segunda-feira, 24 de março de 2014 By: Fred

{clube-do-e-livro} Livros Espíritas em TXT - Zibia,Elisa Masselli, Sandra Carneiro, Maurício de Castro

NADA É PARA SEMPRE
MAURÍCIO DE CASTRO
(PELO ESPÍRITO HERMES)


Este livro é dedicado a duas pessoas especiais:
Leonardo Rásica - escritor e amigo do peito
Denner Evair - a quem considero mais que um filho, um verdadeiro presente divino. Que Deus possa iluminar suas vidas!


PREFÁCIO


Nada descreve a honra com que recebi o convite para fazer um breve prefácio a este novo livro de Maurício de Castro, NADA É PARA SEMPRE. Já o conheço de outros tempos e de outras obras e foi, portanto, com muito entusiasmo que soube que mais um livro seu seria publicado. Desta vez o promissor escritor, através do espírito Hermes, brinda-nos com um envolvente romance sobre um dos temas mais universais e intrigantes da História da Humanidade: o aspecto transitório e efêmero das condições e situações humanas, e sua correlação com o materialismo - quanto mais algo é puramente material, maior sua fragilidade frente aos reveses do tempo. A história de Clotilde - mais tarde Isabela - é um perfeito exemplo desta transitoriedade: da vida miserável de favela à prostituição de luxo, aos confortos de esposa de um bem-sucedido político; do amor materno e incondicional aos impulsos que a impelem aos atos mais hediondos, tudo parece mutável e passageiro na existência dessa personagem que um dia jurou vingança contra as humilhações e violências que sofreu no início de sua juventude, antes de se tornar Isabela. Para a jovem Isabela, desnorteada pela dor e pela miséria e seduzida pelas promessas de dinheiro fácil e abundante de uma suspeita "Madame", o valor de um ser humano na sociedade parece ser ditado unicamente pelo que a pessoa tem de material, e assim ela promete a si mesma se tornar rica e poderosa, sem pensar no quanto isso poderá lhe custar à alma. Espíritos vingativos, que a perseguem desde existências prévias, tornam ainda mais densa a trama. Os valores equivocados de Isabela, infelizmente, parecem ser a regra na sociedade de hoje em dia. O aspecto espiritual é negligenciado, e a religião da maioria se converte em uma perigosa ilusão: a ilusão do dinheiro, e de tudo o que ele pode comprar-mansões deslumbrantes, carros potentes, roupas de luxo, poder, privilégios e até mesmo a beleza, talentosamente confeccionada pelas mãos de cirurgiões regiamente pagos. Tudo ilusão, tudo transitório... A ascensão que o dinheiro parece proporcionar é falsa e enganosa, é uma ladeira quê temos a impressão de estar subindo, enquanto, na verdade, não saímos do lugar. É como aquela personagem de fábula, que corre atrás da lua, e em sua ingenuidade crê que se aproxima dela mais e mais, esgotando-se em uma obsessão louca e equivocada. Assim são todos os que guiam suas vidas pela ambição das "riquezas" mundanas, sem suspeitar que toda a fortuna, o poder e o prestígio alcançados por um homem podem desabar como um castelo de cartas ao menor sopro do destino. Algumas vezes, apenas uma mudança assim pode fazer com que essas pessoas percebam o essencial: que a única riqueza que existe é a da alma, e que a única ascensão possível é a espiritual. Somente então se percebe que os verdadeiros degraus para a legítima ascensão - o aperfeiçoamento espiritual - estão em conceitos como o amor incondicional, a abnegação, a responsabilidade pelos próprios atos, o respeito aos outros e a si, a humildade, a fraternidade... Conceitos que nada tem a ver com a dimensão material, especialmente em um mundo como o que vivemos hoje, em que tudo muda tão rapidamente e onde NADA É PARA SEMPRE. Estou certo de que o leitor, após ter o prazer de acompanhar cada reviravolta do interessante relato com o qual nos presenteiam Hermes e Maurício de Castro terminará este livro um pouco mais rico, mas em moedas que realmente contam: a sabedoria e a iluminação espiritual.

Boa leitura!

Leonardo Rásica, Escritor.


SUMÁRIO

PRÓLOGO
1 - A VISITA
2 - UMA PROPOSTA DAS TREVAS
3 - ENTRE O BEM E O MAL
4 - A PRIMEIRA VÍTIMA
5 - UMA VIDA DESTRUÍDA
6 - UMA INIMIGA
7 - ORIENTAÇÕES
8 - ADQUIRINDO COMPROMISSOS
9 - A DESCOBERTA DE FLAVIANA
10 - PLANO SÓRDIDO
11 - À HORA DA VINGANÇA
12 - DE VOLTA A ANTIGOS HÁBITOS
13 - NA MANSÃO DE HIGIENÓPOLIS
14 - A MORTE SE APROXIMA
15 - ENCONTRANDO A ESPIRITUALIDADE
16 - DE VOLTA AO MUNDO MAIOR
17 - INTRIGA
18 - A NOVA REALIDADE
19 - CONHECENDO A VERDADE
20 - O BEM É MAIS FORTE
21 - DE VOLTA PARA CASA
22 - RENÚNCIA
EPÍLOGO

PRÓLOGO


Numa tarde chuvosa e fria, uma mulher jovem de miserável aspecto, com o filho pequeno nos braços e uma sacola de sujo tecido nas mãos, tenta esconder-se da intempérie da chuva por entre as casas em construção daquela rua. Finalmente encontra um teto e deita-se ali com o filhinho de bruços sobre sua barriga. No íntimo sente-se aliviada, pois nesse exato momento a chuva aumenta com toda a sua força. A criança de meses, sem ter sequer um ano completo, alheia a tudo que se passa, olha para a mãe e sorri. Em sua inocência não avalia a dor pela qual ela passa vendo o filho naquela indigência. Fazia muito tempo que Clotilde passava o dia a esmolar pelas ruas. O barraco em que vivia era paupérrimo. Possuía poucos parentes que, em situação igual à dela, não poderiam ajudá-la. Difícil mesmo tinha ficado depois da gravidez, indesejada, por sinal. Na favela onde morava era praticamente um "cão sem dono", e assim ficou fácil ser estuprada por Juvêncio. Homem forte e asqueroso, integrante de um grupo de marginais, rapidamente pousou sobre ela os olhos e só se aquietou quando a tomou à força e a violentou sexualmente. Ao descobrir-se grávida, Clotilde pensou que estava em pesadelo; procurou o brutamonte, que questionou a paternidade da criança e ainda a espancou. Pensando em aborto, cogitou concretizá-lo. Acertou tudo com uma amiga. Esta ia levá-la a uma mulher que fazia uma beberagem fatal, quando uma noite mudou todo o seu plano. Ainda sentia as fortes emoções daquele sonho. Lembrou-se de quando adormeceu e sonhou que estava num campo verde e vasto, quase infinito. Sentiu medo por estar em um local deserto, apesar da beleza. Porém, de repente, uma doce figura de mulher apareceu num clarão:
- Clotilde, que Deus a abençoe e proteja! Assim como lhe disse da última vez, cumpro minha promessa. Estou aqui pronta para ouvi-la.
Ela não reconheceu de imediato, mas a cabo de poucos segundos deu um grito:
- Diana! Minha amiga querida! Como tudo isso foi acontecer comigo? - Desabou no chão chorando convulsivamente. - Não mereço! Sempre fui tão boa!
Diana, espírito lúcido e já bastante evoluído, esclareceu:
- Sempre merecemos tudo por que passamos. Na lei divina tudo está certo sempre. Já se esqueceu do que estudou conosco?
Ela pareceu se revoltar:
- Aqui volto a me lembrar, porém lá esqueço. Ademais, acho o fardo muito pesado, não vou resistir, vou sucumbir mais uma vez!
Diana sorriu:
- Sente-se um pouco nesta grama. Não vim aqui para vê-la chorar dessa maneira. Ninguém está sozinho ou desamparado pelo Pai. Ele jamais nos dá provas maiores do que possamos suportar e vencer. Estou aqui para ajudá-la e comigo há um grupo de amigos que a assistirão na crosta.
- Então é mesmo a hora de Thierry voltar? Não seria mais tarde? Afinal, ainda não estou preparada, e o ato do estupro foi traumatizante.
O ser angelical elucidou:
- Sim, Thierry vai voltar, assim como prometeu, para estar a seu lado, equilibrando-a nas horas mais difíceis do seu reajuste. Mas não é só, ele também muito errou contigo naquela experiência na França. Tanto é que não lograram viver num plano de regeneração e tiveram de vestir novamente a carne da Terra, esse mundo de desafios, para assim continuarem o aprendizado.
- Sei disso, mas é difícil me conformar. Por que fui errar daquela maneira?
- Só se erra por ignorância. Se você soubesse o que iria lhe acontecer naquele momento, jamais agiria da mesma forma, por isso não se condene. Retorne a Terra e abrace a responsabilidade que assumiu consigo mesma. Infelizmente teve de ser por meio de um estupro, mas Thierry estaria com você de uma maneira ou de outra. Volte e fique com Deus!
A mulher deu-lhe um abraço terno e desapareceu envolta no mesmo clarão que a fez surgir. Clotilde acordou chorando, um pranto dolorido e aliviado ao mesmo tempo. Despertando de seu devaneio, ali naquela casa em construção, olhando a chuva impertinente, ela percebeu o quanto fora feliz em sua escolha e como aquele sonho a havia ajudado. Se não fosse por ele, talvez Daniel não estivesse ali naquele momento, enchendo sua vida de encanto e alegria. Aquela frase: "Abrace a responsabilidade que assumiu consigo mesma" ficou em sua mente, e foi ela quem a fez no dia seguinte desistir do aborto. A chuva parou e ela percebeu que já era tarde e não poderia mais esmolar naquele dia. O pouco que conseguira dava para ela, mas e Daniel? O que iria comer naquela noite? Seguiu em direção à favela com essa preocupação em mente e, ao subir o morro, uma mulher esbaforida veio ao seu encontro:
- Corre, Clotilde. Começou um incêndio na favela e seu barraco está em chamas. Acho que não sobrou nada!
- Meu Deus, que horas começou isso?
- Não sei direito, mas o fogo consumiu tudo muito rápido!
Clotilde tentou se apressar, porém, ao chegar perto, percebeu que de sua casa nada sobrara. Entregou Daniel nos braços de Shirley e começou a chorar copiosamente. Seu barraco era sua dignidade. Mesmo feio e feito de madeira, era a maneira de dizer a si mesma que tinha algo de seu. Naquela noite, Clotilde foi pedir abrigo na casa da mãe. Lá alimentara Daniel com um mingau sem nenhuma substância nutritiva, e o resto da noite não conseguiu dormir de tanto chorar.

1 - A VISITA

O dia amanheceu nublado e as nuvens encobriam os raios solares. Clotilde acordou cedo, providenciou a parca alimentação para o filho e sentou-se em frente do barraco de sua mãe, recomeçando a chorar. Tinha pouco mais de vinte anos e já sofria amargamente sem nunca ter feito mal a ninguém. Sua infância triste, em meio aos tiroteios e às guerras contra o tráfico de drogas na favela, a tinha transformado numa adolescente melancólica e sem expectativas. Desde pequena saía às ruas para pedir esmola com a mãe e sentia no rosto das pessoas todo o desprezo por gente como ela: pobre e com pouco estudo. Se muitos davam de bom grado um pedaço de pão, um punhado de açúcar ou farinha, outros batiam a porta ou viravam o rosto em desagrado. Como a vida era difícil! Estava assim concatenando as idéias quando sua mãe, Lourdes, uma senhora idosa, gorda, de cabelos desgrenhados, saiu à porta e se dirigiu a ela. Sentadas sobre um tronco de árvore sem vida, elas começaram a dialogar:
- E, filha, a vida é ruim e cheia de problemas para todos nos. Quando você quis morar sozinha, não me intrometi, mas avisei dos perigos que ia passar, vivendo só com o Daniel. Seu corpo é belo de formas, e os brutamontes daqui são violentos. Todos os dias eu rezo para que não lhe aconteça de novo o que houve com o Juvêncio.
- Nem fale mãe. Nem eu, nem a senhora merecemos a vida que levamos. Depois de ter o Daniel foi que pude perceber o quanto preciso dar a ele uma vida melhor. Não quero viver neste morro para sempre.
- Não sonhe minha filha. Sabe que isso é impossível. Quem nasce pobre, morre pobre. Siga os conselhos desta mãe velha que lhe fala. Tudo que queremos, não conseguimos. Veja o que aconteceu com seu pai. Morreu de doença ruim na boca, aquela ferida que não cicatrizava e aumentava a cada dia. Ninguém veio nos ajudar, nem mesmo Deus se valeu por nós. Às vezes duvido da sua existência!
Nesse momento, um grupo de pessoas com sacolas nas mãos subia vagarosamente o morro. Eram três mulheres de meia-idade. Atrás delas, um carrinho de mão vinha empurrado por mais dois moços. Aproximaram-se das duas, e uma mulher questionou:
- Foi nesta área da favela que houve um incêndio ontem? Vimos pela televisão, mas não temos certeza da rua. As senhoras podem nos informar?
Clotilde levantou-se:
- O incêndio foi na fileira de casas onde eu morava. Do meu barraco não sobrou nada. Mais de vinte casas foram destruídas pelo fogo. Se quiser, posso lhes mostrar.
- Aceitamos, sim. Fazemos parte da assistência social do Centro Espírita Maria de Nazaré e ontem, quando vimos o incêndio, nos reunimos, juntamos alguns mantimentos e viemos para ajudar. Se as pessoas aceitarem, podemos nos reunir e ler o Evangelho. O que você acha?
Lágrimas escorriam no rosto de Clotilde:
- Acho que todos vão aceitar. Somos muitos carentes e não estamos em condições de rejeitar nada. Nossos poucos mantimentos se consumiram junto com o fogo; foi terrível!
- Eu me chamo Neide, e elas são Jane e Claudia. Os rapazes são Mário e Lucas. Agora, vamos para a rua?
Lourdes, meio desconfiada, seguiu com eles para ver o que iria acontecer. Ao chegar ao local, todos perceberam que a situação era desoladora. Se Clotilde teve a casa da mãe para se abrigar, muitos outros vizinhos com filhos pequenos não tiveram abrigo e foram forçados a dormir ali mesmo, pelo chão. Felizmente ninguém morrera. Clotilde anunciou os visitantes:
- Esse é o pessoal do centro espírita que veio nos ajudar. Viram ontem pela tevê o incêndio e se apiedaram de nós. Quem aceitar a ajuda deve se aproximar.
Imediatamente todos vieram, uns chorando, outros agradecendo. Lucas perguntou se eles podiam ler um trecho do Evangelho segundo o Espiritismo e comentá-lo. Todos aceitaram. Abrindo ao acaso, viu-se a seguinte mensagem: "O que é preciso entender por pobres de espírito". Após lê-la integralmente, Jane começou o comentário:
- Jesus nos disse que todos os pobres de espírito herdariam o reino dos céus. Vejam bem, ele disse os pobres de espírito, e não os pobres de dinheiro, o que é bem diferente.
Pobre de espírito é todo aquele que tem o coração pobre de orgulho, de vaidade e de egoísmo. Ao contrário do que se pensa pobre de espírito não é aquela pessoa sem cultura, sem dinheiro ou conhecimento, é, sim, todo aquele que procura se empobrecer das ilusões do mundo e se enriquecer dos ensinamentos de Deus. E continuou:
- Amigos, não pensem que Deus se alegra em vê-los nessa situação infeliz. Ele é sumamente bom e justo; dá a cada um de nós segundo nossas obras. Existem outras formas de aprendizagem para todos aqueles que vivem a pobreza física. Mas, para mudar o estado de coisas, é necessária a reformulação interior. Vocês devem tomar conhecimento de que podem e merecem a felicidade e a fartura, de que podem e merecem evoluir sem o sofrimento. Ao tomarem essa consciência, suas vidas se modificarão. Jesus disse: "Todo aquele que crê em mim, terá vida, e vida em abundância".
Uma mulher com o rosto marcado pelo sofrimento perguntou:
- Como podemos mudar esse estado de coisas, se não temos ajuda? O governo não cumpre seu papel, não temos ninguém que se preocupe conosco. Não concordo com o que a senhora diz. Acho que Deus está omisso e não consegue dar conta de nós.
Jane sorriu:
- Garanto que está equivocada. Nosso progresso não depende do governo ou de quem quer que seja; só depende de nós mesmos. A prosperidade é uma questão pessoal, e não uma questão social. Por isso não fazemos esse trabalho por assistencialismo. Vamos em busca de quem realmente precisa e quer se ajudar. Enquanto esperamos que os outros cuidem de nós com nosso egoísmo, esquecemos que estamos na Terra para aprender a enfrentar a vida com coragem e buscar a melhoria. Todos, se quiserem, poderão fazer isso. Não foi Jesus mesmo que disse que "A fé remove montanhas"?
Ouve um silêncio geral. Jane prosseguiu:
- Não queremos confundir vocês, pois cada um aqui tem sua crença e sua fé, e não podemos impor nada a ninguém; apenas queremos a felicidade de todos e acreditamos em Jesus e nos ensinamentos da espiritualidade. Se algo dito aqui os tocou, aproveitem. Que Deus fique com todos.
Logo depois os farnéis foram distribuídos para as vítimas do incêndio. Todos agradeceram à ajuda e o grupo avisou que voltaria mais tarde com roupas e outros utensílios. Vendo aquela expressão de carinho, Clotilde não conseguiu se conter:
- Como ainda existem pessoas boas no mundo, não é, mãe?
- É verdade, mas são poucos. A maioria das pessoas são ruins e maldosas. Neste mundo onde vivemos só podemos esperar mesmo pelas coisas ruins.
- Credo, mãe. Às vezes acho que as coisas más que nos acontecem vêm da senhora, sempre a agourar!
- Não agouro nada, menina, apenas digo a verdade.
Clotilde não discutiu e seguiu com a mãe para o barraco. Colocou os mantimentos em cima da mesa e, de repente, uma onda de rancor a invadiu:
- Que miséria ter de depender da caridade alheia. Só aceito por causa de meu filho. Se não fosse por ele, não queria nada disso aqui.
Dona Lourdes se indignou:
- Você deve é agradecer a Deus essa gente ter vindo aqui hoje. Esquece que depois que seu pai morreu o dinheiro das minhas lavagens de roupa não dá para nada? Seus irmãos pouco ajudam. Reze por esse povo que, mesmo fazendo parte de uma seita perigosa, veio aqui nos ajudar.
Clotilde calou-se e foi preparar o mingau. Um dia ela sairia dali e todos iam ver quem ela era de verdade.
Após dar comida a Daniel, ela saiu a esmolar novamente. Passou o dia, mas recolheu pouca coisa. À noite, dividindo a cama tosca e malcheirosa com a mãe, ela adormeceu pensando em como deveria fazer para mudar de vida.

2 - UMA PROPOSTA DAS TREVAS

Novamente, após raiar o dia, Clotilde saiu pelas ruas de São Paulo caminhando lentamente com o filho a tiracolo. Passou por algumas casas, pediu esmola e foi seguindo. No final de uma bonita rua, nos Jardins, ela divisou uma senhora bem vestida sentada em um jardim muito verde e bem cuidado. Lia um livro, que parecia ser a Bíblia, com muita atenção.
- Senhora, tem uma esmola para me dar, pelo amor de Deus?
A mulher olhou de soslaio para Clotilde e, de longe mesmo, respondeu:
- Passe aqui na sexta-feira. Hoje não é dia de esmola! - Dizendo isso, concertou os óculos e voltou a ler.
Pelo espírito de Clotilde passou uma onda de raiva, e ela gritou:
- Será que a senhora é tão ruim a ponto de me negar uma mísera esmola? Então para que ler esse livro e ser religiosa, se a senhora não é capaz de um ato de caridade?
A mulher se levantou enraivecida e revidou:
- E essa agora! Uma pedinte ousando me desafiar. Saiba que de pobres miseráveis já estou farta. Saia de minha calçada antes que eu mande meu segurança colocá-la para fora. Não confio em pessoas como você.
- Quem a senhora é para falar assim? Só porque é rica, pensa que é a dona do mundo? Eu a amaldiçôo. Que a senhora termine os seus dias na pior das situações e que, quando morrer vá para o inferno!
As palavras de Clotilde, ditas com tanta energia negativa, fizeram vibrar de ódio o espírito daquela mulher. Com ódio, ela gritou:
- Ronaldo, Ronaldo, venha aqui agora!
De repente, um homem forte e de roupas escuras apareceu.
- Esta miserável ousou desafiar Augusta de Camargo e vai ter o que merece. Dê uma surra nela.
Clotilde tentou correr, mas o peso do filho e os passos rápidos do homem a fizeram ceder. Ele lhe puxou o filho, colocou-o no chão e a espancou. Depois se retirou e entrou pelos portões da suntuosa mansão. Jogada no chão, Clotilde não sabia qual era a dor maior: se a moral ou a física. O certo é que naquele momento um ódio surdo por tudo e por todos brotou de seu coração e ela chorou mais de raiva do que de tristeza. Pegando Daniel na calçada, saiu se arrastando pela rua. Olhou a casa da senhora, que já estava longe e jurou em voz alta:
- Um dia voltarei para me vingar! Maldita seja essa mulher.
A partir de hoje ninguém mais vai me maltratar. Eu é que maltratarei, pisarei, prejudicarei e farei mal a todos os que encontrar pela frente.
Olhou para Daniel, que sorria e disse:
- Filhinho, você ainda será muito rico, e vou ensiná-lo a pisar, magoar e ferir as pessoas. Juro que ninguém nunca vai humilhar você.
Nesse instante, sombras escuras se aproximaram de Clotilde. Uma delas, que parecia a chefe do grupo, disse:
- Nosso trabalho foi perfeito! Essa já está ganha. Bastou um pouco de humilhação para ela ceder aos nossos impulsos e ainda vamos mais longe. Muita atenção: a segunda parte do plano e a mais importante está por vir. Vamos lá.
Dizendo isso, o grupo de espíritos das trevas desapareceu chão adentro.
Clotilde andou sem rumo durante horas e Daniel começou a chorar. Percebeu que o filho estava com fome e providenciou a alimentação. Felizmente um senhor lhe cedeu um pouco de leite. Ao alimentar o filho, ela percebeu que agora era seu estômago que clamava por alimento. Sem ter o que comer, enfraquecida e humilhada, começou a chorar sentada no meio-fio. Após algum tempo, notou que uma mulher excessivamente arrumada e com roupas de cores berrantes a fitava como que a vasculhar seus mais íntimos pensamentos.
- O que a senhora quer? - perguntou Clotilde com raiva.
A mulher de seus sessenta anos, percebendo a fúria em sua interlocutora, aquiesceu:
- Estava admirando você. Uma moça tão bonita, de formas tão exuberantes, jogada em um chão como indigente. Você não merece nem pode ficar assim.
Ao ouvir aquelas palavras Clotilde ficou feliz; pelo menos alguém a valorizava.
- É isso o que sou: uma indigente, sem dinheiro, sem casa para morar com meu filho e sem comida. Como quer que eu esteja?
A mulher com muito traquejo sentou-se com ela e falou:
- Eu me chamo Aurélia, ou melhor, madame Aurélia, e quero ajudá-la. Se aceitar minha proposta poderá morar comigo, e ainda levar esse bebê!
- Como? Não entendi. Morar com a senhora? Mas com que intenção me faz essa proposta? Não sou o que a senhora está pensando; não me interesso por mulheres.
Madame Aurélia sorriu:
- Não é nada disso, sua bobinha. Vou lhe revelar a verdade: tenho um bordel num bairro afastado daqui, mas que é freqüentado por homens da estirpe paulistana. Convivem comigo muitas moças que, assim como você, estavam em situação difícil e lá encontraram apoio. Hoje recebem muito dinheiro pelo que fazem. Ao observar seu corpo esbelto e seu rosto bonito, pensei logo: essa é a menina que faltava para completar minha coleção de moças e suprir a falta da Julieta, que se casou.
Clotilde estava admirada com tudo o que ouvia e não conteve a pergunta:
- Uma prostituta se casou?
Após uma gargalhada, madame Aurélia respondeu:
- Isso mesmo. É raro, mas acontece. E com você pode até acontecer o mesmo. Se aceitar, levo-a a um ótimo salão de beleza onde vai ficar mais bela e depois a ensino tudo sobre a profissão. Porém, tenho de lhe explicar um detalhe: você tem de me dar garantias de que é maior de idade, e terá de dividir seus lucros comigo. No bordel entra muito dinheiro e é justo que eu fique com cinqüenta por cento de tudo que você faturar. Garanto que é muito dinheiro e que você não vai se arrepender.
Enquanto Clotilde pensava, os espíritos das trevas começaram a envolvê-la:
- Não vê que madame Aurélia é a única capaz de lhe tirar desse sufoco? Ninguém até hoje a ajudou. Ao contrário, todos a humilharam. Depois, como prostituta você pode chegar a ser rica! Vamos logo, aceite!
Cedendo à proposta, ela respondeu:
- A senhora tem razão. Vou seguir seus conselhos. Ainda hoje levei uma surra, fui humilhada e jurei que nunca mais ninguém ia me fazer Sofrer. Quero, sim, ser rica, e vou conseguir isso usando o sexo e os homens. Chega dessa vida ruim que só me faz sofrer.
As duas se levantaram e seguiram trocando idéias. Quem tivesse vidência poderia enxergar um grupo de espíritos deformados abraçando as duas e lhes inspirando idéias.
Num canto da rua, Diana e mais dois companheiros estavam atentos:
- Nunca pensei que ela fosse ceder tão fácil à influência das trevas.
- Infelizmente ela cedeu, e não pudemos interferir. Mais uma vez o livre-arbítrio nos impede a ação. As criaturas são livres para agir tanto como são para pensar.
Diana concordou:
- Infelizmente, o apelo para a comercialização do sexo está muito difundido na Terra. Os espíritos das trevas têm conseguido muitos seguidores no mundo, e Clotilde vai errar mais uma vez. Vivendo em um bordel, ela estará se comprometendo ainda mais com as leis divinas e terá um penoso reajuste.
Um companheiro questionou:
- E madame Aurélia, vai continuar por séculos corrompendo consciências?
- Assim será, até que a dor venha visitá-la. Toda pessoa que desrespeita o sexo, levando-o à comercialização, sofrerá as conseqüências danosas desse ato. Infelizmente, na Terra isso vem acontecendo desde o princípio, sem que os homens aprendam à lição. Agora vamos, companheiros. Temos muito que fazer pela nossa irmã Clotilde, afinal, como disse Jesus: "Não são os sãos que precisam de médicos, e sim os doentes".
Dizendo isso, seus vultos radiosos desapareceram na direção do bordel onde Clotilde passaria a viver.

3 - ENTRE O BEM E O MAL

Madame Aurélia e Clotilde seguiram andando até um ponto de ônibus e alguns minutos depois desceram em Higienópolis. Seguiram por uma rua residencial e, ao final dela, entraram numa mansão do início do século XX. Madame Aurélia esclareceu:
- Ganhei essa casa de um político influente assim que comecei "na vida". Até hoje moro aqui e mantenho o estilo, apenas fazendo algumas reformas.
Clotilde estava maravilhada com a beleza da casa e do jardim. Seguiram por ele e entraram por uma pesada porta de madeira. Ao penetrarem em um grande recinto, houve uma agitação geral. As outras moças vieram para perto, umas admirando a beleza de Clotilde, outras questionando sobre ela e o bebê à cafetina.
- Parem de amolação. Se querem saber, minha intuição estava certa. Hoje pela manhã encontrei a substituta de Julieta; foi fácil e rápido.
Maria José, trabalhadora antiga da casa, inquiriu:
- Como à senhora a descobriu? Pensei que tivesse saído às compras, como sempre faz pela manhã. A senhora, quando quer buscar uma moça nova, sempre procura à noite no sinal.
A cafetina pareceu meditar, sentou num sofá e respondeu:
- Não sei o que me deu hoje pela manhã. Ao acordar tinha a certeza de que se saísse encontraria alguém para o serviço. Não costumo acreditar nisso, mas parece que tinha alguém do meu lado dizendo que eu deveria sair e que encontraria a pessoa que queria. Andei por horas sem rumo até que achei a Clotilde chorando, sem casa e sem comida. A sorte me mandou para o lugar certo.
Clotilde estava envergonhada. Desde já se sentia uma mercadoria; a maneira como aquela mulher falava dava a entender que ela não passava disso.
- Sente-se aí, menina. Estas são suas colegas, e aquele ali é Floriano, nosso mordomo. Fique à vontade. Vou subir e preparar seu quarto.
As outras moças, com roupas sumárias e coloridas, aproximaram-se e começaram a fazer perguntas, às quais Clotilde respondia meio desnorteada. Ela estava muito admirada com o luxo daquele local; nunca entrara num lugar assim. Começou a observar toda a decoração, as cortinas de um veludo cor de vinho, os móveis que pareciam ser do início do século passado, o bar muito luxuoso e decorado com quadros de artistas famosos. Os tapetes vermelhos e as estátuas de pessoas nuas e fazendo sexo completavam o visual do ambiente. As moças foram saindo e ela chamou:
- Ei, você, por favor, não me deixe só. Estou tão desorientada!
Morgana se apiedou:
- Você é tão nova... Por que não escolhe outro tipo de vida?
- É que não tenho outra saída. Sou pobre, moro numa favela com minha mãe num barraco miserável, cansei de pedir esmola pela rua e ser humilhada. O encontro com madame Aurélia mudou minha vida. A partir de hoje quero ser outra pessoa.
A colega se admirou:
- Nossa você está decidida mesmo! Mas não se engane; a vida aqui não é fácil. Ao ver nossas colegas gargalhando e bebendo, achamos que tudo é muito bom, contudo a prostituição tem seu lado cruel.
- Estou disposta a enfrentar todas as conseqüências. Fico cada vez mais admirada... Pensei que esse tipo de bordel não existisse mais.
- Mas existe - explicou Morgana, que parecia estar na casa dos trinta anos. - Nem todas as prostitutas gostam e podem viver fazendo programas no sinal. Muitas são mortas pelos clientes ou envolvidas no tráfico de drogas. Outras não conseguem se manter e preferem um lugar assim como o nosso.
Clotilde continuava curiosa:
- Vocês não têm problemas com a polícia?
- Madame Aurélia só admite que trabalhem com ela mulheres maiores de idade, e a Mansão de Higienópolis, como aqui é chamada, é protegida por políticos influentes do governo, que inclusive são freqüentadores assíduos dos nossos serviços. Esta casa tem proteção de muita gente grande.
Clotilde se sentiu segura e feliz. Ali realizaria seu sonho.
- Então não vejo por que essa vida tem o lado ruim - comentou ela.
Morgana sorriu.
- É que você está chegando agora. Não sabe o que terá de enfrentar. Se o dinheiro é alto, os ossos do ofício são, por vezes, repugnantes. Madame Aurélia exige que façamos sexo com qualquer cliente, sem distinção, muitas vezes até mesmo com drogados, bêbados ou homens violentos. Eles nos usam como querem; terá de ser forte e se acostumar.
Olhando para o bebê ao seu lado no sofá, Clotilde pensou: "Vou ser forte e suportar; para conseguir meu objetivo, farei de tudo". Madame Aurélia desceu as escadarias e chamou por Clotilde. Seguiram por um longo corredor, que tinha muitas portas. Na última, à esquerda, pararam. Ao entrarem no quarto, Clotilde ficou deslumbrada. Uma cama de casal coberta com luxuoso lençol vermelho, abajur, banheiro e janelas com cortinas seria o seu recanto.
- É aqui que você passará a viver a partir de agora - explicou a velha senhora. - Não costumo deixar que mulheres com crianças vivam aqui, mas você é uma exceção. Sua beleza e seu corpo são raros de ser encontrados. Olhe sua barriga, nem parece que teve criança! Você será um sucesso aqui na casa. Mas vou logo avisando: não tolero arrependimentos, brigas entre colegas ou rejeição a clientes. Qualquer coisa que fizer de errado aqui, voltará para o olho da rua. Sou muito boa, mas perco a paciência com ataques de consciência, choro e lamentações. Se quiser viver neste lugar, terá de seguir as normas da casa.
Clotilde ouvia tudo um pouco assustada. A mulher, com olhos penetrantes prosseguiu:
- A partir de hoje também não terá vida própria. Sua vida pertence a esta casa. Primeiro vamos começar mudando o seu nome. Clotilde é um nome arcaico e feio. Não combina com mulheres que devem dar prazer e alegria aos homens. De agora em diante se chamará Isabela. Vá almoçar, pois à tarde sairemos às compras e ao cabeleireiro. Mudaremos esse corte horrível e o pintaremos, de maneira a chamar a atenção. Seja rápida, tome um banho. Estou esperando por você lá embaixo.
Com a voz sumida pelo medo, Clotilde indagou:
- E meu filho, onde ficará nas horas de meu trabalho?
- Paciência, tudo se resolve no tempo ideal.
Dizendo isso, saiu fechando a porta atrás de si. Clotilde caiu em um pranto convulsivo por mais de meia hora. Depois, ainda influenciada por espíritos inferiores, concluiu que só havia para ela aquele caminho, e que agora não era hora para arrependimentos. Algum tempo depois, desceu, almoçou, alimentou o filho e ao sair, deixou Daniel com uma de suas colegas. Pelo centro de São Paulo elas fizeram compras e foram ao salão de beleza. Mais tarde, quando chegou, Clotilde parecia outra pessoa. As amigas a felicitaram pela nova aparência, que deixou algumas com inveja, tamanha era sua beleza.
- Como faço se meus parentes me procurarem?
A severa mulher foi taxativa:
- Esqueci de lhe dizer que, enquanto viver na Mansão de Higienópolis, não terá mais família. Está proibida de procurá-los e se for encontrada, deverá livrar-se deles o mais rápido possível. Em seu caso acho difícil encontrarem você, pois, vivendo naquela miséria, dificilmente chegarão até aqui.
A noite chegou e, já no quarto, madame Aurélia lhe explicou:
- Hoje você ficará aqui quieta, sem aparecer. Daqui a pouco o grande salão será aberto e você ouvirá muita música, gargalhadas e gritos. Não se assuste; são suas colegas no trabalho. Sua estréia será amanhã. Faremos uma festa especial para você. Haverá um leilão: quem pagar mais vai estrear a nova trabalhadora da casa.
Clotilde ainda estava chocada com tudo aquilo, no entanto tinha de prosseguir. Do ponto onde estava jamais olharia para trás. Aquela vida pobre e miserável que levava morrera naquele dia. Não queria mais saber da mãe, aquela velha agourenta, nem de seus irmãos, pobres e sem emprego. Mesmo com toda a algazarra formada no salão, Clotilde conseguiu dormir. Em poucos minutos estava fora do corpo. Viu três homens com roupas escuras, cabelos desgrenhados e semblantes perversos se aproximar:
- Parabéns, está fazendo tudo certo. Continue assim; você conseguirá tudo o que deseja.
- Quem são vocês? - perguntou assustada.
- Somos seus amigos. Estamos lhe inspirando as idéias e as ações. Não tem se sentido forte ultimamente para decidir as coisas? Pois é, somos nós.
O espírito Diana também apareceu. Reduzindo a sua vibração, ela pôde ser vista por todos eles. Clotilde correu e abraçou-a:
- Minha amiga, você continua ainda do meu lado? Mesmo com a vida que estou querendo levar? Veja aqueles ali são meus amigos.
Diana, com semblante sereno, olhou-a séria enquanto falou:
- Clotilde, pense muito no que vai fazer para não se comprometer ainda mais. Essa vida que pretende iniciar só vai levá-la ao caminho do sofrimento. Esqueceu o que já fez no passado, você e Davi? Ainda dá tempo. Nós a aconselhamos a romper esse laço com essas pessoas e voltar para a casa de sua mãe. Lá a intuiremos e você conseguirá melhorar de vida honestamente.
- Não posso; infelizmente não posso. Quero ser rica, famosa, para poder humilhar e ferir aquela mulher horrível que me ofendeu e a todos que encontrar no caminho. Só conseguirei isso aqui, com essas pessoas. Não vê que na favela nada conseguirei, a não ser pedir esmola?
Diana não se deu por vencida:
- Você pensa assim, pois está dando vazão às ilusões do mundo. Dinheiro e fama só são bons quando os conseguimos pelos caminhos do bem. Quem procura a riqueza e o status por meios negativos e reprováveis, por meio do roubo ou da vida fácil na prostituição, apesar de o conseguirem, nunca serão felizes. As leis de Deus cobrarão, centavo por centavo, tudo que foi conseguido de forma desonesta. E, em seu caso, haverá a agravante da prostituição. Toda pessoa que se utiliza desse meio para subir na vida terá um retorno doloroso no futuro. Poderá nascer pobre mais uma vez e ter os órgãos genésicos deformados, além de ter como companhias os obsessores que a induziram por esse caminho. Pense bem antes de decidir.
Os espíritos, que ouviam tudo e estavam sentindo que podiam perder a chance de influenciar Clotilde, tomaram a frente:
- Não pense assim, amiga. Não vê que essa aí só quer o seu mal? Em poucos anos nesta casa você vai conseguir tudo o que quer; até um marido estamos providenciando para você. Analise bem... Estando do nosso lado, nunca estará desamparada e ainda vai conseguir se vingar de todos que a molestaram, até mesmo daquela mulher.
Clotilde ficou em dúvida:
- Mas... E se me acontecer tudo aquilo que Diana falou? Ela é minha amiga, estudei muito com ela. Eu já sabia que a tentação da vida fácil ia aparecer na minha jornada. Julgava estar forte para resistir, mas parece que vou sucumbir. Posso ser punida severamente por Deus.
O espírito gargalhou:
- Você acredita mesmo nisso? Esse papo não resolve nada! Vemos pessoas do bem a todo instante sofrer maldades e receber desgraças, enquanto nós, os chamados ruins, prevalecemos vitoriosos e com sorte. Qual caminho vai escolher?
Diana fez sua última tentativa:
- Não é bem assim como ele disse. Quem é realmente bom sempre recebe o bem porque a lei é justa. As pessoas que chamamos "boazinhas" e que sofrem estão passando por provações por não estarem dando o melhor que podem dentro do nível de evolução delas. Alardeiam o bem e o fazem realmente ao semelhante, mas deixam de fazê-lo a si próprias. Não desenvolvem a consciência, não procuram ter fé nem cultivam bons pensa mentos; só pensam em amar os outros sem amar a si mesmas. A felicidade só acontece quando abrimos à consciência e usamos nosso potencial a nosso favor. Jesus nos disse: "Amai o próximo como a ti mesmo". Infelizmente, muitas pessoas se esquecem do "ti mesmo".
A amiga espiritual de Clotilde tomou novo fôlego, e completou:
- Quanto aos maldosos que estão vivendo bem, é bom que eles se prepararem, pois a vitória do mal é apenas momentânea. Deus realmente não pune ninguém, todavia chegará à hora do acerto de contas com a própria consciência, e é possível que sofram bastante até se voltarem novamente ao bem, reparando todos os delitos cometidos ou, o que é pior: expiando. Não se trata de castigo divino, e sim do retorno natural de suas ações.
Clotilde pensou um pouco e decidiu:
- Não adianta tentar me iludir. Cansei das ilusões de que o bem sempre vence e de que Deus a tudo prove. Vou cuidar de minha vida e não quero mais saber de suas interferências. Sou grata por tudo que me fez, mas, se for para ficar me cobrando agora, prefiro não vê-la mais.
Ao ouvir aquela frase, Diana desistiu e desapareceu, indo em busca de seus companheiros.
- É amigos - comentou Diana, ao encontrá-los -, mais uma vez Clotilde preferiu entrar pela porta larga que conduz à perdição. Entretanto, estaremos atentos. Qualquer sinal de mudança voltaremos para ajudá-la.
Deixaram aquele lugar onde espíritos inferiores aproveitavam as paixões que escravizam os homens e foram se recolher à colônia Campo da Redenção, onde trabalhavam e viviam.

4 - A PRIMEIRA VÍTIMA

Fazia um ano que Isabela se encontrava na Mansão de Higienópolis. Desde o dia de sua estréia no bordel, tivera de suportar todo tipo de humilhação e impropérios. Ela procurava agüentar tudo calada, deixando os homens livres para fazer com ela o que quisessem como tinha ensinado madame Aurélia. Mas seu íntimo estava repleto de ódio e rancor. Assim como ela agradecia a Deus seu filho estar alimentado e bem, também odiava todos, principalmente a mercenária cafetina. Um dia ela se vingaria dela também e poderia lhe mostrar, então, o quanto era forte. Nunca mais tivera notícias da mãe nem dos irmãos. Sempre que pensava neles, uma onda de rancor a invadia. Julgava-os fracos e sem capacidade. A noite estava bonita e a brisa do outono entrava pelas grandes janelas da mansão. Isabela estava no quarto contíguo ao seu, onde ficava Daniel, e o alimentava quando Morgana entrou.
- Isabela, é bom se apressar, pois madame Aurélia quer todas nós no grande salão. Tem algo de muito importante a nos comunicar.
- O que é que ela quer desta vez? Explorar-nos ainda mais?
A outra, com ar preocupado, sentou ao lado dela.
- Você sabe que sou sua amiga e quero o seu bem - começou Morgana. - Por isso vou lhe avisar: não abuse da bondade da madame; outro dia eu a ouvi dizer que você é muito dada a chiliques e quer ser melhor que as outras. Disse também que só não a coloca no olho da rua porque é muito bonita e dá muito lucro a casa. Mas lhe digo para não abusar. A Ofélia era assim, até o dia em que a madame não agüentou e tocou ela daqui.
Isabela sentiu muita raiva. Quem aquela madamezinha pensava que era?
- Digo-lhe, Morgana: um dia ainda serei rica e vou sair desse inferno. Nesse dia vou me vingar de todos os que me humilharam principalmente de dona Aurélia. Eu juro amiga! E, se você quiser, a levarei junto.
A outra, com sorriso triste, redargüiu:
- Isso é muito difícil de acontecer. No entanto, se você um dia melhorar de vida, lembre-se da amiga aqui. Agora vamos descer que a chefe nos espera e não gosta de atrasos.
No salão as outras já estavam sentadas, esperando o início da reunião. Madame Aurélia, tragando elegante cigarro e bebericando um vinho seco, começou:
- Hoje teremos uma visita muito importante em nossa casa. Trata-se de um cavalheiro que nunca veio aqui e nos visitará pela primeira vez. É um importante senador, braço direito do nosso governo. Quero que vocês todas estejam bonitas, da ponta da unha até o último fio de cabelo. Ele vai escolher uma de vocês para passar a noite de graça, e nenhuma poderá se recusar.
Isabela protestou:
- Por que de graça? Isso nunca aconteceu antes! Se me escolher, eu não vou!
- Não brinque garota. Esse homem é importante, amigo de um protetor nosso, e lhe devemos esse presente. Caso ele escolha você, terá de ir ou então será mandada para o olho da rua. Há muito tempo venho estando engasgada com suas gracinhas aqui. A prostituição é trabalho como qualquer outro e deve-se fazer vontades e agrados ao freguês. E, como toda boa empresa, aqui também tem seus brindes, por isso uma de vocês será o brinde da noite. Agora subam e se arrumem, pois quero todas impecáveis.
As moças subiram insatisfeitas. Não gostavam de trabalhar de graça; nenhuma delas queria ser a escolhida. Finalmente à hora chegou. A casa cheia, anunciando animação, estava à espera do misterioso homem. De forma discreta, ele entrou acompanhado de outros amigos já freqüentadores do lugar. Após cumprimentar a dona, sentou-se e pediu uma bebida forte. Num lugar do umbral, um grupo de espíritos se reunia. Um deles dizia:
- A hora chegou, precisamos ir para lá!
- Além do que, estamos ansiosos pelas vibrações do sexo que podemos obter naquele paraíso.
O que parecia ser o chefe se pronunciou:
- Podem vampirizar à vontade, porém não se esqueçam da importante missão que têm lá. Devem influenciar o senador Humberto para que ele escolha a Clotilde. Ela precisa fazer o que nós desejamos.
- Isso mesmo! Ela é um fantoche em nossas mãos; certamente vamos conseguir.
Dizendo isso, as sombras escuras desapareceram, indo em direção do local.
Madame Aurélia fez uma espécie de desfile no qual uma a uma às mulheres eram apresentadas. De repente, as sombras chegaram ao ambiente e cumprimentaram outros espíritos que já se encontravam no local, todos buscando o prazer do sexo de forma ilícita e sempre o conseguindo junto àqueles que não possuem vivência no verdadeiro bem.
Romário, que comandava a expedição, explicou:
- Vejam como é fácil obrigar as pessoas a fazer nossas vontades. Madame Aurélia foi, no século passado, uma famosa cafetina nordestina. Comandava com mãos de ferro um bordel que ficou famoso naquelas paragens. Conseguia com uma feiticeira uma beberagem que impedia suas meninas de engravidar e, caso alguma delas "pegasse barriga", como assim ela dizia, a levava a uma mulher experiente para fazer aborto. Essa mulher que vocês vêem aí foi responsável por mais de cem abortos praticados no ambiente onde trabalhava fora os outros incontáveis que fez em si mesma. Não sabemos por que, mas desencarnou naquele tempo com um terrível câncer no útero que a devorou em seis meses. Ficou no umbral sofrendo como se ainda estivesse com a doença durante largo período. Depois que foi resgatada pelos servos do Cordeiro, nunca mais ouvimos falar dela, até que um dia a encontramos pelo pensamento em uma situação difícil. A mãe tinha morrido e ela era arrimo de seis irmãos menores. Sem ter dinheiro e sem trabalho, entrou em desespero. Daí foi fácil sugerirmos que retornasse à antiga profissão que exerceu no passado. E agora vocês podem ver o resultado.
Os espíritos gargalharam e se dirigiram ao alvo da noite: o senador Humberto Aguiar. Sentado à mesa com um copo de forte bebida entre as mãos, o senador esperava com ansiedade a hora de escolher sua preferida. Ele era um homem de meia-idade, moreno claro, com um bigode devidamente aparado, meio calvo, mas muito bonito.

Apesar de parecer contraditório Romário dizer que não sabia por que madame Aurélia havia desencarnado com câncer no útero, uma vez que tinha provocado tantos abortos em si mesma e em outras de suas meninas, o motivo parece muito claro. Devemos ter em vista que a ótica é a de Romário, que não tinha esclarecimento suficiente para entender as leis divinas. (N. do E.)

Qualquer uma das mulheres dali se daria por feliz ao passar uma noite com ele, desde que fosse regiamente recompensada. Porém, de graça, nenhuma estava disposta. Madame Aurélia, microfone à mão, iniciou a homenagem dizendo palavras belas ao senador que tanto contribuía com o governo e o deixou à vontade para escolher sua parceira da noite. Humberto, num gesto muito seu, colocou a mão direita no queixo e perpassou o olhar em cada uma delas minuciosamente. Estava difícil escolher. Realmente seus amigos tinham razão. Madame Aurélia só trabalhava com mulheres de primeira. Como escolher a melhor? Romário, atento, percebeu que era o momento exato de agir e, lançando um olhar que logo foi compreendido pelos seus companheiros, iniciou a operação. Eles se abraçaram ao senador e começaram a sugerir frases:
- Escolha a Isabela! Não vê que ela é a melhor? - dizia um.
- A sua deverá ser aquela do costume azul; não a deixe escapar. Você aqui é rei, pode tudo - outro dizia.
- Com Isabela você terá a noite inesquecível com a qual sempre sonhou - vociferava o outro.
Sem perceber que estava sendo envolvido por espíritos perversos, cujas intenções ele estava longe de saber, Humberto de repente sentiu-se magnetizado pelo olhar e pelo corpo da mulher do vestido azul. Fez menção de olhar as outras na tentativa de encontrar alguma mais interessante, mas não conseguia. Estranha força o prendia ao semblante de Isabela. Com rapidez, decidiu: seria a que estava na ponta da fila. Com um gesto ele fez a sua escolha. Isabela tremeu; isso não poderia estar acontecendo com ela.
- Isabela, desça! - ordenou a madame. - Acompanhe o senhor Humberto ao seu quarto. Você foi à escolhida, parabéns!
Palmas e gargalhadas cortaram o ar. O olhar de Aurélia já dizia por si mesmo que, se ela não obedecesse, não escaparia do olho da rua. Isabela ainda tentou enfrentá-la, todavia, ao lembrar que Daniel poderia ficar mais uma vez sem teto ou comida, resolveu aquiescer. A festa continuou no grande salão enquanto ela e Humberto foram para o quarto. Daniel ficava sempre aos cuidados de uma empregada que não exercia a função de prostituta enquanto a mãe trabalhava. Uma vez no quarto, Isabela se entregou àquele homem que sequer iria pagá-la com muita repugnância. Quando tudo acabou, o espírito de Romário sussurrou ao seu ouvido:
- Esse é o homem que você esperava. Nele está sua chance de mudar de vida! Aproveite!
De repente um pensamento a acometeu: "Quem sabe esse homem não pode me tirar da miséria?". Fumando um elegante charuto, ele parecia estar distante. Tomando coragem, numa atitude incomum às prostitutas profissionais, ela tentou:
- O senhor mora em Brasília mesmo?
Ele, parecendo não ter se importado com a pergunta, respondeu:
- Praticamente sim. Lá tenho um belo apartamento onde passo a maioria dos dias da semana. Aqui em São Paulo tenho uma bela casa onde ficam minha esposa e minha filha. Venho sempre que posso.
- O senhor é casado há muito tempo?
- Sim, há mais de trinta anos. Construí uma família sólida, embora marcada por tragédias. Perdi dois filhos num acidente de carro e minha esposa vive doente.
Influenciada pelos espíritos das trevas, subitamente ela pensou: "Esse homem ainda será meu. Vou tirá-lo dessa mulher doente e serei, assim, a esposa dele". O senador parecia estar apreciando a conversa, pois em hora nenhuma se opôs às perguntas dela. Isso não era algo comum de ele fazer com mulheres desse tipo. Mal sabia que agia assim pela influência de espíritos ainda atrasados que estavam no local. Toda pessoa que busca o prazer do sexo de forma comercial está sujeita à invasão de espíritos inferiores. O senador Humberto Costa de Aguiar era visado pelo astral inferior fazia anos. Mas só depois de várias tentativas tinham conseguido influenciá-lo. E à hora havia chegado; bastava Isabela fazer o que eles desejavam. Isabela deu sua cartada:
- Gostaria de vê-lo mais vezes. Será sempre de graça, é porque é para você...
Vestindo-se, ele respondeu:
- Voltarei outras vezes, sim.
Deu um beijo no rosto dela e saiu fechando a porta atrás de si. Desceu. O salão havia se aquietado e apenas uma música romântica embalava alguns casais que ainda conversavam na penumbra. Muito contente, madame Aurélia aproximou-se do senador:
- Tenho certeza de que gostou senador. Isabela é uma das minhas melhores meninas!
- Com certeza é a melhor. A partir de hoje quero que ela seja exclusivamente minha. Pagarei por isso; basta me dizer a quantia.
Pelo semblante de Aurélia passou um vislumbre voraz de ambição.
- Gostaria que o senhor soubesse que não vai custar barato. Infelizmente, temos de nos manter. E, pela estrutura da casa, o senhor pôde perceber que gastamos muito, principalmente para oferecer o que há de melhor a pessoas como o senhor, por exemplo.
Ele se sentou próximo ao balcão e pediu uma bebida, a qual Aurélia serviu com prazer. Como era bom fazer um negócio de vulto como aquele! Fumando outro charuto que, pela marca, Aurélia percebeu ser importado, ele confessou:
- Usei a Isabela hoje sem pagar, o que me deixou meio constrangido. Não é de meu feitio usar essas mulheres sem dar nada em troca. Aceitei por insistência de amigos. Mas, a partir de hoje, ela será só minha. Faça os cálculos que eu pago.
Com muita satisfação, aquela mulher, acostumada a vender o corpo das pessoas, calculou tudo muito rápido e mostrou a quantia ao senador. Cocando o bigode ele afirmou:
- Nossa não pensei que ela fosse tão cara! Porém, tenho de concordar que é realmente esse o valor que ela tem.
Assinou o cheque, pegou o paletó e saiu sem esperar os amigos. Dentro do carro, o senador ficou pensando nos intensos momentos de prazer que vivenciara ao lado daquela jovem mulher e jurou para si mesmo que jamais a perderia. Ele não poderia ver a quantidade de espíritos que o rodeavam. Do teto do carro aos bancos, espíritos viciados em bebida e sexo estavam em contato com aquele homem que se imaginava sozinho. Em processo de vampirismo, essas entidades retiravam dele o fluido vital e com isso encurtavam, e muito, o número de anos de sua presente encarnação. Era a primeira vítima de Isabela e seus comparsas desencarnados na presente existência. Ela, que reencarnara para progredir e crescer com o próprio esforço, condição que sempre exige mudanças de atitudes e pensamentos, estava preferindo a porta larga, que, como disse Jesus, sempre nos conduz à perdição.

5 - UMA VIDA DESTRUÍDA

O carro último modelo parou em frente de um majestoso portão de ferro. Humberto, com o controle remoto abriu o portão e, após colocar o veículo na garagem, entrou na elegante vivenda. Construída em bairro luxuoso de São Paulo, aquela casa causaria inveja a qualquer pessoa, mesmo as da mesma classe do senador. Tudo ali fora cuidadosamente escolhido por Flaviana de Camargo Aguiar quando, no auge da sua felicidade afetiva, se casara com o homem amado. Naquela época, quando ele ainda não tencionava seguir carreira política, tudo era diferente. Amoroso e apaixonado, ele a cortejara até conseguir sua mão em casamento. Não fora fácil. Humberto era ainda muito novo e vinha de uma família que, apesar de ter algumas posses, não era rica. Ele sempre tinha sido muito ambicioso e jamais se casaria com uma mulher que fosse pobre ou tivesse patrimônio igual ao seu. Ele queria mais, tencionava ser milionário, e só fazendo um casamento de conveniência com uma moça da alta sociedade é que iria conseguir. Era início dos anos 1970 e a revolução sexual havia transformado o comportamento e o caráter de muitas moças naquela época. Para Humberto, encontrar uma à altura dos seus sonhos estava praticamente impossível. Mas a vida, quando quer pôr um espírito à prova, que ele mesmo atrai com o próprio comportamento, faz surgir oportunidades de onde menos se espera: eis que, no baile de sua formatura, onde se tornara bacharel em Direito, Humberto conhece Flaviana. Do primeiro encontro ao casamento foi menos de um ano. Os pais dela, o senhor Hipólito e dona Augusta, haviam sido educados de forma austera e sempre condicionados ao pensamento de que as classes não deviam nem podiam ser misturadas. Porém, a paixão da filha única pelo recém-formado Humberto aos poucos foi minando a resistência dos pais, que acabaram por concordar. Humberto fez o papel de moço apaixonado quando, na realidade, só queria mesmo era ascensão social e financeira, esta última principalmente. Agradavam-lhe as formas do corpo e o rosto angelical de Flaviana, mas amor mesmo ele não tinha por ela. Foi um casamento sem amor, portanto, fadado ao fracasso. Flaviana, como a maioria das mulheres, teve uma educação equivocada. Fantasiava o homem perfeito, que iria aparecer e lhe fazer todas as vontades. O mimo a fez achar que Humberto era o príncipe que a vida lhe mandara. Iludida com o sonho de amor, ela atraiu para sua vida justamente o homem que iria, por intermédio da desilusão e da dor, fazê-la amadurecer. Após as pompas da cerimônia e a rica lua-de-mel, começou para eles o tempo da convivência. Depois dos primeiros anos, a paixão que ele demonstrava esfriou. Vieram os dois primeiros filhos, a rotina entediante, até que, logo após o fim do regime militar, Humberto interessou-se pela política. Filiou-se a um partido que estava surgindo com muita força naquele momento e, anos depois, até se candidatou à vice-presidência do país, mas foi derrotado. Conseguindo o cargo de senador, deixou para sempre de advogar, tarefa que exercia com bastante enfado. Entrou na sala excessivamente luxuosa e tudo estava às escuras. Naquele momento pensou no quanto era infeliz. Patrícia havia nascido em meio às brigas e confusões de um matrimônio já fracassado. O senhor Hipólito, percebendo que a filha fora enganada, praticamente cortou relações com o casal, principalmente após saber das aventuras sexuais do genro. Humberto subiu e com desgosto foi para o quarto de hóspedes em que dormia. Começou a relembrar a tristeza e a dor de ter perdido Marcos e Alfredo, seus filhos queridos e que seriam seus continuadores na carreira política. No desastre apenas ele se salvara. Começou a chorar de emoção. Apesar de tudo, ainda lhe restava Patrícia, que era seu anjo bom. Só por ela é que não abandonava para sempre aquela casa triste e sombria, apesar de rica e composta com tudo que há no mundo moderno. Poucos anos depois do nascimento de Patrícia, estranhos sintomas acometeram sua mulher. Ela começou a ter náuseas e vômitos freqüentes, manchas arroxeadas começaram a surgir junto com um forte prurido, mas os médicos não conseguiam diagnosticar a doença. Até que ela começou a urinar mais que o normal e sempre que o fazia era com muita dor e sangramento. Quando foi descoberta a insuficiência renal, ela já estava com mais de noventa por cento dos rins comprometidos. Os médicos afirmaram que só o tratamento com hemodiálise poderia lhe dar algum tempo a mais de vida, pois um transplante naquele momento seria arriscado e até fatal, além do que teriam de enfrentar a fila de espera, mesmo sendo ricos. Foi uma bomba que caiu sobre aquela família. Desesperada, dona Augusta, já viúva havia alguns anos, exigiu que o tratamento fosse feito em casa. Eles conseguiram os aparelhos e montaram uma verdadeira clínica no próprio quarto do casal. Humberto, a partir daquele momento, sempre tinha de contar com a presença desagradável da sogra em sua casa. Olhar rancoroso, ela conversava com ele somente o necessário. Fazia dois anos que sua mulher estava gravemente enferma. Humberto chorava copiosamente sua desdita. Perdera os filhos, a riqueza não o tornara tão feliz quanto imaginara e sentia um imenso vazio dentro do peito. Só mesmo na política e no sexo encontrava algum prazer. Mas, ultimamente, toda vez que podia fugia das reuniões do Senado. Estava perdendo o gosto pela vida. Só agora, ao encontrar Isabela, é que tinha vislumbrado uma nova luz em seu caminho. Sem que ele pudesse ver, seus filhos desencarnados estavam ali a velar por ele. Marcos e Alfredo, espíritos bons, logo compreenderam como atraíram aquelas mortes por acidente e trataram de procurar auxiliar o próximo na colônia onde viviam. Trabalhavam bastante, porém sem se desligar um instante sequer da família que os recebera com tanto amor na Terra. Ao perceberem a doença da mãe, prontamente foram buscar explicações com um dos instrutores da cidade em que viviam. Foram recebidos com cordialidade por Alexandre.
- Vieram saber sobre o estado de Flaviana. Fui informado de que está desenvolvendo uma doença terminal.
Marcos, olhos marejados, redargüiu:
- Isso mesmo. Não conseguimos entender por que aquela que foi nossa mãe na Terra tem de passar por semelhante sofrimento. Gostaríamos de ajudar.
- A doença da mãe de vocês não poderá ser curada na presente encarnação. Tentem se conformar para poderem ajudar. Adoecer junto com ela não será o melhor remédio.
- Por quê? - foi à pergunta aflita de Alfredo.
- Todas as doenças que acontecem aos encarnados surgem pela maneira equivocada com que estão guiando suas vidas. O corpo de carne é uma espécie de válvula que absorve as energias doentias produzidas pelo pensamento humano e as extravasa em forma de doenças. No caso da sua mãe, ela se encontra escrava da hemodiálise porque foi escrava a vida inteira das próprias ilusões. Terá de modificar a forma de pensar para encontrar a paz e o equilíbrio. No entanto, isso não acontecerá na Terra; só vai se dar depois do desencarne.
- Notamos que a nossa mãe estava muito infeliz, mas ela não se iludiu. Quando percebeu quem nosso pai era de verdade, acordou para a vida e procurou viver da melhor maneira possível.
Alexandre explicou:
- Engana-se. Sua mãe trocou de ilusão. Se antes o que a dominava era o sonho de amor, agora ela vive na esperança de que Humberto mude de comportamento e ainda seja o que ela espera. Sua mãe alimenta o desejo de transformá-lo. Triste situação. Infelizmente, a doença é a forma que a vida encontrou de levar ao seu espírito a cura por que ela tanto anseia. É necessário, acreditem. Se ela não precisasse passar por semelhante situação, a bondade divina não iria permitir.
Conformados, eles saíram, e a partir daquele instante procu¬ravam ajudar no que fosse necessário no intuito de diminuir as dores da mãe. Era com tristeza que viam o pai mergulhar nos meandros da corrupção e do sexo irresponsável, mas nada podiam fazer a não ser rezar e ter paciência. Humberto chorou durante um tempo, porém lembrou-se da filha, Patrícia, o único bem que lhe restara na vida. Como ela era bela e inteligente! Já estava com dezoito anos e havia terminado o colegial. Pensava em prestar vestibular e ser psicóloga. Humberto sabia que ela conseguiria. Era muito interessada pela vida e pelos estudos. Naquele instante, lembrou-se das conversas longas que tinha com ela e de como admirava sua sabedoria. Apesar da idade, ela tinha muitas idéias que desafiavam o raciocínio comum e às vezes fazia com que ele se sentisse melhor. Pensando na filha, adormeceu. Pela manhã, já devidamente barbeado, desceu. Tinha acordado bastante cedo, apesar de ter dormido tarde. Encontrou Patrícia à mesa, tomando café.
- Bom dia, papai! Como é bom tê-lo em casa. Está ficando cada vez mais rara sua presença aqui. - Levantou-se e deu um beijo na testa dele.
Enquanto Eulália, a criada, o servia, ele comentou:
- Esta casa sempre me traz recordações tristes. A lembrança dos seus irmãos, dos tempos de felicidade que vivi ao lado de sua mãe, tudo isso me machuca muito.
- Sabe papai, há alguns meses tenho freqüentado um lugar muito bom, onde tenho aprendido várias coisas a respeito da vida. Sempre que vou lá me sinto bem. E um centro de estudos espirituais. Gostaria muito que o senhor fosse lá um dia comigo.
Ele, meio desinteressado, perguntou:
- E o que se aprende lá? Pelo visto, é um centro religioso.
- Lá, eles ensinam que o sofrimento é um estado antinatural, que nascemos para ser felizes e que a perfeição total é nosso destino. Mas não tem nada a ver com religião. Eles afirmam que as religiões vão acabar e trabalham com eles muitos terapeutas e médiuns que, com o auxílio de espíritos bons e evoluídos, nos ajudam a viver melhor.
Ele fez um ar azedo:
- Só podia ser mesmo o espiritismo. Quero que saiba que aqui nunca ensinamos religião a ninguém, cada um sempre foi livre para seguir o que quisesse, mas não me obrigue a ouvir coisas que vêm de pessoas simplórias e supersticiosas. Muito me admira você, sempre tão inteligente, ter caído em uma dessas.
Ela continuou sem se importar:
- Eles trabalham como espiritualistas independentes, mas têm bases no espiritismo codificado por Allan Kardec. Vendo o senhor sempre tão triste, observando a doença horrível da mamãe e os fatos trágicos que aconteceram com meus irmãos, sempre me perguntei o porquê, e nunca encontrei respostas. Hoje, com o pessoal do centro, tenho descoberto coisas incríveis e sei que tudo está certo da maneira como está. Eles me deram O Livro dos Espíritos para ler e com ele estou descobrindo até o próprio Deus. Não é fabuloso, papai?
Coçando o bigode, Humberto replicou:
- Sei não... Tenho medo de que eles coloquem em sua cabeça que seus irmãos morreram e sua mãe está sofrendo porque estão pagando débitos de vidas passadas. Conheço pessoas espíritas que depois que abraçaram essa doutrina se tornaram conformistas e estagnadas, aceitando tudo sem reagir. Não quero que você pense assim.
- É aí que está o engano, papai. A interpretação errada de alguns deu a essa sublime doutrina uma conotação conformista. Tenho aprendido que não existe fatalidade e que noventa por cento dos nossos sofrimentos não vêm de vidas passadas, e sim de escolhas atuais. Só quando nascemos com defeitos físicos, em estados calamitosos de pobreza e doença, ou numa família problemática é que estamos recolhendo o que fizemos no passado. Quanto ao resto, corre por conta do nosso modo inadequado de pensar e encarar a vida. Creia papai, o sofrimento pode e deve ser evitado. Chegou à hora de a humanidade se libertar de vez da dor. Não acha que tenho razão?
Tomando vagarosamente seu café, Humberto se perguntava de onde a filha tirava tantas idéias, que por vezes o confundiam.
- Então, como explicar o sofrimento de sua mãe, uma mulher tão boa e prestativa? Não consigo entender. Se você perguntar a um espírita, por exemplo, ele dirá que é um resgate.
- Nada disso. Conversei com a Sílvia, uma das terapeutas, sobre o problema de mamãe, e ela me disse que os problemas de saúde são o resultado de atitudes equivocadas da pessoa na presente encarnação. Nos casos de problemas renais, a causa está na escravidão que a pessoa vive consigo mesma. Espera tudo dos outros e tem dificuldades no relacionamento afetivo. São pessoas que criam à imagem do amor ideal e, quando se decepcionam, ficam com muito ódio, achando que tudo está perdido. Elas, então, desistem de viver, atraindo para si a moléstia nos rins.
Humberto remexeu-se na cadeira. Realmente Flaviana havia se decepcionado bastante com ele. Com certeza ela descobrira que o casamento só fora uma conveniência. Resolveu parar com aquela conversa; não desejava se sentir culpado. Eulália desceu a escadaria com uma bandeja praticamente intacta nas mãos. Aproximou-se da mesa:
- Sr. Humberto, dona Flaviana o chama. Disse que quer lhe falar antes que saia.
- Como está ela hoje, Eulália?
- Um pouco pior. Está depressiva, quase não quis comer.
Deixando a filha na sala, ele foi ter com ela. Ao entrar no quarto, uma sensação de tristeza muito grande o invadiu. Aqueles aparelhos horríveis filtrando o sangue praticamente o tempo inteiro davam uma impressão soturna ao ambiente. Na cama ricamente arrumada, Flaviana se encontrava com os olhos perdidos num ponto indefinido. Em quase nada lembrava aquela moça jovem e bonita que um dia havia se casado com Humberto.
- Sente aí! – disse ela com voz fraca.
Ele obedeceu.
- Sei que você nunca me amou. Percebo como era ingênua quando achei que você era o homem perfeito que idealizei. Tarde demais; minha vida está destruída.
Ele pegou nas mãos dela e o remorso o fez derramar algumas lágrimas.
- Não diga isso. Você é jovem. Sua vida não está destruída, você vai se recuperar e voltar a ser o que era antes. Lembre-se de Patrícia; ela precisa muito de você!
- Não me iluda mais. Sei que não tenho chances de cura e, se tivesse, não sei se iria querer mais me curar... Para quê? Para viver desprezada por você, dentro desta casa enorme, sem meus filhos? Prefiro morrer a voltar a essa vida que você me dá.
Ele chorou pelo remorso.
- Não tive culpa do que aconteceu. Você sabe como a política me absorve. Não posso fazer mais do que já faço. Pensa que também não sofro a morte de Alfredo e Marcos? Pensa que não sofro ao vê-la assim, sem poder se levantar e levar uma vida normal?
- Você sofre pelo remorso, por ter me tirado da casa de meus pais e despertado meu amor sem nenhuma intenção de retribuir. Como fui tão cega? - lamentou-se Flaviana. - Mas não posso me demorar relembrando a infelicidade que é minha vida. Chamei-o por causa de algo mais importante: nossa filha Patrícia. Em breve não estarei mais aqui para cuidar dela e orientá-la; quero que a leve para a casa de minha mãe.
Ele ruborizou:
- Isso nunca! Patrícia vai continuar sempre comigo. Não vejo por que levá-la para a casa de dona Augusta. Tenho meios de educá-la e o farei!
- Faça o que estou pedindo. Talvez seja meu último pedido a você. Sei que não tem condições de cuidar dela. E moça, é jovem, e precisa de alguém que a oriente. Você leva vida imoral e nunca está em casa. Raramente larga Brasília para vir aqui. Faça o que estou pedindo; não hesite!
Ele pensou em discordar, mas resolveu ceder, prometendo a ela o que no fundo sabia que não iria cumprir. Jamais deixaria sua filha nas mãos de uma mulher como Augusta Camargo. Resolveu contemporizar. Beijou o rosto dela e desceu. Patrícia não estava mais à mesa, todavia teve uma desagradável surpresa ao passar pela sala: dona Augusta o esperava.
- Quero falar-lhe. Não subi porque não queria interromper sua conversa com minha filha. Não sei de que se tratava, mas espero que não a tenha feito sofrer mais do que até o momento.
Ele foi seco:
- Diga o que quer, pois estou muito atrasado.
- Como sempre! Só não estava atrasado quando tirou minha filha do lar onde era amada e valorizada para trazê-la a uma vida de sofrimentos e traições. Mas tenha certeza de que não viverá feliz um dia sequer de sua vida. Terá a mim como inimiga, e não lhe darei paz enquanto viver!
Ele esfregou as mãos tentando conter a raiva.
- Diga o que a senhora quer, pois preciso sair. Seja breve.
A velha e elegante senhora prosseguiu:
- Quero que contrate mais uma empregada para esta casa. Desejo que minha filha tenha companhia mais horas durante o dia. Conversei com o doutor Eduardo e ele garantiu que ela está em fase terminal. Não quero que nada lhe falte nesses últimos momentos de vida. Quero, pelo menos, que morra com dignidade.
- Empregada? Mas esta casa já tem tantas! A Eulália cuida muito bem dela; não lhe deixa faltar nada.
- Eulália é da cozinha. Estou me referindo a uma exclusiva. Para ser mais direta, quero que contrate uma enfermeira para cuidar de minha filha.
Nesse instante o espírito Romário, que estava atento a toda a conversa, soprou nos ouvidos de Humberto:
- Concorde com ela, não discuta. Nós o ajudaremos a encontrar a enfermeira.
Humberto resolveu concordar:
- Está certo. A senhora pode providenciar isso para mim?
Não tenho tempo para essas coisas. Estou indo resolver alguns problemas e depois sigo para Brasília.
O companheiro de Romário influenciou Augusta, que logo protestou:
- Nada disso, você é que deverá encontrar a enfermeira desta vez. Já fiz muito por esta casa. Todas as empregadas daqui foram escolhidas por mim e minha filha, agora é a sua vez. Contrate e traga essa enfermeira ainda hoje, ou não responderei por mim.
Dizendo isso, a velha senhora virou o rosto e subiu a escadaria em direção ao quarto de Flaviana. Sem saber o que fazer diante de tanta petulância, Humberto também saiu. Ia ver madame Aurélia, fazer algumas recomendações e conversar diretamente com Isabela. Iria lhe propor montar uma bela casa onde ele a visitaria semanalmente. De repente, Romário, que estava ao seu lado, lhe disse:
- Você não precisa se preocupar com a enfermeira. Traga Isabela para sua casa e transforme-a em acompanhante da sua esposa. Diga que é a enfermeira que contratou ninguém vai desconfiar. Além do mais, você poderá possuí-la sexualmente na sua própria casa, sem gastar tanto!
A maioria dos pensamentos das pessoas é sugerida por espíritos que circulam na crosta terrestre. Ignorando esse fenômeno de comunicação telepática, os encarnados supõem que estão pensando por si mesmos. Grande ilusão! Assim como existem os bons espíritos que lhes inspiram idéias nobres e boas, há os inferiores, que os tentam levar cada vez mais para a queda. Humberto, pelo comportamento que mantinha e pelos pensamentos que cultivava, cortara a relação com seu guia espiritual, que não conseguia mais influenciá-lo. Respeitando o livre-arbítrio, seu mentor o deixara livre para que, recolhendo a dor, pudesse amadurecer. Após captar com facilidade as idéias de Romário, ele exultou: - Tive uma idéia excelente. Resolvi agora o que fazer com Isabela. Será a enfermeira perfeita que dona Augusta tanto almeja. Feliz com a idéia aceita, Romário regressou para o sítio infernal onde vivia com uma comunidade muito grande de espíritos que, assim como ele, lutavam para conduzir a humanidade à maldade e à dor, degradando-se nos caminhos que levam ao sofrimento.

6 - UMA INIMIGA

Na Mansão de Higienópolis, no dia seguinte à visita do senador, madame Aurélia reuniu todas as suas empregadas no grande salão. Queria falar com elas em especial.
- Gostaria de agradecer a todas pela noite memorável que tivemos ontem. Nossos protetores saíram satisfeitos. Libero as bebidas para todas durante uma semana.
Muitas sorriram gratas pelo elogio; outras logo se levantaram para o bar. Muitos espíritos as seguiram também contentes com a idéia de poder sentir o sabor da bebida por intermédio delas. Naquele lugar, além do vício sexual, havia a agravante do álcool. Aurélia olhou profundamente para Isabela, que logo notou que ela lhe queria falar em particular.
- Isabela, vamos subir. Temos muito que conversar.
Luana, que invejava bastante a beleza e o porte da companheira de profissão, tornou:
- Nossa quanto mistério! Ontem foi a escolhida da noite, hoje é a preferida da patroa. Quanto privilégio!
Fingindo não ouvir, as duas subiram. No quarto excessivamente luxuoso de Aurélia, Isabela se acomodou. Estava preparada para ser explorada mais uma vez. Por certo o senador havia gostado dela e a queria de graça. Isso seria ótimo, pois estava em seus planos conquistá-lo definitivamente.
- Isabela, faz mais de um ano que está aqui comigo. Como já teve a oportunidade de ver, nem sempre à vida aqui é boa. Também não há o que reclamar tendo vindo de um lugar como o que você veio; considere-se até com muita sorte. Mas seus dias de prostituta praticamente acabaram.
Isabela estremeceu:
- Vai me mandar embora? A senhora não pode fazer isso comigo. Dei muito lucro a esta casa e pretendo continuar dando. Meu filho aqui cresceu e está bem alimentado e com saúde; tenha piedade. Só tenho aquela favela horrível para viver - começou a soluçar.
Aurélia sorriu:
- Não precisa chorar nem se ajoelhar a meus pés. Não é nada disso que você está pensando. É algo muito melhor, maravilhoso!
- Não entendo. O quê pode ser?
- Você sabe que sempre a considerei uma filha. Se fui dura algumas vezes, foi porque precisava. Quem trabalha nesse ramo sabe muito bem que às vezes temos de ser inflexíveis com os empregados. Saiba que em agências especializadas os donos costumam ser bem menos tolerantes que eu. Mas você parece que nasceu com uma estrela. Em pouco tempo conseguiu o que todas almejam: um homem rico e apaixonado a seus pés!
Isabela continuava sem entender. Será que era o que estava pensando? Não podia ser.
- Continue, madame!
- É isso mesmo! O senador Humberto a comprou. A partir de hoje, não vai servir a nenhum outro homem, será peça exclusiva para ele.
- Como isso foi acontecer?
- Não sei! Os homens são assim. Alguns são difíceis, outros são fáceis de se apaixonar. Mas todos, quando se apaixonam, cometem loucuras. Mensalmente ele vai me pagar tudo o que você costumava render aqui dentro. Também vai pagar você por fora, mas esse acerto só os dois poderão ter. Contudo, aqui vai um conselho: tire dele tudo o que puder. Os homens merecem ser usados até o último centavo. Se um dia ele não lhe servir mais, o abandone sem titubear. Mas, enquanto estiver com ele, sugue tudo a que tem direito.
Isabela estava radiante. Finalmente o universo conspirava a seu favor. Estava mais fácil do que ela podia supor. Num gesto impulsivo, abraçou a madame e desceu as escadarias gritando que estava livre e que era amada. Sua única amiga, Morgana, se aproximou, abraçando-a longamente. Foram para o jardim. Sentadas no banco, Isabela lhe contou tudo, e finalizou:
- Morgana, estou muito feliz. Minha vida vai mudar e, como a minha, a sua também!
- Quem dera amiga, mas não vejo como. Seja feliz você; acho que eu nasci para esta vida mesmo.
- Não diga isso, Morgana. Tenho um plano e sei que vai dar certo. Se der, vou ser a senhora Isabela Aguiar. Quando isso se realizar, saberei agir para tirá-la daqui. Essa cafetina miserável deve estar ganhando uma fortuna comigo, mas hoje me deu conselhos benéficos. Vou aproveitar tudo que a vida está me dando e saberei retribuir a sua amizade e lealdade para comigo.
Morgana tinha no canto dos olhos uma lágrima teimosa.
- Se fizer isso por mim, serei eternamente grata. Penso que a prostituição não é algo bem-visto por Deus. Sinto-me muito culpada cada vez que troco meu corpo por dinheiro.
- Não seja boba em pensar em Deus em uma hora dessas, se ele realmente existisse não teria feito esse mundo cheio de desgraças e de gente como nós. Pense em você mesma. Ceda aos homens até que eu a tire daqui; tenha paciência.
A outra pareceu se acalmar. De repente, elas viram o carro de Humberto parar em frente à mansão. Ele entrou e cumprimentou as duas.
- Madame Aurélia está em seus aposentos. Deseja falar com ela, senhor? - perguntou Isabela.
Ao fitá-la, ele sentiu mais uma vez que era a mulher perfeita para ser sua e a enfermeira que a sogra queria. Já perturbado pelas ondas de luxúria provindas daquele ambiente, ele, meio tonto, respondeu:
- Sim, desejo ter com madame Aurélia.
As duas entraram conduzindo o senador para dentro do recinto. Em poucos minutos, estavam ele e Aurélia no escritório.
- O senhor aceita uma bebida?
- A de sempre, por favor!
Depois de servido, ele foi direto ao assunto:
- Quero desfazer a proposta que fiz à senhora ontem. Desejo tirar Isabela daqui.
Ela não acreditava no que ouvia. Não podia perder aquela renda mensal de forma alguma. Irritou-se:
- O senhor não pode chegar aqui e fazer o que bem entende. Somos um grupo muito unido; prezo pelo bem-estar das minhas meninas e não vou permitir que tire uma delas daqui sem que vá lhe dar uma vida digna.
Ele sorriu sarcasticamente.
- Faz-me rir. Sei que a senhora é uma mercenária e que não se importa com nada que não seja dinheiro. Não tente cruzar o meu caminho ou levo essa casa à falência muito mais rápido do que supõe.
Ela tentou contemporizar:
- Não vê que vai cometer uma loucura? Para onde pretende levar uma mulher que conheceu ainda ontem? Não sabe quem ela é nem do que é capaz. Trabalho há muitos anos com esse tipo de gente e sei que são capazes de tudo para atingir seus objetivos. Pode se dar muito mal. Isabela é sonsa, falsa e arrogante; também percebo nela um instinto agressivo, tenha cuidado com o que vai fazer.
Acompanhado pelos espíritos desde que saíra de casa, Humberto estava suficientemente influenciado para não ceder às palavras de Aurélia.
- Não desejo saber de mais nada que venha da senhora, não acredito no que diz. É interesseira e só pensa em explorar o corpo alheio para viver. Sei que vai fazer minha cabeça para que não leve Isabela daqui, mais a aviso de que não vai adiantar. Aceite o que estou propondo: fique com o dinheiro que lhe dei e se dê por satisfeita em ter passado um tempo com ela e lucrado tanto. Agora ela é minha e vai seguir comigo ainda hoje.
Madame Aurélia resolveu não insistir.
- Então que seja como o senhor quiser. Depois não diga que não avisei. Ah, e tem mais, algo que nunca lhe contaram: Isabela tem um filho. Ele mora com ela aqui.
Terminada a conversa, Humberto subiu ao quarto de Isabela e deu-lhe pessoalmente a notícia. Ela parecia delirar; não poderia acreditar de forma alguma que aquilo estivesse acontecendo com ela. Após se beijarem longamente, os dois foram para a cama, onde ela mais do que nunca procurou se esmerar. Quando tudo terminou, ele a olhou e disse:
- Arrume todas as suas coisas que às cinco horas passarei aqui para levá-la. Tenho alguns compromissos e, após resolvê-los, venho sem falta. - Ele deu uma pausa. - Tenho outra coisa a lhe dizer. Durante algum tempo terá de me fazer um favor; não posso lhe dizer o que é agora. Prepare-se e na hora exata saberá.
Ela concordou rapidamente. Não podia perder aquela chance. Subitamente, segurou com muita força os braços dele, e confessou:
- Há um segredo que ninguém lhe contou, mas é preciso que saiba antes de qualquer coisa.
- O que pode ser?
- Tenho um filho. Ele vive aqui comigo, nesse quarto ao lado. Uma empregada cuida dele para mim enquanto trabalho. Se não puder levá-lo comigo, recuso agora sua proposta. Ele é meu bem mais precioso.
Humberto sorriu.
- Sei que tem um filho. Fui informado por madame Aurélia. Já pensei nisso e tenho a solução. Você terá uma bela casa onde poderá viver com ele. Enquanto estiver me ajudando no que preciso, poderá contratar uma babá para olhá-lo.
Emocionada, Isabela se ajoelhou aos pés de seu protetor e chorou muito.
- Não sei como agradecer o que tem feito. Às vezes penso que estou sonhando e a qualquer momento vou acordar.
Ele olhou para um ponto indefinido e pensou alto:
- Nem sei também por que tenho feito tudo isso. Sinto por você uma atração incrível, irresistível mesmo. Uma força muito grande me atrai até você. O que sei é que a partir daquela noite não consigo mais viver sem pensar em tê-la a meu lado.
Eles se beijaram. Deixando recomendações à madame Aurélia para que ajudasse Isabela com as bagagens, ele saiu. A alegria foi grande quando Morgana ficou sabendo o que finalmente iria acontecer com a amiga. Começaram a arrumar as malas, e então Aurélia apareceu no quarto.
- Saia, Morgana. Preciso falar com Isabela a sós.
Quando estavam apenas as duas, ela começou:
- Não pense que vai sair assim tão fácil daqui. Depois de tudo que fiz por você, me deve muito. Vim para fazermos um contrato.
Isabela não entendeu.
- Contrato? Que espécie de contrato?
A outra sorriu.
- Deverá me dar a metade de tudo que conseguir ao lado do senador. Acha mesmo que, depois de tê-la tirado daquela favela horrível, tratado de você nos melhores salões de beleza, dado-lhe um nome, ajudado seu filho a não morrer de fome, vai sair assim sem molhar muito bem a minha mão?
- Lembre-se, senhora, de que tudo isso que fez já retribuí regiamente e a duras penas. Servi aos piores homens que freqüentaram esta casa e lhe dava cinqüenta por cento. Para a senhora, isso basta. Não tente me atrapalhar; estou protegida por um homem muito importante e, se a senhora tentar algo, vai se arrepender. Aurélia sentiu muita raiva naquele momento. Quem ela pensava que era?
- Escute aqui. Ninguém me passa para trás e fica impune. É melhor aceitar meu acordo agora ou ganhará uma inimiga para o resto dos seus dias.
- Ameaças comigo não resolvem. Aprendi desde cedo a ser forte. Fui estuprada, engravidei, desde criança tive de cuidar de mim, e não é uma mulher como à senhora que vai me atrapalhar. Antes disso, não viverá para fazer nada.
- Está me ameaçando? Não sabe com quem está lidando. Engula tudo que disse. – Dizendo isso, deu uma bofetada no rosto de Isabela, que revidou. As duas então começaram uma luta corporal.
Morgana e as outras que escutavam atrás da porta, invadiram o quarto e acabaram separando as duas. Despenteada, rosto cortado e com expressão de ódio, Aurélia parecia um monstro.
- Arrume suas coisas e suma daqui. Mas saiba que vou persegui-la enquanto viver. Você foi o meu maior investimento; é justo que agora eu cobre. Ainda vai me ver bastante.
Ela saiu com ar ameaçador. Morgana e Eudásia correram para acudir Isabela, que estava no chão chorando desesperadamente e tinha várias marcas em todo o rosto. Tiraram-na do chão e a colocaram sobre a cama. Ela chorava, rosnava, mordia os lençóis e a cama de tanta raiva. Em meio ao ódio, gritou em voz alta:
- Quem ganhou uma inimiga foi à senhora. Juro que não viverá muito tempo pra atormentar minha vida. Eu tirarei a sua primeiro.
Morgana interrompeu:
- Isabela, acalme-se. Não diga mais nada para não se complicar. Lembre-se de que tem um filho que depende de você.
Nessa hora ela caiu em si. A lembrança do filho a fez refletir bastante. Instintivamente, foi ao quarto contíguo e o encontrou sobre a cama. Ao vê-la, Daniel sorriu. Isabela chorou emocionada. Pegou-o no colo, e lhe falou:
- Filhinho, a partir de agora a mamãe vai poder lhe dar tudo o que você precisa para ser um grande homem. Vou ensiná-lo a conquistar o que desejar e passar por cima de quem for preciso para conseguir vencer.
Trazendo o filho para o quarto, Isabela, Eudásia e Morgana começaram a arrumar as malas. Já era noite quando Humberto chegou de carro e a levou. As despedidas foram tristes, principalmente para Eudásia, que cuidava de Daniel havia mais de um ano, e Morgana, que realmente era amiga de Isabela. Pelo vidro da janela de seu quarto, madame Aurélia olhava com ódio o carro que partia. A seu lado estava Luana, que se juntara à patroa para ajudá-la nos planos de vingança. Perto das duas, várias entidades sombrias as abraçavam, inspirando os mais cruéis pensamentos. Patrícia acabara de ouvir uma palestra maravilhosa sobre o carma no Centro de Estudos que freqüentava. Após receber os passes e tomar a água fluidificada, ela foi procurar o palestrante. Depois de alguns cumprimentos de outros presentes, finalmente conseguiu se aproximar de Rodolfo.
- Gostaria de tirar algumas dúvidas sobre a palestra de hoje. Foi muito boa e proveitosa.
Rodolfo, muito simpático, a fez sentar-se num dos bancos.
- Realmente o carma é assunto muito interessante, que deve ser estudado e entendido em seu real sentido. Infelizmente, as pessoas o têm deturpado sobremaneira.
- É isso que gostaria de saber. Desde que iniciei minhas vindas aqui tenho procurado ler muito a respeito de espiritismo, mediunidade, vida após a morte e tantos outros assuntos ligados à espiritualidade. Para isso, fui numa boa livraria e comprei vários livros a respeito. Porém, tenho percebido em alguns deles idéias conformistas sobre o carma, sobre o sofrimento, e alguns até se referem à punição e castigo. O que aceitar de tudo isso?
- Realmente, na literatura espírita e espiritualista existem muitos autores que ainda teimam em continuar pensando de modo radical sobre certos assuntos. Eles ignoram que o pensamento evolui e ainda se prendem de forma ortodoxa ao que foi dito tempos atrás.
Patrícia refletiu:
- É isso que não consigo entender. Aqui aprendemos que Deus não castiga nem pune, apenas dispõe os fatos para que cada um colha aquilo que plantou e aprenda a viver melhor. Todavia, lendo as obras de Allan Kardec, sempre deparo com frases que fazem alusão ao castigo e à punição divina. Pode me explicar por que isso acontece?
Rodolfo se levantou e disse:
- Para isso preciso que venha comigo à nossa biblioteca.
Eles saíram e logo entraram numa grande sala com imensa quantidade de livros.
- Aqui é nossa biblioteca. Nela há muitos livros da literatura, tanto espírita quanto espiritualista, mas para responder às suas dúvidas e esclarecê-la quanto às outras que possivelmente vão aparecer em seu caminho, primeiro vamos ver um dos principais livros para os espíritas.
Eles sentaram. Rodolfo puxou de uma das estantes um exemplar que Patrícia logo percebeu ser de O Evangelho segundo o Espiritismo.
- Veja bem, Patrícia, logo na introdução deste livro, Kardec, em sua sabedoria e raciocínio ímpar, nos informou que "não é a opinião de um homem que se deverá aliar-se, mas a voz unânime dos Espíritos; não é um homem, não mais nós que um outro que fundará a ortodoxia espírita; não é, tampouco, um Espírito vindo se impor a quem quer que seja; é a universalidade dos Espíritos se comunicando sobre toda a Terra por ordem de Deus".
Hoje, como você mesma tem observado, universalizou-se a verdade de que Deus não castiga nem pune. Esse ensino se tornou praticamente universal nas lides espirituais e já tomou conta de quase todo o globo terrestre. Mas não pense que foi fácil essa generalização. No princípio, os espíritos superiores encontraram nos médiuns muita resistência e foi difícil essa idéia tomar forma. As pessoas rejeitavam-na como se fossem misticismos sem nem atentarem para o que dizia o bom-senso. Patrícia interrompeu:
- Continuo sem entender. Se na Codificação Espírita os espíritos usaram desses termos, por que só tempos depois vieram a mudar a linguagem?
- Esperava por essa pergunta, e mais uma vez quem responde é Kardec. Veja aqui o que ele diz ainda na introdução deste livro.
Patrícia leu: "Os Espíritos superiores procedem, nas suas revelações, com uma extrema sabedoria; eles não abordam as mandes questões da doutrina senão gradualmente, à medida que a inteligência está apta a compreender verdades de ordem mais elevada, e que as circunstâncias são propícias para a emissão de uma idéia nova".
- Por este trecho você pode perceber o método de Kardec. Ele sabia que os espíritos estavam falando de acordo com uma época, de acordo com o que a humanidade poderia entender no século passado. O Codificador sabia que, quando o tempo fosse favorável, novas revelações iriam acontecer e que a verdade sempre se impõe sobre qualquer obstáculo. Hoje em dia falar que Deus castiga mostra completa ignorância sobre a natureza divina. O que naquela época foi facilmente aceitável, hoje, com a mente mais avançada da humanidade, torna-se intolerante afirmar. Kardec sabia que muitas coisas novas iriam surgir completando e até mesmo retificando, o que ele disse naquela época, todavia sem ferir nem abalar os princípios básicos do espiritismo, que são imutáveis e universais.
- Quais são esses princípios, Rodolfo?
- Os princípios básicos do espiritismo são: a vida após a morte, a reencarnação como oportunidade única de progresso, a comunicabilidade dos espíritos com o mundo corporal, a pluralidade dos mundos habitados e a crença num Deus único, imutável, soberanamente justo e bom. Isso jamais será abalado, pois o tempo mostra que são verdades eternas.
- Entendi... Mas ainda sobre o carma. Se for verdade que ele não existe como algo fatal, como entender o que minha mãe passa sem nunca ter feito mal a ninguém? A Sílvia uma vez me explicou, mas não estou totalmente convencida. E onde fica aquela crença que vemos em muitos livros a respeito de que todos estão aqui para pagar débitos do passado? Tenho tantas dúvidas!
- É que você está muito presa à visão materialista das coisas. A crença de que viemos aqui para pagar débitos, além de incorreta, é uma maneira muito primitiva de entender a justiça divina. O que Sílvia lhe explicou está certo. Ninguém paga nada, porque ninguém deve nada a ninguém, apenas à própria consciência. Os sofrimentos são resultado das crenças, pensamentos e atitudes que ainda não se modificaram no bem, no otimismo e na fé. O sofrimento não é a cobrança de débitos do passado, e sim o chamamento divino para a evolução e a mudança para melhor. Ocorre que nossas crenças no mal vêm de muito longe e se repetem de encarnação a encarnação. Enquanto não as mudarmos, sofreremos da mesma forma. Esse é o único e verdadeiro carma que existe. Sua mãe nunca fez o mal a ninguém, todavia, se está sofrendo, é porque vem fazendo mal a si mesma. Provavelmente, antes de reencarnar, prometeu mudar, buscar o bem, evoluir pelo amor auxiliando o próprio espírito com a busca da espiritualidade e da sabedoria. Uma vez aqui, se acomodou em vez de buscar ser feliz e aprender como as leis universais funcionam. Ela fez o oposto, preferiu ser a vítima e continuou a alimentar a crença no mal.
Patrícia protestou:
- E como outras pessoas que vivem do mesmo modo que minha mãe, ou até em condição pior, estão bem e com saúde? - Nos olhos da jovem, uma lágrima teimava em cair.
- "Muito será pedido a quem muito recebeu." Deus respeita o nível de evolução de cada um; ele não pede aquilo que a pessoa ainda não é capaz de oferecer. Você exigiria que uma criança agisse como um adulto?
- É claro que não, imagine!
- Assim é que Deus age. Sua mãe chegou a um nível de evolução que não lhe permite mais ter certas atitudes, então vem o sofrimento. Sempre que a pessoa age fora de seu nível de evolução espiritual, a natureza não a protege mais, por isso a pessoa sofre as conseqüências. Acredite: quem não usa o bem que tem vai sofrer a interferência do mal.
Patrícia havia entendido, porém chorava muito. Era-lhe muito penoso ver a mãe, ainda jovem, jogada naquela cama, definhando sem esperanças. Ao seu lado, Alfredo e Marcos a consolavam. Rodolfo os viu, e lhe disse:
- Desabafe, chore, mas saiba que ela não está sozinha. Agora mesmo está sendo amparada por dois espíritos amigos que querem ver seu bem.
Ela ficou admirada
- São espíritos amigos? São meus mentores?
- Não sei dizer. Só sei é que possuem muita luz e a protegem. Renda graças a Deus por ter amigos assim no astral.
Ela estava emocionada. Ao sair do centro, tomou um táxi e foi para sua casa. Ganhara um carro último modelo dos pais, porém, ainda não aprendera a dirigir. Durante o trajeto foi refletindo sobre o que ouvira de Sílvia e de Rodolfo, e concluiu que eles tinham razão. De repente seu pensamento foi em direção à sua própria vida. Ela se sentia feliz. Não fosse a doença de sua mãe e a ausência do pai em casa, sua vida seria uma total felicidade. A perda dos irmãos também a chocara bastante, mas ela logo se recuperara. Ao ver seus corpos naqueles caixões, ela sentia no íntimo que a vida não terminava ali. Tinha amigas, mas gostava de selecioná-las. Às vezes preferia sair só a ter companhia de certas pessoas que não lhe agradavam. O que faltava mesmo era um namorado. Já tinha tido alguns, mas nenhum deles a tocara profundamente. Contudo, Patrícia confiava na vida e sabia que um dia, mais cedo ou mais tarde, a pessoa amada iria aparecer. Após pagar o táxi, Patrícia entrou e logo percebeu que sua avó permanecia na casa.
- Vovó?! A senhora ainda aqui? Mamãe piorou?
- Não, filha. Estou esperando o crápula do seu pai chegar; hoje teremos um acerto de contas.
Patrícia sentou-se ao lado da avó no sofá luxuoso. Augusta de Camargo já estava velha, porém em seu rosto havia poucas rugas, além do que sempre se vestia com muita elegância, algo incomum em mulheres de idade avançada.
- Por que esse ódio tão grande contra papai? O que de mal ele lhe fez?
- Esse não é assunto para uma mocinha como você. O meu acerto de contas com ele hoje é outro. Sua mãe precisa de uma enfermeira e pela manhã ordenei que ele providenciasse uma para cuidar dela o dia todo. Humberto me garantiu que traria a moça ainda hoje e veja só: são dez e meia, e nada de ele chegar.
- Vovó, ele é um homem muito ocupado, mas, quando promete, cumpre. Apesar de a senhora nutrir esse ódio por ele, sempre o amarei e mamãe também. Não acho bom guardar rancor no coração. Quem o cultiva é o primeiro a se prejudicar. Esse tipo de sentimento provoca emoções desordenadas que causarão problemas de saúde. Cuidado, vovó: eu a amo muito e a quero sempre do meu lado.
Augusta enterneceu-se:
- Ah, você é realmente um anjo. Mas esse repúdio que sinto pelo Humberto é mais forte que eu. Filha pense bem, já é do conhecimento de todos que sua mãe tem poucos meses de vida. Temos de nos conformar... Quero que quando ela nos deixar você venha morar comigo, em minha casa.
- Não, vovó, isso não! Gosto muito da senhora, mas vou continuar vivendo aqui. Ademais, quem somos nós para dizer que uma pessoa vai viver ou morrer? Só Deus é que pode saber e, enquanto há vida, há esperança. Mesmo assim, caso mamãe se vá, irei continuar aqui, nesta casa que ela tanto amou e da qual cuidou. Vou me casar e ter minha família, e quero que seja aqui o meu lar.
- Você não vê que viver ao lado de seu pai pode prejudicá-la? Ele vai colocar em sua mente valores perniciosos, vai influenciá-la, e você vai se perder. Comigo não correrá esse risco.
- Não acredito que ninguém influencie ninguém dessa maneira, como dizem. As pessoas podem nos sugerir atos, idéias, pensamentos, mas nós só fazemos o que queremos.
A conversa foi interrompida pela chegada de Humberto. Augusta levantou-se e foi logo perguntando:
- Onde está a enfermeira que você prometeu trazer hoje? Desde já, digo que não aceito desculpas. Se essa moça não vier, levarei Patrícia e Flaviana para minha casa. Você sabe muito bem do que sou capaz!
Humberto fez de tudo para não perder a paciência com aquela senhora intragável.
- Tive muitos compromissos hoje e só encontrei a pessoa ideal no fim do dia, de modo que ela não poderá vir hoje à noite, mas está contratada e começa amanhã cedo.
Patrícia deu um beijo nele e o abraçou. Augusta ia discutir, mas quando viu aquela manifestação de carinho entre pai e filha resolveu desistir.
- Espero que seja verdade. De qualquer maneira, vou dormir aqui hoje. Ligarei para Fátima ordenando que cuide de tudo em minha casa e amanhã bem cedo estarei de pé esperando a enfermeira. Se eu gostar, ela continua; se não, ela sai.
Dizendo isso, deixou os dois sozinhos na sala e dirigiu-se ao telefone.
- Conte-me como foi seu dia, papai.
- Ah, filha, muito cheio. Sempre que venho a São Paulo os compromissos políticos tomam a maior parte de meu tempo. Essa vida é boa, mas tem hora que dá vontade de deixar tudo.
- Queria o senhor mais presente aqui. Desde que meus irmãos morreram e que minha mãe adoeceu, esta casa está uma tristeza.
Humberto sempre se sentia mal quando alguém mencionava aquele assunto. Tentou mudar o rumo da conversa e logo estavam conversando amenidades. Após algum tempo, subiu e foi ver a mulher. Ela dormia, com uma aparência mais cadavérica do que no dia anterior, mas aquilo agora não importava. Tomou um longo banho e deitou-se. Começou a se lembrar de como tinha convencido Isabela a aceitar ser uma enfermeira em sua casa. Eles tinham parado na frente de um hotel simples.
- Vou instalá-la aqui primeiro. Dentro de uma semana terá sua casa com tudo de melhor e moderno que há.
Ela estava em estado de felicidade:
- Nem sei como lhe agradecer. Sinto não merecer o que está me ofertando.
- Não diga isso, você merece muito mais. Agora entremos, temos muito que conversar. Lembra da proposta que tenho a lhe fazer?
- Lembro, sim. Vamos entrar, estou ansiosa para saber.
Entraram. Já devidamente instalada e alimentando Daniel, ela começou a ouvir o que Humberto tinha a lhe dizer.

7 – ORIENTAÇÕES

Humberto contou a Isabela seus planos. Ele narrou, em detalhes, o desejo de torná-la sua esposa assim que Flaviana morresse. Mas, como parte inicial do plano, ela deveria ser a enfermeira zelosa que sua sogra tanto insistia que ele levasse para a mansão. Humberto nem percebia que não havia lógica nenhuma em se casar com uma mulher que mal conhecia. Envolvido que estava em processo de terrível fascinação, ele sequer questionava tal atitude. Assim como Humberto, a maioria dos encarnados toma decisões envolvidas pelas entidades espirituais das trevas, deixando o mundo no estado atual de sofrimento. Ao ouvi-lo, ela cogitou:
- Mas eu não tenho a mínima prática em enfermagem. Sua sogra vai perceber de imediato que não sou enfermeira. Será pior para você.
- Nem pense isso. Minha mulher está em seus últimos dias de vida, o trabalho não é tão complicado. Desde que ela adoeceu, os médicos indicaram como tudo deveria ser feito e a maior parte do trabalho são os empregados que fazem. Sua tarefa será apenas a de velar por ela, ministrando os medicamentos nas horas certas, a alimentação, etc. Verá como é fácil. Terá de passar as noites por lá. Cuidarei para que venha todas as manhãs ficar com Daniel. Ela o abraçou:
- Era isso o que me preocupava. Não posso ficar sem ver meu filho. Para que eu possa ficar lá durante a noite, tenho de contratar alguém que fique com o Daniel. Prefiro que seja a Eudásia, que é de minha confiança.
Ele cocou o bigode:
- Isso é comprar mais briga ainda com Aurélia. Eudásia trabalha para ela.
- Não me importa. Busque-a para mim e assim ficarei tranqüila para fazer o papel que me pede.
Humberto concordou. Pela manhã telefonaria bem cedo para Aurélia pedindo que lhe enviasse Eudásia para trabalhar e morar com Isabela. Tudo combinado, pela manhã Isabela já estava na mansão onde desempenharia o papel de enfermeira desvelada. Madame Aurélia ficou com muita raiva do senador pela ousadia de tirar dela mais uma funcionária, porém concordou insuflada por Luana, que com isso acabou descobrindo o novo endereço da ex-colega para realizarem os planos de vingança. Isabela ficou deslumbrada com a elegância da mansão. Nem em seus sonhos mais ambiciosos, ainda quando morava na favela, poderia imaginar que um dia seria dona de uma casa como aquela. Sim, porque ela pensava em ser dona de tudo aquilo. Humberto comprara uniforme e apetrechos de enfermagem, e ela estava perfeita. Sentada no elegante sofá, ela esperava. De repente uma jovem bonita se aproximou:
- Então é você que vai cuidar de minha mãe? Fico feliz em ter mais alguém com ela. Meu nome é Patrícia, sou filha de Humberto.
- Prazer. Meu nome é Isabela. Vou fazer o possível para ajudar sua mãe.
- É, mas vai ter de enfrentar as exigências da senhora Augusta. É minha avó, uma pessoa muito legal, mas muito exigente e dura. Se você não atender às expectativas dela, é capaz de perder esse emprego.
- Farei de tudo para estar à altura do que sua avó espera. Ela tem razão. Para lidar com esses problemas de saúde precisamos mesmo de pessoas competentes.
Nesse momento, do alto da escadaria surgiu Augusta. Quando a viu à sua frente, fitando-a com um olhar inquisidor, Isabela sentiu-se tontear. Não era possível! Quem estava ali era a mesma senhora que a humilhara e mandara espancar quando fora pedir esmola. Precisou de todo seu autocontrole. Felizmente Augusta não a reconheceu tão diferente que estava.
- Olá. Chamo-me Augusta, sou mãe da sua paciente. Vamos subir, tenho de lhe mostrar tudo e dizer como será seu trabalho.
Ela a acompanhou. Do sofá, Patrícia sentiu uma sensação ruim invadir o seu espírito. Não sabia explicar de onde vinha, mas não havia gostado da enfermeira. Algo nela não lhe inspirava confiança. Patrícia tinha aprendido, havia muito tempo, a confiar na intuição. Esta guia infalível, quando escutada, nos leva sempre à verdade, por mais escondida que ela nos pareça. Ela sentiu no íntimo que, com a chegada daquela mulher na sua vida, algo de macabro iria acontecer. Preferiu mudar os pensamentos e dirigiu-se ao curso. Isabela conheceu Flaviana e ficou muito feliz. Realmente aquela mulher não iria atrapalhar seus planos; pelo estado em que a viu, não duraria muito tempo. Tentou dissimular todo o ódio que sentia por Augusta, mas em sua mente já surgiam planos de vingança assim que casasse com Humberto e fosse dona de tudo aquilo. Tentou executar as tarefas direito, nos mínimos detalhes, para agradar à severa senhora. Durante a madrugada, enquanto to dos dormiam, Humberto a chamou e foram para um dos quartos da casa. Lá deram vazão aos sentimentos que os uniam. Nem se lembraram de que estavam em um lar que devia ser respeitado acima de qualquer coisa, e assim assumiam compromissos dolorosos que os iam encontrar fatalmente no futuro. Diana estava reunida com os amigos estudando o caso de Clotilde/Isabela. Sentados em uma sala, eles conversavam.
- Realmente, Bruno, nessa situação não podemos fazer muito. Antes Clotilde ainda nos ouvia durante o sono físico, mas hoje, quando nos vê, corre apavorada para o corpo de carne, recusando-se a ouvir nossas orientações. Devemos ter paciência e confiarmos na bondade divina.
Bruno ouvia calado com os olhos perdidos num ponto indefinido. Depois comentou:
- Ainda lembro com nitidez quando fomos resgatá-la no umbral em estado lamentável. Na caravana estávamos eu, você, Gabriel e Daniel. Após tempos conosco, perto de reencarnar, resolveu que mudaria e que desta vez faria tudo diferente. Mas a prova do reencontro com Humberto foi definitiva, e ela optou pelo caminho do erro mais uma vez. Mesmo conhecendo a origem do problema, ainda fico triste ao ver toda a programação de uma vida ser perdida assim com extrema facilidade.
Gabriel questionou:
- Não entendo onde tudo começou. Gostaria de conhecer a história dela. Pode me contar Diana?
- Sim. A história de Clotilde vem já de algum tempo, precisamente quando viveu na França, entre os séculos XVIII e XIX. Naquele tempo, ela era uma nobre da corte muito rica. Acreditava que entre pobres e ricos deveria sempre haver grande distância e os tratava com desprezo. Naquela época, no fim do século XVIII, a situação econômica e social da França era gravíssima. A maioria dos franceses da época eram camponeses que, em geral, trabalhavam nas terras de um nobre ou nas de uma ordem religiosa católica. Clotilde, que naquela época se chamava Nathalie, e seu marido, Henry, que hoje se chama Humberto tinham muitas terras e nelas viviam vários camponeses em sistema feudal, regime sob o qual tinham de entregar a maior parte da comida aos seus senhores. Muitas famílias nobres tratavam relativamente bem os campônios, dando-lhes boa moradia e melhores condições de vida, todavia na família de Henry o tratamento era péssimo. Nathalie não permitia que o marido, um homem relativamente bom, melhorasse a vida de quem trabalhasse para eles; deixava-os passar fome e morar em casebres com chão de terra. A vida corria bem para eles até o dia em que Nathalie conheceu um lindo camponês chamado Thierry e se apaixonou perdidamente por ele. Notando o interesse da senhora e tencionando melhorar de vida, Thierry aceitou com facilidade as suas investidas e ambos passaram a se encontrar secretamente numa cabana de caça um pouco distante da luxuosa propriedade dela.
Diana fez breve pausa para organizar suas lembranças. Depois prosseguiu:
- Nathalie se viu perdidamente apaixonada e dava somas e mais somas de moedas e jóias ao seu amante. Mesmo sabendo que Thierry só tinha interesse em seu patrimônio, cega de paixão, continuava o relacionamento. Foi aí que madame Philomene, a mãe de Henry, necessitou passar uns dias na casa do filho. Ela estava doente e era viúva; não queria morrer longe do filho único e amado. Porém, Philomene não morreu; pelo contrário, logo se recuperou. Aconselhada pelo filho, ela permaneceu no castelo, pois havia tido início o que hoje conhecemos como Revolução Francesa, e a cidade estava em polvorosa. A rotina do castelo foi alterada com a chegada da matrona e Nathalie teve de espaçar os encontros com Thierry na cabana de caça. Como Henry saía bastante a fim de resolver os problemas da imensa propriedade, pediu à esposa que cuidasse de sua mãe e velasse por ela. O receio de Henry foi logo compreendido quando, numa noite de inverno de 1789, seu castelo foi invadido por camponeses que se apropriaram de toda a comida e de documentos que registravam suas dívidas feudais. Houve morte e muita luta. Entre os camponeses estava Thierry que, a partir daquele momento, passou a residir fora das terras de Henry. Estando longe do amante, Nathalie sentiu-se muito triste. Seus filhos eram adultos e estavam fora do país. Foi então que resolveu escrever uma carta para ele marcando um encontro no lugar de costume. Sua fiel camareira, Morgan, iria entregar.
- E Nathalie conseguiu se encontrar com seu amante? - perguntou Gabriel.
- Ela não contava com as armadilhas que o destino costuma pregar - continuou Diana -, e saiu de seu quarto a procurar a empregada. Nesse momento, sua sogra, que entrara no recinto procurando por ela, viu sobre a escrivaninha a carta de amor e luxúria que seria enviada em breve para Thierry. Philomene apropriou-se da carta e quando Nathalie retornou ao quarto em companhia de Morgan, sem encontrar a missiva, entrou em surto quase psicótico. Não poderia imaginar quem estava com a carta, nem passava por sua mente que se tratava de Philomene. Após se acalmar, decidiu que precisava se manter atenta e descobrir o autor do roubo. Certamente teria sido um empregado do castelo que queria chantageá-la em troca de fortuna. A esse pensamento, sentiu-se calma. Mas as horas passavam, e nada de o chantageador falar com ela.
Gabriel escutava atentamente o desenrolar daquela história real.
- Em seu quarto, madame Philomene estava em estado de choque. Nunca poderia imaginar que Nathalie fosse capaz de semelhante ato. Decidida, contou tudo ao filho, sem atinar na tragédia que estava desencadeando. Henry, muito apaixonado pela esposa, não teve coragem de matá-la. Espancou-a várias vezes, jurando de morte Thierry onde quer que o encontre. Trancou sua mulher no castelo e ordenou que não saísse dali a partir daquele dia. Desesperada e pensando que Thierry pudesse morrer, Nathalie mandou que Morgan o procurasse e lhe avisasse que fugisse, pois corria risco de vida. Depois da fuga, quando tudo estivesse esquecido, ele deveria voltar e invadir a casa juntamente com outros campônios, e tirar a vida de Henry. Ela facilitaria tudo. Prometeu que ele seria um homem rico e ela uma mulher mais livre para amar. Também prometeu a Morgan muitas jóias, que a fariam uma mulher bem de vida, caso continuasse fiel a ela. Thierry fez tudo conforme o combinado. Durante a Revolução Francesa, os ataques de camponeses aos castelos se tornaram comuns e num desses ataques aconteceu o premeditado: Henry perdeu a vida. Philomene ficou arrasada, mas nem de longe conseguiu imaginar tratar-se de Nathalie a mandante do crime. Passados os primeiros tempos de luto, ela e Thierry voltaram a se encontrar. Ela continuou viúva em respeito aos filhos e, apesar de apaixonada, jamais se uniria a um camponês oficialmente.
Diana tomou fôlego, antes de prosseguir com a narrativa envolvente dos fatos:
- Charles e Luigi, filhos de Nathalie, tiveram de voltar da Inglaterra, pois a Revolução estava atingindo toda a Europa, e a Inglaterra planejava atacar a França na tentativa de conter o movimento. Os franceses já não eram mais bem-vistos naquele País. Com os filhos no castelo, e ainda a sogra, ficaram mais difíceis os encontros com o amante. Este, já rico com o dinheiro e as jóias que recebia da amante, estava começando a afastar-se dela. Percebendo isso, Nathalie pensava numa maneira de reconquistá-lo causando-lhe ciúmes. Começou então a sair com George, viúvo rico muito amigo da família. Iam a cafés e demais lugares públicos na tentativa de chamar a atenção de Thierry. Isso realmente aconteceu: Thierry passou a pensar, induzido pelo espírito vingativo de Henry, agora desencarnado, que merecia mais dinheiro, e as saídas de Nathalie com George indicavam que em breve ela se casaria novamente e ele perderia essa chance. Envenenado pela inveja, ele passou a persegui-la por toda a parte, até que um dia a encontrou comprando fazendas numa butique requintada.
- Thierry estava, então, sob a influência do espírito desencarnado de Henry? - perguntou Gabriel.
- Sim - respondeu Diana. - Thierry, após abordá-la na butique - prosseguiu -, começou a ameaçá-la e marcaram assim novo encontro na cabana de caça. Radiante, ela foi. Luigi estava caçando por perto e viu horrorizado quando a mãe entrou com um homem na cabana. Espreitou por uma fresta e os viu fazer amor. Seu sangue subiu à cabeça e ele pensou em matá-los ali mesmo, todavia seu espírito guardião o aconselhou a esquecer o assunto e a perdoar. Ele não conseguiu. Durante os dias que seguiram, influenciado por um espírito inimigo da mãe, ele traçou meticuloso plano. Sua mãe não poderia dar aquela vergonha a ele e ao irmão; era preferível vê-la morta a estar nos braços de um homem como aquele. Durante uma madrugada, ele entrou devagar e silencioso no quarto dela e a sufocou com um travesseiro. Assim Nathalie regressou ao astral. Todos pensaram se tratar de parada cardíaca; ninguém cogitou a possibilidade de Luigi ser o assassino da própria mãe. Assim que seu corpo astral se libertou do físico, o espírito dementado de Henry passou a persegui-la incansavelmente e a fez prisioneira por anos a fio no umbral. Depois disso, Thierry, em uma terrível discussão com Luigi, acabou sabendo que o próprio filho tinha matado a mãe quando descobrira que ela e ele se relacionavam. Cego de ódio e pensando ter sido madame Philomene quem os delatara, assim como fizera da última vez com o filho, Henry, ele assassinou a velha senhora com requintes de crueldade.
- E como termina tudo isso? - inquiriu com interesse Gabriel.
- Em mil setecentos e noventa e oito, desiludidos e sozinhos, Charles e Luigi se entregaram passivamente à morte numa das batalhas de Napoleão Bonaparte e chegaram ao mundo espiritual em situação lamentável. Suicidas, passaram por terríveis tormentos. Basicamente, amigos foi isso que aconteceu.
Diana encerrou a narrativa e Gabriel estava estupefato; nunca poderia imaginar que a história de Clotilde envolvesse tantas peripécias. Diana concluiu:
- Após passar por tantos sofrimentos, Clotilde ainda não conseguiu encontrar o caminho da evolução pelo amor. Aqui, em nossa estância de paz, ela foi orientada a respeito de que isso era possível, todavia escolheu sofrer em vez de encarar seus problemas de outra forma.
Bruno completou:
- Infelizmente, a maioria dos espíritos desencarnados escolhe apagar suas culpas por meio da expiação e do sofrimento. Bom seria se todos nós pudéssemos aprender somente pelo bem.
- Você tem razão, Bruno. Atualmente na Terra já é possível acabar com todo o sofrimento, mas a humanidade é que tem de fazer a própria libertação espiritual pela qual tanto anseia. Em via de se regenerar, nosso planeta, ao qual estamos ligados há séculos, está deixando já há algum tempo a velha forma de evolução pela dor. Vale a pena salientar que a dor é a forma mais Primitiva de evolução. Ela só acontece em mundos ainda inferiores; em planos mais elevados nem as lágrimas existem mais, há muito foram abolidas - esclareceu Diana. Gabriel estava com dúvidas:
- Lembro-me de que ajudei a resgatá-la. Só que naquele tempo eu era um novato no mundo espiritual. Iniciava meu trabalho como uma espécie de terapia para meu espírito, que estava arrasado pelas culpas e pela saudade que sentia dos que haviam ficado por isso não pude acompanhar o processo de reencarnação desse grupo. Como foi que isso aconteceu?
- De forma sofrida, infelizmente - retorquiu Diana. - Como já lhe contei, Nathalie chegou aqui com muitos compromissos assumidos perante a própria consciência. Assim que desencarnou, teve como algoz seu marido, Henry, que, se sentindo traído, a perseguiu cruelmente. Com seus companheiros de uma falange das trevas, ele a tirou do corpo e a levou para uma caverna onde ficou presa durante décadas e onde era violentada todos os dias. Para piorar seu estado, Henry revelou como foi sua morte e ela começou a se sentir culpada por tantos erros, inclusive o de ter induzido o próprio filho a matá-la. Tendo consciência de que muito fracassara, Nathalie julgava estar no inferno, atirada às penas eternas. Não se lembrava de rezar nem de pedir auxílio a Deus. Por causa disso, demorou muito para ser resgatada.
- Madame Philomene também passou por muitos sofrimentos deste lado da vida - continuou Diana. - Não acreditava estar morta e vagou sem rumo pelo umbral por mais de dez anos, sentindo todas as necessidades de quando estava viva sem poder supri-las. Quando encarnada, julgava que o sexo era apenas para a procriação, e com isso reprimiu toda manifestação de sexualidade que lhe aparecia, até que um dia um grupo de homens ainda presos a esse vício a encontrou e sem mais dificuldades a levou para o Vale do Amor Livre, onde passara a molestá-la sexualmente, sem se importar com a idade que ela aparentava. Tendo reprimido tanto a própria sexualidade, madame Philomene passou a gostar de ter relações com aqueles espíritos. A essa altura, seu próprio marido também fazia parte daquela horrível situação e ela havia se convencido de que tinha deixado à carne. Algum tempo depois, ela foi convidada a uma excursão pelo Vale dos Suicidas e lá encontrou seus netos com os corpos perispirituais "chumbados" ao chão. Olhos vítreos, eles estavam presos e pareciam congelados. Foi então que ela começou a perceber a real situação em que estava e o remorso começou a persegui-la. Seu desejo maior agora era rever o filho Henry e retirar seus netos daquela situação. Um dia, após tanto chorar, orou a Deus e foi atendida. Chegou à nossa colônia prometendo se regenerar, conquanto tirássemos seus netos do Vale e ela pudesse ter ao lado o filho e o marido. Então lhe explicamos que naquele momento não era possível, que ela tinha de cuidar de si mesma, procurando ser feliz. Em seguida, aconselhamos a reencarnação, que ela aceitou depois da aprovação do Plano Superior.
- E quais seriam as características de sua nova vida? - perguntou Gabriel.
- Renasceria pobre, pois achava a riqueza perigosa e má. Escolheu o Brasil, precisamente o interior do Nordeste, e lhe foi concedida à oportunidade: seria uma mãe de família honrada e criaria os filhos para o bem, pois como mãe de Henry havia fracassado e dado a ele uma educação perniciosa, baseada nos falsos valores da sociedade. Longe da cidade, ela também aprenderia a se aproximar mais de Deus no contato com a natureza, ainda que inóspita. Assim ela nasceu - explicou Diana. - todavia as chagas do espírito são como ímãs e em pouco tempo os espíritos com os quais ela se consorciou no astral em atos sexuais a encontraram. Diante das dificuldades que ela enfrentava quando moça, sugeriram a prostituição, idéia que ela acatou com facilidade. Logo estava fazendo na Terra o que fazia quando desencarnada. Anos depois, montou uma casa de prostituição e até hoje, como Aurélia, ainda se especializa em vender o corpo em troca de dinheiro.
- Durante os anos em que Philomene passou encarnada, muitas coisas aconteceram - prosseguiu Diana. - Pudemos resgatar Charles e Luigi e os conduzimos a uma colônia correcional. Lá eles estagiaram durante anos. Mas mesmo assim não melhoravam. O ato do suicídio lesa o corpo astral profundamente e eles precisavam voltar a Terra com urgência. Oraram com fervor a Deus e a Jesus para que Nathalie fosse socorrida. Eles teriam de reencarnar, mas não podiam imaginar a mãe em tão terrível situação. Luigi estava com remorsos por tê-la assassinado e queria seu perdão. Todos estavam reunidos, menos Henry, que se recusava a ser socorrido. Por isso foi submetido a uma reencarnação compulsória, e veio ao mundo como Humberto. Era um espírito ainda muito ligado ao materialismo e às conveniências de quando viveu como nobre na França. Dessa maneira, foi facilmente envolvido pela política e pela corrupção, coisas que estava tão habituado a fazer. O casamento, que foi lhe dado para aprendizado interior, logo foi deixado de lado. Até hoje a única coisa que realmente o sensibilizou foi à morte de Alfredo e Marcos, que foram Luigi e Charles reencarnados. Interrompendo a narrativa, Gabriel perguntou:
- E Nathalie, vai voltar à vida de Humberto? Afinal, foram marido e mulher no passado.
- Sim. Flaviana foi o espírito que induziu Luigi a sufocar a mãe naquela noite. Elas são inimigas de passado remoto; fatalmente iriam se encontrar quando encarnadas. Na Terra ninguém se encontra com ninguém pela primeira vez, principalmente nas relações de afeto. O casamento com Humberto iria terminar na hora exata e ele assumiria Isabela como esposa, para assim melhorarem como espíritos. Mas muita coisa saiu da programação e mais uma vez eles escolheram o sofrimento.
- Como assim? Na Terra as coisas podem acontecer fora da programação? - perguntou Bruno.
- Sim, e é o que mais acontece. Chamada a reencarnar, Nathalie disse que viria, mas desta vez em miserável situação. Depois de tudo que sofrerá, ela criou na mente a crença de que a riqueza é ruim e só a pobreza pode levar à evolução. É um pensamento equivocado, mas no qual muitos acreditam geralmente movidos pelos remorsos. Ela poderia ter vindo rica mais uma vez e ter usado sua fortuna para produzir o progresso no meio social e auxiliar a todos que prejudicou no passado, todavia preferiu o egoísmo de sofrer sozinha e foi viver numa favela com casa de piso de terra, assim como os camponeses que lhe serviam viviam. Sofrer sempre será um egoísmo, pois pelo bem e pelo amor vamos ajudar o próximo muito mais do que sofrendo. Clotilde não acredita nisso e prefere a vida que vem levando. Todavia, mesmo a duras penas, teria a chance de progredir. Se a qualquer momento ela passasse a crer de forma diferente, mudando os pensamentos para outros mais prósperos, logo estaria bem de vida e evoluiria com mais facilidade. Mas, movida pelos espíritos inferiores, preferiu ser prostituta e subir na vida de modo ilícito, o que fatalmente vai acabar em mais sofrimento.
- Ela vai conseguir se casar com Humberto? - perguntou Bruno.
Diana explicou:
- Isso está na programação. Eles precisam se unir até mesmo para ajudar Thierry, que está na Terra como Daniel. Ex-amantes agora como mãe e filho, eles vão sublimar a paixão que tanto os fez sofrer. Humberto, vendo-o agora como uma criancinha doce inocente, esquecerá que ele foi seu antigo rival e assassino, e o perdoará. Por outro lado, vendo-o como pai, Thierry vencerá o ódio e aprenderá a amá-lo, mas ainda terá de sobrepujar seus instintos violentos. Para isso, contará com o espiritismo, com o qual ele assumiu se comprometer na tentativa de melhorar e evoluir. Se tudo correr assim, apesar dos erros, Humberto e Clotilde poderão ser felizes. Mas os espíritos das trevas estão atentos e vão fazer de tudo para que eles fracassem mais uma vez. Por isso estamos aqui, para ajudá-los, sempre contando com o amparo de Deus e de Jesus!
- Como é difícil vencer quando estamos na Terra, Diana! - ponderou Gabriel.
- Isso acontece porque não ouvimos a voz da nossa própria alma. Ela sabe tudo o que precisamos fazer para alcançar a felicidade. E por intermédio da intuição que o Criador se comunica conosco, nos orientando a alcançar o caminho mais indicado para atingir nossos objetivos superiores. Quem não ouve a própria alma, facilmente se perde no turbilhão do mundo e, fazendo escolhas erradas, sofrerá bastante. Só vence na vida aquele que está do lado da espiritualidade, dos valores eternos do espírito, que são muito diferentes dos valores da sociedade. Quem vive de acordo com as leis universais, mesmo contrariando as leis sociais, vai estar sempre equilibrado e feliz.
Os amigos terminaram de conversar e, após um abraço amigo, se despediram. Bruno e Gabriel foram dormir na casa onde residiam na própria colônia. Diana era um espírito muito avançado, então aproveitava a noite para estudar os casos em que trabalhava ou então ia ler os livros de espíritos que eram mais evoluídos que ela, livros esses que as pessoas da Terra ainda não conheciam e que, mais tarde, quando a humanidade estivesse melhor, chegariam a Terra por intermédio de médiuns dedicados e responsáveis.

