo como uma pessoa que aspira a paz e luta para que não só ele, mas todos possam conquistá-la por meio da união e da amizade entre as pessoas.
— Ele acreditou que o amor enxuga as lágrimas e viveu essa crença com intensidade, e o que pudemos notar é que essa máxima é verdadeira.
— Sabe mãe, estive pensando muito desde aquele dia que tomamos conhecimento da história dele; raciocinei com cuidado sobre tudo o que foi dito e cheguei à conclusão de que também quero me dedicar ao amor fraternal. Só não sei como começar.
— Não se precipite Marília, ore a Jesus e peça que os bons espíritos a ajudem nessa nova fase da sua vida. Como dizem os espíritas, "quando o trabalhador está pronto, o trabalho aparece". Confia e espera.
— Estava pensando em ir visitar Isabela!
— Ótimo, faça isso; será bom para você e para ela.
— A senhora acha mesmo?
— Claro que sim, Marília!
— Vou fazer o seguinte, telefono para a senhora... como é mesmo o seu nome?
— Ana!
— Isso mesmo. Dona Ana. Telefono para ela e marco para hoje à tarde a minha visita. Irei com Laís; a senhora nos acompanha?
— Não, filha, uma próxima vez irei com muito gosto.
— Está bem!
Assim que Inês desceu para cuidar dos seus afazeres, Marília, mais animada, aprontou-se, telefonou para Dona Ana e desceu ao encontro da mãe.
— Hum! Já está pronta, que ânimo, me agrada vê-la assim.
— Sim! Assim que Laís chegar da escola, iremos à casa de Isabela. Marquei às quatorze horas.
Dizendo isso, dirigiu-se até a sala de estar, sentou-se em frente a uma bela foto de Fábio e iniciou com serenidade uma "conversação" com o filho querido.
— Fábio, que Jesus o abençoe. Hoje sei que pode me ouvir e me entender, por isso me dirijo a você, saudosa, mas tranqüila. Quero que receba em sua nova vida a minha saudade, fruto do grande amor que sinto e sempre sentirei por você. Não quero que sofra, deixe o sofrimento para mim, porque, apesar de intenso, é ele que está me fazendo perceber outros lados da vida. Nessa percepção nasce em meu coração o desejo, até então inativo, de me aproximar das pessoas sem me importar com o que vestem ou onde moram, tendo como alvo apenas a vontade de ser útil e fraterna. Não quero mais lhe enviar lágrimas, mas, sim, trabalho digno em favor do meu semelhante. Só lhe peço paciência, pois na realidade não sei ainda como iniciar essa tarefa. Mas confio em Jesus, que por meio de uma luz me mostrará a direção. Siga seu caminho de evolução no Reino de Deus, que eu também seguirei o meu. Como diz o Dr. Rubens, um dia nos encontraremos novamente e é essa possibilidade que me faz colocar com firmeza os pés na estrada da vida, em busca da minha saúde espiritual.
Os olhos de Marília lacrimejavam, mas seu coração, apesar de machucado, começava a se abrir para o amor que consola.
— Querida, o que faz tão pensativa.
— Oi, Paulo, não o vi chegar!
— Faz algum tempinho que a observo. Em que pensava assim tão distraída?
— "Conversava" com o Fábio... Ei... espere não me interprete mal, nada fiz de errado, apenas lhe dizia o que pretendo fazer para me tornar uma pessoa útil.
— E o que pretende, posso saber?
— Na verdade ainda não sei Paulo. A minha intenção é me aconselhar com o Dr. Rubens. Ele tem experiência e muito conhecimento, acredito que poderá orientar-me.
— Faça isso, querida, com certeza ele poderá ajudá-la. Dizem que, quando nos ocupamos com algo útil em favor do próximo, nosso sofrimento vai se tornando sonolento e acaba adormecendo, propiciando-nos encontrar a paz e o equilíbrio. O trabalho não deixa sobrar tempo para tristeza.
— Mas, Paulo, jamais vou me esquecer de Fábio!
— Eu não disse esquecer, Marília, disse adormecer. Esse adormecimento é que permite a todos que sofrem grandes dores continuar vivendo dentro do equilíbrio. Se assim não fosse, todos os pais que se separam de seus filhos pela desencarnação destes enlouqueceriam.
— Você tem razão, querido, é insensato ir a busca do esquecimento daqueles que amamos, mas é prudente ir a busca da compreensão e aceitação da vontade de Deus.
— Assim que se fala meu amor. Nós vamos nos fortalecer e cumprir nossa tarefa aqui na Terra, principalmente junto ao André e à Laís.
— Paulo, logo após o almoço vou com Laís visitar Isabela.
— Que bom Marília. Traz-me muita satisfação vê-la novamente acordando para a vida.
— Então vamos. Mamãe deve estar nos esperando; quero chegar no horário combinado com Dona Ana.
— Será que as crianças já chegaram da escola?
— Penso que sim!
— Vamos então!
Marília e Laís seguiram rumo à casa de Rubens.
Assim que chegaram, foram recebidas com gentileza, por Dona Ana que, de imediato, levou-as à presença de Isabela. Marília, ao vê-la, não pôde disfarçar a surpresa. Acomodada em sua cadeira de rodas, ela mais parecia uma pintura pelos belos traços de seu rosto. Os cachos loiros de seus cabelos harmonizavam-se com o brilho de seus expressivos olhos azuis. Suas pernas estavam cobertas por uma manta branca, e Isabela trazia em suas mãos um colorido livro de histórias. Notando a aproximação de Marília e Laís, abriu os braços e lhes disse sorrindo:

— Sejam bem-vindas. Não as conheço, mas soube que são amigas de meu pai, por isso minhas amigas também!
Marília, correspondendo à gentil recepção, abriu também os braços e enlaçou-a com um carinhoso abraço.
— Meu nome é Marília e esta é minha filha Laís. Queria muito conhecê-la, Isabela. Em minha casa todos admiramos e queremos muito bem a seu pai. Como você é linda! Estou realmente impressionada com a beleza do seu rosto.
— Obrigada, Dona Marília. Mas não deveria se surpreender tanto tem uma filha tanto ou mais bela do que eu! - exclamou Isabela suavemente.
— Vem, Laís, sente-se bem perto de mim, gosto muito de ter amigos e gostaria que ficasse minha amiga.
Timidamente Laís se aproximou mais de Isabela, sentando-se ao seu lado.
— Também quero muito ficar sua amiga, Isabela!
— Então... já somos! Mas tem uma coisa, Laís, que gostaria de lhe dizer: não vou poder sair correndo por aí com você, no entanto, se tiver paciência posso acompanhá-la em minha cadeira de rodas. Já sei manejá-la muito bem, não é mesmo. Dona Ana?
— Com certeza, Isabela, muito bem!
— Não se aflija por isso - disse Marília. — Laís adora ler histórias, conversar, afinal, existem muitas coisas que podem fazer sem ter de sair correndo por aí. Duas jovenzinhas sempre têm o que conversar.
— Claro, Isabela, somos praticamente da mesma idade, podemos passar algumas horas nos divertindo, é só você querer.
— Eu quero Laís, quero muito. Apesar de toda atenção e carinho que recebo de papai e de Dona Ana, sinto falta de estar com pessoas da minha idade.
— Então, "tá" combinado, outro dia venho passar a tarde inteira com você, "tá bem"?
— Outro dia! Por que não hoje... agora?
— Agora?!
— Sim! Por que não pode ficar aqui comigo? Podemos lanchar juntas, tomar sorvete. Que tal?
— Posso ficar mamãe?
— Se você quiser e não incomodar Dona Ana, pode sim.
Ana, mais que depressa, respondeu:
— Ela não incomodará em nada. Dona Marília. Isabela sente muita falta de companhia da sua idade. Acredito que as duas vão se dar muito bem.
— Se é assim, pode ficar Laís.
As duas crianças se afastaram. Marília sentiu um aperto no coração vendo Laís empurrar a cadeira de Isabela. Sentiu um carinho grande por aquela criança tão bela e condenada há passar seus dias na Terra presa a uma cadeira de rodas.
Dona Ana, como se adivinhasse o pensamento de Marília, lhe disse:
— Ela é feliz. Dona Marília, não briga com o seu destino; possui um espírito elevado.
— Ela é realmente encantadora! Diga-me, Dona Ana, Isabela freqüenta a escola?
— Claro Dona Marília! Todos os dias pela manhã, o motorista vem pegá-la. É uma aluna dedicada, gosta de aprender e se esforça bastante para isso.
— Que bom; pela maneira como ela se expressa percebe-se sua instrução, e o modo como fala cativa as pessoas.
— A senhora tem razão. Nunca se queixa e está sempre alegre; para mim é como se fosse uma filha.
— Desculpe-me perguntar, mas Isabela sofre algum tipo de preconceito na escola?
— Ostensivamente, não. Mas sempre existem aquelas pessoas que vêem os deficientes físicos como se fossem deficientes mentais. Algumas vezes, Isabela voltou para casa um pouco triste em virtude de comentários a seu respeito e que a deixaram magoada. As pessoas às vezes esquecem que Isabela é uma criança como qualquer outra, a única diferença é que não pode andar, e como as outras crianças gosta de ser tratada com carinho, respeito e dedicação.
— Não sei por que as pessoas nutrem no coração tanto preconceito. Julgam imprudentemente qualquer que seja a deficiência apresentada por uma pessoa, criança ou não. Imaginam que são contagiosas; escondem o orgulho e o preconceito atrás de atitudes que ousam chamar de prudência. Geralmente esquecem que todos estamos sujeitos a sofrer agressão ou mutilação do nosso corpo quando menos esperamos.
— A senhora disse uma verdade. Dona Marília, nunca sabemos quando a vida vai nos pregar uma peça.
— Bem, Dona Ana, preciso ir. Vou despedir-me das crianças.
Aproximando-se de Laís e Isabela, afagou seus cabelos e disse à filha:
— Virei buscá-la no final da tarde. Dirigindo-se a Dona Ana, completou:
— Por volta das dezoito horas, virei buscá-la.
— Vá tranqüila, Laís estará bem.
Marília despediu-se, entrou em seu carro e tomou o caminho de casa.
Ao parar em um semáforo, olhou para o lado e assustou-se ao ver uma mulher grávida deitada no chão com quatro crianças ainda pequenas sentadas junto a ela. Deu o sinal e virou-se para a direita parando o carro próximo ao local. Sem se dar conta do que fazia, aproximou-se da mulher e ao saber da proximidade do parto, colocou a gestante em seu carro com as crianças e partiu rapidamente para o hospital.
No caminho tomou conhecimento de toda a dificuldade que aquela mulher passava junto a seus filhos.
— Fique calma, logo estaremos no hospital. Tudo dará certo.
Chegando à recepção de um hospital público, Marília colocou a recepcionista a par do que acontecia.
— A gestante podemos atender senhora; quanto às crianças, nada podemos fazer, elas não poderão ficar aqui. A senhora terá de levá-las para um orfanato ou coisa parecida.
— Mas eu não as conheço como poderei interná-las?
— Faça o seguinte: vá com a mãe delas até um orfanato e após a internação das crianças volte para que possamos internar a mãe. Certo?
— Mas não conheço nenhum orfanato!
— Tem um próximo daqui, na verdade são quatro quarteirões. Vá até lá, eles vão recebê-las, acredito eu.
Meio temerosa Marília respondeu afirmativamente. Acomodou todos novamente em seu carro e dirigiu-se ao local indicado.
— Por gentileza, poderia falar com a diretora deste abrigo?
— Um instante, por favor, vou chamá-la.
Assim que a diretora chegou, Marília explicou-lhe detalhadamente a situação.
— Gostaria que ficassem com as crianças provisoriamente para que sua mãe pudesse se internar para o parto que se aproxima. É possível? Assim que ela obtiver alta, virá buscá-las.
— Ficaremos por quinze dias. Dentro desse prazo a mãe terá de vir buscá-las, caso contrário serão encaminhadas para o Juizado da Infância e Juventude para que o Juiz decida o que fazer. Certo assim. Dona...
— Gertrudes! Não quero me separar de meus filhos, eles são a minha vida, as únicas coisas boas que tenho. Sou pobre e nada tenho na verdade, mas o amor de meus filhos me faz viver - respondeu com lágrimas nos olhos.

— Olhe Gertrudes, seus filhos só serão encaminhados para o Juizado se você não vier buscá-los após quinze dias; se vier dentro do prazo, eles estarão aqui à sua espera. Tenha certeza de que o que queremos é entregá-los a você, que é a
mãe deles. Esteja certa disso.
Marília estava perplexa. Admirava a coragem que tivera em socorrer Gertrudes. Nem se dava conta do adiantado da hora. Jamais pensara ter coragem de se envolver dessa maneira com pessoas completamente estranhas. Assim que as crianças foram recolhidas, Marília levou Gertrudes novamente até o hospital onde esta ficou internada para a realização do parto.
Depois de tudo resolvido, lembrou-se de avisar Paulo de seu atraso e ir buscar Laís na casa de Isabela.
Quando Paulo a viu chegar, correu ao seu encontro preocupado; afinal, não se lembrava de uma única vez em que chegara a casa sem encontrar a esposa esperando.
— Querida, onde você estava? Deixou-nos todos preocupados. Dona Ana ligou-nos apreensiva com sua demora em ir pegar a Laís.
— Desculpe-me, Paulo, se o preocupei; já me desculpei com Dona Ana. Venha, vou contar-lhe o que aconteceu talvez você nem acredite.
Pegou o marido pela mão e levou-o até a sala onde se sentou ao seu lado. Chamou sua mãe e contou-lhes tudo que acontecera. Inês, antecipando-se ao genro, disse à sua filha:
— Filha, que atitude generosa a sua! Sinto-me feliz e orgulhosa de ver minha filha abrindo o coração para minimizar a dor alheia. Sinto que Jesus lhe enviou uma mensagem, Marília, seria muito bom que você compreendesse.
— Dona Inês, tenho a impressão de que pensamos a mesma coisa.
— Por Deus, digam-me o que estão planejando?
— Planejando?! Nada, querida; apenas Dona Inês e eu tivemos a mesma impressão.
— Impressão! De quê?
— Seu coração descobrirá e dirá para você mesma, é só aguardar. Mas saiba que me orgulho muito de você.
Marília não conseguia ainda se centralizar diante dos fatos. Tinha a sensação de que tudo acontecera com outra pessoa, não com ela. Apesar disso trazia em seu coração uma tranqüilidade que lhe causava bem-estar. Resolvendo mudar os rumos da conversa, disse ao marido:
— Paulo, Laís e eu fomos visitar Isabela.
— Eu já sei querida, e fiquei muito contente.
— Ah! É verdade. Dona Ana ligou aqui para casa.
— Sim, e disse-nos que Laís e Isabela se deram muito bem. Conversaram bastante, leram livros de história, enfim, descobriram-se uma à outra e se divertiram muito. E você, o que achou de Isabela?
— Ah! Paulo é um amor de garota. Não se faz de vítima, ao contrário, enfrenta sua invalidez com coragem e alegria. É um exemplo para todos nós. Sabe querido, quando penso em mim, no desânimo, na melancolia, no quanto eu me isolei de vocês todos por conta da minha tristeza, sinto-me envergonhada do meu comportamento. Uma garota de dez anos com sua determinação exemplificou o que seu pai durante todo esse tempo tentou me ensinar e eu não fui capaz de compreender.
— Filha, não se entristeça nem sofra mais por isso. Sempre é tempo para aprender e você, creio eu, encontrou hoje o caminho; é necessário apenas enxergar o que está tão claro.
— Mãe, a senhora me confunde o que quer dizer?
— Calma, Marília, calma. Você estava a procura de um trabalho edificante por meio do qual pudesse exercitar o amor ao semelhante, será que essa tarefa não apareceu?
— Olha mãe, não sei realmente o que a senhora quer me dizer, mas, não importa, agora quero apenas tomar um banho e me preparar para o jantar.
Dizendo estar cansada, subiu para o quarto.
Paulo e Inês sorriram. Sabiam que algo muito importante aconteceria na vida de Marília, motivando-a a trabalhar e ser útil ao próximo.
— Dona Inês, que Jesus abençoe a todos nós para que possamos retomar nossa vida, senão com toda a alegria que tivemos, mas com a que podemos ter agora se cultivarmos a esperança e a fé no futuro.
— Tranqüilize-se, Paulo, Jesus não vai nos desamparar. Nossa vida sofreu uma mudança dolorosa que criou feridas em nosso coração, mas com a graça de Jesus descobriremos outros motivos para sermos felizes nessa nova fase de nossa existência.
— Dona Inês, às vezes me surpreendo pensando que Rubens tem razão, realmente deve existir a reencarnação que tanto ele tenta nos esclarecer, porque, se não existisse, se fosse apenas uma fantasia, não encontraríamos motivos ou respostas para tanto sofrimento pelo qual nós e tantas outras pessoas passam, sem compreender o porquê.
— Tem razão, Paulo, por meio dessa oportunidade de retornarmos à vida física animando outro corpo, em outra época, é que nos faz ter certeza da justiça divina.
— Tem muita lógica, Dona Inês, caso contrário, o Criador seria injusto com uma parte de sua criação. Quando me questiono sobre o porquê da nossa separação do Fábio, não encontro aqui e agora uma explicação que justifique tanta dor.
— E como diz o Dr. Rubens, alguma coisa desprezamos em uma época anterior e que se faz necessário aprender nessa encarnação. Só não posso entender o que poderia ter sido feito para perdermos nosso Fábio dessa maneira, sendo ele tão jovem.
Paulo pensou um pouco e respondeu:
— Não sou entendido no assunto, mas talvez para que aprendêssemos, com a separação drástica, a desenvolver o amor de verdade; o Rubens poderia nos esclarecer melhor.
— É, pode ser Paulo, mas o que importa é o aprendizado do bem e do amor. O sofrimento doloroso deve se tornar, para quem o sente, uma alavanca a impulsionar para o conhecimento de verdade e para a prática do bem, fazendo emergir das cinzas a fé e a confiança em Cristo, para que se possa ir a busca da luz e da paz.
— A senhora tem razão, vamos nos esforçar para que isso aconteça conosco.




PROBLEMAS COM ANDRÉ


Após o incidente vivido por Marília, tudo começou a tomar novos rumos em sua vida. Sentindo um grande vazio em seu coração e incentivada por Paulo e Inês, deu um considerável salto para iniciar sua reforma interior e armazenar em sua alma princípios de grande fé, confiança e conhecimento que lhe dariam suporte para enfrentar novas dificuldades que aconteceriam em sua vida.
Procurando o médico amigo, este lhe orientou como iniciar o trabalho pelo qual seu coração ansiava; assim, apoiada pelo amor fraternal que nascera em seu íntimo, permitiu que esse mesmo amor enxugasse suas lágrimas e transformasse esse pranto em estímulo para iniciar sua caminhada rumo ao Criador, fundado uma casa de amparo às gestantes carentes da periferia.
Tudo era muito simples. Suas mãos com habilidade confeccionavam as roupinhas que formavam os enxovais, doados às futuras mamães que freqüentavam os cursos ministrados por ela e Rubens.
Nunca deixava de ouvir as explicações de Rubens e a cada dia se interessava mais pelos ensinamentos da Doutrina Espírita. Convicta estava que só por meio do bem praticado sem interesse algum poderia encontrar a paz para seu coração e força para superar com dignidade cristã os revezes da vida.
Em uma de suas palestras, Rubens dissera:
— Jesus também caminha na Terra procurando certa categoria de doadores difíceis de encontrar — doadores de suor que trabalhem desinteressadamente na construção do reino de Luz. Irmãos, o Divino Amigo nos bate à porta do coração nos pedindo serviço; sigamos adiante, guardando a felicidade de sermos, com Ele, os doadores de suor. (Fonte: Ideal Espírita — Aura Celeste — Chico Xavier)
Essa mensagem calara fundo no coração de Marília. Entendera a importância de se doar ao trabalho edificante sem esperar nada em troca; mas sabia também que não seria o fato de trabalhar em favor dos necessitados que a impediria de viver futuras preocupações e sofrimentos.
O bom médico sempre explicara que devemos fazer o bem pelo bem, sem achar ou esperar que com isso nos tornemos isentos de qualquer contrariedade ou prova que estivessem relacionadas com a nossa história. Nada se consegue de bom e duradouro se não se empenhar em compreender o amplo significado desse sentimento tão nobre que é o amor.
O coração de Marília se aquietara em relação ao sofrimento da separação de Fábio; não que a ferida tivesse cicatrizado, mas o sangramento da dor não lhe impedia de continuar vivendo e nutrindo sua alma com os ensinamentos evangélicos de Jesus, e isso levava paz ao seu coração e serenidade para continuar o trabalho que abraçara.
O tempo, sem se importar com as tristezas ou alegrias dos encarnados, seguiu sua rota e três anos se passaram desde a desencarnação de Fábio.
O trabalho de Marília ganhara força. Além dos enxovais, as gestantes passaram também a receber alimentos, a freqüentar cursos em que aprendiam a tratar seus filhos, física e espiritualmente, além das consultas ginecológicas quinzenais.
Tudo transcorria dentro do previsto pela espiritualidade amiga. Marília conseguira realmente enxugar suas lágrimas exercitando o amor.
Certa tarde, regressando ao lar, Marília encontrou sua mãe esperando-a com ansiedade e assim que entrou percebeu a aflição de Inês ao dizer-lhe:
— Graças a deus você chegou Marília!
— O que foi mãe, por que esse nervosismo todo?
— Filha, soube de algo que me deixou impressionada e, para falar a verdade, com muito medo.
— Diga-me o que foi!
— Sabe o Marcos, o amigo do André que nunca se separa dele?
— Sim, claro que sei quem é, mas o que tem ele?
— Dona Gracinda me disse hoje que ele faz uso da maconha e não tem o menor pudor ou preocupação de esconder isso.
— Lamento mãe, mas o que tem isso que ver conosco? Entendo que se torna um problema para os pais dele e não nosso. Espero que saibam solucionar essa questão da melhor forma.
— Você não entendeu Marília; o meu receio é que, como o André é muito amigo dele, possa se influenciar e cair no mesmo erro, isso se já não aconteceu o pior.
— Mãe! - exclamou Marília indignada.
— Por que o espanto, Marília? Nos tempos de hoje ninguém pode dizer que está totalmente seguro quanto à questão das drogas.
— Mãe, estou segura porque dei a ele uma boa educação e não acredito que caia nessa armadilha. Por Deus, acho que ele jamais faria isso!

— Também penso como você, mas acho prudente ficarmos atentas, André está com quinze anos, idade em que os adolescentes questionam, exigem e quando não encontram respostas que lhes satisfaçam ou as que querem ouvir procuram nos lugares errados, com pessoas erradas, costumes e práticas que só trazem enganos e desgostos.
— A senhora pensa isso mesmo, mãe? Acha que o André poderia se envolver com drogas?
— Filha, não estou afirmando, estou apenas dizendo que precisamos ficar atentas e observar as atitudes do André, afinal, ele é igual a muitos adolescentes e geralmente todos eles sofrem certa influência dos amigos mais chegados. Não custa ficarmos atentas.
— Vou conversar com o Paulo e ver o que ele pensa a esse respeito.
— Faça isso, Marília, faça isso!
Assim que sua mãe se afastou, Marília subiu para seu quarto com a intenção de tomar um banho e esperar a hora do jantar. Passou pelo quarto de André e sentiu desejo de entrar para abraçar o filho. Parou em frente à porta e sem vacilar segurou a maçaneta e empurrou. Ao verificar a porta trancada por dentro, estranhou. Bateu levemente e com carinho chamou o filho:
— André, sou eu, filho, abra a porta para que eu possa entrar.
— O que quer mãe?
— Nada, filho, apenas abraçar você e saber do seu dia, só isso. Posso entrar? - perguntou Marília.
— Para com isso, mãe, que "mico" é esse? Quer entrar no meu quarto só para me abraçar?
— Claro, filho, que mal há nisso?
— Não vou abrir mãe, estou ocupado, mais tarde a senhora me abraça.
Marília abafou seu desapontamento e dirigiu-se para seu quarto.
Lembrou-se de Fábio, e a saudade bateu forte em seu peito.
— Que Jesus abençoe você, filho. Que sua caminhada rumo à evolução espiritual seja sedimentada no amor ao nosso pai e a seus semelhantes. A saudade que sinto de você é grande demais, torna-se quase uma dor física, mas procuro transformá-la em estímulo para continuar trabalhando e amparando
as mãezinhas necessitadas. Creio eu que agindo assim fico cm harmonia com você e com minha própria evolução. Fique com Deus, meu filho.
Marília sentiu uma sensação agradável percorrer-lhe o corpo.
— Dr. Rubens tem razão - disse para si mesma —, cada um é responsável por sua vida. Se teimamos em preencher nossos dias com lamentações, revolta e desespero, torna-se impossível encontrar a paz para nosso coração. Mas, se a fé e a confiança em Deus forem o estandarte a abrirem o caminho por onde
devemos passar, com certeza enfrentaremos todas as dificuldades e transtornos trabalhando com dignidade e fraternidade, encontrando assim a paz para nossa alma. Somente o amor exercitado pode amenizar a dor que dilacera nosso coração quando vemos um filho querido partir. A alegria proporcionada
ao semelhante traz ao nosso coração a paz e o equilíbrio como recompensa pelo esquecimento de nós mesmos. É Dr. Rubens tem razão, vou a frente ao meu trabalho.
Marília não se dava conta, mas espíritos amigos energizavam aquela mãe sofrida para que seu espírito se fortalecesse e se preparasse para nova provas e dor.
— Cale gemidos e suspiros frustrados, decidindo realmente servir. O amor puro é a síntese de todas as harmonias conhecidas. A fraternidade é o pacto do Amor Universal entre todas as criaturas perante o Criador. Nossa alegria somente viceja em conjunto com a alegria de muitos. De que vale a alguém o título de herói numa tragédia. Onde estará o benefício de uma santidade que terá brilhado no deserto, sem ser útil a ninguém?
Com o Espiritismo nasceu na Terra a fé raciocinada.
Você, portanto, interiormente, está livre para ajudar a você mesmo, consciente qual se encontra de que auxiliar com desinteresse aos outros é interpretar vivamente a filosofia de Cristo, é consolidar a segurança do próprio bem. (Fonte Ideal Espírita, André Luiz/Chico Xavier).


NO MUNDO DAS DROGAS




Marília colocou o marido ciente do que sua mãe lhe contara. Paulo, como era de esperar, ficou preocupado e não descartou a possibilidade de André estar realmente envolvido com maconha, assim como seu amigo Marcos.
— Sua mãe tem razão, Marília. É necessário ficarmos atentos com as atitudes de André.
— Mas, Paulo, você acha que nosso filho se envolveria com algo dessa natureza?
— Querida, André tem apenas quinze anos. Os adolescentes são influenciáveis pelos amigos, pelo consumo, enfim, não possuem ainda uma personalidade bem definida, madura, segura, em razão disso tudo é possível. Convém ficar vigilante.
Os olhos de Marília encheram-se de lágrimas. O medo tomou conta de sua alma. Era como se uma porta se abrisse à sua frente e ela temesse ultrapassá-la por não saber o que encontraria do outro lado. Incerteza, insegurança e receio foram os sentimentos que rapidamente tomaram conta de seu coração. Paulo, percebendo o estado em que ficara sua esposa, abraçou-a afetuosamente dizendo:
— Querida, não fique assim. Para que sofrer por antecipação, se não temos certeza de nada porque nada sabemos? Vamos ficar vigilantes, bem atentos, nos aproximarmos mais do nosso filho, enfim, tentar ajudá-lo se alguma coisa realmente estiver acontecendo. Se mantivermos a calma, poderemos perceber a situação como ela realmente é.
Mais tranqüila Marília respondeu:
— É, Paulo, você tem razão. Não sei o que seria de mim se não tivesse você ao meu lado, sempre me apoiando, confortando. Você é um grande companheiro e eu sinto um amor muito grande por você.
— Eu também, querida, eu também a amo muito.
Delicadamente, abraçou-a beijando-a nos lábios.
Quinze dias se passaram. Conforme o combinado não se descuidaram de André. Atentos às mínimas reações do jovem procuravam dar atenção e se aproximavam cada vez mais.
— André, está tão quieto, filho, nem se alimentou direito. O que há com você, o que o preocupa?
— Nada me preocupa mãe, pode me deixar em paz?
— Não é o que me parece, sinto-o tenso.
— É coisa minha, mãe, dá licença?!
— Por que a agressão, André? Feri você com minha observação?
Empurrando a cadeira, André levantou-se e saiu da sala indo trancar-se em seu quarto. Laís correu a abraçar a mãe.
— Não fique triste, mamãe, André anda muito nervoso!
— E você sabe por quê?
— Talvez seja porque não está indo bem na escola.
— Não está indo muito bem no colégio?! O que é isso, Laís, não pode ser, ele mostrou-me a caderneta escolar, suas notas estão muito boas.
— É que...
— Diga Laís, o que você está me escondendo? O que sabe que ainda não sei?
— Bem, mãe, é que ele e o Marcos falsificaram as notas.
Marília empalideceu.
— Ele o quê?
— É isso mesmo, mãe, o André falsificou as notas.
— O que você está afirmando, Laís, torna-se inacreditável para mim. André falsificando notas na caderneta?! Não nisso, não posso!
— Fique calma, mãe, afinal isto não é tão grave assim.
— Engano seu, Laís, é grave sim, e o mais grave é o que deve estar por trás dessa atitude leviana e perigosa do seu irmão.
— Como assim, mãe?
— Veja filha: se André está indo tão mal na escola ao ponto de falsificar suas notas, alguma coisa mais grave está acontecendo que motivou o seu desleixo com os estudos e o induziu a cometer esse ato perigoso e reprovável de falsificar o boletim.
— É... a senhora tem razão, mãe!
Marília decidida a esclarecer o fato, bateu na porta do quarto de André.
— Abra filho, por favor.
— O que a senhora quer, mãe?
— Falar com você, André.
— Eu não quero falar com a senhora, me deixa quieto.
— Por favor, André, abra essa porta e vamos conversar um pouco. Não tenha receio, quero apenas conversar com você.
— Outra hora, mãe, agora não quero, e pára de ficar pegando no meu pé.
Desanimada, Marília respondeu:
— Está bem, como você quiser.
Virou-se e foi até seu quarto. O medo tomou conta de seu coração. Sentiu-se perdida e insegura diante da maneira como André a tratara. Elevou seu pensamento até Deus e suplicou ao Pai ajuda para resolver com sabedoria o que a atormentava. Com a voz da alma orou ao senhor:
— Senhor, conheces minhas dúvidas e meus medos. Sabes o quanto sou ainda imperfeita, mas mesmo assim... me amas! Não posso esconder de Ti a fraqueza que muitas vezes atinge a minha alma e é nessa hora, Senhor, que meu coração, procurando-te para se acalmar, enche-se de certeza do Teu amor por mim; então... desabafo e choro! Nem sempre tenho forças para lutar, mas em todos os momentos procuro-te para falar de mim e mostrar o que me aflige. Quantas vezes perdida e pedindo-te ajuda, sinto Tua presença na paz que me invade e me leva ao descanso das minhas dores; nessa hora, Senhor, consigo perceber as flores da primavera desabrochando no amanhecer de um novo dia e fazendo-me lembrar que nenhuma dor pode ser maior que o Teu amor por mim.
Entrego-me a esse amor divino e, amparada pela fé que se renova em meu ser, levanto-me e prossigo.
A emoção de Marília fez-se presente nas pequenas gotinhas de lágrimas que desciam pelo seu rosto e transformavam-se em uma brilhante luz azul que a envolvia dando-lhe paz e confiança no futuro. Mais uma vez Deus demonstrara Seu amor pelos seus filhos; era o Criador amparando Sua criatura, era a resposta vinda do Mundo Maior direto para o coração de Marília.
A porta de seu quarto se abriu e Paulo entrou.
— Querida, Laís me contou o que aconteceu. Como você está, e André?
— Agora estou bem, Paulo. Mais uma vez consegui acalmar meu coração conversando com Deus, e mais uma vez Deus entendeu minha alma.
— Fico feliz por você. É bom vê-la forte e confiante, disposta a lutar pela nossa felicidade e a de nossos filhos.
— É, mas estou muito preocupada com o André. Não tenho mais dúvida de que alguma coisa está acontecendo com ele e não é coisa boa. Onde já se viu Paulo, falsificar notas da escola!
— Vamos ver isso, Marília, vou agora mesmo conversar com ele.
Sem demora foi direto bater na porta do quarto de André.
Assim que ouviu a voz segara e enérgica de seu pai, André abriu a porta do quarto e permitiu que ele entrasse. Paulo sentou-se ao pé de sua cama e, com prudência e carinho, mas sem perder a autoridade incentivou o filho a falar.
— O que acontece com você, meu filho, que provoca comportamento que não condiz com o que você sempre foi um filho amoroso e educado?
— Não está acontecendo nada, pai!
— Penso que esteja sim, André, e nós, sua mãe e eu, não estamos gostando nada disso. Se você se abrir conosco, seja o que for, faremos tudo para ajudá-lo a resolver o problema.
— Mas, pai, não há problema algum comigo e...
— E...?
— Se eu disser com certeza vocês não vão entender.
— Experimente filho!
— Você e mamãe, como a maioria das pessoas, dos pais, principalmente, são preconceituosos quanto a isso, não compreendem realmente o que seja e vão julgando erroneamente.
— Por favor, André, seja mais claro e não ponha palavras em nossa boca.
— Pois bem, já que o senhor quer saber, eu estou fumando maconha!
— Você... o quê?
— O que o senhor ouviu pai, estou fumando maconha. Mas já vou dizendo que não é ela que está mudando meu comportamento como o senhor disse. A maconha não faz mal algum.
Paulo empalideceu. Recuperando seu autocontrole disse ao filho:
— Mas é claro que é por causa disso que você anda tão diferente. Por Deus, meu filho, por que procurou a droga? O que esperava encontrar? Por que foi em busca do sofrimento seu e nosso, já não bastou o que passamos? Por que e para que andar na corda bamba e comprometer sua vida, sua saúde e seu futuro?
— Está vendo? Não disse que não entenderiam que são como a maioria, preconceituosos!
— Não se trata de preconceito e sim de algo que você acende hoje e te apaga amanhã.
— Pai, o senhor não sabe o que está dizendo. A maconha não é uma droga e, ao contrário do que se pensa, não faz mal algum.
— Engano seu, filho, a maconha é uma droga sim e, na maioria dos casos, é a porta de entrada para outras drogas mais pesadas que sempre levam seus adeptos à morte.
— Mas o que é isso, pai, estou só me divertindo, zoando, e fique o senhor sabendo que a hora que eu achar que devo parar, eu paro numa boa. O senhor está levando tudo isso muito a sério.
— Temos de levar isso a sério, porque é sério.
— Já disse que quando quiser eu paro.
— Será, filho?
— Claro, pai, claro! O Marcos sempre diz que, quando ele enjoar e quiser, ele pára. Comigo será a mesma coisa, os jovens fumam apenas para curtir, zoar, o senhor consegue entender?
— Não quero e nem posso entender como alguém pode comprometer sua vida apenas para curtir e zoar como você diz. Não é arriscar demais?
— Pai, não estou arriscando nada!
— Está sim, André. Se a maconha fosse algo bom, por que se fuma escondido? Por que é proibida pela lei? Se fosse tão inofensiva, como diz, não induziria seus usuários a mentir, a esconder esta prática, a agredir a família e relaxar nos estudos chegando ao extremo de falsificar notas como você fez, enfim, não os levaria a abandonar seus ideais de moral e honestidade e passar a viver escravo desse vício nocivo, dessa inimiga que age lentamente, mas que deixa seqüelas, com certeza.
— Vou dizer mais uma vez para ver se o senhor consegue entender: maconha não é droga, portanto não vicia.
— Vou insistir que é um grande engano seu, filho, é droga sim e raramente não provoca danos naquele que dela faz uso. Vamos fazer o seguinte, André, telefono para o Dr. Rubens e peço-lhe que venha conversar com você. Ele, melhor do que eu poderá lhe explicar o mal que essa droga faz ao corpo humano.
— O senhor acha mesmo necessário colocar o Dr. Rubens nessa história?
— Acho! Sua mãe e eu podemos dar-lhe nosso amor, ampará-lo para que possa pular fora dessa canoa furada e perigosa enquanto é tempo; mas o Dr. Rubens poderá mostrar-lhe cientificamente os danos que poderá sofrer seu corpo, sua mente e, principalmente, seu espírito. Você concorda em ouvi-lo?
— Vou fazer isso para satisfazer o senhor, mas garanto que ele não mudará minha opinião a respeito.
— Vamos aguardar André.
Paulo levantou-se retirando-se do quarto do filho. Seus ombros curvados eram um sinal evidente da dor que ia à sua alma.
— Então, querido, como foi a conversa?
— Não sei dizer-lhe, Marília, mas, enfim, conversamos - respondeu Paulo.

— E aí, diga-me! O que achou a que conclusão chegou?
— Cheguei à conclusão de que devemos procurar nosso amigo Rubens, mais uma vez, e pedir-lhe ajuda.
— Por quê, é tão sério assim?
— Preste atenção, Marília, nosso filho é usuário de maconha e não nega acha normal e defende esta erva como se fosse a coisa mais natural usá-la.
— Não é possível!
— Sim, é possível e real, minha querida.
— E o que vamos fazer Paulo?
— Já disse pedir ajuda, sem constrangimento, à única pessoa que conhecemos e que nos ajudara com conhecimento e amizade.
— Faça isso o quanto antes, Paulo, pelo amor de Deus, faça isso! — disse Marília angustiada.


SEGREDO DESCOBERTO


— Por que me chamou mãe?
— Não vou nem lhe responder. Marcos, porque tenho motivos para acreditar que você sabe a razão.
— Motivo?! Motivo do quê, mãe?
— O motivo pelo qual o chamei aqui.
— Se você me disser, ficarei sabendo.
— Não se faça de bobo. Marcos, o que você fez com o relógio de ouro que ganhei de aniversário de seu pai?
— Relógio de ouro? O que fiz? O que é isso, mãe, está me acusando de roubo?
— Gostaria que tudo fosse um engano, filho, mas creio que foi você quem o pegou.
— E o que faria com um relógio de ouro?
— Venderia Marcos!
— Pode me dizer para que venderia seu relógio?
— Para pagar ou para comprar alguma coisa que nem ouso dizer, meu filho.
— Quer saber, e você já me encheu o saco! Não sei por que fico aqui ouvindo suas bobagens!

Virou as costas para sua mãe e ia saindo apressado, quando a voz de Laura soou alto e firme.
— Fique onde está e não ouse me desafiar!
— Por quê? - gritou Marcos. — Vai me bater?
— Por que sou sua mãe e me deve respeito.
Marcos, com um sorriso sarcástico, respondeu:
— Respeito? Eu lhe devo respeito? Justamente você que não me respeitou quando eu era indefeso, quando apenas iniciava minha vida?
Laura, empalidecendo, respondeu:
— O que está dizendo, enlouqueceu?
— Não, Dona Laura, não enlouqueci, mas para ser franco não sei como isso não aconteceu quando soube do que fez comigo quando apenas começava a existir.
— Meu Deus, mas o que foi que fiz de errado com você?
— Tentou me matar!
Laura sentou-se. Cobriu o rosto com as mãos e perguntou ao filho quase num sussurro:
— Por que diz isso, Marcos?
— Por que sei que foi assim.
— Mas quem lhe disse isso?
— Você!
— Eu!
— Sim, você mesma!
— Quando, Marcos, quando foi isso?
— Quando contou essa história para tia Elvira.
— Você... escutou?
— Sim, mãe, escutei e nunca a perdoei. Já que você nunca me quis, resolvi lhe dar motivos para que tivesse razão.
Laura, pela primeira vez, se assustou diante do que fizera no passado. Percebeu que as conseqüências do ato que imaginava ter caído no esquecimento estavam mais presentes do que nunca em sua vida. Com voz trêmula e medrosa perguntou ao filho:
— Por favor, Marcos, conte-me o que sabe.
— Para que reviver isso agora?
— Por favor, conte-me!
— Quer mesmo que eu fale Dona Laura?
— Sim!
— Pois bem, você pediu. Foi em um dos encontros seu e da tia Elvira. Recorda que naquela época, uns anos atrás, vocês se encontravam todas as quintas-feiras para tomar chá aqui em casa? Pois bem, em uma dessas visitas ouvi uma conversa de vocês.
— Então, Laura, como está a questão do seu ciúme em relação ao Pedro?
— Ah! Elvira, o ciúme que eu sinto do Pedro já está fora do meu controle. Sofro só de pensar que ele pode estar sorrindo para outra pessoa. Quero-o só para mim, só para mim.
— Você precisa se controlar, Laura, foi por causa desse ciúme que nunca mais quis ter outros filhos, não foi?
— Claro já basta dividi-lo com o Marcos, é mais que suficiente; por mim não teria tido nem ele, mas nada do que fiz para interromper a gravidez deu certo, lembra? O jeito foi aceitar.
— Santo Deus, no início de sua gravidez você parecia uma louca tentando evitar a qualquer preço que fosse para frente.
— É verdade, Elvira. Tomei tudo o que me ensinaram, fiz tudo que podia e que não devia, mas nada adiantou. Cheguei ao extremo de enfiar em mim mesma agulha de tricô para provocar o aborto, só que mesmo assim Marcos vingou, e o remédio foi aceitá-lo e dividir com ele o amor de Pedro.
— É, Laura, tudo na nossa vida será sempre como Deus quiser e Ele quis que Marcos vivesse e hoje é um lindo menino.

— Aí está Dona Laura, o grande respeito que teve pela minha vida e ainda tem coragem de exigir que eu a respeite?
Laura não emitia nenhum som. Seu coração batia acelerado, o suor cobria seu corpo e um nó parecia apertar-lhe a garganta. Com muito esforço conseguiu dizer ao filho:
— Há quanto tempo sabe desse episódio?
— Há cinco anos!
— E... foi por isso que entrou para as drogas, por minha culpa?
— Não sei se por sua culpa ou por minha própria culpa. O que sei é que perdi o respeito por você; a frustração de não ser esperado, não ser amado, fez-me buscar outro caminho.
— Marcos, pelo que vejo você não escutou o fim da conversa entre Elvira e eu. Se eu lhe disser que o amo muito, meu filho, você acredita?
— Gostaria de acreditar. Queria muito acreditar, mas não consigo.
— Por quê?
— Porque não me lembro de ter recebido um beijo seu no meu rosto ou uma palavra que pudesse me estimular crescer e ser feliz. Suas palavras sempre foram de críticas que me afundavam mais e mais.
— Filho, isso foi há muito tempo, eu mudei, você é que não percebeu. Saiba que eu o amo, meu filho, muito!
— Mas eu não entendo sua maneira de amar, pelo menos não é a maneira que eu entendo o amor maternal. E fique sabendo que não fui eu que tirei seu relógio, não cheguei a este ponto ainda.
Dizendo isso, saiu deixando sua mãe com o rosto entre as mãos, amargando as lágrimas de arrependimento. Dirigiu-se à casa de André.
— Por favor. Dona Marília, poderia falar um instante com o André?
— O que deseja falar com ele. Marcos?
— Nada de importante, só conversar um pouco. Diante do olhar indagador de Marília, acrescentou;
— Não se preocupe, vou realmente apenas conversar.
— Conversar sobre o quê, Marcos?
— É que briguei com minha mãe. Preciso conversar com alguém, sabe como é Dona Marília, desabafar com um amigo.
— Olha Marcos, vou deixá-lo entrar, mas, por favor, se é mesmo amigo de André, queira o bem dele, já que não está preocupado com o seu próprio.
Marília levou-o até o quarto de André.


ARREPENDIMENTO




Assim que Marcos saiu, Laura não se conteve e caiu em copioso pranto. Pela primeira vez, em tantos anos, começava a ter noção da extensão do mal que fizera ao filho que rejeitara no passado. Sua cabeça rodava, impedindo-a de raciocinar com clareza sobre a situação que vivia.
— Que faço meu Deus! Que louca fui a comentar com Elvira, mais uma vez, esse fato que só me causa vergonha. Não sei com quem me aconselhar a quem recorrer nesse momento. Não posso falar com Pedro. Ele nunca soube o que
fiz; imagino que se souber, vai me odiar.
Laura mergulhou em profundo abatimento.
Seus sentimentos eram confusos. Não conseguia definir com exatidão por que sofria se por ela ou por Marcos. De repente lembrou-se de Elvira.
— Elvira! Claro! Por que não me lembrei antes dela! - exclamava para si mesma.
Levantou-se e sem demora ligou para a cunhada.
— Elvira.
— Sim! - ouviu-se do outro lado da linha.

— Elvira, sou eu, Laura.
— Oi, Laura, tudo bem com você?
— Não, amiga, nada bem comigo. Você não imagina o que aconteceu hoje, ou melhor, agora há pouco. Estou perdida!
— Conte-me, Laura. O que aconteceu para deixá-la assim tão ansiosa?
— Não posso falar por telefone. Poderia vir até aqui? Por favor, Elvira, diga que sim!
— Está bem, quando quer que eu vá?
— Hoje, agora! Por favor!
— Agora, Laura?
— Sim! Por tudo que é mais sagrado, venha agora.
— Está bem. Dentro de uma hora mais ou menos estarei aí.
Laura sentiu-se mais aliviada. Confiava em Elvira e sabia que ela poderia ajudá-la com seus conselhos.
Enquanto isso, Marcos desabafava com André.
Sentia-se magoado. Não furtara o relógio de sua mãe como ela havia acusado. Fazia muita coisa errada, sim, mas nunca furtara nada em sua vida.
— Mas ela o acusou mesmo. Marcos?
— Sim, André, acusou. Disse claramente que sabia por que eu furtara. Acreditava que para comprar ou pagar dívida de droga.
— Ela disse "droga", com todas as letras?
— A palavra em si não. Mas deixou bem claro que era o que pensava.
— É, Marcos, estamos em uma enrascada. Meus pais também descobriram que fumamos maconha.
— Verdade?!
— E o que pretendem fazer?
— Levar-me para conversar com um médico amigo deles, o Dr. Rubens. Eu já lhe falei sobre ele.
— Essa não!
— E tem mais!
— Diga!
— Já têm conhecimento da falsificação das notas.
— André, como você foi deixar que descobrissem?
— Foi a linguaruda da Laís que contou para minha mãe.
— E agora, o que vai fazer?
— Nada! Fazer o que eles querem. Falar com o tal médico.
— Que "mico", hein, André?
— Não, Marcos, "mico" nenhum. Graças a Deus descobrimos tudo a tempo de poder ajudá-los.
Os dois olharam espantados para Marília que, sem que eles percebessem, entrara no quarto levando uma bandeja de suco.
— Mãe!
— Desculpem-me, esqueceram de fechar a porta e não pude deixar de ouvir a conversa de vocês. Entristece-me ver dois jovens saudáveis, com famílias bem constituídas, tendo todas as oportunidades de conquistar uma vida digna de estudo, trabalho, enfim, vivendo em um lar de verdade onde recebem carinho e amor, enveredarem para o caminho da droga.
— Mãe, já disse que maconha não é droga.
— É sim, André! É uma droga traiçoeira que ataca e destrói lenta e sorrateiramente seus adeptos.
— Mas, Dona Marília, não sentimos nada de diferente! - exclamou Marcos.
— Ainda não Marcos. Mas se continuarem com essa prática leviana, imprudente e enganosa, logo vão sentir os primeiros efeitos, e as conseqüências fatalmente virão.
— Dona Marília, pode ser que o André não tenha motivos para isso, mas eu tenho, e motivo sério.
— Verdade, Marcos? Eu poderia saber qual é? Quem sabe posso ajudá-lo.

Marcos olhou para André. Incentivado pelo olhar do amigo relatou a Marília todo o seu drama, sem nada omitir. Marília sentiu um aperto em seu coração por imaginar quanto devia sofrer aquele coração ainda jovem que sabia ter sido rejeitado e acreditava não ser amado por sua mãe. De maneira maternal, segurou suas mãos e lhe disse:
— Marcos, imagino quanto deve sofrer, mas penso que não devemos nos desviar do caminho do bem, violentando nosso corpo, estragando nossa saúde, por não conseguirmos compreender e muito menos aceitar as fraquezas dos outros, mesmo que seja nossa mãe. Um erro nunca vai justificar o outro. Você já tentou conversar com sua mãe, conhecer os motivos, as fragilidades que a fizeram agir desse modo?
— Acabei de ter uma conversa com ela, mas foi a pior possível. Não existem motivos que justifiquem o que ela fez. Não sei Dona Marília, acho que não valeria a pena tentar conversar de novo.
— Pode ser Marcos, mas lembre que somos fracos e imperfeitos e acredito que ela também deve sofrer remorso pelo que fez. Dê-lhe oportunidade de desabafar e dizer-lhe que te ama. Esses anos todos não foi uma boa mãe?
— Devo reconhecer que sim. Quando era pequeno não me recordo de receber seus carinhos, mas, a partir dos sete anos, quando entrei para a escola, realmente foi carinhosa e muito boa mãe para mim.
— Então, Marcos, converse com ela, saiba o caso por inteiro, assim poderá avaliar com mais justiça.
— E, ela me disse que eu não tinha escutado o fim da conversa dela com minha tia Elvira.
— Está vendo? Mais uma razão para voltar a conversar seriamente com sua mãe. Faça isso!
— A senhora acredita que ela me ama?
— Acredito, acredito sim! - exclamou Marília com firmeza.
— Eu vou pensar. Prometo que vou pensar.
— Que bom Marcos. Por falar nisso, já que falamos de franqueza, por que não acompanha o André no encontro com o Dr. Rubens? Poderá lhe fazer muito bem e com certeza ajudá-lo bastante.
— É, pode ser talvez eu vá.
— Seria o ideal se vocês resolvessem essa questão juntos; um daria força para o outro. Agora, se me dão licença...
Marília saiu deixando os dois amigos sozinhos.
— Puxa, sua mãe é esperta, heim, cara?
— Sabe, cara, eu falei para eles tudo o que você disse para mim, mas não consegui convencê-los. Estão apavorados. Têm receio que eu me envolva com as drogas pesadas.
— Mas você não explicou que maconha não é droga, que não vicia!
— Expliquei cara, mas eles não acreditam e não aceitam. Estão convencidos que é droga sim e querem a todo custo me afastar disso.
— "Sujou", heim, cara! Por falar nisso, estou precisando. Topa?
— Sei não Marcos!
— Deixa de ser molenga, André!
— "Tá" bom, "vamo" lá.
Saíram sem avisar Marília.
Acreditavam poder resolver seus problemas e não conseguiam perceber quanto iam se afundando no caminho incerto e perigoso do vício.
Marília da janela de seu quarto pôde vê-los saindo. Seu coração apertou e seus olhos encheram-se de lágrimas.
— Meu Deus, o que será que nos espera? Por qual sofrimento ainda teremos de passar, Paulo e eu?

Fechou as cortinas, cerrou os olhos e orou ao Senhor por aqueles dois adolescentes que mal começavam a viver e já comprometiam suas vidas com a inconseqüência.




EM BUSCA DO PERDÃO



Assim que Elvira chegou, Laura correu a abraçá-la.
— Obrigada por ter vindo, estou desesperada.
— Por Deus, Laura, estou ansiosa para saber o que aconteceu de tão grave que a deixou nesse nervosismo todo.
— O Marcos, Elvira, ele descobriu tudo o que aconteceu quando engravidei dele.
— Tudo?! Mas tudo o quê?
— Tudo mesmo, Elvira.
— Como ele conseguiu saber disso se nem o Pedro sabe?
— Pois é! Em uma de nossas conversas aqui em casa ele ouviu tudo o que dissemos a esse respeito.
— Há quanto tempo foi isso?
— Mais ou menos cinco anos.
— E nesse tempo todo ele não disse nada para você?
— Nada! Mas eu já havia percebido a mudança de comportamento do Marcos. Somente agora ele disse que desde aquela época ficou revoltado. Hoje está metido com maconha, e não acredita que eu possa amá-lo e ter me arrependido do que fiz.

— Meu Deus, Laura, ele jamais deveria ter tomado conhecimento dessa loucura sua.
— Eu sei, mas o que posso fazer? Não foi de propósito que falei para ele escutar. Agora não sei o que fazer Elvira. Ajude-me, pelo amor de Deus!
— Veja você, Laura: pensamos que as coisas que fazemos se perdem no passado, acreditamos que tudo não passa de lembranças tristes e nada mais, ou então que são fatos que jogamos no canto do nosso coração e os esquecemos. Mas esses mesmos fatos ressurgem no nosso presente e ameaçam-nos de maneira muitas vezes assustadora.
— Mas o que faço agora? Estou confusa e temerosa com o que possa acontecer aqui em casa.
— Agora, Laura, é encarar os fatos e tentar resolvê-los da melhor maneira possível. Acho que deve começar com uma conversa séria, adulta e franca com o Marcos.
— Mas dizer o quê, se ele já sabe de como tudo aconteceu, e pelo visto não me perdoou?
— Laura, controle-se e pense: o Marcos ouviu apenas uma parte da história, como você mesma disse. Conte-lhe o que falta, o que aconteceu depois. Abra seu coração para ele e deixe seus sentimentos saírem livremente. É disso que ele está precisando nesse momento: ouvi-la. Quanto ao perdão, se não for de imediato, virá posteriormente. Dê-lhe o tempo de que ele precisar.
Laura ficou pensativa por uns minutos e em seguida disse à cunhada:
— Você tem razão! Preciso enfrentar a situação, não dá mais para fugir. Só espero que ele tenha boa vontade para me ouvir.
— Talvez esteja esperando por isso.
— E Pedro? O que faço quanto ao Pedro?
— Escute Laura, Pedro é outra história. Você sustentou esse casamento com este segredo entre vocês, e nada é verdadeiro entre duas pessoas quando existe mentira entre elas. Faça uma coisa de cada vez.
— Tem razão, Elvira. Vou seguir seu conselho, eu estraguei, eu devo consertar.
— É verdade, só você poderá tirar do coração do Marcos o mal que causou a ele, a dor que dilacera seu coração. Mas faça rápido, pois o tempo que desperdiçamos que perdemos, jamais poderá voltar.
Laura permaneceu pensativa por alguns instantes.
Lembrou-se do momento em que começou a perceber quanto amava seu filho e quanto ele passara a ser a pessoa mais importante na sua vida. "Fora uma tola, uma inconseqüente", dizia para si mesma.
— Ei, Laura, acorda! - exclamou Elvira.
— Desculpe-me. Estava pensando no amor que sinto pelo meu filho e nunca soube demonstrá-lo da maneira como ele precisava.
— Então demonstre agora. Devemos sempre acariciar e dizer palavras de afeto para as pessoas que amamos, no presente, no hoje, porque amanhã elas poderão partir e nós também.
— E aí a oportunidade se quebra e o momento passa, não é isso?
— Exatamente, Laura!
— Você tem razão. Mais uma vez você tem razão, Elvira. Eu lhe agradeço pelo auxílio que me deu no momento de maior angústia, obrigada. Amanhã mesmo chamarei o Marcos e tentarei ter uma conversa com ele.
— Por que não hoje?
— Hoje ele chega tarde. Vai assistir ao show de um amigo dele que toca em uma banda. Possivelmente quando chegar estarei dormindo.

— Pensando bem, é melhor mesmo que seja amanhã, assim você terá esfriado sua cabeça e estará em melhores condições para se entender com ele. Mas, por favor, Laura, já que tudo veio à tona, não lhe esconda mais nada.
— Não, Elvira, não pretendo esconder nada, acredite.
Dizendo isso, Laura levantou-se e foi até a cozinha buscar um refresco para ambas.
— Pobre, Laura - pensou Elvira —, está sendo vítima dela mesma. Quantos dissabores podemos evitar se agirmos com mais prudência, sem nos atropelarmos no nosso próprio egoísmo.
O som da voz de Laura chamando-a fez com que Elvira fosse ter com a cunhada.
A prudência deve ser constante em nossa vida. Agir com leviandade traz conseqüências que vão nos machucar posteriormente, e nem sempre podemos consertar o estrago feito nos corações das pessoas e no nosso próprio.
Temos de ser fortes para viver.
Temos de acreditar que tudo está envolvido dentro de uma programação muito bem elaborada para nosso progresso espiritual.
Deus não nos dá o que pedimos, mas sempre o que precisamos. Se nos rebelarmos contra a vontade do nosso Criador, um dia, em algum lugar do futuro ou da eternidade, perceberemos que, como sempre, nosso Pai estava certo e justo e nos envergonharemos de nossas atitudes.
Nossas ações devem controlar nossos pensamentos, as marés avançam para as praias e recuam novamente para o mar, assim também será nossa tristeza que se tornará o ontem, se permitirmos que a alegria se torne o hoje.
Devemos sempre nos esforçar para aprender a amar e, por que não, nos comportar de uma maneira que possamos ser amados.
Mais que tudo é adquirir serenidade e paz para nosso espírito. Só conquistamos a paz quando não manchamos nosso coração com o mal causado pelo desamor. O cuidado para não ofender ninguém, seja qual for o motivo, deve ser criterioso, porque nem sempre conseguimos eliminar dos ouvidos das pessoas o som de nossa voz que pronunciou o mal, ou mesmo a dor que foi causada por leviandade nossa.
O hábito de sorrir para a vida deve ser cultivado apesar de todas as dificuldades e violências que a humanidade está sofrendo por conta de alguns que vivem sem Deus. Quando conseguimos sorrir, os nossos problemas são reduzidos ao seu tamanho real.
Se a tristeza nos visitar e demorar em se retirar, é importante nos mantermos ocupados para não termos tempo de ficar tristes.
Tudo passará um dia! É importante nós nos lembrarmos disso!






CONVERSA FRANCA




No dia seguinte, Laura amanheceu animada. Conseguira dormir bem à noite e sentia-se confiante.
— Farei tudo como de costume - pensou. Não vou deixar que minha ansiedade atrapalhe minha rotina caseira.
— Tudo bem com você, Laura? - perguntou Pedro, assim que sentou à mesa para o desjejum.
— Claro, Pedro, tudo bem! Por que a pergunta?
— Não sei. Pareceu-me um tanto ansiosa, apesar de sua aparente animação. Aconteceu alguma coisa que não é do meu conhecimento?
— Não aconteceu nada, Pedro! - exclamou Laura demonstrando impaciência.
— Está bem, apenas preocupei-me com você. Já que está bem...
Tomou o café servido pela esposa e dirigiu-se ao trabalho. Em seguida Marcos apareceu pronto para ir ao colégio.
— Marcos, gostaria de ter uma conversa com você.
— Para quê, mãe? O que tem a me dizer?
— Muita coisa, meu filho, ou melhor, tenho tudo a lhe dizer e gostaria que me ouvisse.
— Sem essa, mãe, não "tô" a fim. Já sei o que vai falar, vai tentar explicar o que não tem explicação e procurar diminuir sua culpa.
— Meu filho, não vou tentar explicar nem diminuir minha culpa, porque concordo com você; não tem explicação que justifique o que fiz e sei que sou culpada sim. Quero apenas me abrir com você, dizer da minha insegurança daquela época, da minha fraqueza e da total falta de maturidade. Dizer também o final da conversa que você não ouviu e é muito importante que saiba.
Percebendo a franqueza e humildade de sua mãe. Marcos sentiu seu coração se enternecer. Sem o sarcasmo costumeiro disse a Laura:
— Pois bem, mãe, podemos conversar, mas não agora. Tenho prova e não posso me atrasar.
— Quando chegar do colégio, após o almoço, pode ser?
— Pode. Vamos combinar assim: às quinze horas, está bem?
— Está, filho, para mim está ótimo.
Laura mal podia acreditar que Marcos concordara. Era a grande oportunidade para se harmonizar com seu filho. Era o que mais queria e precisava. Abriria seu coração sem reservas - pensava —, sem medo ou constrangimento e tudo nos mínimos detalhes seria dito. Posteriormente teria com Pedro a mesma conversa que evitara por tantos anos.
A manhã transcorreu lenta em relação à ansiedade de Laura. Mal conseguia se concentrar em seus afazeres domésticos. Temia perder de maneira irreparável o amor de seu único filho.
— Por que caímos em erros tão graves? - dizia para si mesma. Matar um filho inocente por meio de um aborto, como pude ser tão mesquinha e insensível ao tentar realizar ato tão vil?
A cada pensamento seu coração acelerava os batimentos e o medo se agigantava em seu peito.
O toque do telefone trouxe-a de volta à realidade.
— Alô!
— Laura, sou eu, Elvira.
— Oi, amiga! Que bom falar com você, estou tão ansiosa que tenho a impressão de que as horas pararam e o tempo não sai do lugar.
— Nossa o que está acontecendo?
— Combinei com o Marcos hoje às quinze horas para termos a conversa que há muito tempo evitei, mas que agora é necessária e não dá mais para adiar. Estou nervosa e temerosa com o que poderá acontecer após nosso encontro.
— Coragem, minha amiga. A verdade é sempre preferível que a mentira. Você já não ouviu falar que a mentira tem pernas curtas? Sabe por quê? Porque a verdade tem voz e um dia todos escutarão a voz da verdade, não importa quanto tempo passe. Mas muito cuidado, não conserte um erro cometendo outro. Conte-lhe toda a verdade, limpe sua alma e acalme a dele.
— É o que pretendo fazer. Vou tirar dos meus ombros este peso que carrego há tantos anos.
— E Pedro?
— Farei o mesmo com Pedro. Já o enganei demais, agora chega, quero passar minha vida a limpo.
— Faça isso, Laura. Estou torcendo por você. Jesus vai iluminá-la, porque Ele nunca condenou ninguém. No que precisar conte comigo.
— Obrigada, Elvira.
— Então boa sorte. Amanhã nos falamos de novo.
— Tudo bem. Um beijo.
Assim que desligou o telefone, Laura sentiu um desejo enorme de se comunicar com Deus. Fez silêncio em sua alma e entregou-se à prece, confiando e suplicando auxílio Àquele que ampara sempre os que erram e se arrependem.
A hora esperada e temida por Laura finalmente chegou.
Sentada em frente ao filho, torcia nervosamente as mãos enquanto buscava palavras que explicassem o que tanto queria dizer.
— Vamos, mãe, diga logo o que tem para me falar, estou esperando! - exclamou Marcos também nervoso, mas tentando dar um ar irônico à sua voz.
— Não é fácil para mim, filho, dizer para você quanto eu errei; quanto fui mesquinha e egoísta.
— E... não deve ser mesmo! Vamos ser práticos; diga apenas o motivo que fez com que você me rejeitasse não me quisesse em sua vida, tentasse me matar. É só isso que quero saber, o porquê de tudo.
— Preste atenção no que vou lhe dizer e faça um esforço para me compreender, embora eu admita que tenha motivo suficiente para não aceitar.
— Fale!
— Quando eu era ainda bem nova pequena mesmo, comecei a perceber a diferença com que minha mãe me tratava em relação aos meus irmãos. Tudo de melhor, de mais bonito, de mais caro, era para eles. O carinho, os abraços, a atenção, enfim, cresci sentindo-me rejeitada, preterida, e não conseguia entender o porquê dessa atitude de minha mãe, até que um dia descobri que era adotada.
— Que é isso, mãe! Quem adota uma criança age por um ato de amor; não faz sentido tratar mal um filho que adotou porque quis. Não tem nenhuma lógica.
— Concordo com você. Marcos. Mas nem sempre os motivos que levam a essa adoção são de amor.
— Como assim? Não entendi.
— Na realidade, sou filha de meu pai com outra mulher que morreu no parto quando nasci. Não tendo outra saída, meu pai foi obrigado a contar à esposa dele que tinha uma filha, enfim, contou toda a história de sua infidelidade. Não tendo com quem deixar-me, obrigou-a a aceitar-me como filha e ela legalmente tornou-se minha mãe. Mas ela nunca me perdoou por ter entrado em sua vida sem ser esperada ou desejada. Ela já tinha dois filhos e considerava-me uma intrusa que usufruía do amor de meu pai e dos meus irmãos sem ter direito algum.
— E por que então ela aceitou?
— Por medo de perder meu pai.
— E o vovô não fazia nada?
— Durante algum tempo lutou muito para que eu fosse aceita e amada de verdade por sua esposa, mas depois desistiu. Tratava-me bem, mas sem nenhuma atenção ou carinho especial. Talvez movido pelo remorso de ter traído a esposa, não queria magoá-la ainda mais e deixou que as coisas corressem como mamãe determinava.
— Mas o que tudo isso tem que ver comigo?
— Quando conheci seu pai, apaixonei-me perdidamente por ele e fui correspondida. Nunca ninguém me tratara com tanto amor e carinho. Quando nos casamos decidi que não queria ter filhos para não dividir com ninguém o amor que recebia pela primeira vez em minha vida. Tinha receio de agir como minha mãe e começar a achar que meu filho era um intruso e que iria roubar de mim o amor do homem que eu amava. Entrei praticamente em uma obsessão pelo amor de seu pai e tinha convicção que com um filho perderia o que tanto custara para receber.
— E papai, também não queria ter filhos?
— Queria, sempre quis desde que casamos, mas eu sempre inventava motivos para que isso não acontecesse. Quando engravidei de você, entrei em pânico e não preciso dizer o que fiz porque você já sabe.

— É essa parte sei muito bem.
— Então vai saber agora o que ainda não sabe. Durante seus primeiros anos de vida reconheço ter sido uma mãe displicente, fria, sem dar maior atenção a você. Quanto mais seu pai o amava, mais minha cabeça se confundia e eu achava que perdia o amor que ele sentia por mim Quando você completou sete anos, foi acometido de uma doença muito séria que o levou a ficar internado no hospital por um mês. Foi aí, filho, quando corri o risco de perdê-lo que percebi quanto eu também amava você, o quanto queria que você vivesse e pedi a Deus do fundo da minha alma que não o tirasse de mim, que me perdoasse e permitisse que você ficasse comigo, mesmo que eu perdesse o amor de Pedro. Eu só queria tê-lo junto de mim. Deus me concedeu a graça de sua recuperação, e se você fizer um esforço. Marcos, puxar pela memória, vai lembrar que a partir daí eu mudei totalmente em relação a você. Fui uma boa mãe, dei carinho e passei a valorizar a bênção de um filho em nossa vida. Eu te amo, meu filho! Acredite em mim, eu te amo! - repetiu Laura. — Perdoe-me! Ás vezes a gente chega ao amor pelo caminho mais sofrido e hoje só quero que saiba quanto é amado por mim.
Os olhos de Marcos encheram-se de lágrimas. Abriu os braços e aconchegou sua mãe em seu peito, em um gostoso abraço.
— Eu a perdôo, mãe! Perdôo sim, porque senti em suas palavras e vejo no brilho dos seus olhos a emoção do seu coração. Sinto que me ama, sim, e era só isso que precisava saber.
Laura, como uma criança, deixou-se levar pelo sentimento de bem-estar e paz que invadiu sua alma e, aconchegada ao filho, chorou.
Após extravasar toda sua emoção, disse:
— Você não imagina o peso que eu carregava em meu peito. Marcos, e agora, o alívio que sinto por limpar meu coração dessa inconseqüência que cometi no passado. Obrigada, filho querido!
— Eu te amo também, mãe - respondeu Marcos não menos emocionado.
Lembrando-se do pai, perguntou a Laura:
— E papai, sabe dessa história?
— Não! Ainda não, mas saberá hoje mesmo. Não quero mais nenhuma mentira entre nós. Hoje entendo que o amor tem diversas formas e uma não anula a outra, se for verdadeiro.
— É isso aí, mãe. Bem, tudo foi esclarecido. Fica "fria". Dona Laura, vamos continuar nossa vida sem mágoas, cobranças ou julgamentos. Com o papai quem tem de resolver é você, quanto a mim, "tá limpo"; "tô" indo nessa.
Levantou-se e quando ia saindo, ouviu a voz de Laura:
— Ei, mocinho, hoje finalizamos uma questão, mas tem outra para resolvermos, lembra?
— Qual?
— A questão do seu envolvimento com a maconha.
— Podemos falar disso outra hora?
— Podemos, mas sem demora, porque é uma questão importante.
— Ok. Uma coisa de cada vez, mãe - respondeu
Marcos saindo.
Laura permaneceu no mesmo lugar. Seu pensamento divagava. Não acreditava que tudo que mais temia chegara ao fim e, o que era mais importante, de uma maneira que ela jamais imaginara que aconteceria.
Marcos entendera e a perdoara, e o que era melhor, dissera que a amava.
O tempo passou sem que ela percebesse. Somente deu-se conta quando ouviu a voz de Pedro chamando-a.
— Laura, o que faz sentada aí com esse ar tão absorto? Aconteceu alguma coisa?

Nesse instante, Laura lembrou-se de que ainda teria de vencer outra batalha: Pedro.
— Oi, querido, não chegou mais cedo hoje?
— Não, sabe que horas são? Quase dezenove horas, você não percebeu?
— Meu Deus, perdi a noção do tempo! - exclamou.
— O que aconteceu para deixá-la assim. Onde está o Marcos, brigaram outra vez?
— Saiu, e ao contrário do que pensa não brigamos, nos encontramos.
— Explique-me.
— Pedro, por favor, sente-se aqui ao meu lado, preciso contar-lhe uma coisa.
— Nossa quanto mistério!
— É sério, Pedro, muito sério. Gostaria que me ouvisse com atenção e depois sinta-se livre para resolver fazer o que seu coração mandar.
Pedro sentou-se ao lado da esposa. Laura, bem mais tranqüila, narrou-lhe tudo o que contara a Marcos, sem nada omitir. Pedro a tudo escutava com uma expressão de surpresa e incredulidade no rosto. Quando a esposa terminou, disse-lhe:
— Estou realmente perplexo com tudo isso. Por que você nunca me contou? Escondeu esse sentimento por tanto tempo, se martirizando, quase cometendo o ato vil do aborto, quase impedindo de termos nosso filho do nosso lado. Por que não se abriu comigo? Poderia ter evitado toda essa história, para você e para o Marcos.
— Por medo de perder você, se descobrisse a coisa horrível que tinha feito.
— Mas, se tivesse confiado no meu amor por você, saberia que nosso filho não iria nos separar, ao contrário, iria nos unir mais, pois era o fruto, a prova do nosso amor. O amor de um pai jamais sufoca o amor de um homem por sua esposa, se ele a amar de verdade, e eu sempre a amei de verdade, Laura. O amor é um sentimento elástico, quanto mais damos, mais ele cresce. Devia ter confiado mais em mim, no meu sentimento por você.
— Me perdoa Pedro, por favor!
— Não sou eu quem tem de perdoá-la, é você mesma que deve tirar a culpa do seu coração, se harmonizar com Deus pelo cumprimento de Suas leis.
— Você... não vai me deixar?
— Não, Laura, eu não vou deixá-la, porque meu coração ainda sente o mesmo amor por você, mas gostaria que aprendesse a confiar em mim, entender as diversas formas de amar. Devemos desejar a felicidade de nossos entes queridos e a felicidade só é possível por meio da sinceridade e do amor que se exercita naturalmente, sem egoísmo, sem apego e sem nos colocar como o centro do Universo. Todos temos o direito de amar e ser amados.
Laura levantou-se, e sentando-se no colo do marido, beijou-lhe delicadamente o rosto e lhe disse emocionada.
— Obrigada, Pedro. Hoje sei quanto fui tola, inconseqüente e fraca. Tão tola que nem pude perceber o homem maravilhoso que tenho ao meu lado.
— Já passou Laura, o importante é que o Marcos compreendeu e a perdoou; isto quer dizer que daqui para frente voltamos a ter paz aqui em casa.
Os dois continuaram abraçados por algum tempo, até que escutaram a batida da porta e a voz de Marcos gritando:
— Mãe, estou com fome!






A PASSAGEM DE ISABELA




Naquela manhã de outono, Isabela acordou sentindo-se um pouco indisposta.
Assim que Dona Ana entrou no quarto, estranhou o fato de Isabela estar ainda dormindo. Abriu as cortinas e se aproximou da menina para ajudá-la a se levantar. Olhou a cadeira de rodas ao lado de sua cama e, sem ter explicação, sentiu um aperto no coração.
— Isabela, acorde, está na hora de levantar-se para ir à escola.
— Não estou dormindo Dona Ana - respondeu Isabela —, estou apenas com os olhos fechados.
— Não está se sentindo bem, querida?
— Não sei dizer direito o que sinto, mas estou sem forças, sem vontade, parece que meu corpo pesa e não quer sair da cama.
— Não é um pouco de preguiça, sua mimadinha?! - exclamou Dona Ana brincando e dando um beijo em seu rosto.
— Não, não é Dona Ana, estou mesmo indisposta. Será que vou ficar gripada?

— Pode ser! Quer que eu lhe traga o café aqui no quarto?
— Não sinto vontade de comer. Não estou com fome.
— Nem um chá ou um suco de laranja de que você gosta tanto?
— Obrigada, Dona Ana, mas não quero nada mesmo, a não ser ficar quieta.
Fechou novamente os olhos.
Dona Ana começou a ficar preocupada. Nunca vira Isabela assim desanimada. Olhou mais atentamente para a menina e percebeu seu rosto pálido e a feição triste. "Vou chamar Dr. Rubens", pensou; pode ser que ela esteja mesmo doente.
— Por favor. Dona Ana, feche novamente as cortinas e deixe-me ficar mais um pouco na cama. Não vou à escola hoje.
Dona Ana atendeu ao pedido de Isabela. Fechou as cortinas, cobriu a menina com extremo carinho e foi direto ao telefone falar com Rubens.
— Por favor, senhorita, aqui é a governanta da casa do Dr. Rubens, preciso falar com ele com urgência.
— Um momento senhora - ouviu-se do outro lado da linha. Dona Ana esperou com um pouco de impaciência.
— Alô! Dona Ana, aconteceu alguma coisa com Isabela?
— Não sei, mas estou preocupada com ela.
— Diga-me por quê!
— Não quer se levantar da cama, disse que não vai à escola porque está indisposta e também não quis aceitar o desjejum.
— A senhora notou em Isabela alguma alteração significativa?
— Notei que está muito pálida um pouco febril e um olhar muito triste. Gostaria que o senhor viesse vê-la.
— Fique tranqüila, em quinze minutos estarei aí.
Dona Ana voltou novamente ao quarto de Isabela. A menina continuava na mesma posição, de olhos fechados e a palidez acentuara um pouco mais. Colocou a mão na testa de Isabela e verificou que continuava febril.
— O que será que tem essa menina, meu Deus. Ontem ela estava tão bem!
Sentou-se na poltrona ao lado de sua cama e ficou aguardando a chegada do Dr. Rubens.
— É a senhora que está aí Dona Ana? - perguntou Isabela com voz fraca e sem abrir os olhos.
— Sim, querida, sou eu. Chamei seu pai para vir vê-la. Deve estar chegando. Fique tranqüila, não vou sair de perto de você.
Passado um curto espaço de tempo, Rubens entrou no quarto. Com carinho aproximou-se de sua filha e depositou um beijo em sua face.
— Então, meu anjo, o que você está sentindo?
— Não sei explicar, papai. Sinto uma fraqueza muito grande, é como se não tivesse força para nada. Quero apenas ficar quieta e dormir.
Rubens com delicadeza e carinho examinou a filha minuciosamente. Constatou que realmente ela estava febril. Fez-lhe algumas perguntas e optou em levá-la até o hospital para fazer alguns exames e chegar ao diagnóstico correto.
— Não quero ir ao hospital, papai!
— Filha, é o hospital onde o papai trabalha. Gostaria que o Dr. Alex a examinasse. Estarei com você a maior parte do tempo. São necessários alguns exames para saber o que exatamente você tem.
— Está bem!
Rubens ligou pedindo que a ambulância viesse buscá-la. Instalada no quarto de hospital, Isabela pediu ao pai que buscasse sua amiga Laís para ficar com ela.
— Por favor, papai, gostaria muito de conversar com ela. Ela é minha amiga, traga-a aqui.

— Filha, você veio apenas para fazer alguns exames, eu já lhe expliquei. Ficará pouco tempo aqui. Amanhã ou depois estará em casa novamente, aí sim, buscarei a Laís para lhe fazer companhia.
— Pai, sinto algo muito estranho em mim. Não sei explicar, mas pressinto que não voltarei mais para casa.
Rubens espantou-se. Abraçando a filha com emoção lhe disse:
— Filhota, não fale assim. São apenas alguns exames. Você ficará boa logo, acredite no que estou lhe dizendo.
— Está bem, papai, acredito. Mas, por favor, traga a Laís aqui, quero ficar perto dela, é minha única amiga.
— Se é o que você quer, mandarei o motorista buscá-la.
— Obrigada, pai. O senhor sabe quanto eu amo o senhor, não sabe?
— Sei filha. Mas saiba que é o meu amor por você que dá sentido à minha vida; o seu sorriso é que traz alegria ao meu coração e a sua força é o exemplo que eu tento seguir. Papai ama você, filha, mais que tudo nessa vida.
Os dois se abraçaram de uma maneira surpreendente. Isabela experimentou a sensação de despedida, como se fosse a última vez que abraçava seu pai.
Dona Ana presenciava tudo sem entender nada nem por que Isabela estava tão aflita se ainda não tinha feito nenhum exame e nada sabiam a respeito do que ela poderia ter.
— Vocês se comportam como se fossem se separar definitivamente. O que é isso, Isabela? E o senhor, Dr. Rubens, não são apenas exames que ela vai fazer?
— Claro Dona Ana, é que Isabela é muito amorosa; é assim desde a mais tenra idade. Bem, agora vou chamar o Dr. Alex para vê-la e posteriormente fazermos os exames que ele julgar necessário. Com licença.
— Não se esqueça da Laís! - exclamou Isabela.
— Dona Ana, por favor, diga ao motorista que vá até a casa da Dona Marília e peça-lhe permissão para trazer a Laís.
— Voltarei em um instante, Isabela.
Saiu e Isabela se viu sozinha. Sentiu uma dor forte no peito e teve medo. Pensou em sua mãe, seus irmãos e orou a Jesus para que a amparasse.
— Meu Deus, não sei o que tenho nem o que vai me acontecer, mas seja o que for, confio em Vós e sei que não estou sozinha. Venha em meu auxílio. Assim seja.
Tudo aconteceu muito rápido. Uma dor mais forte, outra, e uma parada cardíaca transportou Isabela para o mundo dos Espíritos.
Isabela desencarnara na flor de sua adolescência.
— Dr. Rubens, o senhor precisa reagir se alimentar. Por tudo o que já passou o que já sofreu sem nunca se desesperar, confie mais uma vez em nosso Pai que está no céu.
— Ele tirou, mais uma vez, um ente querido meu.
— Não, Dr. Rubens, Deus não nos tira nada e o senhor sabe tão bem disso porque foi o senhor mesmo quem me ensinou. Como o senhor sempre diz, a resposta vamos encontrar um dia em algum lugar do futuro.
— Dona Ana, não é desespero nem revolta o que sinto, mas uma tristeza tão grande que tira de mim todas as minhas forças. Separei-me de minha mulher e de meus filhos no dia que era para ser um dos mais felizes para nós. Sou um homem só, tive tudo e agora nada tenho. O que fazer de minha vida se não possuo mais objetivo, ideal? O que fazer com essa casa enorme, com o fruto do meu trabalho? O que faço com tudo isso? Encontrei força da primeira vez, mas será que conseguirei novamente?
— Posso imaginar Dr. Rubens; pelo tamanho da minha dor, posso imaginar a do senhor. Mas é preciso reagir, ter fé e esperança. Tudo o que nos acontece nasce de uma causa o senhor me ensinou isso. Hoje não conhecemos a resposta, mas futuramente, no retorno, tudo será compreendido. O senhor sempre foi uma pessoa boa, nosso Pai dará um jeito de lhe trazer forças. O senhor aceita um café?
— Prefiro um chá. Se puder trazer-me, fico agradecido. Enquanto isso vou dar uma olhada nas coisinhas de Isabela.
Dona Ana saiu. Rubens, dirigindo-se ao quarto de Isabela, começou a mexer nos objetos da filha, com a saudade cortando-lhe a alma. Após alguns instantes, observou em cima da cama, ao lado do travesseiro, um envelope branco. Pegou-o e leu: "Papai".
O coração de Rubens disparou e ele empalideceu.
Dona Ana, ao entrar trazendo a bandeja com o chá, encontrou-o ainda segurando o envelope, sem coragem de abrir.
— O que é isso?
— Dona Ana, veja! Encontrei perto do travesseiro de Isabela.
— Que estranho! - exclamou Ana. — Abra Dr. Rubens, vamos ver o que tem aí dentro.
Com mãos trêmulas, Rubens abriu o envelope. Em uma folha perfumada e cheia de florzinhas miúdas desenhadas, estava escrito:
Papai, nunca esqueça que eu te amo! Há dois dias sonhei com um anjo e no sonho ele me disse que viria me buscar porque era chegada a hora do meu retomo. Que eu não tivesse medo, pois a bênção de Jesus iria me amparar. Sou ainda uma criança, não entendo dessas coisas nem sei se o que a gente sonha acontece. Pensei, então, em escrever para o senhor caso seja verdade e isto aconteça realmente, queria lhe pedir que não se desespere nem sofra tanto, porque como disse o anjo estarei amparada pelo amor de Jesus. Sou muito feliz porque o senhor é o melhor pai do mundo, eu o amo e, com certeza, se eu partir, sentirei muita saudade. Mas maior que a nossa dor e a nossa saudade é o amor de Deus por nós. O senhor me ensinou que o amor enxuga as lágrimas e, se eu não estiver mais aqui, é porque chegou a hora do grande amor que o senhor tem nesse coração enorme enxugar suas lágrimas mais uma vez.
A Laís me contou que a mãe dela trabalha como voluntária em uma entidade que cuida de gestantes carentes, ajudando na confecção dos enxovais. Nossa casa é tão grande, transforme-a em um abrigo maternal. O senhor melhor do que eu sabe como fazer isso. Faria bem a mim, ao senhor e às mãezinhas que não têm um teto para se abrigar e ter seus filhos com segurança.
O desespero não soluciona problema algum; a dor não vai impedir o sol de brilhar; a tristeza não evitará que a luz da verdade e do amor fraternal deixe de iluminar os caminhos daqueles que acreditam no Pai; enfim, papai, troque suas lágrimas pelo suor vertido em benefício da felicidade do próximo para que encontre a sua paz e a sua harmonia. Tudo o que existe vem de Deus; nós viemos de Deus e é para Ele que retornamos; o Pai nos une e nos separa por um curto espaço de tempo, comparado à eternidade. O senhor deve estar estranhando uma menina escrever tudo isso, mas é o anjo que está me dizendo e eu acredito muito nele. Ele é lindo, papai!
Sabe, papai, acho que é verdade o que ele me disse, é possível que eu vá mesmo me encontrar com ele, mas onde eu estiver o meu amor estará com o senhor. Diga à Dona Ana que gosto muito dela e agradeço todos os seus cuidados comigo. Não se esqueça de dizer para a Laís que ela foi a única amiga de verdade que eu tive.
Se nesse momento suas lágrimas estiverem embaçando seus olhos, demonstrando toda a sua dor, lembre-se do que o Dr. Rubens ensina para todos aqueles que sofrem: "O amor enxuga as lágrimas". É chegada a hora de mais uma vez o senhor enxugar as suas por meio do amor Eu te amo! Isabela.
— Veja Dr. Rubens, o auxílio divino veio pela própria Isabela. Ela mesma lhe deu a resposta do que fazer com sua casa tão grande, com seus objetivos e com sua vida, e isso o senhor vem fazendo há anos.
— Deus colocou ao meu lado um anjo para me ajudar a caminhar, agora, Ele quer que eu caminhe sozinho. Que meus pés tenham força para prosseguir.
Os soluços de Rubens e Ana ecoavam no quarto sobrepondo a qualquer som que pudesse existir. Naquele momento não estavam ali governanta e patrão, mas, sim, dois seres que sofriam a penosa dor da separação.
— As pessoas que amamos vão embora e nós não podemos impedir, o que podemos e devemos compreender é que a vida jamais se extingue, sofre mudanças, transformação, mas sempre existirá de alguma maneira e em algum lugar.
Quando o sol se põe, e a noite desce, na verdade ele não acabou apenas está iluminando outra parte do mundo. Os seres que amamos quando nos deixam não significa que deixaram de existir. A nossa veste carnal acaba, sim, mas o nosso espírito nasce do outro lado da vida para prosseguir a sua evolução. O amor quando verdadeiro une as pessoas, não importa onde estejam nem o tamanho da distância.
Francisco de Assis disse: "A nossa vida é como o sol, nasce e se põe, obedecendo a um determinado espaço de tempo para tornar a nascer. Nada morre eis aí a nossa alegria."
Vós que compreendeis a vida espiritual, escutai as pulsações de vosso coração chamando esses entes bem-amados, e se pedirdes a Deus para os abençoar, sentireis em vós essas poderosas consolações que secam as lágrimas, essas aspirações maravilhosas que vos mostrarão o futuro prometido pelo Soberano Senhor. (Evangelho Segundo o Espiritismo — Capítulo V, item 2)


AS DROGAS






Marília entrou nervosa no quarto de André. Pela primeira vez faria algo que contrariava seus princípios de respeito em relação aos pertences dos outros.
Sem conter seu nervosismo começou a mexer nas coisas dele, procurando o que, na realidade, tinha medo de encontrar. "Não é possível que ele não consegue entender o perigo a que está se expondo", pensava, enquanto mexia desordenadamente em tudo o que encontrava. "Tantas vezes conversamos, mostrei a ele o mal que a maconha pode trazer ao corpo e à alma. Quando me acalmo, pensando que ele finalmente entendeu, cai essa bomba sobre minha cabeça."
O quarto parecia ter sido atingido por um vendaval, tamanha confusão feita por Marília.
— O que está fazendo no meu quarto? - perguntou André encostado na porta.
Marília virou-se rapidamente e por alguns instantes teve medo da reação do filho. Ia responder quando novamente André gritou:

— Quem te deu o direito de entrar no meu quarto e mexer nas minhas coisas?
— O fato de ser sua mãe me dá esse direito quando percebo que você está se envolvendo com prática perigosa.
— Engano seu. Nem a senhora tem esse direito; a senhora é minha mãe, não minha dona, e da minha vida cuido eu!
Marília um pouco descontrolada respondeu quase gritando:
— Enquanto viver sustentado pelo seu pai e aqui na nossa casa, você tem deveres para conosco e um deles é nos respeitar!
— O que quer dizer com isso? Quer que eu vá embora?
Marília sentou-se na cama e cobrindo o rosto com a mãos chorou.
— Filho, não quero que vá embora daqui, nós amamos você, queremos o seu bem, que seja feliz. Por que você não larga o vício? Veja o mal que está fazendo a você, a nós que somos sua família. Tornou-se irônico, agressivo, enfim, mudou seu comportamento conosco.
— Que mal, do que a senhora está falando?
— Fui chamada na escola e me disseram que você e o Marcos foram suspensos por uma semana porque foram pegos fumando maconha no pátio na hora do recreio. A diretora me disse que se acontecer novamente serão os dois expulsos do colégio. O que você me diz?
André perdeu a valentia.
Sabia que não teria mais nenhum argumento e que não conseguiria enganar e mentir mais para sua mãe.
— Por que faz isso, filho? O que procura? O que pensa que vai conseguir entregando-se ao vício? Não percebe que a maconha poderá levá-lo à perdição, à desgraça, ao sofrimento e até à prisão? O seu pai e eu deixamos de fazer alguma coisa que provocou essa sua atitude? Diga-me o que falta a você?
André continuava cabisbaixo. Não tinha o que responder porque sabia que não existiam motivos para levá-lo a essa imprudência. Sempre fora amado e respeitado por seus pais, nem ele mesmo sabia por que tinha entrado nessa loucura. Lembrava apenas que fora Marcos quem apresentara a maconha para ele. Diante do silêncio do filho, Marília aproximou-se dele e dentro do possível tentou ser calma e prudente.
— André, pelo visto você não vai conseguir se livrar sozinho, você precisa de ajuda e o Marcos também. Gostaria que o chamasse aqui com seus pais para conversarmos e ver o que podemos fazer para salvá-los enquanto é tempo.
Dizendo isso, Marília saiu do quarto deixando para ele a tarefa de recolocar tudo no lugar.
Assim que Paulo chegou, tomou conhecimento pela esposa de tudo o que acontecera.
— Marília, parece-me mais sério do que supúnhamos. Você fez muito bem em chamar os pais do Marcos; nós quatro teremos mais condições de encontrar uma solução para o problema.
Na casa de Marcos a mesma cena se repetia. Laura e Pedro, temerosos com o mesmo fato de que tomaram conhecimento na escola, tentavam encontrar uma solução quando Laura teve a mesma idéia de Marília.
— Boa idéia, Laura. Juntos poderemos encontrar o melhor caminho para resolver essa situação.
— Eu havia dito ao Marcos que precisávamos ter uma conversa sobre esse assunto, mas ele sempre fugia dizendo ter de ir para a escola, fazer isto ou aquilo, enfim, nunca tinha tempo.
— Bem, agora é concentrar nossa atenção nesse fato concreto: nosso filho é um dependente da maconha. Vamos tentar ajudá-lo.
— Vou ligar para a Marília e combinar o dia e horário para nos encontrarmos.

— Faça isso, Laura!
A imprudência do homem faz com que ele traga para si mesmo os motivos da infelicidade e da doença. Afunda-se nos vícios do alcoolismo, das drogas, do tabagismo, enfim, cai na inconseqüência que mutila o perispírito e aniquila o corpo físico. Esta atitude enganosa projeta-o na inconsciência de que um dia, mais cedo ou mais tarde, pagará muito caro para aprender. Esses vícios prejudicam o espírito por várias encarnações. Aquele que compreende a energia da vida, a bênção do corpo físico, dá a ele somente o que ele necessita, ou seja, alimentação saudável e correta; preza suas horas de sono, de descanso, participa da vida com prudência e equilíbrio, em troca conquista a felicidade verdadeira que é o cultivo das virtudes que nos aproximam do Criador (Irmão Ivo).
Marcos e André, sentados na sala ao lado de seus pais, mantinham a cabeça baixa como se quisessem dizer com essa postura que nada tinham a declarar. Paulo, adiantando-se aos demais, disse:
— Gostaria que nos dissessem o que aconteceu que fez com que trouxessem a droga para a vida de vocês, causando-nos preocupação e medo.
— Não houve nada, Sr. Paulo - respondeu Marcos. — Apenas aconteceu.
— Como aconteceu Marcos? - indagou Pedro. — Foi por causa do problema que enfrentava com sua mãe?
— Não sei pai, pode ser eu não sei.
— E você, André, que motivos teria para desprezar os ensinamentos que nós demos a você e enveredar por um caminho perigoso?
— Mãe, depois que o Fábio morreu a senhora se esqueceu de todo mundo. Vivia chorando pelos cantos, nem se lembrava de mim ou da Laís, ou mesmo do papai. Eu comecei a me sentir sem importância alguma para vocês, sei lá, só sei que aconteceu. Experimentei uma vez e gostei, é isso.
— Não culpe sua mãe ou a mim, André. Ela pode ter errado, mas foi a maneira que ela encontrou de passar por aquele sofrimento, e nem por isso foi se afundar na maconha para esquecer. Você entrou porque quis várias vezes alertamos você e sua irmã sobre o perigo dessa droga, só que parece que
você não compreendeu nada.
— Sr. Paulo - disse Marcos —, a maconha não é droga e a gente pára a hora que quiser.
— Quem lhe disse isso Marcos, que maconha não é droga?
— Ora, pai, todo mundo sabe disso.
— Qual todo mundo, André? - disse Marília nervosa. O todo mundo a que você se refere são as mesmas pessoas que pensam como vocês, que fumam como vocês e que não têm nenhum limite do que é certo ou errado. Estas pessoas não são "todo mundo". As pessoa lúcidas, inteligentes, que têm objetivo de vida, corajosas e querem uma vida de saúde, paz e progresso tanto material como espiritual, não pensam nem agem como este "todo mundo".
— Vocês estão fazendo uma tempestade sem razão. Todo jovem hoje fuma ou já fumou maconha! - exclamou André.
— E você acha certo isso, filho? Os inteligentes, os espertos, com certeza já largaram porque perceberam o mal a que estavam se expondo. Os que continuam é porque já estão atolados no regime pernicioso do vício e não conseguem vislumbrar quanto podem ser felizes vivendo dentro da
normalidade e do bom senso.
Pedro, percebendo que os dois jovens necessitavam realmente de uma ajuda especializada, de alguém mais capacitado para orientá-los, disse a Paulo:

— Paulo, sei que você tem amizade com o Dr. Rubens. Eu não o conheço pessoalmente, mas já ouvi falar muito bem desse médico, da sua capacidade e da boa vontade em auxiliar as pessoas. Não poderíamos encaminhar os dois para uma consulta com ele?
Marília, adiantando-se ao marido, respondeu de pronto:
— Há um tempo eu tinha planejado e combinado com o André que o levaria para uma entrevista com ele, convidei até o Marcos para nos acompanhar.
— E por que razão não foram não quiseram?
— Na realidade não foi isso. O fato é que o Dr. Rubens sofreu a perda de sua única filha, de uma maneira estranha e completamente imprevista. A menina amanheceu indisposta e em menos de vinte e quatro horas, sem que nada ainda tivesse sido feito, ela desencarnou.
— Meu Deus! - exclamou Laura.
— Foi realmente muito triste - continuou Marília. Tínhamos um carinho enorme pela menina. Era a melhor amiga da Laís, que até hoje sofre pela separação da amiga. Enfim, devido a esse lamentável acontecimento, achei melhor adiar e respeitar o momento de dor de um pai. Sei quanto é difícil e dolorosa a separação de um filho e sei também quanto esse bondoso médico já sofreu.
— Nesse ponto você tem razão, Marília. Vamos aguardar um pouco mais, está ainda muito recente - disse Paulo.
— O que fazemos, então? - perguntou Laura, medrosa e insegura.
Paulo, com voz firme, dirigiu-se aos dois jovens.
— O que vamos fazer é ficar cada vez mais atentos com vocês, prestar atenção em tudo que fazem e aonde vão, e não vamos desistir de orientá-los quanto ao risco que estão correndo, enfim, esperamos que tenham um pouco mais de
juízo. Saibam que serão cobrados quanto aos seus deveres para conosco e com a escola. Assim que meu amigo Rubens retornar ao seu trabalho rotineiro, marcarei uma entrevista com ele. Certo estou de que ele não se negará a auxiliar-nos.
A maconha, ao contrário do que muitos dizem, faz muito mal e tem um poder viciante muito forte, sim, e a dependência psíquica varia de pessoa para pessoa. Suas substâncias cancerígenas são 60% mais fortes que as encontradas no cigarro; sem dizer de todas as outras alterações que produz no corpo e na mente daquele que dela faz uso. A sensação de prazer e de bem-estar é ilusória. Camufla o que o dependente realmente é dando-lhe uma falsa impressão de que é o que desejaria ser. É uma viagem com muitos perigos pelo caminho e deixa marcas, na maioria das vezes, graves; como, por exemplo, alterações eletroence-falográficas, com lentidão das ondas cerebrais; aumenta a freqüência cardíaca podendo dobrar a pulsação; pode produzir ilusões e alucinações; altera noções de tempo e espaço, perdendo a noção de distância, enfim, são apenas alguns efeitos que a maconha pode exercer sobre a pessoa que dela faz uso. Se o uso for prolongado, acontece não raro diminuição de testosterona e de espermatozóides no homem, e na mulher pode chegar à inibição da ovulação por meio das alterações hormonais.
(Poderíamos enumerar várias alterações provocadas pelo THC (tetraidrocanabinol) - substância química fabricada pela própria maconha) no corpo físico e, principalmente, no corpo perispiritual do usuário, mas não é essa a finalidade deste livro, aqui apenas uma breve consideração a respeito, na tentativa de alertar aqueles que pensam que maconha não faz mal e que conseguem parar no momento que quiserem. É importante que saibam que terão sérias dificuldades quando decidirem parar de fumar a maconha; nem todos conseguem.
Os pais devem estar atentos às atitudes dos filhos; prestar mais atenção no comportamento, em suas feições, em seus olhos, enfim, nas mudanças que poderão ocorrer na conduta deles, em casa, na escola ou na rua. Somente assim terão condições de perceber se algum traficante está adotando seus filhos.
Pedro e Laura despediram-se dos amigos e retornaram à sua casa levando amargura no coração. Marcos os acompanhava sem emitir uma única palavra.
Na casa de André, a mesma sensação de desconforto e amargura incomodava o coração de Paulo e Marília. André subiu para seu quarto, enquanto sua mãe fora ter com Laís que muito sofria com a saudade de Isabela.
Paulo, aproveitando o momento de silêncio e tranqüilidade aparente, entrou em seu escritório e orou ao Pai suplicando ajuda para conseguir vencer mais essa batalha em sua vida.


ORIENTAÇÃO ESPIRITUAL


Tanto na residência de Marília quanto na de Laura, o clima era tenso e de muita ansiedade.
Esperavam com expectativa o dia em que seus filhos pudessem se encontrar com Rubens, pois acreditavam que ainda poderiam salvá-los de prática tão nociva.
Por insistência de Inês começaram a freqüentar com regularidade uma casa espírita, com a esperança de encontrar alívio para seus corações e coragem para enfrentar o que ainda poderia vir.
Laura e Marília tornaram-se grandes amigas. Uma tentava apoiar a outra. Perceberam que ficavam mais fortes e corajosas sempre que iam assistir às palestras ministradas na casa espírita.
— Marília, às vezes quando estamos na reunião sinto muita vontade de perguntar ao mentor espiritual o porquê de tudo que estamos passando com nossos filhos.
— E por que não pergunta Laura?
— Você acha que devo?
— Claro, por que não? Pode ser que "Ele" nos esclareça e possamos compreender melhor essa situação.

