quarta-feira, 26 de março de 2014 By: Fred

{clube-do-e-livro} Livros Espíritas em TXT - Marcelo Cezar, Elisa Masselli, Mônica de Castro, Zibia,



PARA SEMPRE COMIGO
PSICOGRAFADO POR MARCELO CEZAR
PELO ESPÍRITO MARCO AURÉLIO





"Ao meu pai,
Gilberto Rodrigues Gândara
Meu querido, meu velho, meu amigo."



Sinopse:

Caio é acusado e preso por um crime que não cometeu. Em seu desespero quer apenas provar que é inocente.
Agora só Deus pode ajudá-lo.
Será que ele conseguirá ajuda Divina? Ou ele não é realmente inocente aos olhos da Vida? Deus pune? Ou a vida tem outras razões para nos colocar diante de difíceis desafios?
As leis da Vida são mais infalíveis do que as dos homens.
Neste extraordinário romance você terá a oportunidade de entender os segredos da inteligência que move os destinos do homem.
LUIZ GASPARETTO




Prólogo


Caio revirou-se várias vezes na cama. O suor escorria-lhe pela fronte, sem cessar. Estava aturdido, preocupado, muito preocupado. A atitude que tomara horas antes teria sido a mais correta? Tinha de deixar a casa de Loreta sem avisar nem mesmo a polícia? Deveria confiar em Isilda?
Ele não havia feito nada de errado, sabia disso. Mas sua consciência lhe chamava a atenção para a falta de prudência. Por que não ligara para uma das meninas da Casa da Eny? Por que ficara apavorado e saíra correndo da casa de Loreta, como se fosse um assassino? Custava ter esfriado a cabeça e pensado de maneira sensata, a fim de não arrumar problemas no futuro? E agora, o que fazer?
Sua cabeça latejava. O fluxo de pensamentos era intenso e não o deixava conciliar o sono. O jovem consultou o pequeno relógio sobre a cabeceira e viu que logo o sol ia aparecer. Mais um dia.
E como seria esse dia? Com certeza, não mais como antes. Não depois do que ocorrera. E se a polícia viesse atrás dele? Ele juraria inocência, mas tinha certeza de que a corda sempre estoura no lado mais fraco. Caio era pobre. E fazia alguma idéia da diferença de tratamento dada pela justiça a alguém sem sobrenome importante ou recursos.
Se fosse a julgamento, como iria se defender e provar sua inocência?
Talvez fosse melhor ir à polícia – foi o que sua consciência lhe sugeriu.
— Isso não! Agora já é tarde demais – rebateu para si.
Novamente aquela voz inspirava-lhe tomar atitude que não viesse a lhe causar problemas mais à frente. Era quase um sussurro, mas perfeitamente audível, soava ser uma voz familiar, amiga.
— Vá até a delegacia. Conte a verdade. O delegado vai entender e você não terá problemas no futuro.
Entretanto, o rapaz estava lutando contra essa corrente de pensamentos e deixou—se dominar pelo medo e insegurança.
— Perdi o sono. Vou me levantar. Chega de pensar no que deveria fazer, oras – tornou para si mesmo, fazendo movimento brusco com uma das mãos, como se estivesse botando sua consciência para correr.
Caio finalmente se levantou movimentos delicados, a fim de não fazer barulho e acordar Rosalina, sua mãe, que iria levantar-se dentro de alguns minutos para pegar no batente. Ela merecia um pouco mais de descanso, visto que dava duro para sustentar a ambos e ele levava uma vida de almofadinha, como se tivesse condições de ser um playboy de verdade.
Viviam em uma casinha de dois cômodos, todinha feita em madeira, de péssima qualidade. No inverno o vento frio entrava por tudo quanto era fresta e no verão, a casa mais se assemelhava a uma fornalha. Era composta de uma cozinha e um quarto.