8 - ADQUIRINDO COMPROMISSOS

A noite estava fria e Isabela folheava um livro, sem muito interesse, na cabeceira da cama da moribunda.
- Como está à mamãe? - Era a voz de Patrícia, que acabava de entrar no quarto.
- Está bem melhor hoje. Aliás, sua mãe tem melhorado muito ultimamente.
- São seus cuidados. Depois que vovó teve a idéia de trazer uma enfermeira para cá, tudo melhorou. Até papai está mais presente no lar, coisa que não fazia antes.
Isabela mordeu os lábios. Aquela sirigaita nem desconfiava o porquê de o pai estar tão presente.
- É mesmo, o senhor Humberto tem se interessado bastante pelo lar. Sinto que a melhora de dona Flaviana o tem deixado mais alegre e motivado para estar em casa.
- Deus a ouça; sinto muito a falta de papai aqui.
Flaviana tossiu e acordou:
- Filha, que bom acordar e ver você!
- Vim aqui ver como à senhora estava. Não queria ir ao centro sem vê-la. Isabela me disse que a senhora melhorou.
- Sinto-me mais forte ultimamente. Também, pudera... Com um anjo como Isabela à minha cabeceira não tinha como não melhorar.
Patrícia a beijou, despediu-se e saiu do quarto. As duas ficaram sozinhas. Isabela costumava conversar com Flaviana sobre amenidades e, depois de alguns minutos, ela estava novamente adormecida. Isabela recomeçou a leitura, sempre atenta ao menor ruído para ver se Humberto havia chegado. Agora, três vezes por semana ele estava em casa. Mesmo com os compromissos em Brasília, ele fazia questão de voltar para o lar, onde dava vazão a sua paixão por ela. O quarto de Flaviana tinha uma vidraça que dava para o jardim e o portão da frente. Era dia de Humberto chegar e, ao menor ruído de carro, ela corria para vê-lo. Estava ansiosa. Quando aquela mulher cadavérica iria morrer para ela se tornar logo dona da mansão? O tempo passava e Humberto não chegava. Ela acabou adormecendo na cadeira de balanço. Assim que se desligou do corpo, percebeu uma pessoa à sua volta. Era Romário, que demonstrava ansiedade no rosto.
- Parecia que você não ia dormir nunca. Estava ansioso para lhe falar; preciso com urgência lhe fazer um alerta.
Ela, meio assustada, não reconheceu de imediato àquela pessoa tão feia e suja. Depois de alguns instantes, se lembrou:
- Ah, o que é desta vez, Romário?
- Você precisa agir muito rápido. Por acaso quer perder a chance de ser a dona de tudo isso aqui?
- Como assim? Não vou perder a chance. Essa mulher doente logo morrerá e Humberto vai se casar comigo. Ele me prometeu e sei que é homem de palavra.
- Eu não estaria tão certo disso - respondeu Romário maliciosamente.
- Como assim? Ele está com outra? Diga-me, por favor - ela começou a se desesperar, afinal confiava em Romário, e, se ele estava lhe dizendo aquilo, havia de ter um motivo.
- Não é isso. Humberto é fiel a você. O que acontece é que você não está enxergando o óbvio. Flaviana está se recuperando. A doença dela deixou de se desenvolver e está regredindo. Daqui a alguns meses estará boa e voltará a reinar absoluta como dona desta casa. Humberto, pressionado pela sogra e pela filha, não vai ter coragem de se separar. Você terá de se contentar em ser uma reles amante.
Ela começou a sentir ódio.
- Isso não pode acontecer. Bem que suspeitei que ela estivesse melhorando. O que posso fazer para me livrar dessa mulher de uma vez por todas?
- Matá-la! E isso que deve fazer. Se não matar Flaviana, não vai conseguir ser a senhora desta casa.
- O quê? Nunca matei ninguém, isso é errado!
- Boba! Ou faz isso, ou perderá sua chance de ficar milionária. Aproveite enquanto ela dorme e a sufoque com o travesseiro. Todos pensarão que foi parada cardíaca e ninguém suspeitará de você. Acorde no corpo físico e mate-a sem piedade. Ademais, na última encarnação, ela foi o espírito que influenciou seu filho a matá-la. Você apenas fará justiça.
- Isso mesmo. Vou agora para o corpo e farei o que me indicou, só assim serei rica e feliz.
Romário sorria de prazer mórbido. Tinha conseguido enganar Isabela facilmente. A melhora de Flaviana era temporária, ele sabia que a insuficiência renal crônica não tinha cura, mas o que ele queria era comprometer ainda mais Isabela com as leis de Deus. Os espíritos inferiores induzem os outros ao mal com um único propósito: o de os fazer infelizes como eles. A felicidade das pessoas é um verdadeiro tormento para os espíritos inferiores, então, para vê-las infelizes também, eles as induzem ao mal. Isabela, com esse ato se comprometeria seriamente e seria tão infeliz quanto eles num futuro próximo. Ainda que as leis da Terra jamais descobrissem seu crime, as leis divinas agiriam sem erro até forçá-la ao reajuste. Num susto, Isabela acordou. Olhou novamente pela vidraça e nada de Humberto. Já era tarde e àquela hora ele não viria, ficaria no apartamento em Brasília. Certamente os compromissos lá tinham se intensificado e ele não pudera voltar para casa. Olhou Flaviana adormecida e percebeu que sua respiração estava normal. Aquela mulher estava melhorando e isso era péssimo para ela. De repente, um pensamento a invadiu: "E se ela melhorar?" Já ouvira falar de casos em que o paciente estava com o pé na sepultura e mesmo assim havia se recuperado e passado a levar vida normal como antes. Não, isso não podia acontecer. Flaviana estava perto da morte e nada a faria se recuperar. Tentou se concentrar no romance, mas não conseguia. Algo lhe dizia fortemente que Flaviana iria se recuperar e voltar a ser a senhora daquela casa. Isso ela não podia deixar acontecer; tinha de fazer algo. Nas últimas semanas, Flaviana tinha melhorado muito. Se recuperasse, não permitiria que Humberto se separasse dela para se casar com outra. A velha chata da Augusta continuaria a imperar e ela não poderia se vingar. De repente, outro pensamento lhe tomou: "E se ela morresse? Só assim tudo ficaria resolvido". Estranha força a envolveu e ela pegou o travesseiro sobre o qual Flaviana dormia. Bruscamente, começou a apertá-lo contra seu rosto. Flaviana acordou assustada e tentou gritar, mas a voz não saiu. Sentiu que alguém a sufocava, mas não sabia quem. Isabela tinha força multiplicada e, ao perceber que a vítima tentava se livrar apertou ainda mais o travesseiro. Em desespero, a enferma sentia perder o resto de suas forças e concluiu que ia morrer. Ao pensar nessa hipótese, um mórbido pavor a invadiu e ela perdeu os sentidos. Isabela, ao se certificar de que Flaviana estava morta, foi para sua poltrona e fingiu dormir. Como se sentia aliviada ao pensar que agora tudo seria seu! Pela manhã teria de estar preparada para representar o papel de surpresa e inocente. Amanheceu. Augusta e Patrícia estavam reunidas na mesa tomando o café. Era sempre assim; elas acordavam, tomavam o café e depois iam ver Flaviana. Augusta, mesmo depois que Isabela chegara, continuava praticamente morando na mansão, tão preocupada estava com a filha. De repente, ouviram um grito agudo vindo de cima. Com o susto, elas correram a fim de ver o que era. Ao chegarem, viram Isabela chorando ajoelhada aos pés de Flaviana, que parecia morta. Sentindo o que tinha acontecido, Augusta desmaiou. Logo os empregados chegaram e se enterneceram ao ver o desespero de Isabela e o choro baixinho de Patrícia, debruçada sobre a mãe. Levaram Augusta para outro quarto e telefonaram para Humberto dando a fatídica notícia. Nem perceberam o exagero cometido pela enfermeira, que nem de longe se importava com a situação.
- Levante Patrícia - dizia Zulmira, antiga empregada da casa. - Não vai adiantar ficar aí debruçada. É hora de rezar e pedir a Deus que receba a alma de dona Flaviana no céu. Era uma santa mulher.
Patrícia levantou-se e seguiu com ela. Tudo parecia um pesadelo. Isabela, olhos inchados, depois de contar sua versão dos fatos ao médico, foi para casa. No trajeto não conseguia esconder a egoística satisfação com o que tinha feito. O doutor Vasconcellos diagnosticou parada cardíaca e ninguém nunca iria desconfiar dela. Mas, mesmo assim, tinha de disfarçar. Eudásia estava lá cuidando de Daniel e ela não poderia desconfiar de nada; seria um segredo que levaria ao túmulo. Em casa, Isabela fez a mesma cena com Eudásia, que de nada desconfiou. Algumas horas depois na mansão, Humberto havia acabado de chegar. Abraçou a filha e tentou confortá-la como pôde. O pessoal do centro espírita estava lá e reanimara Patrícia com palavras de consolo. Augusta estava inconsolável. Chorava, gritava e desmaiava repetidas vezes, até que o doutor Vasconcellos a fez dormir com uma alta dose de ansiolítico. O velório foi na capela de um rico cemitério. Isabela compareceu e estava com Augusta o tempo inteiro. Naqueles seis meses trabalhando lá, ela fizera grande amizade com a sogra de Humberto. Com extrema falsidade, tinha se acercado da senhora e conquistara sua afeição. Ouvia-lhe as confidencias. Augusta era severa e só tinha amigas de sua idade e religião, mas com Isabela ocorrera uma exceção; ambas teriam se tornado grandes amigas, não fosse à hipocrisia de Isabela. Humberto estava cercado por amigos do Senado e até o presidente compareceu. Isabela ficava imaginando como seria maravilhoso ser a esposa dele e brilhar na sociedade. Foi com esses pensamentos que viu o corpo de Flaviana ser sepultado. Augusta não permitiu a cremação. Naquela noite, o ambiente estava triste na mansão. Humberto, que tinha passado quase a vida inteira longe da filha, não sabia agora como se aproximar dela. Ele também se sentia mal. No fundo, sua consciência já o acusava de ter sido interesseiro e se casado sem amor. Naquele instante, o remorso pareceu aumentar. Na sala com a sogra e a filha, cada um a um canto do sofá, ele não sabia como quebrar aquele mórbido silêncio.
- Sei que é muito triste... - começou ele. - Mas precisamos acabar com esse silêncio pavoroso que se instalou aqui. Dona Augusta é hora de deixarmos para trás nossas desavenças e nos tornarmos amigos, pelo bem de Patrícia.
- Sei o que você quer, mas não vou ceder. O que lhe disse antes de minha filha morrer repito agora. A partir da próxima semana Patrícia vai viver comigo em minha casa; não posso permitir que ela passe a viver aqui sozinha. Não volto atrás na minha decisão.
Patrícia, ainda com os olhos inchados, pareceu sair do torpor que a invadia e se defendeu:
- Vovó, já conversamos sobre isso. Eu lhe disse que, apesar de ter apenas dezoito anos, sei bem o que quero da vida. Não vou morar com a senhora, apesar de amá-la bastante. Ademais, se eu sair daqui, o que será feito desta casa tão grande da qual mamãe cuidou com tanto carinho? O que será desses empregados que cuidaram de nós durante tanto tempo? Não, não vou sair. Pretendo me casar e morar nesta casa. Acredito que quando mamãe despertar no plano espiritual ficará contente ao me ver aqui.
- Você e essas suas idéias. Sua mãe morreu, e, como todos que morrem, ela estará dormindo até o último dia; não vai poder ver nada. Veja só, Humberto, o que sua negligência fez! Até entrar para uma seita horrível sua filha entrou. E claro! Flaviana, sempre doente, não pôde guiá-la como deveria, e você, que tinha essa obrigação, a abandonou, por isso segue esse caminho. Temo por você, minha neta. Pode até enlouquecer com essas idéias.
- A senhora não pode falar de uma coisa que não conhece. O espiritismo é uma filosofia séria, voltada para o bem. Além do mais, ela consola mais do que qualquer outra religião que existe no mundo. Não quero ofendê-la, mas sua religião não acredita no perdão de Deus, uma vez que considera o inferno como um lugar de padecimentos eternos, e também não consola, já que acredita que os espíritos não se comunicam e não têm consciência de si mesmos. Eu aprendi com o espiritismo que Deus é bom, sempre perdoa seus filhos e não fecha a porta para nenhum deles, por mais errados que pareçam estar. Aprendi que a morte não existe e que a vida é eterna. Acredito que minha mãe, agora, está amparada por espíritos de luz, descansando em algum lugar, e isso me dá consolo e alegria.
- Patrícia, sua avó está certa. Nunca obriguei ninguém a seguir religião alguma, mas acredito que este não seja um caminho bom para você. Se essa religião lhe desse consolo mesmo, não teria chorado tanto a morte de sua mãe.
- Chorei sim, e ainda vou chorar mais, pois a amava, e quem ama sempre sente quando se separa do ser amado. Mas meu choro é como se fosse por mamãe ter ido fazer uma longa viagem. Não choro o "nunca mais". Sei que, se Deus a levou, foi porque assim foi o melhor. Tenho certeza de que um dia a reencontrarei.
Augusta estava indignada.
- Que desgosto! Para mim é horrível ter uma neta nessa religião. Se você fosse igual à Isabela... Ela sim é que é uma pessoa sensata e tem aprendido muito com minha experiência. Tornamo-nos amigas e ela ouve tudo quanto eu digo, já você...
- Pense como quiser. Só aviso que não irei morar com a senhora. Agora vou dormir, porque estou muito cansada.
Dizendo isso, beijou o pai e subiu. Augusta ficou sozinha com Humberto.
- Você está vendo no que está se transformando sua filha: numa anarquista. Isso é o resultado da sua ausência aqui no lar. Saiba que eu nunca o perdoarei por tudo que fez minha filha passar. Vou amanhã para minha casa, mas ficarei atenta ao que acontece aqui. Não permitirei que se case com outra enquanto eu for viva.
- Dona Augusta, hoje todos os ânimos estão exaltados. É melhor termos essa conversa depois. Patrícia vai morar aqui com a Zulmira e com os outros empregados. Ela já é bastante adulta para escolher o que quer da vida. Não posso estar aqui todo dia, mas vou mandar redobrar a segurança da casa e sei que com Zulmira, que a viu nascer, ela estará protegida.
Augusta começou a chorar e Humberto, angustiado, deixou-a sozinha. Desse modo, ela passou o resto da noite chorando o triste destino e a morte de sua filha.
- Eudásia, a felicidade vai entrar para sempre em minha vida! Não consegui nem dormir direito esta noite pensando no que me acontecerá de agora por diante - falava Isabela à sua fiel amiga desde os tempos do bordel.
- Mas não consigo entender... Ontem você estava chorando tanto a morte de dona Flaviana, e hoje já está tão alegre?
- Percebi que de nada me vale ficar chorando por ela. Chorei ontem porque cuidei dela, e acabei me apegando à enferma. Mas a morte dela é um passaporte para a vida que eu tanto sonhei.
Levando um pão à boca, Eudásia questionou:
- Você acredita mesmo nisso, menina? Será que o senhor Humberto vai realmente cumprir suas promessas?
- Nem diga isso. Claro que vai! Ele está apaixonado, e você sabe como é um homem assim. Dei muita sorte nesta vida; nunca pensei ser possível sair daquela favela horrível onde eu vivia.
Eudásia silenciou. Isabela estava muito feliz e ela não queria tirar suas esperanças. Resolveu mudar de assunto:
- Agora que sua tarefa como enfermeira terminou o que pensa em fazer?
- Bom, vou continuar visitando dona Augusta e ficar cada vez mais amiga dela. Sei que vai ser um choque quando ela descobrir que eu serei a futura mulher de Humberto, mas ao mesmo tempo ela nunca vai desconfiar de que já nos relacionávamos.
- Será? Ela pode ficar com muito ódio de você e deduzir que já eram amantes. Tenha muito cuidado.
Isabela ia responder quando viu Daniel se aproximar. Era uma criança muito bonita e esperta, de cabelos encaracolados, branquinho e com olhos castanho-claros. Parecia um anjo. Ela se enterneceu. Realmente, a única coisa que mexia com as fibras mais íntimas do ser de Isabela era seu filho. Pegou-o e o colocou no colo. Estava assim, dando comida a ele, quando a campainha tocou. Eudásia foi abrir e a figura de Humberto apareceu. Rapidamente Isabela levantou-se para recebê-lo e ambos se beijaram. Já na sala, ele começou:
- Estou indo hoje para Brasília e não poderia deixar de passar aqui antes para vê-la.
- Meu amor, a cada dia sinto que nascemos um para o outro. Em que dia vamos nos casar?
Ele cocou o bigode.
- Vocês, mulheres, nem esperam o período de luto e já querem agarrar a todo custo o viúvo... - falou ele sério.
- Nossa, Humberto, não sabia que você era dado a ser puritano. Nem parece o mesmo homem viril que me possuía no quarto vizinho ao da sua esposa.
Ele sorriu.
- Boba! Falei isso de brincadeira. Olhe que nem sou homem dessas coisas, veja só no que você me transformou. - Ele deu uma pausa. - Não podemos pensar em nosso casamento agora. Devemos ser discretos, se não quisermos ser impedidos por Augusta. Ainda ontem conversamos e ela me disse que não deixará que eu me case outra vez.
- Mas que petulância daquela velha! Tenho ganas de matá-la com minhas próprias mãos. Se não fosse nosso plano, não a estaria mais suportando.
- Você precisa ser a melhor atriz possível. Quando formos nos casar, ela deverá pensar que nunca nos relacionamos antes. Será um problema a menos.
Isabela começou a fazer beicinho para ele e logo estavam na cama, acompanhados por entidades viciadas que usavam suas energias no campo do sexo. Isso acontecia porque tanto ela quanto Humberto viviam e acreditavam na maldade.
Alguns dias se passaram e Flaviana começou a despertar. Via vultos de pessoas ao seu redor, mas o sono era maior e ela voltava a adormecer. Ficou assim durante um tempo até o dia que acordou de vez. Ao abrir os olhos, teve uma surpresa: estava deitada com muitas outras pessoas em uma espécie de cama de vidro ao ar livre. Intimamente perguntou-se onde estava e que lugar era aquele, tão bonito. As camas estavam sobre um chão coberto de uma grama muito verde, cheia de gotas de orvalho. As pessoas pareciam dormir ou relaxar, e algumas conversavam com outras, que pareciam lhes passar informações. Tentou chamar uma dessas pessoas, mas não conseguiu; elas estavam um tanto distantes. Em sua sala, Diana estava com Gabriel à sua frente.
- Vá, Gabriel, e faça o possível para não chocá-la. - Flaviana, assim como a maioria dos que estavam naquela ala de refazimento, não tinha consciência de que já havia deixado o corpo de carne, e saber disso de forma abrupta podia levá-la ao desespero. - Faça como sempre fez; seja sincero e firme ao mesmo tempo, mas deixe-a ciente da sua nova condição.
Gabriel aquiesceu e se dirigiu para a ala. De onde estava até o parque destinado a receber os recém-chegados havia certa distância, e ele usou a volitação. Logo estava se aproximando de Flaviana. Ela estava impaciente, via as pessoas atender as outras nas camas, mas ninguém ia procurá-la. Começou a se angustiar. Por que sua mãe a levara para um lugar de terapias alternativas? E seus aparelhos? Ela estava atordoada. De repente, viu a figura de um jovem de seus vinte anos sorrir para ela e depois aproximar-se.
- Como está dona Flaviana? Sente-se bem?
Ela se sentou.
- Sim. Muito bem, por sinal. Até que enfim alguém veio falar comigo. Estou aqui há horas e ninguém vem conversar, me dizer onde estou. Afinal, que lugar é este?
- A senhora está numa colônia de recuperação. Aqui é um local de recuperação e refazimento, onde a senhora poderá ser muito feliz, se souber aproveitar.
Ela pareceu não entender.
- Colônia? Nunca ouvi falar nesse lugar. Será um lugar para loucos? Se for, então erraram comigo, pois minha doença é nos rins.
Gabriel sorriu:
- Fique tranqüila. Aqui não é um local de loucos como à senhora conhece. Como já lhe disse, é um local de refazimento. Esta ala é destinada aos recém-chegados. A propósito, como está se sentindo fisicamente?
- Estou muito bem. O mal-estar passou, não sinto o corpo cansado... Aliás, não sinto mais nada da minha doença. Por quê?
- E que aqui as doenças desaparecem.
- Nossa que lugar fantástico! Como Humberto o encontrou? Ou terá sido minha mãe?
- Ninguém o encontrou. A senhora chegou aqui sozinha, porque era a hora.
- Olha rapazinho, você não responde nada com clareza. Até agora, só me deixou mais confusa ainda. Como cheguei aqui sozinha se não tinha forças nem para andar?
- A senhora veio viver nesse lugar pela misericórdia divina. Agradeça; nem todos podem estar aqui.
- Quer dizer que estou internada? Cadê os aparelhos que filtram meu sangue?
- Aqui a senhora não vai mais precisar deles. Se quiser, poderemos dar uma volta e poderá conhecer o lugar. Aqui é muito bonito.
- Estou percebendo. Parece o paraíso. Onde estamos é muito verde e essas serras que nos circundam dão um ar maravilhoso ao local. Estamos em São Paulo?
- Não, estamos distantes de lá agora. Mas não se preocupe com isso. Vamos dar uma volta?
Flaviana começou a ficar preocupada. Afinal, que lugar era aquele? Levantou-se e foi andando por entre as outras camas. Via crianças com copos de água molhando a testa de pessoas que dormiam, outras pessoas empunhavam as mãos sobre a fronte, e ela ficou ainda mais confusa. Crianças trabalhando em hospitais? Durante o trajeto, Gabriel ia explicando com evasivas as dúvidas dela sobre o ambiente em que estava. Flaviana ficou tão empolgada que por instantes se esqueceu de Patrícia, Humberto e de sua enfermeira, Isabela. Aquele lugar era lindo! Flaviana viu animais domésticos, coelhos, gatos, cachorros, cavalos; observou pessoas colhendo flores, crianças brincando, mulheres entretidas com o jardim. Não pôde conter a pergunta:
- Nunca vi ou estive num lugar tão bonito assim. Aqui é tudo natureza? Não vejo casas... Onde fica a sede?
- A senhora vai conhecer, mas não agora. Aqui é uma cidade. À parte em que estamos é uma zona onde predomina apenas a natureza, porém mais à frente temos conjuntos de habitações e prédios onde às pessoas realizam as mais diversas tarefas.
- Agora foi que fiquei confusa. Primeiro você me disse que aqui era um lugar de recuperação, então pensei que fosse um hospital. Agora me diz que é uma cidade. O que me deixa tranqüila é que estou bem e sei que foi minha mãe ou Humberto que me trouxeram para cá, logo é um lugar seguro. Mas quero falar com o diretor, saber que dia posso sair ou ver minha família. Que horas posso falar com ele?
- Agora vamos voltar àquele lugar onde a senhora estava e voltará a descansar. Depois prometo que falará com o responsável.
Flaviana estava muito bem-disposta e não queria descansar, mas resolveu obedecer. Pensava estar fazendo um tratamento inovador que deveria seguir à risca. Nem cogitou que, se estivesse na Terra, jamais poderia ficar sem os aparelhos. Chegando ao lugar novamente, deitou-se. Um homem maduro começou a empunhar as mãos na fronte dela, que logo adormeceu, sem perceber que saíam energias brilhantes das mãos daquele abnegado seareiro de Deus. Gabriel volitou e chegou rapidamente à sala de Diana.
- E então, como foi?
- Não pude revelar-lhe a verdade. Achei muito prematuro. Ela pensa que ainda está na Terra e que o marido e a mãe a internaram numa clínica de terapias alternativas; nem sequer lembra que foi assassinada.
- Você agiu certo, Gabriel. Esperávamos que ela fosse se lembrar de algo, mas a memória ainda está apagada. Deus sabe o que faz! Mas, ao acordar, a deixaremos ciente. Eu mesma falarei e lhe explicarei tudo. Estamos vivendo no mundo da verdade, e não podemos deixar uma pessoa enganada. Aqui cada um descobre que a vida continua e que a morte é a maior ilusão que o ser humano cultiva, seja qual for sua crença ou religião, ou ainda que seja ateu.
- Você tem razão, Diana. Eu mesmo sei como certos religiosos dão trabalho quando chegam aqui. Muitos se recusam a entender que a idéia que mantinham de céu e inferno não era verdadeira e acham que nós somos loucos.
- Verdade. A maioria dos religiosos são os que mais sofrem quando chegam aqui e descobrem o quanto estavam enganados. Mesmo assim não acreditam e acabam retornando para a Terra. Lá vão constatar, entre pasmados e desesperados, que realmente deixaram o corpo de carne. Então começam a vagar por entre os familiares ou vão viver no umbral. A maioria deles se recusa a aceitar auxílio de pessoas que eles julgam ser espíritas, na ignorância de que aqui não existe religião.
Gabriel estava pensativo:
- Nossa como o problema é complexo! Por que as pessoas são tão resistentes em aceitar que estavam erradas?
- Devido ao orgulho. Infelizmente esse sentimento tem dificultado muito nossa estadia no plano astral. Nunca gostamos de aceitar que erramos em nossas convicções. Preferimos sofrer a admitir que nos enganamos. Existem espíritos que durante a vida na Terra acreditaram que morrer era ficar dormindo, sem consciência. Quando chegam aqui e descobrem que estão mais acordados do que nunca, fogem assustados e vão ser presas fáceis das entidades infernais que os farão dormir por anos, satisfazendo seus egoísticos desejos.
- Quer dizer que os espíritas na Terra devem se arvorar em ser donos da verdade?
- Não foi isso o que quis dizer. Não quero contribuir para aumentar o fanatismo que anda tomando conta dos nossos irmãos das lides espirituais. As verdades que o espiritismo veio revelar não são propriedade exclusiva de ninguém, pois pertencem a todos, e são verdades da vida, acima de tudo. O Espiritismo apenas as estuda, pois a vida após a morte, a mediunidade, a reencarnação são fenômenos que pertencem às leis da natureza, e não a grupos religiosos. As religiões vão acabar porque estão dividindo as pessoas. A única religião verdadeira do mundo é o amor, e nela todos estamos incluídos, pois somos herdeiros dele. Só assim perceberemos que não há por que querermos ser donos de verdades que só pertencem a Deus, supremo criador do universo.
Gabriel estava satisfeito com as respostas de Diana e pacientemente esperou que Flaviana voltasse a despertar.

9 - A DESCOBERTA DE FLAVIANA

Naquela mesma tarde, Flaviana acordou e percebeu que ainda estava no mesmo lugar. As mesmas camas de vidro, as mesmas pessoas à volta atendendo os pacientes, até a paisagem era a mesma. Quando abriu completamente os olhos, percebeu que ao seu lado estavam Gabriel e mais outra mulher que ela não conhecia.
- Suponho que ela seja a diretora daqui. Foi bom a senhora ter vindo. Não estou conseguindo entender nada. Até agora só dormi e nem minha filha, nem minha mãe apareceram para me ver. Acho isso muito estranho... Sou uma mulher doente e eles jamais me deixariam sozinha por tanto tempo.
- Chamo-me Diana e sou trabalhadora daqui, não sou a diretora. Sou responsável, entre outras coisas, por este departamento que chamamos de Departamento dos Recém-Chegados.
Flaviana abriu bem os olhos castanhos e grandes, e indagou:
- Recém-chegados de onde?
Sem hesitar, Diana respondeu:
- Recém-chegados da Terra. Aqui todos vieram de lá.
Flaviana sentiu uma sensação ruim, pois sentiu que aquela mulher era sincera e não estava mentindo.
- Da Terra? Quer dizer que não estamos na Terra? Que brincadeira é essa?
- Não é brincadeira, e vamos lhe mostrar isso agora. Deite-se novamente. - Flaviana obedeceu, tremendo por dentro. Sentia que algo de muito ruim lhe seria revelado.
Diana colocou a mão direita sobre sua fronte e pediu:
- Agora feche os olhos e tente se lembrar da última imagem que tem da sua vida antes de chegar aqui.
Flaviana se esforçou e começou a se ver deitada, com uma aparência cadavérica, em sua cama. Tinha Isabela por perto em uma poltrona, lendo um livro e velando por ela.
- Diga o que você vê - pediu Diana.
- Vejo-me em meu quarto deitada, muito doente, e Isabela, minha enfermeira, ao meu lado.
- O que mais? Tente se lembrar do último dia que esteve com sua enfermeira.
- Estou lembrando. Fazia muito frio e ela se levantava toda hora para ir até a janela do quarto. Logo depois adormeci e...
Flaviana demorou algum tempo com os olhos e o rosto comprimidos, e depois soltou um grito:
- Socorro, ela... Ela está me matando! Ajudem-me!
Diana retirou a mão e ordenou:
- Acorde Flaviana. Já passou; você está bem.
Ela abriu os olhos e todo seu corpo tremia.
- Foi Isabela... Ela tentou me matar, meu Deus! Por que ela fez isso comigo? Era tão fiel, tão boa!
Gabriel trouxe-lhe um copo com água e fê-la beber. Quando se acalmou, ela colocou as mãos na de Diana, e perguntou:
- Por favor, me diga: quem me salvou aquela noite? Já prenderam Isabela? Meu Deus estávamos com uma criminosa em casa e nem desconfiávamos... Ela ia me sufocar com o travesseiro!
Diana, já acostumada com aquele tipo de situação, começou a explicar:
- Ninguém a salvou naquela noite. Seu corpo morreu e nós a recolhemos aqui. E hora de cuidar de sua vida, rever seus valores e entender como atraiu isso para seu destino.
Flaviana começou a chorar convulsivamente. Sentia que era verdade, ela estava morta! Mas, se estava morta, como se sentia mais viva e saudável do que nunca? Seu corpo estava igual ao da Terra; até o coração batia. Sentindo seus pensamentos, Diana a orientou:
- Você agora vive com o corpo do espírito, que chamamos de perispírito. Você pensa que ele é igual ao seu corpo de carne, mas logo perceberá que não é. Quanto à forma, sim; todavia, esse corpo em sua constituição é muito diferente. Mas outra hora conversaremos sobre isso. Tente dormir que, ao acordar, será levada para uma casa que preparamos para você.
Flaviana explodiu:
- Como você fala isso com tanta simplicidade assim? Fui assassinada, estou morta, tenho de me afastar de minha filha, e você vem me dizer que vai me dar uma casa? Não quero nada disso, quero minha vida de volta: minha casa, minha mãe e até mesmo o Humberto.
- Você prefere viver num corpo doente, sem ter mais condições de levar uma vida normal? Reflita e procure entrar em contato com Deus pela prece. Quando chegar o momento, entenderá que tudo que lhe aconteceu foi para o melhor; busque a fé. Há quanto tempo você não reza?
Ela, enxugando as lágrimas com as mãos, disse:
- Não tenho fé em Deus. Ele me tirou tudo, a saúde, o marido, a alegria de viver e até mesmo minha vida. Não vou rezar.
Diana a olhou com ternura:
- Não seja injusta. Deus lhe deu a vida e a dá todos os dias. Mesmo tendo deixado seu corpo de carne na Terra numa cova escura, você está aqui com o corpo astral, mais viva do que antes. Recuperou a saúde e pode reencontrar a felicidade. Tudo depende de você. Quando perceber que o que lhe aconteceu veio da forma negativa como olhava a vida, vai compreender melhor.
Flaviana soluçava. Como se sentia triste! Deitou-se e fingiu que dormia. Em seu íntimo, existia um único pensamento: o de escapar dali e voltar para sua casa. Durante o trajeto de volta, Diana ia falando com Gabriel:
- Acredito que Flaviana não vá ficar muito tempo conosco. Ela fingiu que dormia, mas percebi claramente que quer sair daqui e, se continuar assim, acabará conseguindo.
- E uma pena, mas não podemos prender ninguém aqui. O livre-arbítrio é sempre respeitado. Com isso ela vai atrasar ainda mais seu encontro com Aurélio. Para ele, são mais de quarenta anos de espera.
- É mesmo. Todavia o amor é paciente. Ele continuará a esperar, tenho certeza.
Eles se abraçaram e seguiram para o prédio onde trabalhavam.
Flaviana, ao vê-los se distanciar, levantou-se rapidamente e começou a andar pelo lugar. Precisava encontrar a saída. Mas, quanto mais andava, mais percebia como o lugar era grande. Ela via pessoas montadas em cavalos passeando livremente, outras cultivando flores em jardins, mas nada daquilo lhe interessava. Anoiteceu e as primeiras estrelas no céu começaram a brilhar. Ela se sentou sobre uma frondosa árvore e recomeçou a chorar. De repente, uma senhora negra se aproximou dela:
- Por que não volta para onde estava? Já é noite!
- Quem é você?
- Chamo-me Amélia. E, pelo tempo que estou aqui, posso garantir que é melhor aceitar; chorar não adianta.
- Não posso, tenho de voltar a Terra e me vingar de quem me matou. Só assim terei paz.
Amélia fez uma cara de assustada e disse:
- Não saia daqui não! Atrás desses muros altos tem muitos perigos, você vai se dar mal. Apesar de essa cidade ser muito bonita e organizada, ainda estamos no umbral, e circular por ele sozinho nunca acaba bem.
Flaviana não entendeu:
- Não estamos no céu?
A outra riu, bem-humorada.
- Não, estamos muito longe dele. Muitos acham que depois que morrem vão chegar aqui e ver Deus e Jesus, e que estão no céu. Mas nada disso é verdade. Estamos no umbral mesmo.
- O que é isso?
- O umbral é um local de passagem para as regiões superiores. Aqui ficamos estagiando até podermos ir ao nosso lugar de origem. Pelo pouco que sei, o umbral tem várias zonas. Onde ficam as colônias de recuperação, como esta, é uma zona mais amena, mas nos outros lugares há sofrimentos inenarráveis. Há também cidades como esta só que voltadas ao mal.
Flaviana começou a ficar com medo.
- Você chegou aqui há muito tempo? - perguntou à sua interlocutora.
- Nem tanto; morri há vinte e cinco anos.
- De quê?
- Tive um câncer de pulmão. Mas fugi deste lugar e vivi horrores nas zonas mais densas do umbral. Só há três anos é que fui recolhida novamente. Mas já estou me preparando para voltar a Terra. Vou reencarnar!
- Reencarnar?
- Sim, reencarnar, ou vestir um novo corpo de carne e renascer na Terra. Sabe, não fui muito boa na minha última vida.
- O que você fez?
Ela lançou um olhar para o infinito, soltou o gatinho que segurava e começou a narrar:
- Eu queria ter uma vida melhor, ser rica, daí inventei que era médium e que recebia comunicações dos espíritos desencarnados. Fingia que psicografava mensagens de parentes mortos e cobrava por isso. Logo estava cheia de clientes e ganhei um bom dinheiro. Quando morri, fiquei presa ao caixão durante dias e uns espíritos horríveis, todos de preto, vieram me retirar do túmulo. Sofri muito e hoje quero voltar a Terra e reparar o meu erro. Serei uma médium ostensiva e vou me comprometer com o auxílio ao próximo. Mas estou avisada de que se novamente falhar serei submetida a um processo de loucura.
Flaviana estava confusa. Seria verdade?
- Você pode ficar louca? Vai aceitar isso?
- Vou sim. Sou muito ambiciosa. Enquanto vivo aqui estou protegida quanto às minhas ilusões, mas quando reencarno fica bem mais difícil. O esquecimento do passado, o consumismo, o apelo do status e do dinheiro são muito fortes. Se em qualquer momento eu priorizar mais a vida material do que a espiritual, começarei a ter problemas mentais. É difícil, mas será esse o remédio amargo que levará à cura de meu mal.
Flaviana olhava Amélia sem entender muito o que ela falava. Esta a convidou para ir ao salão de orações, mas Flaviana recusou. Sentada embaixo da árvore, ela pensava: "Não posso deixar Isabela impune. Preciso descobrir por que me matou e depois quero me vingar". A esse pensamento um acesso de ódio a acometeu e ela começou a chorar. Flaviana desejou tanto sair dali e se vingar que num átimo se viu arremessada a um lugar muito escuro, cheio de fumaça e pessoas gemendo. Assustada, tentou se levantar e andar, mas seus pés atolaram numa poça de lama. Com esforço, ela conseguiu sair dali e começou a andar, e o que via era muito diferente do local onde estava. As árvores estavam secas, e a vegetação rasteira e o solo lamacento davam uma impressão mórbida ao lugar. Com muito medo, ela andava sem parar, sem saber para onde estava indo. Olhou para o céu e ele estava coberto com pesadas nuvens escuras. Ela não conseguia ver a Lua nem as estrelas. Seria a outra parte do umbral a que Amélia tinha se referido? Pensou num instante. De repente, ouviu uma voz:
- O que esta dama faz aí sozinha? Está precisando de companhia?
Flaviana se arrepiou inteira. Um homem magro, de rosto fino e nariz aquilino, vestindo um terno preto estava à sua frente. Tentou correr, mas não conseguiu. Sentiu que seus pés estavam chumbados ao chão. O homem com olhar assustador começou a gargalhar e, de tanto medo, Flaviana desmaiou.
- Acorde acorde!
Ao despertar, ela se viu ainda no mesmo lugar e o pavor continuava. O homem sentado ao seu lado abriu um sorriso e disse:
- Sei que é uma novata; não quero lhe fazer mal. E que às vezes acho graça em assustar as pessoas, é muito divertido.
Ela, ainda trêmula, respondeu:
- Pois não vejo graça nenhuma. Estou muito assustada e quero sair daqui e voltar para minha família.
- Bem se vê que chegou agora. Sair daqui não é tão fácil como pensa, mas eu posso ajudá-la. Chamo-me Nicodemos e moro numa cidade perto daqui. Chama-se Cidade das Trevas. Lá você poderá morar e daí voltar para ver os seus.
- Nossa que nome mais esquisito. Por que a cidade se chama assim?
- Porque lá nós não vemos a luz do Sol. Temos de usar tochas e outros tipos de chamas para iluminar os ambientes. - Ele abriu um sorriso malicioso. - Também possui esse nome porque nos utilizamos do mal para atingir nossos objetivos. Lá o lema é: "Os fins justificam os meios".
- Nossa... Depois da morte tem tudo isso, é?
- E muito mais. As pessoas acham que depois da morte perdem a consciência ou vão viver em locais esfumaçados ou nas nuvens. Quando acordam aqui, percebem que nada disso é verdade. Conseguimos capturar essas pessoas que durante a vida foram descrentes, atéias ou acreditavam que dormiriam até o juízo final, e as colocamos para dormir por longo tempo. Fazemos isso para retardar o progresso delas. Lá na minha cidade tem câmaras onde essas pessoas ficam praticamente em estado de coma.
Flaviana pensou e respondeu:
- Não quero viver lá. Parece que é um lugar ruim; prefiro a colônia onde estava.
Ele sorriu mostrando as falhas da dentadura.
- Você é que sabe, mas essas colônias são como prisões. Você não poderá fazer o que deseja, e aposto que não vão deixá-la ver sua família. Já na nossa cidade somos livres e fazemos o que queremos. Se ficar conosco, garanto que Teodoro deixará você vê-los.
- Quem é Teodoro?
- É o novo chefe da nossa cidade. E uma espécie de prefeito.
- Ah, se for assim então eu vou. Leve-me para lá.
Eles caminharam por uma estrada íngreme e depois de uma hora chegaram a uma rua cheia de casas feias e mal construídas.
- Aqui é à entrada da cidade. Vamos que os guardas me conhecem e se lhe virem comigo a deixarão passar.
Eles passaram por diversas ruas da tenebrosa cidade e foram até o chefe. Flaviana foi apresentada a um homem branco, jovem, de rara beleza, mas com um olhar cruel que exalava sensualidade. Flaviana admirou-se, pois julgava que "o chefe" fosse um senhor, e havia encontrado na realidade um rapaz de, no máximo, vinte anos. Depois de ouvi-lo, ela foi informada de que poderia ir para a Terra ver os seus. Como acompanhante ela teria Nicodemos.Chegaram à mansão que, àquela hora da madrugada, estava às escuras. Flaviana sentiu o ódio corroê-la. Fora ali, em sua própria casa, que tinha sido assassinada pela asquerosa Isabela. Na sala ela começou a chorar. Depois do pranto, sentiu fome:
- Nicodemos, estou com fome. Antes de ver minha filha, quero me alimentar. Preciso estar forte para agüentar vê-la sem poder falar ou tocar nela.
- Lá na cidade não temos alimentos, mas é muito fácil se alimentar aqui na Terra. Vamos a um bom restaurante que vou ensiná-la.
Flaviana não entendeu nada, mas seguiu com ele. Chegaram a um restaurante de luxo em um bairro nobre de São Paulo. Apesar do adiantado da hora, algumas pessoas ainda faziam refeições. Nicodemos logo sentiu apetite com o cheiro saboroso dos pratos e da carne. Olhou para Flaviana e disse:
- Você vai chegar perto de quem está se alimentando; aproxime-se bem. A matéria de nosso corpo é diferente da do corpo de carne, portanto uma penetra na outra. Fique perto e deixe seu corpo ser parcialmente absorvido pelo corpo do encarnado, logo sentirá o prazer da alimentação como se a estivesse ingerindo. Flaviana achou estranho, mas, imitando Nicodemos, começou a se aproximar de um senhor gordo que devorava prazerosamente um filé. Estranho fenômeno aconteceu. Flaviana sentiu-se intimamente ligada ao senhor e começou a perceber o gosto da carne em sua boca. Gostou do que estava fazendo. Ao se sentir farta, parou. Depois percebeu que o homem continuava a comer sem parar.
- Não sei como ele consegue comer tanto. Já me fartei, e ele continua lá. Veja!
- Isso acontece porque a energia dos alimentos dele ficou com você. O que ficou para ele foi somente o "bucho". Agora, para se sentir farto, ele terá de comer o dobro.
Flaviana não entendeu nada, mas estava se sentindo completamente alimentada. Depois sentiu vontade de ir ao banheiro. Há quanto tempo não fazia suas necessidades? Nicodemos a orientou para que fosse a um dos banheiros do restaurante e agisse normalmente. Ela só não devia dar a descarga, pois não conseguiria movê-la com seu corpo de agora. Assim ela fez. Tudo terminado, ela exigiu que retornassem para sua mansão. Desse modo fizeram. Patrícia dormia e foi com emoção que Flaviana a abraçou. Humberto, como sempre, não se encontrava, e ela ficou muito tempo abraçada à filha. De repente se lembrou:
- Onde está o espírito de minha filha agora?
- E eu sei lá! Só sei que à noite, quando os encarnados dormem, seus espíritos se libertam e vão passear no astral. Essa sua filha tem cara de boazinha. Deve estar em alguma colônia conversando.
Flaviana resolveu dormir na casa e permanecer lá até o amanhecer.

10 - PLANO SÓRDIDO

Amanheceu e Humberto chegou cedo à casa que tinha alugado para Isabela viver. Ela, Eudásia e Daniel tomavam o desjejum. Fazia três semanas que Flaviana tinha morrido e a vida tinha quase voltado ao normal. Isabela ia visitar Augusta várias vezes e a "consolava" pela morte da filha. Naquela manhã, ela estava irritada. Por isso, quando Humberto chegou, ela logo o arrastou para o quarto. Quando estavam sentados na cama, ela começou:
- Não agüento mais essa situação. São três semanas, e você não toma nenhuma atitude. Estou perdendo minha paciência.
Coçando o bigode, ele respondeu:
- Você terá de esperar um pouco mais. Não faz nem um mês que Flaviana baixou ao túmulo e eu não posso me dar ao luxo de já me casar com outra. Tem Augusta, que pode criar problemas, e principalmente Patrícia. Você sabe que eu não posso magoar a minha filha.
Isabela se contorceu de ódio por dentro. Novamente aquelas duas em seu caminho. Mas, no momento certo, ela saberia se livrar delas. Tinha de ser paciente. Ao mesmo tempo, sentia que não podia deixar Humberto fazer o que quisesse. Se fosse assim, em pouco tempo ela deixaria de ser interessante para ele, que logo estaria com uma outra.
- Não estou conhecendo você. Um homem tão corajoso, que se envolve com operações arriscadas do governo, com me¬do de duas mulheres.
- Não é isso - respondeu ele, tentando se defender. - É que temos de dar tempo para as coisas se arrumarem. Se eu chegar agora com a notícia de que me casarei novamente, e com a ex-enfermeira da minha mulher, o mundo desabaria sobre minha cabeça. Até você teria problemas, o que desejo sinceramente evitar.
Isabela sentiu que ele falava a verdade. Apesar de sem moral, Humberto era um homem completamente discreto. Isso fazia parte do temperamento dele, e ela tinha de respeitar. Por isso encerrou a discussão e mesmo em plena manhã o puxou para a cama, onde se entregaram ao amor.
Horas mais tarde, quando ele saiu, Isabela se maquiou, colocou uma roupa elegante e disse a Eudásia que iria visitar dona Augusta. Tomou um táxi e, durante o trajeto, ia repensando todo o plano. Sabia que o que iria fazer poderia deixar Humberto com muita raiva, mas ela tinha de dar esse passo. O táxi parou na frente da elegante mansão onde Augusta morava, e ela relembrou o dia em que tinha sido espancada por aquele mesmo segurança que hoje a atendia gentilmente. Um dia ela ainda iria se vingar daquela velha inútil. Na enorme sala, Augusta lia um jornal sem muita atenção quando Isabela entrou.
- Querida, que bom que está novamente aqui. Não tenho muito o que fazer, e hoje estava me sentindo tediosa.
Isabela abaixou a cabeça e fez um ar triste.
- Infelizmente o que vim conversar com a senhora hoje em nada vai lhe agradar, mas a tenho como minha mãe e não posso deixar de lhe falar o que há em meu íntimo.
- O que tem filha? Nunca a vi tão triste. É problema de saúde?
- Antes fosse... É um problema de consciência. Enquanto não desabafar com a senhora e obter seu perdão, não posso ficar em paz. - Isabela deixou uma lágrima forçada cair em seu rosto.
Augusta se ajeitou melhor no sofá e, com olhos miúdos, fitou-a profundamente:
- O que pode ser tão sério? Saiba que pode confiar. Eu a tenho como uma outra filha e sei que você não ia fazer nada que me desagradasse.
Deixando lágrimas falsas rolarem sobre seu rosto, Isabela começou a narrar sua sórdida mentira.
- Desde que vim trabalhar na casa da sua filha, percebi que o senhor Humberto me olhava de forma diferente. Como não sou muito experiente, procurei não pensar no assunto, até o dia em que ele me chamou e se declarou apaixonado por mim. Fiquei muito assustada e disse a ele que procurasse me esquecer, que aquilo era impossível, e até lhe passei um sermão. Mas ele não desistiu e continuou me assediando. Eu fugia o máximo que podia, porém durante uma noite ele chegou muito triste e perguntou se podia desabafar comigo. Fomos então para o bar. Eu não queria beber, mas a noite estava fria e ele insistiu, até que cedi. Ele me contou que estava muito triste com a doença da esposa e que a amava sinceramente, mas me disse que depois que ela tinha adoecido nunca mais havia tido relações com ninguém. Pediu-me perdão por ter se apaixonado por mim e disse que ia deixar de me importunar. Fiquei muito feliz e não percebi que estava me excedendo na bebida. Logo caí num sono profundo e o pior aconteceu...
Ela fez uma pausa e percebeu que Augusta a ouvia com expressões de ódio.
- Quando acordei, tempos depois, estava nua com Humberto também nu do meu lado. Vendo o que tinha acontecido, me desesperei e, num acesso de ódio, comecei a esmurrá-lo. Ele me revelou que havia colocado sonífero em minha bebida, pois queria me possuir a todo custo, e que eu agora lhe pertencia. A partir daquele dia, pensei em abandonar o emprego, mas, vendo a senhora tão triste e a dona Flaviana tão doente, não tive forças. Contudo, passei a evitar Humberto completamente. Quando sua filha morreu, pensei que tudo estivesse terminado, mas ele descobriu onde eu moro e passou a me perseguir. Chegou a fazer ameaças a uma amiga que mora comigo. Resisti em lhe contar isso até hoje pela manhã, quando descobri o pior: estou grávida! Aquela noite me trouxe sérias conseqüências.
Isabela começou a chorar convulsivamente aos pés de Augusta, que começou a chorar também de ódio e pena da moça. Após um pranto sentido, Augusta cerrou os punhos e vociferou:
- Aquele calhorda miserável! Teve a coragem de cometer um ato vil e degradante debaixo do teto onde minha filha agonizava. Avalio sua dor, Isabela, e a perdôo.
Ela levantou o rosto inchado pelo choro, e disse:
- Mas não sei se a senhora vai me perdoar depois do que vou lhe dizer agora. Aceitei me casar com Humberto; serei a esposa dele!
Augusta assustou-se:
- Casar?
- Sim. Hoje, logo depois que fiz o exame e descobri a gravidez, ele apareceu novamente na minha casa e, pressionada, acabei revelando a minha real situação. Ele me pediu em casamento e eu aceitei.
- Isso jamais vou permitir. Saia da minha casa agora! - gritou ela.
- Dona Augusta, me ouça! Nunca tive sorte na vida. Meus pais são pobres lavradores do interior de Goiás e não podem me ajudar a criar esse filho. Apenas tenho um curso técnico de enfermagem, por isso não posso me manter, nem a criança, com o que ganho. Depois, estou desonrada, nenhum rapaz vai querer me assumir e a esta inocente criança. Não tenho alternativa. Se quiser dar uma vida digna a esse ser pequenino, tenho de aceitar ser esposa desse homem que desgraçou a minha vida.
Ela chorava muito e Augusta acabou ficando com pena. Lembrou-se dos momentos de dedicação que ela tivera com Flaviana, lembrou-se da sua amizade preciosa, e nessa hora sua antiga raiva por Humberto falou mais alto - ele era de fato o culpado. Não era justo acusar a pobre e inocente Isabela, que mais parecia um anjo.
- Levante-se! Ficando aí no chão estará mais humilhada do que a situação permite. Não deixarei que esse homem acabe com sua vida como fez com a de minha filha. Recomponha-se, vamos para a casa dele imediatamente.
Isabela estava muito feliz, mas precisava disfarçar.
- Não, não podemos. Se ele souber que lhe contei tudo, não me perdoará. Não posso ir.
Augusta levantou-se:
- Eu saberia de qualquer maneira. Agora vamos que o tempo urge. Se Humberto está aqui é porque vai almoçar com Patrícia. Chegaremos lá e aguardaremos. Sei que vão se casar, mas antes preciso conversar seriamente com ele, que terá de garantir seu futuro e o desse ser que vai nascer.
Ela parecia estar sonhando. Seu plano resultará melhor que o esperado. O chofer as conduziu para a casa de Humberto. Lá chegando, não encontraram Patrícia, que só voltaria da faculdade a uma da tarde. Sentadas no sofá luxuoso que em breve seria seu, Isabela sonhava. Resolveu reforçar a cena teatral; a velha de nada poderia desconfiar.
- Dona Augusta, será que é necessário tudo isso? Não penso que a senhora deva entrar em um assunto que só vai machucá-la ainda mais.
Apesar da raiva, Augusta se enterneceu:
- Você é que foi enganada e precisa que Humberto repare esse erro. O que vou fazê-lo cumprir custe o que custar.
Dali a poucos minutos, o elegante carro de Humberto entrava pelos portões da mansão. Andando pelo jardim, de repente ele se lembrou de Flaviana ainda na juventude, cuidando da casa com carinho e dedicação. Um remorso o tomou, porém logo ele tratou. de mudar os pensamentos. Sabia que fora leviano, interesseiro e infiel, entretanto agora era tarde. O importante é que em breve seria feliz ao lado de Isabela. Assim, entrou na sala. Seu coração disparou. Sentiu uma vertigem e, se não houvesse tido muito controle, passaria mal ao ver Isabela e Augusta juntas no sofá.
- Foi bom que chegou. Precisamos ter uma conversa - falou Augusta dirigindo-se para ele. Ela levantou a mão e lhe deu um tapa tão forte no rosto que Humberto rodou nos calcanhares. As marcas dos dedos e dos anéis ficaram em sua face.
- Posso entender por que me esbofeteou?
- E ainda pergunta seu canalha? Seu cafajeste!
- Quero uma explicação, desejo saber o que a ex-enfermeira de minha mulher quer aqui e por que me bateu na frente dela.
Augusta ia bater outra vez, mas agora Humberto a segurou fortemente pelo pulso.
- Não se atreva ou não responderei por mim. Até um homem como eu tem seus limites. Não se esqueça disso.
Durante a cena, Isabela se mantinha quieta e encolhida no canto do sofá, fazendo o papel de vítima. Augusta se recompôs e falou entre dentes:
- Já sei de tudo, seu animal. Sei que fez mal a Isabela durante o tempo em que ela trabalhou aqui. Sei que a persegue até hoje e chegou a lhe propor casamento. Mas eu tomei a dianteira e as coisas serão como quero, ou então o denunciarei como adúltero, e tenho como provar.
Augusta repetiu toda a história que Isabela lhe contou enquanto Humberto ouvia estupefato. Como ela tivera coragem para tanto? Mas no fundo se sentiu confortável. Ele não teria mais de explicar nada à sogra; aquela história viera mesmo na hora certa.
- Eu... Eu não resisti aos encantos de Isabela. Fiquei apaixonado e agora não posso deixá-la sozinha com esse filho que ela espera. Vou me casar com ela.
- Meu Deus! Minha filha deve estar se revirando no túmulo uma hora dessas.
Patrícia entrou na sala e, ouvindo as últimas palavras, mal conseguiu acreditar.
- Então era por isso que eu não gostava de você. Sempre soube que agia mal, mas nunca pensei que pudesse chegar a tanto. É uma mulher sem moral. Papai, se o senhor se casar com ela, leve-a para outro lugar ou sairei desta casa.
Isabela, com voz fraca se manifestou:
- Tente entender, Patrícia, não foi culpa minha. Fiz de tudo para resistir ao seu pai, mas não consegui.
Augusta a defendeu:
- Fique calma, Patrícia. Isabela nessa história é mais vítima do que qualquer outra coisa. Depois lhe contarei o que aconteceu e você verá como tenho razão.
- Nunca gostei de você; algo me dizia que não era confiável. Tenho certeza de que planejou isso só para ficar com o dinheiro de meu pai.
Isabela chorava copiosamente. Foi Augusta quem terminou:
- Levarei Isabela até sua casa e depois acertaremos as coisas pendentes. Vamos, filha, não chore assim.
Patrícia estava surpresa com a atitude de sua avó. Aquela mulherzinha conseguira enganar a todos, inclusive Augusta, uma mulher experiente e vivida. A sós com o pai, ela lhe lançou um olhar de indignação:
- Eu esperava tudo do senhor, menos isso.
- Filha, tente entender... O amor acontece e não temos culpa.
- A desculpa é o amor. Por isso não vou me entregar a esse sentimento nunca. Foi por ele que minha mãe foi infeliz e terminou doente e morta. E é por ele que você e essa mulherzinha andaram cometendo atos indecentes. Nunca amarei.
- Patrícia, não é isso o que me dizia quando conversávamos. Você aprendeu muito no centro que freqüentava e me dava grandes lições. Por que mudou tão de repente?
- Concluo hoje que só vivi a teoria; da prática ainda estou distante. Não sei quando poderei perdoá-lo.
Ela subiu as escadas e foi se trancar em seu quarto. Humberto não almoçou. Pediu que retirassem a mesa e ficou pensativo durante horas. O que estava fazendo seria realmente certo? O que ele nem ninguém suspeitava era que Flaviana e Nicodemos estavam ali acompanhando os fatos minuciosamente. Ela chorava, esmurrava as paredes e o chão. Nicodemos não sabia mais o que fazer para acalmá-la. Ouvindo aquela história criada por Isabela, Flaviana estava descobrindo o real motivo de sua morte. Só não entendia uma coisa: se Isabela fora violentada por Humberto e não o desejava, por que a tinha matado? Fora Flaviana quem inspirara Patrícia a dizer todas aquelas palavras de indignação. Depois deixara Nicodemos com Humberto e subira com a filha para o quarto. Patrícia não conseguia parar de chorar. Após muito tempo deitada pensando no sofrimento que a mãe tinha passado com uma enfermeira que lhe roubava o marido, resolveu rezar. Aprendera no centro que a prece reconforta e alivia, e o que ela mais precisava era de alívio. Depois de sentida prece a Jesus, sentiu-se melhor. Flaviana viu que o espírito de uma mulher passava as mãos pelo corpo de sua filha e derramava energias coloridas sobre ele. Nunca, quando estava viva, pensou que isso pudesse acontecer. A mesma mulher, quando terminou, olhou para ela e disse:
- Deus fique com você. - Em seguida desapareceu.
Pela manhã, quando a casa despertou, ela acompanhou Patrícia enquanto tomava café. Percebeu que sua filha tinha proteção e por isso Nicodemos não conseguiu tomar café junto com ela, como pretendia. Como sua filha era linda! Quando a viu sair para estudar, abençoou-a e chorou muito. Como seria bom se estivesse ainda no mundo e com saúde! A manhã havia transcorrido sem nenhuma novidade, até que apareceram sua mãe e Isabela. O ódio tomou conta de Flaviana e ela tentou estrangulá-la. Mas uma força estranha a arremessou para o outro lado da sala e ela caiu com estrondo. De repente, um espírito de aspecto feio e olhar de ódio se aproximou:
- Essa aí é minha protegida, faz tudo que quero. Ninguém toca nela; se tentar outra vez se arrependerá amargamente.
- Dizendo isso, o espírito se retirou e foi postar-se ao lado de Isabela.
Nicodemos se aproximou:
- Como ousou fazer isso? Essa aí tem proteção de pessoas poderosas; não podemos nos meter com eles. E melhor desistir.
- Mas não é justo, Nicodemos. Ela me assassinou e continua livre, e o pior: na companhia de minha mãe. Temos de fazer alguma coisa para destruí-la.
- Sei que está ansiosa, mas temos de esperar. Pela roupa que aquele espírito usa, ele vem da Cidade Perversa, um lugar cujos moradores corrompem os encarnados por meio do sexo desenfreado e perverso. Eles são poderosos e bem organizados. Nossa cidade não pode com eles.
- Nossa! Mas hei de conseguir. Vamos ficar atentos e ver como conseguiremos. Você tem de me ajudar, Nicodemos.
- Ajudarei.
De repente Flaviana apurou mais a visão e viu uma mulher vestida com um hábito preto de freira. Flaviana não gostou daquela mulher, que, apesar de não se aproximar, a olhava cinicamente.
- Quem é aquela freira?
- Não sei - respondeu Nicodemos. - Deve ser o espírito acompanhante da sua mãe. Pelo visto, essa freira não é nada boa. Quando vejo uma pessoa da luz logo reconheço, e essa aí está longe de ser iluminada.
Nicodemos estava certo. Irmã Celeste era uma antiga freira cujo fanatismo a fez cometer atos de violência, tortura e morte alguns séculos atrás. Augusta também fora freira junto com ela e participava dos mesmos atos. Quando Augusta reencarnou, Celeste ficou vagando no astral até o dia que a reencontrou e não a deixou mais. Era ela quem guiava quase todos os passos de Augusta.

11 - À HORA DA VINGANÇA

No carro com Augusta, Isabela seguia nervosa. Não poderia deixar aquela velha entrar em sua casa sob hipótese nenhuma. Por enquanto ela não poderia saber que tinha um filho. O que fazer se ela cismasse em entrar? O carro parou na frente da casa e Augusta estranhou o fato de Isabela, apesar de ser tão pobre, morar numa casa que não era tão pequena e situada num bairro de classe média. Isabela desceu do carro e fez um ar de descontente:
- Não posso convidá-la a entrar. Minha casa humilde a deixaria constrangida. Por fora é bonita e bem-acabada, mas quase não possuo móveis e o que tenho está um tanto gasto.
Augusta sorriu:
- Mas a nossa amizade está acima de qualquer coisa. Vá, deixe-me entrar e me convide para um chá ou um café.
Isabela ficou sem cor. Ela não poderia entrar de jeito nenhum; tinha de achar uma saída.
- Dona Augusta, não irei me sentir bem em recebê-la em minha casa. Peço que não insista. Sinto vergonha em não ter nenhum assento decente para a senhora. Perdoe-me, mas será convidada de honra na casa que era de sua filha e que por um golpe duro do destino acabará em minhas mãos.
- Bom, se quer assim, aceitarei. Mostra mais uma vez o quanto é bonita de alma. Fico pensando no triste destino das mulheres que passam pelas mãos de Humberto. Se não fosse pela gravidez, juro que encontraria um homem decente que se casasse com você.
- A senhora é muito bondosa mesmo.
- Deixe-me ir. Quero que saiba que comprarei todo o enxoval do bebê com você, peça por peça.
Deu um beijo na moça e foi embora. Ao entrar em casa, ela não se conteve e abriu um largo sorriso. Abraçou Daniel e beijou Eudásia. Finalmente tudo estava indo como planejado. Depois do susto da situação, Humberto até iria agradecê-la. Passou o resto da tarde cantarolando e naquela noite dormiu muito bem. Como Isabela tinha planejado, após ficar viúvo, o senador Humberto Aguiar já estava casado. A cerimônia teve grande pompa e a mais fina sociedade paulistana compareceu. As pessoas comentavam a pressa de Humberto em se casar tão rapidamente, mas logo esqueciam ao ver a beleza da noiva e ao participarem da elegante recepção num clube famoso. Patrícia havia aceitado o fato e já conseguia conversar normalmente com sua madrasta. Durante a recepção, Isabela teve sua atenção voltada para um belo rapaz moreno claro, muito bem vestido, olhos amendoados, corpo bem-feito, que exalava sensualidade. Ele acompanhava Patrícia e, entre um cumprimento e outro, ela se aproximou:
- Não vai me apresentar seu amiguinho, Patrícia?
- Ah, sim. Este é Fernando, meu namorado.
- Namorado? Como nunca o levou à nossa casa?
- Ele já foi, mas você não se encontrava.
Fernando abriu um belíssimo sorriso e seus olhos penetrantes procuraram os de Isabela, no que foi retribuído. No resto da noite eles continuaram se olhando sem parar. Nem Patrícia, nem Humberto perceberam nada. Até aquele momento, Isabela havia conseguido esconder Daniel de todos. Eudásia ficava com ele o tempo inteiro e Isabela planejava apresentá-lo depois. Tanto falou que acabou convencendo Humberto. Todos achavam que ela era uma mulher solteira e sem filhos; só Augusta e Patrícia sabiam da suposta gravidez. A lua-de-mel foi um passeio em cidades da Europa. Isabela não sabia se portar bem, mas Humberto não a deixava cometer nenhum tipo de gafe. No final, ela até se comportou bem, tendo em vista que saíra de uma favela miserável. Um mês depois estavam de volta e Augusta providenciou uma pequena festa para recebê-los. Isabela ficou feliz ao perceber que Fernando estava lá. Ao vê-lo, ela sentia seus desejos aumentarem e não via a hora de tomá-lo de Patrícia e fazê-lo seu amante. E claro que ela iria conseguir. Com o dinheiro que tinha agora poderia fazer o que quisesse. Apesar disso, ela foi formal com ele e ninguém desconfiou. No outro dia pela manhã, ela pediu a Humberto que contratasse novos seguranças para a casa, pois os queria de sua confiança, no que logo foi satisfeita. Uma semana depois, sem que ninguém soubesse, ela pediu a Eudásia que fosse para a mansão. Havia chegado à hora. No mesmo dia, ela convidou Augusta para um chá. Quando a velha senhora chegou, encontrou tudo arrumado na mesa e Isabela à sua espera.
- Que bom que a senhora veio. Hoje será um dia muito especial para nós duas. Tenho muitas surpresas e gostaria de compartilhá-las. Mas antes vamos ao chá.
Augusta pegou sua xícara, adoçou e, antes de se sentar, recebeu um tapa tão forte no rosto dado por Isabela que tonteou e caiu no chão. Aturdida, ela não sabia o que pensar. Isabela começou a gargalhar alto, parecendo uma bruxa, como se representasse em um filme de terror. Gargalhava tanto que o som de sua risada poderia ser ouvido por toda a mansão.
- É aí o lugar onde a senhora sempre deveria ter estado: no chão!
Augusta sentia ódio, mas ao mesmo tempo não entendia o que estava acontecendo.
- Levante-se, o show está apenas começando.
- O que está acontecendo?
- Calada! Aqui quem manda sou eu. Sou a dona absoluta desta casa e a senhora vai fazer o que eu quiser.
Augusta continuava sem saber o que ocorria.
- Sei que você não está entendendo, mas vou lhe explicar. Acabou a farsa, dona Augusta. Eu a odeio e meu desejo é vê-la morta. Como não posso matá-la, vou humilhá-la o mais que puder. Em sua cabeça suja você nada está compreendendo, mas será que a senhora não se lembra de uma mendiga com o filho nos braços que lhe pediu um prato de comida, a qual a senhora mandou espancar?
Nessa hora, Eudásia entrou e trouxe Daniel nos braços.
- Lembra-se dessa criança?
Augusta sentia-se tonta. Não conseguia organizar os pensamentos. Subitamente, lembrou-se. Veio-lhe à mente o dia em que mandara espancar uma mendiga insolente que ousara desafiá-la. Sem coragem para ouvir a resposta, ela perguntou:
- Vo... Você é aquela mendiga?
Novas gargalhadas.
- Eu era a mendiga! Agora sou Isabela Aguiar. Nunca fui sua amiga. Sempre a odiei mais do que tudo. Agora posso confessar, porque hoje quem manda aqui sou eu. Roubei, sim, o marido de sua filha. Ele me encontrou num bordel e me trouxe para esta casa. Durante as noites nos amávamos no quarto ao lado de onde sua filha esquelética dormia. Tramei o plano passo a passo, e hoje, com sua ajuda, sou a esposa dele. Agora saia daqui e nunca mais coloque os pés nesta casa.
- Mas minha neta mora aqui...
- Por pouco tempo. Nela também darei um jeito.
Nunca Augusta sentira tanto ódio em sua vida. Com voz rouca, ela balbuciou:
- Fique certa de que isso não ficará assim. Você não viverá para usufruir de sua ousadia, nem você nem esse filho que carrega no ventre.
Mais gargalhadas.
- Filho? Nunca existiu filho nenhum aqui dentro; fazia parte da farsa na qual você caiu. Para Patrícia tratei de dizer que perdi a criança durante a viagem. Ah, e aquela casa onde não a deixei entrar não era tão pobre quanto à senhora imaginava. Humberto a alugou para mim e tinha tudo, do bom e do melhor. Agora saia! Está esperando o quê, velha asquerosa?
Augusta chorava de raiva. Ao sair deparou com um homem forte e musculoso. Isabela logo apareceu na porta.
- É essa aí, Amaral. Faça o que pedi.
O homem, ao olhar aquela senhora que poderia ser a sua avó, ou mãe, sentiu pena.
- Senhora, não terei coragem. Melhor desistir da idéia.
Isabela estava com os olhos esbugalhados pelo ódio.
- Faça o que pedi ou será demitido agora mesmo. Sei que tem mulher e filhos, e se perder esse emprego ficará na miséria. Eu mesma farei com que você fique sem trabalho; é pegar ou largar.
Amaral, vendo que não havia outra maneira, segurou Augusta, que, pressentindo o que iria acontecer, começava a correr. Espancou-a e depois a jogou na calçada, fechando o portão de grade. Augusta, humilhada e sem conseguir andar, esperou que o chofer a recolhesse do chão e a colocasse no carro. Adonias o fez sem entender o que havia acontecido. Ia perguntar quando Augusta respondeu:
- Sem perguntas, mantenha-se calado. Vamos para um hospital, rápido!
Poucos instantes depois, sem saber de nada, Patrícia chegava em casa. Encontrou Isabela calmamente tomando o chá que havia preparado tendo a seu lado Eudásia e Daniel.
- Olá, Isabela! Quem são eles? Quem é esse bebê lindo e formoso?
- Patrícia, temos de levar uma conversa séria. Eu sou a mãe desta criança.
- Como assim? Não consigo entender! Você já é mãe?
- Sabe como é... Humberto quis esconder esse fato de todos, até que os comentários amainassem. Mas agora disse que eu já poderia trazê-lo para morar nesta casa. Esta é Eudásia; é ela quem cuida dele.
- Estou surpresa! Nunca poderia imaginar que você, sendo tão jovem, pudesse já ter um filho.
Patrícia era um espírito bom. Logo perdoava as ofensas e havia de pronto se afeiçoado ao bebê, que lhe sorria inocentemente.
- Que bom que vieram morar conosco. Essa casa é muito grande. Meus irmãos morreram e essa mansão ficou muito vazia. Casa cheia é bom. Pretendo morar aqui quando for me casar. Mas estou curiosa: o que foi feito do pai de Daniel? É o papai?
Isabela jamais iria revelar que um dia fora Clotilde e que havia sido estuprada. Pensando rápido, retrucou:
- Não, absolutamente! O pai dele morreu quando eu ainda estava grávida. Era um pobre lavrador de Goiás, terra onde meus pais residem.
- É estranha essa ligação com seus pais. Eles nem sequer compareceram ao seu casamento!
- São pessoas simples do interior. Insisti para que viessem, mas não querem se misturar com o mundo dos ricos, como eles chamam. Tenho de respeitar.
Patrícia, apesar de agora gostar de Isabela, sentia que ela era exímia na arte de mentir e sabia que aquelas histórias estavam sendo mal contadas. De qualquer maneira, se Daniel fosse seu irmão ela acabaria sabendo. Depois de dar as boas-vindas aos novos moradores, Patrícia foi para seu quarto. Diana, Gabriel, Marcos e Alfredo estavam ali presentes observando a cena. Flaviana e Nicodemos também. Eles haviam passado o tempo todo tentando envolver Isabela, mas não tinham conseguido. Marcos perguntou a Diana:
- Por que nossa mãe não se lembra de nós?
- E porque ela está tão envolvida pelo ódio e querendo vingança que se esqueceu de todo o resto. Não consegue perceber que nós estamos aqui.
Foi à vez de Alfredo dizer:
- Isso mesmo. Para ela, não existimos.
- Também não é assim... Em breve Flaviana vai se lembrar de vocês e poderá ser o instante em que decida esquecer seus planos. Deus a auxilie para que isso aconteça.
- Tem horas que acho a vida injusta. Se eu e meu irmão estivéssemos vivos, as coisas poderiam ter sido diferentes. Meu pai começou a se desinteressar pelo lar depois que nós desencarnamos.
Diana explicou:
- É que, apesar do tempo de desencarnados e dos estudos que fazemos juntos, vocês ainda não conseguiram entender como as leis divinas funcionam. Deus rege o universo com sabedoria e amor. O que acontece na Terra primeiro passa pela permissão Dele. Sem isso, nada em nossa vida é feito. Vocês não podem esquecer que desencarnaram cedo porque foram suicidas na vida anterior. Antes de renascer, pediram uma vida curta, caso tivessem uma educação permissiva e voltada para o mal. Apesar de suicidas, se fossem guiados para o caminho do bem pelos pais, Deus lhes concederia uma moratória e viveriam uma vida longa sobre a Terra, na qual, pelo bem, poderiam se reajustar com o passado de crimes. Todavia, Humberto os estava preparando para uma vida exclusivamente material e corrupta. Naquele momento, seus espíritos escolheram desencarnar a ter de falir mais uma vez.
Eles ficaram calados. Gabriel perguntou:
- Então é por isso que há pessoas que desencarnam em plena juventude?
- Cada caso é um caso, mas podemos afirmar sem erro que se todos vivessem uma vida voltada para a espiritualidade, para o bem; se não se desviassem dos planos que traçaram no astral para a própria redenção, não haveria mortes prematuras. A bondade divina quer que todos os encarnados tenham vida longa para que possam aproveitar bem as lições que a Terra oferece. Quanto mais se vive encarnado, mais se é útil e mais se aprende. Infelizmente muitos têm de voltar antes do tempo previsto ou escolhem uma encarnação curta com medo de falhar. Foi assim com Marcos e Alfredo; eles preferiram fugir a ter de enfrentar as tentações, e os desafios.
Gabriel não estava satisfeito:
- E porque Deus permite que esses espíritos assim escolham?
- Porque Ele não interfere no livre-arbítrio de ninguém. Quando os espíritos retornam da Terra após um período curto, geralmente percebem o quanto estavam iludidos com a escolha e pedem logo para voltar e continuar aprendendo. Deus é extremamente sábio. Se permite que escolhamos caminhos dolorosos é porque sabe que é por intermédio deles que aprenderemos o valor e a força do bem.
Marcos e Alfredo deixavam lágrimas rolar por seu rosto, mas Gabriel continuava curioso:
- E Isabela, até onde irá com seus enganos?
- Rapidamente ela colherá os resultados de suas atitudes. Isabela, como você a chamou, é parecida com cada um de nós. Infelizmente, muitas vezes nos esquecemos de que nada nesta vida é para sempre, e por isso cometemos muitos enganos, que nos custarão anos de sofrimento. Se as pessoas soubessem como tudo na vida é passageiro, todo o sofrimento da Terra estaria terminado.
- Como assim? - quis saber Marcos.
- Tudo que temos na vida de bom ou de ruim um dia passará. O movimento é lei do universo e nada pára, portanto em nossa vida nada é tão seguro quanto imaginamos. Quem pára atrai a dor e o sofrimento. Quando todos entenderem que nada é para sempre, certamente deixarão de sofrer, principalmente por medo, ansiedade e angústia. Clotilde achava que sua vida na favela seria eterna. Não confiava em Deus; ignorava que ele tem o poder de modificar nossa vida quando temos fé, por isso começou a agir no mal. Agora, como rica, também pensa que sua situação é definitiva, e continua cometendo barbaridades. Logo perceberá o quanto estava iludida. Assim é com a maioria das pessoas. Quando vivem um problema, uma situação dolorosa acreditam que isso nunca passará e em nome disso agem mal e impulsivamente. O ser humano sofre muito por agir pelos impulsos do momento. Às vezes, uma ação de um minuto é tão maléfica que vai destruir todo o bem que está programado para nosso caminho. A falta de fé é ainda o maior problema do ser humano.
- Quer dizer que as coisas boas também passam?
- Sim. Mas elas só passam quando nos vão conduzir a algo melhor, ainda que por meio do sofrimento momentâneo. Precisamos aprender que o que nos acontece é para o melhor; essa é uma lei da vida.
- Minha mãe acreditou que seu casamento era para sempre, que meu pai iria ser fiel. Esse foi o erro dela.
- Não diga que foi um erro; foi simplesmente uma forma de pensar. Todas nós, mulheres, somos ensinadas a acreditar no sonho de amor. Só que a realidade supera o sonho e na maior parte das vezes não queremos enxergar. Acreditar no casamento eterno, na perfeição e fidelidade do marido, apesar de ser ilusório, ainda povoa os sonhos de muitas mulheres. Elas ignoram que não existe pessoa perfeita na Terra e que as relações obedecem ao nosso ciclo de aprendizagem, todas um dia terminam, seja na Terra, seja no astral, para dar início a novas etapas de progresso dos envolvidos; isso é certeza. Ademais, esperar dos outros aquilo que eles não nos podem oferecer é uma utopia e sempre nos faz sofrer. As pessoas não estão no mundo para satisfazerem os desejos egoísticos dos outros, estão para aprender a crescer e evoluir, e como evoluir sem o direito de liberdade e escolha?
Finalmente eles entenderam. Diana os chamou para voltarem à colônia onde viviam. Deixaram lá Flaviana e Nicodemos, obstinados em prejudicar Isabela.

12 - DE VOLTA A ANTIGOS HÁBITOS

A partir do dia em que foi tão humilhada e aviltada por Isabela, Augusta entrou em depressão profunda. Perceber que fora ludibriada e que tinha uma inimiga dentro de sua própria casa abateu-a profundamente. Já não saía às compras, não visitava amigas nem recebia visitas. Percebendo seu sumiço, Patrícia foi procurá-la e ainda viu algumas marcas da agressão em seu corpo, embora Augusta tivesse dito que sofrerá uma queda e que não estava podendo andar direito. Todavia, ela nunca mais apareceu na mansão. Pensou em revelar a verdade a Patrícia e Humberto, mas quem acreditaria? Certamente Isabela desmentiria tudo e ainda iria se fazer de vítima. O remédio foi se calar. Augusta chorou bastante durante aquele tempo. Sentia saudades da filha e muita solidão, afinal morava praticamente só numa casa imensa. A depressão era tão grande que ela não tinha mais forças nem para odiar; sentia-se morta. O desaparecimento de Augusta em muito agradou a Isabela, que continuava levando vida boa na riqueza. Humberto quase não deu por falta da velha senhora, atribuindo seu sumiço ao fato de a filha ter morrido e de ela não suportar outra assumir o lugar, mesmo que fosse uma amiga. O casamento de Isabela com o senador foi noticiado em todas as revistas e jornais nas colunas sociais. Um dia, praticamente por acaso, Juvêncio parou numa banca de jornal e acabou lendo uma das reportagens. Nela havia detalhes da cerimônia, onde passaram à lua-de-mel e até mencionava o endereço da bela mansão onde vivia o casal. Pensando em conseguir dinheiro para sustentar seu vício nas drogas, ele resolveu procurar Isabela. Para isso esperou passar o período da lua-de-mel e, quando viu que era a hora certa, rumou para lá. Não foi difícil para ele encontrar a casa. Ao chegar, viu Isabela no jardim com uma empregada e Daniel, que brincava satisfeito. Chamou o segurança e disse que queria conversar com a dona da casa. Isabela sentiu faltar o chão ao deparar com o homem que um dia a violentara sexualmente.
- Não conheço esse senhor, Amaral. Peça que se retire daqui imediatamente.
Juvêncio não perdeu a chance:
- Se não quiser atender, conto tudo que sei sobre sua vida e ainda recupero o que é meu de direito.
Ao ouvir aquelas palavras, ela resolveu ceder. Nunca em sua vida imaginava que iria rever aquele homem horrível. Ela se aproximou do portão e pediu que os seguranças se afastassem.
- O que deseja? Aquela moça boba de antes morreu completamente. Aqui está agora uma mulher rica e poderosa. Não tente nada contra mim ou se arrependerá amargamente.
- Não pense que está assim tão por cima. Posso destruir sua vida contando seu passado e tomando Daniel para mim. Ou me dá dinheiro ou quem vai se arrepender é você!
- Meu marido me ama e não vai se importar se conhecer minha origem. Nada vai conseguir contra mim.
- Posso ir à Justiça reclamar meus direitos de pai e, se não conseguir, sabe que posso seqüestrá-lo ou fazer qualquer mal a ele? Está em suas mãos a decisão.
- Não posso acreditar no que diz. Como pode falar isso do seu próprio filho? Aqui não é o momento para conversarmos; vamos marcar em outro lugar.
- Não é bem assim. Quero dinheiro. Ou me dá a quantia de que preciso ou transformo a vida do seu filhinho em um inferno.
Ao olhar Daniel brincando tão inocentemente, Isabela ficou preocupada. O que aquele homem poderia fazer? Sentiu medo.
- Diga quanto quer que vou providenciar. Mas que seja a última vez.
Ao ouvir a quantia, Isabela quase desmaiou.
- Não tenho como conseguir tudo isso. Desista.
- Você é quem sabe. Só que você vai ser a mais prejudicada. Não ama tanto o seu filhinho?
- Cretino cafajeste! Vou arrumar o que me pede. Ligue-me na segunda às três da tarde. Nesse horário ninguém está em casa e poderemos nos falar e marcar um lugar para a gente se encontrar.
Juvêncio pegou um papel, anotou o número e saiu satisfeito. Isabela entrou. Já escurecia e começou a ventar forte. Naquela noite Humberto não estava em casa e ela se sentia aliviada por isso. Não iria conseguir aturá-lo com aquele problema para resolver. Depois que Daniel dormiu, ela foi para a banheira, encheu-a de sais e começou a tomar um banho relaxante. Precisava pensar friamente no que iria fazer. Ceder à chantagem iria colocá-la em uma situação ruim, pois ele sempre exigiria mais. Todavia, ela não podia deixar de fazer o que ele queria, senão poderia colocar a vida do seu filho em risco. Mesmo sendo rica e cheia de pessoas que a protegessem, ela sentiu medo. Ouvia falar de pessoas ricas que, mesmo com todo o dinheiro do mundo, tiveram seus filhos ou parentes seqüestrados e mortos, e sentiu um frio percorrer seu corpo. Não poderia imaginar seu filho sofrendo. Passou mais de uma hora na banheira. Depois saiu e com um confortável roupão foi para a cama. Tentava encontrar uma solução e não conseguia, por mais que pensasse. De repente, uma idéia surgiu em sua mente e foi tomando forma. Ela a achou perfeita. Como não havia pensado nisso antes? Interfonou e pediu que Amaral fosse até a garagem, pois ela precisava muito falar com ele. Patrícia dormia e ninguém perceberia que conversavam. Frente a frente com o motorista, que a partir daquele dia se tornaria seu cúmplice, ela disse:
- Amaral, você tem de encontrar um lugar deserto, de preferência uma casa pequena e isolada. Preciso de um encontro e não quero que ninguém saiba.
Ele balançou a cabeça:
- Senhora, não desejo me envolver com esses assuntos. Não posso perder meu emprego, muito menos trair a confiança do senhor Humberto. Não posso fazer o que me pede.
- Pode e vai fazer. Sei que tem uma família, mãe doente, e se não fizer isso perderá o emprego hoje mesmo. Posso contar a Humberto que tentou fazer sexo comigo à força e será pior para você. Eu mesma cuidarei depois para que não encontre nenhum emprego.
- Tudo bem. A senhora, como sempre, venceu. Encontrarei o local que me pede.
- Mas tem de ser rápido. Hoje é sexta-feira e quero isso para segunda à tarde. Humberto chega esse fim de semana e não quero que desconfie de nada, por isso não me dirija à palavra. Segunda pela manhã conversaremos.
O fim de semana pareceu eterno para Isabela. Humberto estava meloso e a queria a todo o momento. O que ela mais gostou foi ter a presença de Fernando no domingo na piscina. Ela flertava com ele discretamente e sabia que era correspondida. Porém, naquele dia, tinha de se concentrar no que pretendia fazer. Finalmente a segunda-feira havia chegado. Humberto tinha viajado e a casa estava vazia. Ela saiu e pediu ao taxista que a deixasse numa loja. Esperou. Poucos minutos depois, Amaral apareceu.
- Vejo que é eficiente. Vamos, quero conhecer esse local para ter certeza se é realmente bom. Depois preciso de um treinamento seu.
- Treinamento?
- Sim. Na hora explicarei.
Eles tomaram um táxi e foram se afastando do centro. Quando chegaram próximo ao local, dispensaram o carro e seguiram a pé. Foram ter em uma espécie de cabana que, apesar de isolada, de onde se localizava podia se avistar algo parecido com uma favela.
- Aqui é o local perfeito. Agora vamos ao treinamento.
Mesmo a contragosto, Amaral ensinou o que ela deveria fazer, ainda que soubesse que estava cometendo um erro.
Já em casa, ela esperou ansiosamente o telefonema.
- Alô? - Era a voz de Isabela atendendo o tão esperado telefonema.
- Sou eu. Desejo saber se nosso encontro está combinado para hoje e se tem à quantia. Tem de responder que sim, pois não estou acostumado a esperar.
- Tenho sim. Vou passar o endereço do lugar aonde vamos nos encontrar. Mas estou avisando: será a primeira e última vez. Nunca mais desejo ver seu rosto repugnante na minha frente.
Juvêncio sorriu ironicamente.
- Calma, Clotilde, não precisa ficar assim tão nervosinha. Tudo só depende de você.
Ela, muito irritada por ter sido chamada por seu verdadeiro nome, resolveu dar um basta na conversa e passou logo o endereço.
- No final dessa rua tem um terreno baldio com uma cabana abandonada. É lá que vamos nos ver. Até mais.
Ela ficou por ali com Daniel e Eudásia até chegar à hora do almoço. Patrícia estava encantada com o filho de Isabela e não cansava de brincar com ele. Às três da tarde, Isabela, pretextando um dor de dente, pediu que Amaral tirasse o carro e a levasse ao dentista. Patrícia se ofereceu para ir com ela, mas recebeu uma negativa.
- Vá estudar não se importe. Seu pai me deu o endereço de um ótimo dentista e o Amaral vai comigo.
Assim saíram. No carro, ela indagou:
- Ela está pronta como pedi?
- Sim senhora. Mas acho que vai cometer um erro muito grande. Não vou ser testemunha; deixarei a senhora no final da rua e ficarei no carro.
- Nada disso, você vai comigo até o fim. E se ele tentar me imobilizar? Quero tê-lo ao meu lado. E já sabe que não aceito um não. Ou isso, ou perde o emprego.
Amaral aceitou, porém sabia que aquilo não ia terminar bem. Nunca em sua vida havia se metido num caso como esse. Contudo, preferia ajudar a nova patroa a ficar sem dinheiro para sustentar sua família e sua mãe doente. Chegaram. Isabela retirou do carro um pacote marrom e entrou na cabana. Poucos instantes depois Juvêncio apareceu. Estavam os três reunidos, quando ele falou nervoso:
- Vamos, passa a grana. Ainda vou contar para ver se tem a quantia certa. Quero ter certeza de que não está me enganando.
Ela passou o envelope e ele abriu com rapidez. Após contar as cédulas, gritou:
- Mas aqui não tem nem a metade. Você está me enganando, |sua ordinária! - Dizendo isso, ia avançando sobre ela quando, de repente, viu um revólver apontado em sua direção.
- Basta! Fique longe. Sempre desejei sua morte desde o dia em que acabou com minha juventude com aquele estupro. Como desejei matar você! Mas o que eu podia fazer morando naquela favela horrorosa sem ter ninguém que cuidasse de mim? Agora tudo mudou. Sou rica e mulher de um senador. Posso tudo, e você vai morrer e conhecer os horrores do inferno.
- Calma, Clotilde, vamos conversar. Sou pai de seu filho, pense no que vai fazer...
- Você nunca será o pai do meu filho. E um miserável, que vou fazer um favor em tirar do mundo. Deus está guiando minhas mãos nesse momento.
Ela não pensou em mais nada. Começou a atirar sem parar até que viu o corpo dele inerte no chão. Vendo-o ainda respirando, ela se aproximou, mirou seu cérebro e atirou pela última vez. Depois gargalhou dizendo:
- Morra seu verme.
Ela parecia estar em transe. Quando voltou ao normal, recolheu o dinheiro e saiu do lugar deserto com Amaral, única testemunha do seu crime.
Tempos mais tarde, chegou em casa como se nada tivesse acontecido.
- Olá, Patrícia. Onde está o Daniel?
- Lá em cima com Eudásia. Brincou até cansar. Acho que agora pegou no sono.
- Vou subir e tomar uma ducha estou precisando.
- Isabela, preciso conversar com você. Tem um tempo para mim agora?
Ela sentiu que era um assunto sério. Nunca Patrícia a havia chamado dessa forma.
- Em que posso ser útil?
- Desejo a sua sinceridade. O que houve entre você e a minha avó?
Apanhada de surpresa, Isabela não soube o que responder. Precisava inventar uma mentira com rapidez.
- Olha Pati, não gosto muito de falar nesse assunto porque me magoa bastante...
Patrícia olhou firme para ela.
- Não seria minha avó quem deveria estar muito magoada com você?
- Não sei o que a dona Augusta lhe falou, mas, se quer saber a verdade, vou lhe contar. Sua avó era muito minha amiga, como você mesma sabia. Depois que lhe disse o que tinha acontecido entre mim e seu pai, ela fingiu aceitar. Até me ajudou no casamento. Contudo, depois que voltei da lua-de-mel, ela me chamou e me falou coisas horríveis. Disse que havia descoberto a existência do meu filho e que eu não serviria para morar na casa que tinha sido de sua filha. Fui muito humilhada e ela jurou que eu não viveria para usufruir desse casamento. Confesso Patrícia, que tenho medo, muito medo do que a dona Augusta possa fazer contra mim.
Patrícia sentiu que algo nela não era verdadeiro. Ela continuava a freqüentar o centro espírita e tinha intuição aguçada. Tentava fazer o possível para agradar a Isabela, mas algo lhe dizia que havia uma coisa muito errada naquela história.
- Estranho, minha avó não quer tocar no assunto e está há mais de um mês depressiva. Nem sai mais de casa. Levou uma queda, que machucou muito seu braço, e está fazendo fisioterapia porque eu insisti. Ela, que era ativa, religiosa, gostava de viajar, visitar as amigas, agora parece um farrapo humano.
- Sinto muita pena dela, mas não posso fazer nada. Ela não me aceita como amiga e deve estar assim por sentir falta da dona Flaviana e por me ver no lugar dela. Creia Patrícia, aprendi a gostar de seu pai, mesmo a contragosto, e acho muito justo ele reconstruir a família.
- Entendo. Deve ser impressão minha então. Bom, pode subir. Vou me encontrar com Fernando. Iremos ao centro espírita.
- Ele também é espírita? - interessou-se ela.
- Não, é apenas simpatizante. Vai porque eu vou.
- Ah, se me convidasse, bem que eu poderia ir.
- Então está convidada. As segundas são palestras instrutivas a respeito da espiritualidade; no meio da semana há outras tarefas.
- Irei, sim.
Terminada a conversa, Isabela subiu. Sorriu da ingenuidade de Patrícia. Mas ela iria usá-la para se aproximar de Fernando. Desde o dia em que o vira tencionava tê-lo como amante. Ele era um rapaz extremamente atraente, de olhos amendoados, alto, cabelos lisos que lhe emolduravam o rosto, pele clara, musculoso, e Isabela se deixava levar em pensamentos, antevendo o prazer que sentiria ao lado dele. Havia se esquecido por completo de que deixara um inimigo desencarnado por suas mãos em estado de completo alheamento. Na cabana abandonada, o corpo de Juvêncio jazia lavado em sangue. Passados alguns instantes após seu espírito estar inconsciente, acordou ainda preso ao corpo. Não conseguia entender o que estava se passando. Tentava se levantar, mas não conseguia. De repente, estranho fenômeno aconteceu. Ele parecia haver se duplicado. Estava fora do corpo e via seu cadáver todo cheio de balas, ensangüentado e inerte no chão. Desesperado, tentou correr do lugar, mas não conseguiu. Sentia-se puxado ao corpo inerte e mais uma vez estava dentro dele. Juvêncio nunca sentiu tanto medo e pavor em sua vida quanto agora. Os dias passaram e ele continuava no mesmo estado. Por que ninguém o socorria? Sentia seu corpo exalar um terrível mau cheiro e suas carnes apodrecerem, porém nada podia fazer para sair daquela situação. Um dia, um casal de namorados entrou na cabana e se assustou com o que viu.
- Rodrigo, esse homem está morto, e parece que há muitos dias.
- É isso mesmo, Fátima. Precisamos avisar a polícia.
Ela fez beicinho:
- E nosso encontro de hoje?
- Esse cadáver cortou todo nosso clima. Vamos sair daqui e telefonar contando o que vimos.
Assim fizeram. A polícia chegou ao local, retirou o corpo e começou as averiguações. O assassino não havia deixado pistas e nada existia junto ao corpo que pudesse identificá-lo, portanto o entregaram ao Instituto Médico Legal. Juvêncio sentiu o horror de ser engavetado em um local gelado. Era a primeira vez que chorava um pranto sincero e angustiado. Também nunca havia sentido tanto medo, apesar dos longos anos de vida marginal que tivera. Por mais que gritasse aos policiais, ninguém o ouvia. Com os médicos foi ainda pior. Então começou a se lembrar de Clotilde e de que ela o havia matado. Sentiu um ódio surdo brotar em seu peito, e o sentimento teve tanta força que o arremessou para o lado dela. Era noite e todos estavam na sala de jantar. Flaviana continuava lá, acompanhada de Nicodemos, sem conseguir se aproximar de Isabela. De repente, ela viu um vulto aparecer na sala. Era uma pessoa sangrando muito, cheia de buracos pelo corpo. Ficou com medo.
- Quem é esse, Nicodemos?
- E eu vou lá saber? Mas parece que é dos perigosos. Vamos ficar longe.
Era sábado, por isso todos jantavam juntos. Humberto estava presente e Fernando estava acompanhando Patrícia. Juvêncio viu com ódio Isabela sorrindo e conversando animadamente. Numa rapidez muito grande, ele avançou sobre ela, mas foi detido por Romário que, com um soco, jogou-o no canto da sala.
- Quem é você?
- Sou o protetor de Clotilde. Ninguém se aproxima dela.
- Tenho o direito. Ela me matou, e vou me vingar, custe o que custar. Não vai ser você quem vai me impedir.
- Vou sim.
Os dois travaram uma luta corporal no meio da sala. Juvêncio conseguiu se livrar e lançou-se sobre Isabela, apertando seu pescoço. Seu ódio foi tanto que ela engasgou e perdeu o fôlego. Todos correram para socorrê-la. Isabela tentava respirar, mas não conseguia. Foi ficando vermelha, até que desmaiou. Patrícia ficou muito nervosa:
- Papai, leve-a para o hospital. Ela pode morrer!
- Como ela foi engasgar assim desse jeito?
- Não vamos perder tempo com isso. Vou pedir a Amaral que tire o carro e nos leve ao hospital agora.
Quando chegaram ao hospital, Isabela foi atendida e o médico informou que por pouco ela não perdera a vida. O doutor Fagundes suspeitava de que algo mais grave estava acontecendo com ela, pois sua língua havia ficado enrolada, o que tinha dificultado a passagem do ar. Humberto sentiu muito medo de perdê-la. Ficou toda à noite com ela no hospital. Juvêncio também não deixou o quarto. Na madrugada, Romário apareceu com um homem de rosto sério, bigode fino e olhar penetrante. O estranho homem olhou para Juvêncio e falou:
- Levante-se daí, precisamos conversar.
- O que quer? Saiba que só vou sair daqui quando levar Clotilde à morte. Esse aí tentou me impedir e levou uma sova daquelas. Quer apanhar também?
O homem sorriu.
- Não. Quero ajudá-lo. Também tenho interesse em que essa mulher desencarne para que venha sofrer junto de nós. Mas não é assim que você vai conseguir matá-la. Com essa atitude, ela vai ter esses ataques até melhorar de vez, e você não vai conseguir mais atingi-la.
- Melhorar? Como assim?
- Já ouviu falar em centro espírita?
Ele demorou, mas respondeu:
- Sim. De vez em quando pessoas desses centros apareciam lá na favela levando comidas e roupas. Mas o que isso tem a ver comigo?
- Tudo! Isabela mora em uma casa onde sua enteada freqüenta um desses horríveis lugares, e se você continuar provocando essas crises nela a enteada vai desconfiar de que é envolvimento de espírito desencarnado. Então a levará para fazer um tratamento. Esses lugares malditos têm um poder especial que consegue neutralizar nossa ação. Em pouco tempo, você não conseguirá mais nada com ela.
- Mas isso é injusto! Ela é má, egoísta e assassina. Deixou a mãe e os irmãos na maior miséria e não faz o bem a ninguém. Como é que será protegida?
- Não sei dizer, mas os seres da luz não gostam que exerçamos a justiça com as próprias mãos. Dizem que só Deus pode fazer justiça e, assim, conseguem nos afastar. Porém, se ficar do meu lado, teremos como matá-la de outra forma.
Juvêncio se interessou.
- Então me conte como.
Horácio chamou-o a um canto e narrou-lhe o plano terrível. Ele ia ouvindo sem acreditar naquelas palavras, que lhe mostravam uma trama tão habilidosa que sequer poderia ter imaginado algum dia. Quando terminou estava radiante.
- Seguirei com você. Nossa como é inteligente! Tem razão em ser o chefe.
Horácio respondeu:
- Não sou o chefe; quisera eu! Nossa cidade no astral está sem comando. Nosso chefe foi resgatado e ninguém ainda ocupou o lugar.
- E por que você mesmo não toma o lugar?
- Não tenho gabarito para isso. Estamos esperando nosso próximo chefe desencarnar para nos comandar. Trata-se de um político muito famoso na Terra. Assim que ele morrer, o receberemos com alegria e assim passará a comandar os planos de vingança, tão a seu gosto.
- Tem certeza de que devo deixar a Clotilde aí?
- Sim. Venha comigo. Aposto que está doido para sentir o prazer das drogas novamente.
- Como adivinhou?
- Soube pela sua ficha. Acompanhe-me que vou levá-lo a um lugar onde poderá sentir esse prazer novamente.
- Mesmo depois de ter morrido?
- E claro! Aqui na Terra sugamos as energias que nos dão prazer por meio das pessoas que fazem as mesmas coisas. Você mesmo servia de repasto para outros espíritos viciados, só que não se lembra de nada.
Juvêncio estava admirado com aquilo. Resolveu seguir Horácio e ver se era verdade o que ele dizia. No domingo pela manhã Isabela recebeu alta. Quando chegou em casa, já no elegante sofá da sala de estar, ela comentou:
- Não sei como aconteceu. De repente, me deu uma vontade enorme de tossir e quando vi estava engasgada. Parecia que tinha alguém apertando meu pescoço. Foi horrível.
Humberto a tranqüilizou:
- Mas não foi nada. Mesmo assim, terá de fazer os exames que o doutor Fagundes pediu.
- Farei meu amor. Agora desejo ver Daniel. Onde ele está? - dizendo isso, subiu as escadas.
Patrícia ficou sozinha com o pai e aproveitou:
- O senhor está feliz com esse casamento?
- Claro filha. Por que pergunta isso?
- Não sei. Sinto que essa união não lhe trará felicidade.
Humberto cocou o bigode.
- Lá vem você com essa história de intuição de novo. Sabe que não acredito em nada disso.
- Também não sei por que sinto isso. Gosto da Isabela sei que ela o faz feliz e que é uma boa pessoa. Pela lógica, não era para eu sentir nada disso. Mas aprendi no centro que a intuição é superior à razão, e sempre nos conduz à verdade. Algo me diz que sua vida com ela não vai ser sempre boa.
Humberto irritou-se.
- Não quero mais falar sobre isso. Causa-me mal-estar. Mudemos de assunto. Como está seu namorinho com o Fernando?
- Muito bem. Gosto dele e sei que ele gosta de mim. Acabaremos casados.
Ele riu.
- Como pode dizer isso se tem tão pouco tempo de namoro? É intuição também?
- Sim, sei que ele será meu marido.
- Você às vezes me faz rir. Bem que eu gostaria de ter essa tal intuição para descobrir quem são meus inimigos no Senado.
Os dois riram e começaram a falar amenidades. No quarto com Daniel, Isabela havia esquecido o mal-estar e só pensava numa forma de se aproximar de Fernando. Todo movimento estranho que acontecia, ela ia olhar na esperança de vê-lo chegar à mansão. Era domingo e certamente ele iria aparecer para ver Patrícia. Até agora ambos haviam só trocado olhares e ela precisava agir. Sentia que ele estava tímido para procurá-la e ela não queria mais perder tempo. Suas relações íntimas com Humberto já não lhe davam o prazer esperado e ela queria descobrir novas sensações. Sem perceber, ela voltava aos hábitos antigos de sua encarnação anterior, incorrendo nos mesmos erros. Quando vivera como Nathalie, traíra Henry, que agora era Humberto, e agora novamente tencionava fazê-lo. Romário a estava inspirando o tempo inteiro, colocando em sua mente cenas de intimidade com Fernando. Ela sentia aumentar seu desejo. Estava ficando ansiosa e com dor de cabeça quando finalmente o viu entrar. Rapidamente ela entregou seu filho a Eudásia e desceu. Fernando estava à beira da piscina com Patrícia, quando ela chegou.
- Vim tomar um pouco de sol. Depois do mal-estar de ontem sei que o sol me fará bem.
Patrícia comentou:
- Isso mesmo, fez muito bem. Sente-se conosco.
Fernando tentou conversar, um tanto tímido:
- Está melhor? Não sentiu mais nada?
- Não. Se novamente tiver um ataque daquele, morrerei.
- Não diga isso. A senhora é muito jovem para morrer.
A conversa continuou amena, até que de repente Isabela pediu:
- Patrícia, peça a Eudásia que venha até aqui e traga o Daniel. Ele precisa tomar sol.
- Irei sim. Vou aproveitar e trazer mais refrigerante.
Assim que Patrícia saiu, Isabela olhou profundamente para Fernando e, com coragem, falou:
- Sei que pode pensar mal de mim, mas estou loucamente apaixonada por você. Meu casamento é uma infelicidade, não amo o pai da Patrícia. Vivo com ele por necessidade. Sei também que sou correspondida, pois noto seus olhares de desejo sobre mim. Isso me faz acreditar que não gosta de Patrícia e que está com ela por outros interesses. Amanhã às três da tarde me ligue, pois precisamos conversar melhor. Encontrarei um lugar para nos encontrarmos.
Fernando não teve tempo de falar nada, pois Patrícia tinha voltado. Mas ele gostara muito do que ouvira. Afinal, ser amante daquela mulher, mesmo que se casasse com Patrícia, lhe daria muitas vantagens. Fernando era um jovem de 26 anos de classe média. Trabalhava para ter mais dinheiro e havia prestado vestibular algumas vezes, sem, contudo nunca ter conseguido ingressar em nenhum curso superior. Na realidade, não pensava em estudar. Pensava em fazer um bom casamento do qual pudesse tirar muitas vantagens. Na realidade, ele usava sua beleza para viver bem financeiramente. Assim, saía com algumas mulheres e logo começavam suas exigências: queria dinheiro. Se algumas fugiam, decepcionadas, outras, movidas pelo interesse no sexo e pela vaidade de estarem acompanhadas por um homem bonito, cediam a todos os seus desejos. Mas ele sentia necessidade de mais. Queria uma vida estável e, quando conhecera Patrícia "por acaso" numa festa de amigos, logo sentiu que ela era a pessoa indicada. Rica, Patrícia possuía boa parte da fortuna de sua mãe e ele sabia que esse casamento lhe traria a situação que almejava. Mas a vida estava sendo por demais pródiga com ele, colocando em seu caminho Isabela, que pelo visto faria tudo que ele quisesse. Foi Isabela quem perguntou:
- Daniel já vem?
- Vem sim. Também nosso refrigerante está chegando. Vamos aproveitar esse sol e cair na piscina.
Fernando e Patrícia entraram na água, enquanto Isabela, vendo-o nadar, sentia aumentar compulsivamente seu desejo.