— É verdade, existem coisas que não conseguimos entender e temos muita dificuldade em aceitar.
— Laura, tudo o que atinge diretamente nosso coração temos dificuldade em aceitar.
— Uma coisa que não entendo Marília, é a atitude do Dr. Rubens. Pelo que me contaram, de tudo que vocês falam dele, sempre foi uma pessoa de fé, sempre ajudando o próximo. Superou com tanta coragem a perda da esposa e dos filhos, de um modo violento, e agora caiu no desânimo. Por quê? Já se passaram quatro meses da morte da filha, e parece que ele não conseguiu retomar suas atividades como fazia antes.
— Às vezes me pergunto a mesma coisa, Laura. Ele me ajudou tanto quando perdi o Fábio e agora ele não quer ver ninguém.
— Pode ser que ele se sinta culpado.
— O que é isso, Laura? Culpado de quê?
— Sei lá! Talvez por não ter podido fazer nada para salvar a filha, não sei Marília, mas alguma coisa deve estar acontecendo.
— Isso é verdade. Ele sempre foi muito forte, corajoso. Enfrentou tudo com dignidade e amor no coração. O que será que acontece com as pessoas, mesmo as fortes, para caírem assim?
— É uma boa pergunta - exclamou Laura!
No Mundo Espiritual
— Jacob, o que leva uma pessoa a mudar de atitude após passar por determinado sofrimento?
— Horácio, quando não temos firmeza para impedir que a dor modifique nossos conceitos, nossas atitudes produtivas, é sinal evidente de pouca fé. Aquele que conhece, respeita e segue as leis divinas de verdade se fortalece na dor porque se entrega ao amor de Deus e no amor de Deus encontra o bálsamo para todo o sofrimento.
— Mas no caso do nosso irmão Rubens. Conhecemos sua trajetória na Terra, pois o acompanhamos há muito tempo, sabemos de sua capacidade de compreender e amar o próximo, levando-o a conhecer o amor de Deus e merecer esse amor por meio da caridade e da fraternidade vivida. Sofreu dor maior que a atual e, no entanto, é agora que se fragiliza ao ponto de não encontrar ânimo para reagir.
— Horácio, não podemos querer avaliar qual dor é a maior quando não vivemos a situação, só quem sabe é aquele que sente. A alma humana é uma caixinha de surpresas, nem sempre sabemos o que está guardado dentro dela. Nosso querido Rubens conseguiu superar mais rapidamente da primeira vez porque a ligação dele com Isabela vem de muito longe. São dois espíritos que estão ligados há muitos séculos pela afeição sincera. Ele colocou no coração o agravante da culpa por não ter feito nada para salvá-la, o que não conseguiria, porque o momento era aquele. A vida de Isabela foi curta porque sua missão ao lado de Rubens chegou ao fim. Quando na erraticidade, aceitou vir como filha de Rubens, passar pelo que passou para ajudá-lo a vencer. Mesmo quando criança era ela quem levava força ao coração paterno. Quando sofreu o acidente deu o exemplo de que, mesmo paralítica, podia ser feliz, pois tinha o coração sadio, forte e amoroso, e mostrou que para amar não precisamos de braços e pernas, mas somente de um coração bondoso e sincero.
Depois que esse espírito retornou à espiritualidade, Rubens, inconscientemente, sentiu-se sozinho, perdido e acha que sua força vinha da força da filha; pensando assim, enfraqueceu. Mas esta situação não demorará muito. Sua índole é de um homem bom e generoso, é apenas uma fase, uma adaptação, logo estará novamente enxugando suas lágrimas por meio do amor.
Em breve perceberá que sua força espiritual vem dele mesmo e a ele pertence. Prosseguirá sozinho na Terra, mas amparado por todos os amigos espirituais que conquistou ao longo dos tempos, inclusive Isabela. A partir desse momento nada poderá enfraquecê-lo de novo, pois o amor possui alicerces fortes e se sustenta por si só. Ele só necessita de um tempo, como ser humano que é.
— Por que sofreu uma dor tão grande, perder a esposa e os filhos de uma vez só?
— A resposta ele terá no retorno e no momento certo. Só posso dizer que não houve injustiça ou castigo divino, apenas conseqüência. Ele não é vítima, mas está sendo um vencedor.
— Tantos encarnados desejam melhorar o mundo, mas entregam essas mudanças só nas mãos dos governantes, não é verdade, irmão Jacob?
— Sim, Horácio, é verdade. Eles esquecem que fazem parte de um todo e que devem ser a transformação que desejam no mundo.
— É certo alguns espíritas solicitarem dos espíritos que resolvam seus problemas?
— Não! Podem pedir orientação e coragem para prosseguir, mas nunca esquecer que a caminhada é sua. A tarefa que lhe foi confiada é de sua inteira responsabilidade, cabe a você cumpri-la. Os espíritos podem, sim, abrir uma janela por meio dos conselhos, indicando o caminho seguro que será sempre o do bem e da verdade; agora, permitir que o sol entre e brilhe depende de cada um.
— Existem muitos enganos!
— Sim, existem. Mas isso acontece na maioria dos casos porque o homem está mais interessado em adquirir bens materiais, desprezando os bens morais e espirituais. Cabe ao dirigente espiritual incentivar a leitura edificante, para que os freqüentadores de uma casa espírita possam conhecer a verdade da vida futura, a que sobrepõe a vida terrena. Nas obras de Kardec encontramos essa verdade que clareia e conforta os corações.
Dia virá em que os homens entenderão o porquê real do soprar dos ventos; que nossas tristezas são como as vindas e idas das marés, vão e dão espaço para as alegrias, se permitirem. A noite escura se transforma em dia ensolarado trazendo esperança e redescobrimento da vida, enfim, entenderão de verdade que a vida é algo maior do que alguns anos passados na Terra e será nesse dia que começará a transformação do homem por meio do amor.
— Laura, estive pensando que poderíamos fazer uma visita ao Dr. Rubens, levar-lhe um abraço, uma palavra de esperança. O que você acha?
— Acho ótima idéia, Marília!
— Tantas vezes ele me fez enxergar que a nossa alegria está em saber que ninguém morre, sofremos apenas uma transformação livrando-nos do envoltório carnal e nascendo no Reino de Deus com nosso corpo fluídico. Pode ser que nesse momento ele necessite de alguém que o faça lembrar-se disso.
— Iremos quando quiser.
— Vou telefonar para Dona Ana e marcar o melhor dia e horário.
No dia combinado, lá estavam Marília e Laura em frente ao Dr. Rubens.
Mais magro, abatido, mal lembrava o médico forte, cheio de energia e de coragem para trabalhar e enfrentar as dificuldades que Marília conhecera e aprendera a admirar.
Feita a apresentação de Laura, sentaram-se próximas ao médico e foi Marília a primeira a falar.
— Dr. Rubens, não nos leve a mal, mas preocupamo-nos com o senhor e quisemos vir até aqui para dizer-lhe da nossa amizade, do quanto o respeitamos e que somos solidárias à sua dor.
— Eu agradeço muito, Dona Marília, a preocupação que têm comigo, mas não há necessidade, eu estou bem - respondeu sem muita convicção.
Dona Ana, que permanecera no recinto, interveio:
— Dona Marília, ele não está bem. Não se alimenta direito, dorme mal e quase não tem ido ao hospital, enfim, perdeu completamente o gosto pela vida. Não sei mais o que fazer, foi muito bom a senhora ter vindo.
Marília olhou para Laura. Incentivada pelo olhar da amiga respondeu:
— Dr. Rubens, o senhor conseguiu me fazer ver e querer a vida novamente por ocasião da partida do Fábio. Hoje sou quem gostaria de lembrá-lo que possui dentro do seu coração todas as ferramentas necessárias para reconstruir a sua vida e deixar que sua sabedoria e seu amor possam ir ao encontro daqueles que sofrem e não conseguem enxergar uma réstia de esperança.
— Dona Marília, não é só a saudade que está me atormentando, mas saber que não fiz nada para tentar salvar a vida da Isabela. Ela se foi sem que eu tivesse tido tempo sequer de saber o que realmente estava acontecendo. Sei que minha querida Isabela está bem e feliz junto aos seus entes queridos, mas a culpa me consome, sem dizer que ela era a minha força e a minha alegria.
Laura continuava calada por não se achar no direito de dizer qualquer coisa. Acabara de conhecer Rubens e não se sentia à vontade de dizer nada. Mas Marília, como se estivesse sendo inspirada por alguém, continuou mais segura ainda:
— Pelo que sei Dr. Rubens, o senhor não teve culpa de nada. A rapidez como aconteceu mostra que tudo seguia os desígnios de Deus. A tarefa dela na Terra e junto ao senhor terminava ali, foi o senhor mesmo quem me ensinou isso. Quanto a sua força vir totalmente dela, também é questionável. Vocês tinham afinidades, afeição sincera; a força dela apenas encontrava parceria na sua força própria, nesta força que eu sei que possui e jamais perderá porque nasce do seu grande coração cristão. Foi essa força que me fez amar a vida novamente. O senhor só não descobriu ainda que pode lutar e vencer sozinho, sem a presença física de Isabela. Talvez o senhor não tenha se dado conta ainda do bem que faz para todas as pessoas que se aproximam do senhor.
Rubens olhava Marília com surpresa.
Jamais esperara ouvir dela essas palavras, sensatas e lógicas. A firmeza com que expunha seu pensamento em nada lembrava a Marília que conhecera tempos atrás.
— A senhora poderia me dizer o que fez com a saudade do seu filho, e o que faço com a minha?
— Posso Dr. Rubens, posso sim. E o que vou dizer não fui eu que descobri sozinha, foi o senhor quem me ensinou, vou apenas lembrar-lhe. Sabe o que fiz? Guardei bem o rosto do Fábio dentro do meu coração e, cada vez que a saudade apertava, eu o tirava do coração e trazia seu rosto aos meus olhos e o admirava com o mais puro amor que meu coração pudesse sentir. E como o senhor falou várias vezes, agradecia a Deus por ter me dado memória para poder lembrar-se do meu filho. Percebi, então, que me sentia em paz cada vez que me lembrava dele porque aprendi e acreditei que para o amor não existe distância; a distância existe para os olhos, não para o coração.
Rubens estava estupefato. Custava a crer em tudo o que ouvia. Marília continuou:
— E as suas lágrimas, Dr. Rubens, vai enxugá-las por meio do amor que me ensinou, ou vai continuar permitindo que elas consumam sua alma impedindo-o de viver e ser útil aos seus semelhantes?
Dona Ana e Laura olhavam Marília com admiração. Dona Ana saiu e instantes depois voltou e entregou a carta de Isabela para Marília. Voltando-se para Rubens, disse-lhe:
— Ela precisa saber. Leia Dona Marília.
Assim que Marília terminou a leitura, virou-se para Rubens e com alegria na alma falou:
— Querido amigo, a própria Isabela lhe deu a solução. Por que não cumpre seu pedido. Transforme esta casa que tantas alegrias lhe deu no "Lar de Isabela", um abrigo para gestantes carentes. Permita que essas mulheres, que pouco ou nada possuem, possam ter um pouco de alegria, cuidado e orientação para melhorar sua condição de vida. Aprender as noções básicas da higiene do corpo e da alma, cuidar da dignidade e da integridade de seu corpo físico.
— A senhora acha isso mesmo, Dona Marília?
— Claro! Já não fazemos esse trabalho confeccionando enxovais? O senhor não atende às gestantes necessitadas? Por que não fundar o Lar de Isabela, como ela mesma pediu? Conte comigo como voluntária!
— Se o senhor permitir, conte comigo também-disse Laura. Adoraria trabalhar com o senhor no auxílio às mãezinhas carentes.
— Quanto a mim, não preciso nem dizer, não é, Dr. Rubens?
— Minha boa Ana, eu sei de sua afeição por Isabela e do seu cuidado comigo. E a senhora é muito bem vinda. Dona Laura. Agradeço a vocês o carinho.
— O senhor talvez não tenha percebido, mas a Isabela deixou claro que sabia que a sua hora do retorno havia chegado. O senhor não poderia fazer nada, não conseguiria mudar a vontade de Deus.
Rubens parecia outra pessoa. O brilho dos seus olhos voltava timidamente na forma da esperança que enchera seu coração. Marília não se dava conta do peso que tirara dos ombros do médico. Após alguns minutos de silêncio, ele disse:
— Dona Marília, se um dia eu lhe fiz algum bem, hoje a senhora me fez um maior ainda. Trouxe a esperança de volta ao meu coração e não sei como poderei pagá-la por isso.
— Pagar-me?! Eu não fiz nada. Apenas repeti o que ouvi do senhor tempos atrás e que me devolveu a vida. Sempre haverá um dia em que precisaremos que alguém nos recorde o que sempre acreditamos.
Dona Ana, feliz, disse entusiasmada:
— Vou buscar um refresco bem geladinho, hoje está muito quente.
— Faça isso, Dona Ana, e obrigado. Dona Marília, vou começar a pensar nesse projeto. Assim que tiver algo de concreto nos encontraremos para discutir o assunto. Quando vier traga meu amigo Paulo, e a senhora também Dona Laura, terei muito prazer em conhecer seu marido.
— Obrigada, ele virá, com certeza.
— Viremos todos - completou Marília.
— Jacob, Marília não percebeu que estava sendo inspirada por você.
— Não, Horácio, não percebeu. Mas isso só foi possível porque encontrei em seu coração a vontade real e sincera de ajudar o amigo. Não lhe disse que logo ele iria perceber a inutilidade do desânimo e das lamentações? Era só uma questão de tempo, e pouco tempo por sinal.
— Mas o sofrimento continua, não?
— Sim! Mas trabalhando em favor do próximo conseguirá descansar seu coração dessa dor que dilacera a alma, porque não terá tempo para lamentar, mas terá todo o tempo para amar.



MEDO E DECEPÇÃO




André entrou ofegante em sua casa.
Subiu correndo para seu quarto e trancou a porta.
Jogou-se de qualquer jeito na cama e cobriu o rosto com as mãos; seu nervosismo era tanto que provocava tremor em suas mãos.
— Estou perdido! - exclamava para si mesmo. — O que fui fazer meu Deus! Perdi realmente o juízo. Marcos e eu extrapolamos dessa vez e não temos saída. Daqui a pouco, tenho certeza, a polícia estará batendo na porta e vou causar mais decepção aos meus pais.
— Marília, que furacão é esse que passou por aqui? - brincou Inês dirigindo-se à filha.
— Foi o André, mãe. Estava nervoso, tão agitado que nem prestou atenção em mim. Deve ser mais uma crise natural dos adolescentes.
— Por que não vai ao seu quarto saber o que aconteceu para ele estar assim tão agitado? — insistiu Inês.
— Está bem, eu vou. Com certeza não deve ser nada de grave, é criancice mesmo.

Começara a subir a escada quando a campainha da porta tocou. Ia voltando para atender, mas a voz de Laís soou bem alto:
— Deixa mãe, eu atendo!
Laís abriu a porta e assustou-se ao ver parados à sua frente dois policiais e junto a eles, Marcos. Empalidecendo chamou a mãe.
— Mãe, venha aqui depressa!
Marília, em um segundo, estava parada diante dos policias. Ao avistar Marcos, seu coração disparou como pressentindo desgosto. Quase gaguejando, perguntou;
— Em que posso ser útil?
— Boa tarde, senhora. É aqui a casa do André?
— Meu filho chama-se André, mas...
— Poderia chamá-lo?
— Claro, claro, entrem, por favor. Vou chamá-lo e se permitirem telefonar para meu marido para que venha até aqui. Com licença.
Saiu apressada e foi direto ter com André em seu quarto.
— André, abra esta porta!
— Me deixe em paz, mãe, não me enche.
— Deixaria você em paz se não houvesse dois policiais na minha sala, acompanhados do Marcos e pedindo para falar com você.
André por pouco não desfaleceu. Silenciosamente foi até a porta e abriu.
— Pelo amor de Deus, André, o que vocês dois fizeram dessa vez?
— Nada, mãe!
— Nada! E o que fazem dois policias procurando por você, tendo o Marcos com ele? Responda!
— Não sei, deve ser outro André.
— Isto nós vamos ver. Vou telefonar para seu pai e já descemos.
Não demorou dez minutos e Paulo já estava na sala de sua casa, em meio a dois policiais. Marcos, André e Marília que sem se conter entregava-se às lágrimas.
— Marcos, onde estão seus pais? Eles já sabem que você está aqui?
— Não, Sr. Paulo, fui pego antes de chegar a casa - exclamou envergonhado.
Paulo dirigiu-se aos policiais.
— Se me dão licença, vou avisar os pais desse garoto para que venham até aqui. Sua casa é bem próxima.
— Fique à vontade, senhor.
Assim que Laura e Pedro chegaram. Marcos correu ao encontro dos pais, gritando:
— Eu não fiz nada, isto tudo é um engano. Eles estão nos confundindo com outros garotos.
Paulo e Pedro, ao mesmo tempo olharam para os policias esperando uma reação, ou talvez uma palavra que os tirasse daquela situação angustiante.
— Perdoe senhores, mas não há engano nenhum. Foram eles mesmos. Este - dirigindo-se a Marcos — foi pego em flagrante, o outro conseguiu correr, mas o seguimos até aqui.
— Por Deus, o que eles fizeram?
— Assaltaram o mercadinho da rua de cima e furtaram R$ 200,00 do caixa. Além do mais, estão de posse de certa quantia de maconha que o Marcos disse ser para consumo próprio.
Marília e Laura não suportando a notícia desabaram em copioso pranto. Um misto de angústia, medo e decepção sufocava o coração dessas mães.
Pedro, que parecia estar um pouco mais equilibrado, perguntou:
— Eles estavam armados?
— Sim! Portavam canivetes.
— E o que vão fazer?
— Levá-los para a delegacia de polícia. Se quiserem poderão acompanhá-los e chamar um advogado porque eles têm direito a defesa.
Marcos e André foram enquadrados em roubo qualificado por estarem portando arma branca e pelo porte de droga.
Tanto os pais de Marcos como os de André sofriam a dor de ver seus filhos enveredando por um caminho que, com certeza, os levaria à destruição.
Perguntavam-se em que haviam falhado o que deixaram de ensinar que provocou mudança tão radical de comportamento. Não encontravam respostas para este questionamento.
Enquanto o tempo passava, Marília e Laura dividiam-se entre as visitas aos filhos e a elaboração do projeto do Lar de Isabela. Aos poucos Rubens retomara suas atividades normais e se dedicava com afinco aos preparativos para a inauguração do Lar.
Rubens mudara para um apartamento, levando consigo apenas os objetos pessoais, retratos e algumas recordações de sua esposa e filhos. Dona Ana e a cozinheira seguiram o patrão, pois se recusaram a deixá-lo só. Com alegria foi vendo o projeto se tornar realidade e se aproximar o dia da inauguração.
Paulo e Marília, Pedro e Laura, Rubens, Dona Ana e Inês se tornaram uma grande família. Uniram-se pela dor e continuaram unidos pelo amor.
— Paulo - disse Rubens ao amigo, — assim que os garotos estiverem em liberdade, traga-os para conversarem comigo. Pretendo, se permitirem, fazer um trabalho de recuperação e conscientização desses garotos.
— Rubens, é tudo que mais queremos encaminhá-los a você.
— As vezes penso Paulo, que se eu tivesse reagido mais rapidamente, talvez nada disso tivesse acontecido.
— Nem pense nisso, Rubens. Eles sabiam o que estavam fazendo. Não existe culpa de ninguém, pode ser que agora eles aprendam que inconseqüência, brincar de bandido e fazer o papel do adolescente rebelde só traz sofrimento. O importante nesse momento é ajudá-los, para que consigam superar essa tendência e fortalecê-los para vencerem as tentações.
Se o adolescente já se envolveu com a droga, não desista dele, lute para salvá-lo impedindo o avanço do vício, e trate das complicações, se houver.
A maconha pode alterar o estado de consciência de quem dela faz uso, provocando acidentes, principalmente de carro. É importante insistir junto aos usuários da maconha que esta é uma droga, sim, tem poder viciante e provoca danos tanto no corpo físico quanto no perispírito. Aquele que se entrega a essa droga perceberá cedo ou tarde os danos e as alterações causados por ela. A desistência é sempre sofrida e nem todos conseguem. Quem entrar para essa prática nociva pagará muito caro por ocasião do seu retorno ao mundo espiritual. Se o jovem já usou a maconha algumas vezes e não sentiu nada, passa a consumir com mais freqüência e a achar que outras drogas também não lhe farão mal e daí a consumi-las é uma questão de tempo. As drogas, inclusive a maconha, alteram o comportamento e os pensamentos e levam os jovens a defendê-las, dificultando a percepção de que a droga consumida, seja ela qual for, já está fazendo mal e o impede de reconhecer que já está viciado. Todas ás drogas atingem o cérebro, impedindo-o de funcionar naturalmente. Os pais devem estar alertas, já o disse, e empregar todos os esforços para reconduzir os filhos para o caminho seguro, se ele já estiver envolvido com droga ou outras práticas nocivas à integridade física, moral e espiritual. Muitas vezes a prova é dura, mas Deus não permite uma carga maior que os ombros possam agüentar.
Apresente desde cedo o Evangelho para seus filhos, mostrando-lhes por meio do exemplo de sua conduta digna e coerente na família e na sociedade que o bem-estar, a saúde e a felicidade só poderão conquistar a partir do momento que assumirem também posturas equilibradas e sensatas perante a vida.
— Está certo - respondeu Rubens, só posso agradecer a amizade que recebo de todos vocês.
— Você conquistou amigos. Nada fizemos que você não mereça, e nada que fizermos será o bastante para retribuir tudo que fez por nós, e principalmente por Marília.
— Você tem ido regularmente visitá-los, não?
— Sim! E da última vez que lá estivemos recebemos a notícia de que talvez saiam antes de cumprir toda a pena, por bom comportamento.
— Isto é muito bom, pois é um sinal de que estão pensando no que fizeram, e com certeza já devem estar arrependidos. Como eles estão?
— Abatidos, envergonhados, enfim, sofridos.
— Não se entristeça meu amigo. Pode ser que durante este tempo tenham consciência da importância da liberdade e isso os fará reconhecer e valorizar a família e o aconchego do lar, e saberão que não vale a pena brincar de delinqüente. Voltarão mais maduros, acredito nisso. Eles têm boa índole, família bem estruturada, pais que os amam. Saberão reconhecer isso. Tenham fé em Deus.
— Temos fé e acreditamos nisso também. Mas vou ser sincero, Rubens, nosso coração está muito machucado.
— São marcas da vida, Paulo. E marcas, quem não as tem? De uma forma ou de outra todos nós, homens comuns marcamos nosso coração com tristezas, amarguras e decepções. Mas nosso esforço deve estar concentrado no que restou de bom dentro de nós e trocar esses sentimentos por esperança, coragem e fé. Saber que nenhum sofrimento dura para sempre e que, em algum momento ele vai terminar, e entender que enquanto não chegar o fim, é porque não chegou o momento certo, determinado por Deus.
— Rubens, alegra-me vê-lo novamente como sempre foi, forte, corajoso, amigo e fraterno, colocando seu conhecimento e sua bondade em benefício do próximo.
— É, Paulo, mas tive também meu momento de fraqueza. Devo à sua esposa. Dona Marília, a reconquista da minha vida, a volta ao meu trabalho, enfim, ela ajudou-me a retomar o curso da minha tarefa junto à sociedade.
— Marília mudou muito, Rubens. Lutou e conseguiu vencer; enxugou suas lágrimas vivendo o amor e a caridade que Jesus tão bem exemplificou.
— É! As lágrimas são nossas e no coração devemos guardá-las; ao próximo devemos mostrar e ofertar o sorriso da amizade que o levará a acreditar cada vez mais na vida.


DE VOLTA AO LAR




O dia amanheceu chuvoso.
No coração de Marília e Laura, assim como no de Paulo e Pedro, o dia era de sol, céu azul e muita vida.
Iam apanhar Marcos e André que, devido ao bom comportamento, foram agraciados com a liberdade.
Se no coração de seus pais existia a alegria, no coração de Marcos e André existiam a culpa, o arrependimento e a sensação de que, apesar da liberdade, jamais se sentiriam livres, pois estavam presos ao passado que lhes trazia vergonha.
Os pais aguardavam com ansiedade a chegada dos garotos. Marília trazia ao pensamento os dias felizes que tivera com seus filhos, até que sua vida mudara e o sofrimento fizera-se presente a partir do desencarne de Fábio. Agora - pensava — tinha medo do futuro, da sua incerteza, do seu desconhecido.
— Meu Deus, tantas lágrimas chorei, reserve para mim a alegria de ver o André recuperado, longe da delinqüência e das drogas. Dai-me o entendimento e a condição de ajudá-lo.
— Mãe! Pai!
A emoção daqueles pais era tanta que se uniram aos filhos em um longo abraço, misturando suas lágrimas às deles. Saíram abraçados, tentando dizer aos filhos com este gesto que estariam ali, junto a eles, firmes e fortes para auxiliá-los na retomada da sua vida aqui fora.
— André - disse Marília assim que chegaram a casa —, suba e tome um banho demorado para relaxar, enquanto isso sua avó e eu vamos preparar um lanche bem gostoso para saborearmos todos juntos.
— Hoje é um grande dia, meu filho, sua mãe e eu estamos emocionados em tê-lo novamente em casa. Faça o que ela sugeriu, sem pressa. Você se sentirá melhor.
André até então não dissera uma palavra. Abraçara a todos sem nada dizer.
Olhava sua casa, seus pais, sua avó e sua irmã, com carinho, mas não tinha coragem de encará-los de frente.
Sentia-se um estranho naquela casa onde crescera e recebera amor, e ele, por leviandade, colocara tudo a perder e fora amargar meses dentro de uma prisão.
Marília, percebendo o desconforto do filho, aproximou-se dele, beijou-lhe o rosto e lhe disse:
— Filho, o que o detém? Está na sua casa, com sua família, o que está preocupando você?
— Meu quarto ainda existe?
Marília espantou-se.
— Claro filho! É claro que ainda existe e existirá sempre. Você tinha dúvidas quanto a isso? Todas as suas coisas estão lá, do jeito que você deixou. Ele é seu, esta é sua casa e nós somos sua família. Suba e tome seu banho, troque esta roupa. Vamos aguardar nosso filho para lanchar.
André não se conteve mais. Abraçando seus pais chorou como só um coração machucado e sofrido pode chorar.
— Pai, mãe, me perdoem! Pelo amor de Deus me perdoem! Eu não mereço vocês, nem estar aqui. Como pude magoá-los tanto, depois de terem sofrido a dor de ter perdido o Fábio? Como pude maltratar ainda mais seus corações?
— Calma, filho, somos seus pais e nunca deixamos de amar você. Você errou, é verdade, mas nem por isso deixou de ser nosso filho, nem por isso deixou de ser importante para todos nós. Agora, estamos juntos novamente e o momento é de recomeçar, retomar seus estudos, enfim, não cair de novo no mesmo erro.
— Obrigado, pai!
— Agora vá, filho, suba!
André subiu as escadas de dois em dois degraus. Entrou em seu quarto e a emoção misturada ao remorso o fez jogar-se na cama e chorar.
Para que o mundo possa sofrer uma melhora, o equilíbrio e a paz que todos almejam, é necessário que toda a humanidade se una e passe a se preocupar uns com os outros. E preciso que aprendam a amparar aqueles que erram e auxiliá-los a encontrar sustentação para não errar de novo. O homem dá muito carinho para as pessoas que ama, mas, para aqueles que diz não conhecer, nem o necessário para que possam viver com dignidade. Existem dores muito penosas, e uma delas é o abandono e o descaso.
O coração deve estar preparado para reconhecer um arrependimento sincero e dar as mãos àqueles que realmente querem se regenerar. Nem sempre se consegue levantar do tombo sozinho, mas, se puder contar com a mão amiga, o ombro solidário e o coração generoso, fica mais fácil se reerguer e voltar aos bons costumes. A vida é cheia de desafios e não devemos fugir deles, porque grandes obras e grandes atos de amor nascem da superação desses desafios.

Laís, ao se dirigir para seu quarto, viu a porta do quarto de André semi-aberta. "Aproximou-se e viu seu irmão sentado no chão, encostado na cama com olhar pensativo. Pediu licença e entrou.
— André, desde que você chegou noto seu ar tristonho, quieto. Você não está bem?
André olhou para a irmã e pela primeira vez notou que Laís crescera. Já não era mais uma menina. Tornara-se uma adolescente bonita e meiga.
— Vem, senta aqui do meu lado.
Mais que depressa, Laís fez a vontade do irmão. Sentia-se feliz em estar com ele e poder voltar ao tempo em que os dois, crianças ainda, eram tão unidos e amigos.
— Se abra comigo meu irmão; o que você tem?
— Laís, eu estou muito feliz em estar de volta, estar junto de vocês, receber o amor de nossos pais, mas...
— Mas! O que, André?
— Não suporto a vergonha que sinto, cada vez que olho para o papai e para a mamãe, por ter me comportado como um bandido. Eu não sou um marginal, Laís. Eu não sei o que deu em mim.
— Claro que não é André!
— Mas eu e o Marcos nos comportamos como se fôssemos. É o arrependimento que está acabando comigo. Não sei como me livrar disso, Laís, dessa vergonha. E o pior é que fiquei marcado para o resto da vida.
Os olhinhos de Laís encheram-se de lágrimas. Sofria com o sofrimento do irmão. Abraçou-o, dizendo com carinho:
— André, agora é preciso esquecer. O sofrimento maior acabou. O que conta é a sua vontade de não errar outra vez.
— Você tem razão, Laís, estou determinado; não quero mais agir de maneira leviana, agressiva até, mas sinto que preciso de ajuda; não sei se conseguirei sozinho.
— Quanto a isso não se preocupe. Papai disse que vai levar você e o Marcos para conversarem com o Dr. Rubens. Você se lembra dele?
— Claro!
— Ele se propôs a ajudá-los. Por falar nele, você ainda não soube o que lhe aconteceu!
— O que foi?
Laís narrou ao irmão, nos mínimos detalhes, tudo o que acontecera com Rubens, inclusive a transformação de sua casa no Lar de Isabela.
— Puxa, Laís, coitado do Dr. O que me impressionou mais foi a mamãe ajudá-lo dessa maneira. Como ela mudou!
— Isso é verdade. Ela disse que ele só precisava se lembrar das coisas que tinha dito para ela.
— Como assim?
— Lembra quando o Fábio morreu o jeito que a mamãe ficou? Então, foi o Dr. Rubens quem a ajudou, esclarecendo um monte de coisas, falando da vida espiritual, ah! sei lá, André, eu não entendo dessas coisas. Quando Isabela morreu, ele caiu em um sofrimento tão grande que se esqueceu das coisas que ele mesmo dizia e acreditava, e entregou-se ao desânimo que o impedia de reagir. Mamãe diz que apenas falou para ele as mesmas coisas que ele falou para ela, entendeu?
— Que barato!
— Que coisa boa ver meus dois filhos juntos como antigamente, conversando animadamente como bons irmãos! - exclamou Marília, entrando no quarto.
— Mãe, Laís me disse que o papai vai marcar com o Dr. Rubens para eu e o Marcos irmos, falar com ele.
— É verdade, André. Seu pai telefonará para ele hoje mesmo. Você não quer ir?
— Ao contrário. Estava dizendo para a Laís que preciso de ajuda. Quero e preciso ir.

— Que bom ouvir isso, meu filho. Bem, eu entrei aqui no seu quarto porque me lembrei que daqui a vinte dias é seu aniversário. Dezoito anos, meu filho! Eu e seu pai queremos comemorar.
— Não precisa mãe, não quero festa.
— Posso saber por quê?
— Tenho vergonha de encontrar as pessoas.
— Isso passa André! Vamos comemorar sim, há quanto tempo não damos uma festa aqui em casa.
— Mas como vou olhar nos olhos dos meus antigos colegas, da nossa família, mãe?
— Da mesma maneira e com os mesmos olhos que você está me olhando agora. Meu filho, você já pagou pelo seu erro, deixe-o para traz, não o traga a todo instante para seu presente. Você não deve mais nada para a sociedade. O que você deve é para as leis divinas, mas você pode trazer para sua consciência que atos levianos, imprudentes e fora da moral cristã só causam dissabores. Harmonize-se com Deus trazendo amor para o seu coração e vivendo todo o bem que pode. Agora vamos descer, o lanche será servido.
Enquanto saboreavam os deliciosos quitutes feitos cuidadosamente por Inês, todos conversavam e sorriam dando vazão à alegria que sentiam.
— Pai, o senhor conversou com o Dr. Rubens?
— Sim, filho. Marcamos para daqui a dois dias uma consulta para você.
— E o Marcos, ele não vai?
— André, assim que falei com o Rubens, liguei para o Pedro e o coloquei a par do que tínhamos combinado, informando-lhe o dia e a hora. Passados alguns minutos Pedro tornou a me ligar, muito aborrecido, dizendo que tinha dito ao Marcos e este disse-lhe que não iria.
— Não iria?
— Sim, disse ao pai que não vai porque da vida dele quem cuida é ele.
— Não acredito!
— É verdade, filho. Fiquei tão chocado quanto você. Laura e Pedro não se conformam.
— Mas isso não é possível, pai. Conversamos tanto enquanto estivemos presos, ele me falou que também estava envergonhado, arrependido do que tínhamos feito, do mesmo modo que eu. O que o fez mudar de idéia? Será que esqueceu o que é ficar preso?
— Não sei André. Só o que posso achar é que seu arrependimento e sua vergonha não eram sinceros. Parece que ele não tem intenção nenhuma de mudar de vida.
— Pai, posso falar com ele?
— Pode André. Mas cuidado para não se envolver na sua conversa e se desviar do seu propósito.
— Pode deixar pai. Quando digo que me arrependo do que fiz, que preciso de ajuda para ser o filho que o senhor e a mamãe merecem, estou sendo sincero.
— Nós acreditamos filho!
André pediu licença, levantou-se e foi até a sala telefonar para Marcos.
— Aí, Marcos, papai me disse que você não quer mais ir falar com o Dr. Rubens. Por que mudou de idéia?
— Não vou mesmo, André. Desisti. Eu não tenho nada que ver com esse médico. Nem o conheço em que ele pode me ajudar?
— Marcos, caia na real; precisamos de ajuda, sozinhos não vamos conseguir. Você disse que tinha se arrependido.
— E você acreditou André? Você é babaca mesmo, já vi que com você não dá. Nós tivemos azar da primeira vez, mas agora, com a experiência que temos, a gente faz a coisa bem-feita, e por falar nisso, tenho aqui uma da boa, topa?

— Não, Marcos, não quero mesmo. Para mim chega. Não tenho a intenção de passar a minha vida em uma cela de cadeia ou então fugindo da polícia. O que eu falei para você é sincero, quero sair dessa e vou procurar ajuda.
— Então mano, a gente termina aqui.
— Marcos, pense. Que futuro tem quem vive na delinqüência, na droga, fugindo da polícia e fazendo a família sofrer?
— Não penso no futuro, vivo o presente.
— Marcos, tudo é uma ilusão, é engano; e seus pais, não pensa neles?
— Penso em mim. Já "tô" com um lance aí, uma parada legal. Topa?
— Nem pensar. Terminamos aqui. Siga seu caminho e eu sigo o meu. Boa sorte.
— Tchau!
André desligou o telefone. Pela primeira vez em muito tempo, lembrou-se de Jesus e pediu:
— Me dá força, eu preciso de força!


CONSELHOS DE AMIGO


Sentado em frente a Rubens, André mantinha a cabeça baixa, olhos assustados e coração descompassado. Paulo deixara-o sozinho com o médico e preferira passar mais tarde, no horário combinado, para apanhá-lo.
Rubens, com toda a sua experiência, percebera o acanhamento de André e procurava colocá-lo à vontade.
— Então, André, por onde você quer começar? Não fique constrangido, considere-me um amigo porque o sou e quero ajudá-lo a superar esta fase difícil, mas não impossível, que você está vivendo. Porém, para que eu possa auxiliar você, é importante que seja sincero e não minta para mim. A transparência do nosso contato é que me fará entender melhor e analisar o melhor jeito de ajudá-lo.
— Sei que é meu amigo e confio no senhor. O senhor já deve saber tudo o que me aconteceu. Pois bem, Doutor, eu quero muito largar de fumar, de fazer as bobagens que andei fazendo, enfim, não quero ser mais motivo de lágrimas para meus pais.
Rubens gostou do que ouviu.
— Você já tem uma grande vantagem, André; você quer! A partir dessa sua vontade, da sua decisão de mudar, fica bem mais fácil sua recuperação. Quando nós compreendemos que nossas atitudes estão ficando perigosas e queremos sair fora, passamos a ter nas mãos a força que nos empurrará para o sucesso: nossa vontade.
— Mas por onde devo começar?
— Diga-me primeiro o porquê, o que o levou a experimentar a maconha.
— Quando meu irmão morreu tudo lá em casa desmoronou. Eu me senti rejeitado, pois não consegui fazer com que mamãe olhasse para mim ou para a Laís. Para ela passamos a não existir, a não ter importância. Eu sofria muito. Sofria pela perda do meu irmão e da minha mãe. Passei a ir mal à escola, falsifiquei a assinatura da minha mãe, fiz um monte de asneiras. Passei a andar com o Marcos e sabia que ele fumava maconha. Daí para começar também a fumar foi só um passo. Quando a mamãe já estava recuperada, graças ao senhor, tentei parar, mas não consegui. O resto não preciso dizer o senhor já sabe.
Rubens se envolvia com as palavras do rapaz. Com bondade e tendo o cuidado para não feri-lo em sua suscetibilidade foi explicando e respondendo a todas as perguntas feitas por ele. Deixou bem claro a André que tudo que fazemos na nossa vida é de inteira responsabilidade nossa, embora muitas vezes joguemos a culpa em uma terceira pessoa, na maioria das vezes nossos pais. Abafamos nossas fraquezas, escondemos nossas imperfeições e passamos a analisar e julgar as atitudes dos outros, não se dando ao menor trabalho e boa vontade de tentar compreender a maneira como cada passa pelo sofrimento.
O corpo não deve ser considerado nem tratado como se fosse um depósito de lixo, onde jogamos tudo o que não presta. Ao contrário, como foi dito, é importante que se dê ao corpo somente o que ele necessita para se fortalecer, ser saudável e dar condições de prosseguir a jornada no plano físico.
Ora, se com a imprudência de hábitos nocivos à saúde saturarmos o corpo material, o que se pode esperar, além dos distúrbios dos órgãos físicos e também do perispírito? A importância da preservação da vida pela conscientização de que todo ser é aquilo que pensa que ingere que age e que pratica deve ser constante na compreensão da vida. Drogar-se, alcoolizar-se, é tirar o funcionamento normal e natural dos órgãos do corpo de matéria, sem dizer do estrago no corpo fluídico, e a conseqüência dessa imprudência virá, com certeza, tanto no plano terrestre como no plano espiritual. O Criador, ao presentear seus filhos com o livre-arbítrio, deu-nos condições de discernir o que é bom e o que é ruim para nossa integridade física, moral e espiritual. Cabe a cada um perceber e definir o que quer para sua vida, se a felicidade ou o sofrimento. Cada um deve saber quanto vale a sua vida; qual a importância que tem para si a experiência abençoada da reencarnação e o que pretende viver no futuro por ocasião do seu retorno. Geralmente o homem exige paz e solicita da Vida Maior esta tão sonhada paz, esquecendo-se de que ela só pode ser encontrada dentro de nós e não fora. Seu nascimento se faz na alma de cada um, e todos os seres devem ter consciência de que somente eles poderão fazer com que a paz envolva o planeta. E isso que Deus espera que os homens compreendam, que o mundo poderá se tornar melhor quando eles perceberem que podem modificá-lo somente por meio de seus hábitos, de suas virtudes e de sua integração com o semelhante.
Sonhar é equilíbrio quando colocamos o sonho dentro da realidade saudável e produtiva, isto é, sonhar e querer a paz para o mundo só é válido a partir do momento em que se luta para que ela aconteça, e se compreende que somente o amor transforma o homem, e onde existir o amor existirá a paz.
Após duas horas de diálogo entre André e Rubens, este encerrou a conversa deixando marcado outro encontro na semana seguinte.
André retornou ao lar mais confiante e esperançoso. Chegou com Paulo, alegre e mais descontraído. Sentia-se mais seguro com a ajuda de Rubens.
— Que bom vê-lo assim feliz, meu filho!
— Mãe, Dr. Rubens é o máximo. Tivemos uma conversa muito boa, com explicação sobre tudo o que me incomodava. Estou confiante de que vou conseguir.
— Claro que vai, André.
— Ele agendou outra consulta para a semana que vem. É uma espécie de terapia. Não vou faltar, mãe, quero muito melhorar e me salvar.
— André, você não imagina como eu e seu pai estamos felizes. Acreditamos em você porque sabemos que sua intenção é boa e sua vontade, verdadeira.
— Mãe! É verdadeira! Só uma coisa me deixa triste.
— O quê, filho?
— Marcos! Por que ele não quer ajuda, mãe?
— André, não podemos mudar as convicções de ninguém. Podemos e devemos, sim, orientar, mas as mudanças acontecem quando a pessoa as deseja e as permite. Os pais de Marcos já fizeram tudo que podiam, mas nada conseguiram. Ninguém muda pela vontade do outro, mas sim pela própria vontade. O Marcos não quer, prefere a vida de riscos e incertezas que o levará ao sofrimento e à dor, tanto sua como de sua família.
— Dr. Rubens aconselhou-me a não ficar inativo em casa. Como estamos no final do ano e só voltarei a estudar no ano que vem, orientou-me a praticar algum esporte. Sabe, mãe, ele me convidou para ajudar nos últimos preparativos para a inauguração do Lar de Isabela, que está prevista para 24 de dezembro.
— E você, filho, aceitou?
— Claro mãe. Ele disse que quando ficamos muito tempo sem fazer nada, sem ocupar nossa mente com algo produtivo, somos alvo fácil de pensamentos prejudiciais que nos levam a cometer atos dos quais podemos nos arrepender mais tarde.
— Que bom André! Que bom saber que vai nos ajudar. Precisamos mesmo de pessoas jovens que têm mais disposição para certos trabalhos mais pesados. Fico muito feliz.
— A Laís está ajudando também?
— Está! Ela e Laura estão providenciando toda a parte de cama, mesa e banho das gestantes que ficarão internadas, assim como dos enxovais que receberão aquelas que freqüentarem o curso.
— Bonito esse trabalho, mãe!
— É, André, é um trabalho muito bonito. Quiçá a maioria das pessoas se conscientizasse da importância dele, quanto podem colaborar para tornar o mundo melhor e as pessoas mais felizes.
— A senhora encontrou seu equilíbrio, não, mãe?
— Sim! Consegui perceber que, quando secamos nossas lágrimas com revolta, desespero e descrença, elas passam a nos queimar como brasas, mas, ao contrário, se elas forem secas com atos de amor e olhar de compaixão com o próximo, encontramos a paz, porque nosso coração estará repousando no amor de Deus. Foi o que fiz, entreguei minha dor ao amor de Deus e hoje sou feliz da maneira que posso ser.
— A senhora nunca desanimou, mesmo depois que eu a fiz sofrer.

— Escute André, devemos lutar contra o desânimo, a melancolia, enfim, contra tudo que possa nos impedir de prosseguir na fé em nosso Criador. A prática do bem, a sensibilidade em perceber o sofrimento alheio nos faz esquecer-se do nosso problema e nos torna pessoas melhores.
André, como há muito tempo não acontecia, olhando para sua mãe chorou de emoção.
— Mãe, eu te amo! — e abraçou-a com carinho.


MARCOS SE COMPLICA


Laura, ao desligar o telefone, sentiu uma vertigem e desfaleceu. Pedro que se encontrava na sala, próximo a esposa, correu a socorrê-la, atônito sem entender o porquê do desfalecimento e o que teria escutado no telefone que a fez sentir-se mal. Após breves instantes, Laura se reanimou.
— Querida, o que aconteceu de tão grave que a deixou assim tão abalada? Diga-me!
— Pedro, sinto-me morrer.
— Pelo amor de Deus, Laura, conte-me logo! - exclamou Pedro, demonstrando total nervosismo.
— O Marcos!
— O que tem o Marcos?
— O que fizemos Pedro? Onde erramos? Ou melhor, eu errei e agora pago pelo meu erro do passado.
— Laura, o que é isso agora. Acalme-se e conte-me o que aconteceu com o Marcos para deixá-la nesse estado.
— Ligou um tal de Nestor procurando pelo Marcos.
— E o que queria com ele?

— Disse que era a última vez que cobrava a dívida, se ele não pagasse em vinte e quatro horas, ele o apagava.
— Ele disse isso, que o apagava?
— Disse!
— E você, o que respondeu?
— Nada. Não deu tempo. Ele falou assim e desligou antes que eu tivesse qualquer reação. Aí, senti-me mal e desmaiei.
— Meu Deus, que dívida será essa, Laura? Onde o Marcos está se metendo?
— Não sei. Mas só pode ser dívida de droga, Pedro. Ele não quis receber ajuda assim que voltou para casa, e não largou de fumar maconha. Tenho medo de falar, mas acho que nosso filho se envolveu com drogas mais pesadas.
— Será, Laura? Será que Marcos é tão inconseqüente a esse ponto?
— Infelizmente acredito que sim. Há quanto tempo ele e André fumavam maconha? Envolveram-se até em assalto, ficaram recolhidos em um reformatório. André se arrependeu e procurou ajuda, mas Marcos se negou. Desde que retornou para casa parou de andar com André e se envolveu com péssimas companhias.
— É ele me disse um dia que não andava mais com o André porque ele tinha ficado babaca.
— Ele me disse isso também.
— Paulo me contou que até hoje o André se trata com o Dr. Rubens, pratica esporte e continua ajudando vocês no Lar de Isabela. Pena que nosso filho não quis seguir seu exemplo.
— É, e cada vez se afunda mais. Tenho medo, Pedro, medo do que possa acontecer com ele.
— Assim que Marcos chegar, falarei com ele.
— É bom que fale, mas acredito que não adiantará.
— Mas sempre vale a pena tentar, Laura.
— Isso é verdade.
As horas passaram. Pedro e Laura não continham mais a ansiedade. Os dois sentados na cozinha tomavam uma xícara de café quando ouviram o barulho da porta da frente. Laura, impaciente, gritou:
— Marcos, é você?
— Sim, mãe, sou eu.
— Por favor, filho, venha até aqui. Precisamos falar com você.
Marcos desconfiado, e já colocando no rosto uma expressão de defesa, aproximou-se dos pais e lhes disse:
— Algum problema?
Foi Pedro quem respondeu:
— Sim, Marcos, problemas!
— E posso saber quais?
Pedro continuou:
— Claro que pode, porque eles são seus, você é o responsável por eles.
— Sermão há esta hora, estou fora.
Ia saindo da cozinha quando ouviu a voz enérgica do pai.
— Marcos! Sente-se aqui porque vamos conversar.
— Outra hora, pai.
— Agora!
Marcos nunca tinha visto uma atitude tão severa de seu pai. Pela expressão de seu rosto achou melhor obedecer. Sentou-se em frente a sua mãe.
— Pronto. Estou sentado, o que o senhor quer?
— Primeiro que tenha uma postura mais educada. Pedro respirou fundo e abrandou a voz:
— Marcos, você nos preocupa. Em que você está metido? Com quem está andando?
— O que é isso agora, pai? Vai começar a me controlar? Esqueceu que dentro de poucos dias completo dezoito anos? Eu e o André temos a mesma idade, lembra? Nossa diferença é de apenas uma semana.
— Marcos, não estamos falando do André, estamos preocupados é com você. Você é nosso filho.
— Preocupado com quê? Não fiz nada!
— Quem é Nestor?
Pedro perguntou tão de repente que Marcos, empalidecendo, ficou sem reação.
— Responda-me quem é Nestor? - repetiu Pedro.
— Eu... eu sei lá. Não conheço nenhum Nestor.
— Conhece sim! - gritou Laura
Pedro, observando o descontrole da esposa, pediu:
— Fique calma, Laura. Deixe-me resolver isso com ele.
Voltando-se para Marcos continuou:
— Você sabe, sim. Quem é Nestor? Ele ligou para cá cobrando uma dívida. Que dívida é esta?
Marcos não sabia o que dizer. Percebeu que não conseguiria mais enganar seu pai e receava sua reação.
— Uma dívida boba, pai.
— Não me enrola, Marcos. Quero saber que dívida é essa, de quanto é e quem é Nestor?
— O senhor não vai entender!
— Entender o quê? Que você se envolveu com droga pesada e ele está cobrando porque é um traficante? É isso?
— Tudo bem, já que vocês querem saber, é isso sim. Eu me drogo sim e devo a ele o dinheiro da droga que comprei. E isso é problema meu.
Pedro e Laura sentiram-se como se lhes faltasse o chão. Enquanto Laura chorava, Pedro tentava o mais que podia controlar o nervosismo e o medo.
De repente Marcos lhe pareceu um estranho.
Nada lembrava o menino que criara e que o acompanhava ao jogo de futebol aos domingos. Não conseguia emitir nenhuma palavra. Apenas olhava seu filho e internamente se perguntava: por quê?
As vicissitudes da vida não são sempre punição das faltas atuais. São provas impostas por Deus ou escolhidas por vós mesmos quando no estado de espírito e antes da vossa reencarnação, para expiar as faltas cometidas numa outra existência. Porque jamais a infração das leis de Deus, e, sobretudo da lei da justiça, fica impune; se a punição não é falta nessa vida, será necessariamente em outra. É por isso que aquele que é justo aos vossos olhos vê se freqüentemente tingido pelo seu passado. (Livro dos Espíritos - Capítulo 1
- (item V - pergunta 984).
Pedro dirigiu-se até a geladeira, pegou um copo com água e tomou-o de um gole só. Estava dando a ele mesmo um tempo para conseguir assimilar o que o filho lhe dissera. Laura não conseguia conter o pranto. Marcos, impaciente, quase gritou:
— Então! Vão ficar aí sem dizer nada? Digam alguma coisa, reclamem, briguem, ou estão esperando que eu caia de joelhos e peça perdão? É isso?
Pedro e Laura estavam atônitos. Não acreditavam ser o filho que tanto amavam quem os afrontava daquela maneira. O brilho dos seus olhos estava embaçado pelas lágrimas. Pedro, recuperando o autocontrole, respondeu:
— Escute aqui. Marcos, por maior que seja o amor que temos por você, exigimos que nos respeite. Abaixe seu tom de voz, aqui não existe ninguém surdo, mas pessoas educadas, e eu não estou brincando!
A valentia de Marcos enfraqueceu ao ouvir a voz enérgica e segura do pai. Sentiu que eles não estavam realmente brincando.
— É que vocês ficam me regulando, "poxa"!

Laura, um pouco mais calma, dirigiu-se ao filho e com esforço falou de maneira mais terna:
— Meu filho, acho que você já entendeu que o meu amor por você é um sentimento real e verdadeiro. Tudo foi explicado há tempo e eu senti que você me perdoou. Eu lhe pergunto então: por que você nos agride dessa maneira? Por que não quer se tratar, se cuidar e voltar a ser a pessoa que era tempos atrás? Podemos refazer tudo, recomeçar de novo, reconstruir nossa família trazendo harmonia e felicidade para todos.
— Mãe, eu sou assim!
— Não, filho, você não é assim. Você ficou assim porque relutou e reluta ainda em aceitar os ensinamentos que nos tornam pessoas melhores. Mas você pode deixar de ser, basta que queira se modificar.
Pedro, apoiando a esposa, continuou:
— Reconheça que você é um viciado Marcos. A partir daí aceite a ajuda de quem está lhe oferecendo.
— Pai, eu não sou um viciado. Paro a hora que eu quiser.
— Então queira e pare pelo amor de Deus! - gritou Laura.
— Calma, Laura, controle-se!
— Não posso Pedro, não agüento mais!
Pedro fez um carinho na esposa e continuou dirigindo-se a Marcos:
— De quanto é essa dívida?
— É "porcaria", pai, pouca coisa.
— Pouca coisa, quanto? - insistiu Pedro.
— R$ 200,00!
— E onde pretende conseguir esse dinheiro?
— Não pretendo, já consegui.
— Como?
— Não importa pai. Fica "frio" que já tenho o dinheiro para pagar. Já disse que isso é um problema meu, e depois o Nestor não tinha nada que ligar para cá.
— Marcos - insistiu Pedro —, como você conseguiu esse dinheiro?
— Fiz um serviço aí para um cara amigo meu e ele me pagou. Agora chega! Não sou mais criança para ter que dar tanta satisfação. Sei comandar minha vida.
— Não é criança, mas age como tal, metendo-se sempre em enrascadas - disse Laura.
— Dá um tempo, vai, vou sair.
Virou as costas e saiu, deixando seus pais boquiabertos com sua atitude.
— Pedro, isso não vai acabar bem.
— Eu sei Laura. Também estou angustiado e temeroso como você, mas para ser sincero não sei mais o que fazer.
Quando relutamos em reconhecer nosso erro, toma-se difícil sair dele. Sofremos e fazemos sofrer nossa família e as pessoas que nos amam. Nem sempre temos condições de sair sozinhos do lamaçal no qual nos metemos, é hora de pedir ajuda e aceitá-la com a certeza de que somente assim teremos condições de renovar nossa vida. Muitos se envolvem em um emaranhado de enganos, confusões e ilusões, e se torna muito difícil achar a ponta desse novelo e encontrar de novo o bom caminho. A droga é o que o nome diz: uma droga! No início leva seus adeptos à euforia, ao êxtase, à sensação de poder e depois atira-os no inferno, transformando-os em farrapos humanos, sem dignidade e sem noção de respeito e de responsabilidade. Rouba-se, mata-se e violenta-se em nome da droga. Passam a viver como servos dessa substância alucinógena, cometendo barbaridades e machucando os corações sensíveis e amorosos dos pais. O estrago feito no corpo físico é grande, mas nada comparado ao estrago no perispírito. A dor acompanhará esses insensatos além-túmulo, e a conseqüência virá por meio do sofrimento que experimentaram na espiritualidade. As lágrimas virão e o arrependimento também ao perceberem que deformaram seu corpo fluídico com entorpecentes e que desperdiçaram a bênção da encarnação na Terra, por conta da satisfação de desejos vis; corromperam-se em nome de algo desprezível e inútil.
Portanto, pensem muito antes de se entregarem a algo perigoso, porque poderão não conseguir sair. Se quiserem que uma coisa dê certo lá na frente, têm de começar a cuidar dela agora.
Como disse Jesus: "Orai e vigiai", para que seus passos possam levá-lo ao encontro da verdade e, conseqüentemente, da felicidade.


DIA DE FESTA


Marília não se cansava com os preparativos para a festa de André. Tudo fora cuidadosamente organizado.
A alegria de Marília e Paulo só era embaçada, às vezes, pela saudade de Fábio e o desejo de que ele estivesse ali, naquele momento junto ao irmão no dia em que este completava dezoito anos. Mas, com a força da fé que os amparava, logo tomavam a satisfação de poder, não tanto pelo aniversário do filho, mas pela graça recebida por sua recuperação. Fábio - sabiam — com certeza estaria protegendo o irmão e feliz em ver sua família retomando a paz perdida.
Tudo o que lhes acontecera fizera-os amadurecer na fé e na crença de que, quando se sofre com Jesus no coração, a possibilidade de permanecer de pé é bem maior e mais segura. Jesus fortalece aquele que O recebe.
— Mãe, não precisava tanta preocupação com o meu aniversário, afinal, é só um aniversário, mais um ano de minha vida. Não justifica tanto trabalho.
— Justifica sim, André. Nós sabemos que é só mais um ano de sua vida, mas para nós é como se estivéssemos recebendo você de novo, pequenininho, em nossos braços. Jamais nos cansaremos de agradecer ao Pai por ter permitido que você voltasse para nós da maneira que sempre foi gentil, educado e digno. Isso para nós, filho, não tem preço. O que estamos fazendo hoje é apenas externar o que nos vai à alma: felicidade!
— Está bem, mãe, façam tudo como quiserem; queria apenas poupá-los.
— Você convidou o Marcos?
— Desde aquele dia que falei com ele no telefone, lembra, no início do tratamento com o Dr. Rubens, ele não falou mais comigo. Cada um seguiu seu caminho.
— É uma pena. Laura e Pedro têm sofrido tanto por causa dele.
— A senhora sabe de alguma coisa?
— O que sei vem por meio do desabafo de Laura. Ele continua se drogando, se envolveu com traficantes e ela desconfia que deve até praticar algum furto ou coisa parecida.
— Por quê?
— Porque ele não trabalha, e eles não sabem onde ele arruma dinheiro para sustentar o vício.
— E não procuraram saber?
— Inúmeras vezes. Muitas mesmo, mas em todas elas só conseguiram gritos, brigas e agressões verbais como resposta. André, se os filhos soubessem a grande dor que causam no coração de seus pais quando assumem posturas inadequadas e perigosas, teriam mais controle e cautela na vida.
— E eu já causei esta dor, não é, mãe?
— Filho, não se culpe mais, pois nós já lhe dissemos várias vezes que já lhe perdoamos e admiramos você pela luta que travou consigo mesmo. Uma luta que, graças a Deus e ao Dr. Rubens, você venceu. Hoje nos proporciona muita alegria; pela sua mudança, seu trabalho voluntário no Lar de Isabela, enfim, por voltar a ser o filho que criamos e amamos tanto.
— Obrigado, mãe. Por falar no Lar de Isabela, falta pouco para a inauguração. Sabe que estou ansioso.
— Eu também. Todos nós estamos. Dr. Rubens escolheu uma data bonita para inaugurar: véspera de Natal.
— É verdade, não podia ter escolhido data melhor e mais bonita.
— Bem, agora vamos nos apressar; logo mais seus amigos e nossa família estarão aqui para abraçar você.
— Tem razão. Quer que eu arrume as mesas e as cadeiras?
Marília, feliz como uma criança, aceitou.
— Faça isso, André, por favor. Chegando próximo à escada gritou:
— Laís, venha nos ajudar, filha.
Ao cair da noite, tudo estava pronto.
Os primeiros convidados começaram a chegar trazendo mais alegria para Marília e Paulo.
André, ao contrário do que pensava, estava descontraído e feliz.
Recebia os convidados com cortesia e agradecia a todos o carinho da amizade.
Tudo transcorria em perfeita harmonia. Para Marília a noite estaria perfeita, se não fosse a preocupação com os amigos Laura e Pedro, ao notar a tristeza nos olhos deles.
— Não fique assim, amiga. Tudo irá se resolver. Um dia Marcos perceberá o inferno em que está se metendo e sua razão voltará. Confie, Deus sabe o momento certo de intervir.
— Eu sei Marília. Se não fosse a amizade de vocês, do Dr. Rubens e nosso trabalho social, não sei, acho que tanto eu quanto Pedro já teríamos sucumbido. Há momentos em que pensamos não agüentar mais, aí, lembramos do que o Dr. Rubens sempre diz: "nenhuma dor pode ser maior que o amor de Deus por nós", e, segurando nesse amor, prosseguimos.

— É assim que deve ser Laura, mas hoje é dia de festa. Dê uma trégua para sua cabeça e seu coração e divirta-se.
A reunião prosseguia animada e descontraída. No momento em que André se preparava para soprar suas dezoito velas e servir o bolo, o inesperado aconteceu. Marcos, descontrolado, drogado e agressivo, apareceu. Entrando na sala, gritou para o antigo amigo, tomando uma postura inadequada e provocativa:
— Parabéns, babaca! Que cena mais comovente, o filhinho da mamãe apagando as velinhas, Não tem vergonha "meu"? - gritou mais alto ainda. — Vai ficar eternamente agarrado na saia da mamãe, é? Vim te trazer um presente,
olha, tenho aqui uma da boa, "tá ligado"?
Laura, estupefata e mal podendo se controlar aproximou-se do filho e, tentando segurá-lo, lhe disse:
— Pelo amor de Deus, Marcos, pare!
— Parar? Eu mal comecei!
— Vamos embora!
Sem que Laura esperasse, recebeu do filho um empurrão e teria caído no chão se Pedro não fosse rápido e a tivesse segurado.
— Que embora que nada, acha que vou perder essa cena patética? Meu antigo companheiro dando uma de bonzinho? Qual é "mano"?
Pedro, assim que atendeu a esposa, voltou-se para o filho e, segurando-o firme pelo braço, puxou-o levando-o para fora.
Paulo imediatamente acompanhou o amigo.
André, sem se importar com o que pudessem dizer, chorou.
Marília e Inês estavam atônitas. Não sabiam como agir, se davam continuidade à festa ou se davam por encerrada aquela noite que prometia ser uma das mais felizes para elas.
Assim que Laura se recompôs, levantou-se. Enfrentando os olhares indagadores dos presentes, disse de uma maneira que surpreendeu a ela própria:
— Por favor, perdoem-nos. Como vocês todos puderam presenciar, eu e meu marido estamos passando por um momento difícil de nossa vida. Não posso mais esconder nem negar: meu filho é viciado em drogas. Pedro e eu não sabemos mais o que fazer para ajudá-lo. Ele não quer ajuda. Gostaria que os jovens aqui presentes pensassem muito bem antes de entrar pelos caminhos perigosos das drogas. A volta é sofrida para todos. Não sigam o exemplo do meu filho, mas sim o exemplo de André, que mostrou que tudo é possível quando existe vontade. Peço que me desculpem.
Olhando diretamente para Marília, disse com voz suplicante:
— Para que eu não me sinta pior do que estou me sentindo, por favor, continue a festa; o André merece vocês merecem. Vocês têm o que comemorar. Com licença.
Virou-se para sair.
Marília, visivelmente emocionada, abraçou-a com carinho.
— Um dia isso vai passar minha amiga. Não desanime.
— Eu sei Marília. São vocês que nos dão força, com amizade sincera. Eu estou bem. Por favor, continue a sua festa, eu lhe peço, e não se zangue comigo, eu vou me retirar, vou ver o que podemos fazer com o Marcos.
— Eu compreendo Laura. Rogo a Deus que os ampare.
Laura retirou-se acompanhada por Rubens. A festa continuou, mas sem o brilho anterior.
Pedro, com a ajuda de Paulo, levou Marcos para casa. Mal conseguiam segurá-lo tamanha a força com a qual ele lutava com os dois.
Assim que chegaram, colocaram-no no quarto e saíram trancando a porta. No andar de baixo podia-se ouvir os gritos de Marcos.

Pedro sentou-se, cobriu o rosto com as mãos e chorou.
— Meu amigo, estamos todos nós solidários com a sua dor. Em que podemos ajudá-lo? Não se intimide, conte sempre conosco.
— Não sei mais o que fazer Paulo. É como se estivesse acorrentado e vendo o fogo destruir meu lar.
Passados poucos instantes, Laura chegou com Rubens. Ao ver o marido naquele estado correu a abraçá-lo. Rubens e Paulo olhavam os dois amigos, juntos, abraçados, sofrendo a mesma dor e não puderam deixar de se sensibilizar até as lágrimas.
De repente perceberam o silêncio.
— Será que ele dormiu Rubens? - indagou Pedro.
— Pode ser talvez tenha se apagado sob o efeito da droga. Vamos vê-lo.
Ao abrir a porta do quarto, a surpresa: Marcos havia pulado a janela do quarto, no andar de cima da casa, e fugido. Diante do espanto dos dois amigos, Laura disse:
— Ele já fez isso antes. Da janela, segura-se no galho dessa árvore que é bem próximo e desce por ela.
— Por que não me lembrei disso? - culpou-se Pedro.
— Porque você é humano - disse Rubens, para aliviar a tensão de Pedro. — Estava sob forte pressão emocional, é bastante compreensível.
— E agora, Laura, o que será do nosso filho?
— Não sei Pedro, não sei mesmo; vamos aguardar.
Rubens e Paulo despediram-se dos amigos, deixando-os mergulhados em profunda dor. No caminho Paulo perguntou ao médico:
— Rubens, diga-me, até quando sofrerão com isso?
—Não sei lhe dizer, Paulo. Só posso afirmar que se Marcos não quiser ser ajudado, pouco eles poderão fazer. Na dependência química, para que o tratamento surta o efeito desejado é necessário que o dependente cumpra sua parte através da sua vontade e determinação em ficar limpo. A volta é muito sofrida. É comum aos usuários de droga serem internados contra a vontade, porém, assim que se desintoxicam e voltam ao lar, a primeira coisa que procuram é a droga. Mas quando reconhecem e aceitam que são dependentes e procuram ajuda, tudo fica mais fácil e a recuperação é mais segura. Na realidade não existe cura, e sim, abstinência; é vencer cada dia, como o alcoolismo. Cada dia é uma etapa vencida, mas sabem que se experimentarem novamente tudo voltará. A internação contra a vontade do dependente se faz em casos graves, realmente necessários.
— Meu Deus, por que os jovens hoje andam tão loucos ao ponto de comprometerem sua saúde, seu futuro e sua vida por conta de prazeres fictícios? Vivem a ilusão por algum tempo e, posteriormente, voltam à dura realidade de quem é viciado.
— É, Paulo, os jovens deveriam ser mais prudentes consigo próprios. Não colocar a perder nem arriscar uma vida que poderá ser promissora.
A festa de André, por não mais ter mantido o brilho do início, logo terminou. Ninguém ousava falar mais nada. Preparavam-se para dormir quando André entrou no quarto de seus pais e lhes disse:
— Pai, mãe, obrigado. Valeu!
Sem esperar resposta, virou-se e dirigiu-se para seu quarto.
Marília e Paulo olharam-se e, cada um, sem nada dizer, agradeceu mais uma vez a Deus a graça recebida.
Passaram-se doze dias após o aniversário de André.
— E aí, Laura, Marcos apareceu?
Marília não podia ver o abatimento no rosto da amiga.
— Obrigada por me ligar, Marília. Não, ele não apareceu ainda. Pedro já deu queixa na delegacia; estamos desesperados, não sabemos o que fazer, estamos perdidos e assustados.
— Temos orado muito por ele, amiga. Ele vai aparecer, vivo você vai ver.
— Deus a ouça! - exclamou Laura, demonstrando uma tristeza que mal conseguia esconder. — Imploro a Deus que ele esteja vivo e que volte para nós.
— Ele vai voltar Laura, confie em Deus. Assim que ele aparecer, por favor, nos avise. Se precisarem de alguma coisa nos procure.
— Obrigada, Marília, sabemos que podemos contar com vocês. O Dr. Rubens também tem ligado todos os dias para saber notícias. Assim que ele voltar, nós avisamos.
Laura, desligando o telefone, sentou-se e pegando o Evangelho Segundo o Espiritismo leu:
— Os sofrimentos por causas anteriores são, freqüentemente, como 05 das faltas atuais, a conseqüência natural da falta cometida; quer dizer, por uma justiça distributiva rigorosa, o homem suporta o que fez os outros suportarem; se foi duro e desumano, ele poderá ser, a seu turno, tratado duramente e
com desumanidade; se foi orgulhoso, poderá nascer em uma condição humilhante; se foi avarento, egoísta, ou se fez mal uso da sua fortuna, poderá ser privado do necessário; se foi mau filho, poderá sofrer com os próprios filhos etc. (Evangelho Segundo o Espiritismo — Capítulo V — item VII).
Laura fechou o livro e, elevando o pensamento até Nosso Pai, orou:
— Senhor, não sei o que fui ou o que fiz na minha vida passada, mas sei que não sofro injustamente porque confio no amor e na tua justiça. Peço perdão pelo que possa ter feito e suplico auxílio para que saiba, pela paciência e pela aceitação dos teus desígnios, consertar o que estraguei e suportar com coragem e fé tudo que possa estar ainda por vir. Ajude-me a vencer.
Ainda estava com o pensamento direcionado ao Pai, quando voltou à realidade ao ouvir o barulho da porta fechando bruscamente. Olhou assustada e ficou perplexa com o que viu.
Marcos estava ali, parado, sujo e malcheiroso. Olhar espantado, mostrando pelo seu aspecto fraco e cambaleante que nada tinha comido até então. Suas roupas estavam rasgadas e seus pés, descalços.
Laura, cedendo aos seus impulsos e sem tirar os olhos do filho, pegou o telefone e ligou para Pedro.
— Pedro, por Deus, venha correndo. Marcos está aqui e eu estou assustada.
— Calma, querida, estou indo.
Laura realmente estava sem ação, tamanho era seu espanto com a figura do filho. Sentia um misto de alegria e tristeza, e não saberia definir qual sensação era mais forte. Marcos continuava olhando-a sem nada dizer. Parecia dementado. Com passos imprecisos, Laura foi se aproximando receosa. Tinha medo do que poderia acontecer.
— Filho, por onde andou? Por que está nesse estado?
Marcos continuava em silêncio. Laura, seguindo o impulso natural nas mães, enlaçou-o em seus braços, sem se importar com o odor fétido que exalava. Foi assim que Pedro os encontrou.
— Marcos! O que aconteceu, meu filho, que estado é esse tão deplorável?
— Ele está assim, Pedro, desde que chegou. Não saiu do lugar e não disse uma palavra. Veja o estado dele, estou assustada.
— Laura, melhor chamar o Rubens. Ele precisa de atendimento médico.

Enquanto aguardavam a chegada de Rubens, levaram Marcos para o banheiro, despiram-no e colocaram-no embaixo do chuveiro. Os dois tentavam controlar a emoção de ver o filho, o único filho, naquele estado quase de demência.
Após o banho, vestiram-no com pijama limpo e o acomodaram em sua cama confortável e cheirosa.
Marcos deixava-se conduzir sem ter nenhuma reação ou emitir nenhum som.
Assim que Rubens chegou, colocaram-no ciente de como ele chegara e o levaram até ele. Marcos, deitado, olhava para o teto com os olhos parados, dando a impressão que nada via. A proximidade de Rubens, ele teve um leve tremor.
Rubens examinou-o com cuidado.
— Ele está em estado de choque - disse. — É preciso levá-lo para o hospital. Necessita de atendimento médico e só terá o que precisa dentro de um hospital.
— Mas como vamos saber o que aconteceu com ele, Dr. Rubens?
— Dona Laura, ele agora não tem a mínima condição de explicar nada. Precisamos tratar dele com urgência. Mais tarde, quando melhorar e tiver condições de falar, explicará tudo. Tenham paciência, é necessário aguardar. Vou chamar o resgate para levá-lo.
— Faça o que achar melhor, Rubens.
— Fiquem calmos, ele ficará bom.
— Podemos ir com ele?
— Claro, é mesmo necessário que estejam com ele.
Laura e Pedro discretamente enxugaram uma lágrima que teimava em cair.
Assim que o resgate chegou, acompanharam o filho até o hospital.


NO LIMITE DA DOR


Sentados na sala de espera, Laura e Pedro dividiam um com o outro a dor que machucava seus corações. De repente tudo se confundia em suas mentes, e o mundo parecia desmoronar. A vida tranqüila que levavam fora derrubada por um furacão e eles, perdidos e ainda confusos, não conseguiam se posicionar e saber qual a melhor atitude a tomar.
— Pedro, sinto medo, muito medo! Medo do que está por vir.
— Laura, confesso que também sinto medo e não sei o que fazer. Estou temeroso como você, é como se me faltasse o chão para pisar.
— É, sei bem como é isso.
Deram-se as mãos como que tentando adquirir um com o outro a força que faltava em seus corações. Por um longo tempo ficaram assim, juntos, calados, mas cada um sentindo a dor dilacerar o coração. Tão absortos estavam que nem perceberam a presença de Marília e Paulo. Ao toque suave da mão de Marília em seus cabelos, Laura reagiu como se saindo de um mundo longínquo.

— Marília, é você! - exclamou quase num sussurro.
— Minha amiga, que momento doloroso este que estão passando. Viemos aqui para saber de Marcos e verificar se não precisam de alguma coisa.
— É verdade - complementou Paulo. — Sabem que podem contar conosco para tudo o que precisarem.
— Meus amigos - disse Pedro emocionado —, estamos precisando mesmo de alguém que nos dê forças e não nos deixe cair na desesperança.
— Viemos porque Rubens nos ligou informando o que tinha acontecido, até então não sabíamos de nada.
— Ele achou que vocês precisariam de amigos que pudessem ampará-los nesse momento.
— Já avisaram a família de vocês?
— Não, Paulo, Laura e eu achamos melhor não preocupá-los, já que moram tão longe e pouco poderiam fazer.
— É verdade, íamos fazê-los sofrer. Minha mãe, assim como a de Pedro, já tem idade avançada, meu sogro está doente. Achamos melhor poupá-los.
— Rubens imaginou que agiriam assim, por isso colocou-nos a par da situação para que pudéssemos estar junto de vocês.
— É sempre bom termos alguém do nosso lado quando enfrentamos situações difíceis.
— Obrigada. Vocês fizeram muito bem em vir. A dor que sentimos está difícil de suportar sozinhos.
— Tranqüilize-se, Laura, Deus vai ampará-los, com certeza, fortalecendo-os para que não percam a esperança e a fé nesse momento crítico. É necessário prosseguir com valentia. É o instante em que Marcos mais precisará de vocês.
— Sabemos disso, mas nem sempre agimos em conformidade com a nossa razão.
— Vão conseguir, amiga, vão conseguir, com certeza.
Nesse instante Rubens entra trazendo notícias.
— Se quiserem, podem entrar para vê-lo. Ele está dormindo, nesse momento é muito importante o sono, portanto não o acordem, deixem que ele desperte sozinho.
— Mas o que aconteceu, Dr. Rubens?
— Dona Laura, como já foi dito, ele não tem condições ainda de explicar nada. Está emocionalmente muito abalado. Por causa disso é fundamental que descanse bastante. Fique tranqüila, ele não corre risco algum de vida.
— Então, o que acontece? - perguntou Pedro.
— Seu filho deve ter passado por momentos de tensão intensa, muito sofrimento e, em vista disso, abalou-se emocionalmente. É uma reação comum nesse tipo de situação.
— Mas ele ficará bem, não terá nenhuma seqüela?
— Fisicamente sim, não terá problema algum. Com certeza deverá ter um acompanhamento psicológico e um tratamento desintoxicante, isto é, limpar seu corpo dos efeitos das drogas.
Os olhos de Laura umedeceram. Sensível à dor da amiga, Marília abraçou-a.
Quantos pais são infelizes com seus filhos, porque não combateram suas más tendências no princípio! Por fraqueza ou indiferença, deixaram desenvolver neles os germes do orgulho, do egoísmo e da tola vaidade que secam o coração; depois, mais tarde, recolhendo o que semearam, se espantam e se afligem da sua falta de respeito e ingratidão. Que todos aqueles que são atingidos no coração pelas vicissitudes e decepções da vida interroguem friamente sua consciência; que remontem progressivamente à fonte dos males que os afligem, e verão se, o mais freqüentemente, não podem dizer: se eu tivesse, ou não tivesse feito tal coisa eu não estaria em tal situação. (Evangelho Segundo o Espiritismo — Capítulo V, item 4)


Pedro e Laura entraram no quarto do filho. Pararam próximo ao leito e, emocionados, observaram Marcos que dormia. Pedro segurou a mão da esposa pedindo-lhe, com este gesto, que lhe desse força.
— Vai ser difícil, Pedro, muito difícil. Ás vezes me pergunto o porquê de tudo isso estar acontecendo conosco. Será que somos tão ruins assim; será que ainda não me redimi do meu erro, ao ponto de experimentar tanta dor?
— Eu também me pergunto e não encontro resposta, Laura. Mas algum motivo deve ter; deve existir alguma explicação, só não conseguimos entender qual.
Todo efeito tem uma causa. Ora, a causa precedendo sempre o efeito, uma vez que não está na vida atual, deve ser anterior a ela, quer dizer, pertencer a uma existência precedente. Por outro lado. Deus não poderia punir pelo bem que se fez, nem pelo mal que não se fez, se somos punidos, é porque fizemos o mal; se não fizemos o mal nesta vida, o fizemos em outra. É uma alternativa da qual é impossível escapar, e na qual a lógica diz de que lado está a justiça de Deus.
Entretanto, não seria preciso crer que todo sofrimento suportado neste mundo seja, necessariamente, o indício de uma falta determinada; são freqüentemente simples provas escolhidas pelo espírito para acabar sua depuração e apressar seu adiantamento. Assim, a expiação serve sempre de prova, mas a prova não é sempre uma expiação, mas prova ou expiação são sempre sinais de uma inferioridade relativa, porque o que é perfeito não tem mais necessidade de ser provado. (Evangelho Segundo o Espiritismo — Capítulo V — item VI e VIX).
Rubens, entrando no quarto, condoeu-se com a situação dos amigos.
— Ele está dormindo, não se preocupem!
— Rubens, o que nos aguarda no futuro? - Pedro fez a pergunta com ansiedade na voz.
— Não vou enganá-los dizendo que tudo se resolverá facilmente, Pedro. Mas o fato de Marcos ter voltado sozinho para casa pode ser um indício da sua vontade em se tratar. Se ele quiser realmente ajuda e aceitar o tratamento, acredito eu, voltará a se relacionar bem com a sociedade e consigo próprio.
— É muito bom poder contar sempre com sua amizade, Rubens, nos estimula a continuar lutando. Vamos acreditar que Marcos vai renascer.
— É verdade, doutor, Pedro tem razão. Sozinhos não teríamos condições de suportar a tristeza que se abateu sobre nós. Somos muito gratos.
— Não se faz necessário me agradecer. Vocês são meus amigos e estão sofrendo, para mim isto basta, é motivo mais que suficiente para estar perto de vocês e auxiliar quanto puder.
— Quando ele poderá nos explicar o que aconteceu?
— Assim que ele acordar vamos verificar suas condições psicológicas e emocionais. O importante é não pressioná-lo, deixar que as explicações venham no momento que ele se sentir pronto e seguro para isso, tenham calma.
A palavra calma soava aos ouvidos de Pedro e Laura como algo impossível de conseguir. Seus corações pulsavam acelerados, talvez não suportando o peso da emoção contida. Foi Pedro quem, segurando as mãos de Laura, lhe disse:
— Querida, nossos amigos estão lá fora nos esperando. Vamos ter com eles.
— E deixar Marcos sozinho?!
— Laura, ele está dormindo, não vai perceber nossa ausência. Assim que ele despertar, viremos ter com ele. Nós apenas vamos aguardar lá fora.

— Está bem, vamos.
Paulo e Marília, ao vê-los sair do quarto, se aproximaram de imediato.
— Como ele está?
— Dormindo. Rubens disse que temos de esperar que ele acorde espontaneamente.
— O que poderá ter acontecido que o deixou nesse estado? - perguntou Laura, que não escondia sua aflição.
— Laura, é difícil imaginar, mas seja o que for que tenha acontecido impediu que ele voltasse morto - respondeu Marília. — Isto é na verdade o que, dentro do contexto, mais importa.
— Concordo com você - disse Pedro. — Deus está nos dando uma nova chance, para nós e para o Marcos, e é o que devemos fazer: recomeçar! Como já nos foi dito antes, não importa o que tiraram do Marcos ou de nós, mas sim o que faremos com o que sobrou. Que Deus nos dê sabedoria.
— Gosto de vê-lo falar assim, Pedro - falou Rubens, que acabara de chegar. — Tenho certeza de que saberão o que fazer, porque já aprenderam que só o amor enxuga as lágrimas, e amor vocês têm forte e sincero em seus corações.
— Obrigado, Rubens. Se temos alguma sentimento bom dentro de nós, com certeza foi você quem nos ajudou a descobrir e a expandir ao ponto de crer que o sol sempre brilhará, não importa quanto tempo durar a tempestade.
— Realmente, gosto de ouvi-lo falar assim, Pedro.
As horas se passaram sem que na realidade Pedro e Laura percebessem. Só se deram conta quando ouviram a voz da enfermeira dizendo:
— Dr. Rubens, Marcos acordou.
— Vamos até lá - respondeu o médico.
Antes que entrassem no quarto de Marcos, Paulo e Marília se despediram, deixando-os na companhia de Rubens, e à vontade para conversar com o filho.
Marcos ostentava uma aparência melhor e mais tranqüila. Os medicamentos ministrados surtiram o efeito desejado.
— Você está melhor? Filho, o que aconteceu que o deixou naquele estado?
Marcos olhou para sua mãe com uma expressão triste no rosto. Era um misto de arrependimento, vergonha, decepção consigo mesmo. Diante do seu silêncio, Rubens interferiu:
— Marcos, o que nos importa agora é vê-lo bem. Se não quiser conversar agora, não fale. Seus pais respeitarão sua vontade e seus limites. Tem o tempo que achar conveniente para acalmar suas idéias e retomar a posse de si mesmo. As explicações virão mais tarde, no momento que você julgar oportuno.
— É verdade, meu filho - disse Pedro segurando-lhe as mãos. — Agora é importante que descanse bastante e alimente-se bem. Para mim basta saber, por enquanto, que está bem. As explicações, como disse Rubens, virão ao seu tempo.
Marcos não conseguia dizer uma só palavra.
Laura sentou-se próxima ao filho, enlaçou-o, colocando sua cabeça em seu colo. Passando suavemente a mão sobre seus cabelos, falou com carinho:
— Filho, tudo o que aconteceu com você já passou. Está agora com seus pais que o amam e tudo farão para que recobre seu equilíbrio e sua vontade de viver. Não iremos lhe cobrar nada. Posteriormente conversaremos para concluirmos qual o melhor caminho para sua recuperação. Tudo vai dar certo, é só ficarmos juntos, unidos, nos apoiando um no outro, nos fortalecendo e acreditando no amparo divino. Como disse, tudo vai dar certo!
Marcos, absorvendo todo o amor que seus pais lhe dedicavam, esboçou um leve sorriso e falou com voz ainda fraca e quase imperceptível:
— Obrigado, pai, obrigado, mãe!

Entregando-se como uma criança aos carinhos de sua mãe, fechou os olhos e adormeceu novamente.
O olhar indagador de Laura fez com que Rubens se apressasse a explicar.
— Não se assustem ele apenas adormeceu novamente.
Lembrem-se de que ele está sob o efeito de medicamentos. Volto a repetir, é necessário que tenham muita paciência. O processo é esse, vamos aguardar.
Passaram-se quatro dias desde a internação de Marcos. Laura acordou sentindo uma alegria inexplicável. Olhou para Marcos que ainda dormia e disse para si mesma:
— Filho querido, tenho a sensação que hoje será um dia especial. Alguma coisa me diz que você vai acordar bem disposto e pronto para enfrentar a situação. Desconfio que hoje saberemos como tudo aconteceu, tenho certeza de que você vai se recuperar e voltar a ser feliz.
Durante o sono, os liames que unem o espírito ao corpo se afrouxam e o corpo não necessita do espírito. Então ele percorre o espaço e entra em relação mais direta com os outros espíritos. (Livro dos Espíritos — Capítulo VIII — item 401).
Foi o que aconteceu com Laura. Durante seu sono Jacob veio ter com ela e pôde orientá-la quanto a Marcos. Fortaleceu seu espírito na esperança e na crença de que tudo se resolveria com o tempo. Fez com que seu espírito compreendesse que a situação poderia se modificar se ela contribuísse de maneira efetiva para isso. Ao acordar, Laura não se lembrava conscientemente de seu encontro com Jacob, mas trouxe a recordação do colóquio espiritual pela sensação e pela intuição que sentia de que tudo se modificaria a partir daquele dia.
Após uma hora e meia, mais ou menos, Marcos despertou.
Laura, sentada ao lado de sua cama, lia atentamente, quando ouviu chamá-la:
— Mãe!
Rapidamente voltou-se para o filho e seu rosto se iluminou de alegria.
— Marcos!
De um salto abraçou-o ternamente.
— Filho, filho querido; você está com um ótimo aspecto. Dormiu bem?
— Sim, mãe. Sinto-me muito bem e estou faminto.
— Vou chamar a enfermeira e pedir-lhe que providencie seu café.
Enquanto esperava o desjejum, Marcos levantou-se, tomou banho e, sentado em uma cadeira do quarto, conversava com sua mãe.
— Mãe, quanta tristeza trago em meu coração. Quantas marcas cravei em meu peito por ter sido teimoso, inconseqüente, leviano e imaturo o suficiente para não perceber quanto eu estava me afundando e perdendo todos os meus valores.
— Filho, não fale agora, isto poderá fazê-lo reviver e sofrer mais.
— Não, mãe, eu preciso falar; tirar de dentro de mim essa angústia... dividir com as pessoas que amo os meus erros e procurar me curar. Preciso de ajuda, mãe, realmente muita ajuda.
— Você terá meu filho, estaremos sempre do seu lado ajudando-o a se reerguer.
— Isso é possível?
— Claro filho! Agora será possível porque você tem o ingrediente principal: a vontade. E você quem quer e é isso que faz toda a diferença.
— Com licença, trouxe seu café, senhor Marcos.

Agradecendo, Laura apressou-se a servir seu filho.
— Marcos, tome seu café, você se sentirá melhor ainda.
— Obrigado, mãe, mas eu preciso falar desabafar.
— Eu sei filho, e você o fará. Tome seu café e vamos aguardar um pouco, logo seu pai e o Dr. Rubens estarão aqui. Você não acha que seria bom que eles o ouvissem? Seu pai ama tanto você!
— Eu sei mãe.
— O Dr. Rubens, não preciso nem falar quanto ele é nosso amigo, e seu também; seria prudente que ele o escutasse para saber como conduzir seu tratamento, e ajudá-lo caso houvesse necessidade.
— Está bem, mãe, vamos aguardá-los.
Olhou para sua mãe como se pela primeira vez a visse como realmente era. Esboçou um leve sorriso e voltou a tomar seu café.


AUSÊNCIA DE DEUS


Rubens estava satisfeito com o estado geral de Marcos. Tudo indicava que ele teria êxito no seu propósito de cura.
— Está pronto para falar sobre o assunto? - perguntou, olhando atentamente para o rapaz.
— Estou Dr. Rubens; acredito que estou - repetiu.
— Pois bem; comece à hora que quiser. Lembre-se de que estamos aqui para ajudá-lo, não para recriminá-lo. Não nos cabe julgá-lo, fique certo disso.
— É verdade, filho. Queremos o seu bem e lutaremos ao seu lado para que você se recupere.
— Obrigado, pai.
— É importante que saibamos o que aconteceu com você, filho, para melhor compreendê-lo. Todos nós erramos, é necessário se conscientizar do erro e partir em busca dos acertos. Conte sempre conosco.
— Eu sei mãe. Sei que posso contar com vocês. Quero apenas preveni-los de que o que vão ouvir não é nenhuma história da carochinha, com final feliz, muito pelo contrário, o final é triste, promíscuo e traumático.

Laura olhou para Pedro e Rubens com expressão assustada. Pedro adiantou-se:
— Não importa filho, estamos preparados para ouvi-lo. Seja o que for que tenha acontecido, conte-nos sem receio e sem nada esconder. O que está feito não tem volta, mas o que está por vir depende de cada um de nós.
— Seu pai tem razão, Marcos - disse Rubens —, agora é se esforçar e tentar consertar o estrago que o vendaval fez, recuperando o bom senso. Somos todos adultos e sabemos que a vida é o cenário do bem e do mal. Por algum tempo você se incorporou no cenário do mal, mas, agora, percebendo a inutilidade e sofrendo a conseqüência dessa ilusão nefasta, pode retornar e se integrar no cenário do bem. Todos nós estamos aqui prontos para ajudá-lo a se ajustar e fazer parte novamente desse cenário, portanto confie na Providência Divina que o auxiliará nessa tarefa de adequação.
— Acredito no que diz Dr. Rubens. Estou ansioso para tirar de mim este peso que quase me levou à loucura.
— Então fale!
Marcos respirou fundo. Reportando o dia do aniversário de André, iniciou a narrativa:
— Naquela noite, quando fui à casa do André, já tinha me drogado com maconha e cocaína. Nem sei direito o que fiz e o que falei. Só me lembro que, quando me trancaram no quarto, fiquei louco. Era como se um bicho enorme e poderoso tomasse conta de todo o meu corpo. A única coisa que eu sabia era que precisava de mais droga. Pulei a janela do meu quarto e fui à boca onde sempre conseguia a "muamba". Já era conhecido de lá, pois sempre ia buscar o que queria. Cheguei dizendo que tinha conseguido muito dinheiro e que eles poderiam me abastecer porque no final pagaria tudo de uma só vez. Como sempre pagava a eles, não desconfiaram que eu estava mentindo e que não tinha dinheiro algum. Forneceram-me sem economia o que eu queria. Quando atingi o auge do delírio, caí ali mesmo e ali fiquei até que o dia amanheceu e o efeito da droga aliviou. Quando me preparei para ir embora, o chefe se aproximou de mim e me cobrou o que devia. Ao saber que não existia nenhum dinheiro, ordenou que seus capangas me batessem ao ponto de quase me quebrarem todo, trancou-me em um quarto malcheiroso e disse-me que só me soltaria após alguém vir pagar a minha dívida. Não conseguiram me obrigar a dizer onde meus pais moravam, então mantiveram-me preso dando-me somente pão duro e água, sem direito algum, muito menos tomar banho.
Marcos calou-se e limpou o suor que molhava seu rosto.
Rubens, percebendo seu abalo emocional, lhe disse:
— Marcos, não prefere continuar outra hora? Talvez seja melhor parar por hoje.
— Não, doutor, comecei e vou até o fim. Deixe-me terminar, por favor, nem que o senhor tenha que me sedar depois.
— Faça como quiser.
Marcos pediu um copo com água e continuou:
— Após quatro dias de prisão e sem conseguir meu endereço para cobrar a dívida pressionando os meus pais, alguém teve a idéia de fazer com que eu pagasse trabalhando para eles e me prostituísse para satisfazer seus desejos sexuais anormais e imorais.
Ao ouvir isso, Laura escondeu o rosto entre as mãos e soltou um gemido de dor. Foi como um punhal cravando no peito de Marcos. Pela primeira vez tomava consciência da proporção do mal que fizera a seus pais.
— Perdoe-me, mãe - disse quase chorando —, nunca quis e nunca fiz isso por motivo algum. Obrigaram-me com uma violência física e moral que é melhor nem comentar. Me drogava sim, mas nunca violentei meu corpo.
Rubens, na tentativa de poupar os pais de Marcos de tamanho sofrimento, interveio de imediato.

— Marco não é necessário contar-nos os detalhes; já sabemos o suficiente, tanto que podemos imaginar o resto. Diga-nos apenas como conseguiu fugir dessa situação.
— Entre eles havia um rapaz que sempre foi meu camarada. Tínhamos uma amizade boa; depois de dias vendo o sofrimento que estava me levando à demência, condoeu-se da minha situação humilhante e ajudou-me a fugir. Pediu-me que nunca mais voltasse àquele lugar ou me deixasse encontrar pelo chefe, pois com certeza ele me mataria.
— Meu Deus! - exclamou Pedro.
— Essa é a lei dos traficantes, pai. Não são amigos, nunca querem perder e jamais se sensibilizam com os problemas dos outros. Para eles só vale o dinheiro, o lucro. Pena que descobri isso muito tarde e a duras penas.
— Olha onde você foi se meter, filho!
— Eu sei mãe, eu sei! Conheci o inferno, mas não quero voltar para ele; é por isso que peço ajuda. Voltando-se para Rubens, perguntou:
— O senhor, que é um homem com conhecimento profundo da vida, conhecimento adquirido pelos seus estudos e de sua vivência de fraternidade, diga-me: por que existe tanto mal e por que caímos nele?
— Tanto para uma como para a outra pergunta Marcos, só existe uma resposta: ausência de Deus! O mal existe pela ausência de Deus no coração daquele que o pratica, assim como aquele que cai na sua armadilha o faz pelo mesmo motivo. É importante colocarmos Deus em nosso coração, Marcos; Ele é a bússola, a direção que nos leva ao porto seguro.
— Doutor, tenho alguma chance de recuperação?
— Claro Marcos! Mas precisará ter muita força de vontade, fazer o tratamento de maneira séria, terapia e acreditar que pode. Querer é fundamental, e todos vamos ajudá-lo nessa batalha.
— Sim, filho, confie em nós, em você e, principalmente, em nosso Pai que está no céu. Tudo vai se resolver. Voltaremos a ser felizes.
— Coloquei tudo a perder, não é verdade, mãe?
— Agora é pensar no futuro, ver o que de bom sobrou em você e resgatar sua auto-estima, seu valor. Juntos conseguiremos vencer a estrada árdua da volta.
— É melhor descansar agora Marcos - disse Rubens. — Vou dar-lhe um medicamento para relaxar e dormir. Amanhã provavelmente poderá voltar para casa.
— Antes quero responder a uma pergunta que, tenho certeza, todos vocês estão se fazendo.
— Qual filho?
— Onde conseguia dinheiro para sustentar meu vício, já que nunca me viram trabalhar.
— Sim, na verdade gostaríamos de saber.
— Mãe, acredite, por favor, nunca me prostituí. Fazia alguns serviços para o senhor José, aquele do mercadinho da rua de cima, lembra dele? Entregava suas encomendas, limpava o chão, enfim, tudo o que ele precisava. Com o dinheiro que ele me pagava comprava a droga. Depois daquele envolvimento com a polícia, no qual eu e o André fomos presos, confesso que duas ou três vezes me envolvi em confusão com uma turma aí. Fizemos algumas besteiras, mas logo percebi que era gente da pesada e caí fora. Acredite em mim, eu imploro!
Pedro, enquanto ouvia o filho relatar suas experiências, pensava no grande carrasco que é a droga. Enlaça sua vítima, aperta o cinto aprisionando-a e depois joga-a na sarjeta, tirando sua dignidade, sua esperança e desgraçando sua vida e de toda sua família. Não conseguia imaginar seu filho, que tinha tudo em casa, trabalhando em um mercadinho para servir a esse carrasco. Jogara fora seus princípios, seus estudos e sua integridade física.

— Pai, o senhor ouviu o que eu disse?
— Claro, filho, claro. Fique certo de que acreditamos em você. O que nos importa agora é saber que você caiu na realidade e percebeu a necessidade de se recuperar, reestruturar sua vida. Vamos confiar em você, na sua sinceridade. Sabemos que não será fácil, mas vamos lutar colocando Jesus à frente, nos mostrando o caminho e firmando nossos pés na longa jornada.
— Vamos ficar aqui com você no hospital - disse Laura. Se Deus quiser, será só mais esta noite.
— Mãe, não se preocupe. Vão para casa e descansem. Eu estou bem e o doutor disse que vou dormir. Não precisarei de nada. Ficaria mais tranqüilo se soubesse que estão em casa descansando. Quero mesmo ficar um pouco sozinho, pensar um pouco.
Pedro e Laura olharam para Rubens esperando seu parecer.
— Ele tem razão. Podem ir. Ele ficará bem e depois hoje é meu dia de plantão, estarei aqui no hospital toda a noite. Virei vê-lo, fiquem tranqüilos.
— Bem, se é assim, nós vamos. Amanhã bem cedo estaremos aqui.
Aproximando-se do filho, beijaram-no.
— Fique com Deus, filho!
— Vão com Deus também - respondeu Marcos.
Assim que seus pais saíram. Marcos recostou em sua cama e, enquanto aguardava a medicação prescrita por Rubens, deixou-se navegar em suas reflexões. Tudo passava como um filme em sua mente.
— Quanta bobagem e irresponsabilidade pratiquei! - exclamava para si mesmo. — Meu Deus, o que fiz da minha vida. Tendo tudo para ser um vencedor, consegui me transformar em um jovem completamente arrasado, destruído e sem esperanças. Larguei meus estudos, afastei-me das pessoas que me queriam bem e o que é pior, magoei meus pais e a mim mesmo, transgredindo com total leviandade as leis dos homens e até as leis de Deus. Não posso nem culpar a falta de orientação e informação porque as tive todas e várias vezes. Pensou no amigo André.
— André foi mais esperto do que eu. Percebeu mais cedo a furada em que tínhamos nos metido e a inutilidade da rebeldia dos jovens quando essa rebeldia vem destruir nossas próprias oportunidades de crescer; quando esses atos insanos e irresponsáveis vêm acabar com nossa moral, nossa dignidade
e caráter, trazendo apenas frustrações, mágoas e sofrimentos para aqueles que dizemos amar e para nós mesmos. Nada disso vale a pena, hoje bem sei.
— Por que esse olhar tão absorto, Marcos?
Marcos levou um susto.
— Oi, Dr. Rubens, o senhor me assustou!
— Desculpe-me! Vim ver como estava e o encontro tão pensativo. Como diz o dito popular, "um níquel pelos seus pensamentos" - brincou.
Marcos sorriu.
— É bom vê-lo sorrir!
— O senhor poderia dispor de alguns minutos para conversar um pouco comigo?
— Claro!
Animado, Marcos colocou Rubens a par de todas as suas reflexões, seus medos, seu arrependimento, enfim, ressaltou com veemência a dor que sentia em seu peito pela experiência nociva de ter vivido por alguns dias na promiscuidade, em contato direto com uma violência que até então ele próprio desconhecia.
Rubens compadeceu-se com a aflição daquele jovem que pagara bem caro por sua imprudência. Lembrou-se de seus filhos mortos anos atrás em plena juventude e pensou:

"Meu Deus, poderia ser um filho meu. Quem pode afirmar com certeza que jamais passará por esta ou outra situação conflitante?"
Paternalmente aproximou-se mais de Marcos, sentando bem próximo à sua cama.
— Marcos, vamos conversar sim. Temos a noite toda se quiser, salvo se eu for chamado para alguma emergência. Diga-me sem constrangimento o que o aflige dentre todas as aflições que apertam seu coração.
— Não saberia enumerá-las por ordem de importância, porque todas machucam meu coração com a mesma intensidade, mas gostaria muito que me respondesse a uma pergunta específica: terei algum futuro? Poderei esperar e acreditar em uma nova chance de vida?
— Marcos, é claro que tem e deve acreditar no seu futuro que, com certeza, poderá ser promissor se você quiser e se esforçar para isso.
— Mas o senhor acha mesmo que depois de tudo valerá a pena? Com todas essas cicatrizes, essas marcas que deixei por onde passei?
— Preste atenção, Marcos: um velhinho de setenta anos queria aprender violino, regressar ao mundo espiritual com noções musicais. O professor, surpreso, disse não valer a pena, pois o estudo do violino era muito longo e ele não teria idade suficiente para completar o curso. O velhinho respondeu: "Sempre vale a pena. Se conseguir aprender apenas seis meses, chegarei ao mundo espiritual com um conhecimento a mais, noções de música. Na realidade andei um passo em direção ao meu sonho." Isso quer dizer. Marcos, que na vida é hora de aprender com qualquer idade independentemente do que fizemos ou do que deixamos de fazer, se erramos ou acertamos. O que importa é melhorar sempre, sem cansar nunca.
— O senhor falando assim parece fácil!
— Não, Marcos, não é fácil, aliás, é até difícil. Sabe por quê? Porque nós homens temos a tendência em cair na auto-compaixão, damos muita atenção ao orgulho; nos afundamos no egoísmo e na vaidade em admitir que estamos errados, enganados. É preciso muita coragem para se conscientizar que errou e pedir ajuda. Os que agem com coragem e esperança no futuro aumentam muito a chance de conquistar a felicidade. Os que percebem que são fracos e assumem esta fragilidade perante si mesmo aceitam a necessidade de ir a busca do fortalecimento de seu espírito, de sua personalidade e de seu caráter.
— O que tenho de fazer, então, doutor?
— Se adequar às leis divinas e às leis dos homens. Ter consciência que nenhum de nós é o centro do universo e acreditar que suas chances de progresso são as mesmas dos outros, desde que se esforce para isso. Nada adquirimos se não for por esforço próprio; essa é a lei.
— E os meus pais, estão sofrendo tanto.
— Estão! Realmente estão! Mas não se esqueça Marcos, de que eles amam você, e a sua felicidade é a felicidade deles. Como já disseram, vão ajudá-lo, depende só de você aceitar essa ajuda e passar a valorizar a vida como uma bênção maior que o nosso Criador nos concede.
— Uma última pergunta, doutor: a rebeldia dos jovens é válida?
— É válida se for uma não-aceitação, sem violência do preconceito, das injustiças e das misérias; se for uma não aceitação que leva aquele que sente a lutar pelos oprimidos e sofredores, com prudência, fraternidade e generosidade. É válida. Marcos se for uma rebeldia que constrói e que mostre pelo exemplo do trabalho e da honestidade que podemos melhorar o mundo se nos esforçarmos para isso, permitindo que cada um viva e tenha sua chance de aprendizado. Esta é válida! Mas rebeldia que corrompe que se entrega aos desvarios aniquilando aquele que sente aqueles que estão a sua volta e a sociedade em geral, esta não é válida e deve-se trabalhar para que desapareça, porque na realidade só está satisfazendo os interesses falsos e nocivos daqueles que se dizem rebeldes porque a vida os fez assim.
Marcos chorava. A emoção tomou conta de todo o seu ser. Nunca pudera imaginar que seria agraciado com tanta compreensão. Na realidade nunca dera valor à ami¬zade, nunca enxergara os verdadeiros amigos, aqueles que querem sempre o nosso bem; aquela amizade que acolhe, mas educa; que enxerga o bom caminho quando nossos olhos são incapazes de ver.
Segurou as mãos de Rubens e apertou-as com força. Com voz trêmula, disse baixinho:
— Eu vou vencer!
— Claro que vai - respondeu Rubens.
Rubens notou a emoção forte que tomava conta de Marcos. Achou que era hora de parar.
— É melhor descansar. Vou pedir à enfermeira que lhe traga agora a medicação. Terá um sono reparador. Por hoje chega de emoções.
Levantou-se e, desejando boa noite, retirou-se do quarto.
Marcos, voltando a se recostar na cama, esperou a enfer¬meira, com a certeza de que teria uma boa noite de sono, como lhe desejara seu amigo.