No quintal ficava outra casinha, também de madeira, que consistia num cubículo fechado e no meio havia um buraco cavado na terra por aonde iam às necessidades fisiológicas. Quando enchia, era hora de mudar a casinha de lugar e cavar novo buraco. Ainda naquele bairro pobre e afastado da cidade não havia chegado esgoto, água encanada, asfalto, nada de infra-estrutura básica.
Caio olhou ao redor, fez negativas com a cabeça. Apanhou seu maço de cigarros e foi até o quintal. Aspirou o ar quente da madrugada que se findava e, num movimento rápido, acendeu e tragou vagarosamente seu cigarro.
— Não posso mais ficar aqui nesta cidade. Eu posso ser preso e, aí sim, minha vida estará arruinada.
Ele deu sucessivas tragadas e jogou o cigarro longe. Após soltar a fumaça pelo nariz tornou, aflito:
— Preciso e quero ir para a capital. Vou ter de antecipar meu sonho. Não tenho ainda condições de me sustentar, mas não vejo alternativa. Vou pedir ajuda à Sarita.
O rapaz respirou fundo, andou até a murada, abriu a portinhola da casa e estugou o passo. Precisava ir ao encontro de sua amiga.
Fazia algum tempo que Caio acalentava o desejo de sair de sua cidade natal, Bauru, e tentar a sorte na capital paulista. Depois desta madrugada, talvez fosse à hora de dar novo rumo à sua vida. O que acontecera na casa de Loreta horas atrás anteciparia um sonho reservado para o futuro, Agora Caio precisava ir embora. Melhor, ele tinha de partir de qualquer jeito.



CAPÍTULO 1

Distante poucas horas da capital e com população superior a trezentos mil habitantes, a cidade de Bauru, situada na região central do Estado de São Paulo, era – e ainda é – considerada uma das mais promissoras do país, principalmente em função da intensa atividade comercial, historicamente favorecida por sua posição geográfica e invejável estrutura de transportes.
É cidade conhecida em todo o território nacional, seja pelo sanduíche que leva seu nome – invenção de um conterrâneo —, seja pelo fato de quase ter se tornado capital do Estado de São Paulo em fins da década de 1960. Em todo o caso, além de vender simpatia e hospitalidade, o município, há anos exerce a função de pólo centralizador das atividades comerciais e de serviços, além de figurar num processo recente e crescente de expansão industrial.
Bauru também é nacionalmente conhecida por ter abrigado um dos bordéis mais famosos do Brasil. Era o bordel da Eny, popularmente conhecido como Casa da Eny.
Eny montara o prostíbulo anos atrás e tinha um séqüito de garotas bonitas e encantadoras, escolhidas a dedo para saciar toda a sorte de fantasias sexuais de seus clientes endinheirados. Era um bordel decente e de clientela distinta, freqüentado por artistas, empresários, políticos e boa parcela de indivíduos da alta sociedade.
Não obstante, no fim da década de 1970, a liberação dos costumes produzidos na sociedade – como o sexo livre, a emancipação da mulher e a promulgação do divórcio, dentre outras – fez com que os homens, de uma maneira geral, fossem cada vez menos aos bordéis ou prostíbulos para a realização de suas práticas sexuais.
A virgindade perdia seu valor, arrancava—se enorme peso cravado sobre os ombros da mulher por séculos e as moças podiam permitir—se a experimentar o sexo antes do casamento. As casadas iam perdendo, aos poucos, os pudores e se permitiam uma vida íntima mais satisfatória com seus maridos. Os motéis cresciam vertiginosamente e Eny, pela mudança dos tempos, fora obrigada a pôr seu estabelecimento à venda.
Rosalina, a mãe de Caio, trabalhava no bordel. Ela não era uma das meninas da Eny. Rosalina era mulher que não possuía atrativos para esse tipo de negócio e também sua rigidez moral não permitia que ela sequer sonhasse em se meter numa profissão dessas. Era mulher que preferiria passar fome a se submeter a esse tipo de serviço, como ela mesma frisava.