13 - NA MANSÃO DE HIGIENÓPOLIS

Flaviana estava muito triste aquele dia. Fazia meses que se encontrava na casa de Humberto e não conseguia se aproximar de Isabela, pois Romário sempre impedia. Ficou muito feliz quando viu aquele homem asqueroso apertá-la pelo pescoço, porque achou que ele ia matá-la. Mas qual não foi sua surpresa quando a viu voltar como se nada tivesse acontecido. Nicodemos chegou arfante.
- Você não sabe o que a Isabela quer aprontar agora.
Ela, desanimada, respondeu:
- Estou cansada dessa vida. Estou sofrendo, ficando mais velha e feia, e nada tenho conseguido. Às vezes penso nas pessoas que me acolheram num lugar chamado colônia, mas lá também não quero ficar; parece uma prisão. Também não tenho para onde ir... Que desespero! - dizendo isso, começou a soluçar sentidamente.
Nicodemos a olhou penalizado.
- Tem a minha cidade. Lá você poderá ficar e até trabalhar.
- Não desejo ficar com vocês. Na verdade, nem sei o que fazer da minha vida. Sinto-me perdida. Nunca pensei que morrer pudesse nos levar a uma vida tão parecida com a que levávamos na Terra.
- Deixe para pensar nisso depois. Temos de nos concentrar agora na vingança contra sua assassina. Ou quer deixá-la sem receber o que merece?
Ela enxugou as lágrimas teimosas e o fitou seriamente.
- Vingança é o que mais desejo no mundo! Então, o que tem para me dizer?
- Estava lá na beira da piscina vigiando a assassina quando vi que ela se declarou ao rapazinho que namora sua filha.
- Como? Ela quer trair Humberto?
- Sim, não percebe que ela tem muito fogo? E daquelas que não se bastam com um homem só.
Flaviana corou:
- Não fale isso na minha frente. Sou mulher de respeito.
- Tudo bem, me desculpe. Mas é isso: ela quer tê-lo como amante. Podemos influenciar Humberto para que desconfie e mate os dois. Uma vez aqui, nós a prenderemos em uma das celas e a castigaremos.
Flaviana exultou:
- Que boa idéia! Fale baixo, pois Romário poderá escutar.
- Não se preocupe. Ele está do lado dela, passando desejos sexuais e pensamentos obsessivos de paixão; nem percebeu que vim lhe contar.
- Fico mais tranqüila. Temos de influenciar Humberto sem que ele perceba, pois, do contrário, estaremos perdidos.
Nesse momento, uma luz azulada penetrou no ambiente. Flaviana e Nicodemos fecharam um pouco os olhos porque aquele reflexo era muito forte e lhes doía às vistas. A luz foi reduzindo sua intensidade e apareceu no meio do clarão a figura de uma mulher. Ela olhou para Flaviana e falou:
- Vim em nome de Deus, porque preciso lhe mostrar duas pessoas que muito a amam e há muito querem vê-la.
- Diana? É você?
- Sim, minha amiga. E estou acompanhada de pessoas das quais sua mente nem se lembra no momento. Nunca se perguntou onde estariam seus dois filhos que morreram no acidente?
- Filhos? Acidente? - Ela estava atordoada. - Meu Deus! Marcos e Alfredo! Onde estão eles? Como pude me esquecer?
- Você se deixou levar pelos sentimentos negativos e esqueceu tudo o mais, porém eles jamais esqueceram de você, dos seus carinhos de mãe, das noites insones que teve, dos zelos e cuidados, e estão aqui para vê-la.
Era muita emoção para Flaviana. Do meio do clarão, Marcos e Alfredo surgiram. Ela, sem lembrar de mais nada, correu a abraçá-los. Chorou muito e naquela hora a lembrança dos seus sofrimentos reapareceu com toda a força. Lembrou-se do acidente terrível, de como havia sofrido com a perda dos seus filhinhos amados. Recordou-se de Humberto se afastando do lar e, finalmente, de sua doença cruel.
- Meus filhos, deixe-me abraçar cada um de vocês. Quanta saudade! Como estou sofrendo!
Marcos foi o primeiro a dizer:
- Mãe, venha conosco e esqueça a vingança. Só Deus tem o poder para julgar as pessoas e aplicar sua justiça. Quem somos nós para condenar os outros? A vingança nunca trouxe felicidade a ninguém; ao contrário, nos leva a caminhos tortuosos de sofrimento e infelicidade.
- Você diz isso porque é muito bom, sempre foi desde criança. Mas não posso deixar de matar aquela que me tirou a vida, é justo. Fiquem comigo, provem que me amam de verdade e me ajudem a trazer para o inferno essa mulher que roubou minha existência.
Alfredo, muito paciente, explicou:
- Não estamos aqui para nos vingar de ninguém. Há muito aprendi que não existem vítimas sobre a Terra e são nossos pensamentos e crenças que atraem todos os sofrimentos em nossa vida. Creia mamãe, a senhora passou pelo que era necessário ao seu aprendizado e pelo que estava de acordo com sua maneira de ser. Ao contrário de condenar, abençoe a mão que lhe deu, por meio do sofrimento, a chance de se melhorar e redimir. Flaviana pareceu não aceitar.
- Vocês dizem coisas estranhas. Pelo jeito, parece que ela estava certa em fazer o que fez e que a errada fui eu.
- Não estamos dizendo isso. Claro que Isabela se comprometeu seriamente com as leis divinas quando agiu daquela maneira, mas já se perguntou como à senhora a atraiu para sua vida? Se não houvesse necessidade de a senhora passar por essa experiência, Isabela não teria conseguido o que pretendia e iria molestar outra pessoa.
Ela não queria entender e mudou de assunto.
- Como vocês estão crescidos! Eu queria tanto que todos nós estivéssemos ainda na Terra, como antes.
Diana interrompeu:
- Flaviana, seus filhos desejam que você siga conosco. Eles estão penalizados com sua situação e querem ver a mãe bem. Aceita?
- Isso não! Não posso deixar essa mulher vulgar impune. Eles é que deveriam sair daquela colônia e estar aqui perto de mim, ajudando. Aliás, esse é um dever de filho.
- Bom, aceitamos sua posição, mas aviso que Marcos e Alfredo não poderão ficar. Vamos nos despedir; fique com Deus. Quando precisar de nós pense com força que atenderemos.
Flaviana começou a chorar.
- Não me deixem, tenho me sentido muito sozinha. Voltem!
Os três desvaneceram diante dos seus olhos e ela continuou a chorar. Mas o sentimento de vingança era mais forte que tudo, e Flaviana pensava em reencontrar os filhos depois que concluísse seus planos. Como estava enganada! A vingança nos afasta de Deus e dos espíritos superiores. Jesus nos recomendou perdoar setenta vezes sete, querendo mostrar que o perdão é infinito. Esquecendo dessa elevada orientação, Flaviana ia se prender a espíritos ignorantes e demoraria muito para rever os filhos. Passado um tempo, Marcos e Alfredo foram novamente visitar Diana, que sempre os recebia com amor.
- Continuamos preocupados com nossa mãe. Pensamos que nossa presença ia demovê-la de seus intentos, mas foi tudo em vão.
Diana sorriu.
- O bem nunca é em vão. Às vezes ficamos tristes quando fazemos o bem, orientamos pessoas e elas fazem justamente o contrário; parece que não aprenderam nada e até pensamos em desistir. Ledo engano. Tudo que escutamos de bom, por mais que não usemos no momento, fica registrado em nossa alma e um dia o usaremos. Há sementes que passam séculos para germinar e dar frutos; assim também somos nós. O que o Mestre de amor nos ensinou há mais de dois mil anos, e que ainda não conseguimos colocar em prática, está dentro de nós como uma semente que um dia vai criar vida. Creiam amigos, todo o bem que plantamos no coração de alguém, por mais dura, por mais rude que seja essa pessoa, um dia vai ser usado em benefício dela própria, e nessa hora ela se lembrará de quem o plantou, onde quer que esteja.
Alfredo comentou:
- Há na Terra quem pense que a morte não modifica as pessoas e que elas continuam as mesmas. Pelo caso de minha mãe, posso perceber que não é uma regra geral. Quem diria que a dona Flaviana, uma mulher doce e cordata, estivesse depois da morte planejando uma vingança e um assassinato?
- É que as pessoas não conhecem as outras completamente, e não sabem do que elas são capazes. Ainda temos muito que conhecer a respeito de nós mesmos, imagine, então, dos outros. Convivemos certamente durante várias encarnações com uma pessoa sem conhecê-la profundamente. Flaviana mostra que tinha uma bondade apenas aparente. Bastou um pequeno golpe da vida para se rebelar e apresentar o outro lado de sua personalidade. Assim somos nós: caridosos, bondosos, doces e sorridentes até que um pequeno fato venha a mexer em nosso orgulho para a máscara cair. Temos muito que aprender para evoluir. Quantas vezes vemos pessoas aparentemente bondosas passarem por toda a sorte de privações? Achamos injusto ou culpamos seus desacertos em vidas passadas, porém estamos enganados. Os sofrimentos decorrem das nossas atitudes atuais e de como estamos nos portando no presente. Quem é bom de verdade jamais sofre, pois a lei é justa.
Alfredo, com voz que o pranto embargava, disse:
- É difícil aceitar certas coisas, mas os fatos mostram que você está certa, Diana. Todavia, desconfio que essa ligação entre Isabela e minha mãe vem de muito longe. Por que o espírito dela me induziu a matar minha mãe quando vivemos na França?
Diana foi falando com calma:
- Elas são inimigas de um passado remoto. Tudo começou no início do século XVIII. Isabela, naquele tempo, chamava-se Moema e Flaviana tinha o nome de Sebastiana. Viviam num pequeno arraial no Brasil e eram amigas. Certo dia conheceram um homem misterioso que as seduziu e lhes ensinou os segredos da magia negra. Tornaram-se satanistas. Em parceria com Leopoldo, elas cometeram muitos crimes para satisfazer entidades infernais, em troca de vida longa, saúde e fortuna. Os três viviam uma relação poligâmica, mas Moema tinha grande ciúme da forma pela qual Leopoldo tratava à amiga e passou a odiá-la. Em trato com os espíritos das trevas, ela fez um encantamento e conseguiu que Sebastiana morresse. Foi uma morte lenta e sofrida. Moema a fez ingerir uma erva que tapava pouco a pouco o esôfago, e ela morreu agonizante com insuficiência respiratória. Quando chegou ao astral e descobriu quem tinha sido sua assassina, era tarde demais. Por ter se envolvido com a magia, os espíritos que a assessoravam prenderam-na para que servisse de cobaia em suas experiências. Tendo seu poder temporariamente suspenso, ela não conseguiu prejudicá-los e o casal Leopoldo e Moema continuou vivendo bem e cometendo mais crimes. Anos mais tarde desencarnaram e sofreram muito. Os espíritos de suas vítimas eram tantos que eles foram perseguidos cruelmente, chegando à loucura. Sebastiana, libertada dos seus algozes, ficou muito feliz com a cena, mas ainda assim não se sentia vingada. Queria mais. Por isso se juntou com o grupo e pretendia transformá-los em massas disformes, até que um espírito superior, com ordem de Jesus, interferiu no processo e resgatou os espíritos de Leopoldo e Moema, completamente loucos, do umbral. Havia no astral um espírito amigo do casal que todos os dias orava a Deus pedindo auxílio para eles, até que foi atendido.
Marcos e Alfredo ouviam sem querer perder nem uma palavra. Diana prosseguiu:
- Recolhidos a um manicômio do plano espiritual, padeceram. Nenhum tratamento surtia efeito. Um dos mentores chamou os encarregados do caso e avisou que só a reencarnação poderia amenizar um pouco o problema. Reencarnaram em completo estado de idiotia e viveram poucos anos na Terra. Os espíritos que foram suas vítimas no passado os encontraram mesmo em corpos infantis, e, por intermédio de uma trama ardilosa, conseguiram assassiná-los. As crianças apareceram mortas subitamente e ninguém encontrou explicação plausível. Ao regressarem para cá, tinham melhorado e adquirido lucidez. O corpo de carne é uma válvula que absorve as energias do perispírito e as extravasa. Eliminando esses resíduos, os espíritos voltam a ter saúde. Reunidos conosco, Moema se mostrou muito arrependida e queria uma nova chance. Leopoldo reconheceu que usou seus potenciais mediúnicos a serviço das trevas e queria uma reencarnação na qual pudesse usar esses dons para o bem. Foi aconselhado a esperar e desenvolver outros lados da sua personalidade. Eles acreditavam na força da riqueza, então decidiram ser nobres na França e contribuir com pessoas necessitadas dando trabalho e dignidade a elas. Muitos seriam suas vítimas reencarnadas. Felizes, voltaram ao mundo, ela como Nathalie e ele como Henry. Sebastiana não renasceu porque não tinha chegado à hora e ficaria no astral esperando o instante de nascer como filha do casal. Mas ela não aceitou o tratamento que queríamos ministrar e fugiu de nossa colônia, indo em busca dos seus antigos parceiros para se vingar. Foi quando conseguiu, através de Luigi, matar Nathalie por asfixia, a mesma forma como tinha sido morta.
Marcos interrompeu:
- O resto eu já sei. Eles falharam novamente e renasceram no Brasil. Mais uma vez, Isabela não perdoou minha mãe e a matou. Meu pai continua mergulhado no materialismo e esquecido de tudo o que programou para a própria existência.
Alfredo completou:
- Minha mãe continua querendo vingança e Isabela, no caminho dos crimes, vai certamente ter um final trágico. Meu Deus, quando essa sucessão de vinganças vai parar?
Foi Diana quem respondeu:
- Quando aprenderem o valor do perdão e a força do bem. Não sabemos até quando essa situação vai permanecer, todavia não poderão permanecer eternamente estacionados e fazendo o mal; nada permanece para sempre do mesmo jeito e as pessoas não podem ficar desrespeitando as leis de Deus sem que sejam contidas. Um dia, por um sofrimento muito grande, eles vão aprender que só o bem tem força e que o mal cobra um tributo muito grande daquele que o pratica.
- Por que meu pai não veio na última encarnação com as faculdades mediúnicas ostensivas? Afinal, ele precisava reparar o mal que tinha feito no passado. - Fora Marcos quem perguntara.
- Porque ele teve medo de falhar e pediu a Deus uma encarnação mais amena, na qual pudesse ir ganhando coragem para no futuro exercer esse mandato. Mesmo que demore, Humberto ainda voltará com as faculdades mediúnicas muito desenvolvidas para que, com o trabalho em favor dos sofredores, possa se redimir do passado de crimes.
- Quando eles vão encontrar a felicidade?
- Quando quiserem. A felicidade tem um preço que nem todos querem pagar para obtê-la. As pessoas sempre preferem à comodidade, a lei do mínimo esforço, as ilusões do materialismo a ter de se modificar no bem e disciplinar os pensamentos. Viver bem é fácil quando percebemos que já possuímos tudo que é necessário para ser felizes. Ao contrário do que se pensa, a felicidade independe das coisas externas, pois é um estado interior de satisfação, de contemplação do belo, da natureza e de êxtase com as coisas simples do dia-a-dia. É um erro procurarmos à felicidade em acontecimentos grandiosos que nem sempre trazem a alegria esperada, pois ela se encontra na vivência de todos os momentos, e qualquer um pode, desde já, alcançá-la, basta querer.
- E a busca pelo progresso, pelo bem-estar? Onde fica?
- Os acontecimentos materiais, o progresso vêm apenas aumentar a felicidade de quem já a possui; são meros complementos.
Já notou aquelas pessoas que têm tudo e não são felizes? É que ser feliz é uma arte, uma conquista do nosso espírito, e é um sentimento inato no ser humano, basta buscar que a encontraremos.
- Nossa, Diana, hoje você nos elucidou bastante. Vivo colocando a minha felicidade para depois. A partir de hoje, quero ser feliz já, não vou esperar mais.
- É assim que se fala Alfredo. Agora vamos que o trabalho nos espera.
Abraçados, eles saíram rumo a outros departamentos daquela operosa colônia.
No elegante quarto de Madame Aurélia, na Mansão de Higienópolis, a grande cama de casal se encontrava coberta de jornais e revistas. Ela, Morgana e Luana observavam tudo com muito ódio. Eram fotos de Isabela e Humberto em colunas sociais.
- Acolhi essa miserável aqui e olhem como ela se porta, finge que nem existimos. Já pensei em mil formas de destruí-la e não encontrei nenhuma que possa realizar. Quando penso em minha impotência, tenho ainda mais raiva.
Luana não perdeu a chance:
- Sempre avisei à senhora que estava colocando uma cobra aqui dentro. Mas ninguém quis me escutar.
Na ponta da cama, Morgana chorava de raiva.
- O que mais me deixa magoada é a ingratidão que ela teve para comigo. Éramos amigas; aliás, a única amiga que ela tinha aqui dentro era eu. Era em meu ombro que Isabela chorava suas mágoas, revelava seus sonhos e me prometia que assim que melhorasse de vida ia melhorar a minha também.
Madame Aurélia sorriu ironicamente.
- Como você é ingênua. Essa miserável só pensa nela mesma. Logo que teve a sorte de achar quem a quisesse, deixou-a sem sequer um adeus.
- Justo a mim, que era sua melhor amiga.
Madame Aurélia pensou um pouco e depois gritou:
- Morgana, tive uma idéia perfeita! Sem querer, suas palavras acabaram me dando a chave.
Ela enxugou as lágrimas e Luana se aproximou para ouvir bem.
- É isso mesmo. Você vai procurá-la e dirá que sentiu sua falta e que gostaria que fossem amigas novamente. Fale que não vai cobrar sua promessa, que se contenta em tê-la por perto, conversando como antigamente. O resto lhe direi depois.
- Assim não, senhora. Quer dizer que serei a isca e não sei dos planos? Tem de me contar.
Luana interrompeu:
- Tem de contar a nós duas, pois também detesto aquela mulher.
- Bom, já que fazem questão, vou contar. Traga-me uma bebida forte, pois a idéia que tive vai arrepiar as duas. Porém, aviso: se alguma de vocês trair esse segredo, o túmulo virá como resposta.
As duas perceberam que era algo pesado. Passou pela cabeça de Morgana desistir, mas a madame já havia começado a narrar e ela não teve mais como voltar atrás.
- Alô? É você? - Isabela, nervosa, perguntava.
- Sou eu, sim. Quando podemos nos ver?
- Amanhã à tarde. Tenho um lugar onde podemos nos encontrar à vontade. Finja que veio buscar algo aqui de que precisa e eu passarei o endereço.
- Combinado.
Enquanto Fernando desligava o telefone, sua mãe entrou na sala.
- Estava falando com a Patrícia?
- Sim, era com ela mesma - mentiu.
Marília era uma mulher de meia-idade muito bonita. Havia criado o filho único com dificuldades. Apesar de se manter num nível em que o dinheiro não era o problema principal, ficara viúva muito cedo e tivera de criar Fernando praticamente sozinha. Sabia que o filho era muito bonito e requestado pelas mulheres; apesar disso, até aquele momento ele não havia namorado com nenhuma delas. Quando o viu saindo com Patrícia Costa Aguiar, ficou muito feliz. Marília havia educado Fernando para fazer um rico casamento; não toleraria que se juntasse com uma moça pobre ou do mesmo nível que eles. Ela queria mais e Fernando acabou sendo o filho que ela sonhou, interesseiro e mercenário. Mesmo assim, Marília controlava sua vida, com receio de que ele se apaixonasse por uma garota sem posses ou de baixo nível. Seu filho era um príncipe e, movida por esse pensamento, ela buscou informações de moças solteiras e ricas, e orientava Fernando para que se aproximasse delas. O encontro dele com Patrícia não fora casual; tinha sido muito bem programado. Marília sabia que nenhuma mulher resistia ao seu filho. Sentou-se no sofá com uma expressão de tédio, pegou uma revista de moda e folheou-a sem interesse. Vendo o filho pensativo, comentou:
- Sabe como faço gosto nesse namoro com Patrícia. Não sei no que está pensando, mas espero que não seja em nada que venha atrapalhar nossos planos.
Ele levantou e, com um sorriso que fazia covinhas em seu rosto, abraçou e beijou a sua mãe.
- Tenha a certeza de que nada vai atrapalhar nossos planos.
- Fico feliz!
- Vou sair. Não pego no serviço hoje e quero aproveitar.
- Deus o acompanhe.
A porta bateu e Marília sentiu muita raiva. Que vida humilhante ela levava, tendo de ver seu filho trabalhar se quisesse ter alguns luxos a mais. A pensão de seu marido dava para manter um pouco do luxo que um dia haviam tido, mas a duras penas. Ela economizava no que podia para sempre estar no cabeleireiro e com roupas da moda, ou para manter Fernando impecável. Só assim ele encontraria uma noiva à altura. Sentindo-se depressiva, reabriu a revista e começou a ler. Isabela havia pedido certa quantia em dinheiro a Humberto, alegando ter de comprar algumas roupas, quando, na realidade, seria utilizado para alugar temporariamente um apartamento onde iria se encontrar com Fernando. A quantia deu para pagar dois meses de aluguel e o apartamento foi alugado por Amaral, que a cada dia se envolvia mais com as tramas dela. Várias vezes tinha pensado em se demitir daquele emprego, mas as ameaças da patroa o impediam. Depois de tudo marcado e combinado o local, Isabela esperava ansiosa a chegada de Fernando. O apartamento era mobiliado e ela mandou comprar bebidas para o barzinho, que ficava em um canto da sala. Quando Fernando chegou, ela já havia tomado várias doses de uísque e estava mais excitada do que o habitual. Nunca desejara tanto um homem em sua vida como desejava Fernando. Ia arrastando-o para o quarto quando ele a interrompeu:
- Não sei se o que vamos fazer é certo. Tenho pensado muito a respeito desde que comecei a me sentir atraído por você.
Ela se sentou com ele no sofá e fez ar de vítima.
- Também tenho me questionado sobre isso, mas não tenho como evitar a atração que sinto; é mais forte que eu. Não gostaria que nada disso estivesse acontecendo, afinal, Humberto é um homem bom e não merece.
- Você não gosta dele?
- Casei-me por gratidão. Não tinha uma vida fácil e ele foi à única pessoa que me estendeu a mão. Mas não me sinto realizada com ele, sou infeliz. - Ela deixou uma lágrima falsa escorrer por seu rosto.
Fernando sabia que ela estava fazendo um jogo, mas ele também jogava e queria ganhar, por isso tornou:
- A Patrícia também não merece. Gosto dela, mas preciso de uma mulher mais experiente, que saiba oferecer coisas que ela ainda não sabe.
- E como sabe que sou essa mulher? Tenho praticamente a mesma idade que você. Não sou tão experiente assim.
- Mas é casada, conhece a vida conjugai. Patrícia não me permite muitas intimidades e eu fico muito carente. Sabe um homem sempre precisa de mais.
- O que sente por minha enteada?
- Não sei ao certo, creio que coisas da juventude. Mas confesso que a admiro e que gosto de estar com ela. Com você, entretanto, é uma atração incontrolável, não programei sentir isso.
- Esqueçamos esse assunto por enquanto. Quero mesmo que me faça feliz. Venha!
Ele não falou mais nada e foram para o quarto. Quando terminou, ainda abraçada a ele, Isabela jurou que jamais iria perdê-lo. A partir daquele dia se tornaram amantes. As visitas àquele lugar de encontros se tornaram assíduas e logo Fernando começou a se queixar de dificuldades financeiras. Ela sempre o auxiliava, pedia dinheiro, cheques a Humberto, e deixava nas mãos dele. Quando Marília soube, exultou de alegria. Ao mesmo tempo, teve receio de que isso viesse a atrapalhar o casamento do filho com Patrícia, ao que ele respondia:
- Nada vai atrapalhar nossos planos. Somos discretos e não posso perder essa mina de ouro que encontrei.
- Também acho. Mas tenha cautela; não ponha em risco o futuro brilhante que sonhei para você. Depois de casado, poderemos pedir que Humberto lhe arranje um cargo em Brasília, de preferência daqueles que à pessoa nem vá lá e mesmo assim ganhe bem. No governo existem milhões de funcionários fantasmas, e você será um deles.
Os dois sorriram abertamente, mas ele retrucou:
- Mesmo assim, terei de trabalhar. Não quero que minha mulher pense que sou um preguiçoso. Basta ter de inventar mil desculpas para explicar por que não faço curso superior.
- Essa menina é bobinha mesmo. Um rapaz com sua beleza precisa de curso superior para quê? Enquanto os bobos passam anos de suas vidas em bancos de faculdade para depois terem um emprego de mísero salário, você é mais esperto e está cortando o caminho. Conseguirá muito mais e sem nenhum esforço.
Ele sorriu, fazendo as covinhas no rosto, e colocou a cabeça no colo da mãe. Continuaram a trocar idéias. Marília ignorava que conduzia muito mal o filho que Deus lhe confiara. Educando-o de maneira errada, as idéias falsas e o egoísmo prevaleciam, e ela se comprometia bastante com a própria consciência. Os dois estavam falindo mais uma vez sobre a Terra e mãe e filho sofreriam muito na hora do reajuste. Os pais que conduzem os filhos pelos caminhos do materialismo, do preconceito, do orgulho e do egoísmo falham na missão da paternidade e encontrarão a dor no caminho da redenção. Eles não são responsáveis pelos atos dos filhos, mas são responsáveis pelas crenças que cultivam e plantam em espíritos que a vida enviou para ser educados para o bem. Sendo assim, passarão por duras provas até aprenderem à força da bondade e cultivarem os valores eternos do espírito. Isabela brincava no jardim com Daniel e Eudásia quando viu uma figura de mulher aparecer no portão. Rapidamente a reconheceu: era Morgana. O que ela fazia ali? Nem lembrava mais que ela existia. Pediu que a deixassem entrar e ambas trocaram um longo abraço.
- Minha amiga, como está você? Pensei que nunca mais fosse vê-la.
- A saudade apertou e resolvi vir até aqui. Vi no jornal uma foto sua com Humberto e lá se mencionava seu endereço. Resolvi arriscar, em nome de nossa velha amizade. Devo dizer que pensei em ser mal recebida.
- Não diga isso, Morgana. Sempre a receberia bem. Afinal, naquele lugar onde eu vivia a única pessoa que foi verdadeira comigo foi você.
- Confesso que fiquei magoada. Em nossas horas de tristeza, você disse que me ajudaria, mas bastou se casar para me esquecer. Não estou aqui para me queixar, mas é que fiquei com esperanças de sair dali. Como você mesma sabe, ninguém é feliz naquela vida. - Dizendo isso, começou a chorar.
- Morgana, não foi essa minha intenção. Não queria magoá-la. E que desde que casei não parei com as atividades. Vida de rica é muito trabalhosa, você não imagina o quanto. Mas me lembrava de você e pensava numa forma de tirá-la dali e das mãos daquela mercenária.
- Você não imagina como sofro. Porém não posso sair de lá. Meus pais são do Nordeste e não sabem a vida que levo. Não tenho para onde ir nem a quem recorrer. Depois que você se casou, fiquei deprimida. Não gosto mais de exercer aquela tarefa repugnante e tenho sido punida por madame Aurélia. Tenho levado até tapas no rosto.
Um ódio surdo brotou no peito de Isabela e ela sentiu que não poderia deixar sua amiga à mercê de uma pessoa tão ordinária.
- Morgana, saia de lá e venha viver aqui. Tem espaço de sobra e diremos a todos que você é uma parente do interior que veio pedir ajuda.
Os olhos de Morgana brilharam. As coisas estavam saindo melhor do que ela poderia supor.
- Mas o que poderei fazer para ganhar dinheiro? Não quero ser um peso para você e também não posso ficar sem dinheiro para minhas coisas. Não. Obrigado, amiga, mas não posso aceitar.
- Aceite Morgana. Você vem morar aqui e trabalha como governanta. A Idalina já está velha mesmo, e você pode substituí-la. Ou podemos ter duas. Humberto pode pagá-la bem, tudo será melhor, você pode ajudar Eudásia com o Daniel e seremos felizes.
Morgana fingiu chorar de emoção e abraçou-a.
- Deus a abençoe, Isabela. Nas circunstâncias em que vivo essa é a única solução.
- O que vai dizer à megera?
- Que vou voltar a morar com meus pais no Nordeste. Direi que estão doentes e precisando do meu auxílio.
- Faça isso. Ainda quero ver aquela casa fechar suas portas e Aurélia morrer de fome.
Daniel se aproximou e começou a brincar com Morgana. Vendo-o tão inocente, será que ela teria coragem de executar o planejado? Claro que sim! Isabela só a estava auxiliando porque fora procurá-la. No fundo, agia mais movida pela promessa antiga do que qualquer outra coisa. Se não fosse esse plano ela iria envelhecer na prostituição e acabar no olho da rua. Sim! Isabela merecia uma vingança. Foi convidada a entrar e tomar um chá. Eudásia emocionou-se quando a viu e as duas se abraçaram. Patrícia chegou e foi apresentada à "prima" de Isabela.
- Ela chegou hoje do interior e está num hotel. Amanhã passará a viver conosco e ajudará a Idalina no comando da casa.
Patrícia achou aquilo bem estranho.
- Mas a Idalina cuida de tudo muito bem, não precisamos de mais ninguém aqui.
Isabela foi rápida:
- É que minha prima veio do interior desesperada. Seus pais estão doentes e ela precisa desse emprego para enviar o dinheiro do tratamento. É mais uma questão de caridade do que de necessidade.
Fingindo entender, Patrícia deu as boas-vindas e subiu. Gostava de ter gente por perto. Não fazia objeções, mas algo a avisava de que aquela história estava mal contada. Seu pai estava muito apaixonado por Isabela e fazia tudo que ela queria. Resolveu não pensar no assunto e entrou no banho. Morgana ficou impressionada com a beleza da casa.
- Nossa! Como o Humberto consegue manter o luxo daqui? O dinheiro de um senador dá para tudo isso?
- Ah, mas Humberto tem seus meios de conseguir mais dinheiro. É braço direito do governo. Pensa que ele recebe só o salário dele, é? Além do mais, a dona Flaviana era muito rica e foi ela quem decorou tudo aqui.
- Teve muito bom gosto. Agora tenho de ir. Amanhã cedo estarei aqui.
- Vou ligar para o Humberto e avisá-lo. No fim de semana ele deve estar aqui e não quero que tenha nenhuma surpresa.
- Acha que ele pode não gostar?
- Não! Ele está apaixonado, faz tudo que desejo; não haverá problemas.
Morgana saiu muito feliz. Tomou um ônibus e, durante o trajeto, ia pensando em como madame Aurélia ficaria satisfeita. O plano acontecera melhor do que o imaginado. Ela fora até lá apenas com o intuito de reatar a amizade e passar a ter acesso a casa para facilitar a vingança. Mas morar lá seria melhor ainda. Ela faria tudo e ninguém ia desconfiar. Quando chegou à mansão, foi logo se reunir com Luana e Aurélia no quarto.
- Ela caiu como uma patinha, nem acredito no que está acontecendo.
Após contar todos os fatos em detalhes, ela finalizou:
- A ordinária ainda disse que quer ver essa casa fechada e a senhora passando fome.
Aurélia cerrou os punhos com raiva.
- Ela sentirá o peso de meu ódio. Ainda vai chorar lágrimas de sangue.
Morgana ficou um pouco triste, e Luana perguntou:
- Em que pensa?
- Senti uma angústia quando vi a criança brincando perto de mim, pegando meus cabelos. Quase pensei em desistir, mas sei que Isabela nunca foi minha amiga e merece sofrer.
Aurélia aquiesceu:
- Isso mesmo, mas há um detalhe: não posso liberá-la do serviço aqui. Sabe que está sendo exclusividade do doutor Estevão e terá de vir algumas tardes por semana para servi-lo.
Morgana não gostou.
- Não vou poder sair de lá assim sem explicações. Isabela pode desconfiar.
- Isso não é comigo. Encontre uma desculpa, invente, sei lá. Mas terá de vir aqui.
Morgana resolveu não discordar. Madame Aurélia era severa e não gostava de ser contrariada. As três continuaram a conversa rindo da ingenuidade de Isabela, sem imaginar que eram assessoradas diretamente por espíritos inferiores.

14 - A MORTE SE APROXIMA

Morgana se adaptou muito facilmente à casa de Humberto, que não fez nenhuma oposição à sua moradia lá. Apaixonado, ele fazia tudo quanto Isabela queria. Naquela tarde, todos estavam calmos. A presença do senador em casa mudava a rotina e Isabela ficava diferente. Atenciosa, carinhosa, ela nem se aproximava de Fernando, que agora já estava noivo de Patrícia. Ela tinha de conter seu ciúme e agradar o máximo possível ao marido. Eudásia, Morgana e Daniel estavam no jardim, Patrícia e Fernando no quarto e Isabela dialogava com Humberto, saboreando deliciosa bebida. Mas eles não estavam a sós. Flaviana e Nicodemos continuavam na casa tentando uma forma de aproximação com o casal.
- Estou ficando entediada aqui sem ter o que fazer. Preciso me vingar. Podem se passar anos, mas enquanto não conseguir o que quero não me afasto - Flaviana dizia cerrando os punhos.
Nicodemos estava pensativo. Não agüentava mais aquela situação. Mas também não tinha o que fazer. Sua vida na Terra terminara tragicamente por sua própria culpa. Não queria se vingar de ninguém, mas o que lhe restava fazer? Pelo menos enquanto acompanhava aquela mulher vingativa passava seu tempo. De repente, vultos escuros surgiram na sala e eles reconheceram o homem forte que havia tentado sufocar Isabela acompanhado por mais dois espíritos que traziam uma rede nas mãos. Flaviana teve medo. O que eles pretendiam fazer?
- Nicodemos, vamos sair daqui. Não gosto dessa gente, tenho medo.
- Não, vamos ficar para ver o que eles pretendem. São da pesada e talvez nos ajudem em nossa vingança. É só observar e não fazer nada e eles nos deixam em paz.
Eles apuraram os sentidos e perceberam que a rede que eles traziam não estava vazia. Nela havia seis massas de formato arredondado, um pouco menores que uma bola média. Cuidadosamente, um deles colocou a mão na nuca de Humberto. No meio da conversa, ele interrompeu:
- Acho que essa bebida me deu sono. De repente, veio uma vontade grande de ir para a cama e deitar.
- Mas você bebeu muito pouco, deve estar cansado. Venha eu o acompanho até o quarto.
- Não precisa. Vá ficar com seu filho e sua amiga. Dormirei um pouco, o sono me domina. Estranho isso. Nunca fui de dormir nesse horário.
- Não sei... Mas vá se deitar, sim. Aproveito e vou ultimar os preparativos para o jantar.
Humberto subiu as escadarias e o grupo das trevas foi junto. Ele mal conseguiu tirar a calça e em seguida caiu num sono profundo. De repente, ao sair do corpo, percebeu as entidades no seu quarto. Gritou-lhes:
- Quem são vocês? Como entraram em minha casa?
- Cale-se! Você faz parte do nosso plano para destruir Clotilde e, se tentar atrapalhar, vai se dar mal. É melhor paralisá-lo. Vamos, segurem-no ou vai nos dar trabalho.
Os homens paralisaram Humberto em espírito e colocaram-no à beira da cama. Flaviana e Nicodemos observavam tudo com pavor. O que iria acontecer? Os homens retiraram as formas arredondadas e cuidadosamente, por meio de fios magnéticos, colaram-nas no corpo adormecido de Humberto na região genital. Quando terminaram, disseram:
- O serviço está pronto, Juvêncio. A partir de hoje começa o fim do reinado de Clotilde.
- Tem certeza do que diz?
- Absoluta. Esse plano nunca falha.
Todos gargalharam e Humberto, sem nada entender, perguntou aflito:
- O que fizeram comigo? O que são essas bolas amarradas no meu corpo? Por que querem destruir Isabela?
O homem que chefiou a operação respondeu:
- Instalamos em você os parasitas ovóides. Esses seres disformes lhe causarão uma impotência sexual tão severa que nenhum médico da Terra vai conseguir curar.
- O que são parasitas ovóides?
- Não importa. Você não vai entender mesmo que eu lhe explique. O fato é que seu orgulho de macho vai acabar. Você não conseguirá mais ter relações sexuais nem com sua esposa, nem com ninguém.
Humberto sentiu que era verdade e começou a se desesperar.
- Por que fazem isso comigo? Deixem-me em paz!
Todos riram muito. Juvêncio respondeu:
- Sua mulher destruiu a minha vida e agora vai pagar caro. Você será o nosso instrumento.
- Se a vingança é para ela, por que estão fazendo isso comigo?
- Sua mulher tem muito fogo. Se você estiver impotente, ela vai precisar mais e mais do amante, até que, enlouquecida por uma obsessão sexual, não consiga mais esconder o relacionamento. Você vai acabar descobrindo que é traído. Nessa hora, será intuído a lavar sua honra com sangue, matando-a e a Fernando, que será seu genro. Quer plano melhor?
Humberto sentia a cabeça rodar e desmaiou. Na cama, seu corpo estava suado e agitado, mas ninguém chegava ao quarto. Quando tudo terminou, o grupo foi embora muito feliz, deixando Flaviana e Nicodemos entre assustados e exultantes. Isabela teria o fim que merecia. Ficaram sós no quarto e viram Humberto desmaiado.
- Vou acordá-lo.
- Humberto, Humberto! Acorde!
Ele despertou.
- Flaviana, o que faz aqui? Você não morreu?
- Sim, morri. Oh, como ainda o amo. Você fez de minha vida um inferno. Por quê? Eu não merecia.
- Não é hora para relembrar o passado. Ajude-me. Não consigo me mexer.
Nicodemos interferiu:
- Vamos ajudá-lo. Assim ele acorda mais rápido no corpo físico.
Com esforço, eles ajudaram Humberto a se libertar. Depois ele olhou com pena para si mesmo.
- Vejam no que vão me transformar: num homem sem potência. Não vou ser homem para minha mulher.
- Isso é ótimo. Vai ajudá-lo a perceber quem é a cobra que tem em casa, e o homem horrível que sempre foi.
- Não me acuse Flaviana. Apesar de tudo, sei que ainda me ama. Reze por mim. Sei que vou sofrer muito. - Dizendo isso, ele entrou no corpo que, assustado, acabava de acordar.
Humberto se levantou sem saber o que tinha acontecido com ele e qual fora o motivo daquele sono pesado e intenso que o havia acometido. Lembrava que tinha tido um pesadelo e que nele estava sua mulher, Flaviana. Lembrou também que vira uns homens com rostos crispados pelo ódio, mas estava tudo muito confuso em sua mente. Havia suado bastante e resolveu tomar uma ducha morna para relaxar. Isabela foi à cozinha, verificou o jantar e, a pretexto de falar sobre a saúde de Humberto, bateu à porta do quarto de Patrícia. Ela queria evitar que algo de mais íntimo ocorresse entre o casal. Estava muito envolvida com Fernando e só em pensá-lo nos braços de outra sentia uma onda enorme de rancor. Patrícia abriu e se surpreendeu:
- O que faz aqui? Algum problema?
Ela tentou disfarçar, mas pelo que viu dava para perceber que os dois estavam apenas conversando.
- É seu pai. Estou um pouco preocupada com ele.
- Mas ele estava muito bem ainda há pouco quando o deixamos na sala. O que aconteceu?
Fernando havia se aproximado e ela sentia o coração disparar.
- Ele sentiu um sono estranho de repente e falou que ia deitar. Pensei que tivesse sido pela bebida que tomávamos, mas ele bebeu muito pouco. Acho que está doente. Fui ao quarto e ele está se revirando na cama. Não acordou nem quando o chamei.
- O senhor Humberto me parece um homem muito sadio. Se está assim, realmente é porque adoeceu. Por que não chamam um médico? - sugeriu Fernando timidamente.
- Não acho que necessite. Papai anda muito cansado. Essas viagens de Brasília até aqui não o deixam bem. Deve ser isso. Daqui a pouco vai estar melhor.
Isabela encerrou a conversa:
- Se você acha assim, então vamos esperar.
Humberto não descia e Isabela estava ficando inquieta. Eudásia e Morgana entraram com Daniel e Patrícia e Fernando também estavam na sala.
- Vou ver como ele está. Estou ficando preocupada - disse Patrícia, levantando-se e indo em direção ao quarto do pai.
Em poucos segundos, Isabela e Fernando trocaram significativo olhar, que foi percebido por Morgana. Em seu pensamento uma desconfiança começou a aparecer. O que havia entre aqueles dois? Ela resolveu averiguar. Pretextando ir ao banheiro, Fernando saiu. Logo depois, Isabela resolveu ir à copa beber água e Morgana achou aquilo muito estranho. Na copa, Isabela conversava nervosamente com Fernando.
- Essa situação está ficando horrível para mim. Não agüento vê-lo. O único homem a quem realmente amo nos braços de uma outra mulher! E terrível para mim. Não sei se suportarei vê-lo casado.
Ele colocou suas mãos em seu corpo e ela estremeceu.
- Tem de aceitar, pelo bem de nós dois. Sabe que a amo e que estou com Patrícia porque me é conveniente. Preciso ficar bem de vida e com você não conseguiria. Precisa entender; mais tarde, quando for oportuno, traçaremos um plano e eliminaremos Humberto e Patrícia de nossa vida. Seremos felizes.
- Como eu gostaria de acreditar em você. Sinto que posso perder tudo que conquistei por causa dessa paixão que me consome. Beije-me agora. Prove que me ama e me beije aqui.
- Mas é muito perigoso. Podem estranhar nossa demora e nos pegar em flagrante.
- Vamos, tenha coragem.
Fernando não resistiu e a beijou longamente. De repente um grito abafado:
- Isabela?! Fernando? Não posso acreditar!
Eles se separaram rapidamente e sem fôlego olharam para Morgana. Isabela apressou-se em se defender:
- Não é isso que está pensando. Por favor, Morgana, tente entender...
- Calma amiga. Sabe que somos unidas e não direi o que vi. Mas, assim como fui eu, poderia ter sido outra pessoa, e você estaria perdida. Tenham mais cuidado.
Fernando saiu e voltou para a sala, onde já estavam o senador e Patrícia. Morgana conseguiu convencer Isabela de que nada falaria e que lhe seria fiel. Ela acreditou. Mal sabia que tinha sob seu teto uma grande inimiga que, a qualquer momento, a apunhalaria pelas costas. Todos se reuniram na sala e ouviam Humberto contar seu pesadelo.
Patrícia sentiu que alguma coisa estava errada com o pai e o aconselhou:
- Por que não vai conosco ao centro? O senhor precisa de uma consulta. Os sonhos, em sua maioria, são as lembranças do que vimos e vivemos no mundo astral. Se o senhor viu a minha mãe e alguns espíritos com semblantes negativos, é sinal de que ela não tem boas companhias.
- Você sabe que não acredito nessas coisas de espiritismo. O que tive só foi um pesadelo mesmo. Não nego que me impressionou, mas sonhos são ilusões da mente, e não têm nenhum significado.
Patrícia encerrou a conversa e foram jantar. Isabela mal conseguia se conter e olhava muito para Fernando, porém só Morgana percebia. Juvêncio, seu acompanhante espiritual, havia cedido ao grupo poderoso de Romário, e agora fazia parte do plano. Naquele momento, ele lhe inspirava idéias sensuais:
- Você precisa fazer amor ainda hoje com Fernando, mas, se não conseguir, faça com seu marido mesmo. Pense no Fernando e use o Humberto.
Isabela sentia seu desejo aumentar; estava quase incontrolável. Mal conseguiu comer. Quando todos se despediram e ela foi para o quarto, agiu impetuosamente e levou Humberto para a cama. Beijaram-se com paixão e, quando tudo estava para acontecer, Humberto parou. Ela, percebendo o que ocorria, perguntou:
- Por que, Humberto? Nunca isso nos aconteceu. Por que logo hoje, que estou tão carente?
Ele estava com muita vergonha. Sentou-se do outro lado da cama e colocou as mãos no rosto. Orgulhava-se de ser conquistador e viril. Nunca, em todas as suas conquistas aquilo havia acontecido. Estaria ficando velho? O certo era que ele estava com receio de olhar o rosto de Isabela. Limitou-se a dizer:
- Não sei, hoje não foi um bom dia pra mim. À tarde aquele pesadelo, e agora esse fato horrível. Não sei o que lhe dizer. Devo estar cansado ou, como diz a Patrícia, devo ter um encosto.
Ela se irritou:
- Não vê que isso não existe? Você está com problemas e deve procurar um médico.
- Não! Isso jamais! Vamos tentar outra vez.
Mais uma vez se deitaram e Isabela se esmerou, utilizando todos os truques que aprendera com madame Aurélia, mas nada deu resultado. Humberto fez um grande esforço para não chorar. Sentia-se humilhado. Levantou-se, vestiu o roupão e foi fumar um charuto na sacada. Isabela também se vestiu e foi para o bar. Ingeriu dois copos de uísque e seus pensamentos estavam em Fernando. Como ele era viril! Se não fosse pobre, deixaria Humberto e iria viver com ele. Mas ela jamais abdicaria de sua vida atual para novamente viver na pobreza. E se aquele problema com Humberto continuasse? Ela não poderia prescindir de sexo e teria de se encontrar mais vezes com Fernando. Sentindo o desejo aumentar, tomou mais uma dose da bebida e voltou ao quarto. Já na cama, percebeu que Humberto fingia dormir. Ela também fez o mesmo e fechou os olhos, mas era em Fernando que pensava. O domingo amanheceu bonito e Humberto agiu como se nada tivesse acontecido com ele. Tomou café e foi sentar-se à beira da piscina, lendo o jornal. Isabela aproximou-se e falou em tom áspero:
- Não pense em fingir que nada aconteceu. Amanhã não volte a Brasília e vá consultar nosso médico de confiança. Quero você como antes.
- E eu? Pensa que está sendo fácil para mim? Estou me sentindo o pior dos homens, tenho vergonha até de procurar um profissional.
- Mas é isso que terá de fazer.
A conversa encerrou com a chegada de Daniel, que vinha nos braços de Eudásia.
- Onde está a Morgana?
- Precisou sair. Falou que precisava repor algumas coisas na despensa e que ia ao supermercado.
- Mas justo num domingo?
- É... Também achei estranho, mas não quis discordar.
Daniel começou a balbuciar algumas palavrinhas e logo Isabela esqueceu aquele acontecimento. Todos os domingos Patrícia ia visitar sua avó, mas naquele dia a visita era especial. Ela iria levar uma amiga muito querida que havia conhecido no centro para conversar e tentar reanimar Augusta, que agora praticamente não saía da cama em profunda depressão. Sílvia era médium e trabalhava dando consultas e orientando as pessoas para que levassem uma vida melhor. Tinha quarenta anos e estava separada. Não tinha filhos e seu trabalho como voluntária no centro a deixava muito feliz. Quando elas chegaram, a mansão estava às escuras. Patrícia perguntou a uma empregada o porquê daquela escuridão, ao que ela respondeu:
- A dona Augusta não quer que abram as cortinas; diz que o sol tem lhe feito mal.
- Pobre vovó, não sei mais o que faço para ajudá-la. Tenho medo que morra por causa desse estado.
Silvia tentou animá-la:
- Vamos confiar em Deus. Tudo Ele pode resolver, basta que para isso tenhamos fé. Mas estou preocupada. Pelo que me consta sua avó é muito católica. Como permitiu que eu, uma espiritualista, viesse até aqui?
- Apenas mencionei que é terapeuta e que deseja ajudar. Realmente minha avó é muito preconceituosa e, se soubesse que freqüenta um centro espírita, não iria permitir sua visita. Ela perdeu muita coisa com essa depressão, menos os preconceitos.
Elas entraram no quarto. Dona Augusta nem de longe parecia àquela senhora bonita, elegante, que gostava de passeios, viagens, que era ativa e falante. Agora se assemelhava a um farrapo humano. Jogada na cama, parecia ter envelhecido uns dez anos. Branca feito cera e com profundas olheiras, ela saudou as visitas:
- Sempre você, Patrícia, que nunca me deixa só. Só não morri ainda porque tenho o seu amor.
- Não diga isso, vovó. A senhora ainda vai viver muito. Agora vou lhe pedir para abrir essas cortinas. Está escuro e a Sílvia gostaria de conversar com a senhora.
Ela fez sinal afirmativo com a cabeça e o quarto se iluminou. Augusta fechou um pouco os olhos mostrando que estava incomodada com a claridade. Sílvia fez intimamente uma prece e pediu auxílio de Deus e dos amigos espirituais. Ela viu a freira que estava colada a Augusta e observou que ela percebeu que tinha ido lá para ajudar. Logo um círculo de luz azulada cobriu o corpo de Sílvia e irmã Celeste não conseguiu envolvê-la.
- Como se sente dona Augusta?
- Bem. Só quero que me deixem em paz e sozinha.
- Ninguém pode estar bem deitada em uma cama o dia inteiro, sem querer sair, ver a luz do sol e participar desta vida que é tão bonita. A senhora está desistindo de viver e isso é muito ruim. Tem de reagir.
Ela começou a chorar.
- Não consigo. Sinto que minha vida acabou. Não tenho mais o que fazer, minha filha morreu, tudo está sem sentido. Só me resta ficar na cama até que a morte me chegue como alívio.
- E um direito que a senhora tem, mas essa escolha está deixando-a muito infeliz, e a infelicidade é um estado antinatural. Fomos criados para a felicidade. Deus nos colocou em um mundo bonito, rodeado de plantas, flores, com um lindo sol que nos aquece e ilumina. Deu a cada um o direito de ser feliz, evoluir, e a senhora está desperdiçando isso. Não acha que está sendo ingrata com a vida?
- Não diga isso, tenho muita fé. Mas já estou velha e os velhos não servem para nada. Como é horrível o entardecer de uma existência!
Sílvia não se deu por vencida.
- A senhora está sendo dramática e preconceituosa. A velhice é a fase de maturidade espiritual de todos nós. Longe de ser ruim, ela é um bem. E a fase na qual podemos ser o que somos sem preocupações ou medos; é o tempo de colher os frutos de nosso aprendizado sobre a Terra. Ademais, quem envelhece é o corpo, porque o espírito fica sempre jovem e todos nós somos jovens, seja em que idade for. A senhora se engana quando diz que os velhos não servem para nada, o que conta mesmo é a idade mental que cada um tem. Há jovens que já envelheceram e há idosos com a mente muito jovem, são ativos, vivem rodeados de amigos, trabalham e têm o respeito de todos. Tudo vai da crença de cada um. Acreditar na velhice atrai falta de oportunidades, desrespeito, rejeição, mas tudo depende de nós. Sua vida não acabou porque a senhora tem sessenta ou setenta anos; há coisas agradáveis e boas para se fazer em qualquer idade, basta que deixemos o preconceito de lado, não acha? Dona Augusta parecia pensar.
- Você diz coisas bonitas, mas a velhice é um fato, e com ela chegam às doenças, os remédios, o desprezo dos mais jovens...
- Isso tudo depende do pensamento de cada um. Há pessoas idosas que têm excelente saúde, até mais do que certos jovens. São respeitadas e ouvidas pelos mais novos. Aonde vão têm amigos das mais diferentes idades. Já se perguntou por que isso acontece? Por causa das crenças que elas carregam. Quem acredita na velhice como um mal, como um fardo doloroso e difícil, realmente vai atrair as doenças, o desprezo e o abandono. A senhora quer viver assim?
- Na verdade não, é que não tenho forças. Ando tão desanimada...
- Para sair dessa situação é necessário força de vontade e colocar Deus em seu coração. Procure se ligar a ele por meio da prece; esse será o primeiro passo.
- Mas eu rezo todos os dias.
- Não falo da oração mecânica e decorada, digo da oração que vem de dentro, aquela feita com o coração; essa funciona de verdade. O segundo passo é levantar dessa cama e retomar sua vida de antes. Volte a ser a pessoa que era: elegante, arrumada, ativa, bem-disposta, e logo vai se livrar dessa depressão que a invade.
- Não tenho forças...
- Tem sim. Todos temos a força do mundo quando realmente queremos alguma coisa. Sua força reside em seu coração, e seu coração quer a felicidade.
Ela esboçou um sorriso.
- Muito obrigada. Sinto-me melhor.
Sílvia se despediu e saiu do quarto, mas dona Augusta fez questão de lhe pedir que voltasse outras vezes. Já na sala lanchando com Patrícia, ela disse:
- Não se anime muito. Hoje ela ficará um pouco bem, mas amanhã voltará aos mesmos problemas. O que ela está passando é difícil e demorado para curar.
- Ela está obsediada?
- Está com depressão profunda, acima de tudo. Claro que nesses quadros há sempre a interferência de obsessores, mas sua avó está clinicamente depressiva. Já lidei com muitos casos assim e sei que só um bom psiquiatra pode resolver.
- E a ajuda espiritual?
- É também essencial, mas não dispensa a ajuda médica, de forma alguma. A depressão é uma doença séria e tratada no meio espírita com preconceito. Acha-se que qualquer manifestação dela é obsessão e, às vezes, impede-se que o paciente recorra à medicina terrena, que é indispensável em muitos casos.
- Mas não há casos em que o problema é só espiritual?
- Há sim, e os médiuns experientes sabem diferenciar uma situação da outra. Nos casos em que há apenas obsessão, o tratamento médico pode até piorar os sintomas, mas não é esse o caso de sua avó.
- No caso dela, que adoeceu apenas no físico, o que causa a depressão?
- Alguns estudiosos teimam em dizer que a depressão é o produto da disfunção das substâncias químicas responsáveis pelo humor e dos neurotransmissores. Mas, pelo conhecimento espiritual que temos adquirido, podemos afirmar que eles estão trocando o efeito pela causa. A depressão é uma doença da alma e acontece quando as pessoas se sufocam e não atendem aos anseios mais íntimos de seu espírito. A alma se agita e quer se libertar; a depressão é o grito da alma sufocada.
- Toda depressão começa na alma?
- Sim. Quando estamos distantes de nossa essência, magoados, fazendo coisas por obrigação, vivendo uma vida diferente daquela que nossa alma pede, aparece o vazio, a solidão e depois a depressão. Mesmo quem diz não ter motivos para estar deprimido, se for olhar para dentro de si com realismo, vai saber a causa.
Patrícia estava surpresa:
- E o que pode ter levado a minha avó a esse estado? Ela vivia tão bem!
- Não sei, mas, pelo que pude perceber, ela está assim por mágoa. Alguém a magoou profundamente e ela tem se sentido pequena, inferior. Com isso sufocou a alegria e entrou em depressão.
- Então vamos tentar extrair isso dela.
- Não é bom. Para quem está em depressão profunda, revolver as mágoas só vai piorar o estado. O melhor que temos a fazer é esperar essa fase passar e, quando ela estiver melhor, voltaremos a esse assunto. Quando o paciente melhora, ele tem condições de perceber como atraiu a doença e modificar a causa. Mas isso só pode acontecer quando essa fase severa passar.
As duas continuaram conversando até a hora do almoço. Sílvia voltou para casa e Patrícia almoçou na casa da avó, que não saiu do quarto. Morgana não foi ao supermercado, como havia dito, e sim à Mansão de Higienópolis. Nos fins de semana as mulheres se arrumavam mais que o habitual e madame Aurélia tinha trabalho dobrado. Mesmo assim, quando Morgana chegou, foram para o quarto. Luana também não perdia a ocasião e estava junto. Nunca simpatizara com Isabela e vê-la feliz e rica causava-lhe grande inveja. Auxiliar naquela vingança seria um prazer ao qual ela não se poderia furtar.
- Madame, tenho algo importante a lhe contar - começou Morgana com expressões de mistério para valorizar ainda mais o que iria dizer. - O que tenho a dizer pode mudar completamente o curso dos nossos planos.
Madame Aurélia estava curiosa.
- O que pode ser?
- Descobri ontem que Isabela trai o senador com Fernando, um rapazinho que está noivo da Patrícia, filha dele. Com essa informação nas mãos, podemos desistir de envolver a criança inocente e acabar com ela de outra forma.
Aurélia pareceu refletir, depois disse:
- E uma informação e tanto, mas acho que não devemos desistir de nossa estratégia. Queremos ver Isabela sofrer, e, se contássemos a Humberto dessa traição, o máximo que poderia acontecer seria ela ser expulsa de casa. Não! Eu quero mais, quero vê-la amargar a dor de perder um filho e, mesmo rica, não poder ser feliz.
Luana concordou.
- Também acho, não podemos desistir. - Olhando para Morgana fixamente, Luana completou: - Estou vendo que está toda medrosa em matar uma criança e está querendo voltar atrás. Saiba que se isso acontecer nós a consideraremos uma traidora e aqui não colocará mais os pés.
Madame Aurélia vociferou:
- E, se nos trair, não viverá para saborear sua traição. Sabe muito bem do que sou capaz. Se tenho coragem suficiente para tramar a morte de um menino inocente, imagine o que não farei com você.
Ela sentiu um arrepio percorrer seu corpo. Por que fora se meter naquilo?
- Mesmo assim, sua informação não foi inútil - comentou Aurélia. - Assim que Daniel morrer, acharemos uma maneira de fazer Humberto saber que sua mulher o trai. Daí, sem o filho e sem riqueza, ela acabará com a própria vida.
Morgana estava estupefata com tamanha crueldade.
- Para que tanto? Afinal, o que Isabela lhe fez não foi tão grave. Humberto agiu muito pior. Foi ele quem tirou ela daqui com toda a arrogância - ponderou.
- Não sei... Sinto um ódio muito grande por ela. Sua arrogância e falta de escrúpulos merecem punição. Já Humberto eu não consigo odiar. Compreendo os homens, sei como são quando se envolvem com mulheres da espécie de Isabela.
Morgana não protestou; sentia medo de ficar contra uma mulher tão perigosa. Quando deixou a Mansão, sentia-se mal. Sua cabeça rodava e seu estômago estava enjoado. Como fora entrar numa vingança tão sórdida como aquela? Mas agora tinha de ir até o fim. Se recuasse, coisas horríveis poderiam acontecer com ela. Foi ao supermercado, pois não podia chegar em casa sem algumas compras. No caminho, ia pensando no ódio de Aurélia e não conseguia entender como atitudes aparentemente pequenas de Isabela tinham despertado uma sede de vingança tão grande naquela mulher. Ela não sabia que o ódio de Aurélia vinha do inconsciente, estava enraizado em acontecimentos de vidas passadas, quando vivera na França e tivera seu filho morto por culpa de Nathalie, que era Isabela reencarnada. Inconscientemente, queria se vingar por ter perdido o filho matando Daniel, o ser que sua inimiga mais amava no mundo. Também ela não conseguia odiar Humberto porque naquele passado longínquo ele fora seu filho, Henry.
Chegando em casa, Morgana deu algumas explicações que logo foram aceitas por sua amiga. Foram almoçar e Morgana insistiu em dar a comida a Daniel, tarefa que era de Eudásia. O menino, muito alegre e com olhos vivos, começou a comer. Sem que ninguém percebesse, Morgana destampou um pequeno frasco de vidro que continha um pó e o derramou sobre a comida. Ninguém viu nada. Uma hora depois da refeição, Daniel começou a vomitar. Fizeram chás, mas nada resolveu. Levaram-no ao médico, que diagnosticou perturbações estomacais. Prescreveu alguns medicamentos e a criança melhorou. Isabela abalou-se muito e, preocupada, nem procurou o marido durante a noite, o que para ele foi um alívio devido a sua impotência. A semana transcorreu calma, exceto por Daniel, que se mostrava apático, não brincava como antes e quase não comia. Na quinta-feira, ele piorou. Isabela ficou desesperada. Ver seu filho sofrer era o que mais a deixava abalada. Outra vez foi ao médico, que a aconselhou a ter calma e falou que esses fatos sempre acontecem uma vez ou outra na infância. Todavia, no pouco que Daniel comia o veneno terrível e que matava lentamente era inserido. Ele voltava a vomitar e passar mal, mas ninguém podia supor que Morgana estivesse por trás daquilo. Isabela entrou em depressão e Humberto voltou de Brasília para ficar com ela. O menino foi internado, mas depois de três dias veio a falecer. Ninguém suspeitou de envenenamento e os médicos disseram que o menino tinha o aparelho digestivo fraco e por isso sucumbira. Isabela parecia viver um sonho. Nada a fazia parar de gritar e chorar; ela entrou em terrível desespero. Abraçada com ele no pequeno caixão, ela dizia:
- Meu filhinho, por que isso aconteceu? Você era a minha razão de viver, tudo que fiz na vida foi por você. Por que me deixou?
O corpinho inerte estava banhado de lágrimas daquela mulher que, pela primeira vez na vida, despertava ante a dor e o sofrimento. Ela continuava:
- Não me deixe filho. O que vou fazer sem você? Sem seu sorriso, sua alegria, suas brincadeiras?
Naquele instante, os espíritos de Juvêncio e seus amigos riam muito do sofrimento de Isabela. Todavia, Flaviana estava profundamente abalada e desistiu de sua vingança. Ela sabia muito bem o que era perder um filho e Isabela já havia sido punida devidamente. Vendo-a sofrer daquela forma, ela percebeu que nada mais poderia fazer ali e resolveu ir embora, não sem antes acompanhar o sepultamento de Daniel. Diana e Gabriel estavam lá e traziam Daniel adormecido no colo. Eles sabiam que muito teriam de fazer até que ele recuperasse a forma adulta e pudesse ajudar sua mãe.

15 - ENCONTRANDO A ESPIRITUALIDADE

Isabela entrou em profunda depressão após a morte do filho. Materialista, ela acreditava que tudo acabava com a morte e não conseguia entender por que seu filho tão pequeno havia morrido daquela maneira. Passava os dias na cama e nem a companhia de Morgana lhe dava um pouco de ânimo. Ao seu lado, assediando-a, estavam Juvêncio, Romário e outros espíritos que faziam aumentar sua sensação de desespero. Flaviana havia ficado muito condoída com o que Isabela passara e resolvera abandonar a casa. Naquela tarde, andando com Nicodemos por uma rua movimentada, ela não sabia o que fazer.
- Não sei para onde vou agora que me sinto vingada. Descobri que não estou mais feliz por isso, muito pelo contrário, sinto uma insatisfação, um vazio no peito, ainda mais quando lembro o que é perder um filho.
Nicodemos retorquiu:
- Vocês mulheres não sabem o que querem, sempre estão insatisfeitas. Mas agora tenho de lhe dizer que seu tempo terminou. Terá de nos servir em nossa cidade. Eu lhe acompanhei durante meses nessa situação e agora terá de retribuir. Teodoro está mandando buscá-la.
Ela ficou assustada. Não queria morar naquele lugar horrível e sem higiene.
- Não posso, não vou.
- E o que veremos. Sou seu amigo, mas, se não fizer o que é certo, quem vai se dar mal sou eu.
Nicodemos parou perto de um banco, sentou e colocou as duas mãos na cabeça, fechando os olhos. Parecia estar em concentração. Flaviana não entendeu o que ele fazia. De repente, um vulto escuro apareceu e ela reconheceu o rapaz a que fora apresentada quando chegara à cidade do umbral. Era o chefe.
Ele a olhou com olhos de ódio e vociferou:
- Você ocupou um dos nossos servidores a longo prazo. Não pense que agora vai escapar e fazer o que quer. Virá comigo e trabalhará até pagar todas as horas que Nicodemos ficou com você. Se não vier por bem, virá por mal. Tenho como levá-la mesmo contra a sua vontade.
Ela estava aterrorizada. Nunca havia lidado com pessoas como aquelas. Tentou correr, mas Teodoro lançou-lhe uma energia que a fez se sentir imóvel. Quanto mais tentava se mexer e fugir, mais percebia que era inútil. De repente lembrou-se de Deus e percebeu que só ele poderia salvá-la naquele momento. Num gesto desesperado começou a rezar: "Deus, meu pai, vem em meu socorro nesse momento de aflição. Estou arrependida. Sei que a vingança não me trouxe felicidade e quero mudar desejo encontrar a paz. Não permita que o mal invada minha vida, me protege, livra-me desses inimigos".
Aquela oração simples teve o poder de deter Nicodemos e Teodoro, que já se aproximavam para capturá-la. Uma luz azulada a envolveu e eles não puderam se aproximar. Do meio de uma luz branca muito forte surgiu Diana.
Finalmente, Flaviana, encontrou o caminho certo. Seu arrependimento sincero muito a ajudou nesse momento.
- Agradeça a Deus; pode vir conosco.
Flaviana chorava muito. Diana retirou as correntes que a prendiam e as fez desaparecer; junto com elas, Teodoro e Nicodemos também sumiram.
Abraçadas, Flaviana soluçava:
- Não sei como agradecê-la, amiga. Sei que não mereço tanta ajuda. Fui vingativa e desejei o mal a Isabela. Hoje sei que estava errada. Vendo-a sofrer tão amargamente, não fiquei feliz. Como estava enganada!
Diana sorriu.
- Você buscou a vingança porque acreditava que tinha sido vítima. Mas vítima ninguém é. Quem busca pagar o mal com o próprio mal tem muito que sofrer. Felizmente se arrependeu na hora certa, se não fizesse assim não a poderíamos defender e iria sofrer na escravidão com aqueles irmãos menos esclarecidos. Toda vingança prejudica primeiro a quem a pratica; hoje você sabe disso.
- Agora desejo ir para aquela colônia onde estão meus filhos. Vamos?
- Ainda não será possível. Primeiro você vai permanecer num Posto de Socorro muito próximo da Terra e, quando for possível, viremos buscá-la.
Flaviana ficou triste.
- Esperava ver logo meus filhos.
- Deverá ter paciência. Você acaba de sair de uma situação muito precária. Estava se alimentando por intermédio dos encarnados, sugando as energias dos alimentos; emagreceu e está em um estado que não lhe permite ainda viver em nossa colônia. No Posto de Socorro Aliança você receberá os primeiros socorros, aprenderá a ajudar e, quando estiver melhor, viverá conosco.
Ela recomeçou a chorar. Diana a abraçou e juntas desapareceram em meio aos transeuntes. Isabela estava sozinha e em pranto copioso quando ouviu batidas leves na porta de seu quarto. Ela gritou áspera:
- Deixem-me em paz!
A porta se abriu e Fernando entrou. Aproximou-se da cama e sentou. Quando ela percebeu que era ele, seu rosto se alegrou. Ele a abraçou e trocaram longos beijos. Olhando-o firme nos olhos, ela disse:
- Veja como estou. A mulher que você conhecia morreu junto com aquela criança. Peço que me esqueça, que este seja nosso último beijo.
Ele, muito nervoso, retrucou:
- Não diga isso. Você vai levantar dessa cama e reviver para mim e para o nosso amor. Nada pode ser maior do que o que sentimos um pelo outro.
Aquelas palavras tiveram o dom de acalmar a alma sofrida de Isabela.
- Sinto que não tenho mais forças para nada. Descobri que a riqueza e o luxo de nada valem sem meu filhinho tão inocente. Não quero mais viver.
- Não diga isso. Você é cheia de vida e me ensinou o que é o verdadeiro amor. Tenho de confessar que estou amando você.
Ela não podia acreditar.
- Você nunca disse isso para mim. Não brinque com meus sentimentos, não quero que diga que me ama só porque estou numa cama em depressão.
- Eu a amo de verdade. O que era apenas uma atração e uma aventura transformou-se num sentimento verdadeiro dentro de mim. Você acha que estaria me arriscando a estar agora em seu quarto sozinho com você se não fosse por amor?
- Você me fez sentir bem, mas não posso ser mais quem eu era. Meu filho foi a maior razão dos meus atos. Tudo o que fiz foi por amor a ele. Queria que crescesse e se tornasse um homem, para ensiná-lo a ser duro, inflexível, pisar em todos que fossem obstáculos para seus planos. Mas não pude vê-lo crescer. Esse Deus mau e cruel o tirou de mim. - Dizendo isso, ela voltou a chorar compulsivamente.
Fernando, apressado, pois estava aproveitando que Patrícia estava no banho, finalizou:
- Tenha forças. Seu filho se foi, mas eu estou aqui. Nós nos amamos e esse amor é mais que motivo para você continuar vivendo. Amanhã vamos nos encontrar no lugar de sempre. Estarei esperando-a as três.
Ele saiu e Isabela levantou-se. Entrou na banheira e começou a meditar. Seus pensamentos estavam confusos. Ter visto Daniel morrer sem que pudesse fazer nada a deixara em um estado muito grande de tristeza. Ela nunca havia sentido uma dor tão grande. Mas também tinha o amor de Fernando; se ele havia se declarado era porque realmente a amava. De repente, pensou que poderia ainda ser feliz, mesmo com o vazio que seu filho ia fazer em seu peito. Mesmo com todo o dinheiro e com todos os recursos da medicina, ninguém o salvara. Naquele instante, ela sentiu um grande ódio de Deus e da vida. Se ela já era dura e má, de agora por diante seria pior. Quando saiu da banheira estava decidida a destruir Patrícia para ter Fernando só para ela; sabia que conseguiria. Só outro filho poderia suprir a falta de Daniel, mas ela nem pensava em tê-lo com Humberto. Decidiu naquele momento que teria um filho com Fernando. Horas mais tarde, quando desceu, todos se surpreenderam. Ela estava bonita e bem produzida. Morgana e Patrícia, que não esperavam vê-la assim em tão pouco tempo, tiveram de se conter e nada perguntar. Se ela estava melhor não queriam magoá-la com recordações do filho. No dia seguinte, quando estava pronta para ir ao encontro de Fernando, a empregada veio lhe dizer que havia uma mulher querendo falar com ela e que a aguardava na sala. Isabela não podia imaginar quem seria e desceu apressada, não poderia perder a hora. No alto da escada seu coração disparou e ela parou estarrecida. Madame Aurélia estava à sua frente. Sorrindo ironicamente, ela comentou:
- Muito bonita esta mansão. E uma pena que não lhe pertença. Qualquer dia desses Humberto vai voltar a freqüentar minha casa e colocará outra em seu lugar; é apenas uma questão de tempo.
Isabela trincou os dentes de ódio.
- O que deseja aqui? Saiba que não é bem-vinda. Retire-se imediatamente ou mandarei os seguranças a arrancarem à força. O que prefere?
- Não fique nervosa. Só vim para lhe dizer que está sendo castigada por Deus, por isso perdeu seu filho. Não sabe como fiquei alegre quando soube que ele morreu, e não podia deixar de vir aqui lhe dar meus pêsames.
Isabela, com muito ódio ia avançando para agredi-la quando se lembrou do seu encontro. Mesmo assim, proferiu com a voz rouca de ódio:
- Um dia lhe disse que não viveria muito para me humilhar ou rir de mim. Pois hoje assinou sua sentença de morte. Saia agora de minha casa e me espere; vai saber do que sou capaz.
- Não tenho medo de suas ameaças. Sairei porque estar com você me causa náuseas. Passe bem.
Ela saiu e Isabela chegou a chorar de ódio. Aquela mulher tivera coragem de ir até sua casa tripudiar sobre a morte de uma criança inocente. Mas, a partir daquele dia, ela viveria para levá-la à morte. Já havia matado duas pessoas e não haveria problema em matar mais uma. Também queria se livrar de Patrícia, mas não pensava em matá-la. Tinha outros planos para ela. Levantou-se e foi refazer a maquiagem; queria estar impecável para Fernando. Já na saída, quando ia entrando no carro, viu uma mulher de aspecto miserável que passava sobre sua calçada, certamente esmolando. Seus olhares se encontraram e ela reconheceu sua mãe, Lourdes. A velha e doente senhora deixou uma lágrima cair dos seus olhos e, virando-se para ela, falou emocionada:
- Há quanto tempo não a vejo, Clotilde. Onde você está? Por que está com essas roupas, filha?
Ela ficou nervosa. O que menos queria era um encontro com alguém de sua família. Fingiu não conhecê-la.
- A senhora é uma louca que está me confundindo com outra pessoa. Saia da minha calçada, aqui não é lugar para mendigos.
- Por que está agindo assim comigo? Sou sua mãe, fui eu quem a colocou no mundo. Abrace-me; sinto muito sua falta. Desde o dia que desapareceu, vivo na esperança de encontrá-la. - Ao falar isso, Lourdes se aproximou e abraçou Isabela, mas ela foi mais ágil e a empurrou tão forte que a velha senhora caiu no chão. Virando-se para o motorista, ordenou:
- Vamos, já estamos atrasados. Não tenho tempo a perder com esses pedintes.
O carro partiu e Lourdes ficou jogada no chão, chorando e se sentindo humilhada. Patrícia estava acabando de chegar e, ao vê-la, correu para auxiliá-la.
- O que faz aí nesse chão?
Ela ficou sem jeito, quem seria aquela moça?
- Eu caí. Mas não se preocupe, estou bem.
- Não quer entrar e tomar um pouco de água? A senhora deve estar com fome.
Lourdes sorriu. Uma estranha tratava-a bem, enquanto sua filha a humilhava profundamente. Quem seria essa moça com rosto angelical?
- Não desejo entrar. Estava andando, tentando encontrar alguma coisa para comer. Não quero incomodar.
- Não será incômodo algum. A senhora entra comigo e vou lhe arrumar uma cesta com alimentos, assim não precisará andar mais. A senhora tem idade! Por que não manda seus filhos pedirem em seu lugar?
Lourdes olhou para um ponto distante e comentou:
- Já não tenho ninguém. Meus filhos foram embora, alguns morreram. Tinha uma filha que desapareceu. Moro só num barraco, mas não quero que se preocupe comigo. Você é moça e não tenho o direito de envolvê-la em meus problemas.
Patrícia teve compaixão daquela alma pobre e solitária e se calou, pois percebeu que falar daqueles problemas estava sendo penoso para ela. Quando entraram na mansão, o segurança olhou para Patrícia e alertou:
- Seu pai não vai gostar nada de saber que colocou uma mendiga dentro de casa. Essas pessoas são perigosas, não é prudente o que a senhora vai fazer.
- Não se preocupe Albano. Assumo a responsabilidade. Olhe bem para ela, acha mesmo que é perigosa e capaz de fazer algum mal?
Albano concordou a contragosto. Patrícia levou Lourdes para a mansão e ela ficou encantada. Nunca, nem em seus maiores sonhos havia imaginado um lugar como aquele. O que Clotilde fazia ali? Tentaria descobrir. Na cozinha, Patrícia lhe serviu um lanche, enquanto mandou que fizessem uma cesta com mantimentos. Enquanto comia, Lourdes de uma forma que procurou parecer casual, perguntou:
- Vi quando a dona da casa saiu muito arrumada e bonita. Ela não tem idade para ser sua mãe. Será sua irmã?
- Não, ela é minha madrasta. Minha mãe morreu há algum tempo e meu pai se casou novamente.
- Muito bonita sua madrasta. Como se chama?
- Isabela e é realmente muito bonita.
Lourdes se calou. Por que sua filha usava outro nome? Resolveu não insistir com as perguntas. Terminou o lanche e agradeceu o que Patrícia lhe tinha feito. Quando saiu da mansão, estava se sentindo muito humilhada e infeliz. A vida lhe havia tirado tudo, até o amor de sua filha, que agora era casada e não queria mais saber dela. De volta ao barraco, Lourdes chorou. Sentiu dores fortes no peito e teve um infarto fulminante. Desencarnou e foi levada a um Posto de Socorro ainda próximo da crosta terrestre. No carro, Isabela ia enraivecida. Aquele não tinha sido um bom dia. Primeiro a visita incômoda de Aurélia, logo depois sua mãe. O que iria fazer se ela insistisse em procurá-la novamente? Se isso acontecesse, a procuraria e lhe daria uma boa quantia em dinheiro, mas se a mãe insistisse, teria de usar meios mais drásticos para afastá-la. Tentou não pensar mais naquele assunto, todavia de hora em hora, as imagens de Aurélia e Lourdes voltavam a sua mente. Pediu ao motorista que a deixasse em uma loja como de costume e logo depois tomou um táxi, indo em direção ao apartamento que havia alugado para os encontros com o amante. Quando chegou, encontrou Fernando bebendo uísque. Ela o abraçou e o beijou repetidas vezes nos lábios, depois falou emocionada:
- Só você foi capaz de me tirar da depressão. Sem você não seria feliz.
Novamente se abraçaram e esquecidos do mundo lá fora, foram para a cama. Quando terminaram, Isabela, deitada a seu lado, confessou:
- Não quero perdê-lo. Quero que jure que, mesmo casado com Patrícia, vai continuar com o nosso amor.
- Já lhe disse que a amo e que estou me casando com ela porque preciso ter uma vida estável. Continuaremos como sempre até que, de posse de tudo que desejo, possa me separar dela.
Isabela demonstrou tristeza.
- Minha vida está uma infelicidade! Pelo menos não vou ter de me sujeitar a ter relações com o Humberto. Você sabia que ele não tem conseguido?
Fernando sorriu maliciosamente.
- Quer dizer que meu sogro ficou impotente?
- Isso mesmo, para minha felicidade. Só nos seus braços me sinto completa.
- Eu também, meu amor. Pelo menos agora, com o Humberto "pra baixo", não vou ter de dividi-la com outro homem. Não sabe como me sinto mal em saber que todas as noites ele a tem. Mas mudemos de assunto. Fale-me como anda sua cabecinha. Sei que melhorou daquela depressão que estava querendo envolvê-la.
Enquanto ela comentava a infelicidade de ter perdido o filho, ele pensava na maneira como se livraria dela no futuro. Ele havia começado a gostar sinceramente de Patrícia e pensava em usar Isabela até quando lhe fosse conveniente. Queria trabalhar em Brasília, casar em comunhão de bens e contava com Isabela para ajudá-lo. Enquanto a estivesse satisfazendo, ele sabia que poderia contar com ela. Mas jamais se separaria de Patrícia. Ela era tudo o que ele realmente tinha sonhado para a vida dele: uma mulher rica, culta, bonita e inteligente. O que ele poderia querer mais? Os dias foram passando e Humberto, sempre que tentava ter relações com a mulher, não conseguia. Isabela se esmerava para tentar tirá-lo daquela apatia, mas nada que ela fizesse estava tendo efeito. Humberto se sentia desesperado. Estava triste e resolveu se ausentar de Brasília para tratar da saúde. Não podia deixar um receio ser mais forte do que seu bem-estar. Procurou doutor Caldas, que o atendeu prontamente.
- Você está com inapetência sexual. Melhor dizendo, está impotente. Isso é normal e acontece com todos os homens em algum momento da vida. Na maioria dos casos, a causa da impotência masculina está ligada a problemas psicológicos, contudo há também problemas físicos que podem ocasioná-la.
Humberto retrucou:
- Não estou com nenhum problema grave. Sempre fui viril, me orgulhava disso. Não sei por que isso foi acontecer comigo.
O doutor Caldas era um senhor de meia-idade muito simpático. Sorridente, explicou:
- Não se preocupe. Até rapazes podem ter esse problema. Vou lhe prescrever um medicamento que tem resolvido praticamente todos os casos de impotência masculina. Mas você vai fazer todos esses exames. Precisamos ver se há algo em seu físico.
Naquele dia Humberto saiu animado do consultório. Comprou o medicamento com uma certa vergonha e, ao chegar em casa, esperou ansiosamente à noite. Mas qual não foi sua surpresa quando nada de diferente aconteceu. Mesmo tendo tomado o remédio, como o médico lhe indicara, o problema continuava. Humberto estava cada vez mais envergonhado perante Isabela. Naquela noite, enquanto estava sentado de costas fumando seu costumeiro charuto, ele disse:
- Não sei o que está acontecendo. Fui ao médico, tomei os remédios e nada mudou.
- Não se desespere meu bem. O mais importante você já fez que foi a consulta com o doutor Caldas. O remédio não fez efeito hoje, mas certamente fará amanhã.
Isabela fazia carinho nele sentindo-se aliviada. Depois que conhecera a intimidade de Fernando, estava lhe sendo penoso manter relações com o marido. Ainda assim, tentava se mostrar compreensiva e tolerante, como toda boa esposa deve fazer. Foi com desespero que Humberto viu o problema continuar todas as noites, mesmo fazendo tudo que o médico recomendara. Assim seguiram-se semanas. Os exames deram resultados satisfatórios e ele não entendia por que continuava doente. Já ia tentar a alternativa extrema de implantar uma prótese quando o médico, mais sério que o habitual, lhe disse:
- Humberto, sei que somos amigos e, como amigos, tenho a liberdade de lhe dizer que seu problema pode ter uma outra causa. Algo em que talvez você não acredite, mas peço que pense nessa causa com seriedade. Seu problema pode ser espiritual. Como sabe, sou espírita há muitos anos e tenho estudado certos fenômenos de interferência de seres desencarnados. Sei que eles podem causar problemas físicos os mais variados até mesmo à impotência. Você não tem nada no corpo físico, também não tem passado por problemas graves que o possam estar deprimindo. Tudo leva a crer que seu problema seja obsessivo.
Humberto ouviu com atenção. Caldas era um homem sério, dedicado, responsável; se estava dizendo aquilo, com certeza tinha um fundamento. Mas ao seu lado estavam os espíritos de Juvêncio e Romário, insuflando-lhe idéias:
- Não acredite nesse velho louco. O que ele diz não é verdade. Logo você, um homem da política, vai acreditar em tamanha bobagem? - soprava um ao seu ouvido.
- Seja racional, Humberto! Essa idéia de espíritos é falsa. Esses seres não existem, são crenças de pessoas desocupadas - sugeriu o outro.
Imaginando estar pensando sozinho, Humberto protestou:
- Sei que o senhor é um homem de ciência, um homem sensato, mas não posso acreditar no que me diz. Aliás, nem sei como um doutor pode se deixar levar por uma seita de pessoas desocupadas. Isso é bobagem que só serve para mocinhas como minha filha, Patrícia. Ela também acredita nisso.
O médico insistiu:
- Sei que está tentando ser racional, mas se estou lhe dizendo é porque quero seu bem. Somos amigos de longa data e não desejo vê-lo ir de médico em médico sem obter uma solução. Se for realmente o que imagino, a medicina nada poderá fazer. Só um tratamento espiritual adequado pode sanar o problema. Sei que sua filha também tem esses pensamentos. Quase sempre a vejo no centro que, por coincidência, é o mesmo que freqüento. É uma jovem muito inteligente e sensível. Não se deixe levar por preconceitos, Humberto. Faça uma consulta. Caso não se convença, então faça como achar melhor.
- Consulta?
- Sim. Lá no centro que freqüento temos médiuns capacitados que dão consultas gratuitamente, mas jamais atendem problemas mesquinhos ou sem importância. Eles atuam na área da desobsessão e, através de seus amigos espirituais, aconselham o tratamento mais oportuno. Às vezes um tratamento de limpeza com passes magnéticos pode ajudar de forma definitiva; em outros casos é necessária uma intervenção mais direta com os espíritos que estão assediando a pessoa. Se for até lá, garanto que não vai se arrepender. Tenho visto casos de meus pacientes que só se resolveram com ajuda espiritual. Pense nisso. Ele cocou o bigode e respondeu:
- Prometo pensar. Todas as noites tenho esperanças de que tudo se regularize, mas nada acontece. Vou dar mais alguns dias; caso não melhore, volto a procurá-lo. Mas não desejo que minha filha saiba de nada; sinto receio.
- Não se preocupe. A discrição é natural quando trabalhamos com a espiritualidade. Pense bem, sua saúde está em suas mãos.
Quando Humberto saiu, o doutor Caldas rezou e pediu a Deus proteção para seu amigo, que sentiu estar envolvido por entidades sombrias. Sua oração surtiu efeito e envolveu Humberto em uma camada de energia que os espíritos não conseguiram penetrar. Juvêncio chamou o seu chefe em pensamento e logo ele apareceu. Muito nervoso, ele falou:
- Nosso plano pode estar perdido. Aquele médico idiota está tentando levar Humberto para um centro onde poderá se libertar de nossa influência. O que faremos?
O homem sorriu de maneira macabra.
- Eles não conseguirão tão facilmente e até lá nosso plano de matar Isabela já estará realizado. Temos de impedir que Humberto freqüente esse centro. Contudo, ainda que vá, os seres da luz não conseguirão libertá-lo rapidamente. Pensa que é fácil afastar os ovóides?
Juvêncio pareceu pensar.
- Estou mais calmo. O que devemos fazer agora?
- Continuem seguindo Humberto. Não permitam que ele vá a esse lugar horroroso e encontre a espiritualidade. Quero-o do nosso lado, quando desencarnar.
Dizendo isso desapareceu deixando Juvêncio e Romário, que se preparavam para voltar à casa de Isabela.

16 - DE VOLTA AO MUNDO MAIOR

Foi com dedicação e amor que Diana e seus amigos recolheram o espírito de Daniel ainda em forma infantil e o conduziram à colônia onde viviam. Ele ficou em uma câmara de vidro adormecido, recebendo no perispírito pulsos magnéticos que o faziam pouco a pouco recuperar a forma adulta. Foi no hospital da Terra que esses espíritos amigos desfizeram os laços que prendiam Daniel ao corpo físico antes mesmo que ele exalasse o último suspiro. Diana levara em seus braços aquele espírito que vivera pouco mais de três anos terrenos até o hospital que se encontrava no astral. A porta se abriu e Gabriel entrou.
- Como ele está hoje, Diana?
- Está muito bem. Continua adormecido, mas, como pode ver, já está recuperando a forma adulta e voltando a ser fisicamente quem foi na última encarnação.
Gabriel observou Daniel e notou que ele estava praticamente com as feições de Thierry, exatamente igual a quando vivera reencarnado na França.
- Por que ele está voltando a ser como era antes?
- É que ele não teve tempo de se tornar adulto na presente encarnação, então seu inconsciente está plasmando a última aparência adulta que teve. Ademais, aquela reencarnação trouxe-lhe experiências muito fortes; é natural que isso acontecesse.
Gabriel perguntou a Diana o que tinha curiosidade desde quando ajudara Daniel a se livrar do corpo físico.
- Por que ele não teve tempo de crescer para viver os desafios necessários à sua evolução?
Diana explicou com sua paciência característica:
- Já falamos outras vezes sobre as causas das mortes prematuras, e Daniel não foge à regra. Antes de nascer, ele pediu que desencarnasse cedo caso tivesse uma má educação que o fosse influenciar negativamente. Mais uma vez, foi o medo de falir que ditou essa escolha. Isabela prometeu levar vida digna e o instruir para o bem, de modo que, quando os desafios aparecessem, ele, munido de uma boa educação, pudesse vencê-los. Todavia, Daniel se lembrava da personalidade de Isabela e com medo de cometer mais erros devido a uma orientação equivocada, solicitou voltar rapidamente.
- Mas não seria melhor ele continuar vivendo, vencer os valores errados e reajustar-se consigo mesmo?
- Era o melhor que poderia acontecer, mas infelizmente as pessoas no mundo agem pelo medo. Esse sentimento tem impedido nosso crescimento como espíritos, nossa realização como pessoa, e atrasado nossa evolução espiritual. O medo paralisa, e quem pára atrai o sofrimento. No dia em que todos vencerem seus medos, aprenderem que o mundo não é mau, que é um lugar seguro, de paz e felicidade, certamente darão um passo definitivo rumo à evolução. Infelizmente, as crenças negativas das pessoas têm causado todo o sofrimento que há em nosso planeta. Quando entenderem que não nasceram para a infelicidade, tudo mudará; é apenas uma questão de tempo.
- Até quando Daniel vai ficar fugindo sem querer enfrentar os desafios que a vida vai lhe trazer?
- O livre-arbítrio é respeitado, mas até certo ponto. Não podemos esquecer que quem comanda tudo no universo é Deus, por leis perfeitas e imutáveis. Um dia vai chegar à hora de ele enfrentar o que é preciso e acabará evoluindo; se não for pelo amor, será pela dor.
Gabriel não estava satisfeito.
- Como o Departamento de Reencarnação permite que esses espíritos escolham vidas que em nada vão contribuir para seu progresso?
Diana elucidou:
- Aqui temos condições de escolher melhor do que quando estamos na Terra, envolvidos pelos problemas materiais. Todavia, ainda sim podemos fazer escolhas erradas, movidas por valores falsos. Se muitos escolhem corretamente os desafios que irão enfrentar no mundo, outros escolhem baseados em crenças negativas e acabam vivendo várias reencarnações que outros julgam perdidas, mas que na realidade não são. Na vida nada se perde e, em cada uma delas, mesmo quando escolhemos supostamente errado, estamos nos tornando mais fortes, estamos nos imunizando. Toda reencarnação é aprovada por Deus. Se Ele permite que nos equivoquemos com as escolhas é porque sabe que delas vamos retirar lições preciosas. O preguiçoso, que escolheu uma vida na ociosidade descobrirá, no além-túmulo, o quanto estava enganado e aprenderá a valorizar o trabalho. O egoísta que escolheu a dor para apagar suas culpas descobrirá decepcionado que o amor cobre a multidão dos pecados e que é unicamente por ele que se apaga o mal que se fez. O medroso que escolheu a pobreza com receio de enfrentar as tentações da riqueza acabará percebendo que enterrou seu talento e terá de voltar atrás, aprender a produzir, ajudar a sociedade, conduzir ao progresso. O ávido pelo poder que escolheu a riqueza unicamente para satisfação de seus desejos aprenderá que dinheiro é progresso espiritual, e não fonte de paixões e egoísmos, que nada produzem.
- Quer dizer que não era para existir o sofrimento?
- Não. O sofrimento e a dor são criados pelo próprio homem e pela sua condição inferior. O mal só existe para aqueles que acreditam nele. Há humanidade um dia entenderá isso e a Terra se transformará num paraíso.
- E onde fica a lei de ação e reação? Não devemos sofrer para pagar o mal que fizemos aos outros?
Diana sorriu.
- Essa é uma inversão de valores perigosa e que não nos leva ao bem verdadeiro. A lei do retorno não visa punir, mas educar. Quando agimos mal é porque não temos condições de fazer diferente. Quem faria o mal se soubesse os seus resultados?
Para Deus, os maldosos, os assassinos, os mentirosos, os cruéis, os corruptos são crianças espirituais que estão agindo de acordo com o nível de evolução que lhes é próprio. Como pai bom e justo que é, criou para essas pessoas a reparação pelo bem e pelo amor ao próximo. É dessa forma, na boa ação e na mudança de atitudes, que temos a única chance de nos redimir completamente e aprender o valor da bondade. A dor só aparece para quem insiste no mal, para quem se culpa para os que cultivam pensamentos negativos, para quem acha que tem de sofrer para pagar por enganos cometidos durante sua infância evolutiva. Eis a grande causa do sofrimento humano. Gabriel havia entendido. Nesse momento, Daniel estava abrindo os olhos. Finalmente havia despertado. Diana se aproximou, abriu a câmara e perguntou:
- Como se sente?
- Um tanto atordoado. Quem são vocês?
- Amigos que estão aqui para ajudar. Você está dormindo há dias. Não quer sair conosco? Nosso parque é muito bonito.
- Sim, aceito. Sinto que preciso andar um pouco.
Os três saíram e ele, como quase todos que desencarnam, fazia perguntas, sem entender o que se passava. Diana e Gabriel respondiam com evasivas. Eles sabiam por experiência que não podiam contar a todos que haviam morrido; em muitos casos tinham de esperar que a própria pessoa descobrisse sua real situação. Depois do passeio, pararam diante de uma casa pequena e Diana explicou:
- Aqui será seu novo lar a partir de agora. Entre e descanse; depois conversaremos.
Daniel ainda estava um tanto confuso:
- Não vou voltar àquele quarto?
- Você não precisa, não está doente. Mas aqui há um quarto onde poderá deitar e dormir. É bom que descanse.
Ele não insistiu. Após entrar e examinar seu novo lar foi para a cama e deitou. Mais uma vez um torpor o invadiu e ele dormiu e sonhou. Sonhou que estava em uma cabana tendo um encontro amoroso. As cenas se sucediam e ele se lembrou de Nathalie, percebendo que era com ela que se encontrava. Sonhou que estava invadindo um castelo e que tirava a vida de um homem, depois surgiu à imagem dele assassinando uma senhora. Outras cenas seguiram-se e ele se viu pequenino nos braços de Isabela e reviu a agonia de sua morte. Nesse instante acordou com um susto e, com os olhos abertos, falou em voz alta para si mesmo:
- Lembrei, lembrei de tudo! Minha mãe, Isabela, é a mesma Nathalie de antes. Fui assassino, traidor e cruel. - Em seguida, caiu em pranto sentido. Chorou por horas.
No outro dia pela manhã, Diana e Gabriel foram visitá-lo. Acomodados em uma espécie de sofá próximo à cama, eles iniciaram a conversa:
- Pelo visto, lembrou-se de tudo. Como se sente? - perguntou Diana amavelmente.
- Não me sinto bem. Muito pelo contrário, estou me sentindo culpado por tantos crimes que cometi no passado. Minha morte foi uma fuga dos problemas que ia enfrentar no mundo. Sinto-me perdido - confessou desalentado.
- Procure não cultivar a culpa. Tente elevar-se com suas experiências para poder auxiliar quem realmente precisa de você: Isabela.
- Sinto que preciso auxiliá-la, mas não sei como.
- Viemos aqui lhe dizer que você pode fazer isso e que vai contar com uma pessoa muito especial para ajudá-lo: sua avó, Lourdes. Ela acaba de desencarnar e, assim que passar pelo sono reparador, vamos nos reunir e encontrar a melhor maneira de auxiliar aquela que foi sua mãe. Sou muito amiga dela de outros tempos e sei que não conseguiu ainda vencer suas fraquezas, porém não podemos desanimar. Um dia ela vai despertar. Contudo, até lá, temos muito que fazer.
Daniel se emocionou e naquele instante jurou para si mesmo que tudo faria para ver Isabela se regenerar. Sentada em luxuoso sofá, Isabela chorava lembrando-se do filho que havia morrido. A mansão estava silenciosa e naquele instante ela se sentiu muito só. Nada tinha para reclamar da vida. Era rica, estava casada, tinha um amante, mas nada daquilo servia para fazê-la feliz naquele momento. Lembrou-se da mãe e de quando sentavam num tronco seco de árvore em sua favela para conversar. Sentiu saudades dela naquele momento e chorou ainda mais. "A vida me transformou num monstro, mas não tive culpa. Tudo que fiz foi pensando no meu filho", refletia, tentando consolar-se. A luz do abajur foi acesa e ela percebeu que Morgana havia chegado com uma bandeja que continha chá e biscoitos.
- Coma, vai lhe fazer bem - aconselhou Morgana tentando levantar o ânimo da outra por se sentir culpada.
- Não sei o que se passa dentro de mim. Sinto um vazio, um buraco que nada pode preencher. Sinto que sem meu filho jamais terei a mesma alegria.
- Não vai lhe fazer bem ficar assim. Pense que é rica que possui bens e que pode usufruir de tudo isso. Além do mais, há Fernando. Quer motivo maior para a felicidade?
- Confesso que só ele me dá ânimo para prosseguir nessa jornada.
A outra procurou conversar sobre o amante, pois sabia que lhe fazia bem.
- Pense que um dia você vai se ver livre do Humberto para sempre e poderá viver com ele onde quiser.
Isabela fez um ar de descrença.
- Essa vida me ensinou muitas coisas, e sei perceber o que vai ao coração dos homens. Apesar de tudo, sinto que Fernando não me ama e desconfio que está começando a gostar da lambisgóia da Patrícia. Sinto que está comigo apenas por interesse, mas não consigo deixá-lo, mesmo sabendo disso. Infelizmente, estou apaixonada.
Morgana fingiu compreender.
- Sei como são essas coisas. Também já me apaixonei uma vez, pouco antes de você chegar à mansão. Ele era casado, mas me contentava apenas em ser sua amante. Nós, prostitutas, não temos o direito ao sonho de amor e sempre soube que ele não iria ficar comigo. Felizmente você teve sorte, encontrou Humberto, que a assumiu integralmente.
- Mas não o amo. Confesso que sentia uma atração sexual por ele a princípio, mas, depois de conhecer a intimidade de Fernando, não posso suportar que me tome. Tenho de dizer que estou adorando o fato de Humberto estar impotente.
- Ele não está conseguindo ter relações com você?
- Não, e estou dando graças a Deus. Amanhã é o dia de ele chegar; espero que não tenha melhorado.
Patrícia chegou sorrindo com Fernando, aparentando muita felicidade. Cumprimentaram as duas e subiram as escadas. Isabela, com muito ódio atirou longe a xícara que segurava. Morgana assustou-se.
- Você tem de se controlar; eles quase perceberam. Quer colocar tudo a perder? Se a Patrícia desconfiar, você estará perdida. Fernando não vai admitir que tem um caso com você e ela vai acreditar nele, e vocês vão se afastar. E isso que quer?
Ela chorava agora de inveja e ódio. Professou entre dentes:
- Vou tirar essa menina do meu caminho ou não me chamo Isabela; ou melhor, Clotilde. - Virando-se para Morgana, asseverou: - Você vai me ajudar. Traçarei um plano e na hora exata vamos colocá-lo em prática. Já perdi meu filho e não vou suportar perder o homem que amo.
- Conte comigo. Mas, se quiser que as coisas dêem certo, deverá ser fria; não pode demonstrar o que sente por Fernando, principalmente quando Humberto estiver por aqui.
- Esse é um bom conselho. Sinto que você é um anjo que a vida colocou em meu caminho.
As duas terminaram o chá e Isabela subiu sem sequer imaginar que iria ser traída por aquela que mais julgava ser sua amiga. No outro dia, Humberto chegou e ela tentou ser paciente e estar bem-humorada. Fernando estava cada vez mais íntimo da casa e da família, e durante o almoço parecia mais falante do que o habitual. Isabela ficou desconfiada. Quando foram para a sala, ele se virou para Humberto e, em tom solene, começou:
- Senhor Humberto, como já é do seu conhecimento, eu e Patrícia nos amamos. Estamos há certo tempo juntos e gostaríamos de oficializar nossa relação. Estou pedindo a mão de sua filha em casamento. Gostaria de ouvir um sim de sua parte.
Humberto não estava surpreso. Percebia que a filha estava apaixonada e sabia que mais cedo ou mais tarde isso ia acabar acontecendo, mas não deixou de dar seu discurso de pai.
- Antes de dar a resposta, gostaria de dizer que eu e Flaviana criamos Patrícia para a felicidade. Se ela escolheu você, acredito que tem condições de fazê-la feliz, pois minha filha tem bom senso e não iria gostar de um rapaz que pudesse fazer sua infelicidade. Como pai, torço para que ela seja feliz. Se ela quer sê-lo ao seu lado, que assim seja, e que tenham muita felicidade. Têm a minha bênção. Mas saiba que, se um dia fizer Patrícia sofrer, terá um inimigo.
Mesmo com o tom áspero das últimas palavras de Humberto, todos ficaram muito felizes. Patrícia levantou-se, beijou o pai repetidas vezes, depois voltou a se sentar perto de Fernando. Humberto indagou:
- O que você faz da vida? Suponho que tenha uma boa profissão, uma vez que deseja se casar.
Fernando esperava por aquela pergunta e estava bem preparado.
- Trabalho numa grande empresa e fui promovido. Tenho o suficiente para dar um lar a sua filha e uma vida digna. Mas não posso oferecer o conforto e o luxo aos quais ela está acostumada. Nós conversamos e ela insiste para que moremos aqui depois do casamento. Não quero, tenho minha dignidade.
Humberto cocou o bigode e retorquiu preocupado:
- Só posso conceder a mão de minha filha se você passar a morar aqui. Esta mansão é muito grande, e era o sonho de Flaviana que Patrícia, quando casada, viesse a morar na casa que ela mesma ajudou a construir com seu bom gosto. Aliás, essa mansão é de Patrícia. Antes de Flaviana morrer, nós a colocamos em seu nome, como única filha viva de nosso casamento. Se não vier morar aqui, não posso concordar que se casem.
Patrícia, passando a mão pelos cabelos castanhos dele, falou com voz que a paixão tornava doce:
- Concorde, meu amor. Só falta você deixar sua teimosia de lado e aceitar.
Era tudo que Fernando queria ser adulado ao máximo. Fingiu demorar a pensar, depois reconsiderou:
- Tudo bem. Se for essa a condição, aceito.
Patrícia, muito carinhosa, o beijou várias vezes, até que todos na sala pararam quando escutaram o barulho de vidro quebrando. Isabela, com feições que o ódio modificava, havia quebrado a taça que segurava entre os dedos, dos quais jorrava sangue. Humberto se aproximou preocupado:
- O que há com você? Por que fez isso?
Ela percebeu que havia se excedido e rapidamente encontrou a saída:
- Estava alheia a tudo que acontecia aqui. Pensava na morte de meu filho e sentia muito ódio da vida, por isso sem querer esmaguei essa taça em minhas mãos. Não se preocupem; pedirei a Morgana que faça um curativo.
Patrícia, que havia se levantado, olhou para as mãos dela e assustou-se.
- Mas ainda estão muito cortadas. Terá de ir ao médico. Precisa de pontos.
Um ódio surdo brotou em Isabela que, com feições coléricas, bradou:
- Sei do que preciso, não é necessário se meter. - Ao dizer isso, fulminou-a com o olhar e saiu da sala.
Patrícia e os outros não entenderam a súbita agressão de Isabela, a qual Humberto tentou atenuar:
- Perdoem a minha mulher. Ela está assim desde que o filho morreu; daquele dia em diante, nunca mais foi à mesma.
Naquele dia eles estavam por demais alegres para imaginar o que na realidade se passava com aquela mulher cheia de inveja. Voltaram a conversar normalmente, apenas Fernando parava às vezes para pensar com certo receio. Algo lhe dizia que Isabela ainda iria lhe dar trabalho. Morgana acompanhou a amiga até a cozinha, onde recebeu os primeiros socorros. Quando se viram a sós, Morgana comentou:
- Desta vez você passou dos limites, mas confesso que esperei coisa pior. Precisa se cuidar para não fazer coisa parecida outra vez ou colocará seu relacionamento com Fernando a perder. De preferência, nem vá ao casamento. Dê uma desculpa, invente alguma coisa, sei lá.
Ela vociferou:
- Esse casamento não vai acontecer; antes, eu acabo com essa alegria. Não posso perder o homem de minha vida para uma pirralha qualquer. Tenho de imaginar algo, preciso agir.
Isabela rodava pela cozinha muito nervosa. Morgana tentou acalmá-la:
- Não acho prudente você tentar acabar com esse casamento. O melhor é que ele venha morar aqui e que vocês continuem como sempre. Se acabar com o casamento, não vai poder ficar com ele, pois há o Humberto e, além do mais, se Fernando descobrir que foi você, poderá vir a odiá-la.
- Você tem razão. Estou me deixando levar pelas emoções. Permitirei que esse casamento aconteça, mas depois vou agir para que ele seja um inferno. Agora mande o motorista tirar o carro, pois esses cortes voltaram a sangrar. Vamos ao médico.
Minutos depois ambas saíram. Fernando também havia deixado à mansão e Patrícia ficou só com o pai. De súbito, ela comentou:
- Senti que Isabela não ficou feliz com o meu casamento. Não foi normal aquela reação de ódio quando falou comigo. Só não consigo entender o porquê.
Humberto, já com outro copo de uísque nas mãos, concordou:
- Também não achei normal, aliás, venho notando que Isabela não fica bem quando está na presença de Fernando. Às vezes fala demais, em outros momentos fica retraída... Hoje mesmo, enquanto vocês comunicavam a decisão do casamento, percebi que ela os olhava com rancor.
Patrícia não conseguia entender. Apesar de ser muito intuitiva, ela havia se deixado levar pela paixão. Nesse estado geralmente perdemos contato com nossa essência e tudo quanto se refere à pessoa amada de modo negativo costumamos ignorar. Algumas vezes Patrícia havia sentido que Fernando não estava sendo sincero com ela, todavia, por não querer acreditar, não dava ouvidos à intuição e acabara perdendo o contato com ela. Tanto que nunca poderia supor que ele a estivesse traindo. A conversa mudou de rumo e Patrícia ficou feliz quando o pai comunicou-a de que finalmente iria ao centro naquela noite para fazer uma consulta.
- Fico feliz que tenha tomado essa decisão. Não poderei acompanhar o senhor hoje, mas garanto que iremos juntos outras vezes. Quem vai lá uma vez sempre deseja voltar.
Ele, meio envergonhado, confessou:
- Estou indo empurrado pela vida. Tenho passado por muitos problemas ultimamente e há muito não me ligo a essas coisas de religião. Nem sei há quanto tempo fiz uma oração.
- Sempre é tempo para nos dedicarmos à espiritualidade. O senhor falou em religião, mas posso garantir que espiritismo e espiritualidade nada têm a ver com religião. Ao freqüentar o centro, ò senhor vai descobrir que é muito mais que isso; trata-se do estudo das leis de Deus e da vida.
Humberto queria mesmo descobrir como tudo isso funcionava e foi com ansiedade que esperou a noite chegar. Isabela passara o resto do dia deitada pretextando uma dor de cabeça e ele saiu sem avisar. O centro iniciava suas tarefas às oito da noite em ponto e ele não queria se atrasar. Com o endereço em mãos, partiu. Ao chegar na frente do prédio, se surpreendeu. Era muito grande e a fachada moderna indicava que as pessoas tinham bom gosto. Quando entrou, logo sentiu uma sensação agradável de paz. Mesmo assim, procurou sentar em uma das últimas filas; não queria encontrar nenhum conhecido. A despeito disso, viu o doutor Caldas, que acenou com a mão. As luzes se apagaram, ficando acesas apenas pequenas lâmpadas verdes. O dirigente fez uma prece a Deus evocando a presença dos amigos espirituais e falou sobre a importância da fé. Uma moça distribuiu um papel com o número que indicava a ordem das consultas, e Humberto percebeu que teria de esperar um pouco. Mas a espera foi agradável. O ambiente em penumbra, com música relaxante, provocou em Humberto uma sensação de bem-estar como há muito ele não sentia. Todos nós nos sentimos felizes e serenos quando entramos em contato com a espiritualidade. No turbilhão do mundo, envolvidos pelos problemas materiais e com as regras da sociedade, muitas vezes nos esquecemos desse contato e de como ele nos beneficia. E por isso que todo ser, ao meditar, orar ou freqüentar lugares onde mora a espiritualidade superior sente sensações de paz e alegria que não estão acostumados a ter na rotina do dia-a-dia. Humberto ignorava que para estar ali naquele momento muito esforço fora empreendido pelos seus amigos espirituais e por Flaviana, que agora procurava auxiliá-lo a encontrar o caminho do bem. Juvêncio, Romário e Nicodemos tudo tentaram para impedir que ele chegasse ali. Primeiro planejaram mexer no mecanismo do carro para que ele não conseguisse dirigir, depois pensaram em induzi-lo a um sono profundo, também cogitaram visitas de amigos da política e, por fim, uma terrível dor de cabeça. Nada conseguiram porque os espíritos do bem estavam em alerta e havia em Humberto o desejo sincero de melhorar. Mas nem sempre isso acontece. As pessoas, quando chamadas a um lugar de oração e espiritualidade, costumam ter toda espécie de problemas corriqueiros: dores de cabeça e mal-estar, visitas inesperadas, falta de vontade de ir, acidentes domésticos, desânimo, entre outros. É preciso o desejo sincero do bem para obter proteção. Finalmente chegou sua hora e ele, um pouco envergonhado, entrou em pequena sala iluminada apenas por uma lâmpada azul. A atendente perguntou:
- Qual o motivo de sua consulta? Aqui estamos dispostos a ajudar em nome de Deus e não deve temer confessar seus problemas. Somos todos seres humanos e necessitamos em algum momento da ajuda espiritual.
Ele estava tímido, mas a voz doce daquela mulher lhe inspirou confiança. Além do mais, o ambiente em penumbra facilitava à timidez inicial se transformar em coragem, afinal, ele já não agüentava mais lidar com a impotência.
- Eu... Estou com problemas de saúde. Procurei um médico, fiz exames, tomei remédios, mas nada adiantou. Minha filha acha que pode ser problema espiritual, até meu próprio médico, que é trabalhador desta casa, afirmou que posso estar sendo assediado por espíritos perturbadores. Por não agüentar mais a situação, venho pedir ajuda.
- Em primeiro lugar, gostaria que soubesse que todas as nossas doenças vêm de atitudes negativas que estamos tendo para conosco. A depender do tipo de doença que atraímos, acabamos por descobrir sua causa. O que se passa com você?
Ele hesitou um pouco, depois, tomando coragem, revelou:
- Estou impotente há várias semanas. Você deve saber como é difícil para um homem falar sobre esse problema, mas a situação tem piorado. Como os espíritos podem ajudar?
A atendente demorou um pouco e respondeu:
- Você já procurou a medicina terrena e não conseguiu se curar. Os amigos espirituais estão dizendo que o problema está na parte energética. Você atraiu esse problema porque precisava desenvolver sua consciência.
- Há espíritos envolvidos no assunto?
- Sim, mas não precisa se assustar com isso. A interferência dos espíritos em nossa vida é mais constante do que se pode imaginar, e todas as pessoas são envolvidas por eles, mesmo que não percebam. A impotência sexual aparece quando o homem começa a se sentir fracassado na vida ou quando se sente inferior a sua parceira. Também pode acontecer quando ele gosta de manipular e dominar as pessoas à sua volta, então a vida manda esse problema para que ele acorde e se torne melhor. Mas seu caso não é esse; sua impotência tem origem espiritual. Tudo indica que espíritos ainda presos aos interesses que deixaram na Terra estão tentando baixar seu padrão energético, levando-o à depressão e ao complexo de inferioridade, por objetivos que estamos longe de saber.
Humberto estava um pouco assustado; aquilo era muito novo para ele. Ainda assim, arriscou uma pergunta:
- Por que eles conseguiram me atingir?
- Uma obsessão pode acontecer por diversos motivos, mas em todos os casos foi o obsediado quem abriu suas energias para essa invasão. No seu caso, foi para que despertasse para a vida espiritual. Você precisa deixar o materialismo que o vem infelicitando há muitas vidas. - Ela falava com voz levemente modificada. - Pelas ilusões da matéria você sofreu e fez sofrer, mas chegou o momento da mudança e do amadurecimento. De agora por diante, se quer ficar bem e curar-se do mal que o aflige, deverá cultivar a espiritualidade, estudar as leis das energias e aprender a se defender. Todas as pessoas terão de passar por esse momento.
Ele estava confuso.
- Mas eu não acredito muito nessas coisas. Depois, não quero ser médium nem servir aos espíritos. O que mais desejo é ter minha vida de volta.
- Não estou dizendo que você precise trabalhar com os espíritos, mas só conseguirá curar-se se inverter os valores em sua vida, colocar os espirituais acima dos materiais, fazer uma reformulação no mundo interior. Sua hora chegou Humberto. Pense nisso com carinho.
A consulta parecia ter terminado e Humberto estava insatisfeito.
- Quer dizer que só vim aqui para conversar? Não vou fazer nenhum tratamento?
- Vai sim. Vou colocar seu nome no caderno para os trabalhos de desobsessão e agora você vai para a câmara de passes, mas deverá voltar nesses dias para o tratamento. - Ela lhe deu um papel, que ele guardou no bolso. Depois sorriu e falou: - Fique com Deus, Humberto!
Ele ficou encantado com aquele sorriso e com a delicadeza daquela mulher; algo nela mexera profundamente com ele desde que entrara na sala.
- Posso saber seu nome?
- Chamo-me Sílvia. Foi um prazer conhecê-lo.
Humberto se despediu, foi para a sala de passes e depois saiu. Mesmo não sendo como ele esperava, uma esperança nova brotou em seu coração. Contudo o que mais o intrigava eram a voz e o sorriso de Sílvia, que não lhe saíam do pensamento.

17 - INTRIGA

Alguns meses se passaram e Humberto continuou seu tratamento. Todavia os resultados não apareciam e ele começou a ficar triste e depressivo. Vendo a alegria de sua filha preparando o enxoval para o casamento e a harmonia que aparentemente reinava em seu lar, ele nada dizia a ninguém e sofria calado. Isabela fingia compreender e não se importar com a falta de relações entre eles, dizendo amá-lo mesmo que nada acontecesse entre os dois. Ele se enternecia pelos sentimentos dela e prosseguia esperançoso, mas nada o fazia melhorar. Por outro lado, Isabela continuava com os encontros com Fernando, agora com mais intensidade. Fingia aceitar o casamento, mas o fizera prometer continuar sendo seu amante mesmo depois de casado. Era um final de tarde e Marília estava ansiosa para que o filho chegasse do trabalho. Precisava ter uma conversa séria com ele. Desde que pedira a mão de Patrícia em casamento e as famílias tinham estreitado suas relações, Marília conhecera Humberto e Isabela num jantar e sentira que aquela mulher era perigosa e poderia colocar seus planos a perder. Impaciente, ela esperou. Quando finalmente Fernando chegou, ela mal o deixou afrouxar a gravata e foi logo dizendo:
- Precisamos conversar seriamente. Sou sua mãe e sinto que sua vida pode desmoronar a qualquer momento, caso não termine seu relacionamento com aquela mulher vulgar.
Ele não esperava ouvir isso da mãe e sentou-se ao seu lado. Costumava ouvir e seguir tudo que Marília lhe dizia. Se ela o estava alertando, certamente sabia algo importante.
- Por que a senhora diz isso? Afinal, foi a primeira que me incentivou a manter esse relacionamento. Sabe de algo que não sei?
- Eu não a conhecia, mas depois que a vi percebi que essa mulher vai lhe causar muitos aborrecimentos. Ela tem gênio e é voluntariosa, pode até separá-lo da Patrícia.
- Também sinto isso, mas não tenho coragem de romper a relação que temos. Apesar de tudo, gosto do prazer que ela me proporciona, além das facilidades financeiras.
Marília o olhou seriamente.
- Se quer ter um belo futuro, status e estabilidade ao lado de sua mulher, deverá romper com Isabela o quanto antes. Tenho pressentimentos de que algo de ruim vai acontecer. Prometa a mim neste momento que ainda hoje porá fim a essa relação.
Marília falava severamente, e Fernando se impressionou.
- Prometo fazer o que me pede, mas sei que não será fácil. Isabela fará de tudo para me prender a ela.
- Resista, negue, mas se afaste dessa mulher.
- Temo que ela possa revelar nossa relação. Não posso mais viver sem Patrícia.
- Ela não vai ter essa coragem. Poderá ser vista como adúltera e perder seus direitos no rico casamento que fez. E melhor fazer o que estou dizendo, e rápido.
Fernando estava realmente impressionado. Deitou no sofá e colocou a cabeça no colo da mãe, que acariciava seus cabelos lisos. Estava decidido: entre ele e Isabela nada mais poderia acontecer. Após tomar um banho e jantar, ligou para ela e marcou um encontro para a próxima tarde. Era sábado e ele estaria de folga. Isabela estranhou; geralmente quem marcava os encontros era ela. Conversou com Morgana, que a fez acreditar que ele estava cada vez mais apaixonado, por isso estava marcando para se encontrarem. Isabela esperou o outro dia chegar com ansiedade. Na hora marcada, estava lá. Quando Fernando entrou, ela, como sempre, correu para abraçá-lo e beijá-lo nos lábios, mas desta vez ele não correspondeu.
- O que está havendo com você, meu amor?
- Isabela, precisamos conversar. Tenho repensado minha vida, estou noivo, vou casar daqui a um mês... - Ele parou, hesitando. Não sentia coragem para dizer o que queria.
Isabela, percebendo o que ele iria dizer, o encorajou:
- Vamos, diga, quero que vá até o fim.
- Não sei como lhe dizer isso. Você é uma pessoa muito especial para mim, me auxiliou muito, nossa relação é boa, mas não devemos continuar com ela. A partir de agora, não teremos mais nada. Acabou.
Isabela ouvia sem querer acreditar. Seu coração batia descompassado; o ar parecia faltar-lhe aos pulmões. Mesmo assim, reuniu forças para continuar.
- Quando tomou essa decisão? Há menos de três dias estávamos juntos e tudo parecia bem. Você jurou que ficaria comigo mesmo depois de casado. Chegamos a fazer planos. Como pode dizer isso agora? - Ela estava desesperada. Realmente amava Fernando, e não queria a separação. Porém ele, instruído pela mãe, deu o golpe final:
- Descobri que amo Patrícia e é com ela que quero ficar. Desejo ser fiel, amá-la como ela merece. Não amo você; desde o princípio nossa relação não passou de uma aventura.
Cada palavra dita por ele parecia atingir o coração de Isabela como um punhal. Ela começou a sentir um ódio surdo e deu uma bofetada no rosto dele. Fernando, envolvido pela raiva, começou a esbofeteá-la. Ela foi revidando e ele, dominado por uma força estranha, começou a chutá-la e acabou jogando-a no chão. Ele tinha força duplicada e logo ela estava toda sangrando. Ainda com muito ódio, ele disse:
- Espero que isso sirva para aprender a me respeitar. Não gosto de mulheres vadias como você.
Fechou a porta e saiu. Isabela estava louca de raiva, decepção e angústia. Seu sonho de amor havia chegado ao fim. Mas isso não ficaria assim. Ela encontraria uma maneira de se vingar e acabar com aquele casamento. Seu corpo doía e os cortes estavam sangrando. O que iria dizer quando chegasse em casa? Havia saído sem Amaral, o que não costumava fazer. Tentou se levantar e foi com dificuldade que conseguiu. Ao descer, tomou um táxi e foi para casa. Todos se espantaram com o estado de Isabela. Ela, muito hábil, contou que tinha sido assaltada e tentara reagir, por isso fora violentada. Morgana, muito desconfiada, conseguiu a verdade da amiga, que chorava muito e, com feições animalescas, planejava vingança. Humberto estava em Brasília e só estaria em casa no outro fim de semana, o que em muito aliviou Isabela. Não queria que o marido a visse com aqueles ferimentos e aquelas manchas roxas. Já bastavam as perguntas de Patrícia, de Eudásia e dos empregados. Morgana aproveitou que estava de folga e foi visitar madame Aurélia. Ao entrar naquela casa, sentiu saudades do tempo em que morava lá. Aurélia e Luana chamaram-na para o quarto onde trocavam confidencias. Morgana começou a relatar os últimos fatos.
- Foi isso mesmo que aconteceu. Fernando terminou tudo com ela e ainda a espancou. Nosso plano de denunciá-la a Humberto não vai dar certo e, além de tudo, ela quer meu auxílio para separar o casal.
A cafetina pensou um pouco, então respondeu:
- Esse plano não está perdido e podemos ainda fazer com que Humberto saiba a verdade. Você será a encarregada.
- Como poderei fazer algo, se eles não estão mais unidos?
- Você colocará na mente de Isabela a idéia de que ainda pode se reconciliar com Fernando. Eles precisam se encontrar, mesmo que seja apenas uma vez, para conversar, e daí você contará a Humberto toda a verdade e indicará o local onde se encontram. Fará mais: descobrirá o dia que vão se encontrar fará uma cópia da chave do apartamento e dará a Humberto. Ele ouvirá tudo e a expulsará de casa. Seja amiga dele, insista em que ele precisa fazer um flagrante de adultério; só assim ela perderá o que adquiriu com o casamento e terminará mais pobre do que nunca.
Luana anuiu:
- Isso mesmo. Ela jamais desconfiará de você. As pessoas confiam muito mais nos falsos amigos do que nos amigos verdadeiros, sempre foi assim. Faça isso e aposto que Humberto ainda a recompensará financeiramente.
Morgana era falsa, mas no íntimo não gostava do que estava fazendo. Ela não via motivo para tanto ódio por parte de Aurélia e não podia compreender como uma pessoa como Luana praticava o mal somente por inveja. No fundo, não via a hora de tudo isso acabar para que pudesse voltar ao interior e viver ao lado dos pais. Morgana ficou pensativa. Aurélia percebeu.
- Não adianta tentar fugir de nossos planos. Você quis ser tão vingativa quanto nós duas e agora não poderá voltar atrás.
Já cometeu um crime, matou uma criança e, se não cumprir o que prometeu quem terminará morta é você.
Sentindo-se ameaçada, ela tentou contemporizar:
- Não estou querendo fugir madame. Apenas pensava no motivo tão pequeno que transformou a mim e a senhora em assassinas cruéis.
- E que você é muito ingênua e não sabe do que o ser humano é capaz. Todos nós carregamos no íntimo sentimentos que desconhecemos. Isabela me transformou no que sou hoje.
Morgana não insistiu. Após ouvir mais uma vez o meticuloso plano, voltou para a mansão. Ao chegar, foi logo procurar a amiga, que escondia o rosto entre almofadas.
- Como você está?
- Não consigo pensar em outra coisa, a não ser em vingança - falou Isabela demonstrando ódio. - Amo Fernando demais para ter de perdê-lo. Se ele não for meu, não será de mais ninguém.
- Compreendo que queira se vingar, mas o amor de vocês foi muito grande. Fernando pode ter feito o que fez movido por alguma pressão. Nunca lhe ocorreu que ele pode estar arrependido?
Isabela pareceu pensar, depois comentou:
- Não acredito. Senti muita decisão nas palavras dele. E ele foi violento, coisa que não costuma ser. Sei que a situação está perdida, mas não posso deixar esse casamento acontecer, e, se acontecer, tenho de encontrar uma forma de afastá-lo de Patrícia, custe o que custar. Agora só me resta a vingança. Mas tenho de tomar cuidado para que Humberto jamais saiba que estou por trás.
Morgana começou a sentir que Isabela estava decidida. Ela precisaria ser muito persuasiva para tentar fazê-la mudar de idéia. Resolveu continuar apelando para sua paixão. Ela conhecia muito bem esse sentimento; sabia que, quando uma mulher se apaixona, se ilude com muita facilidade e qualquer esperança, mesmo falsa, reacende a chama. Com voz meiga, ela tornou:
- Ainda não acho que você esteja certa. Movidos pelo ódio podemos cometer atos dos quais vamos nos arrepender futuramente. Sei que você o ama e também senti que ele ama você; percebi pelos olhares que ele lhe lançava. Uma paixão assim não termina de uma hora para outra. Insista; se quer ser feliz, deverá lutar por ele.
O rosto de Isabela se iluminou. Ela gostou muito de ouvir tudo aquilo.
- O que acha que devo fazer? Tenho medo até de voltar a me aproximar dele depois de tudo o que me fez. E se você estiver errada? E se estiver mesmo disposto a me abandonar?
- Você sabe que não me engano com as pessoas. A vida num bordel pode nos ensinar muitas coisas, inclusive a perceber quando um homem está apaixonado de verdade. Acredite, ele está se casando por conveniência, mas ama realmente você. Vai deixar essa chance escapar? Procure o Fernando, marque com ele um encontro, fale que será a última vez. Quando estiverem frente a frente, diga que o ama que o perdoa que deseja um retorno. Faça alguma coisa, mas lute por esse amor! Tenho certeza de que ele vai ceder e voltará para você.
Morgana falou com tamanha empolgação que Isabela se convenceu de que era verdade. Sua vaidade falou mais alto e naquele momento ela realmente acreditou que Fernando a amava e que ambos tornariam a viver a paixão de antes. Aquela conversa teve o dom de animar Isabela, e ela passou a planejar tudo. Morgana estava muito feliz; sua parte no plano estava sendo perfeitamente desempenhada. À noite Fernando apareceu, mas Isabela continuou reclusa em seu quarto. Só queria aparecer quando os hematomas estivessem desaparecidos. Mesmo assim, foi à sacada e de lá viu Patrícia e ele fazendo planos para o futuro e se beijando apaixonados. De repente pensou que Morgana estava enganada e que realmente ele havia deixado de amá-la, mas, envolvida pelos seus companheiros espirituais, logo estava pensando nas mesmas ilusões de antes. Teve de buscar forças ao ver Patrícia e Fernando dirigirem-se ao quarto, mas pensava que logo as coisas estariam como antes. Os dias foram passando e as marcas no corpo de Isabela já haviam desaparecido então ela começou a sair. Ao rever Fernando lembrou que fora gravemente violentada, mas também imaginou que ele agira por impulso e imediatamente o perdoou. Tratou-o como se nada tivesse acontecido e o fez tão bem que o próprio Fernando imaginou que a surra havia servido para que ela o esquecesse de vez. Mas qual não foi sua surpresa quando, ao se vir a sós com Morgana, ela comentou:
- Fernando, não quero que ache que estou sendo abusada, mas sei tudo que aconteceu entre você e Isabela. A princípio ela ficou desesperada, porém agora reconhece que foi imprudente envolvendo-se numa relação como essa. Ela me pediu que conversasse com você e quer que lhe diga que, apesar de tudo, ainda o ama e deseja um último instante com você antes que se case.
Fernando pareceu perceber que se tratava de um jogo e respondeu em voz baixa, com receio de que alguém mais escutasse:
- Não sei o que vocês pretendem, mas diga a sua amiga que nada mais existe entre nós. Essa relação foi um erro; amo Patrícia e pretendo ser fiel a ela. Se você realmente sabe o que aconteceu, nem deveria estar aqui falando comigo.
Ele ia se levantando do sofá, mas Morgana segurou em seu braço e pediu súplice:
- Acredite, Isabela está modificada. Ela não deseja um retorno, apenas quer ter um instante em que possa falar o que sente e dizer pessoalmente que quer sua felicidade e que não está contra seu casamento. Aceite vê-la uma última vez, só vocês. E muito importante para ela e é o mínimo que você pode fazer depois do que aconteceu.
- Prometo pensar. Agora me deixe ir, não quero que minha futura mulher me veja de cochichos com você.
- Prometa me dar a resposta o mais rápido possível. Faça isso em nome de tudo que a Isabela fez por você.
- Está bem - disse secamente, e saiu.
Morgana puxou Isabela para o quarto e mentiu:
- Ele aceitou rapidamente. Falou que está arrependido pelo que lhe fez e confessou que a ama. Só lhe pede um tempo, pois ainda está envergonhado pelo que ocorreu.
Isabela parecia flutuar. Então era verdade: o homem que ela amava também lhe correspondia. Fizera aquela desfeita porque se encontrava em um mau momento, e ambos podiam voltar a se amar. A felicidade era tanta que ela sorria e abraçava Morgana.
- Obrigada pelo que me fez. Sem seus conselhos talvez agora estivesse perdida numa vingança que só ia me afastar da pessoa que mais amo neste mundo.
Morgana fez um ar de superior e respondeu:
- Sou experiente. Sei reconhecer quando um homem está amando. Agora vamos aguardar ele marcar a data.
Muito feliz, sem imaginar a teia que estava sendo tecida, Isabela saiu às compras e só muito tarde retornou ao lar. Morgana estava preocupada e temerosa; não queria que Fernando marcasse o encontro para um dia que Humberto estivesse em Brasília, contudo tinha algo em mente para usar caso isso acontecesse. Humberto só chegaria na sexta pela manhã e o esperado aconteceu: Fernando disse que queria ver Isabela na quinta à tarde. Morgana fingiu aceitar, no entanto falou à amiga que o encontro seria no sábado. Quinta-feira, Fernando estava no apartamento esperando quando Morgana apareceu.
- Vim para dizer que Isabela está passando mal em casa, com uma terrível enxaqueca. Pede que a perdoe e quer remarcar o encontro para o sábado neste horário. Amanhã Humberto chega e ela não quer sair no primeiro dia em que ele está em casa.
Fernando, nervoso, passou a mão pelos cabelos lisos.
- Não sei o que ela ainda tem para me dizer. Fui muito claro da última vez que estive com ela. Diga que não volto mais.
Morgana sentiu-se irritada. Se o plano saísse errado, madame Aurélia não a perdoaria; tinha de ser rápida.
- Também não concordo com esse encontro, mas ela quer ter a chance de lhe dizer que está arrependida e disposta a levar uma vida de paz com você e Patrícia, afinal todos vão morar na mesma casa.
- Se é só isso que ela quer me dizer, então diga que não precisa. Já sei do que se trata e estou informado.
Morgana lançou a última cartada:
- É que ela quer lhe dar um presente como lembrança do que viveram.
Ele sorriu.
- E essa agora! Diga que não quero mais nada.
- Trata-se de algo valioso, um presente muito caro para selar a paz!
Fernando pensou: "Será o relógio de ouro com o qual tanto sonho?" A esse pensamento, resolveu aceitar.
- Diga-lhe que aceito, mas, se não aparecer no sábado, não voltarei atrás.
Morgana, muito satisfeita, esperou Fernando sair e depois foi fazer uma cópia da chave. Precisava dela para dar continuidade ao seu plano. Quando chegou em casa, o jantar estava sendo servido. Mesmo assim, conseguiu subir e recolocar a chave do apartamento onde Isabela a guardava; só ela sabia o local. A sexta-feira transcorreu calma. Apenas Isabela demonstrava uma ansiedade fora do normal. Humberto chegou e foi recebido com alegria por todos, inclusive por Fernando, que se encontrava na mansão. Morgana estudava uma maneira de falar com Humberto a sós, mas não via como. Na medida em que as horas foram avançando e eles foram se recolhendo, ela decidiu ficar acordada. Sabia que Humberto tinha o costume de acordar à noite para um lanche, e ela o esperaria de vigília. No quarto de Isabela, mais uma vez Humberto não havia conseguido fazer amor e os dois estavam tensos e nervosos. Ele resolveu comentar:
- Acho que esse tratamento espiritual não está fazendo efeito. Estou nele há mais de dois meses, e nenhuma melhora aconteceu.
Isabela fingiu ser compreensiva e se interessar pelo assunto.
- Você sabe que não acredito em nada disso, mas acho que deve ter paciência. Patrícia fala que esses tratamentos são demorados e não se resolvem de uma hora para outra.
- A Sílvia também diz a mesma coisa. Mas é que dá uma vergonha... Sinto-me o pior dos homens!
Ela começou a fazer carinhos forçados nele, enquanto dizia com voz dengosa:
- Não fique assim. Sou sua mulher e não me importo, portanto não tem com que se preocupar. A não ser que queira mostrar seu desempenho com outra...
- Nada disso. Só penso em você. Acho que traía a Flaviana porque não a amava, mas com você é diferente. Não penso em ter mais ninguém. Também não gostaria de ser traído. A Sílvia sempre diz que recebemos os resultados das nossas atitudes, porém confesso que me é muito penoso pensar em receber a traição de volta.
Isabela não estava gostando do rumo que a aquela conversa tinha tomando e resolveu inverter a situação:
- Jamais trairia você, mas vejo que está muito empolgado com essa Sílvia. Já falou nela duas vezes. Vou avisando que não tolero traições; não sou como a mosca morta da sua ex-mulher.
- A Sílvia é uma mulher que muito admiro, é uma das terapeutas do centro que freqüento nada de mais. Está com ciúmes?
- Sim. Nem todas as mulheres têm a chance de estar com um homem como você.
Humberto se sentiu valorizado. Mesmo estando impotente, sua mulher o amava e o respeitava; até ciúmes estava sentindo. Os dois resolveram dormir, mas Humberto não conseguiu. Sentiu a fome costumeira e a vontade de "assaltar a geladeira" o fez levantar e ir até a cozinha. Isabela dormia profundamente e nem percebeu que ele se levantara. A casa estava às escuras e ele, mesmo conhecendo o caminho, sentiu certa dificuldade para chegar à cozinha e acender a luz. Quando conseguiu, levou um verdadeiro susto. Sentada em uma cadeira que circundava uma mesa pequena estava Morgana, com olhos muito abertos a fitá-lo. Quando o viu, falou em voz baixa, mas com firmeza:
- Humberto, esperei todo esse tempo porque sei que durante a noite costuma se levantar e vir até a cozinha. Contive meu sono porque preciso lhe falar com urgência. Não dá mais para segurar esse segredo, está me fazendo mal.
Humberto coçou o bigode com curiosidade. Ela estava realmente nervosa, e se o tinha esperado àquela hora era porque deveria ser algo sério. Perguntou:
- Mas o que pode ser tão grave que não pôde me dizer durante o dia?
- Sente-se que a história é um pouco longa e o senhor tem de saber tudo.
Ele puxou a cadeira para ouvi-la, sentindo-se cada vez mais curioso.
- Para iniciar devo lhe dizer que não sou prima da Isabela coisa nenhuma. Ela não tem parentes no Nordeste, pois, como o senhor mesmo sabe, saiu de uma favela aqui mesmo de São Paulo, direto para a casa de madame Aurélia. Sou uma das meninas que trabalha na Mansão de Higienópolis, o senhor não me reconheceu porque não freqüentava o lugar com assiduidade e as poucas vezes que esteve lá só tinha olhos para Isabela. Pois bem, madame Aurélia, preocupada com sua vida, pois muito o estima, pediu que eu mentisse para Isabela dizendo que fui expulsa de lá e que não tinha para onde ir. O plano deu certo e ela me chamou para morar com vocês. Na verdade, estou aqui como espiã. A madame achava que Isabela poderia a qualquer momento prejudicá-lo e eu, como melhor amiga dela, saberia de tudo com antecedência e poderia informá-lo. Mas nunca pensei em descobrir algo tão terrível...
Humberto se impacientou. Não estava gostando nada daquilo. Uma espiã em sua casa? Com que intenção?
- Onde está querendo chegar?
- Não sei como lhe dizer isso, mas há alguns dias descobri que Isabela o trai.
Humberto corou.
- Como?
- Isso mesmo. Sem querer, acabei sabendo de tudo. Flagrei Isabela e Fernando se beijando aqui mesmo nesta cozinha.
Pressionei e ela me contou tudo: são amantes há muito tempo. Tentei guardar esse segredo, mas vendo o senhor tão justo e bom não consegui me conter. Fernando, seu futuro genro, tem um relacionamento com sua esposa e, pelo que sei, pretendem continuá-lo mesmo depois que ele se casar com Patrícia.
Humberto sentia a cabeça rodar. Pensamentos contraditórios passavam por sua mente. Só podia ser mentira. Aquela mulher estava ali para fazer intriga, para se vingar por Isabela ter conseguido um bom casamento e ter deixado o bordel.
- Você está mentindo; Isabela é fiel. Aurélia a mandou aqui apenas para fazer intriga e se vingar de mim e de minha mulher. Conheço-a bem para saber que jamais se preocuparia comigo a ponto de enviar uma das suas meninas somente para me proteger. Agora saia daqui e amanhã a quero fora de minha casa. Além de mentirosa, é falsa; está a todo instante com minha mulher e a trai covardemente inventando uma farsa como esta. Fernando é um bom rapaz e também não merece o que você está fazendo.
- Ouça-me pela última vez. Sei que a madame tem o desejo de ver Isabela mal, mas eu jamais inventaria uma trama como essa. Esta chave abre a porta do apartamento onde eles se encontram. Tomei a liberdade de tirar uma cópia para que o senhor possa entrar primeiro e se esconder para ouvir o que vão dizer. Acredite em mim: eles vão se encontrar amanhã às três da tarde, e aqui está o endereço. - Ela pegou um papel e o entregou junto com a chave.
Humberto estava confuso, parecia ser mesmo verdade. Morgana falava com seriedade e estava tentando mostrar-lhe a prova. Um grande ódio brotou dentro dele. Se Isabela o estivesse traindo com Fernando, não saberia qual seria sua reação. Pegou a chave da mão dela e a guardou.
- Não vou mandá-la embora enquanto não verificar se o que diz é mesmo verdade. Agora vá dormir. Já me disse tudo que tinha para dizer.
- Antes, quero lhe fazer uma sugestão: por que não faz um flagrante de adultério? Isabela perderia todos os direitos do casamento e voltaria pobre para o olho da rua.
Humberto estava irritado demais para pensar naquilo.
- Vá dormir, é o melhor que tem a fazer.
Ela saiu radiante, deixando Humberto pensativo. Se Isabela o traísse seria para ele o fim. Tinha uma arma em casa, e decidiu levá-la. Como ela poderia ter coragem de traí-lo e, além de tudo, com Fernando? Era demais para a honra de um homem, e ele resolveu que a lavaria com sangue. De volta à cama, vendo Isabela ressonar, pensou em matá-la ali mesmo, mas resolveu esperar o outro dia para confirmar a história. Sabia que as prostitutas eram muito invejosas e gostavam de prejudicar umas às outras. Poderia ser uma armação para destruir seu casamento. O resto da noite virou na cama, só conseguindo adormecer quando o dia clareou por completo.