NOITE DE NATAL


Os preparativos para a inauguração do Lar de Isabela chegaram ao fim.
Tudo ficara de acordo com os desejos de Rubens e com as necessidades das crianças. Os quartos, cuidadosamente enfeitados e coloridos, aguardavam apenas os sorrisos dos pequenos que iriam habitá-los.
Rubens não cabia em si de contente.
— Dona Marília, não sei como agradecer toda a ajuda que a senhora, assim como Paulo, Dona Laura e Pedro me deram. Tenho certeza de que sem essa ajuda nada estaria como está. Muito obrigado.
— Por favor, não nos agradeça, Dr. Rubens. Foi o senhor quem nos ajudou permitindo que participássemos deste projeto que se tornou muito importante para todos nós.
— Isso aconteceu porque foi ao encontro dos anseios de seus corações. Entenderam que, além das gigantes montanhas que se colocam à nossa frente, existem vales imensos esperando apenas semeadores dispostos a trabalhar.
— É bem verdade o que está dizendo. Houve um tempo em que tudo parecia escuro e sombrio na minha vida, e o senhor sabe disso. Não enxergava nenhuma possibilidade de saída, mas, hoje, depois de tudo o que aprendi, olho para trás e mal acredito que consegui sobreviver às amarguras.
— A possibilidade de isso acontecer foi a senhora quem propiciou ao entender o que é o amor na sua essência verdadeira. Existem formas e formas de viver esse sentimento, e todas elas se entrelaçam se o amor for simplesmente amor; verdadeiro, forte e limpo. E esse sentimento que nos transforma e nos fortalece Dona Marília. Quando compreendemos que tudo depende de nós, da maneira como conduzimos nossa vida, da aceitação das coisas fortes que não estão ao nosso alcance mudar, com certeza encontramos o equilíbrio que nos leva à paz.
— Como o senhor fala bonito, Dr. Rubens!
— Não falo bonito, falo o que sinto. Passei por muitos sofrimentos. Dona Marília, e alguns deles a senhora presenciou. Tive meus momentos de angústia e de desânimo; nem sempre fui esta fortaleza que vocês dizem admirar. Sou humano e tenho fraquezas, mas aprendi nesses anos todos que somente quando nos entregamos ao amor, e vivemos esse sentimento ao lado de nossos semelhantes, companheiros de jornada na Terra, é que nossas lágrimas secam e dão lugar ao trabalho edificante e à conduta que resgatam nossa paz.
— Atrapalho!
— Laura, que bom vê-la! Você nunca atrapalha - respondeu Marília.
— É verdade, Dona Laura, jamais sua presença vai nos incomodar, é um prazer.
— Vocês são mesmo amigos - disse Laura sorrindo.
— Faltam apenas dois dias para iniciarmos nosso trabalho Dona Laura. Se Deus quiser, na noite de vinte e quatro para vinte e cinco de dezembro estaremos recolhendo nossos filhos do coração que estarão conosco, dia após dia, aprendendo a viver e a ser feliz.
Emocionada, Marília falou ao amigo:
— É a maneira mais linda de passar a noite de Natal. Só mesmo o senhor para ter idéias como essa.
— É verdade, Marília, nunca tinha me ocorrido que se pudesse fazer da noite de Natal a noite do encontro entre as criaturas.
— É, Laura, a noite do encontro das almas que, à frente dos presentes e das guloseimas, conseguem ver de verdade é o amor de Jesus, o aniversariante muitas vezes esquecido.
Laura ficou pensativa. Uma lágrima fortuita escapou de seus olhos.
— O que foi amiga? Ficou triste de repente. O que está sucedendo, o Marcos não está bem?
— Marcos está indo muito bem, Marília, melhor do que eu e o Pedro esperávamos, apesar de sabermos que ainda tem um longo caminho pela frente.
— Então, o que a preocupa Dona Laura?
— Lembram-se daquele rapaz que ajudou Marcos a fugir naquela ocasião?
— Sim, o que tem ele? - perguntaram ao mesmo tempo Rubens e Marília.
— Pois bem, dias atrás, ao sairmos com o Marcos do consultório do Dr. Jaques, onde ele faz terapia, encontramos com esse rapaz. Ele de pronto reconheceu o Marcos. Ficaram contentes de se encontrarem e, durante a conversa que tiveram, ele contou que o tal de Alfredo, que é o chefe daquele bando de traficantes, não esqueceu o Marcos e ainda o procura para cobrar a dívida e se vingar. Diante do nosso espanto e receio, ele nos aconselhou a tirar o Marcos daqui, deixar a cidade, antes que ele o encontre, o que acontecerá mais dia menos dia, assim poderemos evitar uma desgraça.

— Meu Deus, Laura, isso é muito sério e perigoso! - exclamou Marília.
— É verdade, Dona Laura - concordou Rubens. Com essa gente não se brinca.
— Nós sabemos. É por isso que decidimos nos mudar daqui.
— Mas quando e para onde vocês pretendem ir?
— Logo após a inauguração do Lar de Isabela, vamos para a cidade onde moram nossos pais, enfim, toda a nossa família. Acreditamos que lá o Marcos estará a salvo desse bandido, e mais tranqüilo para prosseguir seu tratamento.
Marília enlaçou a amiga em um gostoso abraço.
— Não fique tão triste, Laura. O importante é resguardar seu filho, afastando-o desse risco.
— Sentiremos muita saudade de vocês, do nosso trabalho que na verdade nem cheguei a fazer aqui no Lar; dos seus sábios conselhos, Dr. Rubens, enfim, há anos moramos aqui e agora vamos ter de começar tudo de novo.
— Não se lastime Dona Laura, foi uma bênção ter encontrado esse rapaz, e ter a oportunidade de recomeçar com seu filho ao seu lado, pior seria se fosse sem ele.
— Eu sei Dr. Rubens e até me envergonho de dizer isso, mas Pedro e eu estamos tão fragilizados.
— Isso vai passar Dona Laura. Nenhum sofrimento dura para sempre. Pensem que estarão novamente juntos com a família de vocês e que o Marcos está se recuperando. Se Deus quiser, verão seu filho feliz novamente.
— Mas o nosso trabalho social, como fica?
— Dona Laura, quando trabalhamos movidos pelo sentimento de fraternidade, não importa o lugar, sempre acharemos o que e onde realizar nossa tarefa de amor, se realmente a desejamos. Tanto a senhora quanto Pedro possuem dentro do coração a semente da caridade e ela germinará se vocês permitirem, independentemente do lugar onde estejam. Jesus está perto de nós sem se importar com o lugar onde estejamos, porque a Ele interessa nosso coração limpo e verdadeiro.
— Obrigada por suas palavras, Dr. Rubens. O senhor sempre consegue acalmar nosso coração. Poderia me dizer se tudo o que Pedro e eu estamos passando é uma prova? Foi Deus quem nos impôs todo esse castigo?
— Dona Laura, veja bem: Nada acontece sem a permissão de Deus, porque foi Ele quem estabeleceu todas as leis que regem o universo. Perguntareis por que Ele fez tal lei em vez de outra. Dando ao espírito a liberdade de escolha, deixa-lhe toda a responsabilidade dos seus atos e das conseqüências; nada lhe estorva o futuro; o caminho do bem está à sua frente, como o do mal. Mas, se sucumbir, ainda lhe resta uma consolação, a de que nem tudo se acabou para ele, pois Deus na Sua bondade permite-lhe recomeçar o que foi mal feito. É necessário distinguir o que é obra da vontade de Deus e o que é da vontade do homem. Se um perigo vos ameaça, não foste vós que o criaste, mas Deus tivestes, porém, a vontade de vos expordes a ele, porque o considerastes um meio de adiantamento; e Deus o permitiu. (Livro dos Espíritos — Capítulo VI — item V — pergunta 258a).
— Isso quer dizer que somos culpados e merecemos este castigo?
— Isso quer dizer que Deus não nos impõe castigo, mas respeita a lei de ação e reação. Por tudo que fazemos de bom somos agraciados com a paz; mas, também, por tudo que fazemos de imprudente, leviano e inconseqüente sofreremos as conseqüências. Nós escrevemos nossa história, Dona Laura. Deus não permite o sofrimento ao inocente e quem de nós pode dizer e afirmar ser completamente inocente, ser uma vítima da injustiça divina?
Marília interveio.
— Dr. Rubens, e se não nos lembramos de nada que tenhamos feito para ocasionar nossas dores?

— Se a causa não está nesta vida, Dona Marília, há de estar no pretérito. Deus é justo, jamais devemos nos esquecer ou duvidar da Sua justiça.
— Mas também podemos estar em uma situação conflitante, com a finalidade de ajudar entes queridos, não é mesmo, Dr. Rubens?
— É verdade. São espíritos que se submetem aos espinhos para auxiliar aqueles que amam, e são mais fracos, a vencerem as provas. É o exercício do amor altruísta.
André e Laís aproximaram-se entusiasmados, interrompendo a conversa:
— Dr. Rubens, mãe e Dona Laura, venham ver a beleza que ficou o quarto de lazer das crianças. Terminamos agora de arrumar, montamos todos os brinquedos, selecionamos os jogos por idade, enfim, está uma graça. Ficou lindo!
Todos seguiram André e Laís, participando da contagiante alegria dos jovens.
Noite de 24 de dezembro.
O entusiasmo se estampava no rosto de Rubens; Pedro e Laura; Paulo e Marília, seguidos de André, Laís, Inês, Marcos e Ana. A imensa alegria que sentiam ao recolher os futuros moradores do Lar de Isabela se misturava com as luzes, bolas coloridas, fitas vermelhas e Papai Noel, que enfeitavam as ruas da cidade, embalados por músicas natalinas que levavam aos corações dos transeuntes a mensagem de Natal.
Uma a uma foram sendo recolhidas as crianças que, abandonadas, jaziam dormindo nas calçadas, indiferentes ao reboliço que o "Espírito de Natal" causava a todos.
— Rubens, podemos recolher essas crianças e levá-las para o Lar? Não teremos problemas com o Juízo da Vara da Infância e da Juventude?
— Tranqüilize-se, Paulo. O Lar de Isabela está legalmente habilitado para receber estas crianças. Foi-nos concedida uma autorização especial para que fosse dessa maneira, mas, assim que estiverem devidamente instaladas, limpas e alimentadas a assistente social nos visitará para iniciar todo o procedimento legal para que elas permaneçam internas.
— Foi muito bom o juiz ter nos dado permissão para que fosse assim, não, Rubens?
— De fato, Paulo. Este era o meu grande sonho, passar a noite de Natal ao lado dos nossos irmãozinhos carentes de afeto.
— Não só de afeto, Rubens, mas carentes de vida, de esperança e de saúde.
— É, tenho certeza de que nossos entes queridos que se foram vão nos amparar e auxiliar nessa tarefa que iniciamos hoje: devolver os sonhos, a esperança e a vontade de viver a estes irmãozinhos.
— Dr. Rubens, Paulo, não podemos demorar - disse Marília. — Até chegarmos ao Lar, dar banho em todas essas crianças, aprontá-las para a ceia que as espera, vamos demorar. Vamos!
— Marília tem razão, Rubens, vamos nos apressar.
— Vamos. Quero que a nossa oração de Natal seja feita pontualmente à meia-noite.
Após mais ou menos quatro horas de contato e diálogo, conseguiram retornar ao lar acompanhados de vinte crianças.
Meia-noite do dia 24 de dezembro.
A mesa do grande refeitório, cuidadosamente arrumada para a ocasião, acolhia todos aqueles seres que, esquecidos de suas dores, tormentos e angústias pessoais, se uniam como uma grande família e se entregavam inteiros e felizes à tarefa do amor fraternal.
Rubens, emocionado, levantou-se e iniciou o colóquio com Deus:
— Meu Pai e meu Criador, somos gratos por nos ter mostrado a luz da verdade e do amor. Para nós nesse momento não nos machuca o passado de dor e tristezas, porque conseguimos enxergar através dos olhinhos infantis a esperança no futuro promissor. Se somos escolhidos para impedir que essa esperança se desfaça nos corações de nossos irmãozinhos, agradecidos estamos por esta oportunidade única de servir. Sabemos que as lágrimas se secam com o trabalho edificante e nobre feito desinteressadamente em favor daqueles que necessitam de amparo, de alguém que lhes mostre o caminho e as possibilidades existentes dentro deles mesmos. Aprendemos Senhor, que aquele que serve acima do dever encontrou o caminho da verdadeira felicidade, e é esta felicidade que almejamos. Que o amor possa sempre enxugar as nossas lágrimas para que nossos olhos e nosso coração possam ver e sentir onde o Senhor está, por meio do esquecimento do nosso próprio sofrimento, cumprindo a difícil, mas sublime tarefa da caridade em todas as suas formas. Com a vossa bênção, meu Pai, iniciamos hoje, na noite de Natal a nossa caminhada.
Pequenos flocos de luzes desciam sobre as cabeças daquelas pessoas, que, fortalecidas pelo desejo autêntico de servir, viviam a plenitude do amor. As crianças limpas, vestidas com cuidado e bem penteadas, não conseguiam desviar os olhinhos daquela mesa farta, com comida quente e guloseimas saborosas.
A grande jornada se iniciava.
Nascia o Lar de Isabela.


NOVOS TEMPOS


Marília e Paulo caminhavam lado a lado por entre as alamedas do Parque Municipal.
O tempo passara rápido.
Seis anos desde a inauguração do Lar de Isabela.
Experimentavam em seus corações sentimentos contraditórios, que se misturavam, causando emoções intensas.
Tudo mudara.
Laura e Pedro realmente se transferiram para outra cidade a fim de preservar a vida de Marcos e hoje, sabiam, viviam em harmonia por conta da recuperação do filho que, completamente restabelecido, voltara a estudar e trabalhar sem nunca mais ter dado motivos da lágrimas para seus pais.
André prestou vestibular em uma cidade próxima e cursava o segundo ano de Medicina, com a intenção de se especializar em Psiquiatria.
Laís, noiva de Renato, não quisera fazer nenhum curso universitário e empregava seu tempo auxiliando Marília na administração do Lar de Isabela, tarefa que sua mãe assumira desde a desencarnação de Rubens há seis meses.

O Lar contava com trinta crianças, e tudo seguia conforme o desejo e a orientação de seu fundador: Dr. Rubens. Marília fazia questão de continuar o trabalho de seu grande e inesquecível amigo e se esforçava ao máximo para que o lar não se desviasse do propósito traçado por Rubens: amor... simplesmente amor!
— Hoje, sinto-me um pouco triste, Paulo. A saudade de todas as pessoas que amo dói em meu coração; machuca minha alma e, às vezes, me fragilizo.
— Eu sei querida, sei muito bem como é isso. De repente nos vimos sozinhos, mas não podemos nos esquecer das palavras sensatas do nosso querido amigo que partiu tão cedo e tantos ensinamentos nos deixou: "a distância existe para os olhos, não para o coração".
— Isso mesmo. Temos sempre de agradecer a Deus por ter colocado em nosso caminho pessoas que amamos e que nos amam também, não importa se neste ou no reino de Deus; importa que nos amam, tenho certeza disso.
— Sem esquecer o carinho que recebemos das crianças e dos funcionários do Lar.
— Paulo, quando vejo minha mãe e Dona Ana, já com idade avançada, mas felizes por estarem cooperando no atendimento às crianças, não posso deixar de me sentir feliz.
Paulo delicadamente segurou as mãos de sua esposa.
Marília olhou-o com ternura e seu coração sensível agradeceu ao Criador por ter colocado ao seu lado companheiro tão amoroso.
Os dois não podiam ver nem sentir, mas ao lado deles caminhavam felizes dois espíritos que agradeciam ao Pai o fato de pessoas tão queridas terem aprendido e conseguido enxugar suas lágrimas por meio do amor: Fábio e Isabela.
Muitas vezes acreditamos estar completamente sós, e, no entanto, temos mais companhia do que podemos imaginar.
Se nosso coração se nutre de sentimentos generosos, bons e edificantes, é natural que atraia para junto de si espíritos também generosos e bons, que são sensíveis a esses sentimentos. É a lei da afinidade. Estas companhias, esta proximidade de espíritos elevados, que sentem e espalham o bem por onde passam, traz-nos uma sensação gostosa de paz e tranqüilidade. Inspiram-nos pensamentos nobres, conduzindo-nos sem que possamos perceber, para atitudes dignas, elevadas e fraternas.
Os bons espíritos nos aconselham sempre o bem e lamentam, tentando nos ajudar quando estamos prestes a cair em atos inconseqüentes. Nosso comportamento digno frente à vida faz com que conquistemos a simpatia dos bons espíritos.
Mas também é verdade que, assim como atraímos os bons espíritos com nossa prudência e amor, atraímos os levianos, os inconseqüentes e os maus, quando praticamos ações desastrosas, levianas e inconseqüentes. Assim como Fábio e Isabela amparam Paulo e Marília, todos os encarnados recebem de Deus a bênção de ter ao seu lado espíritos protetores que os auxiliam. Cabe a cada um atrair a companhia que se afina com sua maneira de pensar e de agir (Irmão Ivo).
Os bons espíritos não aconselham senão o bem; cabe a vós distinguir.
Os espíritos imperfeitos são os instrumentos destinados a experimentar a fé e a constância dos homens no bem. Tu, sendo espírito, deves progredir na ciência do infinito, e é por isso que passas pelas provas do mal até chegar ao bem. Nossa missão é a de te pôr no bom caminho, e quando más influências agem sobre ti, és tu que a chamas, pelo desejo do mal, porque os espíritos inferiores vêm em teu auxílio no mal, quando tem a vontade de o cometer; eles não podem ajudar-te no mal senão quando tu desejas o mal. Se és inclinado ao assassínio, pois bem, terás uma nuvem de espíritos que entreterão esse pensamento em ti; mas também terás outros, que tratarão de influenciar para o bem, o que faz que se reequilibre a balança e te deixe senhor de ti. É assim que Deus deu à nossa consciência a escolha da rota que devemos seguir, e a liberdade de ceder a uma ou outra das influências contrárias que se exercem sobre nós. (Livro dos Espíritos — Capítulo IX — item 464 e 466).
Marília e Paulo prosseguiam em seu passeio. Muitas cenas do passado desfilavam em suas mentes. Lágrimas, sorrisos, esperanças e desesperos. Quantas histórias no grande livro da vida.
— Quanto sofremos, não, Paulo?
— Sim, Marília! Mas não é Hora de trazermos de volta nossas angústias passadas; agora é hora de nos conscientizar de que conseguimos enxugar nossas lágrimas. Veja querida, nossos olhos estão secos, e nosso amor está vivo, dando-nos forças para continuar o trabalho de um grande homem e de um grande amigo.
— Tem razão, meu amor, para mim não resta a menor dúvida. Cada criança que abracei, cada mão que estendi em direção ao meu próximo corresponde a uma lágrima que sequei e são esses olhos secos da lágrima da dor que posso umedecer com as lágrimas da emoção.
— Querida, você fala como nosso querido amigo Rubens! Fico feliz em ouvi-la.
— Dr. Rubens! Com certeza hoje goza a alegria dos justos, a paz dos sensatos e o amor dos sensíveis. Vou lhe dizer uma coisa, Paulo, todo aquele que de uma forma ou de outra conviveu com o Dr. Rubens jamais conseguiu permanecer o mesmo. Ninguém conseguiu ficar indiferente às suas demonstrações de amor fraternal e aos seus exemplos de generosidade.
— E sem olhar para os espinhos que lhe sangravam os pés. Vamos querida. Vamos continuar seguindo seu exemplo; é hora de passarmos no Lar e conferir se tudo está indo bem.
— Sim, vamos.
Paulo e Marília seguiram de mãos dadas rumo ao dever que os chamava.
O sol se escondia e projetava ainda naquelas alamedas seus últimos raios aquecendo o planeta como que acariciando todas as criaturas, filhos de Deus.
Para que o mundo possa sofrer uma melhora, o equilíbrio e a paz que todos nós almejamos, é necessário que todos estejamos juntos e preocupados também com o bem-estar do semelhante.
Damos carinho para as pessoas que amamos, mas, para os outros que dizemos não conhecer nem o necessário para que possam viver com dignidade, existem dores muito penosas, e uma delas é o abandono e o descaso.
A vida é cheia de desafios e não devemos fugir deles, porque grandes obras nascem da superação desses desafios. Amparar os desvalidos, ser doador de suor trabalhando em prol de uma comunidade necessitada, dos irmãos que padecem de fome, frio, sem ter o mínimo necessário para uma vida digna e menos sofrida, é um desafio que precisa ser vencido se quisermos realizar o sonho de um mundo melhor.
Deus nos deu, por meio de Jesus, todos os ensinamentos e esclarecimentos que nos levam ao encontro da luz & da verdade.
Por que fugimos deles?
Qual a razão que nos impede de vencer a nós mesmos, extirpando da nossa alma os sentimentos mesquinhos que nos transformam em seres pequenos, seres que se colocam no centro do universo e esperam que o mundo gire em tomo mesmo:

É hora de reflexão!
É hora de repensar e enxugar as próprias lágrimas, e redescobrir a vida e as belezas com as quais ela nos presenteia quando aprendemos a amar de verdade, transformando nosso coração na grande casa de Deus.


UMA NOVA VIDA


No Mundo Espiritual
— Como está passando, Rubens?
— Sinto-me muito bem, irmão Jacob. Tão bem que gostaria de solicitar do Mais Alto autorização para poder me dedicar a algum trabalho.
— Ainda é muito cedo, Rubens; você tem somente seis meses de retorno da Terra, é prudente que aguarde um pouco e se fortaleça mais. Tudo no seu devido tempo.
— Compreendo - exclamou Rubens um pouco desapontado.
— Não fique desapontado, Rubens; compreenda e confie. Tudo na espiritualidade é bem planejado e feito com a finalidade de levar benefício a quem faz e a quem recebe.
— Desculpe-me! Só uma questão me angustia, trazendo-me às vezes um certo desconforto.
— E qual é Rubens?
— A razão pela qual ainda não me encontrei com meus entes queridos: minha esposa, meus filhos e, principalmente, Isabela; e mesmo Fábio, que é filho de dois grandes amigos meus. Por que ninguém veio ainda me ver?
— Alguns deles já vieram lhe ver, Rubens, inclusive lhes deram boas-vindas assim que chegou.
— Mas não me recordo!
— Como já lhe disse tudo aqui acontece no momento exato que deve acontecer. Você estava ainda sonolento, por esta razão não se recorda. Mas virão ter com você novamente, é só aguardar com paciência. Neutralize sua ansiedade e, como já disse, confie.
— Mas todos estão bem?
— Claro, Rubens, todos estão bem, seguindo seu caminho de evolução; trabalhando na seara de Jesus, enfim, dentro do equilíbrio e da paz, cada um no lugar que deve estar.
— Obrigado, irmão Jacob. Suas palavras me tranqüilizam.
— Agora descanse Rubens. Ore a Jesus, entregue-se sem reservas ao Divino Amigo; tudo segue seu curso normal. Você fez por merecer um retorno tranqüilo; sempre foi justo e bom, chegou o momento da colheita.
Assim que Jacob saiu, Rubens deixou-se vagar em seus pensamentos.
Sempre acreditara na vida futura, mas não imaginava que tudo fosse tão "real". Olhava-se e via seu corpo igual ao que tinha na Terra, quando encarnado, mas havia algo diferente: era mais leve, etéreo, sutil e admirava-se de não poder apalpá-lo.
— Lembro-me da doutrina espírita, especialmente do Livro dos Espíritos - dizia para si mesmo. — Este deve ser o perispírito. Realmente é verdade, sinto-me vivo: penso, sinto e raciocino, meus sentimentos são os mesmos. Tudo é
verdade!
Durante a vida o espírito está ligado ao corpo pelo seu envoltório semi-material ou perispírito; a morte é apenas a destruição do corpo, e não desse envoltório, que se separa do corpo quando cessa a vida orgânica.
A observação prova que no instante da morte o desprendimento do espírito não se completa subitamente; ele se separa gradualmente, com lentidão variável, segundo os indivíduos. Para uns é bastante rápido e pode dizer-se que o momento da morte é também o da libertação, que se verifica logo após. Em outros, porém, sobretudo naqueles para quem a vida foi toda material e sensual, o desprendimento é muito mais demorado, e dura às vezes alguns dias, semanas e até mesmo meses, o que não implica a existência no corpo de nenhuma vitalidade, nem a possibilidade de retorno à vida, mas a simples persistência de uma afinidade entre o corpo e o espírito, afinidade que está sempre na razão da preponderância que, durante a vida, o espírito deu à matéria.
É lógico admitir que, quanto mais o espírito estiver identificado com a matéria, mais sofrerá para separar-se dela. Por outro lado, a atividade intelectual e moral e a elevação dos pensamentos operam um começo de desprendimento, mesmo durante a vida corpórea, e quando a morte chega é quase instantânea.
Este é o resultado dos estudos efetuados sobre todos os indivíduos observados no momento da morte. Essas observações provam ainda que a afinidade que persiste, em alguns indivíduos, entre a alma e o corpo é às vezes muito penosa, porque o espírito pode experimentar o horror da decomposição. Este caso é excepcional e peculiar a certos gêneros de morte, verificando-se em alguns suicídios. (Livro dos Espíritos — Capítulo III — item II — pergunta 155a).
Fábio e Isabela acabavam de sair de uma palestra do irmão Jeremias, e comentavam com outros espíritos afins o teor dos ensinamentos contidos na grande sabedoria de Jeremias.

— Nestes anos todos que me encontro na erraticidade, aprendi muitas coisas; me fortaleci e estou me preparando para uma nova encarnação; mas, hoje, ouvindo a explanação do querido irmão Jeremias, tomei a consciência definitiva da importância do amor na construção da nossa evolução espiritual. Espero não me esquecer disso na minha nova experiência na Terra.
— É verdade, Fábio; se não existir amor, não existirá transformação, pois somente este sentimento traz consigo a compreensão, o altruísmo, a generosidade e acima de tudo a bondade e a benevolência em relação ao convívio com o semelhante - disse Isabela.
— Anos atrás, por ocasião do meu retorno da Terra, sofri muito com o desespero de minha mãe, sua inconformação e seu afastamento de Deus. Esta sua atitude impedia-me de me adequar a minha nova vida. A cada lamento queria voltar e ajudá-la, mas não tinha ainda condições de fazer nada por ela, então me desequilibrava no afã de querer retornar ao meu lar terreno.
Carla, uma garota de dezessete anos, desencarnada por causa de uma leucemia, confidenciou aos amigos:
— O que você esta dizendo é bem verdade, Fábio. Comigo aconteceu algo parecido. Meus pais não se conformaram com a separação e se afastaram de Deus, completamente, culpando-o pelo sofrimento que passavam. Gritavam, blasfemavam contra o Criador, enfim, cada vez mais impediam-me de encontrar a paz com a aceitação do meu desencarne. Sofri muito, até que, por misericórdia do Divino Amigo, fui agraciada com a bênção divina. Isolaram-me para que nenhum grito de desespero ou chamamento de meus pais pudessem chegar até meu espírito.
— Como fizeram isso?
— Não sei Isabela; como se faz isso eu não sei. O que sei é que fui recebendo tratamento, orientação, aos poucos fui me entregando à prece, aceitando minha nova situação e encontrei meu equilíbrio e minha paz.
— Quanto tempo durou a inconformação de seus pais? - perguntou Fábio.
— Cinco anos, Fábio. Cinco longos anos. Somente há dois anos é que eles se conformaram e seguem a vida em harmonia. E como aconteceu esta aceitação, veio a compreensão de que precisamos aceitar a vontade de Deus, que a separação acontecerá um dia para todos.
— É a única certeza que temos quando estamos encarnados, que o retorno acontecerá para todos.
— Bem, uma vizinha de meus pais é espírita, conhecedora e praticante da Doutrina Espírita em toda a sua pureza. Com paciência e carinho, deu-lhes assistência até que um dia conseguiu levá-los ao Centro Espírita que freqüenta. Devagar foram tomando conhecimento da vida futura; que a morte não existe, que a chama da vida não se extingue, apenas se transforma. Deus não iria criar seus filhos para posteriormente acabar com eles. O espírito é eterno e aqueles que partem continuam existindo em alguma morada da casa do Pai, nutrindo o mesmo sentimento de amor para com seus entes queridos que na Terra ficaram. O reino de Deus é infinito e nele existem muitas moradas.
— Com minha mãe também foi assim, Carla. Ela caiu no desespero e na depressão. Se não fosse o pai de Isabela, o querido e bondoso Dr. Rubens, minha mãe não teria encontrado o caminho de volta. É por isso, Isabela, que quando soube do retorno de seu pai, quis logo estar com você, para junto com você agradecer a ele o bem que fez a minha mãe e a mim. Solicitei autorização para isso, no que fui atendido.
— Veja você, Fábio. Meu pai ajudou tanto a sua mãe e, no entanto, quando retornei, foi sua mãe quem o auxiliou a retomar sua esperança e sua vida de amor.
— É verdade, eles conseguiram enxugar suas lágrimas baseados no amor que constrói. O ser humano sempre desequilibra quando o coração é atingido. É por isso que necessitamos prestar muita atenção em nossas reações diante de um grande sofrimento. Nunca se deve fechar as portas para o amor de Deus, pois somente esse amor nos traz a consolação e o entendimento para os desígnios divinos.
— Entregar-se ao desespero desarrazoado é negar a fé que se diz ter; é permitir a ausência de Deus em seu coração - disse Isabela. — Nossos parentes que ficam se esquecem de que, quando enviam para nós pensamentos de amor e saudade, esta lembrança nos deixa mais felizes, aumenta o nosso bem-estar e, para aqueles que ainda não encontraram a felicidade no reino de Deus, e sofrem, serve-lhes de alívio, e é um bálsamo para suas dores.
A alma no instante da morte volta a ser espírito e retorna ao mundo dos espíritos, que ela havia deixado temporariamente. A sua individualidade, ela não a perde jamais. Esta individualidade ela constata por meio de um fluido que lhe é próprio, que tira da atmosfera do seu planeta e que representa a aparência da sua última encarnação: seu perispírito.
O espírito leva a lembrança e o desejo de ir para um mundo melhor. Essa lembrança é cheia de doçura ou de amargor, segundo o emprego que tenha dado à sua vida. Quanto mais pura ela for, mais compreenderá a futilidade daquilo que deixou na Terra.
A prova da individualidade da alma, nós a temos pelas comunicações que obtemos. Se não estiverdes cegos, vereis; e se não estiverdes surdos, ouvireis; pois freqüentemente uma voz vos fala e vos revela a existência de um ser que está ao vosso redor.
A separação da alma e do corpo não é dolorosa; o corpo, freqüentemente sofre mais durante a vida do que no momento da morte; neste a alma nada sente. Os sofrimentos que às vezes se provam no momento da morte são um prazer para o espírito, que vê chegar o fim do seu exílio.
A partir do momento que se desligam os liames que a retinham, a alma se desprende gradualmente e não escapa como um pássaro cativo que fosse liberto. Os dois estados se tocam e se confundem, de maneira que o espírito se desprende pouco a pouco dos seus liames; eles se soltam e não se rompem. (Livro dos Espíritos — Capítulo III — item II — pergunta 154 e seguintes).
— O irmão Jacob autorizou que fossemos visitar seu pai, Isabela. Disse-me que ele se encontra preparado para o encontro com você.
Isabela sentiu uma imensa alegria tomar conta de todo o seu ser.
— Fábio, você não sabe quanto esperava por este encontro! Vamos?
— Antes preciso lhe dizer que o irmão Jacob pediu que controlasse sua ansiedade, e não comentasse nada sobre sua mãe e seus dois irmãos.
Uma sombra de tristeza abateu o semblante risonho de Isabela.
— Por quê, Fábio?
— Não sei lhe responder, Isabela, mas devemos sempre acatar e respeitar as orientações dos nossos superiores. Sempre existe uma causa justa.
— Está certo! Vamos, então?
— Quer nos acompanhar, Carla? - perguntou delicadamente Fábio.
— Obrigada amigos, mas não posso; tenho uma tarefa a cumprir.
— Então, até mais tarde!

— Até mais tarde!
Fábio e Isabela seguiram ao encontro de Rubens. Isabela esforçava-se para se equilibrar, controlando sua ansiedade e expectativa.


REENCONTRO


Rubens imerso em suas reflexões.
A paz reinava naquele quarto onde abrigava um espírito que, vencendo todas as provas às quais fora submetido na sua trajetória na Terra, conseguira se firmar como um vencedor.
Demonstrara amor e generosidade; não questionara os desígnios de Deus e, mesmo quando seu coração abatido por mais uma prova de separação se inclinara ao desânimo, conseguira mais uma vez se reerguer e secar suas lágrimas sempre em favor do semelhante.
Isabela sentiu uma ternura imensa invadir todo o seu ser. Fora aquele espírito que estivera ao seu lado nos seus anos terrenos; que a amara e auxiliara a superar as limitações de seu corpo físico preso a uma cadeira de rodas.
Fábio conseguia compartilhar de toda a sua emoção, afinal, fora ele quem levantara sua mãe e mostrara-lhe as maravilhas da fé e da aceitação da vontade de Deus, quando tomamos consciência de que esta vontade é soberana e que jamais poderemos mudar. Esta é a grande sabedoria, tomar consciência do que podemos e devemos fazer para modificar certas situações que estão ao nosso alcance e aceitar com fé e subserviência ao Criador, quando não conseguimos entender as razões e os porquês das dores que sofremos, e nas quais não podemos interferir.
Rubens percebeu a presença dos dois espíritos e virou-se.
Todo o seu ser iluminou-se de alegria e emoção ao ver a filha querida.
— Isabela!
— Sou eu sim, papai! Graças ao Senhor nos reencontramos! Esta é a grande bênção, poder estar novamente junto daqueles que amamos e que deixamos na Terra.
Ao olhar indagador de Rubens, Isabela disse:
— Este é Fábio, pai. Lembra-se dele? O filho de Marília e Paulo? Somos grandes amigos - e voltando-se para Fábio perguntou-lhe: Não somos Fábio?
— Claro Isabela!
— Que prazer reencontrá-lo, Fábio. Tenho grande estima por seus pais terrenos. São espíritos lutadores e que estão dando continuidade à tarefa que deixei na Terra. Posso dizer-lhe que sinto por você a mesma estima e afeto que cresce ao saber de sua amizade por Isabela. É uma bênção que recebo neste instante.
O espírito encontra imediatamente aqueles que conheceu na Terra e que morreram antes dele?
Sim, segundo a afeição que tinham mantido reciprocamente. Quase sempre eles o vêm receber na sua volta ao mundo dos espíritos, e o ajudam a libertar-se das faixas da matéria. Vê também muitos que havia perdido de vista durante a passagem pela Terra; vê os que estão na erraticidade, bem como os que se encontram encarnados, que vai visitar. (Livro dos Espíritos — Capítulo III — item II — pergunta 160).
Enquanto os três espíritos se deliciavam com o encontro tão esperado, entrou no quarto de Rubens um irmão até então desconhecido para ele.
— Posso fazer parte deste momento de união e afeto? - perguntou sorrindo.
— Claro - apressou-se Rubens a responder. — Hoje é um dia muito feliz para mim. Jesus está me agraciando com uma bênção ao permitir meu encontro com Isabela e Fábio.
— Sinto a felicidade de vocês pela paz reinante neste recinto.
Percebendo o desejo de Rubens de identificá-lo, apressou-se a se apresentar.
— Sou Horácio, discípulo do irmão Jacob. Acompanhei ao lado do meu querido mestre a sua trajetória de lutas e vitórias, Dr. Rubens. Solicitei aos superiores a permissão de acompanhá-lo na sua caminhada terrena, no que fui atendido.
Conheci-o quando encarnado e sabia que poderia aprender muito com o senhor. A sua generosidade, o seu amor espontâneo pelo semelhante atingiram meu coração e nunca o esqueci.
Rubens surpreendeu-se. Não se lembrava de tê-lo conhecido na Terra.
— Não se questione nem se sinta embaraçado; não se lembra mesmo de mim. Esta é a característica do bem feito por um impulso generoso. Aquele que o faz nada cobra, não exige recompensa e esquece o ato de bondade praticado, não por descaso, mas por saber que foi um dever cumprido, o amor executado por conta da aceitação e da compreensão dos ensinamentos de Jesus. Só age assim aquele que se sente seguro na fé. Hoje vim agradecer-lhe.
Rubens estava estupefato. Realmente não se lembrava de nenhuma situação em que Horácio estivesse envolvido.
— Perdoe-me, mas poderia me dizer de onde me conhece?
— Claro! Vim aqui para agradecer-lhe.
Diante da interrogação de Rubens, Horácio iniciou sua narrativa.

— Quando da minha estada na Terra, contraí matrimônio com Lucila. Moça de classe média, bonita, estudada, simpática, enfim, para mim possuía todas as qualidades com as quais eu sonhava na mulher que iria ser minha companheira e mãe de meus filhos. Apaixonei-me perdidamente. Namoramos durante um ano e meio e nos casamos. No início tudo parecia caminhar de acordo com os meus sonhos, e me sentia o homem mais feliz e afortunado do mundo. Todos os meus desejos pareciam se realizar e para que meu universo de felicidade se completasse só faltava uma criança me chamar de pai. Lucila parecia comungar com minha aspiração. Após oito meses de casamento, comecei a notar em Lucila uma irritação notoriamente visível. Questionada sobre a razão desta mudança de comportamento, respondeu-me estar grávida. Quase enlouqueci de tanta felicidade, meu maior sonho iria se tornar realidade. Peguei-a no colo e a beijei com carinho e profundo amor. Não podia imaginar que o mesmo não acontecia com Lucila. Passou-se um mês. Certo dia, ao regressar do trabalho, encontrei-a acamada, pálida e fraca. Assustado, quis inteirar-me do que acontecera para deixá-la naquele estado.
— Perdi o bebê - respondeu-me.
Com o rosto entre as mãos chorei como uma criança, mas logo tentei acalmá-la dizendo que Deus enviaria outra criança para nos alegrar.
Lucila piorou. Sem demora levei-a ao hospital mais próximo onde, internada, recebeu o atendimento necessário, mas, apesar da habilidade do médico, seu estado piorou. Meu desespero era quase incontrolável.
— Senhor Horácio - disse-me o médico —, como foi permitir que sua esposa fizesse o aborto?
— Aborto?!
— Sim! É com mãos incapazes, curiosas, que matam sem escrúpulos. Seu estado é grave - completou.
Diante da minha perplexidade o doutor percebeu que de nada eu tinha conhecimento. Lucila pressentiu seu fim. Chamando-me disse-me com voz fraca, mas sem demonstrar nenhum arrependimento ou emoção:
— Não sofra, não chore nem se desespere Horácio; o filho não era seu!
Meu mundo desmoronou mais uma vez, levando com ele minha alegria, minha esperança e a minha fé na vida e em Deus. Quase num sussurro perguntei:
— Por quê, Lucila?
— Porque conheci outro homem e me apaixonei perdidamente por ele.
— Em oito meses você deixou de me amar?
— Eu nunca fui apaixonada por você, Horácio; casei-me porque vi em você um porto seguro.
Naquele momento foi como se meu coração se petrificasse.
A revolta e o ódio se instalaram em mim, impedindo-me de sentir qualquer outro sentimento que não fosse o rancor. Lucila desencarnou e levou com ela qualquer possibilidade de vida em mim. Comecei a beber. Perdi o emprego, a dignidade e os amigos. Em uma das minhas insanidades alcoólicas, encaminharam-me para seu hospital, Dr. Rubens. Foi o senhor, com seu conhecimento médico e sua grande capacidade de compreender as fraquezas do próximo e amá-lo mesmo assim, quem me "adotou" como filho. Tratou-me como a uma criança perdida, mostrou-me o rumo a seguir; devolveu-me com sua generosidade a consciência de que necessitamos prosseguir mesmo, e principalmente, quando a dor nos visita. Ensinou-me que é nessa hora que damos testemunho de que nossa fé é real; que a presença de Deus em nós é verdadeira. Foi o senhor quem me mostrou tudo isso; quem me acompanhou e me reergueu no momento em que me faltou o estímulo. Voltei a trabalhar, reconquistei minha auto-estima e reconstruí minha vida. Dediquei-me a aprender o Evangelho de Cristo e consegui ver a vida com olhos de esperança e otimismo. Sou-lhe muito grato por isso.
— Você se casou de novo?
— Não, Isabela. Após seis anos desse acontecimento, desencarnei por causa de um acidente de carro. Hoje sei o porquê de tudo o que me aconteceu e agradeço a Deus e ao querido Mestre Jesus ter permitido que eu tivesse um mestre como o irmão Jacob.
Rubens se emocionou.
— Não me agradeça Horácio, o mérito é todo seu. Tudo o que lhe disse estava intrínseco em seu ser.
— Mas foi o senhor quem me fez enxergar. Foi o senhor quem tirou de dentro de mim o que sufoquei com meu ódio. Enquanto muitos criticavam e me chamavam de bêbado, o senhor se apiedou de mim e auxiliou para que eu me reencontrasse.
— Bem - disse Fábio —, mais uma vez tomamos consciência do poder de Jesus em nossa vida, quando permitimos a entrada desse amor infinito no nosso coração.
— Obrigado, Horácio, fico feliz por ter de alguma forma colaborado com você no momento difícil pelo qual passou.
Rubens calou-se.
Diante do silêncio do pai, Isabela lhe perguntou:
— O que foi pai, ficou pensativo? Não se sente bem? Quer descansar?
— É que ainda não entendi por que minha esposa e meus outros filhos não vieram ainda me ver.
Foi Horácio quem respondeu:
— Meu amigo, nada acontece antes do momento certo.
As leis são respeitadas. Nosso querido Jacob se encarregará de tudo; as coisas na espiritualidade acontecem, não para satisfazer curiosidades, mas para trazer benefícios. Tenha calma e confiança. Nós vamos nos retirar, aproveite e se entregue à prece que nos acalma e equilibra.
Assim que Fábio, Isabela e Horácio se retiraram, Rubens ajoelhou-se em frente a um lindo quadro de Maria de Nazaré e orou:
— Graças vos dou. Mãe de Jesus, e ajoelhado aos vossos pés entrego meu coração agradecido pelas bênçãos recebidas durante a minha estada na vida física e agora que me encontro de volta à Pátria Espiritual. Curvo-me diante de vossa grandeza e, humilde, vos suplico, permita meu reencontro com aquela que foi minha companheira na vida terrena, assim como com meus dois filhos que com ela retornaram à casa do Senhor. Sinto meu espírito inquieto e ansioso, mas, se ainda não for o momento propício, aceito a vossa vontade como soberana e aguardo a hora do chamado como o menor de vossos filhos. Assim seja!
Todo o quarto estava inundado por uma luz violeta que envolvia Rubens e acalmava seu espírito.


RUBENS E JÚLIA


Rubens estudava o Evangelho, usufruindo da doce paz, reinante no parque arborizado e florido. O sussurrar da água descendo pela cascata convidava à meditação.
Dois meses se passaram desde o encontro com Isabela. Rubens aguardava com paciência a realização de seu sonho de se reencontrar com Júlia e os filhos, Francisco e Carlos.
Sabia, por meio de Fábio e Isabela, que na Terra todos os amigos estavam bem.
O Lar de Isabela a cada dia se firmava como um exemplo de amor e fraternidade, graças aos esforços de todos que ali trabalhavam especialmente Marília e Paulo.
Somente a saudade de Júlia e dos filhos perturbava ainda seu espírito.
— Posso me sentar?
Rubens olhou e esboçou um largo sorriso.
— Claro irmão Jacob, sua presença só me traz alegria.
— Tenho boas notícias para você.
— Quais?
— Vou levá-lo ao encontro de Júlia.

Rubens sentiu uma leve vertigem. Mal podia controlar sua emoção.
— Quando? - perguntou timidamente.
— Agora!
— Agora?!
— Sim. Por que não? A não ser que não queira ir.
— Não brinque comigo, irmão Jacob. Sabe que é meu sonho, desde que aqui cheguei encontrar Júlia.
— Se estiver preparado, podemos ir.
— Espere! Como ela está?
Jacob percebeu tremor e ansiedade em Rubens.
— É como eu pensava - exclamou. — É melhor que saiba a história de Júlia antes de encontrá-la; creio que assim manterá o equilíbrio para seu próprio benefício. Sente-se, vamos conversar.
Rubens, obedecendo, sentou-se e aguardou.
— Meu caro amigo - iniciou Jacob —, nem tudo ocorre da maneira que imaginamos. A cabeça de cada um responde à crença que cada um agasalha em seu ser. O que acreditamos ser verdade nem sempre é, e se não damos nenhuma chance a nós mesmos para que esta pseudo verdade se desmistifique, fechando nossos ouvidos às explicações que poderiam trazer a consciência de que estamos errados, caímos em um engano destrutivo e perigoso, que pode nos levar a anos de sofrimento e amargura. Isto aconteceu com nossa querida irmã Júlia. O acidente que a trouxe com seus filhos de volta à casa espiritual seguiu apenas o curso natural do planejamento espiritual.
— Não consigo entender, irmão Jacob!
— Júlia, assim como Francisco e Carlos, foi logo socorrida e levada para o hospital Maria de Nazaré. Ficou adormecida por quatro meses. Assim que acordou, apesar de todo o acompanhamento necessário, desequilibrou-se e recusou qualquer auxílio. Sentia-se responsável pelo acidente; culpou-se de uma maneira tão severa que nada conseguia penetrar seu coração. Começou a sentir medo, principalmente de você, pois acreditava que iria castigá-la por ter matado seus filhos. Quis ir embora de nossa colônia e se perdeu vagando por muitos anos, tentando se punir por um mal de que não tinha culpa nenhuma. Entrou em demência profunda e mais parecia uma andarilha; sem rumo, sem destino, sem Deus.
Quando Isabela retornou, assim que tomou conhecimento do estado deplorável da mãe, e se sentiu capaz, solicitou permissão para acompanhar uma equipe socorrista e com ela foi a busca de Júlia.
Júlia não a reconheceu de imediato, mas, cansada, e tocada pela vibração terna e amorosa de Isabela, pediu ajuda. Foi recolhida e trazida novamente ao hospital onde começou um tratamento para fazê-la voltar à sua realidade. Tudo foi muito lento, respeitando o tempo de Júlia. Posteriormente reconheceu a filha e docilmente entregou-se ao amor de Jesus, aceitando com passividade todas as orientações, os passes que a fortaleciam, enfim, os medicamentos para recobrar seu equilíbrio.
Já estava fortalecida e em paz, quando soube do seu retorno. O antigo medo voltou. Estes meses todos Isabela e Fábio, assistidos pelo Dr. Danilo, querido irmão colaborador eficiente do hospital, cuidaram dela com dedicação e desvelo. Hoje ela se sente segura para encontrar você, mas é muito importante a maneira como você se comportará com ela.
— Eu a amo, irmão Jacob, e jamais a acusei de culpa alguma.
— Eu sei. Mas ela não sabe que em nenhum momento você a culpou. Quero apenas que não passe para ela nenhum sentimento de frustração ou qualquer outro que possa desencadear seu desequilíbrio novamente. Júlia é um espírito fraco, Rubens, e você já aprendeu a compreender as fragilidades e fraquezas dos outros.

— Mas porque se culpou tanto? Na perícia ficou provado que a culpa tinha sido toda do motorista do caminhão, que transitava na contramão. Ela não teve culpa de nada, foi uma vítima.
— Você sabe disso e nós também, Rubens. As mortes violentas trazem freqüentemente perturbações muito grandes para o espírito que é surpreendido com a separação inesperada. Júlia culpou-se da morte de Francisco e Carlos, foi a maneira que ela mesma encontrou de se punir. E por isso que devemos ter muito cuidado com nossas crenças, nosso cérebro sempre encontra um jeito de nos satisfazer
— Irmão Jacob, Francisco e Carlos, quando poderei estar com eles?
— Você poderá vê-los em outro corpo físico, Rubens, encontram-se reencarnados.
— Reencarnados?!
— Sim. Reencarnaram em um lar espírita; família simples, que tem como ideal de vida exercitar o amor fraternal. Moram em uma cidade pequena do interior de Santa Catarina e são novamente irmãos consangüíneos. Francisco hoje se chama Gabriel e está com quatro anos de idade; Carlos é Rafael e conta dois aninhos. Vivem felizes e levaram como proposta de vida uma importante tarefa social junto à comunidade de sua cidade.
— Entristeço-me por não poder estar com eles, vê-los mais uma vez como meus filhos, mas alegro-me pelo fato de terem conseguido nova oportunidade de se reencarnar, relativamente em um curto espaço de tempo e preparados para uma tarefa importante junto ao Evangelho de Jesus. Eles sofreram muito quando retornaram com Júlia?
— Não, Rubens. São dois espíritos esclarecidos, firmes em seus propósitos do bem e muito bem alicerçados na fé. Não tardaram a se equilibrar e a recordar o porquê de tudo acontecer daquela forma. Ficaram felizes por terem cumprido de maneira satisfatória a proposta daquela encarnação, que era auxiliar um grande e estimado amigo: você!
Jacob percebeu a expressão de Rubens e captou seu pensamento.
— Diga-me sem constrangimento, amigo, o que gostaria de saber?
— Ocorreu-me então que tudo era uma prova para mim e não para eles.
— É verdade. Alegro-me que tenha percebido sozinho.
— Mas e Júlia? Se ela também se propôs a me auxiliar, por que no retorno entrou em desequilíbrio?
— Júlia é um espírito bom, porém fraco. A atitude dela foi inesperada também para nós, ficamos surpresos. Ela mesma solicitou permissão para ajudá-lo nesta prova, antes de se reencarnar. Em uma encarnação passada foi sua mãe terrena e, por conta do grande amor que sentia por você, quis ajudá-lo a vencer suas más tendências, tendências essas que ela mesma alimentou com uma educação fraca e sem pulso. Não combateu os germes dos sentimentos mesquinhos que corroíam sua alma, e você muito errou. Por esta razão quis estar novamente com você e fazê-lo feliz dentro do amor e da sensatez, o que conseguiu, pois como marido e mulher viveram a felicidade plena.
— É verdade, fui muito feliz ao lado dela. Mas por que o desequilíbrio?
— Infelizmente, ao retornar Júlia, não entendeu e não aceitou a separação súbita, sofreu pela teimosia de não querer compreender. Culpou-se por infligir ao ser que amava tanto sofrimento, e a partir dessa crença entrou em demência. Por esta e outras razões, volto a dizer que é importante vigiar a nossa mente, o que agasalhamos dentro de nós, o que acreditamos como verdade absoluta. Todos são passíveis de erro; por isso não se pode ser fanático nem radical demais.

— E como ela está agora?
— Feliz equilibrada e ansiosa por ver você.
— Explique-me o que deveria aprender para que me fosse imposta uma prova tão dura e penosa.
— Esta prova não lhe foi imposta, mas escolhida por você mesmo. Quis que seu coração se sensibilizasse pelas perdas. A partir de todo esse sofrimento seu coração se abriu para entender a razão da vida. Aprendeu a perder, a amar e a compreender as fraquezas humanas. Tomou consciência da importância da fraternidade; amparou e auxiliou quantos se aproximaram de você; tornou-se melhor e mais justo, enfim, fortaleceu seu espírito na fé e extirpou a semente do orgulho e do egoísmo e, sendo assim, pôde retornar como um vencedor.
— Falta-me apenas uma explicação!
— Pergunte!
— Isabela, minha doce e querida Isabela.
— Rubens, Isabela já esteve ao seu lado em outras encarnações e sempre se gostaram muito. É um espírito forte e vencedor. Por meio dessa força, ajudou-o a enxergar que sempre vale a pena viver; que nenhum sofrimento ou dor pode superar o amor de Deus. Criança ainda se viu presa em uma cadeira de rodas, mas, mesmo assim, mostrou-lhe a alegria e o otimismo. Ensinou-lhe que se pode ser feliz mesmo quando os sonhos não se realizam, porque a felicidade é um estado da alma.
— Realmente ela foi um anjo em minha vida. Julgava que era eu quem a amparava e na realidade era ela quem me ensinava a mágica do amor.
— Rubens, a humanidade sofre porque insiste em idolatrar o poder e a riqueza; as conquistas e as aquisições materiais estão sempre em primeiro plano. Não consegue perceber os valores reais que se devem cultivar e insiste nos enganos que fatalmente nos levam ao sofrimento futuro.
— E quando isso mudará irmão Jacob?
— Quando o homem aprender a amar seu semelhante como Jesus amou e exemplificou. Quando aprender a respeitar a liberdade e a limitação do seu próximo, enfim, quando entender que a casa de Deus pertence a todas as criaturas e todos têm igualmente direito a um lugar ao sol. Mas o homem não quer compartilhar, dividir; ao contrário, acostumou-se tanto a enganar, a tirar vantagem em benefício próprio que o caminho de volta cada vez se distancia mais.
— Tem razão! Como sou feliz e agradeço a Deus por ter conseguido vencer.
— É, Rubens, ninguém consegue vencer se não se preparar e semear para isso, e a preparação se inicia conhecendo e praticando o Evangelho de Jesus.
Rubens sentia-se leve e em paz. Pensava em como tudo na espiritualidade é lógico, justo e planejado.
Jacob, tirando-o de suas reflexões, chamou-o para irem ao encontro de Júlia. Rubens seguiu-o.
Encerrava-se ali a trajetória de um espírito que fez da Terra sua escola de amor. Sofreu, amou, evoluiu. Aprendeu a se depurar por meio da vivência do amor; enxugou suas lágrimas nos lenços sedosos do amor; acreditou que ninguém se torna sensível ao sofrimento alheio se não vivê-lo; ninguém sabe a dor de uma lágrima se suas faces nunca foram molhadas por uma, enfim, ninguém sabe o valor da luz se não conhecer a sombra.
Este é o desfecho de uma história, de uma etapa na imensa trajetória de uma alma; mas também o início de um novo aprendizado para que a evolução se faça no infinito universo de Deus.
Necessário se faz compreender a importância do amor em todas as suas formas; da fé raciocinada e da ligação plena e verdadeira com Deus para que possamos promover a nossa reforma íntima que nos aproximará mais do Criador.

Não se deve ter apenas a aparência da piedade ou da bondade, mas ser realmente bom e piedoso. Nossa conduta deve ser coerente com o que se diz se prega se assim não for, será apenas um fingimento. Deus quer que seus filhos o adorem com sinceridade, do fundo do coração e fazendo todo o bem que se pode fazer.
Aquele que se vangloria de adorar o Cristo, mas que é orgulhoso invejoso e ciumento, que é duro e implacável para com os outros ou ambicioso de bens mundanos, eu vos declaro que só tem a religião nos lábios e não no coração.
Deus que tudo vê dirá: aquele que conhece a verdade é cem vezes mais culpável do mal que faz do que o selvagem ignorante e será tratado de maneira conseqüente, no dia do juízo. Se um cego vos derruba ao passar, vós o desculpais, mas se é um homem que enxerga bem, vós o censurais e com razão.
Os homens que se entregam à vida contemplativa, não fazendo nenhum mal e só pensando em Deus, não têm nenhum mérito aos Seus olhos, pois, se não fazem o mal, também não fazem o bem e são inúteis. Aliás, não fazer o bem já é um mal. Deus quer que se pense Nele, mas não que se pense apenas Nele, pois deu ao homem deveres a serem cumpridos na Terra. Aquele que se consome na meditação e na contemplação nada faz de meritório aos olhos de Deus, porque sua vida é toda pessoal e inútil para a humanidade. Deus lhe pedirá contas do bem que não se tenha feito.
Os cânticos não chegam a Deus senão pela porta do coração. (Livro dos Espíritos — Capítulo II — pergunta 654 e seguintes).


A VIDA PROSSEGUE...


Marília brincava com a netinha no jardim de sua casa. Marina, com apenas um aninho, respondia às demonstrações de carinho de sua avó. Esperta, alegre e saudável, era a alegria de Paulo e Marília.
Laís, ao se casar com Renato, optara em continuar morando com seus pais, fato que proporcionou a eles uma grande satisfação.
André fazia residência no hospital e, apesar da distância da cidade onde estava não ser tão grande, vinha pouco visitar os pais devido aos compromissos como médico residente.
Desde a desencarnação de Inês, vítima de um enfarto, Paulo e Marília sentiam-se um pouco sós em uma casa tão espaçosa, razão pela qual Laís e Renato preferiram ficar com eles.
Tudo era harmonia naquele lar que já havia experimentado o sofrimento, mas que continuara de pé, por conta do esforço e da fé existentes naquele casal.
Muitas vezes o desânimo tentara encobrir a disposição com que Paulo e Marília enfrentavam seu dia-a-dia, mas baseados nos esclarecimentos recebidos de Rubens, esforçavam-se para não acrescentar mais problemas aos que já existiam, e logo retomavam a disposição e o ânimo para enfrentá-los.
Aprenderam que não se deve acrescentar mais miséria à miséria já existente e que a pior de todas elas é a miséria espiritual, é o coração vazio de fé, pela ausência de Deus.
Continuava com seu trabalho social no Lar de Isabela, que a cada dia acrescentava mais luz na sua grande fraternidade.
Marília, durante esses anos, enfrentara duas cirurgias, mas, se seu corpo físico se enfraquecia, sua alma mais e mais se fortalecia pela caridade que aprendera a exercitar.
Soubera pelas cartas de Laura, que chegavam regularmente, que Marcos se formara técnico em computação e estava de casamento marcado com Priscila, moça que, segundo Laura, dava demonstrações de ótimo caráter, o que deixava Laura e Pedro felizes com a escolha do filho.
Muitas vezes Marília em suas reflexões revivia seu passado, todos os acontecimentos que lhe trouxeram dor e que tanto ela quanto Paulo haviam enfrentado. Percebia que na superação desses fatos ruins e conflitantes sempre fora o amor a mola mestra que os impulsionara para as soluções acertadas.
Lembrava-se sempre do querido amigo Rubens, que tanta importância tivera em sua vida. A cada pensamento enviava vibração de carinho e agradecimento por todo o bem que tinha feito, tanto para ela quanto para toda a sua família.
— Querido amigo - pensava -, foi uma grande bênção ter convivido com você, aprendido com você há valorizar cada minuto vivido e ser feliz pelo simples fato de poder respirar. Que Jesus o abençoe na sua caminhada espiritual que, acredito eu, deve estar sendo de glórias.
— Mãe! Mãe! - exclamou Laís.
— Que foi filha?
— Há tempos estou chamando e a senhora não responde, estava tão absorta.
— É que Marina adormeceu em meu colo e entreguei-me aos meus pensamentos. O que deseja Laís?
— Nada, mãe. É que vim ver como estava Marina, só isso. Já que ela dormiu, vou colocá-la no berço.
— É melhor mesmo, filha, ela dormirá mais confortável.
Laís entrou, carregando a filha no colo.
Marília também resolvera entrar quando foi surpreendida por uma voz sofrida que a chamava no portão de sua casa.
Aproximou-se e educadamente perguntou:
— Eu a conheço?
— Não, Dona Marília, mas eu a conheço.
— Em que posso ajudá-la?
— Posso entrar?
Dizendo isso, percebeu o ar indeciso de Marília e complementou:
— Não tenha receio, não vim para fazer-lhe mal algum, ao contrário, vim pedir-lhe ajuda. Moro a três quadras daqui e estou passando pelo pior momento da minha vida. Total desespero! Sei que somente a senhora poderá entender o meu
sofrimento e me ajudar.
Marília enterneceu-se com a visível angústia estampada no rosto e nos olhos tristes daquela mulher. Abriu o portão e a convidou a entrar. Sentaram-se no mesmo banco no qual momentos antes brincava com sua netinha.
— Qual o seu nome?
— Iolanda!
— Em que posso ajudá-la, Iolanda?
— Dona Marília...
— Marília! Por favor.

— Está bem, Marília - repetiu. — Estou vivendo, como já disse o pior momento da minha vida, o fundo do poço, como todos dizem, e não vejo a tão famosa luz no final do túnel.
— Mas o que aconteceu de tão grave assim?
— Perdi meu filho! - exclamou quase gritando. — E não posso aceitar isso. Ele era tão jovem, tão cheio de vida, de esperança, de ideais, e morrer assim, de uma maneira tão brutal, sem nenhuma razão.
Por segundos Marília se ausentou e viu a si própria quando se separou de Fábio. O mesmo desespero, a mesma revolta, a mesma angústia e a mesma falta de fé.
"A situação se repete", pensou. Movida pela força dos sentimentos que assaltaram seu coração naquela época, e compreendendo toda a dor, todo o redemoinho que com certeza estava aprisionando o coração daquela pobre mulher, condoeu-se ainda mais de Iolanda, pois pôde se identificar com ela e compreender ainda mais a dor que ela estava sentindo.
Notou uma leve brisa envolvê-la e foi como se uma voz amiga lhe dissesse em um sussurro: "Marília, ajude-a a sair desse desespero, mostre-lhe a única forma de encontrar novamente a esperança e a fé; fale-lhe do amor de Deus e da necessidade de redescobrir a vida em meio à tristeza que a está sufocando. Você conseguiu, auxilie para que ela consiga também. Todos um dia sofrerão a dor da separação, mostre-lhe como passar por essa dor e sair ileso, sem colocar ranço e mofo no coração."
Voltando à realidade, Marília segurou as mãos de Iolanda com carinho maternal.
— Ele estava doente?
— Não, foi brutalmente assassinado por um assaltante que reduziu o valor de sua vida a um par de. Eu sei que você também passou por este sofrimento, perdeu um filho. Diga-me, pelo amor de Deus, o que fez para continuar vivendo?
Marília respirou fundo. Não queria que sua ferida sangrasse novamente.
Pensou em Jesus e respondeu:
— Aprendi com um grande amigo que jamais devemos acrescentar mais sofrimento ao nosso sofrimento. Que, se fechamos o coração para todas as possibilidades de superação dessa dor, dificilmente nos livraremos dela. Aprendi que não era a única a sofrer no mundo, que existiam mães que já haviam se separado de dois ou três filhos, e que se confiasse em Deus, na Sua sabedoria e justiça, se me entregasse ao amor para com ela enxugar as minhas lágrimas, poderia encontrar, senão a felicidade antiga, pelo menos a paz que se pode ter quando sofremos com Jesus.
Iolanda se entregava às palavras de Marília como um náufrago se apega a uma tábua de salvação. Com voz mais contida disse:
— Mas, Marília, eu sou mãe!
— Eu sei. Eu também sou e sobrevivi a este vendaval, outras mães também sobreviveram. Demorei, mas aprendi que se pode viver apesar da dor que nos sufoca. Gostaria que você não demorasse tanto como eu demorei, a perceber a presença de Deus em sua vida, principalmente nesta situação de angústia. Lembre-se de que você sofre a separação de um filho digno e bom, mas a mãe daquele que levianamente tirou a vida do seu filho sofre tanto quanto você e ainda com o agravante de saber da maldade, da leviandade, da imprudência e mesmo da insanidade espiritual do coração do seu filho. Sofre por perceber a completa ausência de amor e de Deus naquele ser que saiu de suas entranhas. Por isso, Iolanda, não alimente sentimentos de vingança, a reação vem por si só.
Iolanda continuava pensativa.

— Iolanda, no Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo V - item 19, nós encontramos a saída para nossas aflições:
Um só remédio é infalível para aqueles que estão atravessando males cruciantes: a fé, o olhar para o céu. Se no acesso dos vossos mais cruéis sofrimentos, vossa voz cantar ao Senhor, o anjo à vossa cabeceira, de sua mão vos mostrará o sinal de salvação e o lugar que deveis ocupar um dia...
É a fé o remédio certo do sofrimento; ela mostra sempre os horizontes do infinito, diante dos quais se apagam os poucos dias sombrios do presente. Não vos pergunteis mais, pois, qual o remédio é preciso empregar para curar tal úlcera ou tal chaga, tal tentação ou tal prova; recordai que aquele que crê é forte pelo remédio da fé. E aquele que duvida um segundo da sua eficácia, é logo punido, porque experimenta no mesmo instante as pungentes angústias da aflição.
— Marília, como suas palavras me acalmam! É como se eu conseguisse ver, fraca, mas existente a luz do fim do túnel.
— Que bom, Iolanda, poder ajudá-la neste momento. É importante que saiba que nada vai desaparecendo como em um passe de mágica. Esta luz fraca vai aumentando, brilhando e se tornando forte gradativamente, a cada dia, a partir do momento que você quiser acalmar sua dor e se entregar ao amor de Deus, se esforçando para compreender Seus desígnios.
A nossa alegria é saber que nenhum sofrimento é eterno, e não dura um só dia a mais que o necessário; um dia ele adormece e conseguimos nos sentir felizes novamente.
— Você é realmente tudo aquilo que as pessoas falam de você, amiga e fraterna. É realmente uma pessoa especial.
— Você está exagerando, Iolanda. Posso ser um pouco melhor do que fui tempos atrás; apenas tento passar para você o que meu grande amigo me ensinou no meu momento de desespero: sem amor não existe paz. Tudo o que aprendemos devemos compartilhar com o nosso próximo e não trancafiar o que sabemos em nosso coração, impedindo que o semelhante tenha acesso à informação edificante e, conseqüentemente, diminuindo-lhe a chance de renovação.
— Obrigada, Marília, sinto-me em condições de refletir em tudo o que me disse.
— Faça isso, reflita! E lembre-se de que a distância não existe para aqueles que amam. Seu filho continua amando você e espera prosseguir recebendo o mesmo amor e carinho com os quais você o criou. Este amor chegará até ele como um bálsamo, aliviando a saudade e estimulando sua estrada de evolução.
— Posso lhe fazer uma pergunta?
— Claro!
— Teria algum inconveniente se eu me tornasse uma voluntária no Lar de Isabela que você dirige?
— Nenhum Iolanda, ao contrário, iria lhe fazer muito bem e traria uma grande alegria para todos nós. Apareça por lá um dia, assim tomará conhecimento do trabalho que fazemos. Inicie no dia que quiser e se sentir preparada para assumir esta tarefa. Será muito útil, creia.
— Eu vou pensar em tudo o que você me disse, e se Deus quiser conseguirei sair da auto-compaixão, do papel de vítima, de sofredora.
— Isso mesmo, Iolanda, você conseguirá. Transforme seu sofrimento na alegria de muitos irmãozinhos que necessitam. Guarde seu filho no lugar mais nobre de seu coração, deixe o amor que sente por ele existir sempre, sem anular o amor que pode sentir pelo seu semelhante. Verá como a paz retornará ao seu coração e à sua vida.
Delicadamente, Marília perguntou:
— Aceita um café, um suco?

— Não, obrigada. O a que vim buscar você me deu: o ombro amigo e a palavra de incentivo que me faltavam. Bem, eu já vou indo, minha amiga. Posso chamá-la de amiga?
— Claro, Iolanda, isto só me alegra, ganhar uma nova amiga!
Despediram-se.
Marília olhou aquela mulher se afastando, ombros levemente curvados pelo peso da dor e pensava em como nossa vida é cíclica. Tudo que recebemos podemos dar de volta se nossos olhos enxergarem, nossos ouvidos ouvirem e nosso coração se abrir para o amor fraternal. Esta capacidade todos nós possuímos, mas às vezes nós mesmos não sabemos.
Com o bem-estar que só sentem aqueles que têm puro o coração, Marília entrou feliz por ter sido útil a alguém.
Dirigiu-se ao quarto de Marina e olhou-a ternamente adormecida em seu berço.
— Querida netinha, que você aprenda que nossa vida está sempre borbulhando, criamos situações e nem sempre as resolvemos a contento, mas o que jamais poderá faltar em nosso coração é a fé no Criador e a certeza de que um dia
retornaremos para a casa do Pai que está no Céu, e nesse retorno levaremos somente as nossa obras, nossos sentimentos e o que fizemos da oportunidade concedida por Deus para evoluirmos em direção à plenitude do amor.
Devemos viver cada dia como se fosse o último, fazendo todo o bem que se pode fazer.


PALAVRAS DA MÉDIUM


A grande sabedoria de Deus se faz presente em todas as situações da nossa vida, muito embora todos nós nos sintamos e julguemos estar sozinhos quando nosso coração é atingido pela flecha da dor.
Nem sempre percebemos as possibilidades que se apresentam em nossa vida para a superação deste sofrimento, porque nos acostumamos a olhar somente para nós mesmos, esquecendo que o auxílio pode vir, não raro, por meio de um aperto de mão.
Nunca estamos sós, senão vejamos: você leitor que se entregou ao deleite desse livro e eu, que durante um certo tempo o escrevi ao lado do grande amigo Irmão Ivo, provavelmente nascemos em dia, hora e lugar diferentes, mas nos envolvemos nesta leitura, vivendo a mesma emoção e talvez a mesma identificação com a narrativa tão consoladora deste Espírito amigo. De alguma maneira fazemos parte dessa energia e não deixa de ser um encontro, o encontro do desejo único de aprender a viver com equilíbrio.
Qual a razão?
Talvez seja a ânsia de encontrar um motivo para viver quando a dor nos sufoca, ou recuperar a esperança perdida, ou mesmo e principalmente aprender a exercitar o sentimento maior do amor.
Amor!
Que sentimento mágico é este que une as pessoas seca as lágrimas e renova nossa alma.
Se aprendemos por meio de todos os ensinamentos e exemplos deixados por Jesus que somente o amor transforma o homem e que nele abre caminho para a conquista espiritual, por que é tão difícil vivê-lo?
Será por medo, fraqueza ou egoísmo?
Relutamos tanto em amar o próximo porque dizemos não conhecê-lo, entretanto somos filhos do mesmo Pai que está no Céu.
Afundamos no desespero por não termos coragem de enfrentar a dor e acalmá-la com a força da fé. Não raro preferimos a mentira, a ilusão e os enganos porque eles nos proporcionam a vã felicidade e, no entanto, esta mesma felicidade se esvai ao primeiro sopro da decepção.
Não estamos acostumados a perder; queremos sempre ganhar e muitas vezes não nos importamos com os caminhos que nos trazem esta vitória. Nada queremos repartir, e nossa fé em Deus é forte e indestrutível quando nada vem abalar o nosso sossego, a nossa saúde e a nossa condição social - percebem como tudo é nosso. — Aí sim ostentamos a aparência de piedoso, fraterno e dizemos contritos: "Seja feita a vossa vontade. Senhor, assim na Terra como no Céu".
Mas, se a vontade de Deus for contrária à nossa e a Ele apraz tirar do nosso lado o ser que amamos, nossa fé se desmorona como uma casa edificada na areia e, para nós, Deus passa a não existir.
Por que somos assim?
Porque somos homens comuns que viemos à Terra, não para passear, mas para aprender; aprender a amar e não ser amado. Viemos para depurar nosso espírito, evoluir e alcançar o Céu.
Pode ser que você, leitor amigo, não conheça nada do que seja uma separação. Ela dói, machuca e sangra. Rasga nosso coração como uma lâmina afiada, causa-nos a dor mais profunda que um ser humano pode agüentar, mas também é verdade que o amor de Deus por nós encobre esta dor, nos acolhe e nos agasalha; ampara-nos e levanta-nos dando-nos condições de prosseguir e ostentar um sorriso nos lábios, que no início se mostra tímido, mas com o coração abrigando Jesus ele se torna franco, aberto e por que não feliz.
Quantas possibilidades existem de enxugar nossas lágrimas, e em todas elas o agente principal é o amor, mas também em quantas delas nos negamos a enxergar e continuamos na auto-piedade.
Deus não impõe a seus filhos nenhuma prova que seus ombros não possam suportar e nenhum sofrimento sem causa justa. É na hora da dor que devemos abaixar nossa cabeça e dizer: "seja feita a vossa vontade, assim na Terra como no Céu".
É hora de começarmos a pensar na importância de se propagar o bem, não dar tanta ênfase ao mal e se conscientizar de que não se chega ao Pai senão pelo caminho do amor.
O amor é verdade!
O amor é esperança!
O amor é a paz que tanto a humanidade almeja!
Os nossos sentidos possuem outras funções que não as que estamos acostumados a usar, ou seja, olhar o próximo... falar com o próximo e amparar o próximo com mãos laboriosas e fraternas.
Viver é ser!
A vida é o bem mais precioso que o Criador concede a todas as criaturas, por isso não devemos apagar a chama de amor fraternal que nos leva à vida, pois somente por meio da fraternidade haverá a união dos povos.
É necessário estar em harmonia com as leis divinas.
Deus coloca em abundância tudo o que precisamos para evoluir, até o sofrimento. É necessário primeiro curar a alma para depois curar o corpo físico.
É importante aprender a fazer a terapia do amor, usar as mãos como ferramentas que constroem e salvam aqueles que se encontram perdidos.
Necessário se faz prestar atenção para não mutilarmos nossa alma permitindo que o desamor se apodere dela; estar sempre atentos para melhorar como pessoas humanas que somos empregando todos os esforços para compreender os desígnios divinos e aceitar as dores e aflições que não podemos mudar.
A vida é responsabilidade exclusivamente nossa; nossos erros e acertos, nosso equilíbrio, saúde e felicidade estão diretamente ligados ao que abrigamos em nosso coração.
Querer a felicidade é lutar com dignidade cristã para consegui-la; é tentar sempre mais uma vez, mas tentar... tente, e conquiste o amor que eleva e nos faz feliz.
Sônia Tozzi
FIM
O VÔO DA GAIVOTA
Copyright by © Petit Editora e Distribuidora Ltda. 1996/1997
la edição/impressão: Julho/96 - 100.000 exemplares
2a edição/impressão: Maio/97 - 50.000 exemplares


Capa:
Criação e execução: Flávio Machado
Ilustração: Daniel Zolyomi
Fotolito da capa: Stap - Stúdio Gráfico
Editoração eletrônica: Petit Editora e Distribuidora Ltda.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP Brasil)
Patrícia (Espírito)
O vôo da gaivota / Patrícia ; psicografia
de Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho. - São
Paulo : Petit, 1996.

ISBN 85-7253-032-0

1. Espiritismo 2. Psicografia I. Carvalho,
Vera Lúcia Marinzeck de. II. Título
96-2032 CDD: 133.93

Índices para catálogo sistemático:
1. Mensagens psicografadas : Espiritismo
133.93




Direitos autorais reservados. É proibida a reprodução total ou parcial; de
qualquer forma ou por qualquer meio, salvo com autorização da editora.
Ao reproduzir este ou qualquer livro pelo sistema de fotocopiadora ou
outro meio, voce estará prejudicando a editora, o autor e a você mesmo.
Existem outras alternativas, caso voce não tenha recursos para
adquirir a obra. Informe-se, é melhor do que assumir débitos.



Impresso no Brasil / Presita er Brazilo


Com muita alegria volto à literatura, motivada pelo
carinho dos leitores.

E é a você, amigo leitor, que dedico esta obra com
imensa ternura.

Também o faço a desencarnados e, principalmente, a
encarnados que são úteis por sua capacidade e têm
como meta o progresso no aprendizado.

Estendo-me aos anônimos, desconhecidos dos encar-
nados, mas conhecidos do Plano Maior, que fazem o
Bem por amor, sem sequer se importar com nomes
célebres.
Patrícia

São Sebastião do Paraíso, MG


Palavras de um amigo




Patrícia, nossa jovem escritora, que nos tem presenteado
com sua literatura simples, sincera, que nos traz bons e profundos
ensinamentos, vem novamente nos brindar com mais este
livro.
Fala-nos da caminhada em que assume novas e diferentes
tarefas, do seu desprendimento e desapego.
Patrícia trabalha e estuda no Plano Espiritual, mas aceitou
mais esta tarefa de escrever aos encarnados, na intenção de
alertá-los quanto ao engano de cultuar personagens famosas. A
Doutrina Espírita não está nas mãos de poucos, sejam encarnados
ou desencarnados. São muitos os espíritos que trabalham
para o Bem da Humanidade.
A nossa alegre escritora, na sua humildade, se acha pequena,
mas com vontade de aprender, não querendo que a
cultuem e que lhe dêem maior valor do que se acha merecedora.
O enredo deste livro é muito interessante. Participando do
socorro a um desencarnado toxicômano, ela nos narra importantes
fatos que trazem muitos esclarecimentos sobre o prejuízo
causado pelos tóxicos, o grande mal da atualidade. O desenrolar
atraente desta história faz deste livro mais um marco na
Literatura Espírita.

Antônio Carlos


Índice




Introdução ... .. ... ... ... ... .. .... ... .. .... .. ... .. .. ... ... ... ..11
Assumindo uma Tarefa..... ... .. ... .. ... ... ... .. ... ... ... .. ..13
Ouvindo uma História ...... ... ... .... .. ... ... ... .. ... ... ... .. ..17
Colóquio Interessante ... ... ... ... ... .. .. ···· ··· ·· ··· ··· ··· .. ..31
Amor e Desapego ..... ... .... .. ... ... ... ... .. ... ... ... .. .... ...37
Um Pedido Diferente .... ... ... .. .... .. ... ... ... .. .. .... .. ... ..46
O Mandante do Crime ... ... ... .. .... .. ···· ·· ··· ··· ···. ..55
Túnel Negro ....
.65
Na Sala de Aula... ... .. .... ... ·· ···· ·· .72
Desencarnações ...... ... .. .... ... ... ... ... .. ... .. ... .... . .... .. 77
Numa Reunião Espírita·.. .... ... .. ... ... ... ... ... .. ... ... ... ...90
Recuperação dos Socorridos... ... ... ... ... ··· ·· ··· ·· ···· ·· ····
Natan ...... .. .. ... ... ... .. ... ... ... . . ... .. ... ... ... .. ... ......106
O Médico Nazista·.... ... ... ... ... .. .... ... .. ... .. ... ... ... ....115
A História de Elisa .... ... ... .. ... ... ... ... ... ... .. ... ... ... ...127
O Vôo da Gaivota .... ... ... ... ... ... ... ... ... ... .. ... ... .. ....135



Introdução




Quando encarnada, por muitas vezes olhava maravilhada
as gaivotas voando. Encantava-me com seus vôos, que me trans-
mitiam a sensação de liberdade. São tão livres! À tarde, andando
pela praia, acompanhava suas movimentações pelos ares. Livres
e felizes, faziam acrobacias oferecendo um espetáculo de
rara beleza.
O espaço imenso é o ambiente preferido das gaivotas. Mas
elas não podem deixar de pousar na areia da praia, para completar
a alimentação necessária à manutenção do seu corpo.
Mesmo pressentindo a possibilidade de encontrar predadores
inimigos, essa corajosa ave não se intimida e, muito vigilante,
pousa na praia. Se falhar na sua precaução, infeliz terá sido sua
descida, pois será presa fácil de algum inimigo natural. Se cuidadosa
e atenta, feliz será seu pouso. Pegará o que precisa e
novamente alçará vôo, ficando na areia, até a próxima onda,
apenas a marca de seus delicados passos, a indicar que ali
passou uma gaivota, realizando com prazer e alegria a função
de viver e participar, com a vida, do anseio de ser e existir.

Sabendo que venho raramente ao plano físico, naquele
dia Elisa me comparou com uma gaivota.
- Gaivota, por que desce à Terra? Procura alimento?
Não respondi de imediato. Olhei para a amiga que me viu
como tão belo pássaro. Seus olhos negros, meigos e bonitos
brilhavam. Sorriu. Seu sorriso maravilhoso contagiava aqueles
que a rodeavam, além de deixar à vista as fileiras de dentes


12 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

perfeitos. Elisa é uma negra linda, a beleza dos seus sentimentos
mostra e embeleza ainda mais seu perispírito.
Fiquei a pensar no que me levava a voltar à Terra. O que
estaria fazendo ali? Ajuda? Tarefa? Trabalho? O Bem que fazemos
é um crédito, uma necessidade ou um alimento?
Volitei e vi que a gaivota deixou marcas dos seus pezinhos
no chão arenoso. Voltei o pensamento ao passado recente
e me certifiquei de que, ao tentar ajudar os que ficaram na
Terra, acabei por fazer muitos afetos. O Bem realizado deixaria
marcas?





1 - Volitar, na literatura espírita, é a denominação do ato de os espíritos
pesencarnados se movimentarem no espaço, quando o fazem sem que os
pés toquem o chão. Nos livros espíritas, principalmente nos do espírito An-
 N.A.E ) hé ncontáveis exemplos nesse sentido. (Nota da Autora Espiritual



Assumindo uma Tarefa



Encarnados nossas ações estão condicionadas a um fim
pessoal, qual seja a aquisição monetária ou um diploma que
nos habilitará a exercer funções bem remuneradas entre nossos
companheiros de caminhada. Aqui, no Plano Espiritual,
para aqueles que compreendem e vivem a unidade do Universo,
trabalhar ou estudar não significa oportunidade de
remuneração pessoal, mas sim ocasião propícia para não ficar
à margem da evolução. A beleza da existência está na sua
dinâmica atividade. Ela nunca é monótona. A vida se parece
com imenso rio que, apesar de estar no mesmo lugar, nunca é o
mesmo, pois se renova a cada segundo. Nossa personalidade é,
por natureza, ociosa. Se não acordarmos para uma melhoria
em nossa maneira de ser, correremos o risco de ver o rio da
vida passar e ficarmos à sua margem, perdendo a oportunidade
de irmos juntos daqueles que com ele caminham rumo ao
infinito. Aceitar novas incumbências de trabalho, de maiores
responsabilidades, é motivo de alegria para todos nós que desejamos
participar, em nome de Deus, da manutenção e do
progresso de todos os seres humanos. Fui chamada a lecionar
num curso de Reconhecimento do Plano Espiritual, no qual a
professora titular, Marcela, se ausentara porque havia também
aceitado incumbência de trabalhos superiores. Apesar de feliz
por ter sido lembrada, e radiante por me sentir útil, não pude
deixar de ter momentos de preocupações, pois estariam vários
espíritos sob minha responsabilidade.


14 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

Como de outras vezes, fui em busca de conselhos de meus
amigos. Ao ver Maurício, dirigi-me alegre ao seu encontro.
Meu amigo sorriu. Como é agradável vê-lo assim. Sempre
me lembro de seu doce e confiante sorriso. Respondeu aos
meus anseios, tranqüilo, transferindo-me belos ensinamentos.
- Patrícia, como começa o aprendizado de um professor
universitário na Terra? Nos primeiros anos escolares, aprende
as primeiras letras. Estudioso, cursa todas as séries exigidas.
Um dia, a escola terrena dá por encerrados seus estudos e o
classifica apto a lecionar - às vezes até na própria escola em
que se preparou. Se for sensato, reconhecerá, com certeza, que
sabe apenas "o razoável" do assunto em que se especializou e,
então, continuará estudando a vida toda. Mas o conhecimento
adquirido é patrimônio seu, conseguido por seu esforço. Querendo
lecionar, pode e deve fazê-lo, porque muitos nem têm
este saber que você considera moderado. E felizes os qup passam
aos outros seus conhecimentos. Quantos se indagam: terei
capacidade de lecionar? Se têm conhecimento da matéria em
questão, terão capacidade, sim. Aqui também é assim. Todos
temos que aprender para saber. Que tristeza seria sentir que
não há mais nada para aprender. O aluno não deve ficar muito
tempo na mesma série. Seu estudo deve render até que passe
de aluno a mestre. Tenho acompanhado seus estudos: você
aprendeu com amor e já está apta a ensinar o que adquiriu.
- Mas, Maurício - insisti -, e se não estiver?
- Está! O que pensa você que é um instrutor aqui no Plano
Espiritual? É somente um espírito dedicado, estudioso, que começou
seu aprendizado como todos. Não se deve ser avaro de
conhecimentos, não se julgar incapaz e nem ser presunçoso
com o que pensa saber. Necessário e indispensável é o bom
senso; porque através dele temos a exata medida de nosso
cabedal, sem entretanto chegar à vaidade. Depois, Patrícia,
não se devem querer sumidades para ensinar, mas sim querer
os que transmitem com amor os conhecimentos que possuem.
Se a chamaram, é porque a julgam apta. Aqui não existe o
"jeitinho" que leva muitos a terem cargos imerecidos. Depois,
os cursos vêm prontos à sua mão. E verdade que terá de


O VÔO DA GAIVOTA 15

responder a muitas questões. Confio em você. Aceite o encargo
e tire bom proveito da experiência.
Também fui conversar com vovó Amaziles. Gosto muito de
visitá-la e a suas amigas, de suavizar a saudade que sinto da
casa em que moram e que foi minha primeira acomodação,
após a desencarnação. Após os abraços, falei da minha dúvida.
- Patrícia - respondeu vovó -, esse curso é muito importan-
te. Nele se aprende muito do Plano Espiritual, na teoria e na
prática. Aquisição teórica ou intelectual são apenas arquivos de
informações e conhecimentos. As excursôes feitas durante o
curso são a vivência do fato. Com compreensão, todo aquele
que viveu sabe como tomar a melhor atitude diante de cada
problema. A intenção do curso é que todos que o freqüentem,
tenham esta compreensão. Pois somente a vivência desses fatos
ou conhecimentos será transmitida às nossas células
perispirituais e, conseqüentemente, impressionará as células
físicas. E, quando reencarnarmos, essas vivências aflorarão em
nossa mente como dom nato ou como mente inconsciente.
Aceite, você é capaz! Você tem estudado tanto! Coloque em
prática o que aprendeu e ainda aprende.
De Antônio Carlos, ouvi:
- Não fazer, por julgar-se incapaz, não é aceito como des-
culpa nem aqui no Plano Espiritual, nem como encarnado. Se
não é, torne-se. Todos somos capazes. Principalmente, se não
nos é exigido o impossível. Agiu certo, de modo prudente, consultando
os amigos. Quando nos sentimos inseguros, devemos
pedir opiniões a amigos que consideramos, e por quem somos
considerados. Com as sugestões recebidas, devemos então optar
pelo que é melhor para nós mesmos e para os outros. Não é
certo fazer o que não somos capazes, no momento. Às vezes,
imprudentemente, prejudicaremos a nós e aos outros, fazendo
algo por ambição, poder e vaidade. Não é o seu caso. Aceite e
lembre-se: aprendemos muito mais quando transmitimos co-
nhecimentos.
Também me aconselhei com papai e dele recebi preciosa
lição.
- Filha, a vida sabe melhor o que é bom a cada um de nós.
Estamos sempre sendo convidados a assumir alguma tarefa.


PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARvAi un

Para mim, o melhor lugar é aquele em que somos mais úteis.
Ao esquecermos de nós mesmos, vivendo entregues ao bem
alheio, criamos condições para que Deus possa agir através da
nossa humilde personalidade. E, nunca se esqueça, tudo o que
fizer, faça bem feito.
E, ali estava eu, numa sala de estudo, ministrando uma
aula sobre as Colônias. Sentindo-me perfeitamente à vontade.
A sala apresentava-se muito agradável. Talvez não tivesse
ta por
para os outros, a mesma beleza vis mim. "Lugar de ensino
deve ser um lugar diferente. O local onde se aprende precisa
ser respeitado como um templo", dissera uma vez um amigo.
Concordava com ele. Todas as escolas deveriam ser educandários,
que preparam para a vida útil. A classe era pequena, tinha
uma lousa e mesinhas confortáveis, e duas grandes janelas
com vista para o jardim que contornava a escola. O que a
tornava tão agradável para mim era que ali nos reuníamos para
estudo. E aprender ensinando me fascina.
- Por que esta Colônia tem o nome de Vida Nova? - per-
guntou Terezinha.
- Todas as Colônias, Postos de Socorro, Casas de Auxílio
têm uma designação pela qual são conhecidas. É como na
Terra, onde todos os lugares têm nome. Quando esta Colônia
foi fundada, um dos seus idealizadores lhe deu este nome, na
esperança de que todos que viessem para cá tivessem realmente
um reinício de esperança e mudanças para melhor, o
que os levaria a uma vida nova. Daí o nome.
Os vinte e dois alunos prestaram muita atenção, e depois
voltaram para as suas tarefas: descrever a Colônia que os abrigava.
A Colônia Vida Nova fica no Plano Espiritual de uma cidade
brasileira, pitoresca e de porte médio. É linda! Que
interessante é o amor incondicional. Quanto mais uma mãe
olha seu filho, mais o acha bonito, não importando quantas
vezes o faça. Assim acontece comigo. Todas as vezes que chego
a uma Colônia, esta é para mim maravilhosa. Emociono-me e
alegro-me. Como é agradável estar no convívio de uma cidade
no Plano Espiritual.
E, assim, a aula transcorria tranqüilamente.


OuVindo uma História




As dissertações ficaram muito boas. Após a leitura de algumas,
pelos próprios alunos, concluímos que nem todos têm a
mesma impressão do Plano Espiritual. Albertina até me indagou:
- Patrícia, como pode haver tantos modos de ver, sentir e
ter sensações diferentes, diante de um mesmo objeto ou lugar?

- Realmente - respondi. - Podem existir muitas formas de
sentir os acontecimentos pelos quais somos envolvidos. Estou
lembrando agora de algo que ilustra bem este fato. Há algum
tempo, ouvi uma estorinha interessante. "Uma florzinha branca
e mimosa floresceu à beira da estrada. Por esse caminho, passavam
muitas pessoas e muitas nem sequer a viam. Uma
mulher, ao defrontar-se com ela, disse: Veja, uma flor à beira
da estrada! Ela é medicinal, muito boa para dores. É bom saber
que aqui existe, quando precisar, virei buscar. Um poeta que
cantava as alegrias e tristezas, as belezas do mundo, também
passou pela estrada, e ao ver a flor parou e exclamou comovido:
Que linda flor! É digna de enfeitar os mais lindos cabelos de
uma mulher apaixonada! Mas, infelizmente, no momento não
estou amando, senão a levaria para enfeitar minha querida!
Em seguida passou pela estrada uma jovem que, ao ver a delicada
flor, parou para admirá-la. Que florzinha mais
encantadora! Que perfeição em seus contornos! Como é bonito
ver uma flor a enfeitar uma estrada, suavizando a visão talvez
tão cansada e preocupada dos que passam por ela. Com um


PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

gesto meigo, beijou a flor e seguiu seu caminho. Passou por ali
também um materialista que, ao ver a flor, falou revoltado e
furioso: Flor imbecil, por que veio florir nesta estrada poeirenta?
Seu branco não combina com a sujeira do lugar. É uma
inútil! Chutou-a e foi embora. Um senhor, de quem o tempo
havia branqueado os cabelos, ao ver a flor ali solitária, à beira
da estrada, exclamou: Como a obra de Deus é perfeita! Como
o Senhor do Universo é bondoso conosco, dando-nos belezas
assim para nos alegrar! Seja bendita, florzinha branca! Obrigado
por você existir e nos alegrar! Sabiamente continuou seu
caminho. E a singela flor continuou sendo a mesma para todos.
Só que, conforme a compreensão, o interesse, o estado
de espírito, viam-na de maneiras diversas.
Todos esses personagens, ao verem a flor, reagiram de
com seu condicionamento. A mulher, preocupada
com enfermidades físicas, viu na flor seus dotes curativos.
Para o poeta, a flor foi a causa ou o motivo para aflorar em sua
mente os devaneios. O senil, já desiludido com as ilusões mundanas,
ansioso por unir-se a Deus, viu ali a manifestação Daquele
que tanto procurava.
Se falarmos a respeito disso com um mestre Espiritual, ele
nos dirá que o belo ou o feio que possamos sentir e ver é
conseqüência de nossa escolha pessoal. A vida não fez discriminações
nas suas manifestações. O bem e o mal estão restritos
ao âmbito hominal, assim como o belo e o feio. Cosmicamente,
eles não existem, pois nada há em que nâo haja a
Onipresença Divina. Cada ser ou criatura tem sua razão de ser
na cadeia das relações em que a vida se manifesta. Toda manifestação
tem os dotes que necessita, para desempenhar sua
função. É muito importante que possamos aprender a ver as
coisas como são e não como queremos que sejam.
As Colônias, Albertina, são lugares que abrigam muitos
temporariamente, como no Plano Físico. E, dependendo de
muitos fatores, cada qual as vê como consegue ou quer. Este
fato também acontece com os encarnados. Muitos se deslumbram
diante de um jardim florido, da visão de um rio, de
montanhas, enquanto que alguns nem os vêem e para outros
tudo isto é indiferente. Considero as Colônias encantadoras.


O VÔO DA GAIVOTA

Quando estava encarnada, maravilhava-me com os lugares belos
da Terra. Achava lindo o mar, gostava de olhar o céu, as flores,
deslumbrava-me e deslumbro-me ainda com tantas belezas.
Nossa Terra é bela!
Descreverei, para melhor ilustrar este fato, uma redação
escrita sobre o assunto. Quase todos a fizeram. Vou comentar o
que achei mais interessante.
Que coisa fantástica é a vida, e por mais que a observemos,
parece-nos sempre nova. Quando ouvimos a história da
vida de alguém, sentimos a nossa própria, pois ela nos traz
notícias de um ser humano, portanto, a história da própria humanidade.
Mas, normalmente, não ouvimos muito as pessoas,
pois quase sempre vivemos fechados em nosso mundo interior
de tal forma que, mesmo dando-lhes aparentemente atenção,
não chegamos a entendê-las. Para compreender uma história,
é necessário viver as emoções de quem narra os acontecimentos,
seu estado psíquico, de alegria, esperança, angústia, rancor,
mágoa, gratidão ou qualquer outra expressão emocional. Escutando
com atenção a história de Genoveva, uma pessoa comum,
como a maioria dos encarnados ou desencarnados, teremos a
oportunidade de entender o porquê de muitas vezes fazermos
de nossas existências uma verdadeira tragédia, da qual desfrutamos
pequenos momentos de alegria e um tempo sem conta
de desespero, frustrações, angústias e dores. A personagem
possui a manifestação Divina. Amando a presença de Deus,
que é o autor de todas as manifestações em cada criatura,
teremos compaixão por todos os seres humanos que no momento
representam, como atores, no palco da vida. Imbuídos
desses sentimentos, podemos ver a enormidade de nossa ignorância.
Como ela começou não importa, o que interessa é tirá-la
de nós. Isto está em nossas mãos realizar. Portanto, não convém
aplaudir ou censurar os erros ou os acertos de uma pessoa,
mas compreender o que a humanidade tem feito com o privilégio
de viver, ciente daquilo que somos: seres humanos.

Genoveva começa contando sua desencarnação. Comento-a,
porque chegamos à conclusão que está muito relacionada
à nossa maneira de viver encarnados, à nossa desencarnação e


20 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MpRINZECK DE CARVALHO
à nossa vivência aqui, no Plano Espiritual. A própria Genoveva
leu sua redação para toda a classe.

" Desencarnei jovem" - começou Genoveva-
tão jovem. Tinha trinta e sete anos , isto é não
Amava a vida, possuía lá
meus problemas como todo mundo, mas estava satisfeita. Casada,
com dois filhos adolescentes, vivia feliz no meu lar. Um
dia, como fazia sempre, saí para comprar roupas. Estava de
carro, d ri do pór as e, distraída, atravessei a rua, quando um
corria além do um jovem embriagado, me atropelou. Ele
ermitido e eu estava entretida: não deu para
evitar o acidente. Desencarnei no ato. Se as pessoas que viram
ficaram abaladas e confusas, imaginem eu. Senti-me jogada no
chão e escutei meus ossos se quebrarem. Não senti dor, mas
fiqueiatordoada. Sentei-me, com dificuldade, na calçada. Não
conseguia ver direito e, então, perdi os sentidos. Acordei num
lugar escuro, úmido, com cheiro nada agradável. Esfreguei os
olhos. Tive a certeza de estar acordada
uma senhora a uns dois metros
de mim, que me observava
calada. Era bem feia, estava suja, cabelos brancos es etados
ou q
achei-a horrível. Ela fic
quieta, enquanto eu a olhava detalhadamente.
Concluí, como sempre fazia, que nem todos eram
bonitos como eu".
Resolvi indagar-lhe.
A senhora sabe por que estou aqui neste lugar estranho?"
"Não é estranho" - respondeu ela, séria-
como outro qualquer." , "é um lugar
"Mas como vim parar aqui? Não me lembro..."
- perguntei-lhe.
Mas onde Vi, então,
delicadeza, tentando ser gentil com aquela estranha mulher
"Uma tumza das que andam por aqui, a trouxe"
após um instante em silêncio. - disse ela
Escutei eles dizerem que a encontraram
sem sentidos, após o acidente. Como não havia
ninguém ao seu lado, pegaram-na e a deixaram aí."
"O acidente!" - exclamei. "
aquele maluco! Lembro-me bem! O carro da-
Mas não era para eu estar num hospital?"
"Se não tivesse morrido, acho que sim, - respondeu a
senhora com sua voz rouca, o que para mim, naquele momento
era muito desagradável.


O VÔO DA GAIVOTA 21

"O que a senhora está me dizendo? Se não tivesse morrido?
Por quê? Morri?"
"Que acha? Claro que morreu!" - respondeu dando um
sorriso cínico.
"Não e não! Não morri!" - gritei.

"Morreu! Morreu e morreu! - gritou ela mais do que eu. "O
"carro passou em cima de você e seu corpo morreu. Mas, como
ninguém morre de fato, aqui estamos vivas em espírito."

"Faz tempo que estou aqui?" - perguntei assustada.

"Um bom tempo. Estava aí deitada sem sentidos.

"Mas que lugar é este?" - indaguei desesperada.

"Pelo que vê, não é muito bom" - respondeu a senhora
após uns minutos calada. "Você não deve ter sido boa coisa,
senão teria sido levada para outro lugar."

"Como se atreve?" - falei sentida.