Rosalina era mulher forte, valente, cheia de entusiasmo. Vencera as adversidades da vida com coragem e otimismo e nunca se deixara abater, mesmo quando a tragédia, por duas vezes, batera à sua porta.
Primeiro foi à morte do marido, quando os dois filhos ainda eram pequenos. Um enfarte fulminante tirou—o de cena e Rosalina teve de dar duro para sustentar as crianças.
Viúva, sem os rendimentos do marido e sem parentes, ela precisou de trabalho. Rosalina era boa cozinheira e era boa de faxina. Por meio de uma amiga foi parar na casa de família rica e tradicional de Bauru. Recebeu ajuda da família e conseguiu, ao longo de alguns anos, construir sua casinha de madeira. Não era uma casa como ela sonhara para si e seus filhos, mas pelo menos não precisava mais se preocupar com aluguel.
Tinha seu cantinho, seu lar. Uma grande conquista para quem nunca tivera nada na vida.
Tudo parecia caminhar para o melhor, quando nova tragédia abateu—se sobre sua vida. Numa tarde qualquer, anos atrás, sua filha Norma, de dezoito anos recém completados, ao sair de uma loja de aviamentos, foi atropelada e não resistiu aos ferimentos. Morreu no asfalto, mais precisamente num dos cruzamentos da Rua Araújo Leite.
Rosalina sentiu o coração estraçalhar, tamanha dor pela perda da filha, mas não sucumbiu e tratou de levar a vida adiante. Precisava continuar viva e com saúde para encaminhar o filho Caio, na época um rapazote de pouco mais de catorze anos.
Embora rígida na moral que permeava sua vida, Rosalina era livre de preconceitos. Mal sabia escrever seu nome, contudo tinha uma sensibilidade de colocar qualquer letrado no chão. Era uma mulher sábia. Continuava trabalhando como doméstica para aquela família rica. Como dividia seu trabalho com outras empregadas no casarão, sobrava—lhe tempo para serviços extras. Foi assim que conseguiu trabalho na casa da Eny. Rosalina entrava às três da tarde e trabalhava até as sete da noite, quando os primeiros clientes davam as caras no bordel. Caio chegava ao bordel pouco antes das sete da noite e esperava pela mãe, nos fundos da casa. De lá até a casa deles era uma caminhada longa, permeada por algumas ruas desertas e sem iluminação. O rapaz religiosamente encostava—se à porta dos fundos do bordel todos os dias. Saía da escola e ia direto para a Casa da Eny.
Num desses dias, a professora passou mal e as aulas terminaram mais cedo. Caio decidiu ir diretamente ao bordel e chegou lá muito antes das sete da noite. Sem ter o que fazer, sentou—se em um degrau da escada que dava acesso a um pequeno quarto contíguo do estabelecimento, quando foi surpreendido por uma das garotas que trabalhava no local.
— O que faz por aqui?
— Estou esperando minha mãe.
A moça desatou a rir.
— Esperando a mãe? Aqui?
— É
— Tem certeza?
— Sim, tenho. Por quê?
— Por nada – ela levou a mão à boca, a fim de abafar o riso.
— Qual a graça?
— Nenhuma. Desculpe—me, não quis ofendê—lo. Mas é que aqui...
Ele a cortou e respondeu seco:
— Eu sei o que é esse lugar – apontou. – Uma casa de viração, de venda de sexo.
— Esperto – ela mudou o tom. – Não conheço moça aqui que tenha criança e.
Novo corte.
—Escute dona, estou esperando minha mãe, a Rosalina. Ela faz faxina aqui todos os dias.
— Ah, você é o filho da Rosalina...
— E não sou criança. Vou completar dezessete anos semana que vem.
— Hum, bela idade – redargüiu a moça, com a voz carregada de malícia.
O rapaz corou. Nesse aspecto era tímido. Caio nunca havia tido relações sexuais com mulher nenhuma, mas já era esperto o suficiente para perceber os olhares de cobiça que a jovem lhe dirigia.