18 - A NOVA REALIDADE

O sábado amanheceu bonito e na mansão tudo corria como sempre. Humberto não saiu pela manhã e, à tarde, pretextando uma visita a amigos, se ausentou de casa. Isabela ficou feliz, pois, com o marido fora de casa, não tinha de dar satisfações quando saísse. Em seu quarto, ela se arrumava com esmero. Precisava estar o mais bonita possível para Fernando. Só em pensar que novamente poderiam se encontrar, um arrepio percorria todo o seu corpo. Ao descer as escadas, Morgana elogiou sua beleza, o que a deixou ainda mais animada. Assim ela saiu. Pediu que o motorista a deixasse no lugar de sempre e dali tomou um táxi, indo em direção ao apartamento. Enquanto isso, Humberto, de posse da cópia da chave, entrou no apartamento e o que viu foi lhe tirando o fôlego. Havia fotos de Fernando e Isabela espalhadas pelos aposentos, algumas com cenas de intimidade, mostrando claramente que mantinham um romance. Ele não conseguia acreditar e pensava: "Como pude me deixar enganar por uma mulher desse tipo? Depois de tudo que fiz para ela, de ter lhe dado um nome, posição, ela me retribui com uma traição, e com o pulha do meu genro?! Canalhas! Pagarão caro o que estão fazendo comigo e com minha filha. Por que não pensei em fazer um flagrante? No fundo, eu não acreditava que isso fosse verdade, mas agora é tarde. Os dois pagarão com a vida o que estão fazendo". Ao pensar nisso, sombras escuras se aproximaram e o abraçaram com prazer. Humberto examinou cada detalhe do apartamento e, ao lembrar que ele era mantido com seu dinheiro, sentiu a raiva aumentar. De repente, ouviu barulho de fechadura e se escondeu atrás de um móvel. Do local onde estava percebeu que Fernando havia entrado, ido até o bar e se servido de uma bebida. Depois o viu se acomodar no sofá e teve gana de matá-lo naquele momento. Mas tinha de ser os dois. Humberto sentia tanto ódio que não pensava na sua posição como político, como pai, como homem da sociedade; só a vingança prevalecia. Ele havia amado Isabela de verdade, mas seu amor era possessivo e não admitia uma traição como aquela. De repente, a porta se abriu e Isabela entrou. Vendo-se tão próxima de Fernando, ela não resistiu e correu a abraçá-lo e beijá-lo repetidas vezes.
- Meu amor, eu sabia que você ia me perdoar, que tudo voltaria a ser como antes. Vem, quero amar você.
Ele não retribuiu e afastou-a bruscamente.
- O que significa isto? Não vim aqui para fazer as pazes com você. Já disse que em breve vou me casar e que nosso caso ficou no passado. O que está armando para mim agora?
Isabela estava sem entender.
- Como? Você não me perdoou e não deseja voltar? Por favor, não brinque comigo. Sei que me ama e deseja voltar para mim a fim de vivermos como antes. Por que está fazendo esse jogo agora?
- Não estou fazendo jogo nenhum. Sua amiga Morgana me procurou e disse que você estava arrependida, que nosso caso havia sido uma loucura e que queria conversar comigo como uma despedida. Também falou que me traria um presente, como recordação dos momentos que vivemos juntos. É você que está fazendo jogo comigo. Agora entendi tudo. O que você quer é uma reconciliação e usou essa artimanha para me reconquistar. Sabe o que você merece? Outra surra como aquela que lhe dei outro dia.
Isabela estava nervosa. Algo estava muito errado.
- Fernando, preste atenção, há um complô contra nós. Morgana disse que você havia me perdoado que me amava e desejava estar novamente comigo. Foi ela quem marcou nosso encontro para hoje. Também achei estranho, depois daquela sua atitude, essa mudança tão repentina. Estava perdendo as esperanças, quando a vida pareceu se iluminar novamente.
- Essa sua amiga vagabunda quer aprontar alguma para nós dois, mas não entendo o quê.
- Eu vou explicar - era a grossa voz de Humberto, que acabava de aparecer, com o revólver em punho e dedo no gatilho. - Chegou o fim de vocês, mas antes quero lhe dizer Isabela, que você é a pior pessoa que conheci nesta vida, uma ingrata. Depois de tudo que fiz, é assim que me retribui? Aurélia me avisou que você não prestava, mas envolvido por seus feitiços não ouvi a voz da razão e agora paguei o preço. Contudo, terá o fim que merece.
Fernando, estupefato, tentou falar:
- Não tive culpa. Ela me seduziu, me prometeu muito dinheiro e acabei cedendo por inexperiência. Mas acordei para o erro que estava cometendo e terminei tudo com ela, como o senhor pôde ouvir. Poupe minha vida, estou arrependido. Desejo casar com sua filha e fazê-la feliz.
Humberto gritou com os lábios crispados de raiva:
- Você só serve mesmo para prostitutas como essa mulher aí. Jamais para uma moça honrada como minha filha. Agora cale-se; prepare-se para conhecer o inferno.
Humberto mirou a arma na cabeça de Fernando, que não tinha com o que se defender e esperava a hora do tiro. Isabela chorava, ajoelhada no chão. De súbito, o espírito de Diana envolveu Humberto com muito amor e lhe sugeriu:
- Lembre-se do que aprendeu com a Sílvia; matar só vai lhe trazer infelicidade.
Humberto atirou uma, duas, três vezes, todas para o teto. Fernando e Isabela não entenderam, mas o rapaz aproveitou, abriu a porta e correu em disparada. Ela continuou chorando e, nesse instante, Humberto bradou:
- Saia da minha frente! A partir de hoje não colocará mais os pés na minha casa. Não consegui matar vocês como mereciam, porém nunca mais conte comigo para nada. Vou pedir o divórcio, e de agora em diante terá de contar apenas com o pouco que conseguiu ao meu lado. Quando o dinheiro acabar, voltará às ruas para pedir esmola ou para o bordel, de onde jamais deveria ter saído. Agora saia. - Humberto lhe dava chutes violentamente, até que, vencida pelos pontapés, Isabela saiu porta afora.
Humberto permaneceu ainda no apartamento e atirou em tudo que encontrava pela frente. Quando deixou o lugar, ele estava destruído. No carro, guiava sem saber o que fazer. Rodou por várias ruas até que anoiteceu. Ele não imaginava como contar a verdade à sua filha. No íntimo queria que aquilo fosse uma mentira. Patrícia já havia feito todo o enxoval do casamento, redecorado o quarto onde iam dormir e tecia sonhos de felicidade. Mesmo assim, tinha de arranjar coragem para falar. Ao chegar em casa, percebeu que a filha estava com um brilho diferente nos olhos, demonstrando estar muito feliz. Tanto que nem percebeu a aparência transtornada do pai. Como sempre fazia, beijou-lhe o rosto e o chamou para conversar.
- Tenho uma notícia para dar que em muito vai agradar-lhe. Primeiramente quem tinha de saber era o Fernando, mas ele não apareceu aqui esta tarde e estou ansiosa, não posso guardar tanta felicidade só para mim. Há alguns dias estava me sentindo enjoada, tinha náuseas, tonturas e minhas regras haviam atrasado. Imaginei que pudesse estar grávida, mas mesmo assim não contei a ninguém; queria a comprovação. Fiz um exame de laboratório e hoje recebi o resultado: estou realmente grávida! Não é uma felicidade muito grande, papai?
Humberto ouvia as palavras da filha sem querer acreditar. Como iria lhe falar sobre o que tinha acabado de vivenciar? Sentiu a cabeça rodar e o estômago embrulhar, depois tonteou e caiu desmaiado. Patrícia tentou fazê-lo reagir ao mesmo tempo em que gritava. Logo todos estavam ao redor de Humberto. Eudásia afastou Patrícia enquanto dizia:
- Precisamos chamar uma ambulância. Ele não está bem. Alguém tem o telefone?
- Naquela agenda tem o número do hospital onde o doutor Caldas trabalha. Liguem e peçam que ele venha com a ambulância - explicou Patrícia, que estava nervosa e chorava. - Será que ele vai morrer? Não posso agüentar ficar sem meu pai. O que farei sem ele? E Fernando, que não aparece?
Eudásia tentava consolá-la:
- Fique calma, menina. Seu pai ficará bem e as coisas voltarão a ser como antes, tenha fé.
- Não consigo acreditar. Ele estava bem e sadio. De repente foi ficando pálido e caiu dessa forma. O que será que ocorreu?
Morgana e outros empregados da casa também estavam ali ansiosos para saber o que tinha acontecido com Humberto. Ela tinha a intuição de que a revelação de que Isabela o traía tinha feito Humberto adoecer. Estava curiosa, será que ele a tinha assassinado? O tempo passou e logo a ambulância chegou. O doutor Caldas fez os primeiros socorros e o conduziu ao interior do veículo. Patrícia e Eudásia seguiram em outro carro em direção ao hospital. Quando chegaram, tiveram de aguardar mais de uma hora na sala de espera. Finalmente o doutor Caldas apareceu. Patrícia se levantou rapidamente e foi ao seu encontro.
- Como está meu pai? O que aconteceu com ele?
- Fiquem calmos. Humberto teve um AVC, ou seja, um acidente vascular cerebral, mas foi socorrido a tempo. Estamos fazendo exames para saber a extensão da área cerebral atingida e se ele ficará com seqüelas. A notícia não muito boa é que ele está em coma profundo e, em casos como este, não podemos prever quando irá acordar, nem como.
Patrícia assustou-se.
- Mas meu pai estava muito bem. Como isso foi ocorrer de uma hora para outra?
- As causas do AVC são várias e na maioria das vezes ele não apresenta sintomas preliminares. Seu pai teve alguma contrariedade ultimamente?
- Não, ele estava muito bem. Ainda hoje passou a manhã inteira em casa conversando como sempre, se bem que notei algo estranho em seu olhar. Por que essa pergunta?
- É que, como médico, tenho percebido que esse problema tem como causa principal algum desgosto muito profundo. Contudo, ainda não investiguei melhor o assunto. No entanto, se Humberto resistir bem às próximas quarenta e oito horas, estará completamente fora de perigo.
O doutor Caldas ainda conversou mais um pouco e depois autorizou uma breve visita de poucos minutos à UTI. Patrícia estava se sentindo completamente só naquele momento. Fernando não apareceu e ela só podia contar com o ombro amigo de Eudásia. Quando aconselhada pelo médico, resolveu voltar para casa. Era madrugada. Foi ao quarto de Isabela e não a encontrou, o que achou muito estranho. Chamou Morgana, que fingiu nada saber:
- Ela saiu dizendo que iria às compras e, como faz isso sozinha, não a acompanhei. Também estou preocupada. Ela não costuma demorar tanto. Será que foi novamente assaltada?
- Meu Deus! Isso não pode ter acontecido justo hoje.
- Mas devemos levantar essa hipótese. Isabela nunca ficou uma noite fora, já passa das duas, e nem sinal dela.
Patrícia se sentia fraca, não conseguia raciocinar direito. Resolveu se deitar.
- Não vamos conseguir resolver nada agora. Só podemos dar queixa à polícia se uma pessoa estiver sumida por mais de quarenta e oito horas. Se formos lá agora, de nada vai adiantar.
- Temo pela vida de minha amiga. O motorista a levou para a mesma loja de sempre e a esperou no horário combinado, e ela não apareceu. Entrou na loja e perguntou se dona Isabela Aguiar tinha estado por lá e todos disseram que ela nem chegou a entrar. Não acha isso estranho?
- Acho sim e estou preocupada. Meu pai a ama e ela é fundamental para sua recuperação. Mas vou descansar, por hoje estou exausta.
Morgana resolveu fazer o mesmo e minutos depois à mansão estava às escuras.
Desde que fora expulsa a chutes do apartamento, Isabela vagou sem rumo pelas ruas de São Paulo, chorando muito. Seu sonho de amor estava desfeito; seu casamento, arruinado. O que ela poderia fazer de sua vida? Tinha uma conta em seu nome na qual pôde economizar algum dinheiro, mas achando que sua situação era boa não se preocupou muito em poupar. Foi ao banco e retirou uma quantia que dava para hospedá-la num hotel até pensar no que iria resolver. Depois de instalada, tomou um banho e olhou-se no espelho; achou-se feia e velha. Deitou-se na cama e pensou em como se vingar de Morgana e de Fernando. Certamente madame Aurélia estaria por trás daquela situação, elas não perderiam por esperar. Com o pouco dinheiro que tinha, iria arquitetar uma vingança da qual nenhum dos três escaparia vivo. Teria de raciocinar muito friamente para que fossem crimes perfeitos. Jamais ela iria permitir que Fernando vivesse feliz ao lado de alguém. Rolou na cama e pensou também que poderia ainda reconquistar Humberto, só não sabia como. Durante toda a noite não conseguiu dormir e os pensamentos fervilhavam em sua mente, parecendo enlouquecê-la. Pela manhã ligou a TV e, ao ouvir o noticiário, levou grande susto. O jornalista dizia:
- O senador Humberto Costa Aguiar sofreu um acidente vascular cerebral e se encontra em estado de coma no hospital. Sua filha informa que tudo aconteceu muito rápido, mas que ele pôde ser atendido a tempo. Segundo os médicos, seu estado é estável.
A reportagem continuou e mostrou uma entrevista com Patrícia. Logo após, com seus colegas de partido que mostravam solidariedade. Isabela deixou o café que estava tomando e pensou em como fazer para voltar para casa. Não sabia se Humberto havia revelado a verdade à filha, mas precisava tentar. De repente pensou: fingiria que tinha sido assaltada novamente e levada para longe, e só então conseguira voltar. Também ia fingir nada saber sobre a doença do marido. Sorriu abertamente pensando em como a sorte havia lhe favorecido. Humberto provavelmente morreria e ela poderia tomar conta de toda aquela mansão como sempre sonhara. Intimamente agradecia a Deus pelo fato de o marido estar em coma numa UTI; tudo lhe seria facilitado. Pagou a conta do hotel e saiu. Na rua, ela caprichou no visual: desfiou suas roupas e sujou-se de terra, sem se importar com os olhares das pessoas que a observavam achando a cena descabida. Fazendo-se de arfante, ela chegou à mansão. O hotel não era tão longe e ela conseguiu ir a pé. Os seguranças quase não a reconheceram e em poucos instantes ela estava na sala da mansão. Chamou a todos, mas só Eudásia apareceu. Olhando assustada para sua aparência, perguntou:
- O que aconteceu com você? Esta casa está cheia de problemas, estávamos preocupados com seu sumiço, principalmente agora que o senhor Humberto adoeceu tão seriamente.
- O que Humberto teve? Como foi ficar doente?
- Ele estava na sala conversando com Patrícia quando se sentiu mal e desmaiou. Levamos ele para o hospital e está em estado de coma. Como você foi desaparecer num momento como este? Fernando também sumiu e Patrícia está se sentindo muito só. Não sai do hospital um instante sequer. Temo pela saúde dela.
- Desapareci porque ontem, quando fazia compras, dois homens me pegaram, colocaram um revólver em minha cabeça e me colocaram dentro de um carro. Achei que estava sendo seqüestrada e chorava muito. Eles me levaram para um lugar distante e ermo. Lá chegando tiraram o que eu tinha minha bolsa, minhas jóias, relógio, fiquei sem nada. Tentaram abusar de mim e nem sei se conseguiram, pois, de tanto medo, acabei desmaiando. Quando acordei não sabia onde estava. Vaguei pelas ruas parecendo uma mendiga; nenhum táxi atendia a meu chamado. Andei bastante até que acabei achando o caminho.
Eudásia estava impressionada com a narrativa.
- Quanta coisa ruim acontecendo nesta casa de uma só vez. Até a Morgana resolveu ir embora.
- Ir embora? Ela não está mais aqui?
- Está no quarto dela fazendo as malas. Num momento como esse em que ela deveria estar do seu lado, resolveu partir.
Isabela nem terminou de ouvir o que Eudásia dizia e subiu as escadarias, indo em direção ao quarto de Morgana. Invadiu-o com rapidez e Morgana, assustada, começou a tremer. Isabela a olhou com ódio e esbravejou:
- Como ousou me trair? Como teve tamanha coragem? Diga-me!
Morgana tremia muito e com voz que o medo abafava balbuciou:
- Não tive culpa. Ela me obrigou me perdoe!
- Eu sabia. Tinha certeza de que madame Aurélia estava por trás disso. Mas nunca esperava uma traição dessas vinda de sua parte. A partir de agora ganhou uma inimiga para o resto de sua vida. O plano de vocês deu errado e eu continuo nesta casa, sendo senhora absoluta. Humberto morrerá e ficarei com o que é meu, e serei muito rica. Quanto a você, nunca mais terá paz. Vou cuidar para que sua vida se transforme num inferno, a sua e a daquela mulher infernal. Avise-a de que ouvirá falar muito de mim. Agora você vai sair sem nada. Esqueça suas malas. Daqui você não levará nada, pois nada lhe pertence.
- Espero um dia conseguir seu perdão - falou Morgana com a voz fraca.
- Nunca, e você saberá agora do que sou capaz! Acompanhe-me.
Morgana acompanhou Isabela até o jardim sem saber o que ela faria. Lá chegando, Isabela falou algo com Amaral que ela não entendeu, porém rapidamente percebeu do que se tratava. Amaral se aproximou e começou a violentá-la com chutes e socos. Morgana estava sangrando e com manchas arroxeadas no corpo quando Isabela ordenou que parasse. Amaral pegou o corpo quase inerte de Morgana e jogou na calçada. Mais tarde, quando Isabela saiu arrumada para o hospital, ela ainda estava lá, desmaiada. Amaral retornou e, condoído com a situação, levou-a para um pronto-socorro, onde foi atendida e medicada. Ele não gostava de espancar as pessoas, mas sabia que se não cumprisse as ordens da patroa, perderia o emprego que era o sustento de sua família. Isabela chegou ao hospital e encontrou Patrícia na recepção. As duas se abraçaram e Isabela perguntou:
- Como ele está?
- O quadro é estável, mas ele continua em estado de coma profundo. Temo muito pela vida dele. Tenho me sentido muito só. - Patrícia começou a chorar e Isabela a abraçou mais fortemente. Depois que se acalmou, ela perguntou:
- Onde você estava? Já íamos dar queixa à polícia sobre seu desaparecimento.
- É uma longa história. Ontem, seu pai e eu corremos riscos de vida. - Na seqüência, começou a repetir a mesma história que tinha contado a Eudásia. Patrícia estava tão preocupada com o pai que nem prestou muita atenção, pois, se assim o fizesse, perceberia que se tratava de outra mentira mal contada. Depois de terminar a história, Isabela quis saber:
- Onde está o Fernando? A Eudásia me disse que ele não tem estado com você.
- Tenho ligado para a casa da dona Marília e ela me disse que o filho precisou viajar a trabalho, mas que logo estará aqui.
- Estranho Fernando nunca viajou a trabalho... - completou Isabela com maldade.
- Sei disso. Também achei estranho, mas algo deve ter acontecido para ele precisar viajar. Quando chegar, me explicará tudo, tenho certeza.
Isabela teve de esperar muito até que o médico aparecesse e autorizasse sua entrada na UTI. Lá chegando, fingiu tristeza e chorou copiosamente. Patrícia, que a acompanhava, aconselhou:
- Não é bom que tenhamos emoções muito fortes próximos de alguém nesse estado. Os médicos afirmam que, apesar do coma, a pessoa pode ficar num estado semiconsciente em que pode sentir nossas emoções e até registrar nossas palavras. Não chore, ele ficará bem.
- Como eu queria acreditar nisso! Depois que perdi meu filho, achava que Deus não ia me tirar mais ninguém, mas vejo que Ele não é tão bom quanto dizem. Que vou fazer se Humberto morrer?
Patrícia estava surpresa com tamanho sentimento.
- Não pense assim, vamos acreditar no melhor. Deus não é ruim e, se meu pai está passando por isso, deve ter um motivo justo. É um homem bom; depois que minha mãe ficou doente ele tem se esforçado para melhorar. Creio que terá outra chance, mesmo que fique com seqüelas.
- Seqüelas? Como assim?
- Segundo o doutor Caldas afirmou, todo acidente vascular cerebral pode deixar alguma seqüela no sistema nervoso do paciente, de forma que ele pode ficar sem movimentar alguns membros do corpo, um lado inteiro, ou ficar sem falar. Mas isso são apenas hipóteses, só quando ele acordar é que saberemos.
As duas saíram da sala porque o tempo havia se esgotado e foram para casa. Quando chegaram, cada uma foi para o seu quarto. Isabela estava muito feliz por a vida ter lhe dado uma segunda chance, e pensava: "Nasci para viver no luxo e na riqueza. Estou torcendo para que Humberto jamais volte desse coma ou, se voltar, fique paralisado para sempre. Aí poderei ter minha vida de volta. Não sei se Fernando vai retornar a esta casa, mas se voltar lutarei para reconquistá-lo e sei que conseguirei. Depois disso saberei como fazer para me livrar da Patrícia". Com esses pensamentos, entrou na banheira e permaneceu lá por horas. Em seu quarto, Patrícia pensava e não conseguia entender por que Fernando havia viajado sem lhe dar explicações e mesmo com o pai doente não aparecia para vê-la. Novamente ligou para a casa dele e Marília atendeu.
- Ah, sim, querida. Fernando já chegou um momento.
Alguns segundos de espera e logo a voz grave de Fernando se fez ouvir:
- Meu amor, como está? Não consigo ficar mais um instante sem vê-la. Assim que fiquei sabendo do que houve com seu pai, voltei imediatamente.
- Oh, Fernando, como pôde ter feito isso comigo? Estou me sentindo completamente sozinha. Meu pai está mal e você desaparece assim?
- Não tive culpa, precisei resolver um problema de uma das filiais de nossa empresa. Mas voltei quando soube o que aconteceu. Já estava indo até aí quando o telefone tocou.
- Venha logo. Tenho algo a lhe dizer que é muito importante e não pode ser adiado.
- Uma surpresa?
- Não posso falar pelo telefone. Ao chegar, ficará sabendo.
Fernando colocou o fone no gancho e percebeu os olhos de sua mãe a mirá-lo ansiosamente.
- O que ela lhe disse?
- Parece não saber de nada. Isso me dá um alívio muito grande. Por outro lado, temo que o pai possa melhorar e contar o que descobriu.
Marília olhou-o profundamente e disse:
- Para nossa sorte, Humberto adoeceu antes de ter revelado o que sabia. Se melhorar, pode não ficar como antes. Essas pessoas que têm esse problema nunca voltam a ser as mesmas.
Mas, ainda que fique bom, ao ver a filha feliz saberá se conter e nada falará. Ele passou a mão pelos cabelos, num gesto nervoso.
- A senhora me tranqüiliza, mas ela disse que tem algo sério a me dizer. Será que o pai não deixou escapar nada que a deixou desconfiada?
- Não acredito. Se desconfiasse de algo, deixaria transparecer pelo telefone. Vá confiante. Esta nós não perdemos.
Fernando sorriu, beijou a mãe e saiu. Marília estava entediada e foi para o quarto. Deitada em sua cama, ela pensava: "Meu filho encontrou a mulher ideal e eu farei de tudo para que ele permaneça com ela até o fim. Desejo ter uma vida melhor e também não criei meu príncipe para se casar com uma mulher qualquer e comum. Ele merece a melhor". Continuou a pensar sem perceber que sombras escuras se aproximavam comungando com seus pensamentos e lhe passando energias doentias. Diana, Gabriel, Flaviana e os filhos estavam ansiosos no quarto esperando que Humberto despertasse. Dali a poucos instantes ele acordaria. Permaneceram esperando até que ele se mexeu e lentamente começou a despertar. A princípio não reconheceu o lugar, mas ao abrir melhor os olhos, disse assustado:
- Flaviana? Meus filhos? Como pode ser? Todos estão mortos!
Flaviana, com voz doce, o acalmou:
- Engana-se, querido. Todos estamos mais vivos do que antes. Não se sente bem em estar conosco?
Ele parecia confuso, mas falou:
- Não entendo. Quer dizer então que eu morri também?
Alfredo respondeu:
- Ainda não, pai. Sua hora não chegou. Seu corpo de carne está doente num hospital da Terra. Enquanto os médicos de lá cuidam dele, nós o trouxemos aqui para que seu espírito seja curado também.
Humberto, completamente acordado, começou a entender:
- Como isso é possível?
- Quando nosso corpo de carne dorme ou entra em um estado de coma, como é o seu caso, o espírito fica parcialmente livre e pode visitar o astral, rever amigos, ou entes queridos que ficaram aqui - disse Flaviana sorrindo. - Você talvez nem vá se lembrar disso quando acordar na Terra, mas vamos aproveitar essa oportunidade que Deus nos deu. Dê-me um abraço.
Humberto, emocionado, levantou e a abraçou fortemente. Unidos ao abraço, Marcos e Alfredo choravam de emoção. Diana e Gabriel observavam tudo e em prece agradeciam a Deus aquele momento. De repente, Humberto começou a chorar. O choro foi crescendo e aumentou tanto que ele se sentou no chão. Todos ficaram penalizados. Flaviana passou a mão sobre sua cabeça.
- Entendo o que sente. A dor do remorso é muito grande, mas para ela existe o remédio: o autoperdão.
Diana completou:
- É isso mesmo, Humberto. O remorso e a culpa são sentimentos que nos colocam em profunda depressão, mas só quando aprendemos a nos perdoar é que nos libertaremos dele.
Ele murmurou entre soluços:
- É que não consigo controlar o sentimento de culpa quando vejo Flaviana e meus filhos. Lembrar que fui um mau marido e um pai materialista me atormenta muito. Sinto que falhei gravemente.
Diana foi firme ao dizer:
- Quem de nós nunca errou nessa vida? Os erros fazem parte da aprendizagem e são naturais. Você fez o que achou certo no momento, quando não tinha maturidade para agir diferente. Na vida é preciso aprender que cada pessoa age de acordo com o nível de evolução que lhe é próprio e que só o tempo vai modificar. O retorno das nossas ações vai fazer com que aprendamos pouco a pouco, e assim chegaremos a Deus. Mas esse caminho é longo e, como seres humanos, ainda vamos errar outras vezes. Portanto, não se condene dessa forma para não atrair mais dores em sua vida.
Humberto pareceu se acalmar. Voltou para a cama e todos se sentaram ao redor em espécies de sofás que havia espalhados pelo quarto. Flaviana iniciou:
- Trouxemos você aqui para que seu espírito seja curado e para que seu corpo possa despertar na Terra com poucas limitações. Já se perguntou como atraiu todos esses problemas para sua vida?
- Eu não atraí nada. Os outros foram os culpados. Casei-me novamente achando que era amado. No auge de minha felicidade, fiquei impotente e descobri que era traído. Minha filha nem desconfia que o noivo dela é um patife que a trai com a própria madrasta. Como posso ter atraído esses problemas para mim?
Flaviana aproximou-se e explicou com voz doce:
- Quando cheguei aqui também pensava como você. Achava que eram os outros os culpados pelos meus sofrimentos. Entrei em confusão, me envolvi com pessoas que queriam meu mal. Só queria me vingar. Sofri muito e hoje descobri que nunca fui vítima e que ninguém na Terra o é. Diana e outros amigos queridos me ensinaram que somos criadores do nosso próprio destino e tudo que nos acontece é responsabilidade nossa. É duro aceitarmos essa verdade, mas, quando passamos a enxergá-la, as coisas ficam mais fáceis. Eu mesma há muito o perdoei pelo que me fez. Hoje sei que, se não precisasse passar por tudo aquilo, Deus teria me poupado.
Humberto estava ouvindo sem querer acreditar: então Flaviana o havia perdoado? Ela, lendo seus pensamentos, respondeu:
- Perdoei, mas o perdão dos outros não é tão importante quanto o nosso próprio. O que lhe aconteceu foi porque você não se perdoou pelos erros do passado.
Humberto estava confuso.
- Como assim?
Diana começou a explicar:
- A culpa é um sentimento aprendido. Ela não nasce com o nosso espírito. Já o arrependimento, sim, é parte integrante de nossa alma. Sempre que agimos contra a nossa natureza, sempre que cometemos os chamados "erros", nossa consciência nos mostra, por meio de sensações desagradáveis, que não estamos no caminho certo. Uma vez observada, a sensação desaparece. Aprendemos à lição e passamos a agir diferente. É o que chamamos de reparação. Todavia, muitas pessoas aprenderam à filosofia do crime e castigo; acham que têm de pagar pelos erros cometidos durante sua ignorância espiritual e programam o subconsciente para atrair sofrimento quando errarem. Essas pessoas não acreditam que podem apagar seus erros pelo amor e pelo bem; crêem que só sofrendo é que voltarão ao equilíbrio. É por isso que há tanta dor na Terra.
Humberto parecia entender, mas ainda assim questionou:
- E o que isso tem a ver comigo?
Diana sorriu.
- Você é assim, é um cobrador inveterado de si mesmo. Aprendeu que as pessoas devem ser castigadas quando errarem. Agora está provando do próprio veneno. É preciso rever suas crenças uma a uma para que mude. E chegada à hora de você deixar o homem velho morrer para que o homem novo nasça principalmente para que possa perdoar Isabela e ajudá-la a voltar para o caminho do bem.
- Nunca farei isso! Ela me traiu covardemente, não merece perdão.
- Você atraiu uma mulher como ela porque acreditava que merecia passar pelas mesmas traições que cometeu com sua mulher. Atraiu a doença porque se culpava pela morte de Flaviana, achando que ela adoecera por sua culpa. E preciso deixar a vaidade de lado e perceber que você não é tão poderoso assim para fazer os outros sofrerem. Ninguém tem o poder de ferir uma pessoa; os outros é que se ferem com o que nós fazemos.
- Pelo que você diz, foi até certo o que fiz.
Diana o olhou com seriedade.
- Não foi certo nem errado. Você agiu como sabia. Se hoje reconhece que poderia ter feito melhor, não pode se culpar. Deve se preparar para agir melhor de agora por diante. Não somos responsáveis pelo sofrimento de ninguém; somos, sim, responsáveis pelas nossas crenças e pelos próprios sofrimentos. Se sofremos, não foi porque fizemos mal aos outros, mas porque fizemos mal a nós mesmos com nossas crenças inadequadas. Nunca ouviu dizer que quem faz o mal aos outros prejudica primeiro a si mesmo?
Marcos e Alfredo permanecerem calados o tempo inteiro. Quando Diana terminou, Marcos disse:
- Vamos levá-lo para participar de um curso no qual é ensinado o poder do bem como fonte de reparação e depois a uma palestra cujo orador explica como nos livrarmos da culpa e reprogramarmos o subconsciente positivamente, para que o senhor aprenda a nunca mais se castigar pelos seus erros.
Humberto estava feliz. Poder recomeçar, ser um novo homem... Aquilo estava sendo muito bom. Indagou:
- Quanto tempo ficarei em estado de coma na Terra?
- Ficará por uma semana; é o tempo que vai estagiar aqui - respondeu Diana amavelmente. - Agora vamos, há muito o que estudar.
Humberto abraçou os filhos e a ex-mulher. Quando ia saindo, comentou:
- Lembrei que há algum tempo vários homens me amarraram enquanto eu dormia e colaram em meu corpo físico algumas formas arredondadas. Lembro-me de que eles disseram que elas seriam a causa de minha impotência. Isso é real?
- Com certeza! Essas formas que chamamos de ovóides são responsáveis por inúmeras doenças na Terra. Mas não precisa se preocupar. Quando se libertar da culpa e se render ao amor, conseguirá se libertar delas.
- Vai demorar muito?
- O tempo suficiente para que você mude interiormente.
Humberto entendeu e seguiu com eles, rumando para um dos pavilhões de cursos daquela colônia. Em sua mente, a esperança começava a brotar.

19 - CONHECENDO A VERDADE

Isabela havia chegado em casa com Patrícia. Ficaram no hospital muito tempo, mas por recomendação médica resolveram descansar. Era noite e, ao entrarem em casa, depararam com Fernando, que as esperava com ansiedade. Patrícia o abraçou e ambos se beijaram com paixão. Com muito ódio, Isabela observava a cena. Ao terminarem de se beijar, Patrícia comentou:
- Não sei como agüentei todo esse tormento sem você. Nunca mais desapareça assim, sem dizer onde está.
Fernando fuzilou Isabela com o olhar, enquanto respondeu:
- Quando viajei, não imaginava o que vocês todos iriam passar. Não costumo viajar para as filiais da empresa. Tive de ir de última hora, mas, assim que soube pelos noticiários o que tinha acontecido, voltei imediatamente. Sabe como a amo e o que mais quero é vê-la bem e feliz.
Isabela estava se sentindo muito mal com aquela cena. Ia se retirar, mas Patrícia a chamou:
- Por favor, Isabela, não suba agora. Tenho uma notícia maravilhosa para dar a vocês, principalmente a Fernando.
Ela ficou ainda mais irritada.
- Não vejo o que pode ser maravilhoso com Humberto entubado numa UTI de hospital.
Patrícia, com semblante alegre, colocando as mãos sobre o ventre e olhando emocionada para Fernando, comunicou:
- Descobri que estou grávida. Vou ter um filho do homem que amo! Quer motivo maior para minha felicidade?
Fernando, com os olhos marejados, a abraçou com força e ambos se beijaram novamente. Muito feliz, ele dizia, beijando a barriga de Patrícia:
- Um filho! Tudo que mais queria ter na vida. Meu Deus, quanta felicidade. Sei que não mereço, mas estou muito feliz. Além de tudo, a mãe de meu filho é a mulher que mais amo no mundo. Como posso fazer para agradecer tamanha felicidade?
Isabela sentiu-se tontear e quase foi chão, não fosse o mezanino no qual se amparou. Patrícia percebeu e correu para socorrê-la.
- O que aconteceu com você? Parece que vai desmaiar. Venha, sente-se no sofá.
- Senti-me mal de repente. Não sei o que me deu. Não se preocupe, vai passar.
Fernando, com ar de ironia, indagou:
- Por acaso seu desmaio ocorreu por causa da notícia da gravidez de Patrícia?
Ela, mesmo com ódio, fingiu.
- Talvez. Desde que Daniel morreu, fico mal com qualquer assunto ligado a crianças. Por favor, me perdoem, vou me retirar. Peçam a Eudásia que me leve um copo com água, preciso tomar um calmante.
- Quer ajuda para subir? - Era a voz irônica de Fernando mais uma vez.
- Oh, sim, ainda estou muito tonta. Acredito que minha pressão tenha caído.
Ele foi subindo com Isabela lentamente pela longa escada. Quando se viram a sós, ela falou entre dentes:
- Não pense que isso vai ficar assim. Nunca será feliz com a Patrícia enquanto eu viver. Antes, ela ou você terá de morrer.
Fernando sentiu vontade de esbofeteá-la até a morte, porém teve de se conter. Ainda assim, completou com voz que o ódio enrouquecia:
- Não tente atravessar meu caminho ou quem vai sair morta dessa história será você. Sabe muito bem do que sou capaz. Esqueceu as bofetadas que lhe dei? Usei você até quando foi conveniente, agora acabou. Amo Patrícia de verdade e é com ela que vou ficar, custe o que custar. Esqueça que eu existo ou terá sérios problemas. Se acontecer qualquer coisa com Patrícia, você pagará caro.
- Sabe que posso revelar a ela tudo que tivemos juntos. Se eu o fizer, você estará perdido. Patrícia nunca vai perdoá-lo. Ou volta para mim ou acabo com sua vida - exclamou Isabela transtornada.
- Vai ser sua palavra contra a minha. Posso dizer que me assediava e que, por não ter sido correspondida, inventou essa história. Além do mais, você está perdida de qualquer jeito. Quando Humberto melhorar e voltar para casa, você será expulsa daqui a pontapés. Eu vou me dar bem, pois quando Humberto vir à filha feliz e grávida jamais terá coragem para revelar o que soube. Como vê, você é a única perdedora.
O ódio tomava conta de Isabela, e ela rangia os dentes dizendo com voz entrecortada:
- Isso se ele acordar. Daqui para lá muita coisa pode acontecer. Tenho como matá-lo no próprio quarto sem que ninguém desconfie.
- Faça isso e eu serei o primeiro a denunciá-la.
Patrícia chamou Fernando e eles deram por encerrada a conversa. Já no quarto, Isabela teve um acesso de ódio e perdeu a cabeça. Desarrumou a cama, quebrou arranjos e bibelôs, atirou uma porcelana no espelho. Quando Eudásia entrou com a água, encontrou-a em um estado deplorável.
- O que aconteceu aqui? Por que fez tudo isso?
- Estou com ódio, muito ódio. Eles me pagam, e vão pagar com a vida - dizia ela fora de si.
- Eles quem?
- Os malditos que me roubaram à felicidade. Mas eu juro que eles nunca serão felizes.
Eudásia não sabia do envolvimento de Isabela com Fernando, por isso não conseguia entender de quem se tratava. Tentou acalmá-la.
- Venha para a cama, deite-se e tome um comprimido. Vai lhe fazer bem. Aqui todos estão nervosos com a doença do senhor Humberto. Quando se acalmar, verá que não há motivo para tanto ódio. Seu marido vai ficar bem, você está rica e terá condições de ser feliz.
Isabela tentou se acalmar, mas as palavras de Eudásia a irritavam ainda mais.
- Saia daqui e me deixe só! - exclamou num grito.
Eudásia obedeceu e foi rezar na cozinha. Havia alguns dias tinha começado a freqüentar o centro aonde Patrícia ia e havia aprendido que, quando tudo se agita, quando as dores aparecem, é hora de oração. Aprendeu que a prece, quando sincera, nos deixa ligados aos espíritos do bem e a Deus. Naquele momento ela fez uma sentida oração pedindo saúde para Humberto, paz para Isabela e felicidade para Fernando e Patrícia. Ela não viu, mas seres radiosos estavam ali cobrindo-a de luzes coloridas. Um deles se aproximou e disse-lhe ao ouvido:
- Confie em Deus, Ele não desampara ninguém. Tudo será dado assim como pediu!
Uma brisa leve passou ao seu redor e Eudásia se sentiu muito bem. Na sala, Fernando e Patrícia comemoravam. Ele estava muito empolgado em ser pai e ela, muito feliz em poder estar ao lado do homem amado.
- Vamos oficializar nossa união assim que seu pai sair do hospital - comentou Fernando cheio de planos.
- Sim, é o que mais quero. Mas nossa união será apenas civil. Sou espiritualista e não gosto dessas cerimônias em igrejas. Respeito à religião católica, mas não acredito que seja preciso um intermediário para que Deus nos abençoe.
Fernando tornou um pouco preocupado:
- Minha mãe é conservadora e, apesar de não ir muito à igreja, é católica e sempre sonhou comigo casando com a bênção de um padre em uma cerimônia bonita. Ela sonha com isso para a minha vida. Por favor, quero que entenda...
Patrícia não queria discutir aquilo naquele momento, mas sabia que acabaria cedendo.
- Tudo bem, vamos pensar nisso depois. Agora vamos subir que estou morrendo de saudades.
Felizes, os dois foram para o quarto, onde se amaram com muita paixão. No outro dia pela manhã, antes de ir ao hospital, Patrícia foi visitar a avó. Sempre passava por lá para ver como ela estava. As visitas de Sílvia haviam feito um bem enorme a dona Augusta, que já se levantava da cama e quase tinha voltado à vida normal. Ao entrar na enorme sala encontrou a avó ainda no desjejum.
- Que boa visita a essa hora da manhã. Venha tomar café comigo.
- Muito obrigada, vovó. Termine sua refeição, pois hoje quero compartilhar uma alegria muito grande com a senhora.
Augusta ficou curiosa.
- Alegria? Bem que estou precisando...
- Não fale assim, vovó. A senhora já melhorou tanto que está irreconhecível. Achei que nunca mais iria se levantar daquela cama. Não sabe o quanto fiquei desesperada, mas hoje as cores já voltaram ao seu rosto. Vejo que voltou a arrumar o cabelo e já soube que foi visitar algumas amigas.
- Graças a sua amiga Sílvia foi que pude sair do buraco em que eu mesma me coloquei. Com ela tenho aprendido muitas coisas, inclusive como atraí aqueles fatos que me colocaram em depressão.
Patrícia retorquiu:
- Sei que houve um motivo muito sério para a sua depressão. Por que não me conta? Sei que a Sílvia já sabe.
Augusta sentiu que ainda não podia revelar a verdade. Estava aprendendo que o perdão consistia em calar os defeitos alheios, e ela não queria falar mal de Isabela naquele momento. Resolveu dar uma desculpa.
- Não estou preparada para lhe contar, mas fique certa de que um dia o farei. Um dia você ficará sabendo o que me levou a querer desistir da vida. - Ela parou de comer e continuou falando. - Descobri como estava errada em querer fugir do mundo e hoje sei que estava me tornando uma suicida.
Patrícia se admirou. Será que Sílvia havia revelado sua forma de pensar à sua avó?
- Nossa, a senhora está falando como uma espírita! - respondeu a neta, surpresa.
- Muita coisa mudou em minha vida. Sílvia me fez ver lados de minha personalidade que estavam esquecidos e acabou revelando ser espiritualista. Sei que ela acredita em reencarnação e que trabalha num centro. Fiquei chocada a princípio, mas não podia mais ficar sem sua amizade. Nunca conheci uma pessoa tão sensata quanto ela. Aos poucos fui me interessando pela vida espiritual. Ela me emprestou alguns livros e fiquei deslumbrada. Nunca poderia imaginar que o espiritismo fosse tão bonito e lógico em seus ensinamentos. Ainda estou presa a algumas convenções de minha religião, mas confesso que não suporto mais aquelas reuniões de que participava, nas quais não havia profundidade de ensinamentos nem resposta às questões básicas de nossa vida. Hoje quero ser feliz, descobrir de onde vim e para onde vou melhorar meu padrão mental. Fiz muitas coisas erradas em minha vida, mas recebi a resposta e estou amadurecendo.
Patrícia abraçou a avó e beijou seu rosto várias vezes. Quando terminou o café, já na sala de estar, Patrícia iniciou:
- Sei que esse não é um momento de muita felicidade. Meu pai está doente e em estado grave, mas mesmo assim me sinto imensamente feliz. Estou grávida!
Dona Augusta abriu a boca e fechou-a novamente, espantada.
- Que felicidade! - falou com alegria. - Parabéns, você merece essa dádiva da vida. - As duas se abraçaram mais uma vez e Augusta tornou: - Confesso que não estou acostumada a esses tempos modernos. Na minha época o sexo começava depois do casamento. Hoje sei que começa junto com o namoro. Ainda acho tudo muito moderno para a minha mente, mas Sílvia está tentando me atualizar. Sei que você se casará e será muito feliz!
- Serei sim, vovó. O Fernando me ama e estava disposto ao casamento muito antes de saber de minha gravidez. Ele é o homem de minha vida, perfeito, íntegro, bom caráter, é tudo que sempre sonhei, além de lindo.
- Como estou feliz. Lembro-me de quando Flaviana engravidou pela primeira vez. Enjoava muito e tinha desejos difíceis de realizar. Gostaria de acompanhar sua gravidez como acompanhei a de sua mãe, mas não será possível.
- É... Sei que a senhora não gosta de Isabela e julga que ela tomou o lugar de minha mãe, mas posso garantir que ela é uma mulher boa, está muito mal com a doença de papai. A senhora está equivocada. Faça as pazes com ela e volte a freqüentar nossa casa. Sentimos muito a sua falta.
Augusta não podia falar a verdade à neta e preferiu se calar.
- Deixe o tempo correr. De qualquer forma, sei que é minha neta querida e nunca deixará de vir me ver; isso me dá um alívio muito grande.
Patrícia emocionou-se.
- É claro que amo a senhora mais que tudo. Da próxima vez que vier aqui trarei Fernando para a senhora conhecer.
- Que tal um jantar especial?
- Não precisa tanto. Fernando é um homem muito simples.
- Faço questão. Assim que Humberto sair do hospital, farei um jantar aqui e convidarei todos. Assim mostrarei a você que posso não apreciar Isabela, mas posso conviver com ela normalmente.
Patrícia estava muito feliz. Depois de conversar mais um tempo, tomou um táxi e foi para o hospital. Já havia passado uma semana e Humberto não melhorava. Todos estavam apreensivos e Patrícia, muito chorosa. Naquela tarde Isabela, que havia planejado matar Humberto no quarto da UTI, estava se preparando para o plano. Conseguira a custa de muito dinheiro subornar uma enfermeira que trocaria de lugar com ela sem que ninguém desconfiasse. Ela, vestida com roupa de enfermeira, desligaria os tubos de oxigênio e Humberto teria uma parada cardíaca fulminante. Depois ligaria os tubos novamente e ninguém imaginaria que ela estava por trás. Pensara friamente e resolvera não arriscar o plano sem um disfarce, afinal Humberto poderia despertar a qualquer momento e se isso acontecesse, ela não teria salvação. Alguém bateu na porta do quarto e ela foi atender. Era Eudásia.
- Há uma pessoa ao telefone. Diz que é de um hospital da periferia e quer lhe falar com urgência.
- Quem pode ser?
- É uma recepcionista. Pelo tom de voz está muito ansiosa.
- Tudo bem, eu pego a ligação aqui do quarto mesmo. Isabela atendeu e uma voz de mulher se fez ouvir:
- É a senhora Isabela Costa Aguiar?
- Sim, o que gostaria?
- Há uma paciente em nosso hospital em estado terminal que deseja urgentemente falar com você. Chama-se Morgana.
Isabela não conseguia entender. O que fizera Morgana adoecer tão gravemente?
- Diga-lhe para me esquecer, quero mesmo é que ela morra. Certamente quer me pedir dinheiro para pagar a conta do hospital. Se for apenas isso, não me incomode mais.
A mulher insistiu:
- Morgana disse que a senhora agiria assim, por isso pediu que lhe dissesse que tem uma revelação a lhe fazer sobre a morte de seu filho. Disse que jamais poderá morrer sem lhe contar a verdade.
Isabela sentiu o coração acelerar. O que Morgana sabia sobre a morte de Daniel? O argumento foi forte e ela anotou o endereço do hospital e partiu para lá imediatamente. Só iria colocar seu plano em prática à tardinha, quando Edwiges fosse dar seu plantão. Até lá teria muito tempo. O hospital era longe e ela demorou a chegar. Na recepção, procurou se informar:
- O que aconteceu de tão grave para Morgana estar morrendo?
A enfermeira explicou:
- Chegou aqui com uma grave hemorragia interna. Alguém a violentou com muita força e seu útero foi danificado. Fizemos uma cirurgia, mas ela não se recupera; a hemorragia volta com intensidade. O doutor Marcelo teme que ela não resista a uma nova cirurgia. Isabela sabia muito bem do que se tratava, mas fingiu espanto:
- Meu Deus! Mas ela contou quem fez isso?
- Nos momentos de lucidez ela apenas chama por seu nome. Quando conseguimos seu telefone, resolvemos ligar. Mas, se ela melhorar, terá de prestar queixa em uma delegacia para que o culpado seja punido. Entretanto, infelizmente acreditamos que só um milagre poderá salvá-la.
Isabela foi conduzida a um quarto onde havia várias camas. Ela foi procurando uma por uma, até que na última estava Morgana com um aspecto de quem há poucos instantes deixaria a vida. Em quase nada lembrava a moça bonita e alegre de antes. Isabela a sacudiu, pois percebeu que dormia. Ao abrir os olhos, Morgana respirou fundo, ficou mais pálida do que já estava e começou a falar num fio de voz:
- Você veio... Eu sabia que Deus não me deixaria morrer sem começar a reparar o mal que eu fiz.
Isabela sentia vontade de matá-la ali mesmo, tamanho o ódio que sentia, mas queria ouvir o que ela tinha a dizer sobre a morte do filho. Por isso foi direta:
- Não quero saber dos seus remorsos; isso pouco me importa. Quero que me diga o que sabe sobre a morte de meu filho que eu não sei. Aliás, ficou tudo muito claro. Daniel nasceu com problema no intestino e não resistiu. Essa foi à versão do médico. O que mais pode saber?
Morgana fazia um esforço enorme para falar e sua voz quase não era ouvida. Ainda assim, ela falou:
- Os médicos não souberam a verdade, a terrível verdade. Seu filho foi morto por envenenamento.
Isabela sentiu que ia desmaiar. Procurou uma cadeira e sentou-se. Quando se refez do susto, continuou a ouvir.
- Foi isso mesmo. Ele, aquela criança inocente, sorridente e cheia de vida, morreu por minhas mãos. A mando de madame Aurélia, todos os dias eu ministrava um veneno, que desconheço o nome, na comida que eu mesma dava para ele. O veneno causava perturbações gástricas e nenhum médico iria desconfiar do que se tratava, pois geralmente nesses casos não existem suspeitas e eles não fazem exame. O certo é que o intestino era corroído pouco a pouco e a morte era certa. Fiz isso movida por uma vingança, mas minha consciência nunca mais me deixou em paz. Agora sei que pagarei pelo meu crime. Vejo vultos escuros, pessoas babando e sangrando à minha volta, esperando que eu morra para me levarem com elas. Espero que esse gesto me ajude e que eu não sofra tanto nessa vida que me espera.
Isabela, num acesso de raiva, sacudiu violentamente Morgana, que agonizava. A enfermeira que chegava correu a socorrer:
- O que é isso? Ela está quase morrendo, saia! - Retirou Isabela, que estava em estado de loucura.
Do canto do quarto, Isabela bradava com muito ódio:
- Quero que morra e só tenha o inferno como morada. Sairei daqui e vou à polícia denunciá-la. Você e o monstro que armou toda essa trama infernal. Não morra enquanto não servir de testemunha para que Aurélia apodreça na cadeia.
Isabela saiu correndo e a enfermeira aplicou um sedativo em Morgana, que estava muito fraca. Na rua, Isabela rumou para a delegacia mais próxima. O delegado a ouviu e, devido à urgência do caso, logo tomou as providências que terminariam por prender e condenar madame Aurélia.

20 - O BEM É MAIS FORTE

Isabela chegou em casa esbaforida e com muito ódio. As emoções que tinha vivido inesperadamente naquela tarde a fizeram entrar em um processo de autodestruição. Nunca iria se perdoar por haver colocado uma assassina dentro de sua casa, que acabaria por matar seu próprio filho. O depoimento que dera na delegacia havia tomado muito seu tempo, mas ainda teria de ir ao hospital pôr fim à vida de Humberto. Tomou um banho rápido e saiu. Já no hospital e no horário combinado, ela entrou pela saída de emergência e logo trocou de roupa com Edwiges. No almoxarifado, enquanto se trocavam, Isabela perguntou um tanto apreensiva:
- Tem certeza de que ninguém da família está aí?
- Tenho sim. Marquei essa hora justamente por não haver visitas na UTI. A filha dele esteve aqui rapidamente com um rapaz e saiu. O caminho está livre.
- Explique-me direito. Tenho medo de mexer no aparelho errado e o plano ir por água abaixo.
Edwiges procurou detalhar o aparelho no qual Isabela deveria mexer e ela ouviu com muita atenção. Assim Isabela seguiu para o quarto. Doutor Eduardo estava em sua sala lendo uma revista. O dia havia sido cheio e ele aproveitava para relaxar. De repente, um pensamento começou a tomar conta de sua mente. Ele sentia que precisava ver o paciente Humberto. Havia acabado de passar na UTI e sabia que ele estava na mesma condição. O quadro havia se tornado estável e já não havia tanto o que temer; era só esperar ele acordar e fazer os exames para a comprovação de seqüelas. Procurou desviar o pensamento, mas ele não o deixou. "Você precisa ver o senador Humberto". A frase se repetia insistentemente. Então ele resolveu obedecer e levantou-se. No quarto, Isabela sorria maquiavelicamente. Olhou para Humberto e começou a dialogar como se ele pudesse ouvi-la:
- Não adiantou tanta soberba, você está em minhas mãos. Um dia jurei que seria rica e humilharia a todos que encontrasse. Você foi minha escada; consegui o que queria e jamais saberia viver na pobreza novamente. Ou eu, ou você. Chegou o seu fim, Humberto.
No instante que Isabela iria mexer no oxigênio, doutor Eduardo entrou na sala. Ela ficou nervosa enquanto ele perguntava:
- Quem é você?
- Edwiges... - falou ela fracamente.
Ele não deu tanta importância ao fato de ela estar de costas e começou a examinar mais uma vez o paciente. Isabela, com receio de ser surpreendida saiu sem que o médico percebesse. Rapidamente e de cabeça baixa, ela voltou ao local onde Edwiges a esperava.
- E então? Conseguiu?
- Não. Um médico entrou no momento em que eu ia mexer no aparelho. Não foi desta vez, mas temos de tentar novamente.
Edwiges não estava gostando daquilo. Poderia perder o emprego e ser presa como cúmplice. Aceitara ajudar Isabela pelo dinheiro que ia receber, mas já estava arrependida. Resolveu aconselhar:
- Por que não desiste de cometer esse crime? O Humberto vai acordar e você vai poder conversar com ele e pedir perdão. Estou achando isso muito arriscado. Hoje é o doutor Eduardo; amanhã poderá ser outro.
Isabela irritou-se:
- Não foi paga para me dar conselhos, e sim para cumprir ordens. Não gaste o dinheiro que lhe dei. Caso algo dê errado e eu não consiga fazer o que pretendo, vou querer tudo de volta.
Edwiges resolveu se calar. Percebeu que estava muito envolvida na trama e não poderia mais voltar atrás. Isabela se trocou e saiu sorrateira pela mesma porta de emergência pela qual entrara. Doutor Eduardo examinava Humberto quando, de repente, viu sua mão se mexer. Continuou observando e notou que o paciente abria vagarosamente os olhos e os fechava de novo, até que acordou de vez. Humberto, com voz fraca e desorientado, perguntou:
- Onde estou?
O médico feliz por ver seu paciente retornar do coma apenas uma semana depois de haver adoecido, tentou acalmá-lo:
- Não se preocupe com isso agora, Humberto. O que importa é que você acordou e está bem. Procure descansar.
Ele continuava confuso:
- Onde está minha filha? Preciso vê-la.
- Ela não está no momento, mas vamos comunicá-la de que o senhor acordou e em breve ela poderá vê-lo.
Uma lágrima teimosa começou a cair no rosto de Humberto. Ele sentia que havia feito uma grande viagem e que tinha renascido. Muito cansado pelo estado que vinha mantendo, voltou a adormecer. Doutor Eduardo comunicou a nova situação à equipe médica e todas as providências foram tomadas para que o paciente se restabelecesse e ficasse bem. Isabela chegou em casa muito nervosa. Passou rapidamente pela sala e foi para o seu quarto. Aquele dia tinha sido muito intenso para ela. Numa mesma tarde fora a dois hospitais e a uma delegacia. Ficou feliz em saber que havia denunciado Aurélia e que em breve ela seria presa. Precisava saber se havia dado tempo de a polícia tomar o depoimento de Morgana antes que ela morresse. Sem esse depoimento, ela não teria provas e as coisas ficariam na mesma. A esse pensamento, um acesso de ódio a acometeu. Se Aurélia ficasse livre, ela mesma daria um jeito de matá-la com as próprias mãos. Nunca iria perdoar esse crime contra seu filho. Estava assim, largada na cama com esses pensamentos, quando a porta do quarto se abriu e Patrícia entrou sorrindo e contando:
- Isabela, um milagre aconteceu. Acabo de falar com doutor Eduardo e ele me disse que papai saiu do coma. Diz que está confuso e que perguntou por mim. Que felicidade!
Isabela ficou branca feito cera. Tentou não demonstrar o nervosismo que ia em seu peito.
- Quando foi isso?
- Agora há pouco. Foi muito rápido, mas ele está bem. A equipe médica vai fazer alguns exames. Irei agora mesmo ao hospital. Não deseja vir comigo?
Isabela se sentiu perdida. Sua vida iria por água abaixo; certamente Humberto se lembraria de tudo e ela não poderia levar a vida de luxo que tanto sonhara. Precisava pensar no que fazer; para isso deu uma desculpa:
- Não irei agora. Apesar de estar muito feliz com o restabelecimento da saúde de seu pai, acho que esse primeiro momento deve ser entre você e ele. Não se preocupe logo depois eu vou.
- Papai vai ficar ressentido sem sua presença...
- Vá primeiro. Diga que irei em seguida. Não estou me sentindo bem e quero estar ótima para o reencontro com Humberto.
- Está bem. De qualquer forma, ele ainda permanece na UTI e não podemos nos demorar muito tempo.
Patrícia se retirou, deixando Isabela a sós com seus pensamentos. O quarto começou a rodar sem parar. Estava perdida. O casamento havia lhe dado alguns direitos sobre os bens de Humberto, talvez o suficiente para levar uma vida boa por largo tempo, mas ela estava habituada a sonhar alto; desejava possuir tudo que era do marido e poder usufruir ao lado de Fernando. Agora, com Humberto estabelecido, ela certamente seria expulsa da mansão, perderia sua posição e longe da casa ficaria praticamente impossível reconquistar Fernando. Como amava aquele homem! Daria qualquer coisa para tê-lo somente para si. Isabela continuou refletindo até que chegou a uma solução:
- Vou me ajoelhar aos pés de Humberto pedindo perdão - dizia alto para si mesma. - Vou apelar para o lado sentimental que ele tem e tenho certeza de que serei perdoada. Na frente da filha, ele não terá coragem de fazer nenhuma cena. Quando estiver a sós, farei de tudo para que me perdoe. Afinal, que mulher vai querer suportar um homem seqüelado e impotente?
Com esse pensamento ficou mais calma. Deitou e logo adormeceu profundamente. Na UTI do hospital a emoção tomou conta de Patrícia, que abraçava e beijava o pai com muito carinho. Lágrimas escorriam pelo rosto de Humberto. Ele apenas conseguiu balbuciar:
- Eu a amo, minha filha. Nunca se esqueça disso.
- Eu também o amo, papai.
Doutor Eduardo pediu que fosse encerrada a visita, pois o paciente não podia passar por emoções fortes. Patrícia saiu do hospital feliz e nem percebeu que no quarto também estavam Flaviana, Diana, Alfredo e Marcos. Quando Humberto adormeceu logo seu espírito se desprendeu e foi ter com os amigos.
- Quase morri de verdade; a Isabela por pouco não conseguiu.
- O bem sempre é mais forte. Quando Deus não permite algo, não há nada que o faça acontecer. Você não necessitava passar por essa experiência, então Deus, com suas leis perfeitas, o protegeu - respondeu Diana sorrindo.
- Tenho medo do que me pode acontecer de agora por diante. Sinto que não posso perdoar Isabela pelo que me fez. Não vou conseguir.
Flaviana interveio:
- Lembre-se de que você a atraiu pela sua forma de ser e a perdoe. O mal só aparece em nossa vida quando damos abertura. Agora que você aprendeu a lição pode perdoá-la.
Humberto disse com rancor:
- Jamais poderei conviver com ela novamente.
- Deus não obriga ninguém a conviver com quem não quer. - Era a voz de Diana. - Você pode perdoá-la, mas não viverá a seu lado, ainda mais sabendo do mal que ela pode lhe causar. Entretanto, não deve ser vingativo. Dê a ela o que lhe é de direito e permita que siga sua vida. Mostre que aprendeu a ser generoso e que realmente mereceu a nova chance que a vida lhe deu.
Alfredo abraçou o pai.
- Isso mesmo, pai. É hora de recomeçar. Ninguém pode viver em paz sem perdoar seus desafetos. Além do mais, você sabe que a felicidade lhe está reservada ao lado de Sílvia e na hora exata vocês se entenderão. Liberte Isabela para que possa ser feliz.
- Tentarei, mas o Fernando... Esse me paga! Juro que não deixarei que ele destrua a vida de minha filha.
Diana olhou-o firmemente.
- Fernando não é uma pessoa completamente má, apenas está usando o que aprendeu com a educação equivocada que recebeu de Marília. Mas ele é forte e vai melhorar. Nossos irmãos maiores garantem que Fernando vai se voltar ao bem e que ama realmente a sua filha. Não podemos esquecer que o amor faz milagres. Quando se casar vai se tornar um marido fiel e compromissado com o lar que Deus lhe confiou. Se tentar separá-los vai cortar uma programação do destino. Patrícia tinha de se unir a Fernando na presente encarnação, não se esqueça disso.
Humberto cedeu um pouco a esse argumento e logo voltou a sentir sono.Os amigos aplicaram passes em todo o seu corpo perispiritual e em pouco tempo Humberto estava novamente adormecido. Com cuidado, eles o recolocaram no corpo físico. Terminado o trabalho, Flaviana comentou:
- Fico feliz em vê-lo bem, apesar de saber que ainda terá de enfrentar muitos desafios para encontrar a felicidade.
Diana aquiesceu:
- Infelizmente o ódio que ele alimenta por Isabela ainda poderá lhe trazer muitos fatos desagradáveis. Mas Deus está atento e nada acontece sem sua permissão. Vamos orar e confiar.
Marcos estava preocupado.
- As formas ovóides ainda estão instaladas em seu corpo físico. Quando meu pai se livrará delas?
- Humberto se comprometeu muito quando usou o sexo de forma desregrada. Mas o amor cura tudo. Quando ele estiver com Sílvia e novamente sentir o amor pulsando em seu peito, ficará curado. As obsessões são um santo remédio. Cada um precisa tomar de seu próprio veneno para poder crescer e evoluir. A força do amor é infinita e da próxima vez que ele se relacionar sexualmente com alguém por amor estará livre dos parasitas.
Flaviana corou; não estava acostumada a ouvir falar de sexo tão abertamente. Diana percebeu.
- Não precisa se envergonhar, o sexo é uma energia natural que emana da Divindade para todos nós. Ele foi criado para várias funções e o prazer, a troca magnética e a reencarnação são apenas algumas delas. Na verdade, o sexo é um dos alimentos da alma. Mas quem o pratica de forma ilícita, por machismo, por vício ou por comércio acabará por se conduzir ao vale da dor por meio de obsessões ou doenças físicas. Infelizmente, muitos ainda não aprenderam a respeitar esse sagrado instituto.
Os outros concordaram. Em seguida se retiraram do quarto deixando apenas dois enfermeiros espirituais velando por Humberto.

21 - DE VOLTA PARA CASA

Madame Aurélia foi presa logo após o depoimento de Morgana. A polícia pressionou e ela acabou confessando o crime, o que tornou o processo mais fácil. A Mansão de Higienópolis foi interditada, pois logo após a prisão da madame um telefonema misterioso informou que havia prostituição de menores, o que foi facilmente comprovado. Sendo assim, madame Aurélia iria ser julgada por crime hediondo de infanticídio e exploração sexual de menores. Os políticos que protegiam a casa, temerosos quanto ao escândalo, desapareceram, e muitos deles não conseguiam entender por que a casa que tanto prezava em só trabalhar com mulheres maiores de idade se envolvera numa situação daquelas. Eles ignoravam que Luana havia dado a idéia à sua patroa. Ela descobrira que o comércio da pedofilia estava dando mais dinheiro que o do sexo comum. Depois de algum tempo de resistência, madame Aurélia acabou aceitando. Juntas, ela e Luana foram às ruas à procura de garotas que estivessem saindo da infância e que se encontrassem em situação precária. Por fim, acabavam conseguindo até a autorização dos próprios pais. Rapidamente a casa triplicou em faturamento, até que a bomba do assassinato de Daniel estourou. Sem lugar para morar, as moças acabaram indo para outras redes de prostituição, com exceção de Luana, que havia conseguido juntar algum dinheiro. Passou a viver de aluguel e independente, voltou a fazer programas no sinal. Se voltarmos no tempo alguns dias, vamos encontrar Isabela nervosa em seu quarto na mansão. Era o dia que Humberto voltaria para casa. Ela não havia ido ao hospital. Patrícia perguntava e ela respondia com evasivas; por outro lado, Humberto apenas perguntava pela esposa para não levantar suspeitas. Sentia-se traído, mas ao saber que Isabela havia retornado para casa não teve coragem de contar a verdade ao ver Patrícia bem e feliz. Ainda teria de aturar Fernando, porém ele jurou para si mesmo que iria fazer de tudo para separá-lo da filha. Doutor Eduardo e mais outros médicos o examinaram e felizmente as seqüelas do AVC seriam poucas. Humberto teria de andar com uma muleta, pois seu lado esquerdo estava levemente esquecido. Todavia, com exercícios constantes e disciplinados ele poderia voltar a ter uma vida normal. Humberto renasceu. O fato de pensar que poderia estar paralítico ou morto fez com que uma mudança muito grande se estabelecesse na personalidade dele. Já não pensava em se vingar de Isabela; sabia que poderia acusá-la de adultério e ela não levaria nada do casamento, mas para fazer isso ele teria de envolver Fernando, e nada nesse mundo era mais importante do que a felicidade da filha. Isabela desceu as escadas quando viu o movimento. Humberto adentrou a sala apoiado por Fernando e Patrícia e, ao vê-lo, ela fez uma cena. Correu a abraçá-lo e beijá-lo enquanto dizia chorando:
- Meu amor, que bom que retornou com saúde. Esta casa não é nada sem sua presença. Perdoe-me por não ter ido ao hospital. Não queria vê-lo naquele sofrimento, em um quarto de hospital. Preferia vê-lo como agora, firme e com saúde.
Humberto precisou ter muita força para agüentar tanto fingimento. Retirou delicadamente as mãos da esposa de seu rosto e limitou-se a responder:
- O que importa é que estou com saúde e bem. Gostaria que todos soubessem que sou grato pela preocupação que tiveram comigo. Muitos amigos da política daqui a pouco estarão aqui, mas eu sei que a maioria deles virá aqui por fingimento. Sei que só minha família realmente se preocupou comigo, principalmente a minha filha Patrícia.
Os familiares se enterneceram. Patrícia, olhos cheios de água, disse:
- Não diga isso. Apesar de tudo existem amigos políticos que não são tão interesseiros assim. O Andrade e o Rodrigo, por exemplo, estavam preocupados de verdade. Não deixaram de ligar um dia sequer para saber como o senhor estava.
Isabela interrompeu solícita:
- Acho que essa ocasião tão feliz merece um brinde. Humberto não pode beber ainda, mas podemos comemorar de outra forma. Mandei a empregada fazer um lanche para quando vocês chegassem; vou pedir a Eudásia que traga aqui.
Antes de Isabela chamar, Eudásia já estava na sala anunciando que havia visita para o senador. Todos se admiraram ao ver Sílvia chegar com um buquê de rosas vermelhas nas mãos. Patrícia foi recebê-la com muita alegria.
- É um gosto tê-la aqui.
- Eu é que me sinto muito feliz em saber que Humberto já se restabeleceu e saiu sem muitas seqüelas. - Virando-se para ele, explicou: - Essas flores são para você. Sei que os homens são um tanto machistas, mas não pude deixar de trazer com essas flores energias positivas para sua casa. Aceite-as com carinho.
Os olhos de Humberto brilharam e nesse momento ele percebeu o quanto Sílvia era bonita e bem-educada. Seu coração acelerou e sentiu um brando calor envolver-lhe o peito.
- Aceito, sim. Sua visita só veio tornar meu dia ainda mais feliz. Sabe o quanto lhe sou grato pelas nossas conversas no centro. Ajudaram-me bastante.
- No centro sempre fazíamos vibrações positivas por você. Deus lhe deu uma segunda chance; saiba aproveitá-la da melhor maneira possível.
Humberto estava sério ao tornar:
- Vou aproveitar sim. De hoje em diante, muitas coisas vão mudar em minha vida. Sei que essa minha doença foi um alerta. A partir de agora, serei outra pessoa.
- É assim que se fala. Se a cada problema parássemos para analisar o que a vida quer nos ensinar, logo estaríamos livres dele.
A presença de Sílvia alegrou o ambiente e eles ficaram muito à vontade. Todavia, por um mínimo instante, Isabela percebeu que os olhos de Sílvia e Humberto se encontraram com amor e um grande ódio tomou conta de seu ser. Durante o tempo inteiro procurou fingir estar alegre, mas cada vez que percebia a troca de olhares ficava enraivecida. Ela pensava em reconquistar o marido e nada nem ninguém iria impedir. O lanche terminou e o dia transcorreu com algumas visitas de amigos de Humberto. À noite, quando todos se recolheram, ele puxou Isabela com violência e a fez sentar-se na cama.
- O que pensa que está fazendo ainda em minha casa? Acha que esqueci de tudo? Foi por sua causa que tive esse derrame e quase morri. Quero você longe daqui.
Ela sentiu-se tremer, mas havia pensado bastante nesse instante e não podia perder o controle. Falou quase chorando:
- Humberto, sei que o que fiz foi muito grave. Mas entenda que o Fernando me seduziu e eu, iludida, caí na tentação. Porém, posso garantir que sempre o amei e estou arrependida. Jamais farei isso de novo. Deixe-me ficar; você foi o que me restou nessa vida. Eu o amo.
- Não vou cair mais nas suas armadilhas. Você nunca me amou, amou apenas o meu dinheiro e a minha posição social. Mas amanhã mesmo darei entrada em nossa separação. Dê-se por feliz em não deixá-la sem nada. O que é seu de direito você vai levar, mas não quero vê-la nem mais um dia na minha frente.
Aliás, amanhã terá uma festa aqui com meus amigos políticos, que Patrícia organizou. Como não desejo estar sozinho, nem quero que eles saibam que é uma mulher venal e sem escrúpulos, quero que me acompanhe amanhã nessa recepção. Mas, depois, quero que saia desta casa e, desta vez, para sempre.
Ela se ajoelhou a seus pés e implorou:
- Não faça isso comigo. Não desejo sair do seu lado nem ser colocada à margem da sociedade. Sei o que é a pobreza, sei o que é ser humilhada pelas pessoas e olhada de soslaio pelos ricos. Não desejo, não posso nem quero mais viver assim. Dê-me uma segunda chance. Eu lhe imploro!
Humberto estava irredutível. Sentia muita raiva daquela mulher falsa, que fora capaz de traí-lo com o namorado de sua filha.
- Não se humilhe tanto, pois de nada adiantará. Já tomei minha decisão.
Isabela, com muito ódio bradou:
- Eu sei, eu sei que a Sílvia está por trás disso. Pensa que não percebi seus olhares de amor para ela? Mais saiba que onde estiver eu não deixarei que seja feliz com ela. Você é meu e ninguém vai me tirar. Juro que nunca o deixarei para ela, nem que para isso seja preciso matar!
Humberto, mesmo fraco, agarrou os pulsos de Isabela e falou em voz rouca de ódio:
- Tente fazer algo contra a Sílvia e eu mesmo darei um jeito de acabar com você. Agora se retire e vá dormir no quarto de hóspedes. Tenho nojo de você!
Isabela percebeu que não havia como reconquistar o marido e retirou-se em prantos. No outro quarto, deitada na cama, ela não conseguia organizar os pensamentos. Parecia que sua cabeça ia explodir a qualquer momento. De repente, lembrou-se que Fernando estava dormindo na mansão. Ao pensar nele, um sentimento violento de paixão se apoderou dela. Sentia que se não conquistasse esse homem, sua vida não valeria mais a pena. Insone, resolveu andar pela casa. Passou pelas salas e admirou-se mais uma vez com o bom gosto com o qual a mansão era decorada. Ao pensar que ia perder aquilo e passaria a viver longe e sem chances de ver Fernando, ela teve vontade de chorar. A vida tinha lhe tirado tudo: o filho, a riqueza, o status, e, o principal, o amor de Fernando. Foi até o bar, encheu um copo e tomou de uma vez. Quando já ia subir percebeu que Fernando ia descendo as escadas vestido com um roupão. Aquela visão deixou Isabela completamente transtornada e fora de si. Ela correu e o abraçou:
- Você é quem mais amo neste mundo. Por favor, não me deixe!!
Ela soluçava e Fernando não sabia o que fazer. Havia descido para tomar água e jamais imaginava encontrar Isabela àquela hora naquele estado.
- Não quero mais nada com você. Se sabe disso, por que insiste?
- Perdi tudo. Se eu perder o seu amor, não sei o que serei capaz de fazer.
- Faça o certo. Vá embora daqui; sua presença é indesejável. Com você vivendo nesta casa jamais poderia ser feliz com a mulher que eu realmente amo. Vá embora e procure viver com o pouco que lhe restou. Você é bonita, logo estará com outro amor. Mas, por favor, me deixe em paz!
Ela chorava abraçada a ele, sem querer soltá-lo. Fernando tinha uma índole violenta e sem conseguir conter a repulsa, arremessou-a com força. Isabela caiu.
- Nunca mais se aproxime de mim. Minha futura mulher não merece nem que eu olhe para você.
Sem mesmo tomar sua água, Fernando voltou para o quarto. Constatou que Patrícia dormia tranqüila e ficou aliviado. Se Isabela continuasse daquela maneira, ele mesmo daria um jeito de sumir com ela para sempre. Temia que, mesmo morando distante, ela fosse interferir e acabar com seu relacionamento. Se isso acontecesse, ele não titubearia em matá-la. Na sala, Isabela chorou muito. Quando se acalmou e tomou consciência de que não poderia mais estar com Fernando nem reconquistar Humberto, tomou uma decisão. A idéia foi tomando forma em sua mente e ela parecia estar serena ao ter resolvido a situação. Disse em voz alta:
- Amanhã na hora da festa saberei o que fazer. Ninguém vai desconfiar de nada e sei onde Humberto guarda seu revólver. Está tudo planejado. Essa é à saída de minha vida.
Os vultos deformados de Juvêncio, Romário e seus amigos rodopiavam ao redor dela e sorriam felizes. Um falava em seu ouvido:
- Isso mesmo. Essa é a melhor saída para você. Não hesite, faça exatamente como pensa.
Após rodopiarem, eles pararam, e Juvêncio concluiu feliz:
- Deu trabalho, mas finalmente ela vai fazer o que tanto desejamos. Amanhã será o grande dia.
Romário alertou:
- Mesmo assim temos de ficar vigilantes. Sinto que os espíritos da luz estão nessa casa acompanhando Patrícia e a tonta da Eudásia. Se não ficarmos atentos, eles podem colocar tudo a perder.
Juvêncio ria a valer.
- Não se preocupe, já magnetizamos Isabela o suficiente para que ela não desista da idéia. Vê essas formas-pensamento que plantamos ao redor de sua cabeça? Pois é, são elas que vão influenciá-la de agora por diante.
Romário estava mais confiante:
- Como é fácil dominar as pessoas da Terra e obrigá-las a fazer o que queremos. É como tirar doce de criança.
Juvêncio tornou:
- Nem sempre. Lembra aquele curso que tomamos de influenciação? As pessoas positivas, que vêem tudo com bons olhos, que não cultivam pensamentos depressivos, que fazem o Evangelho no Lar e que cultivam a oração não são influenciadas por nós. Delas nem conseguimos nos aproximar. Mas, felizmente, boa parte das pessoas adora falar sobre negatividades, crimes, vida alheia, criticar e julgar... Com estes conseguimos tudo muito facilmente.
- É mesmo. Isabela é uma delas. Pessoas assim são pratos cheios para nós.
Os espíritos riram bastante.
- Agora vamos continuar aqui. Não desejo perder o espetáculo - falou Juvêncio.
Isabela, com muita dor de cabeça e com certa dificuldade subiu as escadas, foi para o quarto. Quase não conseguiu dormir pensando na solução que havia tomado. Só quando o dia clareou foi que ela conseguiu adormecer. Na manhã do dia seguinte, a casa estava em animação. Os preparativos estavam sendo concluídos com muito carinho para comemorar o retorno de Humberto à vida e à saúde. Patrícia havia se esmerado e não queria que nada estivesse fora de ordem, desde a decoração até os petiscos que encomendara. Isabela participou da organização com muito entusiasmo. Quem a visse nem de longe imaginaria a terrível decisão que ela havia tomado no dia anterior. À tardinha, quando se arrumava no quarto, Humberto indagou:
- Estou achando você muito feliz em vista do que aconteceu ontem. O que está tramando?
- Eu? Nada! Apenas me conscientizei de que não posso mais viver aqui com você. Uma vez que não tenho mais esse direito, não vou ficar me lamentando. Desejo ser a esposa perfeita hoje. É meu último dia nesta casa e não quero causar uma má impressão aos seus convidados.
Humberto achou estranho, mas nada comentou. Depois de um tempo calado, tornou:
- Não sei se fiz bem em ter feito você ficar aqui hoje. Nosso casamento se tornou uma farsa e, mais dia, menos dia, os meus companheiros vão saber que me separei. Estou me sentindo meio ridículo.
- Não se preocupe, é melhor que eu fique hoje. Depois, com o tempo, você dá a explicação que quiser para eles. A impressa vai cobrir o acontecimento e não é bom você estar desacompanhado.
Ele cocou o bigode.
- Tem razão, porém amanhã quero você o mais longe possível de minha família.
Saiu e bateu a porta. Isabela olhou-se no espelho e murmurou boca crispada:
- Não sabe o que o aguarda.
A noite estava bonita, contribuindo para deixar a festa mais agradável. Logo a mansão ficou cheia de gente importante da sociedade paulistana. Os amigos cumprimentavam Humberto e o felicitavam pelo seu restabelecimento. Isabela também recebia os cumprimentos e sorria para todos. A certa altura, Humberto parou a música e, emocionado, agradeceu aos companheiros, falando da importância de estar vivo e praticamente recuperado. Teceu seus comentários políticos e até arrancou risadas dos presentes. Em seguida, num gesto pouco usual, Isabela pediu a palavra.
- Gostaria de lhes contar uma história que poucos conhecem, mas que vão gostar de saber. Peço que me deixem ir até o fim em meu discurso e que não me impeçam, aconteça o que acontecer.
Humberto começou a ficar nervoso. O que será que ela iria dizer? Isabela continuou:
- Sou de origem muito pobre. Vivi vários anos de miséria em uma favela, fui estuprada e tive um filho. Quando achava que não havia mais saída, convidaram-me a me prostituir em um famoso bordel: a Mansão de Higienópolis. Lá conheci o senador Humberto, que sempre quis dar uma de certinho, porém sempre gostou desse tipo de lugar. Ele se apaixonou por mim, mesmo casado, e me trouxe para esta casa como enfermeira de sua mulher doente. Nós nos amávamos no quarto ao lado de onde sua mulher estava enferma.
As pessoas começaram a falar baixinho umas com outras, mas logo se calaram ao ouvir a voz de Humberto:
- Alguém detenha essa mulher!
Ela gritou, tirando um revólver que estava sob sua roupa.
- Ninguém se aproxime ou vai morrer. Eu vou até o fim. - Apontou a arma para as pessoas. Fotos começaram a ser tiradas e o repórter que estava cobrindo o evento se aproximou ávido pelo furo que iria conseguir. Ela prosseguiu, transtornada:
- Quando vi que Flaviana iria demorar a morrer e meu sonho de ser rica seria adiado, resolvi me precipitar e a matei, sufocando-a com o travesseiro. Estão surpresos? Foi isso mesmo que ocorreu. Matei Flaviana. Fui eu que tirei aquela vida inútil e que me roubava à felicidade. Casei-me com Humberto e realizei meu sonho de ter a vida com a qual sempre sonhei e que até então me fora negada. Mas o destino me fez conhecer Fernando no dia em que me casei. A partir daí, me apaixonei perdidamente, e ele correspondeu. Vivemos uma louca história de amor, mesmo ele estando com Patrícia. - Virou-se para Patrícia e falou, rindo alto: - Como pode ver, você foi enganada esse tempo todo. Seu noivo é um pulha. Estava comigo interessado em meu dinheiro, e está com você só porque é rica e pode oferecer o que ele nunca teve. Humberto ficou impotente e está até hoje. Não consegue mais manter relações sexuais com nenhuma mulher, o que para mim foi um alívio, pois não agüentava mais que me tocasse. Agora que fiz o que pretendia, vou deixar essa festa inesquecível.
O fato se deu repentinamente. Ela virou o revólver para sua cabeça e disparou um tiro, caindo morta no chão. Patrícia desmaiou e Humberto passou mal. Os convidados saíram um a um, estarrecidos com a situação. A polícia foi informada e quando chegou ao local já não tinha muito que fazer. Ficou claro o ato suicida, e o corpo foi removido para o IML. Na mesma noite, em todos os noticiários, o assunto bombástico era a vida íntima de Humberto e a morte trágica de sua mulher....

22 - RENÚNCIA

É isso mesmo que deseja? Já pensou bem? - Era a voz de Diana questionando com firmeza sua interlocutora.
- É isso sim - respondeu Lourdes com segurança. - Sinto que devo seguir meu coração, e ele não me engana. Partirei hoje mesmo para o Vale dos Suicidas.
Diana ponderou:
- Sabe que não vai poder auxiliá-la como gostaria e correrá sérios perigos. Aqui está protegida e poderá auxiliá-la muito mais.
- Não irei sozinha. Alfredo e Marcos também estarão comigo. Estamos unidos pelos laços do amor verdadeiro. Amamos Isabela e queremos a sua felicidade. Infelizmente, não pudemos evitar o ato tresloucado do suicídio, mas vamos estar ao seu lado até que se arrependa e se redima. Daniel, o único ser a quem ela realmente amou, se prepara para reencarnar e não poderá nos acompanhar nessa jornada.
Flaviana estava reunida com eles.
- Não saberia renunciar a um lugar como este para descer ao inferno. Admiro seu ato de coragem, mas não tenho essa força.
Antes que Marcos e Alfredo falassem, Lourdes continuou:
- O dia que sentir a chama do amor incondicional em seu peito saberá que toda renúncia é válida e que os obstáculos são facilmente vencidos quando estamos munidos com esse sentimento. Não tememos o que vamos encontrar naquele lugar, pois estamos sob a proteção do amor divino. Então, Diana, podemos partir?
- Já avisamos que outros caminhos podem levar a resultados melhores. Isabela está dementada e não consegue se livrar de seus algozes. Raros são seus momentos de lucidez. Aqui estará protegida e podemos auxiliar sempre que necessário. Contudo, não podemos interferir no livre-arbítrio de vocês. Quando a renúncia é de coração, o universo nos protege. Podem partir; nossos maiores concederam permissão.
O momento foi de muita emoção. Lourdes foi abraçada por Flaviana, que não deixou de perguntar:
- Você foi tão humilhada pela sua filha! Como ainda consegue se sacrificar a tal ponto?
- O amor de mãe abre as portas para o amor incondicional. Se fossem Marcos e Alfredo que estivessem lá, não faria o mesmo?
- Penso que sim. Mas é difícil saber que meus filhos vão se distanciar de mim para ajudar uma mulher que foi sua mãe em uma vida longínqua. Não consigo entender.
Marcos explicou:
- Aquela encarnação foi muito importante para nós. Trazemos laços de amor que nos unem a Isabela. Mais uma vez, ela fracassou e perdeu a oportunidade de ser feliz, mas no que depender de nós um dia ela vai conseguir. Compreenda mãe, amamos a senhora tanto quanto amamos aquela que um dia também nos gerou. O verdadeiro amor não pode ser egoísta. Aqueles a quem amamos de verdade nem o tempo consegue afastar.
Flaviana sentiu os olhos umedecer. Beijou os filhos e desejou-lhes boa sorte. Ela não conseguia entender o tamanho daquela renúncia. Abandonar um lugar como aquela colônia maravilhosa para sofrer os tormentos do vale tenebroso. Ainda bem que reencontrara Aurélio, um espírito amigo que a estava auxiliando bastante e, dessa maneira, não iria se sentir tão só enquanto os filhos estivessem distantes. Após as bênçãos de outros amigos da colônia, eles partiram. Em questão de segundos estavam em um lugar escuro, cheio de lama e névoa. Pessoas gemiam e se contorciam, as árvores eram secas e não havia vegetação rasteira. Lourdes começou a sentir dificuldades em respirar; Marcos e Alfredo também. Então ela lembrou:
- Vamos orar mais uma vez e pedir proteção a Deus. Assim como nós, muitos outros estão aqui para socorrer e ajudar. Trouxemos todos os apetrechos que vamos utilizar para amenizar o sofrimento de Isabela, mas sabemos que não vai ser fácil. Ela está em estado de loucura e não reconhece ninguém.
Eles fizeram uma sentida prece a Deus pedindo proteção. Ao terminar, Marcos indagou:
- Será que todos os que se suicidam ficam assim? Conosco aconteceu o mesmo.
- Pelo que pude estudar cada caso é um caso. Existem suicidas que não vêm para esse vale; ficam presos ao local do crime durante anos revivendo a cena que os levou à morte. Outros ficam presos no corpo e sentem o horror dos vermes destruindo seu envoltório físico; há também aqueles que mesmo aqui no vale logo recobram a lucidez e sofrem muito por descobrirem que continuam vivos e que os problemas estão maiores. O suicídio sempre será a falta mais grave que o ser humano comete para com as leis divinas. Isabela, em espírito, foi conduzida para esse vale inconscientemente pelos espíritos que a acompanhavam no dia-a-dia. Ao acordar e se dar conta da situação, desesperou-se, gritou muito e desmaiou várias vezes. Sempre que acordava, via Juvêncio, Morgana e outros espíritos que foram suas vítimas desde outras reencarnações. Esses espíritos acabaram por enlouquecê-la e ela não sabe mais nem onde está nem quem é.
Alfredo estava preocupado:
- Começo a acreditar que erramos em ter vindo para cá. Esses espíritos não vão permitir nossa aproximação e podem nos fazer mal.
- Não pense assim. Estamos vibrando numa sintonia diferente e por isso eles não poderão nos ver. Nossa tarefa principal é enviar pulsos magnéticos a seu perispírito para que ele não se deforme e vire uma massa disforme ou um ovóide.
Alfredo se lembrou:
- Ovóides são aqueles seres que estão presos ao meu pai?
- Sim. No tempo que aqui estou procurei aprender e entendi muitas coisas. Ovóides são espíritos que perderam toda a forma humana devido a sentimentos negativos, e se transformaram em massas arredondadas portadoras de muitas energias destrutivas. Não desejo que minha filha fique assim. Agora vamos em frente que a tarefa nos espera.
Eles andaram sobre corpos dilacerados de pessoas que gritavam desesperadamente. Depois de um tempo, encontraram Isabela sozinha deitada sobre uma poça de lama. Aproximaram-se e começaram a aplicar passes em seu perispírito. Aos poucos ela foi se acalmando. Mas, em questão de segundos, o grupo de Juvêncio chegou e começou a rodopiar ao seu redor, rindo dela e a violentando como podiam. Então ela voltava a chorar e a gritar. Dez anos depois, Lourdes e o restante do grupo finalmente conseguiram sua libertação. Ela passou por um breve tratamento, mas não conseguia recobrar a lucidez. Os mentores se reuniram e perceberam que a única chance de ela melhorar seria uma nova reencarnação. Lourdes participou ativamente de tudo até o dia em que sua filha amada mais uma vez regressou ao palco da Terra. As revelações que Isabela fizera durante a festa, como era de esperar, tinham provocado muita revolta em Patrícia, que passou a odiar Fernando com todas as forças de seu coração. Humberto também sentiu-se envergonhado porque suas intimidades foram ditas com requintes de crueldade, e passou a não sair mais de casa. Seu estado de saúde voltou a piorar e ele não conseguia recuperar os movimentos perdidos. Naquela tarde, a mansão se encontrava em estado sombrio. Humberto estava na sala e Patrícia, em seu quarto, reclusa. A campainha soou e Eudásia foi abrir. Era Sílvia. Humberto só conseguia se sentir bem quando ela aparecia. Quando ficaram a sós, ela explicou:
- Vim para conversar com a Patrícia. Sei que ela não quer ver ninguém porque está se sentindo traída, mas não posso deixar que cometa a maior bobagem de sua vida por orgulho. Posso subir?
- Pode, sim. Mas quando vou ter sua companhia? Sabe o quanto gosto de você e o quanto tem me ajudado.
Sílvia corou. Havia muito tempo descobrira que amava Humberto, mas sentia receio de não ser correspondida. Limitou-se a dizer:
- Não se preocupe, teremos muito tempo para conversar. -Subiu em direção ao quarto, bateu levemente e entrou. Patrícia chorava abraçada aos travesseiros. Sua barriga estava grande, pois contava com seis meses de gestação. Ao perceber de quem se tratava, limpou os olhos e sentou-se na cama.
Sílvia foi direto ao assunto:
- Vim porque sou sua amiga e não posso deixar que cometa um erro que vai fazê-la infeliz pelo resto da vida. Sei que está assim por orgulho. Sentiu-se enganada e a imagem perfeita que fez do Fernando desmoronou, mas é hora do perdão. Só será feliz se perdoar.
Ela respondeu com revolta:
- Diz isso porque não está na minha pele. Fui enganada todo esse tempo. O homem que imaginei perfeito para mim é leviano, infiel e interesseiro. Não posso perdoar a quem me fez tanto mal.
- A desilusão dói, mas ela é melhor do que qualquer mentira. Você descobriu que na Terra ninguém é perfeito, por mais que pareça ser. A verdade foi dura, mas necessária. Agora você sabe que Fernando é só um homem com defeitos e qualidades, e, mesmo que não queira, ainda ama esse homem. Na vida há sempre caminhos para escolher, mas, feita a escolha, teremos de arcar com as conseqüências. Você pode escolher perdoá-lo agora e viver feliz ou continuar mimada e orgulhosa, e ser infeliz para sempre. A escolha é sua.
Patrícia falou com voz chorosa:
- Como posso perdoar alguém que me traía sem nenhum remorso? Como posso querer perto de mim uma pessoa que está interessada apenas em meu patrimônio? Já escolhi, vou viver sozinha e me dedicar só a este filho que está para nascer.
Sílvia não se deu por vencida:
- Você está escolhendo a infelicidade. Fernando se modificou muito nesses seis meses que está longe de você. Passou a freqüentar o centro e tem desabafado comigo. Ele se sente culpado pela morte de Isabela e sente-se infeliz por vê-la sofrer. Acredite, ele a ama de verdade. Pode ter se aproximado de você por interesse, mas está mudado e disposto a se regenerar.
Ademais, ninguém encontra ninguém pela primeira vez aqui na Terra. Há entre vocês laços fortes de vidas passadas que não podem se romper por egoísmo. Pense que seu filho precisa de um pai e de uma família para que cresça em segurança e se firme, mas antes de tudo pense em você mesma. Se o ama, passe por cima do orgulho e volte para ele. A vida só vale a pena quando vivida com felicidade. Sílvia falava de maneira decidida e olhava dentro dos olhos de Patrícia.
- Confesso que estou melhor com sua presença. No momento estou muito confusa para tomar uma decisão, mas me sinto muito infeliz desde que me separei do Fernando.
- Você foi radical e não deixou que ele se explicasse. Não acha que chegou a hora?
- Penso que sim. Não suporto mais ficar neste quarto chorando.
- Ninguém agüenta a infelicidade por muito tempo. O estado natural do ser humano é a alegria; ser infeliz é lutar contra a natureza, que nos fez para o amor e a abundância.
Patrícia a abraçou fortemente. Ao descer as escadas, já com um sorriso nos lábios, ouviu Humberto comentar:
- Realmente, Sílvia, você faz milagres.

EPÍLOGO

Dez anos se passaram. Patrícia ainda demorou bastante para perdoar Fernando, o que aconteceu quando o primeiro filho deles veio ao mundo. Ele chorou sentidamente, pediu perdão, ajoelhou-se aos seus pés e declarou seu amor. Ela, auxiliada por Sílvia e por amigos espirituais, venceu o orgulho e admitiu que o amava profundamente. Foram dias felizes para eles. Planejando terminar sua faculdade de Psicologia, ela não teve mais filhos durante largo tempo. Casou-se com Fernando no mesmo dia em que seu pai casava-se com Sílvia. Foi uma cerimônia muito bonita, mas simples, totalmente diferente do luxo que Marília esperava. Mas ela se sentia feliz. Agora seu filho amado pertencia a mais alta sociedade. Pressionado pelos seus sentimentos, Humberto se declarou a Sílvia e ela, apaixonada, também revelou que o amava desde que se encontraram pela primeira vez no centro espírita. Quando se amaram pela primeira vez, Humberto livrou-se da impotência e sentiu-se um novo homem. Pensou em abandonar a política. Agora que havia conhecido a espiritualidade, percebeu a gravidade dos erros que havia cometido com as corrupções junto ao governo e as outras que o beneficiaram particularmente. Acreditou que se afastando estaria imune às tentações, todavia Sílvia o fez pensar diferente, mostrando que agora ele poderia agir com honestidade, reparando assim seus antigos erros. Disse-lhe que na política Deus une os homens em reajustes do passado longínquo e que quando cada homem amar seu semelhante como ama a si mesmo a corrupção deixará de existir. Humberto sentiu-se seguro para continuar e dessa vez trilhou um caminho reto e pautado pela ética. Sendo assim, deu um grande passo rumo à própria evolução. A mansão voltou a ser um lar feliz com Fernando, Patrícia, o pequeno Lucas, Sílvia e Humberto. Ninguém mais falava de Isabela. Às vezes, Eudásia se lembrava de sua amiga e fazia-lhe preces. Sílvia também, sempre que ia ao centro, enviava-lhe vibrações de amor. Mas os outros ainda sentiam mágoa pelo que haviam passado e não conseguiam perdoar. No entanto, a vida não deixa nenhuma situação inacabada e eis que depois de quase dez anos Patrícia novamente engravida. Foi uma alegria geral, mas que durou pouco tempo. O obstetra percebeu que o feto estava com malformação no cérebro, e que a criança poderia nascer e viver com muitas limitações. Foi um choque geral. Augusta, agora já desencarnada e em equilíbrio, passou a ajudar a neta com energias positivas naqueles nove meses de gestação complicada. O nascimento da criança, no entanto, provocou em todos um sentimento de compaixão, e cada um deles passou a amar a pequena Andressa com muita intensidade. Os primeiros anos foram difíceis. A criança não caminhava nem entendia o que as pessoas falavam, mas demonstrava estranho brilho no olhar sempre que Fernando se aproximava. Às vezes se agitava e emitia pequenos sons, como há dizer que muito sofria, e só se acalmava quando o pai a acalentava ou a colocava no colo. Um dia, um médium foi procurar a família. Havia uma carta que havia sido psicografada no centro durante uma sessão íntima que se endereçava a eles. A família se reuniu para ler e cada palavra que Humberto pronunciava causava muita emoção: "Queridos amigos e familiares que deixei na Terra: hoje, com a permissão de Deus e dos espíritos superiores, posso vir revelar alguns fatos que se ocultam por trás da matéria. Quando parti deixando meu corpo de carne doente, não entendi o que se passava comigo e me revoltei. Humberto, o homem que mais amei, havia me traído e me trocado por uma mulher que mais tarde viria a tirar minha vida. Oh! Eu não sabia que Deus sempre faz tudo certo e resolvi cobrar a vingança. Cedo descobri que esse caminho só me trouxe infelicidade e, com ajuda de amigos, consegui acabar com minhas ilusões e olhar a vida como ela é. Como a aceitação nos faz bem! Percebi que Humberto é apenas um ser humano e, como tal, errou e ainda vai errar outras vezes para crescer. Aprendi que o erro é uma condição natural para a evolução e parei de me culpar pelo que fiz da minha própria vida. Quando casei, enterrei minha juventude em nome dos papéis sociais, achando que assim seria feliz. Coloquei toda a minha alegria em meu marido sem perceber que não são os outros que fazem nossa felicidade, que ela só pode vir de nós mesmos. Resultado: atraí a rejeição e a doença. Hoje sei que tudo que nos acontece vem de nossas próprias atitudes e estou disposta a mudar, ser feliz! Quero dizer que todos vocês deram um passo muito grande na senda da evolução. Mamãe venceu os preconceitos e aprendeu que ninguém é melhor que ninguém, que riqueza e poder só valem mesmo quando estamos caminhando com a verdade. Humberto se tornou um novo homem e está no caminho da espiritualidade, preparando-se inconscientemente para uma grande tarefa que terá no futuro, que Deus o abençoe. Patrícia e Fernando se reencontraram após muitas vidas de desentendimentos, paixões e sofrimentos; agora podem finalmente encontrar a paz. Principalmente porque venceram a prova importante do orgulho, souberam renunciar em nome do amor. Andressa precisava dessa oportunidade. Abençoada seja a maternidade, que conduziu até o seio dessa família um espírito muito ligado a vocês por laços que se perdem no tempo. Aprendam a amá-la verdadeiramente. Esse estágio de Andressa na Terra será curto, apenas para que se cure dos problemas que carrega e possa obter de todos vocês o perdão sincero e efetivo. Ninguém pode seguir para Deus deixando em seu caminho resquícios de ódio, revolta, violências e crenças no mal. Todos nós sofremos muito para entender que nada é para sempre, que a vida pode a qualquer momento modificar todas as situações ao nosso redor sem que possamos prever.
Finalizo pedindo a todos que continuem os estudos sobre a vida espiritual. Sabemos aqui no plano astral que estão surgindo novas revelações da verdade; elas virão para implantar de vez a Nova Era nesse mundo ainda tão conturbado. Aproveitem o que a espiritualidade pode oferecer praticando todos os seus ensinamentos, pois o conhecimento de nada adianta sem a prática. As novas revelações vão desafiar alguns, confundir a outros, mexer com orgulhos e vaidades, mas quem estiver firme no bem vai se beneficiar e mais rápido encontrará a felicidade e a harmonia interior. Que o Mestre de amor possa estar com todos vocês, abençoando-os sempre... Flaviana". Humberto e a família leram e releram muitas vezes a carta, agradecendo a Deus a bênção maravilhosa da mediunidade e a chance que Ele dera a Flaviana de se manifestar. Renovados por aquelas simples palavras, entenderam um pouco mais a infinita bondade do Criador e a sabedoria de suas leis. No fundo do coração de cada um ficou a certeza de que no corpinho deformado de Andressa estava o espírito que um dia se chamou Isabela, e de que a reencarnação é a única porta que conduz ao amor incondicional.



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DE VOLTA AO PASSADO
CÉLIA XAVIER CAMARGO
DITADO PELO ESPÍRITO CÉSAR AUGUSTO MELERO


ÍNDICE

APRESENTAÇÃO

CAPÍTULO 1 = APRENDENDO SEMPRE
CAPÍTULO 2 = REFLEXÕES
CAPÍTULO 3 = O SONHO
CAPÍTULO 4 = ENFRENTANDO A VERDADE
CAPÍTULO 5 = NOVAS ATIVIDADES
CAPÍTULO 6 = NO HOSPITAL
CAPÍTULO 7 = UMA EXPERIÊNCIA DIFERENTE
CAPÍTULO 8 = LUZ NAS TREVAS
CAPÍTULO 9 = JOSÉ DOMINGOS MORGADO
CAPÍTULO 10 = O SONO DOS ENCARNADOS
CAPÍTULO 11 = LEMBRANDO O PASSADO
CAPÍTULO 12 = DIA EXAUSTIVO
CAPÍTULO 13 = VISITA INESPERADA
CAPÍTULO 14 = ESPERANÇA RENOVADA
CAPÍTULO 15 = NOVOS CONHECIMENTOS
CAPÍTULO 16 = NO CENTRO ESPÍRITA
CAPÍTULO 17 = O TRABALHO PROSSEGUE
CAPÍTULO 18 = ENCONTRO COM O PASSADO
CAPÍTULO 19 = A HISTÓRIA DE LÍGIA
CAPÍTULO 20 = ACOMPANHANDO GUSTAVO
CAPÍTULO 21 = SOB A LUZ DO LUAR
CAPÍTULO 22 = DECISÃO IMPORTANTE
CAPÍTULO 23 = MUDANÇA DE VIDA
CAPÍTULO 24 = REUNIÃO ESPIRITUAL
CAPÍTULO 25 = ASSIMILANDO IDÉIAS
CAPÍTULO 26 = RETORNO AO LAR
CAPÍTULO 27 = O RETORNO
CAPÍTULO 28 = NOVOS PACIENTES
CAPÍTULO 29 = NA RESIDÊNCIA DE FÁBIO
CAPÍTULO 30 = NO SÍTIO
CAPÍTULO 31 = CONFIDÊNCIA
CAPÍTULO 32 = EVANGELHO NO LAR
CAPÍTULO 33 = LEMBRANDO RESPONSABILIDADES
CAPÍTULO 34 = REAFIRMANDO COMPROMISSOS
CAPÍTULO 35 = AVALIAÇÃO
CAPÍTULO 36 = TEMPO DE DESPERTAR
CAPÍTULO 37 = NOVAS LEMBRANÇAS
CAPÍTULO 38 = DESPEDIDAS

APRESENTAÇÃO

Difícil descrever o que sentimos ao encerramento de uma tarefa. Primeiro, imensa alegria, por termos vencido o desafio; depois, alívio, por havermos concluído o que começamos; e, por último, saudade de um período trabalhoso, mas profundamente gratificante, e que não voltará mais. Por dezenove meses - de 16 de março de 1998 a 19 de outubro de 1999 – trabalhamos sem cessar, juntando os esforços de toda a equipe. O resultado aqui está. Para nós, foi uma etapa altamente compensadora e rica de aprendizado, que nos possibilitou várias conquistas, entre outras a consciência de nos encontrarmos hoje bem mais maduros e responsáveis. Que esta obra, fruto do trabalho de muitos, possa ser de alguma utilidade para todos os que a lerem, despertando em cada um a necessidade do auto-conhecimento como meio de vencer as imperfeições que ainda caracterizam o ser humano. Os companheiros do grupo envolvidos nos casos aqui enfocados abriram mão de sua privacidade em benefício geral. Naturalmente, muitos nomes foram trocados, em nome da caridade cristã, evitando-se assim uma identificação indesejável. Uma coisa é certa: o esquecimento do passado, para o encarnado, é bênção divina, que lhe proporciona tranqüilidade e condições para viver de forma construtiva e digna. Ao re-construir hoje o que destruiu ontem, ficará deslumbrado com o amanhã - muito mais feliz -, porque fundamentado no exercício do bem e do amor ao próximo. Chega o momento, porém, em que precisamos enfrentar a dura realidade, que nos coloca face a face com o passado, forçando-nos a lutar para vencer os desafios que a vida nos apresenta. Não é fácil. Pela nossa ótica, enxergamo-nos sempre como vítimas inocentes. A verdade, entretanto, poderá nos surpreender, mostrando nossa real situação como Espíritos e os prejuízos que causamos a outrem através do tempo. Desse modo, nosso objetivo, ao enfatizarmos o que ensina a Doutrina Espírita, é o mesmo que já pregava Jesus de Nazaré há quase dois milênios, isto é, demonstrar a necessidade da mudança interior. Não essa mudança de fachada, mas aquela que, em profundidade, busca o aprimoramento moral, tornando-nos livres e conscientes. "Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará", afirmou o Mestre. Busquemos essa verdade pelo auto-conhecimento, para não sermos surpreendidos depois, quando a morte nos obrigar a enfrentá-la, visto que, não raro, nos apresentamos completamente despreparados de valores nobilitantes. Estamos no limiar do terceiro milênio, às portas de grandes transformações: nosso planeta será elevado à categoria de Mundo de Regeneração. Se desejamos fazer parte da sociedade do futuro, se aspiramos a uma vida melhor em todos os sentidos, não podemos conservar-nos presos ao lamaçal das nossas imperfeições. Nesta época, Jesus nos faz um último convite para nos aliarmos à sua obra de regeneração pelo Espiritismo, laborando em sua seara como servidores fiéis e dignos do salário da boa vontade. Aceitemo-lo! Nossos agradecimentos a todos os que, encarnados e desencarnados, colaboraram para a execução deste projeto. A Jesus de Nazaré, o Mestre Maior, nosso profundo amor. Que Deus, Pai Amantíssimo, nos fortaleça e ampare sempre nossa trajetória rumo à evolução. Muita paz!

César Augusto Melero
Rolândia, novembro de 1999.