"Ora, ora, falo como quero. Você é morta! Morta!"
"Não e não!"
Repetia já duvidando. Chorei muito, revoltei-me, dei mur-
ros no chão até que cansei. A mulher saiu de perto de mim.
Dormi. Acordei e senti-me pior, e ainda estava com sede, fome
e me sentindo suja, de um jeito que detestava ficar. Pensei no
acidente e tive ódio do imprudente motorista, e comecei a
sentir meu corpo doer. Percebi que era só pensar no acidente
para ter dores, e assim esforcei-me para não pensar mais. Re-
polvi saber onde estava. Arrastando, locomovi-me alguns metros,
e vi que me encontrava em pequena abertura de uma rocha.
Perto, achei um filete dágua que, com nojo, tomei para amenizar
a sede. Vi que outros, ali, a tomavam, além de comerem
pequenas ervas. Comi também. Não me atrevi a ir mais longe;
e
, quando saía, voltava sempre rápido para a abertura. Aquela
senhora igualmente se abrigava ali, só que saía e demorava a
voltar, pois andava pelo Umbral. Às vezes conversava comigo, e
era a única pessoa com quem eu falava. Sentia-me terrivel-
mente só."
Faço uma parada na narrativa de Genoveva para explicar
alguns detalhes. Muitos não vivem como parte integrante do


22 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO
Universo, agem como entes separados da vida. A lagarta nos dá
um bom exemplo de como agir. Como lagarta, realiza com
eficiência sua função, vive para se empanturrar de folhas, adquirindo
energia suficiente para que possa acontecer sua
metamorfose. Muitos encarnados esbanjam energias insensatamente,
de tal forma que, no momento da desencarnação, estão
tão defasados que o espírito não consegue abandonar a matéria.
Não devemos negar as funções do viver, mas sim estarmos
conscientes de que somos transeuntes; não fazer da existência
um acúmulo de sensações e prazeres como se isto fosse a
finalidade única para a qual reencamamos. Identifico Genoveva
com muitos de nós. Nossa narradora se identificou com o
que representava, um elemento feminino cheio de dotes e beleza
física diante do sexo oposto, sentindo-se segura e confiante
pois tinha mais que as outras
. Nada lhe interessava a não ser
ela mesma. Tudo o mais, até o marido e os filhos, era apenas
apêndice do seu "status". Meditando, conseguimos olhar o Universo
como um todo orgânico, vendo a unidade de Deus. Assim
compreendemos sua Onipresença em tudo e em todos entendendo,
então, que para a natureza não há nem bonito nem feio
mas simplesmente um conjunto de manifestações ou indivíduos
que juntos compõem o Universo manifestado. Vemos
que, assim
o bonito e o feio fazem arte de nossa preferência pessoal.
Se conseguimos ver isto como um fato, nos libertamos do apego,
desejos e sensações de sermos melhores que os outros. O
início da verdadeira humildade é não se sentir melhor que
ninguém. Entre milhares de desencarnações que ocorrem diariamente,
cada desencarnado tem uma sensação diferente da
passagem do estado físico
para o espiritual. Mesmo em acidentes
parecidos com o de Genoveva, cada qqual a sente de um
modo. A desencarnação é um fato comum e natural, mas que
se diferencia de uma pessoa para outra. Genoveva foi desligada
bruscamente com o choque. Ao perder os sentidos, ficou em
seguida foidlevado na calçada, já que seu corpo
físico logo em
para o necrotério. Como não se afeiçoara a
ninguém de bem, isto é, trabalhadores ou socorristas, para lhe
velar e s não apósnvamsirizar nados que vagavam, a pegaram.
Levaram p seus fluidos vitais, e a deixaram


O VÔO DA GAIVOTA 23

lá no Umbral. Se Genoveva tivesse adquirido afetos espirituais,
através de sua vivência física, teria sido levada para um posto
de socorro. No exercício da fraternidade incondicional, que é o
servir sem desejar nada em troca, nem mesmo recompensa da
parte de Deus, emanamos boas vibrações. Essas vibrações atraem
os bons espíritos, como também impedem o assédio dos
maus à nossa volta. Tenho visto muitos acontecimentos, em
que desencarnados perversos aprisionam recém-desencarna-
dos imprudentes e os fazem escravos ou os levam para seus
agrupamentos. No caso de Genoveva, porém, sugaram-lhe as
energias e a deixaram num canto do Umbral. Voltemos à sua
narração.
"Não sabia há quanto tempo estava ali, naquele lugar horroroso.
Só mais tarde soube que foram seis meses, os quais
para mim pareceram ser mais de seis anos. Sentia, às vezes,
meus filhos me chamarem. Respondia alto:
- Já vou filho, já vou!"
Mas não ia. Não sabia como fazer e nem tinha forças para
me locomover. Sentia que oravam por mim e, nesses instantes,
ficava mais calma. Comecei então a me lembrar muito de
Dona Rita, minha vizinha. Recordei que ela era aposentada,
viúva, e seu filho que morava longe, não lhe dava atenção.
Passava por muitas necessidades. Dava-lhe muitas coisas, in-
clusive comida pronta, ora o almoço, ora o jantar, comprava-lhe
remédios, além de propiciar-lhe carinho. la vê-la quase todos
os dias e, agora, ela orava muito por mim. Escutava-a dizer:
"Genoveva, peça ajuda a Deus. Ele é nosso Pai e nos ama.
Peça perdão! Queira ajuda!"
Fiquei a pensar no que escutava. "peça ajuda, peça perdão".
Mas eu estava revoltada, pois não queria ter morrido. Era
bonita, cheia de vida e saúde e, agora, estava sofrendo. E não
queria continuar naquele estado, tinha que mudar, só que não
sabia como. As orações de Dona Rita fizeram diminuir minha
revolta, acalmei-me e comecei a meditar. Nunca pensei que a
morte viesse para mim, mas só para os outros. Ainda mais que
me achava jovem para morrer... e eu não queria a morte nem
na velhice. Então percebi que por ali passavam outras pessoas,


24 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO
diferentes, limpas e com semblantes tranqüilos. Já haviam tentado
conversar comigo, porém não lhes dei atenção. Talvez
vocês achem incoerente essa minha atitude, pois me incomodavam
a sujeira e aquele lugar horrível e
dava atenção para aquelas pessoas assim mesmo,
limpas e saudáveis
Mas
Sentia-me inferior a eles e isso me
magoava. Também estava envergonhada por estar em estado
tão deprimente. É que, quando encarnada
agora era apenas um farrapo. Mas depois a e sentia rainha e
poderiam me ajudar e acreditei que eles
quando os vi de novo, os chamei, pensando
firme nos dizeres da minha ex-vizinha.
perdão!" "Peça ajuda! Peça
"Senhores por
favor, me dêem atenção!"
Aproximaram-se e, perto deles, percebi como eram feli-
zes. Olhei-os emocionada.
"O
que quer?" - indagou um deles.
Ajuda, perdão..."
- respondi envergonhada.
"Venha conosco.

explicáções. Ao pedir o e d oração de Genoveva para alguns, não
demonstrou que reconhecia
os erros cometidos e que desejava mudar para melhor. Deus
nunca se  ende conosco, apenas nos ama. O que precisamos é
da renovação interior, para participarmos da renovação da humanidade.
Normalmente, quando os familiares chamam os
que desencarnaram, eles os atendem, indo para perto deles, se
não tiverem conhecimentos da vida no Plano Espiritual. E Genoveva
não os tinha. São muitos os que abandonam os Postos
de Socorro, para atender aos chamados dos seus. O desconforto
impele o desencarnado a voltar ao estado anterior, isto é a
sentir a vida que tinha, quando encarnado. A
leva para onde o desejo os guia, vontade forte os
perto de seus afetos quase sempre ao antigo lar ou
nas Colônias · Os recém-socorridos
que estão abrigados
maiores não saem, porque elas ficam mais longe
da crosta e não é tão fácil saírem sem
permissão. Mas muitos
para atender insistentes chamados, pedem
para


O VÔO DA GAIVOTA 25

ir, mesmo sabendo o risco que correm ao voltarem sem estar
preparados. Desencarnados que vagam pelo Umbral, costumam
também atender a esses chamados. Mas nem todos voltam,
como no caso de Genoveva. Primeiro, porque os chamados não
teriam sido muito insistentes, segundo, por causa do medo de
sair do lugar em que se está. Depois, Genoveva não amava
ninguém mais do que a ela mesma. Também, porque ela se
sentia enfraquecida, sem forças psíquicas. Quanto à ajuda que
recebeu de Dona Rita, foi uma reação de uma de suas ações. É
como meu pai sempre diz: "O Bem que fazemos, a nós mesmos
fazemos." E ele lembra sempre das palavras do Nazareno, que
é como gosta de se referir a Jesus, nosso Grande Mestre. "Granear
amigos com as riquezas da iniqüidade, para que, quando
vierdes a precisar, vos recebam nos tabernáculos eternos." (Lucas,
XVI:9).z Quando fazemos o Bem, fazemos amigos. Se um
deles nos for grato, ele nos ajudará quando necessitarmos. Genoveva
fez algumas boas ações. E Dona Rita, grata, não a
esqueceu. Orou com sinceridade e fé para ela. Oração sincera
não fica sem resposta. Genoveva recebeu o carinho de sua ex-vizinha
da forma que precisava no momento.Ela recebia seus
tluidos de ânimo e conforto, embora sua ex-vizinha fizesse ora-
ções decoradas que lhe ensinara a religião que seguia. Orações
envolvem o beneficiado com energias benfazejas, de modo a
ajudá-lo no que necessita. E para Genoveva seriam para seu
arrependimento; para que pedisse perdão e perdoasse, que
chamasse por ajuda, mudando assim seu padrão vibratório e
possibilitando o socorro. E foi isto o que aconteceu.

Continuemos com a interessante narrativa de Genoveva.

"Fui amparada com delicadeza, quando um senhor e uma
moça me levaram para uma casa enorme, um Posto de Socorro
no Umbral. A moça me ajudou a tomar banho. Deliciei-me.
Com roupas limpas, tomei um prato de sopa quente, que achei
muito saborosa. Depois acomodei-me num leito perfumado e
dormi tranqüila. Não estava doente, nem sentia dores, estava


2 - As citações do Evangelho contidas neste livro foram tiradas da Biblia -
Tradução Vulgata.


26 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

só desorientada e com fraqueza. Recuperei-me logo. E fui trans-
ferida para esta Colônia.
"Você vai para a Colônia Vida Nova. Verá como ela é
linda."
Ouvi muitos comentários parecidos. E fiquei curiosa para
vê-la. Fui conduzida à Colônia junto com outros que também se
dirigiam a uma cidade no Plano Espiritual pela primeira vez.
Lá, nos separamos, e fui conduzida para uma casa, onde fiquei
hospedada. Que decepção! Não vi nada das maravilhas que
disseram. A casa, sem arranjos e enfeites, era simples demais.
Só tinha o necessário.
"Que beleza de jardim!
"Que flores lindas!
Tentava prestar atenção e descobrir onde estava a beleza
do que ouvia. O jardim para mim parecia como outro qualquer
da Terra. Só
que talvez mais cuidado e respeitado. As flores
eram flores como sempre foram. Havia algumas diferentes
mas eram plantas... Estava apática. Tentava ser gentil com as
pessoas que moravam comigo, porque era tratada com extrema
delicadeza. Carinhosamente me levaram para conhecer a
Colônia. Nada me entusiasmou. Achei-a extremamente sem
atrativos, pois as belezas e sensações de que gostava, não eram
ali cultivadas. Havia muitas mulheres bonitas, mas elas agiam
como se este fato não lhes importasse. Para mim, a minha
beleza era um patrimônio importante. Gostava dessa aparência,
quando encarnada, pois sentia-me superior à maioria das
mulheres. A Colônia era um lugar como outro qualquer. Bem,
como outro qualquer, não! Para ser sincera, comparando com o
lugar em que fiquei, no Umbral, naquela abertura da rocha, ali
era o paraíso. Os novos amigos muito me aconselhavam. Consideravam-me
como amiga deles, mas eu não pensava assim:
para mim eram somente pessoas boas que tentavam me ajudar
Tudo fizeram para me tirar da apatia, sendo até convidada
a fazer pequenas tarefas. Não era preguiçosa. Muito fútil e
vaidosa, sim, mas ociosa, não. Aceitei, porque senti que deveria
ocupar meu tempo. Fui trabalhar na Biblioteca, onde Maura,
uma senhora alegre e extrovertida, me orientava.


O VÔO DA GAIVOTA 27

"Genoveva, querida, coloque estes livros em ordem alfabética."

Fazia tudo direitinho.

"Muito bem!" - incentivava ela. "Você tem trabalhado com
vontade. Você não é curiosa? Não tem interesse no conteúdo
destes livros? Não gosta de ler? Não a vejo nem folheá-los."

Acabei por pegar um. Abri e li uma página. Era um livro
que os encarnados têm também o privilégio de conseguir para
leitura. Levei-o, emprestado.

Minha apatia foi desaparecendo aos poucos com a ajuda e
alegria dos meus amigos - agora sim, considero-os como ami-
gos - e de lições ouvidas e lidas. Com o estudo e atenção fui
compreendendo que meu corpo e tudo o que me rodeava não
existiam para meu prazer e sensações, mas sim como parte de
um todo que é a manifestação de Deus. Então aconteceu o que
não esperava, pois antes eu via e ouvia, mas nãu todas as
coisas. Agora vejo e ouço o que antes me passava despercebido.
Comecei a esquecer de mim, para prestar atenção à minha
volta. Tempos depois, olhei para tudo novamente e encontrei
as belezas que todos admiravam. Amo muito a Colônia, mas
beleza para mim, por muito tempo, foram outras coisas: vestidos
novos da moda, luxo e beleza física. Só a compreensão faz
vermos a beleza nas coisas simples. Aprendo a vê-las. Estudei e
estudo, trabalho e tenho Paz, e agora estou bem.

Depois de um tempo por aqui, pedi permissão para visitar
meus familiares. Pedidos esses, feitos por quase todos os que
vêm para cá. Alguns dias após ter solicitado, o responsável do
departamento que cuida desse atendimento, chamou-me para
entrevista.

"Tenho saudades dos meus familiares" - disse -, "quero
vê-los e saber como estão."

Meu pedido foi aceito e, ao marcar dia e hora, lembrei de
Dona Rita, e pedi outro favor.

"Será que não posso ir só um pouquinho à casa de minha
ex-vizinha?"
"Pode" - responderam.


28 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

Vamos parar um pouquinho com a narrativa para uma
elucidação.
Nessas primeiras visitas, os desencarnados seguem algumas
normas da Casa, onde estão abrigados e que nem sempre
são as mesmas para todos. Elas têm o objetivo de preservar o
equilíbrio do novato em sua nova maneira de viver. Para cada
visitante é determinado um tempo, conforme suas necessidades.
Mas é costume, nas primeiras vezes, irem com um
companheiro experiente, que nem sempre fica junto durante a
visita, mas que o acompanha para trazê-lo de volta à Casa em
que está abrigado.
Voltemos à narrativa.
"Emocionei-me ao ver meu esposo e meus dois filhos.
Percebi que os amava de forma egoísta. Tanto que, ao desencarnar,
só pensei em mim. Não julguei que eles sofreriam pela
nossa separação. Os três estavam muito unidos. Arrumaram
uma empregada e tentavam ajudar um ao outro, levantando o
ânimo. Fiquei por horas esforçando-me para seguir os ensina-
mentos e recomendações que recebi, tais como ficar ale re
orar por eles e não interferir em suas ações. Quase na hora de ir
embora, fui ver Dona Rita e, para meu espanto, ela me sentiu
por ser sensitiva, percebeu minha presença. Não que tenha me
visto, mas pensou em mim de maneira tema.
Genoveva tá Ob Deus a proteja onde esteja. Que seja feliz!
Sou-lhe tão gra rigada.
Orou e me disse coisas carinhosas pelas quais me animei.
Soube, também, que meu esposo continuou lhe dando, em
minha intenção, todo mês, uma quantia em dinheiro. Eu os
achei maravilhosos, ele e meus filhos.
Na hora de voltar, aguardei meu acompanhante para retornarmos
à Colônia. Abracei-o e chorei. Afagou-me somente. Meu
pranto era diferente. Fora muito feliz encarnada e queria voltar
a ser... Mudei, tornei-me mais alegre e entusiasmada."
Genoveva terminou a leitura e, como sempre, após havia
perguntas. Essas redações não são obrigatórias e nem a sua
leitura. Faz quem quer, podendo também o aluno, se preferir
,


O VÔO DA GAIVOTA 29

falar sobre o assunto. Mas, desta vez, foi Genoveva quem indagou:
- Patrícia, ao visitar Dona Rita, quando ela me agradeceu,
saíram dela raios lindos, coloridos, que vieram até mim. Foi
muito agradável. Percebi que aquela sensação de carinho que.
recebia dela, eu já a tinha recebido outras vezes, principalmente
quando estava no Umbral. Também agradeci a Dona Rita,
pois estava ali para isto. E vi que ao fazê-lo também saíram de
mim esses raios, que lhe foram também muito agradáveis.
Como você explica isto?
- Quando estamos carentes - respondi -, é que mais senti-
mos as vibrações de carinho, como aconteceu a você no Umbral.
Dona Rita orava, desejando-lhe que estivesse bem. O ato de
agradecer é muito bonito. A gratidão sincera sai da alma e
envolve a pessoa que agradece, com raios de suave colorido,
os quais depois vão para quem estamos agradecendo, beneficiando
a ambos. Muitos pensam que bons e harmoniosos fluidos
só acontecem em esferas elevadas e que só espíritos superiores
são portadores de tais vibrações. É que ainda não perceberam
que, por Deus, fomos dotados em estado potencial com a capacidade
de amar e de sermos fraternos, cabendo-nos somente
dinamizar este estado de vida. O estado psíquico de gratidão é
uma faculdade do ser humano. Somos filhos do amor. Mas não
devemos nos importar com agradecimentos e, sim, compreender
o que realmente somos, para que, ultrapassando o egoísmo
cheguemos ao estado de fraternidade, em que o reconhecimento
seja uma situação natural de se viver. Beneficiamos a
nós mesmos, quando cultivamos o sentimento sincero da gratidão.
Ninguém fez mais perguntas e saímos, para um pequeno
intervalo. Fiquei a meditar. Muitos temem a desencarnação por
não terem o preparo para essa continuação de vida. Muitos
sofrem com essa mudança, que a vida nos impõe, sem que
tenhamos outra escolha. Outros a acham maravilhosa, pois,
pela lei da afinidade, gostam muito do lugar para onde foram
atraídos. A natureza não dá saltos, nada é excepcional e a
beleza está na simplicidade. Muito se tem falado da continuação
da vida depois da morte física, mas cabe a cada um fazer


30 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

seu preparo, sem descuidar do tempo presente. Pois é nele que
construímos nosso futuro. Devemos viver bem e no Bem, sempre.
A desencarnação pode ocorrer a qualquer momento. Que
ela nos surpreenda, então, de tal modo que possamos estar
aptos a continuar a viver bem e felizes.


Colóquio Interessante


Numa aula especial, trocamos idéias sobre diversos assuntos
do interesse da maioria. Lena, nossa querida colega, alegre
como sempre, indagou:

- Patrícia, por que uns se deslumbram tanto com as Colôni-
as e outros, não?

- Nada deve acontecer em excesso - expliquei. - O equilí-
brio precisa existir sempre. Colônias servem de lar a muitos
desencarnados, mas temporariamente. É necessário amar, respeitar
e dar valor a todas as formas de lar. Muitos, pela vibração,
se afinam mais com estes lugares de Paz e Harmonia que, para
outros, são monótonos e sem atrativos. Quando aprendemos a
ver Deus em tudo e dentro de nós, qualquer lugar é maravilhoso,
pois não existem lugares ruins. Se estamos satisfeitos conosco,
so ada nos para
seremos felizes onde estivermos, se insatisfeito

rece suficientemente bom.

Josefino perguntou para elucidar-se.

- Patrícia, as Colônias progridem?

- Sim e muito. As Colônias estão sempre progredindo pelo
trabalho de seus moradores. Sempre se modificam para melhorar
a vivência temporária de todos que aqui vêm.

- Elas aumentam de tamanho? Quem as constrói? - inda-
gou Josefino novamente.
- Normalmente - respondi -, as Colônias são criadas e
quenas
pelos seus fundadores. Vão sendo ampliadas conforme

32 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARIlVZECK DE CARVALHO

a necessidade. Seus fundadores são sempre desencarnados que
amam o Bem e o próximo. Muitas vezes, após a fundação,
permanecem eles trabalhando nelas, para o Bem comum. Cada
Colônia tem os seus fundadores; são eles orientados por espíritos
superiores, que trabalham como construtores, no Plano
Espiritual.
- Patrícia, nunca tive uma profissão, nem quando encarna-
do, nem quando vagava desencarnado - disse Josefino. - Aqui
aprendi muito e, após o curso, vou estudar enfermagem.

- Fico contente por você, porque conhecimentos só nos
fazem bem e, quanto mais sabemos, mais podemos ser úteis.
- Patrícia - replicou Marília -, continuaremos a exercer
aqui a profissão que tínhamos quando encarnados? Fui advogada.
Poderei trabalhar na advocacia? Quando encarnada
preocupei-me tanto com isso!
- Marília, profissões devem ser temporárias. Encarnados,
as temos também para a sobrevivência. Aqui devemos ser úteis,
aprendendo as muitas formas de assim ser. Os conhecimentos
que teve ao estudar e ao exercer sua profissão, fizeram que
desenvolvesse sua inteligência, pois, os conhecimentos que nos
esforçamos para obter, nos pertencem. Os encarnados não devem
preocupar-se com o exercício de suas profissões, no Plano
Espiritual, ou inquietarem-se por não terem alguma. Quando
queremos, achamos sempre um modo de ser útil e de trabalhar.
Aqui é uma continuação de vida, mas muda-se muito, de
vez que coisas que fazíamos quando encarnados não há, muitas
vezes, como e por que fazê-las no Plano Espiritual. Aqui, nas
Colônias, fazemos rodízio de muitas tarefas para aprender mais
e também para escolher da que mais gostamos para a ela nos
dedicarmos. Você, Marília, poderá fazer muitas tarefas e muito
lucrará com o aprendizado.
- E no Umbral? - perguntou Marília novamente. - Traba-
lham, por lá? Exercem os desencarnados as profissões que
tinham quando encarnados?
- Os que sofrem no Umbral - elucidei - não fazem nada, a
não ser os que são obrigados, como escravos. Os moradores,
principalmente das regiões umbralinas, trabalham, só que de


O VÔO DA GAIVOTA 33

modo muito diferente dos desencarnados que o fazem para o
bem comum. No Umbral, tudo é feito com egoísmo, vaidade e
para o mal. Consideram estar trabalhando, quando estão vingando
obsediando e destruindo. Lá muitos têm conhecimentos,
mas os usam de forma errada. Quanto às profissões que tinham
, quando encarnados, quase sempre não têm como
exercê-las, já que a vida física difere muito da que vivemos no
Plano Espiritual.
- Patrícia - disse Marília -, quando eu ainda estava encar-
nada, um amigo meu desencarnou e, na ocasião, fiquei muito
impressionada. Comecei a sentir muitas dores, como ele as
sentia. Meu esposo me levou ao Centro Espírita e lá me falaram
que ele não estava comigo como julgávamos, mas sim num
hospital no Plano Espiritual. Fui aconselhada a não pensar nele
e, á sim, melhorei. Lembrando agora deste fato, gostaria de
entender o que se passou.
- Vou lhe responder o que pode ter ocorrido. Porém não se
pode dar uma resposta categórica para algo, sem se analisar
bem o que aconteceu. Para cada fato há várias explicações.
Esse seu amigo desencarnado não estava perto de você, mas,
ao
pensar múito nele, você se ligou mentalmente a ele. Quando
isso acontece, o que pode suceder é uma transmissão de
vibrações, e até mesmo uma transfusão de energias. Por isso,
somos incentivados pelos instrutores a fazer coisas boas e a nos
ligar a pensamentos elevados ou a espíritos bons, pois, assim
procedendo, absorvemos suas vibrações. Aquele que tem mais,
dá ao que tem menos. Ao pensarmos coisas ruins, prendemo-nos
a espíritos afins e deles recebemos as más vibrações, quando
não, somos por eles vampirizados, principalmente se estivermos
encarnados. Podemos também permutar vibrações de
desarmonia e angústias. Você, encarnada na época e pensando
forte, se ligou ao seu amigo desencarnado que, mesmo socorrido
num hospital, estava ainda enfermo, e assim ocorreu a troca
de fluidos. Ao não pensar mais nele tão insistentemente, desligou-se
e melhorou. Devemos orar para todos, sem atrair para
nós nada que o outro esteja sentindo. É preciso orar, mas somente
enqar à pessoa a querri oramos, bons fluidos, ânimo,
paz e alegria.


34 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

- Patrícia, por que há tantos desequilíbrios? São muitos os
desencarnados, perturbados, e também vemos encarnados com
cérebros danificados, portando doenças mentais. Este assunto
me intriga - falou Olavo.
- Você, Olavo, deu a designação certa: desequilíbrio - fa-
lei. - Encarnados, quando se alimentam demasiado
,
desequilibram o aparelho digestivo, e a má digestão certamente
os incomodará. Do mesmo modo, podemos nos equilibrar ou
não, como resultado de nossos atos. Ações boas nos equilibram,
harmonizando-nos com a perfeição. Ações más danificam o que
está bem, desequilibram, trazendo sempre a doença e o sofrimento.
E quando sofremos sem nos revoltar, acabamos por
entender que foram nossos atos negativos que motivaram essa
situação. Ao mudarmos nossa maneira de viver, teremos aprendido
mais uma lição. E, se não aprendemos pelo amor
,
acabaremos aprendendo pela dor. A mente e o corpo não são criados
por nós, apenas os desenvolvemos. Tanto a mente como o
corpo anseiam pela harmonia, que compõe a natureza. Essa harmonia
só é possível quando não há interesse pessoal e quando
todos trabalham com um único objetivo, o do Bem comum. Agindo
egoisticamente, nós nos separamos espontaneamente do
movimento da vida. É como se o feto recusasse o sangue da mãe
que o sustenta. A mente ou um corpo privados dos fluidos cósmicos,
pelo egoísmo, entram em estado de perturbação. O
remorso destrutivo também desequilibra bastante. Muitos, ao desencarnarem,
percebem o tanto que erraram, perturbando-se
demasiado e depois, sem um preparo especializado das Colônias,
uma compreensão, ao reencarnar passam para o corpo
esse desajuste. Essas deficiências também podem ocorrer quando
abusam do corpo saudável, danificando-o com drogas ou
suicidando e, então, se ressentirâo, em outra encarnação, de um
corpo perfeito. Igualmente, o desequilíbrio mental será causado
por abuso da inteligência, ao se prejudicar os outros. As
anomalias físicas não existem como punição de Deus, mas sim
como conseqüências do nosso remorso destrutivo, advindo de
vivência com tins egoísticos, como se não participássemos da humanidade.
Reconhecer que erramos é fundamental, mas
punirmo-nos, por incrível que pareça, é uma atitude de egoísmo.


O VÔO DA GAIVOTA 35
Que seria mais agradável a Deus: ser um aleijado, representando
um peso para a sociedade, ou reconhecer nossos desacertos
e preparar-nos convenientemente para ser daqueles que constroem
e enobrecem a humanidade? certamente, a segunda
hipótese.
Helena pediu para falar e, atendida, propiciou-nos valiosa
lição.
- Encarnada, tive uma deficiência mental. Meu cérebro
não funcionava normalmente. Doenças? Foram várias, e a medicina
tinha muitas explicações. Tomei muitos medicamentos.
Desencarnei após sofrer muito. Que fiz para ter vivido assim?
Este fato veio a me incomodar, depois de eu ter melhorado no
hospital desta Colônia. As lembranças do passado vieram fácil
à minha mente, entretanto, quando encarnada, também as tinha
e não as entendia, e elas vinham como sensações
desagradáveis a me incomodar. Meus erros foram muitos, e me
marcaram profundamente as recordações que me vinham ao
cérebro, de forma difusa, levando-me a me perturbar ainda
mais. Não quero e não vou falar dos erros do passado. Contarei
a vocês a minha vida como doente mental, sem generalizar, só
narrando minha experiência particular. Reencarnei, por afinidade,
numa família de classe média, tendo assim assistência
material e também afetiva. Desde criança, já era considerada
estranha e esquisita. Quando entrava em crise, falava coisas
desconexas, afirmando ser outra pessoa, com outro nome, alguém
desconhecido. Sentia-me realmente assim: duas
personalidades. Na adolescência, piorei muito e fui internada
em hospitais, onde sofria bastante com a separação dos meus e
com os medicamentos. Em algumas vezes, agia como sendo
uma pessoa, em outras, agia diferente. Havia também períodos
de melhora, quando conseguia reconhecer ser ora doente, ora
normal. Queria me curar, pois envergonhava-me dos vexames
que causava, me irritava e sofria com as chacotas e risos dos
outros. Aborrecia-me dizer coisas tolas, ser ridícula. Não era
agressiva, a não ser quando me irritava, aí eu xingava as pessoas.
Sendo católica, ia sempre à igreja, quando estava calma. Se
me via nervosa, minha mãe não me deixava ir, porque não
parava quieta, incomodando as pessoas. Gostava de ver Nossa


36 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARIIVZECK DE CARVALHO

Senhora Aparecida, a quem chamava de Parecidinha. Não rezava
de forma decorada, e minha contemplação representava
minha oração. Familiares e conhecidos, para me chatear, mexer
comigo, diziam que iam bater na imagem de Nossa Senhora,
então eu chorava desesperada e só parava quando me garantiam
que não bateriam na minha Santinha. Fugia muito de casa
para passear pelas ruas, andando de um lado a outro e, quando
me cansava, voltava para casa. Dei muitos vexames e sofri por
isso, porque não queria ser daquele jeito. Para meu orgulho era
um enorme ridículo. Aprendi muito, só que desencarnei doente,
com muitas dores e, nessa ocasião, uma equipe, que
trabalhava em nome de Maria, veio me socorrer. Sarei após um
bom e longo tratamento espiritual, neste hospital da Colônia, e
digo-lhes que agora também perdi o orgulho, que foi minha pior
doença.
Completei com a explicação:
- Quando o desequilíbrio mental é muito grande, pode-se
perder a capacidade de ser uma pessoa sadia. A recuperação
só se faz com o auxílio de outros espíritos e através de reencarnações,
ocasiões em que se recebe novo cérebro, mas que
pode novamente ser danificado enquanto persistir a causa. O
reequilíbrio vem pouco a pouco, como a água limpa em caixa
suja, que, renovada, acaba por limpar todo o ambiente. E é
pela bondade de Deus, concedendo-nos a reencarnação, que
acontece a recuperação. Muitas são as causas que levam os
encarnados a terem doenças mentais, e suas sensações diferem
de uma pessoa a outra. Tenho escutado muitas narrativas
diferentes de pessoas que, encarnadas, tiveram deficiências
mentais. Não existem duas experiências iguais, e, normalmente,
são recuperações difíceis, pela dor, quando se poderia muito
bem tê-las feito pelo amor. Temos, para meditar, a narrativa de
Helena, lembrando que não devemos ironizar o doente, porque
poderia sermos nós a passar por essa experiência de recuperação.
Não tendo mais comentários, a aula terminou com muito
proveito para todos.


Amor e Desapego

Paula tudo escutava e ficava pensativa. Não tinha muito
tempo de desencarnada. Saindo de suas reflexões, indagou:

- Será que um dia irei gostar da vida de desencarnada?
Sinto muita falta de tudo que era meu.

Carlos Alberto demonstrou vontade de responder à colega
e, notando isso, dei-lhe permissão para falar.
- Paula, também já me senti assim. Fiquei revoltado ao
desencarnar. Não aceitava, pois fui tirado da vida física cheio
de vitalidade, sonhos, planos, estava casado e com duas filhinhas
para criar. Pensei muito: por que eu? Com tantos querendo
morrer e continuando encarnados, e eu que gostava tanto da
vida física, desencarnei. Minha avó com muita paciência tentava
me confortar. Dizia-me sempre:
"Carlos Alberto, aqui você não terá a competição de um
trabalho estafante, não ficará doente, não sentirá frio ou calor.
A vida aqui é tão boa!"

"Gosto do trabalho competitivo, aprecio a luta pela sobrevivência,
gosto do frio e nada mais agradável que sentir calor, e
ainda: as doencinhas quebram a rotina" - respondia, sincero.

Com o tempo, acabei conformado com o inevitável. Após
muitos anos, entendi o porquê de ter-me sentido desse modo.
Foi por não estar preparado e não ter informações verdadeiras
da desencarnação. Amava muito e de maneira incorreta a vida
material, para entender a vida espiritual. E, quando me tornei


38 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

útil, é que passei a amar a vida, sem me importar se estava
encarnado ou desencarnado. Paula, por que você não aprende
a amar? Todas as etapas de nossas existências, no Plano Físico
ou Espiritual, nos são úteis."
- Achei muito válida a opinião de Carlos Alberto - falei à
Paula, querendo ajudá-la, como também para elucidar a turma
sobre essa questão de interesse de todos, e que nâo estava no
plano de aula.
- Paula, tenho notado que você se queixa muito. Agia assim,
quando encarnada?
- Acho que sim, tinha reumatismo, a me incomodar muito,
morava com meu filho e não me dava bem com a nora...
- Paula - interrompi -, muitos de nós costumamos reclamar
por não aceitar o que temos e o que somos. Quando
encarnada, você se queixava de muitas coisas, e não mudou ao
desencarnar. Ninguém muda de imediato. Para nos transformarmos,
necessitamos de muita compreensão. Temos sempre
muitas possibilidades de ser felizes, só que quase sempre não
as percebemos. Às vezes, prefere-se desejar algo que não se
tem, na ilusão de ser, ou ter. Consideramos estar nos atos externos
ou em terceiros a nossa tão falada felicidade. E, na maioria
das vezes, ao conseguir o que almejamos, a euforia passa logo,
e voltamos a desejar outras coisas. Todavia a tão sonhada felicidade
está dentro de nós, não importando onde vivemos e o que
fazemos; os atos externos não devem influir em nossa Paz interior.
Muitos pensam que só serão felizes desencarnados. Outros,
que só a vida física lhes trará alegrias. Ao colocar fatos externos
como condição para sermos felizes, não seremos. E também
não devemos esperar que outros resolvam, para nós, a dificuldade.
Enquanto não solucionarmos nossos conflitos de ter e ser,
permaneceremos insatisfeitos em qualquer lugar. A felicidade
duradoura está na Paz conquistada, na harmonia, no equilíbrio,
na alegria de ser útil, no Bem e ao caminhar para o progresso.
Creio, Paula, que irá gostar da vida aqui, quando sua felicidade
não depender de coisas ou de pessoas; não esperar recompensas,
retorno; não exigir nada; quando você amar a si mesma, a
vida e a todos que a rodeiam.


O VÔO DA GAIVOTA 39

- Patrícia, por que não falamos um pouco sobre o amor?-
disse Heloísa. - Sobre o Amor e o desapego.
O assunto era deveras fascinante, tentei elucidar a turma.
-Amar, de forma egoísta, todos os seres humanos o fazem,
nem que seja a si mesmos. Mas o amor de forma verdadeira,
sem egoísmo e posse, é que demonstra que aprendemos. Ao
amar verdadeiramente, anulamos erros e irradiamos alegrias
em nossa volta.
Amar e desapegar-se dos seres que amamos não é fácil.
Os encarnados, no aprendizado para se desprender do que lhes
é caro, chegam a ter sensações de dor, porque sentem sufocada
sua ilusão de ter. É necessário amar tudo, mas sabendo que isso
nos é emprestado. E por quem? Pelo nosso Criador. Lembremos
que com objeto emprestado, cuidado dobrado. Sim, realmente,
o que temos, nos é emprestado, já que não somos donos das
coisas materiais, não possuímos nada. Nosso amor pelas coisas
deve ser sensato, para usar o que nos é permitido, sem abusar.
E também dar valor à casa que nos serve de lar, às roupas que
vestem o corpo, ao local em que trabalhamos, onde recebemos
o necessário para o sustento material, enfim, a todos os objetos
que nos são úteis. Porém, teremos um dia que deixar isso para
outros, e que os deixemos da melhor forma possível, a fim de
que eles possam desfrutar dos objetos emprestados tanto quanto
nós. Até o corpo físico temos que devolver à natureza. E essa
devolução como é difícil para muitos.
Até aí, parece fácil, embora saibamos que muitos, possuídos
pelo desejo de ter, se esquecem desse fato e se apegam a
coisas, objetos, julgando ser deles, mas, quando desencarnam,
não querem deixá-los e a eles ficam presos. Há uma parte mais
difícil, que é amar nossos entes queridos sem apego. Quase
sempre nos julgamos insubstituíveis junto daqueles que amamos,
pensando amá-los mais que ninguém, e ser indispensáveis
na vida deles. Apegamo-nos assim às pessoas, esquecendo que
elas também são amadas por Deus e que somos companheiros
de viagem, cabendo a cada um caminhar com seus próprios
passos. E, ainda, muitas vezes nessas caminhadas, somos levados
a nos distanciar um do outro, embora afetos sinceros não se
separem. Podem estar ausentes, não separados. Deixar que


40 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

nossos afetos sigam sozinhos, sem nós, é algo que devemos
entender. É o desapego. Ao desencarnar, ausentamo-nos do
convívio de nossos entes queridos e, se não entendermos isso,
consideraremos essa ausência como separação definitiva. É
preciso aprender a amar com desapego, ampliar o número de
nossos afetos, sem a ilusão da posse. Se formos chamados a
nos ausentar, pela desencarnação, continuemos a valorizá-los,
respeitando-os, ajudando-os. Estaremos no caminho do desapego,
e continuaremos a amá-los da mesma forma.
Terminei de falar e lembrei-me de Luiz, de sua história,
que poderia bem ilustrar este assunto. Convidei-o a falar de si,
para toda a classe, sabendo que sua narrativa seria importante
para todos nós. Luiz começou a falar:
- Minha vida transcorria com normalidade. Minha família
e eu vivíamos numa propriedade rural, onde ganhávamos o
pão com trabalho honesto. Apesar de muitas dificuldades, éramos
felizes, pois aprendemos com nossos pais a trabalhar e
confiar em Deus. Estava com cinqüenta anos, ao desencarnar.
Quando me dei conta, sem saber quanto tempo havia passado,
vi-me num ambiente agradável e fraterno. Passados uns dias,
senti, lá no fundo, preocupação com minha família, e isso aumentava
a cada instante.
Quando o médico que nos atendia, chegou para a visita
diária, externei minhas preocupações, que se transformavam
numa grande angústia quase insuportável. Com muita atenção
e carinho, esclareceu-me que eu havia morrido, desencarnado,
e que estava num Posto de Socorro, salientando que aquilo era
percepção psíquica do estado mental por que passava minha
família, naquele momento difícil. Eu sentia daquele modo, porque
era como se vivesse cada um dos pensamentos e angústias
da minha esposa companheira e de meus filhos. Explicou-me
também que todo sentimento muito forte, em relação a uma ou
mais pessoas, nos une mentalmente a elas, e que estamos
ligados pelo amor ou pelo ódio. Eu estava ligado aos meus, por
afeto. Ensinou-me também que eu, no momento, não podia
fazer nada por eles a não ser orar, pedindo a Deus que lhes
concedesse paz, amor, harmonia e a aceitação do ocorrido,
pois a morte de um ente querido é quase sempre muito dolorida.


O VÔO DA GAIVOTA 41

É um fato que irá acontecer em todas as famílias, não por
estarmos sendo punidos, mas sim por circunstâncias naturais
do ciclo da vida. E, para que haja vida, é necessário o nascimento
e a morte. Deveríamos aceitar o fato assim como ele é,
não como queríamos que fosse.
Aquele ensino dirigido a mim, com palavras tão carinhosas,
não foi suficiente para aplacar minha angústia e
preocupação, que aumentaram por saber que estava morto,
desencarnado. Minha decepção e frustração eram terríveis, pois
fora, durante toda a vida física, muito religioso e "temente" a
Deus. Obedecia sem questionar, como lei, a catequese de minha
religião e acreditava nas palavras daquele que se dizia
digno da possibilidade de doar bens divinos. E agora! - pensava
aflito. - Estava morto e não estava no céu, em paraíso nenhum!
Não vira Jesus Cristo! Mas, ponderava para mim mesmo, estava
sendo bem tratado num local muito limpo e com carinho. O
enfermeiro de plantão, Antônio, do qual me tornei amigo, dava-me
toda assistência e nada me faltava. Mas tudo aquilo não foi
suficiente para aplacar minha decepção e desejo de estar junto
dos meus.
Pensei muito, encontrei aqui tudo muito diferente do que
imaginava. Mas, se existisse céu como acreditava, as pessoas
que fossem para lá, teriam, para ser felizes, que perder a individualidade.
Porque, para mim, nenhum lugar seria um paraíso,
separado dos meus. Achava que tudo que desfrutei, quando
encarnado, eram posses minhas: casa, sítio e família. Os bens
materiais, adquiri-os com trabalho honesto, mas eles não me
importavam, ainda mais que os deixei para os que amava.

Chamei o enfermeiro e perguntei se poderia falar com o
responsável por aquele hospital. Logo ele voltou com a resposta
que, como eu estava bem, iria ter alta no dia seguinte e nessa
ocasião o diretor falaria comigo. Não consigo descrever como
senti lento o tempo que esperei até o momento da minha liberação
do hospital.

O que agravou bastante meu estado emocional foi o conflito
de pensamentos, a preocupação com a família. Eu estava
morto, sem estar preparado para o mundo que encontrei. Não
sabia onde me encontrava, nem o que ia fazer na nova vida.


42 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

Sentia os familiares em dificuldade e não tinha mais o corpo
físico. Como ajudá-los?
Foi em meio a todo este contlito e perguntas sem respostas
que chegou Antônio, com roupas novas para mim, pedindo que
me trocasse, pois o diretor do hospital estava à minha espera
para a entrevista tão desejada.
Aquelas palavras caíram como bomba em cima de mim,
pois até então eu estava sendo bem atendido. As minhas dificuldades
eram somente os contlitos dos meus pensamentos.
Depois dessa entrevista, seria liberado, e para onde iria? Iria
fazer o quê? O que um morto faz? Onde realmente estava? Foi
com uma sensação indescritível de desamparo, que me pus a
caminho, com Antônio.
Mas qual não foi minha surpresa, quando fui recebido pelo
diretor. Se me sentia desamparado por Deus, ao ver aquela
pessoa bondosa e atenciosa, senti logo o amor que emanava
dele. O mal estar desaparecia à medida que conversávamos,
chegando a ponto de não me sentir mais decepcionado por não
ter me encontrado com Jesus Cristo, pois encontrava ali um
representante Dele.
Com muito amor, o diretor foi me explicando tudo e delineando
a minha recente maneira de viver, com nova
acomodação e afazeres. Passado um tempo, acostumei, assumi
a nova vida e gostei muito do local em que vivia. Era deveras
bom, lugar de muita harmonia e fraternidade. Mas continuava a
sentir minha família em dificuldades.
Explicaram-me que, em breve, minha família se acomodaria
com a nova situação. Com o passar do tempo, sentia
minha companheira mais conformada com a falta, porém ela
estava angustiada e o motivo não era a minha desencarnação,
mas uma de minhas filhas.
Como eu não estava suportando senti-los com dificuldades,
comecei a ter remorso que, aos poucos, foi aumentando.
Que esposo, que pai fora eu? Enquanto eles sofriam, eu vivia
num lugar extraordinariamente bom. Fui falar com meu superior
e confessei minhas preocupações. Ouvi dele conselhos e
explicações, pois eu não tinha conhecimentos suficientes para


O VÔO DA GAIVOTA 43

ajudá-los. Mas, apesar de todas as recomendações, não mudei
de atitude, achei que, se nada pudesse fazer por eles, iria sofrer
junto. Não queria ter aquela vida maravilhosa e saber que eles
sofriam. Seria solidário com eles: se chorassem, queria abraçá-los
e chorar também; se eram perseguidos, que me perseguissem;
se machucados, que sentisse a dor de suas feridas.

Pedi, insisti para voltar ao lar. Diante de minha atitude,
meu superior autorizou a volta. Nossos desejos são sempre
respeitados, quis voltar e o fiz. Apesar das explicações e recomendações,
pensei estar preparado. Mas não estava. As
dificuldades foram muito maiores do que esperava.3

Chegando em casa, deparei com dois mal encarados, espíritos
perturbados na maldade. Ao me verem, perguntaram-me
se viera ver os familiares sofrerem. Eles obsediavam uma de
minhas filhas e estavam prejudicando, infernizando toda a família.
Quis impor a minha autoridade, pois era o chefe daquele
lar, dono daquela propriedade. Quis expulsá-los, porém eles se
recusaram a sair. Isto me levou a ficar nervoso e era o que eles
precisavam para que eu me perturbasse, ao contato com a
vibração ambiente. Senti primeiro uma violenta dor de cabeça
e logo em seguida uma agonia, como se tivesse desencarnado
naquele instante. Perturbei-me por algum tempo, mas não sei
precisar quanto, e esse meu estado só piorou a situação dos
meus. Voltei ao equilíbrio depois, numa reunião espírita, onde
me senti unido a uma pessoa, havendo outra conversando comigo,
explicando-me que eu precisava de auxílio e que Deus,
através de seus enviados, estava me socorrendo.

"Preciso ajudar os meus" - respondi.

"Para auxiliar é preciso ter condições" - esclareceu o
orientador encarnado dessa reunião. "Não se preocupe, os seus

- É normal querer auxiliar os que amamos. Mas só ajudamos quando preparados
e, para esse preparo, não temos tempo determinado. Dependendo
de muitos fatores, é rápido para uns e demorado para outros. Podemos
ajudar com conhecimentos e segurança, quando os orientadores do local
que nos abriga, nos julgam capazes. Mas, mesmo assim nossa ajuda é limitada,
pois cada qual tem a lição que lhe cabe fazer. (N.A.E.)


44 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE (Arzvnr un

também estão sendo atendidos e, assim também, os agressores
de sua família. Se não se quiser ter inimigos, é necessário
tomá-los, amigos. Estamos providenciando para que isso seja
um fato.

Senti-me melhor e o orientador me convidou:
"Amigo, queira o socorro oferecido, vá viver uma vida digna
de um desencarnado. Será que é este o tipo de vida que seus
familiares desejam para você?"
"Não" - falei -, "eles me querem bem, pensam que estou
no céu e que sou feliz."
"Por que você não faz o que eles querem? Por que não
aprender a amar com desapego? O amigo não está esquecendo
que eles são, como você, filhos de Deus? Se você foi chamado a
viver de outro modo, é porque findou seu tempo como encarnado.
E não será egoísmo a felicidade que se desfrutar numa casa
de auxílio no Plano Espiritual, se a conseguiu por merecimento
e afinidade. Faça o que tem que ser feito. No momento é viver
num abrigo para desencarnados, estudar e trabalhar, sendo útil
como fez quando encarnado. Vai, amigo, fazer o que lhe é
devido, não se envergonhe de ser feliz, porque, ao estarmos
bem, irradiaremos alegrias que beneficiarão os outros."
Mais tarde, na Colônia, já adaptado, é que vim a saber que
minha outra filha namorava o filho de um senhor, dirigente de
um Centro Espírita, e o rapaz, vendo o que acontecia em minha
casa, pediu ajuda ao seu genitor e esse auxílio não se fez demorar.
Naquela ocasião, fomos todos orientados no Centro, os dois
espíritos que os atormentavam e eu. Com nosso afastamento, a
situação melhorou muito. Minha esposa pensou ter alcançado
uma graça que pedira a uma santa e a uma senhora desencarnada
na cidade, tida como milagreira, por ter sido boa quando
encarnada. Soube, mais tarde, que essa senhora não pôde na
época ajudá-los. E meus familiares nem ficaram sabendo que
receberam tanto de desconhecidos, de um Centro Espírita.
Hoje, estou bem, visito-os sempre e tento ajudá-los dentro
dos meus limites. Uma família grande sempre tem problemas,
mas não me desespero quando não tenho como auxiliá-los.
Luiz deu por finda sua narrativa, deixando-nos silenciosos.


O VÔO DA GAIVOTA 45

Talvez porque todos nós já tivéssemos passado por problemas
parecidos e estávamos dispostos a aprender a amar sem
apego.
Após a aula, meditei sobre o assunto. Muitos encarnados
me têm pedido ajuda, talvez por acharem que posso muito, ou
pelo que escrevo, através de livros. Porém nada sou, pouco
posso. Esforço-me, isso sim, para aprender e trabalhar, pois
almejo caminhar no Bem, rumo ao progresso. Devido às minhas
tarefas, não posso atender a esses pedidos, porém eles
não ficam sem resposta. A personalidade, aqui, não é cultuada.
Os bons espíritos atendem em nome da fé, da sinceridade, sem
se importar de quem vem o pedido. Muitos, que os encarnados
nem conhecem, são ativos no Plano Espiritual e atendem essas
solicitações. Constituem-se em obreiros, samaritanos, humildes
trabalhadores dos Centros Espíritas, desencarnados amigos
e protetores dos que pedem. Fazem por amor, apenas pelo
prazer de servir.
Deve-se pedir a Deus, a Jesus, ao anjo protetor, que os
bons desencarnados atendam e ajudem no que seja possível.

Concluí meus pensamentos com a certeza de que amo
muito e que minha família aumenta constantemente, pois quero
amar toda a humanidade. Mas tenho, pelos meus, imenso e
infinito carinho, só que com desapego. Amo-os sem posse. É o
que todos nós devemos fazer: amar com desapego.



Um Pedido Diferente


Ao sair da classe, fui informada que havia uma visita para
mim e me aguardava no jardim em frente da escola. Ao aproximar-me
do local, veio ao meu encontro uma moça
extremamente agradável.
- Patrícia! Sou Elisa! Gostaria de conversar com você.
- Oi, Elisa, como está? Sentemos aqui.
Convidei-a e nos acomodamos num banco embaixo de
uma frondosa árvore. Minha recém-conhecida falou de modo
delicado.
- Patrícia, vim lhe pedir uma ajuda muito especial. Na
Casa do Escritor, me informaram que a acharia aqui. Antes
,
porém, fui procurá-la num Centro Espírita, em que, disseram-
me, você se manifestava. E, lá, me decepcionei, porque a
manifestante não era você.
Sorri, compreendendo.
- Elisa, isso tem ocorrido. Gosto de Centros Espíritas e
muito mais ainda da Doutrina, que já abraçara encarnada. Após
meus estudos de Reconhecimento do Plano Espiritual, só fui a
alguns Centros Espíritas para conhecer e estudar, não os tenho
visitado mais. Quando vou à Terra, apenas vejo meus familiares
e, quando dá, visito somente o Centro Espírita que meus
familiares freqüentam, para estar com eles e rever amigos. Isto
porque optei por estudar e trabalhar com desencarnados em
Colônias.


O VÔO DA GAIVOTA 47

- Pensei que você estivesse ditando mensagens por outros
médiuns - falou Elisa.
- Tudo o que faço e que farei é com muito amor - repliquei.
- Não é meu trabalho desenvolver médiuns, pois é tarefa
que exige muito preparo e paciência. Também não tenho como
incumbência ser protetora de ninguém, nem escrevo por outros
médiuns, a não ser por minha tia Vera. Isto porque nós duas nos
rearamos durante anos, quando estávamos desencarnadas,
pará esse trabalho. Reencarnamos e tivemos, na vida física,
grande afinidade, conseguia transmitir a ela o que pensava.4
Após programar nosso trabalho, nós o executamos com dedicação,
para que saia o melhor possível. Tenho recebido muitas
manifestações de carinho por estes livros, e meu afeto por todos
é sincero e profundo. Gostaria de estar perto daqueles que
desejam minha presença, mas é impossível, porque meu trabalho
é nas Colônias e não tenho condições de estar em muitos
lugares ao mesmo tempo.5

- Você vai visitar muito seus pais? Comunica-se no Centro
Espírita que eles freqüentam

- Estou com eles sempre que me é possível. Meus familiares
e eu somos espíritos afins, unidos por um afeto puro e
desinteressado. Na reunião que eles freqüentam, não se valoriza
o nome do comunicante, mas, sim, o bem que sua presença
ou comunicação proporciona aos que estão presentes, sejam
encarnados ou desencarnados. Quem organiza a parte espiritual


4 - Fato presenciado pelos familiares. (N.A.E.)

5 - Eu, Patrícia, autora dos livros Violetas na Janela, Vivendo no Mundo dos
Espiritos, A Casa do Escritor e este O Vôo da Gaivota, afirmo que não me
manifestei e nem tenho me manifestado em nenhum lugar ou Centro Espírita
nem por nenhum outro médium, seja pela psicografia ou pela
psicofonia. Recomendo muita cautela a esse respeito. Para que entendam
bem o processo, sugiro que leiam e meditem sobre o capítulo "O Engano"
do livro Aconteceu, de Antônio Carlos. (N.A.E.)

6 - Agora que trabalhamos neste livro, como sempre com muito carinho,
vou só nos horários certos para ditar à tia Vera. Continuo a estudar e a lecionar
nas Colônias de Estudo. Por opção, volto à Terra só para este trabalho.
(N.A.E.)


48 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

é nosso grande amigo Artur e seus colaboradores que são uma
quantidade enorme de Josés, Anas, Joaquins, Marias, Antônios
e muitos outros nomes comuns esquecidos dos homens, mas
conhecidos de Deus. Meu pai nunca me invocou nem dei comunicação
de forma espontânea. Reconheço que, nessas reuniões,
sou aprendiz e que meu pai, encarnado, sabe muito mais do
que eu. E, quando lá vou, o faço para escutar e aprender. Mas
você veio pedir ajuda. De que se trata?
- Sei que os trabalhadores da Colônia Casa do Escritor têm
atendido, em seu nome, inúmeras pessoas. Estou ciente também
que ao pedirmos nem sempre seremos atendidos por
a quem fizemos as rogativas, pois muitas vezes são
outros espíritos que nos socorrem. Entretanto, me foi permitido
vir até você. Moro na Colônia Perseverança, trabalho como
enfermeira em um dos hospitais, mas estou de licença, para
cuidar de um assunto particular. Porém, analisando bem o problema
que quero resolver, compreendi que não tenho como
fazê-lo sozinha. Conversei com um socorrista do Umbral e ele
me informou que, para esse tipo de trabalho, seria aconselhável
pedir ajuda a um Centro Espírita, a uma pessoa que possua
preparo especializado para a tarefa. Ouvi, surpresa, ele me
dizer que seu pai poderia me ajudar. Em vez de ir logo ao
Centro Espírita onde ele trabalha, vim primeiro até você. Se
considerar conveniente e me encaminhar a eles, o grupo do
qual seu pai faz parte certamente me ajudará.
- Certamente - respondi rindo. - O que não fazem os pais
pelos filhos? Você pensou bem...
Achando que me devia mais explicações, Elisa continuou
a falar.

- Fui, quando encarnada, muito doente. Logo que desencarnei,
socorreram-me. Recuperei-me rápido e gostei da nova
vida e da Colônia para onde fui levada. Era ainda jovem, vinte e
três anos, e deixei na Terra meus pais e dois irmãos, que muito
me amam e que me ajudaram muito com suas orações. Estava
contente, estudava e trabalhava. Foi então que algo começou a
me inquietar, de vez que sentia grande necessidade de recordar
minha encarnação anterior, por certo ligada a acontecimentos


O VÔO DA GAIVOTA 49

 talvez, tivesse que solucionar, por isso sentia muita vontade
lembrar. Fui, então, procurar ajuda no departamento

róprio e pedi para recordar meu passado. Estudando meu
pedido, o pessoal especializado me atendeu e pude recordar.
wmpreendi que minha preocupação era com um espírito, a
,quem sou muito ligada; pois inquietava-me por ele, só que não
sabia onde estava, e quis encontrá-lo. Após algumas pesquisas,
tomei conhecimento de que Walter está desencarnado e em
um local do Umbral. Sinto culpa por ele ter caído no erro e
estou triste por ele estar lá.
Elisa enxugou as lágrimas, aquietando-se por alguns segundos;
respeitei seu silêncio, aguardei e logo ela continuou:

- Walter está no Umbral, numa fortaleza, e o chefe do local
é muito perigoso.
- Ele pediu ajuda? - indaguei.
- Não, não tem condições para isso. Se tivesse pedido, um
socorrista já o teria tirado de lá. Ele está muito iludido, completamente
perturbado. Sofre, esquece do Pai Maior e julga-se
também esquecido.
- Socorrer alguém sem que ele queira é difícil - falei.

- É por isso que venho pedir para você me ajudar. Se o
tirarmos de lá e o levarmos ao Centro Espírita, para receber
orientação, através de um médium de incorporação, ele irá
querer o socorro - falou Elisa esperançosa.

- Elisa, por que Walter está perturbado?

- Resgate, Patrícia, mas também pelos tóxicos. Sei que é
uma ajuda difícil. Drogados dão muito trabalho, ainda mais os
que não querem socorro. Mas eu o amo tanto!

Seus olhos meigos encheram-se novamente de lágrimas.
Sorri, animando-a e pedi:
- Conte-me tudo.
- Sabendo onde Walter estava, fui à Colônia a que aquela
região do Umbral está vinculada. Pedi a eles informações,

7 - O Umbral é separado, para melhor haver socorro, por regiões que estão
vinculadas a uma Colônia. Ex.: uma cidade de encarnados tem seu
Umbral, Postos de Socorro e Colônia. As regiões como as cidades do Umbral
têm nomes e essas designações são muito repetidas. (N.A.E.)


50 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

inclusive por "vídeo"s, para conhecer o lugar. Entristeci-me
mais ainda. O local era horrível. Chama-se Túnel Negro, e consiste
numa construção que tem só um portão de entrada. O
chefe desse lugar chama-se Natan e, juntamente com outros
desencarnados afins, ou seja, um bando, fazem experiências
com os toxicômanos desencarnados que vão lá. Muitos ali sofrem
horrores. Indaguei aos instrutores como faria para libertá-lo
de lá e eles me disseram que, num ambiente trevoso daquela
espécie, seria necessário algum espírito ou espíritos que tivessem
conhecimentos em manipular forças primárias. E um
encarnado o faria com mais facilidade, pois os desencarnados,
mesmo sendo bons, teriam limitações já que não mais possuem
vibrações primárias.9 Também não bastaria só tirá-lo
daquele lugar ruim, porque, liberto, não se poderia trazê-lo
para um socorro que não quer, por estar revoltado, abobalhado
e perturbado. Não poderia deixá-lo vagando no Umbral, porque
seria novamente enturmado a seus afins e talvez ficasse em
condições piores ou, então, cairia em outras armadilhas que só
lhe trariam sofrimentos, e poderia também vagar entre os encarnados,
da sua mesma espécie, prejudicando-se mais. Para
ajudá-lo a querer regenerar-se, aconselharam-me que teria que
orientá-lo, fazendo com que entendesse que estava errado. Mas,
no estado em que se encontra, não irá me escutar. Tendo o
choque da incorporação, receberá do médium e dos orientadores,
encarnados e desencarnados, que sustentam a reunião, o
equilíbrio de energias psíquicas de que necessita. Receberá
mais, se o médium for equilibrado, e compreenderá seu estado


8 -A palavra "vídeo" foi usada apenas como identificação, para que o leitor
tenha uma idéia aproximada do que seja o aparelho. (N.A.E.)
9 - Vibrações ou energias primárias são mais materiais, as quais espíritos
ligados à matéria possuem e encarnados também, por terem o corpo físico.
Espíritos bons e esclarecidos normalmente não as possuem, pois estão
mais voltados para o plano espiritual, mas podem comandar os que as têm.
Elisa se referiu a quem lhe deu informações, a ela e a mim, já contando
com minha ajuda. Para auxiliar espíritos trevosos é necessário saber, e nós
duas não havíamos aprendido. E quem manipula as forças primárias são os
que já se libertaram dos condicionamentos do mundo físico, pois a natureza
obedece as suas ordens. (N.A.E.)


O VÔO DA GAIVOTA 51

desencarnado. Também, recebendo uma boa orientação,
rá querer o socorro e assim eu o ajudarei. o Como vê, seu
e encaixa bem na ajuda de que preciso.
Fez uma pausa e continuou:
- Walter desencarnou jovem, completamente dominado
tóxico. Foi assassinado após uma briga com outro companheiro
de vício, e está tão perturbado que nem sabe o que lhe
aconteceu. Patrícia, você poderia pedir por mim esse favor a
eu pai?
- O chefe não irá gostar se o tirarmos de lá - eu disse.
- É... Não irá gostar - Elisa respondeu preocupada.
- Você e eu não podemos - expliquei -, não temos conhecimentos
e nem sabemos como abordar esse chefe e seus
seguidores. Para enfrentar desencarnados trevosos, não basta
só ser bom, é preciso saber como manipular o elemento primário
que compõe a estrutura física da Terra. Essa força é uma só
,
e os bons a usam para o Bem, porém os maus, para dominar,
destruir e se impor. Esse chefe possui tais conhecimentos, é
inteligente e, assim, precisamos de alguém que o enfrente à
altura. Vou levá-la até meu pai, certamente ele e seus companheiros
desencarnados poderão orientá-la. Meu pai, antes de
reencarnar, trabalhou muitos anos como socorrista no Umbral,
e conhece a região muito bem. E agora, encarnado, ele vai
muito lá prestar socorro, quando está desligado do corpo físico
pelo sono. Com certeza, irá conosco tirar seu ente querido, do
Túnel Negro. Como a equipe que trabalha no Centro Espírita
também é laboriosa e dedicada, ela poderá nos acompanhar e
ajudar nesse socorro.
- Patrícia, foi difícil para mim entender que um encarnado
tem condições de ajudar a desencarnados que necessitam. Antes
pensava que os encarnados só poderiam ajudar, em reuniões
de desobsessões, no Centro Espírita. Achava que só os desencarnados
pudessem ir ao Umbral.

10 - Para muitos desencarnados, chegar perto de um médium orientado
no Bem, receber seus fluidos, é como receber um choque que o faz despertar
do seu torpor. (N.A.E.)


52 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVAr.un

- Claro que não - respondi. - Muitos desencarnados trabalham
socorrendo e ajudando; no Umbral. Como também muitos
encarnados, desligados do corpo físico pelo sono, vão ao Umbral
e às suas cidades, para confabular com espíritos afins suas maldades,
brigas, vinganças e, também, vão muito às suas festas.
- Os socorristas não têm medo? - perguntou Elisa se assustando.
- Não. Todos nós, não importando se estamos vivendo
num corpo físico ou não, quando queremos e sabemos, somos
muito úteis no trabalho de socorro, no Umbral. Aqueles que
sabem, devem fazê-lo, pois lá temos muitas oportunidades de
praticar o bem. Quem sabe é porque aprendeu, e os conhecimentos
são tesouros adquiridos. Não é certo pensar que só
desencarnados têm como ajudar no campo espiritual. Muitos
encarnados também o têm, e o fazem. Devemos pensar que os
desencarnados, que hoje ajudam com eficiência, serão os encarnados
de amanhâ. E dos que estão no Plano Físico, muitos
foram os que socorreram com êxito anteriormente. Meu pai
nesta encarnação é um homem comum, com todos os problemas
de uma pessoa vinculada às necessidades da vida física,
mas também trabalha espiritualmente. Vai muito ao Umbral
embora seu tempo seja limitado pelo corpo físico. Ele é conhecido
pelos maus, na região umbralina onde trabalha, como
feiticeiro. Talvez porque, durante centenas de anos, trabalhou
no Umbral, onde adquiriu muitos conhecimentos.
- Patrícia, Natan, o chefe do Túnel Negro, é rancoroso.
Conosco ele não poderá fazer nada, por estarmos fora do espaço
de sua ira, mas e seu pai? Certamente esse chefe do mal
ficará sabendo que foi o Sr. José Carlos quem nos ajudou. Estando
seu pai encarnado, Natan poderá atingi-lo.
- Meu pai ama de forma especial esses desencarnados
que temporariamente estão no caminho do mal. E, quanto mais
espíritos trevosos o pressionam, mais ele se lembra do passado,
aperfeiçoando-se pouco a pouco na forma de lidar e
ajudá-los. Com ele trabalha uma equipe de desencarnados afns
que lhe darão suporte. São companheiros de trabalho e tenho
certeza de que a ajuda será bem maior do que você pensa.


O VÔO DA GAIVOTA. 53

Elisa sorriu, esperançosa. Mas, por ter que voltar aos meus
afazeres, despedimo-nos. Nessa época em que trabalhava na
Colônia Vida Nova, tinha muito tempo livre e fui com ela aventurar-me
na ajuda que, para mim, constituiu um trabalho
diferente.
No horário marcado, encontrei-me com Elisa e volitamos
até meu lar terreno. Lar é sempre o lugar onde somos amados,
e eu me sinto muito amada. Ali era minha ex-casa terrena, mas
sempre o meu lar. Na sala, chamei por meu pai e, ele, desprendido
do corpo físico, veio ao meu encontro.

- Papai...
- Patrícia, minha filha!
Abraçamo-nos. E vendo que tínhamos visita, sorriu cumprimentando-a.
- Papai, esta é Elisa. Necessita de sua ajuda.

- Sim...
Contei-lhe tudo. 
- Vamos ajudá-la. Patrícia, prócure saber de todos os detalhes
sobre esse lugar e, amanhã à noite, iremos lá, para que
possamos planejar como libertar Walter. Agora, necessito continuar
um trabalho...
- Amanhã mesmo traremos Walter? - perguntou Elisa.

- Não - respondeu meu pai. - Amanhã visitarei o local e
prepararei o Posto de Socorro que temos no Centro Espírita,
para receber os que traremos do Túnel Negro, e também comunicarei
aos meus companheiros desencarnados que trabalham
conosco, para que também venham nos ajudar.

- Mas não vamos socorrer um só, o Walter? - Elisa perguntou
novamente.
- Como ir lá e libertar um só? - disse meu pai. - E os
outros? Como deixá-los? Se vamos socorrer, traremos todos os
que querem ser libertados daquele lugar e os que estão, como
Walter, incapazes de decidir.
- Elisa - eu disse -, quando temos ocasião de socorrer,
devemos sempre fazer, tanto com os que sofrem como com os
que se perderam no caminho do erro.


54 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO
- Sr. José Carlos - Elisa falou novamente com sinceridade
-, Natan, o chefe, é mau e...
- Mas é nosso irmão - respondeu meu pai
m aqui ai
- Amanhá
esteja neste horário.
Despedimo-nos de meu pai. E, na Colônia des edi
Elisa, pois tinha uma reunião na escola. Combinamos de nos
en contrar logo de manhâ para irmos ao Umbral. Chegaríamos às
ce o ó ádes do Túnel Negro para obter informações e conhe-
- Ainda bem que vamos durante o dia! - exclamou Elisa.
- É - respondi rindo -, mas à noite voltaremos.
Fui à reunião, onde os instrutores do curso trocaram idéias
sobre o resultado obtido. Essas trocas de informações são muito
átdor e átnltores aproveitam muito. Depois, fui até ao orien-
da Colônia Vida Nova, onde eu estava
temporariamente trabalhando, e pedi autorização para fazer
te autorizada.aE o' nos horários de folga, no que fui prontamen-
sse outro trabalho seria a a uda prometida a
Elisa. O orientador geral de que
falei, é o responsável pela
govemador, instdrutorem muitas outras qualificações, tais como:
p etc. Trabalhando por pouco tempo ou por
períodos indeterminados em um lugar, deve-se seguir as normas
da casa, e tudo o que
ser comunicado ou que for fazer, além do ro ramado, deve
pedir permissão.
No dia seguinte, encontrei-me
com Elisa e partimos para a


Como combinamos, pela manhã, Elisa e eu fomos ao Umbral.
O local que íamos observar ficava num vale enorme e
muito sujo. Nós duas conhecíamos aquela região, pois tínhamos
ido lá para estudo e algumas tarefas. Mas sempre temos
algo novo para conhecer, todas as vezes que vamos a uma das
suas áreas. O Umbral difere muito de uma região para outra. E
nunca havíamos estado naquela parte. Elisa, como já tinha
estado ali, me guiou. Nenhum espírito que já tenha algum conhecimento
do Plano Espiritual, se perde no Umbral. Pode não
achar o que procura e, se por acaso acontecer de não saber
onde se encontra, é só pensar na Casa em que trabalha, a que
está vinculado, para receber ajuda de um socorrista ou entrar
em sintonia com os que estão lá e, em instantes, acha o caminho
de volta. Pode também receber orientação no local em que
se encontra.
Como era de dia, o local tinha claridade, embora escassa,
à maneira do entardecer na Terra. Naquela região, havia muitas
pedras com, mais ou menos, um a dois metros de diâmetro,
a maioria cinza-escuro. O lugar era de pouca vegetação, com
algumas árvores pequenas e tortas, pelo vento forte que costumava
ter o lugar. Alguns filetes de água corriam pelo chão, de
cor marrom e, às vezes, era somente barro.

Logo que chegamos às proximidades do Túnel Negro, vimos
uma grande e sólida construção. Não encontramos nenhum
desencarnado por perto, de vez que por ali não vagava


54 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

ninguém. Isso era mau sinal, significava que o local era temido;
em lugares assim, sofredores e moradores que não pertencem
ao bando, nem passam perto.
Túnel Negro está localizado no Umbral, na parte fácil de
visitar, ou seja, no local mais ameno. Muitos dos socorristas
para se locomoverem melhor pela região umbralina, e terem
facilitados seus trabalhos, classificam o Umbral de três modos:
lugares amenos, medianos e profundos, de difícil acesso, onde
estão os abismos, os buracos e onde existem quase só trevas.
Nós nos acautelamos, porque tudo estava muito silencioso,
embora, às vezes, ouvíssemos gritos alucinantes ou gargalhadas
perturbadoras. Não posso deixar de pensar que, se quando
encarnada visse o Umbral, pensaria estar vivendo um filme de
extremo horror. Entretanto, é uma das Moradas do Pai, e onde
tantos irmãos nossos fizeram sua moradia. Alguns ali sofrem,
outros reinam, mas existem aqueles que de lá gostam, pois se
iludem, enfim são todos infelizes. A criatura só é ser infeliz
quando se distancia do seu Criador.

Uma trilha, um caminho, liga o Túnel Negro a uma cidade
dos encarnados. Era de terra batida, contomando as pedras
maiores. Íamos, assim, em ziguezague.

Qualquer um no Umbral nos veria, por vibrarmos diferente,
porém, se quiséssemos, não seríamos vistas. Os socorristas,
quando trabalham na zona umbralina, se tornam visíveis aos
seus moradores, porque, assim, podem ser solicitados, facilitando
os socorros. E, em visitas ao Umbral, temos sempre muitas
oportunidades de ajudar e aprender.

De repente, ouvimos vozes e, para melhor observar o grupo
que passava, ficamos atrás de uma pedra maior perto da
trilha. Como eles estavam distraídos, não nos viram. Não queríamos
que percebessem nossa presença. O bando que passou
pela trilha, era de seis espíritos, todos de aspecto ruim, armados,
com roupas de couro e de tecido grosso, e alguns enfeitados
com colares. As mulheres estavam muito maquiadas. Gargalhavam
e falavam alto. Passavam rumo à cidade dos encarnados.

Bem perto de nós, dois deles, um casal, distanciaram-se
do grupo, pararam para conversar. E nós os escutamos confabular:


O VÔO DA GAIVOTA 57

- Nenê - disse o homem -, vamos ver se o garoto toma a
eira dose. Você sabe que é importante para mim vingar-
o pai dele. Orgulhoso e arrogante, sentirá, vendo o único
homem viciar-se e se tornar um nada, um inútil como a
iria dos viciados.
- Você não gosta mesmo de viciados - falou, rindo, a mulher...
- São uns fracos, uns bobos! - replicou ele. - Preste atenção,
você tem que fazer com que alguma das mocinhas viciadas
se aproxime dele e namore o garoto. E daí, apaixonado, ele
éstará a um passo de se drogar.

- O garoto costuma orar e não se afina com as meninas
que se drogam. Será um tanto difícil...

- Não se queixe, trabalhe - falou ele autoritário -, fiz um
grande favor a você e me deve este.

- Estou tentando...
Foram embora. Elisa não pôde deixar de comentar:

- Será que irão conseguir? Tomara que não!

- Como ela disse, é difícil forçar alguém que não se afina
com as drogas, a usá-las - respondi. - E, se o garoto tem hábito
de orar, acredito que não iráo conseguir. Os encarnados devem
estar sempre atentos a todas as tentações, e seguir sempre o
bom caminho, que é seguro e não traz o arrependimento que
machuca tanto.
- É certo ele se vingar de alguém querendo atingir seu
filho? - indagou Elisa.
- Vingança nenhuma é certa ou justa. O melhor é sermos
sempre bons e ficarmos longe do alcance destes desencarnados,
ainda com esses impulsos. E, como percebemos, não será
fácil eles se vingarem daquele indivíduo atingindo o filho: Mas,
se o filho se afinasse com as drogas, não precisaria nem incentivos.
Depois, quem ora com sinceridade, tem sempre alguém
bom .a ajudá-lo e protegê-lo.
- Uá... á... - gritou alguém com voz soturna atrás de nós.
Elisa e eu voltamo-nos calmamente e ouvimos outro grito:


- Ai!..
58 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARIfVZECK DE CARVALHO

Defrontamos com um desencarnado todo sujo, com os cabelos
espetados e com as roupas em farrapos:
- Satanás três vezes! - falou ele repetindo a frase depressa.
- Que susto! Quis assustar e vocês me assustam. Vocês são
horrorosas! Moças, estou só brincando, não me peguem.
Estava realmente assustado. Elisa me indagou:
- Patrícia, o que está acontecendo?
- Acho que ele tem o costume de assustar os outros, pelo
Umbral.
- É isto aí! - falou-nos olhando com medo. - Sou o rei dos
sustos. Hoje me dei mal...
- Assustou-se conosco? - perguntou Elisa.
- Como não? É difícil ver duas senhoras assim...
Pensou em dizer feias, mas não disse. Saiu correndo. Rimos.
Elisa comentou:

- Quem assusta, um dia acaba assustado.
- Ele confundiu-se - falei. - Vendo-nos achou que tinha
tudo para passar um belo susto. Conversávamos distraídas atrás
da pedra e, ao nos ver de perto, se decepcionou. Normalmente
brincalhões não costumam brincar com socorristas, pois os temem
porque não querem, no momento, sair de onde estão e
sabem que eles podem pôr fim às suas brincadeiras de mau
gosto. Confuso, assustou-se.
Saímos de trás da pedra e voltamos à trilha, para logo
chegarmos às proximidades do Túnel Negro. Escondemo-nos
perto e ficamos observando. Não demorou muito, e dois sujeitos
esquisitos, parecidos com o grupo que vimos, entraram na
fortaleza sem problemas. Aproximamo-nos atentas e com cautela,
pois estávamos observando e não queríamos alertá-los.
Se, entretanto, algo saísse errado, eles não nos atacariam, pois
temos alguns recursos para sair bem dessas situações, como
nos tornar invisíveis, volitar rápido e outros, que não devem ser
mencionados no momento, para que não venham a ser do
conhecimento de desencarnados moradores do Umbral.
Ficamos perto do muro do Túnel Negro, que é todo cercado
por essa parede forte, larga e com, talvez, uns vinte metros


O VÔO DA GAIVOTA 59

de altura. É um muro de tom marrom-escuro. A fortaleza só tem
um portão e, na frente dele, havia dois vigias, os quais pelo que
vimos não estavam atentos, conversavam e, às vezes, iam para
a parte de dentro. Conseguimos ver que após o portão havia
uma sala onde uma mulher, atendente, dava informações e
recebia a todos que chegavam.

Não fomos lá para entrar, por isso cautelosamente só observamos
tudo. Deu também para ver que, no meio da
construção, existia uma torre bem alta, certamente o local de
observação.

O movimento era bem pequeno, talvez pelo horário e também
porque Túnel Negro não é lugar de muitas visitas e, sim,
restrito aos moradores e viciados.

Depois de ver tudo o que nos interessava, saímos sem
sermos notadas, não voltando pela trilha, mas, perto dela, a
alguns metros ao lado.
- Patrícia - falou Elisa - vai ser difícil!
- Que nada, ânimo! Tiraremos Walter de lá.

Foi quando escutamos:

- Ei, sua branquela! Ei, neguinha! Podem me ajudar.

- Quê? - Elisa indagou.
- Por favor - corrigiu a voz -, as senhoras podem me ajudar?
No Umbral, escutam-se muitas coisas desagradáveis e às
vezes obscenas, para as quais não se deve dar importância. Era
voz, que nos parecia de alguém sofrendo, e fez minha companheira
responder. Voltamos para o local de onde veio a voz e
nos deparamos com um homem sentado no chão.

- O senhor está nos pedindo ajuda? - indaguei.

- Queiram me desculpar, pensei que não iam me ouvir ou
atender.
- Está desculpado - disse Elisa. - Mas o que quer?

- São espíritos bons? Pela aparência e roupas só podem
ser. Estou preso aqui e quero sair.

Nós o examinamos. Era um homem de uns sessenta anos,
deveria ter essa idade quando desencarnou. Apresentava-se


60 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

sujo, descabelado, machucado e permanecia sentado, porque
estava acorrentado por uma pema, a direita, a uma estaca no
solo.
Seria para nós bem fácil libertá-lo, pois a corrente, como
tudo que existe no Plano Espiritual, é do mesmo material que o
nosso perispírito. Poderíamos arrebentar a corrente com nossa
força mental, porém devemos analisar sempre antes de conceder
ajuda desse tipo, porque não basta só libertar. Temos de
prestar atenção, para não prejudicar mais ainda o desencarnado
preso. Se o libertássemos para onde iria? Que faria? Seria
aprisionado novamente? Nesse caso, seria pior, porque sofreria
mais ainda.
- Quem o prendeu? - Elisa indagou.
Olhei-o fixamente e convidei-o mentalmente a não mentir.
Se o fizesse, logo saberia, lendo também seus pensamentos, eu
teria a verdade. Fazemos isto facilmente com desencarnados
fracos e com os que sofrem. Com os moradores do Umbral,
com os que são maus e fortes, é bem mais difícil, porque para
fazer isso com esses desencarnados trevosos tem que se treinar
muito e saber usar bem esta habilidade.
O homem nos olhou bem, suspirou, enxugou algumas lágrimas
e respondeu:
- Meu genro, ou melhor, meu ex-genro... Quando encarnado,
fomos sogro e genro... Chamo-me Jacy e estou há tempos
preso aqui.
- Não sai para nada? - perguntou Elisa.
- Não, meu genro vem sempre aqui, ora me bate, ora me
traz o que comer e água. Ele é violento e mau.
- Por que ele o prendeu? - indaguei.
- É uma longa história. Soltem-me e, estando num lugar
seguro, conto a vocês.
Elisa me olhou e me disse mentalmente:
"Vamos libertá-lo e, se não pudermos socorrê-lo,. o deixaremos
em outra área do Umbral. Por favor, Patrícia!". - rogou,
notando que eu hesitava.
- Vamos soltá-lo - concordei:


O VÔO DA GAIVOTA 61

Arrebentamos fácil a corrente e, como a perna dele estava
inchada, ajudamo-lo a ficar de pé, mas ele gemia de dor. Apoiando-se
em nós, retornamos à trilha rumo à cidade dos
encarnados. Logo chegamos e nos sentamos na relva, num
terreno vago, e Jacy, como prometera, contou sua história.

- Encarnado, fui um homem rico, não milionário, porém
com muitas posses. Tinha cinco filhos, e uma das minhas filhas
foi casada com esse que me prendeu. Ele tratava muito mal
minha menina, batia nela, além de manter muitas amantes,
gastando tudo o que possuía. Pensando ficar livre de tal peste,
mandei matá-lo, pagando bem caro um assassino que o eliminou
com um tiro. Ninguém descobriu, nem ficaram sabendo
que eu fora o mandante. Mas ele, depois de desencarnar, ficou
sabendo e esperou que eu também desencarnasse, para me
maltratar. Já lhe pedi perdão, mas ele não me atende...

- Pediu, de coração? - Elisa indagou.

- Sim, mas logo que desencarnei, sentia que, se voltasse
ao passado, mandaria fazer tudo novamente. Depois, com o
tempo, lá sozinho e preso, fiquei a pensar e entendi que estava
errado. Não tinha o direito de tirar a vida física de ninguém.

- De fato, Jacy, não temos o direito de cortar a existência,
num corpo de físico, de ninguêm. Agora você está livre e o
convido para se voltar ao bem, a pedir perdão a Deus e recomeçar
a vida, auxiliando a si mesmo e a outros irmãos. Aceita?

- Vamos levá-lo a um lugar onde será hospitalizado, para
sarar de todos seus machucados - falou Elisa delicadamente.

- Este lugar é bonito? - perguntou ele. - Ouvi dizer que
onde os bons moram é fantástico.

- Sim - repliquei -, é maravilhoso para aqueles que querem
mudar, mas desinteressante para quem cultiva os prazeres
materiais. Você irá para um Posto de Socorro aqui perto.

- Obrigado - falou com sinceridade.

Nós o levamos para um Posto de Socorro da região localizado
perto do Umbral. Tocamos a campainha, apesar de que
esses Postos de Socorro têm sempre vigias e locais de observação,
podendo ver quem se aproxima e, pelas vibrações, sabem


62 PATRÍCIA / VERA LÚClA MARINZECK DE CARVALHO

também quem é. Os portões dos Postos normalmente são
trancados, mas poderiam, só pela vibração, ser abertos, não
necessitando bater ou tocar a sineta que existe em alguns. Porém
esse bater é costume no Plano Espiritual, porque, ao parar
no portão ou porta, o visitante é observado melhor. Em muitos
Postos, quando o portão é aberto, defrontamo-nos com um hall
ou sala, onde são normalmente atendidos quem os visita. Em
casos de emergência, quando se está para chegar a essas casas
de auxílio, pede-se mentalmente e o portão se abre ao se estar
perto. Há casos também, em que os trabalhadores da casa vão
encontrar-se com quem pede ajuda, para auxiliar. Esse bater é
mais uma forma educada de visitar uma casa.
O portão foi aberto e fomos convidados a entrar. Explicamos
para a senhora que nos atendeu, o porquê de nossa
presença, e pedimos abrigo para Jacy. Atenderam-nos prontamente
e, já no pátio, Jacy nos indagou:
- Vocês não iam me levar para um lugar lindo? Aqui é tão
simples!
Entendi-o. Lugares bonitos se diferenciam pelo gosto. Para
muitos, lugares lindos são de luxo e ostentação. Para outros, os
que se afinam com a simplicidade, a maior beleza é a vibração
de harmonia emitida por seus sustentadores. Para Elisa e eu, o
Posto é muito bonito, com canteiros floridos a enfeitar o pátio, e
árvores arredondadas de um verde muito agradável estavam
entre os canteiros, cobrindo bancos nísticos, num convite às
pessoas a se sentarem. O prédio, em formato de U, de três
andares, é majestoso e tem janelas grandes, com flores no
beiral em quase todas.
- O quê?! - falou Elisa, espantada. - Não acha aqui bonito?
- Pensei que fosse diferente - respondeu Jacy.
Deixamos Jacy acomodado numa enfermaria e voltamos
aos nossos afazeres. Dias depois, fomos visitá-lo e nos informaram
que Jacy saiu sem licença e foi para sua ex-casa terrena.
Agradecemos e partimos.
- Patrícia, vamos procurar Jacy?
- Elisa, ele fez sua escolha.


O VÔO DA GAIVOTA 63

- Vamos ver o que ele está fazendo. Talvez esteja precisando
de ajuda. E se o genro o pegou novamente?
- Está bem, vamos - respondi.
Foi fácil achá-lo. Quando ele nos contou sua história, deu
todos os detalhes e até mostrou a casa onde morou. Nós o
encontramos triste, a chorar na sala de sua ex-casa terrestre. Ali
fora sua casa, mas não um lar, porque lar é união de moradores
com afeto. É, para nós desencarnados, todo o lugar onde somos
amados. Ao nos ver, chorou mais alto. Ele sofria realmente.
- Sou tão infeliz! Saí daquele lugar de luz e paz e vim para
casa. Só encontrei erros e problemas.
- E por que saiu? - quis saber Elisa.
- Quis vê-los, tinha saudades.
- Deveria ter esperado. Quando pudesse, teria permissão.
- falou minha amiga.
- E agora, o que faço? Tenho medo! Quero voltar e não sei.
Será que vocês me levariam de volta? Por favor, ajudem-me de
novo! Sei que não mereço, sou um mandante de crime. Mas
vocês são tão boazinhas!
- Podemos levá-lo - disse séria -, mas se prometer que
será obediente, comportado e, logo que possível, deverá passar
de servido a servidor. E tem mais: ser agradecido.
- Prometo fazer isso tudo.
Levamo-lo de volta.
Como é triste cometer erros e ter a própria consciência a
nos cobrar, e não os que prejudicamos a fazê-lo. Consciência
tranqüila e sem erros significa nossa tranqüilidade, porque a
dor do remorso é terrível. Quem faz o mal, é insensato.
Vendo-me pensativa, Elisa disse:
- Patrícia, é para alertar as pessoas que você estuda tanto
e deseja ensinar?
- Sim, por isso e por muitas outras coisas também. Porque,
Elisa, aquele que sabe tem mais chance de acertar, e conhecer
representa fazer com sabedoria. Somos livres por tudo por aquilo
que sabemos e escravos pelo que não sabemos. Não devemos


64 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

compactuar com o erro, mas amar a presença de Deus no
pecador. Esclarecendo, educando, enfraquecemos o erro e fortalecemos
o Bem nos que erram.
- Patrícia, admiro você!
Sorrimos. Viver tentando acertar é maravilhoso.

Túnel negro




Na noite seguinte, fomos, Elisa e eu, encontrar com meu
pai. Minha amiga foi logo lhe passando os dados do Túnel Negro,
com informações que obteve no Posto de Socorro do Umbral,
das imediações do local onde Walter estava.

- Obtive os dados com o orientador do Posto de Socorro
Caminheiros de Jesus - explicou Elisa.

Colônias ou Postos de Auxílio têm quase sempre a previsáo
exata de quantos desencarnados vagam pelo Umbral, e de
quantos moradores existem em suas cidades. Isso, no seu espaço
espiritual, para facilitar socorros e orientar socorristas. Assim,
tínhamos nas mãos um mapa do local, com as medidas de
todos os compartimentos do Túnel Negro. Seu chefe era mesmo
o Natan. Estavam anotados quantos colaboradores eIe tinha,
quantos escravos e abrigados, como também todos os detalhes
importantes da fortaleza, por dentro. Meu pai leu todos os dados
e entregou a folha a Elisa. E nos convidou:

- Vamos!
Volitamos até o Umbral e, lá, fomos andando. Observamos
tudo. Perto do Túnel Negro, paramos e examinamos bem o
local. Ficamos ali poucos minutos e voltamos.

- Amanhã voltaremos - disse meu pai -, só que um pouco
mais tarde, e de lá tiraremos os que quiserem sair. Agora, vou
ao Posto, junto ao Centro Espírita, para organizar tudo.

Estávamos caminhando, Elisa e eu mais próximas, e meu
pai a uns dois metros de distância, quando ouvimos:


66 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHn

- Café com leite! Uma branca, outra negra! Leite com café!
O desencarnado que falou, riu alto, gostando do que dizia.
Elisa o observou e dirigiu-se a meu pai.
- Sr. José Carlos, por que tanto preconceito? Ontem mesmo,
por aqui, nos chamaram de branquela e negrinha.
- Muitos ainda dão valor ao exterior de tudo, até das pessoas.
Preconceito racial tem sido a causa de muitas desavenças
terrenas, pois longe estão de entender o que a pessoa é realmente,
vendo somente o exterior, criticam tentando ofender.
Esse indivíduo tanto quis ofender a uma como a outra. Tivemos
e teremos com certeza muitas existências, vidas físicas, pertencendo
a várias raças. A cor da pele muda conforme nossa
necessidade de aprendizado, ou por reencarnarmos em determinado
local da nossa Terra. Podemos ter sido vermelhos,
amarelos, negros e brancos. Aqui no Umbral também há preconceitos
e muitos. Existirão preconceitos até que entendam
ser temporário a pessoa vestir um corpo branco ou amarelo.
Nosso espírito é e será o mesmo. Devemos tirar lições dos
diferentes modos de ser externamente, para nosso aprendizado
e progresso.
Meu pai fez pequena pausa e concluiu:
- Muitos têm medo de olhar para dentro de si mesmos,
porque só irão encontrar inferioridade e o grande vazio do nada.
E, sem a comunhão com a vida, quase sempre o preconceito
racial vem à tona. Assim, não gostam de olhar os mais evoluídos
que eles, pois, ao vê-los, confirmam sua própria pobreza.
Eis a razão da maledicência. Ao denegrir a imagem do próximo,
sentem-se melhores que os alvos de suas críticas. Ainda
não conseguem ver, reconhecer todos como irmãos.
- Eu, se quisesse - disse Elisa -, poderia, agora que possuo
um corpo perispiritual, ser diferente. Modificá-lo e ser branca
ou com feições orientais, mas a cor não me faz diferença. Amo
todas as raças e permaneço como fui em minha última encarnação.
- Para os que compreendem, o exterior não faz diferença-
disse rindo meu pai. - Uma de minhas encarnações que recordo
com carinho foi na Índia, em que fui bem escuro, quase negro.


O VÔO DA GAIVOTA 67

Eu também já recordei muitas de minhas existências. Também
já vesti um corpo físico negro e isso não me fez diferença,
pois tive nessa encarnação alegrias. tristezas e problemas comuns
de encarnada, como em todas as outras oportunidades.
Senti-me bem em ser negra! Meu pai tem razão, tudo é temporário,
tudo passa e nós ficamos com o proveito de cada
encarnação.
Despedimo-nos. Cada um voltou aos seus afazeres. Eu voltei
à Colônia Vida Nova, Elisa, ao hospital da Colônia
Perseverança e meu pai, ao Posto do Centro Espírita. No outro
dia, nos encontramos e nos juntamos a um grupo de vinte desencarnados,
trabalhadores da equipe do Centro Espírita, da
equipe de meu pai. Conhecia quase todos. Cumprimentamo-nos
alegres e rumamos para o Túnel Negro. Sabíamos que
Natan estava sempre ausente à noite, quando se dirigia com
freqüência para perto dos viciados encarnados, dizendo que
pesquisava o efeito das drogas nos corpos físicos. Saía sempre
com seus colaboradores diretos.
Logo chegamos. Íamos entrar meu pai, Elisa e eu, além de
cinco da equipe, os demais nos esperariam por perto. O Túnel
Negro por fora parecia mais com um castelo, desses europeus
antigos, cor cinza e com algumas janelas pequenas. Natan não
confinava seus moradores, que ali entravam e saíam quando
quisessem, havendo prisões só para os que o desobedeciam.
Mesmo os que ali estavam, e que eram usados para experiências,
entravam conscientes do que ia acontecer, e muitos viciados
procuravam o Túnel Negro em busca de drogas para uso próprio.
É claro que, para conseguir o que desejavam, tinham que
se submeter às regras da casa.
A entrada do hospital, assim eles gostavam de chamar o
lugar, era vigiada. Natan não admitia falhas, e seus ajudantes o
temiam. Os drogados desencarnados e também os encarnados
desprendidos pelo sono físico, entravam ali facilmente. Muitos
encarnados transitam pelo Umbral: uns, trabalhadores do Bem,
para ajudar, outros à procura de seus objetos de prazer. Os
encarnados viciados são bem-vindos em muitos lugares parecidos
com o Túnel Negro, isso porque lá recebem incentivos para
continuarem no vício e também orientação para viciar outros.


68 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

São instruídos para continuar no erro e fazer o que eles querem.
Pensam, esses encarnados, que estão com amigos e acabam
como fantoches nas mãos deles. Os drogados vêm sempre ao
Túnel Negro em busca das sensações que o tóxico lhes proporciona,
e Natan, por aquela área do Umbral, tinha fama de
alimentá-los no objetivo de seus desejos.
Ficamos rentes à parede externa, perto da porta da frente.
Os guardas estavam, no momento, do outro lado, quando meu
pai, representando um viciado, entrou na saleta como se procurasse
drogas. Veio atendê-lo uma enfermeira, ou atendente,
uma desencarnada que anotava tudo o que se passava por ali.
Acostumada a receber encarnados, atendeu-o normalmente
sem desconfiar de nada.
- Quero falar com Dr. Natan - disse meu pai.
- Ele não está no momento - respondeu a mulher.
- Chame-o para mim - insistiu papai.
- Não posso importuná-lo e não sei onde ele está. Você vai
ter de aguardar.
- Vá chamá-lo, moça - falou meu pai -, trouxe um material
que há tempos ele procura.
A mulher virou-se e entrou por uma porta indo à outra sala.
Rapidamente papai nos deu sinal para entrar. Passamos da sala
para um corredor e por muitas outras salas ou cômodos. Ali não
havia enfeites como costumamos ver nas cidades umbralinas.
Existiam muitos corredores e, para iluminar a casa por dentro,
colocaram archotes nas paredes. Viam-se também alguns quadros
com desenhos alucinantes, que tiravam a monotonia do
cinza de suas paredes. Havia ali poucas cadeiras, parecia só ter
o essencial. A casa possuía área de lazer e acomodações garticulares
aos seus moradores, eram cômodos parecidos uns com
os outros. As prisões eram celas pequenas e individuais.
Logo após, entramos numa grande sala e nos separamos
em grupos; meu pai entrou no laboratório, olhando tudo sem
mexer em nada. Possuía bons equipamentos, demonstrando
que Natan e sua equipe eram estudiosos. As salas em que
entramos, eram chamadas de enfermarias e sabíamos que numa
delas Walter estava. Esses locais em nada lembravam os da


O VÔO DA GAIVOTA 69

Colônia de Socorro, ou mesmo os que existem em hospitais
terrenos. Estávamos perto do laboratório, quando, pegos de
surpresa, os guardas que estavam dentro da casa não reagiram,
pois foram imobilizados pela força mental de nossos amigos.

Quando entramos na enfermaria, a visão que tivemos foi
tão patética, quanto horripilante. Não havia leitos, só umas
espécies de cabides nas paredes e com vários desencarnados
eomo que dependurados, como se fossem roupas velhas. Elisa
e eu ficamos perplexas diante de tão triste visão. Minha amiga
sufocou um grito, quando viu Walter entre eles... Correu ao seu
encontro, tirou-o de lá e ele caiu em seus braços. Meu pai veio
até nós e, em fração de segundos, foi tirando todos e colocando-os
diante da porta, para que nós duas os encaminhássemos
para a saída. Não conseguíamos movê-los. Apavorada, indaguei
a meu pai:

- Que faço?
- Empurre-os!
No corredor havia carrinhos, talvez para transportá-los. Colocamos
todos dentro, pois não conseguiam andar, e os levamos
para fora. Quando passamos pela saleta da entrada, um alarme
tocou forte e estridente, parecendo uma buzina alta. A
fortaleza foi vasculhada por nós, e todos os que quiseram sair,
foram tirados de lá. Fizemos, então, uma fila, dando as mãos, e
os puxamos até o vale, perto do Túnel Negro, onde os outros da
equípe nos esperavam. Alguns dos desencarnados que estavam
presus, foram amparados. O castigo para eles era ficar sem o
hipnotismo de Natan e, sem isso, privados da droga, mostravam-se
desesperados. Tínhamos pressa, porque os guardas
imobilizados logo voltariam ao normal e poderiam vir atrás de
nós ou chamar por Natan, e não queríamos um confronto agora
com ele. Precisávamos auxiliar todos os que queriam ajuda, e
os socorridos estavam assustados, sendo que alguns não sabiam
direito o que estava acontecendo e nos olhavam com medo.
Meu genitor faiou para eles:

- Aqui estamos em nome de Jesus para ajudar os que
querem. Levaremos vocês a um local de socorro, onde seráo
tratados com bondade e curados de seus males. Os viciados


PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARIZNK DE CARVALHO

receberão tratamento especial e ajuda para se livrarem do
vício. Convidamos todos a nos acompanhar, porque tiramos
vocês de lá, mas levaremos só os que quiserem. Vamos prosseguir
e os que não desejarem ir conosco, podem voltar.
Levaremos, porém, os que não estão em condições de decidir.
Muitos voltaram, inclusive alguns que estavam presos. Trinta
desencarnados ficaram conosco e, juntos, fomos para o Posto
do Centro Espírita. Já nos esperava a equipe médica, com os
enfermeiros, e nos pusemos a trabalhar. Seriam feitos os primeiros
socorros em muitos deles. Walter e seus companheiros,
que estavam dependurados, permaneciam inconscientes e completamente
dependentes das sensações das drogas
administradas a eles através do hipnotismo de Natan.
Desencarnados viciados iam ao Túnel Negro em busca das
drogas, mas Natan hipnotizava-os, fazendo-os sentir como se
tivessem desfrutando o objeto do seu desejo, como maconha,
cocaína, heroína etc. Hipnotizados, esses imprudentes desencarnados
serviam para experiências desse médico, que lhes
sugava os fluidos vitais, para si e seus companheiros. Os viciados
pensavam que tomavam as drogas, e assim também os que
vagavam por ali. Julgavam que lá havia tóxicos. Natan náo
tinha nenhuma droga no Túnel Negro. E suas experiências eram
cruéis.
Os desencarnados se alucinam e se degeneram muito mais
que os encarnados, com os tóxicos. Deformam seus perispíritos,
sendo muito triste vê-los. Todos estavam muito magros,
pálidos, sem energias psíquicas, abobalhados e com o pensamento
fixo nas drogas. Walter era louro, de cabelos curtos, mas
de olhos fundos, vidrados, e os lábios roxos. Elisa o reconheceu
mais por senti-lo do que visualmente. Isso acontece muito no
Plano Espiritual, de uma pessoa reconhecer a outra apenas
sentindo, pois o perispírito muda muito.
Todos os inconscientes e os semi-inconscientes foram medicados
e colocados nos leitos. Os outros também tiveram os
primeiros cuidados. Alguns dos colaboradores que serviam a
Natan também ali estavam, mas desconfiados. Não eram viciados.
Trocaram de roupa e ficaram conversando com os


O VÔO DA GAIVOTA 71

trabalhadores desencarnados do Centro Espírita que, gentilmente,
os elucidaram em suas dúvidas.

Meu pai trabalhou na ajuda por duas horas e, após, voltou
ao corpo físico. Muitos dos socorridos que não necessitavam
passar por uma incorporação mediúnica, foram levados do Posto.
Os viciados conscientes seguiram para hospitais no Plano
Espiritual, próprio para eles. Alguns se dirigiram para suas Colônias
de origem. Os servidores de Natan que pediram ajuda
foram encaminhados para a Colônia na Escola de Regeneração
para adaptarem-se à nova vida que lhes era oferecida. Permaneceram
no Posto do Centro Espírita só os que precisavam
passar por um trabalho mediúnico de incorporação, quando
teriam a consciência retomada, inclusive com a transfusão de
tluidos, e então poderiam escolher se queriam ou não a ajuda
oferecida. Muitos desses desencarnados se mostravam com os
perispíritos deformados pelo vício, pelos castigos e pelas experiências.
Encaminharam-se rapidamente os socorridos para as Colônias,
por dois motivos: para começar imediatamente o
tratamento que necessitavam, e para iniciar o aprendizado que
os libertaria daquela subjugação. E, também, porque sabíamos
que, se Natan os chamasse, acostumados que estavam a obedecê-lo,
voltariam ao Túnel Negro e, nas Colônias, essa volta
seria mais difícil, por estarem mais longe da Crosta e fora do
alcance das mentes trevosas. Os que precisavam ficar no Posto,
foram acomodados em quartos isolados, e aqueles que ainda
não tinham consciência de sua situação, ficaram em leitos,
amarrados, não podendo sair.

Agora, teríamos de esperar o dia certo em que encarnados
e desencarnados se reuniriam para o trabalho de equipe, onde
os nossos socorridos seriam orientados em uma sessão, junto
aos médiuns da casa.
Elisa ficou no Posto, cuidando de Walter e de todos os que
ali estavam, ajudando os trabalhadores desencarnados da casa.
Voltei aos meus afazeres nas salas de aula do curso que ajudava
a administrar, esperando, ansiosa, o desenrolar dos
acontecimentos.




a Sala áe Ala



Enquanto aguardava a assistência para o Walter, dediquei
ainda mais tempo ao meu trabalho. Estava me dando bem
como instrutora do Curso de Reconhecimento do Plano Espiritual.
Estava gostando muito de lecionar. Numa das aulas, Norio, o
japonês, me fez algumas perguntas sobre matéria que não constava
do currículo. Percebi com satisfação que estava apta a
responder, e isto me tranqüilizou.
No Plano Espiritual, principalmente onde se pratica o bem
perdemos aos poucos o costume de reparar na aparência física
dos outros. Na classe onde trabalhava havia idosos, negros,
brancos e, como temos muitos orientais nas terras brasileiras, é
claro que os temos no Plano Espiritual. Norio é muito agradável,
risonho, inteligente, e de olhos puxados. Quando encarnado
era chamado "Norio, o japonês", e continuou sendo depois
de desencarnado, orgulhando-se muito do tratamento carinhoso.