— Você tem um rosto lindo.
— Obrigado.
— Poderia ser modelo.
— Está de brincadeira comigo?
— Não, por quê?
— Modelo?!
— Estou falando sério.
— Como? Nesta cidade?
— Não. O mundo não se restringe a Bauru e adjacências. Falo em ser modelo de verdade, ir a São Paulo, tentar uma carreira profissional.
Os olhos de Caio brilharam emocionados.
— Puxa, ir a São Paulo, tornar—me famoso, que maravilha... — ele desanimou no mesmo instante. – Não tenho como ir. Sou pobre, estou ainda no ginásio e....
A moça aproximou—se e o apalpou na altura da virilha. O rapaz ficou atônito. Ela deu uma risadinha. Caio corou, sua face ardia de vergonha. Ela percebeu e procurou ser gentil. Pegou em sua mão e foi puxando—o para dentro de casa.
— Meu nome é Sarita, trabalho aqui há alguns anos.
— O meu é Caio.
— Bonito nome. Nunca se deitou com uma mulher?
O rapaz moveu negativamente a cabeça para os lados. Sarita considerou:
— Prometo que vou ser boazinha. E, de mais a mais, preciso conferir e ver se você tem mesmo potencial...
Caio sorriu timidamente para a moça e deixou—se conduzir. Entraram no bordel. Os clientes ainda não haviam chegado e Sarita dirigiu—se até seu quarto, sem antes dar uma espiadinha para ver se Eny, ou uma das garotas, ou mesmo Rosalina não iriam pegá—los de supetão. Caio foi conduzido até um quarto no piso superior e Sarita pôde conferir de perto os atributos do garoto.
O jovem prometia. Tinha atributos que ia torná—lo um homem lindo e desejado. Caio tinha um corpo naturalmente bem—feito e bem torneado. Era forte, alto para sua idade – pouco mais de um metro e oitenta – ombros largos.
Possuía um rosto quadrado que lhe conferia ar maduro e viril. Os cabelos, anelados e jogados para os lados, eram um charme à parte.
Sarita não foi à única. Hilda, Estelita, Joana, Irene, foram muitas as garotas do bordel que se aproveitaram do apetite e abusaram do vigor do rapaz.
No decorrer dos anos, Caio passou a sair mais cedo do colégio para ir até o bordel. Entregava—se ao prazer com sofreguidão. As meninas da Eny ensinavam—lhe as mais variadas técnicas do sexo, mostrando a Caio como tratar a parceira, os carinhos preliminares, as partes do corpo que excitam uma mulher, a melhor posição para se relacionar etc. Acima de tudo, ensinaram—lhe a ser carinhoso e gentil no trato com uma mulher.
Rosalina nunca suspeitou das atividades sexuais do filho. Notou que Caio andava mais bem—disposto, cantarolava sem mais nem menos, sorria sem motivo aparente. Parecia um garoto movido a constante alegria e felicidade. Nem mesmo notara que ele chegava ao bordel duas horas antes de ela terminar o serviço. Religiosamente, de segunda a sexta—feira, ele se deitava, pelo menos, com uma menina da casa.
Os atributos físicos, o vigor e a virilidade do rapaz correram à boca pequena e logo uma rica viúva da cidade interessou—se pelo rapaz.
Loreta Del Prate era mulher perto dos 60, muito distinta, ainda muito bonita. Mantinha corpo bem torneado, era ainda capaz de chamar a atenção dos homens. Contudo, era bastante conhecida, tinha parentes importantes, promovia chás beneficientes para a paróquia da cidade. Sua reputação contava bastante e ela não podia, em hipótese alguma, aparecer nas ruas ao lado de um rapaz que tinha idade para ser seu neto. Não pegava bem, e Loreta dava muita importância aos comentários dos outros.
Loreta enviuvara havia pouco tempo, e enquanto esteve casada, nunca atingira o prazer com o marido. Ela comprou livros sobre sexualidade, fez análise com renomado psiquiatra da capital e descobriu que podia, sim, sentir prazer durante o ato sexual, que não tinha necessidade de fingir um orgasmo.