1 - APRENDENDO SEMPRE

Naquele dia, nos dirigíamos ao Centro de Estudos da Individualidade para as reuniões evangélico-doutrinárias programadas. Nesses encontros, procedíamos à análise de temas do Evangelho de Jesus, de extraordinária importância para nosso aprendizado, quando ficavam evidenciadas as nossas falhas morais e a conseqüente necessidade de crescimento interior com vistas ao progresso espiritual que tanto almejávamos. Após o fenômeno da morte corporal e o inevitável ingresso no além-túmulo, passasse por um período em que o mais importante e inadiável é o reequilíbrio das condições perispirituais, prejudicadas em razão de acidente, ou de enfermidade (como no meu caso, o que me obrigou a enfrentar a grande viagem). Ou ainda, em casos mais sérios, quando o corpo espiritual está profundamente comprometido por ato insano ligado ao suicídio, por exemplo. Nesta hipótese, as seqüelas são gravíssimas, exigindo tratamento especializado, como já foi relatado por Eduardo em outro livro, do qual participamos1. Adaptamo-nos emocional e espiritualmente à nova situação, maravilhados e perplexos com as novidades que nos apresentavam, com a beleza e a grandiosidade do outro mundo, que muitos de nós ignorávamos até aquele momento. E passamos cada vez mais a reverenciar o Criador, compreendendo-lhe a grandeza e a sabedoria, a misericórdia e a justiça. O coração transborda de amor e de gratidão pela bênção da vida eterna; uma sensação inefável de paz e bem-estar nos domina e sentimo-nos reconfortados e seguros. Uma nova visão do futuro nos ilumina a mente e nos dilata as percepções, e a esperança nos infunde alegria e otimismo. A realidade cósmica da imortalidade coloca-nos diante do imperativo de reformular o interior, em face da necessidade de progresso. Após essa primeira fase, já recuperados, nos propomos a servir. Ansiamos trabalhar, fazer alguma coisa de bom, de útil, para as outras criaturas, ajudar o próximo tal qual fomos ajudados. E nos lançamos ao serviço dignificante com disposição e otimismo, cheios de alegria e entusiasmo. Aos poucos, esse estado de euforia passa e retornamos a nossa singela condição, isto é, à de Espíritos imperfeitos, rebeldes, orgulhosos, egoístas, indiferentes, violentos, agressivos, críticos, entre outras coisas. Perplexos, chegamos a uma constatação constrangedora: a morte não nos tornou criaturas melhores. Somos o que somos. Daí a necessidade de nos dedicarmos continuadamente ao estudo do Evangelho de Jesus, como bússola norteadora das mudanças que precisamos implantar, para aquisição de valores morais nobilitantes que nos transformarão em seres mais conscientes e elevados espiritualmente. Em virtude disso, é obrigatória a passagem pelo Centro de Estudos da Individualidade. Nesse departamento são programadas reuniões, palestras e outras atividades com o objetivo de cada um se analisar e exercitar o conhecimento de si mesmo. Nesse dia, estava programada uma explanação em torno do tema Aprimoramento moral. A palestrante, Anita, era nossa conhecida e gozava de grande conceito e admiração. Era uma dama de idade indefinível, fisionomia clara e radiante de ternura, envolta em suave luminosidade. As vestes, que pareciam tecidas com fios cintilantes na cor lilás, realçavam ainda mais sua figura nobre e digna. Quando entrou, o recinto pareceu inundar-se com sua presença. Após a prece inicial, começou a falar. Seus olhos, lúcidos e calmos, passeavam pela assistência, fitando cada um dos presentes e fazendo com que todos se sentissem importantes, o que era sobremodo favorável e propício para a ocasião. Dotada de grandes conhecimentos e de clareza de exposição, as idéias lhe fluíam da mente de forma sintética e pedagógica, facilitando o entendimento por parte da assistência heterogênea. A palestrante mostrou a todos os presentes que as dificuldades e os sofrimentos experimentados são conseqüência da ignorância e do mal que espalhamos no passado, valorizando em excesso o próprio ego, em razão do orgulho e da ambição desmedidos, e de outros comportamentos egoísticos e interesseiros. Enfatizou a necessidade do Conhece-te a ti mesmo. Demonstrou que as nossas imperfeições, estendendo-se através do tempo, nos têm causado desastrosas quedas morais. Que é imprescindível detectar as nossas fraquezas, para centralizar nelas o nosso poder de combate. E ponderou:
- A memória integral do ser pensante, a individualidade do Espírito, encontra-se arquivada cuidadosamente em camadas profundas, podendo ser acessada à medida que ele evolui em moralidade e conhecimento. Atualmente, cada um de vocês possui apenas lembranças da última encarnação, da personalidade que vestiram no tempo e no espaço durante a mais recente experiência reencarnatória, da identidade que assumiram, cujo nome, profissão, características orgânicas, estado civil e outros dados dizem respeito apenas a essa existência determinada. A proporção que se forem descobrindo, refletindo sobre os próprios problemas, o porquê das dificuldades que enfrentaram e suas raízes, as recordações irão aflorando naturalmente. A reflexão acerca de nossos defeitos e a análise do que fatalmente teremos que enfrentar, como conseqüência das nossas atitudes, nos levará a desejar ser melhores. Mas essa é uma conclusão a que cada um terá que chegar com os próprios recursos.
Após uma pausa, prosseguiu:
- O mal é a ausência do Bem. A cada virtude negativa corresponde uma virtude positiva que nos cabe adquirir. Aos poucos, a substituição será feita, com grande benefício para o Espírito. O egoísta vai aprendendo a ser altruísta, o orgulhoso a ser humilde, o agressivo a ser pacífico, e assim por diante.
Concluiu suas palavras afirmando que, apesar de nossos erros fragorosos, novas oportunidades nos serão sempre concedidas por Deus, visando ao nosso progresso como Espíritos imortais a caminho da evolução. Que, no estágio atual de conhecimento e de consciência de que já dispomos, urge aproveitar o tempo para fazer o melhor. Após a palestra, acompanhamos mentalmente a prece de encerramento. Em seguida, sem qualquer protocolo, Anita desceu os degraus que a separavam de nós e se integrou à assistência. Estávamos impressionados. Seu poder de persuasão era enorme, visto que quase todos os presentes se sentiam tocados nas fibras mais profundas. Agora era o momento de trocarmos idéias, aproveitando a oportunidade para conhecer as experiências de cada um, de extrema importância para o nosso aprendizado. Atingidos pelas palavras da expositora, muitos enxugavam os olhos, discretamente, relembrando o próprio caso. Os grupos se formaram naturalmente e os diálogos surgiam, interessantes e ricos em conteúdo. Ao passar por algumas pessoas, ouvi um senhor que, demonstrando infinito remorso, relatava a seus interlocutores:
- No meu caso, o ciúme me arruinou. Conheci minha esposa ainda muito jovem e nos apaixonamos. Todavia, meu ciúme era doentio. Ainda na fase de namoro estava sempre a vigiá-la, cerceando-lhe os passos e exigindo explicações a propósito de tudo. Acreditava, no entanto, que após o casamento as coisas iriam melhorar, o que não aconteceu, pois fiquei ainda mais exigente e desconfiado. Não conseguia me controlar. Até que, não suportando mais, minha esposa foi embora, levando nosso filhinho. Desesperado, então convicto de que ela me enganava com outro homem, fui atrás dela e a matei.
Fez uma pausa, levou o lenço aos olhos e prosseguiu:
- Fui preso, condenado e paguei minha dívida para com a sociedade. Durante muitos anos, amarguei a solidão numa cela. Somente aqui, no além-túmulo, décadas depois, fiquei sabendo a verdade: minha esposa jamais me traíra. Tudo foi engendrado pelo meu cérebro doentio. Perdi a família, perdi a felicidade, perdi a liberdade, perdi tudo. Agora, tento conseguir nova oportunidade para retornar ao corpo físico numa outra encarnação. Para isso, estou me preparando. Recebi orientação para freqüentar este grupo e oro muito a Deus, suplicando uma nova chance. Mas não é fácil... Não é nada fácil vencer a si mesmo...
Em outro grupo, uma senhora de olhos arregalados e vivos, um tanto agitada, dizia:
- O meu problema sempre foi falta de paciência.
- Como assim? - indagou uma velhinha simpática.
- Explico-me. Espírito prático, sempre fui muito exigente com todos os que me rodeavam. Desejava que tudo fosse feito segundo minha vontade. Não tinha paciência com o marido, empregada, amigos, colegas de serviço. Vivia sempre irritada e descontente. Nada conseguia realizar porque, se as coisas não fossem do meu jeito, eu me desentendia com as pessoas e delas me afastava.
Fez uma pausa, deu um longo suspiro e concluiu:
- Reencarnei com uma tarefa que me seria muito gratificante: deveria ajudar crianças desamparadas. Meus compromissos anteriores assim o exigiam. Viria a casar, mas não seria mãe, em virtude de haver abandonado meus filhos em mais de uma existência. Seria, porém, mãe de filhos alheios. Como podem imaginar, retornei sem ter conseguido levar a cabo a programação. Não ajudei meu marido ou as crianças de rua. Irritada e impaciente, desistia de lutar, sempre que um obstáculo surgia, ou que minha vontade era colocada em xeque. Reconheço que perdi a oportunidade apenas por falta de paciência. Hoje, exercito-me, procurando aceitar as pessoas tais quais são e respeitando-lhes o ponto de vista.
Um senhor alto, magro, de óculos, sorriu tristemente e considerou:
- O seu caso, minha irmã, parece-me mais fácil do que o meu. A paciência é algo que exige treino e que se adquire com o tempo. O seu oposto - a impaciência - não chega a provocar tantos sentimentos inferiores. É algo que você não aceita nos outros, mas que é periférico, no meu modesto entender. Já o meu caso é mais complicado porque envolve mágoa, aversão, sentimentos esses muito fortes e negativos.
Pigarreou, arrumou os óculos de aro de tartaruga e começou a narrar:
- Dentre todas as virtudes, penso que a mais difícil de adquirir é o perdão. Quando encarnado, sempre me consideraram pessoa boa, paciente e cordata. Mas o que as pessoas não sabiam é que eu era muito rancoroso. A menor ofensa, à mais ligeira crítica, ficava logo ressentido. Não demonstrava meus sentimentos, entretanto não conseguia perdoar. Esse estado de espírito fez com que eu atravessasse a existência conservando o coração em vinagre. Quando meu filho desencarnou num acidente de moto, fiquei desesperado. Passei a guardar ódio mortal do motorista que o atropelou com o caminhão. Os policiais afirmaram-me que ele não teve culpa: que houve imprudência de meu filho ao tentar cruzar a rua com o sinal vermelho e por dirigir em alta velocidade. Nada disso, porém, me convenceu. Desejava destruir aquele homem que havia assassinado meu filho. O ódio me consumiu. Atravessei o resto da existência perturbado e infeliz, dominado pela presença de minhas vítimas do pretérito, que agora surgiam como algozes, atraídos pelo baixo padrão vibratório em que eu vivia. Vinguei-me do desventurado motorista, fazendo com que perdesse o emprego, e, não contente com isso, vigiava-lhe os passos e o prejudicava sempre que encontrava ocasião.
Alguém perguntou, sensibilizado com o relato:
- E seu filho? Você o tem visto?
- Infelizmente não. Tive algum contato com ele, por generosidade de amigos espirituais, após readquirir um certo equilíbrio, o que não foi fácil. Mas não pudemos ficar juntos. Desde que aqui chegou, meu filho evoluiu muito, espiritual e moralmente, enquanto que eu passei os últimos cinqüenta anos entregue à revolta, vinte dos quais no plano espiritual. Após a morte do corpo físico, ainda prossegui com as idéias de rancor, ligando-me a um bando de vingadores e tentando prejudicar o pobre caminhoneiro. Atualmente, fui informado de que meu filho está se preparando para reencarnar na família dele. Como seu neto, tentará reparar o mal que lhe causei. Estávamos impressionados. Cada pessoa ali presente era um mundo diferente e único; suas lembranças nos traziam valiosos conhecimentos, além de nos esclarecerem sobre a importância de dominarmos as próprias inferioridades.
Ouvindo esses relatos, pensávamos em nossos problemas. O que teria determinado a nossa queda? Ou o que estaria nos detendo no caminho evolutivo? Essas perguntas teríamos que responder a nós mesmos. Buscar nos recônditos do ser, desentranhar sentimentos e sensações - aversões, medos, angústias, traumas - para restaurarmos a nossa identidade espiritual, a qual, como uma colcha de retalhos, tivesse de ser montada, juntando-se os pedaços à feição de um quebra-cabeças. Esse é o nosso desafio. Aliás, o desafio de todas as criaturas humanas, Espíritos eternos e aprendizes na escola da vida.

1 - Referência ao livro "Preciso de Ajuda!" , da autoria espiritual de Eduardo, publicação desta Editora.

2 - REFLEXÕES

As palavras da irmã Anita ficaram a martelar-me a mente. Profundamente impressionado, não conseguia esquecê-las. Nossa orientadora tinha razão. Era preciso mergulhar no passado, buscar nos refolhos da memória os fatos de que tínhamos participado, analisar o porque de nossas dificuldades e dos sofrimentos que experimentáramos. De regresso ao nosso abrigo, ouvia as conversas dos amigos sem qualquer interesse. Irineuzinho - assim chamado para estabelecer diferença deste para outro amigo com o mesmo nome - caminhava a meu lado.
- Você está muito calado hoje, César.
- É o peso da responsabilidade! - brinquei.
Ele riu. Com as mãos nos bolsos, olhou o céu limpo e estrelado, considerando:
- Compreendo seu estado de espírito. À medida que a orientadora Anita falava, comecei a pensar em meu caso. Passei a sentir uma certa angústia, o coração apertado, como se o medo de alguma coisa que ignoro, e que possa vir a descobrir, me tomasse de assalto.
- É, Irineuzinho, são os nossos fantasmas. Conquanto não nos lembremos da nossa história, permanecendo o passado sob o véu do esquecimento, nossa individualidade intuitivamente sabe e teme que os seus erros sejam descobertos.
- Acho que é isso mesmo, César. Então, num processo inconsciente de fuga, age como qualquer infrator apavorado tenta esconder o que fez.
Permanecemos calados durante alguns minutos, cada qual mergulhado nos próprios pensamentos. Em seguida, ele voltou a perguntar:
- César, você tem alguma noção do seu passado?
Naquele momento lembrei-me de Sheila2. Da minha muito querida Sheila. Suspirei. Sempre que nossas atividades permitem, visitamos amigos na crosta planetária, acompanhando suas vidas e procurando ajudar na medida do possível. Uma das famílias que temos o hábito de rever, periodicamente, é a de Sheila. Atualmente ela tem outro nome, mas vamos continuar a chamá-la assim. Desenvolve-se como uma flor. É uma garotinha esperta, meiga e de olhos grandes e melancólicos; tem os cabelos claros, que caem até o pescoço em cachos largos e macios. Está na primeira infância. Sempre que dela nos aproximamos, ela percebe a nossa presença e sorri. É o mesmo sorriso encantador de sempre. Todavia, tem o aspecto de uma criança triste, mesmo quando sorri. Quando dorme e seu Espírito se desprende do corpo, corre ao nosso encontro, ansiosa, e chora de saudade. Por essa razão, evitamos que Sheila nos veja. Especialmente eu, ligado a ela por profundos laços de afeto. É imprescindível deixar que ela cresça, que se desenvolva normalmente, que crie raízes na nova vida e que vá se esquecendo, aos poucos, dos amigos da Espiritualidade, para que possa ser feliz. Isso acontecerá fatalmente com o decorrer do tempo. À medida que o corpo se desenvolve, a encarnação vai sendo consolidada e o Espírito passa a interessar-se mais pela nova existência. Perde paulatinamente o contato com o mundo espiritual e esquece a vida que levava antes, processo que perdurará até que a reencarnação seja completada. Entre os motivos que muitas vezes levam a criatura à tentativa de suicídio, está exatamente o desejo de retornar ao plano espiritual, a saudade do mundo que deixou e, não raro, o medo de enfrentar a nova vida. Conforme a natureza das provas que o Espírito tenha de passar, intuitivamente ele se lembra e se atemoriza, podendo ressentir-se de estar numa família que não é a sua, junto com pessoas com as quais não tem afinidade, e luta para regressar ao lugar de onde veio e onde era feliz. Especialmente na fase infantil, é preciso muito cuidado da parte de pais e educadores. A depressão que ataca as crianças apresenta com freqüência essa causa. A adaptação à nova vida não é fácil e o Espírito reage contra essa situação. Mesmo porque ele não ignora as dificuldades, problemas e sofrimentos que irá enfrentar, e tenta fugir. Não tem outra razão a melancolia que domina crianças e adolescentes. Saudades da vida que deixaram para trás, dos amigos e familiares que ficaram, da felicidade e do bem-estar que gozavam, e dos quais recordam um. Tudo isso me passou rápido pela mente após ouvir a pergunta do amigo: César, você tem alguma noção do seu passado? Virei-me e vi que Irineuzinho esperava, paciente, uma resposta.
- Alguma coisa. Somente alguma coisa.
- Compreendo - disse ele, percebendo que tinha tocado num ponto ainda muito doloroso para mim.
Irineuzinho chegou a Céu Azul depois que o livro, com o mesmo nome, fora ditado. Veio do Posto de Socorro Redenção, onde permanecera durante alguns anos, atraído por seus avós, que lá residiam. Embora tivesse lido o livro, somente agora se lembrava do episódio em que narrei a ida ao Setor de Programação de Renascimentos e as conseqüentes informações.
- Você já sabe um pouco do seu passado, e isso é muito bom - disse ele. Depois de uma pausa, acrescentou: - Eu não tenho nem idéia do que andei aprontando! Contudo - sempre penso nisso! -, não foi à toa que eu e o Padilha desencarnamos, tão jovens, num acidente!3
Uma voz alegre e curiosa soou atrás de nós, enquanto alguém colocava as mãos em nossos ombros:
- Estão falando de mim?
Irineuzinho o colocou a par do que falávamos e Padilha tornou-se sério de repente:
- Acham que também não tenho quebrado a cabeça pensando nisso? Vezes sem conta tenho rebuscado na memória uma explicação para o que nos aconteceu. Mas não quero ser ingrato para com Deus. A verdade é que tudo tem uma razão de ser, e, algum dia, saberemos o porquê.
Estávamos chegando a nossa casa. Irineuzinho, Padilha, Márcio Alberto4, Paulo e outros prosseguiriam, pois seus Abrigos estavam localizados um pouco mais adiante. Despedimo-nos fraternalmente e entramos. Todos estávamos calados e introspectivos. Diferentemente de outros dias, não tivemos vontade de ficar conversando em nossa varanda. Mesmo porque já era tarde. Após uma prece em conjunto, nos recolhemos. Estirado no leito, relaxado, deixei que a mente planasse livre e os pensamentos fluíssem naturalmente. A memória buscou o lar terreno e me lembrei da época em que ainda estava encarnado. Embora estivesse muito longe da Terra e da minha cidade natal, parecia-me penetrar o ambiente simples e despojado de nossa casa; ao meu olfato chegava o cheiro característico de comida sendo preparada na cozinha. A presença de minha mãe, sempre terna e carinhosa, e do meu paizão, alto e magro como uma vara de pescar. Coisas de há muito esquecidas vinham-me à lembrança. Suspirei, enxugando uma lágrima. À época, eu era feliz e não sabia... Lembrei-me dos primeiros sintomas da doença. A dor no joelho, enjoada e insistente; leve no início, depois vigorosa e constante. Uma presença indesejável da qual eu não conseguia me libertar. Revia-me na cama, com a perna enorme, desproporcional, enquanto a dor, aquela dor terrível, não me dava tréguas. Por que tanto sofrimento? Reconheço que Deus é justo e que nada acontece por acaso. Sei que mereci passar por aquela situação. Dolorosa, mas de função altamente pedagógica, educativa. A nossa querida irmã Anita tinha dito que deveríamos refletir sobre tudo o que acontecera conosco, para que, aos poucos, pudéssemos retirar das camadas mais profundas as matrizes dos nossos sofrimentos. Taí uma coisa que pra mim era fundamental: descobrir as razões da expiação que experimentei na última romagem terrena. Recordei-me de que, durante a minha doença, alguns irmãozinhos desencarnados permaneciam no ambiente de nosso lar, convivendo conosco, participando de nossas vidas e causando perturbações de vulto. Lembrei-me também de que, na época, foram feitas reuniões mediúnicas no grupo que meus pais freqüentavam, na tentativa de auxiliar esses irmãos revoltados e que tanto me odiavam. No escuro, levei a mão à cabeça. Como pude ter esquecido isso? Estava perplexo! Somente agora essas lembranças me afloravam à mente. Mas, por que eles me odiavam tanto? O que fizera eu para atrair tanto rancor? Por mais que consultasse a memória, não conseguia me lembrar. O que fazer? Agora sentia uma urgência íntima, uma necessidade premente de descobrir o que se escondia no meu passado. Depois de muito pensar, decidi: na manhã seguinte, procuraria os amigos que me acompanharam durante o período em que estivera enfermo e que tanto me ajudaram. Certamente eles teriam respostas para essas indagações. Somente depois dessa resolução, consegui dormir. Não tinha percebido o avanço das horas. O dia não tardaria a chegar. As primeiras claridades da aurora surgiam e as estrelas, aos poucos, se apagavam. Amanhecia.

1 - Irineu Schoereder, de Rolândia (PR).
2 - Referência a personagem do livro "Céu Azul", do mesmo autor.
3 - Referência ao acidente que causou a morte física de Irineu Schoereder e Carlos Alberto Padilha. Também de Rolândia (PR).
4 - Márcio Alberto Ramires, de Rolândia (PR).

3 - O SONHO

Tão logo adormeci, reconheci-me em um lugar diferente. A princípio, uma bruma azulada cobria tudo; lentamente, a névoa se foi dissolvendo e, aos poucos, imagens foram surgindo de forma tênue e esfumaçada. Eu não saberia dizer se elas eram produto da minha mente ou se eram realidade. Então, vi uma aldeia em meio a bela região montanhosa, cercada de vegetação luxuriante. Frondosas árvores criavam efeitos de luz e sombra sob os raios do sol, contrastando com o azul profundo de um céu sem nuvens, enquanto flores de colorido variado e vibrante faziam com que a visão se assemelhasse a um encantador cartão-postal. Estava embevecido na contemplação daquelas imagens, que, embora contivessem tanta tranqüilidade, me davam uma certa angústia. Não saberia dizer a razão da ansiedade e do medo que me tomavam de assalto, fazendo com que o coração batesse forte. Logo entendi o porquê. Repentinamente, aquela paz bucólica foi quebrada por movimentação extraordinária. Brados de guerra, agudos e estridentes, soaram, enquanto o ruído de um grupo de cavaleiros que se aproximava em disparada fazia com que o solo trepidasse sob os cascos dos cavalos. Pressentindo o perigo, os pacatos habitantes da formosa aldeia corriam, desnorteados, tentando fugir e se esconder. Conquanto sentissem a urgência da fuga, não sabiam que rumo tomar. Nesse momento, um grupo de guerreiros, rudes e sanguinários, surgiu de todos os lados impedindo a fuga. Portando tochas, que exalavam odor acre e resinoso, atearam fogo nas taperas, transformando tudo num imenso fogaréu, enquanto outros passavam pelo fio da espada todos os homens, mulheres e crianças. Ninguém da aldeia se salvou. Não pouparam nem mesmo os animais, que lhes poderiam ser de alguma utilidade. E eu fazia parte dessa tragédia; naquela hora, eu estava ali e senti todo o horror e angústia junto com terrível sensação de impotência diante dessa agressão inominável. Lutei bravamente tentando proteger meu povo, mas os invasores, mais adestrados, estavam em maior número. Além disso, éramos apenas uma tribo pacífica, que aprendera a cultivar a terra e a sobreviver dos frutos que ela nos dava. Quando caí mortalmente ferido, tentava defender uma jovem loura e frágil a quem amava e que fora o motivo pelo qual os bárbaros tinham invadido nossas terras e destruído tudo. Um ódio profundo passou a dominar-me o coração e jurei vingar-me daquele chefe guerreiro que tanto mal havia causado às nossas vidas. Despertei indisposto e cansado. Somente então percebi que sonhara. Tudo me parecera tão real que senti ter vivido naquela bucólica aldeia perdida entre as montanhas. Mas, teria realmente acontecido tudo aquilo que eu presenciara, ou fora apenas um sonho? A razão afirmava-me que sim, que tivera lembrança de fatos acontecidos num passado distante. Agora, mais do que nunca, precisava procurar alguém que pudesse me esclarecer. Estava de folga e me lembrei de buscar ajuda com o assistente Matheus, criatura boníssima e com quem tinha grande afinidade. Muitas vezes eu o tinha visto em meu quarto de doente, quando encarnado. Portanto, deveria estar bem informado. Contei a Eduardo o que tinha em mente.
- Ótima idéia, César. Se quiser, posso acompanhá-lo. Também estou de folga esta manhã.
Aceitei o oferecimento. Mesmo porque Eduardo e Marcelo, meus amigos mais íntimos, também tinham acompanhado meu processo terminal na vida física. Caminhamos pelas ruas, bastante movimentadas àquela hora, quando os moradores da Pequena Cidade se dirigiam para seus locais de trabalho. Em poucos minutos nos aproximamos de um prédio baixo e comprido, em meio de extenso e bem cuidado jardim. Tudo me era muito familiar. Entramos. Atravessamos extensos corredores, cheios de portas, algumas abertas, o que nos permitia ver, ao fundo, o verde do jardim e sentir a brisa que entrava pelas amplas janelas. Logo chegamos à sala de Matheus. Admitidos à sua presença, fomos recebidos com largo sorriso:
- Estou muito contente em vê-los. Mas, o que os trouxe aqui tão cedo? Posso ser útil em alguma coisa?
Incentivado pelo amigo, não relutei em contar-lhe o que estava acontecendo comigo. Falei-lhe sobre as reflexões a que me entregara, como conseqüência das palavras da instrutora Anita. Relatei-lhe o sonho que tivera e que tanto me impressionara. Depois, concluí, ansioso:
- Matheus, você acompanhou meu período terminal de vida orgânica. Certamente sabe muitas coisas a meu respeito, que ignoro. Diga-me, será verdade tudo isso?
Com expressão grave, mas afetuosa, ele confirmou:
- Sem dúvida, César Augusto. Ao adormecer, com a mente preocupada, você liberou lembranças de vivências antigas e que muito lhe marcaram o Espírito.
- É verdade, Matheus. Aquelas cenas me chocaram bastante. Porém, o que me impressionou sobremaneira foi o ódio que senti daquele guerreiro. Jamais imaginei que, no atual estágio em que me encontro, pudesse ainda experimentar sentimentos tão violentos por alguém!...
Eduardo, que ouvia calado, considerou:
- Você não deve se preocupar com isso. É que, durante o sonho, você voltou àquele momento específico em que o drama estava ocorrendo, vivenciando a carga de emoções correspondente. Isso não significa que você ainda odeie aquele homem.
- Foi horrível! Ver a aldeia em chamas, os moradores correndo de um lado para o outro, tentando escapar dos invasores... E eu sem poder fazer nada. Ainda sinto o cheiro de fumaça e de carne queimada.
Matheus e Eduardo concordaram em que a experiência deveria ter sido muito dura, mas proveitosa. Eu, porém, refletia: Mas, se fui o agredido àquela época, porque desencarnei na última existência em condições tão dolorosas?
- Porque existem outros fatos que você desconhece. Após essa tragédia que tanto o abalou, ocorrida em época que se perde no tempo, vocês se encontraram outras vezes, conservando o mesmo ódio mortal um pelo outro. O que estava, num dado momento, em melhor posição, esmagava o adversário. Depois, a situação se invertia, e a agressividade e o ódio continuavam, num círculo vicioso e infindável - explicou Matheus.
- Verdade? Que coisa horrível é o passado! É como se isso tudo tivesse acontecido com outra pessoa, não comigo. Não me recordo de nada. Poderia ter acesso a essas lembranças? -indaguei, interessado.
- Acredito que não haja problema. Em geral, só permitimos o acesso aos arquivos em ocasiões de extrema necessidade...
- Como foi o caso da Sheila... - lembrei.
- Exatamente - concordou ele. - Ou quando o interessado começa a lembrar-se espontaneamente do passado, como é o seu caso. Isto significa que você já está despertando para o conhecimento da memória integral e em condições de obter mais informações.
- Será possível, então? Quando poderemos fazer isso?
Vendo meu estado de ansiosa expectativa, Matheus sorriu:
- Calma, César Augusto. Que tal amanhã cedo?
- Estarei de serviço amanhã - respondi, com uma ponta de decepção na voz.
- Não se preocupe. Falarei pessoalmente com seu superior no hospital e pedirei para liberá-lo, designando um substituto. Esteja aqui às sete horas.
Despedimo-nos. Externei agradecimentos ao generoso amigo, que nunca tinha deixado de nos socorrer. Abracei-o com carinho. Era incrível como tinha gostado dele desde o primeiro momento em que nos vimos em Céu Azul'. Uma sensação que não sabia explicar me tomava de assalto o coração: Matheus me parecia um misto de pai e amigo, de irmão e companheiro. O bondoso assistente olhou para mim e sorriu misteriosamente. Compreendi que ele sabia o que me ia na alma e não ignorava os laços que nos uniam. Quando, junto com Eduardo, deixamos a sala, eu estava sensibilizado até as lágrimas. Caminhamos um pouco pelas ruas e depois nos sentamos num banco de bela praça florida. Eduardo me olhava de forma muito especial. Colocou-me a mão no ombro e considerou:
- O contato com o passado é sempre emocionante e inesquecível, César. Todos temos que passar por isso.
- Você já conseguiu?
- Em parte. Sempre nos mostram o necessário para nosso aprendizado e crescimento íntimo. Não estamos ainda em condições de suportar tudo.
Alguma coisa em mim despertou. Olhei-o de frente:
- Você está a par de meu passado, não é? Estava sempre em casa conosco, Eduardo, e certamente deve ter presenciado muita coisa.
Pesando bem as palavras, ele concordou:
- Um pouco.
- Por que não me disse? - reclamei, como a criança que se sente traída pelo melhor amigo.
- Porque não estava na hora de você saber. Além disso, não cabia a mim relatar nada. Tudo tem seu tempo certo.
- Compreendo...
No fundo, porém, eu estava um pouquinho magoado, como alguém que não compartilha de um segredo, quando outros o conhecem. Porém, mais no fundo ainda, sabia que ele tinha razão e que agiu corretamente. Levantamo-nos do banco e prosseguimos de retorno à nossa casa. O resto do dia não consegui concentrar-me em nenhuma atividade, só esperando que chegasse logo a manhã seguinte.

1 - Nessa ocasião, ainda não me lembrava de detalhes da época em que permaneci no leito, quando encarnado. Posteriormente vim a identificá-lo como alguém que me visitava regularmente.

4 - ENFRENTANDO A VERDADE

Levantei-me bem cedo e me pus a caminho. Estava tenso e preocupado. Chegando à sala de Matheus, o amigo percebeu de imediato meu estado de espírito e sugeriu:
- Quer deixar para outra ocasião?
- Absolutamente! - redargüi. – Nem pensar! Estou ansioso demais para suportar por mais tempo essa tortura.
- Não dramatize, César Augusto. Sua situação é imensamente melhor e mais confortável do que a de muita gente, com a graça de Deus. - disse-me ele, completando:
- Além disso, não conseguirá atingir seu objetivo de recuar no tempo se não estiver em condições de perfeito equilíbrio.
- Compreendo. Desculpe-me, Matheus. Por favor, não me negue essa oportunidade. Tentarei me controlar - supliquei.
- Muito bem. Então, vamos.
Conduziu-me para um outro prédio, distante algumas centenas de metros. Durante o percurso íamos conversando e, aos poucos, fui-me tranqüilizando. Quando lá chegamos, meu estado íntimo era outro. Estava bem melhor. Certamente, a presença de Matheus, as vibrações que ele exteriorizava e sua conversa serena e amiga foram decisivas para o meu equilíbrio. Entramos. O orientador conversou com um dos servidores desse departamento, e, alguns minutos depois, fomos introduzidos numa pequena sala de projeções. Na frente, uma grande tela translúcida, algo leitosa, ocupava toda a parede fronteiriça. Algumas poltronas confortáveis, postadas simetricamente, destinavam-se à assistência. Sentamo-nos. Antes de começar a projeção, Matheus convidou-me ao serviço da oração, o que fizemos com singeleza. Depois, olhando-me com seriedade, explicou:
- César, procure manter-se tranqüilo. Caso você se emocione além da conta, a tela se apagará automaticamente e só voltará a acender quando você estiver equilibrado. Entendeu?
Não conseguia falar. Com leve gesto de cabeça, fiz menção de ter entendido. Matheus apertou um botão ao lado da poltrona, que eu não notara, e percebi que era uma ordem para começar a projeção. A tela iluminou-se e imagens surgiram como se tivessem vida própria. Já tive ocasião de descrever esse processo de cinematografia no mundo espiritual. É um fenômeno indescritível! As imagens movimentam-se em várias dimensões, e o espectador tem a oportunidade de vivenciar o que está assistindo, inclusive de perceber as impressões dos personagens, as sensações de frio ou de calor do momento, a liquidez da água que escorre por entre os dedos, os odores existentes no ambiente e até sentir o vento, forte e impetuoso, ou a brisa fresca e suave que passa acariciando a pele. Mas vai além. Podem-se registrar também os sentimentos e as idéias das figuras envolvidas, bem como a psicosfera da cena, que, não raro, assinala a presença de desencarnados atuando de modo decisivo nas atitudes dos participantes encarnados. A tela mostrava uma grande cidade antiga, com prédios de telhados planos, templos suntuosos, monumentos. Nas ruas, calçadas com pedras, o trânsito era intenso; pessoas com a vestimenta própria dos escravos carregavam grandes cestos de verduras, peixes e outros gêneros alimentícios. Liteiras luxuosas, sustentadas por quatro, às vezes seis, escravos negros e musculosos, trafegavam, deixando ver seus ocupantes através das cortinas descerradas: mulheres bem vestidas, rostos pintados em excesso, fisionomias fúteis e vulgares; homens trajando elegantes togas fitavam o populacho com arrogância e desprezo. Soldados em grupos, com seus uniformes vermelhos e dourados, metais reluzindo ao sol, cavalgavam belos animais, conversando despreocupados. Enquanto atravessavam a cidade. Criaturas sujas e esfomeadas, quase sempre escorraçadas pelos soldados, mendigavam uma moeda ou um pouco de comida. Com emoção, compreendi que se tratava de Roma, a Cidade das Sete Colinas. Caminhando pelas ruas, passamos pelo mercado, onde o movimento era ainda mais intenso e os mercadores apregoavam suas mercadorias em altos brados, oferecendo-as aos transeuntes. Entrando numa rua menos movimentada, começamos a subir uma colina. Um pouco além, à nossa frente surgiu uma grande mansão, em mármore branco, imensa e muito luxuosa. Adentramos seu interior, onde escravos se entretinham com as ocupações domésticas. No triclínio, alguns personagens conversavam, recostados nos leitos. Falavam sobre os jogos, evento muito concorrido, que teriam início dentro de alguns dias. O dono da casa, um jovem centurião forte e arrogante, dizia:
- Vou acabar com ele. Não há melhor momento do que na corrida de bigas. Estou informado de que Múncio também irá participar. Desta vez ele não me escapará. Aurélia Regina será minha de qualquer maneira.
Os dois amigos que ali estavam o incentivavam, enquanto levavam as taças à boca, sorvendo grandes goles de vinho. Um deles era Horácio, cliente da casa, ali residindo há algum tempo e dependente da generosidade do anfitrião, visto ser pobre e não ter meios de sustentar seu dispendioso estilo de vida, O outro, Isidoro, era rapaz de família patrícia, abastado, mas igualmente amante dos prazeres, levando existência desregrada e dissoluta, sem qualquer compromisso com a verdade e a justiça.
- Isso mesmo, Gúbio. Acaba com ele. Esse miserável não merece viver. Além disso, terás um prêmio: a doce e bela Aurélia Regina. Nada mal, hein?...
Fiquei muito emocionado. Observando melhor, reconheci-me naquele centurião a quem chamavam de Gúbio. A comoção foi tanta que a tela se apagou. Matheus aguardou pacientemente que eu readquirisse o controle das emoções para recomeçar a projeção. O cenário tinha mudado por completo. Desta vez, a cena que surgiu a nossos olhos focalizava um banquete na residência daquela de quem já ouvíramos falar - Aurélia Regina. Tratava-se de uma jovem bela e sedutora, pertencente a uma classe inferior e de moral bastante duvidosa, mas que atraíra a atenção dos dois rapazes, fazendo com que a animosidade surgisse entre ambos. Vendo a jovem, imediatamente a reconheci. Era a mesma moça loira que eu amava e que vira em sonhos, a razão do ataque inimigo à nossa aldeia. Emocionado, estava imerso na contemplação daquela que eu revia depois de longo tempo, quando deu entrada no recinto meu rival, Múncio, acompanhado de dois amigos. Aproximou-se de mim e o ódio me dominou o coração. Apesar de cobiçarmos a mesma mulher, mantínhamos relacionamento amigável e ele ignorava até que ponto eu o detestava. Conversamos, e Múncio provocou-me, afirmando que eu não estava preparado e, portanto, não teria condições de vencê-lo nas corridas. Irritado, retruquei, levando a mão ao punhal que trazia preso à cintura, escondido entre as dobras da vestimenta:
- Tenho confiança em minhas habilidades. Mas, se é o que pensa, façamos uma aposta para ver quem de nós dois é o melhor.
Os demais convidados acercaram-se, interessados. As apostas eram sempre muito apreciadas em Roma.
- Aceito! - concordou ele. - Qual será o valor da aposta? Cem... Duzentas moedas de ouro?
Fingi desinteresse.
- Quinhentas, então? - insistiu.
- Dinheiro? Não!... Não me interessa. Já o possuo em quantidade - respondi com desprezo.
- Então, escolha você o prêmio para o vencedor. Aceito qualquer aposta.
Passei os olhos pela sala, com displicência. Ao deparar com a figura de minha amada, que, como os demais, acompanhava a cena, divertida com a disputa, sugeri:
- Aurélia! Sim, Aurélia Regina será o prêmio para o vencedor!
Múncio corou ao perceber a minha intenção, mas concordou:
- Aceito.
Com sorriso irônico, a fogosa Aurélia exclamou:
- Eu?!... Ora, sinto-me lisonjeada por ser assim disputada por dois dos melhores partidos da nossa cidade. Sim, é uma boa idéia. Desse modo, resolveremos de vez esta questão. Já que não consigo decidir-me definitivamente por nenhum dos dois, deposito em suas mãos a solução do problema.
E, apanhando de mesa próxima imensa bandeja de estanho, cheia de saladas, ali deixada por um escravo, despejou todo o seu conteúdo no chão. Depois, para surpresa geral, sentou-se sobre ela, afirmando com orgulho e determinação, enquanto soltava larga e sarcástica risada:
- Muito bem! Aceito ser o prêmio da aposta. Ficarei com o vencedor!
Palmas e gargalhadas estrugiram de todos os lados, pela atitude bem-humorada da anfitriã. Entre os opositores, porém, a tensão aumentara de forma perigosa. Novamente o cenário mudou. Desta vez surgiu o Grande Circo. Estava completamente lotado e o populacho aguardava impaciente o início dos jogos. Algumas disputas preliminares e de menor importância abriram os festejos. Mas todos aguardavam a corrida de quadrigas, ponto alto do dia. Finalmente, chegou o nosso grande momento. Continha-mos com dificuldade os cavalos, frementes de impaciência, como nós mesmos. Dada a ordem, levamos os veículos para o local determinado, no centro da pista. Outros dez competidores disputariam conosco a honra de ser o vencedor da corrida. Ao sinal, fustigando os cavalos, partimos em vertiginosa carreira. Uma nuvem de poeira amarela levantou-se do chão, impedindo uma perfeita visibilidade. Sob os aplausos e as vaias do público, aos poucos os competidores foram deixando a arena em virtude de desarranjos nos carros, ou de acidentes, quase sempre fatais, quando o corredor não conseguia deixar imediatamente a pista, sendo atropelado pelos veículos em alta velocidade. Éramos poucos àquela altura. Numa das curvas, vi meu adversário, Múncio, que, tentando livrar-se de um outro competidor que avançava firme pela direita, levantou o braço que segurava o chicote, procurando atingir-lhe o rosto. Todavia, a ponta do chicote prendeu-se na roda da quadriga; Múncio foi arremessado para fora do carro e arrastado no solo em meio à poeira dourada. Múncio estava perdido. Definitivamente fora do páreo, não ganharia mais a corrida. Exultei! Entretanto, naquele momento, o ódio falou mais alto. Vendo-o ser arrastado na arena pelo carro em disparada, veio-me o desejo insano de trucidá-lo de vez. Chicoteei os cavalos e avancei em maior velocidade ainda. Nesse instante, o chicote de Múncio se soltou da roda em que estava preso e ele rolou pelo solo, todo ensangüentado. Com sorriso satânico no rosto, aproveitei a oportunidade que o destino me reservava e avancei sobre ele, fazendo com que a roda lhe esmagasse a perna. Eu não precisava disso; meu inimigo estava vencido. Muito machucado, a pele em carne viva, sofrera fraturas graves e provavelmente não resistiria aos ferimentos. Mas, vingativo e cruel, eu ainda não estava contente. Desejava matá-lo com minhas próprias mãos. Só assim ficaria tranqüilo. Ganhei a corrida. Aurélia Regina cumpriu sua parte no acordo, ficando comigo. Ninguém me culpou pela morte do rival. Todos os que assistiram à competição acreditaram que foi uma fatalidade e que eu não conseguira desviar o carro a tempo. Naturalmente, deixei que continuassem pensando dessa forma. A consciência, porém, não me dava paz. Continuava a ver a expressão de pavor com que Múncio me fitou na hora extrema, ao tempo em que seus olhos me suplicavam piedade. Nunca fui feliz. Aurélia Regina, mulher sem escrúpulos e de vida depravada, arrastou-me para uma derrocada moral sem precedentes. Ao retornar à Espiritualidade, sofri muito, por longo tempo, assediado por inimigos ferrenhos, inclusive Múncio, que não me perdoava pelo crime cometido. Dezenas de anos depois, fui recolhido por generosos amigos espirituais, já cansado de tanta luta e de tanta miséria. Lembrei-me de minha mãe e supliquei sua ajuda. O socorro não tardou e levaram-me para um local de refazimento e assistência, em que pude analisar melhor meus atos e repensar minhas atitudes. Nesse ponto, a tela apagou-se. Chorei. Chorei muito. A verdade sobre o nosso passado é dura e inflexível. Porém necessária. Desse dia em diante, teria um farto material para reflexões.

1 - Referência ao livro "Céu Azul" de sua autoria.

5 - NOVAS ATIVIDADES

Caminhamos, eu e Matheus, pelas ruas até uma convidativa praça. Trazia mil indagações na cabeça. Certa vez alguém me disse que eu tinha muitos inimigos, mas foi uma informação vaga, que, na época, não estava em condições de assimilar. Agora, porém, era diferente. O desafeto tinha um rosto e um nome: Múncio. Sentamo-nos num banco e fiz a pergunta que me queimava a língua:
- Matheus, onde está Múncio agora? Sinto que preciso encontrá-lo para pedir-lhe perdão. No atual estágio em que me encontro, não posso continuar conservando inimizades.
- Sem dúvida, César Augusto. Todavia, tudo vem a seu tempo. Quando ambos estiverem preparados para enfrentar essa prova, a ocasião surgirá. Tenha paciência. Tudo acontecerá de maneira casual.
- E você sabe onde ele se encontra?
- Sei.
- Mas não me dirá...
- Não. Entenda, não seria conveniente, nem para você nem para ele. Ambos precisam de tempo para refletir. Além disso, César, você foi informado apenas de uma circunstância. Em nossa vida de Espíritos em evolução, tivemos múltiplas experiências e um número considerável de afetos e desafetos. Portanto, ainda terá muitas surpresas, acredite! Você conseguiu saber apenas o que era necessário ao seu aprendizado atual.
- Compreendo. Então, se esta é uma parcela mínima de minhas lembranças, e a que eu tive condição de suportar no momento, nem quero saber o que me aguarda o futuro! - exclamei.
Matheus deu uma sonora risada. Depois, tranqüilizou-me:
- Meu amigo, não se aflija nem sofra por antecipação! Tudo é sábio e misericordioso na obra de Deus. O que tiver que acontecer, acontecerá sem traumas, da melhor maneira possível. Jesus vela por nós.
Levantou-se, considerando findo o nosso encontro, que, a bem da verdade, se estendera por longo tempo:
- Agora, vamos andando. Ambos temos compromissos inadiáveis.
- Tem razão! Lamento ter-lhe tomado tanto tempo, Matheus. É que precisava muito trocar idéias com alguém.
O amigo abraçou-me com carinho e despediu-se:
- Procure não pensar muito no assunto. Você já teve lições de sobra por hoje.
Separamo-nos e voltei à nossa casa. Ninguém havia chegado ainda e, assim, pude desfrutar da solidão, rememorando tudo o que tinha visto naquela manhã. Os pensamentos pululavam na mente: Teria Múncio o mesmo rosto? Certamente não, visto que tivera outras existências posteriores. Usaria o mesmo nome? Provavelmente não, pela mesma razão. Mas, então como eu o reconheceria? Qual seria sua condição espiritual hoje? Teria me perdoado ou ainda conservaria mágoa? E Aurélia Regina, por onde andaria? Desencarnada, habitando a Espiritualidade como eu, ou na Terra, mergulhada num corpo denso? Que sentimento teria eu por ela, caso a reencontrasse? Voltaria a sentir o despertar do amor? Isso me fez lembrar de Sheila, a quem eu amava do fundo do coração. Estava respondida a minha pergunta: não, absolutamente, não! Aurélia Regina não despertaria em mim os mesmos sentimentos de amor, visto que meu coração já se achava ocupado por outra pessoa. Alguém que, no momento, estava encarnado, que era apenas uma criança, mas a quem eu dedicava um profundo e enternecido amor. Essas cogitações me deram um nó na cabeça, deixando-me confuso. Felizmente, os companheiros começaram a chegar e procurei me distrair um pouco. Na parte da tarde demandei o hospital, reassumindo minhas funções após a folga. Achei excelente! Lá, não teria tempo para pensar em minha própria vida. O serviço era muito e poucos os atendentes. Depois, teria minha cota de participação no auxílio aos suicidas em potencial. Não quis apartar-me desse trabalho, como muitos outros fizeram, e por isso continuava dando atendimento, mesmo após terminado o estágio. Era uma área bastante cansativa, que exigia grande responsabilidade, mas extremamente gratificante. Também participava de cursos e palestras, sempre que possível, procurando instruir-me cada vez mais. Além disso, freqüentava o Centro de Estudos da Individualidade e cumpria com regularidade meu compromisso com a Sociedade Espírita Maria de Nazaré, em especial com o grupo mediúnico das terças-feiras. Assim, não me sobrava muito tempo para pensar em outras coisas, o que era ótimo. Durante alguns dias, ainda me ocupei com perplexidade das lembranças do passado; com o passar do tempo, porém, elas se foram apagando e a vida retornou ao ritmo normal. Nas reuniões subseqüentes do Centro de Estudos da Individualidade, fiquei sabendo que, como eu, outras pessoas tinham conseguido também resgatar acontecimentos pretéritos de grande importância para suas vidas. Trocamos idéias, cada qual contou suas experiências, fazendo com que todos, sem exceção, se emocionassem. Aqueles que ainda não tinham tido janelas para o passado ouviam preocupados e com uma certa dose de frustração, aguardando, ansiosos, o seu próprio momento de descoberta da verdade. Nossa instrutora, irmã Anita, alertou-nos para as conseqüências desses fatos:
- Como já temos conversado anteriormente, não foi à toa que muitos de vocês tiveram certas áreas desbloqueadas. Isto significa que estão prontos para enfrentar a verdade, assumindo a responsabilidade pelos atos praticados e, especialmente, utilizando esses conhecimentos para eliminar as próprias imperfeições, deixando de lado o homem velho para que a criatura renovada possa surgir, consoante o ensinamento do Mestre.
Fez uma pausa e, observando cada um de nós, prosseguiu:
- Entre os que passaram por essas experiências, todos, sem exceção, tiveram a oportunidade de notar falhas em sua individualidade, nas quais deverão concentrar seus esforços de regeneração. Analisem bem. Reflitam sobre todas as variáveis, sobre seus comportamentos e atitudes, e chegarão a importantes conclusões. Mesmo aqueles que não foram beneficiados por essas lembranças poderão, examinando sua última encarnação, dela extrair excelentes lições.
Um senhor de idade madura, algo obeso, de expressão amargurada, falou:
- Irmã Anita, ainda não consegui recordar-me de nada, mas estive estudando minha última existência na Terra. Passei a vida acreditando que as pessoas não gostavam de mim, me desprezavam. Sentia-me sempre excluído de qualquer atividade, fosse na área profissional, no clube ou na família. Nunca me senti satisfeito. Achava que os outros tinham tido sempre melhores oportunidades do que eu, ganhavam mais, eram mais estimados, mais felizes.
Enxugou uma lágrima e calou-se. Irmã Anita incentivou-o a prosseguir:
- E então? Chegou a alguma conclusão, Gumercindo?
Ele suspirou, levando o lenço aos olhos:
- Sim. Estou certo de que tudo se deveu à inveja, terrível sentimento que azeda tudo o que vê e espreita. Compreendo também que, com essa imperfeição ainda tão viva em meu íntimo, minhas vidas anteriores não devem ter sido melhores.
- Muito bem, Gumercindo. Analisou com clareza suas dificuldades íntimas. E o que propõe como medida saneadora?
- Bem, irmã Anita, certamente tenho muitas outras falhas, mas espero começar logo o trabalho de regeneração procurando vencer esse grave defeito. Além disso, sinto que preciso me reajustar com aqueles a quem, em minha insânia, prejudiquei.
E concluiu, indagando:
- Seria possível? Deus me concederia essa bênção?
A orientadora sorriu suavemente, esclarecendo otimista:
- Sem dúvida. Estamos aqui para isso. Para estudar nossos caracteres e tentar mudar, refazendo nossos passos. O Senhor é Pai magnânimo, que recebe sempre o filho pródigo de braços abertos.
Aquele senhor que relatou sua experiência, após a palestra de Anita, alto, magro, de óculos com aro de tartaruga, pediu a palavra:
- Bondosa irmã Anita. Certamente, não ignora o meu caso. Gostaria de saber se poderei ajudar o caminhoneiro que tirou a vida de meu filho... involuntariamente. Fui informado de que meu querido Juliano prepara-se para retornar como neto de Manuel, para reparar o mal que eu causei ao motorista. Pergunto: algum dia, me será permitido ajudar meu ex-desafeto e, por conseqüência, auxiliar Juliano na tarefa de restauração? Acho que somente assim irei liberando o coração da mágoa e aprendendo a perdoar - desabafou, emocionado.
- Guilherme, o Senhor nunca nega oportunidade ao filho que deseja progredir. Isso será possível, sim, desde que você se liberte do ressentimento e cultive o amor.
- Tem razão, minha irmã. Mesmo porque hoje estou convencido de que a ofensa não existiu, porquanto estava programado que meu filho voltaria logo à Espiritualidade. O pobre caminhoneiro foi apenas um instrumento da lei divina.
Conversamos mais algum tempo, trocando idéias e nos enriquecendo de novos valores. Cada um, intimamente, refletia sobre seu próprio problema e sobre as maneiras de solucioná-lo. A orientadora, dando por encerrada a reunião, concluiu:
- Creio que já estão preparados para atividades mais práticas. Aqueles que realmente se decidirem por mudanças interiores e pelo trabalho de reparação dos próprios erros, procurem-me. Temos grupos em formação orientados para esses objetivos e estaremos cadastrando os interessados a partir de amanhã.
Após singela prece em conjunto, em que agradecemos as bênçãos divinas, nos dispersamos cheios de indagações. Como funcionariam esses grupos de que estávamos sendo convidados a participar?

1 - Referência a atividades citadas no livro "Céu Azul".

6 - NO HOSPITAL

No dia seguinte pela manhã, estava de plantão no hospital, no exercício de minhas funções, quando recebi um chamado. Aguardavam-me na enfermaria seis. Terminei rapidamente o que estava fazendo e para lá me dirigi. Tratava-se de um rapaz que fora resgatado havia cerca de quinze dias. Chegando ao mundo espiritual nove meses antes, passara por zonas inferiores liberando-se dos fluidos mais pesados e acabara sendo recolhido por um grupo socorrista. Desde esse momento, estava dando bastante trabalho aos enfermeiros. Nesses casos, requisitavam-nos para fazer o atendimento, auxiliando na recuperação do paciente e na aceitação por ele das suas novas condições no além-túmulo. Entrando na enfermaria, logo pude vê-lo. Estava irrequieto, agitava os braços e exigia a atenção dos enfermeiros, que, ocupadíssimos, atendiam os outros pacientes. Aproximei-me do leito, ignorando suas reclamações.
- Olá!... Sou o César Augusto e vim fazer-lhe uma visita. Como tem passado? - perguntei com meu melhor sorriso.
Irritado, sem me dar atenção, fulminou-me com o olhar, como se eu fosse um verme. Contudo, vendo que eu era a única pessoa que se prontificara a atendê-lo, respondeu mal-humorado:
- Não está vendo, cara? Estou péssimo! Aqui ninguém responde aos meus chamados. Ignoram meus apelos. Preciso urgentemente de ajuda! Estou mal e ninguém liga! Afinal, que droga de hospital é este? Meu pai deve estar pagando uma fortuna e sou tratado como um indigente!
Procurando acalmá-lo, indaguei:
- Meu amigo, mas está lhe faltando alguma coisa? Suas roupas estão limpas, parece bem tratado, sua aparência está ótima! O que lhe falta?
O tom calmo e intencional com que me dirigia a ele fez com que também baixasse o volume da voz, respondendo-me de maneira mais branda:
- A verdade é que sou mantido aqui contra minha vontade! Gostaria de ver minha família, preciso da presença de meus amigos, mas qual! Não deixam ninguém entrar. Acaso serei um prisioneiro incomunicável? Por que estou isolado de todos?
Afinal, que lugar é este?...
- Gustavo, você não está isolado! Olhe quanta gente a seu redor! Quanto à família, poderá receber visitas dos entes queridos logo que estiver recuperado. Por ora, não seria aconselhável. Procure tranqüilizar-se, meu amigo. Essa agitação só poderá piorar o seu estado. Olhe, tudo tem seu tempo certo. Atenda ao programa de recuperação que lhe foi traçado pelos orientadores e logo estará bem. Mas, para isso, é preciso seu esforço e sua boa vontade.
Após pequeno intervalo, concluí:
- Se desejar, virei fazer-lhe companhia, sempre que puder. Conquanto desapontado por não conseguir resposta diferente das que já obtivera antes de outras pessoas, Gustavo animou-se com minha proposta final.
- Verdade que virá me visitar sempre? Fala sério?
- Claro! Poderemos conversar, passear pelos jardins, participar das orações coletivas...
Seus olhos mostraram interesse novo. Fazendo sinal para que me aproximasse mais, falou em voz baixa:
- Pode sair daqui à hora que quiser?
- Sem dúvida! Resido fora do hospital.
- Ah!... E poderia me fazer um favor?
- Se estiver ao meu alcance!
- Naturalmente será bem recompensado, César Augusto. Dinheiro não me falta.
Tinha percebido o que Gustavo desejava de mim, mas deixei que continuasse, sem interrompê-lo.
- Poderia trazer-me... Você sabe. Estou necessitado, cara... Sabe onde conseguir o pó? - concluiu com gesto característico, baixando mais ainda o tom de voz e lançando um olhar em torno, com receio de que alguém pudesse ouvi-lo.
- Lamento, companheiro. Aqui não entram drogas - afirmei.
Ele concordou, demonstrando tranqüilidade, como alguém que está acostumado a conseguir sempre o que deseja:
- Sim, eu sei. Você tem toda a razão. Mas, sempre se pode dar um jeitinho, não é? Sei como são essas coisas. Se você quisesse, meu amigo, poderia trazer-me um pouco. Um pouquinho só. Não me negue esse favor, César Augusto. A situação está preta, cara. Eu lhe ficaria muito agradecido e você seria bem recompensado - reafirmou.
Olhando sua fisionomia suplicante, os olhos vermelhos, senti imensa piedade. Coloquei-lhe a mão no ombro e afirmei:
- Infelizmente não será possível, meu amigo. Mas, olhe, sei de algo que vai satisfazê-lo mais e melhor. Aguarde um momento.
Sob sua expressão curiosa, chamei o Jefferson, que acabara de entrar na enfermaria, e pedi que me ajudasse a aplicar um passe no paciente. Enquanto fazíamos uma prece, Gustavo permaneceu de braços cruzados, irritado e ressentido, sem querer colaborar. A medida, porém, que as energias tranqüilizantes eram assimiladas pelo seu corpo espiritual, ele se foi relaxando, soltando as tensões, até acomodar a cabeça no travesseiro e adormecer placidamente. Suspiramos aliviados. Por ora, ele estava bem. Durante algumas horas, dormiria, dando descanso aos servidores, que tanto tinham por fazer. Um senhor de idade, ocupante do leito ao lado, sorriu para nós, agradecido:
- Também já passei por essa fase - comentou - e sei como é difícil. Agora estou bem, graças à ajuda de amigos dedicados. Creio que logo deixarão minha família visitar-me, não acham?
- Sem dúvida! Tenha confiança e continue se esforçando para melhorar - afirmei.
- Pois é! Quando fui internado, meus negócios ficaram nas mãos da esposa, inexperiente, e preciso dar-lhe algumas orientações imprescindíveis ao bom andamento da empresa.
- Relaxe! Certamente sua esposa está agindo da melhor maneira possível. Além do mais, Deus é Pai amoroso e não irá desampará-la em suas necessidades. Confie! Agora, você precisa pensar em si mesmo, meu amigo. Quando estiver bom, tudo lhe será esclarecido e terá permissão para ver os familiares.
O velhinho sorriu resignado, e deixamos a enfermaria. Após atravessarmos um grande corredor, subimos dois lances de escada e entramos num recinto onde diversas pessoas estavam reunidas, conversando. Ali era nossa sala, nosso ponto de encontro no hospital. Terminado o serviço, ou nos intervalos, quando nos sobravam alguns minutos, para lá nos dirigíamos. Vários outros amigos ali se achavam. Dialogavam sobre as dificuldades que os recém-chegados enfrentavam para entender a realidade da vida no mundo espiritual.
- É interessante como continuamos a ser os mesmos, a ter as mesmas necessidades, a mesma maneira de agir que tínhamos quando encarnados - comentava Giséli.
- Eu que o diga! Agora mesmo um rapaz tentou me subornar para trazer-lhe "coca". A desinformação e a falta de consciência são tão grandes que ele chegou a afirmar-me não ter problemas de dinheiro. Ainda não percebeu que nada mais possui e que tudo está na sua mente - considerei.
- É. O trabalho de desintoxicação é extremamente demorado e doloroso - disse Melina.
- Sim; no caso desse rapaz, porém, o pior já passou, pois, do contrário, ele não estaria na enfermaria, mas no isolamento! - lembrou Betão com muita lógica.
- Certamente. A verdade, no entanto, é que ele não quer melhorar. Sente ainda falta da droga, gosta dela e deseja continuar no regime antigo, sem saber que já não pertence ao mundo dos chamados vivos - aduzi.
Giséli, Melina e Jefferson receberam chamados e se despediram. Nós continuamos a discorrer sobre o assunto que tanto nos interessava.
- Sempre podemos perceber as imperfeições do indivíduo onde quer que ele esteja, porque faz parte intrínseca da sua individualidade. Ele é dessa ou daquela maneira, conforme suas tendências e conquistas - falou Paulo.
- Mas pode ser influenciado negativamente pelo meio em que vive. Veja o meu caso, por exemplo - dizia Maneco. - Minha última existência passei numa favela, sujeito a tudo o que havia de pior, tanto de vícios quanto de criminalidade. Teria eu culpa de me deixar influenciar pelo meio, Paulo?
- Penso que sim, Maneco. Se você renasceu numa favela em condições difíceis e em contato com o mal, é que isso era necessário para seu aprendizado. Era a melhor situação para seu Espírito. Contudo, tanto poderia deixar-se envolver pelo mal quanto observar os bons exemplos e segui-los, pois na favela, como em qualquer outro lugar, existem pessoas boas, honestas e respeitáveis. É um problema de exercício do livre-arbítrio - concluiu o interpelado.
- Sim, porém o grau de dificuldade é bem maior - disse Maneco.
- Sem dúvida! Mas aí é que reside o mérito de vencer. Quando a prova é mais árdua e exige esforço extra do Espírito, a recompensa, proporcionalmente, também será maior.
- Isso todos temos tentado aprender no Centro de Estudos da Individualidade, mas sem grande êxito - argumentei.
- Por quê? - discordou Paulo. - Acho que estamos nos esforçando, César. O problema é que a natureza não dá saltos. As conquistas, para serem perenes, precisam de um trabalho de sedimentação que só o tempo trará.
Concordei com um gesto de cabeça, prosseguindo:
- Sim, é verdade. Mas, veja. Da nossa turma, no Centro de Estudos da Individualidade, que se contavam por quase duas centenas, inscreveram-se nos grupos de trabalho prático apenas trinta e duas pessoas!
- Lamentável, César, mas era de esperar. Porque grande parte das pessoas, apesar de se considerarem necessitadas de melhoria interior, ainda não se sentem preparadas para enfrentar sua própria realidade. Em nosso meio, temos indiferentes, preguiçosos, medrosos, ressentidos e outros, que lutam ainda com as próprias imperfeições. O que vamos fazer? É um problema de nível evolutivo, meu amigo. Aqui, nos dão todas as condições de crescimento e aprendizado. Quem não segue junto fica para trás e, fatalmente, terá de recomeçar em outra oportunidade.
Concordamos todos com Paulo e ficamos a meditar na responsabilidade que assumimos com nossos atos diante de nós mesmos e dos orientadores maiores, aqueles que receberam a incumbência de velar por nós, conduzindo-nos ao caminho do dever e do amor ao próximo.

7 - UMA EXPERIÊNCIA DIFERENTE

Ao deixar o hospital, após as tarefas do dia, caminhava ao lado de Paulo. Conquanto não tivéssemos uma convivência mais estreita, visto estarmos trabalhando em áreas diferentes, eu o admirava profundamente. Do nosso grupo de jovens, Paulo é dos mais experientes. Temos grande satisfação em conversar com ele e passamos horas a ouvi-lo sem nos cansarmos. Extremamente simpático, consegue sempre prender nossa atenção. Ele esteve ausente durante algum tempo, acompanhando uma equipe socorrista requisitada para atender local de extrema necessidade, onde se verificavam conflitos armados. De uma colônia espiritual distante, localizada na Europa, chegara o pedido de socorro, e para lá acorreram servidores para ajudá-la nessa situação dolorosa. Os combates, na Bósnia-Herzegovina, prosseguiam acirrados, causando tantos estragos que os irmãos europeus se viram forçados a pedir reforços a outras regiões do Orbe, para enfrentar o volume de atendimentos. Imediatamente, movimentaram-se nossos dirigentes levando em conta a solicitação. Dentre os que se candidataram e foram aceitos, estava nosso amigo Paulo. Pelas suas condições espirituais, equilíbrio emocional, conhecimento de línguas estrangeiras, inclusive do esperanto, era dos mais indicados para a missão. Por um período de dois anos, permaneceu a equipe de Céu Azul no continente europeu. No retorno, foram recebidos com festas e muito carinho. Certa ocasião nos reunimos na Casa da Esperança, abrigo do qual ele fazia parte, para que nos contasse suas experiências na região dos combates. Paulo passou a nos relatar as dificuldades encontradas, os problemas, os sofrimentos e as dores daquele povo, que toda a equipe de Céu Azul acompanhou.
Sua tarefa era ajudar na retirada dos Espíritos recém desencarnados, para que não se aumentassem as vibrações poderosas de ódio e desejo de vingança que ali campeavam e para evitar que eles continuassem a lutar ao lado dos irmãos encarnados, julgando-se ainda na carne, VIVOS.
- E não tínhamos que atender apenas os soldados, combatentes de uma guerra iníqua. A população civil, constituída de idosos, mulheres e crianças, também era dizimada. Cenas chocantes se desdobravam sob nossas vistas, sem que algo pudéssemos fazer. Cenas de selvageria e brutalidade, por simples desejo do mal, se tornaram corriqueiras; torturas e estupros eram praticados à luz meridiana do dia, fazendo com que as vítimas suplicassem pela morte. Não bastasse isso, hordas obsessoras, falanges do mal, dominavam livremente em virtude das baixas vibrações ambientais, facilitando o vampirismo. As cargas negativas eram tão pesadas que as turmas que se revezavam no atendimento, a períodos regulares, procuravam a orla marítima do Adriático para se reabastecerem no ambiente puro e balsâmico da Natureza, limpo de miasmas mentais, e, com isso, terem condições de energizar os corpos espirituais combalidos.
- Como podem ainda acontecer coisas como essas! Nem parece que estamos no final do século 20, prestes a entrarmos no terceiro milênio! - exclamou Giovanna, penalizada, com o apoio dos demais.
- E o pior é que acontece! A sociedade terrena progrediu muito, mas em certos aspectos parece estar ainda na era medieval - comentou Dínio.1
- É verdade, meu amigo. Isso ocorre porque a imperfeição moral dos Espíritos ainda é muito grande. E, quando encarnados no planeta, nesses casos em que existe disputa de interesses entre grupos étnicos, todos se envolvem e parecem regredir a níveis inferiores da animalidade, ignorando a razão, o discernimento, a afetividade e a solidariedade.2 Cada um pensa em si próprio e perde a noção do que é certo ou errado, do que é justo ou injusto, do que é bom ou mau. Mesmo os que poderiam ter algum direito, por haverem sido espoliados em alguma época, acabam por agravar sua situação pelos excessos praticados contra os inimigos.
Padilha, que ouvia com extrema atenção, questionou:
- Paulo, você encontrou dificuldade em se comunicar com eles em virtude da diversidade de idiomas? Sim, porque sabemos que a linguagem do Espírito é a do pensamento, mas a prática mostra que, dependendo da baixa condição vibratória dos envolvidos, isso se torna difícil, não é?
- Sem dúvida, Padilha. Esse é um obstáculo de vulto nessas circunstâncias, quando os desencarnados se acham ainda bastante impregnados de fluidos muito densos. Trabalhávamos sem muita conversa, utilizando-nos apenas das vibrações mentais no atendimento em campo de batalha. Contudo, não raro era preciso conversar com os atendidos, e então percebíamos que eles não estavam em condições de ouvir nosso pensamento. Aí, apelávamos para a linguagem comum. Como fui estudante de línguas, falando razoavelmente o inglês, o francês, o alemão e o esperanto, além do português, usava os recursos de que dispunha. Tentava uma língua, tentava outra, até me fazer compreender. O esperanto me foi de grande utilidade, especialmente no diálogo com os nossos aliados, servidores do bem. Muitos se expressavam com fluência nesse idioma universalista, o que facilitou bastante o nosso relacionamento, especialmente em termos de ordens de serviço.
- Já que tocou nesse ponto, Paulo, como era o relacionamento entre vocês, isto é, a equipe de Céu Azul e a equipe dos europeus? - perguntou Marcelo.
- Cordial, mas diferente - informou ele.
- Como assim? Diferente como? - quis saber o Gladstone, intrigado.
Paulo pensou um pouco, como se estivesse estudando bem as palavras, e prosseguiu:
- São diferentes! É difícil de explicar. Aqueles servidores trabalham e se esforçam em cumprir bem suas obrigações. Têm um alto senso de dever e de responsabilidade, mas são... Como direi... Frios, algo distantes. Naturalmente, não são todos; há aqueles que são carinhosos e efusivos, como nós, brasileiros, mas são raros. A colônia espiritual para onde fomos fica situada numa região entre a Hungria e a antiga Iugoslávia, mas a maior parte do tempo ficávamos num posto de serviço provisoriamente montado nas proximidades das regiões de combate. Ali havia atendentes de inúmeras nacionalidades, entre eles alemães, italianos, franceses, iugoslavos, bósnios, austríacos, suíços, portugueses, eslavos...
- ... E brasileiros! - brinquei.
- Naturalmente. Além de nós, afluíram em grande quantidade brasileiros de várias colônias espirituais de nosso território, como Nosso Lar, Campos da Paz, Redenção, Aldebaran, Alvorada Nova e outras.
- Mas... Por que eles são tão diferentes? São Espíritos como nós, conscientes da própria condição!... - indagou a Patrícia.
- Porque ninguém muda com a morte do corpo, minha amiga. Continuamos a ser o que somos. E eles são assim! Foram educados dessa maneira, construíram uma personalidade baseada na razão, que modera a afetividade e não se deixa levar pela emoção. Como mudarem agora de um momento para o outro? Especialmente os que reencarnaram muitas vezes na mesma região. Assimilam os condicionamentos que lhes são impostos, e só o tempo fará com que possam demonstrar alguma mudança. Os italianos e os portugueses, por exemplo, são mais parecidos conosco, emotivos e alegres; já os alemães e os austríacos são mais frios e compenetrados.
Após breves interrupções em que meditamos sobre suas palavras, concluiu:
- Por isso, não imaginam a falta que sentimos daqui, de todos vocês. A saudade era imensa e não víamos a hora de retornar para nossa terra. Lá não existe essa amizade calorosa que a gente vê aqui, essa fraternidade que une os membros de um mesmo grupo e os torna verdadeiramente irmãos. Não digo que eles não sejam unidos. Talvez sejam até mais solidários do que nós, brasileiros. Mas não se comunicam com facilidade nem demonstram de maneira ostensiva seus sentimentos, e isso os torna um tanto distantes e indiferentes aos nossos olhos.
Fez nova pausa e prosseguiu, olhando com carinho cada um de nós:
- Nossa terra é abençoada, acreditem! Em que lugar do mundo pode-se ver tanta gente, de nacionalidades, raças e credos diversos, convivendo sem qualquer problema?
Todos os que aportam ao extenso território da nossa Pátria são bem recebidos, prosperam e se integram, constituindo uma imensa família, na qual a fraternidade e a solidariedade se sobrepõem às dificuldades normais da existência, aos problemas socioeconômicos e culturais do povo. Paulo falara, externando tanta emoção, colocando tanto sentimento, que todos estávamos também comovidos. Enxuguei discretamente uma lágrima, enquanto o Betão -sempre ele! - ao perceber nosso estado interior, que facilmente redundaria em tristeza pela saudade da terra natal, alterou o tônus vibratório, levantando os braços e exclamando com ênfase:
- E viva o Brasil!...
Todos caímos na risada. Daí em diante, o ambiente tornou-se alegre. Um imenso sentimento de felicidade, de satisfação por sermos brasileiros, inundou nosso íntimo. E nos abraçamos, chorando e rindo, rindo e chorando. Certamente tínhamos a consciência de que, no fundo, todos somos cidadãos do mundo, e que apenas no presente estávamos vinculados ao Brasil. Não ignorávamos que muitos de nós viéramos de outros continentes, sobretudo da velha Europa, e que aqui, nesta terra abençoada, estávamos tendo a oportunidade de fugir dos ambientes em que tanto falimos, para recomeçarmos sob novas bases. De tudo isso eu me lembrava agora, no momento em que deixávamos o hospital após as tarefas do dia. Ainda preso à nossa conversa anterior, comentei:
- Paulo, a respeito desse assunto, recordo-me neste instante daquele dia em que você nos relatou suas experiências na Bósnia, logo após seu regresso. Falava-nos exatamente sobre a dificuldade que temos de nos modificar, mesmo após a passagem para o plano espiritual.
- Exatamente. Sabe, César, muitas coisas me impressionaram naquela época. As experiências foram muito marcantes e dolorosas para todos nós. Mas sempre que revejo os semblantes dos companheiros de lá, calmos, circunspectos e distantes, fico perplexo.
Lembrei-me de Sheila e da sua experiência. Um dia ela me contou que, em virtude de abusos na área da fala e dos relacionamentos, optara por tornar-se freira na encarnação seguinte. Quando a conheci, tinha dificuldade em se expressar, falava pouco, em razão dos condicionamentos dessa época, em que permaneceu muito tempo quase que incomunicável.
- Mas dá para entender por que são assim! - concordei, com um gesto de cabeça.
Continuamos a caminhar calados, cada qual mergulhado nos próprios pensamentos. Ao nos aproximarmos de casa, despedimo-nos. Nós nos veríamos na manhã seguinte para prosseguimento das tarefas. Entrei. Os outros amigos ainda não tinham chegado. Fui até o quarto para repousar um pouco. Logo mais iríamos para o Centro de Estudos da Individualidade.

1 - Dínio Afonso Mantovani, desencarnado em 4/5/1985, em Arapongas.
2 – Os Espíritos podem permanecer estacionários, mas não regridem em sua evolução. Quando temos a impressão de que isso está acontecendo, é que eles estão demonstrando o que realmente são. Ver "O Livro dos Espíritos", de Allan Kardec, questão 118.

8 - LUZ NAS TREVAS

Logo mais, à noite, nos reunimos no Centro de Estudos da Individualidade, ansiosos para saber como seriam formados os grupos e de que maneira iríamos trabalhar. Irmã Anita, iniciando a reunião, tranqüilizou-nos. Vários colaboradores ali estavam, secundando-a, e seriam os coordenadores, responsáveis pelas diversas equipes. Por áreas de afinidade, fomos encaminhados aos grupos que passaríamos a integrar. Conduzido à sala sete, deparei-me com os futuros colegas. Éramos um grupo de cinco pessoas, incluindo o orientador. Com prazer, verifiquei que trabalharíamos sob a direção de Henrique, um amigo de longa data, profissional dedicado que muito me ajudou quando ainda estava internado no hospital, nos primeiros meses como habitante da Espiritualidade. Os outros componentes eram: Viviane, Adriana e Alberto, o médico que já participara comigo do grupo de ajuda aos suicidas em potencial. Sentamo-nos em círculo para os primeiros contatos. Apresentamo-nos mutuamente, quebrando o gelo. Viviane, uma jovem morena, simpática, com longos cabelos crespos presos por um elástico, grandes olhos escuros e sorriso melancólico, iniciou, contando-nos sua história:
- Meu nome é Viviane e desencarnei aos trinta anos. Em conseqüência de uma queda no banheiro, quebrei o pescoço, seccionando a medula, e fiquei tetraplégica aos vinte anos. Extremamente revoltada, tornei a minha vida e a de meus familiares um inferno. Não aceitava a condição de deficiente física. Amava o esporte, fora atleta e participara de jogos e campeonatos em todo o país. Transformei-me numa criatura amarga e insuportável, não recebendo ninguém, nem os melhores amigos. Assim permaneci por dez anos, até que, vitimada por uma pneumonia dupla, deixei o corpo material. Estagiei durante longo período em regiões inferiores, em grande perturbação. Socorrida, trouxeram-me para cá, onde me recuperei com dificuldade, após muitos meses de internamento no hospital. Viviane calou-se, sob a forte emoção que as lembranças lhe traziam. Comovido com seu relato e recordando o meu próprio caso, indaguei:
- Viviane, em suas dificuldades nunca pensou em Deus?
- Não! Jamais! - respondeu taxativamente. - Prosseguindo:
- Enquanto eu era forte e saudável, a religião nunca me interessou. Havia coisas mais importantes para fazer, segundo meu modo de pensar. Depois, quando a tragédia desabou sobre mim, retendo-me ao leito, se alguém me falava de Deus ou de um Ser Superior, externava o ódio e a revolta que me iam na alma. Se era verdade que existia um Deus, por que fora tão cruel comigo? Nunca fui pessoa preocupada em ajudar os outros, praticando a caridade, mas também não me lembrava de ter prejudicado alguém, nunca fizera nada de mal. Por quê?... Por quê?...
Fez uma pausa e concluiu com voz embargada:
- Hoje eu sei que me faltaram noções de verdadeira religiosidade e de espiritualidade maior, que teriam modificado a minha vida. Todavia, meditando agora sobre tudo o que me aconteceu, penso que, certamente, eu não merecia essa bênção. Deveria vencer com o meu próprio esforço.
Adriana fitava a companheira com os olhos úmidos. Era clara, delicada e tímida, mas tinha sorriso fácil e lindos olhos castanhos.
- Achei comovente seu relato, Viviane. Minha experiência, apesar de dolorosa, é muito diferente da sua. Tive vida confortável, família amorosa, saúde perfeita e alguma beleza física. Nada me faltou. Contudo, uma insatisfação íntima sempre crescente levou-me ao contato com a droga. Daí por diante, não é preciso nem dizer, me afundei cada vez mais. Degradei-me aos poucos. Cheguei a ponto de roubar para obter o que queria. Vendi tudo o que tínhamos de valor dentro de casa, para satisfazer o vício, até que meus pais concluíram que eu deveria ser internada. No hospital, ludibriei os guardas e consegui fugir. Não pensava em voltar para casa porque sabia que me levariam novamente para o hospital. Fugi, simplesmente. Nunca mais me pegaram. Mudei de nome, deixei crescer os cabelos. Para sobreviver, passei a relacionar-me com a ralé das ruas, com o submundo do crime, até desencarnar por overdose. O resto, já podem imaginar. Sofri por muito tempo em regiões sombrias, até ser trazida para esta cidade espiritual. - E finalizou:
- Ah! Meus amigos!... Como é fácil perder uma existência, mesmo tendo todas as condições de obter êxito. Hoje, na Espiritualidade, com a visão do problema modificada pelos novos conhecimentos, tento reconstruir minha vida, sabendo que fui a única responsável por tudo o que me aconteceu.
Por nossa vez, Alberto e eu também participamos, contando cada qual a sua história, que todos já conhecem, razão por que deixo de fazê-lo aqui para não ser repetitivo e enfadonho.2 Ao término das apresentações, Henrique, que acompanhava atento os diálogos, considerou:
- Muito bem. Cada um trouxe relatos ricos em experiências e de grande conteúdo para análise, o que se reveste da maior importância. Quando nos dispomos a trabalhar em conjunto, faz-se necessário que nos conheçamos bem, aumentando a afinidade e os elos entre todos os componentes.
Após breve intervalo, em que esquadrinhou cada um de nós, prosseguiu:
- Sei que estão curiosos para saber como se desenvolverá nossa atividade. Como estamos estudando nossos problemas morais, iremos atuar em casos previamente escolhidos, que nos chegam através de pedidos de socorro. Esses casos, que se adaptam às nossas necessidades, funcionarão como parâmetros, despertando-nos a sensibilidade e obrigando-nos a refletir sobre as próprias realidades. Mas não se preocupem. Com o transcorrer do tempo, perceberão melhor a finalidade que buscamos. Alguma pergunta?
Como as respostas fossem negativas, ele encerrou a reunião, comunicando:
- Então, começaremos pelo caso Morgado. Estejam aqui amanhã à mesma hora.
No dia seguinte, excitados pela novidade, nos reunimos no mesmo local. Antes de sairmos, Henrique fez uma prece cuja singeleza não ocultava seus raros dotes de espírito:
- Senhor da Vida! Buscamos-te a presença neste momento em que nos preparamos para mais uma jornada de trabalho na crosta terrestre. Sabedores das deficiências de que nos revestimos ainda, suplicamos tuas bênçãos e teu amparo para nossas tarefas; não por nós, mas em atenção àqueles que estão necessitados de ajuda e que esperam por proteção. Apesar da nossa pequenez, sejamos nós os dispersores da tua luz e a extensão dos teus braços, direcionados para amparar os desvalidos da Terra. Sustenta-nos na luta, Senhor, e fortalece-nos no cumprimento do dever. Muito obrigado!
Saímos satisfeitos e revigorados pela oração. A noite estrelada era um convite de Deus às nossas almas. Sob a orientação de Henrique, demandamos o espaço. Não demorou muito e começamos a perceber os contornos de uma grande cidade. Logo, os edifícios, as ruas e as praças estavam visíveis a nossos olhos. As ruas, iluminadas, apresentavam intenso movimento de veículos e de pedestres. Encaminhamo-nos para a zona periférica da cidade, parando num dos bairros mais pobres. A rua, sem iluminação pública, encontrava-se às escuras, clareada apenas pelas luzes provenientes das janelas das moradias. Paramos defronte de uma casa quase que totalmente às escuras. Entramos. A branda claridade de uma vela sobre a mesa impedia que as trevas dominassem. Observamos o ambiente sob forte impressão. A miséria era grande e o recinto tresandava sujeira. Um certo odor de urina e de excrementos invadiu nossa sensibilidade. Sem parecer se incomodar com o cheiro que impregnava o barraco, a que certamente estariam habituados, três pessoas sentadas defronte de uma mesa faziam frugal refeição. Aproximamo-nos. Constava ela de um caldo ralo, com cheiro de gordura rançosa, em que alguns pedaços de cenoura boiavam, e de um pedaço de pão duro. Notamos, porém, que comiam com satisfação, como se estivessem diante de um banquete. Eram eles: um homem de idade avançada, maltrapilho e de expressão amarga; uma mulher na faixa dos cinqüenta anos, mas que aparentava ser mais velha, cujos olhos tristes denotavam o desânimo e a desesperança que lhe iam na alma. A terceira pessoa, porém, despertou nosso interesse e admiração. Era uma mocinha, quase uma menina, que se apresentava limpa e penteada, destoando estranhamente do ambiente, apesar das roupas velhas e desgastadas. Seu rosto não tinha traços bonitos, mas era dotado de certo encanto; os olhos, vivos, pareciam chamas iluminando ao redor. Abriu um sorriso encantador e foi como se a primavera entrasse naquele recinto escuro e fétido. Sua condição espiritual, no entanto, era o que mais nos impressionava. Ela exteriorizava belos pensamentos endereçados a Jesus, através dos quais agradecia o alimento que estavam comendo e pedia auxilio para toda a família, além de forças para continuar realizando suas tarefas. Depois, dirigiu-se aos pais, afirmando:
- Papai e mamãe, não se deixem dominar pelo desânimo. Confio em Jesus e sei que Ele vai nos ajudar. O padre sempre diz que Deus é Pai, e que um pai nunca desampara seus filhos. Então, por que temer? Certamente, Ele mandará Jesus nos socorrer!
O homem rude coçou a cabeça, denotando cansaço, e respondeu com um gesto negativo, de incredulidade:
- Você é muito nova, minha filha, o que pode saber da vida? Eu e sua mãe temos comido o pão que o diabo amassou durante todos esses anos. Pulei de um emprego a outro, buscando sempre um trabalho honesto. Ficava desempregado, mas tinha confiança em que arrumaria outro serviço, e arrumava. Mas, e agora? Já estou velho, o ex-patrão disse que eu não servia mais para nada e me mandou para o olho da rua. O que fazer? O mercado de trabalho está difícil e não vou conseguir outra colocação.
- Vai, sim, meu pai. Tenha confiança.
A mãe chorava baixinho, concordando com o marido. Ao enxugar as lágrimas no avental, ela inquiriu com voz lamentosa:
- O que vai ser de nós, marido? Como vamos conseguir viver? Se pelo menos não tivéssemos o Zé!
A mocinha reagiu, indignada:
- Nem fale uma coisa dessas, mãe, que está pecando contra Deus! Foi Nosso Senhor quem mandou o Zé para nossa casa, e Ele lá deve ter suas razões.
- Eu sei, Marilda, mas tem horas em que penso que melhor seria que ele não tivesse nascido. Seria melhor para todos. Para ele, que não sofreria tanto, e para nós, que teríamos menos problemas.
- Vira essa boca pra lá, mulher, não diga besteira! - resmungou o marido.
- É isso mesmo! Se o Zé não estivesse aqui, a Marilda poderia trabalhar e nos ajudar a manter a casa, Antonino.
Com imenso carinho, a jovenzinha levantou-se e abraçou a mãe, que, com a cabeça entre os braços, sobre a mesa, chorava convulsivamente.
- Mãezinha, não chore. Se eu fosse trabalhar, quem faria o serviço de casa? Quem lavaria as roupas e faria a comida? Alguém tem que ficar tomando conta de tudo, para que, quando a senhora chegar, cansada, encontre o serviço feito. Então, que seja eu. Trabalho com prazer, a senhora sabe.
- Mas, filha, seu irmão é tão pesado e você é tão franzina, tão delicada!
- Não, mamãe, gosto de cuidar dele. A senhora sabe como amo meu irmão. Além disso, ouvi dizer que Deus não dá o fardo maior do que a gente possa carregar. Então, se me concedeu essa tarefa, é sinal de que ela não é superior às minhas forças.
Sorriu e, mudando o curso da conversa, esbanjou otimismo:
- Vamos, gente, ânimo! As coisas vão melhorar. Tenham confiança! Olhe, mamãe, estive pensando... Eu poderia trabalhar aqui em casa mesmo! Dona Benedita, nossa amiga, tem reclamado do volume de serviço. Falarei com ela e tenho certeza de que não se negará a me dar alguma coisa para fazer. Trarei costuras para arrematar aqui em casa, para que possa, ao mesmo tempo, fazer companhia ao Zé. Certamente, não ganharei muito, mas sempre será de grande valia na atual circunstância. Além disso, continuarei executando as minhas tarefas!
Acompanhávamos a cena que se desenrolava diante de nossos olhos sob intensa emoção. O otimismo, a boa vontade e a disposição de ânimo daquela menina eram notáveis. Uma luminosidade clara e azulada envolvia todo o seu corpo, tornando-se mais intensa na região da cabeça e do coração. Estávamos curiosos. Externando o pensamento geral, perguntei a Henrique:
- Quem é o Zé, de quem tanto falam?
- Vocês logo ficarão sabendo. Aguardem! - respondeu.
Nesse momento, marido e mulher, vendo que não poderiam vencer tamanho bom ânimo, demonstraram desejo de recolher-se. A mãe relutava, entre a cama e a louça suja.
- Pode ir deitar, mamãe. A senhora está cansada. Trabalhou o dia inteiro. Arrumarei a cozinha e depois também irei dormir. Boa noite.
- Boa noite, minha filha, durma com os anjos.
Os pais se recolheram e Marilda foi para a cozinha. Logo, porém, ouviu um grunhido. Prestativa, encaminhou-se ao quarto do irmão, com quem dividia o aposento, para maior facilidade de atendê-lo durante a noite.

1 - Referencia ao livro "Preciso de Ajuda!" da autoria de Eduardo.
2 - Referência aos livros "Céu Azul", de sua autoria, e "Preciso de Ajuda!" da autoria de Eduardo.

9 - JOSÉ DOMINGOS MORGADO

Entramos. Imediatamente percebemos a presença de um servidor do nosso plano que se mantinha vigilante junto a um leito. Ao nos ver chegar, aproximou-se dando-nos as boas-vindas. Henrique fez as apresentações. Tratava-se de homem humilde, aparência singela, cuja condição espiritual o credenciava para o serviço. Jeremias era amigo da família e especialmente ligado ao enfermo, do qual se sentia devedor, razão por que solicitara essa tarefa. Nesse momento, a mocinha debruçou-se sobre o leito, onde estava um rapaz de vinte e poucos anos. Nosso orientador olhou-nos, estendeu o braço em direção do doente e disse:
- Este é José Domingos Morgado - o Zé -, a quem a família se referiu há pouco.
Nasceu sadio, mas no primeiro ano de vida foi acometido de uma grave meningoencefalite, que o prostrou no leito desde essa época.
- O que é isso? - indagou Viviane.
- As meninges são membranas que envolvem o encéfalo e a medula espinhal. Essa doença caracteriza-se por grave inflamação de toda a área, atingindo as meninges e o encéfalo, provocando, entre outras coisas, a paralisia cerebral.
Comovidos, fitamos o rapaz deitado. Nada faria supor a gravidade do problema. Marilda afetuosamente ajeitou-lhe os cabelos, perguntando:
- Está com fome, Zé Domingos? Quer comer alguma coisa antes de dormir?
O rapaz a olhou com carinho e sorriu. Marilda entendeu que ele estava com fome.
- Ah! Muito bem! Antes, porém, vou trocar suas roupas.
Com presteza e agilidade, a jovem preparou-lhe o asseio. Foi até a cozinha, aqueceu um pouco de água e a colocou numa bacia; pegou bucha, sabonete e voltou para o quarto. Removeu as cobertas, limpou-o cuidadosamente, lavou-o e vestiu-lhe uma roupa limpa. Notamos que, apesar da pouca idade, procedeu com tanta naturalidade que não causou nenhum constrangimento ao rapaz, que, certamente, estaria acostumado a esses cuidados. E ela o fez com tanta competência como talvez não o fizesse uma enfermeira experiente. Ao terminar, afirmou com um sorriso:
- Agora que está limpo e cheiroso, Zé, espere um pouco. Vou preparar algo para você comer.
O rapaz piscou os olhos num sinal de agradecimento e ela foi para a cozinha. Felizmente, tinham um pouco de leite que uma vizinha lhes dera. Os vizinhos eram tão pobres como eles, mas, condoídos da situação e das necessidades de José Domingos, sempre colaboravam com alguma coisa. Eles poderiam até passar fome, mas o enfermo sempre tinha o que comer. Cheia de gratidão pela ajuda da vizinha, Marilda fez um mingau e, alguns minutos depois, retornou ao quarto.
- Veja que beleza! Sinta o cheiro! Está uma delícia.
Colocou um pano sobre o peito do irmão e começou a dar-lhe o alimento às colheradas. Ele comeu com apetite. Aliás, sempre tinha muito apetite. Terminou de dar o mingau, levou o prato sujo para a cozinha, foi até o banheiro e depois retornou, pronta para dormir. José Domingos ainda estava acordado.
- O meu nenê ainda não conseguiu dormir? - brincou -Já sei! Está esperando para orarmos juntos, não é?
Ele sorriu fazendo um trejeito. Satisfeita, Marilda sentou-se na beirada do leito e, colocando-se em atitude íntima de oração, de mãos postas, proferiu um pai-nosso, no que foi acompanhada mentalmente pelo irmão. Vimos que essa prece, modelo que nos foi legado por Jesus, dita com singeleza e profunda sinceridade, saía-lhe da mente e do coração em suaves vibrações de amor, que se estendiam sobre todos os familiares, especialmente atingindo o irmão enfermo. Notamos também que o Espírito do rapaz estava consciente, embora não pudesse se comunicar em face do desarranjo da máquina física. Com alguma dificuldade, no entanto, tentava acompanhar as palavras proferidas pela irmã, aproveitando integralmente as bênçãos da prece. No trecho em que Marilda disse perdoa as nossas dívidas como nós perdoamos aos nossos devedores, percebemos nitidamente que José Domingos se fechou. A fraca luminosidade que se espraiava do alto da sua cabeça encolheu-se até desaparecer, sendo substituída por emanações pesadas de coloração cinza-escura. Marilda encerrou o momento de oração, que, na nossa esfera, acompanháramos comovidos, e curvou-se para desejar boa-noite ao irmão. Quando ia beijá-lo, notou-lhe a expressão fisionômica carregada.
- O que aconteceu, Zé Domingos? Você estava tão bem!
Ele virou o rosto para a parede, mostrando desagrado, como se fosse uma criança rebelde. Nós, que ali estávamos, podíamos ouvir seus pensamentos. José Domingos sentia uma profunda revolta pela sua incapacidade. No íntimo, acusava o médico que o atendera na época pela sua doença. Demonstrando grande sensibilidade e intuição, Marilda afagou-lhe os cabelos.
- Eu sei - disse ela com a fisionomia triste. - É o trecho que fala sobre o perdão. Já percebi que, todas as vezes que chegamos a esse ponto da oração, você fica alterado.
Mentalmente, ele respondeu:
- É isso mesmo. Não consigo aceitar!... Olhe o que fizeram comigo, no que me transformaram!
- Esqueça, meu irmão. Ninguém é responsável pelos nossos problemas. Deus sabe o que faz. Além disso, já se passaram tantos anos...
- Exatamente por isso. Eu estou aqui, preso a uma cama, e ele está andando por aí, livre, rico e feliz.
O diálogo prosseguia, para surpresa nossa. A afinidade entre ambos era tão intensa depois de todos esses anos de íntima convivência, que Marilda, apesar da impassibilidade do irmão, sabia reconhecer-lhe as necessidades e problemas.
- Zé, o médico não teve intenção de prejudicá-lo, meu irmão. Aconteceu, simplesmente. A mãe disse que, quando você estava no hospital, ele afirmou que seu estado era tão grave que você poderia até morrer!
José Domingos virou a cabeça para a irmã e grunhiu, olhando-a com amargura e ressentimento. Mentalmente, resmungou:
- Antes tivesse morrido mesmo!
Marilda abraçou o irmão, envolvendo-o com muito carinho.
- Não pense assim, meu querido, você nos faria muita falta. Queremos tê-lo aqui conosco!
Ele virou novamente a cabeça para a parede, de forma acintosa.
- Nós o amamos! Duvida do nosso amor? - ela perguntou com surpresa.
- Não do seu amor, certamente. Sei que é sincera. Mas, quanto a nossos pais, não sei.
- Por que está com esses pensamentos hoje?
Ele baixou os olhos, calou-se por alguns momentos e vimos as imagens mentais que exteriorizava. José Domingos ouvira a conversa da família na hora do jantar. Em virtude das deficiências e naturais limitações do filho, os pais agiam como se ele não estivesse ali perto, separado por fina parede de madeira. Como se, além de tudo, também fosse surdo.
- Você ouviu nossa conversa? É isso? Ah! Zé Domingos, a mãe não falou por mal. É que ela tem muitos problemas...
José Domingos ficou nervoso e demonstrou grande agitação. Queria se agredir, arrancar as roupas e grunhia com desespero. E ouvimos seus pensamentos em resposta à irmã. Exatamente. E eu só complico a vida de vocês. Se pudesse, eu me mataria. Assustada, sentindo psiquicamente suas idéias destrutivas, Marilda abraçou-o ainda com mais força, deitando a cabeça sobre o peito dele:
- Não pense nisso, meu irmão. Quer-nos fazer a todos infelizes? Nunca mais pense numa besteira dessa, ou não cuido mais de você. Todos nós o amamos muito, não percebe?
Sua voz calou-se num soluço. Lágrimas sentidas escorriam sobre o irmão. Arrependido, o rapaz colocou a mão nos cabelos de Marilda, fazendo-lhe um afago carinhoso. Intimamente, afirmava: Não chore, Marilda. Sei que vocês me amam. Não quero que sofra. Especialmente você, que tanto tem me ajudado! Perdoe-me, não sei o que se passou comigo, mas não acontecerá mais. A jovenzinha levantou a cabeça e viu o olhar amoroso pousado nela, e entendeu que ele estava bem novamente. Enxugou as lágrimas, ajeitou-lhe as cobertas e deu-lhe um último beijo, acompanhado de terno sorriso.
- Então, vamos dormir, que já é tarde. Boa noite, Zé!

10 - O SONO DOS ENCARNADOS

Deixamos o aposento, indo para a sala. Lá poderíamos conversar sem atrapalhar o sono dos encarnados. Todos estávamos impressionados com a cena que se desenrolara a nossos olhos. Viviane, especialmente, demonstrava uma comoção maior. Quedara-se, pensativa. Durante o tempo em que estivemos no quarto, não observamos o que estava acontecendo com ela, atentos ao comovente diálogo entre os encarnados. Agora, porém, notávamos que estava estranha, distante. Acomodamo-nos na sala. Henrique considerou:
- Sei que têm muitos questionamentos. O que conseguiram perceber da situação?
- Bem - iniciou Adriana -, gostaria de saber o que é esse negócio de encéfalo. Já ouvi referências a essa parte do corpo humano, mas não sei o que significa realmente.
Alberto, que fora médico na última encarnação, explicou:
- Encéfalo, Adriana, é uma parte do sistema nervoso central localizada na cavidade craniana, que compreende o cérebro, o cerebelo, os pedúnculos, a protuberância e o bulbo raquiano.
- Nossa! Fiquei mais confusa ainda com tantos nomes estranhos! - exclamou Adriana, surpresa e com olhos arregalados.
Não pudemos conter o riso. O amigo simplificou:
- Basta você saber que é um problema localizado no crânio. Entendeu?
- Entendi. Obrigada.
Em seguida comentei, perplexo:
- Henrique, achei muito interessante o diálogo entre eles. Que afinidade tem José Domingos e a irmã! Nunca tinha tido a oportunidade de ver nada igual.
- É realmente extraordinário, César Augusto. Mas perfeitamente normal. Não estamos acostumados a ver fenômenos mediúnicos acontecerem? O intercâmbio entre encarnados e desencarnados é acontecimento corriqueiro, que se vê a todo instante!
- Sem dúvida! - afirmou Adriana, completando: - mas aqui são dois encarnados!
- Não deixam de ser dois Espíritos! Além disso, a transmissão do pensamento é algo provado no mundo material. Acrescente-se o fato de que José Domingos, estando impedido de se comunicar com a esfera terrena, tem maior facilidade para liberar-se espiritualmente. Afinidade produz sintonia, e isso os dois irmãos desenvolveram através do tempo, com a convivência.
Henrique fez breve intervalo e prosseguiu:
- Além desses fatores, existe também a vinculação estabelecida no passado, em outras encarnações. Eles não estão Juntos por acaso.
Nesse momento, Viviane, que até então permanecera calada, demonstrou emotividade profunda. As lágrimas desciam-lhe pelo rosto, sem que conseguisse estancá-las. Surpresos e respeitosos, nós a olhávamos sem entender. Afinal, ela conseguiu falar:
- Desculpem-me o descontrole íntimo. Não sei o que está acontecendo comigo.
- Não se preocupe, Viviane. Pode abrir seu coração -afirmou Henrique com brandura.
- Desde que entrei naquele quarto, algo dentro de mim despertou. Senti grande atração pelo pobre José Domingos e, ao mesmo tempo, imensa compaixão.
- É natural essa empatia. Afinal, você também sofreu um problema parecido - considerei, lembrando-me da sua história e do período em que ela também fora paralítica, presa a um leito.
- Você tem razão, César Augusto, mas não é só isso. Existe algo de mais profundo que não sei explicar.
Nesse momento, interrompemos a conversa. José Domingos, em Espírito, deixou o quarto e rapidamente saiu de casa, desaparecendo de nossas vistas, sem que pudéssemos evitar. Aonde iria ele com tanta pressa? Dali a instantes, surgiu a imagem meiga de Marilda. Transformada a nossos olhos, nimbava-se de luz. Sorriso radiante de ternura, exteriorizava serenidade e paz. Ainda era a mesma adolescente, contudo aparentava mais idade. Vendo-nos, encaminhou-se a nosso encontro com as mãos estendidas num gesto de boas-vindas.
- Que Jesus os abençoe! Henrique, imenso prazer em vê-lo, meu amigo. Certamente estão aqui para nos ajudar. Fico-lhes muito grata pela bondade.
Após trocar com ela algumas palavras gentis, Henrique nos apresentou a Marilda, que abraçou cada um de nós com carinho. Quando chegou a vez de Viviane, afagou-lhe os cabelos crespos.
- Como vai, minha querida?
- Muito satisfeita por estar aqui e poder conhecê-la, Marilda.
- Seja sempre bem-vinda!
Viviane, mal contendo a emoção, arriscou-se a perguntar:
- Já não nos vimos antes? Você me parece muito familiar! Com os olhos úmidos, Marilda abraçou-a novamente, sugerindo:
- Quem sabe? É possível que, nas inúmeras romagens terrenas, tenhamos nos encontrado. Somos todos Espíritos viajores no tempo, com vínculos insuspeitados uns com os outros, que não se rompem com a distância.
Afastou-se de Viviane, considerando encerrado o assunto, embora a nossa companheira tivesse feito menção de prosseguir.
- Agora, meus amigos, devo ausentar-me. O dever me chama e não posso demorar-me mais.
- Gostaria que um de nós a acompanhasse? Estamos aqui em serviço ativo e sabe que pode contar conosco. Marilda sorriu, agradecida:
- Jesus o abençoe, meu amigo, pela sua generosa solicitude. Prefiro, no entanto, que fiquem aqui cuidando da nossa casa. Sei como lidar com o José Domingos. Não se preocupem. Logo estaremos de volta.
- Então, vá tranqüila, Marilda. Cuidaremos de tudo até sua volta - afirmou Henrique.
- Obrigada, meu amigo. Orem por nós. Meu irmão precisa muito de ajuda.
Curioso, não contive uma pergunta que me queimava a ponta da língua:
- Para onde terá ido ele?
Marilda virou-se para mim e esclareceu, com laivos de tristeza na voz:
- Para onde vai todas as noites, assim que adormece, César Augusto. Para a casa do médico, que julga responsável pelos seus infortúnios!
A formosa entidade despediu-se e saiu, e nos pusemos a conversar. Jeremias, que aproveitava a ausência do enfermo para cuidar do casal, retornou à sala, participando da conversa.
- Agora entendo porque José Domingos afirmou que, enquanto ele permanece preso a um leito, o médico está andando por aí, livre, rico e feliz! - comentou Adriana.
- Sem dúvida! Ele sabe porque, durante o repouso do veículo corpóreo, vai atrás, apesar das suas deficiências, daquele que considera seu inimigo - explicou Henrique.
- O Espírito é livre e vai aonde deseja - completou Jeremias.
- Já estudamos isso. Onde está o vosso tesouro aí está também o vosso coração - considerou Alberto.
- Só que, no caso do José Domingos, ele desvirtuou o seu tesouro, direcionando as atenções para alguém que considera um inimigo, sem ao menos ter certeza de que esse alguém realmente o teria prejudicado - aduzi.
Jeremias, que falava pouco, exclamou:
- Quem sabe!
- Existirá algum vínculo entre eles, isto é, entre o enfermo e o médico? - quis eu saber, perguntando diretamente a Henrique.
- Sabemos que não existe efeito sem causa, não é? Necessário, portanto, estudar em profundidade o problema para encontrar as raízes que levaram aos fatos atuais.
Henrique ia continuar, mas fomos interrompidos. A mãe de Marilda, desprendida do corpo, assomou à porta do quarto e ficou assustada ao ver tanta gente. Voltou correndo para o corpo, acordando sob terrível pavor. Despertou o marido, que, de má vontade, esfregando os olhos, perguntou:
- O que está acontecendo, mulher? Me acordar no meio da noite, desse jeito!
- Ai, Antonino, levei o maior susto! Imagine você que sonhei que a nossa casa estava cheia de gente! Será que isso é perigoso? Ouvi dizer que sonhar com muita gente é sinal de morte, de velório, de enterro!
- Ora, Alzira, vire essa boca pra lá! Tá ficando maluca, mulher? Nossa casa está bem, não tem ninguém estranho, e todos nós estamos com saúde. Até o Zé, que esse tem mais saúde que todos nós juntos.
Mas a mulher, recostada no travesseiro, continuava desconfiada da nossa presença.
- Ai, Antonino, será que é a minha mãe que vai morrer? Anda meio adoentada...
- Mas pare de besteiras, Alzira. Sua mãe é velha mas tem saúde de touro. Pare com isso! Vamos dormir, que estou cansado. Amanhã, quero começar a procurar emprego logo cedo.
Ali presentes, não podíamos deixar de sorrir com a preocupação da mulher. Condoídos, fizemos uma prece. E Jeremias, com quem ela estava mais acostumada e tinha mais afinidade, aplicou-lhe um passe, tranqüilizando-a:
- Durma, minha irmã. Acalme-se. Tudo está bem.
Aos poucos, ela adormeceu. Jeremias aplicara-lhe energias de forma que adormecesse também em espírito, para poder repousar melhor e se reequilibrar do susto que levara.
- E o marido, Antonino? - indaguei.
- Esse não tem condições de nos ver. Como não acredita em nada, dorme a noite toda sem problemas.
- Ele não deixa o corpo durante o sono?... - surpreendeu-se Adriana.
- Não. A liberdade do Espírito está condicionada ao conhecimento que possua de espiritualidade. Se alguém não acredita que exista algo além do corpo; que morrer é descansar, permanece jungido ao veículo físico, também durante as horas de sono, condicionado pela própria mente.
Deixamos o quarto para que os encarnados pudessem repousar melhor. Enquanto eles prosseguiam conversando, e Jeremias contando suas tarefas e os problemas que tinha de enfrentar, olhei para Viviane. Ela continuava calada e circunspecta. Ainda não dissera uma única palavra. Estava realmente preocupado com ela. Olhei para Henrique, procurando ajuda, mas o orientador devolveu meu olhar fazendo um imperceptível gesto em que me acalmava, dizendo-me que tivesse paciência e aguardasse. Então, deixei a coisa rolar. Não demorou muito, Marilda retornou com José Domingos. Agora podíamos vê-lo melhor. Quando passou por nós na sala, não deu para olharmos direito. Era um rapaz alto, forte, bonito, rosto regular, cabelos e olhos escuros. Tinha a mesma expressão concentrada de rancor que víramos. Ali, porém, ele se movimentava à vontade, falava e reclamava.
- Por que você não deixou que eu desse uns murros naquele cara? Ele merece, Marilda.
- Não, meu querido, já temos conversado muito sobre isso. Ele não tem culpa dos desígnios divinos. O Doutor Vinícius é simplesmente um médico que trabalha dentro das limitações da medicina terrena. Se você está num leito hoje, é porque era necessário para seu progresso espiritual. A aceitação é o melhor remédio nestas circunstâncias. Temos que nos resignar ao que não pudermos evitar, sabendo que Deus é sábio, justo, bom e sabe o que faz.
- Balelas! A verdade é que eu é que estou sofrendo as conseqüências do erro desse miserável!
Com carinho e paciência infinitos, Marilda prosseguiu:
- Não houve erro, meu irmão, você tem que acreditar nisso!
- Houve sim! Pior que isso! Sei que ele me odeia e me quer destruir - continuou afirmando o rapaz.
Presos à cena que se desenrolava à nossa frente, não vimos o estado de Viviane. Com o rosto entre as mãos, olhos arregalados e supremo espanto, ela gritou:
- É ele! É ele! Ele, que tenho procurado durante tanto tempo!
Com serenidade, Henrique aproximou-se dela e disse:
- Acalme-se, Viviane.
- Henrique, eu o conheço!
Nisso, todos os olhares tinham-se voltado para nossa companheira, inclusive o de José Domingos, que dialogava com a irmã. O enfermo ouviu o que Viviane estava dizendo e se interessou. Fixou a atenção nela, procurando nos escaninhos da memória onde já a teria visto. Em choro convulsivo, ela aproximou-se do encarnado, tocou-lhe o rosto com delicadeza. E a sorrir e a chorar, afirmou:
- Sim, é você mesmo! É você, Alfredo! Tenho certeza! Lembra-se de mim?
José Domingos, que a olhava de forma estranha, ao ouvir aquele nome - Alfredo -, pareceu despertar lentamente. As lembranças começaram a vir à tona, vagas cenas afloraram-lhe a memória, e ele demonstrou na fisionomia o que lhe ia por dentro da mente.
- Lembro-me agora. Você é a Ivette!
- Ivette! Sim, sou eu mesma!
Abraçaram-se, selando o reencontro depois de tanto tempo. Nós, que acompanhávamos a cena, também nos deixamos envolver. Sensibilizados, tínhamos os olhos úmidos e os corações agradecidos pela bênção dessa hora. Olhei Henrique, que sorria. Ele conhecia a história e por certo esperava esse desfecho. Aproximei-me discretamente e perguntei:
- Você sabia o que ia acontecer hoje aqui?
- Não. Conhecia os laços que unem Viviane e José Domingos, mas contei com as probabilidades, esperando que algo de positivo sucedesse. E Jesus nos ajudou para que tudo corresse bem.
- E agora? - prossegui.
- Agora... Temos muito trabalho pela frente!

11 - LEMBRANDO O PASSADO

Decorridos os primeiros momentos de maior emoção, Viviane sentou-se, segurando as mãos de José Domingos, e começou a falar:
- Que coisa fantástica é a nossa mente! Até uns minutos atrás não me lembrava de nada. Agora tudo está muito claro na minha cabeça, como se uma janela para o passado tivesse sido aberta!
E começou a narrar sua história...
- Nasci na França, em Paris, no século passado. Casei-me por interesse com um brasileiro, Ermírio, rico dono de terras, vindo a residir no Brasil. Alguns anos depois. Numa festa, conheci Alfredo, por quem me apaixonei loucamente. Por ser casada, ter marido e filhos, nossa união tornou-se impossível. Dominados, porém, pela paixão, resolvemos que o único jeito de ficarmos juntos era matar meu esposo.
Viviane fez uma pausa, enxugou as lágrimas e prosseguiu:
- Planejamos tudo cuidadosamente. A fazenda era grande e Ermírio costumava sair a cavalo percorrendo as lavouras de cana-de-açúcar, ou simplesmente internando-se nas matas. Alfredo ficaria de tocaia num ponto desse trajeto costumeiro, e o mataria.
Nesse momento, José Domingos começou a chorar convulsivamente, gritando:
- Estou arrependido! Eu não queria matá-lo! Fiquei escondido e, quando Ermírio passou, eu o atingi na cabeça com um porrete. Caiu do cavalo e dei-lhe mais dois golpes. Ficou lá no chão, estrebuchando. Fugi daquele lugar. Ninguém podia me encontrar ali.
Ele se calou. Expressão distante, alucinada, olhos vítreos, mostrava no semblante todo o horror que aquelas lembranças evocavam. Viviane continuou a narrar:
- Algumas horas depois, dois negros o encontraram e o levaram para a Casagrande. Estava em triste estado. As pancadas o deixaram paralisado. Viveu mais alguns dias em agonia atroz, até que desencarnou.
Ela calou-se, entregue às lembranças do passado. Vendo que Viviane parecia ter-se esquecido de nós, Henrique incentivou-a a continuar:
- E depois, o que aconteceu?
Olhando para ele como se voltasse a si, Viviane prosseguiu:
- Depois, uma nuvem negra pairou sobre nossas vidas. Casei-me com Alfredo, mas jamais fomos felizes. A sombra de Ermírio estava sempre entre nós. Nada dava certo.
Nesse instante, deu entrada no recinto um homem que desconhecíamos. Vinha desarvorado, aflito:
- Quem me chama? Quem me chama?
Henrique aproximou-se dele e, passando os braços sobre seus ombros, tranqüilizou-o:
- Acalme-se, meu irmão! Tudo está bem. Só queremos conversar.
Vendo José Domingos, ele se apavorou, misturando presente e passado, e fez menção de fugir.
- Não quero vê-lo! Esse demônio não me dá paz! Já disse que não tive intenção de prejudicá-lo, mas ele me acusa sempre. Sou médico, meu dever é salvar vidas, não matar. Piedade! Piedade! Jesus, ajuda-me! Não agüento mais!
A cena, altamente dramática, era de profundo significado. Compreendemos, comovidos, que o recém-chegado era o médico, Dr. Vinícius, a quem o rapaz acusava pelos seus infortúnios. Henrique, que permanecia junto dele, com carinho levou-o para perto de Viviane e de José Domingos.
- Ninguém o acusa, meu irmão. Observe melhor essas duas pessoas que aqui estão. Lembre-se! Volte ao passado!
Vinícius olhou-os e algo dentro dele rompeu o dique das recordações.
- Ivette! É você?! E ele, é Alfredo! Meu Deus! Agora me lembro de tudo! Vocês, de comum acordo, destruíram-me a vida. Minha esposa e meu amigo! Por muito tempo os persegui, desejando vingança.
Nesse ponto, Henrique interferiu, asseverando:
- Sim, é verdade, meu irmão Ermírio. Lembrem-se, porém, de que, antes de tomarem um novo corpo em regresso à Terra, todos vocês se prometeram perdão mútuo e refazimento dos laços afetivos. Agora é hora de construir e de pensar no futuro.
Marilda, transfigurada a nossos olhos, aproximou-se do grupo, envolvendo-os com amor. José Domingos, ao vê-la, lembrou-se do passado e exclamou cheio de alegria:
- Mamãe!...
- Sim, meu filho. Sou sua mãe, que nunca o abandonou. Apesar dos seus erros, amo-o como sempre. Pedi a Jesus que me permitisse ajudá-lo a reparar seus desatinos, e aqui estou. Agora vim como sua irmã, mas continuo a cuidar de você com o mesmo amor e o mesmo carinho.
Virando-se para Viviane, a entidade abraçou-a:
- E você, minha querida Ivette, saldou uma parte dos seus débitos com a doença que por tantos anos a jungiu ao leito de dor. Continue trabalhando e servindo.
- Dona Eugênia! Quero pedir-lhe perdão pelos males que Alfredo e eu lhe causamos. A senhora sempre foi tão boa comigo!
- Não, Ivette, nada tenho a lhe perdoar. O que vocês fizeram a Ermírio fizeram a si mesmos, tornando-se responsáveis perante a lei.
Envolvendo Ermírio com imenso carinho, a entidade afagou-lhe os cabelos:
- Ermírio, mostre-se generoso e conceda-lhes o perdão. Aquele perdão que sai do íntimo, não o dos lábios. Eles já sofreram muito e estão sofrendo ainda, especialmente Alfredo. Vamos começar uma nova era de entendimento e de paz, para as reconstruções do futuro.
Abraçaram-se uns aos outros, comprometendo-se a mudança de atitudes. Nós, da equipe espiritual, estávamos emocionados. Vinícius foi levado de volta ao corpo físico por Jeremias, e José Domingos pela mãezinha, hoje irmã dedicada. Retornando ao presente, já como Marilda, a adolescente nos agradeceu o amparo da noite, convidando-nos à prece. Com os olhos úmidos e radiantes de intenso júbilo, ela proferiu esta bela oração:
- Senhor Jesus, generoso Amigo!
Nesta noite de bênçãos sem-fim, quando tantas dádivas nos foram ofertadas pela Misericórdia Divina, queremos agradecer-te. Atendendo a nossos apelos, Senhor, proporcionaste-nos a oportunidade de ajudar entes queridos, há muito necessitados de socorro. Nada temos para te dar, Senhor, senão nossa boa vontade e desejo de servir, mas queremos de alguma forma repartir o muito que temos recebido. Que a tua bondade possa nos facultar os meios de trabalhar, auxiliando nossos semelhantes. Agradecidos pelo amparo dos amigos espirituais, colocamo-nos à tua disposição. Fortalece-nos, Jesus amigo, nas estradas da vida, para que possamos melhorar sempre, a caminho do teu reino de paz! O ambiente tornou-se dulcíssimo pelas vibrações amorosas que Marilda externara na oração. Brandas sensações de paz e reconforto nos envolviam. Acompanhamos Marilda até o leito e despedimo-nos dela com imenso carinho. Ela conseguira conquistar nossa amizade nesse pequeno espaço de algumas horas. Admiração crescente por ela fazia com que desejássemos continuar prestando nossa ajuda àquela casa. Tudo calmo, olhamos Viviane, que agora se mostrava alegre e bem-disposta. Por ora, nada mais tínhamos a fazer ali. Saímos. O céu estrelado nos envolveu como um manto de veludo.
- E daí? O que achou dessa abertura para o passado? - indaguei a Viviane.
Ela respirou profundamente. Depois respondeu, contemplando as estrelas:
- Olha, César, é uma sensação que não tem paralelo. Gostei de ter desvendado um pouquinho do que já vivi. A responsabilidade pelos atos praticados começa a pesar de forma dolorosa. Voltei a sentir raiva de Ermírio quando o vi ingressar naquela sala.
- Sim, sei que ele foi nossa vítima naquela ocasião, mas acho que permaneceu mais forte, mais nítida para mim, a época em que ele se arvorou em perseguidor.
- Porque as lembranças são mais recentes e, por isso, mais intensas. Da existência passada você não se recordava.
- Exato. Só me lembrei quando vi o José Domingos em Espírito.
Ficamos calados, mergulhados nos próprios pensamentos, até que ela considerou:
- Mas, o fato de saber que podemos refazer nossos passos, trabalhar para reconstruir o que destruímos, ajudar quem prejudicamos... É também extremamente importante.
Concordei com ela. Eu, igualmente, experimentara os mesmos sentimentos quando tive aquela regressão de memória.
- Sim, sei bem o que você está sentindo, amiga.
- E agora, César?
- Agora, certamente, vamos ter de trabalhar dentro de nós mesmos para vencer as inferioridades. A mágoa, o rancor, o ressentimento, o remorso, devem ser substituídos pelo amor e pelo desejo do bem, de forma que exercitemos a caridade cristã. Não é a isso o que estamos nos propondo?
- Sem dúvida! Agora posso entender por que fiquei todos aqueles anos presa ao leito. Era a lei de ação e reação funcionando. Embora eu ignorasse, o tratamento corretivo estava acontecendo e o remédio amargo sendo ministrado para propiciar-me a cura da alma.
Henrique, um pouco atrás de nós, ouviu nossa conversa e indagou:
- E não valeu a pena o sacrifício?
- Como valeu! Aqueles anos, que me pareciam tão sofridos, que se arrastavam pesados e enfadonhos, não representam mais nada. Hoje, só tenho que agradecer a Deus.
O espaço cósmico estendia-se à nossa frente. Vencendo as distâncias, nos aproximamos de Céu Azul, nosso lar na Espiritualidade, o qual aprendemos a amar.