- Patrícia - replicou Norio -, admiro muito Allan Kardec
como também a equipe que o ajudou a escrever os livros que
nos legou. Onde eles estão? No momento estão encarnados ou
desencarnados?
- Norio, poucos sabem sobre isso no Plano Espiritual. Eu
não sei. Só sabem os desencarnados mais elevados e que têm
como tarefa a orientação da Terra. Nós, a maioria, não sabemos
deles e nem do destino de espíritos considerados santos ou
que foram importantes, de alguma forma, quando encarnados.


O VÔO DA GAIVOTA 73

Essa situação acontece por precaução, porque, se os desencarnados
souberem, logo os encarnados saberão. E, como
há muitos imprudentes, se falarmos que estão encarnados, rapidamente
centenas de Allans Kardec irão surgir, como também
cada um de sua valiosa equipe. Se dissermos que estão desencarnados,
poderão acontecer muitas supostas manifestações,
por via mediúnica, em lugares que não têm a devida cautela
com mensagens assinadas por pessoas famosas. Assim sendo,
só posso responder que eles continuam firmes nos seus propósitos,
rumo ao progresso, preocupados com todos os espíritos que
trabalham para a sua evolução, e ajudam com bondade a todos.
Se estão encarnados, nem cogitam em pesquisar o que
foram no passado, porque isso não preocupa os espiritos bons.
Se desencarnados, muitas vezes se escondem em pseudônimos,
porque reconhecem que não fizeram mais do que lhes
competia fazer.
- Patrícia, já estou volitando, mas não o faço com rápidez,
será que aprenderei logo? - perguntou Norio novamente.

- Certamente - respondi. - Aprendemos primeiro a volitar
devagar para depois fazê-lo rápido. A última forma que aprendemos
é a de fazê-lo com a rapidez do pensamento. O curso de
volitação nas Colônias é aberto a todos, e aprende quem o
deseja.
- Muitos encarnados se desprendem de seus corpos e volitam.
É porque já sabiam? São danadinhos... - disse Norio.

- Aquele que sabe, faz! Se desencarnados sabiam, ao encarnar
recordam-se facilmente e, quando desprendidos do corpo
carnal, seja consciente ou pelo sono físico, utilizam-se da capacidade.
Mas encarnados também aprendem, se alguém os
ensinar.
- Patrícia, quem tem medo de altura, como faz para volitar?
- indagou Norio, todo sério.
Rimos.
- Se desencarnado - elucidei-o -, deve procurar o porquê

11- Esta resposta aqui registrada, eu a dei sob orientaçáo da equipe da
Colônia Casa do Escritor. (N.A.E.)


74 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE C'ARvAr un

do medo e superá-lo. Quando encarnados, usam-se alguns truques.
No corpo carnal o medo de altura é mais forte, porque se
sabe que, ao cair, irá no mínimo se machucar. Desencarnados
não correm esse risco. Minha mãe está encarnada, é acrófoba e
volita e vai a muitos lugares. No começo, tinha cautela, e não
olhava para baixo, agora o faz mais facilmente, e certamente
um dia irá superar esse trauma, causado por acontecimento
em outra existência.
- Patrícia - falou Ernani -, tenho uma prima que é espírita
e sua filha mais velha, Lilian, desencarnou. Ela está bem e feliz
aqui no Plano Espiritual, mas seus pais querem ter outro filho e
que Lilian volte a reencarnar. Ontem nos encontramos e ela
está num dilema, reencarnar ou não.
- Se os pais querem ter outro filho, tudo bem, mas não
devem proceder como seus primos querem, com o retorno da
filha. Existe essa possibilidade, em alguns casos, quando desencarnados
podem reencarnar em curto espaço de tempo entre
familiares e, às vezes, com os mesmos pais. Mas cada caso
deve ser estudado com atenção. Os encarnados não devem
fazer desse desejo algo que incomode o desencarnado, pois
isto significa ser egoísta. E o desencarnado, se não tiver planos
de reencarnar logo, não deve fazê-lo só porque os pais querem.
Aconselhe Lilian a conversar com um orientador e pedir ajuda
para resolver esse problema. E, se ela se achar sem condições
de retomar à carne, não deve fazê-lo agora.
O assunto da aula passou a ser obsessão.
Geralda nos contou que teve uma existência física muito
difícil. Órfã, casou-se jovem e sofreu muito com o marido, que
bebia. Querendo se ver livre do esposo, planejou e o assassinou,
sem que ninguém ficasse sabendo. Trabalhou muito e
criou seus cinco filhos. Mas o esposo, em espírito, querendo
vingar-se, obsediou-a por anos, até que os filhos moços procuraram
um Centro Espírita que a ajudou. Falou emocionada do
muito que sofreu e que, por causa da obsessão, conheceu o
Espiritismo que veio elucidá-la e auxiliá-la bastante.
Marcílio teve uma experiência diferente, desencarnou em


O vô DA GAIVOTA 75

acidente no trabalho. Desencarnado, descobriu que a esposa o
traía com seu sobrinho. Com raiva, passou a obsediá-la, não
deixando ninguém se aproximar dela com intenção amorosa.
Com a vida conturbada, a esposa foi a um lugar, onde pagou
para ficar livre da influência negativa, no caso, ele. Os desencarnados
que lá trabalhavam, pegaram-no e o levaram preso
para um lugar do Umbral. Marcílio ficou muito tempo prisioneiro,
quando fez amizade com um outro desencarnado que
também estava preso. Esse amigo contou-lhe porque estava
cativo. Desencarnara, deixando a esposa com seis filhos e, preocupado
com eles, voltou a sua antiga casa terrena, sem saber
que os prejudicava. A esposa, sem entender bem a situação,
procurou ajuda erradamente e ele foi preso por espíritos maldosos.
Por isso, devemos buscar auxílio só em lugares bons,
que fazem caridade, principalmente quando se trata de entes
queridos desencarnados. Socorristas vieram e ajudaram este
seu amigo, levando-o para um lugar melhor. Tempos depois ele
voltou e o socorreu. Marcílio disse-nos que foi uma experiência
muito triste não ter perdoado e ficar obsediando os seus. Esqueceu
de si para infernizar a esposa e sofreu muito.

Concluímos que é muito penoso tanto obsediar como ser
obsediado. Aquele que obsedia perde tempo precioso, pára no
seu caminho, para atormentar os outros. O melhor é viver de tal
modo que não mereçamos raiva e ódio de ninguém. Mas, se
pelo passado, alguém nos cobrar, é nosso dever ajudá-lo, e
assim pararemos de sofrer pelo que fizemos. Do contrário, se
permitirmos que o outro nos faça mal, é o mesmo que continuar
prejudicando os outros. Deve, portanto, o obsediado orar, ter
vida decente e procurar num Centro Espírita o auxílio para si e
para o outro. Todos devem ser tratados como irmãos e como
gostariam que fossem tratados. O obsessor e o obsediado merecem
o mesmo respeito.
Muitos foram os comentários sobre a obsessão. Albertina
nos narrou:
- Tenho um tio que é uma pessoa muito difícil. Vive irritado,
enfermo e, nas suas crises, atormenta toda a família. Muitos
diziam que estava obsediado. Até a família, embora descrente,
foi em busca de auxílio. Mas nada. Ele melhorava pouco e logo


PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

voltava ao seu mau humor. Logo que desencarnei, procurei
ajuda para meu tio, pensando que era obsediado. Mas, para
minha surpresa, ao visitá-lo não vi nenhum desencarnado com
ele. Querendo aprender, perguntei a um orientador que, para
esclarecer-me, foi comigo vê-lo.
"Albertina" - disse o orientador -, "esse senhor não é obsediado.
Ele não se educou, é uma pessoa nervosa e
consequentemente doente, pois quem não aprende a controlarse,
quase sempre se torna enfermo. É pessimista, eoísta,
gerando assm muitos fluidos negativos, que o tornam mais
irritado ainda. É pessoa difícil e que nada faz para se melhorar.
Nem tudo o que acontece aos encarnados é culpa dos desencarnados.
E nem sempre situações difíceis acontecem por
obsessões. Estas existem, mas deve-se analisar se o encarnado
sofre mais por suas próprias ações, por sua maneira errada de
ser e agir. Como também se não é física a origem do distúrbio
como seu tio, que é pessoa difícil.
Realmente, concluímos que muitos encarnados colocam a
culpa nos outros, porque isso é mais fácil do que reconhecer os
próprios erros.
- Patrícia - perguntou Marília -, um encarnado pode obsediar
um desencarnado?
- Pode. Se o encarnado ficar pensando no desencarnado,
chamando-o, com choro e desespero, não se conformando com
sua desencarnação, pode atrapalhá-lo. Mesmo se estiver abrigado
em Colônias, sentirá esses chamamentos, que o
incomodarão. Se estiver vagando, quase sempre vem e fica
perto do encarnado, numa troca doentia de tluidos. Os encarnados
devem ajudar os desencarnados que amam, sendo otimistas
orando por eles, desejando que estejam bem e felizes, e que
aceitem a desencarnação. O amor deve sempre nos levar a
querer o melhor para o ser amado.
- Bendito seja o Amor! - exclamou Terezinha, sorrindo.
Finalizamos a aula.


Desenrzoes



Nosso grupo de estudo foi com os outros dnis instrutores
aprender, na prática, e tentar ajudar algumas desencarnações.
Já havíamos visto, na teoria, as muitas formas de deixar o corpo
físico. Agora iríamos ver, para ter conhecimentos sobre os desligamentos
de algumas pessoas.

Fomos avisados que estava havendo um tiroteio entre grupos
rivais e nos dirigimos imediatamente para lá. Ao chegarmos,
ainda trocavam tiros e algumas pessoas corriam com medo. Os
assassinos fugiram, deixaram caídos dois feridos: um, na perna;
outro, no abdome, mão e perna. Havia três mortos.

Rápidos, também, vieram para ajudar quatro socorristas
que trabalhavam na região, e também um bando de desencarnados
trevosos, que chegaram tocando tambores e fazendo
barulho.

- Por que esta algazarra? - indagou Terezinha.
Alberto, um outro instrutor, respondia a todos, esclarecendo.

- Grupos assim, de desencarnados que vagam, estão sempre
à cata de novidades e confusões. Deliciam-se com brigas,
chegando até a apostar e torcer por um desfecho macabro.
Temos visto alguns batucando, andando por aí, como estes que
têm esta preferência. Muitos grupos possuem conduta elevada,
mas são muitos os oufros .que gostam de algazarra.

Muitos do bando trevoso nos viram, outros nos sentiram.


78 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

Pararam perto e esperaram, porém continuavam a batucada.
Alguns gritaram dirigindo-se a nós.
- Ei, vocês do Cristo, andem logo!
- Peguem os que são de vocês e se mandem!
- Queremos os nossos!
Voltamos a atenção e os cuidados para os feridos. O que
tinha levado três tiros, estava mal e perdia muito sangue. O
dono do bar onde aconteceu o tiroteio chamou a polícia e a
ambulância, o socorro para os feridos veio rápido e os dois
foram levados para o hospital. Cleusa, que foi médica encarnada,
acompanhou-os fazendo tudo ao seu alcance, para ajudá-los.
Os três, cujos corpos físicos estavam mortos, mostravam-se
confusos e sofriam.

- Este - disse um dos socorristas - é bom moço, trabalhador,
correto, e atiraram nele só porque conversava com este
outro, seu primo, que era traficante.
Observamos melhor os três: eram todos jovens, adolescentes.
O apontado pelo socorrista, via-se, pela sua aura, que
era boa pessoa, todavia o que notamos nos outros dois, não foi
nada agradável. A aura deles estava suja, pastosa e tinha tonalidade
escura.
- Este - disse o outro socorrista, esclarecendo nossa turma
- já assassinou três pessoas, é traficante e sádico. Tem dezessete
anos. E o outro é um viciado em drogas e costuma roubar
carros.
Estes dois debatiam-se, desencarnados, já que os corpos
mortos estavam inertes. Ficamos em sua volta e oramos. Depois,
aproximamo-nos do que era bom. Um dos socorristas lhe
falou bondosamente:
- Jairo, você está ferido, vamos ajudá-lo. Calma! Fique
tranqüilo!
O garoto acalmou-se e o processo de desligamento foi
rápido. Alberto esclareceu ao grupo:
- Logo a polícia estará aqui e levará os cadáveres. Precisamos
desligar Jairo depressa para levá-lo daqui, evitando assim
cenas desagradáveis a este jovem.

O VÔO DA GAIVOTA 79

s Jairo, espírito, adormeceu tranqüilo e logo os socorristas
experientes o desligaram, levando-o para um Posto de Auxílio,
ali perto. Seu cadáver ficou com muitos ferimentos, mas o rosto
demonstrava tranqüilidade. O socorrista que ficou, dispersou os
fluidos vitais de seus restos mortais, para evitar que fossem
sugados, vampirizados.
Quando o socorrista terminou, afastamo-nos alguns metros,
nada mais tínhamos a fazer. Agora, porém, seria a vez do
outro grupo. Ficamos observando em silêncio e a cena trágica
nos chocou.
Eles se aproximaram dos outros dois, e vimos um deles,
parecia o chefe do grupo, especialista em desligamento, ficar
bem próximo dos jovens mortos. Ele falou rindo, talvez imitando
com deboche os socorristas.

- Calma aí, Negrão! Fique tranqüilo, Tenho! tiro vocês daí!
Estão mortinhos! Ou melhor, mortões!
Alguns pararam a batucada para olhar melhor, outros continuaram.
Com rapidez, o desencarnado, demonstrando que
sabia fazer e bem feito, desligou os dois sem qualquer delicadeza,
jogando-os para os do bando, que os seguraram rindo e
fazendo piadas. Os dois estavam abobalhados, assustados e
com medo. O grupo avançou sobre os restos mortais deles, já
que o socorrista vigiava o do que fora socorrido. Como feras,
vampirizavam os fluidos vitais, sugando o que escorria pelo
chão.
Alguns encarnados rodearam o local, olhando curiosos. Foi


12 - É cena deprimente ver espíritos vampirizando encarnados. Socorro na
desencarnação depende só do merecimento. Espíritos que vagam necessitam
muito de fluidos e, como não conseguem absorvê-los naturalmente,
os roubam, vampirizando dos recém-desencarnados, como também o fazem
dos encarnados. Quando isso acontece, o desencarnado sente esvair
suas forças, suas energias psíquicas. As energias físicas voltam à natureza,
sendo sugadas as energias psíquicas ou mentais. Assim, quando os socorristas
fazem isso, eles retêm para o corpo perispiritual as energias que o
recém-desencarnado necessita, e fazem também retomar rápido as energias
que são da natureza. (N.A.E.)


PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

quando uma senhora se aproximou chorando, era a mãe de
Jairo. Nós a rodeamos, tentando confortá-la.
- Jairo estará melhor agora! - disse Albertina, nossa companheira
de grupo
Uma mulher que acompanhava a mãe de Jairo, sentiu a
expressão forte e comovida de Albertina, abraçou-a e lhe falou:
- Neuzinha, não se desespere, Jairo estará melhor agora
longe desta vida ruim!
- Estará! Falou a mãe comovida. Ele era tão bom, que só
pode estar bem.
Veio outra senhora chorando desesperada. Era a mãe de
um dos outros dois.
- Meu filho, avisei tanto que não era para se meter com
esses bandidos.
Afagamo-las, confortando. Sofriam muitíssimo.
Os desencarnados do bando continuaram até que se saciaram,
depois se afastaram alguns metros, observando, talvez
porque também fazíamos o mesmo. Lourival, da nossa turma,
querendo aprender, indagou ao socorrista que estava ali olhando,
com tranqüilidade:
- O senhor não se entristece com essas cenas?
- Certamente, mas faz dez anos que trabalho no Posto de
Serviço aqui perto e, infelizmente, estas cenas são comuns por
aqui.
- E os outros dois - quis saber Marília -, que acontecerá
com eles?
- Não foi possível socorrê-los porque insensatamente se
afinam com o outro grupo. Pelo que tenho visto, logo estarão a
farrear com o bando, ou planejando se vingar dos seus assassinos.
- E o Jairo? - perguntou Lourival. - Aceitará o socorro
oferecido?
- Acredito que sim - replicou o socorrista pacientemente.-
É um bom garoto, afeiçoa-se ao bem e gostará do nosso Posto.
Mas ele é livre, poderá sair se quiser.
A polícia chegou e começou o seu trabalho. Os do bando


O VÔO DA GAIVOTA 81

riam, ora xingando os policiais, ora um ao outro. Mas não se
aproximaram. Quando os cadáveres foram levados, o socorrista
despediu-se de nós. O bando também se afastou, fazendo
muito barulho, levando os dois amparados, que estavam quase
inconscientes e não entendendo o que acontecia.

Afastamo-nos silenciosos, vimos a desencarnação de três
jovens, de modo violento e doloroso.
Deixo claro que nem todos os que são assassinos têm a ,
mesma maneira de desencarnar. Às vezes, quando há um tiroteio
com desencarnação, o bando trevoso não comparece, nem
os socorristas. Tenho visto alguns terem uma morte violenta e o
desligamento ser compulsório, rápido, e o desencarnado ficar
perto do corpo morto, sem entender o que ocorreu. E, em outros,
o desligamento acontecer tempos depois. O socorro
depende muito do merecimento, como no caso de Jairo, ou de
muitos fatores, como o desencarnado pedir ajuda a alguém
ligado a ele, seja encarnado ou desencarnado. Claro que, depois
dos primeiros socorros, ele ficará abrigado, se quiser.

Fomos ver outro desligamento. Dirigimo-nos a um cemitério
e, lá, visitamos um velório, na sala sete, onde éramos
esperados. Fomos estudar o desligamento de uma mulher, cujo
corpo físico completava cinco horas sem as funções vitais. Estava
num caixão lacrado e sua desencarnação aconteceu em
decorrência da AIDS. Dois socorristas esperavam para começar
o processo de desligamento. Logo após nos acomodarmos, eles
se puseram a trabalhar. Havia poucos encarnados no velório e
o enterro iria acontecer logo.
- Esta mulher - explicou um dos socorristas - teve uma
vida degenerada. Mas, ao descobrir que estava doente, foi em
busca de cura num Centro Espírita. Não teve a cura do corpo,
mas a Doutrina muito fez por ela. Passou a ler livros espíritas, a
ouvir palestras e mudou sua vida, modificando-se interiormente
para melhor. Aceitou a doença e, nos últimos tempos, orava
muito para ter socorro quando desencarnasse. Por isso, aqui
estamos. Ela dorme e não está sentindo nada. Antes de seu
corpo morrer, deram-lhe medicamento para dormir, e desencarnou
adormecida.


82 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

Alguns dos alunos, já esclarecidos, foram ajudá-los e em
pouco menos de uma hora estava desligada. Dormia tranqüila.
- Pronto - disse o socorrista -, agora vamos levá-la para
um hospital no Plano Espiritual, onde se recuperará.
Na sala ao lado desta, no velório, havia muito barulho e
muitas pessoas choravam desesperadas. Aproveitando a oportunidade
de aprender, fomos lá ver o que ocorria.
De fato, vários encarnados ali presentes choravam sofrendo
muito. Velavam o corpo de um adolescente. Um dos
socorristas, que trabalhava com outros, naquele cemitério,
acompanhou-nos e nos elucidou:
- Este garoto ia fazer dezesseis anos, mas suicidou-se dando
um tiro no ouvido. Foi levado ferido para o hospital, onde
ficou seis dias em coma, acabando por desencarnar.
Ouvimos muitos comentários de encarnados.
- Dizem que foi por causa da namorada.
- Falam que se matou por ser homossexual.
E foram muitas os comentários maldosos. Não se devem
fazer observações negativas de ninguém, principalmente num
velório, pois devemos nos comportar como gostaríamos que
procedessem no nosso.
Mas o que nos levou a ficar, para observar, foi que o garoto
já estava desligado, só que perturbado, aflito e agoniado. Permanecia
perto do corpo morto, sem se afastar, mas gritando
desesperado, a querê-lo de volta, ou revivê-lo para continuar
sua vida, como encarnado.
- Que imprudência! - exclamou Genoveva emocionada.-
Quis se matar e, após fazê-lo, quer o corpo de volta.
- Certamente - esclareceu Alberto -, o garoto não pensou
nas conseqüências do seu ato. Vendo seus pais e irmãos sofrerem
tanto por ele, desesperou-se. Como também, vendo o corpo
morto e ele vivo, enche-se de medo do desconhecido, da nova
vida que agora terá.
Perto dele, tentando acalmá-lo e ajudá-lo, estava um senhor
desencarnado, seu avô. Porém o garoto não queria
afastar-se dali e não aceitava ajuda. Os encarnados choravam


O VÔO DA GAIVOTA 83

e ele chorava também. Nisso, um tio do menino entrou no
velório. Era um senhor espírita, com modos educados, que,
com frmeza, recomendou aos pais e familiares:
- Por favor, sei que a dor é grande neste momento, mas
vamos orar todos juntos. Vamos dar nossa ajuda a ele que tanto
amamos, perdoando-o por seu ato insensato, pois não nos cabe
julgá-lo, mas sim auxiliá-lo. Iniciemos, rogando ao nosso Pai-
Maior a ajuda que ele precisa, para que possa ser socorrido
pelos bons espíritos.
Quietaram-se todos e o senhor fez uma oração muito bonita,
no que foi acompanhado por todos, inclusive nós,
desencarnados. O garoto parou de chorar e tentou orar, mas
não conseguiu acompanhar as palavras do tio. Muitos tluidos o
envolveram e, por momentos, ele se equilibrou e, após a oração,
escutou claramente as palavras do tio, que lhe falou
mentalmente:
"Calma! Não se desespere! Nada acabou com a morte do
seu corpo. Somos eternos! Peça perdão! Aceite o socorro! Dura na!
Calma!"
Ele aceitou a ajuda do avô desencarnado. Refugiou-se nos
seus braços e dormiu. Só que seu sono era agitado e seu avô o
levou para o abrigo, um pequeno Pronto-Socorro Espiritual daquele
cemitério. O socorrista nos disse, explicando:
- Ele ficará em nosso abrigo até acordar. E, quando o fizer,
seu avô e um orientador falarão com ele, e a ele caberá escolher
se quer ou não o socorro. Se aceitar, será levado a um
hospital no Plano Espiritual, próprio para suicidas, se não, sofrerá
muito mais. Mesmo num hospital, demorará a se recuperar,
porque lesou o seu próprio corpo. Logo farão seu enterro e,
como vimos, a atitude do senhor espírita foi de grande valia,
demonstrando como as pessoas boas e com compreensão podem
ajudar nos velórios.
Fiquei impressionada com a expressão de terror e desespero
do garoto. Sei que é bem triste e de muito sofrimento, para
os familiares, a ocorrência do suicídio. Mas não devem se desesperar,
nem blasfemar e, sim, tentarem ajudar um ao outro,
esforçando-se todos para auxiliar o suicida. Que vejam nele um


84 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

imprudente que fez muito mal a si mesmo, e a necessitar do
perdão de todos e de muitas orações, colocando nelas o incentivo
para que ele peça perdão, que rogue socorro e que aceite a
ajuda oferecida, como também desejar-lhe paz e felicidade.
Isto vindo dos entes queridos o auxilia muito, pois os familiares
do suicida não devem pensar que ele será infeliz e que sofrerá
pela eternidade. Nada na espiritualidade se faz automaticamente,
pois cada caso é visto com carinho especial. Não se
deve matar ou tirar a vida física de quem quer que seja e,
embora, as conseqüências do erro sejam penosas para quem o
cometeu, o agressor sempre é perdoado, quando pede perdão
com sinceridade e repara a falta. O carinho dos que nos amam
significa conforto, a facilitar as coisas. E, quem pensa em se
suicidar, que não o faça, por pior que seja a dificuldade do
momento, lembrando que tudo passa, e o tempo trará as soluções.
Continuamos a existência após a morte do corpo e, para o
suicida, essa continuação não é agradável, porque ele acaba
sofrendo bastante.
O socorrista nos acompanhou para uma visita ao cemitério.
- Veja - disse Josefino -, dois desencarnados trevosos guardando
este túmulo.
- Aqui está enterrada há nove dias uma senhora - esclareceu
o socorrista. - Como ela ainda está ligada ao corpo, os
desencarnados fazem rodízio para vigiá-la. São muitos os que
querem vingar-se dela.
- Eles não poderiam desligá-la? - indagou Marília. - Pelo
que vimos, muitos desencarnados maus sabem fazer isto.
- Claro que poderiam - respondeu o socorrista. - Mas já
viram vocês como é triste o sofrimento de uma pessoa que fica,
após o desenlace, ligada ao corpo por dias? Sente a decomposição
e os vermes a devorando. É por este sofrimento que eles
não a desligam. Só vigiam para que ninguém o faça ou, se ela o
fizer por si mesma, saia e eles a percam de vista. Certamente,
quando eles sentirem que ela já está parando de sofrer no
corpo em decomposição, a levarão para o Umbral.
- Ela deve ter sido muito má para ter despertado tanto ódio


O VÔO DA GAIVOTA 85

assim - comentou Hugo -, tenho pena dela. Será que vocês
socorristas não poderiam desligá-la? Socorrê-la?

Alberto, querendo que todos entendessem bem o que acontecia,
nos convidou:
- Vamos nos aproximar para estudar e entender melhor
este fato.

Os dois desencarnados que vigiavam, não arredavam o pé
do lugar, embora se inquietassem com nossa presença. Um
deles, depois de gaguejar, esforçou-se para falar.

- Esta não é de vocês! E, depois, não estamos fazendo
nada.
- Sei - respondeu o socorrista -, viemos só para estudar.
Vimos a senhora, seu corpo se decompunha e ela, espírito
estava desesperada, revoltada e indignada. Blasfemava contra
Deus achando injusto seu sofrimento.

- É por isto, Hugo, que os socorristas não podem ajudá-la.
Vamos orar por ela - esclareceu Alberto.

Todos do grupo recolheram-se em orações. Fluidos nossos
foram até ela, porém não a atingiram devido ao seu bloqueio
negativo. Fluidos bons ou ruins não são impostos, são lançados,
e recebidos quando queremos e, ainda, podemos repelir qualquer
energia que nos seja lançada. Quando oramos, ela por
segundos pensou em Deus, mas não aceitou nossos pensamentos
e sugestões de voltar ao Bem. De forma que, pelas oraçôes,
recebem-se fluidos benéficos, mas se pensarmos negativamente,
não se conseguem recebê-los. Enquanto orávamos, os dois
vigias afastaram-se alguns metros, ficaram nos olhando e Cleusa
dirigiu-se a eles:
- Vocês dois não querem orar conosco? Não querem ajuda?
Não precisam de auxílio? Por que não a perdoam?

- Calma aí, moça! - respondeu um deles. - Perdoar por
quê? Ela nem pediu! E por que se preocupa conosco? Não queremos
nada de vocês. Não queremos orar. Ajuda? - riu. - Uma
garrafa de pinga seria de bom gosto.

Afastamo-nos e nos despedimo dos socorristas, agradecendo.
Estávamos sendo aguardados num apartamento, e para lá


86 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARIlVZECK DE CARVALHO

fomos, para estudar o desencarne de uma senhora. Alberto
explicou à turma:
- Esta senhora é muito boa, teve uma vida digna fazendo
do seu dia-a-dia um ato de amor. Ama a Deus profundamente,
ama a si mesma com muito respeito pela vida e ao próximo
como a si mesma.
Entramos no apartamento. A senhora que viemos observar
morava sozinha, estava no quarto, deitada, e lhe fazia companhia
a filha, que estava na cozinha preparando o jantar. Muitos
desencarnados bons ali permaneciam, e vieram para estar com
ela, porque a amavam. Alguns deles comentaram:
- Ao saber que minha benfeitora ia desencarnar, pedi licença
para vir ficar perto dela, para transmitir-lhe o arnor que
lhe devoto.
- Ela é tão boa! Vou vibrar com carinho para que não sinta
nada.
A senhora estava acamada e naquele dia sentia-se indisposta.
Ao pegar o copo de água para beber, um socorrista
colocou um remédio na água, que ela tomou, ficando sonolenta.
Três socorristas especializados começaram, com delicadeza,
o desligamento. Após alguns minutos, o coração físico parou, e
também a respiração. O corpo carnal morreu, o perispírito separou-se
dele, e ela sorriu meigamente. Recebeu bons fluidos
de todos os presentes e adormeceu tranqüila. Os que ali estavam
por amizade e carinho começaram a cantar canções
bonitas que escutávamos nas Colônias e Postos. O ambiente se
mostrava radiante e com vibrações de muita paz.
O trabalho dos socorristas terminou e ela foi conduzida
para uma Colônia. Alguns a acompanharam, outros permaneceram
ali.

- Vamos ficar até o enterro - disse um senhor.
A filha veio dar uma olhada na mâe e pensou que dormia,
ao vê-la quieta. Uma senhora desencarnada aproximou-se da
filha e lhe pediu para ver melhor a mãe. Ela, então, notou que a
mâe não respirava e entendeu que desencarnara. Ajoelhou-se,
começou a orar e lágrimas escorreram abundantes pela sua


O VÔO DA GAIVOTA 87

face. Após acalmar-se, sustentada pelos fluidos dos desencarnados
presentes, levantou-se e foi tomar as providências que
cabiam no momento.
Afastamo-nos comovidos e Lourival comentou:

- Que diferença! Vimos uma desencarnada, de quem muitos
queriam vingar-se. E esta senhora, com tantos a ajudar.

Alberto elucidou-nos:

- A desencarnação é a continuação real da vida que tivemos,
pois ligamo-nos através de nossos atos. Presenciamos duas
formas de viver diferentes e não precisamos saber o que fez
uma ou a outra, mas concluímos como deve ter sido a via
delas. Diretrizes para o bem-viver não nos faltam. Os ensinamentos
de Jesus estão aí para todos, e não é difícil segui-los.
Felizes os que fazem do Bem o objetivo de suas existências!
- Por que umas pessoas se apavoram tanto com a desencarnação
e outras não? - Hugo indagou.

Meditei por uns instantes, a pergunta era realmente interessante.
Respondi tentando esclarecê-lo do melhor modo
possível:
- Muitos realmente temem a desencarnação. O que normalmente
acontece com alguns encarnados é que eles vivem
as projeções, esperanças e idéias que preenchem seus pensamentos.
Outros, masoquistas, ruminam insensatamente ofensas,
dores e angústias, gostando até de se sentirem doentes para
serem alvo de atenção. Têm medo de olhar a vida como ela é,
porque, se conseguissem ver a realidade da vida, teriam que
mudar radicalmente seus pensamentos, modos e atitudes,
por que a vida não está delineada como os seus desejos e recusas.
Ela é o que é.
Vejamos um exemplo. Quase sempre, diante da desencarnação
de um ente querido, preocupamo-nos conosco, nos
primeiros instantes, quando pensamos: "Ai, meu Deus, que será
de mim agora?" Depois, diante da dureza da separação, ficamos
preocupados e vemos que deveríamos ter tido atitudes
bem mais amorosas e benfazejas com aquele ente querido que
se foi.


8g PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

Jesus nos advertiu que estivéssemos vigilantes. Recomendou
aos apóstolos: "Estejam cingidos os vossos rins."3
Isto é,
com cintos cingidos. Naquele tempo, viajavam colocando nos
cintos os pertences mais importantes da viagem. Recomendou-nos,
assim, que estivéssemos sempre prontos para a viagem,
referindo-se à desencarnação, porque a vida física não nos dá
aviso prévio sobre isso e, assim, passamos do Plano Físico para
o Espiritual muitas vezes desprevenidos. Muitos encarnados não
vivem esse ensinamento, essa verdade, daí haver tanta vaidade,
orgulho e prepotência. Porque, se todos percebessem que
nada somos por nós mesmos, e que nada temos de absolutamente
nosso, a simplicidade e humildade seriam a base de
nossas relações.
Nas grandes catástrofes do mundo físico, os homens se
ajudam mutuamente com simplicidade e fraternidade, porque
com o acontecido tudo perderam e naquele instante são iguais.
Passados os momentos dolorosos, vão aos poucos voltando as
suas ilusões e a se explorar mutuamente.
A humildade cultivada externamente representa vaidade e
pretensão. A verdadeira modéstia somente existe, quando não
agimos com egoísmo e estamos totalmente conscientes de nossa
pequenez. Se procedermos assim, veremos a realidade
daquilo que somos e o que a vida é. Isso é fundamental, para
não nos perdermos nos caminhos das pretensões e vaidades
humanas.
Aqueles que seguem os ensinamentos de Jesus esquecem-se
de si e não se apavoram com a desencarnação, encarando-a
como um prosseguimento da vida. Têm eles, como ponto fundamental,
a glória de Deus manifestada na vida e não nos seus
desejos pessoais. Agem como a lagarta que está sempre pronta
a aceitar com amor as transformações que a vida quer operar
em sua existência: de lagarta faminta, transformar-se em bela
borboleta, sustentada pela energia do néctar das flores. Mas
para isso é preciso que amemos a Deus acima de tudo, acima
de nós mesmos. Não o Deus distante e, sim, o Onipresente.

13 - Lucas, XII:3S. (N.A.E.)


O VÔO DA GAIVOTA g9

o é, E necessário pensar seriamente na desencarnação, como
nos felzon amento da vida e se quisermos ter uma continuação,
que o façamos por merecer.
Vimos muitas desencarnações e todos nós, do grupo, aprendemos
a desligar o perispírito do corpo físico. Lourival e Cleusa
se emocionaram tanto, que escolheram trabalhar, após o curso
socorrendo recém-desencarnados.
Meu amigo Antônio Carlos tem razão: aprendemos muito
quando ensinamos aos outros o que sabemos. Gostei imensamente
de participar deste curso!


uma Reunião Espírita



No dia e hora marcados para a orientação dos socorridos
do Túnel Negro, fui ao Centro Espírita e lá me encontrei com
Elisa.
- Patrícia - disse ela -, estou ansiosa e também preocupada.
Será que Walter irá aceitar a ajuda oferecida?
- Espero que sim - respondi. - Como estão eles? Como
está Walter?
- Mostram-se como os deixamos, somente alguns mais
agitados. Serão trazidos do Posto para o salão logo mais.
Construído da mesma substância do perispírito, o Posto de
Socorro está acima da construção material do Centro Espírita.
Muitos Centros têm um pequeno hospital assim, um lugar de
emergência, representando a continuação da construção material.
Quase sempre essa continuação de auxílio tem um pequeno
ou mini-hospital para os primeiros socorros e, também, locais
para moradia de alguns desencarnados que lá trabalham. São
muito úteis, mas sempre singelos e acolhedores. Quando o
Centro Espírita tem Posto de Socorro, os socorridos ficam provisoriamente
nesse lugar e são trazidos ao local da reunião
mediúnica, pouco antes de seu início. O Posto do Centro em
que estávamos é muito bonito, com quadros de lindas paisagens,
além de flores, alegrando a entrada.
Enquanto aguardava, fui rever amigos desencarnados. Após
muitos abraços e conversas, tomamos nossos lugares, porque


O VÔO DA GAIVOTA

logo começariam os trabalhos programados. Meu pai sempre
chega bem antes da hora e lá fica orando e meditando. Porém,
muitas pessoas chegam também antes, para conversar com ele
e sanar dúvidas, no que procura ele atender a todas. Os encarnados
foram chegando e me sentia bem em vê-los, pois convivi
com muitos deles e alegrava-me por tê-los como amigos. Emocionada,
escutei meu pai:

"Muito se tem dito sobre o significado das parábolas do
Mestre Nazareno. No Ocidente, quase a totalidade das pessoas
se dizem cristãs. É indiscutível ter sido Jesus o maior espírito de
que temos notícia, expoente em valores e qualidades dentre
todos os instrutores conhecidos pela nossa humanidade. E nós,
cristãos, conhecemos e deveríamos compreender os ensinos
de Jesus e ter seu exemplo como meta de vida. Vangloriamo-nos
sempre de ser seus seguidores, porém, a maioria de nossas
atitudes, nossas reações diante das relaçôes que a vida nos
impôe, não diferem muito das pessoas ditas não cristãs. Não
estaria algo errado? Admitindo-se que sim, não seriam naturalmente
os ensinamentos de Jesus mas, somente, a nossa maneira
de entendê-los ou traduzi-los em nossa forma de viver.

Criamos uma complexidade enorme em nossa estrutura
psíquica, em nosso patrimônio espiritual, e nos consideramos
repletos de créditos, de conhecimentos e posições, que apenas
existem por uma autovalorização de nossos próprios atos. Nossas
ações estão, erradamente, baseadas na reciprocidade, de
vez que não sabemos fazer nada sem esperarmos retorno ou
ganho pelos nossos atos. Não costumamos gravitar em torno do
centro da vida, que é Deus. Com exceção de poucos, o ponto
em torno do qual gravitamos é o nosso próprio ego. Nossos
pensamentos e ações têm o próprio benefício como fim. Aprendemos
a somente adorar a Deus, o que nos é muito fácil, porque
não nos exige nem esforço físico e nem gastos financeiros e,
assim, não sabemos ainda vê-Lo e amá-Lo nas suas manifestações
mais simples. Amá-Lo na sua onipresença requer
sensibilidade e visão acurada da realidade dos fatos da vida.
Temos conhecimento, através dos relatos de desencarnados,
que esse sentimento de ganho e perda nos acompanha após a


92 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

desencarnação. Instituem-se, então, nas Colônias, o bônus-hora
para que os recém-chegados, condicionados ao ganho, não se
sintam desestimulados para o trabalho. O bônus-hora é um
incentivo ao espírito ocioso, ou, em outras palavras, ao espírito
que ainda vive em função da sua própria pessoa e que ainda
não conhece o valor do bem coletivo. Recebem provisoriamente
esse tipo de ganho, para que tenham estímulos no trabalho
em seu benefício e de seu próximo, até que entendam o trabalho
desinteressado.
Amar a Deus é tê-Lo como centro da própria vida, vê-Lo,
senti-Lo, ter afeto por Ele em todas as suas manifestações. Jesus
disse: "Senhor, graças te dou por ter ocultado isto aos sábios
e prudentes e revelado aos simples e pequeninos". Sábio não é
o mesmo que erudito, o que muito conhece, que tem a qualquer
momento de cor as citações do patrimônio intelectual e
religioso da humanidade. Não condenamos o conhecimento
dos livros sacros, pois eles nos são necessários, mas reprovamos
a maneira como muitos o utilizam. O conhecimento
representa um meio para que conheçamos a experiência dos
que nos antecederam. Esses arquivos ajudam o ser humano na
evolução, mas devemos crescer pela conduta reta, pelo espírito.
E para que esses ensinos façam parte de nossa vida, é
necessário que o exemplo do Nazareno seja compreendido e
não decorado, como temos feito há quase dois mil anos. Ao
compreendê-los veremos que Jesus via e vivia, assim já não
mais faremos a Sua vontade e sim a nossa, que passa a ser
como a Dele, porque veremos como Ele o que é falso e o que é
verdadeiro.
Disse Jesus aos seus apóstolos: "Ide, ensinai, curai para
que quando os homens virem suas boas obras glorifiquem o Pai
que está nos céus". Quanta simplicidade, quanta humildade!
Praticar os maiores benefícios à humanidade e esquecer não só
do ganho pecuniário e, também, de qualquer agradecimento
ou reconhecimento do beneficiado. Fazer por amor à vida que
se manifesta no necessitado e em si mesmo, e agir de tal forma
que possamos ver em cada ser humano a imagem e a
manifestação de Deus. E não devemos incentivar o culto da


O VÔO DA GAIVOTA 93

idolatria da personalidade de José, Sebastiana, Maria, Antônio
"(14)

Um freqüentador indagou a meu pai:
- Por que tenho tantos conflitos? Como poderei eliminá-los?
- O maior drama do homem não está na pressão do meio,
nem nas dores externas. A própria morte física é passageira
- respondeu meu genitor. - O grande drama, a grande dor é o
conflito que existe entre o que somos e o que nos ensinaram
que deveríamos ser. Temos aprendido que necessitamos reprimir
os impulsos egoístas, para poder viver bem com nosso
próximo. Enquanto estivermos valorizando mais a vontade de
outros, seja quem for, o conflito permanece e não haverá mudança
radical em nosso relacionamento com a vida. Porque,
apesar de achar certo fazer o que eles querem, e disto esperar
créditos e ganhos, a realidade é que ainda permanece a vontade
de fazer o que se gosta.
Temos nosso ego quase sempre colocado como o centro
do Universo, devendo girar tudo em torno de nosso prazer e
satisfação. Essa é geralmente nossa conduta, mas a vida não
sabe e não se importa com nada disso, porque ela tem seu
próprio caminho. E aí, insatisfeitos, nos frustramos, ficamos inconformados
e, às vezes, nos revoltamos com o desenrolar dos
acontecimentos. Assim, batemos de frente com a realidade e
perdemos todo o interesse de nos importarmos com a vida. Por
isso, precisamos aprender a aceitar a vida como ela é, sem
querer que seja diferente. Mudar para melhor está em nossas
mãos, como também aceitar sem contestações o que a vida
nos proporciona, mesmo aparentemente em situações e circunstâncias
desfavoráveis, pois é nos momentos difíceis que
nos superamos, isso se não tivermos dó de nós mesmos. Precisamos
compreender que não somos somente filhos de Deus,


14 - As passagens citadas do Evangelho não estão na íntegra e nem cito
capítulo ou versículo. Escrevendo os ditos de meu pai, fiz como ele costuma
fazer, nada decorado, sim compreendido. (N.A.E.)


94 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVAI.Hn

mas muito mais, pois que fazemos parte de Sua própria manifestação.
Compreendendo isto, entenderemos a diferença
existente nos dois filhos, na parábola evangélica do Filho Pródigo.
O mais velho nunca saiu de casa, sempre fez a vontade do
Pai, mas viveu sempre insatisfeito, porque no seu íntimo não
sentia as coisas do Pai como suas. E o Pai não o sentia perto de
si, apesar de amá-lo muito. O mais novo, depois de se afastar,
de esbanjar o que lhe pertencia, conheceu a si próprio e compreendeu
que ele e o Pai eram um só. E, se eram um só
extinguiram-se aí todas as cobranças, todos os conflitos, permanecendo
somente uma única coisa, a unidade com Deus, em
todas suas manifestações.
Agora, se pretendermos amenizar os conflitos e as dificuldades
que possam nos perturbar, lembremo-nos das palavras
de nosso Mestre, diante de circunstância semelhante: "Vinde a
mim todos vós que andais cansados e sobrecarregados, que eu
vos aliviarei, pois meu jugo é suave e meu peso é leve". O
amado Mestre era viril em todas suas respostas, não no sentido
de machismo, mas de pureza, simplicidade e inocência austera.
Dificuldades sempre as teremos, porque relacionamento é
atrito de interesses. E toda cadeia de vida é um constante atrito
de funções das manifestações de Deus. E o conjunto harmônico
de todas suas funções compõe a sintonia do Universo. Particularmente,
esse atrito se traduz pelo conflito entre o que queremos
que seja e o que realmente é. Esta resposta é para aqueles que
querem mais profundamente ter a visão do que realmente somos.
Se você não compreender - falou referindo-se ao jovem
que o indagara -, fique com a primeira parte, que vai amenizar
muito sua maneira de viver seus conflitos.
Uma médium que há tempo freqüenta a casa, trabalhando
regularmente, relatou seu drama íntimo, reclamando que Deus
foi e tem sido injusto com ela.
- Minha filha - respondeu meu pai, tratando-a de forma
carinhosa -, pensarei no seu caso e verei como amenizar seu
drama.
Isso acontece em algumas situações que requerem um
estudo maior, com a procura de soluções para os inúmerosos
problemas que lhe encaminham, mas nunca deixando de


O VÔO DA GAIVOTA j5

atender a quem quer que seja. Quase sempre responde de
imediato, mas, nesse caso, ele teria que meditar para achar a
melhor maneira de ajudá-la.
A reunião começou e transcorreu tranqüilamente, conforme
narrarei no capítulo seguinte. Tempos depois me encontrei
com Elisa que, curiosa, me indagou sobre esse fato:
- Patrícia, qual foi o conceito do Sr. José Carlos sobre Deus
ser justo ou injusto? Tenho certeza que ele resolveu a questão
junto à médium, mas gostaria de saber a opinião dele sobre tão
delicada questão: Justiça ou Injustiça Divina.
- Elisa, não posso responder por ele. Hoje, papai está em
viagem de negócios e, pelo que sei, o assunto somente poderá
ser resolvido à tarde. Neste momento, está almoçando. Vamos
até ele!
Elisa me acompanhou, contente e, em instantes, estávamos
ao seu lado. Papai acabara de almoçar e, não tendo nada
para fazer sicamente, entrou no seu costumeiro fluxo de pensamento.
Isto acontece normalmente quando está só e sem
obrigações físicas. Então carinhosamente lhe perguntei:
- Papai, Deus é justo para uns e injusto para outros?
Como sempre faz, comparou um relacionamento físico entre
as pessoas e o assunto questionado, simbolizando como
deveria ser o relacionamento entre Deus e nós, e nós e Deus.
Pedi a ele novamente que gravasse seus pensamentos e
ele o fez em guardanapos de papel. Agora que escrevemos este
trecho, pedi à médium, Tia Vera, que solicitasse a ele esses
guardanapos. Gentilmente nos cedeu, e os transcrevo na íntegra.
Aí está sua resposta:
"Normalmente, quando tudo dá certo conosco, achamos
que é merecimento e que Deus nos faz justiça. Quando nos são
negados nossos anseios de preechimento mental e satisfação
física, ou seja, quando não está acontecendo o que queremos,
sentimo-nos injustiçados, principalmente ao nos compararmos
com outras pessoas. Por que ele tem e eu não? Achamos que
Deus não está fazendo justiça conosco e que estamos sendo
punidos. É que trazemos cargas negativas do passado, que ocasionam
frustrações no momento, existindo também atos desta


96 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

encarnação que podem ser o motivo de muitas decepções
Normalmente, não enxergamos a realidade da vida e sim
a projeção das nossas ilusões, por considerarmos a vida física
como fim e não como meio.
Muitas vezes, o justo ou o injusto baseia-se, de acordo coom
nossa compreensão, no que damos e no que achamos que
devemos receber em troca.
Sentimo-nos injustiçados, porque quase sempre temos
como meta nossa distração e o preenchimento da vida com
prazer. Transformamos as funções e necessidades do corpo físico
e a capacidade de pensar como fim da nossa existência. Não
chegamos a olhar a vida como um todo e a desempenhar eficientemente
nossa parte neste conjunto. Já imaginaram se o
coração se sentisse injustiçado por não ter folga e nem descanso
físico? Que seria do homem? Diante desse exemplo,
aprendemos que cada um deve fazer o que lhe compete, sem
esperar recompensas, e sempre consciente de que deve utilizar
o potencial nobre que a vida lhe concedeu. Apesar de insignificantes
diante do cosmo, fazemos parte dele. Portanto, precisamos
desempenhar nossa função como parte da vida e não viver
para os nossos prazeres e conquistas, materiais ou espirituais.
Deus não cria os seres, para puni-los ou premiá-los. Cada
qual tem sua função e utilidade, assim como o grão de areia
tem sua função no deserto ou na praia.Punir uma manifestação,
seria reconhecer Sua própria falha.
Ao comprarmos uma máquina nova, o fabricante nos dá
garantia da mesma, e qualquer falha no seu funcionamento
não significa a intenção do fabricante em nos punir, pois a
garantia dela fará com que ele lhe restaure as funções. E, no
caso, ele é o maior prejudicado, porque, além dos gastos de
reposição, teria seu nome comercial prejudicado e posta em
dúvida sua idoneidade. Não somos uma máquina, é certo, e a
falha nunca está em Deus, e sim em nossa maneira de nos
relacionarmos com suas Leis, com a vida. Na maioria das vezes,
nossos ânimos e desejos não encontram ressonância nos
planos traçados pela vida, por causa de nossas existências anteriores.
Às vezes o que desejamos não é o que podemos ter.
Quase sempre nossos desejos são saturados de egoísmo. Os da


O VÔO DA GAIVOTA 97

vida são saturados de grandeza, de amor e de realização plena
do homem.
Na Terra, cada variedade de raça recebe, com maior ou
menor intensidade, o que necessita para desempenhar e enobrecer
a espécie a que pertence. O grupo humano não foge à
regra geral e natural, somente foi acrescentada em nós a faculdade
da liberdade de escolha, para cumprirmos a tarefa para a
qual fomos chamados. Se nos harmonizamos com as Leis Divinas,
nos sentiremos felizes a caminho do progresso, enquanto
que, se as desprezamos, criamos um ambiente vibratório individual
de desarmonia, que poderá atingir aqueles que nos
cercam, e terá ressonância de vibrações inferiores. Será que
Deus criou a Terra, com todo seu aparato animal e vegetal,
somente para o desfrute do homem? O ser humano foi criado
para usufruir de tudo à custa dos que caminham com ele? Não!
Pelos seus atos de abuso, cuja conseqüência não compreende,
presume que Deus lhe está sendo injusto.
Temos quase sempre, em nossas existências, buscado o
significado da vida, tentando adivinhar por que razão Deus criou
o homem. Talvez façamos isso, por darmos importância demais
em pensar o que somos, ou pelos sentimentos que nos
transmitiram, de tão importante questão. Deus é profundamente
simples. Para que possamos ouvi-Lo e senti-Lo, é preciso
antes de tudo ser simples como Ele. Um exemplo da simplicidade
de Deus é sua onipresença tanto em nosso Cristo, quanto
num verme desprezado por todos. Devemos nos despojar do
cultivo da autovalorização: vaidade, orgulho e presunção, para
nos tornarmos melhores. Se não assumirmos nossa participação
no conjunto do orbe terráqueo, nos sentiremos excluídos de
obrigações e responsabilidades. E aí, o que acontece com os
habitantes da Terra? A conseqüência é esta que estamos vendo:
destruição e devastação do que a natureza levou milhões de
anos para realizar. Não nos sentindo parte do Universo, parece
que estamos no mundo somente para usar e desfrutar as coisas,
não tendo nada a responder, sem responsabilidades com o que
acontece com tudo e com todos, alheios aos que sofrem dores e
misérias.
Não podemos compreender Aquele do qual estamos separados


98 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARIIVZECK DE CARVALHO

e, enquanto assim estivermos, não faremos parte do todo,.
Ao contrário, se participarmos do todo, seremos um só. Náo
haverá nem o maior, nem o menor, porque nosso pequenino eu
se perderá, diante da grandeza e importância do Universo.
Que restará, então, para nós e para nossa espécie? Viver e
neste viver, conhecer e compreender nossas funções e as dos
que nos cercam, compondo assim um todo harmônico. Aquilo
que os irracionais fazem instintivamente, o homem deverá fazer
consciente e espontaneamente. Os irracionais não têm
escolha, o homem pode escolher. Pode recusar ou participar do
Banquete Divino, que é a própria vida, refletindo assim a simplicidade
e o equilíbrio do macro, refletido no micro. Não
teremos, então, nenhuma pretensão, por situações anteriores
posteriores, ou do momento presente, pois elas são produtos do
egoísmo oriundo da mente temporal. E Deus é atemporal.
Deus é, também, profundamente justo. Não há desvios
nem preferências em suas leis. Recebemos de acordo com o
que fazemos, sendo que nossas vibrações são resultados de
nosso estado interior, e que nos proporcionarão ligações com
vibrações harmoniosas ou perturbadas, a causar dor e angústia,
ou a felicidade. Conhecendo a Lei da Reencarnação, entenderemos
melhor a Justiça Divina. Compreendendo Deus, veremos
que tudo que Ele faz é justo, pois nada deve a ninguém. Tudo o
que recebemos é graça e de graça, nada temos feito para ter
crédito com Deus. E, por mais que façamos, procede d'Ele o
potencial da vida, a capacidade e a oportunidade de agir Se
vivermos esta verdade, nunca se abrigará em nossa mente a
questão de Deus ser justo ou injusto.
"Meu pai é meu mestre. Alegro-me muito aprendendo com
o que ele diz.


Recuperação dos Socorridos



Após a oração, começou o trabalho de desobsessão. Para
nós, desencarnados, os trabalhos começaram bem antes, pois
tudo é muito bem organizado. Elabora-se a lista dos desencarnados
que vão ser orientados, para que eles sejam trazidos do
Posto para o salão onde é feita a reunião. Eles ficam alguns
metros acima dos encarnados, sendo que o forro e o telhado da
construção material desaparecem para eles. Os desencarnados
trabalhadores e eu vemos as barreiras materiais, como se fossem
um desenho que não atrapalha em nada. Com a previsão
de quantos médiuns virão, é feita a programação para que o
trabalho tenha o melhor proveito possível. Muitos dos que vão
receber a orientação, atraves da incorporação, ao verem o trabalho
dedicado dos trabalhadores, ao escutarem as conversas
edificantes e a leitura do Evangelho com sua explicação, já se
sentem inclinados a mudar, e vários deles nem precisam mais
da incorporação.
No sentido espiritual, para a alma em evolução, a vida
material constitui ambiente hostil. Justificamos, quase sempre,
nossas falhas, com a desculpa de que a maioria age da mesma
forma, e alegamos que não somos santos e, assim, não se pode
exigir de nós uma maneira de agir mais elevada. Dessa forma,
criamos uma distância entre o que fazemos e o que deveríamos
ter feito. É como o aluno que freqüenta a escola e não se aplica
no exercício do aprendizado e, no final do ano, ao fazer as
provas, vê-se reprovado. Quando um desencarnado se depara,


100 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

frente a frente, com um encarnado de atitudes dignas, sem a
aura de santo, sente o estímulo de imediato. A presença de
alguém elevado dispensa comentários. Palavras ensinam, exemplos
arrastam.
Mas a maioria dos socorridos necessitava de incorporação,
como era o caso de Walter e de seus companheiros que, agitados,
mostravam sentir falta da sensação das drogas e não
conseguiam entender o que realmente estava acontecendo.
Foram todos conduzidos à incorporação. Narrarei a incorporação
de Walter, por ter sido muito importante para mim e Elisa.
Walter foi colocado perto da médium que lhe serviria de
intérprete. Na simbiose da incorporação, há uma permuta entre
os dois, desencarnado e encarnado. O médium sente os
dramas do desencarnado e este absorve parte do equilíbrio do
médium. Isto já fez Walter retornar um pouco à realidade. Mas
não conseguiu falar direito, só balbuciou algumas palavras:
"Natan... cocaína... preciso... socorro...
"
Nos dois dias que Walter ficou no Posto, meu pai e a equipe
dos desencarnados, principalmente os médicos interessados
no socorro dos espíritos, presos no vício, estudavam o melhor
modo de orientar os irmãos imprudentes e infelizes. Iriam testar
uma nova forma de ajudá-los, e todos os trabalhadores do
Centro estavam esperançosos, aguardando resultados positivos.
Meu pai foi falando a ele, enquanto os desencarnados reforçavam
o que lhe era dito. Acalmaram-no. Walter foi induzido a
voltar no tempo, modificando seu perispírito. Sabemos bem que
isto é possível. Os encarnados têm notícias desse processo, através
de muitos livros. O perispírito é modificável e há muitos que
sabem fazê-lo. Vimos, no livro Libertação, de André Luiz, psicografia
de Francisco Cândido Xavier, um desencarnado das trevas
modificar o perispírito de muitos, na sua cidade umbralina. Existem,
pelo Umbral, desencarnados com aparência monstruosa e
muitos, com aparência modificada por eles mesmos, para
melhor assustar os outros. Sabemos também de muitos desencarnados
que dão nova forma a seus perispíritos, para ficarem
com a aparência de outros espíritos, para enganar e mistificar. Todavia,
conhece-se a árvore pelos frutos. Conhece-se o


O VÔO DA GAIVOTA 101

encarnado por seus fluidos, os quais eles nunca conseguirão
modificar. Nos estágios elevados do Plano Espiritual também se
modifica o perispírito, seja a aparência dos bons, com a finalidade
de ajudar, ou a de outros que, no momento, não têm por si mesmo
como mudar. Recuperam inúmeros socorridos, cujas
aparências se transformaram em figuras monstruosas, animalescas
e deformadas, para os deixar com aspecto normal. Também
podem rejuvenescer, ou tomar a aparência de antigas encarnações.
Os desencarnados bons só usam esse processo com alguma
utilidade. Mas, basta saber, para mudar de aparência em qualquer
lugar e por motivos os mais diversos; se são bons, para
ajudar; se, maus e brincalhões, para enganar, confundir e assustar.
Porém continuam a ser os mesmos, em relação à elevação
normal, só mudam a forma.
Com Walter foi usado esse processo. Fez-se uma regressão
de memória, até que ficasse com a aparência da idade de
meses antes de começar a se drogar. Forçando mais um pouquinho,
conseguiram, com êxito, fazê-lo se sentir mentalmente
como estava na aparência. Tornou-se, então, um garoto de catorze
anos, gorducho, rosado de olhar esperto. Com o semblante
de quando era jovem, não foi difícil fazer com que assumisse
sua vida daquela época, mesmo porque no seu inconsciente
havia um desejo enorme de fugir de sua atual situação. Consolidado
seu equilíbrio, assumida estava a situação. O doutrinador
tem que adquirir, nessas horas, a confiança e a amizade do
socorrido. Através do carinho e da compreensão, convidaram-no
para ver a vida de um amigo seu que muito errou e que
precisava de auxílio - neste caso, a vida dele mesmo. Então
mostrando sua auto-escravização no vício e seu consinte
sofrimento. Quase sempre, ao ter alguém as primeiras
de seu passado, já drogado, há também recusa instintiva
ver aquelas atitudes, como também a recusa de admitir
fora ele próprio a viver determinadas passagens. O doutrinador
deve, então, insistir para que se concentre no personagem
 assistência. Em poucos instantes, ele se reconheceu e começou
a se desesperar, tentando assumir novamente seu estado
de drogado. Nesse momento é preciso muito esforço


102 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

dos trabalhadores desencarnados, para lhe manter o equilíbrio.
O doutrinador deve ter autoridade direta sobre ele, mantendo-o
no estado em que foi levado, pela regressão, isto é, permanecer
com a aparência física e mental de antes de se drogar. Deve
agir com muita autoridade, afeto e carinho, insistindo na sua
recuperação. Com Walter que já havia sentido a harmonia do
estado anterior, antes de se drogar, encontrou base para não se
desesperar e assumir de novo o equilíbrio, já na sua personalidade
atual. Não se deve esquecer também que, durante todo o
socorro, nesse processo o equilíbrio do médium é fundamental
pois naqueles momentos os dois agem como um só. Também o
médium deve estar em sintonia com o doutrinador, respeitando-o
e confiando na sua capacidade de dirigir os trabalhos.
Walter se analisou e meu pai, como orientador encarnado orientou-o,
até que ele passou a entender
a situação:
perfeitamente sua
- Meu filho, você está numa reunião de Amor e Caridade.
Aqui tentamos ajudá-lo, para que seja livre. Estamos a lembrá-lo
do que aconteceu, dos fatos vividos por você. Você é um
garoto sadio que foi experimentar drogas e a elas ficou preso.
Recorde! Uma dose, a segunda, mais outra e veja como ficou.
Desencarnado, você continuou, em espírito, ligado às drogas
porque a morte não nos liberta de nossos vícios.
Walter ficou assustado. Lembrou-se de tudo e lágrimas escorreram
abundantes de seus olhos.
- Perdão, meu Deus! Perdão! - falou emocionado.
- Tenho
horror em ver como fiquei! Não quero ser um trapo humano!
quero ficar assim, sadio e com raciocínio. Nunca mais me
viciarei!
- Então aceita nosso auxílio? - indagou meu pai.
- Peço-o em nome de Deus! - falou Walter chorando.
- Será acolhido e orientado!
Walter foi tirado de perto da médium, quando Elisa pegou
na sua mão e lhe disse com carinho:
- Walter, meu filho! Meu anjo!
- Mãe - disse ele. - Minha mãe!


O VÔO DA GAIVOTA 103

Olhou para Elisa e não a reconheceu, mas sentiu que ela
era, ou melhor, fora sua mãe. Elisa fora sua genitora em encarnação
anterior.
- Sim, sou eu, sua mãe Gertrudes - disse Elisa (nome que
sua mãe adotara no plano espiritual).

Walter, cansado pelas emoções, adormeceu nos braços de
Elisa que se pôs a chorar baixinho, com emoção e gratidão.
Finalmente a mãe recuperara seu ente querido.

O processo utilizado tem êxito, em recuperação de desencarnados
viciados, pois tomando a forma perispiritual de antes
de se viciar, adquire-se mais força para dominar a situação.
Alguns, nesses processos, não recordam o período de viciado,
mas é bom que o façam para que saibam e entendam o tanto
que sofreram. Todos os socorridos do Túnel Negro pediram
ajuda e foram acolhidos, por isso o tratamento continuaria,
sendo eles encaminhados a hospitais próprios, onde a ajuda
psicológica seria a mais importante, juntamente com a Evangelização.
Em algumas doutrinações, como a de Walter, pode acontecer
de o socorrido ver tudo o que se passou com ele e não
querer a ajuda oferecida, preferindo continuar no vício. A escolha
é do socorrido, pois todos nós temos o livre-arbítrio a ser
respeitado. Nesses casos, o doutrinador ainda deve argumentar
tentando ajudar na recuperação. Se houver ainda recusa, deve-se
deixar que se comporte como escolheu e ser retirado do
local do Centro Espírita. Sem sustento de bons fluidos, é costume
voltar logo ao estado deplorável de drogado. Será, entretanto,
em outra ocasião, socorrido novamente e, quando estiver cansado
das drogas, aceitará a ajuda.

Também o doutrinador deve ficar atento para não deixar o
socorrido ter remorsos destrutivos, incentivando-o a ter esperanças
de vida no futuro e reparar seus erros através do trabalho
útil e no Bem.
Uma convidada, desencarnada, que assistia à reunião indagou
a Maurício, que estava ao meu lado:

- aurício o drogado é responsável por todos seus atos
errados? Como, por exemplo, aquele rapaz que, ao discutir

104 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

com sua mãe, a empurrou com força, levando-a a cair e bater
com a cabeça e desencarnar. Agindo assim sob o efeito da
droga, ele é culpado?
- A intenção, em um ato errado, é pior às vezes que o
próprio ato - respondeu o interpelado. - Ele não teve a intenção,
não queria a morte física da mâe, mas foi a causa da sua
desencarnação, daí a sua culpa. É muito difícil um drogado náo
saber que age erradamente e que poderá provocar, por isso,
acontecimentos trágicos em sua vida. Em todos nossos atos, o
que importa é a intenção e, assim, notamos que aquele jovem
tinha na mente este propósito, que lhe trazia muitos sofrimentos.
Vimos também que a recuperação total dos viciados que
não praticaram outras faltas, é mais fácil, o mesmo não acontecendo
com alguns que, além do vício, cometem outros erros.
Deve o encarnado pensar bem nisso, antes de seguir o
caminho das drogas. Nas conseqüências tristes que advirão,
como aconteceu a este rapaz que, mesmo amando a mãe, foi a
causa de sua desencarnação.
A reunião terminou após a oração, quando os orientadores
espirituais energizaram beneficamente todo o ambiente e, também,
as pessoas presentes.
Os encarnados conversavam trocando idéias, e os mentores
espirituais estavam contentes com o êxito da experiência.
Todos os socorridos do Túnel Negro passavam relativamente
bem. Elisa levaria Walter para a Colônia Perseverança, onde
trabalhava, pois, desde que soube ser ele viciado em tóxicos,
pediu para trabalhar naquele setor do hospital, onde os internos
se recuperavam das drogas. Agora iria também cuidar dele.
Despediu-se de nós emocionada e chegando perto do meu pai,
agradeceu; ele sentiu uma vibração diferente, carinhosa, que
só os gratos conseguem emitir, e sorriu em resposta.
Dois trabalhadores desencarnados do Centro Espírita ajudaram
Elisa a transportar Walter, ainda adormecido, para a
Colônia. Terminados os trabalhos todos foram embora, e os
espíritos socorridos conduzidos para novas acomodações. Após
as despedidas, voltou a rotina no Centro Espírita, até a próxima
reunião.


O VÔO DA GAIVOTA

Também retornei à Colônia e aos meus afazeres. Porém
surpreendi-me com as notícias. Natan já havia descoberto quem
entrara nos seus domínios e, raivoso, queria acertar contas.
Acompanhei os acontecimentos.

Natan


Sempre que possível, ia às reuniões no Centro Espírita,
para me inteirar dos acontecimentos. Quando não podia, Artur,
um dos orientadores do Centro, amigo de muitas encarnações
de meu pai, me colocava a par da situação.
No Umbral, os chefes sabem de tudo o que lá acontece,
com relativa facilidade. Natan, ao voltar ao Túnel Negro naquela
noite em que lá estivemos, cientificou-se de tudo. Disseram-lhe
que vários espíritos, comandados por um ainda encarnado, entraram
em sua fortaleza, levando com eles os que quiseram ir.
Nada danificamos com nossa excursão ao Túnel Negro, só
tiramos alguns sofredores de lá. Porém, como Elisa previu, Natan
logo soube o nome do encarnado, onde ele morava, seus
familiares e o Centro Espírita que freqüentava. Dois de seus
servidores, espíritos ligados a ele no trabalho no Túnel, foram
observar meu pai e o Centro Espírita.
Na reunião seguinte, foram os dois servidores ao Centro
Espírita levar um recado de Natan. Entraram como convidados,
sem se despojarem de suas armas e aguardaram o início da
reunião em silêncio. Um dos orientadores da casa lhes explicou
como deveriam proceder. Como queriam falar pela incorporação,
tiveram que aguardar na fila, e só seria permitida a
comunicação deles no momento previsto. Um deles ao observar
o ambiente, curioso, conteve-se para não chorar, ao ouvir a
explicação do Evangelho e as orações e, quando foi chamado
para se incorporar, pediu ao companheiro que o fizesse. O


O VÔO DA GAIVOTA 107


quieto e o tempo
no Centro, estava ar que era
desde que entraraforçando-se para dem E erto do
e a baixa onstr

ordens recebidas de Natan , P
cado, seguindo as ondeu ao cumprim

ara a in
corporação, resp a. Depois, a e'ist do e
ss
dium, p ipida a pala o que veio como
i-noite, quando lhe f áe Natan falou
ara '
uenciado pela mente ' do Tú el Negro estivesse ali.
róprio, como se o chefe que fizeram nos
fosse o p n não gostou da invasão os reparação.
- Meu chefe Natan violação e exigi
os uma tender um pedido
us domínios. Sofrem ão foi para a o sei por
mos também que essa inv lle ela estava junto


s ua filha desencarnada, e gtáveis, já que foram lá só para
a
por impre
ue se interessam
sgatá-los· anos de imp  - meu

- Por que chama os toxicôm restáveis.
iai inda ou.
- Nem racioci-
 - respondeu ele rindo.
- São outra coisa.
para experiências. Drogados são encarnam
mais! Só servem quando se quer vingar de algu
inúteis. Não é à toa que, q ele tiver tendência, perde-se
nado, incentiva-se-o ao  mpletamente escravo da droga e
nos tóxicos, tornando s · Viciados são fantoches, farrapos
presa fácil de seus vingadores m terem levado de lá os impres-
Natan não achou rui
humanos m entrado lá sem permissão.
táveis. Irritou-se por tere permissâo, ele consentiria? - indagou
- Se eu tivesse pedido
meu pai d ria os imprestáveis - respondeu

- Entrar lá não! Mas lhe a
le rindo cinicamente. istiu meu pai, que
com
e  - ins
- Daria mesmo. conversava
orientador encarnado da casa.
ele como - não todos ou nem tantos,
talvez
- Ora - respondeu ele  me atormentar mais ainda os
lhe liberasse alguns. É nosso costu
que são do interesse dos bons.

Fez uma pausa. infelizmente, é o que
o desencarnado falou, ue costu-
não é regra geral.
Sendo assim, ao notar
ma acontecer, porém, do interesse dos socor-
seus domínios é



107 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

presumindo que, desse modo, vingam-se dos interessados. Por
isso, sempre se faz com cautela a demonstração desse interesse.
Logo após a pausa, em que ele observou bem o local,
continuou a falar calmamente.
- Deixemos de conversas! Natan exige a devolução de
todos e desculpas com pompas. Quer a reparação! Você com
seus comparsas devem ir ao Umbral em horário marcado e,
na frente dos convidados dele, se desculparem.
- Volte e diga a Natan que não quisemos afrontá-lo
. Mas,
por circunstâncias articulares e justas, tivemos que ir lá. Não
devolveremos nenhum dos que nos pediram abrigo e infelizmente
não faremos o que ele quer.
Todos nós presentes, tanto os encarnados
quanto os desencarnados, sabíamos que Natan através de uma
ligação com o seu enviado, estava vendo e ouvindo o
que ocorria na reunião.
Mas, como ele mandou recado recebeu resposta
para que o portador a levasse até ele. O desencarnado irritou-se
com o que ouviu, porém controlou-se e respondeu:
- Quero deixar claro que ninguém estava lá obrigado. Se
existiam alguns presos foi por não cumprirem obrigações. Vocês
estão arrumando confusão. Vou embora e darei o recado.
Afastou-se da médium. O desencarnado falava a verdade
ois nos domínios do Túnel Negro ninguém permanecia obrigado.
Os viciados iam lá à procura da droga e submetiam-se aos
piores vexames e situações humilhantes para conseguir o sustento
para seus vícios.
O outro que viera junto e que observava tudo
chegou perto e
companheiro falava, c , n uanto o
Centro e pediu:
o de um dos trabalhadores do
- Será que vocês não me abrigariam? Gostei daqui, quero
ficar.
- Certamente que sim.
Ao se afastar da médium, o enviado de Natan
pelo amigo e o viu na fila dos que iam p Procurou
socorridos. Olhou p ara a Colônia, como
para ele e não falou nada. Saiu do Centro
Espírita e foi cumprir a tarefa que lhe impusera o chefe.
Como previsto, Natan não gostou da resposta e, no dia

O VÔO DA GAIVOTA 109

seguinte, preparou bem seus servidores, armou-os e ordenou
que fossem ao Centro Espírita e o invadissem. Deu instrução
para expulsarem todos que lá se encontrassem e quebrarem
tudo, mas não foi junto, ficou no Túnel Negro.

Artur, prevendo o ataque, organizou a defesa do Posto e do
Centro Espírita, para que todos os aguardassem tn áqalm perto,
taram realmente invadir, mas, quando se enco

Artur e os companheiros foram ao encontro deles, dominando-os
pela força mental, imobilizando-os. Levaram-nos, em seguida,
para o pátio, já desarmados, e depois os encaminharam para o
Posto, acomodando-os numa sala própria. Tudo normalizado,
Artur conversou com eles, durante horas. Perguntavam sobre
tudo e Artur os esclarecia. Viram a Colônia, pela tela, e lhes foi
oferecido socorro médico e abrigo. Após, Artur abriu a porta da
sala e disse:
- Podem sair os que quiserem, só que irão sem as armas.
Os que desejam ficar conosco serão bem-vindos.

Muitos se mostravam indecisos. Se voltassem, seria como
fracassados, não tendo cumprido a tarefa que lhes fora confiada.
Temiam o chefe, mas gostavam da vida que levavam, e não
queriam mudar. Foram poucos os que gostaram do que lhes foi
oferecido por Artur, em nome de todos os trabalhadores do
Centro. Muitos dos desencarnados que vagam pelo Umbral, não
têm idéia de outra forma de vida na espiritualidade e, ao conhecer,
geralmente aceitam, querem a mudança. Outros,
indiferentes, preferem mesmo é continuar como estão. Do grupo
de Natan, alguns ficaram na sala, mas a maioria saiu. Muitos
se dirigiram para o Umbral, onde iriam vagar sem rumo, pois
não tinham disposição de voltar ao Túnel Negro, de vez que
temiam Natan. Outros, mais corajosos, voltaram, e ficamos
sabendo depois que não foram castigados. Os que permaneceram
e aceitaram socorro, foram encaminhados para a Colônia,
para a Escola de Regeneração. As armas deles, feitas do mesmo
material que constitui nosso perispírito, foram destruídas.

Natan mandou dois de seus servidores, os de sua confiança
para ficarem perto de meu pai e eles trouxeram outros dois

que foram induzidos a pensar que
desencarnados, viciados


110 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

meu pai ia lhes dar drogas. Desencarnados nesse estado têm
fluidos pesados e angustiantes. Por isso, Artur levou os dois
viciados para o Posto do Centro, onde receberam os primeiros
socorros, sendo depois orientados em reunião, da mesma forma
que Walter, e obtiveram o mesmo êxito. Artur fez um
esquema especial de proteção aos médiuns e freqüentadores
do Centro, para que não fossem atingidos pelas vibrações dos
seguidores de Natan, como também para as pessoas que sempre
estão com meu pai, inclusive os familiares. Os outros dois,
os servidores de Natan, meu genitor convidou-os para ficarem
com ele. Seguiram-no de perto, por dias.
Natan, vendo seus dois melhores auxiliares em perigo,
chamou-os de volta. O perigo, para ele, era o de se converterem.
Meu pai ora, medita, lê e faz com que os desencarnados
que estão junto dele, escutem. Trata-os com bondade, porém
com firmeza e não aceita suas interferências. Apesar de cansá-lo
muito essa conduta, ele sabe que tem de estar vigilante vinte
e quatro horas por dia. E esse tipo de pressão o tem feito crescer,
porque o "orar e vigiar" o coloca constantemente em vibração
maior, que atinge os desencarnados de forma diferente, levando-os
a refletirem e a pensarem em Deus.
Natan veio encontrar-se com meu pai. Esperou-o à noite,
perto do Centro Espírita, e disse a um dos guardas que queria
falar-lhe. Meu pai foi ao seu encontro.
- Você é um feiticeiro terrível! - disse Natan. - Não quero
que nenhum dos meus companheiros sofra sua influência. Exijo
uma reparação sua e tudo ficará por isto mesmo, mas que vá
ao Túnel Negro e me peça desculpas. Abro mão do resto.
A palavra "feiticeiro" foi empregada por ele, para definir
aquele que tem força mental e que a usa tanto para o bem
como para o mal. E o tom de desprezo seria para ofender.
Desencarnados que, temporariamente estão seguindo o mal,

15 - Anteriormente, o Sr. José Carlos havia convidado dois espíritos para
ficarem ao seu lado e agora convidou Natan. Para fazer isto, é necessário
ter muitos conhecimentos e moral elevada. Alerto os encarnados, para não
agirem assim, sem o preparo devido. (N.A.E.)


O VÔO DA GAIVOTA 111


gostam de chamar meu pai assim, como também de indiano,
porque ele, em muitas encarnações, teve a Índia como berço.
- Você tem me observado - respondeu meu pai -, deve
saber que sempre que erro, peço perdão de coração. Nunca
peço por orgulho, pois levo muito a sério o ato de me desculpar.
Quando o faço, é porque entendi que errei e procuro não mais
incidir nessa falta, para não ter que me desculpar pela segunda
vez pelo mesmo ato. Isto porque, reconhecendo meu erro, me
esforço para melhorar. Não me arrependi por ter ido ao Túnel
Negro e libertado não só o desencarnado, que foi o motivo de
socorro, mas todos os que quiseram nosso auxílio. Faria de
novo, por isso, em respeito a você, não posso me desculpar.
Para nos reconciliarmos com alguém, mesmo não sendo
culpado, não nos custa pedir desculpas. Meu pai com sua atitude
estava querendo ajudar Natan. Tentava fazer que esse espírito
se voltasse para Deus.
- Atormentarei você! - exclamou ele.
- É um direito seu - respondeu meu pai. - Convido-o a ficar
comigo.'5 Só que eu também tenho direitos. Você tentará me
atormentar, atingir-me, eu me esforçarei para não receber sua
influência negativa, como também tentarei transmitir-lhe as
minhas sugestões. Terá que me escutar! Será só entre nós dois.
O mais forte irá influenciar o outro. E o mais forte será aquele
que tiver a vida, os pensamentos e as atitudes baseados na
verdade. E a verdade nunca será produto de nosso desejo, esperança
ou ambição, mas, sim, sempre a mesma, infinitamente,
no tempo e no espaço.
- Não sou de fugir de desafio. Vou agora ao Túnel Negro
tomar algumas providências e voltarei. Aguarde-me!
- Não o estou desafiando. Será um prazer conviver com
você! Vamos aprender muito um com o outro.
Natan afastou-se, já havia perdido muitos dos seus seguidores
e achou que só ele estaria apto a dar uma lição merecida
naquele que, em sua opinião, o desafiara. Estava com raiva de
todos do grupo, e com os desencarnados, sabia por antecipação
que não podia com eles. Com meu pai era, porém, diferente,
ele estava na came, sujeito a muitos condicionamentos e me

112 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

lindres devido às necessidades e funções do corpo, sendo assim
mais fácil de atingir e prejudicar. Entendia que, atingindo um
encarnado, atingiria todo o grupo. Organizou, então, o Túnel
Negro para que continuasse a funcionar sem ele e, assim, no
outro dia, foi ao encontro de meu pai e começou a acompanhá-
lo de perto. Meu genitor continuou com sua vida normal, de
trabalhador no plano físico e espiritual. Natan não ficou, de
imediato, como obsessor de meu pai, mas sim curioso, e com
raiva daquele momento, quis conhecer como era o dia-a-dia de
uma pessoa tão diferente das com que convivera.
Natan pressionava meu pai. Forçava-o a pensar em coisas
mundanas, para que baixasse a vibração. Meu pai, por outro
lado, meditava em coisas superiores e Natan era forçado naturalmente
a sentir as mesmas coisas. Percebia as sugestões e
desejos terrenos. Porém, mostrava mentalmente a Natan a estupidez
e a mediocridade daqueles que usam as necessidades
e funções do mundo físico, como propósito de vida. À noite,
meu pai desligado do corpo físico se dirigia para o trabalho
espiritual e Natan ia junto. Encaminhava-se ao Posto do Centro
para cuidar dos doentes, conversava com os socorridos, e ele
ao seu lado. E foi assim, por muito tempo, até que Natan começou
a se interessar pelo trabalho realizado no Posto, e começou
a falar de si, e meu pai atenciosamente o escutou.
Natan foi médico, quando encarnado. Ambicionando enriquecer,
usou a medicina somente como profissão para ganhar
dinheiro. É preciso lembrar que o trabalhador faz jus ao seu
salário, mas nenhum profissional deve só visar o lucro, mas sim
fazer também, através de seu trabalho, todo o bem possível.
Médicos lidam com dores e por isso devem, também, ser humanitários.
Trabalharem pelo sustento material, sim, mas sem
se esquecerem de fazer aos outros o que queiram que lhes
façam. Natan fez muitos abortos e receitou remédios proibidos,
desde que lhe pagassem. Mas a desencarnação chegou e se viu
diante de muitos inimigos que queriam vingança. A situação o
apavorou demais, primeiro porque era ateu, segundo, porque
aquele bando o atormentava sem poder destruí-lo. Vingavam-se
por tê-los impedido de reencarnar, ou por não terem sido
atendidos, porque não podiam remunerá-lo. Estava irado


O VÔO DA GAIVOTA 113

quando o tiraram de seus perseguidores. Eram espíritos, moradores
de uma cidade umbralina, que vieram e o levaram. O
chefe dessa cidade sabia quem ele era, mas deixou que sofresse
por uns tempos, para que ficasse lhe devendo obrigação.
Natan não é o nome verdadeiro dele, tendo escolhido esse
cognome tempos depois, talvez para impor mais respeito a
seus inferiores. Levado à cidade umbralina, o chefe conversou
com ele e lhe ofereceu abrigo em troca de seu trabalho como
médico. Natan não era ocioso, sempre foi trabalhador, por isso
aceitou e se aliviou por ficar livre do bando que o perseguia,
mas com o qual aprendera tantas maldades. O chefe daquele
local, no intuito de organizar um lugar especializado em tóxicos,
fundou o Túnel Negro e o colocou para administrá-lo. Com
o passar dos anos,  chefe se desinteressou pelo lugar e Natan
ficou sendo o senhor absoluto.
O Túnel Negro não forçava ninguém a ficar lá e nem seus
moradores saíam à procura de desencarnados para irem lá. Os
viciados desencarnados é que o procuravam, em busca das
drogas. Só que, depois de serem abrigados, tinham que seguir
as normas da casa e trabalhar para eles. Existem muitos lugares,
abrigos, cidades no Umbral, para onde os desencarnados
viciados são levados como prisioneiros. Como também há outros
lugares, como o Túnel Negro, onde os desencarnados não
são obrigados a ir e nem a permanecer. É lugar de livre acesso.
Mas Natan era insatisfeito e isso lhe doía e o atormentava.

Instalou-se, então, a troca de fluidos entre eles. Meu pai
começou a sofrer os de Natan, sentindo doer-lhe por dentro,
como um vazio profundo. Certo dia, meu pai estava meditando
e Natan perto dele, quando meu genitor lhe disse:

"Natan, é falta de Deus! É a ausência do Pai em você que
lhe dói tanto. Você era ateu, mas não pode dizer agora que
ainda o é. Por que, então, não se aproxima do Pai?"

Natan não respondeu e se afastou. Depois de meses, era a
primeira vez que se afastava. Recolheu-se num canto no Umbral
e pôs-se a pensar. No dia da reunião, quase no horário de
começar, ele entrou no Centro, pediu licença e se colocou na
fila dos que iam receber orientação, pela incorporação. Estava
diferente, sem seus colares e suas armas.


114 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK nR f auvnr un

Na sua vez de se comunicar, aproximou-se educadamente
de uma médium, cumprimentou meu pai e disse:
- Você me venceu!
- Não! Natan, você não lutou comigo. Mas lutou consigo
mesmo. Era a ausência de Deus que o atormentava. Você é
infeliz e apenas o convidamos a aprender a ser feliz. Fico contente
por você querer mudar. Gosto de você! Venha viver uma
vida digna de um espírito.
- Quero ser seu amigo! - exclamou Natan emocionado.
- Sejamos então amigos! Preciso muito de amigos.
Natan foi levado para a Escola de Regeneração. Após ter
feito o curso, foi trabalhar num Posto de Socorro do Umbral
onde exerce seus conhecimentos de Medicina, em socorro aos
necessitados. Sempre que pode vai visitar meu pai e assistir às
reuniões do Centro. Trabalha muito. Artur, sempre que o vê,
costuma dizer de forma carinhosa:
"Ama muito, porque foi muito perdoado!
Artur falou, modificando o texto do Evangelho de Lucas
VII:47. "São lhe perdoados muitos pecados, porque muito amou."

O Médico nazista



Quando fomos assistir à recuperação de Walter, na reunião
do Centro Espírita, defrontamos com um caso muito interessante
que me chamou atenção e, por isso, acompanhei o desenrolar
do drama.
Estávamos aguardando o início, quando chegaram três pessoas:
um casal com a filha adotiva. O casal, principalmente a
senhora, queixou-se que a mocinha, a filha, continuava tendo
suas crises.
Artur me explicou que Joana, assim se chamava a jovem,
era médium e estava sendo obsediada por alguns espíritos,
suas vítimas no passado. Tinha crises, em qualquer hora e lugar,
e procurava meu pai, em horários inoportunos, para lhe dar
passes, porque só assim se acalmava.

Minha mãe foi sentar-se ao lado dela, porque, conforme
me explicaram, logo que entrava no Centro, começavam suas
crises, e era necessário alguém perto que a controlasse. Seus
obsessores possuíam sobre ela o domínio psíquico, mesmo à
distância. Queriam que sofresse, pois ela os havia prejudicado.

Gosto muito de ver minha mãe, pois amamo-nos muito. É
a pessoa de quem mais gosto, e sempre que me é possível vou
visitá-la, ficar ao seu lado, porque me é prazeroso.

Joana é uma mulata forte, de olhar malicioso, demonstrando
não estar a fim nem de orar, nem de melhorar. Ali está
por imposição dos pais e para ficar livre de suas crises, que
considera ridículas e que lhe fazem passar vergonha. O seu


116 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

obsessor chefe era inteligente e sutil e, como ela tinha má
índole, passou a incentivá-la a fazer uso da maldade, chegando
a ponto de incorporar, utilizando-a como médium, e tentar matar
a mãe e o pai. Fazia com que descuidasse completamente
da disciplina pessoal e dos compromissos próprios de sua idade,
para envolvê-la no seu ardil. O desencarnado transmitia-lhe
acontecimentos do passado das pessoas para que, assim, dominasse
as mais fracas que a cercavam.
Quando foi levada até a casa de meu pai, o obsessor aceitou,
porque confiava que iria dominar qualquer encarnado com
que defrontasse, sentindo-se assim forte no seu orgulho e pretensão.
Vencidos os primeiros embates, o obsessor sentiu-se
admirado pela força que desconhecia e quis, então, aprender
com eles, com o grupo do Centro, não para melhorar, mas para
ficar mais poderoso.
" Artur me pôs a par dos acontecimentos. Joana, em sua
encarnação anterior, fora um médico nazista e praticara muitas
maldades e experiências com os judeus. Reencamou longe da
Alemanha, num corpo feminino e mulato, mas mesmo assim
foi encontrada pelos que não a perdoaram. Sabiam que ela
comparecia ao Centro para se livrar deles, os obsessores. Sorrindo
e com seu modo agradável, Artur comentou:
- Patrícia, seu pai, por ajudar a jovem, está sofrendo com o
rancor desses obsessores. Mesmo assim, está ajudando-a, embora
sabendo que ela não gosta daqui nem dele e que, assim
que se sentir livre dos desafetos, não voltará mais. Socorremos
para mostrar aos encarnados a força espiritual de que dispôe
um Centro Espírita, desde que se trabalhe em prol do bem
comum, e também dos que vêm pedir ajuda.
Prestamos atenção na orientação que meu pai deu aos três
encarnados: pai, mãe e filha.
- Só ficamos livres do nosso passado trabalhando no bem,
no presente. Para nos livrarmos de obsessores, devemos pedir
perdão, perdoar e nos harmonizar com as Leis Divinas. Precisamos
entender que os espíritos têm seus motivos para perseguir
as pessoas, por isso devemos entendê-los e tentar amá-los,
porque eles também necessitam de ajuda. Para não sermos


O VÔO DA GAIVOTA

atingidos pelos obsessores, devemos mudar nossa vibração,
sair da faixa mental deles, isto é, pensar em coisas boas e
superiores e agir de modo digno, trabalhar no Bem e amar
muito. Vocês aqui estão em busca de auxílio, porém devem
ajudar a si mesmos. Certamente, quando você se sentir bem,
Joana, não voltará mais aqui. Porém, quero lhe dizer uma coisa,
você é médium e necessita aprender a lidar com sua
faculdade e trabalhar muito no bem, para viver tranqüila e sem
essas crises. Mas, se você se afastar do Centro Espírita e não se
modificar, a situação que vive agora voltará sempre. Os Centros
Espíritas estão melhor preparados para ajudar nos casos de
obsessão, ensinando a lidar com a mediunidade para o bem, e
em suas reuniões ouvirá ensinamentos que ajudarão a sua renovação
interior.
Joana não gostou muito do que ouviu, mas ficou quieta.
Quando começou o trabalho de desobsessão, três dos que
a estavam importunando, se comunicaram. Os três, dois homens
e uma mulher, foram judeus, ou ainda eram, pois o fator
raça se mostrava ainda forte neles. O primeiro estava sem um
braço e sem o olho esquerdo. Cumprimentou mal-humorado,
não queria conversar com ninguém, foi perto do médium contra
sua vontade e falou com raiva:

- Por que interferem no que é justo? Embora tenham outra
religião, vocês amam a Deus. Nunca ouvi falar de religião deste
jeito. Oram, dizem fazer o bem, conversam com os mortos,
mas ajudam os criminosos. Isto não está certo. Por que o ajudam,
esse monstro sanguinário?

O desencarnado desconhecia o Espiritismo, estranhando o
intercâmbio mediúnico e o ensinamento de que todos somos
filhos de Deus e, por isso, irmãos uns dos outros.

- Se eu lhe disser que queremos é ajudar você... - começou
a dizer meu pai, porém foi interrompido por ele.

- Ah, mas por que não nos avisaram logo que querem se
unir a nós. Quanto mais, melhor!
- Você não entendeu, queremos ajudá-lo a se recuperar, a
tomar-se sadio, a viver de modo digno, num lugar propício.

- Quem lhe falou que quero ser sadio? - indagou nervoso.


118 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

- Já me propuseram isto uma vez e não aceitei. Quero ficar
como ele me deixou, para ter sempre motivo para odiá-lo.
- Você sofre e faz sofrer - disse meu pai.
- Nem começamos. É melhor dizer: sofre e faremos sofrer
cada vez mais - respondeu ele.
- Não vale a pena! Você já pesquisou por que sofreu assim?
Se sabe que continuamos a viver após a morte do corpo,
que reencarnamos e, por isso, é que você o está perseguindo
reencarnado em outro corpo? Então sabe que viveu encarnado
outras vezes. Vamos, irmão, recordar seu passado?
A equipe desencarnada, já pronta, colocou à sua frente a
"tela", que é como na espiritualidade chamam este aparelho.
Ele é denominado de muitas maneiras, havendo alguma diferença
de um local para outro, mas é sempre o mesmo e muito
útil. O espírito que se comunicava fora, na encarnação anterior
também judeu e, numa guerra, havia trucidado muitás pessoas,
entre elas jovens e crianças. Ao recordar, deu gritos lancinantes,
mas o médium, treinado, só alterou um ouco a voz isso
porque não é necessário gritar. Acalmaram o desencarnado
que, com dificuldade, voltou a falar.
- Olho por olho...
- Não, meu amigo - disse meu pai. - É a lei do retorno:
você plantou, você colhe. Não precisaria sofrer assim, se tivesse
entendido a lei do Amor e feito o bem.
- Ela também pagará pelo que fez? Pelo que entendi, se
ela não Fizer o bem, sofrerá o que me fez sofrer. Você não irá
conseguir fazer dela uma pessoa boa. Que será dela?
- Deixe-a, irmão, deixe-a! Cuide de você. Vamos ajudá-lo,
pense em Deus. O Pai é bondoso e nos ama.
A equipe médica entrou em ação e com os fluidos doados
pelos encarnados e também pela vontade do espírito que, agora,
queria tornar-se sadio. O braço se curou e ficou perfeito,
como também o olho.
- Perdoe, irmão, para ser perdoado!
- Como não perdoar, se devo tanto? Perdôo e peço perdão
a Deus. Queria ir para junto dos meus, lá na minha terra.


O VÔO DA GAIVOTA 119

- Atenderemos seu pedido.

Ele saiu de perto do médium e passou para outra fila, a dos
que iam para a Colônia. Após a reunião, seria levado à Colônia
São Sebastião por uns dias e, depois, seria transferido para
onde quisesse. Uma equipe o levaria.
Normalmente reencarnamos em diferentes raças, para
aprender amar a todas. Mas, sem ser regra geral, alguns judeus
mais radicais ainda têm preferido vir sempre como judeus, a
esperar o Messias, pois se julgam os filhos escolhidos, o povo de
Deus, mas são, realmente, como todos nós, porque não somos
privilegiados pela raça. Aqueles desencarnados, totalizando
onze, estavam há algum tempo, nas regiôes espirituais do Brasil,
à procura, para vingar, deste espírito, que fora um médico
nazista. Já começavam a dominar o idioma português, pois o
médium que o auxiliou, sempre consciente, não precisou se
expressar com sotaque. Devemos esclarecer que o médium
transmite o pensamento do espírito e, nestes casos, sentem
mais do que propriamente repetem o que escutam. A mediunidade,
quando educada, é maravilhosa, e assim possibilitou que,
ele, judeu, transmitisse pensamentos que o médium traduziu
por palavras.
O outro judeu se incorporou em outra médium e foi doutrinado
por uma integrante encarnada, do grupo. Lídia conversou
com ele e o fez entender a necessidade de perdoar e seguir seu
caminho. Ele, porém, quis ficar em nossa Colônia e, quando
fosse reencarnar, preferia que fosse aqui. Não gostaria mais de
ser judeu, porque, segundo comentou, os judeus sofriam muito
com a segregação. Normalmente esses pedidos são atendidos,
porém o departamento próprio da Colônia é que estuda cada
caso.
A mulher também incorporou. Parecia fria, porém ao sentir
o afeto dos trabalhadores da casa, encarnados e
desencarnados, conteve-se para não chorar, e disse com voz
comovida:
- Não sou má, ele, sim, é maldoso. - referindo-se à jovem
Joana. -Esconde-se em outro corpo, mas é ele. Pensa você que
ele é bom? Não! Nos enfrenta e, se pudesse, nos faria sofrer


120 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARvAl.un

tudo novamente. Você acha que é por persegui-lo que somos
maus? Somos vítimas! Vou falar o que ele fez comigo e, então
me dará razão.
Fez uma pausa e como se criasse coragem para recordar e
começou:
- Estava casada e feliz, tínhamos uma pequena fortuna e
dois filhos lindos. Quando a Segunda Guerra Mundial começou,
nos apavoramos, porque sabíamos muito bem que os nazistas
perseguiam os judeus. Meu esposo alistou-se no exército, na
tentativa de impedir que eles nos oprimissem, no país em que
vivíamos e, por isso, morreu lutando. Quando houve a invasão
de nossa cidade, fomos presos e nossos bens confiscados. Da
prisão partimos para o Campo de Concentração, onde sofremos
muito: frio, fome e humilhações. Naquele Campo havia um
laboratório onde este médico medonho e outros faziam experiências
com os presos, ou simplesmente os torturavam pelo
prazer de vê-los sofrer.
Ao ver meus filhos chorarem de fome e frio, e com muito
desconforto, resolvi pedir clemência. Solicitei para falar com o
comandante e, para minha surpresa, ele me atendeu e me
levou à sua sala. Quem me atendeu foi esse aí, o médico
nazista, que me olhou de cima a baixo e me indagou:
"Então, judia, que reivindica?"
Pensando que ele ia me ajudar, falei rápido para não perder
a coragem:
"Por favor, senhor, aqui estou com meus dois filhos pequenos,
passamos fome e frio."
"Se você se entregar a mim, intercederei por vocês" - disse
rindo.
Sempre fui muito direita, fiel ao meu esposo, porém, pelos
meus filhos, aceitei a proposta indecente. Depois, ele mandou
que um soldado fosse buscar meus filhos. Achei que, pela felicidade
dos meus, teria valido o sacrifício. E, esperançosa, quando
pensei que fosse me dar ajuda, meus dois filhos chegaram
assustados e correram ao meu encontro. O mais velho estava
com quase sete anos e o outro, com quatro. Gelei quando ouvi
a ordem.


O VÔO DA GAIVOTA 121


"Leve-os ao laboratório!"
Era no mesmo prédio, na sala ao lado. E cada soldado
pegou um de nós e para lá fomos arrastados. Amarraram-me
fortemente numa cadeira e ele, cínico, me olhou sorrindo:
"Idiota! Judia imbecil! Pensou que eu ia me encantar por
você? Verá para que serviu sua astúcia em me pedir auxílio."
Pedi a ele por piedade, pelo amor de Deus, para fazer o
que quisesse comigo, sem maltratar meus filhos, porém ele ria.
O que me fez ver foi horrível. Torturou meus filhos, cortou-os
em pedaços até que morressem. Eles gritavam apavorados,
olhando para mim e eu gritava também. Quando os dois não
tinham mais vida, veio me torturar. Começou, extraindo minhas
unhas. Fiquei alucinada e, aí, perdi o controle, pois a dor
era demais. Mas ele não me torturou muito, desencarnei, pois
meu coração não agüentou. Fui socorrida e fiquei muito tempo
como louca e, quando voltei ao normal, alguns espíritos me
disseram da possibilidade de vingança. Aceitei e agi, com todas
as minhas forças, para me desforrar.
Faço uma pausa nesta narrativa, para algumas explicações.
Nos Campos de Concentração, como em qualquer lugar
de aniquilamento humano, há muitos socorristas, como também
há muitos desencarnados que agravam os acontecimentos.
Do mesmo modo, costumam ficar outras vítimas a socorrerem
suas companheiras de sofrimento. Esta senhora foi socorrida
por outros judeus, que ali haviam desencarnado. Não foi, assim,
socorrida por espíritos bons, porque ela estava com muito
ódio. As crianças e aqueles que perdoavam, eram levados às
Colônias ou a outros lugares de socorro. Os que eram vítimas,
tanto quanto ela, a socorreram, levando-a para um pequeno
abrigo no Campo de Concentração, no Plano Espiritual e, quando
ela aparentemente estava melhor, foi convidada a se vingar.
A guerra é por demais triste, pelas atrocidades que se cometem.
Esforcemo-nos, pois, para que haja Paz, começando com
a tolerância e a concórdia com os que nos cercam. A Paz começará
em pequeno círculo, mas se a cultivarmos irá se ampliando
e atingirá muitos outros e, dessa forma, um dia teremos a Paz
por toda a Terra. E fatos como esses, tão tristes, ficarão apenas
na história e não mais se repetirão:


122 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARIN7.Rrr nF rnnvn u,

A senhora emocionada, continuou a falar.
- Ficávamos perto dele sem, contudo, conseguir nossos
propósitos e ele ficava mais nervoso e revidava nos prisioneiros.
Mas a desencarnação chegou para ele, quando foi atingido
por uma granada. Sofreu bastante. Aí, sim, começamos nossa
vingança. Nós o perseguíamos por onde ia, e ele vagava urrando
pelo Umbral, até que se pôs a gritar por socorro e sumiu da
nossa frente. Vim a saber que espíritos bons o tinham levado
para ajudá-lo. Nós não fomos socorridos, não queríamos, porque
nosso objetivo era fazê-lo sofrer. Durante esse tempo, muitos
desencarnados bons conversaram conosco, aconselhando-nos
a desistir, mas escutávamos somente nossos companheiros.
Entretanto, vários do grupo desistiram e os acompanharam. Por
outro lado, ninguém se esconde de seus erros e nem dos que
não o perdoaram. E assim, enquanto procurávamos o perverso,
aprendemos como nos vingar. Anos se passaram, mas conseguimos
descobri-lo. Agora querem que eu desista Por acaso
aqui há mães e pais? Será que podem imaginar o que é ver o
que eu vi? Sofrer o que sofri? Dá para imaginar ver seus filhos
amarrados, gritando de dores e desespero? Odeio-o! Odeio-o!
Fez-se um silêncio total. Todos os desencarnados prestaram
atenção, muitos, ao ouvi-la, conseguiram ver suas
lembranças. Alguns choraram. Os encarnados também se comoveram.
Ela sentiu os fluidos de amor e compaixão de todos.
E, em dado momento, uma das trabalhadoras da casa, em
espírito, aproximou-se dela, abraçou-a e falou emocionada:
- Minha filha, pare de sofrer! Por favor, recomece sua vida.
Também sou mãe e entendo seu sofrimento. Compreendo seu
desejo de vingança, porém, digo-lhe que dessa forma você vai
perpetuar seu sofrimento. Venha para junto de seus amados e
não sofra mais! Chega! Perdoe e venha conosco. Amarei você
como uma filha! Venha!
- Minha irmã! - falou meu pai. - Ele reencarnou, e você
parou no tempo só para se vingar! Por que não recomeça e
tenta ser feliz? Devemos esquecer os momentos que nos foram
cruéis e só lembrá-los para tirarmos alguma lição. É bem melhor
pensar somente nos bons momentos. Você é infeliz! E
recordando sempre esses fatos, prolonga mais seu sofrimento.