Isso era tudo muito novo para ela.
Educada de forma rígida, numa época em que o papel da mulher na sociedade consistia somente em cuidar do lar e parir filhos, Loreta a custo engolia a idéia de que a mulher deveria simplesmente ser um instrumento para que o homem chegasse ao prazer. Ouvira de sua mãe que uma esposa decente dá prazer ao marido, e de boca fechada, sem emitir um som sequer.
— Mulher é um objeto, que deve saciar o marido, sem direito a nada em troca – repetia a mãe.
Inconformada, após a morte de Genaro, ela passou a excursionar pelo país e pagava para ter sexo com rapazes, geralmente jovenzinhos cheios de virilidade e capazes de qualquer coisa por um prato de comida. Foi dessa forma incomum que ela descobriu que era capaz de sentir prazer.
O espírito de Loreta ansiava pelo prazer. Durante algumas vidas ela bem que perdera a cabeça por conta de seus desvarios sexuais. Comprometeu—se nesta encarnação a suprimir o prazer como forma de debelar seus instintos. Jurou para si mesma que, reencarnada, não daria tanta importância ao sexo.
Desta feita, reencarnou com a libido em baixa, a fim de facilitar os anseios de seu espírito. Loreta cresceu num lar sem religiosidade alguma e ao longo dos anos, seu espírito foi se distanciando dos objetivos traçados antes do reencarne. Ou seja, por falta de contato com a espiritualidade, de maneira geral, seus instintos estavam novamente superando os anseios de sua alma.
De volta a Bauru, descobrira que os homens interessados nela – geralmente mais velhos – não foram educados para saciar suas esposas, além de serem brutos e indelicados. Ela não podia fazer, ou melhor, pagar por serviços sexuais numa cidade do interior, onde todos a conheciam e respeitavam.
Ao saber do vigor de Caio, ela se empolgou e, com a ajuda de uma das garotas de Eny, Loreta passou a receber o jovem em sua casa, à noite, duas vezes por semana. Contava com a prestimosa ajuda de sua governanta, Isilda.
A governanta, na hora combinada, deixava o portão destrancado e a porta da cozinha entreaberta, a fim de facilitar a entrada de Caio na casa. Tudo feito de maneira muito discreta.
Fazia dois anos que Caio comparecia religiosamente todas as terças e quintas—feiras na casa da ricaça. O dinheiro que recebia – gorda mesada – dava para ajudar nas despesas da casa, gastar em roupas e. às vezes, comprar uma ou outra lembrança para a mãe.
Rosalina nunca suspeitou de nada, a princípio, porquanto seu filho estava sempre bem—disposto, era amável, ajudava nas tarefas da casa e dizia estar trabalhando num boteco no centro da cidade que fechava tarde da noite.
Ela começou a desconfiar num Dia das Mães, em que Caio lhe comprou um rádio de pilha último tipo, que valia mais do que ele supostamente afirmava ganhar no emprego. Ela foi ter com o Manolo, dono do boteco. O espanhol mentiu e afirmou que o menino trabalhava para ele no bar, duas vezes por semana e recebia uma ajuda, um salário simbólico.
— Se o salário é simbólico, como meu filho teve condições de me dar um rádio tão caro?
— Ora, minha senhora – volveu o espanhol, enquanto coçava o bigode espesso —, eu comprei esse rádio para minha esposa e ela não gostou. O prazo para devolvê—lo à loja expirou e, para diminuir meu prejuízo, ofereci a Caio. Eu desconto pequeno valor de seu pagamento. Deu para entender?
Rosalina entendeu ou fez que entendeu.
E por que Manolo mentira? Ora, porque ele era casado e freqüentava a Casa da Eny. Caio havia lhe salvado o casamento quando interpelado pela esposa de Manolo, tempos atrás. O rapaz afirmou, jurou de pés juntos que Manolo trabalhava noite após noite no bar, e, quando não estava lá, era porque tinha de resolver problemas com fornecedores de bebidas. Um acobertando as estripulias sexuais do outro. Bem típico dos homens...