12 - DIA EXAUSTIVO

O movimento no hospital era intenso. Tínhamos sido alertados de que não tardaria a chegar um contingente de desencarnados em estado de grande necessidade. Acabavam de ser resgatados por excursão socorrista que partira da nossa instituição com destino às zonas inferiores. Assim, havia muito trabalho pela frente. Enfermeiros e atendentes, ligeiros, movimentavam-se de um lado para outro para atender a todas as solicitações. Arrumavam-se os leitos, ultimando os preparativos. Todos os servidores que tivessem condição e boa vontade deveriam apresentar-se para o trabalho de emergência. Mesmo os que estavam de folga. O aviso tinha sido expedido pela direção do hospital e, em resposta à solicitação, ali estávamos nós oferecendo nossa colaboração. Jesus afirmou que a seara é grande e os trabalhadores são poucos, o que mais do que nunca, ali, era uma realidade. Em virtude da grande carência de cooperadores treinados para assistência aos recém-chegados, todos nós nos engajamos nas atividades, salvo quem estivesse servindo em outra área ou impossibilitado de comparecer. No corre-corre que se estabelecera em razão das novas internações, ainda havia os albergados mais antigos, que estavam a exigir nossa atenção. Ao passar pela enfermaria seis, ouvi um chamado:
- César Augusto!
Voltei sobre meus passos e deparei com Gustavo. Sentado no leito, olhava-me com curiosidade. Sorri, amistoso.
- Olá, Gustavo! Como tem passado?
- Vou levando. Sabe como é, se pudesse escolher, certamente não estaria aqui.
Sempre o mesmo enfermo inconformado e rebelde. Apesar da pressa, parei e, com paciência, retruquei:
- Gustavo, meu amigo, não seja ingrato. Sua situação é infinitamente melhor aqui do que se continuasse entregue a si mesmo nas zonas inferiores. Ou já se esqueceu do que sofreu por lá?
Constrangido, ele argumentou:
- É... Eu sei. Não posso negar que aqui tenho mordomias que não tinha lá. Mas era diferente! Antes, tinha liberdade de me locomover à vontade, ia aonde quisesse e ninguém me impedia. Aqui, estou restrito a esta enfermaria!
Não pude deixar de aduzir, ouvindo seus argumentos:
- Isso é relativo, meu irmão. Você tinha liberdade nos limites da sua condição espiritual, e só entrava em ambientes cuja baixa vibração o permitisse. Não creio que isso seja uma vantagem. Aqui, ao contrário, sua posição é bem melhor e você reconheceria essa verdade se não fosse tão teimoso e rebelde. Quer saber, há muita gente que daria tudo para estar no seu lugar. Além disso, pode ir até o jardim, passear, sentar nos bancos e contemplar a natureza...
- Mas aqui sou sozinho!
Novamente a mesma reclamação. Ele estava me tomando muito tempo e era preciso cortar aquela conversa que não nos levaria a nada.
- Você não está sozinho, Gustavo. Sempre que posso, venho fazer-lhe companhia e sei que outros jovens fazem o mesmo.
- Fique aqui comigo agora.
- Não posso. Procure ler alguma coisa. Você tem excelentes livros na gaveta de sua mesa de cabeceira.
- Não gosto de ler, você sabe. Acho esses livros chatérrimos!
- Bem, então mais tarde virei fazer-lhe companhia. Podemos passear pelo jardim e conversar.
- Não vejo graça nisso! - respondeu, fazendo uma careta.
- Bem, então podemos fazer outra coisa... Jogar xadrez, por exemplo!
- Não sei jogar.
- Eu ensino.
- Não quero e não gosto.
Diante da má vontade do rapaz, pensei um pouco e respondi, um tanto irritado:
- Gustavo, você não quer companhia nem amizade. Sente falta, na verdade, é dos companheiros que lhe satisfaziam a dependência do vício. Lamento, meu amigo, mas nisso não posso atendê-lo. Agora tenho que ir - afirmei, já me preparando para sair.
Dei alguns passos, mas ele gritou:
- Espere! Espere um pouco! Que pressa! O que está acontecendo afinal? Todos estão super ocupados... Não podem me dar atenção...
- Está para chegar um grupo de pessoas que foram retiradas da zona umbralina, tal qual aconteceu com você. Garanto-lhe que eles se sentirão muito felizes por receberem assistência nesta unidade hospitalar. Pense nisso.
Afastei-me às pressas. Não tínhamos tempo a perder e eu gastara minutos preciosos. A caravana chegou e nossa sensibilidade foi inundada por gritos, lamentos, reclamações e toda sorte de impropérios. Alguns exigiam especial atenção, alegando sua condição social, outros proferiam queixas quanto à demora em receber ajuda; ou pediam que telefonássemos aos médicos, dos quais eram clientes e com os quais estavam acostumados; outros, ainda, reclamavam a presença da família, que não viam há muito. A todos tínhamos que receber com carinho e respeito, dentro das suas características pessoais, encaminhando-os para atendimento. Os médicos socorriam um por um, medicando-os em regime de urgência. Procedia-se à higiene pessoal, faziam-se curativos. Dentro de algum tempo, todos estavam acomodados em alvos leitos, limpos, acolhedores e aquecidos, recebendo alimentação nutritiva e reconfortante. Algumas horas depois, quando o movimento já diminuíra de intensidade, ao transitar por um corredor, portando uma bandeja com medicamentos que a irmã Clara pedira, ao virar uma esquina trombei com alguém que vinha em sentido contrário. Um tanto irritado, não me contive:
- Ei! Não vê por onde anda?
- Estava limpando o chão e não o vi aproximar-se - desculpou-se o outro.
Só então o olhei com atenção e notei que era um atendente dos mais humildes. Trazia nas mãos um esfregão e um balde com líquido desinfetante, que agora estava caído no chão, entornado. Sua fisionomia não me pareceu estranha. Senti imensa vergonha da minha atitude e afirmei:
- Eu é que lhe peço desculpas. Estamos trabalhando há horas e...
- Compreendo. Certamente está exausto. Hoje foi um dia de grande movimento.
- É verdade, mas isso não me dá o direito de destratar ninguém. Você também deve ter trabalhado muito. Peço-lhe perdão.
Estendi-lhe a mão, apresentando-me:
- Sou César Augusto.
Ele me olhou de forma especial. Tinha aparência comum. Pele morena, nariz proeminente, olhos grandes e amendoados com expressão diferente; cabelos escuros e ondulados, cujo comprimento ia até o pescoço, um tanto grisalhos. Certamente, não era muito de falar. Permaneceu calado por alguns momentos; depois respondeu, apertando a minha mão estendida:
- Chamo-me Hassan.
- Descendência árabe?
- Sim.
- Nunca o tinha visto por aqui. Desde quando trabalha no hospital?
- Há pouco mais de um mês. Vim de um posto de serviço próximo da Terra, em regiões mais densas.
- Ah!... Muito bem, Hassan. Prazer em conhecê-lo. Até logo.
Afastamo-nos. Cada um foi para seu lado. A imagem daquele homem, porém, não me saía da cabeça. Onde já o teria visto? Por mais que rebuscasse na memória, não conseguia descobrir. Ora, pensei, deve ser parecido com alguém que conheço. Não devo perder tempo com isso. Contudo, não conseguia esquecer o rosto daquele homem. Confesso que não me causou boa impressão. Alguma coisa nele me incomodava, provocando mal-estar. Coitado! Eu fora realmente rude com ele. Na verdade, era ele que não deveria ter ficado com uma impressão muito favorável a meu respeito. E com toda a razão! O plantão estava terminando e logo outra turma assumiria nosso lugar. Estava realmente exausto. Talvez nunca tivesse ficado tão cansado. Ao retornar para casa com os amigos, permaneci calado. Os outros também não demonstravam ânimo para conversar, por estarem tão esgotados quanto eu. O silêncio era geral. Tive vontade de sentar-me na varanda; Eduardo me acompanhou. Os outros companheiros, que iriam dar plantão, já tinham saído, e os que chegaram foram dormir. Assim, tudo era paz e quietude. Aquele lugar da nossa casa sempre conseguia proporcionar-me tranqüilidade e restaurar-me o equilíbrio. Mas, nesse momento, tinha a mente assoberbada. A certa altura, olhando o céu estrelado, não contive o desabafo:
- Hoje exorbitei.
- Como assim?
- Eduardo, agora estou convencido de que, apesar de tudo o que aprendemos aqui, não mudei nada! - respondi com gravidade.
- O que aconteceu? - indagou, atencioso.
Relatei a ele, minuciosamente, o que se tinha passado, sem omitir nada. O episódio da enfermaria seis, com Gustavo, e, depois, a trombada com o servidor Hassan. E terminei, dizendo:
- É imperdoável! Não consegui me controlar. Primeiro, com um pobre viciado. Depois, com um faxineiro. O que está acontecendo comigo?...
Colocando-me a mão no braço, Eduardo pensou um pouco e considerou:
- Não está acontecendo nada de extraordinário com você, César. A verdade é que somos todos imperfeitos! Sob uma tensão muito grande, seu emocional sofreu certo desequilíbrio. O que, até certo ponto, é natural, tendo em vista o estágio evolutivo em que transitamos. Tudo pode ser reparado.
Eu, porém, continuava inconformado:
- Mas não podia ter acontecido! Se nós, que tanto temos estudado e aprendido, nos comportamos dessa maneira, o que esperar dos outros? Fiquei irritado com o mau humor e o pessimismo de um viciado em drogas, que, sei perfeitamente, está em tratamento e passando pelas dificuldades naturais de um recém-chegado à nossa esfera.
Eduardo deixou que eu desabafasse sem interromper. Fiz uma pausa, levando a mão à cabeça. Depois, prossegui:
- E o mal-estar que o pobre Hassan me causou? Que coisa estranha, Eduardo!
- Ah!...
- Você o conhece?
- Não.
- Bem, então não pode avaliar o que senti.
- Esqueça! Tudo isso passa. Quando o encontrar outra vez, verá que as coisas estarão diferentes.
- Queira Deus que você tenha razão! Bem, é tarde e precisamos descansar um pouco. Temos trabalho daqui a algumas horas.
Despedimo-nos e cada um foi para seu quarto. Todos já estavam recolhidos. Deitei-me, mas o problema não me saía da cabeça. Por quê? Por quê? Fechei os olhos, buscando a elevação de pensamento. Mentalizei a imagem de Jesus, e ela surgiu, na acústica da alma, clara e nítida, como no dia em que assistimos ao filme relativo a seu Calvário. Os braços do Mestre estavam estendidos em minha direção e suas mãos pareciam abençoar-me. Chorei. Chorei muito. Reconhecia que falhara perante mim mesmo, perante meus semelhantes. Sentia-me culpado e considerava-me indigno dos mestres que tivera desde que aportara na Espiritualidade. O que pensariam eles de mim se soubessem como agira? Orei como há muito tempo não orava. Abri o coração, expondo meu íntimo, e supliquei o amparo do Criador para minha alma necessitada de luz. Estava assim entregue a mim mesmo, quando uma branda luminosidade, como fumaça esbranquiçada, começou a se formar à minha frente, no alto. Atento, percebi que lentamente surgiam os contornos e, logo, a figura de um homem deparou-se diante de meus olhos maravilhados, a fitar-me com brandura. Era um romano. Envergava uma toga branca, de tecido luminescente, com uma faixa azul-celeste a contornar-lhe a cintura. Seu rosto tinha uma expressão serena e leve sorriso bailava-lhe nos lábios. E, coisa curiosa, nas mãos trazia um pergaminho escrito com letras e bordas douradas, que eu não conseguia ler. A presença dessa entidade encheu-me o coração de alegria e emoção. Sabia que éramos conhecidos de épocas remotas, embora não me lembrasse de quando. Respeitoso, agradeci mentalmente a visita que tanto me reconfortava. Quando o nobre visitante começou a falar, sua voz fez reacender em mim imensa saudade de algo que ficara perdido no tempo:
- Tudo está indo muito bem. Não exijas demasiadamente de ti mesmo. A evolução é produto do próprio esforço e que só o tempo concluirá. Estamos juntos desde eras remotas, meu filho, e continuaremos unidos pela Eternidade. Não desanimes, seja qual for a dificuldade. Confia sempre e prossegue lutando e servindo. Aproveita o momento que passa e a oportunidade que surge radiosa em teu caminho, para reparar erros do pretérito e refazer ligações com velhos companheiros de romagem terrena. Logo terás a resposta para tuas indagações. Que o Senhor da Vida te proteja e ilumine sempre!
Parou de falar. Ansioso, eu desejava perguntar quem era ele, onde nos teríamos conhecido, quais nossos vínculos, mas não consegui articular palavra. A emoção era intensa e um nó na garganta impedia que falasse. Do mesmo modo como havia chegado, afastou-se repentinamente, diluindo-se sua imagem aos poucos, como poeira cósmica. As lágrimas voltaram a cair, abundantes. Agora, porém, de felicidade. Um grande bem-estar inundava minh'alma. Sabia que teria de lutar, e lutaria. Ânimo renovado, repassava as palavras que a nobre entidade proferira, ultimamente compreendendo o que me competia fazer. Quanto aos companheiros do passado, nada poderia fazer no momento, evidentemente. Teria que esperar que surgissem para as reparações e entendimentos necessários. Todavia, outras coisas poderia fazer no presente. Procuraria Gustavo e Hassan para tratá-los de forma diferente, modificando, assim, minha conduta, sob os ditames da fraternidade legítima. Novamente elevei pensamentos de gratidão a Deus pela ajuda inesperada que me proporcionara na presença desse amigo de Altas Esferas.
Logo, brando sono dominou-me e adormeci tranqüilo e feliz.

1 - Referência a filme citado no livro "Céu Azul", de sua autoria. Capítulo 26.

13 - VISITA INESPERADA

Utilizando o tempo de que dispúnhamos, procurávamos adequar as atividades para atender a todas as áreas com as quais nos comprometemos. Assim, passamos a visitar a casa de José Domingos periodicamente. Era com grande prazer que víamos as mudanças que se operavam em Viviane. Cheia de desejo de servir, dedicava-se à família com carinho e determinação. Algo dentro dela promovera alterações profundas. Basicamente, permanecia a mesma, contudo se tornara mais mansa, mais compassiva, mais amorosa. Havíamos estabelecido um plano de ajuda à família Morgado. Nesse dia, quando chegamos, Marilda terminava os cuidados com o irmão e preparava-se para buscar mais serviço na casa de Dona Benedita, para a qual estava trabalhando, como tinha se proposto. Adriana e eu a acompanhamos. Os outros permaneceram ao lado do enfermo. Dona Benedita a recebeu com satisfação.
- Que bom vê-la, Marilda. Como vai o Zé?
- Vai bem, Dona Benedita, obrigada. Vim saber se a senhora tem serviço para mim.
- Graças a Deus que você veio, minha filha. Estou cheia de costuras e ainda bem que tenho você para me ajudar! Sente-se e espere um minuto. Vou buscá-las.
Marilda acomodou-se, contente. Dona Benedita tinha o condão de transformar sua atitude generosa, fazendo com que parecesse que Marilda é que lhe prestava um favor, e por isso também lhe era grata. Enquanto aguardava, relanceou os olhos pelo ambiente. Sobre uma pequena mesa lateral havia um livro. Por nossa sugestão, a jovem aproximou-se e tomou-o nas mãos. Leu o título: O Evangelho Segundo o Espiritismo. Interessada, sentou-se novamente e começou a folheá-lo, abrindo-o ao acaso. Diante de seus olhos surgiram as palavras do Cristo que abrem o Capítulo 6 desse livro admirável: Vinde a mim todos vós que estais aflitos e sobrecarregados, que eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei comigo que sou brando e humilde de coração e achareis repouso para vossas almas, pois é suave o meu jugo e leve o meu fardo.1 As palavras de Jesus ecoaram em sua alma sedenta de consolação, causando-lhe intenso bem-estar. Continuou lendo: Todos os sofrimentos: misérias, decepções, dores físicas, perda de seres amados, encontram consolação em a fé no futuro, em a confiança na justiça de Deus, que o Cristo veio ensinar aos homens. Sobre aquele que, ao contrário, nada espera após esta vida, ou que simplesmente duvida, as aflições caem com todo o seu peso e nenhuma esperança lhe mitiga o amargor. Foi isso que levou Jesus a dizer: - Vinde a mim todos vós que estais fatigados, que eu vos aliviarei. Estava tão interessada na leitura que nem percebeu que Dona Benedita voltara e estava esperando, a seu lado, com a sacola de roupas na mão. Um tanto constrangida, Marilda desculpou-se:
- Desculpe-me, Dona Benedita, não deveria ter mexido em suas coisas, mas este livro chamou minha atenção e não pude resistir.
A dona da casa sorriu, compreensiva:
- Não tem importância, Marilda. Se estiver interessada, pode levá-lo.
- Posso mesmo? Muito agradecida, Dona Benedita. Fiquei surpresa. Não sabia que a senhora se interessava por religião.
- É que nunca tivemos oportunidade de conversar sobre o assunto. Sou espírita.
- Espírita? - surpreendeu-se a outra.
- Sim. Sabe o que é a Doutrina Espírita?
- Não.
- Pois então, leia este livro e depois conversaremos com mais calma.
Marilda agradeceu novamente e despediu-se, levando as roupas e o livro de encontro ao coração. Estávamos satisfeitos com o andamento do caso. Chegando em casa, logo começou a trabalhar. Dona Benedita era patroa compreensiva, mas tinha urgência do serviço. Deixamos nossa amiguinha entregue a suas tarefas e aproveitamos o tempo para fazer outra visita. Acompanhando Henrique, dirigimo-nos a uma movimentada rua no centro da cidade, parando defronte do consultório do Dr. Vinícius. Ele estava atendendo, e na sala de espera encontravam-se três pessoas aguardando. Entramos. A um canto da sala, pusemo-nos a observar seu trabalho. Era um profissional sério, competente e criterioso. Entre uma consulta e outra, porém, percebíamos seu pensamento, preocupado. Desde alguns dias, instalar-se-lhe na mente o desejo de rever um antigo paciente. Havia anos que não tinha notícias dele, mas se lembrava de que, muitas vezes em sonhos, ele lhe aparecia e o acusava de alguma coisa. Nos últimos dias isso não mais ocorrera, mas lhe ficara o desejo de saber o que era feito dele. O nome do cliente: José Domingos Morgado. Mente racional, sempre direcionada para a ciência, Vinícius não entendia o que estava acontecendo. Seu amigo Orlando, adepto do Espiritismo e a quem confidenciara a estranha situação e o mal-estar que sentia, aconselhou-o a ir a um centro espírita, pois estava precisando tomar passes. Vinícius riu na cara dele. Não acreditava nessas coisas sobrenaturais. Achava que eram crendices, superstições do povo ignorante. Quando terminou os atendimentos, nos aproximamos e Henrique sugeriu-lhe que fosse visitar o antigo cliente. Mas agora? Pensou em voz alta, sem se dar conta de que estava a conversar com alguém. Por que não? Suas consultas terminaram por hoje. Aproveite a oportunidade. Não deixe o tempo passar em vão. Aceitando a sugestão, ele murmurou: Bem lembrado. Acho que vou agora mesmo. Chega de adiar. Vou procurar a ficha e ver o endereço. Certamente ainda estará em nosso arquivo. Logo, com um papel na mão em que anotara cuidadosamente o endereço, ele tira o carro da garagem e dirige-se a bairro miserável da periferia. Mal sabia ele que não estava só. Junto dele seguíamos todos nós, aboletados no veículo. Chegando ao endereço, Vinícius bateu na porta e logo uma mocinha veio abrir. Era Marilda.
- Boa tarde! - cumprimentou ele, sem saber que desculpa dar para sua presença ali.
Ao vê-lo parado na porta, Marilda, que já o tinha visto na rua, reconheceu-o e sorriu, estendendo-lhe a mão efusivamente:
- Dr. Vinícius! Que prazer. Entre, por favor.
Ela não perguntou a razão da sua visita, mas ele sentiu necessidade de justificar-se:
- Sabe, vim atender um paciente aqui perto e lembrando-me de José Domingos.
- Que gentileza a sua! Venha, vou levá-lo até o quarto de meu irmão.
- Como é seu nome?
- Marilda.
Mais tranqüilo pelo acolhimento da mocinha, o médico a acompanhou. Chegando ao quarto do enfermo, sentiu o coração se confranger ao ver o rapaz estirado no leito.
- Como ele está passando? - perguntou.
- Bem. Saúde é o que não lhe falta. Não é, José Domingos?
O rapaz olhou o homem à sua frente e o reconheceu. Grunhiu, virando a cabeça para a parede, como sempre fazia quando estava descontente.
- Vim visitá-lo, José Domingos. Como vai?
E, voltando-se para Marilda, perguntou:
- Alimenta-se bem?
- Sim. Estamos em dificuldades, mas para ele, pelo menos, nunca falta comida - falou com orgulho.
O médico entendeu. Pelo estado precário da habitação, percebeu que deveria faltar dinheiro para as necessidades básicas de sobrevivência. Abriu a maleta, tirou o estetoscópio e começou a examiná-lo. O paciente agora estava intrigado.
- Dorme bem?
- Não muito, doutor. Acorda várias vezes por noite. Acho que tem pesadelos. Nestes últimos dias, porém, está dormindo melhor.
Terminado o exame, Vinícius tirou da maleta uma pomada, entregando-a para Marilda.
- Passe esta pomada após a higiene, nos locais das escaras. Vai amenizar os sofrimentos dele.
Antes de sair, inclinou-se para o doente, afagou-lhe os cabelos e disse com gentileza:
- José Domingos está bem. Virei outras vezes visitá-lo. Se precisarem de alguma coisa, me procurem.
Marilda agradeceu, mas, um pouco constrangida, explicou:
- Dr. Vinícius, não temos com que pagar-lhe...
- Não se preocupe, Marilda. Não terão que pagar nada. A propósito, onde estão seus pais?
- Mamãe está trabalhando e papai está procurando emprego.
- Está desempregado?
- Sim.
- Entregue-lhe meu cartão e diga para me procurar. Talvez possa arranjar-lhe alguma coisa.
- Que Deus o abençoe, doutor! Qualquer serviço serve.
Despediram-se. O médico deixou aquela humilde casa aliviado. Interiormente, sentia enorme bem-estar. Sensação agradável de dever cumprido, como se tivesse realizado algo que há muito deixara por fazer. Um estranho sentimento de que laços mais profundos o uniam ao enfermo passou a dominar-lhe o íntimo. Voltaria outras vezes. Um grande desejo de auxiliar a família Morgado, tornando-lhe a vida mais fácil, acudia-lhe à mente. A figura daquela mocinha, uma menina ainda, cuidando do enfermo o comovera profundamente. Sentia-se bem junto dela. Assim, com pensamentos altamente positivos, retornou a seu lar. Na casa dos Morgados, Marilda, por sua vez, também se emocionara com a visita do médico. Percebera que José Domingos o olhara com desconfiança, no início; mas a atitude do visitante, sincera e digna, demonstrando carinho e interesse, o vencera. No final, o Zé já estava mais sereno. Agradecendo a Deus, Marilda abriu o Evangelho e começou a ler em voz alta para o irmão:
- Bem-aventurados os que choram, pois que serão consolados...
À medida que lia, José Domingos se foi aquietando, parecendo prestar atenção nas palavras, até adormecer. Nós, na Espiritualidade, estávamos satisfeitos. Tudo caminhava segundo o previsto. Certos de que tudo estava em paz e após orarmos em conjunto, partimos, deixando Jeremias como guardião da família.

1 - Mateus, 9:28 a 30.

14 - ESPERANÇA RENOVADA

Nos dias seguintes, quando voltamos à casa dos Morgados, encontramos o ambiente modificado. Marilda, que se afeiçoara à leitura do livro que a costureira lhe emprestara, trazia a mente inundada de belos pensamentos. Ela, que gozava de natural elevação espiritual, agora sentia que os ensinamentos do Evangelho lhe falavam ao coração, como que complementando-a. Eram idéias que trazia inatas, das quais tinha agora a comprovação através das leituras. Uma sensação de bem-estar e de paz, além daquela que já experimentava normalmente, passou a dominá-la. Viviane solicitara a Henrique permissão para ficar alguns dias na casa, para colaborar com mais eficiência, o que ele aprovou, afirmando:
- Em virtude dos compromissos que você tem com o grupo, acho uma excelente idéia estreitar ligações. Sabe como agir e quais são os nossos objetivos. De resto, manteremos contato, além de estarmos sempre por aqui.
Foi com grande satisfação que Viviane ali permaneceu, junto com Jeremias, participando mais diretamente da vida da família. Naquela noite, Marilda contou aos pais sobre a visita do Dr. Vinícius, o que os deixou muito intrigados, porquanto não viam o médico havia muito tempo. Contudo, ficaram contentes e agradecidos, pois, na situação em que estavam, qualquer ajuda era bem-vinda. Especialmente essa, que dizia respeito a um emprego, deixou Antonino mais esperançoso. Assim, no dia seguinte, logo bem cedo, ele tomou um banho, se arrumou o melhor que pôde e, com as bênçãos e o incentivo da família, foi até o consultório do médico. Lá chegando, disse à secretária que queria falar ao doutor, mas ela perguntou, torcendo o nariz:
- É consulta?
- Não, senhora. Só quero falar com ele.
A moça mediu o homem dos pés à cabeça e, percebendo a sua humilde condição, fez pouco caso:
- Vai ter que esperar.
- Está bem - disse Antonino, sentando-se.
A secretária apontou a porta da rua:
- Aqui não. Lá fora.
Não fosse sua situação de necessidade extrema, Antonino teria ido embora no mesmo instante. A vontade era de dizer algumas verdades para aquela moça de voz áspera e nariz empinado. Todavia, baixou a cabeça e saiu da sala. Encostou-se numa árvore e passou a esperar. Ao cabo de quatro horas ainda estava lá. Como não visse mais ninguém sair, resolveu saber da secretária se tinha chegado sua hora. Nesse preciso instante, ela deixava o prédio. Antonino indagou:
- O Dr. Vinícius vai me atender agora?
- O doutor saiu para almoçar. Não está vendo que estou fechando o consultório?
- Sim, mas a senhora me disse que...
- Sei o que eu disse. Que o senhor teria de esperar. Infelizmente, Dr. Vinícius é um médico muito ocupado e os clientes vêm com hora marcada. Volte mais tarde.
- A que horas o doutor retorna?
- Às quinze horas.
Antonino agradeceu e a moça afastou-se, pisando duro. Encostado na árvore, mal podendo se suster em pé, ele pensava o que fazer. Voltar para casa era impraticável. Morava muito longe e não tinha dinheiro para pagar uma passagem de ônibus. Para ir andando, levaria tanto tempo que, quando lá chegasse, estaria na hora de voltar. Além disso, ele se sentia extremamente fraco. Tomara apenas uma caneca de chá pela manhã, antes de sair. Já passava das treze horas e estava faminto. O estômago dava voltas e as pernas tremiam. Engolindo o amor-próprio, resolveu bater em alguma casa e pedir um prato de comida. Muniu-se de coragem e andou por uma rua lateral, mais tranqüila, onde tinha avistado muitas residências ricas. Tocou a campainha daquela que lhe pareceu mais simpática. Logo uma criada veio atender. Humildemente, explicou que estava com fome e pediu um prato de comida. A mulher olhou-o com desconfiança e disse:
- Você não acha que ainda é bastante forte para trabalhar? Toma vergonha! Não tem comida não! Fora, vagabundo!
Com o rosto corado de vergonha e humilhação, Antonino afastou-se, os olhos úmidos de pranto. Enxugou as lágrimas e prosseguiu. Quem sabe, na outra casa, seriam mais generosos? Bateu na próxima, na outra, e na outra. Em todas elas foi escorraçado impiedosamente. Sem coragem para novas tentativas, sentou-se na calçada, desanimado. Viviane, que o acompanhara, procurava em vão manter-lhe o bom ânimo e a esperança, ao mesmo tempo em que tentava abrandar o coração das pessoas que o atendiam. Mas tudo em vão. Não havia ninguém que estivesse com as antenas psíquicas ligadas e que pudesse ouvi-la.
- Está com fome? - perguntou uma voz suave.
Só então Antonino notou um velhinho acomodado na calçada, perto dele. Sem disposição para falar, acenou afirmativamente com a cabeça. O ancião deu uma risadinha e estendeu o braço:
- Logo vi. Sei bem o que é passar fome. Mas comigo agora é mais fácil. As pessoas sentem pena de um velho andarilho como eu. Tome. Só tenho este pedaço de pão duro. Se quiser...
Viviane abraçou o velhinho e beijou-lhe o rosto enrugado, envolvendo-o em vibrações carinhosas, cheia de gratidão. Antonino aceitou o oferecimento, pegando com as duas mãos.
- Agradeço-lhe, amigo, é mais do que tive em casa hoje para comer.
Comeu com satisfação. Aquele pedaço de pão tinha caído do céu. O seu benfeitor abriu uma sacola que colocara ao lado e ofereceu, tirando uma garrafa:
- Aceita um gole de cachaça?
O pai de Marilda teve vontade de aceitar. Porém, recusou delicadamente:
- Não, obrigado, amigo. Estou procurando emprego.
- Ah!... E tem esperança de encontrar?
- Muita. Um doutor pediu que viesse falar com ele, mas vou ter que esperar.
- Desejo-lhe boa sorte - disse o velho à guisa de despedida.
Levantou-se, jogou a sacola no ombro e foi embora com passos trôpegos. Antonino acompanhou sua figura até desaparecer na esquina. Seu coração estava cheio de gratidão. Junto de um miserável, em pior condição do que a sua, fora encontrar ajuda, quando ninguém com dinheiro quis socorrê-lo. E nem ao menos perguntara seu nome... Mais refeito, caminhou até uma praça procurando água. Estava com sede. Depois de saciá-la, voltou ao consultório médico. A secretária retornou também, abriu a porta e os clientes começaram a chegar. Não viu o doutor entrar.
- O Dr. Vinícius ainda não veio? - perguntou à moça.
- Já. Está consultando.
Surpreso, Antonino exclamou:
- Mas estou aí fora faz tempo e não o vi!
- É que ele entra com o carro pelo estacionamento ao lado - explicou ela.
- Ah!...
Só então Antonino compreendeu que ficara olhando a porta e por isso não viu o médico chegar. No término do dia, após muito esperar, finalmente a secretária chamou Antonino. O doutor ia atendê-lo. Quando o pobre homem entrou na sala, fresca e agradável, o médico perguntou-lhe:
- Como é mesmo o seu nome?
- Antonino Morgado, um seu criado.
- O que deseja?
- Bem, doutor, o senhor entregou este cartão para minha filha e deixou recado para eu vir procurá-lo ... Então, aqui estou.
Somente aí lembrando-se do caso, o médico desculpou-se:
- Que cabeça a minha! Sabe como é, hoje tive um dia cheio. Esperou muito tempo, Antonino?
- Um pouquinho, mas não tem importância - disse sorrindo.
- Ótimo. Escute, estou precisando de um guarda-noturno para a minha casa. O empregado que fazia esse trabalho saiu. Caso aceite, o serviço é seu.
Radiante, Antonino esqueceu todas as horas de espera, o sofrimento, a humilhação. Teve vontade de se ajoelhar aos pés do médico. Em vez disso, contendo-se, respondeu satisfeito:
- Aceito, sim, doutor. Esse emprego veio na hora certa. Quando começo?
Depois de acertarem os detalhes, Antonino pegou o endereço da residência do médico e agradeceu ainda uma vez. Antes de ele sair, Vinícius pensou um pouco e, acatando sugestão de Viviane, tirou um maço de notas do bolso e deu ao novo empregado:
- Isto é um adiantamento para suas primeiras despesas. Sei que esteve desempregado alguns meses e precisará comprar algumas coisas, até umas peças de roupa. O uniforme será fornecido por mim.
Antonino estava em estado de graça. Não via a hora de chegar em casa e contar aos familiares a grande novidade. Passou num supermercado, fez uma compra e voltou carregado de pacotes. A alegria e a esperança tomaram conta de Alzira, que chorou de contentamento. Marilda aproveitou o momento para dizer:
- Devemos agradecer a Deus as bênçãos recebidas neste dia. Sinto que grandes mudanças estão ocorrendo. Neste livro que Dona Benedita me emprestou está a resposta para todos os nossos problemas e questionamentos.
Assim, naquela noite, antes do jantar, que para eles foi um verdadeiro banquete, oraram juntos, elevando o pensamento a Jesus e agradecendo as bênçãos recebidas. Para que José Domingos pudesse participar, fizeram a prece no quarto dele. Marilda leu um trecho do livro, que espalhou consolação e paz entre os participantes, com grande aproveitamento de Alzira e Antonino. Dessa forma, mesmo sem o saberem, haviam inaugurado o Culto do Evangelho no Lar naquela morada singela. Emanações de luz vertiam do Alto, envolvendo toda a casa e seus moradores. Na Espiritualidade, todos estávamos comovidos, especialmente Viviane, que trabalhava com afinco, colocando disposição e esforço em benefício daquele lar.

15 - NOVOS CONHECIMENTOS

Um sopro de esperança bafejava os moradores daquela casinha singela de periferia. Com o chefe da família trabalhando, aos poucos as coisas iriam entrar nos eixos e a miséria seria grande-mente atenuada. A par disso, o médico passou a interessar-se cada vez mais por José Domingos, por quem sentia estranha atração. Ao mesmo tempo, as leituras do Evangelho propiciavam à família nova maneira de pensar, incutindo em suas mentes idéias diferentes e renovadoras. Certa noite, ao chegar ao lar dos Morgados para uma visita ligeira, o médico percebeu, na mesinha de cabeceira de José Domingos, um livro. Interessou-se por ele. Tomou-o nas mãos e leu o título:
- O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec! Interessante! Nunca li nada sobre Espiritismo. Vocês são espíritas? - indagou, curioso.
Marilda sorriu e meneou a cabeça:
- Não somos praticantes do Espiritismo. Tal como o senhor, até alguém nos emprestar este livro, ignorávamos completamente o assunto. Contudo, as leituras desses textos nos têm feito grande bem.
Fez uma pausa, pensou por alguns segundos e depois sugeriu:
- Quando o senhor chegou, íamos começar a leitura. Se tiver algum tempo disponível e quiser participar, nos dará imenso prazer sua companhia, Dr. Vinícius.
Sentindo-se envolvido pelo ambiente, o médico aceitou a sugestão de Marilda.
- Excelente idéia, Marilda. Talvez seja a minha oportunidade de também obter as informações que me faltam sobre essa doutrina. Ficarei. Obrigado.
Ele sentou-se e a mocinha, de forma singela, depositou o livro nas mãos dele.
- Abra ao acaso, doutor. Veremos o que Jesus tem para nos dizer nesta noite.
Sem motivo aparente, Vinícius sentia-se tocado nas fibras mais profundas. Com unção, abriu o livro na página que assinalava a lição Retribuir o mal com o bem, do Capítulo 12º. Aprendestes que foi dito. Amareis o vosso próximo e odiareis os vossos inimigos. Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos; fazei o bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos perseguem e caluniam, afim de serdes filhos do vosso Pai que está nos céus e que faz se levante o Sol para os bons e para os maus e que chova sobre os justos e os injustos. - Porque, se só amardes os que vos amam, qual será a vossa recompensa? Não procedem assim também os publicanos? Se apenas os vossos irmãos saudardes, que é o que com isso fazeis mais do que os outros? Não fazem outro tanto os pagãos?1 Enquanto ia lendo aqueles ensinamentos que Jesus disseminara há quase dois mil anos, Vinícius deixava que a mente funcionasse livremente. Nunca fora dado a leituras da Bíblia e assim desconhecia por completo esse texto. Parecia-lhe estar penetrando num outro mundo. Continuou lendo. Chegando aos comentários do codificador, ficou surpreso com a grandeza e a lógica dos conceitos emitidos. Prosseguia ele:
- Amar os inimigos é, para o incrédulo, um contra-senso. Aquele para quem a vida presente é tudo, vê no seu inimigo um ser nocivo, que lhe perturba o repouso e do qual unicamente a morte, pensa ele, o pode livrar...
Quando terminou o trecho, viu a lição subseqüente, Os inimigos desencarnados, e se encheu de curiosidade. Contudo, Marilda disse-lhe que era suficiente o que fora lido.
- Temos aí um farto material para meditar - disse ela.
- Sem dúvida - concordou o médico -, estou impressionado com as explicações dadas ao tema. Confesso que desconhecia esses ensinamentos de Jesus e agora, com os comentários do autor do livro, eles adquiriram uma amplitude maior para mim.
Enquanto Vinícius e Marilda conversavam fraternalmente, visto que Alzira pouco falava, o enfermo mantinha os olhos fixos no médico. Aquela lição parecia endereçada especialmente a ele, José, que tanto tinha odiado. Ali presentes, percebíamos o que o doente estava pensando. Agora já não sentia tanto rancor pelo médico. As visitas do doutor tinham tido o condão de amansá-lo. Não mais demonstrava revolta ao vê-lo. Ao contrário, com a convivência, experimentava até um certo prazer, reconhecendo-se importante e valorizado. As atenções do médico faziam-lhe muito bem. Nesse momento, Marilda encerrava a pequena reunião com uma prece:
- Senhor Jesus, Mestre querido, nós te agradecemos por esses momentos de paz que nos concedeste através da leitura do teu Evangelho. Possamos aprender tuas lições, tornando-nos cristãos dignos e fiéis cumpridores das nossas obrigações. Abençoa meu pai, que está trabalhando, assim como toda a família do Dr. Vinícius e a nós que aqui estamos, especialmente o José Domingos. Amém.
O médico estava deveras emocionado. A prece de Marilda, feita de forma simples e despojada, reflexo da sua alma, transformara o ambiente, inundando-o de luz. Vinícius despediu-se, agradecido. Experimentava uma sensação de tranqüilidade e de bem-estar que há muito não sentia. Antes de retornar para casa, passou num shopping e, numa grande livraria, comprou dois exemplares de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Um seria seu. Estava ansioso para lê-lo. O outro daria a Marilda, que tomara emprestado de alguém o exemplar utilizado na reunião. Nós o acompanhamos. Chegando em casa, logo viu Antonino, que fazia a ronda, e acenou-lhe amigavelmente. Entrou. A esposa, Helena, o esperava para o jantar; beijou os filhos, Patrícia e Guilherme, de sete e oito anos, e sentaram-se à mesa de refeições. As crianças puseram-se a narrar as peripécias do dia. Vinícius, que geralmente chegava cansado e de mau humor, sem paciência para aturar a tagarelice dos filhos, mostrava-se sereno e com excelente disposição, o que a esposa estranhou.
- Você está bem hoje!
- É verdade. Tive um dia puxado, mas, por incrível que pareça, estou ótimo.
- Aconteceu alguma coisa diferente? Você demorou hoje!
- Não. Tudo igual. Fui visitar um paciente na periferia, por isso cheguei tarde.
Vinícius preferiu não contar toda a verdade por enquanto. Helena, tal como ele, nunca se interessara por religião, e ele desejava pesquisar um pouco mais, ter mais tempo para refletir sobre o assunto antes de contar a ela. Brincou um pouco com os filhos, conversou ligeiramente com a esposa e, quando ela o avisou de que ia se recolher após colocar as crianças na cama, ele disse:
- Ficarei mais algum tempo aqui. Tenho um novo livro para ler. Durma bem, querida.
Depois que Helena saiu, Vinícius abriu o livro. Estava ansioso para continuar a leitura. Voltando ao Capítulo 12º, subtítulo Os inimigos desencarnados, leu: Ainda outros motivos tem o espírita para ser indulgente com os seus inimigos. Sabe ele, primeiramente, que a maldade não é um estado permanente dos homens; que ela decorre de uma imperfeição temporária e que, assim como a criança se corrige dos seus defeitos, o homem mau reconhecerá um dia os seus erros e se tornará bom. Sabe também que a morte apenas o livra da presença material do seu inimigo, pois que este o pode perseguir com o seu ódio, mesmo depois de haver deixado a Terra; que, assim, a vingança, que tome, falha ao seu objetivo, visto que, ao contrário, tem por efeito produzir maior irritação, capaz de passar de uma existência a outra...1 Outra vez essa idéia de continuidade da vida após a morte, inclusive sugerindo a reencarnação, ou teoria das vidas sucessivas. Teria nisso algum fundo de verdade? Jamais acreditara nessas idéias, mas agora, lembrando-se dos sonhos que tivera, começava a ter suas dúvidas. Terminando essa lição, folheou novamente ao acaso e caiu justo na página Ressurreição e reencarnação.2 Ficou surpreso com o acaso e mergulhou na leitura de todo esse Capítulo. Novas idéias surgiam em sua mente, fazendo-o raciocinar com lógica e bom senso. Desse Capítulo passou a outro e a outro. Não conseguia parar de ler. Sua fome de informações era tão grande que não percebeu as horas passarem. Quando deu por si, estava amanhecendo. Esfregou os olhos, satisfeito. Novas concepções lhe felicitavam o Espírito sobre Deus, a vida, a prece, a caridade, a reencarnação, a lei de causa e efeito... Estava pensando seriamente em telefonar ao Orlando, espírita convicto, e buscar mais informações. Não podíamos deixar passar essa oportunidade. Assim, continuamos a seu lado por mais algumas horas. Recolheu-se ao leito e dormiu placidamente, como há muito não acontecia. Acordou tarde. Levantou-se com excelente disposição e ânimo. Sentia-se renovado. No consultório, num intervalo entre uma consulta e outra, ligou para o colega Orlando e combinou de ir ao centro espírita com ele, logo mais à noite.
- Aconteceu alguma coisa? - perguntou o amigo, surpreso.
- Não. Você não disse que preciso tomar uns passes?
- Disse, mas você nunca aceitou! Estou estranhando...
- Fique tranqüilo. Mais tarde conversaremos.
Desligou o telefone e continuou trabalhando, enquanto esperava ansiosamente o dia passar. Queria conhecer o tal do centro espírita.

1 - Mateus, Capítulo 5º, versículos 43 a 47.
2 - "Ninguém poderá ver o reino de Deus se não nascer de novo", Capítulo 4º de "O Evangelho Segundo o Espiritismo".

16 - NO CENTRO ESPÍRITA

Após o jantar, Orlando passou na residência do amigo. Vinícius teve o cuidado de prevenir a esposa de que iriam a uma reunião àquela noite, o que não deixava de ser verdade. Só não disse onde. Assim, ao despedir-se dos filhos e da esposa, avisou:
- Não me espere, querida. Não sei a que horas vou chegar.
Orlando colocou o carro em movimento e, enquanto faziam o trajeto, observava disfarçadamente o colega. Tinha vontade de crivá-lo de perguntas, mas, como Vinícius se mantivesse calado, respeitou-lhe o silêncio. Adriana e eu seguimos juntos, aboletados no veículo. Não demorou muito o carro parou defronte de uma construção singela onde se lia o nome do centro espírita. Entraram. O salão, pequeno, com capacidade para uma centena de pessoas, encontrava-se praticamente lotado. Todos mantinham-se em respeitoso silêncio. Na frente, uma mesa coberta com toalha branca; sobre ela, apenas um vaso de flores, alguns livros, uma jarra com água pura e um copo. Atrás da mesa, na parede do fundo, uma frase: Fora da caridade não há salvação. Música suave impregnava o ambiente de paz, convidando à meditação. Vinícius sentia-se emocionado. No recinto, uma grande quantidade de espíritos necessitados de socorro e de assistência também aguardavam o início das atividades, conduzidos por servidores do nosso plano, que procuravam manter a disciplina e a tranqüilidade entre os mais impacientes. A nossa visão espiritual, inúmeros trabalhadores do bem, responsáveis pela Casa e pelos trabalhos, faziam-se visíveis. No horário aprazado, teve início a reunião. Um senhor de cabelos grisalhos aproximou-se da mesa e convidou os presentes a elevar o pensamento em oração. Nesse momento, vimos uma entidade de nobre condição espiritual acercar-se dele e envolvêl-o em vibrações dulcificantes. Ela ergueu a fronte e orou junto, transmitindo-lhe belos pensamentos. Após a oração, o dirigente encarnado abriu um exemplar de O Evangelho Segundo o Espiritismo, ainda auxiliado pelo amigo espiritual, e leu a lição, Ajuda-te a ti mesmo, que o céu te ajudará. Pedi e se vos dará; buscai e achareis; batei à porta e se vos abrirá; porquanto, quem pede recebe e quem procura acha e, àquele que bata à porta, abrir-se-á. Qual o homem, dentre vós, que dá uma pedra ao filho que lhe pede pão? - Ou, se pedir um peixe, dar-lhe-á uma serpente? - Ora, se, sendo maus como sois, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, não é lógico que, com mais forte razão, vosso Pai que está nos céus dê os bens verdadeiros aos que lhos pedirem?1 Após a leitura, o dirigente fez uma pausa, pareceu concentrar-se durante alguns segundos e começou a falar, explanando o tema. A primeira vista, percebia-se que era pessoa simples, de pouca cultura, porém de coração bom e generoso. Seus comentários, feitos de forma singela e agradável, atingiam o público presente, criando um elo de simpatia entre o orador e a platéia. Apesar da simplicidade da forma, que facilitava o entendimento, Vinícius notou que os conceitos emitidos tinham grande conteúdo e dilatavam sua visão, abrangendo pontos de vista diferentes que ele não tinha percebido. Encerrada a preleção, seu juízo sobre o palestrante tinha melhorado muito, e sua admiração também. Olhou para Orlando, que o fitava com uma expressão de quem diz "não falei que você ia gostar"? Mas não pôde dizer nada, porque nesse instante iniciava-se o trabalho de passes. A luz foi reduzida e a música voltou a inundar o ambiente. Vinícius notou que algumas pessoas se levantaram e, pondo-se em posição, iniciaram o trabalho. Um pouco tenso, agitou-se na cadeira. Percebendo sua preocupação, Orlando informou em voz baixa:
- Fique tranqüilo. O passe é apenas uma transmissão de energias.
Nesse momento, uma moça aproximou-se dele e estendeu as mãos sobre sua cabeça. Vinícius fechou os olhos, procurando manter-se sereno. Sentiu branda sensação de bem-estar, acompanhada de leve aragem, enquanto suave arrepio percorreu todo o seu corpo. Estava em paz consigo mesmo e com o mundo. Naquela hora, seus problemas tinham desaparecido. Quando a reunião terminou e as luzes voltaram ao normal, ele estava maravilhado. Orlando sorria, dizendo:
- E daí, o que achou?
- Gostei muito. Então. Espiritismo é isso? Nunca imaginei!
O colega deu uma risadinha, afirmando:
- É. Eu sei o que você imaginava. Como muita gente, faz confusão entre Espiritismo e seitas africanas, cujo sincretismo se acha impregnado na cultura do povo brasileiro; merecem o nosso maior respeito, mas nada têm a ver com nossa doutrina.
Um pouco constrangido, Vinícius concordou:
- Tem razão. Reconheço minha ignorância, amigo Orlando, e vou nomeá-lo meu instrutor para assuntos transcendentais.
- Com o máximo prazer, Vinícius. Então, para começar, vamos até a livraria. Você precisa ler alguns livros, indispensáveis para quem quer entender melhor a Doutrina Espírita.
Assim conversando, procuraram abrir caminho entre as pessoas que se Levantavam para sair e se dirigiram à sala onde funcionava a livraria. Muitos freqüentadores formavam grupos em que comentavam o tema da noite, ou simplesmente confraternizavam, mostrando amizade antiga. Outros, ainda, esperavam para falar com o senhor Fortunato, o palestrante da noite, para pedir-lhe orientações. Nesse momento, Vinícius vê, no fundo do salão, em meio ao povo, uma senhora acompanhada de uma mocinha. Satisfeito e sorridente, dirige-se para junto delas, abrindo caminho entre as pessoas.
- Marilda! Mas que prazer encontrá-la aqui hoje! Não sabia que freqüentava um centro espírita.
Eu e Adriana sorrimos. Ao lado delas estavam os outros membros do nosso grupo: Viviane, Alberto e Henrique. Trocamos um abraço, sem deixar de acompanhar o diálogo que se desenrolava entre os encarnados.
- Como vai, Dr. Vinícius? É a primeira vez que venho a esta Casa. Dona Benedita, que aqui está, convidou-me e, muito feliz, aceitei a oportunidade. Confesso-lhe que não me arrependi. Gostei muito. Desculpe-me, não lhe apresentei minha amiga. Dona Benedita, este é o Dr. Vinícius, de quem tenho lhe falado tanto.
Cumprimentaram-se e Vinícius apresentou a ambas o colega Orlando. Após os cumprimentos, dirigiram-Se à livraria, ali perto. Orlando pegou um exemplar de O Livro dos Espíritos, mostrando-o a Vinícius:
- Esta obra contém a síntese de todo o ensinamento dos Espíritos. Sua leitura é fundamental.
Vinícius folheou-O e depois comprou dois exemplares, entregando um para Marilda. Ela estava corada de prazer.
- Muito agradecida, Dr. Vinícius. Fico feliz em ganhar este livro, mas será que vou entender alguma coisa? Freqüentei tão pouco a escola!
- Não se aflija, Marilda. Este é um assunto novo para mim também. Já contratei Orlando para orientar-me e, certamente, ele não se negará a fazer o mesmo com você. O que acha?
Antes que ela pudesse dizer alguma coisa, Orlando antecipou-se:
- Marilda, terei imenso prazer se pudermos estudar juntos. É só marcarmos dia e horário, que estou à disposição de ambos.
Dona Benedita não quis ficar de fora:
- Se me aceitarem, também desejo participar. Sou espírita há muitos anos, mas confesso que tenho grande dificuldade de entender, quando leio sozinha.
- Então está combinado! Faremos um grupo de estudos! - afirmou Vinícius, demonstrando imensa satisfação.
Nós estávamos comovidos. Tudo caminhava bem e as sementes estavam germinando. Alegremente nossos amigos deixaram o Centro. Orlando prontificou-se a levar Dona Benedita e Marilda para casa. Após deixá-las em suas residências, convidou o amigo para comerem uma pizza. Assim, teriam ocasião de conversar melhor. Entraram na pizzaria, que, naquele dia da semana, estava praticamente vazia. Sentaram-se e fizeram os pedidos. Quando o garçom se afastou, Orlando cruzou os braços sobre a mesa e disse:
- Bem, agora estamos sozinhos e podemos conversar sem ser interrompidos. O que está acontecendo?
Vinícius fitou o amigo e disse:
- É uma longa história, Orlando.
- Gosto de histórias. Além disso, temos bastante tempo. Você disse à Helena que não o esperasse, e eu, como sou solteiro e moro sozinho, não tenho que dar satisfações a ninguém. Portanto...
- Tem razão. De qualquer forma, estou mesmo precisando desabafar. Lembra-se daqueles sonhos que eu lhe contei?
- Certamente. Recordo-me que eles sempre o incomodaram muito.
- Pois bem. A mocinha que você conheceu hoje é irmã do rapaz que eu via em sonhos.
- Não é possível!
- Verdade. Vou lhe contar como tudo aconteceu. Certo dia, tive vontade de visitar um ex-paciente e...
Assim, Vinícius contou ao amigo tudo o que tinha ocorrido desde aquele dia. Suas visitas posteriores ao enfermo, a leitura do Evangelho, que tanto bem lhe fez, a compra do livro e o interesse de saber mais sobre o Espiritismo.
- Aí tem você os motivos que me levaram a mudar de idéia e a desejar ir ao Centro nesta noite.
- Ora, vejam só! - disse Orlando. - E você me escondendo tudo isso!
- Sabe como sou racional, meu amigo, e como penso em termos científicos.
Sempre achei que religião não combinava com ciência. Eram pontos extremos e divergentes. Assim, precisava encontrar bases para poder me agarrar. E isso fui encontrar na filosofia espírita.
- Ah! Meu amigo! Então, agora está pronto para se encontrar com a ciência espírita. Nunca pude lhe dizer nada porque você nem permitia que se falasse no assunto!
Vinícius concordou, sorrindo:
- É verdade. Sempre fui muito preconceituoso.
- E isso, por si só, denota pensamento anticientífico.
- Certamente. Quantas vezes até ri dessas idéias que hoje tento estudar. Sem pensar que rir daquilo que a gente não conhece nem entende é ignorância.
- Está fazendo progressos, colega!
Nesse momento, o garçom retornou trazendo a pizza pedida. O aroma estava delicioso e, com prazer, puseram-se a comê-la. Entre uma garfada e outra, Vinícius considerou:
- Uma coisa, no entanto, me incomoda, Orlando. Quando vou à casa dos Morgados, sinto um misto de atração e de repulsão por José Domingos. Há momentos em que me aproximo dele com sincero desejo de ajudar; a situação do rapaz me causa profunda compaixão e, realmente, gostaria de algo fazer por ele. Mas, em outros momentos, quando ele me olha daquele jeito, como se soubesse o que estou pensando, sinto aversão por ele, raiva... Até medo!
- Medo?...
- É!... Como se ele pudesse me fazer mal, entende? Depois, caio em mim e percebo o absurdo da situação. Ele é um jovem com paralisia cerebral, seu problema é irreversível e está preso a um leito, enquanto eu sou forte, tenho todos os movimentos e mente lúcida. Aí, tento me controlar, dominar o pânico e olhá-lo de forma racional. Não é realmente um absurdo? Há horas em que acho que estou ficando louco!
Orlando tranqüilizou-o:
- Não se preocupe, Vinícius. Você não está ficando louco. É compreensível, de certa forma, o que está sentindo.
- Como assim?
- Se olharmos pela ótica da reencarnação, poderemos compreender o que está acontecendo com você e com ele também. Provavelmente, ele o prejudicou numa outra existência, o que o leva a ter medo dele. O estado atual de José Domingos demonstra que é um Espírito em expiação.
- Entendo. Ele está pagando hoje o que fez outrora.
- Mais ou menos isso. Prefiro dizer que Deus, em sua infinita misericórdia, se utiliza de um processo educativo concedendo a ele meios de se reabilitar perante sua própria consciência.
- Interessante... É lógico. Mas, porque ele me acusava, em sonhos, de desejar destruí-lo?
- Não podemos saber com certeza. Mas, pense bem. Suponhamos que José Domingos, em outra época, o tenha destruído. Não é natural que, encontrando-o agora, suponha que você o odeie e queira se vingar dele, desejando-lhe também o mal? E se, na atualidade, você tem oportunidade de ajudá-lo como médico, ministrando-lhe cuidados e zelando pela sua saúde, significa que você também tem sua parcela de culpa. Não raro, nesses casos, adversários se digladiam através do tempo, alternando-se as posições, em que os implicados ora são agressores ora vítimas, dependendo das circunstâncias e das possibilidades do momento. Tudo é muito complexo...
Pensativo, Vinícius meditava sobre as considerações de Orlando. Sim, tudo tinha muita lógica. Teria que refletir sobre isso. Já era tarde. Saíram do restaurante, cada qual entregue a seus próprios pensamentos. No dia seguinte, marcaram o estudo. Todas as segundas-feiras, às dezenove horas - antes de voltarem para casa -, se reuniriam na residência de Marilda.

1 - Mateus, Capítulo 7º, versículos 7 a 11, constante do Capítulo 25º, item 1. de "O Evangelho Segundo o Espiritismo".

17 - O TRABALHO PROSSEGUE

Alguns dias depois, reunidos, conversávamos sobre os progressos do Caso Morgado. Demonstrávamos nossa alegria em ver que tudo estava transcorrendo da melhor maneira possível, os fatos se encaixando e criando condições novas, propiciadoras de esperança de dias melhores no futuro. Viviane, que retornara das suas atividades na casa dos Morgados e participava da nossa reunião, mostrava seu júbilo:
- É um prazer ver nossos amigos reunidos para o estudo da obra básica da codificação kardequiana. Sob a orientação de Orlando, todos manifestam grande interesse. Até José Domingos!
Henrique sorriu, concordando:
- Sem dúvida, O estudo será de grande utilidade para eles, visto que, com o conhecimento da Doutrina Espírita, terão a visão ampliada e esclarecida, ficando mais fortalecidos perante as atribulações da vida e cientes do que lhes compete realizar em beneficio do próprio progresso.
- Tenho uma dúvida, Henrique. Até quando iremos acompanhá-los com nossos cuidados? - indagou Adriana.
- Enquanto for necessário. No momento, precisam de acompanhamento, para sedimentarem as novas disposições de crescimento interior. São plantas frágeis que carecem de cuidados para um saudável desenvolvimento. Como temos outras atividades a desenvolver, serão designados servidores do nosso plano para fazer esse acompanhamento no dia-a-dia. Caso surja algum imprevisto, seremos avisados. Todavia, não podemos perder de vista que a nossa ação, como não ignoram, deve respeitar o livre-arbítrio de cada um. A linha divisória que separa a sugestão que emitimos da ação que empreendemos é, em muitos casos, bastante tênue. A despeito do nosso desejo de fazer o melhor, não podemos decidir por nossos irmãos encarnados.
Viviane sorriu, um tanto constrangida:
- Embora não nos falte vontade, Henrique. No meu caso, não raro tenho que me controlar. Como desencarnados, possuímos uma visão mais ampla e diferenciada das situações e dos fatos, o que os encarnados não têm. Muitas vezes, vemos que estão agindo errado, tentamos ajudar, mas nem sempre nos ouvem. Como fazer?
- Se utilizamos todos os recursos à nossa disposição, sem resultado, deixá-los bater a cabeça é a única opção. Só nos resta respeitar seus desejos - afirmou o orientador. - Todas as experiências são válidas. Para exercitar o aprendizado, se candidataram a retornar à Terra em novo corpo. O esquecimento do passado facilita-lhes o reequilíbrio diante dos novos compromissos assumidos. As vivências anteriores e os conhecimentos acumulados servirão de base, surgindo-lhes em forma de intuição e esclarecendo-lhes como agir em face dessa ou daquela situação. Se tomarem a decisão errada, sofrerão as conseqüências; se tomarem a decisão correta, um bem-estar íntimo lhes advirá, pela paz da consciência resultante do dever cumprido. Lutas e vitórias fazem parte do trajeto que nos conduzirá à perfeição. O caminho, porém, é escolha nossa.
Henrique fez uma pausa, que não tivemos a coragem de quebrar, imersos em nossos pensamentos. Retomando a palavra, o instrutor considerou:
- O caso Morgado caminha de forma satisfatória. Assim, iniciaremos o trabalho com outro grupo. Amanhã, no mesmo horário, estejam aqui. Partiremos para a Crosta.
Depois da prece de encerramento das nossas atividades, nos despedimos. Estávamos ansiosos para saber o que nos reservava o dia seguinte. No horário de sempre nos reunimos. Outra equipe sairia na mesma hora; desse modo, nos fariam companhia. Após as orações de costume nessas ocasiões, quando suplicávamos o amparo divino para nossas tarefas, partimos. Ao chegar nas proximidades de uma grande cidade brasileira, nos separamos. O outro grupo permaneceria ali, na região metropolitana, mas nós tomaríamos rumo diferente, segundo informou Henrique. Aproveitando a brisa ligeira que tocava nossa pele, produzindo agradável sensação, volitávamos, observando as paisagens que se desdobravam aos nossos olhos. Matas verdejantes, cortadas por estradas que serpenteavam como cicatrizes no solo. Rios, cujas águas refletiam a luz do sol em cambiantes matizes do arco-íris. Casarios singelos surgiam à nossa frente, vez por outra, em meio às imensas pastagens pontilhadas de animais. As lavouras, como um tapete verde, se estendiam sobre o solo, colorindo a paisagem, na qual se incluíam trabalhadores, homens e mulheres de humílima condição, que cuidavam da terra. Reverente, elevei o pensamento ao Criador, agradecido por todas as belezas que seu coração amoroso ofertara ao homem, por divina oportunidade de trabalho e redenção, mas que este não valorizava devidamente. Nesse instante, Henrique indicou um ponto ao longe:
- Vejam. Estamos chegando.
Fixei os olhos naquela direção. À distância, vi uma cidade pequena encravada entre dois morros. Uma parte do casario se equilibrava nas alturas, enquanto outra se conservava no sopé dos montes, escondida nas sombras, visto que os raios de sol ali não incidiam àquela hora do dia. Um pequeno rio de águas cristalinas banhava a cidade. De longe, a paisagem assemelhava-se a um cartão postal, desses que a gente compra nos pontos turísticos. Caminhamos pelas ruas como qualquer mortal, para observarmos melhor. As pessoas, alegres e descontraídas, sorriam umas para as outras, trocando saudações. Crianças brincavam em grupos, batendo bola, jogando amarelinha ou, simplesmente, conversando. Descendo a montanha, vimos pacatos habitantes a pescar, sentados na antiga ponte de madeira sobre o rio. Paramos defronte de uma casa singela e florida, numa estreita rua na fralda do monte.
- Chegamos ao nosso destino. Entremos.
Na sala, despida de quaisquer atavios, vimos um casal idoso. Ele, magro e encurvado, feições angulosas e cabelos grisalhos, achava-se sentado numa cadeira de balanço. Lia um jornal. Ela, baixinha e gorducha, pele clara e rosada, cabelos louros presos na nuca, parecia essas pessoas que estão sempre sorrindo, de bem com o mundo.
- Meu velho, Júlio ainda não chegou? Estou preocupada. Está anoitecendo e nosso neto não costuma demorar tanto.
Desviando os olhos da página que estava lendo, ele tirou os óculos e sugeriu:
- Talvez tenha algum trabalho de escola para fazer e se atrasou.
- Não o nosso Júlio, certamente. É muito responsável. Teria avisado.
- Ora, mulher, como poderia nos avisar se nosso telefone tem estado com problemas?
- Sempre encontraria um jeito!
- Não se aflija. Neste lugar nada de mal pode acontecer a ele. Temos que levantar as mãos para o Alto. Veja! Li no jornal que aconteceu um crime bárbaro numa localidade não muito distante daqui. Dois rapazes alcoolizados atacaram duas adolescentes que saíam da escola ao meio-dia. Levaram-nas para um matagal nas imediações da cidade e, após abusarem da inocência delas, as torturaram e, em seguida, as mataram com requintes de crueldade.
- Que coisa horrível, Genésio! Isso é o fim do mundo! As pessoas se esqueceram de Deus e o resultado aí está! - considerou a mulher, parando de mexer a panela e agitando no ar a colher de pau, indignada.
- Pois é! Felizmente essas coisas não acontecem aqui na nossa pacata cidadezinha. Mas, e nossa filha, como estará? Sujeita a toda sorte de perigos na cidade grande...
Com uma das mãos, a boa mulher afastou da testa um cacho de cabelos, enquanto com a outra levava a ponta do avental no canto do olho, enxugando uma lágrima. Seu coração vivia sempre apertado de angústia. Havia anos que não tinham notícias da filha. Mudara-se, não deixara endereço e nunca mais os procurara. Muitas vezes chorava à noite, bem baixinho, para que o marido não percebesse. Nesse instante, ouve um ruído de passos que se aproximam e o portão que se abre com um rangido. Em poucos segundos, um garoto entra na casa. O coração da velha senhora exulta. Esse neto é o sol, a luz da sua vida. Sorriu para ele, dizendo:
- Júlio, lave as mãos e venha, O jantar está pronto.
O menino, um saudável e belo garoto de dez anos, não espera a reprimenda e justifica-se:
- Desculpe, vovó Luzia. Atrasei-me hoje. Amanhã teremos prova e um colega pediu-me que fosse até sua casa e lhe ensinasse alguns problemas de matemática. Não pude evitar.
- Não tem importância, meu filho. O que interessa é que você chegou. E bem na hora da nossa refeição!
O avô sorriu, observando como a companheira se derretia pelo neto. Logo mais, estavam sentados em torno da mesa. No centro, um belo prato de polenta; sobre ela, um suculento molho de tomates e carne. Nós nos olhamos e sorrimos. Quem de nós não teria uma lembrança dessas na mente? A família reunida em volta da mesa, os pratos preparados carinhosamente pela mãe. Uma onda de saudade nos inundou o coração. Nesse momento, de cabeça baixa, oravam antes da refeição. Abençoa, Senhor Jesus, nossa casa e todos os nossos familiares. Abençoa também o nosso jantar. Amém. Após essa sintética oração, que, percebemos, nem todos estavam acompanhando mentalmente, eles atacaram a iguaria, que parecia deliciosa. Notamos, porém, que Dona Luzia, com o prato à sua frente, não se resolvia a levar o garfo à boca.
- Coma, vovó, senão esfria. Está uma delícia!
Ouvindo a voz do neto, a velha senhora começou a comer lentamente. Estava sem apetite. Enquanto o garoto tagarelava na mesa, nosso companheiro Alberto estava pensativo.
- Que coisa interessante! Parece que já conheço esse menino. O formato do rosto, os olhos grandes e aveludados, a maneira de falar, a voz... Não sei.
- Quem sabe você o conhece realmente? - arrisquei.
- Impossível, César. Nunca estive nesta região nem conheço essa família. São estranhos para mim. Provavelmente, ele se assemelha a alguém que conheci. Mas, quem?... Eis a questão.
Olhei para o garoto, que se servia pela segunda vez. Tinha cabelos escuros, pele bem clara e grandes olhos castanhos, sombreados de longas pestanas. Sua boca era rosada e tinha sorriso fácil, onde se viam dentes perfeitos. Era um menino simpático e agradável. Terminada a refeição, Júlio fez as tarefas escolares e, após beijar os avós, recolheu-se ao quarto de dormir. Os avós, Genésio e Luzia, permaneceram acordados mais algum tempo. Ele, preso à leitura do jornal. Ela, mergulhada na confecção de uma toalha de crochê, que estava tecendo para vender.

18 - ENCONTRO COM O PASSADO

Acompanhamos o garoto até o quarto. Ele se preparou cuidadosamente para dormir. Após a higiene, colocou o pijama, guardou o uniforme da escola e ajoelhou-se ao lado da cama. De mãos postas, fez uma oração:
- Querido Jesus. Agradeço tudo o que o Senhor tem me dado: um lar, uma família, o amor do vovô Genésio e da vovó Luzia.
Interrompeu por instantes, parecendo meditar, depois prosseguiu:
- Se não for pedir demais, já que tenho recebido tanto, gostaria de ter notícias de minha mãe. O Senhor sabe, só conheço minha mãezinha através de fatos, e sinto muita falta dela. Não desejo parecer ingrato, mas todas as crianças têm mãe, só eu não tenho a minha. Além disso, tenho pena de meus avós; noto que sofrem muito, embora evitem comentar o assunto por minha causa. Não sei quem é meu pai! Então, se pelo menos pudesse ver minha mãe - uma vez que fosse -, ficaria contente e não pediria mais nada. Prometo. Amém.
Comovidos, acompanhávamos a oração do menino. Quando terminou, verificamos que duas entidades tinham chegado e também o observavam. Certamente deveriam ser parentes desencarnados. Tratava-se de um homem e de uma mulher. Ela, beirando os oitenta anos, clara, muito parecida com dona Luzia. Deduzi que deveria ser sua mãe. Ele, bem mais jovem, um senhor de cinqüenta anos presumíveis, pele mais morena e cabelos grisalhos. Pela diferença de idade, por certo não seriam marido e mulher. Henrique, que já os conhecia, nos apresentou a eles:
- Esta é Dona Gema, mãe da dona da casa, nossa conhecida Luzia. E este é Artur, irmão de Genésio.
Trocamos cumprimentos e nos pusemos a conversar com os recém-chegados, risonhos e simpáticos. Artur, nos dando as boas-vindas, considerou:
- Estamos muito satisfeitos por recebê-los aqui nesta casa. Especialmente porque sabemos que vieram em tarefa de auxílio à família. Como puderam perceber, pela prece de nosso querido Júlio, nem tudo caminha bem. Existem pontos que precisam ser analisados, para que possamos ajudá-los com acerto.
- Temos procurado fazer o máximo por eles, mas há algumas limitações - ponderou a senhora Gema com delicadeza.
Particularmente, eu estava surpreso. As duas entidades denotavam excelente condição espiritual. O que estaria tolhendo seus passos no socorro aos familiares encarnados, a ponto de sermos chamados para atender o caso? Corei de vergonha. Notei que Gema, Artur e Henrique se entreolharam e sorriram. Haviam captado meu pensamento. Para evitar novos constrangimentos, nosso orientador explicou:
- Existem certos aspectos deste caso que vocês ignoram e que tomarão conhecimento à medida que as ações forem se desenrolando. Logo perceberão porque nossa presença se faz necessária.
Nessa hora, o menino deitava-se, apagando a luz. Deixamos o quarto. Ali permaneceu apenas Artur, o tio-avô, encarregado de acompanhar o sono do garoto. Dirigimo-nos à sala, onde o marido lia o jornal e a esposa fazia crochê. Luzia, reconhecendo-se cansada pelos afazeres diurnos, também se recolhia, no que foi acompanhada pelo marido. Mantivemos uma discreta distância do quarto do casal, ali só penetrando a idosa entidade, Dona Gema. Após algum tempo, ela franqueou a entrada do quarto. Ambos estavam dormindo. Enquanto aguardávamos, pus-me a observar o aposento. Algumas fotos em porta-retratos, sobre a cômoda, chamaram minha atenção. Ali aparecia, em diversas poses e em épocas diferentes, a mesma pessoa: recém-nascida, na primeira infância, fazendo a primeira comunhão, em idade escolar, adolescente. Era uma mocinha bonita, magra, de pele clara, cabelos pretos e olhos grandes e aveludados, como os de Júlio. Percebi que Alberto se aproximara, também atraído pelas fotos. Eu ia fazer um comentário, quando, olhando de lado, notei que ele estava extremamente pálido.
- Você não está bem, Alberto? - perguntei.
Ele me olhou de forma estranha, parecendo desnorteado, mas não teve tempo de responder. Nesse instante, ouvimos um choro. Era Dona Luzia que, desprendida do corpo, estava sentada no leito, com a cabeça entre as mãos, acusando grande desespero.
- Por que, meu Deus? Por que isso foi acontecer conosco? Onde está nossa filhinha? Onde está nossa querida Lígia? Tenho amargado todos esses anos a dor da separação, tenho sofrido e chorado sem consolo. Quero ver minha filha! Quero ver minha Lígia!
Ela nada percebia do ambiente espiritual à sua volta. Dona Gema, abraçada a ela, tentava tranqüilizá-la:
- Acalme-se, minha filha! Confie em Deus, Luzia! Não se desespere! Aceite o sofrimento por bênção divina. São recursos terapêuticos que o Senhor lhe envia para que você possa superar os erros do passado e aprender com o presente.
Luzia, porém, não escutava as amorosas sugestões da mãezinha desencarnada. Levantando-se bruscamente do leito, saiu apressada a gritar:
- Eu quero ver minha filha! Quero ver minha filha!...
Henrique fez sinal para que a acompanhássemos. Como uma louca, ela se deslocou pelo espaço sem saber para onde ia, em busca da filha. Chegando a uma grande cidade, dirigimo-nos a um bairro de periferia, de péssima freqüência. A vida noturna era intensa. Bares, boates e lupanares proliferavam, sob as luzes de néon. Entramos numa construção de sórdido aspecto. Na frente, um salão na penumbra, onde pares dançavam; garçons transitavam por entre as mesas carregando bandejas repletas de bebidas. Os freqüentadores, já alcoolizados, portavam-se de forma inconveniente. Atravessamos o recinto e, num canto, sozinha numa mesa, deparamos com uma mulher que, àquela hora, estava em estado deplorável. Usava uma peruca loira de cabelos mal tingidos, excessivamente maquilada, cigarro entre os dedos; olhava sem ver. Aliviada e feliz, Luzia abraçou-a com carinho:
- Minha filhinha, afinal a encontrei! Por que fugiu de nós, Lígia? Em nossa casa você tinha tudo, minha filha. Nada lhe faltava.
Não se dava conta do ambiente, atraída apenas pela visão da filha querida. Não percebia sequer os acompanhantes espirituais de Lígia, espíritos vampirizadores da pior espécie. Somente a lei das vibrações explica o fato de ter buscado a filha e de tê-la reconhecido apesar das enormes diferenças. A imagem atual nada fazia lembrar aquela linda adolescente cujo retrato viramos há poucas horas, de rosto limpo e sorriso aberto. A mulher que ali estava, envelhecida pela vida noturna, pelo uso de bebidas e, até onde eu podia notar, de drogas, denotava vulgaridade nas atitudes. Usava cílios postiços e o olhar era pesado de rímel e sombras. A pele, excessivamente pintada para ocultar os vestígios das noites mal dormidas, parecia uma máscara; a boca, recoberta com batom vermelho-escuro, mostrava um ríctus de tristeza e amargura. Nesse instante, um rumor fez com que me virasse. Era Alberto que, caindo sentado numa cadeira, cobriu o rosto com as mãos e se pôs a chorar convulsivamente. Henrique aproximou-se dele, envolvendo-o num abraço carinhoso:
- Meu amigo, acalme-se. Compreendemos o que você está sentindo. É chegada a hora da reparação. Controle-se, para podermos ajudar com acerto.
Gema, a generosa entidade que ali estava, trocou um olhar com Henrique e, como se estivessem colocando em execução um plano programado, envolveram Lígia em emanações dulcificantes, aplicando-lhe energias através do passe. Ao mesmo tempo em que cortavam, provisoriamente, suas ligações com os acompanhantes de baixo nível, afastando-os, procuravam despertar nela o desejo de ficar só. Logo em seguida, vimos que Lígia levantou-se e dirigiu-se ao barman, sussurrando-lhe algo ao ouvido. Depois, encaminhou-se para uma porta, meio escondida por um reposteiro, e atravessou um grande corredor, onde se viam portas dos dois lados. Parando diante de uma delas, virou a chave na fechadura e entrou. Acendeu a luz. Era um quarto simples e despojado. Como mobiliário, apenas uma cama, uma penteadeira com uma banqueta e um armário pequeno. Uma porta levava a um minúsculo banheiro. A moça arrancou a peruca loira, tirou os cílios postiços, a maquilagem e lavou o rosto. Depois, voltando ao quarto, sentou-se no leito. Sentia-se descontente sem saber por quê. Pensamentos estranhos dominavam-lhe a mente. Lembrou-se do passado, da sua cidade natal, da família... A presença da mãe e da avó a enchia de saudade e de boas recordações. Como uma aragem benfazeja, amenizava-lhe o estado atual. Sentiu vontade de chorar. No que se transformara sua vida!...

19 - A HISTÓRIA DE LÍGIA

Recostada no leito, acendeu um cigarro com as mãos trêmulas e, depois, como se estivesse contemplando algo perdido na distância, voltou ao passado. Ainda menina, sonhava em ir para a cidade grande. Os elogios à sua beleza física despertaram nela a vaidade e a ambição. Sonhava ser modelo, como tantas jovens que via na televisão. Almejava sucesso, dinheiro, notoriedade. Não queria, em hipótese alguma, permanecer ali naquela cidadezinha do interior e envelhecer, como o resto da população, sem ter feito nada de interessante. Sem ter vivido. Um belo dia, decidiu-se. Ao participar de um concurso de redação na escola, ganhara uma pequena importância. Embora reconhecesse não ser suficiente, acreditava, na sua ingenuidade, que serviria para começar uma nova vida. Programou tudo cuidadosamente. Certo dia, esperou os pais dormirem e, saindo de casa na calada da noite, tomou o ônibus rumo à cidade grande. Felizmente para ela, a cidadezinha estava deserta. Nenhum conhecido que pudesse frustrar-lhe os planos a viu. Amanheceu num outro mundo. Havia uma multidão, um número de pessoas tão grande na rodoviária, que ficou assustada, sem saber o que fazer, nem que rumo tomar. Sentou-se num banco para pensar. Como não poderia permanecer ali, resolveu enfrentar a situação. Saiu da rodoviária, acompanhando o movimento de pessoas, e, duas quadras adiante, descobriu uma pensão. Entrou e alugou um quarto. As instalações eram muito simples, mas serviam para começar. Comprou um jornal e passou a examinar os classificados. Infelizmente, para os empregos que lhe pareciam mais de acordo com seus ideais, não tinha as qualificações necessárias. Anotou, todavia, os anúncios que considerou mais razoáveis e saiu à luta. Como não conhecesse a cidade, as dificuldades eram enormes. Ao terminar o primeiro dia, depois de muito caminhar, nada tinha conseguido. Voltou exausta para a pensão. Comeu alguma coisa e caiu desmaiada na cama. Nos dias seguintes, a situação não mudou. Nada de emprego. Suas reservas reduziam-se perigosamente e ela começou a cortar de forma drástica a alimentação, ficando fraca e sem ânimo. Além disso, a dona da pensão exigia o pagamento pelo aluguel do quarto, e ela já não tinha em seu poder a quantia necessária. Aproveitando-se de um momento em que a proprietária fora ao supermercado fazer compras, pegou suas coisas e fugiu da pensão. Caminhou sem destino por muitas horas. Chegando a uma praça, sentou-se num banco para descansar um pouco. Logo, uma senhora acomodou-se a seu lado e, percebendo pelo seu aspecto de tristeza e de abandono a situação difícil que deveria estar atravessando, começou a conversar. Ao saber que Lígia estava sem lugar para ficar e desempregada, deu-lhe o endereço de uma agência de empregos ali perto. Ligia agradeceu e encaminhou-se para lá. Como não tivesse carta de referência, só conseguiu vaga para empregada doméstica, e assim mesmo porque a secretária da agência notou, pelo seu jeito, que era moça simples do interior e porque a patroa - que não poderia pagar grande coisa - não era muito exigente. Como não estivesse em condição de escolher, aceitou. Pelo menos, teria casa e comida. Assim, começou a trabalhar. O serviço não era dos piores, a família era simpática, mas ela não gostava nem estava acostumada com os afazeres domésticos. Sua mãe sempre fizera tudo, ela nunca lavara uma peça de roupa, e agora via como isso era cansativo. Sem experiência, lutou muito para manter o emprego. Por outro lado, gostava de crianças e demonstrou eficiência no trato com elas, o que lhe valeu pontos preciosos. Nos dias de folga, munida de um jornal, saía à procura de um serviço melhor, sem desistir de seus projetos iniciais. Certo dia, andando por um bairro de classe média alta, entrou numa lanchonete. Estava com sede. Pediu um refrigerante e, enquanto aguardava, reparou num grupo de rapazes e moças que conversavam sentados à uma mesa na calçada. Sua atenção foi atraída para um rapaz que a olhava fixamente. Achou-o simpático e atraente e correspondeu aos seus olhares. Não demorou muito e o moço entrou, aproximando-se da mesa onde ela estava.
- Olá! Meu nome é Alberto. E o seu?
- Lígia.
- Espera alguém? - perguntou ele.
- Não.
- Posso fazer-lhe companhia?
- Se quiser! Sente-se.
Na Espiritualidade, nosso amigo Alberto, constrangido e em lágrimas, acompanhava a cena que se desenrolava aos nossos olhos. Percebemos, sem sombra de dúvida, que era ele o rapaz que se acercara de Lígia. Continuaram conversando. Grande atração surgiu entre ambos. Marcaram um encontro. Lígia não contou a ele a verdade, onde morava, que era empregada doméstica. Disse-lhe que era estudante, residente em conhecido bairro de classe média, que seu pai era comerciante abastado e moravam em confortável residência. O relacionamento entre eles foi se estreitando. Alberto, um dia, ofereceu-lhe um baseado. Lígia relutou a princípio, mas depois acabou aceitando. Ele a convenceu de que todos os jovens fumavam. No grupo de amigos que Lígia passou a freqüentar, por influência de Alberto, a droga rolava solta. Logo, a adolescente estava consumindo substâncias tóxicas cada vez mais pesadas. Em conseqüência desse relacionamento, acabou engravidando. Como Alberto deixara claro que não desejava ligação mais séria, teve medo de contar a ele e perdê-lo. Ou pior do que isso: temia que ele, como médico, recomendasse o aborto, e isso ela não faria em hipótese alguma. Havia ainda um outro problema grave: não podia mais continuar no emprego. Os patrões perceberam sua vinculação com as drogas e a expulsaram de casa. Sem lugar para ficar, sem emprego e, além do mais, grávida, Lígia não teve outro jeito senão voltar para casa. Cheia de vergonha, telefonou para a mãe e pediu ajuda, explicando a situação, sem dizer onde estava. Dona Luzia, preocupada com a filha, mas satisfeita por receber notícias, disse-lhe que voltasse para casa. Seria sempre bem recebida em seu lar. Lígia desembarcou na pequena cidade do interior com um gosto amargo de frustração. Jamais pensara em retornar à terra natal naquelas condições. Durante os meses de gestação, ali permaneceu sem sair de casa. Foi uma exigência do pai, que não queria se sentir envergonhado perante a comunidade local. O bebê nasceu. Era pequeno e franzino, em virtude das implicações da mãe com os entorpecentes. Durante a gravidez, Lígia controlou ao máximo suas tendências viciosas, pelo bebê. Contudo, quando saiu do hospital e voltou para casa com o filho nos braços, decidiu que não poderia ali permanecer. Não suportava aquele lugar, sentia falta da antiga vida e queria procurar Alberto, a quem amava. Assim, deixou uma carta em que colocava os pais a par da decisão que tomara. Considerando que o bebê estaria em melhores mãos do que nas dela, abandonou o filho e novamente a casa que a vira nascer. Voltou para a capital. Procurou os velhos amigos, esperando reencontrar Alberto. Tudo estava diferente. Não os viu no ponto de encontro costumeiro. Perguntou por Alberto ao garçom, que a reconheceu. O rapaz a fitou, penalizado:
- Alberto se foi, garota. Está em outra.
- Como assim?
- Onde é que você se meteu por tanto tempo? Alberto morreu por overdose há quatro meses!
- Mentira! Diga que é mentira!... - gritou, estarrecida.
- Lamento, garota. É verdade. Não há nada que se possa fazer quanto a isso. Vejo que essa notícia foi demais para você. Venha, sente-se. Vou trazer-lhe uma bebida.
Cambaleando, como se tivesse sido atingida por um golpe fatal, Lígia deixou a lanchonete sem esperar a volta do garçom. Desde esse dia, afundou-se cada vez mais na degradação e no vício, por desespero e solidão, entregando-se a uma vida dissoluta, em que nada mais lhe importava. Considerando-se sem opções para manter o vício, passou a dedicar-se à prostituição. Pensava no filho. Como estaria ele? Nunca mais teve notícias. O resto da história já conhecíamos. Alberto, ao nosso lado, soluçava convulsivamente. De grande parte dos fatos ele só ficou sabendo naquele momento.
- Meu Deus! Ignorava de onde Lígia viera, onde morava e que esperava um filho meu. Mas, a nossa era uma ligação fortuita. Pelo menos para mim. Por que não procurei me informar direito? Nossas vidas poderiam ter sido tão diferentes!... E então... Júlio é meu filho? Eu tinha um filho e não sabia!
Enquanto Gema e Luzia permaneciam junto de Lígia, ficamos ao lado de Alberto, dando-lhe forças. Deixamos que ele desabafasse sem interromper. Contudo, a consciência acusava-o de modo implacável. Em sua mente, martelava a idéia de que só ele era culpado por essa tragédia toda. Ele fora o responsável, não apenas por sua própria morte física, mas também por levar uma garota jovem e inexperiente ao vício. E não só ela! Quantas outras pessoas teria também desencaminhado? Henrique, olhando-o com firmeza, ponderou:
- Alberto, já conhecíamos sua história. Portanto, para nós, não é novidade. As lembranças de Lígia vêm complementar a parte que você também desconhecia. Certamente, sua responsabilidade é grande nesse processo todo, e isso não podemos minimizar. Todavia, quem de nós não é culpado? Atire a primeira pedra aquele que se achar sem pecados, ensinou Jesus. A verdade é que todos nós temos o lado escuro que precisamos trazer à tona para os necessários reajustes. No seu caso, os anos de experiência na Espiritualidade, tudo o que já aprendeu e vivenciou, dão-lhe condições de trabalhar em favor de todos os necessitados desse grupo. Assim, não se deixe envolver negativamente pelo problema nem cultive o remorso. Reaja! Levante a cabeça! Readquira seu equilíbrio emocional! - E completou:
- Vamos trabalhar. Temos muito serviço a fazer.
- É muito doloroso enfrentar os próprios erros, Henrique. Quando não estamos envolvidos com o problema, é fácil. Temos uma visão mais clara, nítida e ampla da situação. Mas, agora...
- Certamente. Porém aí está o nosso desafio. Sabemos que, perante nossos erros, não basta o arrependimento. Também não adianta ficarmos chorando, lamentando-nos, batendo no peito e dizendo: sou culpado! É preciso reparar o mal cometido, bem como as conseqüências que possam ter advindo de nosso comportamento.
Mais aliviado, embora profundamente envergonhado perante os colegas, Alberto sussurrou:
- Tem razão, Henrique. Agradeço também a compreensão de todos, pois não vejo nos amigos da equipe nenhum resquício de reprovação. Só muita compreensão pelas minhas imperfeições. Obrigado.
Todos sorrimos, procurando enviar-lhe vibrações boas e fortalecedoras. Enxugando as lágrimas, Alberto indagou:
- Então, o que é que podemos fazer?
Nosso instrutor abriu um grande e encorajador sorriso:
- Muito bem, Alberto. Vamos arregaçar as mangas. O que você sugere para começar?
Olhamos Lígia, que chorava nos braços da mãe e da avó desencarnada.
- Acho que temos que começar por ela! - opinou, apoiado pelo grupo. - E a mais necessitada. Parece-me que devemos nos esforçar para retirá-la logo deste local de devassidão.
- Ótimo! Veremos o que é possível fazer! - disse Henrique. - Apoio do Alto não nos faltará, por certo. Foi-nos confiada uma tarefa cuja realização depende de nós. Que Jesus nos abençoe a todos!
A nobre Gema permaneceria ao lado da neta, para ajudá-la e protegê-la. Após uma prece de agradecimento ao Criador, acompanhamos nossa irmã Luzia a seu domicílio terreno. Era preciso que ela retornasse ao veículo corporal, abandonado provisoriamente. Aliviada e satisfeita, reapossou-se do corpo, acordando feliz e realizada.
- Meu velho, sonhei com nossa filha! Era tão real que tenho a certeza de que me encontrei com ela. Sinto que alguma coisa vai mudar, Genésio. Para melhor. Tenho íntima convicção de que Deus vai nos ajudar e - quem sabe? - Lígia nos mandará notícias.
Aragens de paz sopravam suavemente. Estávamos gratificados. O trabalho prosseguia sempre e empenharíamos nossos melhores esforços para cumprir a nossa parte.
20 - ACOMPANHANDO GUSTAVO

Enquanto preparávamos um plano de ação para auxiliar com proveito todo o grupo, conforme fosse permitido pelo Alto, prosseguíamos com nossas atividades rotineiras. Certa manhã, atravessava o extenso jardim do hospital quando deparei com alguém sentado num banco. Não me viu, absorvido na contemplação das grandes árvores e dos pássaros que gorgeavam nos altos galhos. Parei a seu lado, satisfeito por vê-lo ali.
- Olá, Gustavo! Apreciando a Natureza?
Virando-se para mim, sorriu:
- Pois é, César! Por falta de opções, a gente acaba aderindo, não é?
Achei graça. Enquanto me aproximava, notei que Gustavo demonstrava real prazer em estar ali, no jardim. Todavia, rebelde, não queria dar o braço a torcer. Tinha que ser do contra. Como dispunha de algum tempo, sentei-me.
- Você está com ótima aparência, meu amigo. Percebe-se que está forte e bem-disposto. Logo deixará o hospital, certamente.
- É verdade. O médico prometeu que na semana que vem terei alta. Disse-me até que já poderia freqüentar, além dos passes, uma reunião de Estudo do Evangelho, se quisesse.
- E você quer?
- Acho que seria interessante. Mesmo porque não tenho nada para fazer. Pelo menos, sairia da minha rotina.
Não pude deixar de rir. Sempre o mesmo.
- Então, posso acompanhá-lo, se desejar.
- Que bom! Queria pedir-lhe este favor, mas não me atrevia.
- Sem problemas, Gustavo. Terei muito prazer em acompanhá-lo. Vou verificar em qual dos grupos está prevista a sua participação e depois voltaremos a conversar.
Assim, deixei-o entregue à sua contemplação e me dirigi ao setor de informações. Gustavo seria colocado no Abrigo Saudades da Mamãe e freqüentaria a reunião coordenada pelo nosso velho amigo e orientador Matheus. Após confirmar as informações que ele me dera, voltei e combinei de apanhá-lo no quarto, meia hora antes do horário previsto para o início da reunião, que seria realizada no final da tarde numa das dependências da própria instituição. Ansioso, ele me aguardava. Era a primeira vez que iria participar de uma atividade diferente. Crivou-me de perguntas enquanto nos dirigíamos ao local. Aliás, para ele, era tudo novo. Até esse momento, só tivera permissão para sair da enfermaria e caminhar até o jardim. O tamanho do complexo hospitalar, o conjunto de prédios com suas enormes dependências, as alas que percorríamos, os pátios e os jardins, tudo o encantava. Ao chegarmos, algumas dezenas de pessoas já se encontravam no local. Sentamo-nos e aguardamos. No meio da assistência, vi o atendente Hassan, que me cumprimentou à distância. Remexi-me na cadeira. Nunca me sentia à vontade na presença desse homem. Lembrava-me, envergonhado, do dia em que eu e ele tínhamos colidido no corredor e de como o tratara mal. Jamais tinha conseguido digerir aquele episódio tão constrangedor. Felizmente, nossos horários e áreas de atuação eram diferentes, e assim era raro cruzarmos nas dependências do hospital. A reunião, para convalescentes e recém-chegados ao mundo espiritual em condições de aceitar uma outra realidade, era a ocasião em que os novatos entravam em contato com a vida além-túmulo e suas implicações. Após a prece inicial, era feita a leitura de um trecho do Novo Testamento, seguida de breve explanação sobre o tema, visto que os presentes, de modo geral, não apresentavam condições emocionais, mentais e vibratórias de fixação do pensamento por tempo muito longo. Terminada a palestra, o dirigente da reunião se oferecia para responder a perguntas, ocasião em que os interessados tinham a oportunidade de ter esclarecidas suas dúvidas. Era comum, pelo desconhecimento das realidades espirituais, não acreditarem sequer que estivessem num outro mundo. Naquela tarde, um dos participantes, que aparentava uns trinta e cinco anos, bem vestido, barba curta e cerrada, indagou de Matheus:
- Caro palestrante. Gostaria de expressar o que me vai na alma. Sou muito grato pela gentileza e finura de trato que sempre me dispensaram. Todavia, causa-me estranheza a ausência de familiares, parentes e amigos. Sou cidadão do mundo, como se diz. Sempre dado a viagens, percorri o globo todo por duas vezes e visitei países nos cinco continentes. De forma que me localizo relativamente bem em qualquer lugar que esteja. Contudo, não consigo reconhecer a região onde estamos, e isto me causa perplexidade. Também não nos permitem utilizar o telefone ou enviar correspondência a quem quer que seja! Não podemos deixar este hospital em hipótese alguma, embora, pelo menos no meu caso, sinta-me completamente recuperado e em condições de receber alta. Seremos, porventura, prisioneiros de algum grupo extremista? Gostaria que o senhor nos esclarecesse e nos prestasse as informações a que acreditamos ter direito.
Os demais participantes igualmente se agitaram em apoio ao colega que falara. Matheus espraiou o olhar manso pela assistência e, em seguida, parecendo meditar por alguns instantes, esclareceu:
- Meus irmãos, ninguém aqui se encontra prisioneiro senão de si mesmo. A própria consciência em desalinho provoca os desequilíbrios que fazem com que a permanência nesta instituição seja necessária.
Após ligeiro intervalo, em que observou a cada um em particular, sondando-lhes a realidade íntima, prosseguiu:
- O Evangelho de Jesus permanece ignorado para a grande maioria das pessoas. Elas não o enxergam senão como textos que, embora importantes, só dizem respeito à religião, e que, no máximo, servem para ser lidos em determinado dia da semana, reservado especialmente para suas obrigações devocionais. Todavia, o assunto é muito mais complexo. Há poucos minutos, lemos significativo trecho do Evangelho que deveria servir para nossas reflexões desta tarde. Nele, o Mestre nos fala a respeito das muitas moradas da casa do Pai, deixando claro que o Universo é a Casa do Senhor. Discorremos sobre o assunto, mostrando a estreita correlação entre o mundo corporal e o mundo espiritual, que se interpenetram e que representam estágios diferentes de uma mesma realidade, que é a vida. Matheus fez nova pausa e continuou:
- Porém, entregues às próprias concepções, muitos irmãos não conseguiram assimilar os esclarecimentos aqui ministrados, permanecendo enclausurados na própria realidade. Dessa forma, asseguro-lhes que somente a reflexão e a análise em torno da própria existência, de tudo o que acontece a seu redor, fará com que os irmãos cheguem a conclusões mais lúcidas.
Aproveitando uma pausa que se fizera mais longa, uma senhora sugeriu:
- Irmão, de acordo com suas palavras e com tudo o que tenho vivenciado, estou quase certa de que estamos todos mortos!
Novamente a platéia voltou a agitar-se, tomados de surpresa e horror. Ouviu-se um choro convulsivo. Tranqüilo, Matheus esclareceu:
- Notável dedução, minha irmã. Contudo, sente-se morta?
- Absolutamente, não! - respondeu ela, convicta. - Ao contrário, sinto-me mais viva do que nunca e com boa disposição, como nunca estive.
- Então, não está. A grande verdade é que a morte não existe. Só a vida é real! Apenas mudamos de um plano para outro.
Atônitos, os internos do hospital calaram-se, refletindo nas palavras do orientador, muitos contendo o soluço. Dando por finalizada a reunião, que fora bastante proveitosa, Matheus fez uma oração agradecendo o amparo divino. Por mais algum tempo, os participantes ficariam trocando idéias e experiências, num bate-papo informal. Matheus permaneceria na assembléia, atendendo os que quisessem falar-lhe em particular e esclarecendo dúvidas. Os grupos se formaram de forma natural. Percebi que as sementes lançadas estavam produzindo resultados. As indagações começavam a surgir de todos os lados. Convidei Gustavo para nos aproximarmos do palestrante, Matheus. Sentia que meu acompanhante também fora tocado pelo tema. Estava calado, grave, o que não era normal. O assistente Matheus sorriu, cumprimentando-me de forma calorosa.
- César Augusto, que prazer! Não temos tido muitas ocasiões de nos encontrarmos ultimamente.
- É verdade, Matheus. Mas nunca me esqueço das nossas reuniões. É sempre com grande carinho que me lembro de você. Hoje vim acompanhando o nosso Gustavo, convalescente, em via de receber alta.
Matheus dirigiu-se a ele cordialmente:
- Seja bem-vindo ao nosso grupo, Gustavo. Como está se sentindo? Ao chegarmos, muitas vezes demoramos para nos libertar de antigos condicionamentos.
- Sem dúvida. Agora estou muito bem, mas passei por meses extremamente difíceis. A propósito, se entendi bem o que quis explicar, cheguei à conclusão de que não estamos mais no mundo. É isso?
- De certa forma, sim. Não nos encontramos mais vivendo no mundo dos chamados vivos. Estamos numa outra realidade, que é a espiritual. O que morre é o corpo material. O espírito, ser pensante e imortal, continua vivo.
Gustavo denotava grande perturbação emocional.
- Mas, você se referiu aos condicionamentos. Eu fui internado neste hospital porque estava viciado em drogas. Demorei muito para me libertar da dependência. (Ainda não sei se consegui.) Como explicar isso? Se realmente estou num outro mundo, sem meu corpo de carne, por que não me liberei imediatamente desses condicionamentos? Além disso, sinto meu corpo bem vivo. Posso tocá-lo, sentir a textura da pele, sua temperatura, o sangue correndo nas veias e artérias, tenho necessidades físicas. Como pode ser isso?...
Matheus pensou um pouco e em seguida considerou:
- Gustavo, vamos por partes. Aos poucos você irá adquirindo outros conhecimentos importantes para a compreensão que ainda não tem. Um deles, e bastante complexo, é o que diz respeito ao corpo espiritual. Enquanto encarnados, somos um conjunto constituído de: corpo material ou físico; Espírito ou ser pensante; e o corpo espiritual ou perispírito, que funciona como elo entre o veículo corpóreo e o Espírito. Quando o corpo material não tem mais condições de manter a vida orgânica, o Espírito se desprende e volta para sua verdadeira pátria, a Espiritualidade, juntamente com o corpo espiritual, do qual não se desliga.
- Deixe-me ver se entendi. Então, esse que estou sentindo é o meu corpo espiritual? - perguntou, tocando seu braço.
- Exatamente. Então, voltando ao problema dos condicionamentos. É através dele que você manteve sua dependência, porque a dependência não é só química. É material, emocional e espiritual. Entendeu?
- Entendi. Estou um pouco confuso ainda, mas prometo que vou digerir tudo o que ouvi aqui hoje. Obrigado.
- É natural. As informações têm que ser assimiladas lentamente, dando-se o tempo necessário para a reflexão. Com o passar dos dias, verá que tudo é muito simples e natural, perfeito e lógico, o que demonstra a grandeza e a sabedoria do Criador.
Como outras pessoas queriam falar com Matheus, e já tomáramos muito do seu precioso tempo, era hora de nos despedirmos. Nosso amigo abraçou-nos, dizendo a Gustavo:
- Estarei esperando-o na próxima reunião. Sua presença é importante. Não falte!
Gustavo agradeceu a gentileza e deixamos o recinto. Meu amigo convalescente tinha mil indagações na mente. Enquanto caminhávamos de retorno a seu quarto, fomos conversando. Ele fazia uma pergunta atrás da outra, e eu ia respondendo.
- É tudo fantástico! Ainda não consigo entender direito. Então, é por isso que minha família não está aqui, nem meus amigos?
- Exato. A medida que se fortalecer, mostrar maior equilíbrio emocional e melhor entendimento da situação, poderá entrar em contato com eles.
- Verdade?...
- Sem dúvida! Tanto poderá visitá-los em sua antiga casa, como eles poderão vir até aqui vê-lo, durante o repouso noturno.
- E? Quer dizer que esse negócio de intercâmbio com os mortos é verdade mesmo? Caramba! Nunca acreditei nessas coisas!
- Pois pode acreditar! - afirmei, rindo. Custou-me deixar Gustavo em seu leito hospitalar. Ele estava muito agitado com as novas verdades. Não sei se nessa noite ele conseguiria dormir.
Era, porém, uma agitação benéfica. Agitação que produz transformações e crescimento íntimo.

21 - SOB A LUZ DO LUAR

Após despedir-me de Gustavo, saí do hospital. Estava feliz. Lembrei-me de seu estado quando chegou, de suas dificuldades de adaptação, de sua impertinência e até das propostas que me fizera. Hoje, eu o via totalmente diferente. Sem aquele ar perdido do dependente de drogas, sem aquele brilho alucinado no olhar, sem os delírios provocados pela desintoxicação. Era outra pessoa. Intimamente, agradeci a Jesus pela transformação que se operara em meu amigo. O céu sem nuvens deixava ver o manto estrelado que se estendia grandioso e belo. Sob o luar prateado, caminhava pelo jardim quando percebi alguém vindo em sentido contrário. Era Hassan. Mal contive um gesto de desagrado.
- Olá! - disse-me ele. - Está de retorno à casa?
- Sim. Vim trazer meu acompanhante. E você?
- Moro aqui no hospital.
- Ah!...
Não tínhamos muito o que falar um ao outro e a conversa parou por aí. Como o silêncio se fizesse constrangedor, perguntei:
- Está freqüentando esse grupo de Estudo do Evangelho? Segundo sei, é destinado preferencialmente aos recém-chegados e convalescentes.
Ele sorriu.
- Também me considero um principiante nas coisas espirituais. Mas a verdade é que gosto de participar dessa atividade e de acompanhar a reação dos nossos internos. Os convalescentes têm reações completamente diferentes uns dos outros. Acho importante saber para melhor ajudar durante meu contato com eles no decorrer do dia.
- Ah! Interessante.
- É verdade. Uns se desesperam ao tomar conhecimento da realidade; outros ficam eufóricos diante da imortalidade da alma e da continuidade da vida; outros, ainda, não conseguem sair de dentro de si mesmos e não entendem nada. É um problema de despertamento íntimo.
Estava admirado do seu interesse em aprender. Mais do que isso. Demonstrava dedicação incomum pelos pacientes. Normalmente, os atendentes da limpeza só se preocupavam com a limpeza. Ele não. Era diferente dos outros. Olhei-o com atenção. Era um homem de aparência humilde, de condição espiritual modesta. Tinha boa vontade, disposição, mas certamente ainda não tivera muito tempo para aprender na Espiritualidade. Ele terminara de falar e esperava que eu dissesse algo. Perguntei:
- Você me disse, outro dia, que veio de um posto de serviço em regiões mais densas.
- É verdade. Vim de Lírio da Paz.
- Bonito nome. Muito sugestivo.
- Sim, mas a realidade lá não é tão bela assim. Sem sombra de dúvida, aqui estamos num paraíso. Lá em Lírio da Paz nunca tive a oportunidade de apreciar um céu limpo e estrelado como aqui. O sol raramente aparece por causa do nevoeiro constante. A Natureza é árida e sem atrativos. Não se contemplam árvores e flores como aqui.
- Conhece a história da instituição? Por que lhe deram o nome de Lírio da Paz?
- O Posto de Serviço foi fundado no início do século passado por Olegário, valente e generoso servidor do bem. Em virtude de ter entes queridos que estagiavam naquela região, mergulhados nas sombras, obteve do Mestre a permissão de ali trabalhar, dessa forma auxiliando seus entes queridos e demais Espíritos que ali permaneciam. Deu-lhe o nome de Lírio da Paz porque a instituição deveria ser como um lírio, flor que viceja no pântano, embelezando e perfumando o ambiente, sem se contaminar.
Enquanto ele falava, descrevendo as características do local de onde viera, eu pensava. A tonalidade da sua voz despertava em mim estranhas sensações. Um misto de atração e de repulsão, simultâneas. Percebendo que eu o olhava calado, Hassan considerou:
- Creio que estou a incomodá-lo, falando-lhe de coisas que não lhe interessam.
- De maneira alguma - respondi. - Continue. Estou achando bem interessante. Ficou bastante tempo por lá?
Mais animado, ele prosseguiu:
- Não muito. Durante vários anos, revoltado e odiento, unido a uma falange de Espíritos vingativos, prejudiquei antigo desafeto encarnado. Depois, consciente de que estava agindo errado e de que nada lucraria com esse comportamento - ao contrário, só me prejudicaria ainda mais -, resolvi mudar de vida. Assim, fui recolhido, em situação de grande penúria espiritual, por equipe socorrista de Lírio da Paz. Com o passar do tempo, comecei a colaborar na instituição que me acolhera, trabalhando a serviço do próximo. Lá permaneci por vários anos, ate que, por bons serviços prestados, o administrador do posto de serviço resolveu transferir-me para Céu Azul.
- Então, foi uma promoção'? - indaguei, surpreso.
- Sim! - respondeu-me, satisfeito. - Mas isso nada significa, porque reconheço que nada sou e que é incipiente minha elevação espiritual.
- Se você recebeu esse prêmio, é porque tem méritos. Parabéns!
Conversando com Hassan sob a luz do luar, ouvindo-o contar suas experiências, tranqüilizei-me. Ele já não me incomodava tanto. Comecei a achá-lo mais simpático.
- E o seu desafeto, o que foi feito dele? Continua encarnado? - indaguei.
- Não. Também já fez a grande viagem. Encontra-se desencarnado há muitos anos.
- E você teve oportunidade de reencontrá-lo?
- Encontrei-o algumas vezes, mas não sabe quem sou e quais os laços que nos ligam ao passado - respondeu de forma evasiva.
- Entendo... Teme que ele não perdoe os prejuízos que você lhe causou.
- Em parte. Porque, verdadeiramente, ambos temos que nos perdoar mutuamente. Meus orientadores me disseram que devo esperar a ocasião propícia.
- Sem dúvida. A própria vida se encarregará de aproximá-los um do outro. Bem, é tarde e amanhã temos que trabalhar.
- Tem razão, César. Foi um prazer revê-lo. Agradeço a Deus a oportunidade de encontrá-lo novamente. Até outro dia. Que Jesus o abençoe.
- O prazer é recíproco, Hassan. Venha nos visitar no Abrigo dos Descamisados. Poderemos conversar com mais calma.
Apertamos as mãos em despedida. Não sei por que, fiquei achando que aquele aperto de mãos tinha um significado muito especial. Pelo menos para mim. Notei que Hassan tinha os olhos úmidos. Estava emocionado. Afastamo-nos, cada um tomando seu rumo. Sentia-me aliviado intimamente. No fundo, aquele mal-estar que eu tive na primeira vez que nos encontramos, quando trombei com o faxineiro ao virar um corredor, vinha me incomodando. Sempre tratara bem todas as pessoas, era cordial, amável, por isso não me perdoava a atitude desagradável. Agora, tinha a sensação de que um véu de sombras se diluíra e que a aproximação de Hassan fizera bem a mim e a ele. Dormi como um anjo, agradecendo ao Senhor a oportunidade de me reconciliar com alguém.

22 - DECISÃO IMPORTANTE

Na manhã seguinte, acordei satisfeito e sentindo-me extremamente leve. Abri a janela. O Sol inundou o aposento. Seus raios tépidos, tocando minha pele, produziam agradável sensação de calor e paz. Era o mesmo astro que iluminava a Terra, o orbe dos nossos sonhos. Era ele que tornava possível a vida em nosso lar planetário; sem ele, tudo seria escuro, desolado e gélido. Abri os braços, estendendo-os para o Alto, agradecido e reverente ao Sol por suas dádivas e ao Criador do Universo por sua criação. Era dia de reunião da nossa equipe. Mais tarde, no horário combinado, estávamos todos a postos. Um senhor que eu não conhecia se encontrava presente. Henrique fez as apresentações:
- Este é nosso irmão Glauco. Há muito acompanha o grupo com o qual estamos envolvidos. Especialmente Lígia e Júlio.
O estranho era um homem de idade madura, fisionomia serena e sorriso terno. Seus olhos claros e lúcidos transmitiam segurança, energia e determinação. Enquanto examinávamos discretamente o recém-chegado, o orientador concluiu:
- Glauco vai cooperar conosco nesse caso que tão bem conhece. Sua ajuda nos será muito valiosa.
De forma efusiva, demonstramos nossa satisfação em tê-lo conosco. Após uma oração em conjunto, demandamos a Terra. De longe reconheci a grande metrópole. Em poucos minutos chegamos ao quarto onde morava Lígia. Do lado de fora, dois servidores do nosso plano faziam a segurança do local, evitando assim o assédio de entidades malfazejas. A vovó Gema veio atender à porta. Vendo-nos, abriu um grande e caloroso sorriso. Ao aproximar-se de Glauco, cumprimentou-o imensamente comovida. Certamente eram amigos de longa data.
Lígia estava recostada no leito. A imagem era a mesma do dia em que a conhecemos. Tive a impressão de que a imagem ficara congelada; como se a moça não tivesse se mexido, conservando-se no mesmo local e na mesma posição. Henrique indagou, atencioso:
- Como está ela?
Dona Gema aproximou-se de Lígia. Envolvendo-a num abraço afetuoso.
- Minha neta está algo mudada desde que a viram. Procurei inocular-lhe pensamentos mais elevados, fazendo-a refletir sobre o que tem feito da existência, quais são seus objetivos, o que realmente deseja para si. O resultado é esse que estão vendo. Tem pensado muito, quase não saiu do quarto e não tem recebido ninguém.
- Ótimas notícias! - disse Glauco.
- Sem dúvida, meu caro. Todavia, temo represálias. O amigo dela está revoltado com essa sua atitude de recolhimento.
Curioso, não pude deixar de perguntar:
- Que amigo é esse?
Gema virou-se para mim e explicou, enquanto Henrique e Glauco sorriam levemente.
- É o homem que a explora sexualmente e que a mantém submissa. Trata-se de um brutamontes que fica com quase tudo o que ela ganha, deixando-lhe apenas o necessário para viver modestamente.
Era o que se chama de cafetão. Corei ao perceber minha ingenuidade. Dispunha-me a agradecer a explicação quando se ouviram fortes pancadas na porta. Lígia pulou de susto. Dona Gema lançou-nos olhar apreensivo, afirmando:
- Ei-lo que chega. É Sandoval.
Lígia saíra do seu alheamento. Mostrava-se visivelmente apavorada. Encolheu-se na cama, tapando os ouvidos. As pancadas, porém, continuaram. Agora eram murros que pareciam quase derrubar a porta. A madeira, frágil, não resistiria muito tempo. Com tranqüilidade nosso orientador recomendou:
- Vamos deixá-lo entrar. Gema, faça com que Lígia abra a porta.
A avozinha aproximou-se da neta, sugerindo-lhe:
- Minha querida, abra a porta. Deixe-o entrar. Enfrente-o. Estamos aqui com você e nada lhe acontecerá. Não tema.
Ainda indecisa, mas intuitivamente ouvindo o que lhe era ordenado, supondo tratar-se de idéia sua, Lígia ergueu-se do leito. Sim! - pensava ela - é melhor enfrentar logo a situação. Não tenho razões para ter medo. Sou uma mulher livre e dona de meus atos. Destrancou a porta com decisão. Bem a tempo! Mais um pouco e ela viria abaixo. Sandoval entrou. Era o típico cafetão. Bem-arrumado roupas extravagantes, cabelos engomados, perfume forte e insuportável. Com um palito no canto da boca, caminhou pelo quarto com seu gingado, examinando tudo, a ver se Lígia não estava lhe escondendo alguma coisa. Junto dele estavam as viciosas entidades desencarnadas que da primeira vez a acompanhavam. Como estivessem impedidas de aproximar-se da moça, buscaram reforço em Sandoval, outro interessado em que ela continuasse na dependência dos vícios. Os dois Espíritos aproximaram-se dela tentando envolvê-la e procurando despertar-lhe a necessidade da droga. Contudo, Dona Gema tinha cercado a neta de vibrações salutares, o que permitiu a Lígia, naqueles dois dias, manter a mente sob certa elevação, não sintonizando facilmente com os antigos companheiros. Com voz baixa e ameaçadora, em que se percebia a ira contida, Sandoval perguntou:
- Com que então, você se recusa a trabalhar?
- Não tenho passado bem. Só isso - respondeu, com firmeza.
- Mas nós temos um acordo, beleza. Como é que eu vou viver se você não for para as ruas? Hein? Como é que vou fazer? E você? Também depende disso!
Lígia não respondeu. Continuou calada, de cabeça baixa. Sentindo que estava perdendo seu império sobre ela, Sandoval tentou usar seu poder de sedução, que sempre funcionara.
- Quer deixar seu homem pobre, sem dinheiro? Venha cá, doçura, estou com saudade de você. Tome isso. Você deve estar necessitada.
Tirou um papelzinho do bolso do paletó, acenando-o para a moça aflita. Fiquei preocupado e, nesse momento, Alberto indagou:
- Não vamos fazer nada? Precisamos ajudá-la!
Glauco, que estava ao lado dele, respondeu:
- Acalme-se, Alberto. Se for necessário, agiremos.
Henrique, sem perder de vista o que estava acontecendo, considerou:
- Necessário deixar que Lígia exercite o seu livre-arbítrio e demonstre até que ponto deseja realmente ser ajudada.
- Mas... Ela ainda está muito frágil! - objetei.
- Observe! - ordenou-me Henrique.
Naquele instante de grande tensão, Sandoval acercava-se de Lígia com o papelzinho entre os dedos. Vimos a moça balançar. Olhou o pedacinho de papel dobrado, que sabia conter o pó, e seus olhos demonstraram um brilho diferente. Pensamos que ia aceitar. Contudo, refletiu por alguns segundos, respirou fundo e, reunindo forças para reagir, gritou:
- Não! Não quero!
- Vamos, beleza, eu sei como você é fissurada nisso! Não banque a durona comigo, que você não leva jeito. Venha aqui com o papai...
Recuando um passo, Lígia reagiu com firmeza:
- Não! Não chegue perto de mim! Não quero mais saber de você! Tenho nojo!
O brutamontes, atingido em seus brios, levantou o braço e desceu-o com toda a força na moça, atingindo-a em pleno rosto. Ela rodopiou, balançou e em seguida caiu desamparada no chão.
- Mantenham os pensamentos elevados, em prece. Não interfiram - pediu o orientador.
Depois, Henrique aproximou-se de Lígia, envolvendo-a com carinho. Glauco colocou as mãos sobre a fronte de Sandoval, que acusou imediato mal-estar. Cheio de medo, olhando dos lados, como se temesse algo, deixou o aposento. Antes de sair, porém, esbravejou:
- Você me paga! Isso não ficará assim!
Os outros irmãos desencarnados, viciosos também, saíram, levados pelos seguranças. Seriam conduzidos a uma Casa Espírita de nossa confiança existente nas imediações. Apesar do hematoma na face, do olho inchado e do fio de sangue que escorria pelo canto da boca, Lígia estava aliviada. Agora, resolvida como nunca a abandonar a vida de prostituição e atendendo às sugestões de Henrique, fez as malas e fugiu dali o mais rápido possível. Sandoval poderia voltar, e ela sabia como ele era perigoso. Já na rua, outro problema. Não tinha para onde ir. Nisso, lembrou-se de uma amiga que largara o meretrício para se casar. Tinha o endereço dela. Decidiu procurá-la. Naquelas circunstâncias, era o melhor que tinha a fazer. Sandra poderia ajudá-la. Tomou um táxi e foi bater à casa da amiga. Sandra recebeu-a com alegria. Após contar o que lhe tinha acontecido, Lígia concluiu, em lágrimas:
- Por isso, Sandra, quero deixar essa vida miserável. Entretanto, não sei o que fazer, nem para onde ir. Estou confusa e desorientada. Tenho medo de Sandoval.
Lembrei-me de você, que conseguiu a liberdade, e achei que poderia me ajudar.
- Louvo sua coragem, amiga. Não se preocupe. Poderá ficar conosco por alguns dias. Aqui é lugar seguro. Sandoval nunca viria procurá-la em minha casa.
- Mas... E seu esposo? Vai entender?
- Tranqüilize-se. José é muito bom e compreensivo. Quanto a isso, não há problema. Por outro lado, aqui nesta cidade não estará segura por muito tempo. Sozinha e desprotegida, poderá cair nas mãos de outro explorador. Além disso, Sandoval não é de esquecer uma afronta. Vai mover céus e terras para encontrá-la. E você sabe que o submundo do crime conta com extensa rede de informantes. Não, você não poderá permanecer aqui por muito tempo. Temos que levá-la para outro lugar!
Lígia pensou um pouco e ponderou:
- Estou num abrigo provisório, sem recursos e sem emprego. Só há uma saída: voltarei para minha cidade natal. Isto é, se meus pais me aceitarem de volta.
Sandra sorriu, concordando:
- Acho que tem razão! É o lugar ideal para você. Tenha confiança. Vai dar certo. Além disso, família é sempre família.
Lígia permaneceu escondida na casa de Sandra, enquanto se recuperava. Não desejava retornar para sua cidadezinha com o rosto inchado, o olho preto e as marcas da violência de Sandoval. Também era preciso dar um tempo para que a raiva passasse, ele encontrasse novos interesses e arrefecesse as buscas. Três dias depois de ter chegado à casa da amiga, telefonou para a mãe.
- Alô? Aqui quem fala é Júlio!
Lígia não se identificou. Gostaria de conversar com o filho, sim, mas não dessa maneira, pelo telefone. Mas, ouvir a voz dele pela primeira vez causou-lhe grande comoção. Ele continuou insistindo:
- Alô? Quem é? Com quem deseja falar? - Depois, virando-se para a avó: - Que estranho, vovó! Não é ninguém!
Dona Luzia pegou o fone e percebeu uma respiração forte do outro lado da linha. Sentiu a emoção dominar-lhe o íntimo. Alguma coisa lhe dizia que era sua filha, Lígia, quem estava telefonando. Daí por diante, ficou atenta. Ao menor toque do telefone, ela corria. Algumas horas depois, o telefone tocou de novo. Ela atendeu, ansiosa.
- Alô?
Depois de alguns segundos, uma voz temerosa murmurou:
- Mamãe, sou eu!
- Minha filha, que saudade! Onde você se encontra? Está bem?
Dona Luzia ouviu um soluço do outro lado.
- Mamãe, estou precisando de ajuda!
- Estamos aqui à sua espera, minha filha. Volte. Esta casa continua sendo sua - disse a mãe com a voz embargada de pranto.
Cada vez que a filha pedia socorro, ela viajava no tempo, voltando ao momento em que a recebera nos braços pela primeira vez. Era um bebê pequeno e franzino.
- E o papai, mãe?
- Ele entenderá, minha filha. Não tenha receio. Venha!
Lígia recolocou o fone no gancho e chorou copiosamente. Ao ouvir a voz da mãe depois de tantos anos, uma imensa saudade de casa dominou seu coração.
- Sim. Voltarei - pensou. - Não sei quando, mas voltarei. Começarei vida nova no aconchego do meu lar, junto dos familiares queridos. Especialmente de Júlio, meu filho. Poderá ele me perdoar por tê-lo abandonado ainda bebê?