O VÔO DA GAIVOTA 123

Você acredita em Deus, e se Ele nos perdoa por que não perdoa,
nosso próximo? Sabe que nada que acontece fica escondido
ou impune. Deixe seu algoz, agora Joana, em seu novo corpo, e
cuide de você. Perdoe para ser perdoada!

- Quero esquecer! Esquecer!..

Aninhou-se nos braços da trabalhadora da casa que a abraçou
e, após, foi levada adormecida para a Colônia. A reunião
terminou com todos comovidos pelo sofrimento daquela senhora,
e eram muitas as orações em seu favor. Emocionei-me,
também, ao acompanhar suas lembranças, realmente duras
cenas de horror.
Talvez possam vocês pensar que retrato muitas tristezas
neste livro. É que as tristezas e as alegrias existem e devemos
ser realistas, tirando de fatos tristes lições preciosas que nos
impulsionarão com otimismo para o caminho do Bem e para a
felicidade. Ao tomar conhecimento de fatos assim, conseguimos
entender ambas as partes, e ajudar sem condenar. Por isso
como sou alegre, passo minha alegria aos que me rodeiam. A
alegria nos fortalece, nos anima e nos dá compreensão da dor
do próximo.
Aquela senhora foi internada num hospital da Colônia onde
recebeu, por tempos, tratamento, carinho e ensinamentos. A
equipe da Colônia encontrou seus dois filhos e esposo, encarnados
na Europa, e a levou para vê-los. Estavam os três bem.
Depois de algum tempo, ela pediu para ser transferida para a
Colônia, na espiritualidade, onde estavam seus entes queridos.
Estando bem melhor e com planos para reencarnar, porque só
assim esqueceria tanto sofrimento, foi transferida. Despedi-me
dela desejando-lhe boa sorte.
Mas ainda faltavam oito obsessores. Sete receberam orientação
e ajuda, nas reuniões seguintes. Com cada um deles,
uma história triste. Desses onze que obsediavam Joana, com
desejo de vingança, dez foram socorridos e só um pediu para
trabalhar no Plano Espiritual. Os demais pediram para reencarnar,
pois queriam a misericórdia do esquecimento. E todos foram
atendidos.
Contudo o chefe dos dez obsessores, de nome Josef, era


124 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHn

um judeu rude que, ao ver os três primeiros se afastarem, voltou-se
furioso contra meu pai, que, como sempre acontece,
sentiu-lhe a vibração e tentou, também, orientá-lo.
Artur soube que o grupo tinha seu núcleo na Europa e foi
lá, para conversar com eles. Eram vingadores dos criminosos
de guerra, que se intitulavam: "Os Ofendidos da Guerra". Constituíam-se
em vários grupos, todos unidos entre si. Artur pediu
uma audiência com o chefe, um judeu de muitos conhecimentos.
Após cumprimentos, Artur começou o diálogo. E nos contou,
depois, que o chefe tinha total conhecimento do que
acontecia com seus subordinados, junto a Joana, e não deixou
que ele, Artur, falasse muito. Citava com exatidão pedaços do
Antigo Testamento. Sabia a Biblia quase que de cor Falava de
muitas passagens para justificar a vingança.
"É olho por olho, dente por dente!" - falou demonstrando
calma.
Artur replicou com os ensinamentos de Jesus. Ele disse
não acreditar num profeta que se deixou matar. Mas, após alguns
minutos de conversa, confessou que reconhecia a força e
a presteza dos trabalhadores de Jesus. Artur lhe pediu, então,
que parasse com as vinganças; ele riu, se aquietou por momentos,
e falou decidido:
"Não é nosso interesse o confronto com ninguém. Temos
tempo. Vou suspender a vingança dele por enquanto. Chamarei
Josef, o único que ficou, e que é o mais decidido em seus
objetivos. Só faço um aviso: teremos outra oportunidade. O
mais difícil já conseguimos, pois sabemos onde ele está, que se
esconde num corpo de mulher quase negra. É castigo para ele,
orgulhoso de sua raça, ter sido loiro e rico, agora quase pobre,
mulher, mulata e filha adotiva. Acharemos outros que o odeiam.
Ele certamente não ficará para sempre na guarda de vocês,
porque não mudou sua conduta."
De fato, Josef foi embora e Joana ficou livre dos seus obsessores,
não porém de seus erros. Meu pai chamou-a e a seus
pais também, para uma conversa.
- Vocês vieram à procura de ajuda espiritual e a receberam.


O VÔO DA GAIVOTA 125

Analisem o ocorrido e tirem boas lições de tudo o que lhes
aconteceu. Esses fatos são, em parte, conseqüência do passado
e o resultado da maneira de viver sem esforço para a melhoria
íntima. Você, Joana, está com sua sensibilidade completamente
aflorada, isto quer dizer que você tem a porta aberta para
receber influência do mundo astral, sem, entretanto, agora,
poder discipliná-la. Só terá influência e sintonia com espíritos
bons, por meio de boas atitudes e de bons propósitos. E ficará
ligada aos maus, se descuidar do seu aprimoramento espiritual.
Se você se afastar do Bem, da oração sincera, e não se
esforçar para mudar para melhor, não nos responsabilizaremos
pelos acontecimentos futuros. Afastando-se também da ajuda,
tudo que passou mais facilmente se repetirá.

Joana não estava preocupada com o aprimoramento espiritual.
Queria era força e poder. Dominar. Mas indagou a meu
pai.
- Sr. José Carlos, posso aprender com o senhor.
- Claro que pode. Deve!
- Vou ter essa força que o senhor tem?
- Poderá ter esta e muito mais. Mas, para isso, deve primeiramente
educar-se na boa conduta e fazer por merecer a
companhia dos trabalhadores desencarnados que convivem conosco.
Mude para melhor e queira com vontade fazer o Bem,
porque agindo assim aprenderá e muito.

Joana não respondeu. Sentindo-se melhor, afastou-se do
Centro. Sua mãe ainda voltou outras vezes, mas também fez o
mesmo. Artur me disse:
- Patrícia, nesse socorro, ajudamos mais os desencarnados
que essa jovem. Ela, agora, não quer mais saber de seu pai
e, quando o vê de longe, se afasta para nem cumprimentá-lo. A
figura dele a faz recordar os ensinamentos que escutou, e que
ela quer esquecer.
- Como ficará ela? - indaguei.

-Vamos aguardar. Os erros, Patrícia, não conseguimos jogá-los
fora, porque nos pertencem, e um dia a reação virá. Quando
o grupo de vingadores perceber que ela não está mais sob a
proteção dos bons, voltará, talvez, como tenho visto em casos


126 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHn

assim, com mais sutileza e cautela. Ela, não vindo aqui e nem
recebendo outro auxílio, não estará vinculada a uma proteção
e, como não faz por merecer nenhuma ajuda, será fácil eles
voltarem e se vingarem. Ele, ao desencarnar como médico
nazista, foi socorrido, no Umbral, livrando-se daqueles que queriam
dele se vingar, sendo levado na ocasião para um Posto de
Socorro e logo em seguida reencarnou. Socorro não quer dizer
que o indivíduo tenha mudado, porque, mesmo que receba
orientação, para mudar será necessária uma transformação
interior muito grande.
Fiquei a pensar como a crueldade faz mal ao que a pratica.
Quanta imprudência em cometer erros. E a reação desses
atos pedirá reajuste no caminho, mas como Deus é misericordioso
sempre dá novas oportunidades.
Ao findar esta narrativa, posso concluir que todos nós, encarnados
e desencarnados, tivemos um grande ensinamento
com os fatos ocorridos. Que todos nós temos que aprender a
amar, a ser úteis para termos Paz e sermos felizes. E que a
alegria interna virá quando superarmos nossos traumas íntimos
e ajudarmos outros a fazê-lo. Alegria!


A -istória de Elisa


Numa das minhas folgas, fui visitar Elisa. Queria rever minha
amiga e tinha muito interesse
pela
recuperação de Walter. O des f rá profunda o perispírito do
uso das drogas traumatiza de o arte dos nossos
esse vício atinge boa p
usuário. Atualmente, rporal e levando
jovens encarnados, trazendo-lhes muitas mazelas. O caso de
os a voltar à espiritualidade com
Walter era de meu particular interesse, pelo socorro de que
participei e pelo muito que apreônlcomro delanp ntro em meu
ara podermos

horário livre, de lazer, coincidin osto muito de
conversar calmamente, trocando idéias, pois

diálogos edificantes. Elisa esperava-me na portaria do hospital
em que, no momento, trabalhava e onde Walter estava internado.
Alegramo-nos quando nos vimos. ir vê-la. Que
- Patrícia - exclamou Elisa feliz -, programava

bom tê-la conosco! Quero agradecer-lhe. Foi muito atenciosa
conosco. s osta e minha amiga como boa cicerone,
Sorri em re p '
mpanhou-me para conhecer o hospital. 1 próprio para
aco um hospita
Quase todas as Colônias t émóxico. Em algum
as outras

viciados em álcool taba ismo 1 se aradas, em hospita
Colônias, esses doentes ficam em a as p is
tradicionais.
Na Colônia Perseverança, o hospital é separado, grande e
com muitos trabalhadores dedicados que ajudam na recuperação


28 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

de desencarnados viciados.'6 Lugar calmo, com muitos jardins,
salôes para palestras e encontros; suas principais terapias
são o trabalho, a música e o teatro. Suas enfermarias são
separadas por alas masculinas e femininas e pelo tipo de vício
que o infermo possui.
Primeiramente, vimos a parte central onde se situam as
salas de orientações, os alojamentos de seus trabalhadores, a
biblioteca e os salões. Após, Elisa me levou para conhecer o
atendimento aos desencarnados que, no corpo físico, foram
fumantes. Estes, se tinham só esse vício, não ficam internados,
só vêm ao hospital para serem ajudados a se libertar da vontade
de fumar. Só em casos raros é que um ex-fumante se interna,
e isso se pedir, mas, mesmo assim, sempre por pouco tempo. O
tabagismo intoxica bastante o perispírito e, nessa parte, fazem
tratamento para que o assistido se liberte da dependência, sendo
assim, ele recebe conhecimentos sobre  assunto, orientação
e apoio que o ajudarão a resolver o problema. Mas só o conseguirão
se, novamente reencarnados e tendo oportunidade, não
fumarem. Ressalvo o termo oportunidade, porque, se estiver
encarnado e, por algum motivo, não puder fumar, não quer
dizer que tenha solucionado a questão. Isso acontece com todos
os vícios, e só podemos dizer que os vencemos, quando
temos oportunidade de voltar a eles e os ignoramos.
A ala dos alcoólatras é grande. O álcool danifica o cérebro,
e o aparelho digestivo, sendo muitos os doentes a se recuperar
em vários estágios nessa parte do hospital. Os infermos, quando
melhoram, assistem a muitas aulas, fazem terapia de grupo e
avaliam todos os acontecimentos passados por eles, decorrentes
do vício, e apreciam as oportunidades de melhora oferecidas.
A parte que nos interessava, era a que Elisa se dedicava
com todo carinho, a ala dos toxicômanos. Infelizmente esse
local do hospital e os de todas as Colônias têm sido ultimamente
ampliadas. São muitos os imprudentes que desencarnam

16 - Muitos desencarnados estão tão agarrados à matéria, que se sentem
por muito tempo como encarnados, daí a minha referência a "desencarnados
viciados". (N.A.E.)


O VÔO DA GAIVOTA 129

vítimas, direta ou indiretamente, das drogas. Os que estão ali
socorridos, têm aspecto bem melhor dos que os que vagam ou
os que estão no Umbral. Nas Colônias, são separados pelo grau
de perturbação em que se encontram e o tratamento normalmente
é longo, requerendo esforço do internado, e muita
dedicação e amor dos trabalhadores.

Não pensem os leitores que nesses hospitais só se vêem
tristezas. Nada disso. Tristeza é sentimento negativo. Não ajuda
e para nada serve, pois só construímos e progredimos com o
trabalho alegre. Os trabalhadores dali tinham sempre no rosto
o sorriso bondoso e agradável, a palavra amiga e o amor que
irradiava e contaminava os internos e, assim, os temporariamente
abrigados se sentiam seguros, incentivados, amados, e
com disposição para se recuperarem.

O hospital da Colônia Perseverança é muito bonito e acolhedor.
Elisa me levou à ala onde Walter estava abrigado, e ele
nos esperava no jardim interno que circunda a parte de sua
morada provisória. Recebeu-nos sorrindo e estava com aparência
sadia, com normal equilíbrio.

- Patrícia - disse sorrindo -, queria tanto conhecê-la e
agradecer. Obrigado!
- De nada - respondi. - Como tem passado?
- Melhoro, graças a Deus e ao pessoal do hospital. Vou
ficar bom logo.
Walter estava com a aparência de adolescente, como aparentava
naquela reunião do Centro Espírita. E continuaria assim
porque queria essa aparência, a que tinha antes de se drogar.
Isso lhe dava mais confiança. Outros, após o tratamento no
hospital, podem retomar, se quiserem, a aparência de quando
desencarnaram, só que com aspecto sadio.

Sentamos os três num banco e fizemos alguns comentários.
Elisa falou alegremente:

- Estou gostando muito de trabalhar neste hospital. Aqui
vim por Walter, mas agora não penso em deixá-lo. Quando
Walter tiver alta, ficarei, de vez que já decidi e obtive autorização.
Estudarei, para aprender e melhor servir neste campo de
ajuda. E você, Patrícia, quais são seus planos para o futuro.


130 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

- Como você sabe, gosto muito de ensinar. Logo, Marcela,
a quem substituo, retomará a seus afazeres. Devo, então, voltar
à Colônia Casa do Saber, continuar os estudos e trabalhar transmitindo
meus conhecimentos a outros desencarnados."
Admirei o banco em que nos sentávamos, muito bonito e
de contornos diferentes. Notando, Walter explicou:
- Esses bancos são feitos por internos em nossas oficinas.
- O trabalho é de grande ajuda e uma das melhores terapias
para nossos abrigados - disse Elisa, olhando carinhosamente
para Walter. - Mas não só para eles e, sim, para todos nós,
encarnados e desencarnados. O trabalho é bênção. Corpos e
mentes ociosos estão com as portas abertas aos vícios, enquanto
que o trabalho nos mantém ocupados e nos abre outras
portas opostas a eles. Aqui em nossas oficinas se faz muita
coisa.

No Plano Espiritual, tudo pode ou poderia ser plasmado.
Mas os que sabem dar formas às coisas são poucos, pois necessita-se
de tempo e de muito aprendizado para a tarefa. O trabalho
é uma bênção que ajuda intensamente a todos nós e, na espiritualidade,
representa importante benefício, existindo trabalho,
do mais simples ao mais difícil, para todos os que quiserem.
Inúmeros desencarnados ainda estão muito apegados ao modo
de vida na Terra e, assim, quando trabalham, lhes é dado o
bônus-hora. Os que já superaram esse apego, entendem o porquê
do trabalho e não mais necessitam esse tipo de
remuneração. Pessoas que já trabalham sem esse apego, quando
chegam ao Plano Espiritual, participam da vida aqui,
exercendo suas tarefas pelo Amor ao trabalho, não exigindo
nada em troca. No hospital, os internos que ali auxiliam, rece

17 - A Colônia Casa do Saber, que descrevi no terceiro livro, A Casa do
Escritor, é onde moro atualmente, ao escrever este livro. E tenho planos
de ficar aqui por muito tempo, sendo que virei raramente à Terra, para o
contato com os encarnados. Foi uma opção que fiz, atendendo convite de
superiores. É tarefa que faço com muita alegria, porque somos sempre os
beneficiados pelas responsabilidades que nos oferecem. Devemos, pois,
participar de todas elas com muito regozijo e amor, e dessa forma tudo o
que realizarmos ficará bem feito. (N.A.E.)


O VÔO DA GAIVOTA 131

bem os bônus-hora, mas são poucos os trabalhadores que servem
no hospital e que os recebem. Há muito tempo que não os
necessito, mas lembro-me de minha alegria, quando obtive
meu primeiro bônus-hora. Foi uma euforia trabalhar e ter uma
compensação. Agora, minha alegria é somente ser útil. Não
almejo recompensas.
Quietamo-nos por alguns segundos. Meus pensamentos vagaram
pela trajetória vivida por pessoas como Walter. Suas
existências, até serem socorridos, são uma verdadeira tragédia.
Elisa quebrou o silêncio.
- Patrícia, você não pode imaginar o tanto que sonhei, por
todos estes anos de desencarnada, com este momento. Estar
assim com meu Walter, em plena recuperação. Sou muito grata
a Deus por esta oportunidade.

Fechou os olhos por momentos e depois começou a falar
com sua voz suave.
- Tudo começou em nossas encarnações anteriores, em
que fomos unidos pelo afeto maternal. Fui mãe dele, meu nome
era Gertrudes. Nasci e cresci num bordel de uma cidade pequena,
onde me tornei prostituta logo mocinha. Aos vinte anos, tive
um filho, José, que é o Walter de agora. Até os seis anos, minha
avó, que morava perto, cuidou dele. Quando ela desencarnou,
ele veio morar comigo. Mimei-o demais, dando-lhe tudo o que
queria e, muitas vezes, eu justificava minhas atitudes, falando
que isso era bom para ele. Menino ainda, começou a tomar
bebidas alcoólicas, e achei linda sua atitude.

O tempo passou rápido e ele tornou-se moço, foi então que
percebi que ele andava se embriagando demais e tentei fazê-lo
parar, só que não consegui. Quando chamava sua atenção, me
respondia grosseiramente:

"Bebo por você ser o que é. Gostaria de ter uma mãe
trabalhadeira e honesta!"

Isto me feria muito. E ele se embriagava cada vez mais,
até que passou a ficar quase que somente bêbado. Desencarnamos
quase que na mesma época. Fiquei doente e desencarnei
após muito sofrimento. Ele ficou pelo bordel, onde todos o conheciam
e lhe davam de comer, além de bebidas. Desencarnou


132 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

ao cair de uma ponte alta e bater a cabeça nas pedras. Sofremos,
vagando juntos, pelo Umbral. Ele, sempre me culpando,
dizia:

"Se tivesse me batido na primeira vez que bebi e não
achado graça, eu não teria me tornado um bêbado."
Depois de muitos sofrimentos, fomos auxiliados e levados
para um Posto de Socorro, onde ficamos por um período. Aconselhados
a reencarnar, pedimos para renascer em famílias de
costumes rigorosos que nos ajudassem a superar nossos vícios.
Atenderam-nos e reencarnamos, e viemos somente como conhecidos,
nem amizade tivemos.
A família que me abrigou, educou-me com costumes rígidos,
o que achava certo, pois me sentia segura. Queria acertar,
queria vencer o vício e consegui. Fui uma moça honesta e
trabalhadeira e, por ser bonita, fui assediada por muitos rapazes,
mas não dei importância a nenhum. Não desejava namorar,
pois sentia que ia desencarnar logo e não queria deixar ninguém
mais a sofrer por minha causa. E, realmente, tive câncer
e desencarnei. Meus pais e meus irmãos sentiram bastante
minha falta, mas não me atrapalharam e muito me ajudaram
com suas preces. O resto você já sabe.
Walter prestou muita atenção no que ouvia e, após uma
pausa, disse:
- Ao ouvir Elisa falar, as cenas vieram-me à memória.
Recordo... Era pequeno e já gostava de bebidas alcoólicas, e
como minha mãe não proibia, passei a tomar muito, prejudicando-me.
Gostava do bordel, porque ali todos me tratavam
bem. Depois me tornei tão dependente do álcool, que só ficava
embriagado e, assim, quando desencarnei, sofri muito. Reencarnado,
nesta última vez, como Walter, tive outra oportunidade,
mas logo o gosto pela bebida aflorou forte em mim. Bebia
escondido, porque meus pais me proibiam e, como a bebida
deixava cheiro, dificultava-me dissimular. Eles me vigiavam,
regulavam meus horários e, percebendo minha tendência para
a bebida, cheiravam minha boca sempre que voltava para casa.
Então, enturmei-me com colegas na escola e experimentei a
maconha e, depois de algum tempo, a cocaína. Comecei a tirar


O VÔO DA GAIVOTA 133

notas baixas, sendo ainda aprovado naquele ano, mas no ano
seguinte, em que já me viciara pesado, as notas pioraram e
meu comportamento estava péssimo. Meus pais foram chamados
pela diretora e souberam de tudo. Levei uma surra,
tiraram-me da escola e passaram a me vigiar mais ainda. Desesperado
com a falta da droga, fugi de casa e fui morar com
viciados e traficantes num barraco. Meus familiares sofreram
muito e meu pai, que era o mais rígido, mandou me dizer que
ele ainda me aceitava em casa, se largasse o tóxico. Se quisesse
ficar entre os criminosos, que os esquecesse, porque eu
estava morto para eles. Como queria a droga, fiquei naquela
vida. Minha mãe vinha me visitar, às escondidas, e trazia roupas,
alimentos e dinheiro, mas chorava sempre quando me via.
Continuei me drogando cada vez mais...

Ao recordar esses momentos dolorosos, Walter começou a
gaguejar, falando com dificuldade as últimas frases. Começou a
ter uma crise. Elisa e eu lhe demos um passe, que o acalmou,
provocando-lhe sono e nós o levamos para o leito na enfermaria.
Elisa, então, terminou a narração do que aconteceu com
Walter.
- Ele contraiu dívidas por causa das drogas e, como não
conseguiu pagá-las, foi assassinado. Desencarnou e continuou
desesperado, alucinado pelas drogas, quando procurou o Túnel
Negro. Naquele local eles ensinavam os desencarnados viciados
a vampirizar encarnados para satisfazerem o vício e,
também, o hipnotismo de Natan os fazia sentir como se tivessem
usando drogas.
Nós ajeitamos Walter no leito e ele, sonolento, virou-se
para mim e disse:
- Elisa não é culpada! Ninguém é responsável pelos nossos
erros a não ser nós mesmos. Se antes eu a acusava, foi na
tentativa de culpar alguém, de colocar em outros a responsabilidade
que era só minha. Nesta última encarnação tive pais que
se importaram comigo, honestos, exemplificaram o Bem e não
tive a quem culpar a não ser a sorte, sendo que nossa sorte nos
mesmos é que a fazemos. Não venci meu vício!

- Mas vencerá! - exclamei.


134 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

Walter dormiu.
- Como o tóxico prejudica a tantos imprudentes - disse
Elisa. - Walter fará o tratamento muito tempo ainda, e só estará
bem quando lembrar-se de tudo o que lhe aconteceu e não
sentir nada. Ele tem aula de Evangelização, faz orações, tem
terapia e acompanhamento psicológico. E também, Patrícia,
como foi boa a regressão para Walter, a doutrinação que ele
recebeu, na reunião Espírita.
Elisa ajeitou o lençol do leito dele com carinho de mãe e,
em seguida, saímos silenciosas do quarto.


O VÔO da gaivota.


Elisa me acompanhou até outro jardim, que fica na frente
do hospital. É um recanto mais bonito, cheio de flores coloridas
e palmeiras frondosas. Ali muitos internos passeiam em horário
de lazer, por ser um lugar agradável. Minha amiga convidou-me
para sentar e falou:
- Patrícia, tenho, na espiritualidade, trabalhado em muitos
lugares, entrando em contato com muitos trabalhadores e socorridos.
Aprendi que aquele que ajuda, trabalha, está se
exercitando no bem para que, pelo hábito, possa ter melhor
disposição na conquista de sua evolução.
No meu convívio com você e com os integrantes do Centro
Espírita, percebi que pode haver diferença. Quando Walter e eu
estávamos sendo amparados, em nenhum momento me senti
necessitada, como aquela que estava sendo ajudada. Pelo contrário,
todos da equipe realizaram o socorro como se estivessem
fazendo algo para eles mesmos, com naturalidade e atitudes
rotineiras. E eles não estavam lidando com desencarnados perturbados
comuns, mas sim com espíritos trevosos e um mago
maléfico ou um satanás, se assim podem-se designar Natan e
sua equipe. Você pode me explicar o estado espiritual daqueles
trabalhadores?
- Elisa, quase todos aqueles espíritos atingiram o chamado
autoconhecimento e, aqueles que não o atingiram, estão se
esforçando para tal. Não necessitam de estímulos externos,
para fazerem o que fazem, nem pagamento ou recompensas


136 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

de qualquer espécie. Sabem que são pequenos, espiritualmente,
conhecem todos os meandros da personalidade, com todas
suas misérias, conflitos, condicionamentos, ilusôes, e a nossa
peculiar ignorância quanto à verdade daquilo que realmente
somos. Não estão estacionados, vivem plenamente a onipresença
Divina, e se sentem unos com ela, porque vivem como
parte integrante do Universo. E, assim, trabalham, responsabilizando-se
com tudo, como se a casa fosse deles.
Tudo o que fazem é por amor à vida, que está presente
tanto neles como em qualquer manifestação Divina, daí a naturalidade
e desprendimento que você sentiu em seu convívio.
- Patrícia, posso chamá-la de Gaivota?
Com meu consentimento, Elisa continuou:
- Então, Gaivota, como me explica o socorro prestado a
mim. Ajuda? Trabalho? Bem realizado?
- Por que me chama de Gaivota? - perguntei.
- Gaivota é um pássaro muito bonito - respondeu ela -,
quase todo clarinho, elegante e de voar preciso. Depois sempre
deixa sinal de seus pezinhos na areia, mostrando que passou
por ali. Deixa marcas. E você deixou marcas em nossas vidas,
na minha e na de Walter.
Agradeci, sorrindo e, após pensar uns momentos, respondi
que sabemos porque escutamos, repetidamente, o que deveríamos
colocar em prática em nosso dia-a-dia.
- Ajudar é favorecer, facilitar, fazer alguma coisa a alguém,
prestar auxílio. É necessário esquecermos de nós mesmos quando
ajudamos a alguém. E quando ajudamos alguém a melhorar,
melhoramos o mundo em que vivemos. Temos o dever de
auxiliar, do melhor modo possível, aqueles que surgem no nosso
caminho.
Trabalho é aplicação na atividade, por isso devemos trabalhar
por amor ao trabalho, não para cobrar pelos seus resultados.
Com nosso exemplo nas tarefas úteis, podemos fazer outros nos
seguirem, embora cada um deva fazer o que lhe compete, sem
medo, tentando aprender cada vez mais. O amor precisa estar
presente em tudo o que fazemos, porque nos torna mais eficientes.
E assim trabalharemos com alegria e gratidão, realizando


O VÔO DA GAIVOTA

bem as pequenas tarefas, quando demonstraremos ser dignos
das randes. Ao ajudar o próximo descobriremos o caminho da
fraternidade e do amor. O que fazemos no presente, nos mostrará
o que realizaremos no futuro. Sobre esse assunto, é muito
interessante ler O Liuro dos Espiritos, de Allan Kardec, Parte
Terceira, capítulo III, "Da Lei do Trabalho".

O Bem é praticado com Amor, pois ao fazê-lo nos tornamos
melhores e estamos colaborando para melhorar a
humanidade. É preciso fazer o Bem, expandindo os ensinamentos
de Jesus, lembrando a todos sua doutrina de Amor. Mas sem
confundir sentimentalismo com Amor, que deve ser benéfico e
nos impulsionar na evolução. O Amor nos ajuda a vencer os
obstáculos do caminho, e é o único capaz de nos redimir e nos
levar ao progresso. Os resultados do Bem praticado só a Deus
pertencem. Esqueçamos de créditos, nas tarefas da bondade,
de vez que somos os primeiros beneficiados. O Bem nos alimenta?
Sim, alimenta a todos nós e nos fortalece, levando-nos
ao aprendizado do Amor.

Fiz uma pausa, o assunto é fascinante, embora tenha muito
para colocá-lo
to que aprender ainda sobre esse é tos e minha amiga
plenamente em prática. Pensei por mo

aguardou ansiosa que eu retornasse às elucidações.

- Elisa vamos mudar o enfoque de sua pergunta. Por que
motivo alguém faz alguma coisa a outra pessoa? Mesmo sendo
crente, de alguma seita ou religião, ou mesmo descrente? Qual
o motivo que leva um ato a ter resultado bom ou mau? Será
sempre necessário existir algum motivo para se praticar alguma
ação? Observemos as diferentes motivações que envolvem
Que motivo leva o
as ações da maioria dos seres humanos p
avarento a trabalhar tanto e a explorar, quase sempre, seus
semelhantes? O egoísmo, certamente. Que motivo leva o ladrão a
agredir e roubar suas vítimasteinadá eligiões, para
leva a maioria dos seguidores de de

deixar de fazer o que gosta e somente obedecer os outros. Não
pelo anseio de ter posse de uma situação sem problemas,
á egoísmo?
será ? Isso também não ser
mesmo que seja no Além s se a dos homens,
ao fazermos algo esperarmos recompensa, )

seja de Deus, estaremos agindo com egoísmo, embora dessa


138 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

forma ajudemos muito outras pessoas e a nós mesmos, porque
quem faz o bem trilha o caminho para se libertar desse sentimento,
que é o egoísmo. O Bem sempre beneficia, enquanto a
maldade prejudica. O dia em que não mais agirmos negativamente,
estejamos encarnados ou desencarnados, haverá Paz e
Harmonia na Terra, pois todos iremos fazer o que deve ser feito.
Não haverá mais explorações nem comparações, pois isso é a
causa de muitos conflitos, dores, sofrimentos e angústias na
convivência dos seres humanos. Cada um de nós estará feliz
com a vida que tem e fará todo esforço para melhorar seu
trabalho físico e seu aprimoramento espiritual. O desejo de
posse, seja qual for, desaparecerá e teremos equilíbrio e
Paz.
Você, Elisa, me perguntou o que concluo da experiência
que tivemos juntas. Prefiro dizer que foi um período agradável
em que aprendi muito e que poderei passar a outros a experiência.
Fazer o Bem estando desencarnado é muito mais fácil,
pois podemos trabalhar horas seguidas em determinada tarefa,
seja no Plano Espiritual, até mesmo no Umbral, ou entre os
encarnados, e, ao terminá-la, ou vencendo nosso horário de
trabalho, temos o equilíbrio das Casas de Socorro, do nosso
cantinho nas Colônias ou dos nossos Abrigos. Nós nos recompomos
rápido. E os encarnados? Eles têm seus afazeres físicos,
têm a preocupação com a sua manutenção e de sua família.
Têm o corpo para cuidar, higienizar, conservar sadio e, quando
não, tentar sanar suas deficiências físicas. São muitos, Elisa, os
encarnados que fazem o Bem apesar de todas essas dificuldades
e, embora alguns ainda o façam por recompensa, um dia
se libertarão dessa conduta. Outros, e são inúmeros, fazem-no
por Amor, tendo como recompensa o prazer de servir. Como
admiro os que fazem o Bem! E esse fazer deve ser no presente,
agora, no momento. Não deixe, você, agora encarnado,
para
fazê-lo depois. No Plano Espiritual certamente terá oportunidade,
mas é aí no corpo físico que se tem o grande aprendizado
do bem. E ele deve ser feito sem se cultuarem nomes famosos


O VÔO DA GAIVOTA 139

de desencarnados. Há muita sabedoria em praticar o bem com
Amor e simplicidade.
Terminei minha explanação, trocamos ainda alguns comentários
sobre o hospital. Elisa tinha que voltar ao trabalho, e
nos despedimos com um abraço fraterno.
- Patrícia, tudo o que aconteceu ficará gravado na minha
memória - disse ela com simplicidade.
Deixei o hospital, a Colônia Perseverança. Ainda estava no
meu horário livre, a aula que eu daria só começaria mais tarde
e, então, fui ver meus pais, que passavam uns dias no litoral,
para descansar.
Não estava totalmente satisfeita com a resposta que dera a
Elisa. Meditei sobre o assunto. Veio-me à mente a questão 642
de O Livro dos Espiritos, Parte Terceira, capítulo I, cuja resposta
é: "É preciso fazer o Bem no limite de suas forças, porque cada
um responderá por todo mal que tiver ocorrido, por causa do
Bem que deixou de fazer."'s Aí está a grande responsabilidade
de não se aproveitar o momento.
Menina e adolescente, estudei num colégio católico e gostava
muito de uma frase escrita no altar da capela: "liolontá di
Dio - Paradiso mio."'9 Compreendi-a assim: "Fazer a vontade
de Deus é minha alegria." Qual é a vontade de Deus em relação
a nós? Penso que é que cresçamos rumo ao progresso, que
sejamos bons, que compreendamos, amemos uns aos outros, e
que façamos todo o bem possível ao próximo e a nós mesmos
pelo trabalho e Amor. Quanta fé possuía quem pronunciou essa
frase e que exemplo nos deixou de resignação, ânimo e coragem.
Também sobre o assunto, lembrei-me de um ensinamento
de Jesus, contido no Evangelho de Lucas, XVII:7-10, quando o
Mestre Nazareno nos ensina que o senhor não fica devendo
obrigações ao servo, que fez o que ele mandou, e conclui dizendo:


18 - Citação tirada da tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa-IDE.
(N.A.E.)
19 - Copiamos na íntegra esta frase, é assim que está grafada em uma das
paredes de sua pitoresca Capela. [N.A.E.)


140 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

"Somos servos inúteis; fizemos o que deveríamos fazer". Que
temos que fazer? Seguir os mandamentos? Viver com dignidade
e honradez? Não fazer o mal? Acredito que sim. E se não fizermos?
Não seremos considerados nem servos. E para sermos
servos úteis? Além de fazer o que nos compete, não praticar o
mal, seguir os mandamentos, fazendo mais, muito mais. Trabalhar
com Amor ultrapassando nossas obrigações, para o nosso
bem, para o bem do próximo e, mais ainda, nada esperar em
troca.
Encontrei meus pais caminhando na praia. A tarde quente
de verão estava maravilhosa. É sempre encantador ver o mar
com seu verde-azulado e com suas ondas a se desfazerem na
areia. Caminhavam eles tranqüilos desfrutando a calma do local.
Aproximei-me. Amo-os tanto! Querendo obter mais
informações sobre este assunto interessante, perguntei a meu
pai, porque sua opinião foi, é e será sempre muito importante
para mim.
"Como é, papai" - disse-lhe de mente para mente -, "o que
me diz sobre um trabalho realizado, o fazer o Bem, o porquê de
o fazermos..."
Papai pensou e acompanhei seus pensamentos.
"Jesus em certa ocasião disse: O Pai age até hoje, eu também
ajo. A vida é ação. Na natureza física tudo o que entra no
estado de letargia apodrece e se desintegra. Semelhante é a
nossa mente, que, se não for usada, petrifica e embrutece. Se
canalizada para o mal, embora não regrida, produz dores e
dívidas para si mesmo, pois quem prejudica se imanta ao prejudicado.
E aí viverá, no ambiente que construiu agredindo a
tudo e a todos. O homem sábio, conhecendo as implicações da
ação, caminha em sintonia com a natureza que, de momento
em momento, aperfeiçoa sua manifestação. Faz das suas ações
a razão de sua vida e, ao agir beneficamente, sente participar
com Deus do seu perpétuo agir.
Não há vida sem relacionamento, e é no aprimoramento
das relações que construímos, que está um novo céu e uma
nova Terra.
Portanto, uma tarefa realizada que resulta no bem de


O VÔO DA GAIVOTA 141

alguém não deve ser olhada como uma ajuda, tampouco como
trabalho, muito menos para aquisição de crédito junto do beneficiado
ou de Deus, mas sim como o próprio exercício de viver.
Pois, se Deus age, eu também preciso agir.

Jesus disse muitas vezes: Eu e o Pai somos um, só que Ele
é maior que eu.
Quando chegarmos a compreender que o universo é nossa
família, tudo o que venhamos a fazer, é para nós que estaremos
fazendo ois tanto a casa como a família é nossa. Cuidemos de

quando encarnados, sem espe
nossa casa e de nossa família

rar que alguém nos elogie por algo que é nossa obrigação
Fazer dessa forma é como compreendo e como procuro fazer.

"Papai! Mas muitos encarnados não zelam bem por suas
casas e nem cuidam bem de seus filhos".

"Fazer só a obrigação não dá merecimento, nem crédito, e
nem deve ser alvo de elogios. Mas, se não cumprimos as obrigações,
somos devedores, pois não realizamos o que era de
nó sa responsabilidade. Quando ultrapassarmos o tempo e o
espaço, não mais existindo em nós créditos e débitos, iremos
fazer todo o Bem pelo simples prazer de comungar com a vida
pelo profundo Amor a todas as manifestações Divinas.

Viver a certeza da onipresença de Deus é diferente do
chamado crer, ou de ter fé. Aqui residem dois opostos; o crer é
volutivo, incerto, mutável de acordo com a emoção do momento
e o viver na onipresença é sólido. Vamos exemplificar em
nossa família consangüínea: Pai e filha é parentesco, não é
crença, é um fato de que não há dúvida. Vivemos plenamente o
fato do vínculo que nos une aos parentes mais próximos. Da
mesma forma, como viver na onipresença de Deus não é um
ato de momento, ou atitude de crença, é a visão plena e total
que estou em Deus e Ele está plenamente em mim. Portanto,
de foi Dele. Mas,
to, o que é Dele é meu e o que é meu s Ele eu recaria-
apesar de não existir separação entre mim e , P
mente existo, só Deus é plenitude total."

O horário me chamava ao regresso. Beijei-os. Volitei a alguns
metros do solo e olhei-os. À sua frente estava uma gaivota


142 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

que, ao sentir a proximidade deles, voou tranqüila, ganhando
com seu vôo, espetacular altura, deixando desenhados na areia
seus pezinhos...
Meus pais se afastaram e suas pegadas ficaram...
Há pessoas que passam pela vida e deixam marcas...






Se você gostou deste livro o que acha de fazer com que outras pessoas
venham a conhecê-lo também? Poderia comentá-lo com as pessoas do seu
relacionamento, dar de presente à alguém que você sinta estar precisando
ou até mesmo emprestar àquele que não tenha condições de comprar. O
importante é a diwlgação da boa leitura, principalmente a literatura Espírita.
Entre nessa corrente!


VIOLETAS NA
JANELA ESpItIItOS A casa do Escritor

Primeiro livro da - é um local fas-
Agorajá ambienta

série, onde ajovem da à nova ` vida, cinante onde se re-
autora, que desen- patrícia nos leva, únemtodosaqueles
carnou com apenas através dos cursos 9ue de uma forma
1 g anos, conta co- ou de outra traba-
mo isso ocorreu e 9ue realiza, conhe- lham com literatura
sua adaptação no cer e entenderPvá- moralizante, princi-
Mundo Espiritual. ria is egás como lo Palmente a literatu-
Você irá apreciar o tua , ra Espírita. Lá, o es-
relato, descrevendo n á b postos deoSo- parl tex órs ná s mé-
as descobertas do
outro lado da vida. corros e outras lo- diuns, aprende tam-
Como é o dia-a-dia calidades. Muitos bém técnicas de re-
temas são transmi- dação. Patrícia ain-
do espírito, como se 1 dos, da arruma tempo
vestem suas ne- tidos e ana isa

cessidades físicas, sempre com a sau- para contar o seu
Você irá se dável curiosidade passado, uma boni-
etc que é a p
encantar com este eculiari- ta história de final
livro. dade da autora. romântico.

Todos psicografados pela médium

Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

s livr
os da Patrícia já
são best sellers


RECONCIlIAÇÃO
Fascinante, comovente
e esclarecedora
narrativa, um livro
que agrada a todos.
Sua trama envolvente,
começa com um
duplo assassinato, o
pai matando a golpes
de faca, sua esposa e
seu filho. Mas após
todo este drama, o leitor viverá uma profunda
lição de amor,
solidariedade, abnegação e ternura num
relato maravilhosamente comovente,
você irá se apaixonar
por ele!

coPos QUE ANDAM
Um livro que em função
do próprio tema,
todos devem ler e divulgar, pois aborda os
perigos de invocar
espíritos por meio de
objetos tais como:
copos, pêndulos, etc.
Muitas são as histórias que entremeiam
a narrativa, destacando a da garota Nely
que é induzida pelos espíritos inferiores, a matar o próprio
pai e suicidar-se
posteriormente.

FILHO ADOTIVO
Além de exaltar a caridade e a grandeza de
pais que conseõuem
amar filhos alheios,
este livro traz uma
trama muito envolvente, enfocando dois
irmãos, que, sem o saberem, namoram e
pretendem se casar.
Mas, a intervenção da
mãe,já falecida, aliada a espíritos amigos
tentam de todos os
meios evitar o matrimônio, trazendo a
cada página, gratas
surpresas, fazendo
deste livro, excelente
leitura e sahoroso
aprendizado.

PAlCO DAS ENCARNAÇÕES
Eis uma história realmente interessante. Augusto,
é o personagem principal de duas encarnações
diferentes, uma como filho de dono
de engenho e senhor de escravo e depois como
negro, escravo no mesmo engenho. Você irá
se emocionar com suas tentativas de ajudar seus
entes queridos. A luta num tempo em que a lei
era do mais forte!

Livros de Antônio Carlos
Psicografados pela médium
Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

O VÔO DA GAIVOTA 101

encamado por seus fluidos, os quais eles nunca conseguirâo
ificar. Nos estágios elevados do Plano Espiritual também se
ifica o perispírito, seja a aparência dos bons, com a finalidade
ajudar, ou a de outros que, no momento, nâo têm por si mes-
como mudar. Recuperam inúmeros socorridos, cujas
parências se transformaram em figuras monstruosas, animales-
as e deformadas, para os deixar com aspecto normal. Também
Odem rejuvenescer, ou tomar a aparência de antigas encarna-
gôes. Os desencamados bons só usam esse processo com alguma
tilidade. Mas, basta saber, para mudar de aparência em qual-
quer lugar e por motivos os mais diversos; se são bons, para
ajudar; se, maus e brincalhões, para enganar, confundir e assus-
.tar. Porém continuam a ser os mesmos, em relação à elevação
noral, só mudam a forma.
Com Walter foi usado esse processo. Fez-se uma regressão
de memócia, até que ficasse com a aparência da idade de
meses antes de começar a se drogar. Forçando mais um pou-
quinho, conseguiram, com êxito, fazê-lo se sentir mentalmente
como estava na aparência. Tornou-se, então, um garoto de ca-
torze anos, gorducho, rosado de olhar esperto. Com o semblante
de quando era jovem, não foi difícil fazer com que assumisse
sua vida daquela época, mesmo porque no seu inconsciente
havia um desejo enorme de fugir de sua atual situação. Conso-
lidado seu equilíbrio, assumida estava a situaçâo. O doutrinador
tem que adquirir, nessas horas, a confiança e a amizade do
socorrido. Através do carinho e da compreensão, convidaram-
no para ver a vida de um amigo seu que muito errou e que
cecisava de auxílio - neste caso, a vida dele mesmo. Então
mostrando sua auto-escravizaçâo no vício e seu conse-
nte sofrimento. Quase sempre, ao ter alguém as primeiras
s de seu passado, já drogado, há também recusa instintiva
ver aquelas atitudes, como também a recusa de admitir
fora ele próprio a viver determinadas passagens. O doutri-
r deve, então, insistir para que se concentre no personagem
 assistência. Em poucos instantes, ele se reconheceu e co-
ou a se desesperar, tentando assumir novamente seu estado
'or, de drogado. Nesse momento é preciso muito esforço


102 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

dos trabalhadores desencarnados, para Ihe manter o equilíbrio.
O doutrinador deve ter autoridade direta sobre ele, mantendo-o
no estado em que foi levado, pela regressâo, isto é, permane-
cer com a aparência física e mental de antes de se drogar. Deve
agir com muita autoridade, afeto e carinho, insistindo na sua
recuperaçâo. Com Walter que já havia sentido a harmonia do
,
estado anterior, antes de se drogar, encontrou base para não se
desesperar e assumir de novo o equilíbrio, já na sua personali-
dade atual. Não se deve esquecer também que, durante todo o
socorro, nesse processo o equilíbrio do médium é fundamental
P ,
ois naqueles momentos os dois agem como um só. Também o
médium deve estar em sintonia com o doutrinador, respeitan-
do-o e confiando na sua capacidade de dirigir os trabalhos.
Walter se analisou e meu pai, como orientador encarnado ori-
entou-o, até que ele passou a entender p ,
situação:
erfeitamente sua
- Meu filho, você está numa reunião de Amor e Caridade.
Aqui tentamos ajudá-lo, para que seja livre. Estamos a lembrá-
lo do que aconteceu, dos fatos vividos por você. Você é um
garoto sadio que foi experimentar drogas e a elas ficou preso.
Recorde! Uma dose, a segunda, mais outra e veja como fcou.
Desencarnado, você continuou, em espírito, ligado às dro as
porque a morte não nos liberta de nossos vícios.
Walter ficou assustado. Lembrou-se de tudo e lágrimas es-
correram abundantes de seus olhos.
- Perdão, meu Deus! Perdâo! - falou emocionado.
- Tenho '
hQorror em ver como fquei! Não quero ser um trapo humano!
uero icar assim, sadio e com raciocínio. Nunca mais me
viciarei!
- Então aceita nosso auxílio? - indagou meu pai.
- Peço-o em nome de Deus! - falou Walter chorando.
- Será acolhido e orientado!
Walter foi tirado de perto da médium, quando Elisa pegou
na sua mão e lhe disse com carinho:
- Walter, meu filho! Meu anjo!
- Mãe - disse ele. - Minha mãe!


O VÔO DA GAIVOTA 103

Olhou para Elisa e não a reconheceu, mas sentiu que ela
rra, ou melhor, fora sua mãe. Elisa fora sua genitora em encar-
iação anterior.
- Sim, sou eu, sua mãe Gertrudes - disse Elisa (nome que

ua mãe adotara no plano espiritual).

Walter, cansado pelas emoções, adormeceu nos braços de

Elisa que se pôs a chorar baixinho, com emoçâo e gratidão.
Finalmente a mãe recuperara seu ente querido.

O processo utilizado tem êxito, em recuperação de desen-
carnados viciados, pois tomando a forma perispiritual de antes
de se viciar, adquire-se mais força para dominar a situaçâo.
Alguns, nesses processos, não recordam o período de viciado,
mas é bom que o façam para que saibam e entendam o tanto
que sofreram. Todos os socorridos do Túnel Negro pediram
ajuda e foram acolhidos, por isso o tratamento continu ria,
sendo eles encaminhados a hospitais próprios, onde a a uda
psicológica seria a mais importante, juntamente com a Evange-
lização.
Em algumas doutrinaçôes, como a de Walter, pode aconte-
cer de o socorrido ver tudo o que se passou com ele e não
querer a ajuda oferecida, preferindo continuar no vício. A esco-
lha é do socorrido, pois todos nós temos o livre-arbítrio a ser
respeitado. Nesses casos, o doutrinador ainda deve argumentar
tentando ajudar na recuperação. Se houver ainda recusa, deve-
se deixar que se comporte como escolheu e ser retirado do
local do Centro Espírita. Sem sustento de bons fluidos, é costu-
me voltar logo ao estado deplorável de drogado. Será, entretanto,
em outra ocasião, socorrido novamente e, quando estiver can-
sado das drogas, aceitará a ajuda.

Também o doutrinador deve ficar atento para não deixar o
socorrido ter remorsos destrutivos, incentivando-o a ter espe-
ranças de vida no futuro e reparar seus erros através do trabalho




i
útil e no Bem.
Uma convidada, desencarnada, que assistia à reunião in-
dagou a Maurício, que estava ao meu lado:

- aurício o drogado é responsável por todos seus atos
M ,
errados? Como, por exemplo, aquele rapaz que, ao discutir


104 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

com sua mãe, a empurrou com força, levando-a a cair e bater
com a cabeça e desencarnar. Agindo assim sob o efeito da
droga, ele é culpado?
- A intençâo, em um ato errado, é pior às vezes que o
próprio ato - respondeu o interpelado. - Ele não teve a inten-
ção, não queria a morte física da mâe, mas foi a causa da sua
desencarnação, daí a sua culpa. É muito difícil um drogado náo
saber que age erradamente e que poderá provocar, por isso,
acontecimentos trágicos em sua vida. Em todos nossos atos, o
que importa é a intenção e, assim, notamos que aquele jovem
tinha na mente este propósito, que lhe trazia muitos sofrimen-
tos. Vimos também que a recuperaçâo total dos viciados que
não praticaram outras faltas, é mais fácil, o mesmo nâo aconte-
cendo com alguns que, além do vício, cometem outros erros.
Deve o encarnado pensar bem nisso, antes de seguir o
caminho das drogas. Nas conseqüências tristes que advirão,
como aconteceu a este rapaz que, mesmo amando a mãe, foi a
causa de sua desencamação.
A reuniâo terminou após a oração, quando os orientadores
espirituais energizaram beneficamente todo o ambiente e, tam-
bém, as pessoas presentes.
Os encamados conversavam trocando idéias, e os mento-
res espirituais estavam contentes com o êxito da experiência.
Todos os socorridos do Túnel Negro passavam relativamente
bem. Elisa levaria Walter para a Colônia Perseverança, onde
trabalhava, pois, desde que soube ser ele viciado em tóxicos,
pediu para trabalhar naquele setor do hospital, onde os intemos
se recuperavam das drogas. Agora iria também cuidar dele.
Despediu-se de nós emocionada e chegando perto do meu pai,
agradeceu; ele sentiu uma vibraçâo diferente, carinhosa, que
só os gratos conseguem emitir, e sorriu em resposta.
Dois trabalhadores desencarnados do Centro Espírita aju-
daram Elisa a transportar Walter, ainda adormecido, para a
Colônia. Terminados os trabalhos todos foram embora, e os
espíritos socorridos conduzidos para novas acomodaçôes. Após
as despedidas, voltou a rotina no Centro Espírita, até a próxima
reunião.


O VÔO DA GAIVOTA

Também retornei à Colônia e aos meus afazeres. Porém
surpreendi-me com as notícias. Natan já havia descoberto quem
entrara nos seus domínios e, raivoso, queria acertar contas.
Acompanhei os acontecimentos.


' l atan




Sempre que possível, ia às reuniôes no Centro Espírita,
para me inteirar dos acontecimentos. Quando não podia, Artur,
um dos orientadores do Centro, amigo de muitas encarnações
de meu pai, me colocava a par da situação.
No Umbral, os chefes sabem de tudo o que lá acontece,
com relativa facilidade. Natan, ao voltar ao Túnel Negro naque-
la noite em que lá estivemos, cientificou-se de tudo. Disseram-lhe
que vários espíritos, comandados por um ainda encamado, en-
traram em sua fortaleza, levando com eles os que quiseram ir.
Nada danificamos com nossa excursão ao Túnel Negro, só
tiramos alguns sofredores de lá. Porém, como Elisa previu, Na-
tan logo soube o nome do encamado, onde ele morava, seus
familiares e o Centro Espírita que freqüentava. Dois de seus
servidores, espíritos ligados a ele no trabalho no Túnel, foram
observar meu pai e o Centro Espírita.
Na reunião seguinte, foram os dois servidores ao Centro
Espírita levar um recado de Natan. Entraram como convidados,
sem se despojarem de suas armas e aguardaram o início da
reunião em silêncio. Um dos orientadores da casa lhes explicou
como deveriam proceder. Como queriam falar pela incorpora-
ção, tiveram que aguardar na fila, e só seria permitida a
comunicação deles no momento previsto. Um deles ao obser-
var o ambiente, curioso, conteve-se para nâo chorar, ao ouvir a
explicação do Evanelho e as orações e, quando foi chamado
i para se incorporar, pediu ao companheiro que o fizesse. O
,


O VÔO DA G

107


quieto e o tempo
no Centro, estava ar que era
, desde que entraraforçando-se para dem · E erto do
e a baixa onstr

 de cab ç , es
ordens recebidas de Natan , P
cado, seguindo as ondeu ao cumprim

ara a in
corporação, resp a. Depois, a e'ist do e
ss
dium, p ipida a pala o que veio como
i-noite, quando lhe f áe Natan falou
ara '
uenciado pela mente ' do Tú el Negro estivesse ali.
róprio, como se o chefe ue fizeram nos
fosse o p n não gostou da invasão os reparação.
- Meu chefe Nata violação e exigi
os uma tender um pedido
us domínios. Sofrem ão foi para a o sei por
mos também que essa inv lle ela estava junto
. Nã

s ua filha desencarnada, e gtáveis, já que foram lá só para
a
por impre
ue se interessam
sgatá-los· anos de imp  - meu

- Por que chama os toxicôm restáveis.
iai inda ou.
- Nem racioci-
 - respondeu ele rindo.
- São outra coisa.
para expenências. Droados sãomfr encar-
nam mais! Só servem uando se quer vingar de algu
inúteis. Não é à toa que, q ele tiver tendência, perde-se
nado, incentiva-se-o ao  mpletamente escravo da droga e
nos tóxicos, tornando s · Viciados são fantoches, farrapos
presa fácil de seus vingadores m terem levado de lá os impres-
. Natan não achou rui
humanos m entrado lá sem peissão.
táveis. Irritou-se por tere permissâo, ele consentiria? - inda-
- Se eu tivesse pedido

gou meu pai· d ria os imprestáveis - respondeu

- Entrar lá não! Mas lhe a
,
le rindo cinicamente. istiu meu pai, que
com
! e  - ins
' - Daria mesmo. conversava
orientador encamado da casa.
ele como - não todos ou nem tantos,
talvez

- Ora - respondeu ele  me atormentar mais ainda os
lhe liberasse alguns. É nosso costu

que são do interesse dos bons.

Fez uma pausa. infelizmente, é o q
ue o desencarnado falou, ue costu-
não é regra g
eral. Sendo assim, ao notar
ma acontecer, porém, do interesse dos socor-
seus domínios é








I g PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO
presumindo que, desse modo, vingam-se dos interessados. Por
isso, sempre se faz com cautela a demonstração desse interes-
se. Logo após a pausa, em que ele observou bem o local
,
continuou a falar calmamente.
- Deixemos de conversas! Natan exige a devoluçâo de
todos e desculpas com pompas. Quer a reparação! Você com
seus comparsas devem ir ao Umbral em horário marcado e
, na
frente dos convidados dele, se desculparem.
- Volte e diga a Natan que não quisemos afrontá-lo
p p . Mas,
or circunstâncias articulares e justas, tivemos que ir lá. Não
Ihe devolveremos nenhum dos que nos pediram abrigo e infe-
lizmente nâo faremos o que ele quer.
Todos nós presentes, tanto os encarnados fre
q
quanto os desencamados, sabíamos que Natan atrav s de uma
ligação com o seu enviado, estava vendo e ouvindo o
ria na reunião que ocor-
. Mas, como ele mandou recado recebeu res osta
para que o portador a levasse até ele. O desencamado irrpitou-
se com o que ouviu, porém controlou-se e respondeu:
- Quero deixar claro que ninguém estava lá obrigado. Se
existiam al uns presos foi por não cumprirem obrigações. Vo-
cês estâo arrumando confusão. Vou embora e darei o recado.
Afastou-se da médium. O desencarnado falava a verdade
P
,
ois nos domínios do Túnel Negro ninguém pemzanecia obriga-
do. Os viciados iam lá à procura da droga e submetiam-se aos
piores vexames e situações humilhantes ara conseguir o sus-
tento para seus vícios. p
O outro que viera junto e que observava tudo
hegou pert e q
companheiro falava, c , n uanto o
Centro e pediu:
o de um dos trabalhadores do
- Será que vocês não me abrigariam? Gostei daqui, quero
ficar.
- Certamente que sim.
Ao se afastar da médium, o enviado de Natan
pelo amigo e o viu na fila dos que iam p Procurou
socorridos. Olhou ara a Colônia, como
para ele e não falou nada. Saiu do Centro
Espírita e foi cumprir a tarefa que lhe impusera o chefe.
Como previsto, Natan não gostou da resposta e, no dia


O VÔO DA GAIVOTA 109

seguinte, preparou bem seus servidores, armou-os e orde Ç u
que fossem ao Centro Espírita e o invadissem. Deu instru ão
para expulsarem todos que lá se encontrassem e quebrarem
tudo, mas não foi junto, ficou no Túnel Negro.


Artur, prevendo o ataque, organizou a defesa do Posto e do
Centro Espírita, para que todos os aguardassem tn áqalm perto,
taram realmente invadir, mas, quando se enco

Artur e os companheiros foram ao encontro deles, dominando-
os ela força mental, imobilizando-os. Levaram-nos, em seguida,
pa á o átio, já desarmados, e depois os encaminharam para o
Posto, acomodando-os numa sala própria. Tudo normalizado,
Artur conversou com eles, durante horas. Perguntavam sobre
tudo e Artur os esclarecia. Viram a Colônia, pela tela, e lhes foi
oferecido socorro médico e abrigo. Após, Artur abriu a porta da
sala e disse:
- Podem sair os pue quiserem, só que irão sem as armas.
Os que desejam ficar conosco serão bem-vindos.

Muitos se mostravam indecisos. Se voltassem, seria como
fracassados, não tendo cumprido a tarefa que lhes fora confia-
da. Temiam o chefe, mas gostavam da vida que levavam, e não
queriam mudar. Foram poucos os que gostaram do que lhes foi
oferecido por Artur, em nome de todos os trabalhadores do
Centro. Muitos dos desencarnados que vagam pelo Umbral, não
têm idéia de outra forma de vida na espiritualidade e, ao co-
nhecer, geralmente aceitam, querem a mudança. Outros,
indiferentes, preferem mesmo é continuar como estão. Do gru-
o de Natan, alguns ficaram na sala, mas a maioria saiu. Muitos
pe dirigiram para o Umbral, onde iriam vagar sem rumo, pois
não tinham disposição de voltar ao Túnel Negro, de vez que
temiam Natan. Outros, mais corajosos, voltaram, e ficamos
sabendo depois que não foram castigados. Os que permanece-
ram e aceitaram socorro, foram encaminhados para a Colônia,
para a Escola de Regeneração. As armas deles, feitas do mes-
mo material que constitui nosso perispírito, foram destruídas.

Natan mandou dois de seus servidores, os de sua confian-
ça ara ficarem perto de meu pai e eles trouxeram outros dois

' p , que foram induzidos a pensar que
desencarnados, viciados


110 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

meu pai ia lhes dar drogas. Desencamados nesse estado têm
fluidos pesados e angustiantes. Por isso, Artur levou os dois
viciados para o Posto do Centro, onde receberam os primeiros
socorros, sendo depois orientados em reunião, da mesma for-
ma que Walter, e obtiveram o mesmo êxito. Artur fez um
esquema especial de proteçâo aos médiuns e freqüentadores
do Centro, para que nâo fossem atingidos pelas vibrações dos
seguidores de Natan, como também para as pessoas que sem-
pre estâo com meu pai, inclusive os familiares. Os outros dois
,
os servidores de Natam, meu genitor convidou-os para ficarem
com ele. Seguiram-no de perto, por dias.
Natan, vendo seus dois melhores auxiliares em perigo,
chamou-os de volta. O perigo, para ele, era o de se converte-
rem. Meu pai ora, medita, lê e faz com que os desencamados
que estâo junto dele, escutem. Trata-os com bondade, porém
com firmeza e nâo aceita suas interferências. Apesar de cansá-
lo muito essa conduta, ele sabe que tem de estar vigilante vinte
e quatro horas por dia. E esse tipo de pressão o tem feito cres-
cer, porque o "orar e vigiar" o coloca constantemente em vibraçâo
maior, que atinge os desencarnados de forma diferente, levan-
do-os a retletirem e a pensarem em Deus.
Natan veio encontrar-se com meu pai. Esperou-o à noite,
perto do Centro Espírita, e disse a um dos guardas que queria
falar-lhe. Meu pai foi ao seu encontro.
- Você é um feiticeiro terrível! - disse Natan. - Não quero
que nenhum dos meus companheiros sofra sua influência. Exijo
uma reparação sua e tudo ficará por isto mesmo, mas que vá
ao Túnel Negro e me peça desculpas. Abro mão do resto.
A palavra "feiticeiro" foi empregada por ele, para definir
aquele que tem força mental e que a usa tanto para o bem
como para o mal. E o tom de desprezo seria para ofender.
Desencarnados que, temporariamente estâo seguindo o mal,

15 - Anteriormente, o Sr. José Carlos havia convidado dois espíritos para
ficarem ao seu lado e agora convidou Natan. Para fazer isto, é necessário
ter muitos conhecimentos e moral elevada. Alerto os encarnados, para não
agirem assim, sem o preparo devido. (N.A.E.)


O VÔO DA GAIVOTA 111


gostam de chamar meu pai assim, como também de indiano,
porque ele, em muitas encamações, teve a Índia como berço.
- Você tem me observado - respondeu meu pai -, deve
saber que sempre que erro, peço perdão de coração. Nunca
peço por orgulho, pois levo muito a sério o ato de me desculpar.
Quando o faço, é porque entendi que errei e procuro não mais
incidir nessa falta, para não ter que me desculpar pela segunda
vez pelo mesmo ato. Isto porque, reconhecendo meu erro, me
esforço para melhorar. Não me arrependi por ter ido ao Túnel
Negro e libertado não só o desencarnado, que foi o motivo de
socorro, mas todos os que quiseram nosso auxílio. Faria de
novo, por isso, em respeito a você, não posso me desculpar.
Para nos reconciliarmos com alguém, mesmo não sendo
culpado, não nos custa pedir desculpas. Meu pai com sua atitu-
de estava querendo ajudar Natan. Tentava fazer que esse espírito
se voltasse para Deus.
- Atormentarei você! - exclamou ele.
- É um direito seu - respondeu meu pai. - Convido-o a ficar
comigo.'5 Só que eu também tenho direitos. Você tentará me
atormentar, atingir-me, eu me esforçarei para não receber sua
influência negativa, como também tentarei transmitir-lhe as
minhas sugestões. Terá que me escutar! Será só entre nós dois.
O mais forte irá influenciar o outro. E o mais forte será aquele
que tiver a vida, os pensamentos e as atitudes baseados na
verdade. E a verdade nunca será produto de nosso desejo, es-
perança ou ambição, mas, sim, sempre a mesma, infinitamente,
no tempo e no espaço.
- Não sou de fugir de desafio. Vou agora ao Túnel Negro
tomar algumas providências e voltarei. Aguarde-me!
- Não o estou desafiando. Será um prazer conviver com
você! Vamos aprender muito um com o outro.
Natan afastou-se, já havia perdido muitos dos seus segui-
dores e achou que só ele estaria apto a dar uma liçâo merecida
naquele que, em sua opiniâo, o desafiara. Estava com raiva de
todos do grupo, e com os desencarnados, sabia por antecipaçâo
que nâo podia com eles. Com meu pai era, porém, diferente,
ele estava na came, sujeito a muitos condicionamentos e me-


112 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

lindres devido às necessidades e funções do corpo, sendo assim
mais fácil de atingir e prejudicar. Entendia que, atingindo um
encamado, atingiria todo o grupo. Organizou, então, o Túnel
Negro para que continuasse a funcionar sem ele e, assim, no
outro dia, foi ao encontro de meu pai e começou a acompanhá-
lo de perto. Meu genitor continuou com sua vida normal, de
trabalhador no plano físico e espiritual. Natan nâo ficou, de
imediato, como obsessor de meu pai, mas sim curioso, e com
raiva daquele momento, quis conhecer como era o dia-a-dia de
uma pessoa tão diferente das com que convivera.
Natan pressionava meu pai. Forçava-o a pensar em coisas
mundanas, para que baixasse a vibraçâo. Meu pai, por outro
lado, meditava em coisas superiores e Natan era forçado natu-
ralmente a sentir as mesmas coisas. Percebia as sugestões e
desejos terrenos. Porém, mostrava mentalmente a Natan a es-
tupidez e a mediocridade daqueles que usam as necessidades
e funçôes do mundo físico, como propósito de vida. À noite
,
meu pai desligado do corpo físico se dirigia para o trabalho
espiritual e Natan ia junto. Encaminhava-se ao Posto do Centro
P ,
ara cuidar dos doentes, conversava com os socorridos, e ele
ao seu lado. E foi assim, por muito tempo, até que Natan come-
çou a se interessar pelo trabalho realizado no Posto, e começou
a falar de si, e meu pai atenciosamente o escutou.
Natan foi médico, quando encarnado. Ambicionando enri-
quecer, usou a medicina somente como profissâo para ganhar
dinheiro. É preciso lembrar que o trabalhador faz jus ao seu
salário, mas nenhum profissional deve só visar o lucro, mas sim
fazer também, através de seu trabalho, todo o bem possível.
Médicos lidam com dores e por isso devem, também, ser hu-
manitários. Trabalharem pelo sustento material, sim, mas sem
se esquecerem de fazer aos outros o que queiram que lhes
façam. Natan fez muitos abortos e receitou remédios proibidos,
desde que lhe pagassem. Mas a desencarnação chegou e se viu
diante de muitos inimigos que queriam vingança. A situação o
apavorou demais, primeiro porque era ateu, segundo, porque
aquele bando o atormentava sem poder destruí-lo. Vingavam-
se por tê-los impedido de reencarnar, ou por não terem sido
atendidos, porque não podiam remunerá-lo. Estava irado


O VÔO DA GAIVOTA 113

quando o tiraram de seus perseguidores. Eram espíritos, mora-
dores de uma cidade umbralina, que vieram e o levaram. O
chefe dessa cidade sabia quem ele era, mas deixou que sofres-
se por uns tempos, para que ficasse lhe devendo obrigação.
Natan não é o nome verdadeiro dele, tendo escolhido esse
cognome tempos depois, talvez para impor mais respeito a
seus inferiores. Levado à cidade umbralina, o chefe conversou
com ele e lhe ofereceu abrigo em troca de seu trabalho como
médico. Natan não era ocioso, sempre foi trabalhador, por isso
aceitou e se aliviou por ficar livre do bando que o perseguia,
mas com o qual aprendera tantas maldades. O chefe daquele
local, no intuito de organizar um lugar especializado em tóxi-
cos, fundou o Túnel Negro e o colocou para administrá-lo. Com
o passar dos anos,  chefe se desinteressou pelo lugar e Natan
ficou sendo o senhor absoluto.
O Túnel Negro não forçava ninguém a ficar lá e nem seus
moradores saíam à procura de desencamados para irem lá. Os
viciados desencarnados é que o procuravam, em busca das
drogas. Só que, depois de serem abrigados, tinham que seguir
as normas da casa e trabalhar para eles. Existem muitos luga-
res, abrigos, cidades no Umbral, para onde os desencarnados
viciados são levados como prisioneiros. Como também há ou-
tros lugares, como o Túnel Negro, onde os desencamados não
sâo obrigados a ir e nem a permanecer. É lugar de livre acesso.
Mas Natan era insatisfeito e isso lhe doía e o atormentava.

Instalou-se, então, a troca de fluidos entre eles. Meu pai
começou a sofrer os de Natan, sentindo doer-lhe por dentro,
como um vazio profundo. Certo dia, meu pai estava meditando
e Natan perto dele, quando meu genitor lhe disse:

"Natan, é falta de Deus! É a ausência do Pai em você que
lhe dói tanto. Você era ateu, mas não pode dizer agora que
ainda o é. Por que, então, não se aproxima do Pai?"

Natan não respondeu e se afastou. Depois de meses, era a
primeira vez que se afastava. Recolheu-se num canto no Um-
bral e pôs-se a pensar. No dia da reunião, quase no horário de
começar, ele entrou no Centro, pediu licença e se colocou na
fila dos que iam receber orientação, pela incorporaçâo. Estava
diferente, sem seus colares e suas armas.


114 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK nR f auvnr un

Na sua vez de se comunicar, aproximou-se educadamente
de uma médium, cumprimentou meu pai e disse:
- Você me venceu!
- Nâo! Natan, você não lutou comigo. Mas lutou consigo
mesmo. Era a ausência de Deus que o atormentava. Você é
infeliz e apenas o convidamos a aprender a ser feliz. Fico con-
tente por você querer mudar. Gosto de você! Venha viver uma
vida digna de um espírito.
- Quero ser seu amigo! - exclamou Natan emocionado.
- Sejamos então amigos! Preciso muito de amigos.
Natan foi levado para a Escola de Regeneração. Após ter
feito o curso, foi trabalhar num Posto de Socorro do Umbral
onde exerce seus conhecimentos de Medicina, em socorro aos
necessitados. Sempre que pode vai visitar meu pai e assistir às
reuniôes do Centro. Trabalha muito. Artur, sempre que o vê,
costuma dizer de forma carinhosa:
"Ama muito, porque foi muito perdoado!
Artur falou, modificando o texto do Evanelho de Lucas
VII:47. "São lhe perdoados muitos pecados, porque muito amou."


O Médico 1`azista




Quando fomos assistir à recuperação de Walter, na reunião
do Centro Espírita, defrontamos com um caso muito interessan-
te que me chamou atenção e, por isso, acompanhei o desenrolar
do drama.
Estávamos aguardando o início, quando chegaram três pes-
soas: um casal com a filha adotiva. O casal, principalmente a
senhora, queixou-se que a mocinha, a filha, continuava tendo
suas crises.
Artur me explicou que Joana, assim se chamava a jovem,
era médium e estava sendo obsediada por alguns espíritos,
suas vítimas no passado. Tinha crises, em qualquer hora e lu-
gar, e procurava meu pai, em horários inoportunos, para Ihe dar
passes, porque só assim se acalmava.

Minha mãe foi sentar-se ao lado dela, porque, conforme
me explicaram, logo que entrava no Centro, começavam suas
crises, e era necessário alguém perto que a controlasse. Seus
obsessores possuíam sobre ela o domínio psíquico, mesmo à
distância. Queriam que sofresse, pois ela os havia prejudicado.

Gosto muito de ver minha mãe, pois amamo-nos muito. É
a pessoa de quem mais gosto, e sempre que me é possível vou
visitá-la, ficar ao seu lado, porque me é prazeroso.

Joana é uma mulata forte, de olhar malicioso, demons-
trando nâo estar a fim nem de orar, nem de melhorar. Ali está
por imposição dos pais e para ficar livre de suas crises, que
considera ridículas e que lhe fazem passar vergonha. O seu


116 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

obsessor chefe era inteligente e sutil e, como ela tinha má
índole, passou a incentivá-la a fazer uso da maldade, chegando
a ponto de incorporar, utilizando-a como médium, e tentar ma-
tar a mãe e o pai. Fazia com que descuidasse completamente
da disciplina pessoal e dos compromissos próprios de sua ida-
de, para envolvê-la no seu ardil. O desencamado transmitia-lhe
acontecimentos do passado das pessoas para que, assim, domi-
Ì
nasse as mais fracas que a cercavam.
Quando foi levada até a casa de meu pai, o obsessor acei-
tou, porque confiava que iria dominar qualquer encamado com
que defrontasse, sentindo-se assim forte no seu orgulho e pre-
tensão. Vencidos os primeiros embates, o obsessor sentiu-se
admirado pela força que desconhecia e quis, então, aprender
com eles, com o grupo do Centro, não para melhorar, mas para
ficar mais poderoso.
" Artur me pôs a par dos acontecimentos. Joana, em sua
encarnação anterior, fora um médico nazista e praticara muitas
maldades e experiências com os judeus. Reencamou longe da
Alemanha, num corpo feminino e mulato, mas mesmo assim
foi encontrada pelos que não a perdoaram. Sabiam que ela
comparecia ao Centro para se livrar deles, os obsessores. Sor-
rindo e com seu modo agradável, Artur comentou:
- Patrícia, seu pai, por ajudar a jovem, está sofrendo com o

"
rancor desses obsessores. Mesmo assim, está ajudando-a, em-
G: bora sabendo que ela nâo gosta daqui nem dele e que, assim
que se sentir livre dos desafetos, não voltará mais. Socorremos
i para mostrar aos encarnados a força espiritual de que dispôe
;
um Centro Espírita, desde que se trabalhe em prol do bem
comum, e também dos que vêm pedir ajuda.
Prestamos atenção na orientação que meu pai deu aos três
encamados: pai, mãe e filha.
- Só ficamos livres do nosso passado trabalhando no bem,
no presente. Para nos livrarmos de obsessores, devemos pedir
perdâo, perdoar e nos harmonizar com as Leis Divinas. Precisa-
mos entender que os espíritos têm seus motivos para perseguir
as pessoas, por isso devemos entendê-los e tentar amá-los,
porque eles também necessitam de ajuda. Para nâo sermos


n vô0 DA GAIVOTA

atingidos pelos obsessores, devemos mudar nossa vibraçâo,
sair da faixa mental deles, isto é, pensar em coisas boas e
superiores e agir de modo digno, trabalhar no Bem e amar
muito. Vocês aqui estão em busca de auxílio, porém devem
ajudar a si mesmos. Certamente, quando você se sentir bem,
Joana, não voltará mais aqui. Porém, quero lhe dizer uma coi-
sa, você é médium e necessita aprender a lidar com sua
faculdade e trabalhar muito no bem, para viver tranqüila e sem
essas crises. Mas, se você se afastar do Centro Espírita e não se
modificar, a situação que vive agora voltará sempre. Os Centros
Espíritas estão melhor preparados para ajudar nos casos de
obsessão, ensinando a lidar com a mediunidade para o bem, e
em suas reuniôes ouvirá ensinamentos que ajudarão a sua re-
novação interior.
Joana não gostou muito do que ouviu, mas ficou quieta.
Quando começou o trabalho de desobsessão, três dos que
a estavam importunando, se comunicaram. Os três, dois ho-
rr.ens e uma mulher, foram judeus, ou ainda eram, pois o fator
raça se mostrava ainda forte neles. O primeiro estava sem um
braço e sem o olho esquerdo. Cumprimentou mal-humorado,
não queria conversar com ninguém, foi perto do médium con-
tra sua vontade e falou com raiva:

- Por que interferem no que é justo? Embora tenham outra
religião, vocês amam a Deus. Nunca ouvi falar de religião deste
jeito. Oram, dizem fazer o bem, conversam com os mortos,
mas ajudam os criminosos. Isto não está certo. Por que o aju-
dam, esse monstro sanguinário?

O desencarnado desconhecia o Espiritismo, estranhando o
intercâmbio mediúnico e o ensinamento de que todos somos
filhos de Deus e, por isso, irmãos uns dos outros.

- Se eu lhe disser que queremos é ajudar você... - come-
çou a dizer meu pai, porém foi interrompido por ele.

- Ah, mas por que nâo nos avisaram logo que querem se
unir a nós. Quanto mais, melhor!
- Você nâo entendeu, queremos ajudá-lo a se recuperar, a
tomar-se sadio, a viver de modo digno, num lugar propício.

- Quem lhe falou que quero ser sadio? - indagou nervoso.


118 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

- Já me propuseram isto uma vez e não aceitei. Quero ficar
como ele me deixou, para ter sempre motivo para odiá-lo.
- Você sofre e faz sofrer - disse meu pai.
- Nem começamos. É melhor dizer: sofre e faremos sofrer
cada vez mais - respondeu ele.
- Não vale a pena! Você já pesquisou por que sofreu as-
sim? Se sabe que continuamos a viver após a morte do corpo,
que reencarnamos e, por isso, é que você o está perseguindo
reencarnado em outro corpo? Então sabe que viveu encamado
outras vezes. Uamos, irmão, recordar seu passado?
A equipe desencarnada, já pronta, colocou à sua frente a
"tela", que é como na espiritualidade chamam este aparelho.
Ele é denominado de muitas maneiras, havendo alguma dife-
rença de um local para outro, mas é sempre o mesmo e muito
,'; útil. O espírito que se comunicava fora, na encamação anterior
também judeu e, numa guerra, havia trucidado muitás pessoas,
entre elas jovens e crianças. Ao recordar, deu gritos lancinan-
P ,


,.
tes, mas o médium, treinado, só alterou um ouco a voz isso
porque não é necessário gritar. Acalmaram o desencarnado
que, com difculdade, voltou a falar.
- Olho por olho...
- Não, meu amigo - disse meu pai. - É a lei do retorno:
você plantou, você colhe. Não precisaria sofrer assim, se tives-
f.
se entendido a lei do Amor e feito o bem.
- Ela também pagará pelo que fez? Pelo que entendi, se
ela não Fzer o bem, sofrerá o que me fez sofrer. Você não irá
conseguir fazer dela uma pessoa boa. Que será dela?
- Deixe-a, irmâo, deixe-a! Cuide de você. Vamos ajudá-lo,
pense em Deus. O Pai é bondoso e nos ama.
A equipe médica entrou em açâo e com os fluidos doados
P
; pelos encarnados e também ela vontade do espírito que, ago-
ra, queria tornar-se sadio. O braço se curou e ficou perfeito,
como também o olho.
i' - Perdoe, irmão, para ser perdoado!
- Como nâo perdoar, se devo tanto? Perdôo e peço perdão
a Deus. Queria ir para junto dos meus, lá na minha terra.


n vÔ0 DA GAIVOTA 119


- Atenderemos seu pedido.

Ele saiu de perto do médium e passou para outra fila, a dos
que iam para a Colônia. Após a reunião, seria levado à Colônia
São Sebastião por uns dias e, depois, seria transferido para
onde quisesse. Uma equipe o levaria.

Normalmente reencarnamos em diferentes raças, para
aprender amar a todas. Mas, sem ser regra geral, alguns judeus
mais radicais ainda têm preferido vir sempre como judeus, a
esperar o Messias, pois se julgam os filhos escolhidos, o povo de
Deus, mas são, realmente, como todos nós, porque não somos
privilegiados pela raça. Aqueles desencarnados, totalizando
onze, estavam há algum tempo, nas regiôes espirituais do Bra-
sil, à procura, para vingar, deste espírito, que fora um médico
nazista. Já começavam a dominar o idioma português, pois o
médium que o auxiliou, sempre consciente, não precisou se
expressar com sotaque. Devemos esclarecer que o médium
transmite o pensamento do espírito e, nestes casos, sentem
mais do que propriamente repetem o que escutam. A mediuni-
dade, quando educada, é maravilhosa, e assim possibilitou que,
ele, judeu, transmitisse pensamentos que o médium traduziu
por palavras.
O outro judeu se incorporou em outra médium e foi doutri-
nado por uma integrante encamada, do grupo. Lídia conversou
com ele e o fez entender a necessidade de perdoar e seguir seu
caminho. Ele, porém, quis ficar em nossa Colônia e, quando
fosse reencarnar, preferia que fosse aqui. Não gostaria mais de
ser judeu, porque, segundo comentou, os judeus sofriam muito
com a segregação. Normalmente esses pedidos são atendidos,
porém o departamento próprio da Colônia é que estuda cada
caso.
A mulher também incorporou. Parecia fria, porém ao sen-
tir o afeto dos trabalhadores da casa, encarnados e
desencarnados, conteve-se para não chorar, e disse com voz
comovida:
j
- Não sou má, ele, sim, é maldoso. - referindo-se à ovem
Joana. -Esconde-se em outro corpo, mas é ele. Pensa você que
ele é bom? Não! Nos enfrenta e, se pudesse, nos faria sofrer


120 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARvAl.un

tudo novamente. Você acha que é por persegui-lo que somos
maus? Somos vítimas! Vou falar o que ele fez comigo e, então
me dará razão.

Fez uma pausa eomo se criasse coragem para recordar e
começou:
- Estava casada e feliz, tínhamos uma pequena fortuna e
dois flhos lindos. Quando a Segunda Guerra Mundial começou,
nos apavoramos, porque sabíamos muito bem que os nazistas
perseguiam os judeus. Meu esposo alistou-se no exército, na
tentativa de impedir que eles nos oprimissem, no país em ue
vivíamos e, por isso, morreu lutando. Quando houve a invasão
q
de nossa cidade, fomos presos e nossos bens confiscados. Da
prisão partimos para o Campo de Concentração, onde sofremos
muito: frio, fome e humilhaçôes. Naquele Campo havia um
laboratório onde este médico medonho e outros faziam experi-
ências com os presos, ou simplesmente os torturavam pelo
prazer de vê-los sofrer.
Ao ver meus filhos chorarem de fome e frio, e com muito
desconforto, resolvi pedir clemência. Solicitei para falar com o
comandante e, para minha surpresa, ele me atendeu e me
levou à sua sala. Quem me atendeu foi esse aí, o médico
nazista, que me olhou de cima a baixo e me indagou:
"Então, judia, que reivindica?"
q P P P
Pensando ue ele ia me ajudar, falei rá ido ara não er-
der a coragem:
"Por favor, senhor, aqui estou com meus dais filhos peque-
nos, passamos fome e frio."
"Se você se entregar a mim, intercederei por vocês" - disse
rindo.
Sempre fui muito direita, fiel ao meu esposo, porém, pelos
meus 6lhos, aceitei a proposta indecente. Depois, ele mandou
que um soldado fosse buscar meus filhos. Achei que, pela felici-
dade dos meus, teria valido o sacrifício. E, esperançosa, quando
pensei que fosse me dar ajuda, meus dois filhos chegaram
assustados e correram ao meu encontro. O mais velho estava
com quase sete anos e o outro, com quatro. Gelei quando ouvi
a ordem.


O VÔO DA GAIVOTA 121


"Leve-os ao laboratório!"
Era no mesmo prédio, na sala ao lado. E cada soldado
pegou um de nós e para lá fomos arrastados. Amarraram-me
fortemente numa cadeira e ele, cínico, me olhou sorrindo:
"Idiota! Judia imbecil! Pensou que eu ia me encantar por
você? Verá para que serviu sua astúcia em me pedir auxílio."
Pedi a ele por piedade, pelo amor de Deus, para fazer o
que quisesse comigo, sem maltratar meus filhos, porém ele ria.
0 que me fez ver foi horrível. Torturou meus filhos, cortou-os
em pedaços até que morressem. Eles gritavam apavorados,
olhando para mim e eu gritava também. Quando os dois não
tinham mais vida, veio me torturar. Começou, extraindo mi-
nhas unhas. Fiquei alucinada e, aí, perdi o controle, pois a dor
era demais. Mas ele não me torturou muito, desencamei, pois
meu coração não agüentou. Fui socorrida e fiquei muito tempo
como louca e, quando voltei ao normal, alguns espíritos me
disseram da possibilidade de vingança. Aceitei e agi, com todas
as minhas forças, para me desforrar.
Faço uma pausa nesta narrativa, para algumas explica-
çôes. Nos Campos de Concentração, como em qualquer lugar
de aniquilamento humano, há muitos socorristas, como tam-
bém há muitos desencamados que agravam os acontecimentos.
Do mesmo modo, costumam ficar outras vítimas a socorrerem
suas companheiras de sofrimento. Esta senhora foi socorrida
por outros judeus, que ali haviam desencarnado. Não foi, as-
sim, socorrida por espíritos bons, porque ela estava com muito
ódio. As crianças e aqueles que perdoavam, eram levados às
Colônias ou a outros lugares de socorro. Os que eram vítimas,
tanto quanto ela, a socorreram, levando-a para um pequeno
abrigo no Campo de Concentração, no Plano Espiritual e, quan-
do ela aparentemente estava melhor, foi convidada a se vingar.
A guerra é por demais triste, pelas atrocidades que se come-
tem. Esforcemo-nos, pois, para que haja Paz, começando com
a tolerância e a concórdia com os que nos cercam. A Paz come-
çará em pequeno círculo, mas se a cultivarmos irá se ampliando
e atingirá muitos outros e, dessa forma, um dia teremos a Paz
por toda a Terra. E fatos como esses, tão tristes, ficarão apenas
na história e não mais se repetirão:


122 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARIN7.Rrr nF rnnvn u,

A senhora emocionada, continuou a falar.
'
- Ficávamos perto dele sem, contudo, conseguir nossos
, propósitos e ele 6cava mais nervoso e revidava nos risionei-
ros. Mas a desencamação chegou para ele, quando foi atingido
P
por uma granada. Sofreu bastante. Aí, sim, começamos nossa
vingança. Nós o perseguüamos por onde ia, e ele vagava urran-
do pelo Umbral, até que se pôs a gritar por socorro e sumiu da
nossa frente. Vim a saber que espíritos bons o tinham levado
para ajudá-lo. Nós nâo fomos socorridos, nâo queríamos, por-
que nosso objetivo era fazê-lo sofrer. Durante esse tempo, muitos
i:
desencarnados bons conversaram conosco, aconselhando-nos
I a desistir, mas escutávamos somente nossos companheiros.
Entretanto, vários do grupo desistiram e os acompanharam. Por
outro lado, ninguém se esconde de seus erros e nem dos que
não o perdoaram. E assim, enquanto procurávamos o perverso,
;
aprendemos como nos vingar. Anos se passaram, mas conse-
q ?
guimos descobri-lo. Agora querem ue eu desista Por acaso
aqui há mães e pais? Será que podem imaginar o que é ver o
que eu vi? Sofrer o que sofri? Dá para imaginar ver seus filhos
amarrados, gritando de dores e desespero? Odeio-o! Odeio-o!
Fez-se um silêncio total. Todos os desencarnados presta-
ram atenção, muitos, ao ouvi-la, conseguiram ver suas
lembranças. Alguns choraram. Os encarnados também se co-
moveram. Ela sentiu os fluidos de amor e compaixão de todos.
E, em dado momento, uma das trabalhadoras da casa, em
espírito, aproximou-se dela, abraçou-a e falou emocionada:
- Minha flha, pare de sofrer! Por favor, recomece sua vida.
Também sou mãe e entendo seu sofrimento. Compreendo seu
desejo de vingança, porém, digo-lhe que dessa forma você vai
perpetuar seu sofrimento. Venha para junto de seus amados e
í não sofra mais! Chega! Perdoe e venha conosco. Amarei você
como uma filha! Venha!
- Minha irmã! - falou meu pai. - Ele reencamou, e você
parou no tempo só para se vingar! Por que não recomeça e
tenta ser feliz? Devemos esquecer os momentos ue nos foram
cruéis e só lembrá-los para tirarmos alguma lição. É bem me-
q
Ihor pensar somente nos bons momentos. Você é infeliz! E
;j recordando sempre esses fatos, prolonga mais seu sofrimento.
t'


O VÔO DA GAIVOTA 123

llocê acredita em Deus, e se Ele nos perdoa por que não perdo-
a,rá nosso próximo? Sabe que nada que acontece fica escondido
ou impune. Deixe seu algoz, agora Joana, em seu novo corpo, e
cuide de você. Perdoe para ser perdoada!

- Quero esquecer! Esquecer!..

Aninhou-se nos braços da trabalhadora da casa que a abra-
çou e, após, foi levada adormecida para a Colônia. A reunião
terminou com todos comovidos pelo sofrimento daquela senho-
ra, e eram muitas as orações em seu favor. Emocionei-me,
também, ao acompanhanhar suas lembranças, realmente du-
ras cenas de horror.
Talvez possam vocês pensar que retrato muitas tristezas
neste livro. É que as tristezas e as alegrias existem e devemos
ser realistas, tirando de fatos tristes lições preciosas que nos
impulsionarão com otimismo para o caminho do Bem e para a
felicidade. Ao tomar conhecimento de fatos assim, consegui-
mos entender ambas as partes, e ajudar sem condenar. Por isso
como sou alegre, passo minha alegria aos que me rodeiam. A
alegria nos fortalece, nos anima e nos dá compreensão da dor
do próximo.
Aquela senhora foi intemada num hospital da Colônia onde
recebeu, por tempos, tratamento, carinho e ensinamentos. A
equipe da Colônia encontrou seus dois filhos e esposo, encama-
dcs na Europa, e a levou para vê-los. Estavam os três bem.
Depois de algum tempo, ela pediu para ser transferida para a
Colônia, na espiritualidade, onde estavam seus entes queridos.
Estando bem melhor e com planos para reencarnar, porque só
assim esqueceria tanto sofrimento, foi transferida. Despedi-me
dela desejando-lhe boa sorte.
Mas ainda faltavam oito obsessores. Sete receberam orien-
tação e ajuda, nas reuniões seguintes. Com cada um deles,
uma história triste. Desses onze que obsediavam Joana, com
desejo de vingança, dez foram socorridos e só um pediu para
trabalhar no Plano Espiritual. Os demais pediram para reencar-
nar, pois queriam a misericórdia do esquecimento. E todos foram
atendidos.
Contudo o chefe dos dez obsessores, de nome Josef, era


124 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHn

um judeu rude que, ao ver os três primeiros se afastarem, vol-
tou-se furioso contra meu pai, que, como sempre acontece,
sentiu-lhe a vibração e tentou, também, orientá-lo.
Artur soube que o grupo tinha seu núcleo na Europa e foi
lá, para conversar com eles. Eram vingadores dos criminosos
de guerra, que se intitulavam: "Os Ofendidos da Guerra". Cons-
tituíam-se em vários grupos, todos unidos entre si. Artur pediu
uma audiência com o chefe, um judeu de muitos conhecimen-
tos.
Após cumprimentos, Artur começou o diálogo. E nos con-
tou, depois, que o chefe tinha total conhecimento do que
acontecia com seus subordinados, junto a Joana, e não deixou
que ele, Artur, falasse muito. Citava com exatidão pedaços do
Antio Testamento. Sabia a Biblia quase que de cor Falava de
muitas passagens para justificar a vingança.
"É olho por olho, dente por dente!" - falou demonstrando
calma.
Artur replicou com os ensinamentos de Jesus. Ele disse
não acreditar num profeta que se deixou matar. Mas, após al-
guns minutos de conversa, confessou que reconhecia a força e
a presteza dos trabalhadores de Jesus. Artur lhe pediu, então,
que parasse com as vinganças; ele riu, se aquietou por momen-
tos, e falou decidido:
"Não é nosso interesse o confronto com ninguém. Temos
tempo. Vou suspender a vingança dele por enquanto. Chamarei
Josef, o único que ficou, e que é o mais decidido em seus
objetivos. Só faço um aviso: teremos outra oportunidade. O
mais difícil já conseguimos, pois sabemos onde ele está, que se
esconde num corpo de mulher quase negra. É castigo para ele,
orgulhoso de sua raça, ter sido loiro e rico, agora quase pobre,
mulher, mulata e flha adotiva. Acharemos outros que o odei-
am. Ele certamente não fcará para sempre na guarda de vocês,
porque não mudou sua conduta."
De fato, Josef foi embora e Joana ficou livre dos seus ob-
sessores, não porém de seus erros. Meu pai chamou-a e a seus
pais também, para uma conversa.
- Vocês vieram à procura de ajuda espiritual e a recebe-


O VÔO DA GAIVOTA 125

ram. Analisem o ocorrido e tirem boas lições de tudo o que lhes
aconteceu. Esses fatos são, em parte, conseqüência do passado
e o resultado da maneira de viver sem esforço para a melhoria
íntima. Você, Joana, está com sua sensibilidade completamen-
te aflorada, isto quer dizer que você tem a porta aberta para
receber influência do mundo astral, sem, entretanto, agora,
poder discipliná-la. Só terá influência e sintonia com espíritos
bons, por meio de boas atitudes e de bons propósitos. E ficará
ligada aos maus, se descuidar do seu aprimoramento espiritu-
al. Se você se afastar do Bem, da oração sincera, e não se
esforçar para mudar para melhor, não nos responsabilizaremos
pelos acontecimentos futuros. Afastando-se também da ajuda,
tudo que passou mais facilmente se repetirá.

Joana não estava preocupada com o aprimoramento espi-
ritual. Queria era força e poder. Dominar. Mas indagou a meu
pai.
- Sr. José Carlos, posso aprender com o senhor.

- Claro que pode. Deve!

- Vou ter essa força que o senhor tem?

- Poderá ter esta e muito mais. Mas, para isso, deve pri-
meiramente educar-se na boa conduta e fazer por merecer a
companhia dos trabalhadores desencamados que convivem co-
nosco. Mude para melhor e queira com vontade fazer o Bem,
porque agindo assim aprenderá e muito.

Joana não respondeu. Sentindo-se melhor, afastou-se do
Centro. Sua mãe ainda voltou outras vezes, mas também fez o
mesmo. Artur me disse:
- Patrícia, nesse socorro, ajudamos mais os desencarna-
dos que essa jovem. Ela, agora, não quer mais saber de seu pai
e, quando o vê de longe, se afasta para nem cumprimentá-lo. A
figura dele a faz recordar os ensinamentos que escutou, e que
ela quer esquecer.
- Como ficará ela? - indaguei.

-Vamos aguardar. Os erros, Patrícia, não conseguimos jogá-
los fora, porque nos pertencem, e um dia a reação virá. Quando
o grupo de vingadores perceber que ela não está mais sob a
proteção dos bons, voltará, talvez, como tenho visto em casos


126 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHn

assim, com mais sutileza e cautela. Ela, nâo vindo aqui e nem
recebendo outro auxílio, não estará vinculada a uma proteção
e, como não faz por merecer nenhuma ajuda, será fácil eles
voltarem e se vingarem. Ele, ao desencarnar como médico
nazista, foi socorrido, no Umbral, livrando-se daqueles que que-
riam dele se vingar, sendo levado na ocasião para um Posto de
Socorro e logo em seguida reencarnou. Socorro não quer dizer
que o indivíduo tenha mudado, porque, mesmo que receba
orientação, para mudar será necessária uma transformação
interior muito grande.
Fiquei a pensar como a crueldade faz mal ao que a prati-
ca. Quanta imprudência em cometer erros. E a reaçâo desses
atos pedirá reajuste no caminho, mas como Deus é misericordi-
oso sempre dá novas oportunidades.
Ao findar esta narrativa, posso concluir que todos nós, en-
carnados e desencarnados, tivemos um grande ensinamento
com os fatos ocorridos. Que todos nós temos que aprender a
amar, a ser úteis para termos Paz e sermos felizes. E que a
alegria interna virá quando superarmos nossos traumas íntimos
e ajudarmos outros a fazê-lo. Alegria!


A -Iistória de Elisa



Numa das minhas folgas, fui visitar Elisa. Queria rever mi-
nha amiga e tinha muito interesse s uiconcá sado p a
p elo

recuperação de Walter. O des f rá profunda o perispírito do
uso das drogas traumatiza de o arte dos nossos
esse vício atinge boa p
usuário. Atualmente, rporal e levando-
jovens encamados, trazendo-lhes ú tas mazelas. O caso de
os a voltar à espiritualidade com

Walter era de meu particular interesse, pelo socorro de que
participei e pelo muito que apreônlcomro delanp ntro em meu
ara podermos

horário livre, de lazer, coincidin osto muito de
conversar calmamente, trocando idéias, pois g

diálogos edificantes. Elisa esperava-me na portaria do hospital


em que, no momento, trabalhava e onde Walter estava interna-
do. Alegramo-nos quando nos vimos. ir vê-la. Que
- Patrícia - exclamou Elisa feliz -, proramava


bom tê-la conosco! Quero agradecer-lhe. Foi muito atenciosa
conosco. s osta e minha amiga como boa cicerone,
Sorri em re p '
mpanhou-me para conhecer o hospital. 1 próprio para
aco um hospita
Quase todas as Colônias t émóxico. Em algum
as outras

viciados em álcool taba ismo 1 se aradas, em hospita
Colônias, esses doentes ficam em a as p is
tradicionais.
Na Colônia Perseverança, o hospital é separado, grande e
com muitos trabalhadores dedicados que ajudam na recuperaçáo


I 28 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

de desencarnados viciados.'6 Lugar calmo, com muitos jar-
dins, salôes para palestras e encontros; suas principais terapias
sâo o trabalho, a música e o teatro. Suas enfermarias sâo
separadas por alas masculinas e femininas e pelo tipo de vício
que o intemo possui.
Primeiramente, vimos a parte central onde se situam as
salas de orientaçôes, os alojamentos de seus trabalhadores, a
biblioteca e os salões. Após, Elisa me levou para conhecer o
atendimento aos desencamados que, no corpo físico, foram
fumantes. Estes, se tinham só esse vício, não ficam intemados
,
só vêm ao hospital para serem ajudados a se libertar da vonta-
de de fumar. Só em casos raros é que um ex-fumante se interna,
e isso se pedir, mas, mesmo assim, sempre por pouco tempo. O
tabagismo intoxica bastante o perispírito e, nessa parte, fazem
tratamento para que o assistido se liberte da dependência, sen-
do assim, ele recebe conhecimentos sobre  assunto, orientação
e apoio que o ajudarão a resolver o problema. Mas só o conse-
guirão se, novamente reencarnados e tendo oportunidade, não
fumarem. Ressalvo o termo oportunidade, porque, se estiver
encarnado e, por algum motivo, não puder fumar, não quer
dizer que tenha solucionado a questão. Isso acontece com to-
dos os vícios, e só podemos dizer que os vencemos, quando
temos oportunidade de voltar a eles e os ignoramos.
A ala dos alcoólatras é grande. O álcool danifica o cérebro,
e o aparelho digestivo, sendo muitos os doentes a se recuperar
em vários estágios nessa parte do hospital. Os intemos, quando
melhoram, assistem a muitas aulas, fazem terapia de grupo e
avaliam todos os acontecimentos passados por eles, decorren-
tes do vício, e apreciam as oportunidades de melhora oferecidas.
A parte que nos interessava, era a que Elisa se dedicava
com todo carinho, a ala dos toxicômanos. Infelizmente esse
local do hospital e os de todas as Colônias têm sido ultimamen-
te ampliadas. São muitos os imprudentes que desencamam

16 - Muitos desencarnados estão tão agarrados à matéria, que se sentem
por muito tempo como encamados, daí a minha referência a "desencar-
nados viciados". (N.A.E.)


O VÔO DA GAIVOTA 129

vítimas, direta ou indiretamente, das drogas. Os que estão ali
socorridos, têm aspecto bem melhor dos que os que vagam ou
os que estão no Umbral. Nas Colônias, são separados pelo grau
de perturbação em que se encontram e o tratamento normal-
mente é longo, requerendo esforço do internado, e muita
dedicação e amor dos trabalhadores.

Não pensem os leitores que nesses hospitais só se vêem
tristezas. Nada disso. Tristeza é sentimento negativo. Nâo ajuda
e para nada serve, pois só construímos e progredimos com o
trabalho alegre. Os trabalhadores dali tinham sempre no rosto
o sorriso bondoso e agradável, a palavra amiga e o amor que
irradiava e contaminava os internos e, assim, os temporaria-
mente abrigados se sentiam seguros, incentivados, amados, e
com disposição para se recuperarem.

O hospital da Colônia Perseverança é muito bonito e aco-
lhedor. Elisa me levou à ala onde Walter estava abrigado, e ele
nos esperava no jardim intemo que circunda a parte de sua
morada provisória. Recebeu-nos sorrindo e estava com aparên-
cia sadia, com normal equilíbrio.

- Patrícia - disse sorrindo -, queria tanto conhecê-la e
agradecer. Obrigado!
- De nada - respondi. - Como tem passado?

- Melhoro, graças a Deus e ao pessoal do hospital. Vou
ficar bom logo.
Walter estava com a aparência de adolescente, como apa-
rentava naquela reunião do Centro Espírita. E continuaria assim
porque queria essa aparência, a que tinha antes de se drogar.
Isso lhe dava mais confiança. Outros, após o tratamento no
hospital, podem retomar, se quiserem, a aparência de quando
desencarnaram, só que com aspecto sadio.

Sentamos os três num banco e fizemos alguns comentári-
os. Elisa falou alegremente:

- Estou gostando muito de trabalhar neste hospital. Aqui
vim por Walter, mas agora não penso em deixá-lo. Quando
Walter tiver alta, fcarei, de vez que já decidi e obtive autoriza-
ção. Estudarei, para aprender e melhor servir neste campo de
ajuda. E você, Patrícia, quais são seus planos para o futuro.