Tudo o que aprendera com as meninas da viração, Caio passou a testar em Loreta e percebeu que o resultado era mais que satisfatório.
Ele era capaz de levar Loreta – e qualquer mulher que fosse – à loucura.
Era um verdadeiro gentleman, um Don Juan, amante insaciável e que sabia dar a qualquer mulher a dose certa de prazer.
Aos dezenove anos de idade, Caio alcançara a experiência que muitos homens nunca alcançaram ao longo da vida, em matéria de mulher.
Do prazer inicial, o sexo tornou—se um vício na vida de Caio. Ele não se saciava a contento. Precisavam se relacionar todos os dias, com qualquer mulher. Ele nem percebia, mas espíritos presos em nossa dimensão, ainda dependentes dos prazeres terrenos, grudavam—se na aura do rapaz e isso aumentava sobremaneira sua libido.
Caio nem imaginava que estava servindo de instrumento para espíritos de baixa vibração, que lhe sugavam as energias vitais. Daí sua necessidade descomunal de ter de fazer sexo sempre, a todo custo, a toda hora. Sua vontade era potencializada pela presença dos vários espíritos que se grudavam nele.
Não que o sexo seja algo condenado pela espiritualidade. Muito pelo contrario. O sexo, quando feito entre duas pessoas que se sentem atraídas é algo mágico, divino. Trata—se de uma troca salutar de energias para os parceiros. E, quando feito entre pessoas que nutrem sentimentos nobres uma pela outra, cria—se automaticamente, uma barreira energética que impede espíritos assanhados ou ignorantes de se aproximarem ou mesmo poderem assistir ao ato.
Isso não acontecia durante os encontros sexuais entre Caio e Loreta. Como não havia sentimento algum que os unisse, a não ser o puro desejo descontrolado pelo sexo, espíritos ligavam—se ao casal a fim de saciar seus desejos mais sórdidos. Ambos nada percebiam, a não ser uma tremenda vontade de transar e um cansaço, um vazio sem igual após as relações, que em nada satisfaziam os anseios de suas almas.
As relações com Loreta foram se tornando cada vez mais ousadas e picantes. Numa noite, após tomarem uma taça de champanhe, a fim de brindarem uma dessas peripécias sexuais, Loreta teve um ataque cardíaco fulminante.
Caio num misto de terror e desespero, ficou estático por alguns instantes. Deu um salto da cama e correu até os aposentos de Isilda, a empregada.
Ele bateu na porta com força.
— Isilda, pelo amor de Deus, abra a porta.
Ela levantou—se meio cambaleante, assonada.
— O que é?
— Loreta... Não sei... Acho que ela...por favor, venha comigo, me ajude, não sei o que fazer – gritava ele, aturdido e desesperado.
Isilda abriu a porta e, ao ver o rosto pálido do rapaz, pressentiu o pior. Ela o acalmou e retornaram ao quarto de Loreta. Ao ver os olhos da patroa arregalados e fixos no nada, além do corpo imóvel e a boca semi—aberta, Isilda quase teve a constatação. Aproximou—se e tomou o pulso da patroa. Nada. Depois, pegou um espelhinho na cômoda ao lado da cama e aproximou—o dos lábios de Loreta.
— Para que isso? – Perguntou Caio, aflito.
— Para saber se ela está viva. Se o espelho embaçar, é porque está respirando e ainda temos chance de trazê—la à vida.
Todavia, o espelho não embaçou. Isilda fez movimento com a cabeça para que o rapaz saísse dali o mais rápido possível.
— Melhor ir. Dona Loreta é mulher de respeito. Preciso evitar o escândalo. Vou dar um jeito em tudo. Agora, por favor, vista—se e vá.