23 - MUDANÇA DE VIDA

Aproveitamos aqueles dias, que representavam um oásis de paz na vida tumultuada que Lígia levara até então, para colocar em prática nosso plano de ajuda. Analisando tudo o que acontecera, eu percebia agora como fora importante nossa amiga tomar sozinha suas decisões. Esse fato a tornou mais forte, mais segura e mais consciente do que realmente desejava. Henrique tinha razão. Não podemos intervir no livre-arbítrio das pessoas. Devemos deixar que cresçam por si mesmas; se pedirem socorro, aí é outra história... Ao aceitar a hospedagem de Sandra, Lígia experimentava um certo receio. Seria natural que José, o esposo da amiga não visse com bons olhos sua presença naquela casa, especialmente sabendo tratar-se de uma antiga colega de prostituição. Casara-se com Sandra, mostrando ser um homem de mente mais aberta e livre de preconceitos, mas certamente desejaria esquecer o passado de sua mulher. À noite, quando José chegou, Sandra fez as apresentações, e, em seguida, sentaram-se à mesa para jantar. Durante a refeição, Lígia foi ficando mais descontraída. Reparou que o dono da casa a tratava com gentileza e cortesia, parecendo satisfeito com sua presença. Em nenhum momento, a hóspede notou qualquer resquício de contrariedade em suas atitudes. Achou que Sandra talvez não tivesse deixado clara a situação. Para evitar aborrecimentos futuros, sentiu-se no dever de alertá-lo. Sem titubear, tocou no assunto:
- José, não sei se Sandra contou-lhe o que está acontecendo comigo e a razão que me trouxe à sua casa.
O rapaz fitou-a, sereno:
- Sim, certamente. Nada temos a esconder um do outro.
Surpresa, Lígia sorriu.
- Então, agradeço-lhe ter permitido que fique hospedada em seu lar. Asseguro-lhe que será por poucos dias; pretendo sair da cidade tão logo possa.
- Não há problema, Lígia. Fique o tempo que julgar necessário. Mas concordo com você. Não acho conveniente que permaneça aqui por muito tempo. Sabe como é, não suportará ficar dentro de casa por um longo período; sentirá necessidade de sair e sempre haverá o risco de ser reconhecida por alguém ligado àquele homem. De qualquer forma, conte conosco. Ajudaremos em tudo o que for possível.
- Não está aborrecido com a minha presença, então? -insistiu ela, ainda em dúvida.
- Absolutamente. Ao contrário. Fez muito bem em nos procurar. Temos que nos amparar uns aos outros. Hoje é você quem está precisando de ajuda, amanhã posso ser eu ou Sandra... Quem sabe? A verdade é que formamos uma sociedade em que temos o dever de ser fraternos e solidários uns com os outros, para atingirmos o objetivo maior, que é a evolução.
Lígia olhou para a amiga, depois para seu esposo, perplexa:
- Você realmente me surpreende, José. Esperei encontrar um homem duro e inflexível, mas, ao contrário, descubro um ser solidário e fraterno, preocupado com o bem-estar do seu semelhante.
Sandra sorriu ternamente, apertando a mão do marido, a qual repousava sobre a mesa. Depois afirmou:
- Ganhei na loteria, Lígia. José é muito especial. Como ele, não existe nenhum outro. Meu marido é espírita e está sempre preocupado em fazer o bem. Além disso, como poderia ser um homem duro e inflexível se, entre tantas mulheres, escolheu a mim para ser sua esposa?
Lígia concordou com um sorriso, mas não fez comentários. Nada sabia dessa coisa de Espiritismo, a não ser vagas lembranças de conversas que ouvira quando criança. E, a bem da verdade, essas conversas não eram nada agradáveis. Davam-lhe medo, especialmente à noite, pois envolviam velas, garrafas de aguardente, galinhas pretas e trabalhos feitos na calada da noite em encruzilhadas desertas, com aparições de fantasmas. Entretanto, achou que o tal de Espiritismo deveria ter um lado bom, se produzia pessoas como José. Na verdade, jamais tinha ouvido alguém falar como ele. Então, a partir daquele dia, seu relacionamento com ele transcorreu em clima agradável e alegre. Sandra não era espírita, segundo contou, mas respeitava profundamente a religião do marido, pela admiração que ele lhe despertava. À tardezinha, quando José voltava do trabalho, conversavam sobre vários temas, mas Lígia gostava de ouvi-lo discorrer sobre a Doutrina Espírita.
- Tudo isso que você me diz, José, parece muito distante daquilo que sempre conheci como Espiritismo - disse ela um dia. E prosseguiu, intrigada: - Nessa história toda, onde entram os despachos, velas e outras coisas?
José e Sandra riram da pergunta. Ele esclareceu:
- A sua confusão é natural. Por desconhecimento das pessoas, a Doutrina Espírita tem sido confundida com os cultos afro-brasileiros, que se utilizam dessas práticas que você citou, Lígia. Apesar de muito respeitáveis, essas seitas, que fazem parte do sincretismo religioso do nosso povo, nada têm a ver com o Espiritismo, doutrina codificada pelo professor Hippolyte Léon Denizard Rivail, mais conhecido como Allan Kardec, no século passado, na França.
- Mas, o que originou essa confusão toda?
- O fato de essas crenças afro-brasileiras se utilizarem de fenômenos naturais e próprios da condição humana, como o intercâmbio com os mortos, e até da terminologia espírita proposta por Kardec.
Lígia aprendia muito, ouvindo as explicações lógicas e claras de José, que lhe sanavam as dúvidas e lhe esclareciam o espírito. Certa noite, em que eles conversavam sobre a lei de causa e efeito, Lígia ponderou:
- Vejam o meu caso, por exemplo. Minha vida daria um romance! Sou jovem ainda e tenho experiência de uma velha de cem anos. Por que foi acontecer tudo isso comigo? Estaria traçado? Seria destino?
José pensou um pouco e respondeu:
- De forma alguma, Lígia. O que está preestabelecido pelo determinismo divino é o que surge em nossa existência sem que possamos evitar. Como um problema congênito, um retardamento mental, os reveses da fortuna, a morte de um ente querido e tantas outras coisas. No seu caso, tudo se deveu ao uso indiscriminado do livre-arbítrio.
- Você acha mesmo isso? Mas, José, tenho sofrido tanto!...
- Não duvido. Porém, é um sofrimento que você mesma procurou. Faça uma recapitulação dos acontecimentos. Quando foi que tudo começou?
- Quando resolvi fugir de casa à procura de uma vida melhor.
- Está vendo? A decisão foi sua, Lígia.
- Mas é errado querer ser feliz? Procurar crescer na vida? - indagou ela.
- De modo algum. O progresso é lei da Natureza, isto é, faz parte das leis naturais emanadas do Criador. Estamos sempre em busca de condições melhores e mais confortáveis. E assim que a humanidade cresce e se desenvolve. Já imaginou? Não fossem as conquistas de seres abnegados, inconformados com a situação, não teria o nosso planeta chegado onde está, com o conhecimento humano caminhando a passos de gigante.
Após um gole de água, José prosseguiu:
- Todavia, esse progresso não pode ocorrer à custa da irresponsabilidade, da indisciplina e do sofrimento de outras pessoas. Você causou aflições desnecessárias a seus pais e a você mesma; poderia ter saído da cidade da forma correta, em plena luz do dia, com o conhecimento de todos.
- Mas eu precisava terminar o segundo grau... E tinha pressa. Ainda faltavam dois anos!
- E daí? O que representam dois anos quando alimentamos um objetivo claro e definido na vida? Se tivesse tido paciência de esperar, terminaria o curso e poderia fazer o vestibular. E só sairia da sua cidadezinha quando ingressasse na faculdade. Dessa forma, conseguiria uma ascensão mais rápida. Quando não, deveria ter sido sincera e verdadeira com seus pais, falando-lhes dos seus planos, do seu desejo de ser modelo. Tenho certeza de que iriam entender. Lígia manteve-se calada, pensando em tudo o que acontecera.
- Tem razão, José. O pior é que errei muito e continuei errando. Depois de fugir de casa, entrei para o mundo das drogas, levada por Alberto, a quem eu amava. Sabia que ele não me levava a sério, mas, ainda assim, desse relacionamento tive um filho, que, abandonado por mim, acabou ficando sob os cuidados de meus pais. Posteriormente, ao saber que Alberto morrera, desisti de lutar pela vida, entregando-me ao desespero e à inconformação.
Lágrimas copiosas inundavam-lhe o rosto, especialmente ao se lembrar do antigo namorado. Depois de conter a emoção, dirigiu-se a José:
- Você me disse que ninguém morre, que a morte é uma ilusão e que todos estão vivos. Então, Alberto também está vivo. Onde estará ele? Poderá ouvir-me?
José fez um gesto vago com as mãos:
- Onde ele está, não sei. Dependerá do tipo de vida que levou aqui na Terra, de como se comportou, dos conhecimentos que tinha sobre espiritualidade e da sua reação perante as novas condições no além-túmulo. Considerando que a comunicação entre os Espíritos se dá através do pensamento, então, racionalmente, posso dizer que Alberto poderá ouvi-la, sim. Contudo, como não sabemos do seu estado moral, emocional e espiritual, evite pensamentos depressivos, cobranças, recriminações, queixas. Ore por ele, enviando-lhe pensamentos de amor, paz, carinho e reconforto. Lembre-se sempre dos momentos bons e agradáveis que viveram, esquecendo o lado negativo do relacionamento entre ambos. Só assim poderá ajudá-lo.
Nós, que estávamos ali presentes acompanhando o diálogo, notamos que, a essas lembranças, Alberto sentiu forte emoção. Lígia, apesar de todas as suas dificuldades, preocupava-se com ele. Essa lembrança da antiga namorada lhe fez muito bem.
- Poderei encontrar-me com Alberto? - indagou ela em seguida.
- Sem dúvida. Se ele estiver em boas condições emocionais e vibratórias, e se os mentores espirituais permitirem, sim, você poderá encontrar-se com ele. Ele poderá até estar aqui, neste momento.
- Aqui?...
- Sim. Atraído pelas suas lembranças, poderá estar participando da nossa conversa!
Lígia experimentava grande euforia íntima. Pranteara Alberto morto, julgando-o perdido para sempre, e agora nova esperança luzia em seu entendimento.
- Como poderei vê-lo? - quis saber.
- De diversas maneiras. A mais fácil é através dos sonhos. Quando dormimos, o Espírito se desprende e vai aonde quiser. Também poderá comunicar-se com ele através de um sensitivo, alguém a quem chamamos médium e que tem a facilidade de ser intermediário entre o mundo corporal e o espiritual. Além disso, se for dotada de percepções mediúnicas mais apuradas, você mesma poderá vê-lo, ouvi-lo ou senti-lo.
Ela estava maravilhada.
- José, um mundo novo se descortina à minha frente. Foi Deus quem me encaminhou para esta casa, onde vim adquirir conhecimentos tão importantes.
Na Espiritualidade, estávamos satisfeitos. Tudo corria conforme o esperado. A conversa fora direcionada por Glauco com o objetivo de servir de conveniente preparação para as atividades programadas para aquela noite. Nossos amigos encarnados recolheram-se, após uma prece em conjunto, experimentando grande paz e harmonia. Nossa amiga deitou-se pensando em Alberto.
- Senhor, se for da tua vontade, permite que eu me encontre com Alberto. Só um pouquinho.

24 - REUNIÃO NA ESPIRITUALIDADE

Não demorou muito, estavam todos adormecidos. Na Espiritualidade, o movimento era intenso. Cada qual tinha uma função específica. Dona Gema ficara encarregada de trazer nossos amigos Genésio, Luzia e o menino Júlio. Servidores do nosso plano seriam responsáveis por Jonas e Eufrásio, as entidades viciosas ligadas à Lígia, e Glauco por Sandoval. Nós permaneceríamos no local para preparar o ambiente. Passava um pouco das duas horas da madrugada quando Sandoval chegou. Vinha apreensivo e ressabiado. Não sabia o que estava acontecendo. Sua aparência era das piores. Envolvia-se em coloração sombria, em cambiantes de cinza-chumbo e vermelho-escuro. Seus traços pareciam mais acentuados e a expressão fisionômica denotava crueldade, malícia e sensualidade. Certamente deveria provocar medo em pessoas menos acostumadas como mundo espiritual inferior.
- Que lugar é este? - indagou, hostil.
Glauco, com brandura, respondeu:
- Acalme-se, Sandoval. Está entre amigos.
O recém-chegado reagiu fazendo uma carantonha.
- Amigos? Não tenho amigos. Toda liderança é solitária, não sabe? Sou chefe de uma falange e tenho poder. Exijo saber por que estou aqui!
- Você concordou em vir, lembra-se? Tenha mais um pouco de paciência - insistiu o orientador.
- Concordei porque você afirmou que se tratava de assunto do meu interesse e que só teria a ganhar acompanhando-o.
Paciencioso, Glauco concordou:
- Exato. Não se arrependerá. Portanto, tranqüilize-se e aguarde.
Enquanto esse diálogo ocorria, reuniam-se numa sala Sandra, José, Lígia, Genésio, Luzia, Júlio. Entre os desencarnados, os integrantes da nossa equipe de apoio e os obsessores de Lígia. Os presentes acusavam maior ou menor grau de entendimento. Dos encarnados, somente José e Júlio percebiam o que estava acontecendo, mostrando certa lucidez espiritual. Os demais mantinham-se um tanto alheios e desconectados com a realidade. Ao adentrar o recinto onde se achavam os outros convidados, Sandoval passeou os olhos pela pequena assembléia, sem grande interesse. Naturalmente, só via os encarnados e os desencarnados Jonas e Eufrásio com os quais tinha mais afinidade, - de Glauco, que descera de sua elevada condição para tornar-se visível. Ao deparar-se com Lígia, porém, seus olhos apertaram-se, mostrando toda a ira que o dominava.
- Com que então, você apareceu?...
Virou-se para Glauco, postado a seu lado e comentou:
- Tem razão, meu velho. Não me arrependo de ter vindo. Certamente, esta é a surpresa que me estava reservada, não é? Fico lhe devendo essa, meu chapa!
Assim falando, deu dois passos em direção de Lígia, que, ao reconhecê-lo, demonstrou imenso pavor. A nobre entidade ao lado de Sandoval deu uma ordem de comando:
- Detenha-se, Ulisses! Não dê mais um passo! Basta de arbitrariedades!
Ao ouvir esse nome, Sandoval parou como se tivesse levado um choque. Baixou lentamente a mão, que levantara para agredir Lígia, e virou-se para Glauco:
- Por que me chama de Ulisses? Quem é você?
O benfeitor, fixando nele os olhos serenos, reafirmou:
- Sim. Ulisses. Este é o seu nome. Não se lembra?
E, colocando a mão na testa de Sandoval, prosseguiu:
- Você era um poderoso general e todas as frontes se dobravam à sua passagem. Sua crueldade e insânia não tinham limites...
Sandoval fazia esforços para se recordar. Nesse momento, olhou para Lígia e algo dentro dele aflorou:
- Aqui está ela! A mulher que tenho procurado sempre e que agora encontrei. É Alma.
- Exatamente, Ulisses. A mulher que você escravizou e torturou durante muitos anos.
- Eu a amava! - defendia-se ele.
- Não. Você a desejava, é diferente. E, cheio de orgulho, não conseguiu aceitar a rejeição dela.
- Ora, eu tinha todas as mulheres a meus pés...
- Menos Alma, e isso você nunca lhe pôde perdoar.
Nesse instante, Lígia, que acompanhava a cena cheia de horror e estupefação, completamente diferente, parecendo ter recuado no tempo, avançou um passo. Era uma bela moça em trajes antigos do século 17, e mostrava um rancor feroz:
- Eu o odeio, Ulisses! Fui uma prisioneira em suas mãos, obrigada a obedecer-lhe às menores ordens. Jamais tive vontade própria ou liberdade para fazer o que desejasse. (E agora, referindo-se a ele como Sandoval.) Você continua o mesmo. Pensa que pode subjugar-me novamente? Basta! Estou livre de você, entendeu bem? Livre! Livre!...
Acompanhávamos a cena sumamente interessados. Como uma peça teatral, em que cada ator tem sua vez, Alberto adiantou-se, também regredindo no tempo:
- Perdoe-me, Alma, todo o mal que lhe fiz. Como amigo de Ulisses, aproveitei-me da oportunidade para aproximar-me de você, seduzindo-a.
- Guilherme?... Mas também é Alberto! Por isso, desde o primeiro instante, senti-me atraída por você, entregando-lhe meu coração.
O rapaz abraçou Lígia, que chorava de emoção ao reencontrá-lo. Lembrando-se do momento atual, ele suplicou:
- Mais uma vez peço o seu perdão, Lígia. Ignorava que esperasse um filho meu. Por que não me contou?
- Eu sei. Não lhe contei porque não queria que ficasse comigo pela criança.
Depois, quando voltei a procurá-lo, você tinha partido. Ah! Alberto! Deus ouviu minhas preces. Quanto tenho pedido para poder vê-lo de novo!
Diante da cena tocante que se desenrolava a suas vistas, Ulisses-Sandoval estremeceu:
- Novamente ele! Esse amigo desleal que me traiu a confiança! Guilherme não ficará com Alma! Não permitirei!
Nesse instante, alguém aproximou-se do grupo. Era Glauco que, transformado num senhor de idade madura, fisionomia serena, vestido como um fidalgo do século 17, com firmeza falou:
- Basta de loucuras, meu filho. Você já não causou mal suficiente? Destruiu, espoliou, torturou e matou muita gente. Jamais aceitou que outra vontade se sobrepusesse à sua. Orgulhoso e egoísta, arrogante e cruel, plantou apenas o ódio no coração daqueles que tiveram a desdita de conviver com você.
Sob o império daquela voz grave e enérgica, mas amorável, Sandoval sentiu-se tocado nas fibras mais íntimas. Aquela voz despertava-lhe sentimentos até então adormecidos, vozes sussurradas e imagens diáfanas que pareciam vir de um passado longínquo. Prosseguiu a nobre entidade:
- É chegado o momento da sua regeneração. Repense suas atitudes e modifique o rumo da sua vida, meu filho. Surge para você, nesta hora, a melhor oportunidade da sua existência. Jesus, por divina misericórdia, permitiu que lhe falássemos, despertando seu espírito para as realidades da vida. Nossa meta é a evolução, filho meu, e você tem perdido um tempo precioso. É hora de mudanças. Acorde e veja, O que plantou? Todo o mal perece, só o bem é eterno. Ao chegar o momento de entregar a alma ao Criador, qual será sua bagagem? O que fez de bom? Não terá sequer o refrigério de uma prece murmurada com carinho, que balsamize suas dores. Seus parentes lhe abominam a presença; os amigos que o procuram visam apenas interesses escusos; seus pais, ralados de desgostos, enlanguescem na penúria à míngua de pão.
A essas palavras, vieram-lhe à lembrança a figura dos dois velhinhos, que ele abandonara à própria sorte, e se comoveu, pondo-se a chorar convulsivamente. Cingindo-o num terno abraço, Glauco prosseguiu:
- Sempre é tempo de mudança, querido filho. Cada dia é bênção divina que se renova, convidando-nos ao trabalho e ao amor. Retempere seu espírito nas fontes cristalinas do Evangelho de Jesus e modifique sua vida, transformando-a num hino de amor e de devotamento ao próximo. Só assim poderá ouvir alguém, algum dia, abençoar-lhe o nome.
Sandoval-Ulisses em copioso pranto meditava, talvez pela primeira vez na vida. Alertado pelas palavras do generoso amigo, experimentando maior lucidez de idéias, percebia agora o quanto se degradara.
- Tem razão, meu pai. Fiz tudo errado. Novamente me deixei levar pelas paixões e agora colho o resultado. Sinto-me sozinho. Ninguém se interessa por mim. É justo. Apesar de cercado de uma multidão, em locais alegres consagrados ao prazer, sinto-me solitário e vazio.
Glauco sorriu e ajuntou:
- Isso é porque você tem procurado a felicidade nos efêmeros prazeres da carne, que só deixam desilusão e vazio na alma. Nunca procurou os prazeres do espírito, únicos bens verdadeiros e duráveis. Nas uniões com o sexo oposto, jamais viu a mulher como companheira, amiga e credora de respeito e consideração. Sempre buscou saciar seus instintos e emoções mais baixas, desprovido de sentimentos enobrecedores, explorando-as e aviltando-as. Por isso, é bom que você tenha entendido essa realidade, meu Ulisses.
Quedou-se por alguns instantes, para avaliar o impacto de suas palavras sobre o filho ali a seus pés, em cuja cabeça passou a mão com imensa piedade. E prosseguiu:
- Contudo, o Supremo Amor sempre permite a aproximação de entes queridos para balsamizar nosso sofrimento e aliviar nossas dores.
- Como sua presença, pai querido...
Glauco sorriu delicadamente:
- Sim. Mas uma outra pessoa está aqui. Não obstante seus erros e atrocidades, o ama muito e tem-se mantido fiel a você. Por muitas etapas reencarnatórias, esteve a seu lado e tem lutado para vê-lo em melhor situação. É Amadeu.
- Meu filho?...
- Sim, seu filho. Reencarnado atualmente, planejou reunir-se a você mais tarde com a intenção de ampará-lo.
Também nós estávamos surpresos, sem saber a quem Glauco se referia. Nesse momento, cheios de emoção, vimos o menino Júlio correr e abraçar Sandoval.
- Meu pai!... Meu paizinho!
- Amadeu, meu filho! Quanto amarguei sua ausência! Que alegria! Que felicidade! Quero ser digno de você, meu filho. Lutarei para vencer minhas más inclinações e ter a ventura de ficarmos juntos.
Sandoval inclinou a cabeça, lembrando-se de tudo o que já fizera:
- Entretanto, não sei se conseguirei, meu filho. Sou um fraco...
- Peça a Jesus, meu pai, e Ele o ajudará.
- Tem razão, Amadeu. Jesus me ajudará. Suplicarei a Ele que me dê forças e perseverança para vencer a mim mesmo.
A cena era de beleza tocante. Estávamos sensibilizados. O ambiente inundara-se de claridades inexprimíveis. Todos se abraçaram, permutando vibrações e afetos. Muitos se reencontravam depois de longa ausência. Genésio abraçou a filha, cheio de saudade, esquecendo o ressentimento que trazia no peito. Lígia jogou-se nos braços da mãe e ambas choraram de emoção e de alegria. Depois, observando Júlio, que a examinava de longe, ela aproximou-se do filho e, humildemente, pediu:
- Júlio, meu filho, você poderá me perdoar algum dia?
O rapazinho lançou-se nos braços da mãe, exclamando:
- Quanto tenho esperado por este momento, mamãe!
Aquelas palavras, ditas com generosidade e sem mágoa, venceram uma barreira de muitos anos de ausência e carências afetivas, atestando a grandeza de alma daquele Espírito. Lígia, pegando Alberto pela mão, aproximou-o do menino:
- Meu filho, aqui está seu pai. Alberto.
O semblante de Júlio inundou-se de alegria. Jogou-se nos braços de Alberto, e aí permaneceu demoradamente.
- Que felicidade! - exclamou. - Numa mesma hora encontro dois pais!
Sandoval, que observava o diálogo, ficou ainda mais comovido por saber que Júlio, o seu Amadeu, era filho de Lígia e Alberto. Um pouco além, atraindo para si Jonas e Eufrásio, desencarnados que não tinham real expressão de maldade e que se ligaram a Lígia pelos vícios, Glauco considerou:
- Meus irmãos, vocês observaram tudo o que ocorreu aqui hoje. Que esta hora bendita represente também a libertação de ambos.
Tocados pelo ambiente, os dois espíritos estavam dispostos a mudar de vida, porém se mostravam temerosos:
- Somos comandados por Sandoval. Agora que nosso chefe capitulou, não temos mais razões para prosseguir. Todavia, outros tomarão o comando do grupo. Mentes odiosas e pervertidas que não nos darão paz - explicou Eufrásio, o mais velho.
- Eufrásio tem razão, senhor. Não sabe do que eles são capazes de fazer. Virão e nos levarão prisioneiros. Ninguém pode com eles - disse Jonas, com expressão de pavor.
- Temos que ir embora. Não podemos ficar aqui!
Ele fez menção de sair correndo, mas Glauco o impediu:
- Calma! Tranqüilizem-se, amigos. Conosco estarão seguros. Jesus é nosso refúgio e nossa fortaleza. Com Ele, nada devemos temer. Vocês serão conduzidos para região inacessível àqueles que ainda se locupletam no mal. Contudo, não descansaremos enquanto o último dos componentes dessa falange não for socorrido. Também me considero responsável por esses irmãos, e Sandoval, a quem eles obedecem cegamente, mais tarde nos ajudará.
Glauco, elevando os olhos para o Alto, convidou todos os presentes:
- Agradeçamos, meus filhos, esta hora bendita. Soa para todos nós as claridades de uma nova aurora. Sejamos gratos a Deus.
Fez uma pausa, pareceu concentrar-se durante alguns segundos e, à medida que se ligava às Altas Esferas da Vida, reassumia suas condições espirituais. Aos poucos, diante de olhos admirados, nimbava-se de luz. Senhor, Pai de Infinito Amor! Nesta hora sublime, nossos corações estão em festa e se regozijam perante as bênçãos de luz que nos proporcionaste. O amor misericordioso de nosso Mestre Jesus, inseparável e desvelado Amigo, abriu-nos as portas de novas oportunidades redentoras para nossos Espíritos. Sejamos nós dignos de tal generosidade, aproveitando o momento que surge para decisões plenificadoras. Reveste-nos, Senhor, de coragem, determinação e perseverança para vencermos a nós mesmos na escalada rumo a teu Reino. Sabemos que este é apenas o início de uma tarefa. Inúmeras dificuldades virão e muito trabalho teremos pela frente... Mas, no cumprimento do sagrado dever que nos outorgaste, jamais desfaleceremos, por maiores sejam os obstáculos. E se, porventura, vitórias conseguirmos, os louros pertencerão a ti, Pai Amado, como Supremo Condutor de nossas vidas. Assim, recebe, Senhor, nosso preito de gratidão e o devotamento de nossos corações, de filhos que almejam dedicar-se a teu serviço. Sua voz calou-se, mas, após a prece singela, continuamos sentindo as cariciosas aragens que sopravam do Infinito. Melodias sublimes soavam em nossos ouvidos como se cantadas por um coro celeste. Despedimo-nos de todos, permutando sentimentos e vibrações. Bem-estar inefável nos felicitava o íntimo, e certamente essa noite ficaria em nossas lembranças mais caras como prenúncio de paz e de renovação.

25 - ASSIMILANDO IDEIA

De manhã, quando acordaram, cada um dos encarnados que participaram da reunião transcorrida à noite tinha lembranças próprias. José recordava-se perfeitamente de grande parte do que acontecera. Sandra e Lígia, apenas vaga noção de um sonho em que apareciam muitas pessoas. No café, os amigos conversavam sobre o assunto quando Lígia afirmou, comovida:
- Interessante! Tenho certeza de que estive com meus pais e com meu filho esta noite. De repente, não sei por que, Sandoval apareceu e fiquei apavorada. Depois, ele mudou, já não era mais Sandoval... Estranho... Ah! Agora estou me lembrando melhor. Alberto também estava presente! Não é curioso?
José sorriu e explicou:
- Acho que estivemos todos juntos nesta noite resolvendo assuntos de grande importância. Tanto é verdade, que você conservou desse encontro algumas lembranças.
- Tem razão, José. Antes de dormir, rezei pedindo a Deus me permitisse ver Alberto. Mas por que estavam juntas pessoas tão diferentes e estranhas entre si? Quem sabe? Talvez sejam desconhecidas nesta existência, mas certamente deve haver um elo entre elas no passado, uma vez que somos Espíritos em evolução e já tivemos muitas experiências reencarnatórias.
Lígia calou-se, permanecendo pensativa e emocionada durante todo o dia.
Na casa de Genésio, todos despertaram com grande bem-estar. O casal não reteve nenhuma lembrança da reunião, mas Luzia assegurava:
- Acordei com a sensação de que sonhei com nossa filha. O sonho foi tão claro e vívido que parecia real. Porém, tento recordar como foi e não consigo. Tudo se apagou da minha mente.
Genésio concordou, exclamando:
- Curioso! Agora que você tocou no assunto, também tenho a impressão de que qualquer coisa semelhante aconteceu comigo. Acordei com o coração leve, sem mágoas, sem ressentimentos. Olha, mulher, se nossa filha voltasse hoje, eu a aceitaria tranqüilamente.
Júlio, que tomava seu café, ouvindo a conversa dos avós, também se manifestou, com os olhos úmidos:
- Certamente algo de muito importante aconteceu durante a noite. Lembro-me de que estava num lugar diferente. Parecia uma festa... E até meu pai estava presente!
O casal trocou um olhar de perplexidade.
- Seu pai, meu filho? Seu pai?... Mas você nem sabe quem é ele!
- É verdade, vovó. Mas sei que era meu pai! Tinha muita gente; grande parte das pessoas nem conheço. Também estava lá um senhor que me impressionou pela bondade e sabedoria. Sua presença enchia todo o ambiente, e meu coração se alegrou ao vê-lo.
- Ah!... Você o conhece? - indagou a avó.
- É estranho, vovó Luzia. Daqui do nosso mundo onde vivemos, tenho certeza de que não. Entretanto, sei que é alguém muito querido, que conheci em outros lugares...
- Esse menino está delirando, Luzia. Como pode ser isso? - perguntou o avô Genésio, surpreso e incrédulo.
O garoto fitou o avô com seus olhos serenos e respondeu:
- Não sei, vovô. Mas tem pessoas que acreditam que vivemos muitas vezes através da reencarnação. Aprendi isso na escola.
- Bobagens!
- Pode ser, vovô. Porém, como é que sinto que conheço aquele homem? Ele estava vestido com roupas muito antigas e que me eram familiares!
Como os avós não tinham explicação para o fato, calaram-se. Mas cada um ficou com indagações que esperavam por respostas. Sandoval despertou por volta do meio-dia. Sentia-se estranhamente bem naquela manhã, ao contrário dos outros dias, em que, invariavelmente, acordava com uma tremenda ressaca. Ainda na cama, veio-lhe à mente o sonho que tivera. Não se recordava bem dele, mas sabia que fora muito importante. Nesse momento, se pôs a pensar nos pais. Como estariam eles? Um imenso desejo de revê-los o tomou de assalto. Experimentava insatisfação e desgosto pela vida que estava levando, enquanto indefinível tristeza assomava-lhe o íntimo pelas coisas que não construíra durante todos aqueles anos. Inconscientemente, lembrava-se das palavras de Glauco e murmurava, mais para si mesmo:
- O que já construí de bom? Não tenho família, casa, pessoas que me amem, nada! Estou cansado de tudo isso, quero mudar. Quem sabe arranjar um emprego e ter uma existência normal como todo mundo. Dormir à noite, levantar cedo para pegar no batente, viver do meu salário, sem explorar ninguém...
Parou de falar e passou as mãos pelos cabelos, espantado com os próprios pensamentos:
- Ora, estou ficando babaca! Preciso de um gole - exclamou em voz alta.
Foi até a cozinha, pegou uma garrafa de conhaque e despejou uma dose generosa no copo, mas não conseguiu beber. Naquele momento, Sandoval decidiu rever os pais. Colocou algumas peças de roupa numa valise, deu alguns telefonemas avisando que iria se ausentar por dois dias e, entrando no carro, saiu da cidade rumo ao vilarejo onde seus pais moravam. No trajeto, observava as paisagens que se sucediam, as pessoas trabalhando na lavoura. Pensou que deveriam ser felizes, sem grandes problemas; certamente teriam vida simples e, o mais importante, ao voltarem para casa, encontrariam alguém esperando por eles. Suspirou. Jamais esse tipo de pensamento lhe passara pela cabeça. Sandoval estava se estranhando. Não sabia por que, desde que acordara naquele dia, experimentava a falta de um filho. Interessante é que tinha a sensação de que esse filho já existia em algum lugar. Nós o acompanhávamos. Mais próximo a ele, Glauco não deixava que os pensamentos de Sandoval tomassem rumo diferente, afastando-se das mudanças que tinha de introduzir em sua vida. Viajou a tarde inteira. A noitinha, entrou na sua pequena cidade natal. Buscou a rua pobre onde passara grande parte da vida. O estado da casa que o vira nascer confrangeu-lhe o coração. O muro estava parcialmente caído e o portão enferrujara, desengonçado; o mato e as pragas haviam tomado conta do pequeno jardim, que sua mãe antigamente cuidava com tanto capricho. As paredes externas estavam com a pintura descascada e o telhado crivado de buracos. Enfim, o abandono e a desolação eram tão evidentes que Sandoval sentiu um aperto no coração, imaginando como estaria o interior da residência. Abriu a porta. Tudo estava em silêncio.
- Ô de casa! Tem alguém aí?
Ouviu passos arrastados que vinham do quarto. Esperou. Logo, uma velhinha vestida de trapos, encarquilhada, pôs a cabeça na porta do corredor.
- Quem está aí? - perguntou num fio de voz.
- Sou eu, mãe, Sandoval!
Trêmula, a velhinha apertou os olhos tentando enxergar melhor:
- É você, meu filho?
- Sim, mãe, sou eu.
Correu até onde ela estava, envolvendo-a num grande abraço. A esse contato, percebeu sua fragilidade e magreza extremas.
- Que bom vê-lo, meu filho. Seu pai ficará contente com sua presença.
- Onde está ele, mãe? Saiu? Certamente foi à pracinha encontrar com os amigos, como sempre gostou de fazer.
- Qual nada, meu filho. Seu pai teve um derrame cerebral há três anos e nunca mais saiu do leito.
Surpreso, Sandoval exclamou:
- Mas como não fiquei sabendo? Por que a senhora não me avisou?
- Não sabia seu endereço, meu filho - desculpou-se. Envergonhado, ele baixou a cabeça, compreendendo o quanto fora ingrato e omisso. Queria cortar os laços com a família; assim, mudou e não comunicou o novo endereço. Na verdade, com o passar do tempo, fazia isso constantemente para evitar ser localizado pela polícia, com a qual tinha contas a ajustar.
A mãe, porém, falara com simplicidade, sem intenção de o acusar.
- Venha! - disse ela.
Entraram no quarto. A figura estendida no leito causava piedade. Sandoval lembrava-se do pai alto e forte. Agora, ali naquela cama, viu uma outra pessoa. Magro e raquítico, parecia ter encolhido.
- Veja como o meu Martinho está. Todo paralisado, depende de mim para tudo. Ouve bem, mas só consegue balbuciar alguma coisa.
Colocando a mão na cabeça do enfermo, Sandoval falou:
- Pai, sou eu, seu filho. Vim vê-lo.
O doente arregalou os olhos e tentou falar, mas, na boca torta, a língua não ajudava.
- O senhor está me reconhecendo?
Dos olhos do ancião, duas lágrimas rolaram, silenciosas, enquanto ele grunhia, tentando falar.
- Pai, não se esforce. Fique tranqüilo. Vim para ajudá-los.
Nesse momento, um homem entra no quarto. Ao ver o estranho, pára, constrangido.
- Desculpe-me, dona Maria. Não sabia que estavam com visita.
- Ora, você é de casa. Entre, Silvério. Este aqui é meu filho, Sandoval, que acaba de chegar.
E para Sandoval:
- Este aqui é nosso amigo Silvério, um vizinho que muito nos tem ajudado. Sem ele, não sei o que seria de nós.
Aquelas palavras, ditas sem intenção, tiveram em Sandoval o efeito de uma chicotada. Depois de cumprimentar o filho do casal, com sorriso afetuoso, Silvério dirigiu-se ao doente:
- Está na hora do banho, meu amigo. Quer se refrescar?
Martinho sorriu com sua boca torta. Tinha entendido e, pelo jeito, gostava do banho. Sandoval, observando-os, enquanto Silvério conversava com o pai, notou a afinidade entre eles. A fisionomia do pai se alegrara, mostrando que ele gostava da companhia do vizinho. Na verdade, ocupava ele o lugar de filho, que por direito lhe pertencia. Sandoval sentiu uma certa amargura ao fazer essa constatação. Acabada a higiene, Silvério despediu-se, dizendo:
- Dona Maria, deixei algumas coisas na cozinha para a senhora. Amanhã virei consertar aquela janela que está quebrada. Hoje não dá porque tenho que comprar uns parafusos.
- Está bem, meu filho. Obrigada por tudo. Que Jesus o abençoe. Vá com Deus.
Havia tanto carinho na voz da mãe que Sandoval novamente sentiu-se excluído. A mãe chamou-o:
- Venha para a cozinha, meu filho. Vou fazer um café.
Na cozinha, sobre a mesa, gêneros alimentícios numa sacola atestavam a indigência em que os pais tinham vivido até então. Sandoval corou de vergonha ao ver que eles dependiam da caridade pública. Resolveu que tudo iria mudar desse dia em diante. Tomaria as rédeas da situação e seria o filho que, até aquela data, não tinha sido. Glauco olhou para nós e sorriu.
- Hoje conseguimos grande avanço na ajuda a este companheiro.
Depois, elevou os olhos para o Alto e orou com acento comovedor. Estávamos todos satisfeitos. Sandoval, para nós, já não era aquele homem cruel e sem entranhas, explorador de mulheres e traficante de drogas. Era simplesmente alguém necessitado de amparo, que tomava consciência dos seus erros e que se empenharia em vencer suas tendências inferiores. Olhei para Henrique. Muitas indagações me dominavam a mente. Afinal, ajuda da Espiritualidade não faltaria, mas conseguiria Sandoval vencer a si mesmo? E tudo o que deixara para trás? Não seria uma mudança passageira? Se resolvesse permanecer no vilarejo, junto com os velhos pais, agüentaria essa vida, que para ele seria muito monótona? Ele se conformaria em viver longe dos prazeres que gozara até então? E, se isso se tornasse uma realidade, seus antigos comparsas encarnados aceitariam sua decisão? E a falange de desencarnados, da qual era o líder, se conformaria em perdê-lo? E... O orientador amigo sorriu e disse:
- Calma, César. Conheço suas dúvidas, mas só o tempo poderá mostrar se nosso trabalho foi profícuo. Também não temos certeza de nada. Estamos semeando e devemos aguardar para saber se as sementes vão germinar. Todavia, estamos fazendo a nossa parte, o que é importante. Certamente, o nosso irmão Sandoval terá problemas, mas deverá encontrar forças dentro de si para vencer. Conforme demonstre boa vontade na sua transformação moral, a assistência do Alto será cada vez mais intensa e maiores recursos lhe serão direcionados. Por enquanto, não se iluda. Esta é só uma visita aos velhos pais. Aguardemos.
Suspirei. Seria extremamente interessante continuar acompanhando o caso de Sandoval no futuro. Contudo, era hora de partirmos. Ali nada mais havia para ser feito naquele momento. Outras tarefas nos aguardavam. Glauco permaneceria durante algum tempo junto a Sandoval, para ampará-lo nas novas diretrizes. Despedimo-nos afetuosamente. Em nossos corações despertara um grande afeto pela nobre entidade durante aqueles dias de trabalho conjunto. Voltaríamos a vê-lo, naturalmente, porque Glauco não se afastaria do caso Lígia, nossa amiga tão necessitada de ajuda.

26 - RETORNO AO LAR

Naquela mesma noite, Lígia decidiu que era hora de voltar para a casa paterna. Há meses estava com os amigos. Durante o dia conversou demoradamente com os seus hospedeiros sobre suas dúvidas e sua insegurança. Sempre sereno e atencioso, assegurou-lhe José:
- Nada tema, minha amiga. Estaremos aqui orando por você, e tudo dará certo. Tenho certeza de que será bem recebida por seus pais e por seu filho, Júlio. E ainda vai ser muito feliz!
- Será? - indagou, temerosa.
- Claro! Pode ser até que você enfrente alguns problemas no início, o que é natural, tendo em vista o modo como saiu de casa e seu comportamento durante esses anos. Mas sempre é tempo de corrigir nossos erros. Olhe, Lígia, quando temos real desejo de acertar, contamos com a ajuda de Deus em nosso favor.
- Mas... Não é só isso, José. Tenho medo de não conseguir vencer a mim mesma.
Sandra, que até aquele momento ouvira calada, ajuntou:
- Compreendo o que sente, minha amiga. Lígia teme não conseguir ficar longe dos vícios, querido.
- É isso mesmo, Sandra. Não me sinto muito segura e, diante dos problemas que vou enfrentar, temo uma recaída, especialmente quanto às drogas.
- Tem sentido vontade de fazer uso delas ultimamente? - indagou José.
Notando a preocupação do amigo, Lígia apressou-se em esclarecer:
- Não, não. Fique tranqüilo. No começo, quando aqui cheguei, confesso que fiquei enlouquecida. Depois, você me levou para fazer uma consulta com aquele médico espírita, Dr. Lucas, seu amigo, e ele me ajudou bastante. Submeti-me a um processo de desintoxicação, doloroso, mas realmente indispensável. Aos poucos, fui aprendendo a me controlar, e melhorei muito. Agora, posso dizer que estou bem.
- Você tem tomado direitinho os remédios que ele lhe receitou? São substâncias naturais, sem contra-indicação, e que poderão ajudar a restabelecer seu equilíbrio orgânico e emocional, libertando-a dos condicionamentos.
- Tenho.
- Então, não há o que temer. Está desintoxicada e agora só dependerá de você.
Lígia calou-se, entrando a meditar. Apesar das palavras cheias de confiança do amigo, tinha dúvidas. Será que, diante de uma situação difícil, a ansiedade e a tensão não a levariam a apelar para a bebida ou para as drogas, como fuga? A verdade é que nossa amiga Lígia, embora viciada em drogas e alcoólicos, tinha mais tendência para os primeiros. Fora, no entanto, grandemente beneficiada graças ao afastamento de Jonas e Eufrásio, seus comensais desencarnados, que a incentivavam na viciação. Depois, como hóspede na casa de José e Sandra, encontrara ambiente propício para sua recuperação, nas reuniões fraternas que realizavam, inclusive o Culto Cristão no Lar. Além disso, nas orações diárias e conjuntas, José aplicava-lhe energias restauradoras e desintoxicantes através do passe magnético, intuitivamente percebendo sua necessidade. José, que a observava atentamente, complementou:
- Hoje você possui conhecimentos que muito poderão auxiliá-la no combate às próprias inferioridades, Lígia. De mais a mais, não se esqueça de nós. Somos seus amigos e estaremos à sua disposição em qualquer eventualidade. A nossa casa também é sua, e a porta permanecerá aberta sempre que precisar.
- Só lamentamos que precise partir, minha amiga. Sentiremos muito sua ausência - disse Sandra, emocionada.
Lígia não conseguiu falar. Um nó apertava-lhe a garganta. Apenas os olhos, onde brilhavam duas lágrimas, falavam da emoção e da gratidão que sentia naquele momento.
- Mas antes que se vá, vamos orar pela última vez - convidou o dono da casa.
Num impulso fraterno, eles se deram as mãos. Fechando os olhos, José concentrou-se por alguns segundos e iniciou uma prece singela:
- Senhor Jesus! Como tantas vezes o fizemos, no recesso de nosso lar, hoje nos dirigimos novamente a ti. Neste momento, suplicamos tuas bênçãos para nossa irmã Lígia. Ela parte hoje, Senhor, para uma nova vida. Na verdade, é a retomada de sua verdadeira vida na família para onde a bondade e a sabedoria de nosso Pai a conduziu ao renascer e onde poderá, no início, encontrar dificuldades de adaptação. Por isso, Mestre Amado, rogamos teu socorro para nossa irmã, deforma que possa manter em níveis elevados seu desejo de mudança interior, sua boa disposição e seu otimismo. Ajuda-a, Senhor, a não esmorecer nunca, para que o desânimo não venha a estiolar suas mais caras esperanças. Fortalece-a na fé, para que a confiança na Divina Providência possa nortear-lhe o roteiro e fazê-la compreender os desígnios do Pai. Ensina-lhe humildade, Senhor, para aceitar, com coragem e resignação, os reveses que a vida lhe assinale e para enfrentar os obstáculos e as dificuldades com a consciência da própria responsabilidade perante as leis divinas. Desperta-lhe, Jesus Amado, a compreensão para com os erros das outras pessoas, perdoando, aceitando e ajudando sempre os semelhantes. Sobretudo, Senhor, acende a flama do amor em seu íntimo, de modo que a fraternidade e a solidariedade sejam suas companheiras diletas no trato com nossos irmãos em humanidade, especialmente para com aqueles que, de pronto, não lhe possam reconhecer o esforço de mudança interior na conquista de uma vida mais digna e saudável. Que ela possa receber neste instante tuas dádivas de paz e luz, que a acompanharão por onde for, como teu divino legado. Muito obrigado, Senhor!
Após a oração, que inundou a todos de grande bem-estar, os participantes da pequena reunião abraçaram-se, permutando sentimentos e ratificando amizade. Eles não podiam ver, mas sentiam as maravilhosas bênçãos que fluíam do Alto. Emocionados e reverentes, acompanhávamos, do outro lado da vida, a prece que, profundamente sincera, partindo de um coração leal e devotado, movimentava energias poderosas. Do tórax, da cabeça e das mãos de José saía um foco de luz direcionado para cima e que, retornando, envolvia Lígia totalmente. O ambiente se iluminou; flocos de substância azulada, como neve translúcida, desciam suavemente sobre o grupo e logo desapareciam, assimilados pelo corpo dos encarnados, proporcionando-lhes inefável sensação de bem-estar, paz, confiança e alegria. Em seguida, Lígia arrumou sua bagagem, e o casal amigo foi levá-la até a estação rodoviária, onde deveria tomar o ônibus para sua cidade natal. Enquanto aguardavam o horário da partida, Lígia mostrava no semblante uma certa tristeza.
- Acreditem, jamais poderei lhes pagar tudo o que fizeram por mim. Despeço-me de vocês com o coração apertado, porque, no fundo, gostaria de permanecer aqui.
Todavia, sinto que o dever me chama, exigindo a reparação de meus erros. Depois de tudo o que aprendi sobre a imortalidade da alma, reencarnação, lei de causa e efeito, responsabilidade e livre-arbítrio, entre outras coisas, não posso fugir ao cumprimento da parte que me cabe na vida. Na verdade, dele tenho me eximido há longo tempo.
Enxugou os olhos e, tentando se controlar, contemplou os amigos com imensa ternura:
- Jamais esquecerei de vocês. Estes últimos meses foram os mais importantes da minha vida. Estarão sempre na minha memória.
Sandra chorava abraçada à amiga. José, contendo a emoção, brincou:
- Ei! Da maneira como fala, dá a impressão de que nunca mais nos veremos! Esta não é a última vez que estamos nos encontrando! Nada disso, garota! Quando você menos esperar, estaremos batendo à sua porta e pedindo abrigo!
Lígia deu uma risada bem-humorada, ao mesmo tempo em que enxugava os olhos.
- Será um prazer imenso! Vou ficar esperando! Quero que conheçam meus pais e meu filho. E, é lógico, nossa cidadezinha, que, apesar de pobre, é rica de belezas naturais.
- Pode esperar. Assim que entrarmos em férias, iremos fazer-lhe uma visita e matar as saudades.
- Minha mãe faz um peixe assado que é uma delícia! Antes que José pudesse fazer qualquer comentário, o ônibus chegou e tiveram de se despedir. Pela janelinha, ele fez uma última recomendação:
- Lígia, não se esqueça de procurar um núcleo espírita, como me prometeu. É muito importante que você continue a receber passes. Não se esqueça!
- Não me esquecerei. Fique tranqüilo. Até breve! Deus lhes pague por tudo!
Logo, as mãos que acenavam eram só uma lembrança. Por muitas horas Lígia chorou, enquanto a condução rodava. Lá fora, a escuridão era quase completa, amenizada apenas pelo brilho das estrelas. Passava das duas horas da tarde quando ela desembarcou em sua cidadezinha. Pouca coisa havia mudado. Pegou a mala e tomou o rumo do lar paterno. Parou na calçada defronte da casa. Contemplou a velha moradia tão familiar. Estava tensa e preocupada. Toda a confiança que armazenara, a segurança que os amigos tentaram lhe transmitir, tudo fora por água abaixo. O coração batia forte e acelerado. As mãos estavam frias e úmidas, apesar do calor. Sentia-se pequena e frágil. Teve um impulso de dar meia-volta e retornar para o conforto da casa de José e Sandra. Mas se conteve, amparada por Alberto, que a sustentava nesse momento difícil. Ao sol quente da tarde, viu o vulto da mãe que estava varrendo o jardim. Ficou parada, imóvel, olhando fixamente para aquela imagem tão querida. Como se atraída pelo olhar de Lígia, a senhora levantou a cabeça e viu alguém parado do outro lado da rua. Reconheceu-a imediatamente. Abriu o portão e atravessou a rua, ainda incapaz de acreditar naquilo que estava vendo. Chegando mais perto, não conteve as lágrimas.
- Minha filha! Então é você mesma! Meus olhos não me enganaram. Eu sabia que você ia voltar!
Abraçaram-se em prantos. Lígia não conseguia falar, expressar o que aquele momento representava para ela. Passado o impacto do encontro, conseguiu afinal balbuciar, como tantas vezes o fizera quando criança:
- Mamãe, estou com medo!
Compreendendo o estado da filha e tudo o que aquela pequena frase continha, Dona Luzia envolveu Lígia com os braços, afirmando:
- Nada tema, minha filha. Vamos para casa. Ela nunca deixou de ser a sua casa.
- Mas... Papai...
- Não se preocupe. Tudo ficará bem. Atravessaram a rua, e a mãe abriu a porta, feliz, colocando a filha à vontade.
- Minha filha, seu quarto sempre esteve à sua espera. Acomode suas coisas e volte para tomar um café.
A pergunta lhe queimava os lábios:
- Mamãe, e Júlio?
- Seu filho está bem, Lígia. Agora está na escola. Você o verá na hora do jantar.
Mais tarde, Dona Luzia estava na cozinha preparando a refeição, quando Júlio chegou.
- Oi, vovó! O que está fazendo? O cheiro está muito bom!
Com ar misterioso, a velha senhora respondeu:
- É segredo!
O garoto, ao pegar água na geladeira, observou a avó, que cantarolava uma canção enquanto descascava batatas. Estranhou.
- A senhora está diferente, vovó. Mais alegre, com ar feliz. Está até cantando, coisa que nunca a vi fazer! Aconteceu alguma coisa?
Ela virou-se e disse, com ar serio.
- Tenho uma surpresa para você, meu filho.
- Adoro surpresas! O que é?
Sem dizer nada, Dona Luzia apontou para o corredor que levava aos quartos.
- Descubra por si mesmo.
Júlio deixou o copo de água que estava tomando e dirigiu-se para o corredor. Entrou em seu quarto. Tudo estava do mesmo jeito. Achou que era um presente que a avó tinha comprado para ele. Ela sabia que ele desejava uma bola nova de futebol. Nada encontrou. Nenhum embrulho, nada. Nisso, ouviu um ruído que vinha do outro quarto. Então era isso. Uma visita. A porta estava entreaberta, e ele espichou os olhos para dentro. Uma mulher estava inclinada sobre a cama, ocupada em tirar as roupas da mala para colocá-las no armário. Bateu discretamente:
- Com licença. Posso entrar?
A mulher se virou, assustada, e ele pôde vê-la. Estarrecido, ele a reconheceu. Era sua mãe! Lígia contemplou aquele rapazinho à sua frente sem saber o que fazer, que atitude tomar. Por sua vez, Júlio olhava fixamente a mãe, incapaz de acreditar que ela tivesse voltado. Naquela hora, em que o silêncio se tornara opressivo, Lígia lembrou-se das palavras de José. O amigo dissera que ela deveria dizer a verdade, sempre, enfrentando as conseqüências de seus atos. Então, com humildade, dirigiu-se ao filho:
- Júlio, meu filho, muito tenho errado e me arrependo sinceramente de tudo o que fiz, do sofrimento que causei a você e a meus pais. Eu era muito jovem, tinha a mente cheia de sonhos e pouco juízo. Se pudesse voltar atrás, faria tudo diferente, mas isso é impossível.
Engolindo as lágrimas, com muito amor suplicou:
- Júlio, meu filho, você poderá me perdoar algum dia?
O garoto ouvia com o coração apertado. A princípio, teve vontade de mandá-la embora, dizendo que não precisava mais dela. Sua mágoa, por tantos anos represada, ameaçava arrebentar em soluços. Contudo, intuitivamente, lembrava-se da reunião, e sua alma generosa falou mais alto. Correu para Lígia, dizendo:
- Quanto tenho esperado por este momento, mamãe!
Nesse instante, Júlio teve a certeza de que aquela cena já ocorrera, que já tinha ouvido aquelas mesmas palavras. Na Espiritualidade, envolvendo-os num grande abraço, Alberto ergueu os olhos para o Alto, agradecendo em lágrimas as bênçãos daquela hora:
- Senhor Jesus, a vitória deste momento pertence a ti, que nos tens amparado a todo instante. Aqui estão reunidos Lígia e meu filho, para uma nova vida. Se ainda posso te pedir algo, suplicaria a dádiva de poder dedicar-me a eles, ajudando-os a transpor as dificuldades e os obstáculos naturais do caminho. Sandoval também merece o nosso carinho, Senhor; por isso, rogo-te permitas que eu me aproxime dele para sanarmos antigos desajustes. Que teu amor nos envolva a todos, facultando-nos novas oportunidades de servir em teu nome. Muito obrigado!

27 - O REENCONTRO

No dia seguinte, enquanto aguardávamos a chegada do dono da casa para sustentar, vibratoriamente, a nossa amiga Lígia nessa hora tão delicada de sua vida, ainda nos lembrávamos com emoção dos momentos vividos no lar de Dona Luzia. Como esperávamos, tudo correu bem. A princípio, houve um certo constrangimento. Genésio chegou da rua cansado. Tivera um dia difícil, cheio de problemas e estava faminto. Foi logo perguntando pelo jantar. Dona Luzia, com expressão satisfeita, não se deixou influenciar pelo mau humor do marido:
- Calma, Genésio. Hoje a refeição vai atrasar um pouco, mas tenho um bom motivo!
- Aconteceu alguma coisa? - perguntou, curioso, pegando uma banana na fruteira para enganar o estômago, enquanto aguardava o jantar.
- Sim. E você ficará muito contente!
Antes que tivesse tempo de pedir novas explicações, Genésio ouviu passos no corredor acompanhados do ruído de vozes. Nisso, o neto Júlio assoma à porta com outra pessoa. Era uma mulher. À primeira vista, não percebeu que era a filha, tais as mudanças que se operaram nela durante aquele decênio de ausência.
- Sou eu, papai! Não está me reconhecendo?
Ao ver que era Lígia, Genésio levou um choque. Reunindo as forças, mais uma vez ela enfrentou a situação, O pai permanecia imóvel, incapaz de falar. Olhos arregalados, olhava apenas.
- Estou de volta, meu pai - disse ela com humildade.
- Estou vendo. Até quando? - conseguiu afinal dizer, com amargura, tentando manter uma atitude fria e distante.
Júlio intercedeu pela mãezinha, abraçando-a:
- Mamãe está aqui conosco, vovô! Não é ótimo? Temos que agradecer a Deus, que atendeu às nossas preces. Lembra-se de quantas vezes oramos a Ele pedindo que ela voltasse?
Ignorando as palavras do neto. Genésio continuou fixando a filha, grave.
- Até quando? - repetiu a pergunta.
Refletindo um pouco, Lígia respondeu:
- Meu pai, sei que errei muito e que mereço a sua desconfiança. Asseguro-lhe, porém, que mudei. Sou outra pessoa. Andei batendo a cabeça muitas vezes e sofri bastante. Quando abandonei esta casa, eu era muito jovem ainda, quase uma criança, e não sabia o que estava fazendo. Queria viver a vida, desejava ser feliz.
Parou de falar por momentos, engolindo as lágrimas. Genésio aproveitou para perguntar, algo irônico:
- E conseguiu a felicidade que estava buscando?
- Não, papai. Hoje eu sei que jamais conseguiria ser feliz longe de vocês. Do senhor, da mamãe e do meu filho. Como sei também que não há paz sem a consciência tranqüila.
Dona Luzia deixara o fogão e aproximara-se, enxugando o pranto na ponta do avental. Lígia lançou um olhar carinhoso para a mãe e prosseguiu:
- Não imaginam como esses anos foram difíceis. Muitas vezes eu telefonava e, sem coragem de falar, desligava em seguida. Discava só para ouvir-lhes a voz e matar as saudades. Passei fome, passei frio, trabalhei em muitos lugares. Alguns não recomendáveis. Tive contato com pessoas horríveis, conheci vícios, dos quais espero ter-me libertado. Hoje, sei que somos responsáveis pelos nossos atos, e que a colheita será sempre proporcional à semeadura que tenhamos feito. Assim, aprendi que a felicidade ou a desventura são o reflexo do nosso próprio comportamento. Não pensem que pretendo passar por vítima. Ao contrário, reconheço que a culpa é toda minha e que tive o que merecia.
Olhando melhor a filha, Genésio percebeu como estava mudada. Tinha uma expressão sofrida e marcas indeléveis no rosto, mas falava com sinceridade e seus olhos eram tranqüilos.
- E o que a levou a tomar a decisão de voltar para casa? - indagou, já com voz menos áspera.
- A última vez que estive em casa foi quando Júlio nasceu. Acabei tomando a decisão de retornar para a cidade grande, deixando-o aos cuidados de vocês, porque julgava que eu não tinha condições de cuidar de um bebê e desejava o melhor para meu filho. Também porque amava Alberto, o pai de Júlio, e não suportava ficar longe dele. Todavia, quando fui procurá-lo, fiquei sabendo que havia morrido meses antes, vitimado pelas drogas. Meu mundo desmoronou. Desesperada, mergulhei fundo na degradação e nos vícios. Chegou uma hora, porém, em que não suportei mais aquela vida e comecei a meditar sobre o que fizera da minha existência. Não sei onde consegui arrumar forças para lutar. A verdade é que, às vezes, sentia a vovó Gema do meu lado, me amparando. Resolvi dar um basta. Um casal amigo me ajudou a reconstruir a vida, e aqui estou. Aprendi bastante com eles. Foram amigos de verdade.
Fez nova pausa e, fixando o velho pai, concluiu:
- Meu pai, sei como deve ser difícil para o senhor, que sempre foi honesto e digno, aceitar-me de volta. Mas aqui estou na mesma condição do filho pródigo da parábola de Jesus. Depois de ter dilapidado tudo o que tinha, retornou para a casa paterna. Como ele, eu também lhe suplico: Pai, sei que não mereço mais ser chamada de filha, mas deixa que eu aqui permaneça como uma simples empregada.
O nó que sufocava a garganta do velho pai explodiu em soluços. Não suportando mais, ele caiu em choro convulsivo, abrindo os braços para a filha, que se agasalhou neles. Dona Luzia também estava profundamente tocada pela confissão da filha, sobretudo quando ela se referiu à presença da querida avó desencarnada, sua mãezinha. A emoção do momento era tanta que também nós, da Espiritualidade, não contivemos as lágrimas. Entre nós, Alberto abraçou-se à pequena família, fundindo sentimentos e vibrações. Naquela noite, deixamos nossos amigos encarnados, voltando para Céu Azul. Tudo estava em paz, o clima era de bem-estar e harmonia. Eles teriam muito tempo para se entender. Era preciso deixar que aprendessem com as próprias experiências, exercitando o livre-arbítrio. Certamente teriam problemas, mas quando existe boa vontade e amor, tudo se resolve. Reunidos no Centro de Estudos da Individualidade, trocávamos idéias tendo por base a história de Lígia. Um dos companheiros perguntou ao nosso orientador:
- Henrique, e Sandoval? Conseguirá vencer?
- Dependerá dele, da firme disposição e da perseverança que demonstre em manter as conquistas obtidas. Até este momento, os resultados são promissores.
- Sem dúvida, ele encontrará muitas dificuldades, tendo em vista o estilo de vida que levou até há pouco tempo e os compromissos que assumiu perante o próximo e perante si mesmo - ajuntou Adriana.
- Exato - concordou Henrique, prosseguindo: - Porém, o Pai sempre nos concede a oportunidade de refazermos nossos passos, reparando os erros cometidos. O Senhor é magnânimo e jamais apresentará as contas ao devedor que não possa saldar suas dívidas. Ao contrário, lhe dará tempo para que se recupere. Em relação ao nosso Sandoval, essa bênção surgiu do Alto com a retirada dele do palco de suas ações.
Aceitando por via intuitiva a colaboração de Glauco, que lhe sugerira a volta ao interior para junto dos velhos pais, foi-lhe proporcionada a dádiva do recomeço. Ali, naquele vilarejo, estará Sandoval a salvo de influências negativas, do ambiente em que delinqüiu outrora, dos cúmplices e subordinados, dos dependentes de drogas e dos cobradores. Terá a chance de ter uma vida simples, conhecerá pessoas simples e estará em contato permanente com a Natureza. Esperamos que ele aproveite esse período para se fortalecer, porque tempo virá em que será obrigado a arcar com as conseqüências dos próprios atos. Nesse meio tempo, entretanto, contará com a ajuda dos amigos da Espiritualidade, em especial de Glauco, que se sente particularmente responsável por ele. Aproveitando a pausa que se fizera mais longa, indaguei:
- Lígia e Sandoval estão hoje bem distantes um do outro. Tornarão a encontrar-se na atual existência? Afinal, existem elos entre os dois, e isso não podemos ignorar.
O orientador sorriu enigmático:
- Quem sabe? Vamos dar tempo ao tempo, César. Deus sabe o que faz.
O nosso grupo trocou olhares de entendimento, e sorrimos. Por certo Henrique sabia mais do que poderia nos contar no momento.
- E nossos conhecidos Jonas e Eufrásio? - indagou Viviane.
- Estão lá onde os deixamos. Permanecem no isolamento do hospital, recuperando-se gradativamente. Logo poderão receber visitas.
Estávamos satisfeitos e gratificados, como sempre acontecia quando conseguíamos realizar uma tarefa a contento. Alberto, tomando a palavra, agradeceu a toda a equipe pela ajuda naqueles dias.
- Como se sente interiormente, Alberto? - indagou Henrique.
Nosso companheiro pensou um pouco como se procurasse as melhores palavras para vestir seus pensamentos:
- Difícil explicar o que me vai por dentro. Neste período em que nos dedicamos a assistir Lígia e todo o grupo, uma grande mudança ocorreu em mim. Sinto-me hoje mais sereno, mais responsável, menos crítico, mais compreensivo perante os erros alheios e com mais paciência até comigo mesmo, porque reconheço que todos os nossos sentimentos têm uma razão de ser e somente o tempo vai produzir uma alteração substancial para melhor.
Parou de falar por alguns momentos e, fixando cada um de nós, completou:
- É interessante. Sempre soube que somos seres em evolução, que já tivemos inúmeras reencarnações, mas vivenciar uma experiência ocorrida no passado e que produz conseqüências no presente faz com que possamos entender melhor a mecânica da vida. Hoje experimento grande paz interior e me sinto bem mais leve. Não ignoro que essa é apenas a ponta do véu. Muitas outras experiências virão, porém me vejo hoje mais forte e seguro para enfrentar o porvir.
Alberto acabou de falar e todos o abraçamos, externando a nossa satisfação pela vitória que ele obtivera. Quando a agitação em nosso meio diminuiu um pouco, Henrique informou:
- Agora é hora de voltarmos ao trabalho. Como o caso Lígia se encontra em andamento e tudo corre bem, espaçaremos as visitas. Vamos partir para outra frente de serviço. Temos um novo caso para atendimento. Pouco antes de iniciarmos a nossa reunião, um mensageiro trouxe um pedido de socorro, encaminhado pelo Departamento.
Adriana e eu trocamos um olhar de entendimento. De quem seria a vez? Sim, porque Viviane e Alberto, nossos companheiros, já tinham sido contemplados e faltavam apenas nós dois. Eu ou ela? Um pouco ansiosos, aguardávamos que Henrique desse maiores explicações, mas ele pareceu ignorar nosso estado emocional. Combinamos nos encontrar no dia seguinte, à mesma hora quando nos seriam dados maiores esclarecimentos para iniciarmos a nova tarefa. Com uma prece, a reunião foi encerrada. Despedimo-nos, retornando cada um à sua casa para o repouso noturno. Conseguiria eu dormir aquela noite?

28 - NOVOS PACIENTES

Na manhã seguinte, encaminhei-me ao hospital. Estaria de plantão durante todo o dia e não podia me atrasar. Logo que cheguei, passaram-me as fichas de dois novos pacientes, socorridos há poucos dias e ainda com grande dificuldade de adaptação. Aproximei-me do primeiro. Era um rapaz de pele muito branca, cabelos louros e extremamente magro. Estendido no leito, trazia as marcas do acidente de moto que lhe causara a morte física. Era muito jovem, apenas dezoito anos. Estava com a cabeça enfaixada e apresentava ferimentos por todo o corpo. Quando entrei, ele dormia, mas seu sono não era tranqüilo. Debatia-se, gemendo dolorosamente; fazia esforços para abrir os olhos e levantar-se do leito, obrigando-me a contê-lo.
- Estão me chamando! Preciso ir! Mamãe! Mamãe! Onde está você? Estou indo! - exclamava com voz lancinante, entrecortada por soluços.
- Calma Alessandro. Fique tranqüilo. Não se agite. Você foi socorrido por amigos espirituais e logo estará bem. Confie em Deus.
Movido pela compaixão, coloquei a mão sobre seus cabelos e elevei o pensamento em prece, suplicando as bênçãos de Jesus para aquele infeliz rapaz que, tendo a vida inteira pela frente, retornara ao mundo espiritual de forma tão traumática. Nesse momento, irmã Clara aproximou-se.
- Como está indo, César?
- Não foi fácil, mas veja por si mesma, irmã.
Como se tivesse ingerido um sedativo, ele se acalmou. Parou de gemer e de se agitar, mergulhando em sono tranqüilo.
Irmã Clara acompanhou-me no atendimento ao segundo caso do dia. Tratava-se de um moço que morrera por afogamento, em um final de semana, numa cidade litorânea. Confiando em suas condições de exímio nadador, ele procurou, sozinho, um recanto em meio a alguns rochedos, para apreciar a vida submarina. Mergulhou. As águas ali eram profundas, e ele ficou preso em um galho de árvore. Tentou soltar-se, mas não conseguiu. Como estivesse desacompanhado, e o local fosse deserto, expirou sem nenhum socorro. Aproximei-me. Agitava os braços, tentando respirar, ainda sob as impressões da morte dolorosa por asfixia. De repente, passava a ter ânsias e vomitava a água que tinha ingerido. Novamente elevamos o pensamento às Altas Esferas, rogando auxílio para o infortunado jovem. Finalmente ele serenou e pudemos relaxar um pouco. Irmã Clara foi atender a uma emergência e deixou-nos a sós. Sentei-me à cabeceira de seu leito com a ficha na mão. Chamava-se Ismael. Era moreno, de pele olivácea, com traços da raça judaica. Nesse momento, o faxineiro entrou na enfermaria para limpar a sujeira que o recém-chegado fizera. Com surpresa vi que era Hassan. Cumprimentou-me, sorridente:
- Olá, César Augusto. Como tem passado? Não nos temos visto ultimamente. O que anda fazendo?
- É verdade, Hassan. Nossos horários não coincidem. Tenho trabalhado muito. E só.
Apesar de mais acostumado à sua presença, ainda me sentia um tanto incomodado ao vê-lo. Talvez porque ele me recordasse silenciosamente a atitude infeliz daquele dia, a qual eu tanto lamentava. A consciência é juiz vigilante e implacável. Percebendo provavelmente que eu não estava muito a fim de conversar, ele não insistiu. Limpou o chão, calado. Alegando tarefas urgentes, afastei-me. Como Ismael dormiria tranqüilo por algumas horas, não havia necessidade da minha presença ali a seu lado. Sentia-me descontente comigo mesmo. Por que, cada vez que topava com aquela criatura, não conseguia me controlar? Onde estava tudo o que já tinha aprendido? Em que lugar do cérebro teria eu guardado os, ensinamentos recebidos, que agora, na hora da necessidade, não conseguia encontrar? Caminhando por um dos corredores do hospital, ia tão circunspecto que passei por Gustavo, que se dirigia ao jardim, sem vê-lo. Ele chamou-me a atenção:
- Oi, César! Foi bom ter encontrado você. Quero lhe falar. Tem algum tempo disponível?
Sorri. Seu aspecto já era outro. A expressão fisionômica agora era simpática e agradável, conversava com as pessoas e até sorria. Que diferença daquele rapaz que chegara todo cheio de vontades, carrancudo e mal-humorado!
- Claro! Eu o acompanho.
Saímos do prédio e um sol forte nos envolveu. Sentamo-nos num banco e esperei que Gustavo se dispusesse a falar.
- Sabe que logo terei alta? - informou-me.
- Muito bom! Você teve um progresso notável. Não tem mais razão para ficar aqui no hospital. Logo será encaminhado a um abrigo de jovens.
- É exatamente sobre esse assunto que queria lhe falar. Sei que todos, médicos, enfermeiros e orientadores, querem o melhor para nós. Contudo, antes que os responsáveis me apresentem uma decisão, gostaria de poder escolher. É possível?
Pensei um pouco e disse:
- Não vejo impossibilidade nisso, desde que o pedido seja razoável, atenda às suas necessidades de adaptação e que exista vaga. O que sugere?
Notei que estava um pouco constrangido, mas acabou falando como se pisasse em ovos:
- Se não for pedir demais, gostaria de poder ficar em sua companhia.
Na verdade, já sabia o que ele queria e compreendi que ele fizera tantos rodeios temendo ser rejeitado. Achei graça do seu ar preocupado.
- Ora, se isso é tudo quanto deseja, Gustavo, não tem problema. Se depender de nós, irá para o Abrigo dos Descamisados! A alegria iluminou-lhe o rosto.
- Puxa! Não sabe como estou contente, César. Temia que não me quisesse junto com você. Afinal, já perturbei bastante!
- Por que não?... Será um prazer tê-lo conosco, Gustavo. Tenho certeza de que os demais também aprovarão. Se quiser, eu mesmo posso apresentar sua petição junto à Administração Hospitalar.
- Fará isso por mim? Muito obrigado.
- Isso não é nada. Bem, tenho que ir agora. Quando tiver a resposta ao seu pedido, eu lhe comunico.
Despedi-me dele. Eu estava emocionado. Naquela hora voltou-me na lembrança a minha própria experiência. Os primeiros tempos como paciente, as visitas de Eduardo e de Marcelo. O dia em que finalmente tive alta, deixando o hospital. A chegada ao novo lar. A comoção que experimentei ao ver o pessoal todo reunido para me dar as boas-vindas. Ah! Foram momentos felizes aqueles. Jamais me esquecerei do carinho e da amizade que recebi. Com Gustavo seria da mesma forma. Ele estava começando uma nova vida, sob condições completamente diferentes e inusitadas. Precisaria de todo o nosso apoio. Voltei ao trabalho e, entregue às atividades que me estavam afetas, nem vi o tempo passar. Um pouco antes de sair, procurei o diretor do hospital, um senhor afável e simpático. Expus-lhe o pedido de Gustavo e, como não existisse nenhum tipo de dificuldade, ele concordou plenamente. Agradecido, despedi-me e rumei para casa. Daria a boa notícia a Gustavo somente no dia seguinte. Chegando ao abrigo, encontrei os companheiros conversando na nossa varanda. Era difícil o dia em que conseguíamos reunir todos. Sempre havia alguém trabalhando ou em trânsito.
- Aproveito o momento para apresentar-lhes o pedido de um rapaz que em breve terá alta e deseja ser aceito pelo nosso grupo. Trata-se do Gustavo.
Betão, sempre bem-humorado, perguntou:
- Não é aquele que tentou subornar você?
Todos riram. Concordei:
- É ele mesmo.
- O cara, olha lá! Já pensou se ele resolve convencer-nos a contrabandear drogas? Ou fazer da nossa casa um posto avançado de entrega do produto?
Os demais caíram na risada.
- Graças a Deus, esse período passou! Ele até já aprendeu a jogar xadrez com o César. Não é? - comentou o Marcelo, virando-se para mim.
- É isso mesmo. Sabem que foi muito importante para ele? No início, o desencarnado tem dificuldade de concentrar-se em algo alheio a seus próprios desejos e tendências, vícios e seqüelas, dores e sofrimentos. Quanto mais tempo conseguir passar sem lembrar-se daquilo que o incomoda, melhor. É conquista feita. Ganha-se terreno.
- Depois, a mudança de ambiente, com o ingresso na Unidade Hospitalar; o tratamento a que é submetido, que desintoxica o corpo espiritual e o fortalece, saturando-o de energias positivas; a própria mudança mental do paciente e o desejo que demonstre de vencer a si mesmo; tudo isso são fatores decisivos para a cura - considerou Eduardo.
- Brincadeiras à parte - falou Betão -, todos passam por períodos difíceis quando chegam à Espiritualidade, e é preciso saber encontrar alguma atividade que toque o paciente, de forma que, aproveitando seu interesse e potencial, possamos trabalhar seu interior. No caso de Gustavo, César utilizou-se do xadrez, o que não é usual por aqui, diga-se de passagem.
- Exatamente, Betão - concordei. - Todavia, foi a única coisa que o atraiu. Não gostava de ler, não queria conversar, nada... Rejeitava todas as propostas. Bem, vocês se lembram.
- Diga ao Gustavo que o estamos esperando! - completou nosso bem-humorado Betão, demonstrando sua aceitação ao novo membro.
- Creio que todos ficaremos satisfeitos em tê-lo aqui conosco - falou Giovanna, expressando o pensamento dos demais.
Todos bateram palmas, revelando alegria em comentários risonhos e descontraídos. Sorri satisfeito. Quando concordamos em receber alguém em nosso lar, fica estabelecido um compromisso de ajuda, em que todos assumem sua parcela de responsabilidade no processo. Gustavo acabava de ser adotado pelo grupo. Agradeci aos companheiros e despedi-me. Estava na hora da reunião no Centro de Estudos da Individualidade.

29 - NA RESIDÊNCIA DE FÁBIO

Após uma prece, deixamos Céu Azul acompanhando o instrutor Henrique em nova tarefa de socorro e aprendizado.
- Nosso destino é uma cidade de médio porte localizada na região Centro-Oeste do nosso Brasil - disse ele.
Estávamos curiosos. O orientador abstivera-se de dar-nos maiores esclarecimentos a respeito do novo caso. Assim, sem saber o que iríamos encontrar, rapidamente nos deslocamos no espaço, seguindo Henrique. Lá chegando, nos dirigimos para um conjunto habitacional de classe popular, num bairro de periferia. A manhã, iluminada por um sol risonho, era muito agradável. Paramos diante de uma casa. A construção, absolutamente igual às outras, distinguia-se pela falta de muros e por um pequeno e bem cuidado jardim. Apesar da simplicidade, viam-se, no chão de terra batida, gerânios, hortênsias e azáleas cercando toda a frente da moradia. Henrique bateu delicadamente. Um senhor de idade avançada, magro e encurvado, de nome Germano, e que na última encarnação fora avô da dona da casa, abriu a porta, recebendo-nos com gentileza. O instrutor fez as apresentações, e ele, com um sorriso, agradeceu nossa visita. Entramos. Os cômodos eram pequenos e o mobiliário singelo, mas havia ordem e limpeza em tudo. Na cozinha, deparamos com um garoto de sete para oito anos sentado diante de uma mesa rústica e debruçado sobre um caderno. Fazia os deveres da escola. Das panelas no fogão vinha um cheiro bom de tempero, de arroz e de feijão preparados recentemente, o que, de imediato, nos remeteu ao lar terreno, trazendo-nos à lembrança nossas mães que, com tanto carinho e dedicação, nos esperavam à hora do almoço. O menino não nos percebeu a presença. Henrique aproximou-se dele, envolvendo-o num terno abraço e dirigindo-lhe palavras de estímulo. Depois, virando-se para nós, apresentou-nos:
- Este é Fábio, um velho conhecido.
O garoto prosseguia escrevendo com capricho e boa vontade. Inclinei-me sobre o caderno e não pude deixar de admirar-lhe a letra redonda e bonita. Notei que suave luminosidade o envolvia como um manto, denotando-lhe as boas condições espirituais. Seu semblante refletia serenidade e paz; possuía um coração generoso, pelas radiações que lhe partiam do plexo cardíaco. Seus cabelos castanhos, lisos e bem penteados. Estavam molhados, e o cheiro de sabonete atestava que ele se banhara havia pouco. Percebia-se que o uniforme da escola era muito surrado, mas estava limpo e passado. Terminava de escrever as últimas letras quando uma senhora ainda jovem chegou. Vinha arcada ao peso de uma sacola de compras e deixava transparecer cansaço e abatimento. Ouvindo passos de alguém que chegava, o garoto levantou a cabeça e seus olhos se iluminaram.
- Olá, mamãe! - disse o menino, risonho.
- Olá, meu filho! Fez tudo o que mandei?
Denotando responsabilidade, o garoto respondeu com justa satisfação:
- Tudinho, mamãe! Olhe, temperei o feijão e fiz o arroz, como a senhora gosta. Ah! Também arrumei as camas e varri o quintal. Depois tomei banho e acabei de fazer os deveres da escola.
A senhora passou um olhar crítico em tudo.
- Foi até a venda dar o recado para o seu João, como mandei?
Fábio arregalou os olhos, assustado:
- Chiiii, mamãe! Esqueci!
Irritada, a mulher puxou a orelha do menino, que gritou de dor.
- Ai! Ai!...
- Mas é um imprestável mesmo! Não mandei você dar o recado?
- Mandou, sim, mamãe. Mas fiquei entretido no serviço e acabei esquecendo!
Tinha tanta coisa para fazer!
- Pois saiba que era muito importante.
- Não se preocupe, mamãe. A caminho da escola passo por lá e deixo o recado.
- Agora não adianta. Era o meu jogo do bicho, e eu tinha um palpite de que desta vez ia ganhar. Sonhei com cobra e tenho certeza de que era um aviso. Está vendo só? Não ficaremos ricos por sua causa! Moleque irresponsável!
A princípio tivemos vontade de rir. Toda aquela confusão apenas por um jogo do bicho que não fora feito'? Em seguida, a atitude daquela mulher deixou-nos indignados. Percebendo-nos a posição íntima, Henrique alertou, grave:
- Mantenham-se em condições mentais elevadas. Não se deixem influenciar pelas circunstâncias. Dora é nossa irmã e estamos aqui para ajudar, não para julgar comportamentos alheios. Observem apenas.
Reajustando-nos mentalmente, vimos o menino baixar a cabeça, triste e decepcionado. Tirou o material escolar que estava sobre a mesa, colocando-o numa sacola de plástico. Depois, arrumou a mesa para o almoço, enquanto Dora terminava de preparar a refeição. Sentia-se culpado. As palavras duras da mãe fizeram com que seu coraçãozinho se confrangesse. Que pena - pensava ele. - Seria tão bom se pudéssemos ter mais algum dinheiro. Mamãe não precisaria trabalhar tanto e poderia descansar um pouco, voltando a ser como antes, mais calma e mais alegre. Não havia qualquer resquício de reprovação em seu íntimo pela conduta da mãe. Apenas sentia que não cumprira com seu dever. Dora serviu o menino, que aguardava calado. Serviu-se também e sentou-se para comer. Estava faminta. Nesse momento, percebemos que um vulto escuro assomara à porta da cozinha e que fios tenuíssimos, como visgo, ligavam o desencarnado à dona da casa. Quando esta levava a comida à boca, a entidade desencarnada recebia grande parte do que Dora ingeria, aspirando gostosamente as emanações dos alimentos. Ele não se dava conta da nossa presença, completamente preocupado em envolver Dora. Alberto considerou:
- Interessante. O pequeno Fábio não é atingido pelas vibrações inferiores e nocivas do infeliz irmão que acompanha sua mãe.
- É preservado pelas suas condições espirituais; no entanto, é atingido através da própria mãe - aduziu Viviane.
- Exatamente! - concordou Henrique. - A entidade maléfica não pode acercar-se do menino, que está protegido vibratoriamente pelos valores morais já conquistados e pelo hábito da oração, mas vale-se de Dora, instrumento dócil e maleável em suas mãos, para prejudicar Fábio.
Nesse momento, olhamos para ambos e vimos que a mãe, irritada, observava Fábio. O garoto mal tocara na comida, mastigando lentamente e com má vontade.
- Vamos logo, moleza! Não tenho tempo a perder. Preciso retornar para o trabalho e o patrão não perdoa se chego atrasada.
- Já acabei, mamãe.
- Mas você não comeu nada!
- Não estou com fome. Tomo merenda na escola.
- Então, pegue o material e vá para a aula. Quando voltar, não se esqueça de lavar os pratos. Vou deixar as panelas em cima do fogão porque seu pai, como sempre, chega mais tarde para almoçar.
- Está bem, mamãe.
Germano abraçou o bisneto com infinita compaixão, enquanto nos dizia:
- As cenas que vocês acabaram de presenciar têm-se repetido com certa freqüência há alguns meses.
Henrique, aproveitando o momento, convidou-nos ao trabalho da oração:
- Ajudemo-los com vibrações balsamizantes, destinando-lhes energias através do passe, para que executem suas atividades dentro das melhores condições possíveis.
Alberto, Viviane, Adriana e eu nos preparamos para secundar Henrique no socorro aos nossos irmãos encarnados, elevando o pensamento ao Alto e dirigindo as mãos sobre suas cabeças, na condição de intermediários das bênçãos divinas. Quando terminamos, mãe e filho apresentavam outra disposição de ânimo. Dora, provisoriamente desligada dos vínculos com seu sombrio acompanhante, apresentava o olhar mais lúcido e a fisionomia mais descontraída. Toda a irritação e o mal-estar haviam passado. Até abraçou e beijou Fábio, arrependida da maneira como o tratara pouco antes, exigindo tanto de uma criança tão pequena. O menino foi para a escola acompanhado do bisavô Germano. Logo em seguida, Dora saiu também, fechando a casa. Nós permanecemos no local, aguardando. O chefe da pequena família, Lúcio, não tardou a chegar. Era um homem grande, de constituição forte, cabeça enterrada nos ombros. Esquentou a comida e comeu rapidamente.
- Vou arrumar a cozinha. Assim, ajudo Fábio. Senão, meu filho terá que fazê-lo - falou baixinho, acompanhando as palavras com um sorriso de cumplicidade.
Era até engraçado ver aquele homenzarrão abrutalhado, de avental na cintura, lavando os pratos. Depois de deixar tudo limpo, encaminhou-se para o jardim. Àquela hora, o sol havia mudado de posição e as plantas estavam na sombra. Notamos que aquilo era uma rotina para Lúcio, que gostava de lidar com elas. Abaixando-se, arrancou as ervas daninhas, tirou as folhas secas, afofou a terra em alguns lugares e depois, trazendo uma muda de primavera, plantou-a num canto. Para finalizar, regou tudo cuidadosamente. A ternura que dispensava às suas flores ficava patente no olhar, nos gestos delicados, no sorriso de satisfação que dirigia às plantas, acompanhado de meigas palavras de estímulo. Não pudemos deixar de sorrir, vendo-o assim a lidar tão bem com as flores, trabalho que, em princípio, se julgaria incompatível com o porte de Lúcio e com o tamanho das mãos, grossas e ásperas, habituadas ao labor rude. Ao mesmo tempo em que enfiava as mãos na terra, monologava intimamente. Percebíamos sua preocupação, que extravasava em forma de pensamentos dirigidos ao filho querido e à esposa. Não sei mais o que fazer, pensava ele. Dora está diferente, arredia, mal-humorada, mantendo-se irritada e nervosa o tempo todo. Quem sofre com isso é o nosso Fábio, um anjo caído dos céus, que suporta suas exigências e rabugices. E ele é tão bom! Tem um coração tão meigo!... Acompanhando seu pensamento, víamos as imagens que exteriorizava, em que o filho aparecia ora indo para a aula, ora executando os trabalhos domésticos, ora fazendo os deveres da escola. Sempre com boa vontade e alegria, denotando responsabilidade e disciplina. Não posso ver meu filho sofrer, continuava ele, e sei que ele sofre; não reclama, não demonstra, mas sinto que não é feliz. Nunca tem tempo para brincar com os amigos, em virtude da carga de responsabilidades que Dora colocou sobre seus ombros frágeis. Nesse ponto, vimos imagens de Fábio sendo espancado pela mãe, recebendo castigos e chorando copiosamente. Lúcio enxugou uma lágrima na manga da camisa e prosseguiu mentalmente: Ó Jesus, sei que o trabalho é útil e necessário; não estou reclamando disso, o Senhor sabe. Só gostaria que nossa vida fosse um tantinho melhor. Dora anda irritada e nervosa e tem seus motivos, mas não posso vê-la descontando suas frustrações em nosso filho. Sei também que Dora trabalha muito e a culpa não é dela. É minha, que não consigo sustentar a casa com meu salário de fundidor. Mas, Senhor, peço-lhe por meu filho, Fábio, para que ele possa ter uma vida mais serena e feliz. Também por minha esposa, para que ela volte a ser o que era antes, quando éramos tão felizes. Quero ver um sorriso no rosto do meu filho e no da minha mulher; aí, sim, ficarei satisfeito. Estávamos emocionados com os sentimentos daquele homem que, exteriormente, parecia ser tão rude, mas por dentro tão terno, amoroso e dedicado à família. Henrique dirigiu-lhe um olhar enternecido, enquanto nos esclarecia:
- Eis a razão de nossa presença nesta casa. As súplicas deste homem, veementes e sinceras, endereçadas ao nosso Mestre Jesus, alcançaram seu objetivo, e fomos designados para ajudar. Por isso estamos aqui.
Nesse instante, Lúcio preparava-se para retornar ao serviço. Henrique aproximou-se dele, envolvendo-o em vibrações revigorantes, e falou-lhe ao ouvido com carinho:
- Meu amigo Lúcio, tenha confiança e guarde a certeza de que Jesus atende sempre as orações que lhe são encaminhadas, quando sérias e justas. Mantenha o pensamento elevado e o bom ânimo, e Deus o sustentará. Continue firme no cumprimento do dever. Vá em paz, sob as bênçãos do Senhor.
As palavras ditas por Henrique alcançaram-no em forma de sugestões benéficas, reabastecendo-o de energias e de esperança. Reconheceu-se mais fortalecido e, intuitivamente, guardou a certeza de que tudo começaria a melhorar desse dia em diante. Lúcio saiu de casa e nós continuamos ali reunidos. Era hora de conversarmos e estabelecermos um plano de ação.

30 - NO SÍTIO

Nos dias subseqüentes, permaneceríamos em contato com a família de Fábio para aumentar nossas ligações psíquicas e favorecer a sintonia. Procurávamos inteirar-nos de todas as facetas do caso, com vistas a uma melhor observação e a um socorro mais eficiente. Sem essa aproximação, ficaria mais difícil nosso trabalho. Na primeira noite, utilizamos o tempo para conhecer os componentes da pequena família, buscando entender as atitudes, absolutamente diversas, de cada um durante o sono.
- Observem - alertou-nos Henrique. Dora havia deixado o veículo corpóreo com os olhos fixos, como se focalizados em algo que não estávamos vendo. Alucinada, passou por nós sem detectar-nos a presença, ganhando a rua.
A um sinal de nosso orientador, Viviane e Alberto a seguiram. Logo mais foi a vez de Fábio. Assomou à porta do quarto, sorriu ao ver-nos, cumprimentou cada um, gentil; depois, alegando trabalho urgente, despediu-se. Não pudemos deixar de notar que parecia mais velho, muito mais maduro, seguro de si e determinado. Em seguida surgiu Lúcio, demonstrando grande alegria com a nossa presença. Revelava alguma experiência e certa desenvoltura na esfera espiritual.
- Sei que são amigos e aqui estão para nos ajudar. Tenho orado a Jesus, suplicando socorro e discernimento diante das dificuldades.
- No que agiu muito bem. Deus é Pai e jamais estamos desamparados, Lúcio. A Providência Divina nos dispensa profundo amor, notadamente quando estamos atravessando as maiores dificuldades. Jesus está conosco sempre - afirmou Henrique.
- A presença de vocês é uma prova disso. Agradeço-lhes.
Começamos a conversar, trocando idéias e informações. Pouco tempo depois, Germano avisou que ia sair com Lúcio. O velhinho, mais experiente, tinha programado uma excursão de adestramento para o familiar encarnado. Acenaram com as mãos, despedindo-se, enquanto Germano explicava:
- Logo estaremos de volta! Vou levar Lúcio para visitar um velho conhecido.
Mal eles saíram, Alberto e Viviane retornaram. Perplexos, relataram-nos o que tinha acontecido:
- Quando Dora deixou esta casa, imediatamente a seguimos. Logo que chegou à via pública, vimos aquele companheiro, já nosso conhecido, que a esperava. Dirigiram-se para um local de baixíssima condição e entraram - disse Viviane.
- Ainda tentamos evitar que ela se jogasse naquela aventura, mas foi impossível - afirmou Alberto, decepcionado. - Parece que a ligação deles é muito forte e antiga.
- Debalde lhe sugerimos o retorno ao lar, lembrando-lhe a presença do marido e do filhinho. Ela, no entanto, se transformara em outra pessoa. Estava completamente fascinada por aquele homem. Nossa presença era inútil e achamos melhor voltar, deixando-os entregues a si mesmos - completou Viviane.
Cheio de compaixão e sem demonstrar surpresa, Henrique concordou:
- Fizeram bem seu trabalho. Nesse momento, não adiantaria chamar nossa irmã ao cumprimento do dever. Ela não teria condições de escutá-los, e seu comparsa muito menos. Não se preocupem, teremos tempo para agir.
Algumas horas depois, Dora retomou. Vinha cabisbaixa, preocupada e inquieta. Novamente passou por nós, dirigiu-se para o quarto, mergulhando no corpo físico.
Foi a última a retornar. Todos acomodados, entramos no aposento do casal, a convite do avô, para orarmos em benefício de Dora. Henrique e Germano a auxiliaram com aplicações de energias balsâmicas, de forma que pudesse despertar mais tranqüila. Na manhã seguinte, a família decidiu ir para o sítio de uns amigos. Era sábado, estavam de folga e queriam aproveitar o final de semana. Toda vez que se sentiam cansados, o sítio representava um oásis de paz e de reabastecimento para eles. A expectativa do encontro com amigos muito queridos, o ambiente fraterno, a convivência agradável, o local aprazível, tudo colaborava para que esperassem ansiosos essa oportunidade. Naturalmente, nós os acompanhamos. Tomaram um ônibus intermunicipal, repleto àquela hora do dia. Repleto literalmente. Os encarnados faziam-se acompanhar de outros tantos desencarnados, o que tornou o ambiente pesado e asfixiante. Vimos imagens extremamente tristes e degradantes, que não nos é lícito descrever. Ainda bem que, quarenta minutos depois, o ônibus parou no meio da estrada e descemos. Olhei de um lado e de outro. Tudo deserto. Cogitei sobre o que teríamos vindo fazer ali, naquela solidão. Nisso, eles tomaram uma estradinha meio encoberta pelas árvores, que eu ainda não percebera. Caminhamos uns dois quilômetros por terra batida. A paisagem tinha mudado e a psicosfera completamente diferente daquela que sentíramos no ônibus. A estrada, ladeada por grandes árvores, tornou nosso trajeto bastante agradável. Nossos amigos iam na frente, conversando. Curiosa, Viviane indagou:
- Henrique, qual a finalidade da nossa presença nesse sítio?
Um tanto misterioso, ele respondeu de forma evasiva:
- Aguarde e verá. Estamos chegando.
Realmente, logo em seguida, depois de uma curva, vimos uma casa. De madeira, singela, mas simpática. Lúcio chamou:
- Ô de casa!
Em pouco tempo, uma cabeça de mulher assomou à janela. Espantada ao ver os recém-chegados, sorriu e gritou:
- Sejam bem-vindos! Que surpresa agradável!
Saiu da casa e abraçou todos, demonstrando real alegria. Seu sorriso era cativante; nos olhos, claros e límpidos, vimos sinceridade. Era uma alma boa.
- Vamos entrar. Olhem, ainda ontem eu disse ao Maneco que estava com o pressentimento de que vocês viriam hoje!
- Pois acertou, Marieta. Aqui estamos nós! Onde estão todos?...
- Bem, Maneco está na horta. Janaína está com ele. Ela gosta de ajudar o pai. E o bebê está dormindo.
Fábio, ao saber que Janaína estava com o pai, perguntou:
- Tia Marieta, posso ir na horta?
- Claro, Fábio. Você conhece o caminho. Janaína ficará contente em vê-lo.
- Espere, meu filho, também vou - disse Lúcio; depois completou, dirigindo-se às mulheres: - Talvez possa ajudar o Maneco em alguma coisa.
- Ótima idéia. Certamente sua ajuda será bem-vinda. Enquanto isso, ficaremos colocando a prosa em dia e preparando o almoço - concordou Marieta, risonha, levando a amiga para dentro de casa.
Nós acompanhamos Lúcio e Fábio até a horta. Quando chegamos, Maneco colocava a vara num tomateiro. A menina, agachada a seu lado, ajudava o pai, passando-lhe as varetas, quando necessário. Levantando a cabeça, viu Fábio e Lúcio que se aproximavam. Sorridente, ela exclamou:
- Fábio!...
No sorriso radiante e no olhar percebemos o quanto ela gostava do garoto. Largando tudo, correu para abraçar o amiguinho que chegava; já seu pai, limpava as mãos nas calças para cumprimentar Lúcio. Enquanto os adultos conversavam, Janaína ficou entretida com Fábio. Era uma menina de uns cinco anos, bonita e viva. A pele bronzeada de sol e os cabelos, pretos e lisos, com uma franja cobrindo a testa. Notava-se uma grande ligação entre eles. O carinho de Fábio para com ela era tocante, bem como a admiração da pequena por seu amigo mais velho.
- Fábio, mamãe disse que você já vai na escola.
- Vou sim.
- Você gosta de ir na escola?
- Gosto muito, Jana.
- O que você faz lá?
- Aprendo a ler e a escrever. Faço continhas. Tomo lanche e brinco.
- Ah!... Também quero ir na escola. Mamãe disse que, quando eu crescer um pouco mais, vou poder ir.
- Isso mesmo. É bom estudar. A gente conhece outras crianças, faz muitos amigos...
- Ah!... Também quero ter muitos amigos.
Os dois ficaram calados, sentados à sombra de um chuchuzeiro.
- Fábio, sempre sonho com você.
- É? Eu também sonho com você. E parece de verdade!
- Mamãe disse que é de verdade!
- Como assim?
- Mamãe ensinou que, quando a gente dorme, a alma sai e vai para onde quer. Então, como gosto muito de você, tenho certeza de que vou procurar você.
A pequena Janaína disse essas palavras acompanhadas de um olhar de adoração tão evidente, que nos deixou comovidos.
- Vejam como as informações mais sérias e verdadeiras chegam até as pessoas - comentou Henrique, discretamente. Concordamos, admirados. Virei-me para Adriana, a meu lado, e percebi uma expressão estranha em seu rosto.
- O que houve'? - indaguei.
- Não sei, César. De repente, tive uma sensação inquietante. O olhar dessa menina para Fábio me incomodou. Como se eu já o conhecesse, já o tivesse visto em outra pessoa e em outro lugar. Não gostei. Como pode ser isso?
Henrique, que acompanhava as reações de nossa colega, interferiu:
- Continue, Adriana.
Naquele instante, olhando para nosso orientador, Adriana se deu conta de que finalmente estava acontecendo com ela. Um tanto assustada, passou o olhar pelo grupo e sentiu o nosso apoio vibratório. Então, mais encorajada, voltou-se para as crianças, que conversavam despreocupadas sem imaginar que estavam sendo observadas. Olhou para a pequena Janaína mais atentamente.
- Não se detenha na aparência exterior, minha amiga. Você sabe que isso que está vendo, o corpo físico, é apenas uma casca. Concentre-se, procurando enxergar mais além, para descobrir o porquê dos seus sentimentos - incentivou Henrique.
Esquecendo tudo que acontecia à sua volta, Adriana fixou a atenção na menina.
- Eu sei que não gosto dela. Sempre esteve entre mim e ele - afirmou repentinamente.
- Ele, quem? - perguntou Henrique.
- Ele. Não sei quem é.
- Observe com bastante cuidado.
Nisso, Adriana, como se tivesse mergulhado no passado, começou a descrever.
- Ela sempre esteve entre nós. Desde que conheci Rodolfo, sabia que ele fora feito para mim. Apaixonei-me à primeira vista. Logo, porém, percebi que Natália procurava seduzi-lo. Ela era minha irmã.
Adriana parou de falar por momentos.
- Continue - disse o orientador.
- Começaram a se encontrar às escondidas. Quando descobri, exigi que ele a deixasse.
Impossível, contestou ele. Eu a amo e vamos nos casar. Estamos noivos. Só falta tornar público o nosso compromisso. Deixei-me dominar pelo ódio. Indignada, furiosa, desejava acabar com eles. Incapaz de compreender o mal que me fizera, ele prosseguiu:
- Não me queira mal, Loreta. Jamais lhe dei qualquer esperança.
- Nós nos amávamos! - afirmei convicta.
- Não! Nunca! Sempre fomos bons amigos.
- Você não saía de nossa casa, estávamos sempre juntos...
- Perdoe-me. Queria aproximar-me de Natália, a quem sempre amei - justificou-se.
- Você é um canalha! Enganou-me! - protestei com expressão de desprezo.
Cheio de dignidade, ele retrucou:
- Não. Você é que preferiu enganar-se.
Separamo-nos naquela hora. Entre nós não havia mais o que dizer. Contudo, a ira crescia dentro de mim. Não deixei que os outros percebessem o que me ia dentro da alma. Bastava a humilhação de ter-me rebaixado diante de Rodolfo. Quando Natália ficou noiva, suportei com aparente estoicismo sua felicidade, afivelando uma máscara no rosto e impedindo que todos vissem meus reais sentimentos. Intimamente, todavia, planejava uma vingança. Não suportaria a visão da felicidade deles. Jamais! Então, depois do casamento, procurei uma mulher, na periferia da cidade, famosa por suas poções e ervas medicinais. Manipulava as plantas como ninguém. Curava doenças com suas ervas, fazia filtros do amor e, dizia-se à boca pequena, ajudava mulheres a se libertarem de uma gravidez indesejada. Não raro, provocava a morte também de algum inimigo de seus clientes. Era muito procurada na calada da noite. Tudo isso as pessoas falavam, mas ninguém conseguia provar nada. Adriana pareceu titubear. Expressão de grande sofrimento misturou-se às lágrimas que lhe desciam pela face. Tapou o rosto com as mãos, agitando a cabeça. Desejava evitar a visão terrificante de seus atos.
- Prossiga, Adriana. Liberte-se desse peso - disse Henrique com doçura.
Pouco depois, limpando as lágrimas, ela continuou:
- A princípio, aquela mulher negou-se a me ajudar. Depois, por uma pequena fortuna, passou-me as ervas venenosas que me libertariam da presença da rival. Preparei um chá, alegando que era bom para o estômago. Natália, que sofria muitas dores nesse órgão, agradecida, ingeriu-o confiante. Em poucas horas minha irmã morreu. Ninguém ficou sabendo o que tinha acontecido. Naquela época era muito comum as pessoas morrerem com diarréia e vômitos. Assim, ninguém desconfiou, e o médico, chamado às pressas, nada pôde fazer. Todos acreditaram que minha irmã comera alguma coisa que lhe fizera mal. Rodolfo ficou desesperado, e eu o consolei. Ao contrário do que eu pensava, ele nunca quis saber de mim. Fiel a seu amor por Natália, jamais se casou de novo.
Parando de falar, Adriana soluçava convulsivamente. Nisso, seu olhar se desviou e deu com Fábio. Só a partir desse instante, atônita, ela o reconheceu.
- Rodolfo?...
Henrique colocou-lhe a mão no ombro, confirmando:
- Sim, Adriana. Rodolfo, que você tanto amou... E que retorna como Fábio em nova encarnação.
- Não é possível! Como não o reconheci antes?
- Certamente não prestou muita atenção nele.
- É verdade. Estava preocupada com o momento em que chegaria a minha vez de encarar a verdade e não percebi que a resposta estava diante do meu nariz. E agora, Henrique?
- Agora temos que trabalhar com os dados que possuímos para ajudar a todos.
Adriana, lembrando-se da mãe de Fábio, perguntou:
- E Dora? Onde entra nessa história?
- Muitas outras experiências encarnatórias vocês tiveram. Dora é alguém com a qual vocês se envolveram através do tempo e que agora aí está, fazendo parte do grupo e lutando contra as próprias imperfeições - respondeu com sutileza.
- Compreendo. Pelo jeito, tenho sempre atrapalhado a vida de Natália e Rodolfo, não é?
- Nem sempre. Algumas vezes foi ela que, incapaz de perdoar, a prejudicou. Hoje, no entanto, é tempo de esquecer as ofensas e de reparar os erros cometidos.
- Certo, Henrique. Desejo fazer tudo o que puder para aproximar-me deles.
- Pois é exatamente isso o que estamos fazendo. Agradeçamos a Jesus esta hora bendita de esclarecimento - disse o orientador.
Então, ali, em meio às hortaliças, aos pés de couves e de alfaces, de repolhos e de cenouras, de tomates e de beterrabas, à sombra de um grande caramanchão de chuchus, elevamos o pensamento ao Mestre dos Mestres, gratos pelas oportunidades que estávamos tendo de burilarmos os nossos espíritos falidos e comprometidos com o passado e de repararmos as conseqüências dos nossos atos.

31 - CONFIDÊNCIAS

Não obstante o calor, a refeição transcorreu alegre e descontraída, à sombra das grandes árvores do quintal, onde as mulheres arrumaram a mesa. Após o almoço, enquanto as crianças brincavam no terreiro e os homens se recolhiam para tirar um cochilo, as mulheres ficaram descansando na ampla varanda, à frente da casa. De onde estavam, podiam ver os filhos brincando, despreocupados e felizes. O local era fresco e agradável. Sentadas em confortáveis redes, elas conversavam. Dora mantinha o olhar perdido ao longe, fitando a copa de uma frondosa árvore, onde retalhos do céu apareciam por entre as folhas agitadas pela brisa. Marieta observava a amiga discretamente. Afinal, não se conteve:
- Diga-me lá, Dora, o que está acontecendo com você? Apesar da aparente alegria, noto em seu rosto um certo ar de tristeza e preocupação. Mas não é só isso.
Sinto também que está tensa e angustiada. Se puder ser útil, amiga, sabe que pode contar comigo. A interpelada sorriu, agradecida.
- Eu sei, Marieta. Você é a melhor amiga que tenho. Aliás, a única.
- Então, vamos lá! Liberte-se desses sentimentos depressivos. Jogue tudo para fora e se sentirá melhor. É algum problema com seu marido?
- Lúcio? Não, absolutamente! Ele é um homem excelente. Apesar do aspecto rude, é marido dedicado como poucos.
- Então é com Fabinho? Como vai ele na escola? - insistiu Marieta.
- Fábio é inteligente e aluno aplicado. Não, não tenho problemas com ele.
- Então?...
Dora pareceu pensar por alguns segundos, depois confidenciou:
- Sabe Marieta, de algum tempo para cá, tudo vai mal. Minha vida está de pernas para o ar! Tudo está errado, sinto-me mal e não sei explicar o que acontece comigo. Perco a paciência por nada, brigo com Fábio, que tanto me ajuda e que não merece, pois é uma criança boa e gentil, responsável e prestativa. Lúcio me irrita profundamente. Eu o acuso de não ganhar o suficiente e de ser vagabundo, o que não é verdade. Além disso, você sabe que o trabalho nunca foi um peso para mim. Agora, no entanto, estou sempre cansada, sem vontade para nada. Sinto a cabeça confusa e dolorida. Não sei o que está acontecendo comigo! - desabafou, com os olhos úmidos e expressão sofrida de quem pede socorro.
Marieta, que ouvia sem interromper, aproveitou a pausa que se fizera mais longa para perguntar:
- Você tem orado, Dora?
Apesar de estranhar a pergunta, ela respondeu:
- Na verdade, não. Antes até conseguia fazer um pai-nosso ou uma ave-maria. Hoje não consigo.
E, como se só naquele momento se lembrasse de algo importante, prosseguiu:
- E não é só isso, Marieta. Tenho as minhas noites tumultuadas por pesadelos horríveis; vejo figuras estranhas e pessoas que me causam medo. Tem um homem em especial que me infunde temor; ao mesmo tempo, sinto-me fascinada por ele. Esse homem exerce um poder tão grande sobre mim que me obriga a atos que depois me deixam envergonhada. Acordo em péssimo estado, arrasada. O pior é que sinto como se tivesse alguém me seguindo o tempo todo. Como se essa criatura, que me horroriza e ao mesmo tempo me atrai, ganhasse vida e saísse dos meus sonhos, transportando-se para a vida real, e viesse fazer parte do meu dia-a-dia. Será que estou ficando maluca?
Marieta apertou a mão da amiga com carinho.
- Não, Dora. Você não está ficando maluca. Responda-me uma coisa: você acredita na imortalidade da alma?
- Como assim? - indagou a outra, assustada.
- Acredita em vida após a morte?
Dora se benzeu, arrepiando-se toda:
- Deus me livre e guarde! Não gosto de pensar, muito menos de falar em morte!
- Acredita ou não? - insistiu a outra.
- Bem, não sei. Sou católica, você sabe. Não sou praticante, mas acho que todos devemos ter uma religião.
- Muito bem. E o que a sua religião diz?
- Que quando o corpo morre a alma vai para o céu, para o inferno ou para o purgatório, dependendo da vida que levou.
- Exatamente. Mas, e se eu lhe dissesse que aqueles que já deixaram esta vida continuam convivendo conosco, participando das nossas existências e nos influenciando?
- Ah! Não sei, não. Você está falando de fantasmas?
- Isso mesmo. Fantasmas, como você diz, são Espíritos de pessoas que já habitaram a Terra e que agora se encontram numa outra realidade. Nunca ouviu falar sobre isso?
- Já. As pessoas no serviço comentam às vezes esses assuntos, mas confesso que procuro me afastar porque tenho receio. Não gosto de conversas sobre coisas do outro mundo.
Fez uma pausa, parecendo pensar por alguns momentos, depois confidenciou:
- Sabe que minha falecida mãe - que Deus a tenha! -contava histórias de seres do outro mundo? Lembro-me de que ela falava que via sempre o pai dela - meu avô Germano -, que tinha morrido!
Ouvir seu nome, evocado pela neta querida, deixou nosso amigo emocionado.
Vendo que o fitávamos, sorridentes, ele comentou:
- Além de agradável, a lembrança de nós pelos familiares encarnados facilita a sintonia vibratória.
Voltamos a prestar atenção no diálogo das senhoras. Marieta afirmava para a amiga:
- Viu? Então, não há motivo para ter medo. São seres humanos como nós, só não possuem mais o corpo de carne. Quando a gente morre, isto é, quando o corpo morre, o Espírito continua vivendo e tendo os mesmos sentimentos, gostando ou não das mesmas coisas e das mesmas pessoas. Você não acredita em anjo de guarda?
- Claro!
- Pois o chamado anjo de guarda é um espírito elevado que Deus designou para nos proteger durante a vida corpórea. Ele nos assiste, nos orienta, nos consola, nos protege nas dificuldades da existência. Só não têm asas como mostram as figuras.
Dora ouvia com interesse a amiga falar. Sorriu e perguntou:
- Onde você aprendeu todas essas coisas? Nunca me disse nada. Jamais passou pela minha cabeça que você se interessava por tais assuntos.
- Porque não houve oportunidade. Lembra-se daquela vez que o Gabriel esteve doente?
- Claro que me lembro. Ficamos todos muito preocupados com seu bebê. Ele era tão novinho ainda e já com tantas dificuldades!...
- Exatamente. Um dia, cansada de percorrer os consultórios médicos sem resultado satisfatório, resolvi aceitar a sugestão de uma vizinha, a Dona Vitória, que me aconselhou a procurar um centro espírita. A princípio, relutei, mas meu desespero era tanto que, vencendo a resistência íntima, fui e levei o Gabriel. Nem contei para o Maneco, com medo de que ele me impedisse de ir. Pois olha, o bebê recebeu um passe e logo começou a melhorar. Levei-o mais três dias para receber a aplicação de energias, e ele ficou completamente curado. A partir daí, procurei estudar o Espiritismo, para entender o que tinha acontecido com meu filhinho, como me orientaram. Lá me emprestaram alguns livros, que li rapidamente, tão interessantes eram. Depois disso, todas as vezes que vou à cidade, visito a casa espírita e adquiro livros, não só para ter o que ler, como para aumentar meus conhecimentos.
- Mas, e o Maneco? - indagou a amiga, preocupada.
- Agora ele já sabe o que aconteceu. Contei-lhe tudo e ele entendeu. Também gosta de ler e, sempre antes de dormir, lemos juntos.
Dora estava abismada. Percebia que o assunto era sério; caso contrário, sua amiga Marieta, por quem sempre tivera profunda admiração, não se interessaria. Perguntou:
- Voltando ao meu caso, o que está acontecendo? Por que me sinto tão mal? Por que mudei tanto?
- Dora, para nós, espíritas, céu, inferno e purgatório são apenas estados de espírito. Na verdade, aqueles que já deixaram esta vida, convivem conosco, fazem parte da nossa existência, influenciando-nos os pensamentos e as ações. Dessa forma, vivemos cercados de Espíritos que gostam, ou não, de nós, de acordo com nossa maneira de proceder. Por isso, é muito importante mantermos a elevação do pensamento. Orarmos. Procurarmos viver de forma útil e equilibrada, pensando apenas no Bem.
- Mas, se não consigo orar, o que fazer?
- Não se preocupe. Vai conseguir. Olhe, se vocês aceitarem, podemos fazer, hoje à noite, uma prece em conjunto. É o dia do nosso Evangelho no Lar. Que tal?
- Aceito com prazer. Sabe, já estou me sentindo bem melhor só de falar com você.
- Porque toda conversa edificante atrai bons Espíritos. Certamente, amigos desencarnados aqui estão participando da nossa prosa.
Dora olhou em torno, assustada.
- Tem certeza? Olhe como estou arrepiada, só de pensar!
Marieta sorriu, achando graça.
- Não se preocupe. Eles são nossos amigos e só querem o nosso bem. Não há razão para ter medo.
Dora levantou-se da rede, olhando para os lados, ainda ressabiada, e justificou-se:
- Vou ver se Lúcio acordou. Afinal, ele não veio aqui para dormir!
Sorrimos do comportamento dela. Percebemos que dera uma desculpa para poder sair da varanda, onde não se sentia à vontade só de imaginar que ali também poderia haver fantasmas...
Henrique ausentou-se o resto da tarde. Antes de partir, avisou:
- Aproveitaremos esta noite para agir. Fiquem e observem, ajudando no sentido de manter a conversação dos encarnados em níveis elevados e saudáveis.
Horas depois, ao anoitecer, percebemos que muitas pessoas estavam chegando.
Eram Espíritos necessitados, de condições diferentes entre si, que vinham acompanhados de servidores do nosso plano. Entre estes, dois se destacavam. Simpáticos e sorridentes, denotavam elevação maior e comandavam a operação. O mais jovem era Samuel; o outro, que aparentava uns cinqüenta anos, Rinaldo. Ambos demonstravam a mesma disposição e alegria no trabalho. Germano apresentou-nos aos recém-chegados:
- Estes são nossos amigos Alberto, Viviane, Adriana e César Augusto, que chegaram de Céu Azul em tarefa de auxilio. Eles nos cumprimentaram com simpatia e entusiasmo.
Rinaldo, o mais velho, que visivelmente ocupava posição de chefia, disse:
- Henrique já nos informara da presença de vocês. É sempre uma satisfação recebermos visitas em nosso modesto trabalho.
- Especialmente quando podem nos ajudar, como é o caso de vocês - completou Samuel, rindo.
- Estamos aqui para o que for preciso! - disse eu.
Continuamos a conversar, e não contive minha curiosidade:
- Rinaldo, de onde vêm todos esses espíritos?
- De toda a região. Como você vê, César Augusto, estamos na zona rural, onde existem muitas pequenas propriedades. Começamos a arrebanhar o pessoal algumas horas antes, de modo que, à hora da reunião, estejam todos presentes.
- Posso perceber que são muito necessitados - comentei.
- Necessitados, sim. Contudo, em níveis diferentes. Veja: Alguns são nitidamente sofredores, precisando de atendimento especial; outros, apenas irmãos em aprendizado, que se encontram na região e comparecem para participar da reunião.
- Entre eles, não vejo a presença de Espíritos mais rebeldes e endurecidos - estranhou Alberto.
- De modo geral, não são admitidos neste trabalho; só em casos excepcionais. É preciso preservar a casa de uma família, cujos moradores nem sempre têm grandes possibilidades de defesa. O ambiente do lar difere do de um centro espírita, preparado para receber todo tipo de entidades. Assim, procuramos trazer apenas aqueles irmãos que não denotem vibrações de ódio, vingança, revolta e agressividade, e que possam realmente aproveitar a oportunidade que lhes é concedida.
Enquanto conversávamos, os demais servidores trabalhavam, cada qual em função específica, preparando o ambiente e acomodando os visitantes. Rinaldo, observando todos os detalhes como dirigente experimentado, completou:
- Como podem ver, a finalidade dessa reunião evangélica é oração, consolo, ajuda, orientação, esclarecimento, elevação do pensamento.
Alguns minutos antes do início das atividades, marcado para as dezenove horas, Henrique chegou trazendo um irmão necessitado que destoava do conjunto pelas vibrações pesadas e escuras. Era o mesmo que tínhamos visto acompanhando Dora em seu lar. O responsável pela reunião não demonstrou surpresa. Por certo tinha conhecimento do fato, porque, logo em seguida, foram tomadas as providências para isolá-lo dos outros participantes. Henrique e Rinaldo o envolveram em substâncias refratárias, emanações essas que o manteriam apartado vibratoriamente, de forma que não contaminasse o ambiente. O nosso grupo, atento, acompanhava as operações. Quando terminou, Rinaldo virou-se para nós, sorridente, explicando:
- Há pouco afirmei que, em princípio, não permitimos o ingresso de irmãos mais endurecidos no mal. Como podem ver, esta é uma exceção.
Olhou para um dos servidores postado ali perto:
- Tudo pronto, Herval?
- Sim. Tudo em ordem.
- Então, podemos dar início à reunião, com as bênçãos de Jesus!