130 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

- Como você sabe, gosto muito de ensinar. Logo, Marcela
,
a quem substituo, retomará a seus afazeres. Devo, então, voltar
à Colônia Casa do Saber, continuar os estudos e trabalhar trans-
mitindo meus conhecimentos a outros desencamados."
Admirei o banco em que nos sentávamos, muito bonito e
de contornos diferentes. Notando, Walter explicou:
- Esses bancos são feitos por intemos em nossas oficinas.
- O trabalho é de grande ajuda e uma das melhores terapi-
as para nossos abrigados - disse Elisa, olhando carinhosamente
para Walter. - Mas não só para eles e, sim, para todos nós
,
encarnados e desencarnados. O trabalho é bênção. Corpos e
mentes ociosos estão com as portas abertas aos vícios, enquan-
to que o trabalho nos mantém ocupados e nos abre outras
portas opostas a eles. Aqui em nossas oficinas se faz muita
coisa.

No Plano Espiritual, tudo pode ou poderia ser plasmado.
Mas os que sabem dar formas às coisas são poucos, pois neces-
sita-se de tempo e de muito aprendizado para a tarefa. O trabalho
é uma bênção que ajuda intensamente a todos nós e, na espiri-
tualidade, representa importante benefício, existindo trabalho
,
do mais simples ao mais difícil, para todos os que quiserem.
Inúmeros desencamados ainda estão muito apegados ao modo
de vida na Terra e, assim, quando trabalham, Ihes é dado o
bônus-hora. Os que já superaram esse apego, entendem o por-
quê do trabalho e não mais necessitam esse tipo de
remuneração. Pessoas que já trabalham sem esse apego, quan-
do chegam ao Plano Espiritual, participam da vida aqui,
exercendo suas tarefas pelo Amor ao trabalho, nâo exigindo
nada em troca. No hospital, os intemos que ali auxiliam, rece-
17 - A Colônia Casa do Saber, que descrevi no terceiro livro, A Casa do
Escritor, é onde moro atualmente, ao escrever este livro. E tenho planos
de ficar aqui por muito tempo, sendo que virei raramente à Terra, para o
contato com os encarnados. Foi uma opção que 6z, atendendo convite de
superiores. É tarefa que faço com muita alegria, porque somos sempre os
beneficiados pelas responsabilidades que nos oferecem. Devemos, pois,
participar de todas elas com muito regozijo e amor, e dessa forma tudo o
que realizarmos ficará bem feito. (N.A.E.)


O VÔO DA GAIVOTA 131

bem os bônus-hora, mas são poucos os trabalhadores que ser-
vem no hospital e que os recebem. Há muito tempo que não os
necessito, mas lembro-me de minha alegria, quando obtive
meu primeiro bônus-hora. Foi uma euforia trabalhar e ter uma
compensação. Agora, minha alegria é somente ser útil. Não
almejo recompensas.
Quietamo-nos por alguns segundos. Meus pensamentos va-
garam pela trajetória vivida por pessoas como Walter. Suas
existências, até serem socorridos, são uma verdadeira tragédia.
Elisa quebrou o silêncio.
- Patrícia, você não pode imaginar o tanto que sonhei, por
todos estes anos de desencamada, com este momento. Estar
assim com meu Walter, em plena recuperação. Sou muito grata
a Deus por esta oportunidade.

Fechou os olhos por momentos e depois começou a falar
com sua voz suave.
- Tudo começou em nossas encarnações anteriores, em
que fomos unidos pelo afeto maternal. Fui mãe dele, meu nome
era Gertrudes. Nasci e cresci num bordel de uma cidade peque-
na, onde me tomei prostituta logo mocinha. Aos vinte anos, tive
um filho, José, que é o Walter de agora. Até os seis anos, minha
avó, que morava perto, cuidou dele. Quando ela desencamou,
ele veio morar comigo. Mimei-o demais, dando-lhe tudo o que
queria e, muitas vezes, eu justificava minhas atitudes, falando
que isso era bom para ele. Menino ainda, começou a tomar
bebidas alcoólicas, e achei linda sua atitude.

O tempo passou rápido e ele tomou-se moço, foi então que
percebi que ele andava se embriagando demais e tentei fazê-lo
parar, só que não consegui. Quando chamava sua atençáo, me
respondia grosseiramente:

"Bebo por você ser o que é. Gostaria de ter uma mãe
trabalhadeira e honesta!"

Isto me feria muito. E ele se embriagava cada vez mais,
até que passou a ficar quase que somente bêbado. Desencarna-
mos quase que na mesma época. Fiquei doente e desencarnei
após muito sofrimento. Ele ficou pelo bordel, onde todos o co-
nheciam e lhe davam de comer, além de bebidas. Desencarnou


132 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

ao cair de uma ponte alta e bater a cabeça nas pedras. Sofre-
mos, vagando juntos, pelo Umbral. Ele, sempre me culpando,
dizia:

"Se tivesse me batido na primeira vez que bebi e não
achado graça, eu não teria me tomado um bêbado."

Depois de muitos sofrimentos, fomos auxiliados e levados
para um Posto de Socorro, onde ficamos por um período. Acon-
selhados a reencarnar, pedimos para renascer em famílias de
i'.'. costumes rigorosos que nos ajudassem a superar nossos vícios.


,,.
Atenderam-nos e reencarnamos, e viemos somente como co-
nhecidos, nem amizade tivemos.
A família que me abrigou, educou-me com costumes rígi-
dos, o que achava certo, pois me sentia segura. Queria acertar,
queria vencer o vício e consegui. Fui uma moça honesta e
trabalhadeira e, por ser bonita, fui assediada por muitos rapa-
zes, mas não dei impo-tância a nenhum. Não desejava namorar,
pois sentia que ia desencamar logo e não queria deixar nin-
guém mais a sofrer por minha causa. E, realmente, tive câncer
i e desencarnei. Meus pais e meus irmãos sentiram bastante

minha falta, mas não me atrapalharam e muito me ajudaram
com suas preces. O resto você já sabe.
Walter prestou muita atenção no que ouvia e, após uma

i
pausa, disse:

j
- Ao ouvir Elisa falar, as cenas vieram-me à memória.


ì
Recordo... Era pequeno e já gostava de bebidas alcoólicas, e
como minha mãe não proibia, passei a tomar muito, prejudi-
cando-me. Gostava do bordel, porque ali todos me tratavam
bem. Depois me tomei tão dependente do álcool, que só ficava
embriagado e, assim, quando desencamei, sofri muito. Reen-
carnado, nesta última vez, como Walter, tive outra oportunidade,
mas logo o gosto pela bebida aflorou forte em mim. Bebia
escondido, porque meus pais me proibiam e, como a bebida
deixava cheiro, dificultava-me dissimular. Eles me vigiavam,
regulavam meus horários e, percebendo minha tendência para
a bebida, cheiravam minha boca sempre que voltava para casa.
Então, enturmei-me com colegas na escola e experimentei a
maconha e, depois de algum tempo, a cocaína. Comecei a tirar


O VÔO DA GAIVOTA 133

notas baixas, sendo ainda aprovado naquele ano, mas no ano
seguinte, em que já me viciara pesado, as notas pioraram e
meu comportamento estava péssimo. Meus pais foram chama-
dos pela diretora e souberam de tudo. Levei uma surra,
tiraram-me da escola e passaram a me vigiar mais ainda. De-
sesperado com a falta da droga, fugi de casa e fui morar com
viciados e traficantes num barraco. Meus familiares sofreram
muito e meu pai, que era o mais rígido, mandou me dizer que
ele ainda me aceitava em casa, se largasse o tóxico. Se quises-
se ficar entre os criminosos, que os esquecesse, porque eu
estava morto para eles. Como queria a droga, fiquei naquela
vida. Minha mãe vinha me visitar, às escondidas, e trazia rou-
pas, alimentos e dinheiro, mas chorava sempre quando me via.
Continuei me drogando cada vez mais...

Ao recordar esses momentos dolorosos, Walter começou a
gaguejar, falando com dificuldade as últimas frases. Começou a
ter uma crise. Elisa e eu lhe demos um passe, que o acalmou,
provocando-lhe sono e nós o levamos para o leito na enferma-
ria. Elisa, então, terminou a narração do que aconteceu com
Walter.
- Ele contraiu dívidas por causa das drogas e, como não
conseguiu pagá-las, foi assassinado. Desencarnou e continuou
desesperado, alucinado pelas drogas, quando procurou o Túnel
Negro. Naquele local eles ensinavam os desencarnados vicia-
dos a vampirizar encarnados para satisfazerem o vício e,
também, o hipnotismo de Natan os fazia sentir como se tives-
sem usando drogas.
Nós ajeitamos Walter no leito e ele, sonolento, virou-se
para mim e disse:
- Elisa não é culpada! Ninguém é responsável pelos nossos
erros a não ser nós mesmos. Se antes eu a acusava, foi na
tentativa de culpar alguém, de colocar em outros a responsabi-
lidade que era só minha. Nesta última encarnação tive pais que
se importaram comigo, honestos, exemplificaram o Bem e não
tive a quem culpar a não ser a sorte, sendo que nossa sorte nos
mesmos é que a fazemos. Não venci meu vício!

- Mas vencerá! - exclamei.


134 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

Walter dormiu.
- Como o tóxico prejudica a tantos imprudentes - disse
Elisa. - Walter fará o tratamento muito tempo ainda, e só estará
bem quando lembrar-se de tudo o que Ihe aconteceu e não
sentir nada. Ele tem aula de Evangelização, faz oraçôes, tem
terapia e acompanhamento psicológico. E também, Patrícia
,
como foi boa a regressão para Walter, a doutrinação que ele
recebeu, na reuniâo Espírita.
Elisa ajeitou o lençol do leito dele com carinho de mãe e
,
em seguida, saímos silenciosas do quarto.


O Võo da Caivota.




Elisa me acompanhou até outro jardim, que fica na frente
do hospital. É um recanto mais bonito, cheio de flores coloridas
e palmeiras frondosas. Ali muitos internos passeiam em horário
de lazer, por ser um lugar agradável. Minha amiga convidou-me
para sentar e falou:
- Patrícia, tenho, na espiritualidade, trabalhado em muitos
lugares, entrando em contato com muitos trabalhadores e so-
corridos. Aprendi que aquele que ajuda, trabalha, está se
exercitando no bem para que, pelo hábito, possa ter melhor
disposição na conquista de sua evolução.
No meu convívio com você e com os integrantes do Centro
Espírita, percebi que pode haver diferença. Quando Walter e eu
estávamos sendo amparados, em nenhum momento me senti
necessitada, como aquela que estava sendo ajudada. Pelo con-
trário, todos da equipe realizaram o socorro como se estivessem
fazendo algo para eles mesmos, com naturalidade e atitudes
rotineiras. E eles não estavam lidando com desencamados per-
turbados comuns, mas sim com espíritos trevosos e um mago
maléfico ou um satanás, se assim podem-se designar Natan e
sua equipe. Você pode me explicar o estado espiritual daqueles
trabalhadores?
- Elisa, quase todos aqueles espíritos atingiram o chamado
autoconhecimento e, aqueles que nâo o atingiram, estâo se
esforçando para tal. Nâo necessitam de estímulos externos,
para fazerem o que fazem, nem pagamento ou recompensas


136 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

de qualquer espécie. Sabem que são pequenos, espiritualmen-
te, conhecem todos os meandros da personalidade, com todas
suas misérias, conflitos, condicionamentos, ilusôes, e a nossa
peculiar ignorância quanto à verdade daquilo que realmente
somos. Não estâo estacionados, vivem plenamente a onipre-
sença Divina, e se sentem unos com ela, porque vivem como
parte integrante do Universo. E, assim, trabalham, responsabili-
zando-se com tudo, como se a casa fosse deles.
Tudo o que fazem é por amor à vida, que está presente
tanto neles como em qualquer manifestação Divina, daí a natu-
ralidade e desprendimento que você sentiu em seu convívio.
- Patrícia, posso chamá-la de Gaivota?
Com meu consentimento, Elisa continuou:
- Então, Gaivota, como me explica o socorro prestado a
mim. Ajuda? Trabalho? Bem realizado?
- Por que rne chama de Gaivota? - perguntei.
- Gaivota é um pássaro muito bonito - respondeu ela -,
quase todo clarinho, elegante e de voar preciso. Depois sempre
deixa sinal de seus pezinhos na areia, mostrando que passou
por ali. Deixa marcas. E você deixou marcas em nossas vidas
,
na minha e na de Walter.
Agradeci, sorrindo e, após pensar uns momentos, respondi
que sabemos porque escutamos, repetidamente, o que deverí-
amos colocar em prática em nosso dia-a-dia.
- Ajudar é favorecer, facilitar, fazer alguma coisa a alguém,
prestar auxílio. É necessário esquecermos de nós mesmos quan-
do ajudamos a alguàm. E quando ajudamos alguém a melhorar,
melhoramos o mundo em que vivemos. Temos o dever de
auxiliar, do melhor modo possível, aqueles que surgem no nos-
so caminho.
Trabalho é aplicaçâo na atividade, por isso devemos traba-
lhar por amor ao trabalho, não para cobrar pelos seus resultados.
Com nosso exemplo nas tarefas úteis, podemos fazer outros nos
seguirem, embora cada um deva fazer o que lhe compete, sem
medo, tentando aprender cada vez mais. O amor precisa estar
presente em tudo o que fazemos, porque nos torna mais efici-
entes. E assim trabalharemos com alegria e gratidão, realizando


O VÔO DA GAIVOTA

bem as pequenas tarefas, quando demonstraremos ser dignos
das randes. Ao ajudar o próximo descobriremos o caminho da
fratemidade e do amor. O que fazemos no presente, nos mos-
trará o ue realizaremos no futuro. Sobre esse assunto, é muito
interes ánte ler O Giuro dos Espiritos, de Allan Kardec, Parte
Terceira, capítulo III, "Da Lei do Trabalho".

O Bem é praticado com Amor, pois ao fazê-lo nos torna-
mos melhores e estamos colaborando para melhorar a
humanidade. É preciso fazer o Bem, expandindo os ensinamen-
tos de Jesus, lembrando a todos sua doutrina de Amor. Mas sem
confundir sentimentalismo com Amor, que deve ser benéfico e
nos impulsionar na evolução. O Amor nos ajuda a vencer os
obstáculos do caminho, e é o único capaz de nos redimir e nos
levar ao progresso. Os resultados do Bem praticado só a Deus
pertencem. Esqueçamos de créditos, nas tarefas da bondade,
de vez que somos os primeiros beneficiados. O Bem nos ali-
menta? Sim, alimenta a todos nós e nos fortalece, levando-nos
ao aprendizado do Amor.

Fiz uma pausa, o assunto é fascinante, embora tenha mui-
ara colocá-lo
to que aprender ainda sobre esse é tos e minha amiga
plenamente em prática. Pensei por mo ç

aguardou ansiosa que eu retornasse às elucida ões. q

- Elisa vamos mudar o enfoque de sua pergunta. Por ue

motivo alguém faz alguma coisa a outra pessoa? Mesmo sendo
crente, de alguma seita ou religião, ou mesmo descrente? Qual
o motivo ue leva um ato a ter resultado bom ou mau? Será
sem
pre necessário existir algum motivo para se praticar algu-
ma a ão? Observemos as diferentes motivaçôes que envolvem
ç . Que motivo leva o
as ações da maioria dos seres humanos p
avarento a trabalhar tanto e a explorar, quase sem re, seus
semelhantes? O egoísmo, certamente. Que motivo leva o la-
. Que motivo
drão a agredir e roubar suas vítimasteinadá eligiões, para
leva a maioria dos seguidores de de

deixar de fazer o que gosta e somente obedecer os outros. Nâo
elo anseio de ter posse de uma situação sem problemas,
P á egoísmo? S
será ? Isso também não ser
mesmo que seja no Além s se a dos homens,
ao fazermos algo esperarmos recompensa, )

seja de Deus, estaremos agindo com egoísmo, embora dessa


138 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

forma ajudemos muito outras pessoas e a nós mesmos, porque
quem faz o bem trilha o caminho para se libertar desse senti-
mento, que é o egoísmo. O Bem sempre beneficia, enquanto a
maldade prejudica. O dia em que não mais agirmos negativa-
mente, estejamos encamados ou desencarnados, haverá Paz e
Harmonia na Terra, pois todos iremos fazer o que deve ser feito.
Não haverá mais exploraçôes nem comparaçôes, pois isso é a
causa de muitos conflitos, dores, sofrimentos e angústias na
convivência dos seres humanos. Cada um de nós estará feliz
com a vida que tem e fará todo esforço para melhorar seu
trabalho físico e seu aprimoramento espiritual. O desejo de
posse, seja qual for, desaparecerá e teremos equilíbrio e
Paz.
Você, Elisa, me perguntou o que concluo da experiência
que tivemos juntas. Prefiro dizer que foi um período agradável
em que aprendi muito e que poderei passar a outros a ex eri-
ência. P
Fazer o Bem estando desencarnado é muito mais fácil,
pois podemos trabalhar horas seguidas em determinada tarefa
,
seja no Plano Espiritual, até mesmo no Umbral, ou entre os
encarnados, e, ao terminá-la, ou vencendo nosso horário de
trabalho, temos o equilíbrio das Casas de Socorro, do nosso
cantinho nas Colônias ou dos nossos Abrigos. Nós nos recompo-
mos rápido. E os encarnados? Eles têm seus afazeres físicos
,
têm a preocupação com a sua manutenção e de sua família.
Têm o corpo para cuidar, higienizar, conservar sadio e, quando
não, tentar sanar suas deficiências físicas. São muitos, Elisa, os
encarnados que fazem o Bem apesar de todas essas dificulda-
des e, embora alguns ainda o façam por recompensa, um dia
se libertarão dessa conduta. Outros, e são inúmeros, fazem-no
por Amor, tendo como recompensa o prazer de servir. Como
admiro os que fazem o Bem! E esse fazer deve ser no presente
,
agora, no momento. Não deixe, você, agora encarnado, p
ara
fazê-lo depois. No Plano Espiritual certamente terá oportunida-
de, mas é aí no corpo físico que se tem o grande aprendizado
do bem. E ele deve ser feito sem se cultuarem nomes famosos


O VÔO DA GAIVOTA 139

de desencarnados. Há muita sabedoria em praticar o bem com
Amor e simplicidade.
Terminei minha explanaçâo, trocamos ainda alguns co-
mentários sobre o hospital. Elisa tinha que voltar ao trabalho, e
nos despedimos com um abraço fratemo.
- Patrícia, tudo o que aconteceu ficará gravado na minha
memória - disse ela com simplicidade.
Deixei o hospital, a Colônia Perseverança. Ainda estava no
meu horário livre, a aula que eu daria só começaria mais tarde
e, então, fui ver meus pais, que passavam uns dias no litoral,
para descansar.
Não estava totalmente satisfeita com a resposta que dera a
Elisa. Meditei sobre o assunto. Veio-me à mente a questão 642
de O Livro dos Espiritos, Parte Terceira, capítulo I, cuja resposta
é: "É preciso fazer o Bem no limite de suas forças, porque cada
um responderá por todo mal que tiver ocorrióo, por causa do
Bem que deixou de fazer."'s Aí está a grande responsabilidade
de nâo se aproveitar o momento.
Menina e adolescente, estudei num colégio católico e gos-
tava muito de uma frase escrita no altar da capela: "liolontá di
Dio - Paradiso mio."'9 Compreendi-a assim: "Fazer a vontade
de Deus é minha alegria." Qual é a vontade de Deus em rela-
ção a nós? Penso que é que cresçamos rumo ao progresso, que
sejamos bons, que compreendamos, amemos uns aos outros, e
que façamos todo o bem possível ao próximo e a nós mesmos
pelo trabalho e Amor. Quanta fé possuía quem pronunciou essa
frase e que exemplo nos deixou de resignação, ânimo e cora-
gem.
Também sobre o assunto, lembrei-me de um ensinamento
de Jesus, contido no Evangelho de Lucas, XVII:7-10, quando o
Mestre Nazareno nos ensina que o senhor não fica devendo
obrigações ao servo, que fez o que ele mandou, e conclui dizendo:


18 - Citação tirada da tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbo-
sa-IDE. (N.A.E.)
19 - Copiamos na íntegra esta frase, é assim que está grafada em uma das
paredes de sua pitoresca Capela. [N.A.E.)


140 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

"Somos servos inúteis; fizemos o que deveríamos fazer". Que
temos que fazer? Seguir os mandamentos? Viver com dignidade
e honradez? Não fazer o mal? Acredito que sim. E se não fizer-
mos? Não seremos considerados nem servos. E para sermos
servos úteis? Além de fazer o que nos compete, não praticar o
mal, seguir os mandamentos, fazendo mais, muito mais. Traba-
lhar com Amor ultrapassando nossas obrigações, para o nosso
bem, para o bem do próximo e, mais ainda, nada esperar em
troca.
Encontrei meus pais caminhando na praia. A tarde quente
de verão estava maravilhosa. É sempre encantador ver o mar
com seu verde-azulado e com suas ondas a se desfazerem na
areia. Caminhavam eles tranqüilos desfrutando a calma do lo-
cal. Aproximei-me. Amo-os tanto! Querendo obter mais
informações sobre este assunto interessante, perguntei a meu
pai, porque sua opinião foi, é e será sempre muito importante
para mim.
"Como é, papai" - disse-lhe de mente para mente -, "o que
me diz sobre um trabalho realizado, o fazer o Bem, o porquê de
o fazermos..."
Papai pensou e acompanhei seus pensamentos.
"Jesus em certa ocasião disse: O Pai age até hoje, eu tam-
bém ajo. A vida é ação. Na natureza física tudo o que entra no
estado de letargia apodrece e se desintegra. Semelhante é a
nossa mente, que, se não for usada, petrifica e embrutece. Se
canalizada para o mal, embora nâo regrida, produz dores e
dívidas para si mesmo, pois quem prejudica se imanta ao pre-
judicado. E aí viverá, no ambiente que construiu agredindo a
tudo e a todos. O homem sábio, conhecendo as implicaçôes da
ação, caminha em sintonia com a natureza que, de momento
em momento, aperfeiçoa sua manifestação. Faz das suas ações
a razão de sua vida e, ao agir beneficamente, sente participar
com Deus do seu perpétuo agir.
Não há vida sem relacionamento, e é no aprimoramento
das relações que construímos, que está um novo céu e uma
nova Terra.
Portanto, uma tarefa realizada que resulta no bem de


O VÔO DA GAIVOTA 141

alguém não deve ser olhada como uma ajuda, tampouco como


,
trabalho, muito menos para aquisição de crédito junto do bene-
ficiado ou de Deus, mas sim como o próprio exercício de viver.
Pois, se Deus age, eu também preciso agir.

Jesus disse muitas vezes: Eu e o Pai somos um, só que Ele

é maior que eu.
Quando chegarmos a compreender que o universo é nossa
família, tudo o que venhamos a fazer, é para nós que estaremos
fazendo ois tanto a casa como a família é nossa. Cuidemos de

' p , quando encamados, sem espe-
nossa casa e de nossa família

rar que alguém nos elogie por algo que é nossa obrigação
Fazer dessa forma é como compreendo e como procuro fazer.

"Papai! Mas muitos encarnados não zelam bem por suas
casas e nem cuidam bem de seus filhos".

"Fazer só a obrigação nâo dá merecimento, nem crédito, e
nem deve ser alvo de elogios. Mas, se nâo cumprios as obri-
a ões, somos devedores, pois não realizamos o que era de
nó sa responsabilidade. Quando ultrapassarmos o tempo e o
espaço, não mais existindo em nós créditos e débitos, iremos
fazer todo o Bem pelo simples prazer de comungar com a vida
pelo profundo Amor a todas as manifestações Divinas.

Viver a certeza da onipresença de Deus é diferente do
chamado crer, ou de ter fé. Aqui residem dois opostos; o crer é
volutivo, incerto, mutável de acordo com a emoçâo do momen-
to e o viver na onipresença é sólido. Vamos exemplificar em
nossa família consangüínea: Pai e filha é parentesco, nâo é
crença, é um fato de que não há dúvida. Vivemos plenamente o
fato do vínculo que nos une aos parentes mais próximos. Da
mesma forma, como viver na onipresença de Deus não é um
ato de momento, ou atitude de crença, é a visão plena e total

ue estou em Deus e Ele está plenamente em mim. Portan-
q empre
de foi Dele. Mas,
to, o que é Dele é meu e o que é meu s Ele eu recaria-
apesar de não existir separaçâo entre mim e , P
mente existo, só Deus é plenitude total."

O horário me chamava ao regresso. Beijei-os. Volitei a al-
guns metros do solo e olhei-os. À sua frente estava uma gaivota


142 PATRÍCIA / VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO

que, ao sentir a proximidade deles, voou tranqüila, ganhando
com seu vôo, espetacular altura, deixando desenhados na areia
seus pezinhos...
Meus pais se afastaram e suas pegadas ficaram...
Há pessoas que passam pela vida e deixam marcas...



tllt





Se você gostou deste livro o que acha de fazer com que outras pessoas
venham a conhecê-lo também? Poderia comentá-lo com as pessoas do seu
relacionamento, dar de presente à alguém que você sinta estar precisando
ou até mesmo emprestar àquele que não tenha condições de comprar. O
importante é a diwlgação da boa leitura, principalmente a literatura Espíri-
ta. Entre nessa corrente!


VIOLETAS NA MN S ÉSCtl T0R tor
JANECA ESpItIItOS A casa do Escn

Primeiro livro da - é um local fas-
Agorajá ambienta

série, onde ajovem da à nova ` vida, cinante onde se re-
autora, que desen- patrícia nos leva, únemtodosaqueles
carnou com apenas através dos cursos 9ue de uma forma
1 g anos, conta co- ou de outra traba-
mo isso ocorreu e 9ue realiza, conhe- lham com literatura
sua adaptação no cer e entenderPvá- moralizante, princi-
Mundo Espiritual. ria is egás como lo Palmente a literatu-
Você irá apreciar o tua , ra Espírita. Lá, o es-
relato, descrevendo n á b postos deoSo- parl tex órs ná s mé-
as descobertas do
outro lado da vida. corros e outras lo- diuns, aprende tam-
Como é o dia-a-dia calidades. Muitos bém técnicas de re-
temas são transmi- dação. Patrícia ain-
do espírito, como se 1 dos, da arruma tempo
vestem suas ne- tidos e ana isa

cessidades físicas, sempre com a sau- para contar o seu
. V ocê irá se dável curiosidade passado, uma boni-
etc que é a p
encantar com este eculiari- ta história de final
livro. dade da autora. romântico.

Todos psicografados pela médium

Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho

s livr
os da Patrícia já
são best sellers


RECONCIlIAÃO
Fascinante, comoven-
te e esclarecedora
narrativa, um livro
que agrada a todos.
Sua trama envolven-
te, começa com um
duplo assassinato, o
pai matando a golpes
de faca, sua esposa e
seu filho. Mas após
todo este drama, o lei-
tor viverá uma pro-
funda lição de amor,
solidariedade, abne-
gação e ternura num
relato maravilhosa-
mente comovente,
você irá se apaixonar
por ele!

coPos cvE
ANDAM
Um livro que em fun-
ção do próprio tema,
todos devem ler e di-
vulgar, pois aborda os
perigos de invocar
espíritos por meio de
objetos tais como:
copos, pêndulos, etc.
Muitas são as histó-
rias que entremeiam
a narrativa, destacan-
do a da garota Nely
que é induzida pe-
los espíritos inferio-
res, a matar o pró-
prio pai e suicidar-se
posteriormente.

FIHO ADOTIVO
Além de exaltar a ca-
ridade e a grandeza de
pais que conseõuem
amar filhos alheios,
este livro traz uma
trama muito envol-
vente, enfocando dois
irmãos, que, sem o sa-
berem, namoram e
pretendem se casar.
Mas, a intervenção da
mãe,já falecida, alia-
da a espíritos amigos
tentam de todos os
meios evitar o matri-
mônio, trazendo a
cada página, gratas
surpresas, fazendo
deste livro, excelente
leitura e sahoroso
aprendizado.

PAlCO DAS ENCARNAÕES
Eis uma história realmente interessante. Au·-
gusto, é o personagem principal de duas en-
carnações diferentes, uma como filho de dono
de engenho e senhor de escravo e depois como
negro, escravo no mesmo engenho. Você irá
, se emocionar com suas tentativas de ajudar seus
entes queridos. A luta num tempo em que a lei
era do mais forte!

Livros de Antônio Carlos
Psicografados pela médium
Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
Reconciliação
Copyright by © Petit Editora e Distribuidora Ltda. 1990.
22-10-03-3.000-144.500
Direção editorial: Flávio Machado Capa (criação): Flávio Machado Assistente editorial: Fernanda Rizzo Sanchez
Chefe de arte: Mareio da Silva Barreto
Diagramação: Ricardo Brito
Revisão: Sheila T. Fabre
Letícia Castello Branco Braun Sandra Regina Fernandes
Fotolito da capa: Digigraphic
Impressão: Edelbra Indústria Gráfica e Editora Ltda.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
133.9 Carlos, Antônio (espírito)
Reconciliação / romance do espírito Antônio Carlos; psicografado pela médium Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho. São Paulo : Petit, 1995.
ISBN 85-7253-014-2
1. Espiritismo 2. Romance brasileiro I. Carvalho, Vera Lúcia Marinzeck de II. Título.
98-2565 CDD-133.9
índices para catálogo sistemático:
1. Romances mediúnicos : Espiritismo 133.9
Direitos autorais reservados. É proibida a reprodução total ou parcial, de qualquer forma ou por qualquer meio, salvo com autorização da Editora. Ao reproduzir este ou qualquer livro pelo sistema de fotocopiadora ou outro meio, você prejudicará a Editora, o autor e você mesmo. Existem outras alternativas, caso você não tenha recursos para adquirir a obra. Informe-se, é melhor do que assumir débitos espirituais.
Traduções para outro idioma, somente com autorização por escrito da Editora.
Impresso no Brasil, na primavera de 2003.






f/í Ss-
Romance do Espírito
Antônio Carlos
Psicografado pela médium
Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
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*"' ^---i ._..... '
editora
Rua Atuai, 383/389 - Vila Esperança/Penha CEP 03646-000 - São Paulo - SP
Fone: (Oxxll) 6684-6000
Endereço para correspondência:
Caixa Postal 67545 - Ag. Almeida Lima
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Outros livros psicografados pela médium Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho:
Com o espírito Antônio Carlos
• Cativos e Libertos
• Copos que Andam
• Filho Adotivo
• Reparando Erros de Vidas Passadas
• A Mansão da Pedra Torta
• Palco das Encarnações
• Aconteceu
• Muitos são os Chamados
• O Talismã
• Aqueles que Amam
• O Diário de Luizinho (infantil)
• Novamente Juntos
• A Casa do Penhasco
• O Mistério do Sobrado
• O Último Jantar
• O Jardim das Rosas
Com o espírito Patrícia
• Violetas na Janela
• Vivendo no Mundo dos Espíritos
• A Casa do Escritor
• O Vôo da Gaivota
Com o espírito Rosângela
• Nós, os Jovens
• A Aventura de Rafael (infantil)
• Aborrecente, não. Sou Adolescente!
• O Sonho de Patrícia (infantil)
• Ser ou não Ser Adulto
• O Velho do Livro (infantil)
• O Difícil Caminho das Drogas
• Flores de Maria
Com o espírito Jussara
• Cabocla
Com espíritos diversos






• Valeu a Pena!
• O que Encontrei do Outro Lado da Vida
• Deficiente Mental: Por
que Fui Um?
Livros em outros idiomas
• Violets by my Window
• Violetas en Ia Ventana
• Reconciliación
• Deficiente Mental: ^Por que Fui Uno?
• Viviendo en ei Mundo de los Espíritus






l ortanto, se estás para fazer a tua oferta
diante do altar e te lembrares aí que teu irmão
tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta
diante do altar, e vai reconciliar-te primeiro
com teu irmão, e depois vem fazer a tua oferta.
MATEUS, V: 23, 24







AGRADECIMENTO
v^om todo o respeito, quero pedir permissão a todos aqueles que tiverem conhecimento desta obra a oportunidade de agradecer.
Em primeiro lugar, ao Espírito Antônio Carlos.
E depois, pelo esforço, dedicação, trabalho e interesse que tiveram para a concretização desta obra, no sentido de que viesse a público:
• ao prof. João Duarte de Castro
• a Antonina Barbosa Negro
• a Leila F. S. Sotta
A mim coube somente o prazer e a alegria de por um longo tempo estar em contato com o autor espiritual, usufruindo seus conhecimentos e sua enobrecedora companhia.
A Deus, que na Sua Misericórdia permitiu este trabalho e que tudo cria, meu sincero reconhecimento de amor.
VERA LÚCIA MARINZECK DE CARVALHO







ínARIl
Prefácio. 11
O Poço 17
O Socorro 30
Aprendendo 45
tscutando Amigos 54
Ajudando Minha Mãe 79
O Louco 93
O Perdão 104
O Passado 116
A Decisão 136
9






Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
Reencarnado 155
De Regresso 174
Ajudando Meu Pai 188
Novas Responsabilidades 200
Aprendendo a Servir 214
No Conforto do Espiritismo 228
Aleluia 243
Glossário 251
w






PREFACIO
POR JOÃO DUARTE DE CASTRO
O
v^x médium é um instrumento do Alto na intermediação de tarefas provindas do plano espiritual. O médium espírita sabe que o futuro está sendo projetado, modelado e definido pelo presente; sabe também que o dia de hoje é conseqüência do ontem. Tem consciência de que assumiu esse compromisso e que não pode fugir de suas responsabilidades para não pôr em risco seus resgates, seu aperfeiçoamento, seu progresso moral/espiritual.
O médium fez a rogativa de servir de elemento de conexão entre as duas dimensões para mais depressa saldar seus débitos e contabilizar merecimentos. É dando que se recebe. É o médium um instrumento, apenas, mas de primordial importância; nós todos, cada qual em seu setor, somos instrumentos, mas deve-se procurar ser sempre o melhor instrumento. Sem vaidade, sem presunção, o médium-psicógrafo deve exercer sua atividade porque sabe que o trabalho não é dele, que apenas realiza
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Vera Líicia Marinzeck de Carvalho
o papel do telefone ou a função do lápis. A Vera Lúcia está enquadrada exatamente nesta categoria de médiuns cônscios de sua natureza, de sua responsabilidade. É simples, humilde, mas dedicada, consciente e responsável.
A missão dos bons espíritos, guias, amigos e protetores, ao fazer manifestações na Terra, é de educação, de amor, de justiça e de trabalho evangélico. Conhecemos os bons espíritos pelos frutos de sua manifestação; seus textos são direcionados tanto para a revelação da realidade espiritual como para a promoção da pessoa humana. Em suma, com o objetivo de facilitar a evolução do espírito, fazendo-o sentir que aqui ou do lado de lá, ora num plano, ora no outro, somos sempre os mesmos e a estrada que percorremos rumo à perfeição é uma só, sempre.
Os espíritos bons, guias, amigos e protetores não se manifestam por acaso nem são escolhidos para atuar por privilégios. Os médiuns não são manipuladores nem donos da verdade. A missão mediúnica é santa e tem caráter socializante. Seu objetivo é o de confraternizar pela revelação, pelo conhecimento, pelo amor.
A Doutrina Espírita é verdade trabalhada, humildade compreendida, amor exemplificado porque é o Cristianismo redivivo e autêntico; é caridade, justiça e fraternidade lecionadas aos indivíduos na trajetória educativa ascensional. Tudo isso está contido no trabalho do Espírito Antônio Carlos.
Este é um romance que impressiona e agrada por muitos motivos: a história é envolvente e sugestiva, o tema é empolgante, o estilo é simples, mas atraente, a leitura é dinâmica, os ensinamentos são profundos, oferecendo uma visão magnífica da vida no plano espiritual.
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Reconciliação
O escritor desencarnado leva uma vantagem significativa sobre o trabalho de seus colegas encarnados: a de poder atuar com desenvoltura e simultaneamente nos dois planos da realidade espiritual. Enquanto nós aqui permanecemos com os pés no chão e com uma visão muito limitada, o espírito liberto participa da vida material e da existência espiritual, ao mesmo tempo. Nós, do lado de cá, dependemos muito da intuição, da inspiração e das informações que nos chegam do outro mundo para poder informar sobre a vida na outra dimensão; já o informante desmaterializado tanto vê lá como aqui, tanto faz suas observações no plano invisível como no universo material, de forma direta, própria e objetiva.
Tudo neste romance impressiona, agrada e esclarece. Contudo, ainda mais impressionante me pareceu a descrição do trabalho desenvolvido por uma equipe de espíritos socorristas num centro espírita. Enquanto os encarnados apenas sabem da tarefa que eles próprios desenvolvem, acontece uma ampla atividade simultaneamente realizada pelo plano espiritual. Raul (Ricardo) descreve minuciosamente sua participação, numa dessas equipes de assistência junto a um centro espírita, primeiramente na função de guarda, atuando preventivamente contra espíritos maus, perturbados e perturbadores; de vigia, passa a integrar a tarefa de auxilio à prática mediúnica, socorrendo, organizando e encaminhando desencarnados aos médiuns; depois, integrando equipes de socorro que atendem a solicitações de auxílio a desencarnados que ficam vagando pela cidade, em hospitais assistindo a enfermos encarnados e desencarnados; visitando cemitérios e confortando tanto a encarnados inconsoláveis como a
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Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
desencarnados que se apegam em desespero a seus restos mortais; encaminhando espíritos necessitados para atendimento em um pronto-socorro espiritual, e assim por diante.
Quando minha querida amiga Antonina Barbosa Negro, da cidade de Leme (SP), grande incentivadora de meus modestos trabalhos, ligou solicitando-me os préstimos para a apreciação dos originais de um romance que lhe haviam sido encaminhados, coloquei-me a sua disposição. É freqüente e natural a um escritor receber semelhantes solicitações. Dizia Antonina saber de minhas ocupações e da escassez de meu tempo, mas que fazia questão de que fosse eu a realizar a tarefa. Tratava-se esclareceu ela - de material psicografado por sua amiga Vera Lúcia, da cidade de Jaú (SP), autoria espiritual de Antônio Carlos, de um romance intitulado Reconciliação, que lera e muito apreciara. Como sempre faço ao ser solicitado para prestar tal colaboração, não deixei de também esclarecer a Antonina que meu parecer seria dado de conformidade com o valor do texto, independentemente de amizade ou consideração. Que ela me remetesse os ditos originais, eu arrumaria tempo para sua leitura e apreciação...
Como se tratasse de material mediúnico, não deixei de "torcer o nariz" intimamente, dada a grande inflação de obras psicografadas de qualidade medíocre existentes por aí. Infelizmente, muitos editores publicam seja lá o que for, desde que seja trabalho espiritual. É livro ditado por desencarnado? Então "Amém", e assina-se embaixo...
E foi com este espírito que recebi os originais deste livro e iniciei sua leitura. Para encurtar a história, confesso que me envolvi tanto desde o seu princípio, e gostei tanto do enredo, da linguagem, do estilo, dos ensinamentos,
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Reconciliação
de tudo, enfim, que, ao chegar ao seu final, não encontrei outras palavras para traduzir meu entusiasmo, senão "Lindo! Magnífico!" E isto escrevi ao final do texto.
Que escritor exuberante é o nosso Antônio Carlos, e que instrumento mediúnico fiel e competente é a nossa Vera Lúcia!
Ligando novamente para saber a minha opinião, foi dito a Antonina que não apenas havia gostado muito do livro como iria fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para vê-lo publicado. E para me penitenciar de minha pontinha de prevenção inicial, comprometia-me a fazer seu prefácio e os dizeres da contracapa. Daí que os originais foram encaminhados com nossa entusiástica recomendação ao Flávio e à Carmen, idealistas tarefeiros da PETITEditora, e o livro aqui está, inclusive com o cumprimento de minha promessa quanto ao prefácio.
Sem querer fazer predição, acredito que este romance do Antônio Carlos estará ocupando muito brevemente um lugar de destaque na literatura espírita. Com inteira justiça, diga-se.
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Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
desencarnados que se apegam em desespero a seus restos mortais; encaminhando espíritos necessitados para atendimento em um pronto-socorro espiritual, e assim por diante.
Quando minha querida amiga Antonina Barbosa Negro, da cidade de Leme (SP), grande incentivadora de meus modestos trabalhos, ligou solicitando-me os préstimos para a apreciação dos originais de um romance que lhe haviam sido encaminhados, coloquei-me a sua disposição. É freqüente e natural a um escritor receber semelhantes solicitações. Dizia Antonina saber de minhas ocupações e da escassez de meu tempo, mas que fazia questão de que fosse eu a realizar a tarefa. Tratava-se esclareceu ela - de material psicografado por sua amiga Vera Lúcia, da cidade de Jaú (SP), autoria espiritual de Antônio Carlos, de um romance intitulado Reconciliação, que lera e muito apreciara. Como sempre faço ao ser solicitado para prestar tal colaboração, não deixei de também esclarecer a Antonina que meu parecer seria dado de conformidade com o valor do texto, independentemente de amizade ou consideração. Que ela me remetesse os ditos originais, eu arrumaria tempo para sua leitura e apreciação...
Como se tratasse de material mediúnico, não deixei de "torcer o nariz" intimamente, dada a grande inflação de obras psicografadas de qualidade medíocre existentes por aí. Infelizmente, muitos editores publicam seja lá o que for, desde que seja trabalho espiritual. É livro ditado por desencarnado? Então "Amém", e assina-se embaixo...
E foi com este espírito que recebi os originais deste livro e iniciei sua leitura. Para encurtar a história, confesso que me envolvi tanto desde o seu princípio, e gostei tanto do enredo, da linguagem, do estilo, dos ensinamentos,
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O POÇO
Ac
/\cordei com um torpor estranho, por uns instantes não sabia onde estava, tudo parecia confuso, os últimos acontecimentos desorientaram-me. Fui tomando consciência aos poucos; com muito esforço comecei a abrir os olhos, tentei ver onde estava, no alto vi luz, a claridade do Sol. Tentei mover-me, não consegui, senti dores agudas, doía-me todo o corpo. Só consegui mover os olhos, mas a claridade do alto tonteava-me. Esforcei-me por falar.
- Ai, ai. - consegui balbuciar baixinho, doendo mais ainda com o esforço que fiz.
Lembrei-me então do poço. Estava dentro dele, conhecia-o bem, costumava brincar sempre
'te






Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
perto dali com meus amigos; era um seco e velho poço abandonado. Deveria ter uns cinco metros de profundidade e não era estreito, tendo uns dois metros de diâmetro; agora, dentro dele, parecia-me muito fundo e assustador. Com muito esforço, devagarzinho, consegui virar a cabeça um pouquinho para o lado direito, aumentando a dor que sentia, e então a vi.
Mamãe ali estava, caíra em cima dela, o seu corpo amortizara minha queda. Vi-a do busto para cima, estava toda suja de sangue, imóvel e com os olhos fechados. Vendo-a, além das dores horríveis, senti medo e desespero. Concentrei-me, reuni todas as minhas forças e consegui sussurrar:
-Mãe...
Ela não se mexeu. "Deve estar desmaiada" - pensei. "Quando acordar me ajudará."
Não me mexi mais, preferi ficar olhando para ela, dava-me mais segurança; depois as dores eram muito fortes, quando me esforçava para me mexer, elas pioravam, e sentia como se arrebentasse, devia ter fraturado alguns ossos!
Lembrei-me de meu amigo Joãozinho, que fraturou a perna, chorou, gritou, dizia que parecia estar arrebentado. Agora, com a cabeça mais virada, não vi mais a boca do poço, e sim as paredes de terra e pedra, e minha mãe, que não se mexia, demorando para acordar do desmaio.
"Nos momentos difíceis, ore." - Parecia-me que escutara minha avó. Vovó Margarida sempre me dizia isso. Lembrei-me dela, recordei com perfeição como era ela, senti mais saudade ainda, senti falta do seu carinho, do seu jeito meigo de consolar-me quando me doía algo.
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Reconciliação
Procurei lembrar as orações, as que repetia sempre, mas não consegui recordá-las.
- Ah! Meu Menino Jesus, fazei que nos achem, que alguém nos tire daqui, por Maria, sua Mãe, eu lhe peço. Ave Maria... - não conseguia nem começar, meus pensamentos estavam descoordenados, tinha dificuldade de me concentrar para repetir as orações que decorara. As dores eram contínuas e fortes, sentia o suor molhar-me e deveria estar também ensangüentado, como minha mãe. Abri os olhos e olhei-a, era tão bonita! Agora estava esquisita, os cabelos soltos em desordem, toda suja e não se mexia. "Oh, meu Deus! Fazei com que nos encontrem" - pensei firme. Era de tarde, logo viria a noite, ficaria escuro e seria bem pior, esfriaria, à noite ninguém passaria por ali e ainda mais olhar para o poço. Se ao menos pudesse gritar!
Sentia que estava em cima do corpo de mamãe e não notava nela nenhum movimento. Caiu primeiro, vi quando ele a pegou, enfiou a faca no seu peito e depois a jogou dentro do poço; ficara olhando assustado, não entendi, não queria acreditar, quis gritar, não consegui, fiquei parado. Olhou para mim, estremeci de medo, veio em minha direção, tentei escapar, comecei a correr, mas logo me alcançou; segurou-me com força pelo braço, arrastou-me alguns metros, levando-me para perto do poço.
"É preciso!" - falou forte e baixo. - "Você também."
Quis gritar, não consegui, estava horrorizado, vi-o erguer a outra mão, sua direita, e a faca veio em minha direção; aflito, desesperei-me para escapar, mas sua mão, que parecia uma garra de ferro, não me largou. Errou o alvo, a faca feriu-me o ombro esquerdo em lugar do coração. Que dor horrível, uma dor aguda que me tonteou.
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Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
Senti quando retirou a faca/ erguendo-me pela cintura; eu quis fazer algo, gritar, soltar-me, não consegui, e então me jogou no poço. Senti-me cair, desmaiei na queda, devo ter ficado alguns minutos inconsciente. Uma estranha fraqueza foi se apoderando de mim, parecia que tudo rodava. Abri os olhos que teimavam em se fechar, mamãe continuava do mesmo modo.
- Faça, Jesus, com que ele se arrependa e venha buscar-me; se não conseguir gritar, dificilmente alguém nos achará. É tão raro alguém olhar dentro do poço!
Tentei repetir as orações novamente. "Ave Maria...", não queria pensar, queria orar e os pensamentos vinham independentemente de minha vontade. Fatos acontecidos comigo invadiam minha memória, recordava minha infância, ainda estava nela, ia completar doze anos no mês vindouro. Sempre pensei que não tinha muito o que contar de minha vida e agora lembrava tantos fatos, acontecimentos, e com tantos detalhes que pensara ter esquecido; recordava-os como se os vivesse. A fisionomia de minha avó enchia-me a mente, amava-a muito. Chamava-se Margarida, era minha avó materna, fora ela a pessoa que mais carinho e amor me dera. Morei com ela até meus oito anos, foi ela quem me criou, ensinou-me a orar. Era tão boa, tão meiga e tão querida por todos que a conheciam. Enquanto morei com ela fui muito feliz, raramente ia à casa dos meus pais e só recebíamos visitas da mamãe e das minhas irmãs.
Minhas irmãzinhas! Que vontade de vê-las! Era o mais velho, depois vinham Tais e Telma, que moraram sempre com meus pais. Vovó morreu de repente. Não entendia bem o que significava morrer, senti que nos
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Reconciliação
separávamos e que minha felicidade acabara. Fui morar com meus pais.
A fazenda, como era gostosa a fazenda onde passei a minha primeira infância com vovó! Era o lugar mais lindo do mundo, para mim! Vovó dizia-me que sempre achamos lindos os lugares onde somos felizes. Depois da morte de vovó, voltei lá só duas vezes. Recordava tudo como se acontecimentos de anos antes tivessem acontecido ontem, lembrava-me dos meus brinquedos, das árvores, dos animais, da casa. A fazenda ficava perto da cidade onde residiam meus pais e foi vendida depois que vovó se foi.
Fiquei muito triste por ter de deixar a fazenda para ir morar com meus pais; fui assustado, meu coração saltava no peito. A casa era grande e boa e a cidade, pequena, onde todos se conheciam. Meu pai tinha um armazém não longe de casa, perto da igreja. Mamãe era bonita e delicada, seus olhos grandes e azuis estavam sempre tristes. Tais e Telma eram uns amores, quietas, delicadas, obedientes. Morava conosco também Maria, a empregada que chamávamos de Pretinha por ser de cor negra, bem negra mesmo, e miúda. Gostei dela logo que a vi, era muito amiga de mamãe e ambas trabalhavam muito.
Logo percebi que meu pai não gostava de mim. Quando ele chegava em casa, Tais e Telma corriam para abraçá-lo e ele mimava-as, pegava-as no colo, ria para elas. Não ousava me aproximar, ficava olhando, ele não me dirigia a palavra; ignorava-me, parecia que não gostava nem de me ver.
Comecei a ter medo dele, parecia que o irritava e passou a me xingar, a surrar-me por qualquer motivo e, até mesmo, sem motivo. Não entendia, não conseguia
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Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
entender por que ele procedia assim; mamãe, carinhosamente, tentava explicar-me: "Raul, seu pai está cansado. Manuel trabalha muito. Evite vê-lo, ele fica tão pouco em casa. Quando ele estiver, saia você, filho, vá brincar com seus amigos; quando ele sair, volte. Essa implicância passa, devemos ter paciência, compreendê-lo, e nunca faça nada para chateá-lo".
Fiquei muito triste, mas tratei de obedecer à mamãe, sem fazer perguntas para não deixá-la mais triste ainda. Às vezes ficava pensando sobre o porquê de ele ficar nervoso só comigo. Se estava cansado, por que brincava com minhas irmãs e comigo não? Por que surrava-me tanto, se não lhe desobedecia em nada? Na verdade era minha mãe quem trabalhava muito, passava o dia todo na cozinha fazendo quitutes para serem vendidos no armazém. Nunca fui ao armazém, sempre tive vontade de ir, mas meu pai proibira-me. Passava sempre por perto e via-o à toa a conversar com outros homens e pensava: "Mamãe diz que ele está cansado, não o vejo fazendo nada, será que ela sabe que ele fica à toa?" Nunca tive coragem de comentar com ela o que via.
Na fazenda, dormia no quarto com vovó: como era gostoso desfrutar de sua companhia, receber seu beijo de boa-noite! Com meus pais, não quis dormir no quarto, sozinho; queria dormir com minhas irmãs, e meu pai não deixou. Fui dormir com Pretinha no quartinho perto da cozinha. Estranhei no começo, porém ela era tão boazinha e logo nos tornamos bons amigos. Pretinha ficara órfã de mãe bem pequena, e o pai colocou-a para trabalhar como doméstica, morando no emprego. Antes, morava com minha avó e veio com mamãe, quando ela se casou.
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Reconciliação
Ela via pouco o pai, tinha irmãos da parte do pai com outra mulher, contara sua história uma vez, depois não tocara mais no assunto. Não gostava de falar de sua vida, para ela sua família éramos nós, de quem muito gostava.
Eu tinha muitos amigos, gostava de todos e era muito querido por eles, brincávamos por todos os lados. Ia à escola de manhã e à tarde fazia minhas lições; gostava de ajudar mamãe e Pretinha a fazer doces. E, quando meu pai chegava, saía rápido, indo brincar, ou até ficava em algum canto do quintal esperando que saísse novamente. Por isso, brincava muito pela redondeza, não importando se estava frio ou chovendo. Conhecia todos os meninos da vizinhança. Em casa, tornou-se hábito vigiar as chegadas de meu pai. Pretinha e minhas irmãs avisavam-me: "Raul, papai já vem!"
Ele costumava entrar pela porta da frente, e eu saía pelos fundos. Ia brincar, nadar no rio, pescar, brincar de pião, com bolinhas, corria por toda parte. Não comentava com ninguém que papai implicava comigo, como mamãe recomendava. O chato era que ia dormir muito cedo, após o jantar; papai chegava e raramente saía, eu ia para o meu quarto e lá ficava. Sem ter com quem brincar, ia dormir.
Papai comprava roupas bonitas e brinquedos para Tais e Telma, nunca me dera nada e não deixava mamãe comprar nada para mim. Não sentia inveja de minhas irmãs, achava merecido elas ganharem presentes, ainda mais que elas deixavam que eu brincasse com eles, só que não achava graça em brinquedos de meninas. Minhas roupas, eu as ganhava de minha tia, de meu primo mais velho. Eu não me aborrecia com essas diferenças; sentia, sirn, a falta do amor dele.
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Vera Lúcia Marínzeck de Carvalho
entender por que ele procedia assim; mamãe, carinhosamente, tentava explicar-me: "Raul, seu pai está cansado. Manuel trabalha muito. Evite vê-lo, ele fica tão pouco em casa. Quando ele estiver, saia você, filho, vá brincar com seus amigos; quando ele sair, volte. Essa implicância passa, devemos ter paciência, compreendê-lo, e nunca faça nada para chateá-lo".
Fiquei muito triste, mas tratei de obedecer à mamãe, sem fazer perguntas para não deixá-la mais triste ainda. Às vezes ficava pensando sobre o porquê de ele ficar nervoso só comigo. Se estava cansado, por que brincava com minhas irmãs e comigo não? Por que surrava-me tanto, se não lhe desobedecia em nada? Na verdade era minha mãe quem trabalhava muito, passava o dia todo na cozinha fazendo quitutes para serem vendidos no armazém. Nunca fui ao armazém, sempre tive vontade de ir, mas meu pai proibira-me. Passava sempre por perto e via-o à toa a conversar com outros homens e pensava: "Mamãe diz que ele está cansado, não o vejo fazendo nada, será que ela sabe que ele fica à toa?" Nunca tive coragem de comentar com ela o que via.
Na fazenda, dormia no quarto com vovó: como era gostoso desfrutar de sua companhia, receber seu beijo de boa-noite! Com meus pais, não quis dormir no quarto, sozinho; queria dormir com minhas irmãs, e meu pai não deixou. Fui dormir com Pretinha no quartinho perto da cozinha. Estranhei no começo, porém ela era tão boazinha e logo nos tornamos bons amigos. Pretinha ficara órfã de mãe bem pequena, e o pai colocou-a para trabalhar como doméstica, morando no emprego. Antes, morava com minha avó e veio com mamãe, quando ela se casou.
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Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
entender por que ele procedia assim; mamãe, carinhosamente, tentava explicar-me: "Raul, seu pai está cansado. Manuel trabalha muito. Evite vê-lo, ele fica tão pouco em casa. Quando ele estiver, saia você, filho, vá brincar com seus amigos; quando ele sair, volte. Essa implicância passa, devemos ter paciência, compreendê-lo, e nunca faça nada para chateá-lo".
Fiquei muito triste, mas tratei de obedecer à mamãe, sem fazer perguntas para não deixá-la mais triste ainda. Às vezes ficava pensando sobre o porquê de ele ficar nervoso só comigo. Se estava cansado, por que brincava com minhas irmãs e comigo não? Por que surrava-me tanto, se não lhe desobedecia em nada? Na verdade era minha mãe quem trabalhava muito, passava o dia todo na cozinha fazendo quitutes para serem vendidos no armazém. Nunca fui ao armazém, sempre tive vontade de ir, mas meu pai proibira-me. Passava sempre por perto e via-o à toa a conversar com outros homens e pensava: "Mamãe diz que ele está cansado, não o vejo fazendo nada, será que ela sabe que ele fica à toa?" Nunca tive coragem de comentar com ela o que via.
Na fazenda, dormia no quarto com vovó: como era gostoso desfrutar de sua companhia, receber seu beijo de boa-noite! Com meus pais, não quis dormir no quarto, sozinho; queria dormir com minhas irmãs, e meu pai não deixou. Fui dormir com Pretinha no quartinho perto da cozinha. Estranhei no começo, porém ela era tão boazinha e logo nos tornamos bons amigos. Pretinha ficara órfã de mãe bem pequena, e o pai colocou-a para trabalhar como doméstica, morando no emprego. Antes, morava com minha avó e veio com mamãe, quando ela se casou.
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Reconciliação
Ela via pouco o pai, tinha irmãos da parte do pai com outra mulher, contara sua história uma vez, depois não tocara mais no assunto. Não gostava de falar de sua vida, para ela sua família éramos nós, de quem muito gostava.
Eu tinha muitos amigos, gostava de todos e era muito querido por eles, brincávamos por todos os lados. Ia à escola de manhã e à tarde fazia minhas lições; gostava de ajudar mamãe e Pretinha a fazer doces. E, quando meu pai chegava, saía rápido, indo brincar, ou até ficava em algum canto do quintal esperando que saísse novamente. Por isso, brincava muito pela redondeza, não importando se estava frio ou chovendo. Conhecia todos os meninos da vizinhança. Em casa, tornou-se hábito vigiar as chegadas de meu pai. Pretinha e minhas irmãs avisavam-me: "Raul, papai já vem!"
Ele costumava entrar pela porta da frente, e eu saía pelos fundos. Ia brincar, nadar no rio, pescar, brincar de pião, com bolinhas, corria por toda parte. Não comentava com ninguém que papai implicava comigo, como mamãe recomendava. O chato era que ia dormir muito cedo, após o jantar; papai chegava e raramente saía, eu ia para o meu quarto e lá ficava. Sem ter com quem brincar, ia dormir.
Papai comprava roupas bonitas e brinquedos para Tais e Telma, nunca me dera nada e não deixava mamãe comprar nada para mim. Não sentia inveja de minhas irmãs, achava merecido elas ganharem presentes, ainda mais que elas deixavam que eu brincasse com eles, só que não achava graça em brinquedos de meninas. Minhas roupas, eu as ganhava de minha tia, de meu primo mais velho. Eu não me aborrecia com essas diferenças; sentia, sirn, a falta do amor dele.
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Vera Lúcia Marínzeck de Carvalho
As dores estavam fortes, muito fortes, e não passavam. Tentei orar novamente, queria e não conseguia repetir as que sabia de cor, pensei nas imagens que via sempre na igreja, a de Maria, com expressão de sofrimento, e a de Jesus, coroado de espinhos e todo machucado. Jesus deve ter sofrido muito, como eu agora. Mamãe não se mexia, estava demorando demais para acordar: será que morreu? Apavorado, quis chorar, não consegui, meus olhos estavam secos e as lembranças teimavam em vir.
Aquela pedra! Observei bem na parede do poço uma pedra com formato quadrado, e lembrei do meu carrinho. Fora presente de vovó, era de madeira, uma cópia perfeita do carro que os bois puxavam na fazenda. Tinha muito cuidado com ele, guardava no meu quarto, dentro do armário, tinha-o como lembrança de minha avó.
Um dia, estava chovendo, não vimos papai chegar, voltara mais cedo, estava começando a jantar. Ao me ver, começou a ralhar comigo, senti muito medo, não sabia o que fazer, se ficava ou se saía da sala. Ele mandou que olhasse para ele, olhei, e xingou-me mais ainda. Até que escutei com certo alívio: "Hoje não come mais! Vá para seu quarto". Saí quase a correr, fiquei no meu quarto, peguei meu carrinho como se pedisse proteção. Escutei vozes na cozinha, papai discutia com mamãe.
"Não devia tratá-lo assim" - disse mamãe.
"Aqui mando eu e faço o que quero. Se está achando ruim achará mais!"
Entrou no meu quarto empurrando a porta. Assustado, fiquei olhando sem conseguir mover-me. Chutou meu carrinho e pisou em cima, depois tirou a cinta e começou a surrar-me. Gritei. Mamãe e Pretinha acudiram-me e acabaram apanhando também.
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Reconciliação
Saiu furioso e choramos todos: mamãe, Pretinha, minhas irmãs e eu. Mamãe teve que me banhar com salmoura. Doía-me o corpo todo, mas o que me machucava realmente era ver meu carrinho todo quebrado.
"Por que, mamãe, por quê?"
Ela não respondeu, estava tão triste quanto eu. Ajudou-me a consertar meu carrinho. Não ficou como antes, não rodava mais. Guardei-o então bem escondido e só o pegava quando tinha a certeza de que papai não estaria em casa. Após esse dia, tomamos mais cuidado, evitava ver meu pai, passando meses sem vê-lo e, quando o fazia, era de longe.
Nos últimos tempos, mamãe estava mais triste e abatida. Pretinha dissera-me que ela estava sofrendo, Telma a vira chorar e contara que papai havia gritado com ela.
Naquela semana, pareceu-me que ele estava mudando: nos últimos dias, estava mais atencioso. Encontrou-me almoçando, tremi assustado, sem saber se saía ou ficava, só rne olhou e disse: "Coma, menino".
Saiu da cozinha, indo para a sala. Suspiramos aliviados, acabei de almoçar e saí rápido de casa. Engraçado que, quando ele se referia a mim, nunca me chamava pelo nome, sempre de "menino" ou "moleque".
Dois dias atrás, trouxe doces, as meninas correram para pegar, já estava saindo da cozinha quando ele me chamou: "Moleque, venha cá!" Ficamos todos com medo, tremi assustado, parei e voltei, ele estava entrando na cozinha.
"Tome isto!" Deu-me doces, o mesmo tanto que dera Para as meninas; fiquei contente, mamãe alegrou-se, esforcei-me e consegui dizer: "Obrigado".
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Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
Ontem, quando íamos jantar, Pretinha avisou que ele estava chegando. Corri para meu quarto, lugar em que ele nunca mais entrara. Da cozinha, gritou: "Menino, venha jantar!"
Não saí do lugar, mamãe veio buscar-me e disse: "Venha, ele está calmo". Fui com medo, sentamos todos e jantamos. Não ousei levantar a cabeça e não conversei. Olhei-o disf arçadamente algumas vezes, pareceu-me tranqüilo. O jantar pareceu-me longo: quando acabamos, ficamos sentados e eles conversaram. Até que nos mandou dormir; fui, aliviado.
Hoje pela manhã, papai mandou que Pretinha levasse as meninas ao ensaio do coral da igreja à tarde e ficasse esperando para traze-las de volta. Logo que Pretinha e as meninas saíram, estávamos na cozinha, eu fazendo minhas tarefas escolares e mamãe fazendo bolinhos, quando papai entrou de surpresa; nessa hora não costumava vir para casa.
Ao vê-lo entrar pela porta da cozinha, fiquei quietinho, mas virou-se para mim e indagou:
"Menino, está bem na escola?"
"Estou sim, senhor" - respondi.
"Manuela, estive pensando, acho que já é tempo de acabar com algumas coisas desagradáveis aqui em casa. Raul não precisará mais sair de casa quando eu chegar, isso traz comentários e não you surrá-lo mais, vamos procurar viver em paz."
"Manuel!" - exclamou mamãe. - "Quer isso mesmo? Que bom!"
"Vamos começar dando um passeio. Estou com vontade de andar um pouco pelo campo, está bonito nesta época do ano. Venha comigo, Manuela."
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Reconciliação
"Mas, Manuel, you fritar os bolinhos!"
"Deixe isso para depois. Está trabalhando muito, o armazém ficará hoje sem seus bolinhos, vamos aproveitar esta tarde bonita para conversar e nos entender. As meninas só voltam lá pelas dezessete horas. E venha você também, moleque. Vamos os três. Feche a casa, Manuela, enquanto you ao armazém dar ordens para o Oswaldo. Vá indo na frente com o menino, encontro vocês logo, vão pela estrada da Capoeira."
Papai saiu e mamãe sorriu, feliz.
"Vamos, Raul, vamos passear com seu pai. Feche a casa para mim, you arrumar-me, acho que Manuel está mudando, tratou-nos tão bem..."
Logo saímos e fomos para o lado da estrada da Capoeira, que não era longe de casa, era caminho de diversas fazendas para a cidade.
íamos de mãos dadas. Mamãe soltara seus cabelos, penteando-os, ficara muito bonita, estava perfumada e risonha. Recomendou-me:
"Raul, meu filho, preste bem atenção, seja obediente. Não deve irritar seu pai, fale pouco, fique quietinho, obedeça-lhe em tudo para agradá-lo. Fique perto de mim, não se distancie, entendeu? Estou tão contente, tenho fé em Deus e esperança no coração de que nossa vida irá mudar. Acho que ele me ama, está contente e tranqüilo. Quis passear conosco. Isso é bom, não acha?"
Fomos andando pela estrada, o campo estava florido e a tarde, morna e agradável. Olhava mais para mamãe, alegre, estava mais bonita ainda e era tão meiga e tão boa! Papai alcançou-nos, veio apressado olhando para trás, sorriu ao nos ver.
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Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
Reconciliação
Passou a mão na minha cabeça, querendo ser agradável, mas não estava contente como minha mãe. Senti medo, não sabia por que, sentia uma ansiedade, como se a qualquer momento ele fosse tirar a cinta e surrar-me.
Continuamos a caminhar.
"Vamos até lá embaixo?" - sugeriu papai.
"Não é longe? As meninas podem voltar" - respondeu mamãe.
"Ora, Manuela, elas estão com Pretinha e não demoraremos, estou hoje com vontade de andar. Não acha agradável andar pelo campo?"
"Está mesmo muito agradável. Vamos."
Foram conversando, papai pareceu-me um tanto estranho, olhava muito para os lados, enquanto mamãe ia feliz com a atenção recebida. Ela se recordava de sua infância na fazenda, de seus pais, de quando namoravam, da coincidência de nomes. Saímos da estrada, descemos um pequeno morro. Eu ia calado, ao lado de mamãe, como ela recomendara, catava pedrinhas e jogava-as.
"Aqui está. O velho poço abandonado" - disse meu pai.
"Não acha perigoso, Manuel, deixar um buraco assim aberto em pleno campo?"
"Foi aberto porque julgaram achar água, como não deu em nada, abandonaram-no. Venha, vamos vê-lo. Manuela, você disse a alguém que íamos sair? Encontrou com alguém no caminho?"
"Não, ninguém."
Muitas e muitas vezes, brincara por ali; mas, por recomendações, não chegávamos muito perto do poço porque sabíamos que poderíamos cair. Papai aproximou-se e chamou-nos.
"Venham vê-lo. Curioso, é bonito, não tem perigo, é só ter cuidado."
Aproximamo-nos, mamãe chegou bem perto dele, eu fiquei a uns dois passos dela. Aí, tudo aconteceu. Meu pai feriu-nos e jogou-nos ali dentro do poço.
Eu indagava: "Por quê? Por quê?" Não entendia, não conseguia entender; pensando nele, não sentia raiva, parecia-me que ele tinha motivos para fazer o que fez. Nem medo dele tinha mais, não achava ruim o que nos fizera e não sentia nem um pouco de ódio. Lembrei que, uma vez no catecismo, fiquei bravo com os homens que mataram Jesus, após ouvir a história da crucificação.
"Ah, se estivesse lá" - exclamei -, "mataria todos eles sem piedade!" - Fechei o punho, ameaçador, e dona Mariana, a catequista, respondeu-me com brandura:






"Raul, Jesus passou por muitos sofrimentos, ingratidões e até traição; compreendeu a maldade deles, aceitou tudo com muito amor. Perdoou-lhes e pediu para o Pai perdoar-lhes, deixando-nos o exemplo a ser seguido. Por que não perdoamos também? Não devemos ter raiva de ninguém, mas compreender as maldades que nos fazem."
Senti-me mais tonto ainda, estava estranho, as dores suavizavam e um frio invadiu-me. Pensei nele, lembrei com detalhes o rosto de meu pai, sua expressão ao me segurar; odiava-me e eu não sabia o porquê. Tentou matar-nos, ferindo-nos tanto, e eu o perdoava, perdoava de coração.
"Perdôo-lhe, papai" - disse em prece. - "Perdôo-lhe e não you querer mal ao senhor, não you!"
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Reconciliação
Olhei para baixo, percebi que estava de pé e deitado também ao mesmo tempo. Vi-me com nitidez, virado, todo sujo de sangue e imóvel.
- Não olhe para baixo, venha para meus braços.
Vi então que com minha avó estavam mais duas pessoas que não conhecia e também não consegui vê-las direito. Parecia que elas me soltavam de alguma coisa e esta coisa parecia ser eu mesmo, meu corpo.
Olhei com muito amor para vovó, era bom demais tê-la comigo nessa hora em que sofria e necessitava de l carinho e proteção.
- Vovó! É a senhora mesmo? - falei com facilidade. Incrível, não sinto mais dores, a senhora veio ajudar-me? Não está morta?
- Ninguém acaba no mundo só porque teve seu corpo morto. Quando amamos, estamos sempre juntos, e eu amo você. Tem medo?
- Não, senhora, nunca iria ter medo da minha avozinha.
- Meu netinho, venha comigo.
- Não posso andar, até há pouco nem me mexia, as | dores passaram, mas...
r - De agora em diante, não terá mais dores, venha
para meus braços.
Fui sem medo, amava demais minha avó, sentira sempre tanta saudade dela. Senti seus lábios na minha testa num beijo suave, cheio de carinho, como sempre fazia nos tempos em que morava com ela. Confortado, confiante, fiquei por uns instantes desfrutando a paz que me transmitia. Lembrei-me então de mamãe, que também carecia de socorro, olhei para baixo e estava
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O SOCORRO
l araram as lembranças; por uns instantes, fiquei como que vazio.
- Venha, querido, dê-me sua mão.
Pareceu-me ser a voz de minha avó, escutava de um modo estranho, senti como se alguém me protegesse. Quis obedecer, esforcei-me e ergui a mão com mais facilidade do que pensava poder fazer. Virei a cabeça, já sem esforço, para cima e a vi.
Vovó estava sorrindo ao meu lado, segurava uma das minhas mãos que estendi e ela estendia-me também sua mão. Senti-me tonto, com a sensação de que ficara leve de repente e que me erguera do chão, do fundo do poço.
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Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho Reconciliação
mamãe do mesmo modo, como eu também. Nós dois, imóveis, quietos, machucados.
- Sou dois agora, vovó? - indaguei assustado.
- Não, Raul, você é um só. Você é este que sente, que conversa comigo, que está nos meus braços. O outro que está imóvel é só seu corpo. Não se assuste, meu neto, uma nova vida começa para você. Não quer ficar comigo?
- Sim, quero, o que mais quero é morar com a senhora novamente.
- Sabe que morri para o mundo físico, material, moro em outro lugar agora?
-Não faz mal, se eu morri, quero estar com a senhora.
- you carregá-lo, vamos sair do poço.
- E mamãe? Vem conosco? A senhora e seus amigos vão tirá-la do poço?
- Raul, sua mãe virá mais tarde, não se preocupe com ela.
Não me preocupei, sempre confiei em vovó, senti-me bem, acomodei-me nos seus braços carinhosos e um suave sono invadiu-me; ainda tentei abrir os olhos, não consegui, adormeci.
Acordei bem disposto, espreguicei, sentindo-me muito bem, depois olhei para os lados procurando por Pretinha. Pensei estar acordando no meu quarto, mas era um quarto grande com várias camas, lugar claro, agradável. Respirei fundo, senti-me leve e disposto. Olhei pelo quarto todo, não conhecia aquele lugar, olhei-me, não estava com minhas roupas e sim com uma de dormir, limpa e perfumada. Apalpei-me, estava como sempre, sem nenhum machucado. Lembrei-me do poço, dos acontecimentos, de mamãe, senti medo. Quis gritar, mas não o fiz, encolhi-me
na cama, cobrindo-me todo com o lençol. Acabei por conseguir dizer: "Valha-me, Deus! Será que é sonho, eu sonhei?"
- Como está meu homenzinho? Dormiu bem? Descobri só um pouquinho o lençol, o tanto que
deu para ver a dona da voz, olhei-a curioso. Era uma moça muito bonita, risonha e alegre. Senti-me mais tranqüilo, ela pareceu-me boa. Sorriu para mim e sentou-se na minha cama.
- Não fique assustado, sou sua amiga. Como se sente?
- Eu? Bem, não sei. Poderia dizer-me se sonho?
- Claro que não, veja, you beliscá-lo.
Apertou minha bochecha direita, riu alto e acabei por descobrir-me, soltei mais meu corpo e sorri também.
- Raul, meu querido! - Escutei a voz de vovó que chegava.






- Vovó, avozinha! Abraçamo-nos, beijamo-nos.
- Raul, meu neto, estaremos sempre juntos agora. O medo passou, sentei-me na cama, passei meus
braços em torno do corpo dela como se a segurasse para sempre junto a mim.
A moça, minha nova amiga, fez um adeusinho com a mão e saiu, deixando-nos sozinhos.
- Estamos no céu, vovó? Mora aqui? Que é dos amigos? Conhece o anjo Gabriel? Gostaria de vê-lo, acho-o tão lindo!
Vovó sorriu.
- Saberá de tudo aos poucos, meu neto. O céu como Pensa não existe, aqui é uma das moradas espirituais, linda e acolhedora. Anjos são espíritos bons que trabalham em ajuda a todos. Mas como se sente?
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Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
Pulei da cama, sentia-me muito feliz com a presença de vovó. Não senti medo ou receio, a nova forma de vida estava encantando-me, ainda mais sabendo que agora ficaria com vovó Margarida. Mas lembrei-me de mamãe, se estava viva no corpo, deveria estar machucada, ou, se estava morta, deveria estar também ali.
- Vovó, e mamãe? Não está aqui?
- Aqui, Raul, é morada dos mortos da matéria.
- Morri mesmo? Nem acredito. Tinha impressão de que a morte era complicada.
- A morte do corpo é um fenômeno simples que acontece a todos nós. Sim, seu corpo morreu.
- Mamãe não morreu? Foi mais ferida, caiu primeiro. Ainda está lá? Está sozinha?
Vovó entristeceu-se por uns instantes, voltando a sorrir em seguida.
- Ninguém está sozinho, estarei sempre que possível com minha filha, não se aflija, por favor. Deus é bom demais, Manuela ficará boa.
- Eles a acharam? Deve ser noite, está escuro.
- Claro que a acharam, não deve se preocupar com isso, agora. O importante é você estar bem.
- E vovô? A senhora dizia que quando morresse queria ficar com ele!
- Aqui não é bem como pensava que fosse. Não ficamos todos no mesmo lugar. Há muita justiça e uns, como seu avô, necessitam ficar em outros lugares para compreender e se arrepender dos erros cometidos.
Lembrei que vovô, nas conversas que eu escutara, fora mandão e genioso:
- Está no inferno? - indaguei ressabiado.
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Reconciliação
- Não, Raul, o inferno eterno não existe, mas há lugares feios e tristes onde ficam os imprudentes, por certos períodos, até se arrependerem. Compreenderá aos poucos.
- Vovó - acenei para que se aproximasse e disse-lhe, baixinho: - Sabe quem nos jogou no poço? Foi meu pai, foi ele mesmo.
- Vamos esquecer isso também, por enquanto.
- Não tenho raiva dele, já o perdoei, como ensinou Jesus no Pai-Nosso.
- Raul, orgulho-me de você, procede do modo mais certo: quem perdoa limpa-se e torna-se leve; foi por isso que pôde vir para cá e estar comigo.
Mudamos de assunto, começamos a falar do tempo em que vivíamos juntos, de fatos interessantes. Senti-me tão feliz ao lado dela que não pensei mais nos acontecimentos tristes.
Vovó acomodou-me no leito, orou comigo, agradecendo por estarmos juntos. Beijou-me, senti sono, dormi tranqüilo.
Devo ter dormido muito, porque acordei com vovó me chamando:
-Raul!
Acordei, pulei nos braços dela, beijando-a.
- Está muito bem, menino. you levá-lo para minha casa.
- Não mora aqui, vovó?
- Aqui é um hospital, onde ficou uns dias se recuperando. A vida continua e não é só dormir. Conhecerá linhas amigas que moram comigo. Venha, mostrarei a colônia a você.
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Vera
Lúcia Marinzeck de Carvalho Reconciliação
Vovó ajudou-me, mas eu sentia que mamãe chorava por mim. Estranho, eu sabia que ela me chamava. Eu disse
para minha avó:
- Vovó, é mamãe, sinto que está chorando e que
chama por mim!
- Manuela sabe que você morreu, está triste e chora, mas isso passa. Quando sentir isso, ore e se distraia. Não deve se preocupar com ela, as mães sempre choram por
seus filhos.
- Que bobagem, vovó! Se mamãe pudesse ver-me
não iria chorar por mim.
Não falei mais nada, mas pensei: "Acharam mamãe e ela sabe por que morri. Papai deve estar arrependido e tudo ficará bem, lembro que sofremos e choramos quando vovó morreu e agora eu a vejo viva em espírito e estou
junto dela".
- Raul - disse vovó -, não deve dizer que morreu,
use o termo certo, você desencarnou, isto é, está vivo, sem o corpo carnal. Ninguém acaba, Raul, vivos sempre estamos, no corpo dizemos que estamos encarnados ou reencarnados; sem o corpo de carne, estamos desencarnados.
- Que interessante!
Saí do quarto e vi que o hospital era grande, limpo e agradável, rodeado por um grande jardim com árvores e muitas flores. De mãos dadas com vovó, ia olhando tudo, encantado! Passamos por um portão, chegando a uma rua toda limpinha e arborizada.
Tudo é tão lindo, vovó, mais parece uma cidade, ruas,
casas, que coisa! Vovó sorriu.
- É uma cidade, Raul, só que no plano espiritual; a
vida continua!
sorri ao falar o
- Por que, vovó, os encarnados - sorri ao falar o termo aprendido - não sabem disso?
- Muitos sabem, Raul; outros preferem complicar
algo tão simples e perfeito.





- Como é bom morrer, digo, desencarnar! - Rimos. Chegamos à frente de uma casa rodeada de um pequeno jardim, cheio de flores.
- Aqui é meu lar e seu também de agora em diante;
venha, entremos.
A casa era limpinha, agradável; as amigas de vovó, quatro senhoras simpáticas e bondosas, receberam-me alegres e logo fiquei à vontade.
- Este é seu quarto, você ficará comigo.
Em pouco tempo, conheci tudo e tornei-me amigo das companheiras de vovó. Despediram-se de mim, dizendo que iam trabalhar, achei estranho e corri para indagar.
- Vovó, vovó, elas foram trabalhar? Aqui não se descansa pela eternidade? Vejo-as felizes, e vão trabalhar?
-Raul, será que pessoas dinâmicas seriam felizes sem fazer nada? O trabalho é a alavanca do progresso espiritual. Há muito o que fazer aqui. Será que você não se cansará de ficar à toa? Não irá querer saber como é aqui? Poderá aprender, estudar. Não foi auxiliado? Ajudamos você a desencarnar, foi atendido no hospital, isso é trabalho, é o que fazemos aqui. O céu que muitos imaginam ^a Terra não é o da realidade, não ficamos ociosos pela eternidade. Desencarnar é como mudar, muda-se a forma de viver. Somos eternos, a vida continua e não se cresce
Sern estudo e trabalho.
- A senhora falou que nem todos que desencarnam
Vem para cá; podem ir para onde?
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Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho veconcüiação
- Muitos lugares, lindos e agradáveis como este; feios
e tristes, para os maus.
- Vovó, se papai desencarnar, irá para um lugar feio?
- Não sei, Raul, se não se arrepender, irá. Mas você não deve se preocupar com isso agora.
- Vovó, se you morar aqui, quero conhecer, aprender,
não gosto de ficar à toa.
- Como me alegro em vê-lo disposto! you levá-lo amanhã a uma escola onde aprenderá com outros jovens o que necessita saber.
-Escola?!
- Não é só porque desencarnou que se tornará sábio e saberá de tudo. Para saber é necessário aprender e estudar. Agrupam-nos em escolas, em salas de aula. Quem sabe ensina para os que querem aprender. A escola para onde irá é para crianças e jovens, tendo também adultos, é grande e espaçosa. Fará muitos amigos, jovens como você; lá passará o dia todo e só virá encontrar-se comigo
à noite.
- Não ficaremos o tempo todo juntos?
- Raul, estaremos juntos, mas não o tempo todo. Você estudará e eu tenho minhas tarefas, meu trabalho. Não posso ir à escola com você, nem você comigo ao meu trabalho. Cada um de nós tem uma ocupação e não podemos estar o tempo todo juntos. Isso acontece com os encarnados também; a vida continua.
Aguardei ansioso o dia seguinte e logo cedo fui conhecer a escola com vovó. Andamos pelas avenidas, onde as pessoas nos cumprimentavam contentes. Vi um senhor de mãos dadas com um garoto que, como eu, olhava tudo, encantado. Pareceu-me ser o pai dele, e lembrei-me do meu.
- Vovó, é melhor não dizer a ninguém o motivo de j^eu desencarne. Não quero que meu pai venha a ser preso e depois me envergonhar.
- Raul, os acontecimentos aqui não são iguais aos da Terra. Não podemos esconder os fatos e não tem por que se envergonhar, verá isso com o passar do tempo. Creio que ninguém o interrogará e não precisa contar, se não quiser. Quanto a ser preso, está entre desencarnados que não efetuam prisões.
- Vovó, sinto que meu pai teve motivos para fazer o que fez, só que não o entendo, eu esforcei-me por gostar dele. Às vezes, sentia que ele também,




só que não conseguia. Qual o motivo do ódio dele, vovó? A senhora sabe? Se há motivos, gostaria de conhecê-los.
- Raul, o progresso exige mudanças, transformações, nosso modo de viver não é eterno, como nós. Estamos sempre mudando, ora vivemos revestidos do corpo carnal, encarnados, ora estamos aqui, no plano espiritual, desencarnados. Vivemos muitas vezes na Terra, renovando os corpos.
- Que legal! Já fui outras pessoas?
- Não, querido, você é sempre o mesmo; já teve, sim, outros corpos, conseqüentemente, outros nomes, viveu em nuiitos lugares, teve acertos, erros, aprendendo e crescendo espiritualmente.
- Erros. Vovó, é isso, sinto que errei muito e minha niorte, quer dizer, meu desencarne violento se deu em razão de meus erros do passado.
- Sofremos, Raul, o que fizemos outros sofrerem.
- Parece que sei disso, a senhora fala e parece que recordo. É estranho, sinto que tive realmente outras exis-
4-A -*- s
^ncias, e junto com meu pai. É possível?
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Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
- Sim, Raul, é possível. Laços de amizade ou de ódio são fortes. E a Justiça Divina sempre coloca juntos nas encarnações os que se odeiam para pôr fim a esse sentimento inferior.
- Da minha parte, acabou; gosto do meu pai, amo mamãe. Se meu pai nos odeia, coitado dele...
- Sim, é verdade, quem odeia é digno de dó. Chegamos ao Educandário, assim era chamada a
escola de jovens e crianças. O prédio, muito grande, era rodeado de jardins floridos e parques com brinquedos espalhados.
- Como é grande! Como é maravilhoso! - exclamei, admirado.
- Este lugar, Raul, é local de estudo e também morada para aqueles que não têm parentes aqui. Do lado direito estão as classes dos jovens e do outro lado, as das crianças. Há muitos professores e todos vivem felizes.
Após atravessarmos o portão, entramos na recepção, onde fomos atendidos por uma senhora simpática, que abraçou vovó e depois a mim.
- Veio acompanhar o netinho, Margarida? Que mocinho lindo! Como está?
- Bem, obrigado - disse, um tanto encabulado.
- Gostará daqui, Raul, conhecerá hoje toda a escola, levarei você à classe que freqüentará.
A escola, ou melhor, o Educandário, muito limpo, pintadinho e cheio de plantas floridas, encantou-me. A senhora que nos recebeu deu algumas explicações à vovó.
- Margarida, Raul estudará em classe especial. São vinte meninos da mesma faixa etária que tiveram desencarne incomum. São espíritos inteligentes e com conhecimentos
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Reconciliação
anteriores. Terá só um professor nesse período, é o professor Eugênio, dedicado e amigo, mestre de quem seu neto muito gostará. Aqui é a Direção, venham conhecê-la. São muitas pessoas que aqui trabalham visando ao bem de todos os nossos jovens e crianças.
Olhava tudo, maravilhado, nunca vira lugares tão lindos e grandes. A nossa cicerone continuou:
- Aqui ficam as moradias, masculinas e femininas, o pátio, a ala das crianças, que são repartidas por idades, ali está o berçário.
Vi crianças de todos os jeitos e muitas brincavam felizes pelos parques.
- Terá tempo, Raul, para conhecer tudo. Venham, nesta parte estão as salas de aula; aqui está a sua.
- Devo ir agora, Raul - disse vovó, beijando-me na testa.
Nossa condutora bateu na porta e um senhor agradável, risonho, abriu-a e deu-me um abraço.
- Você é Raul? Esperávamo-lo, venha conhecer seus colegas.
Despedi-me com um aceno de mão da senhora que me acompanhou. Fiquei encabulado, mas o professor não me deixou sentir receio; tomou-me pela mão e observou-me de modo agradável. Corri o olhar pela classe, grande, confortável, limpa e bonita. Meus novos colegas eram só meninos de onze a quatorze anos, olharam-me sorrindo, dando-me boas-vindas.
- Este é Raul, recém-chegado do lar terrestre - disse
0 professor. - Este é... - Foi dizendo o nome de todos, um P°r um.
- Não se preocupe, Raul, logo saberá o nome de todos.

u o único professor de vocês, irá estudar gramática,
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Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho Reconciliação
matemática, matérias de conhecimentos gerais, como também moral cristã e o Evangelho. Sente-se aqui; depois, se quiser, troque e sente-se onde achar melhor, porém não incomode ninguém. Continuemos nossa aula.
Meu coração bateu forte, observei tudo, curioso e maravilhado. Os meninos, interessados, prestavam atenção, i senti que eram amigos e gostei do meu novo mestre. \
- Estamos falando, Raul, da imensa Bondade e Sabe- j doria de Deus, nosso Pai, que nos dá sempre oportuni- « dades a cada reencarnação de melhorarmos e progredirmos. \
"Nem todos os encarnados crêem na reencarnação. São muitas as formas de crença. Porque para os ateus, que não crêem em nada, o mundo surgiu ao acaso, como nós também surgimos. Não sabem explicar como tudo surgiu, têm muitas teorias; não crêem em Deus, mas no acaso. E, dentro desse acaso, há formas complicadas, chegando a um ponto em que não têm mais explicações. Para outros crentes, a maioria, Deus criou tudo e a nós também, só que acreditam que somos criados na concepção, juntamente com o corpo, tendo uma só existência. Fazem de Deus um carrasco, porque as diferenças ficam para o acaso: sorte ou azar. Uns são perfeitos, ricos, inteligentes; outros, defeituosos, débeis. Temos as oportunidades de renascer no corpo muitas vezes. O Pai nos criou iguais, somos nós que fazemos as diferenças. Criou-nos livres, temos o livrearbítrio de plantar e, obrigatoriamente, temos de colher o que se plantou. Assim, as diferenças são explicadas pelas reencarnações e pela Lei de Causa e Efeito."
- Professor Eugênio - disse um dos meus colegas -, o desencarne precoce, ou seja, a morte do corpo, quando este é jovem, é uma colheita?
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- Mário, nem sempre, não há regra geral na espiritualidade sobre esse assunto. A reencarnação é necessária ao nosso crescimento espiritual, estar revestido do corpo carnal não é fácil. Para uns espíritos é necessário passar pouco tempo encarnado para seguir às esferas superiores. Podemos comparar a Terra a uma prisão e a pena de cada um é diferente; uns têm algum tempo; outros, muito tempo. Findando, partem para sua libertação. Para outros, o desencarne no corpo jovem é aprendizado, colheita.
- Para mim foi uma colheita - disse Mário. - Achei tudo interessante!
O professor respondia às indagações com paciência e dedicação. Pensei: "you




gostar mais desta escola que da outra que cursava como encarnado". O professor continuou:
- Para a maioria, é aprendizado, Mário. Estão aqui reunidos vocês que deixaram corpos de carne como jovens, mas que são espíritos adultos e de muitas existências, com erros e propósitos de acertos, tanto que todos têm histórias interessantes vividas e uma encarnação de colheitas de outras existências.
Olhei-o um tanto desconfiado e pensei: "Tomara que não saibam que meu pai matou meu corpo!"
O professor, entretanto, pareceu nem notar minha Preocupação e continuou a aula falando da beleza da reencarnação, das oportunidades que cada um tem de reparar seus erros e aprender a amar a todos como uma grande família. Quando terminou a aula, os meninos Cearam conversando e, para meu alívio, ninguém me Perguntou como desencarnei.
- Ei, Raul, conhece a biblioteca? Não? Venha conosco, Poderá pegar os livros que quiser, todos nós estamos
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Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
adquirindo o hábito de ler. Tem urna quantidade enorme de livros aqui.
A biblioteca fica na ala das salas de aula, é grande, espaçosa, com muitas estantes, todas cheias de livros.
- Já leu este? - indagou Tião. - Leia, que gostará. É a história de Jesus para jovens. É lindo!
Pelo corredor, vi que outras salas tinham professores diferentes, e Tião explicou-me:
- Somos orientados aqui conforme nossas necessidades. As salas de aula são agrupadas de acordo com as necessidades básicas de cada um.
No pátio despedimo-nos, a maioria seguiu para os alojamentos e outros seguiram para o portão. Vovó esperava-me.
- Então, Raul, gostou?
- Muito, vovó, gostei demais.
- Vim buscá-lo somente hoje. Tenho muito o que fazer, você é esperto, virá sozinho amanhã.
- Virei, sim, vovó, não quero incomodá-la, estou tão bem!
De mãos dadas, senti-me feliz, e estar desencarnado para mim era maravilhoso, eu queria agora aprender e conhecer.
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APRENDENDO
l assei a ficar o dia todo na escola, assistia às aulas, com grande interesse, aprendendo gramática, matemática e outras matérias, como também as que nos davam explicações do plano espiritual, íamos muito à biblioteca, e meu interesse cresceu em relação aos livros, passei a lê-los com gosto. Conversávamos no pátio e eu ia aos parques brincar com outros meninos. E quase todos sentiam saudade de seus antigos lares e de seus familiares. As horas de lazer eram agradáveis e eu me sentia sempre feliz. Amávamos o professor Eugênio, que para tudo e todos tinha uma resposta delicada e sábia. Aprendi com facilidade, como se recordasse;





Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
uma das partes de que mais gostava era quando um dos colegas contava fatos ou mesmo a história de sua vida. E, aos poucos, fui percebendo que não tinha do que me envergonhar e esconder sobre meu desencarne.
Cada um de nós naquela classe tinha uma história incomum, conseqüências de erros de outras experiências.
Naquele dia, escutara Marcílio, que contara, comovido:
- Desencarnei assassinado. you narrar a vocês a história de minha vida. Meu pai desencarnou, deixando minha irmãzinha e eu bem pequenos. Logo após, minha mãe casou-se novamente. Meu padrasto nunca nos aceitou, minha irmã e eu passamos por momentos difíceis, mas fomos vivendo. Nasceram mais quatro irmãos. Morávamos num sítio, estava com onze anos, havia nesta época um potro bravo que ninguém conseguia montar. Naquele dia, estava a sós com meu padrasto no curral, vi-o laçar o potro e me desafiar:
"'Monte neste cavalo, menino/ :
"'Eu não, ele é bravo!'
"'Tem medo? É covarde como seu pai/
"Enfureci-me, mas nada respondi, aí ele me pegou e me jogou em cima do potro, que saiu pulando como doido. Ainda o escutei rir, fiquei apavorado, tentei me segurar, não consegui e caí. Senti ser pisoteado pelo potro, nada mais vi ou senti, acordei e soube que desencarnara. Aqui me senti feliz, o tempo foi passando e tudo parecia normal.
"Mas minha irmãzinha, um ano mais nova que eu, enfrentando dificuldades, começou a pedir-me socorro, chamando-me para ajudá-la. Como isso é normal por aqui,
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Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
uma das partes de que mais gostava era quando um dos colegas contava fatos ou mesmo a história de sua vida. E, aos poucos, fui percebendo que não tinha do que me envergonhar e esconder sobre meu desencarne.
Cada um de nós naquela classe tinha uma história incomum, conseqüências de erros de outras experiências.
Naquele dia, escutara Marcílio, que contara, comovido:
- Desencarnei assassinado. you narrar a vocês a história de minha vida. Meu pai desencarnou, deixando minha irmãzinha e eu bem pequenos. Logo após, minha mãe casou-se novamente. Meu padrasto nunca nos aceitou, minha irmã e eu passamos por momentos difíceis, mas fomos vivendo. Nasceram mais quatro irmãos. Morávamos nurn sítio, estava com onze anos, havia nesta época um potro bravo que ninguém conseguia montar. Naquele dia, estava a sós com meu padrasto no curral, vi-o laçar o potro e me desafiar:
'"Monte neste cavalo, menino.'
'"Eu não, ele é bravo!'
"Tem medo? É covarde como seu pai/
"Enfureci-me, mas nada respondi, aí ele me pegou e me jogou em cima do potro, que saiu pulando como doido. Ainda o escutei rir, fiquei apavorado, tentei me segurar, não consegui e caí. Senti ser pisoteado pelo potro, nada mais vi ou senti, acordei e soube que desencarnara. Aqui me senti feliz, o tempo foi passando e tudo parecia normal.
"Mas minha irmãzinha, um ano mais nova que eu, enfrentando dificuldades, começou a pedir-me socorro, chamando-me para ajudá-la. Como isso é normal por aqui,
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Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
auscultou-a e soubemos que ela temia meu padrasto, que já tentara violentá-la e a queria como amante. Chorei ao saber disso, mas o professor Eugênio lembrou-me de que o momento exigia confiança e eu deveria estar tranqüilo para ajudá-la. Não sabia o que fazer, orei com fé, pedi a Jesus que protegesse Leninha. Mas, se não sabia como socorrê-la, o professor, sabia. Vendo que meu padrasto tinha uma úlcera no estômago, colocou algumas gotas de um medicamento que trouxera na água que ele tomou, fazendo com que doesse. Com dores, teve de ficar acamado e não sentiu disposição para fazer o que planejara.
"Vamos agora, Marcílio" - disse o professor -, "ver quem poderá ajudar Leninha".
Visitamos meus poucos parentes, inclusive uma tia, irmã de meu pai, que enviuvara recentemente e estava morando sozinha. O professor Eugênio, pacientemente, fez com que ela se lembrasse de Leninha para sua companhia. Minha tia gostou da lembrança e achou que foi Deus que a ajudou. Foi no outro dia à casa de minha mãe. Assim, pediu a minha mãe para Leninha morar com ela; minha mãe hesitou, o professor interferiu e ela deixou. O professor ajudou-me a resolver o problema de Leninha, que está feliz com minha tia e não me chamou mais. Hoje, conto tudo para agradecer ao professor pela ajuda que deu a mim e a minha irmã.
O professor sorriu e iniciou uma outra aula. Achei fantástico Marcílio ter voltado à sua casa e ter ajudado sua irmã, e pela primeira vez deu-me vontade de rever minha casa, sentia saudade de Pretinha, de Tais, de Telma, dos amigos e muita, muita saudade de mamãe.
Voltei para casa pensando nela. Como estaria?





Reconciliação
Quando vovó me viu, foi logo dizendo:
- Que o preocupa, Raul?
- Minha mãe, estou pensando nela. Como estará ela? A queda foi forte e ela foi ferida com a faca. Estará bem? Difícil pensar que está encarnada. Sinto, vovó, ela chamar-me, parece que está chorando e que diz: "Raul, Raul, onde está você?" Faço o que o professor recomenda, oro por ela, procuro distrair-me. Acho que ela está sofrendo, vovó. Por favor, se a senhora sabe, diga-me como está ela.
- Raul, nestes poucos meses aqui, já aprendeu muito. Toma consciência da vida espiritual, desencarnou tendo o corpo de um menino, quase adolescente. Entretanto, seu espírito é adulto e aceitou bem a desencarnação. Você, Raul, foi um privilegiado, viu seu desencarne, isso é raro; viu, sentiu, por não ficar com medo, porque estava tranqüilo, sem raiva, sem fluidos negativos. Tantas pessoas de conhecimento querem ver seu desencarne e não o conseguem, perturbam-se com pequenas coisas, acontecimentos, com alguns erros, apegados à matéria. Até se libertarem desses sentimentos, passam pela desencarnação quase sempre dormindo e não a vêem. Você viu ser desligado, seu desencarne, aceitou, adaptou-se fácil e está feliz. Isso não ocorre com todos, não ocorreu com sua mãe. Minha filha Manuela desencarnou antes de você.
- Desencarnou? Por que não a vi? Não a vejo? Não está aqui?
- O desencarne pode ser de muitos modos. Não é !§ual para todos. Tudo é muito justo, temos que receber o ^ue fizermos por merecer.
"Poucos encarnados pensam na morte do corpo, vivem nas facilidades e errando. Entretanto a religião
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Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
ensina-nos o bem. Todas as religiões, Raul, pregam a necessidade de sermos bons, para que evitemos as más ações, e sobretudo perdoar, perdoar sempre. As religiões cristãs dão-nos grandes exemplos nos Evangelhos, na vida de Jesus, que perdoou na cruz aos que lhe quiseram mal. Esses ensinos maravilhosos são muito esquecidos e os orgulhosos se ofendem muito com as más ações que recebem, e não perdoam. O rancor, o ódio, são pesos que os seguram na Terra; não perdoando, não podem vir para cá. Manuela não perdoou. Ao cair, seu corpo morreu, seu espírito ficou junto ao corpo, não como aconteceu com você. Seu corpo ficou horas vivo, quando acordou do desmaio, tomou consciência de tudo. Manuela, não; dormiu para acordar mais tarde."
- Perguntei à senhora se haviam nos achado, e disse que sim. Como foi?
- Quando desapareceram, houve buscas, dois dias depois os encontraram e os enterraram. Manuela, ao acordar, achou que estava ferida. Viu seu corpo e entendeu que você morrera, porém ela não. Quando os tiraram do poço, conseguimos tirá-la de seu corpo. Ficou confusa. Para ela, está encarnada e chora por você que morreu. Não menti a você, dormiu por dias no hospital. Quando lhe respondia, já haviam tirado vocês do poço. Você achou que Manuela estava encarnada, deixei que pensasse assim para não preocupá-lo e para que pudesse se adaptar bem aqui.
Não consegui falar mais, senti-me triste e chorei. Vovó abraçou-me, consolando-me, percebi que também sofria e estava preocupada com mamãe, que era sua filha e a quem amava muito. Esforcei-me, parei de chorar, beijei vovó.
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Reconciliação
- Vovó, eu estava tão feliz. Agora como continuar sendo? Sabendo que mamãe sofre, não conseguirei ser
alegre-
- Raul, estar aqui é uma graça que devemos agradecer sempre. Estar aqui não é um privilégio, é merecimento. Se você não tivesse perdoado a seu pai, se não tivesse sido bom, não estaria aqui. A Lei do Universo é que semelhantes se atraem, somos levados após a morte do corpo para onde fizermos por merecer. Manuela conhece a lei do perdão, conhece o Evangelho, a vida do Mestre Jesus, entretanto, não segue seus ensinos, recusa-se a seguir os bons exemplos. Não pode ser socorrida, não aceitou o socorro, não quis perdoar e não pude traze-la. Todos nós que estamos aqui, Raul, temos entes queridos que nos preocupam, a vida continua. Aqui estudamos, trabalhamos, continuamos a educar-nos, porém não perdemos a individualidade, a consciência de nossa última encarnação. Não deixamos de amar e nos preocupar com nossos entes queridos. Sua preocupação é normal, ama sua mãe; entretanto, não deve se entristecer, porque tristeza nada resolve. Vibre com carinho, ore por ela, mande-lhe pensamentos de otimismo, que conseguiremos ajudá-la. Sempre que posso you até ela, procurando fazer com que compreenda e perdoe."
- Como está ela, vovó? Seu aspecto? Eu desencarnei, eixei o corpo machucado e fiquei sadio. E ela?
~ Manuela está como desencarnou. Sente dores nos
erirnentos, está suja e com o ferimento da faca a sangrar.
u perispírito machucou-se com a carne por não ter per-
ado, por não querer ser humilde. Ela vaga pela redon-
2a/ repete sem parar que quer se vingar, que odeia o
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Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
esposo por tentar matá-la e por ter matado você. Não quer nem pensar em perdoar. Para perdoar temos de ser humildes; orgulhosa, acha que foi muito ofendida. Está ferida pelo reflexo da morte do corpo, que lhe foi muito forte. Isso é comum, muitos desencarnam assim, ou por culpa pelos muitos defeitos, sofrem anos e anos, só sendo socorridos quando clamam por socorro e reconhecem seus erros. Nesse sofrimento pedem a morte, sem saber que já têm essa graça. Socorridos, têm necessidade de fazer um tratamento para refazer seu perispírito nos núcleos de socorro, nos hospitais daqui.
- Vovó, quando a senhora vai até mamãe, ela a vê?
- Não, Raul, Manuela não me vê, está obcecada pela idéia de vingança, não vê mais nada. Sua vibração é baixa e inferior pelo ódio que sente; julgando-se encarnada e sabendo que desencarnei, terá medo de me ver. Raul, para sermos felizes, basta-nos tão pouco e, como depende de nós, às vezes basta perdoar com sinceridade e pedir perdão.
- Vovó, a senhora foi ajudar-nos. A senhora sabia antes, ou ficou sabendo na hora em que caímos? Aqui a gente sabe das coisas que vão acontecer?
-Não nos tornamos adivinhos, Raul. Do futuro só podemos entender os resultados; vendo as ações, sabemos das reações. Não sabemos o que vai acontecer, mas sabemos das intenções. Sabia pelos pensamentos do seu pai o que ele planejava; ficou dias pensando como fazê-lo. Tentei, de todos os modos possíveis ao meu alcance, mudar seus pensamentos. Temos o nosso livre-arbítrio e não podemos interferir na liberdade do próximo. No passeio, tentei ajudá-los, fazendo com que outras pessoas os vissem,
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Reconciliação
fossem com vocês; não consegui, só você desconfiou, mas inocente como era, não entendeu as atitudes de seu pai. "Acompanhei sua agonia e, graças a Deus, pude retirá-lo do corpo logo que este morreu."
- Foi corajosa, vovó. A senhora dizia que queria desencarnar para ter sossego, para não saber dos muitos problemas dos filhos e netos. Aqui se preocupa com todos nós, sabe de todos os problemas e dificuldades, vê vovô sofrendo, mamãe neste estado e está sempre alegre a sorrir. Admiro-a!
- Raul, aqui aprendi a confiar, sei com certeza que nenhum estado é eterno; ora estamos aqui desencarnados, ora revestidos da carne, encarnados. As oportunidades de melhorar são para todos. Sei que chegará um dia em que meu esposo se arrependerá de seus erros, que minha filha perdoará, e que os terei junto de mim, novamente. Lembre, Raul, que tristezas não ajudam, só atrapalham; devemos ser alegres, alegria é um estado, é um modo de ser que devemos conquistar.
Vovó calou-se. Necessitando ainda de descanso, despedi-me dela, abraçando-a carinhosamente. Fui para meu quarto e orei, orei muito por nós e dormi. A prece sincera nos dá a tranqüilidade necessária.
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ESCUTANDO AMIGOS
.Tui à escola pensando na conversa que tivera na véspera com vovó. Será que eu não posso ajudá-la? Será que não há um modo de ajudar mamãe?
O professor Eugênio iniciou a aula. Tentei esquecer minhas preocupações e prestar atenção às suas explicações, mas não consegui, só pensava em mamãe sofrendo, andando de um lado para o outro, machucada e chorando por mim.
Logo, o professor Eugênio indagou:
- Que se passa com você, meu rapaz? Que o preocupa a ponto de estar tão distraído e pensativo? Podemos ajudá-lo?
- Não - respondi de imediato.
*fe





Reconciliação
Olhei para meus colegas, eles observavam-me carinhosamente, ninguém estava curioso, vi nas suas fisionomias compreensão. Lembrei que estávamos reunidos naquela sala de aula, considerada especial no Educandário, por termos problemas incomuns. Nesse tempo em que freqüentara a escola, só recebi amizade, carinho, ninguém indagara minha vida, como desencarnei. Confiava neles, respeitava a sabedoria e a simplicidade do professor Eugênio, gostava muito de todos. Naquele momento senti vontade de falar, mas estava indeciso. O professor esperou pacientemente por minha resposta; vendo-me tão incerto, continuou:
- Se não quiser falar o que o preocupa, não precisa; não tenho a intenção de ser indiscreto. Aqui estou para ajudá-los, sou amigo de todos vocês, de você, Raul, e amigos são para ajudar quando necessitamos. Todos nós passamos por experiências várias, dificuldades que, repartidas, são mais bem suportadas, ou, se esclarecidas as incertezas, torna-se mais fácil a solução, e aqui estou para esclarecê-los.
Deu-me um sorriso tão cheio de carinho que levantei da minha mesinha, corri para seus braços, emocionado, deixei que as lágrimas molhassem meu rosto. Meus colegas davam-me força com seus olhares; desprendendo dos braços do professor, falei:
- Minha vida encarnada foi diferente, assim pensava até que ouvi as narrações de vocês. Confesso que temi ^e soubessem como desencarnei. Agora quero narrar minha vida.
Fui falando, contei toda minha vida, ninguém ousou
faz,
er nenhum comentário, todos estavam silenciosos
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Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
prestando atenção. Ao falar do meu desencarne, senti-me meio engasgado, mesmo entre amigos não era fácil dizer que fora meu próprio pai quem matara meu corpo físico. Ao terminar, já me senti bem melhor, fiz uma pausa. O professor Eugênio olhou-me, incentivando-me a continuar. Sabia que não era meu desencarne o motivo de minha preocupação.
- Continue, Raul - disse carinhoso, e senti que todos me compreendiam e estavam com vontade de ajudar.
- Mamãe não perdoou, ela odeia meu pai, quer se vingar. Eu fui socorrido, ela não tem condições, vibra com ódio e rancor. Amo mamãe, amo a todos os meus, ela sofre e eu me preocupo com ela. Vovó está tentando ajudá-la, queria poder fazer algo por ela. Sei com certeza que, se pudesse falar com mamãe, ela me escutaria. Ela me quer bem, sofre porque morri, e não sabe que desencarnou. Se ela me visse, faria com que entendesse, pediria para que perdoasse; ela, perdoando, poderia ser trazida para cá. Sinto-me triste por isso. Por minha vida, não; gosto daqui e para mim tudo está bem. Meu pai matou-nos, mas sinto que ele deve ter seus motivos, talvez nenhum que se justifique, mas quero-lhe bem e ele não me preocupa, perdoei-o de coração. Mamãe é diferente, sempre foi boa, trabalhadeira, religiosa. Desencarna e fica sofrendo assim, por que não consegue perdoar?! Vovó disse-me que está como desencarnou, suja, machucada, ensangüentada, falando em se vingar, com ódio. Meus amigos, professor, eu queria ajudá-la, queria tanto, sinto que conseguirei; desencarnamos juntos do mesmo modo, sofrendo dores parecidas, terei argumentos para convencê-la...
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Reconciliação
Dei por finalizada minha narrativa e fui sentar-me no meu lugar. O professor Eugênio continuava tranqüilo, ele conhecia detalhes da vida de cada um de nós; sendo discreto, esperava que nós mesmos disséssemos, e sabia como nos ajudar. Mas, sabiamente, ensinava-nos a mais bela lição, a de nos ajudarmos uns aos outros.
- Compreendo você, Raul; vamos ajudá-lo. Quem de vocês quer dizer algo ao amigo que nos confia seus problemas?
Três dos meus companheiros levantaram a mão.
- Muito bem, vamos escutá-los, apresentem-se um de cada vez, e prestemos atenção.
- Raul - disse Mário -, foi triste o que aconteceu com você. Episódios tristes só devem ser lembrados para servir de estímulo e nos manter firmes na estreita porta do bem. Porque agora compreendemos que a dor é reação das más ações. O que deve importar a você é seu futuro, o que pretende fazer e ser. Quanto à sua preocupação, mantenha a esperança, os períodos de sofrimento não são eternos e passam. O tempo trará melhoras à sua mãezinha e ela progredirá.
"Raul, falarei de mim para dar-lhe conforto e esperança. Não faz muito que estou aqui, tinha três anos de desencarnado quando fui trazido para cá.
"Ah! Minha vida encarnada! Fui criado solto nos arrabaldes de minha cidade natal, meu pai estava sempre bebado e minha mãe constantemente envolvida com más c°mpanhias, só tive maus exemplos. Cresci vendo margiriais/ tendo dinheiro fácil, sendo, por medo, respeitado Petos moradores e tendo amigos ladrões. Com dez anos, Participei de pequenos furtos, e minha mãe, incentivando, ^ia que eu ia longe.
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Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
"Sentia às vezes que estava errado, que deveria ir embora, trabalhar, ter vida honesta. Tantas vezes sentia insatisfação daquela vida, porém passava rápido, aquela era a única forma de viver que eu conhecia.
"Estava com treze anos, fomos assaltar uma padaria, o assalto não saiu bem como planejamos. O dono conseguiu chamar a polícia e fomos perseguidos, fugimos, resistimos à ordem de prisão, jogando pedras nos soldados; eles atiraram, uma bala atingiu-me e desencarnei. Não usava armas, roubar para mim era aventura, ganho fácil, nunca pensava em matar ninguém e nunca pensei em morrer. Desencarnei sofrendo muita dor e, por muito tempo, continuei sentindo. Nem minha família nem amigos se importaram com o que aconteceu comigo; logo todos me esqueceram. Ao meu enterro, só foram minha mãe e umas amigas, nenhuma oração. Revoltei-me, não quis acreditar quando espíritos zombadores disseram que meu corpo morrera; socorristas conversaram comigo, pedi socorro, levaram-me a um posto de socorro, onde curaram meu ferimento. Não quis ficar lá, tinha disciplina demais para mim. Vaguei, inconformado com minha sorte, fui ter nos umbrais, sofrendo mais ainda entre os maus. Cansei, arrependi-me e quis ter outro tipo de vida, quis com sinceridade ser bom e fui trazido para cá. Entendi que sem disciplina não há ordem nem organização e que é gostoso ser ordeiro. Hoje, estou bem. Preocupo-me com meus pais, com antigos companheiros, todos no caminho do mal, mas sei com certeza que voltarão ao bem um dia. Os sofrimentos, Raul, são lições que aprendemos pela dor, quando nos recusamos a aprender pelo amor. Sua mãe sofre por não ser humilde, por não aceitar
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^conciliação
Q que lhe aconteceu, julgando-se não-merecedora da infelicidade que lhe ocorreu.
"Para tudo há explicações, embora não entendamos as causas dos sofrimentos por que passamos. Devemos aceitá-los acreditando serem certos, porque Deus é justo e devemos n'Ele confiar."
- Você, Mário, sendo criança, vagou? Sofreu o que irdnha mãe sofre? - indaguei curioso.
- Não confunda criança com inocência. Meu corpo era novo, não eu, propriamente; sou espírito milenar, de inocência nada tinha. Sabia que procedia errado, achei mais fácil seguir os exemplos dos que me rodeavam do que me corrigir. Inocentes, estes não vagam. Como fui socorrido e agora sou orientado, sua mãe também será um dia. Não tenho vergonha de minha vida, quero mesmo é modificar-me. Você, Raul, desencarnou sem culpa; eu, com muitos erros e vícios. Você não deve ter dó de você mesmo, fuja da autopiedade, muito tem de aprender e construir. Eu tenho me esforçado, aconselho você a fazer o mesmo.
- Obrigado, Mário - disse comovido -, acho que você não deve se aborrecer por seus erros, afinal, foi a educação que recebeu. Isso foi levado em conta, Jesus disse: "A quem muito foi dado, muito será pedido. O servo que não sabe das coisas do seu senhor e errou é ^igno de poucos açoites".
- Por isso fui socorrido, meu amigo, mas, se encarnei a*i foi por afinidades, por merecer. Recebemos no presente
0 que fizemos no passado.
Mário finalizou, o professor Eugênio sorriu, apro^do seu pupilo, e disse:
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Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
- Fale você agora, Adão.
- Raul, todos nós aqui, moradores ou hóspedes deste Educandário, temos histórias interessantes referentes ao nosso desencarne. Já observou, meu amigo, que somos um grupo um pouco diferente dos demais jovens daqui? Os outros têm vários professores, são mais saudosos de seus lares, mais infantis. Nós, aqui, parecemos mais adultos e conscientes de nossos erros e acertos. Temos um professor especial, sábio, amoroso, a ajudar-nos sempre com sua experiência e bondade. Não deve se preocupar nem se envergonhar com sua desencarnação. Desencarnações trágicas acontecem sempre, todos os dias, e você não é o único a ter o corpo morto pelo pai. Há muitas dessas infelicidades, pais que matam filhos, filhos que matam pais. Deve esquecer, não pensar neste episódio triste. Admiro você, Raul, sua capacidade de perdoar e sua compreensão; sua coragem é lição para todos nós. Mas, se não tivesse perdoado, estaria sofrendo. Pelo que aprendi, o algoz também sofre. Plantou e terá de colher. Sofre também a
vítima que não perdoa.
- É verdade, Adão - interferiu o professor com delicadeza. - Quem odeia e não perdoa sofre muito. O perdão é o refrigério das almas perseguidas e ofendidas. Perdoando, desligamo-nos de quem nos ofendeu, ódio é vínculo que prende um ao outro, trazendo muitos infortúnios. Estou contente a escutá-los, por favor, continue.
- Raul - prosseguiu Adão -, aceitamos melhor o que compreendemos e para cada uma destas desencarnações trágicas há uma explicação. Você sente isso ao nos dizer que lhe parece justo. Entretanto, não havia necessidade de ! seu pai ser o assassino, de cometer esse duplo crime. Ameu
veJ-, sua mãezinha, sendo boa e honesta, acabará entendendo, mas deve ajudá-la; acho-o bondoso por preocupar-se com ela, pois, se ela não conseguir perdoar, o círculo não se quebra e talvez, no futuro, será ela a assassina. Após pequena pausa, indagou:
- Professor, o "não perdoar" é conseqüência do ódio? Por que teria o pai de Raul assassinado tão friamente se não os odiasse? - Sem esperar pela resposta, concluiu: Nada fez ele nessa existência que o ofendesse, deduzo. Na Terra estivemos revestidos do corpo carnal, muitas vezes; assim, já estiveram juntos, ele pode ter sido ofendido e não perdoou. Se não se quebrar esse círculo,




teremos sempre um algoz e uma vítima. Vejo a necessidade de ajudar sua mãe e de você se preocupar com seu pai, sim, porque ele odeia, e esse ódio deve acabar. Ele também não perdoou e deve perdoar.
- Sinto isso, Adão. Disse-me o que necessitava ouvir. Quando estou às vezes sozinho, lendo ou meditando, parece-me que sou outro. Ou há outro em mim, não sei bem. Vejo-me como um homem, um adulto muito mau que planeja matar; ora sinto que matei! São cenas que não Atendo, mas que tenho certeza de que as vivi. Seriam *einbranças do passado? Vovó diz que sim, mas também ^2 para não me preocupar agora com isso. É com mamãe ^e me preocupo. Você, Adão, tem razão, se mamãe não Perdoar, acabará se vingando e este laço de ódio não cabará. É necessário acabar com as mágoas e reconci^r-se. Queria tanto que ela entendesse, perdoasse e estiVesse aqui comigo.
- Deve confiar, Raul - continuou Adão -, aqui estamos Cados de pessoas boas demais. O professor Eugênio
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Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
ajuda-nos sempre, leva-nos a visitar parentes, pais que choram aflitos, chamando-nos desesperados, deixando-nos inquietos, angustiados aqui. Ajuda-nos a consolá-los, lembrando-os da Misericórdia Divina, que Deus é Pai de todos nós, que antes de sermos filhos deles somos filhos de Deus e que somos todos realmente irmãos. Ajuda-nos a conviver com a saudade, não deixando que ela nos entristeça. Todos nós, aqui, temos problemas, solucionados com a ajuda do professor. Confie, Raul, confie, ore e terá sua mãezinha aqui, muito em breve, se Deus quiser."
- Obrigado - disse-lhe agradecido.
Comecei a mudar. Preocupações contadas a amigos são repartidas. Senti-me aliviado, reconfortado e esperançoso. Passei a entender que estávamos presos, papai, mamãe e eu, pelo ódio. O círculo se desvincularia com o perdão e cabia a mim ajudá-los. Confiava na ajuda que teria e que estava tendo ali, escutando colegas e amigos.
Levantou-se meu terceiro companheiro.
- Raul, meu amigo.
Começou a narrar o risonho Tião. Seu aspecto era franzino, moreno-claro, com olhos inteligentes e expressivos. Pensei: "Deve ter sido feio quando encarnado, mas simpático". Todos nós gostávamos dele. Simples e leal, cativava a todos e talvez por isso me parecesse tão bonito. Deixei para lá minhas impressões e prestei atenção a ele, que continuou a se expressar com sua voz harmoniosa.
- Sinto muito por você estar sofrendo e triste, embora ache que estar preocupado com quem ama é sinal de amadurecimento, o começo para que no futuro se preocupe com a humanidade, já que todos somos irmãos. you contar-lhe minha história, para que você entenda que
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^conciliação
ajuda sempre temos, que todo sofrimento é justo e, se soubermos sofrer, aprenderemos muitas lições.
"Desencarnei meninote, doze anos, com câncer generalizado. Meu corpo carnal apodrecia, cheirando mal, fazendo-me sofrer muito. As pessoas que me viam comentavam penalizadas: 'Menino ainda, sofrendo assim!'
"Éramos muito pobres, tinha sete irmãos, meu pai era lavrador e minha mãe lavava roupas de freguesas para ajudar nas despesas de casa. Morávamos numa cidade pequena, sem recursos, e nosso lar ficava no subúrbio, era pequeno: quarto, sala e cozinha. Fiquei doente com nove anos, mamãe primeiramente deu-me os chás caseiros, sem resultado. Como não havia médico na cidade, levou-me ao farmacêutico. O senhor Zezinho da farmácia não tinha estudos, mas entendia bem de doenças.
"Não sabia o que eu tinha, entendeu que era grave, deu-me remédios, mas fui piorando, até que, sem forças, não me levantei mais do leito e a vida física foi se extinguindo aos poucos. Sentia muitas dores, nas crises pensava sempre que ia morrer, chorava e gemia, e minha mãe, sempre comigo, chorava junto. Minha mãe, caro amigo °aul, foi sempre um anjo de ternura e carinho, tudo fez Para amenizar meu sofrimento; entendendo que sofria por mirn, para não vê-la triste e chorando, suportava as dores sem me queixar e tudo fazia para não gritar.
"Uns dias antes de desencarnar, senti-me diferente,
stava tonto, confuso, parecia ver outras pessoas e ouvi-las
°nversar. As dores foram amenizando, estivera em es-
®° de coma por dias e me desliguei devagarzinho da
„ a*éria. Dormi e acordei aqui no hospital, dias depois.
c°rristas trouxeram-me e muito me ajudaram. Acordei
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Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
e senti-me aliviado sem as dores. Disseram-me que desencarnara, suspirei agradecido por estar livre do meu padecimento. Recuperei-me rápido, queria sarar e minha resignação e fé em Deus ajudaram-me muito. Tendo alta do hospital, fui trazido para o alojamento da escola, pois não tenho parentes aqui. Fiz logo muitas amizades. Meses depois, passei a sentir imensa saudade de casa, de minha mãe, comecei a sentir-me abandonado e sozinho. Trazido para estudar nesta classe, o professor Eugênio tudo fez para que me integrasse na nova forma de viver e prestasse atenção às aulas. Mas a saudade que alimentava doía e a vontade de estar perto de minha mãe atormentava-me. O professor Eugênio bondosamente me levou para visitá-los, para que pudesse vê-los. Fiquei contente, emocionado volitei com o professor pelos campos e pela minha cidade. Ao avistar meu antigo lar, meu coração bateu forte.
'"Professor Eugênio, como mamãe ficará contente em me ver curado!' - disse-lhe, comovido.
"'Tião, não se esqueça do que aprendeu, nenhum dos seus familiares poderá vê-lo/
"Achei impossível, claro, pensei que iam ver-me. Entrei confiante e alegre no meu antigo lar. Ninguém estava em casa. Notei pela primeira vez como éramos pobres, tínhamos tão pouco, mas tudo era limpinho. Minha cama não estava mais no canto da sala. Papai, mamãe e meus irmãozinhos dormiam no quarto e os maiores, na sala. As camas eram poucas e dormiam dois ou três numa cama só; eu, desde que fiquei doente, dormia sozinho no canto da sala, por ser mais arejado. Logo escutei conversas, estavam chegando; alegre, esperei que entrassem.
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^conciliação
"Mamãe e meus irmãos entraram, ela havia ido entregar roupas com os pequenos e os maiores voltavam da escola.
"Agiram normalmente. Em pé fiquei na frente deles a sorrir. Que desilusão! Não me viram, senti doer o peito, o meu sorriso apagou-se. Via-os perfeitamente, escutava-os e eles não me viam nem me ouviam. Olhei para o professor Eugênio e ele sorriu, animando-me; entendi, ele me avisara, eu não quisera entender.
"Tião' - disse bondosamente -, 'ao ter seu corpo de carne morto, é um espírito revestido de perispírito e os encarnados não o vêem, exceto os médiuns encarnados e videntes, o que não é o caso de nenhum de seus familiares. Poderá vê-los, saber deles, mas não lhes falar, nem eles a você'.
"Suspirei e pensei que, já que era assim, eu devia aproveitar para saber deles e matar minha saudade.
"Mamãe tirou um dinheiro do bolso e colocou dentro de um jarro, como sempre fazia, dizendo, cansada: 'Teremos este mês dinheiro para pagar o senhor Zezinho da farmácia, homem bom aquele, vendeu-me fiado para que meu Tião tivesse remédio. Ainda bem que não pagamos para morar nesta casinha e o dono do terreno não nos incomoda. Ainda mais agora sem o dinheiro de seu pai. Faz Quatro meses que ele foi embora e não deu mais notícias'.
"'Foi embora no dia em que Tião morreu' - disse um d°s meus irmãos.
"'Que saudade do meu filho!' - exclamou mamãe C°m tágrimas nos olhos.
"Mamãe, não chore' - disse Vanda, minha irmã Is velha. - 'Tião estava tão doente, coitadinho! Era tão
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Vera Lúcia Marínzeck de Carvalho
bonzinho, ele foi morar com os amigos no céu. Padre Anselmo disse que ele está fazendo milagres. Muitas pessoas já cumprem promessa na sua cova'.
'"Meu filhinho santo!' - disse minha mãe a sorrir.
"'Se ele ajuda a estranhos, vai ajudar-nos também, ele fará com que eu e Mane arrumemos emprego para podermos ajudar aqui em casa' - falou meu irmão.
"Pelas conversas deles, soube que meu pai, há tempos, abandonara minha mãe, fora morar com outra mulher e proibira que me dissessem; ele ia ver-me e dava dinheiro para mamãe, mas, com minha desencarnação, mudou-se de cidade e ninguém mais soube dele.
"Fiquei com eles duas horas, o tempo que me foi permitido. Voltei chorando, queria ficar, ajudá-los, queria ficar com minha mãe... Aqui, colegas ajudaram-me, aconselharam-me, procurando fazer com que entendesse que minha vida agora era diferente e que deveria aproveitar as lições que recebia.
"Mas, qual o que, estava triste, aborrecido, chorava atoa.
"Passados uns dias, o professor Eugênio me disse:
"Tião, conselhos, conversas não adiantam para você; verá aqui nesta tela imagens projetadas dos acontecimentos de sua casa'.
"Todos na classe assistiram, acompanharam com respeito a lição que eu recebia. Emocionado, vi minha casa, minha mãe e irmãos, e eu doente na cama. Eram cenas que eu vivera na carne.
"'Observe, Tião' - disse o professor Eugênio, esclarecendo os acontecimentos que víamos -, 'sua mãe está exausta, veja suas mãos, grossas, cheias de calos, trabalha
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^conciliação
muito, levanta cedo, tem muito o que fazer; além do serviço de casa, lava roupas para freguesas. Faz a comida e há pouco o que comer, primeiro ela leva para você. O farmacêutico disse que você precisava comer bem, seus irmãos olham você comer com água na boca, eles têm fome, repartem o que sobra. Você sofre, sofreu, porém ela sofreu mais, ama você, mas ama também os outros filhos. Chega a noite e ela vai se deitar, há tempos não dorme direito, você amola, quer água, tem dores, ela levanta-se muitas vezes durante a noite, não se queixa, procura na prece coragem para continuar. Seu pai, espírito fraco, saiu de casa, está cansado, quer aventuras, foi morar com outra mulher, mas vem lhe visitar e você nem percebe que ele foi embora. Você está preocupado com suas dores, em ser servido, não agiu errado não, Tião. Teve realmente dores atrozes, menino ainda, queria a mãe para si, e ela, abnegada, largava tudo o que estava fazendo para estar com você, para atendê-lo.
"'Desencarnou menino nesta encarnação, puro de sentimentos, sem erros, foi socorrido, logo estava curado e bem. Porque o sofrimento do corpo suportado com resignação é cura do espírito. Continuemos agora, Tião. Observe seus irmãos, são desnutridos, fracos, anêmicos e sempre o atenderam de boa vontade; embora crianças, respeitaram seu sofrimento.
"'Sua mãe trabalha muito, lava roupa o dia todo, sua
rrr>ã mais velha está empregada como doméstica. O di-
^eiro é pouco, não dá para sustentá-los, sua mãe recebe
^ue sobra da comida de suas freguesas, a quem agra-
Ce> comovida. Necessita de dinheiro para pagar dívidas
J- e contraiu com sua doença, para que não lhe faltassem
ecüos, para amenizar suas dores. Após seu desencarne,
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Vera Lúcia Marínzeck de Carvalho
passaram a alimentar-se melhor, sua mãe já não necessita levantar-se à noite e não tem mais suas roupas para lavar, porque você sujava sempre a cama. Não acha, Tião, que já deu muito trabalho a ela? Por que voltar lá?
"'Sabe bem que voltando sem autorização, sem uma preparação adequada e sem os fluidos salutares daqui, logo se perturbaria e se sentiria doente; necessitando de energias, passaria a vampirizar seus familiares. Nessa troca de energias você só lhes faria mal. Tião, eles têm de continuar vivendo e você também. Liberto da carne, você foi chamado a viver aqui, eles têm de continuar encarnados até chegar a hora de cada um voltar. Você viu que a vida não está fácil para eles, não queira prejudicá-los com sua presença sem preparo. Procure, sim, viver bem aqui, aprender para poder ser útil a você mesmo, aos seus e a todos os que o cercam/
"O professor Eugênio desligou a tela, sentando-se, e na sala se fez completo silêncio. Entendi que o professor mostrou os acontecimentos para alertar-me e, não podendo conter-me, chorei, porém meu choro foi diferente, não era mais com dó de mim, era de vergonha. Ninguém me interrompeu; por alguns minutos as lágrimas caíram abundantes, reagi, tentando sorrir, disse: 'Não quero mais dar trabalho aos meus. Não quero! Entendo agora que só tenho de agradecer, you ser compreensivo e não you chorar mais, prestarei atenção às aulas e, só quando puder ajudar, pedirei para voltar a vê-los'.
"'Muito bem' - disse o professor Eugênio, - 'ter vontade de ajudar é maravilhoso, incentiva-nos a aprendei. Você não sabe, mas eu sei e poderei ajudá-los por você. Voltaremos ao seu lar, Tião, e ajudaremos sua mãe e irmãos''
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Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho ., • ~ Reconciliação
passaram a alimentar-se melhor, sua mãe já não necessita levantar-se à noite e não tem mais suas roupas para lavar, porque você sujava sempre a cama. Não acha, Tião, que já deu muito trabalho a ela? Por que voltar lá?
"'Sabe bem que voltando sem autorização, sem uma preparação adequada e sem os fluidos salutares daqui, logo se perturbaria e se sentiria doente; necessitando de energias, passaria a vampirizar seus familiares. Nessa troca de energias você só lhes faria mal. Tião, eles têm de continuar vivendo e você também. Liberto da carne, você foi chamado a viver aqui, eles têm de continuar encarnados até chegar a hora de cada um voltar. Você viu que a vida não está fácil para eles, não queira prejudicá-los com sua presença sem preparo. Procure, sim, viver bem aqui, aprender para poder ser útil a você mesmo, aos seus e a
todos os que o cercam.'
"O professor Eugênio desligou a tela, sentando-se, e na sala se fez completo silêncio. Entendi que o professor mostrou os acontecimentos para alertar-me e, não podendo conter-me, chorei, porém meu choro foi diferente, não era mais com dó de mim, era de vergonha. Ninguém me interrompeu; por alguns minutos as lágrimas caíram abundantes, reagi, tentando sorrir, disse: 'Não quero mais dar trabalho aos meus. Não quero! Entendo agora que só tenho de agradecer, you ser compreensivo e não you chorar mais, prestarei atenção às aulas e, só quando puder ajudar, pedirei para voltar a vê-los'.
"'Muito bem' - disse o professor Eugênio, - 'tei
vontade de ajudar é maravilhoso, incentiva-nos a aprendei
l Você não sabe, mas eu sei e poderei ajudá-los por você.
Voltaremos ao seu lar, Tião, e ajudaremos sua mãe e irmãos'•
"Raul, não sei explicar a alegria e gratidão que senti naquele momento, aguardei ansioso o dia marcado para nossa volta. O dia esperado chegou, prometi a mim mesmo não chorar e obedecer em tudo ao professor, e o fiz. O professor Eugênio fizera antes um balanço da situação financeira dos meus, de quanto mamãe recebia, de quanto devia, e quanto minha irmã, a única que trabalhava, ganhava.
"'Vamos, Tião, ao emprego de Vanda, comecemos ajudando-a.'
"Fomos ao seu emprego. A mulher para quem Vanda trabalhava era de meia-idade, bem vestida, naquela hora almoçava com o esposo. O professor Eugênio aproximou-se dela, intuiu-a e, como que por encanto, ouvimo-la dizer ao marido: 'you aumentar




o ordenado de Vanda e ajudá-la mais, ensinando o serviço. Também you dar-lhe roupas, anda tão mal vestida, minhas amigas podem comentar. Também you logo mais perguntar a Zenira se ela quer ficar com a irmã dela para pajem, a meninota procura emprego'.
"Acabou o almoço e saiu, fomos juntos à casa da amiga e acertaram o emprego para a minha outra irmã.
"'Pronto' - disse o professor -, 'mais uma de suas lrmãs está empregada, isso significa que comerão bem, gabarão roupas, sapatos, e ajudarão sua mãe. Vamos agora Ver emprego para os outros irmãos. Vamos à farmácia, vi-
1 arernos o senhor Zezinho, que muito ajuda sua mãe'.
"Ao chegarmos à farmácia encontramos dois desenhados que nos cumprimentaram, e o professor escla.Ceu-me: 'São dois amigos, socorristas que trabalham na a]uda aos encarnados'.
Sorri, admirando-os, um deles dirigiu-se a mim:
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l/
Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
"'Você é Tião? Acabamos de fazer um auxílio em seu nome. A filha do farmacêutico estava doente, ele pensou que fosse um câncer. Ele e a esposa fizeram uma promessa, pediram a você que a ajudasse, se não fosse câncer ele perdoaria a dívida de sua mãe. Viemos ajudá-los, era somente um espírito trevoso atormentando-a, afastamo-lo sem problemas, a menina melhorou. Levaram-na ao médico na cidade próxima, fez os exames e hoje chegaram os resultados: a menina nada tem/
"'Que bom!' - exclamei, contente. - 'Como lhes agradeço. Grande ajuda deram também à minha mãe, melhora a vida dos meus. Obrigado. Olhem, lá vem ela'.
"Mamãe muito sem jeito entrou na farmácia, torcia as mãos, envergonhada. Antes que o senhor Zezinho lhe dissesse algo, foi explicando:
'"Mandou me chamar, senhor Zezinho? Não tenho o dinheiro agora para dar ao senhor, no fim do mês dou-lhe mais, you pagar tudo ao senhor/
"'Dona Cida' - disse o farmacêutico -, 'a senhora não me deve mais nada'.
"Contou tudo a mamãe, a promessa, a filha curada. Mamãe chorou emocionada. O senhor Zezinho pegou o caderno, abriu na página da conta de minha mãe e escreveu bem grande: Pago!
"'Obrigada, senhor Zezinho, fica o favor, este não se paga, só Deus!' - disse mamãe, agradecida.
"O professor Eugênio aproximou-se do senhor Zezinho, olhou-o profundamente e ele, calmamente, pegou na prateleira uns fortificantes e vermífugos e deu a mamãe.
"'Aqui estão, dona Cida, estes remédios; dê para os outros filhos/
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Vera
Lúcia MarinzeckdeCarvalho_
'"Você é Tião? Acabamos de fazer um auxílio em seu nome. A filha do farmacêutico estava doente, ele pensou que fosse um câncer. Ele e a esposa fizeram uma promessa, pediram a você que a ajudasse, se não fosse câncer ele perdoaria a dívida de sua mãe. Viemos ajudá-los, era somente um espírito trevoso atormentando-a, afastamo-lo sem problemas, a menina melhorou. Levaram-na ao médico na cidade próxima, fez os exames e hoje chegaram os resultados: a menina nada tem.'
'"Que bom'.' - exclamei, contente. - 'Como lhes agradeço. Grande ajuda deram também à minha mãe, melhora a vida dos meus. Obrigado. Olhem, lá vem ela'.
"Mamãe muito sem jeito entrou na farmácia, torcia as mãos, envergonhada. Antes que o senhor Zezinho lhe dissesse algo, foi explicando:
'"Mandou me chamar, senhor Zezinho? Não tenho o dinheiro agora para dar ao senhor, no fim do mês dou-lhe mais, you pagar tudo ao senhor.'
'"Dona Cida' - disse o farmacêutico -, 'a senhora não
me deve mais nada'.
"Contou tudo a mamãe, a promessa, a filha curada. Mamãe chorou emocionada. O senhor Zezinho pegou o caderno, abriu na página da conta de minha mãe e escreveu bem grande: Pago!
'"Obrigada, senhor Zezinho, fica o favor, este não se paga, só Deus'/ - disse mamãe, agradecida. l "O professor Eugênio aproximou-se do senhor Ze-
zinho, olhou-o profundamente e ele, calmamente, pegou na prateleira uns fortificantes e vermífugos e deu a mamãe. "'Aqui estão, dona Cida, estes remédios; dê para oS outros filhos.'




í li
Reconciliação
"'O senhor é um homem bom. Obrigada.'
"'De nada, dona Cida, foi seu filho quem curou, com a graça de Deus, minha filha. Sou grato a ele, sofreu tanto aqui, é santo lá no céu.'
"'Senhor Zezinho, estou procurando emprego para meus dois meninos maiores, são pequenos ainda, mas precisam aprender a trabalhar e ajudar-me. O senhor sabe, depois que meu marido foi embora, o que ganho não dá nem para nos alimentar.'
"'No armazém da esquina estão precisando de um menino.' O professor Eugênio continuou olhando-o, procurando intuí-lo a ajudar-nos e o senhor Zezinho, pessoa boa, honesta, bom cristão, recebeu a intuição e mais, atendeu. 'you lá com a senhora, sou amigo do dono, pedirei a ele. Vamos.' \
"Foram. Deu certo; num instante acertaram tudo, meu irmão não ia ganhar muito, mas almoçaria no emprego e aprenderia a trabalhar.
"Mamãe estava muito contente e o senhor Zezinho fez mais ainda:
"'Vamos passar por minha casa, dona Cida, seu menino precisa vir ao emprego bem vestido, you dar-lhe umas r°upas dos meus filhos para a senhora vesti-lo melhor.'
"Mamãe voltou para casa muito contente, esperançosa, e eu me senti feliz, em paz, grato, muito grato, ao Pr°fessor Eugênio. Aquela noite foi de festa em minha Sa- Ganharam roupas, Vanda foi aumentada e mais dois Suariam. Mamãe reuniu todos após o jantar, orou §radecida, e disse no final da prece:
"'A/r
fij Meu Tiãozinho está fazendo milagres, curou a ^° senhor Zezinho, e também nos ajudou. Tudo o
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Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
que recebemos hoje é ajuda dele que, lá no céu, não se esqueceu de nós. Obrigada, meu Deus, e obrigada também a Santo Antônio.'
"Segurei as mãos do professor, procurando equilibrar minhas emoções. Não chorei, presenciando todos aqueles acontecimentos, queria mais era crescer, ser útil, e falei ao professor: 'Regressemos, professor, as aulas nos esperam'.
"'Ainda não, Tião, receberemos um amigo. Ei-lol E um dedicado médico espiritual, ele medicará a todos os seus e com os remédios que ganharam ficarão mais fortes e sadios.'
"O doutor Aníbal era simpático e risonho; após cumprimentá-lo agradeci, e ele logo passou a trabalhar.
"'Vamos, Tião' - disse o professor Eugênio. - 'Jairo, seu irmão, pode trabalhar também, vamos pedir mais esta ajuda'.
"Saímos de casa e logo encontramos os dois socorristas e o professor pediu-lhes:
"'Será que não podem ajudar o outro irmão de Tião a achar um trabalho?'
'"Claro que sim, faremos o possível, com satisfação.'
"'Então, Tião? Como se sente agora?' - indagou o professor.
"'Estou feliz e grato. Mudei, melhorei meu comportamento, aprendi a confiar e com boa vontade passei a estudar; quero logo que possível ser um socorrista, ajudar encarnados, não só meus familiares, mas todos os que pedem e necessitam.'
"Na minha última visita a eles, a diferença era grande. Com o tratamento do doutor Aníbal e os remédios que
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Reconciliação
Q farmacêutico deu, e agora mais bem alimentados, estão sadios, fortes, mamãe até remoçou. Com a ajuda do professor, escutei-a orar, dizia: 'Estou tão feliz agora, sei que é meu Tião que nos ajudou juntamente com Santo Antônio. Sofri tanto vendo meu filhinho sofrer, pedaços difíceis passamos, agora tudo melhora, graças a Deus'.
"Ajuda, Raul, sempre temos e você a terá, não se entristeça, e acredite, seus problemas serão solucionados, peça ajuda e confie."
Tião deu por finalizada sua história, todos o ouviram com atenção. Foi quando Pedro indagou ao professor:
- Professor Eugênio, por que diziam que Tião fazia milagres se ele nem estava lá? E Santo Antônio? Ninguém o viu por lá e nós nem o vemos por aqui. Não foram os dois socorristas e o senhor que os ajudaram? Por que dizem ser Tião e Santo Antônio?
A curiosidade foi geral e o professor esclareceu-nos:
- Todos nós estamos na Terra para aprender, amar e crescer, caminhar para o progresso. Infelizmente, uns param no caminho, negando-se a aprender, outros teimam em praticar o mal. Há porém os que, aproveitando as oportunidades que oferecem as encarnações, engrandecem no °em e passam a trabalhar, ajudando, tornam-se missionári°s de luzes e bênçãos. Há, queridos alunos, muitas moedas na casa do Pai, neste imenso universo, são muitos
08 planetas habitados e também há as diversas formas de
lver, após o corpo carnal ter morrido. Cada espírito mora
ncle seu fluido o atrai, onde se faz merecedor. No plano
r- P^itual da Terra há os umbrais, onde moram tempora-
co]naente os maus- Há os locais de estudo como aqui, nesta
°nia, e há esferas superiores onde estão os grandes
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Vera Lúcia
Marinzeck de Carvalho Recoriciliação
missionários em ajuda constante aos necessitados da Terra. Como Antônio de Pádua, Santo Antônio, que tantas ajudas faz e muitos fazem em seu nome. Os diversos milagres acontecidos entre encarnados nada mais são que trabalhos para aqueles que fazem o bem, não interessa a quem se peça, interessa somente ajudar.
O professor Eugênio fez uma pequena pausa, entreo-
Ihamo-nos, admirados. Exclamamos:
- Milagres, trabalhos, professor!
- Sim - continuou a elucidar -, milagres são trabalhos, trabalhos dos espíritos bons, dos socorristas que auxiliam sempre, como os dois amigos que Tião e eu
encontramos.
Entre uma e outra encarnação, os espíritos passam
um período no plano espiritual, é o que se designa por erraticidade: os maus perturbam, os bons fazem o bem e aproveitam para aprender sempre. Chamamo-los de socorristas, porque muito trabalham e não querem outro pagamento a não ser a vontade de serem bons e servos de Jesus. Trabalham em toda parte, nos umbrais, nos postos de socorro e também ajudam os encarnados; muitas vezes, atendem aos chamados de fé em nome das diversas entidades conhecidas na Terra. Há grande concentração de socorristas em lugares de romaria onde muitos oram e fazem pedidos. Esses abnegados trabalhadores atendem em nome de Nossa Senhora, dos diversos santos, de Jesus etc. Os bons açodem sempre.
1 Querem um exemplo? Se uma pessoa em perigo pede socorro por Nossa Senhora, um bom espírito por perto/ se puder, a socorre. Sempre estão procurando atendei | aos que pedem. Se os pedidos são mais complexos, são
ncaminhados a ministérios próprios e analisados pelos Q lá trabalham. Para serem atendidos, são levados em conta alguns critérios. "O que pede é bom para ele?" Às vezes, pede-se uma graça que seria um bem no momento, mas causa de dor no futuro. Pedem fim de sofrimentos, doenças e às vezes não se pode interromper o curso de geu resgate. Também é levado em conta, se recebida a graça, o pedido feito, a pessoa melhora se voltando mais para o Pai. Se aprovado, vão os socorristas e ajudam a pessoa, não importando para quem foi feito o pedido, embora haja equipes que trabalham atendendo aos pedidos



a Nossa Senhora, santos do lugar etc., e podendo também ser atendidos pelos próprios santos, que nada mais são que servos de Jesus. Tudo é trabalho e para isso vocês aqui aprendem a fazer o bem, porque é necessário saber para fazer. Nem todos aqui serão socorristas em trabalho a encarnados, poderão escolher este ou aquele estudo, estudar mais, ser professores, reencarnar etc., mas para onde formos teremos oportunidades de servir, ajudar.
- Professor - disse Henrique, aluno aplicado e estudioso -, há também as promessas, minha tia vivia fazendo Promessas. É errado?
- Promessa é troca, faça isso que eu faço aquilo. Aqui, n°s não necessitamos de trocas, tudo é feito com carinho e amor. Deus, Jesus, os socorristas não estão interessados
m Pagamento, mas sim em fazer o bem e melhorar espiritualmente os encarnados.
, O pagamento de promessas fica na consciência luem as fez e há tantas pessoas que por não as cuml6ln se consideram devedoras e, desencarnando, não
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Vera Lúcia Marínzeck de Carvalho
conseguem ter paz por se sentirem ingratas, em dívida com as graças recebidas. Todos nós somos carentes de graças e auxílios; devemos pedir o que necessitamos em orações, com humildade, não com trocas. Se quiserem ir a lugares, fazer orações, façam, mas não condicionando a receber isto ou aquilo. O que os bons espíritos querem realmente, quando ajudam, é a melhoria de cada um, aumentar a fé, a confiança, e torná-los mais conscientes das forças do bem. Mas, Henrique, algumas pessoas que fazem promessas ignoram quase sempre esse ato de trocas, fazem promessas com fé, por isso são tão atendidas. No futuro, amadurecidos e conscientes do que é o milagre, não existirão mais promessas. É o que acontece em relação ao Tião, que aqui conosco, em aprendizado, não pode fazer o que lhe pedem. É que as pessoas que o conheceram viram o quanto sofreu com resignação, pedem-lhe graças, confiantes de serem atendidas, e os trabalhadores do bem as atendem, conforme fazem jus, como os dois amigos socorristas que encontramos."
Satisfeitos com a explicação, tendo outra visão, a real, dos milagres, ninguém mais fez perguntas e o professor Eugênio deu por terminada a aula. Mas Tião levantou-se novamente e pediu para falar.
- Quero ser socorrista quando tiver concluído meu estudo, quero ir ajudar os encarnados. Quero também dizer mais algumas coisas a você, Raul. Se tem leves recordações de seu passado e sente que não lhe foi feita injustiça, você está certo. O passado está em nós, somos conseqüência dele, das diversas existências que tivemos encarnados na Terra. Comigo não houve injustiça, nunca há. Sofri muito, apodreci na carne, senti dores atrozes num
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Reconciliação
corpo de criança, inocente nesta vida de agora, mas não no passado. Não me foi difícil recordar tudo. Fui no passado um sacerdote católico e tive por amante aquela que depois me serviu de mãe. Não estava muito convicto de minha fé e amava-a como mulher, não quis deixar o sacerdócio, que me proporcionava boa vida e respeito; nós nos encontrávamos às escondidas. Eu tomava, na época, conta de uma instituição de caridade, um abrigo de crianças doentes, principalmente leprosas ou filhos de leprosos que não podiam viver com os pais e que ninguém queria. Minha amante, ambiciosa, queria dinheiro, muito dinheiro, e para satisfazê-la desviei as verbas da instituição para dar a ela. Deixei as crianças sem conforto, sem remédios, até sem alimentos, enquanto ela se tornou rica, senhora de escravos e luxo.
"Desencarnamos, sofremos horrores por nossos atos, acabamos culpando um ao outro pelo sofrimento e passamos a nutrir grande ressentimento. Depois de muito tempo, fomos socorridos, orientados,entendemos a amplitude dos nossos erros e pedimos para reencarnar. Viemos juntos para que o rancor acabasse, como dois irmãos, filhos de leprosos; e, por não termos com quem ficar, contraímos a lepra e desencarnamos crianças. Não nos sentimos, porém, quites com nossa consciência; outra encarnação benéfica nos foi concedida, e voltamos. Vencemos nesta, aprendendo a amar com pureza, sofremos, resignados, dando valor a todos os benefícios recebidos e resgatamos ceitil por ceitil. Senti, Raul, no corpo o que lz os outros sofrerem, tirando por ambição o que poderia .er alívio para doentes de outrora. Como vê, tudo é muito ' sto. E ter oportunidade de quitar, reparar nossos erros,
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AJUDANDO MINHA MÃE
l ião calou-se, estávamos todos emocionados com a narrativa do nosso companheiro. Aproveitei o incentivo, olhei para o professor e disse em torn de súplica:
- Ajude minha mãe, professor. Deixe-me ajudá-la! Mesmo se com essa ajuda tiver de sofrer! Não sofrerei mais que agora, sabendo que ela não está bem.
- Raul, o estado de sofrimento é conseqüência do nosso livre-arbítrio, os bons não gostam de ver sofrimento, mas nosso livre-arbítrio é respeitado, assim como o sofrimento.




Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
é a bondade infinita de Deus, que não nos condena, mas faz com que, resgatando, aprendamos pelo amor ou pela dor. Raul, coragem, peça com fé o que almeja receber, peça ajuda e confie. E poderá ajudar sua mãezinha."
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AJUDANDO MINHA MÃE
l ião calou-se, estávamos todos emocionados com a narrativa do nosso companheiro. Aproveitei o incentivo, olhei para o professor e disse em torn de súplica:
- Ajude minha mãe, professor. Deixe-me ajudá-la! Mesmo se com essa ajuda tiver de sofrer.' Não sofrerei mais que agora, sabendo que ela não está bem.
- Raul, o estado de sofrimento é conseqüência do nosso livre-arbítrio, os bons não gostam de ver sofrimento, mas nosso Jivre-arbítrio é respeitado, assim como o sofrimento.




Vera Lúcia Marínzeck de Carvalho
A ajuda que socorristas fazem é respeitando a liberdade de cada um. Podemos aconselhar sua mãe a perdoar, mas não obrigá-la. Entendeu?
- Sim, senhor, entendo e acho justo; mas, se puder falar com ela, saberei fazer com que entenda.
- Raul, sua mãe acha-se em estado de perturbação. Julga-se encarnada, sabe que você desencarnou e pode ter medo ao vê-lo.
- De mim, seu filho?
- Tantas pessoas, Raul, que muito amam, sofrem terrivelmente com a separação, mas temem e não querem ver os entes queridos que desencarnaram. Com sua mãe, pode ocorrer o mesmo.
- Sim, se mamãe ficasse com medo de mim, não saberia o que fazer - respondi, sincero. -Não sei o que fazer se ela me temer. Entendo como são certos os dizeres que, para ajudar, é necessário saber, vontade não basta. Farei qualquer sacrifício por ela, professor, mas nada conseguirei sem ajuda.
O professor Eugênio sorriu, com aquele sorriso que nos cativava tanto, olhando-me cheio de carinho.
- Levarei você, Raul, até sua mãe. Pedirei para que amanhã mesmo o professor Lourenço me substitua no tempo em que me ausentar; levarei você e procuraremos ajudar sua mãe.
Senti-me contente, confiante, minha vontade era de abraçá-lo; contive-me e falei, emocionado:
- Agradeço seu carinho, professor Eugênio, confio em sua sábia ajuda, tanto que prometo na volta contar a todos como foi. E tenho a certeza de que traremos minha mãe. Mas prometo não me entristecer nem desanimar, se não o conseguirmos.
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Reconciliação
- Oraremos e vibraremos por vocês - disseram em coro meus colegas.
A aula terminou, corri para perto de vovó, contei contente tudo o que se passou na classe, vovó sorriu, orientando-me:
- Raul, o professor Eugênio é bondoso demais, interessadíssimo nos problemas de seus pupilos, ele é conhecedor dos sentimentos humanos, confio que poderá ajudar minha Manuela. Mas, meu neto, não se decepcione se não for positiva a primeira tentativa. Tenho estado sempre com ela, quero ajudá-la e ela não quer receber ajuda. Vá, meu querido, faça tudo conforme o professor orientar. Lembro a você que sua vida continuou, e conte com a certeza de que continuou para os familiares encarnados. Não queira ficar no antigo lar.
- Claro que não, sei que eles não me verão, depois nada lá me prende. Gosto de minhas irmãs, de Pretinha, e sei do perigo que representaria para elas se lá ficasse sem o devido preparo. Quero ir mesmo para convencer mamãe a perdoar e prometo à senhora que seguirei com fidelidade as ordens dele. E, se não conseguirmos desta vez, não desistirei, até tê-la conosco.
- Que Deus os abençoe!
Esperei ansioso pelo dia seguinte, não consegui esconder a emoção. Logo pela manhã fui ao encontro do Professor e, ao vê-lo, senti meu coração bater forte.
- Tudo pronto, Raul? Está bem?
~ Sim, mas sinto meu coração bater forte, como se estivesse encarnado.
"~ O perispírito serve de modelo ao corpo. Necessi^os de tempo para nos desvincular das coisas a que
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Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
estamos acostumados. Temos o reflexo do que somos, e a impressão do corpo carnal acompanha-nos. Observe, Raul, que vamos nos desprendendo aos poucos da necessidade de comer, de dormir, e tantos como sua mãe sentem ainda frio, calor e dores. O perispírito é matéria rarefeita, perfeita, belíssima; é natural que, emocionado, sinta como se o coração do corpo físico batesse; é que acelerado está o coração do seu perispírito. Vamos? Avisou sua avó?
- Avisei, sim. Está torcendo por nós.
O professor Eugênio pegou nas minhas mãos, conduzindo-me, e volitamos. Vi do alto a colônia e achei-a enorme, achei-a ainda mais encantadora com seus jardins e prédios.
Logo vi a Terra e deslumbrei-me com a visão dos sítios que conhecia; chegamos às proximidades de meu antigo lar, entre as árvores do campo. Suspirei contente, observei tudo e logo a vi. Embaixo de uma árvore, sentada no chão, estava mamãe, triste e pensativa. Ao vê-la, lembrei-me do poço, estava com o mesmo vestido, toda suja, com manchas de sangue, cabelos despenteados. No peito sangrava o ferimento da faca. Esperava vê-la assim, mas não deixei de me afligir, olhei para o professor, pedindo ajuda.
- Por que, professor, sangra seu ferimento?
- Não perca a confiança nem a serenidade, Raul. O ferimento sangra porque ela o alimenta e conserva com
seu rancor.
Olhei para minha mãe com todo o meu carinho. Pensei: "Por que ela não consegue perdoar?" Não a entendia, é tão fácil entender as ofensas quando queremos. Ela era vítima e sofria mais que o agressor, no momento,
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Reconciliação
por não fazer o que Jesus tanto recomendou: perdoar sempre. Indaguei meu mestre:
- Ela não nos vê?
- Raul, nossa vibração é muito diferente da dela. Nós podemos vê-la/ ela não. Manuela vê encarnados e desencarnados da mesma faixa vibratória dela. Nos maus, espíritos perturbados e sofredores, a vibração é mais grosseira, quase material, enquanto nos bons, nós que aprendemos, moradores de planos mais elevados, a vibração é mais rarefeita, suave. Espíritos como o de sua mãe, no momento, não vêem os bons, por isso são levados a centros espíritas para uma incorporação, e ao se confrontarem com o corpo carnal vêem que estão diferentes, entendem que estão desencarnados e vêem, então, os bons que querem ajudá-los. Podemos também agora descer à vibração dela e tornarmo-nos visíveis, já que ela não consegue chegar a nós.
- Como poderei fazer isso?
- Ajudá-lo-ei: antes de se tornar visível a ela, lembre-se, Raul, de que poderá Manuela aceitá-lo, ou temê-lo. Agora, vamos, é só pensar forte com atenção em você, no estado em que estava no poço, procure sentir-se daquele modo, sujo, machucado, queira.
Pensei firme e fui me transformando, senti-me mais pesado.
- Vamos, Raul, pense, o perispírito pode ser maleável, você pela vontade pode transformá-lo.
Sentindo-me diferente, abri os olhos, olhei para meu c°rpo. Estava com as roupas rasgadas, sujas, as mesmas do dia em que desencarnei, estava ferido e com uma sensação de autopiedade invadindo-me. Pensei: "Fiquei todo
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Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
machucado, coitado de mim!" Bastou isso para que começasse a sentir dores. O professor interferiu, enérgico.
- Não, Raul, não deixe a autopiedade o dominar; vamos, reaja, esse não é o seu estado, está assim só para ajudar.
Respirei fundo e pensei na figura do Mestre Jesus, ensinando no monte, na linda pintura que tínhamos na sala de aula. Relaxei e nada mais senti; sabia que minha transformação era só para ficar visível à minha mãe, minha forma externa não deveria mudar-me interiormente e eu não poderia ter dó de mim: nada do que me acontecera fora injusto.
Tranqüilo, aproximei-me dela, o professor Eugênio acompanhou-me; como não abaixou sua vibração, só a mim mamãe veria.
Ficando a alguns passos dela, disse baixinho:
- Mãe, mamãe!
Ela levantou a cabeça, levou um susto ao ver-me. Arregalou os olhos e ficou com eles parados, a olhar-me. Torcia as mãos, nervosa, disse em torn aflito, falando rápido:
- Raul, meu filho! Vejo sua alma! Você morreu naquele maldito dia. Por que eu não? Tive que ficar! Procuro ajuda e não acho. Que sofrimento, meu filho! Vê meu estado? Ele proibiu que me ajudassem. Falo a todos que foi ele. Ninguém acredita nem me ouve. Raul! Você está sujo e machucado! Não está no céu? Sofre, meu filho?
Aproveitei a pausa que fez e tentei explicar, falando docemente:
-Mãe, mamãe querida. Não sofro, estou bem e queria que também estivesse. Esqueça as maldades que lhe fizeram, perdoe. Todos nós somos carentes de perdão.



Reconciliação
perdoe, mamãe, peça ajuda a Deus, a Jesus, e faça como Ele, que na cruz perdoou os que lhe mataram o corpo, por favor, mamãe, perdoe!
Mamãe agitou-se, parecia mais assustada e gritou.
- Não, você não é meu Raul! Não tem sossego por não estar vingado?
- Mamãe, quando caímos no poço morremos nós dois.
- Cruz-credo! Você morreu, vi seu corpo frio; o meu, não. Olhe! Vê? Estou viva. Sempre tive medo de alma do outro mundo, de morto. Ai... you vingar você, Raul. Manuel irá pagar.
Saiu correndo desesperada, com medo.
- Volte a ser o Raul do Educandário - ordenou com voz firme o professor Eugênio. - Pense em você lá na nossa classe.
Rapidamente me transformei, suspirei aliviado e esforcei-me para não desanimar; tentei sorrir.
- Ela teve medo de mim!
O professor sorriu, confortando-me.
- Vamos procurá-la novamente, serei eu a conversar com ela. Não me conhecendo, julgará que sou encarnado e pode ser mais fácil.
- Mamãe está muito perturbada, professor. Foi sempre gentil, educada. Expressa-se de modo estranho!
- Sua mãe está temporariamente perturbada, pelo que lhe aconteceu, pelo sofrimento.
- Será que ela perdoará?
- Claro que sim. Manuela sofre e sente-se só, abandonada, não será difícil fazê-la entender. Não é má, não Procurou ajuda de vingadores nem se uniu a espíritos trevosos.
~ Vingadores? - Estranhei.
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Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
- Sim, denominam-se vingadores os grupos que se reúnem nos umbrais, que se dedicam com todo o ódio e rancor a vingar as ofensas e ajudam os supostos ofendidos que os procuram. Em casos assim, nossa interferência é mais trabalhosa, mas realizável. Manuela não está bem certa se quer realmente se vingar.
- Vamos, vamos até ela. Não a vejo, sumiu, sabe onde está?
Ele sorriu, entendi que sim. Se viemos da colônia e achamo-la facilmente, sabia sem dúvida aonde ela fora.
- Andemos agora, Raul.
Estar novamente naqueles campos, onde brinquei tanto com meus amigos, fez com que parasse e olhasse tudo com saudade. Não podemos fugir da saudade, mas sim controlá-la; não devemos deixar que ela nos machuque e entristeça nossos dias. Quando queremos bem a alguém, gostamos de certos lugares; é humano sentir saudades. Mas devemos lutar para não deixar esse sentimento nos prejudicar o crescimento espiritual.
- Um dia, Raul, terá igualmente saudade do Edu,- candário, quando de lá se ausentar. Poderá até estar encarnado e não saberá ao certo do que tem saudade, seu espírito é que estará saudoso. Acostume-se já a dominar esse sentimento, dê mais lugar no seu coração ao amor, deixe que esse sentimento puro domine todos os outros. Olhe para esses lugares e os ame. Não pense que os perdeu, pense que os ama, ama muito cada lugar, cada pessoa, e a saudade se tornará suave. Aprendendo, estamos fazendo nosso presente, e o futuro é esperança.
Sorri agradecido, fiz o que ele me sugeria, não me foi difícil, amava tudo, só que não sabia. Deixei transbordar
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Reconciliação
meu amor e não senti mais saudade. Os acontecimentos materiais estavam no passado, o presente para mim era importante e enchi-me da esperança de conseguir ajudar minha mãe.
- Professor - indaguei enquanto caminhávamos -, existem muitos desencarnados sofrendo como minha mãe?
- Infelizmente, Raul, existem sim. São os imprudentes que, encarnados, construíram sua casa, seus valores, na areia. Vem a morte do corpo e tudo lhes parece ter desmoronado, é grande a ruína. Todas as religiões orientam para que sigam o caminho do bem, do amor, mas a estrada é estreita e, não tendo coragem para abandonar a vida fácil, as muitas ilusões da carne, ao desencarnarem sofrem no plano espiritual, seja pelas maldades que fizeram, seja pelo orgulho e egoísmo, ou, ainda, pelo bem que deixaram de fazer e por não terem coragem e confiança suficientes para perdoar as ofensas recebidas.
- Sinto pena deles!
- São as más obras, maus atos, que causam sofrimentos. Somos livres para escolher. Muitos sofrem, mas o bem está em toda parte e ninguém fica sem socorro se pedir com sinceridade, com o propósito sincero de melhorar.
Aproxirnamo-nos do meu antigo lar; estava modificado, fora pintado recentemente, feito muro em volta, posto portão. Mamãe muitas vezes pedira a meu pai para fazer essas modificações, mas ele respondia que a casa estava bem desse jeito. Estava agora mais bonita, parecia-rne maior. O professor pegou na minha mão, atraVessamos o portão fechado e a porta da sala, achei mteressante.
~ Que legal! - exclamei. - Posso fazer de novo?
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Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
- Sim, pode. Nossos corpos, agora, Raul, são de urna matéria rarefeita. Corpos carnais e esta casa são de matéria condensada. Facilmente nós, desencarnados, podemos atravessá-la, é só ter consciência disso e querer.
- Mamãe consegue atravessar paredes?
- Não, sua mãe se julga encarnada e encarnados não atravessam paredes, portas fechadas.
Da sala fomos à cozinha, onde encontramos Pretinha preparando o jantar. Pondo em prática a lição do amor, olhei-a com muito carinho, desejei sinceramente felicidade a ela. Minha amiga encarnada suspirou aliviada, sorriu e continuou sua tarefa com mais satisfação.
Fomos ao quarto de minhas irmãs. Telma e Tais estavam bem, com roupas novas e muitos brinquedos; mas pareceram-me tristonhas, brincando caladas, sentadas no chão.
- Suas irmãs estão bem; vamos, Raul, sua mãe chora na escada que dá para o quintal.
Mamãe estava sentada toda encolhida num canto da escada. Chorava e dizia: "Elas não me reconheceram. É porque estou suja e machucada. Deveria ir ao médico. Nem Pretinha falou comigo. Por quê? Por quê? Fingiram que não me viram. Deve ser isso, Manuel deve ter falado que estou louca e que fui eu quem matou Raul. Deve ter inventado uma boa história para que elas não conversem comigo. Todos devem ter medo de mim".
Olhei para o professor, ele orava em silêncio, e foi se modificando. Mudou suas roupas, ficou parecendo um lavrador pobre. Ficou na frente de mamãe, na escada, falou-lhe com voz harmoniosa e com muito carinho.
-Por que chora, filha? Está muito machucada, não dói?



Reconciliação
Minha mãe levantou a cabeça e viu-o; curiosa, observou-o bem e indagou:
- Quem é o senhor? Não o conheço, nunca o vi.
- Sou um peregrino. Ando por este mundo de Deus. Quer ajuda?
- Quero! Ou é o senhor quem quer? Não tenho nada para dar-lhe e...
- Não quero nada, senhora, tenho tudo do que necessito.
- Sinto que o senhor é bom. Mas como poderá me ajudar? Nem sei como começar, sofro tanto. Perdi meu filho há poucos dias.
Minha mãe perdera a noção do tempo; aqueles meses pareceram-lhe dias. Isso é comum a espíritos perturbados. O professor, mostrando-se amável, continuou a conversar normalmente.
- Sei avaliar a dor de uma mãe. Tudo é mais fácil para os que têm fé. Não acredita em Deus, senhora? Ele é Pai de todos nós, meu, da senhora, de seu filhinho. Não diga que o perdeu, não pertencemos a ninguém, filhos não são propriedades nossas, guardamo-los por um tempo que o Pai determina, encontrará com ele um dia. Não fique triste assim, senhora, venha comigo, cuidarei dos seus ferimentos.
- Não posso ir, não devo sair daqui, esta é minha casa. Não choro só pela morte dele. Tudo me é tão triste. Meu filhinho morreu e foi o próprio pai quem o matou. Não se espanta? Não acredita?
- Acredito, sim, senhora, sei que fala a verdade. Não acha, porém, que se pode matar só o corpo e não a alma? k que seu filhinho vive em outro lugar?
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Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
Mamãe relaxou mais, sentou-se direito, ignorou a indagação que o professor lhe fizera e começou a falar. Muito confusa, às vezes não terminava a frase, mudava de assunto, mas contou sua história, revelando episódios que eu desconhecia.
- Nasci perto daqui, numa bonita fazenda. Meu pai era muito enérgico e estava sempre distante. Mamãe, não, pessoa bondosa, deu-me muito carinho. Fui prometida em casamento mocinha ainda, me alegrei. Logo amei Manuel, meu noivo, e sentia que era correspondida. Faltava pouco tempo para nosso casamento, quando um dia, ao voltar de visita que fizera a uma doente, mulher de um dos nossos empregados, fui atacada por um homem; sem conseguir reagir, fui violentada. Encontraram-me toda machucada. Mamãe cuidou de mim com carinho, meu pai quis saber quem fora. Não o conhecia, mas o descrevi e ele foi procurar o tal homem com mais dois empregados; encontrando-o, matou-o com dois tiros de espingarda. Não conseguimos esconder o fato e passei de vítima a uma pessoa marcada, como se tivesse errado. Meu pai chamou meu noivo e contou-lhe tudo; porém, para meu alívio, ele ainda quis casar comigo. Meu pai não conversou mais comigo, evitava-me, só mamãe continuou a tratar-me como sempre. Dois meses depois, casei. Logo engravidei e Raul nasceu após nove meses de casada. Manuel mudou comigo, não era o noivo prometido que conhecia. Não gostou do filho, torturava-me dizendo que ele era do tarado e eu jurava-lhe que não. Dizia-lhe: existe criança de sete meses, mas não de onze! Era brusco, grosseiro comigo. Nem olhava para o filho e, se o menino chorava à noite, tinha de sair do quarto. Quando fiquei grávida
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Reconciliação
novamente, apavorei-me/ porém Manuel agiu diferente, com as meninas tinha paciência, chegando a levantar-se à noite para me ajudar a cuidar delas. Meu pai morreu. Vim a saber por mamãe que Manuel casara comigo por ter recebido uma rica recompensa, papai pagou-lhe para que se casasse comigo. Minha mãe, com dó do meu Raul, pediu-nos para que o deixássemos com ela. Minha mãe levou-o e criou-o. Manuel nunca foi vê-lo ou quis saber dele.
"Minha vida nesses anos transcorreu mais tranqüila, até que mamãe morreu e meu filho retornou ao lar. Manuel logo demonstrou a raiva que sentia por ele, passou a maltratá-lo, a surrá-lo, sem nenhum motivo. Minha vida toda de casada foi tentando agradar meu esposo; trabalhei muito, tornei-o mais rico e cada vez tratava-me pior. Até que se apaixonou por outra, por uma moça que mudou com a família para nossa cidade. A desavergonhada queria casar, e ele, com medo de perdê-la, armou um plano. Começou a tratar-me melhor e também ao filho. Numa tarde chamou-nos para um passeio, feriu-me com a faca, jogando-me no poço abandonado e, depois, fez o mesmo com o próprio filho. Este, coitadinho, não resistiu e morreu. E, não satisfeito, sabe o que ele fez? Disse a todos que fui eu a matá-lo, que estou louca, e todos fogem de mim, não conversam comigo. Só o senhor me escutou e estou abusando, falando, falando."
- Não, irmãzinha, não está abusando, gostei de escutá-la. A senhora precisa de ajuda. Não se lembra de ueus? Não ora? Não recorda os ensinos de Jesus, esse grande missionário? Sofreu tanto, perdoou a todos e Pediu que fizéssemos isso também. Por que a senhora não Perdoa a seu esposo? Raul já perdoou.
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Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
- Raul? Como sabe o nome de meu filho?
- A senhora mesma falou. Se ele era bom como diz, um anjinho, perdoou. Os bons perdoam sempre, faça isto, perdoe também.
Minha mãe ficou quieta por alguns instantes, parecia pensativa. De repente levantou-se e disse:
- A polícia! O delegado! you dar queixa dele, terão de prendê-lo.
Saiu apressada, nem se despediu, olhei triste para o professor e disse:
- Não sabia dessa história, agora entendo o porquê de meu pai não gostar de mim.
- Sua mãe disse a verdade: você, Raul, é realmente filho de Manuel. Esse ódio não é por isso, está ligado ao passado de vocês. Vamos acompanhá-la.
Mamãe andava rápido, seguimo-la de perto, ia repetindo que tinha de contar ao delegado. Perto da delegacia dois desencarnados, com jeito de poucos amigos, cercaram-na, segurando-a pelo braço.
- Venha cá, belezura! - disse um deles.
- Vamos passear um pouco - disse o outro. - Somos todos assombrações.
Mamãe apavorou-se com o assédio dos dois, começou a debater-se. O professor Eugênio aproximou-se, os dois pararam desconfiados olhando um para o outro, saíram correndo.
- Está protegida pelos bons, vamos embora! Mamãe chorava baixinho, assustada, com dores e
fraqueza, não quis ir mais para a delegacia; vagarosamente, de cabeça baixa, voltou para nosso antigo lar.
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O LOUCO

IVIamãe ficou novamente na escada chorando, aproximamo-nos dela.
- Raul, estenda suas mãos sobre ela e pense que quer vê-la tranqüila a dormir.
Fiz isso, o professor também; mamãe parou de chorar. Foi se acalmando, deitou-se no chão e dormiu. O professor Eugênio pegou-a no colo e acomodou-a num leito que tinha no porão de minha ex-casa.
Entramos em casa, meu pai estava na sala,
l tranqüilo, pareceu-me feliz, ao seu lado uma
moça bonita que tentava cativar minhas irmãs,
Tais e Telma, que a olhavam desconfiadas e
aborrecidas.



Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
- Será esta a mulher de que mamãe falou? Ela o ajudou a nos matar?
- Esta é Margareth, amante de seu pai, candidata a esposa. Ela não é má, somente ambiciosa e frívola. Não sabe de nada, no começo desconfiou de seu pai, porque ele pediu que dissesse, se alguém lhe perguntasse, que passara com ela a tarde do crime. Explicou que andava desconfiado de que a esposa o traía e que a seguira naquela tarde. Logo, porém, perdera-a de vista. Mas depois que prenderam o "Louco", Margareth acreditou nele e ficou muito contente por Manuel estar livre, e tudo faz para que se case com ela.
Margareth levantou-se, dirigiu-se à cozinha; seguimo-la. Pretinha lavava a louça; Margareth, procurando ser amável, disse-lhe:
- Pretinha, qual o seu salário?
Pretinha gaguejou, falou a quantia meio encabulada.
- Só?! Se você me ajudar fazendo com que as meninas gostem de mim, casarei com Manuel e dobro seu ordenado. Terei outra empregada para lavar roupas e não farei quitutes para o armazém, seu serviço diminuirá. Se fizer o que lhe peço, falando bem de mim a elas, dar-lhe-ei roupas minhas, tratá-la-ei sempre bem.
- Sim, sim, senhora.
Ela saiu e Pretinha enxugou do rosto as lágrimas que caíam, resmungando baixinho: "Nem fez um ano que dona Manuela e o menino Raul morreram e ele já fala em casar-se. Se não tivessem prendido o Louco e este confessado, julgaria que fora ele, o patrão, que matara os dois. Até hoje não entendo o porquê de dona Manuela ter largado de fazer os bolinhos e ter saído com Raul; ela nunca fizera isso".
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Reconciliação
Abracei Pretinha com muito carinho, desejei-lhe tranqüilidade e esperança para o futuro. Após alguns segundos, o professor tocou-me o ombro.
- Vamos, Raul, viemos ajudar sua mãe, não deve se preocupar com eles aqui. Pretinha é bondosa e trabalhadeira. Margareth gosta mais é de ter alguém para trabalhar por ela, agradará Pretinha para tê-la fazendo isso. Para suas irmãs, será boa madrasta, as meninas são boazinhas, seu pai as ama e não permitirá que ninguém as maltrate.
- Professor Eugênio, ele não tem remorso? Está como se não tivesse feito nenhum mal.
- Quem faz o mal um dia cairá em si, lembrará o mal feito. A vez dele chegará.
- E ele vai casar com Margareth?
- Sim, estão apaixonados.
- Professor, é incrível como o senhor sabe tudo, descobriu onde mamãe estava, conhece tudo.
- Não pense, Raul, que sou adivinho. Nada é impossível. Ontem à noite estive aqui e sua avó deu-me as informações precisas, analisei tudo para melhor ajudá-lo. Saber de todos os detalhes e onde uma pessoa se encontra não é difícil. Como sua avó, dona Margarida, me informou, sua mãe só fica por aqui e basta-me pensar nela para localizá-la, foi fácil. Para os desencarnados nada é impossível, tudo é trabalho e dedicação.
- Escutei, por duas vezes, falar do Louco. Prenderam
0 Louco que nos matou. Quem é ele? Por que está preso se não foi ele?
~ Sua mãe dormirá por horas, descansará, aproveiernos para conhecer o Louco. Vamos à prisão.
A prisão da cidade era pequena e antiga, quatro celas,
três
presos, um em cada uma. Não era um lugar agradável
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Vera Líícia Marinzeck de Carvalho
de visitar, não a conhecia, nunca tinha estado numa cadeia. Ambiente triste e pesado, alguns desencarnados ali estavam vampirizando com ódio um dos presos por este ter-lhes tirado a vida física. Não nos viram, lembrei-me da explicação do professor: nossa vibração era diferente. Entramos numa das celas, não havia nenhum desencarnado, estava ali um homem, barba por fazer, magro, cabelos louros encaracolados, andava de um lado para outro, inquieto.
A camisa aberta deixava ver suas costelas, usava sandálias de couro cru e calças nas canelas. Seus olhos azuis pareciam duas contas, bonitos, tristes, demonstrando pelo olhar sua agitação interior. Simpatizei com ele, indaguei ao meu mestre:
- Quem é este homem?
- Este é o Louco - respondeu meu instrutor. - Será inocente? Nem tanto como se pensa. É um doente mental. Seu espírito culpado perturbou-se e ao encarnar transmitiu à matéria sua perturbação.
O Louco começou a falar: "Matei-os, matei-os, enfiei a faca neles, matei-os!"
Assustei-me ao ouvir o que dizia.
- Este pobre irmão fala sempre isso, Raul, repete a todo instante. Recorda partes de acontecimentos do passado. Matou, sim, não agora nesta encarnação, mas na sua outra existência. Vamos auscultá-lo, contarei a você a história dele, quer?
- Sim, quero.
O professor Eugênio deu-lhe um passe, vi das suas mãos saírem raios prateados. O Louco aquietou-se, parou de andar, pegou um prato de comida que estava na mesa e comeu; depois se deitou na cama e ficou olhando para o
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Reconciliação
teto com os olhos muito abertos. Sentamo-nos perto dele, meu instrutor começou a falar:
-João Felipe/ é este seu nome. Em 1712 estava encarnado, era oficial da corte; imponente, orgulhoso, julgava-se bonito, honesto e com a certeza de uma brilhante carreira. Esperava uma promoção, que julgava merecida e justa, para logo.
"Um dia, estando de folga, passeava pelo campo a cavalo, ia admirando a estradinha toda arborizada que era caminho de alguns sítios, onde pessoas endinheiradas tinham casas para passar o verão, sonhando um dia em residir ali. De repente, uma criança saiu do meio das árvores atravessando à sua frente. Seu cavalo assustou-se, empinou, e o menino, amedrontado, parou também. Sem que João Felipe pudesse evitar, o cavalo pisoteou a cabeça do garoto. Conseguindo finalmente dominar o animal, desceu do cavalo, amarrou-o numa das árvores e aproximou-se da criança. Percebeu que estava morta, batera com a cabeça numa pedra, além das pisadas do cavalo.
"Ajoelhado estava junto ao menino quando escutou um barulho. Virou-se e viu que atrás do garoto vieram uma mulher e uma menina de uns seis anos. A mulher estava muito bem vestida. Ao chegar à estrada parou, assustada, depois se debruçou sobre o menino, que tinha três anos, começando a chorar baixinho. João Felipe reconheceu-a, era a esposa de seu comandante. Sentiu um frio pelo corpo e exclamou: 'Estou perdido!'
"Procurou dominar-se. Pensou rápido, não poderia Deixar que contassem o que viram. Ele não tivera culpa, ^uern, porém, iria acreditar nele? E conhecia bem o co^ndante, era vingativo e mau.
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Reconciliação
"O débil ria. João Felipe indagava-o balançando a cabeça de cima para baixo e o maluco imitava-o, dando a parecer que respondia de forma afirmativa.
'"Homens, é este o assassino, ele afirma, vamos matá-lo, está com a faca. Não há mais dúvidas, é o criminoso/
"Exaltou os companheiros e eles acreditaram. Pegou uma corda e colocou-a numa árvore.
" 'Enforquemo-lo!'
"'Não é melhor levá-lo preso?' - disse um do grupo.
'"Há uma recompensa e o comandante deixou bem claro que queria o assassino morto. Poupemos mais isso ao pobre pai, ter de matar este monstro. Enforquemo-lo nós.'
"O débil ria. Colocaram-no em cima de um cavalo, ficou encantado, achando que brincavam com ele. Colocaram-lhe a corda no pescoço, ele continuava a rir, até que a corda o sufocou, olhou assustado para os oficiais, desencarnou. Socorristas desligaram-no logo do corpo e levaram-no para um posto de socorro, onde foi orientado, perdoando e entendendo que resgatara erros de seu passado.
"O grupo recebeu a recompensa. João Felipe, por ter descoberto o assassino, foi cumprimentado pelo comandante, que se sentia arrasado com a morte da esposa e filhos. João Felipe logo foi promovido.
"O assunto foi esquecido, em breve ninguém mais comentava o caso. João Felipe procurou aplacar sua consciência pensando sempre que fora melhor para o débil ter morrido, parado de sofrer. E que não tivera culpa da morte do menino, fora ele que atravessara à sua frente, e que a mulher e a menina tiveram de ser mortas, para que ele



Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
"Tirou sua faca da cinta e friamente golpeou a mulher pelas costas. Retirando a faca, rápido avançou sobre a menina, que estava a alguns passos parada, não entendendo o que acontecia; estava mesmo olhando para o outro lado e nem vira a mãe morrer. Enfiou a faca no peito da menina, retirou-a e limpou-a nas roupinhas da criança. Montou no seu cavalo, retornou rápido para a cidade, deixando os três mortos na estrada. Três horas depois só se falava nos crimes cometidos e todos os oficiais saíram à caça do assassino ou assassinos. João Felipe, de licença, apresentou-se, como muitos outros, procurou acalmar-se, chefiou um grupo de buscas. Ninguém vira nada, empregados da casa, preocupados com a demora da senhora e das crianças, saíram para procurá-los, achando-os mortos depois de horas de procura. Era tudo o que se sabia. As buscas ao autor do crime hediondo continuavam. O grupo de João Felipe encontrou um débil mental sentado numa pedra, era um andarilho.
"'É ele! Parece um assassino!' - gritou João Felipe, exaltado.
'"É só um louco inofensivo' - disse um de seus colegas.
"'Vamos revistá-lo!'
"João Felipe desceu do seu cavalo e os outros ficaram conversando. Começou a revistar as coisas do pobre homem, que os olhava e ria se divertindo. João Felipe, vendo que ninguém o observava, com cuidado tirou a faca de sua bota, lugar onde a escondera, e, fingindo tê-la tirado dos pertences do débil, gritou:
"'Olhem! Olhem o que encontrei! Uma faca suja de sangue! Foi você, seu monstro, quem matou a mulher e as crianças?'



Reconciliação
"O débil ria. João Felipe indagava-o balançando a cabeça de cima para baixo e o maluco imitava-o, dando a parecer que respondia de forma afirmativa.
"'Homens, é este o assassino, ele afirma, vamos matá-lo, está com a faca. Não há mais dúvidas, é o criminoso/
"Exaltou os companheiros e eles acreditaram. Pegou uma corda e colocou-a numa árvore.
" 'Enf orquemo-1 o!'
'"Não é melhor levá-lo preso?' - disse um do grupo.
"'Há uma recompensa e o comandante deixou bem claro que queria o assassino morto. Poupemos mais isso ao pobre pai, ter de matar este monstro. Enforquemo-lo nós/
"O débil ria. Colocaram-no em cima de um cavalo, ficou encantado, achando que brincavam com ele. Colocaram-lhe a corda no pescoço, ele continuava a rir, até que a corda o sufocou, olhou assustado para os oficiais, desencarnou. Socorristas desligaram-no logo do corpo e levaram-no para um posto de socorro, onde foi orientado, perdoando e entendendo que resgatara erros de seu passado.
"O grupo recebeu a recompensa. João Felipe, por ter descoberto o assassino, foi cumprimentado pelo comandante, que se sentia arrasado com a morte da esposa e olhos. João Felipe logo foi promovido.
"O assunto foi esquecido, em breve ninguém mais
comentava o caso. João Felipe procurou aplacar sua cons-
Ier>cia pensando sempre que fora melhor para o débil ter
Orrido/ parado de sofrer. E que não tivera culpa da morte
Menino, fora ele que atravessara à sua frente, e que a
u«ier e a menina tiveram de ser mortas, para que ele
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Vera Lúcia Marinzeck de Carvalho
não fosse prejudicado, senão seria enforcado. Mas, não tinha sossego, estava sempre intranqüilo, amargurado, descontava nos subalternos sua insatisfação. Tornou-se um comandante duro e implacável. Não casou, não conseguiu gostar de ninguém, poderia até ter comprado uma casa naqueles sítios que tanto queria, preferiu outro lugar. Nunca mais passeara no lugar do crime. Seu antigo comandante achava sempre que lhe devia favor, muito o ajudou. A mulher, pessoa boa, e as crianças que ele assassinou foram logo socorridas e perdoaram-lhe, crescendo espiritualmente. Anos depois, seu antigo comandante desencarnou e, ao saber da verdadeira história, voltou-se para ele com ódio feroz. Obsediou João Felipe que, aos poucos, foi perdendo a razão, foi afastado de seu cargo e acabou louco. Um de seus irmãos veio tomar conta dele, apossou-se de seus bens e trancou-o num porão, onde viveu por dois anos e desencarnou. Mas seu obsessor não deu por terminada a vingança, tirou-o do corpo carnal, levou-o para as furnas e muito o maltratou. A mulher e os filhos do obsessor tudo fizeram para que ele perdoasse e mudasse de vida, até que um dia, cansado de sofrer, desistiu da vingança e retirou-se com seus familiares...
"Pois, meu caro Raul, a vingança é como diz o dito popular: uma faca de dois gumes. Fere-se e se é ferido, faz sofrer, mas sofre. João Felipe ficou só, sentiu-se um pouco aliviado com a ausência de seu inimigo e aos poucos foi recordando sua vida, seus erros. O remorso o corroía e foi aumentando com o tempo, até que se arrependeu sinceramente. Chorou muito, pediu perdão a Deus e clamou por socorro. Socorristas piedosos o levaram a um posto
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de socorro, sentia-se perturbado; se todos o perdoaram, não se perdoava a si mesmo.
"João Felipe não se conformava por ter sido tão mau e impiedoso, chorava angustiado. Todos nós, Raul, devemos perdoar sempre a todos e a nós mesmos; as obras más nos pertencem, como as boas; ninguém tira a vida física de outrem e fica impune. Reconhecido o erro e arrependidos, não devemos cultivar o remorso destrutivo, mas sim o firme propósito de acertar e reparar os erros. Com tratamento e com muitos conselhos, João Felipe melhorou e pediu para reencarnar. Queria esquecer, resgatar suas dívidas, que para ele eram imensas."
- E não eram?
- Sim, Raul. Lembro-o, porém, de que todos nós somos ou fomos carentes de perdão, não devemos focalizar só nossos erros e ser pessimistas. Devemos ser otimistas e aproveitar as oportunidades que nos são dadas para melhorarmos e ajudar àqueles a quem prejudicamos ou a todos os que nos cercam. O amor, como Jesus ensinou a Pedro, cobre multidões de pecados; devemos cultivar, fortalecer a esperança em construir, realizar e crescer para o progresso.
"Voltou João Felipe, encarnou tendo pais pobres e humildes, sofreu privações com resignação, mas seu espírito não se perdoou, e logo na adolescência conseguiu passar para seu cérebro físico algumas recordações, as principais, de seus erros. Perturbou-se, adquirindo uma doença mental. Saiu de casa, seus familiares sentiram até alívio, e ficou andando de um lugar para outro, esmolando para sobreviver. Passava por aqui quando o crime aconteceu, acharam-no perto do poço dizendo que havia matado, que
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esfaqueara. Não estava sujo de sangue, não encontraram a faca, mas prenderam-no.
"Interrogaram-no muitas vezes, tentaram, para que dissesse mais coisas, mas ele só repetia que havia matado. Quando o interrogatório demorava, gritava: 'Matei-os, cortei-os com a faca!'
"Não tendo outro suspeito, levaram em conta sua confissão, pararam de atormentá-lo e, como ninguém sabe seu nome e ele não diz, apelidaram-no de o Louco, e ficará preso até sua desencarnação. Está preso, Raul, por um crime que não cometeu nesta existência, mas pelo que fez no passado e não pagou. Estar prisioneiro não é fácil e muitos com resignação resgatam seus débitos, encarcerados. João Felipe fugiu de suas responsabilidades e culpou outro; hoje acontece com ele o que fez no passado.
"As Leis Divinas são muito justas e podemos ter consciência disso, conhecendo a Lei de Causa e Efeito. Ninguém pode dizer que é injusto seu sofrimento, como não é o de João Felipe."
O professor silenciou e pensei no meu pai, o que fizera não fora diferente de João Felipe; indaguei preocupado:
- Professor, que será de meu pai?
- De nossos atos teremos que dar conta um dia. Agravou seus erros, deixando que um inocente pagasse em seu lugar. Pagará ceitil por ceitil, como nos disse Jesus, ou pelo amor, ou pela dor; não se preocupe com ele agora, terá como todos nós oportunidades de resgate nesta existência ou em outras.
Senti muito dó de João Felipe, o Louco; passei a mão sobre seus cabelos e desejei ajudá-lo.
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- Doe, Raul, deseje-lhe calma, paz, tranqüilidade e doe-lhe amor.
Desejei ardentemente que ele esquecesse seus erros, seu passado culposo e que agora, resgatando, sentisse paz. Orei com fervor um Pai-Nosso.
João Felipe aquietou-se e adormeceu tranqüilo, seu rosto descontraiu-se, suavizando a fisionomia.
- Dorme tranqüilo! Você, Raul, ajudou-o com seu carinho. Oremos sempre por ele para que quite seus débitos com resignação, porque sofre a reação de seus atos por sua própria escolha. Que possa, ao desencarnar, sentir a paz tão necessária ao nosso progresso e ter a consciência tranqüila para recomeçar bem a existência no plano espiritual.
Era a primeira vez que ajudava alguém; senti uma alegria infinita, lembrei-me dos comentários que surgiam sempre na escola: "Quem faz a outro para si faz". Confiante, sorri para meu mestre e não consegui conter as lágrimas que, abundantes, desciam por minhas faces. Saímos dali.
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O PERDÃO
- V oltemos para perto de Manuela disse o professor.
Já passava da meia-noite; mamãe dormia do mesmo modo que a deixamos. O professor deu-lhe um passe. Ela acordou, não nos viu, sentou-se no leito. Intuiu-a a subir e entrar em casa; assim o fez. Passou pelas portas fechadas com a ajuda do meu mestre e nem percebeu. Levamo-la ao quarto das meninas, que dormiam lado a lado. Mamãe parou diante das camas e ficou observando-as com muito amor.
O professor Eugênio foi até Tais, deu-lhe um passe, segurou-a pela mão, chamou-a baixinho e retirou seu espírito cuidadosamente do
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O PERDÃO
- V citemos para perto de Manuela disse o professor.
Já passava da meia-noite; mamãe dormia do mesmo modo que a deixamos. O professor deu-lhe um passe. Ela acordou, não nos viu, sentou-se no leito. Intuiu-a a subir e entrar em casa; assim o fez. Passou pelas portas fechadas com a ajuda do meu mestre e nem percebeu. Levamo-la ao quarto das meninas, que dormiam lado a lado. Mamãe parou diante das camas e ficou observando-as com muito amor.
O professor Eugênio foi até Tais, deu-lhe um passe, segurou-a pela mão, chamou-a baixinho e retirou seu espírito cuidadosamente do



Reconciliação
corpo, ficando ligado somente por um cordão. Tais olhou seu corpo adormecido, sorriu/ olhou pelo quarto, viu mamãe e levou um susto.
- Mãe! Por que está aqui? Não deveria estar no céu? Por que está toda suja? A senhora morreu, beijei seu corpo frio e fétido. Não está com a vovó? E Raul? Morreram juntos. Que faz aqui? Quer orações?
Tais falava depressa, cada vez mais assustada e com medo. Mamãe ficou parada, não conseguiu falar nada, olhava Tais com admiração e espanto. Minha irmã quis chorar, tremia toda. O professor Eugênio aproximou-se de Tais, transmitiu-lhe um passe de paz, tranqüilidade, fez com que retornasse ao corpo. Nós, como mamãe, vimos Tais como duas, seu corpo e seu espírito; mamãe teve um choque ao presenciar esse fato e, pelo que escutara, saiu correndo do quarto. O professor ficou com Tais e acalmou-a com passes, até que serenou.
- Tais está bem, Raul, não deverá lembrar-se do fato.
- Se lembrasse, seria triste para ela recordar a mãezinha neste estado.
Fomos encontrar com mamãe, voltara para a escada. O professor se fez visível novamente a ela e recomendou-me:
- Não interfira, Raul, fique perto, ore, vibre, conversarei novamente com ela.
Fiquei a dois degraus dela e orei com fé, pedi a Deus que nos inspirasse e fizesse com que meu mestre a convencesse, a doutrinasse. O professor falou-lhe, calmamente:
- Filha, ainda por aqui?
Mamãe assustou-se, quis fugir. Depois, reconheceu o confidente que encontrara à tarde, acomodou-se novamente, não respondeu. Nisto, passou meu pai em espírito,
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desligado pelo sono físico, embaixo da escada. Estava tranqüilo, parecia que passeava. Mamãe escondeu-se no vão da escada.
- É ele! Não quero que me veja. Tenho medo!
- Como quer se vingar dele se tem medo?
- Ele matou e pode matar de novo.
- Está morta, então? >
- Não sei, é tão confuso. Primeiro sinto a presença de minha mãe, que morreu há tanto tempo. Depois, vi meu Raul, o meu filhinho querido que morreu. Aqui ninguém fala comigo, parece que nem me vêem. Agora mesmo, minha filha virou duas, uma deitada na cama e a outra estava como eu, falou comigo, disse que morri. Mas o senhor me vê, não é? Fala comigo.
- Sim, vejo-a e falo com a senhora, somos iguais, observe bem. Contudo, não somos iguais à Pretinha ou à Tais e à Telma. Há diferença.
Mamãe ficou pensando por uns instantes, encolheu-se no seu canto.
- Você é morto?
- Meu corpo morreu há tempos, sou vivo, somos eternos. O espírito continua a viver sem o corpo físico.
- Eu também morri?
- Contudo, está falando, sofrendo e chorando. Está viva pelo espírito. Seu corpo morreu ao cair no poço e não se deu conta disso, pelo ódio que sentia.
- Oh! Como é ruim morrer!
- Ter o corpo morto não é ruim, ruim é ter sentimentos de ódio, rancor e vícios como companhia.
Mamãe chorou. Desta vez seu choro era diferente, era de alívio, tristeza, sem mágoas. Suas lágrimas foram j
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desligado pelo sono físico, embaixo da escada. Estava tranqüilo, parecia que passeava. Mamãe escondeu-se no vão da escada.
- É ele! Não quero que me veja. Tenho medo!
- Como quer se vingar dele se tem medo?
- Ele matou e pode matar de novo.
- Está morta, então?
- Não sei, é tão confuso. Primeiro sinto a presença de minha mãe, que morreu há tanto tempo. Depois, vi meu Raul, o meu filhinho querido que morreu. Aqui ninguém fala comigo, parece que nem me vêem. Agora mesmo, minha filha virou duas, uma deitada na cama e a outra estava como eu, falou comigo, disse que morri. Mas o senhor me vê, não é? Fala comigo.
- Sim, vejo-a e falo com a senhora, somos iguais, observe bem. Contudo, não somos iguais à Pretinha ou à Tais e à Telma. Há diferença.
Mamãe ficou pensando por uns instantes, encolheu-se no seu canto.
- Você é morto?
- Meu corpo morreu há tempos, sou vivo, somos eternos. O espírito continua a viver sem o corpo físico.
- Eu também morri?
- Contudo, está falando, sofrendo e chorando. Está viva pelo espírito. Seu corpo morreu ao cair no poço e não se deu conta disso, pelo ódio que sentia.
- Oh! Como é ruim morrer!
- Ter o corpo morto não é ruim, ruim é ter sentimentos de ódio, rancor e vícios como companhia.
Mamãe chorou. Desta vez seu choro era diferente, era de alívio, tristeza, sem mágoas. Suas lágrimas foram
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como um bálsamo e o professor esperou pacientemente que chorasse por uns bons minutos.
- Manuela, você não se recorda dos ensinos de Jesus? Ele nos disse que o que pedirmos com fé receberemos. Que quer você, filha?
- Já que morri e meu filhinho também, queria estar com ele.
- Raul perdoou e esqueceu todo o mal que o pai lhe fez. Se quiser estar com ele, deve fazer isso também.
- Perdoar, não sei. Manuel foi tão cruel conosco. Ajude-me, senhor. Morrer parece-me tão estranho, tenho medo, muito medo. Não quero ficar assim.
- Filha, o perdão é importante, está na prece dominical, no Pai-Nosso, oração ensinada pelo maior Mestre que esteve encarnado na Terra. Oremos, vamos juntos orar.
O professor orou com tanta convicção e fé que me emocionei e não pude novamente segurar as lágrimas; mamãe acompanhou-o na prece, encantada. Pela primeira vez depois de seu desencarne sentiu-se melhor, seu ferimento parou de sangrar. Quando terminou, disse, emocionada:
- Que linda é essa prece! Diga-me, senhor, se eu não castigar Manuel ele ficará impune? Acho que deve receber um castigo, não tanto por mim, mais pelo meu Raul.
- Dona Manuela, somos donos dos nossos atos. O bem que fazemos são tesouros que adquirimos, ninguém nos tira, como também o mal fica em nós e um dia teremos de dar conta dele ao Pai maior. Ninguém tem o direito de se vingar, de fazer justiça; vingança é ação má que não fica sem reação. O sofrimento virá para seu esposo, fazendo
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com que se arrependa, mas não cabe à senhora castigá-lo. Se não perdoa, pensando no Raul, está equivocada; Raul está bem, é feliz, porque perdoou e não quer mal algum ao pai.
Mamãe vacilava. Orei com fé, pedi a Deus forças para ela. Lembrei que pude ajudar o Louco e que podia ajudá-la. Olhei-a fixamente, estendi as mãos sobre ela e desejei que perdoasse, que quisesse ir conosco. Emocionado, vi mamãe ajoelhar-se, olhou para o céu, coberto naquele momento de estrelas, uniu as mãos, falou alto, compassado. Desta vez, com seqüência, com sentimento:
- Oh, Jesus! Oh, meu Pai Celeste! Se morri, quero ir para o lugar aonde vão os mortos. Quero estar com meu filhinho. Perdoa meus erros, eu perdôo ao meu marido, perdôo e quero ser perdoada. Pai Nosso que estais no céu...
Orou o Pai-Nosso soluçando baixinho; quando terminou, o professor estendeu as mãos sobre ela.
- Filha, sincero e justo é seu pedido, ajudá-la-ei. Fique calma, descanse, durma, levarei você até seu filhinho; quando acordar, estará com ele.
Mamãe, cansada, adormeceu tranqüila, ainda de joelhos, apoiada nele, meu mestre e amigo, e ele a pegou como se fosse um simples bebê.
- Vamos, Raul, apóie-se em mim e voltemos à colônia. Engasgado pela emoção, não consegui dizer nada,
beijei minha mãe na testa e partimos. Na colônia, o professor deixou mamãe no hospital, ficaria numa enfermaria para se recuperar.
- Raul - disse-me - portou-se corajosamente. Voltemos aos nossos afazeres, eu com minhas aulas, você com seus estudos. Manuela dormirá por algum tempo/
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se recuperando. Seus ferimentos sararam e, quando estiver para acordar, avisarão você e dona Margarida para estarem com ela. Agora vá para casa, vá descansar e contar à sua avó do êxito de nossa ajuda. Tenho de ir, até logo.
Saiu rápido, tentei agradecer-lhe, mas ele já ia longe; voltei para casa, vovó esperava-me, abracei-a feliz e contei-lhe tudo. Choramos agradecidos e emocionados.
- Como meu professor é sábio e bondoso! - exclamei. i
- Quero ser como ele.
- Espelhe-se no seu exemplo, meu neto. Se você estudar e se esforçar, poderá ser como ele. Alegro-me tanto por você desejar crescer e ser útil.
No dia seguinte, na classe, todos me olharam, curiosos, adivinhando por meu contentamento que tudo dera certo. Após a prece inicial, levantei a mão pedindo para falar. Com permissão, narrei todos os acontecimentos e terminei assim:
- Ao Pai Celeste já agradeci. Aqui na classe fiz um pedido e é perante vocês que quero agradecer. Agradecer ao mestre, que tudo fez com seu trabalho e faz mais, ensina-nos com seu exemplo. Sem sua ajuda, nada conseguiria fazer; graças a Deus, mamãe repousa aqui neste l instante e estou muito feliz. Quero agradecer a vocês, meus l colegas, por terem me ajudado com seus conselhos e terem " Vlbrado por nós. Professor Eugênio, muito obrigado e...
Engasguei emocionado e o professor finalizou: ~ Continuemos nossa aula e que os acontecimentos
4ue envolveram Raul nos sirvam de exemplo. Devemos P rdoar sempre, infinitamente, a todos e com o esquecimento de todo o mal.
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Algum tempo se passara, tudo voltara ao normal. Vovó com seu trabalho, eu, atento, cada vez mais interessado nos meus estudos. Fora ver mamãe por instantes; algumas vezes ela dormia, no começo um tanto agitada, depois foi se acalmando e, com o tratamento que recebia, seus ferimentos sumiram.
Fomos, vovó e eu, avisados de que mamãe estava para acordar. Fomos para seu lado. Com passes de um abnegado médico, mamãe acordou de mansinho. Abriu os olhos e se olhou, apalpou-se, depois olhou ao redor de si e nos viu.
- Raul, mamãe! - exclamou, emocionada. Unimo-nos os três em comovente abraço, choramos
felizes. Com muito carinho enxuguei as lágrimas do rosto de mamãe.
- Não choremos mais! - exclamei. - Alegremo-nos, estamos juntos agora.
- Onde estou, Raul, que lugar é este?
- Recuperando-se dos abalos sofridos, em um lugar de fraternidade - respondeu vovó. - Como se sente, minha filha?
- Sinto-me bem. Raulzinho, meu filho querido, como está lindo!
Vovó conduziu a conversa para assuntos agradáveis, lembranças felizes, logo estávamos sorrindo, desfrutando a alegria de estarmos juntos.
Deixamo-la novamente a dormir.
Desde que trouxemos mamãe, pensava muito no passado, na Lei de Causa e Efeito, Ação e Reação. Meditava em todos os acontecimentos de minha vida e então se dava um fato estranho, via-me como uma outra pessoa,
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com outro aspecto, diferente fisicamente; sabia porém que era eu. Eram imagens que surgiam em meus pensamentos do passado, em que planejava um crime com ódio e rancor, e executava-o. Naquele dia, na aula, comentei.
- Tenho tido visões estranhas, julgo serem do meu passado, sinto ser eu, porém com fisionomia diferente. Vejo-me a planejar um crime e assassinar. Penso que a ação que fiz resultou em reação nesta encarnação. E sinto que no meu passado estão também papai e mamãe. Talvez seja no passado que encontrare