32 - EVANGELHO NO LAR

No plano material, encontravam-se presentes poucas pessoas. Na sala, em torno de mesa rústica, apenas os donos da casa, Maneco e Marieta, e os filhos, Janaína e o pequeno Gabriel, no colo da mãe, além dos hóspedes, Lúcio, Dora e Fábio. O ambiente espiritual, porém, encontrava-se repleto. As paredes da casa como que se afastaram para acolher todos os necessitados, que foram acomodados em cadeiras dispostas em círculo. Como foco central a mesa onde estavam os nossos amigos encarnados, que jamais poderiam supor tal assistência. Na hora aprazada, deu-se início à reunião. Com simplicidade tocante, Marieta fez a prece de abertura, agradecendo de maneira especial a bênção da presença, nessa noite, dos amigos da cidade. Depois, entregando o Evangelho a Dora, pediu:
- Abra ao acaso. Vamos ver o que Jesus nos reservou para hoje.
Vimos Rinaldo aproximar-se e, colocando a destra sobre as mãos de Dora, direcionar a abertura do livro. Ela leu:
- Reconciliai-vos o mais depressa possível com o vosso adversário, enquanto estais com ele a caminho, para que ele não vos entregue ao juiz, o juiz não vos entregue ao ministro da justiça e não sejais metido em prisão. - Digo-vos, em verdade, que daí não saireis, enquanto não houverdes pago o último ceitil. (Mateus, Capítulo 5º, versículos 25 e 26)
E Dora leu também, com emoção crescente, a bela página Reconciliação com os adversários, comentário de Allan Kardec ao texto evangélico, que se encontra inserido no Capítulo 10º (Bem-aventurados os que são misericordiosos) de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Aquelas palavras pareciam estar sendo ditas especialmente para ela. Quando terminou de ler, tinha os olhos úmidos. Marieta passou o olhar sereno sobre a pequena assistência:
- Alguém deseja fazer algum comentário?
A pequena Janaína perguntou:
- Mamãe, o que é re... reconciliação?
Com imenso carinho, Marieta explicou:
- Reconciliação é fazer as pazes, ficar de bem.
- Isso eu faço. Às vezes, brigo com uma amiguinha. Depois me arrependo e faço as pazes com ela! E adversário?
- Adversário é alguém que se considera nosso inimigo, isto é, o contrário de amigo. Enfim, alguém que não gosta de nós.
A pequena pensou um pouco e falou:
- Ainda bem, mamãe, que não tenho inimigos. Gosto de todo mundo!
O comentário fora dito com tal expressão de gravidade que todos acharam graça, tendo em vista a pouca idade da menina. Até Gabriel, que brincava com um carrinho no colo da mãe, riu, acompanhando os demais. Fábio, que se conservava pensativo, lembrou:
- Outro dia, na saída da escola, meu amigo Zuza trombou sem querer com outro colega, o Horácio, e pisou no pé dele. Horácio ficou muito bravo e deu um murro no Zuza. Mas, quando o Horácio se virou, tropeçou na mochila e levou um tombo. Aí ficou com mais raiva ainda, porque todos riram dele! Mas o Zuza ficou com pena dele e estendeu a mão, pedindo desculpas e dizendo que não pisou no pé dele por querer. Horácio levantou, cheio de vergonha, e foi embora.
- E ele perdoou o Zuza? - quis saber a garotinha.
- Naquele dia, não. No dia seguinte, porém, estava arrependido e foi conversar com o Zuza. Então, fizeram as pazes e continuaram a ser amigos!
Os adultos ouviam com muita atenção a história de Fábio, que bem exemplificava a lição da noite. Marieta comentou:
- O fato que Fábio contou ilustra muito bem a passagem evangélica. Se Zuza tivesse tido outra atitude, se tivesse rido de Horácio, o que teria acontecido?
- Teriam ficado inimigos! - disse Janaína, orgulhosa por ter aprendido a lição.
- Isso mesmo, minha filha. E teria aumentado a distância entre eles, tornando difícil que voltassem a ser verdadeiros amigos. E quanto mais o tempo passasse, o relacionamento só tenderia a piorar. Por isso, Zuza agiu muito bem, colocando em prática a lição de Jesus, que manda nos reconciliemos com o adversário enquanto ele está no nosso caminho.
Naquele momento, o pequeno Gabriel agitou-se, levantando os bracinhos e tentando puxar os cabelos da irmã, que estava ao lado.
- Ainda bem que eu não ligo quando o Gabriel bate em mim, puxa meus cabelos e belisca o meu braço! - falou Janaína muito séria.
- Isso mesmo, querida! - concordou Maneco. - Afinal, Gabriel é quase um bebê e não sabe o que faz, não é? Ele não faz por mal e gosta muito de você.
Todos riram do comentário da menina. Marieta prosseguiu:
- Geralmente, as pessoas partem desta vida para outra levando mágoa e conservando o coração em vinagre. Ressentimento é ácido corrosivo que destrói as melhores intenções. Nesse caso, a reconciliação fica muito difícil. Em virtude disso, devemos sempre procurar entender aqueles que não nos querem bem. Somos criaturas cheias de defeitos, temos muitos problemas e sempre necessitamos da compreensão alheia para com nossas imperfeições. Como ficamos felizes quando alguém desculpa nossos erros, sem alarde... Assim, da mesma forma, é preciso aprender a respeitar, a ter paciência, tolerância com aqueles que nos cercam, como desejamos que façam conosco, porque, muitas vezes, somos nós os agressores. Aprender a perdoar, não sete vezes, mas setenta vezes sete vezes, como ensinou Jesus. Somos geralmente muito severos com o nosso próximo e bastante indulgentes com os nossos erros. Sempre com a razão, o Mestre nos orienta para fazer aos outros tudo o que gostaríamos que os outros nos fizessem, como regra de bem viver.
Estava admirado com os conceitos emitidos pela dona da casa, senhora da roça e sem instrução, quando percebi que elos luminosos tenuíssimos ligavam sua mente à de Rinaldo, posicionado de pé a pouca distância de Marieta. Nesse momento, Dora lembrou-se dos pesadelos que vinha tendo durante a noite e, na tela da memória, reviu a figura do homem que tanto a perturbava. Sentiu que a lição evangélica fora dirigida especialmente a eles, como se ambos necessitassem de perdão recíproco. Embora sem entender, teve a certeza de que ele estava presente. Como pode ser isso? - pensou, não contendo as lágrimas. Na Espiritualidade, detectando seu pensamento, busquei com o olhar a estranha criatura, que se conservava contida num canto do ambiente. A essa lembrança, o obsessor se agitou e tentou soltar-se, no que foi impedido por um dos auxiliares. Henrique, a meu lado, falou em voz baixa:
- Percebeu a sintonia que existe entre eles? Bastou leve emissão mental da parte de Dora para que ele se ligasse a ela novamente. Por isso é tão difícil separarmos seres que têm afinidade entre si. Trata-se, não raro, de grande violência cometida contra eles. Assim, na execução da nossa ajuda, precisamos agir com muito cuidado e discernimento.
Concordei com leve gesto de cabeça; todavia, desejava mais esclarecimentos. Antes que ensaiasse alguma pergunta, Henrique respondeu:
- Agora não, César. Mais tarde conversaremos sobre o assunto. Ouçamos! - e indicou com os olhos a reunião que prosseguia entre os encarnados.
Nesse momento, Maneco, que ouvia calado, lembrou:
- Como agricultor, gosto de examinar o exemplo da Natureza. Quando podamos uma árvore, cortando seus galhos, ferindo-a, ela responde à nossa agressão com ramagem ainda mais bela. Ao rasgarmos a terra por ocasião do plantio, revolvendo-a e causando-lhe sofrimento, ela nos brinda com brotos novos e tenros, transformando-se o solo árido em tapete verdejante. Por que não acatarmos essas belas lições da Natureza, transportando-as para a nossa vida? Com certeza, seremos melhores e mais felizes.
- Exatamente. Assim, diante de qualquer problema, lembremo-nos das lições do Evangelho, que são luzes em nossas vidas, indicando-nos a resposta para todas as situações - completou Marieta.
Após uma pausa, ela indagou:
- Alguém deseja fazer mais algum comentário? Não? Então, creio que é hora de encerrarmos nossa reunião. Elevemos os nossos pensamentos a Jesus.
Com uma prece sentida, a dona da casa deu por terminada a atividade evangélica.
Do Alto, bênçãos de luz vertiam sobre os presentes, impregnando todos de paz e bem-estar. Muitos desencarnados quedaram-se em lágrimas, sob forte emoção, atingidos em suas fibras mais profundas. Durante os comentários, servidores do nosso plano aplicaram passes nos presentes, tanto nos encarnados quanto nos desencarnados. Muitos foram ajudados, conseguindo, graças ao clima saturado de vibrações amorosas e dulcificantes, ser levados para instituição socorrista, onde receberam o atendimento necessário. Outros, contudo, deixaram a casa ainda centrados no monoideísmo que cultivavam, incapazes de se desligar da família e do ambiente doméstico, ao qual já não pertenciam fisicamente. Assim que os necessitados foram embora e a sala se esvaziou, as coisas voltaram à normalidade. Somente nós ali permanecemos, juntamente com os Espíritos familiares da casa. De modo geral, o trabalho fora pródigo em resultados benéficos. No nosso plano, satisfeitos, nos entretivemos em alegre palestra. Logo após a atividade evangélica, Marieta colocou uma toalha na mesa e serviu um ligeiro lanche, composto de chá, leite, biscoitos e pão caseiro, além de manteiga e queijo do próprio sítio. Os encarnados, satisfeitos e alegres, trocavam idéias sobre a reunião. Os hóspedes tinham gostado muito. Lúcio, que ainda se mantinha emocionado, comentou:
- Nem sei como agradecer-lhes a oportunidade de ter participado do culto. Asseguro-lhes que nunca tive tão grande sensação de paz e de bem-estar. Parece-me ter encontrado hoje algo que venho buscando há longo tempo.
Fábio sugeriu:
- Papai, mamãe, não poderíamos fazer uma reunião assim lá em casa? Acho que estamos precisando!
Lúcio concordou:
- Claro, meu filho. É uma excelente sugestão. Tenho certeza de que o ambiente em nossa casa ficará mais leve e agradável, como este que estamos sentindo.
Dora não disse nada, mas no íntimo reconhecia as bênçãos da oração. Todo o mal-estar desaparecera, bem como a angústia, a insatisfação, a ansiedade, que não a deixavam nunca. Sentia-se mais leve, conseguia pensar com maior clareza e - fato interessante - a dor de cabeça constante tinha sumido!... Não demorou muito, todos se recolheram. Cansados das atividades do dia, logo estavam dormindo. Aos poucos, desligando-se do veículo corpóreo, vinham para o nosso plano, trazendo as próprias condições. Auxiliados por nós, seus amigos espirituais e familiares desencarnados, pressentiam a importância do momento, conquanto alguns não atinassem com o que estava acontecendo. De modo geral, todos estavam bem e conversavam entre si, surpresos por se reencontrar. Dora, preocupada com seu problema, custou a dormir e foi a última a chegar. Estranhou o ambiente.
- O que está acontecendo? - indagou.
- Fique tranqüila. É apenas uma reunião de amigos - assegurou-lhe Henrique.
- Amigos? Mas por que vejo tanta gente estranha? - perguntou novamente, meio inquieta, perpassando o olhar sobre nós, que sorríamos para ela.
- Também são seus amigos. Aguarde mais um pouco. Logo terá todos os esclarecimentos que desejar.
Alguns minutos depois, Rinaldo fez um leve sinal para Henrique, que, chamando a atenção dos presentes, deu por iniciada a reunião.
- Meus irmãos, que Jesus nos abençoe o propósito de servir!

33 - LEMBRANDO RESPONSABILIDADES

Todos estavam ansiosos para saber o motivo da reunião. Henrique, fixando os olhos calmos e lúcidos nos presentes, informou:
- Nosso objetivo, nesta oportunidade, é conversar e reencontrar o passado.
Desfazer dúvidas, aclarar idéias e relembrar o que nos compete realizar, segundo o planejamento reencarnatório feito com nossa anuência, antes do mergulho na carne. Os presentes mostravam-se intrigados. O que estava para acontecer? O que se esperaria deles? Intuitivamente, porém, sentiam que essa hora revestia-se de grande importância para seus Espíritos. Nosso orientador prosseguiu:
- Sejamos gratos à Espiritualidade Maior, que nos permitiu este encontro como forma de auxílio a todos os implicados no caso.
Com os olhos esgazeados, que denotavam seu estado emocional, atormentada por forte sentimento de culpa, Dora espraiou o olhar pela assistência, detendo-se na figura feia e de expressão torturada que se postava a um canto do recinto. Reconheceu-o imediatamente.
- Ó maldito! Até aqui me persegue? Não conseguirei nunca livrar-me de sua figura horrenda?
Desligada do veículo corpóreo, Dora retomou a lembrança de tudo o que lhe vinha acontecendo todas as noites durante o sono e do comportamento que vinha mantendo. E reconhecia-se culpada perante sua consciência e perante os demais familiares e amigos, especialmente o marido, ali presente, e que parecia fitá-la com ar acusador. Sentia-se como que uma ré num tribunal. Apontando o infeliz, que se encolhia de encontro à parede, acusou-o diante de Henrique, que supôs fosse o juiz:
- Senhor, é ele o responsável por tudo. Tem-me perseguido tenazmente e encarcera-me em sua vontade poderosa. Sua força descomunal me domina e me vejo fraca e indefesa em sua presença. Acusa-me e tortura-me sem cessar. Agora, não contente em perseguir-me durante a noite, resolveu invadir outros períodos do dia, perturbando-me o sossego. Em vista disso, não tenho mais paz nem alegria. Eu o odeio! Eu o odeio! - gritava, soluçando convulsivamente, entregue a grande desequilíbrio.
Henrique aproximou-se dela com carinho e piedade.
- Minha irmã, tranqüilize-se. Nem eu, nem ninguém está aqui para julgar seus atos, ou os de quem quer que seja. Desejamos apenas esclarecer alguns pontos obscuros, o que será de grande benefício para todos. Somos seus amigos e nosso objetivo é tão-somente ajudá-la. Acalme-se e confie.
Sob os eflúvios que emanavam do instrutor, e ouvindo-lhe as palavras serenas, Dora respirou fundo, procurando readquirir o equilíbrio emocional. Enquanto isso, vendo-se apontado pela mulher e recebendo em cheio suas acusações, o infeliz reagiu violentamente:
- Sua víbora! Serpente venenosa que agasalhei e nutri em meu peito! Você me acusa de persegui-la e de torturá-la. Não sabe o que diz. Por tudo o que me fez, você merecia muito mais, miserável! Ou não se recorda do quanto sofri por sua culpa? Você pode enganar quem quiser, mulher infame, mas não a mim! Sou Azambuja, lembra-se? Conheço-a de sobejo e sei todos os seus truques.
Aquelas palavras acusadoras e o tom com que foram ditas fizeram com que o tênue véu que encobria o passado fosse retirado, e Dora, entre o espanto e o temor, exclamou:
- Azambuja?...
- Sim, sou eu mesmo! Eu, que aqui estou para cobrar tudo o que você me deve!
- Mas... Mas... Está tão diferente... Não o reconheci com essa aparência... - gaguejou, a tremer nervosamente.
- Por certo. Já não me apresento mais com elegância, como antigamente. Os trajes luxuosos, as jóias, o penteado cuidadoso... Tudo isso ficou no passado. Esta é a aparência que você me deu. Desde aquela época, há tanto tempo, estou assim... - disse, com refinada ironia.
Fez uma pausa e riu com sarcasmo:
- Lembra-se de como mandou matar-me? Ordenou a seu criado de confiança que me destruísse a vida e depois, para que não ficassem vestígios comprometedores, me queimasse o corpo. Pois foi exatamente o que ele fez. Aquele miserável que ali está, Basílio!
Com o dedo em riste, apontou para Lúcio, que, olhos esbugalhados, ouvia tudo, retornando no tempo e recordando-se também dos acontecimentos narrados. Enquanto Azambuja falava, pela mente de Lúcio passavam as cenas descritas, que ele tão bem conhecia. Depois de matar o infeliz, viu-se arremessando o que restava do corpo por uma ribanceira, onde nunca seria encontrado. Invadido pelas lembranças, Lúcio soluçava convulsivamente, balançando o enorme corpo.
- Perdoe-me, Azambuja! Estou muito arrependido. Perdoe-me! - dizia Basílio-Lúcio.
- Não merece o meu perdão, miserável. Cúmplice dela, destruiu-me a vida para evitar que contasse a verdade a Fernando, o marido: que eu e ela éramos amantes.
O menino Fábio, que também se lembrava naquele instante do drama vivenciado no século passado passou a ter aparência de Fernando, um nobre em plena madureza física, elegante e bem vestido. Aproximou-se deles, ponderando:
- Azambuja, há muito não ignoro os fatos que está a relatar. Embora traído e também assassinado posteriormente pela sanha ambiciosa de Genoveva, a esposa que não pôde esperar minha morte para herdar-me a fortuna, recuperei-me no mundo espiritual e compreendi, após muito sofrimento, que me competia perdoar aos meus algozes. Por isso, recebemos de Deus a bênção de renascermos para uma nova experiência na carne. Só você não aceitou a oportunidade que lhe era oferecida na ocasião, por se conservar cheio de ódio e de desejo de vingança.
Enquanto Azambuja, diante das palavras ponderadas e ternas de Fernando-Fábio, mudava lentamente o teor mental, atingido pelas vibrações amorosas do grupo, Fábio prosseguiu:
- Sob as bênçãos do Altíssimo, estamos aqui para nos entender. Basta de desavenças e de mágoas. Façamos as pazes e nos tornemos amigos. Nada tenho contra você. Todo o mal que me fez recaiu sobre si mesmo. É, na verdade, hoje sei que eu não era uma vítima inocente. Segundo a lei de causa e efeito, merecia o que passei em virtude de compromissos anteriores, ligados a fatos ocorridos no século 17.
Quando Fábio disse essas palavras, Adriana, que, a meu lado acompanhava atentamente o diálogo, caiu em pranto. No silêncio que se estabeleceu, só se ouviam seus soluços. Buscando nossa amiga com os olhos, Fábio aproximou-se dela com ternura e a abraçou:
- Sim, Loreta, eu mereci o que passei porque também a fiz sofrer. Você tinha razão quando me acusava. Eu a iludi, fazendo-a acreditar que a amava, quando minhas intenções eram apenas aproximar-me de você para chegar até Natália. Confesso que também não a amava, embora me sentisse atraído por ela. Desejava apenas ficar com a fortuna dela.
- Não entendo, Rodolfo. Eu também era rica e o amava! - questionou ela.
- Menos rica, porém, que Natália. Eu tinha feito investigações e descobri que Natália era sua meia-irmã; que a mãe dela falecera deixando-lhe imensa fortuna.
Descobri também, conversando com o médico de Natália, que seu estado era grave e teria pouco tempo de vida. Como minha ambição não tinha limites, uni o útil ao agradável. Lamento profundamente, mas esta é a verdade.
- Meu Deus! - exclamou Adriana. - E eu que não sabia que Natália estava doente!... Cometi um crime sem necessidade e compliquei o meu futuro, tornando-me criminosa e culpada perante a lei divina.
Janaína se aproximou como Natália, vestida agora com trajes antigos e com a aparência de uma linda jovem. Adriana, que sob nossas vistas voltara à aparência de Loreta, olhou-a e suplicou:
- Será que algum dia poderá me perdoar, minha irmã?
Nos olhos de Natália percebia-se ainda mágoa e ressentimento, que ela fazia esforço para vencer. Inclinou a cabeça sobre os ombros de Rodolfo-Fábio, enquanto ele, envolvendo-a ternamente com o braço, suplicou:
- Minha querida, perdoe. Tudo isso já passou. Loreta hoje é outra criatura e luta para vencer a si mesma. O perdão é uma necessidade, porque todos precisamos do perdão uns dos outros. Houve época em que você também a prejudicou, lutando por mim, que, fraco, nunca soube decidir-me por uma ou por outra.
Natália-Janaína levantou a fronte e, em seus olhos úmidos, Loreta-Adriana percebeu que a animosidade tinha desaparecido do seu coração. Abraçaram-se com carinho, e, naquele momento - amparadas pelos amigos espirituais -, só se lembraram do tempo em que eram irmãs, quando tinham crescido juntas e dividido o mesmo quarto e os mesmos brinquedos. Achegando-se ao grupo, Dora também reconheceu seus erros:
- Natália, tenho minha parcela de responsabilidade, porque fui eu que forneci as ervas venenosas para Loreta. Perdoe-me. Não sabia o que estava fazendo.
Natália sorriu, envolvendo Dora num abraço.
- Nada tenho que perdoar. Tudo é passado. Hoje você é minha tia Dora e tem me conquistado com seu carinho.
Diante da presença de Fábio, ontem vítima, hoje filho querido, em quem reconhecia a superioridade moral e a grandeza de alma, sentiu a vacuidade dos laços terrenos, que nos encaminham para situações diferentes de acordo com as necessidades. Uma grande admiração por ele tomou conta de seu coração, por isso o abraçou, não apenas como filho amado, mas, sobretudo, como irmão de jornada terrena e credor de consideração e respeito. Ao entregá-lo a ela e a Lúcio, Deus lhes concedia a bendita oportunidade de reparação, competindo-lhes encaminhá-lo na vida e dar a ele o melhor de si mesmos. O ambiente se transformara. Cada um dos implicados nos dramas ocorridos nos séculos 17 e 19, com reflexos na época atual, mostrava-se disposto à modificação interior. Abraçavam-se, prometiam-se ajuda mútua, renovavam sentimentos e refaziam laços que os atos passados tinham rompido. Todos sentiam-se repletos de paz e bem-estar. Harmonias intraduzíveis fluíam do Alto, envolvendo o recinto em claridades novas. Germano, que até aquele momento permanecera calado, tomou a palavra:
- Como pai de Genoveva, muito errei, pensando apenas no lado material da existência e incentivando a ambição de minha filha para que ficasse com a fortuna do marido, Fernando, a quem eu não estimava. Mais tarde, voltei ao corpo de carne, e Dora renasceu como minha neta. Sinto-me responsável por ela, motivo pelo qual tenho procurado ajudá-la de todas as maneiras, inclusive pedindo a Jesus a bênção de renascer na família de minha neta, para reparar os danos que causei.
- E eu fui mãe de Genoveva, por essa razão o carinho que sentimos uma pela outra. Desejo ajudá-la em tudo o que puder - afirmou Marieta, abraçando Dora, sua amiga de hoje e filha querida do passado.
Adriana chorava sentidamente, incapaz de conter a emoção pelas reminiscências que tivera. Enfrentara a verdade e sentia-se gratificada, ainda que indescritível sensação de responsabilidade pelos danos causados a outrem lhe abalasse o íntimo. Rinaldo, que se mantivera como observador até aquele momento, acercou-se de Loreta-Adriana, com o aspecto de um fidalgo, e a envolveu num grande abraço:
- Minha filha querida! Lembra-se de mim?
Somente agora, prestando atenção nele, ela exclamou:
- Papai!...
- Sim, Adriana. Sou eu mesmo, querida! Seu pai que muito a ama. Não se preocupe, minha filha, com o passado. Tem hoje você todas as condições necessárias para vencer. Na França do século 17, fui seu pai e de Natália, mas não soube orientá-las como deveria. Agora, na Espiritualidade, tento compensá-las de tudo o que não fiz naquela oportunidade, auxiliando também todo o grupo, para que possamos crescer juntos. Para tanto, já solicitei uma atividade próxima de Natália, para estar junto dela e assisti-la nas dificuldades. Então, permitiram-me ser o responsável pela reunião semanal evangélica da qual você participou.
- Meu pai! Por que não se apresentou a mim antes?
Com expressão algo melancólica, Rinaldo explicou:
- Estava impedido de fazê-lo pelos meus superiores. Em outras oportunidades, fui muito complacente e, por excesso de carinho e atenções, a prejudiquei. Recomendaram-me então que, no futuro, permanecesse distante, para que você pudesse crescer por seu próprio esforço.
Rinaldo fez uma pausa e concluiu:
- Não valeu a pena?
- Tem razão, papai. Valeu.
- Tenho acompanhado sua trajetória desde que retornou ao mundo espiritual. Sei dos progressos que tem feito e de como tem-se esforçado no trabalho de auxilio aos necessitados, tanto encarnados quanto desencarnados.
A essa evocação, Adriana ficou pensativa por alguns instantes, lembrando-se de como chegara ao além-túmulo, consumida pelas drogas e inconsciente do seu estado. Antecipando a pergunta da filha, que detectara mentalmente, Rinaldo explicou:
- Sua ligação com os alucinógenos é antiga, minha filha. Naquela encarnação mesmo, como Loreta, na maturidade você ficou doente. Em virtude das dores, precisava usar substâncias fortes, extraídas de ervas, que a tornaram dependente. Mais tarde, em outra encarnação, como esposa de um médico, teve acesso às drogas e, em virtude de suas tendências, voltou a consumi-las sem que seu marido disso tivesse conhecimento.
- Entendo. E, na última encarnação, em virtude dos antecedentes, foi fácil voltar à dependência.
- Exatamente. Por isso, necessário se faz que vença verdadeiramente a si mesma, acabando de vez com a atração pelas drogas.
- Hei de conseguir, papai. Com sua ajuda e o amparo de todos, vencerei.
Acompanhávamos o diálogo sensibilizados. Henrique, com grande sorriso, aproximou-se:
- Viu quanto trabalho temos que realizar, Adriana?
- É verdade. Hoje percebo isso de uma forma mais ampla. Encarando o passado, tenho a mente mais aberta e mais lúcida. Vejo as coisas de um ângulo coletivo que não via antes. Talvez seja essa a visão dos mentores, guardadas as proporções, evidentemente - completou.
Todos rimos de sua preocupação em não parecer pretensiosa. Dora também estava preocupada com as informações que tivera quando Germano se aproximou da neta com ternura.
- Vovô Germano, estou horrorizada com todo o mal que pratiquei. Quero mudar e trabalhar em beneficio dos outros, para reparar um pouco do muito que errei.
- Esse seu desejo já foi aceito, Dora. Antes de renascer, você fez um planejamento de vida em que se comprometia a auxiliar as pessoas através da mediunidade.
- Verdade, vovô? Mediunidade! Mas... Nem sei o que é isso!...
- Saberá. Está chegando a hora. Por isso, não poderíamos deixar essa reunião para mais tarde. Tinha que ser feita agora. Você teve a primeira noção de Espiritismo hoje, momento que se revestiu de grande importância. Não foi por acaso que Marieta, sua mãe do passado, a apresentou à Doutrina dos Espíritos. Deverá aproveitar a oportunidade e procurar estudar cada vez mais. Quando estiver preparada, terá uma tarefa através da mediunidade com Jesus, aplicada ao socorro de quantos foram prejudicados por suas mãos. E ai de você, se perder essa chance bendita!
- E Azambuja? E Lúcio?
- No futuro, quando Azambuja estiver em condições melhores e se transformar em trabalhador da Seara de Jesus, será seu auxiliar, ajudando-a a consolar uma imensidão de dores. Quanto a Lúcio, está em situação de trabalhar desde já. Será seu braço direito e sustentáculo nas horas difíceis.
Dora elevou o pensamento ao Alto, agradecida pelas infinitas bênçãos que estava recebendo. Abraçada a Fábio, a Lúcio, a Marieta, não cabia em si de tanta felicidade. A madrugada ia avançada e logo as primeiras claridades da aurora tingiriam o céu. Era hora de os amigos encarnados retornarem para seus corpos. Com uma prece carregada de emoção, Henrique deu por encerrada a reunião, que tantas dádivas trouxera aos participantes. Depois, cada qual foi reconduzido a seu leito pelos servidores do nosso plano. Saímos para o ar livre. Desejávamos respirar o ar puro da Natureza, sentir a brisa perfumada que soprava, trazendo-nos o aroma das flores. Tudo era paz e quietude. O que nos ia no íntimo é difícil de ser descrito em linguagem humana, sempre pobre para expressar os grandes sentimentos da alma. Um bem-estar, uma sensação agradabilíssima de plenitude, de dever cumprido, nos irmanava a todos. Expressando o pensamento geral, Adriana ergueu os olhos para o Alto e, diante das primeiras tintas da aurora, que coloriam o horizonte, levantou os braços abertos e exclamou:
- Graças a Deus!...

34 - RATIFICANDO COMPROMISSOS

Na manhã seguinte, nossos amigos encarnados despertaram fortalecidos e revigorados. Nós, da equipe espiritual, permanecemos no sítio Santa Matilde para comprovar o resultado de nossos esforços. Marieta estava na cozinha com o café pronto e a mesa posta quando os demais acordaram. Maneco, em plena atividade há horas, entrou com um balde de leite fresco, muito apreciado por todos.
- Bom dia! Dormiram bem?
- Muito bem! Aliás, sempre tenho sono excelente aqui no sítio. Mas hoje sinto que acordei bem-disposto como não acontecia há meses - respondeu Lúcio.
- São os ares do campo, meu amigo. Longe da poluição da cidade, em contato com a Natureza, nos sentimos melhor - considerou o dono da casa.
- Sem contar esse abençoado silêncio! - completou Dora. Acomodando-se em torno da mesa, as crianças tagarelavam sem parar, rindo e brincando. Um ar de felicidade se espalhava em todos os semblantes.
Marieta, que tinha ido levar a mamadeira do pequeno Gabriel, voltou e sentou-se também, no momento em que o marido dizia:
- Puxa! A noite deve ter sido excelente mesmo, porque nunca vi tanto bom humor. O que será que aconteceu? Viram algum passarinho verde?
Todos riram, mas a pergunta ficou no ar. Naquele instante, Janaína lembrou:
- Papai, tive um sonho cheio de gente!
- É mesmo, minha filha? Conte para o papai.
- Não me lembro direito. Só sei que o Fábio estava nele e vocês também. E tinha mais gente que não me lembro... Quem eram essas pessoas? - disse, com jeitinho pensativo, mais para si mesma.
Fábio, sempre protetor em relação à menina, respondeu à indagação:
- Era uma reunião, Jana. Todos nós estávamos presentes. Tinha também algumas moças e rapazes desconhecidos, mas muito simpáticos.
Trocamos um olhar de satisfação, agradecidos pelo simpáticos. Certamente, éramos nós. Fábio continuou, depois de fazer uma pausa e beber um gole de leite.
- Engraçado é que estávamos todos vestidos com roupas antigas!...
Lúcio também tinha algumas lembranças, mas permaneceu em silêncio, tentando pôr em ordem as vagas reminiscências. Sentia-se culpado perante o filho pôr alguma coisa que não sabia precisar. Dora, ouvindo esses comentários, notou que algo lhe despertava no íntimo:
- Agora que falaram sobre esse assunto, também me recordo de ter sonhado alguma coisa. Mas não era uma reunião, era um julgamento. Via-me diante de um tribunal em que eu seria julgada. Interessante é que, à semelhança do que aconteceu com Fábio, parecia um filme antigo, como se a história tivesse ocorrido há séculos.
Nisso, apareceu uma criatura horrível, que me causava grande medo e que me ameaçou. Depois... Depois... Ela se transformou num homem muito bem-vestido e atraente. E, coisa curiosa, fizemos as pazes! Engoliu as lágrimas prestes a cair e afirmou, mal contendo a emoção:
- Não sei por que, mas acho que minha vida vai mudar depois dessa noite.
Lúcio, que se conservara calado, deu corpo a seus pensamentos:
- Também tive sonhos estranhos e grande parte deles se conserva sob tênue véu, como se a qualquer momento eu fosse me lembrar. O que tenho muito nítido é que eu conversava com um velhinho alto, magro e de maçãs do rosto salientes. Apesar de não tê-lo conhecido, Dora, achei que era o seu...
- Meu avô Germano! - exclamou Dora, cheia de emoção, interrompendo o marido. - Sim, é ele mesmo. Também me lembro agora de tê-lo visto no meu sonho. Como pude esquecer!...
- É natural - comentou Marieta. - Os nossos sonhos não são lembrados na sua totalidade. Apenas aquilo que o Espírito consegue reter e que lhe poderá ser de utilidade na vida terrena.
Surpreso, Lúcio indagou:
- Como assim?...
- Lúcio, quando dormimos, o Espírito se desprende do corpo e vai para onde quiser. Normalmente, para onde estão direcionados seus interesses. Faz visitas, encontra pessoas, estuda, aprende, se esses são seus desejos. Se tiver o pensamento fixo no mal, nos vícios, nos prazeres, irá sem dúvida incursionar por esses domínios, buscando desafetos ou parceiros.
- Interessante... Então, pelo que entendi, nos encontramos realmente essa noite?
- Exato. Cada um de nós, porém, fixou na mente aquilo que lhe seria mais necessário.
- Agora que você disse isso, Marieta, lembro que meu avô me falou coisas muito importantes enfatizando que eu não poderia esquecê-las. Que era imprescindível que eu as conservasse na mente. Deixe-me lembrar... Ah, sim!... Disse-me que vou trabalhar com a mediunidade e ajudar muita gente.
- Tem muita lógica essa afirmação do seu avô, porque, pelo que me contou ontem à tarde, Dora, você é dotada de grande sensibilidade - considerou Marieta.
- Algo me diz que vou ter de aprender sobre esse tal de Espiritismo - completou Dora.
Todos estavam surpresos e encantados. Marieta também se recordava do sonho, mas se absteve de relatá-lo. Tinha lido no Evangelho que as lembranças devem ser graduadas para não prejudicarem o espírito. Que o esquecimento do passado é uma bênção para o Espírito faltoso, visto que ele terá condições de enfrentar seus desafetos sem sentir-se inferiorizado. Por isso, guardou apenas para si mesma a cena em que se viu como mãe de Dora numa outra encarnação e entendeu a razão do seu grande afeto maternal em relação a ela. Conversavam assim sobre assuntos tão empolgantes, quando ouviram alguém dizer à porta:
- Ô de casa!...
Marieta foi abrir. Era uma amiga, Dona Eufrásia, moradora de um sítio vizinho. A dona da casa fez com que entrasse, recebendo-a com carinho, e apresentou-a aos hóspedes. Em seguida, ofereceu-lhe uma xícara de café.
- Agradecida, Marieta, mas não estou passando muito bem. É exatamente por isso que estou aqui. Tudo que engulo me faz mal. Como não posso ir à cidade hoje, algo me diz que você deve ter um remédio para esse problema de má digestão. Não consegui dormir nadinha essa noite.
Nesse momento, vimos Germano se aproximar de Dora e envolvê-la com seus fluidos. Imediatamente, ela passou a acusar a influenciação.
- Lamento, Dona Eufrásia. Infelizmente, não tenho remédio nenhum. Talvez um chá possa lhe fazer bem - sugeriu Marieta, penalizada.
- Não precisa, Marieta - disse Dora, com olhar e jeito diferentes.
Depois levantou-se e, diante do espanto dos demais, aproximou-se da recém-chegada, colocando as mãos sobre seu ventre por alguns minutos. E vimos que delas partiam jatos de luz que atingiam o órgão debilitado, restaurando-lhe o equilíbrio. Em seguida, Dora perguntou, demonstrando segurança:
- Dona Eufrásia, a senhora conhece uma erva que cresce no meio do mato e que... - especificou como era a planta, seu aspecto e textura.
- Conheço, sim. Nunca dei grande valor a ela.
- Pois a senhora pegue umas cinco folhas, lave-as bem, esmague num copo e tire o suco. Beba uma colher de chá desse líquido todos os dias antes das refeições. Seu organismo está se ressentindo da má alimentação. Evite comidas pesadas e gordurosas, frituras e bebidas alcoólicas. Com a ajuda de Deus, vai ficar boa. Que Jesus a abençoe!
- Muito agradecida. Tem razão. Gosto muito de comidas fortes e bem temperadas. Vou agora mesmo procurar a erva. Tenho pressa de fazer o remédio. Que sorte ter encontrado alguém que entende de plantas!
Os demais estavam perplexos. Depois que a mulher saiu, trocaram um olhar interrogativo. Só Marieta sorria, serena e confiante. Dora voltou a seu lugar, como se nada tivesse acontecido. Lúcio, estranhando o comportamento dela, não pôde deixar de comentar:
- Nunca soube que você entendesse de plantas, Dora!
- E não entendo mesmo.
- Mas... Mas... Então, por que fez o que fez, e por que disse aquilo para a senhora?
- Não sei. Porque me veio à cabeça, ora. Tive o impulso de fazer e fiz. Não consegui evitar! Parecia que eu era outra pessoa.
Naquele instante, todos perceberam que algo de muito sublime tinha acontecido. Marieta abraçou a amiga com carinho maternal:
- Viu? Mesmo sem saber o que é, já começou a trabalhar com sua mediunidade.
Somente então Dora se deu conta de seu comportamento inusitado.
- É mesmo!... Ai, meu Deus! E agora, o que é que eu faço? Não posso andar por aí falando coisas para as pessoas.
- Calma, Dora! Não se preocupe. Você vai aprender a lidar com isso. É uma bênção que Deus colocou em sua vida para que possa socorrer os necessitados.
- Você me ajuda, Marieta? Quero ir ao centro espírita com você e entender o que está acontecendo - suplicou, ainda assustada.
- Claro. Iremos juntas. Ou melhor, iremos todos juntos - disse, frisando bem as palavras.
- Começo a perceber que algo de muito importante está acontecendo e quero ajudar em tudo o que for preciso - propôs Lúcio, que trazia intuitivamente a lembrança do compromisso assumido.
Também nós experimentávamos intensa emoção, com aquela prova prática do trabalho que competiria à nossa amiga Dora no exercício da mediunidade com Jesus. Lembrei-me, naquele momento, de que ela contraíra débitos no passado, prejudicando pessoas pelo mau uso de seus conhecimentos das plantas. A Sabedoria Divina lhe propiciava agora a oportunidade de reparar seus erros através do bom uso desse mesmo conhecimento. Certamente, ela encontraria grandes obstáculos, muitas dificuldades, em virtude do seu comprometimento passado, mas sem dúvida contaria sempre com o apoio da Espiritualidade Maior, que iria orientá-la e assisti-la em sua tarefa, desde que trabalhasse com dedicação e desinteresse, preocupada apenas em realmente amenizar as dores alheias. Estavam traçados os esboços. Dependeria dela agora a boa vontade, a disposição e a perseverança para vencer. No final da tarde, os visitantes foram acompanhados pelos amigos e anfitriões até a estrada, onde deveriam tomar o ônibus para a cidade. Com o pequeno nos braços, Marieta caminhava ao lado de Dora, que se manteve o dia todo em estado de graça. Sentia-se bem-disposta, alegre e bem-humorada, como era antes.
- Sabe, Marieta, foi Deus quem nos encaminhou para o sítio neste final de semana. Estava tão desesperada, tão estranha, tão irritada com tudo e com todos... Se eu mesma não me suportava, como os outros o fariam? Encontrava dificuldades no serviço e confesso até que tinha medo de ser dispensada! Em casa, então, nem se diga. Quando penso em tudo o que fiz para o Fábio, meu filho tão querido, sinto-me um monstro.
Marieta ponderava com tranqüila firmeza:
- Dora, não se deixe mergulhar em pensamentos negativos, cultivando culpa e remorso. Essa análise é importante para que você aprenda como não deve fazer. Contudo, é hora de reconstrução, minha amiga. Não pode ficar chorando sobre o leite derramado. O que passou, passou. Se sabe que estava errada, procure agir acertadamente a partir de agora. Modifique seu comportamento, tornando-se mais amável, serena, amorosa. Enfim, mais equilibrada. Para isso, deverá fazer preces com regularidade, inclusive para aquele nosso irmão que foi ajudado.
- Venha cá! Você acredita mesmo que tudo isso aconteceu?
- Certamente. Trata-se daquele homem que você sempre via em sonhos e que lhe causava medo, ao qual se referiu ontem à tarde. E que começou a perceber também durante o dia, não é?
- Ele mesmo.
- Pois então. Ele existe realmente e nos encontramos na noite passada, durante o sono, para acertos necessários. Não se preocupe. Tudo vai caminhar bem. Mas, como eu disse, uma parte do problema foi resolvido com o socorro a esse companheiro seu do passado. Agora, precisará você introduzir mudanças em seu íntimo, corrigir defeitos, procurar agir melhor. Entendeu?
- Entendi. Tenho certeza, Marieta, de que tudo vai melhorar. Experimento grande otimismo e acho que nossa vida vai mudar de hoje em diante.
Despediram-se com grande carinho de lado a lado. Marieta entregou um exemplar de O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, para os amigos.
- Estamos certos de que este livro poderá ajudá-los muito. Vão com Deus! - afirmou Marieta, num último abraço.
Quando o ônibus partiu numa nuvem de poeira, Dora, Lúcio e Fábio lançaram um último olhar para trás e viram os amigos acenando com os olhos úmidos de emoção, que também eles sentiam. Regressavam para casa com ânimo completamente diferente. Entre os membros da pequena família existia agora uma harmonia desconhecida e inusitada. Sentiam-se mais unidos e mais fortes. Tomaram banho e fizeram uma refeição ligeira. Estavam cansados, mas antes de se recolherem para dormir, Lúcio sugeriu:
- Vamos fazer uma prece?
Dora e Fábio concordaram com prazer. Abriram o Evangelho - livro com que Marieta os presenteara na despedida - e leram um trecho: Ajuda-te a ti mesmo, que o céu te ajudará. Pedi e se vos dará; buscai e achareis; batei à porta e se vos abrirá; porquanto, quem pede recebe e quem procura acha e, àquele que bata à porta, abrir-se-á. Qual o homem, dentre vós, que dá uma pedra ao filho que lhe pede pão? - Ou, se pedir um peixe, dar-lhe-á uma serpente?
- Ora, se, sendo maus como sois, sabeis dar boas coisas aos vossos filhos, não é lógico que, com mais forte razão, vosso Pai que está nos céus dê os bens verdadeiros aos que lhos pedirem? (Mateus, Capítulo 7º, versículos 7 a 11)
As palavras caíram em suas almas sedentas de conhecimento como bênçãos de luz. Uma grande paz passou a envolvê-los, acrescida de confiança nesse Deus, que é Pai de infinita misericórdia e amor, de que Jesus sempre falava. Jamais tinham tido a oportunidade de adentrar o conteúdo das lições evangélicas, e agora se maravilhavam com elas. Em seguida, Lúcio fez uma prece singela:
- Senhor Deus, nosso Pai! Não sabemos como te agradecer a paz que nos invade a alma. Uma nova aurora raia para nós. As palavras do Evangelho de Jesus nos mostram como devemos nos comportar perante as adversidades da vida. Compreendemos agora, finalmente, que de nós depende a felicidade que almejamos. Somos, porém, fracos, Senhor! Precisamos do teu amparo e da tua proteção para poder resistir aos tropeços, nas tarefas de cada dia, com otimismo e determinação, coragem e fé. Compreendemos agora tua divina misericórdia e teu infinito amor. Então, se não for pedir demais, Senhor, permite a teus mensageiros, nossos anjos da guarda, estarem conosco e nos ajudarem na execução de nosso desejo de progredir. Percebemos, maravilhados e agradecidos, que um novo trabalho está se delineando e nos dispomos a realizá-lo com boa vontade e amor, se esta for a tua vontade. Para isso, rogamos as tuas bênçãos para que possamos fazer o melhor. E se algo fizermos de errado, alerta-nos, Pai, para que não venhamos a errar novamente. Obrigado, Senhor!
A prece de Lúcio, imbuída de grande sinceridade e de real desejo de melhoria interior, que acompanhamos reverentes, tocava-nos os corações. Também nós, na Espiritualidade, nos sentíamos agradecidos pela oportunidade de servir, pela nossa tarefa, que estava no término, coroada de êxito, a qual permitiu se derramassem tantas bênçãos sobre todos os envolvidos. Dizer da felicidade que nos dominava o íntimo é difícil, quiçá impossível, porque o sentimento dos Espíritos, que já não pertencem ao mundo dos encarnados e que habitam outras muitas moradas da casa do Pai no espaço cósmico, é muito mais intenso e verdadeiro, visto não terem mais as amarras do corpo físico nem suas limitações. Todos estavam dormindo. Era hora de partir. Nada mais tínhamos a fazer ali no momento. Ficaríamos, no entanto, em contato com eles, acompanhando o desenrolar dos acontecimentos e o progresso do grupo. Despedimo-nos dos amigos ali presentes. Desprendidos do veículo corpóreo, os encarnados foram ao nosso encontro e nos abraçamos emocionados. Especialmente Fábio, que nos tocara o coração pela grandeza de alma. Germano envolveu-nos com carinho, externando sua gratidão:
- Nem sei como lhes agradecer, Henrique. Podem contar comigo para o que precisarem. A partir de agora, considero-me um devotado servidor de todos.
- Não nos agradeça, Germano. Nada faríamos sem a permissão do Alto. Mantenha-nos informados. Antes de partir, porém, aproveitemos a oportunidade para elevar o pensamento ao Criador, gratos pelas infinitas dádivas que nos foram concedidas.
Henrique fechou os olhos e pareceu concentrar-se por alguns segundos. Depois, proferiu bela oração, externando os nossos sentimentos. Quando terminou, o ar saturava-se de pontos luminosos, como poeira brilhante e azulada. Partimos. Aquela pequena casa de periferia agora apresentava outro ambiente espiritual. Do alto, lançando um último olhar para trás, a vimos envolta em branda luminosidade azulada, reflexo da oração e dos pensamentos positivos dos seus moradores. Dentro em pouco, a cidade era apenas um ponto minúsculo perdido ao longe. Tínhamos pressa em chegar a Céu Azul. Estávamos fora havia muitos dias e a saudade do lar nos apertava o coração.

35 - AVALIAÇÃO

Foi com prazer e muitas novidades para contar, que nos reunimos com os amigos. A saudade era imensa. É muito bom trabalhar, visitar lugares diferentes, conhecer pessoas e ter experiências novas. Todavia, é muito bom também voltar para casa. Acomodados confortavelmente em nossa varanda, desfrutávamos da paz e do aconchego de nosso lar na Espiritualidade. Respirando o ar leve e perfumado do nosso jardim, trocávamos idéias, ficando a par dos últimos acontecimentos da cidade e, naturalmente, relatando a nossa experiência. Andréia, uma garota de olhos claros, cabelos longos e ondulados, bonita e inteligente, que chegara não fazia muito tempo e que nos visitava naquela oportunidade, exclamou:
- Como gostaria de fazer parte da turma de vocês, César! Tudo parece tão interessante!
- Mas em todos os lugares existem coisas interessantes, Andréia. O nosso grupo é apenas um dos muitos que existem.
- Eu sei. Contudo, gostaria de trabalhar com vocês. É um grupo com o qual tenho muitas afinidades.
Eduardo, que, a par das nossas atividades comuns, desenvolvia também um trabalho com adolescentes chegados há algum tempo e em fase de aprendizado, considerou:
- Poderá trabalhar conosco, não tem problema nenhum. Precisa apenas se preparar, estudando e aprendendo sempre. Apesar de sua permanência não muito longa aqui na Espiritualidade, já avançou bastante. Seu desejo de melhorar e progredir é visível.
- Eusébio, o orientador de nossa turma, disse que logo vamos começar com as aulas práticas - afirmou, eufórica.
- Está vendo? - encorajou Ana Cláudia. - Aqui você terá sempre oportunidades de crescimento, desde que queira.
Aquele desde que queira fez Andréia questionar, espantada:
- Por quê?... Tem gente que não quer crescer? Tem. Existem Espíritos que são preguiçosos, indiferentes e preferem apenas gozar a vida.
- Mesmo sabendo que são seres imortais, sujeitos à lei causa e efeito?... E como fica? Quero dizer, os orientadores aceitam isso?
Achei graça, lembrando que eu reagira da mesma forma, e respondi:
- Procuram alertá-los sobre a necessidade de elevação, enfatizando que o futuro depende de cada um. Mas não podem violentar o livre-arbítrio de ninguém.
- Não acredito!
Um pouco afastado, acompanhando a conversa, Gustavo interferiu:
- Pois acredite, Andréia. Eu sou um desses casos. Levei muito tempo para aceitar a realidade e me condicionar à vida do lado de cá. Fui dependente de drogas e cheguei aqui sem o mínimo conhecimento da Espiritualidade.
- Tentou até subornar o César Augusto! - lembrou o Padilha, com ar falsamente sério.
Todos caíram na risada. Até o próprio Gustavo.
- É verdade! Fiz isso, sim. Pudera! Tudo era tão igual à Terra, em que julguei ainda estar encarnado.
- E tentou agir como sempre fazia, não é? Usando o dinheiro para conseguir o que desejava - considerou Marcelo.
- Isso mesmo. Quando na Terra, o dinheiro sempre me permitiu esse tipo de coisa. Porque existem pessoas que aceitam ser subornadas. Além disso, foi assim minha infância e minha adolescência. Vendo meu pai comprar as pessoas para atingir seus objetivos, não apenas nos negócios ou com os amigos, mas também em casa. Foi assim com minha mãe, com meu irmão e comigo - rematou com tristeza.
Fez uma pausa, perpassou o olhar em torno e completou:
- Não que isso me exima de responsabilidade, que é individual, claro. Hoje sei que não precisava aceitar o suborno dele. Aceitava porque me era conveniente, o que me tornava cúmplice do seu erro.
- Isso mesmo. E assim se estabelece um círculo vicioso difícil de acabar. Boa porcentagem dos relacionamentos existentes no planeta funciona nessa base, estabelecendo ligações negativas difíceis de extirpar - afirmou Márcio Alberto.
- E cujas conseqüências, em forma de ódio, de desamor, de revolta, de inconformação e de ressentimento, alcançam as criaturas onde estiverem, não importa o tempo decorrido. E ficamos adstritos às colheitas malsãs que buscamos - acentuou Dínio.
Os demais concordaram, permanecendo calados e pensativos. Cada qual meditando em seu próprio problema ou nas experiências de que tinham conhecimento. Adriana, que se mantinha circunspecta e ainda emocionada, sob a influência de tudo o que acontecera nos últimos dias, saiu do seu mutismo:
- César, se me fosse permitido, gostaria de estar mais perto das famílias de Fábio e de Janaína, para ajudá-las no que for possível. Acompanhar-lhes o desenvolvimento e reparar, de alguma forma, os danos que lhes causei.
- Sem dúvida, esse seu desejo é muito nobre, Adriana. Fale com Henrique. Tenho certeza de que ele aprovará sua atitude.
- Vou falar. Hoje mesmo teremos uma reunião para avaliar os resultados da nossa última excursão socorrista. Será ótima ocasião para tocar no assunto.
Betão entrou em casa e voltou alguns minutos depois, trazendo seu violão. Os demais aplaudiram, entendendo que era preciso mudar o ambiente. Os assuntos enfocados tinham levado a maioria a pensar na própria situação, e uma certa melancolia estabelecera-se no íntimo de cada um.
- Isso mesmo, Betão! Vamos cantar!
Alguém sugeriu a música do Eduardo: Janelas do Coração. Os primeiros acordes surgiram, enchendo o ar de paz e harmonia, e todos começaram a cantar:

A melodia toca e me seduz,
O pensamento voa para Jesus.
Abro as janelas do coração
E Deus me fala na solidão.

Qual ave ferida, de asa quebrada,
Que anseia o céu e se arrasta na estrada,
Que deseja a paz e provoca a guerra,
Que sonha com o bem onde o mal ainda impera.

Romper as barreiras da incompreensão,
Quebrar as algemas que nos prendem ao chão,
Buscar o infinito, o espaço singrar,
E nas asas da prece voar...
Voar... Voar...

Voar em busca da luz,
De uma nova manhã,
Vendo em cada criatura,
Realmente uma irmã.

Em busca da luz,
De uma nova manhã,
Onde cada criatura seja
Realmente uma irmã!

Quando as últimas notas soaram, o ambiente estava impregnado de vibrações dulcíssimas, e nos sentíamos emocionados. Surgiu outra sugestão. E mais outra. E outra mais. O tempo passou de forma agradável, sem que nos déssemos conta. Chegou porém a hora em que a responsabilidade nos alertava para o cumprimento do dever. Plantão no hospital, cursos, atividades práticas. Dispersamo-nos, enquanto Gladstone, Melina, Paulo e Irineuzinho, entre outros, retomavam de suas funções. Era sempre assim. Um entra-e-sai constante. Ao cair da noite, fomos para a sede do Centro de Estudos da Individualidade. Cada equipe tinha uma sala separada. Dirigimo-nos para a nossa e ficamos aguardando os demais membros do grupo. Conversávamos animadamente quando Henrique chegou, poucos minutos antes do horário marcado para o início das atividades. Acomodamo-nos. O orientador fez uma prece, que acompanhamos reverentes. Em seguida, colocou em questão a missão socorrista realizada nos últimos dias.
- Vejamos. O que acharam do trabalho? Como sentiram o desenrolar de nossas atividades?
Alberto foi o primeiro a dar opinião:
- Achei muito bom. E, mais uma vez, aprendemos que não se pode julgar ninguém. Dora, por exemplo, não gozava de nossa simpatia no início, em virtude de seu comportamento. Com o tempo, percebemos que ela era apenas uma criatura necessitada de ajuda e de compreensão.
E, concluiu:
- Por sinal, já tínhamos visto isso acontecer em outros casos, quando nos arvoramos em pretensos julgadores, e nos demos mal. A realidade mostrou-se bem diferente daquilo que pensávamos.
- Exato! - concordou Viviane. - Quando se entra no problema, nota-se que ninguém é intrinsecamente mau. É apenas alguém equivocado em suas atitudes por ignorância das leis que regem a vida.
- Mesmo Azambuja, que à primeira vista aparecia como um perseguidor implacável e vingativo, no fundo, tirando a máscara, era uma vítima do passado, que, pela incapacidade de perdoar, ficou preso às próprias imperfeições e ao sofrimento - considerei.
Adriana, que até aquele momento não falara, ponderou:
- Vocês estão comentando o que sentiram como observadores neutros e imparciais, que analisam um problema do qual não fazem parte. No meu caso - que participei desse processo, que vivenciei os acontecimentos -, a carga de emoções é intensa. Sinto agora realmente o peso da responsabilidade. Jamais pensei que poderia ter um passado como esse que me foi mostrado. É o tipo da coisa que achamos que só acontece com os outros, nunca conosco.
- É verdade. Como entrar ladrão em casa, como sofrer um acidente... ou como morrer... - acrescentou Viviane.
- Isso mesmo! E confesso que o choque foi grande. Mas agora posso compreender muitas coisas. É como se em minha cabeça, de repente, tudo se tornasse claro. Por exemplo: quando encarnada, sempre senti um vazio dentro de mim, pois tinha certeza de que não encontraria ninguém a quem eu viesse a amar. Sentia saudade de alguém que não sabia quem era, que conhecera não sabia quando, nem onde. Alguém que não tinha rosto e que, ao mesmo tempo, estava sempre presente em minha vida... É uma sensação difícil de explicar. Hoje eu sei, sem sombra de dúvida, que sentia falta de Rodolfo, atualmente reencarnado como Fábio. E muitas coisas mais...
- Sua ligação com as drogas... - lembrei, procurando ajudá-la.
- Também, César. Agora sei que o problema é bem mais profundo do que parecia e que exigirá de mim esforço redobrado.
- Mas você tem tudo para vencer. A consciência da dificuldade nos impulsiona para a solução - aduziu Alberto, que já enfrentara o mesmo tipo de problema e do qual se sentia liberto.
- Tem razão, companheiro. Lutarei com todas as forças para vencer. Além disso, sei que não estou sozinha. Tenho vocês, este grupo que me fortalece, meus verdadeiros amigos, sem contar nossos superiores. E confio na Misericórdia Divina, que nunca nos desampara; em Jesus, que é o Amigo Maior, em Maria de Nazaré, a Mãe dos Necessitados.
Ela calou-se e também ficamos pensativos, mergulhados em nós mesmos. Adriana aproveitou a pausa que se fizera mais longa e pediu:
- Henrique, se me fosse permitido, gostaria de poder ficar mais perto deles.
Ajudá-los, contribuir para o crescimento do grupo, acompanhar seu desenvolvimento. Sei que trabalho não vai faltar e sinto-me em débito com todos eles.
- Louvo sua postura, Adriana. Encaminharei seu pedido para a Administração. Vamos aguardar a decisão de nossos superiores.
- Isso me permitiria também trabalhar junto com Rinaldo, meu pai. Acha que minha solicitação tem chance de ser aprovada?
- Acho. Ela é bastante louvável e nobre. Como serão consideradas sua condição espiritual e a responsabilidade assumida no passado com o grupo, creio que não haverá problema. Afinal, nossa meta é aprender a amar uns aos outros. Vamos aguardar.
- Obrigada. Serei eternamente grata a você, meu amigo.
- Não me agradeça. Apenas cumpro um dever. Hoje mesmo encaminharei sua petição. Se conseguir o que almeja, tenha certeza de que o conseguiu por mérito próprio.
Voltamos a analisar pontos interessantes do caso. Cheio de admiração e respeito, Alberto comentou:
- Não apenas o pequeno Fábio, mas também Dona Marieta e sua família me encantaram. Essa mulher simples da roça, sem grande cultura, tem feito um trabalho excelente junto aos moradores das redondezas. O pouco que sabe distribui a mancheias, sem egoísmo. É como a linfa de água pura, que, sempre em renovação, não a deixa estagnar.
- Também fiquei muito impressionado, ainda mais quando sabemos que existe tanta gente intelectualizada, que possui tesouros em conhecimentos e que nada oferece a ninguém. O trabalho executado pelos amigos espirituais, responsáveis pela reunião, igualmente me sensibilizou. Os encarnados nem de longe imaginam o esforço despendido por esses companheiros invisíveis que os cercam com tanto carinho - considerei.
- Sem contar a ajuda aos necessitados da Espiritualidade, que é efetuada naqueles poucos minutos de elevação e prece! - lembrou Alberto.
- Sem dúvida. Uma vez mais, aprendemos que não importa o lugar. A grandeza do trabalho se mede pelos seus resultados. Seja num recanto humilde perdido no meio do mato, seja numa grande cidade, a Misericórdia Divina estende suas bênçãos, amparando e ajudando, sempre que existe boa vontade e real desejo de servir - afirmou Henrique.
- E quanto a Azambuja? - indaguei.
- Foi alojado, como sabem, em nosso hospital, onde receberá atendimento e assistência. Por enquanto não poderá receber as visitas de praxe. Depois, quando estiver melhor, poderão vê-lo e levar-lhe carinho e amizade. Sei como estão ansiosos para colaborar. Por ora, envolvamos Azambuja em nossas orações. Não é fácil mudar de vida e de atitudes.
Antes de encerrar a reunião, Henrique avisou:
- Na próxima semana, teremos uma excursão de aprendizado e adestramento, em que um outro grupo, chefiado por Matheus, seguirá conosco. Como vamos na mesma direção, aproveitaremos a companhia dos amigos por algum tempo.
Todos ficamos contentes. A presença de Matheus era sempre bem-vinda. Concluindo, Henrique perguntou:
- Alguma dúvida?
Como ninguém se manifestasse, o instrutor encerrou a reunião com uma prece, exorando as bênçãos divinas para nossas atividades.

36 - TEMPO DE DESPERTAR

Os companheiros começaram a chegar um a hora antes do horário combinado para a partida. Eram sempre gratificantes essas excursões para a Terra, e nos sentíamos alegres e bem-humorados. A possibilidade de rever velhos amigos, de novos relacionamentos, de aprendizado e de experiências diferentes, era realmente estimulante. Os alunos de Matheus foram chegando e se misturando ao nosso grupo. Eram sete ao todo. Abraçamos com carinho o velho amigo e orientador Matheus. Desde o tempo em que integramos sua equipe, conquistara ele definitivamente nosso respeito e amizade.
- Será um prazer excursionarmos juntos novamente, Matheus - comentei, externando o pensamento de Viviane, de Adriana e de Alberto, que o rodeavam, satisfeitos.
- É muito bom quando amigos verdadeiros se encontram. A troca de vibrações harmônicas produz energias poderosas que nos revigoram - respondeu ele com largo sorriso, olhando-nos com carinho.
- Qual a programação de vocês? - perguntou Alberto.
- Nossa finalidade primordial é a de visita aos lares terrenos. Muitos o fazem pela primeira vez e estão tensos e preocupados, conquanto felizes.
- É. Sabemos bem o que é isso. Também já passamos por essa situação - disse Adriana.
- O retorno ao lar terreno, após a grande viagem, é uma experiência profundamente recompensadora e inesquecível, que em cada caso se reveste de características especiais e únicas -comentou Viviane.
- E que opera grande crescimento íntimo - acrescentou Matheus, completando - Teremos, porém, bastante tempo para conversar. Agora, peço-lhes licença por breves minutos. Tenho ainda alguns pontos a acertar com Henrique.
Assim dizendo, saiu ao encontro de nosso orientador, e continuamos conversando despreocupados, tecendo comentários exatamente sobre nossas primeiras visitas ao lar terreno. Nesse instante, vi alguém no meio do agrupamento, o que me deixou incomodado. Era Hassan. Não pude acreditar. Imediatamente procurei Henrique, interrompendo o diálogo entre ele e Matheus.
- Henrique, o que faz Hassan aqui? - indaguei de forma intempestiva, procurando não demonstrar o descontentamento que me ia por dentro.
Fixando-me sereno, respondeu-me o interpelado com extrema delicadeza, sem gesto algum que denotasse recriminação a meu comportamento impertinente:
- Hassan faz parte da equipe de Matheus e seguirá conosco para a crosta, César.
- Ah!...
- Algum problema, César? - indagou Matheus, solícito.
- Não! Não! Tudo bem. Desculpem-me a interrupção. Estranhei a presença dele. Nada mais.
Afastei-me. Contudo, o dia, que tinha começado auspicioso, já não me parecia tão promissor. Apesar de nosso relacionamento ter melhorado, vê-lo ainda me incomodava. Tomei uma decisão: a de manter-me calado e de ignorar sua presença. Como sempre fazíamos, antes da partida oramos em conjunto. Henrique solicitou a Matheus que fizesse a prece por todos. Elevando a nobre fronte para o Alto, ele rogou as bênçãos divinas para a atividade que iríamos iniciar, de modo que o trabalho fosse produtivo, repleto de experiências benéficas, e resultasse no máximo de aproveitamento para todos. Da Espiritualidade Maior, miríades de pontos luminosos, como poeira cósmica radiante, verteram sobre nós suavemente, representando a resposta do Alto às nossas súplicas e o beneplácito dos emissários divinos para nossas atividades. Grande bem-estar me inundou o íntimo. Reajustado emocionalmente, esqueci Hassan e tudo o que não dissesse respeito ao nosso labor. Afinal, faríamos apenas parte do trajeto juntos. Logo a equipe de Matheus seguiria outro rumo e tudo voltaria ao normal. Tomamos a condução que nos levaria à crosta planetária. Algumas horas depois, percebemos que o veículo perdia altura, acabando por pousar suavemente. Chegáramos ao nosso destino. A porta se abriu e descemos. Estávamos defronte de uma instituição espírita de grande porte e bem ajardinada. Passarinhos cantavam nos galhos do arvoredo e uma brisa caridosa soprava. Ali ficaríamos hospedados o tempo necessário para a execução de nossas tarefas. Os dirigentes da instituição, que já nos aguardavam, vieram dar-nos as boas-vindas, cumprimentando-nos de modo efusivo. Depois de instalados convenientemente, saímos para um giro de reconhecimento. Como muitos dos caravaneiros ali estivessem pela primeira vez e não conhecessem a casa, o responsável espiritual pela instituição levou-nos para uma visita às instalações. Tratava-se de uma creche com atendimento para cento e cinqüenta crianças, na faixa etária de zero a quatorze anos. Transitamos pelas salas de aula e corredores, quartos e pátios, cozinhas e banheiros, refeitórios e salas de recreação. Tudo muito limpo, bem cuidado e de bom gosto. No pátio interno, também primorosamente ajardinado, as crianças se entretinham no playground, ou corriam pelo gramado, brincando de roda ou jogando bola. O ambiente era alegre, descontraído e saudável. Inúmeras crianças desencarnadas brincavam também, misturando-se às da Terra. Mais tarde, Henrique reuniu nossa equipe numa das salas. Assim que chegamos, explicou:
- Matheus tem um atendimento programado, para o qual solicita o concurso do nosso grupo, pela experiência já adquirida.
O assistente Matheus, ali presente, ratificou as palavras de Henrique:
- É verdade, meus amigos. Se aceitarem participar de nossa atividade, além de nos favorecerem com suas presenças, nos darão grande prazer.
- O que muito os enriquecerá também em aprendizado e experiência - acrescentou Henrique.
Naturalmente, Alberto, Viviane, Adriana e eu concordamos. Não havia como recusar. Estávamos ali com o objetivo de trabalhar e, diante da feliz oportunidade que se nos oferecia de sermos úteis, a aceitamos com prazer. O relógio na parede do saguão, à entrada principal do prédio, marcava dezessete horas quando nos reunimos para sair. Os demais permaneceriam confraternizando e, sobretudo, participando das atividades, ajudando os atendentes nos cuidados com as crianças. Uma outra surpresa, porém, me aguardava. Hassan seguiria conosco. Procurei manter-me tranqüilo. Afinal, não poderia me desequilibrar cada vez que tivesse de me deparar com ele, cara a cara. Meu tempo de aprendizado na Espiritualidade era considerável. Precisava demonstrar a mim mesmo que tivera algum aproveitamento durante esse período. Não podia me deixar entregue ao sabor das emoções. Era ridículo! Notei que Henrique, de quando em vez, me observava discretamente. Matheus aproximou-se e tentou entabular conversação. Tão preocupado estava comigo mesmo, com minhas próprias reações, que nem me dei conta do rumo que tomáramos. Ouvia o que Matheus dizia, respondia maquinalmente a suas perguntas, alheio a tudo. Quando percebi, estávamos nos aproximando de uma cidade de porte médio que eu conhecia muito bem. Estranhei a coincidência, mas como Henrique não nos informara sobre o trajeto, não fiz comentário algum. À medida que achegávamos, percebi que não me enganara. Estávamos perto da casa de Sheila, da minha querida Sheila. O coração começou a bater descompassado. A emoção ameaçava dominar-me o íntimo. Daí por diante, parei de pensar. Só desejava chegar logo para vê-la. Em virtude das intensas atividades desenvolvidas ultimamente, fazia algum tempo que não a visitava, e as saudades eram imensas. Como estaria ela? Crescera muito durante aquele período? Sentira minha falta? Um misto de ansiedade e alegria me tomou de assalto. Adiantei-me aos outros, sem perceber, deixando-os para trás. Impaciente, passei pelo portão e abri a porta da casa. Uma simpática senhora veio me receber. Era a avó de Sheila, desencarnada há muitos anos. Na verdade, Sheila não tem mais esse nome, naturalmente. Continuarei, porém, a chamá-la assim, para facilitar o entendimento, como já expliquei antes. Perguntei por ela. Com um sorriso, a senhora Eunice mostrou a porta que eu tão bem conhecia:
- Chegou cansada da escola e está dormindo.
Entrei no quarto. O ambiente, decorado com gosto e delicadeza, tinha aparência alegre e agradável. Em tons de rosa, estava repleto de brinquedos, bonecas e bichos de pelúcia. Inclinei-me no leito. Agora, ela não usava mais o berço, que fora substituído por uma linda cama. Abraçada a um urso de pelúcia, ela dormia serena, um sorriso a brincar-lhe nas faces rosadas, enquanto os longos cabelos claros e encaracolados se espalhavam no travesseiro. Atraída pela minha presença, ela abriu os olhos, acordando em Espírito. Ao me ver, arregalou os lindos olhos, sorriu e estendeu os bracinhos para mim, levantando-se satisfeita.
- César!...
Abracei-a com grande carinho. A sensação de felicidade que me envolveu era indescritível.
- Veio me visitar! Que bom! Estava com saudade!... Preparava-me para responder, refreando a emoção, quando notei que ela se retesou nos meus braços. Seus olhos ficaram fixos e estatelados. E, demonstrando enorme pavor, começou a gritar.
Virei-me para saber a razão de tamanho susto e me deparei com Hassan, postado alguns passos atrás. Só então me dei conta de que os demais tinham chegado e acompanhavam a cena que se desenrolava diante de seus olhos. Hassan, que suavizara a expressão fisionômica, sempre um tanto carregada, olhava a menina com interesse e afeto.
- Este homem é mau! Não quero vê-lo! Socorro! Socorro! - continuava ela a gritar.
Matheus aproximou-se, tomando a pequena nos braços.
- Acalme-se, minha querida. Ninguém lhe quer fazer mal.
- Tenho medo dele! Ele vai me bater! - insistia ela.
- Não vai, não. Veja: ele gosta de você. É seu amigo. Fique tranqüila.
Enquanto Matheus dialogava em voz baixa com Sheila, olhei para Hassan mais detidamente. O que estava acontecendo? Eu não gostava dele, isso era evidente, mas... Sheila?... Que razões teria ela para não querer a presença dele? Perdi-me em divagações, lembrando o tempo em que Sheila, desencarnada, fazia parte da nossa equipe. Hassan só veio para Céu Azul algum tempo depois. Ela não o conhecia. Não se encontrara com ele na Espiritualidade. Tinha certeza disso. Então, por quê?... Hassan olhava-me também, demonstrando ansiedade e certo temor. Notei que ele desejava falar alguma coisa, mas não conseguia. Nisso, Henrique aproximou-se de mim, colocou o braço em meu ombro, fazendo leve pressão, e sugeriu:
- César Augusto, é tempo de despertar! Olhe com atenção. Concentre-se além da aparência atual.
Obedeci, compreendendo que algo de muito importante estava para acontecer. Algo que tanto esperara e que agora me dava medo. Instintivamente, quis recuar.
- Não, não fuja! - ordenou-me ele. - Enfrente a realidade!
Então, não resisti mais. Respirei fundo. Olhei para ele... Além daquele rosto que eu conhecia e do qual não gostava, comecei a perceber uma expressão diferente no olhar. Na verdade, era a primeira vez que o olhava realmente de frente. Nunca prestara grande atenção nele. Agora notava algo de conhecido, de familiar, naqueles olhos súplices. Então, diante de mim, Hassan se foi modificando lentamente até ficar com a aparência de um patrício romano. Vestia uma toga que lhe caía abaixo dos joelhos, presa na cintura por uma faixa bordada em ouro e escarlate.
- Múncio! - gritei, reconhecendo-o finalmente.
- Sim, Gúbio! Sou eu mesmo!
Notei que também me transformava, voltando ao passado. Sentia-me agora como um centurião romano. Envergava o uniforme vermelho e dourado, que tanto orgulho me dava, a ostentar as insígnias do império. Tudo voltara a ser como antes. O tempo parecia não ter transcorrido. As imagens passavam-me pela mente de forma rápida e contínua. Lembrei-me da noite, em casa de Aurélia Regina, quando eu e Múncio fizemos a aposta de tão graves conseqüências. Revi a fatídica corrida no Circo Máximo, quando ele foi esmagado pelas rodas da quadriga que eu dirigia em grande velocidade.
- Em virtude desse episódio, Gúbio, ódio mortal por você fez-me persegui-lo através do tempo e também à mulher a quem eu amava e que sempre preferiu o seu amor.
O remorso voltou-me com força ao íntimo e justifiquei:
- Sim, Múncio, sou culpado desse crime. Todavia, sei hoje que esse ressentimento contra você originou-se de um certo ataque de bárbaros a uma pacífica aldeia, onde dezenas de criaturas inocentes perderam a vida.
- Estou ciente disso, Gúbio. Àquela época, porém, eu era desprovido de senso moral e de sentimento de justiça, o que não justifica nem desculpa o meu erro. Depois desses fatos, não nos concedemos mais tréguas. Aquele que se encontrava em situação de relevo espezinhava o outro sem piedade; em outra etapa, as posições se invertiam, mas o ódio continuava o mesmo. Até culminar nessa sua última encarnação, quando o persegui tenazmente, tudo fazendo para destruí-lo. Pela mente passaram-me as cenas da época em que estava preso ao leito. As dores superlativas que me atingiam o corpo enfermo, o sofrimento por não conseguir vencer a doença, a revolta por ver-me, jovem e cheio de vida, lançado a uma cama. Revi cenas em que percebia espíritos vingativos e rancorosos à minha volta. Agora, um deles me chamou a atenção. Era Hassan. Como não o reconheci antes?... Múncio concordou:
- Sim, era eu mesmo. Eu que, tresloucado de ódio e rancor, tudo fiz para prejudicá-lo. Contudo, certa noite, fui socorrido pela Misericórdia Divina e, então, reconheci o mal que havia causado e desejei reparar meus erros. Naquela oportunidade, de tão grandes bênçãos, revi familiares queridos que há muito perdera de vista, o que foi benéfico não apenas para mim, mas também para você. Arrependido, procurei uma vida diferente, buscando encontrar no Evangelho de Jesus as respostas de que eu precisava para vencer a mim mesmo e progredir.
Mais sereno, via-o agora sob uma ótica diferente.
- Mas por que nunca se identificou? Nos encontramos tantas vezes! Aquela noite mesmo, no jardim...
- Ainda não era o momento. Você não me teria perdoado.
Compreendi, afinal, a razão da repulsa que sempre sentira por Hassan. Culpava-me por não conseguir dominar meus impulsos, sem saber que esse sentimento tinha raízes muito antigas.
- A verdade, César Augusto, é que vim para Céu Azul somente quando os nossos superiores julgaram que era tempo de se esclarecer o nosso passado.
Eu estava abalado nas fibras mais profundas. Esse revolver de emoções trouxe-me à lembrança aquela a quem eu tanto amara e que fora sempre o pomo de discórdia entre nós. Eu a via agora como a imagem da jovem loura da aldeia, como Aurélia Regina, e também a reconheci como tantas outras mulheres que passaram pela minha vida através do tempo.
- Onde estará ela? - pensei em voz alta.
Hassan lançou-me um olhar velado por lágrimas que não chegaram a cair.
- Ainda não percebeu?
À medida que falava, ele lançava um olhar para a criança, que, sob os cuidados de Matheus, dormia um benéfico sono. O véu que me toldava a visão descerrou-se de súbito. Era ela! Como não tinha notado antes? Estivera todo o tempo a meu lado, e eu, cego, não percebera! Rojei-me de joelhos ao lado da cama e pus-me a chorar convulsivamente. Pegando-me pelos ombros, Henrique fez com que me levantasse e alertou-me:
- César, contenha suas emoções! Precisamos preservar o ambiente da nossa pequena Sheila. Não seria conveniente agora despertar nela o conhecimento do passado. Haverá tempo para isso mais tarde, quando suas condições reencarnatórias estiverem sedimentadas. Por enquanto, deixemo-la dormir tranqüilamente.
As palavras do amigo espiritual trouxeram-me à realidade. Ergui-me, respirando fundo e procurando refazer-me emocionalmente. Olhei para Hassan, que aguardava calado. Por fim, senti-me liberto das nuvens escuras de ressentimento e de ódio que por tanto tempo me mantiveram preso ao passado. A mente estava lúcida, clara e livre de pensamentos hostis. Estendi a mão para Hassan.
- Amigos?
- Perdoe, César, todo o mal que lhe fiz.
- Como você mesmo disse, nos fizemos muito mal, Hassan. É hora de esquecer o passado e de reconstruir para o futuro. Também preciso de seu perdão.
- É justo. O perdão tem que ser mútuo. E que Deus nos ajude para que possamos refazer nossos passos, reparando os erros cometidos.
Olhei Sheila, que dormia, incapaz de perceber a importância do momento, e considerei:
- Hassan, juntemos os nossos esforços em benefício daqueles que precisam do nosso concurso. Sejamos para Sheila amigos desvelados e benfeitores anônimos.
Matheus sorriu e informou:
- Espero que não apenas para Sheila...
- ... Mas também para alguém que renascerá em breve...
- Quem?
- Você verá!...

37 - NOVAS LEMBRANÇAS

Surpreso, ao perceber que ainda teríamos novidades, troquei um olhar com Hassan, tão admirado quanto eu, pois certamente julgava-se muito bem informado.
- Venham comigo! - disse Matheus. Atendendo ao convite, atravessamos o corredor e nos encaminhamos para o outro lado da casa. Entramos na sala de jantar, onde os demais membros da pequena família faziam a refeição.
Sentados em torno da mesa, vimos os pais de Sheila. Ambos jovens e simpáticos, no início da vida conjugal. O pai, alto, magro, cabelos escuros e lisos, fisionomia agradável e sorriso fácil. A mãe, estatura mediana, a tez clara e transparente dos descendentes de italianos; olhos azuis, de uma tonalidade mais intensa, mansos e risonhos; os cabelos, castanhos, ondulados e longos, emolduravam-lhe o rosto de menina. Era meiga, delicada e gentil. Sheila parecia-se com a mãe. Conversavam sobre os acontecimentos do dia. Danilo relatava, com bom humor e tranqüilidade, os problemas que enfrentara na empresa onde trabalhava. Alice contava episódios engraçados acontecidos com a filhinha na escola, e eles, orgulhosos, riam, divertindo-se com as graças da pequena. Respirava-se um ambiente sereno e de emanações agradáveis. Além de nossa velha conhecida, irmã Eunice, avó de Sheila, estava ali também uma entidade desencarnada. Era um homem que tinha dificuldade para se expressar. Henrique fez as apresentações:
- Este é nosso irmão Leocádio, que está se preparando para retornar ao planeta em novo corpo.
Nós o cumprimentamos efusivamente.
- Então, vai reencarnar breve? - perguntei, curioso.
Demonstrando certo embaraço para concatenar as idéias, ele respondeu com leve gesto de cabeça. Ao olhá-lo com mais vagar, meu coração agitou-se e senti como se o conhecesse. De onde? Matheus veio em meu socorro, explicando:
- Depende do que se possa entender por breve, César. Leocádio está agora harmonizando-se com a família, especialmente com a futura mãezinha, para que a execução do projeto reencarnatório se torne mais fácil, sem rejeições.
- Rejeições? - indagou Alberto.
- Exato. Nosso amigo renascerá, apresentando deficiências na região cerebral.
Conquanto tenha sido combinado – ainda no plano espiritual, quando se projetava a reencarnação de Alice - que nossa irmã receberia Leocádio como filho, sempre se teme uma desistência de última hora. Muitas vezes, através da intuição, a futura mãezinha fica sabendo que o filho nascerá com dificuldades e, não raro, recusa-se a ser mãe.
- Por que razão ele renascerá com problemas? - inquiriu Adriana.
- Leocádio comprometeu-se gravemente com a lei divina no início do século 19. Cometeu suicídio, estourando os miolos com um tiro, o que lhe acarretou muito tempo de sofrimentos acerbos. Teve outras reencarnações dolorosas, mas, sempre rebelde e agressivo, não soube aproveitá-las. Agora, consciente do que lhe cumpre fazer, mais permeável às sugestões do Bem, candidatou-se a novo mergulho na carne, para expungir do como espiritual danificado os resquícios do ato delituoso. Somente então ficará livre das distonias que ele mesmo criou para si, quando destruiu a roupagem carnal que o Senhor lhe concedera como bendito veículo de progresso.
Enquanto Matheus falava, olhei para aquele homem ainda jovem, deitado no sofá, e tentei descobrir de onde o conhecia. Onde já teria visto aqueles olhos, aquele perfil, aquela expressão do rosto? Nesse momento, a emoção aflorou em mim novamente, em catadupas irrefreáveis, e as lágrimas brotaram sem que pudesse contê-las. Lembrei-me, então, da época em que Sheila estava conosco na Espiritualidade e do desespero que senti ao saber de sua provável reencarnação. Recordei o momento em que falei com Eduardo, abrindo-lhe meu coração, quando ele sugeriu fôssemos ao Setor de Programação de Renascimentos, onde Antero, generoso amigo espiritual, mostrou-me o prontuário de Sheila. Nessa ocasião, tive acesso a episódios de sua vida pregressa que também me afetavam. Na tela da memória, as cenas deslizavam à minha frente. Uma jovem muito bela, em quem reconheci a atual Sheila, movimentava-se rindo e divertindo-se numa festa. O salão, luxuoso, estava repleto; pessoas muito bem vestidas, perfumadas, com muitas jóias, transitavam pelo recinto ou dançavam ao som de uma orquestra. Em determinado momento, essa jovem, a quem vou continuar chamando de Sheila, conversa com um rapaz. Profundamente perturbado, o moço cobra-lhe demonstrações de amor e atenções a que se julga com direito. Ela, vaidosa e cheia de orgulho, olha-o com desprezo, humilhando-o sem piedade. Depois, para completar, vira-se para as demais pessoas e, em alta voz, chama a atenção de todos, tornando público, com palavras ácidas e irônicas, o pedido de núpcias que o jovem enamorado lhe havia feito pouco antes. Os convidados caem na gargalhada, divertindo-se com o sofrimento do infeliz rapaz que, em tão má hora, havia ousado propor-lhe casamento. Cabisbaixo, o moço deixa o salão ao som das risadas e das chacotas impiedosas que Sheila havia provocado. Sem grandes recursos, visto ser de família humilde, o jovem tentava sobreviver num ambiente requintado, porém depravado e fútil. Incapaz de conviver com o sentimento de perda, pois via ruírem as esperanças de ser feliz com aquela a quem amava profundamente; sem forças para suportar a humilhação e o descrédito ante a sociedade frívola da época, que, a partir desse momento, o renegaria, entrega-se ao desânimo e à revolta. Chegando em casa, senta-se defronte à escrivaninha e redige um bilhete de despedida para a família. Depois, como que anestesiado, tira uma pistola da gaveta, verifica se está carregada, levanta o braço encostando a arma na cabeça e aperta o gatilho, estourando os miolos. Era ele! Como não o reconhecera? Àquela época, Leocádio tinha sido meu colega no regimento e, embora não fôssemos particularmente amigos, nos encontrávamos sempre em sociedade, e merecia meu respeito. Contudo, apaixonara-me também por Valéria (Esse era o nome de Sheila naquela existência.) e não hesitei em tirá-la dos braços do namorado. Jamais, porém, imaginei que Leocádio fosse capaz de atitude tão extrema. Seu gesto ficou martelando-me a mente durante muito tempo. Não consegui encontrar a felicidade, que sempre me escapava. Depois, lembrei-me igualmente de acontecimentos de uma outra época. Vejo Sheila num convento, vestida com hábitos eclesiásticos, a caminhar por um corredor sombrio. Uma sineta soa insistente e ela vai atender. Abre a porta e se depara com uma criança cuja cabeça é toda defeituosa; os olhos, esbugalhados, parecem saltar das órbitas. Nota-se claramente tratar-se de um deficiente mental. Atônito, reconheço naquele infeliz que bate às portas do convento o pobre suicida. Com grunhidos, o menino estende as mãos suplicando ajuda, mas a monja o expulsa sem piedade. De alguma forma sei, sem que alguém precise afirmar-me tal coisa, que a criança é filho espúrio daquela religiosa, abandonado à própria sorte pela mãe, para manter as aparências, fato não incomum naquele tempo.2 Agora, ao rever essas cenas que presenciei, extraídas do prontuário de Sheila, a memória se me alarga e vou mais longe. Recordo-me que também eu era religioso nessa época e, como confessor das freiras daquele convento, muitas vezes abusei da autoridade e do poder de sedução que exercia sobre aquelas pobres mulheres, mantendo relacionamento mais íntimo com muitas delas. Sheila, por quem eu sentia singular atração, acabou tendo um filho, esse filho que não hesitei em entregar a uma família de camponeses da aldeia mais próxima, para que o criasse por um punhado de moedas de ouro. Meu Deus! Leocádio então tinha sido meu filho? Quantos compromissos eu adquirira através do tempo! Quantas lágrimas eu fizera brotar no coração das pessoas! Quanto sofrimento poderia ter sido evitado, se minha conduta tivesse sido outra!... Entregue a profundo desespero, olhei em torno procurando amparo naquela hora tão grave da minha vida. Nisso, ouvi soluços ao meu lado. Era Hassan, que, segurando a cabeça com as mãos, desatara em pranto convulsivo. Parei de chorar ao ver seu sofrimento. Ficamos em suspenso, aguardando que ele falasse. Henrique aproximou-se dele, encorajando-o:
- Lembre-se de tudo o que aconteceu. É chegada a hora. Abra seu coração, meu amigo!
Ele ergueu a fronte e, mal conseguindo articular as palavras, desabafou:
- Sou culpado! Sou culpado desse horrendo crime!
- Continue! Não pare! - incentivou-o o orientador.
Procurando conter os soluços, Hassan continuou:
- Sou culpado pelo suicídio desse rapaz. Naquela época, eu era um rico banqueiro judeu. Leocádio procurou-me. Precisava de dinheiro. Fizera muitas dívidas, grande parte das quais no jogo, e estava sendo pressionado por seus credores. Eu não ignorava que ele era apaixonado pela jovem Valéria e que contava resolver seus problemas financeiros casando-se com ela. Contudo, também eu havia planejado desposá-la. Assim, não emprestei a importância que me pedira, por saber que ele não suportaria a situação. Seria fatal. Era a bancarrota. E foi o que aconteceu.
Ele parou de falar por segundos e olhou para nós, justificando-se:
- Eu não esperava, porém, aquela atitude extrema. Entendem? Queria apenas desacreditá-lo como pretendente à mão da bela e rica herdeira. No entanto, ele pôs fim à própria vida. Muitas vezes eu o via a meu lado, com a cabeça arrebentada e sangrando muito. Suplicava piedade, gritava por socorro, e eu ficava apavorado. Nunca mais tive paz...
Hassan fez nova pausa e aproveitei para perguntar:
- Conseguiu casar-se com Valéria?
Com sorriso triste e melancólico, ele meneou a cabeça:
- Não... Ela não tinha nenhum interesse por mim. Eu era bem mais velho e sem atrativos, e minha única vantagem era a fortuna. Não, Valéria jamais aceitou minha corte. Foi apenas um sonho, nada mais...
Parou de falar, olhou em torno e concluiu:
- Como podem ver, sou culpado pelas desventuras desse homem.
Matheus aproximou-se, falando-lhe com carinho:
- Sem dúvida, você tem sua cota de responsabilidade nesse episódio tão triste. Não tem, porém, toda a culpa. É hora de reconstruir e o importante é o conhecimento da realidade dos fatos, para melhor avaliarmos nossa parcela de comprometimento perante a lei. Na verdade, vários fatores contribuíram para que Leocádio tomasse a drástica decisão de destruir a própria vida. A rejeição da noiva; o surgimento de um novo pretendente, no caso, Basílio (o nosso César Augusto); a falta de recursos, agravada com o indeferimento do pedido de vultoso empréstimo; a presença de antigos desafetos do passado que, revoltados, procuravam vingança pelo mal que Leocádio lhes tinha feito. Além de todos esses fatores, existe ainda a responsabilidade pessoal do nosso irmão, que não se pode deixar de analisar. Se outra tivesse sido sua conduta, se não houvesse se entregado ao vício do jogo, não teria feito tantas dívidas. Se tivesse aceitado a rejeição da noiva com outra disposição, como fazem tantos pretendentes desprezados, poderia ter tido uma existência melhor, encontrando outra mulher que o fizesse feliz - como estava programado -, porque Valéria não o amava e, se tivessem se consorciado, fatalmente o teria desgraçado. Enfim, se tivesse enfrentado com coragem os infortúnios; se houvesse adotado comportamento mais firme e combativo; se fosse menos orgulhoso; se tivesse cultivado o hábito da oração, outro teria sido o desfecho da sua história e, certamente, não teria sofrido por tanto tempo.
Controlando a emoção com dificuldade, prosseguiu Matheus:
- Com certeza estão pensando que estou muito bem informado. A verdade é que nossos laços são bem mais profundos. Em épocas recuadas, convivi com Hassan, César, Leocádio, Sheila, entre outros, com os quais me comprometi muito gravemente. Através do tempo, porém, senti a necessidade de trilhar outros caminhos e progredi, enquanto vocês continuaram inconseqüentes e rebeldes. Há muito, venho tentando diminuir a hostilidade entre Hassan e César. Mas, graças a Deus, a hora do entendimento chegou.
Conscientes do passado, dos erros cometidos, mas também do que nos cabe realizar, caminharemos juntos em busca de tempos melhores. Fez uma pausa e, abrindo os braços, aconchegou Hassan e a mim junto ao coração. A emoção que experimentávamos era indescritível. Abraçado a ele, lembrei-me da primeira vez que o vi. Acompanhado de Eduardo, entrei na sala dele. Eu estava tenso. Sentado atrás de uma mesa, vi um senhor de meia-idade que nos recebeu, risonho. Ao olhar aquele homem - cabelos grisalhos, expressão suave e serena, olhos claros -, aflorou-me uma emoção profunda. Lembrava-me de tê-lo visto algumas vezes em meu quarto de doente, enquanto encarnado. Senti que o conhecia, sua presença me era familiar.
- Eu sabia.
- É verdade. Porém, eu não podia dizer-lhe nada. Tudo tem seu tempo certo, César - esclareceu Matheus.
Nesse momento, olhei para o sofá onde Leocádio estava deitado e, num impulso irreprimível, aproximei-me dele, a quem eu devia tanto. Recordei a conversa que tivera com Matheus há alguns anos e das informações que ele me dera. Que Sheila seria a responsável por um irmão menor, após a desencarnação da mãe. Era ele esse irmão. Abracei-o com carinho, enquanto o coração parecia querer explodir de tanta emoção:
- Leocádio, perdoe-me. Sei que o prejudicamos muito, mas é chegada a hora da reparação. Aceite o meu afeto, afeto que nunca lhe dei, nem mesmo quando foi meu filho. Quero ajudá-lo em tudo o que puder, ressarcindo uma parte dos meus débitos. A partir de hoje, conte comigo como um fiel companheiro e servidor devotado. E quando você retomar o corpo material, estaremos por perto, protegendo e amparando-o.
Hassan igualmente hipotecou-lhe amizade e ajuda incondicional. Leocádio entendia perfeitamente o que lhe dizíamos, tentava falar, mas encontrava dificuldade. Mas as lágrimas que umedeceram seus olhos expressavam seus sentimentos, sem que as palavras fossem necessárias. Estávamos todos felizes e agradecidos. Os companheiros da equipe nos abraçaram com carinho, cumprimentando-nos pela abençoada oportunidade que tivéramos naquela hora. Uma coisa, porém, ficou martelando-me a mente.
- Matheus, sei que tenho muitos desafetos. Onde estão neste momento? Não podemos ajudá-los também?
Matheus sorriu, esclarecendo:
- Calma, César! Uma coisa de cada vez. Alguns estão aqui na Espiritualidade...
- Aqui?... E posso me encontrar com eles?
- Por hora, é impossível. Ainda não estão em condições de receber ajuda.
- Ah!... E os outros?
- Estão encarnados.
- Podemos visitá-los?
Com sorriso misterioso, Matheus concluiu:
- Quem sabe? Vamos aguardar! Talvez no futuro...
Percebi que Matheus não nos diria mais nada. Mas isso não era importante. O momento era de grande significação para nós. Particularmente, sentia como se um peso enorme me tivesse sido retirado dos ombros. Estava leve e bem-disposto. Tudo caminhava bem. A Misericórdia Divina, estendida sobre todos, nos propiciava novas oportunidades de reajuste e progresso. Só nos restava elevar os pensamentos ao Alto, agradecendo a Deus as infinitas dádivas que nos propiciara naquela noite, o que fizemos de coração aberto, envolvendo todos daquele lar em vibrações de paz, amor e confiança. Terminada a prece, despedimo-nos de Eunice e de Leocádio, prometendo retornar em breve. Abraçamos nossa querida Sheila, impregnando-a de nosso carinho, e deixamos a casa onde vivêramos momentos tão gratificantes. Aspirando o ar fresco da noite, olhei para o alto. As estrelas nos fitavam à distância, parecendo mandar-nos silenciosas mensagens. Olhei para Hassan, que se postara a meu lado, e sorri. Teríamos ainda muito o que conversar.
- Amigos? - disse, estendendo-lhe a mão.
- Amigos!

1 - Remissão à narrativa constante do livro "Céu Azul" Capítulo 31º, do mesmo autor.
2 - Idem.

38 - DESPEDIDAS

Enquanto nos dirigíamos para o local da reunião, eu me perdia em divagações. Quantas coisas tinham acontecido durante aquele período em que nos dedicáramos com carinho às atividades propostas!... À distância divisei o Centro de Estudos da Individualidade, onde nos aguardavam. Intensamente iluminado, o grande salão achava-se todo decorado com guirlandas de flores que, envolvendo as colunatas, recendiam delicado perfume. Melodia suave inundava o ambiente, convidando-nos à elevação e proporcionando-nos intraduzível bem-estar. No recinto já se encontravam centenas de pessoas. Ali se congregavam os companheiros do curso, os participantes das inúmeras equipes, os orientadores responsáveis pelos grupos, amigos e familiares desencarnados ligados a cada um de nós, além de muitos encarnados que também se faziam presentes, facilmente reconhecíveis pelo cordão fluídico que os ligava aos corpos. Eram pessoas com as quais convivêramos durante aquele período e que tinham sido convidadas em virtude de suas condições vibratórias e da ligação com os atendimentos desenvolvidos. Não tivemos que esperar muito. Alguns minutos depois, deu entrada no salão um grupo de entidades de elevada hierarquia. No centro, destacava-se irmã Anita, ladeada por duas senhoras de grande distinção. Dirigiram-se para a mesa central, na frente. O silêncio se fez no recinto. A benfeitora, cuja presença tinha sempre o condão de nos sensibilizar, levantou-se e, espraiando o olhar pelo salão, exorou a proteção divina para quantos ali estavam. Em seguida, começou a falar sem qualquer afetação:
- Queridos irmãos em Cristo Jesus! Conceda-nos o Senhor a sua paz! Este momento se reveste de profunda significação para todos nós, especialmente para os que participaram das equipes de trabalho nos últimos meses, sob a orientação desta Casa.
Após uma pausa, prosseguiu:
- Saídos da mais absoluta ignorância e simplicidade, mas amparados pelo Amor Divino, através dos milênios acumulamos valores, transitando da animalidade para a racionalidade em busca da consciência interior. Nessa trajetória, as dificuldades têm sido imensas, os obstáculos de vulto e as dores acerbas. No tempo e no espaço, temos reunido experiências, muitas vezes desastrosas, não obstante se revestirem de valioso meio de progresso. A despeito da crença, que insistimos em manter por tanto tempo, de que Deus é um senhor arbitrário e cruel, injusto e prepotente, só temos recebido amor e amparo em todas as épocas da vida, sustentados e protegidos pela Divina Providência. Pai amoroso, criou-nos para a felicidade e não para a desdita, dando-nos sempre as condições necessárias para o nosso aprendizado. Todavia, enveredamos por caminhos ínvios, infringindo a lei divina, e nos candidatamos a séculos de tormentos. Sofremos e fizemos sofrer, inconscientes da nossa vocação para o progresso e do que nos compete realizar em benefício próprio e dos que nos rodeiam. As inferioridades avultam na individualidade do ser pensante, provocando desequilíbrio e gerando desconforto. Contudo, chega a hora em que, conscientes da condição de Espíritos criados para a evolução, reconhecemos a mensagem de Jesus como o roteiro indispensável que precisamos trilhar, e, corrigindo o curso de nossas vidas, buscamos palmilhar outros caminhos. Arrependemo-nos dos erros cometidos, desejamos reparar o mal e, então, como sublime dádiva de Deus, surgem as oportunidades de redenção. Através do acervo de conquistas inalienáveis do conhecimento pelo estudo e pela prática, a vida nos coloca diante dos desafetos do passado, de forma que possamos, adotando conduta diferenciada, refazer os laços afetivos danificados e aparar as arestas da animosidade. Dessa forma, pelo ciclo de aprendizado nas vivências da carne - as múltiplas personalidades - e no mundo espiritual, assimilamos as lições, introjetando-as na individualidade, isto é, no ser integral. Todavia, em regressando à verdadeira vida, guarda ainda o Espírito os condicionamentos da última romagem terrena, cujos resquícios só irão desaparecer com o passar do tempo. Em virtude desse fato, os recém-desencarnados chegam ao além-túmulo trazendo vícios, necessidades, sentimentos, sensações, dores, dos quais aos poucos se libertam. A memória do ser encontra-se restrita à última encarnação, não tendo ele acesso a seu arquivo espiritual. Por exigência, no entanto, do processo evolutivo, chegará o momento em que precisará tomar conhecimento do pretérito. E é exatamente isso o que este setor se propõe: prepará-los para enfrentar a realidade.
Anita interrompeu por momentos sua alocução, percorrendo com doce olhar a assistência que a ouvia embevecida. Aproveitei para olhar em torno e percebi que muitos não continham as lágrimas, sensibilizados. Ela sorriu, prosseguindo:
- Congratulo-me com as equipes pelo profícuo trabalho realizado. Todos portaram-se à altura do que se esperava, demonstrando os nobres valores já adquiridos. Isso, porém, é apenas o início. Muitos outros combates terão que travar consigo mesmos. E é na análise criteriosa do próprio caráter que cada um conseguirá descobrir o que precisa ser feito. Conhece-te a ti mesmo é uma advertência que tem atravessado os milênios da nossa pequenez, buscando-nos a memória profunda para que saibamos extrair dela o necessário ao nosso aprimoramento moral. Esse é um trabalho individual e solitário que nos cabe executar interiormente. O autoconhecimento é conquistado pela dedicação e boa vontade que dispensemos para descobrir a própria realidade. Agora, queridos irmãos, no terreno arroteado das nossas almas, as sementes, aquecidas pelo sol do amor, deverão germinar com maior pujança, sob a chuva das bênçãos divinas. Intimamente, cada um sente o que deve fazer. De nossa parte, estaremos abertos para orientá-los e ampará-los nessa decisão. Contem conosco!
Para finalizar, a benfeitora elevou a nobre fronte para o Alto, ergueu os braços níveos e vimos que, do seu tórax, das mãos e da cabeça saíam jatos de luz que buscavam o infinito.
- Senhor da Vida! Corações sedentos de luz erguem-se ao teu encontro, buscando-te a presença. Confiantes na tua misericórdia e no teu amor, desejamos deixar para trás as mazelas que nos prendiam ao charco de nossas dores e imperfeições, para encetarmos o esforço da ascensão espiritual. Ainda nos reconhecemos pequeninos e insignificantes. Entretanto, o desejo de progresso já nos inunda a alma. Em busca da paz e da felicidade que almejamos, ansiamos espalhar a alegria nos corações ulcerados pelas nossas atitudes infelizes. De ora em diante, Senhor, nosso objetivo será o de curar feridas, acalmar dores, levantar os caídos, sustentar os desalentados, consolar os tristes, dar esperança aos desesperados. Assim, depositamos a teus pés nossa boa vontade, rogando-te a convertas em dínamos de força e coragem para impulsionar as ações nobilitantes e reparadoras que nos compete exercitar em tua seara. Para isso, contamos contigo, Senhor, certos de que nunca nos deixarás sozinhos. Envolve-nos em tuas bênçãos e multiplica nosso desejo de servir hoje e sempre.
Ao terminar a oração, percebemos, maravilhados, que do Alto caíam minúsculas bolhas de luz como orvalho iridescente, que, em contato com nossos corpos, desfaziam-se delicadamente. Intensa emoção nos invadia o íntimo a par de inefáveis sensações de bem-estar, coragem e bom ânimo. Naquele momento, nos sentíamos com forças para vencer todas as dificuldades e obstáculos que pudessem surgir em nossa trajetória. Após alguns minutos, em que o tempo parecia ter parado, Anita e suas acompanhantes vieram ao nosso encontro. A reunião ficou menos formal e aproveitamos para confraternizar. Abraçamos velhos amigos, cumprimentamos antigos companheiros, trocando idéias e sugestões. Os grupos se formaram naturalmente. Irmã Anita e os orientadores responsáveis pelas equipes atendiam a todos os necessitados de orientação. Alberto, Viviane, Adriana e eu conversávamos, recordando as experiências profundamente gratificantes que tivéramos, quando Viviane exclamou surpresa e alegre:
- Vejam! A nossa querida Marilda acompanhada de Vinícius e de Orlando!
Aproximamo-nos satisfeitos. Os três amigos demonstravam perfeita consciência do que estava acontecendo e se movimentavam com naturalidade.
- Que bom reencontrá-los! Como estão? E seus familiares, Marilda? - indagou Viviane.
- Muito bem. Infelizmente, não puderam nos acompanhar. Cada qual tem suas limitações - considerou Marilda.
Concordamos.
- E o José Domingos? - perguntei.
- Tem melhorado bastante, César. Ele e o nosso Dr. Vinícius têm feito grandes progressos - respondeu a mocinha.
Vinícius sorriu, completando:
- Sem dúvida. Naturalmente, com a ajuda dos amigos espirituais. Sabemos que vocês estão sempre conosco.
- É verdade. Sempre que possível mantemos contato -concordou Viviane. - De ora em diante, estarei mais próxima ainda. Solicitei autorização a nossos superiores para trabalhar junto com vocês, e eles consentiram. Assim, estarei prestando serviço na casa espírita que freqüentam e, ao mesmo tempo, no grupo de vocês, tanto no Evangelho no Lar como na reunião de estudos doutrinários.
Marilda, radiante, abraçou a amiga:
- Que ótimo! Obrigada, Jesus! Agora estaremos mais unidas do que já somos.
Com os olhos úmidos, Viviane emendou:
- Eu é que devo agradecer a Deus a oportunidade de servir. Peço sempre a Maria de Nazaré a bênção de poder ser útil e de reparar um pouco dos muitos males que fiz.
Era gratificante ver Marilda, Vinícius e Orlando ali, juntos; percebia-se a grande afinidade que se desenvolvera entre eles. Particularmente, notamos com satisfação que Orlando olhava para Marilda de uma forma muito especial, envolvendo-a em emanações de carinho, no que era correspondido por ela. Entre nós, trocamos um olhar de entendimento e cumplicidade. Enlaçando a jovem com o braço, Orlando confirmou:
- É isso mesmo, meus amigos. Marilda e eu temos descoberto muitas afinidades e estamos planejando nos casar.
- Verdade? Que excelente notícia! - disse Alberto.
- Como afirmou Orlando, nossa pretensão está apenas em fase de projeto. No mundo material, nem sempre estamos conscientes de acordos preestabelecidos, mas, conversando com Henrique, ele nos assegurou que assumimos esse compromisso antes de encarnar - afirmou Marilda com ar de felicidade.
- Bem que adivinhava que essa amizade iria acabar em casamento! - exclamei.
Todos se emocionaram. Aquela mocinha franzina que conhecêramos, como que florescera naqueles meses! Estava mais bonita, a pele mais viçosa, o ar radiante. Com certeza o amor ajudara a promover essas mudanças. Nesse instante, fomos requisitados por alguém que se aproximava. Era Dona Gema. Junto dela, Glauco, o amigo desencarnado, que se fazia acompanhar de José e de sua esposa, Sandra, além de Lígia e de Júlio. Dentre os encarnados, José e Júlio pareciam mais conscientes da situação; Sandra e Lígia mostravam-se algo alheias, como se não soubessem bem o que estava acontecendo. Alberto, mais ligado ao grupo, mostrou-se sensibilizado vendo o filho, Júlio. Abraçamo-nos pedindo notícias dos que ficaram.
- Como vai Sandoval? - indaguei a Glauco.
- Tem-se esforçado para vencer as más tendências. Agora trabalha e cuida dos velhos pais.
- Não diga! Puxa! Está dando a volta por cima, como diríamos lá na Terra - exclamei, fazendo os demais rirem.
- É verdade! Trabalha como representante comercial e está se dando bem. Dessa forma, viaja bastante e, num futuro relativamente próximo, acabará por se reencontrar com Lígia.
- Que barato! Quer dizer que ainda vai rolar alguma coisa entre eles?...
- É o que está programado, César. Sandoval e Júlio foram pai e filho em anterior existência. Espiritualmente mais elevado, o menino tem grande ascendência sobre o pai e poderá auxiliá-lo bastante. Essa é uma das razões por que a aproximação com Lígia se fará, visto que o casal tem também pendências antigas - confirmou Glauco.
Alberto, que até aquele momento se mantivera calado junto do filho, falou:
- Isso mesmo, César. Estou estudando até a possibilidade de renascer como filho de Lígia e de Sandoval.
Não contive o assombro. Estava perplexo. Como a vida dá voltas! Delineavam-se novos compromissos para nossos amigos. Em vista disso, não contive uma pergunta:
- Glauco, como ficará a situação de Sandoval perante a justiça? Não desconhecemos que ele cometeu muitas infrações e se comprometeu gravemente...
O bondoso amigo respirou fundo e aduziu:
- Todos somos responsáveis pelos nossos atos, e Sandoval não é uma exceção, César. A Misericórdia Divina, contudo, ante o arrependimento sincero da criatura e a boa vontade que demonstre em reparar seus erros, funciona amenizando as conseqüências e proporcionando oportunidades para que o faltoso salde seus débitos. Sendo Pai, e não um cobrador duro e implacável, Deus permite, em alguns casos, que a cobrança da lei seja suspensa por tempo indeterminado. Isso ensejará que o devedor possa trabalhar em benefício próprio progresso - mesmo porque, no caso de Sandoval, há deveres para com os genitores idosos -, desde que se mantenha dentro do estrito cumprimento do dever. Se, no entanto, esquecer as boas disposições e tiver novas recaídas, aí, então, não se poderá evitar que a justiça terrena o alcance.
Eu continuava de boca aberta, quando Adriana adiantou-se, perguntando a Alberto:
- E para quando está previsto seu retorno?
- Levará algum tempo ainda. Todavia, começarei a me preparar imediatamente. A princípio, estarei mais perto de Lígia para facilitar o entrosamento com a minha futura mamãe.
A emoção nos envolveu a todos. Abraçamo-nos, antecipando as despedidas e desejando-lhes felicidades. Um pouco adiante, vimos um outro grupo de pessoas conhecidas e para lá nos dirigimos. Eram Dora, Lúcio e o menino Fábio; Marieta, Maneco e a pequena Janaína, todos amparados por Germano e Rinaldo, amigos desencarnados. Foi com grande alegria que nos abraçamos, trocando cumprimentos. Dora, que fizera bons progressos, apressou-se em contar-nos como estava trabalhando com a mediunidade, concluindo:
- Graças a Deus e a vocês, que tanto nos têm assistido, tudo agora caminha bem. Entretanto, preocupo-me com Azambuja. Vocês o têm visto?
- Temos estado com ele. Está bem e se recupera, estudando e se reeducando à luz do Evangelho de Jesus. Certamente, assim que for possível, irá visitá-los - respondi.
Adriana, mais vinculada ao grupo por laços do passado, emocionada, agia como uma galinha com seus pintainhos, distribuindo carinho e atenções, em especial às crianças. Em certo momento, pediu a palavra:
- Quero comunicar a todos que solicitei e obtive a permissão de estar mais diretamente ligada a vocês. Estarei exercendo minhas funções junto às famílias de Dora e Lúcio, de Maneco e Marieta.
As crianças bateram palmas, alegres. Durante esse período, tinham-se afeiçoado muito a Adriana, com quem se encontravam durante o repouso noturno e de cuja companhia gostavam. Após algum tempo, nos despedimos deles. Era preciso aproveitar a oportunidade para rever todos os amigos e conhecidos. Depois que nos afastamos, pus-me a pensar no meu próprio problema. Nesse exato momento, como resposta a meus íntimos questionamentos, vi Hassan que me acenava de longe. Fui ao encontro dele.
- E então? - perguntei, brincalhão.
- Tudo bem! A festa está uma beleza. Parabéns, César!
- Parabéns para todos nós - respondi.
- O que pretende fazer agora?
- Bem, Hassan, estive pensando bastante. Desejo continuar por aqui mesmo, exercendo as tarefas costumeiras. Por outro lado, pretendo ajudar Sheila e participar do processo reencarnatório de Leocádio. Isto é, se me aceitarem. Além do mais, temos muito o que conversar, não é? A propósito, ainda não me contou por que agora se chama Hassan.
Ele concordou e riu, achando graça.
- Se você se comportar, quem sabe um dia eu lhe conto?
O clima entre nós agora era completamente diverso. Olhamo-nos e trocamos um longo e afetuoso abraço. Deus estava sendo muito pródigo conosco. O que mais poderíamos desejar? O coração parecia querer explodir de felicidade. E isso só porque conseguíramos vencer uma parcela ínfima de nossos compromissos. Imagine o que será quando nos libertarmos de todas as mazelas! Agora posso entender a felicidade e o bem estar que gozam os Espíritos superiores. Aos poucos o salão se esvaziou, Os encarnados, acenando adeuses, foram reconduzidos de volta ao corpo físico. Ficamos apenas os amigos e orientadores mais afins. Matheus aproximou-se e dirigiu-me carinhoso olhar, colocando o braço no meu ombro. Ali estavam também Galeno, Eusébio, Henrique, além dos companheiros Eduardo, Marcelo, Gladstone, Paulo, Padilha, Giovanna, Ana Cláudia, Betão e tantos outros. Nesse momento de grande alegria, não pude deixar de me lembrar da bela entidade vestida como um romano, que me visitara certa noite em meu quarto e que tão grande impressão me causara. Quem seria aquele Espírito? Onde estaria naquele instante? Algum dia, com certeza, teria mais informações a respeito dele, pois sinto que laços profundos nos unem através do tempo. Suspirei. Essa era a nossa vida. Uma etapa tinha-se encerrado e começaria outra. Entendíamos agora o valor do tempo e as razões pelas quais não devemos desperdiçá-lo em vão. Principalmente no atual estágio de entendimento que já nos é dado possuir. Saímos. A noite estrelada era uma bênção de paz. Um imenso sentimento de gratidão ao Criador me inundou o íntimo. De repente, me dei conta de que estava mais maduro e responsável. Nisso, vejo alguém no meio da rua que vinha ao nosso encontro. É Gustavo.
- Olá, César! Preciso de sua ajuda - falou, esbaforido.
- O que houve, Gustavo?
- É o Alessandro. Está dando muito trabalho na enfermaria e não consigo acalmá-lo.
Lembrei-me de todas as dificuldades que tive de enfrentar com Gustavo quando chegara ao mundo espiritual, e sorri.
- Vamos, Gustavo! Alessandro nos espera. E preciso manter a esperança. As coisas mudam!








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Laços Eternos ROMANCE MEDIÚNICO Ditado por Lúcius
Médium Zibia Milani Gasparetto


Laços Eternos


É noite. Tudo caminha em plácido silêncio. Na aurora cálida do amanhecer, só a pipilar das aves notívagas parecem dar um sopro de vida à paisagem sombreada da Terra.
Em uma janela, às escuras, um vulto quieto observa o es- tertorar silencioso da noite que se finda e a dealbar da alvorada iniciante.
Seu rosto é pálido sob a luz diáfana da madrugada; seu corpo franzino procurando enxergar o rumo, descobrir os primeiros raios de luz que desenharão a verdadeira estrada.
Soluças angustiados quebram a quietude fresca da aurora.
O corpo franzino apoiado ao peitoril sacode-se ritmicamente, embalado pela dor em davas de angústia.
Lenço à boca, a tosse aponta sufocante. A pureza do branca tinge-se de vermelho e o sangue quente em golfadas insopitáveis mancha a camisola pura. O magro corpo jovem, num esforça hercúlea procura er- guer-se e fita? o céu, em derradeiro esforço. Seus olhos encovados, abertos, procuram ainda indagar o porquê de tanta dor nos seus quatorze anos.
Lentamente, como flor que se abate frente à tempestade, a figura pálida desfaleceu e seu corpo deslisando rente à janela, pendeu para o chão, mas sua cabeça, recostada na espaldar, conservou- se voltada para o dia que nascia. Os olhos continuaram abertos, ainda que enevoados. Pareciam indagar dos mistérios profundos que separam a vida da morte.
Após alguns minutas, uma emanação radiante desprendeu- se do corpo hirto, adensando-se corporificando-se em perfeita réplica da jovem estendida.
Como se por autêntico milagre, de gigantesca potência, ela se tivesse multiplicado.
Surpreendida, a forma radiante e translúcida, olhou para o corpo que acabava de deixar. Seu semblante denotava piedade e amor.
Sentia-se leve e saudável. Porém, quando olhava para o corpo inerte, um vivo sentimento de piedade a invadia; parecia- lhe momentaneamente regressar ao jugo de pesadas cadeias de uma prisão aniquilante. Num deseja instintiva de libertação, procurou afastar-se dele.
Foi então que viu uma figura radiosa e querida caminhar para ela, braças estendidas, rosto banhado por suave bondade. Onde teria vista esse rosto? Que santa seria ela? Respeitosamente ajoelhou-se diante da forma resplandecente. Sobre seu espírito ainda atemorizado c inseguro derramou-se uma brisa suave e perfumada, beijando- lhe as faces, com o orvalho da manhã, enquanto que uma voz dulcíssirma lhe alcançava o espírito: - Nina. Estás livre! Na rudeza das provas, qual pássaro feudo e aprisionada, aguardaste a libertação. Hoje, viemos buscar-te. Irás conosco para mundos felizes, onde poderás usufruir a paz e a calma que almejaste sempre. Poderás tra- balhar em tarefas nobilitantes c gozarás boa disposição, bem- -estar.
Nina alçou o olhar para o alto e lágrimas insopitáveis lhe escorriam pelos alhos em transbordante emoção: - Senhora! Bendita sais, enviada do Altíssimo. Viestes buscar-me. Meu coração estremece de ventura diante das sua- ves emoções desta hora sublime que não mereço. Sentir-me-ia feliz de seguir adiante, rumo aos mundos encantados onde re- sidis, a gozar a paz e a serenidade. Entretanto, neste lar que com tanto amor fui acolhida, minha mãe na carne enfrenta com dificuldade a prova da miséria e da renúncia.
Meu pai, senhor nobre de antanho, hoje luta contra a orgulho e a prepotência trabalhando duramente a soldo insignificante, cavando a terra dura para mal conseguir um pouco de pão. Quatro anjos do Senhor, meus irmãozinhos na Terra, despertam para a vida, em condições difíceis de impaludismo e desnutrição. Se eu me for, com certeza, eles se irão logo após, pois a fraqueza e a tuberculose ceifará suas vidas ainda em fase delicada nesta encarnação. Par isso, se passível. roga-vos senhora: todo bem que por acréscimo a misericórdia divina me concedeu, seja revertido em favor dos entes que amo e a quem devo devotamento e carinho. Perdoai-me tamanha ousadia, mas podeis ler a sinceridade do meu coração e sentir a dor que me causa partir agora rumo à felicidade enquanto eles sofrem!
Curvada, em atitude submissa, Nina esperou. A entidade iluminada aproximou-se e a1çando a destra com suavidade alisou-lhe a cabeça com imensa ternura: - Nina! O que desejas?
Nina levantou o olhar que refletia respeito e amor: - Senhora, permiti-me ficar. Embora doente, cuido do lar para que, minha mãe possa ganhar algum dinheiro. Se eu for embora, ela terá que deixar de trabalhar e menos pão entrará nesta casa.
A bela mulher, comovida, sorriu e tomou: - Sabes o que me pedes? Se Deus te permitisse o regresso, certamente sofrerias muito. O corpo que usaste na carne está macerado.
Quantas vezes mentiste dizendo-se alimentada para que a tua pequena ração beneficiasse os demais? Quantas vezes atravessaste as 24 horas sem provar alimentos, numa renúncia verdadeiramente admirável?. Sofreste bastante.
Eu te ofereço a paz, a fartura, a tranqüilidade e tu me pedes a dor, a doença, a miséria e a morte?
Nina soluçava: - Pedi a Deus que me permita ficar. É só o que eu peço.
A entidade fixou-lhe o olhar com imensa bondade, ande se refletia um brilho de energia.
- Não posso atender-te. Precisas vir comigo. Um dia compreenderás porque. Só posso dizer-te que tua estada na Terra terminou. Tua presença doente e sofredora não iria contribuir para aliviar os problemas deste lar. Todavia, não temas. Ninguém permanece abandonado na Terra.
Os problemas de teus pais, só eles poderão resolver, lutando, sofrendo, aprendendo. Irmãos devotados zelam pelos teus irmãozinhos. Deus permite prova para que o espírito se redima. Os sofrimentos sublimam o espírito e o reconduzem a Deus.
Abraçando-a com carinho continuou: - Depois, quando estiveres em condições, se quiseres, poderás vir ter com eles, trabalhar para sua redenção. Agora, vamos!
A jovem, cujos soluços tinham cessado, levantou-se e abraçada pela sua protetora, prontificou-se a seguir. Sentindo-se liberta de um grande peso, pareceu-lhe que seu peito dilatava-se em alegria nunca sentida, enquanto que enorme sensação de bem-estar lhe invadia o ser.
Entregou-se suavemente e saíram da choupana humilde.
Enquanto os primeiros raios solares abençoavam o dia nascedouro, transmitindo mensagem de vida, dois vultos enlaçados desapareciam rumo ao infinito; permaneceu apenas um corpo pálido e emagrecido, um rosto seráfico e sereno, uma camisola manchada de sangue, abandonados para sempre, como veste inútil e rota que o tempo se encarregada de transformar e destruir na constante mutação da natureza.



CAPÍTULO 1
A família sofredora Na fazenda do Lageado, em Minas Gerais, o dia começava cedo.
Havia muito serviço por fazer e os colonos precisavam madrugar para estar no terreiro quando o velho sino tocasse na varanda convocando-os ao trabalho.
O Coronel Gervásio Fartes não era homem para brinca- deiras. Exigia dos colonos rigoroso cumprimenta das suas tarefas c era o terror das homens quando montado em seu baia aparecia na lavoura ou no pasto. Não tolerava atrasos. Levantava-se muito cedo e quando o capataz bimbalhasse o sino já os homens precisavam estar no terreiro para que o serviço fosse distribuído.
José Mota trabalhava na fazenda desde. a adolescência. Filho de colonos, não se conformando com a miséria da casa paterna, aos doze anos resolvera tentar a sorte. Para a Lageado e nunca pudera sair. Sempre ganhara muita pouco, e além do mais não pudera aprender a ler, o que o tornava bastante desconfiada.
Apesar de nunca ter podido melhorar de vida, não se habituara às candições humildes de seu trabalho. Odiava o Coronel Gervásio. Invejava-o, mas temia-o. Para ele, era Deus no céu e o Coronel, coma o diabo, na Terra.
Revoltava-se com frequência contra sua situação, mas por mais que se esforçasse não conseguia sair dela. Conhecera Maria na própria fazenda. Desde a juventude iniciaram namoro. Ela, de início, sonhava ir morar na vila. Aos quinze anos, por pouco não fugiu com um mascate ruma a outras cidades. Mas a ambição do Zé a tentava. Seu incon- formismo casava-se bem com sua ambição. Juntos, iriam para a cidade e Ganhariam dinheiro. Usariam boas roupas e muitos enfeites, como a sinhá dona Eugênia, esposa do Coronel, moça letrada, do rosto pintado, que guiava automóvel e fumava como um homem.
Casaram-se. Ela aos dezesseis anos, ele aos dezoito.
A palhoça de pau-a-pique foi levantada pouca antes com consentimento do Coronel e auxílio de alguns compa- nheiros aos domingos depois do trabalho. A cama fora presente de D. Eugênia. Estava velha, quebrada, mas o Zé consertou.
Seu coração encheu-se de ódio diante da cama de pé quebrado.
Não era homem que se conformasse com as migalhas dos outros.
Disfarçando as seus sentimentos, procurou arranjar-se d