Caio nem hesitou. Vestiu—se rapidamente, de qualquer jeito, e saiu correndo da casa, sem mesmo olhar para os lados ou para trás.
Assim que dobrou a esquina da casa de Loreta, dois olhos negros observaram—no saltar o portão, justamente naquela fatídica hora, naquela fatídica noite. Caio não percebeu a presença daquele homem que sorriu satisfeito assim que ele ganhou a rua.
Caio entrou em sua casa meio esbaforido, a camisa do avesso, o cinto da calça na mão. Rosalina dormia o sono dos justos e nada percebeu. O rapaz pegou uma jarra d´água e encheu uma caneca. Entornou—a garganta abaixo num gole só, mais de desespero do que de sede. Passou as costas da mão pela boca, respirou fundo e procurou dormir.
Mas não conseguiu. Os pensamentos fervilhavam em sua cabeça e ele decidiu, após levantar—se e fumar nervosamente seu cigarro, que Sarita poderia ajudá—lo.
— Confio nela – repetia para si mesmo, enquanto caminhava, passos rápidos, até a Casa da Eny.



CAPÍTULO 2

Uma das empregadas do bordel abriu a porta meio a contragosto.
— O último cliente saiu há pouco. Acabamos de fechar.
— Preciso falar com Sarita.
A empregada fez cara de poucos amigos, mas voltou para dentro e chamou a moça. Sarita apareceu alguns minutos depois, aparentando nítido cansaço.
— O que faz aqui? – indagou, meio a um bocejo.
— Preciso de sua ajuda. É importante.
Sarita percebeu o nervosismo estampado nas feições do rapaz e preocupou—se.
— O que aconteceu? Meteu—se em encrenca?
— Receio que sim...
Sarita mordeu os lábios levemente e considerou:
— Entre, acompanhe—me.
Caio pegou na mão dela e entraram na casa. Foram até o bar e sentaram—se nas banquetas.
— Eu estava com a Loreta e... – ele falava quase sem respirar, de supetão.
— Calma. Respire fundo – Caio assentiu com a cabeça. – E?
— Estávamos nos amando quando de repente ela teve um ataque, acho...
Sarita levou a mão à boca.
— Mesmo? Mas acha que foi um ataque fatal?
— Sim. Disso não tenho dúvidas. Seu corpo estremeceu, Loreta deu um gritinho abafado de dor e em seguida, seus olhos ficaram estatelados, fixados no nada. Tentei reanimá—la, mas ela nem se mexeu. Morreu.
— E por que não chamou Isilda, a empregada?
— Depois do susto, foi à primeira coisa que fiz. Corri até o quarto de Isilda e pedi ajuda. Ela constatou que a patroa morreu. Em seguida, pediu que eu fosse embora. Disse—me que Loreta não merecia ser vítima de um escândalo.
— Faz sentido. Isilda sempre fora fiel à Loreta.
— É o meu fim! – exclamou o jovem, apreensivo.
— Você não fez nada de mais.
— Pois é Sarita. Tenho medo de que alguém venha atrás de mim.
— Por que diz isso?
— Tive a sensação de que alguém me vigiava. Não sei ao certo.
— Fique sossegado.
Acalme—se. Isilda sabia das peripécias de Loreta, era conivente com a patroa, fiel e muito discreta. Vai inventar uma história qualquer e a polícia nem vai investigar.
— Mas estou com muito medo. Se eu vir um policial sou capaz de me entregar, por puro medo, por bobeira. Não gostaria de macular a imagem de Loreta. Não sei – ele hesitou —, Isilda pode dar com a língua nos dentes e você vem sabe Loreta sempre foi mulher benquista, admirada, ajudava na igreja, o padre Osório ia almoçar na casa dela todo domingo...
Sarita sorriu.
— O que foi?
— Padre Osório – ela suspirou. – Como um homem tão bonito como aquele pode ser celibatário?
— Nasceu para ser padre – tornou Caio.
— Não. Algo me diz que Padre Osório entregou—se ao sacerdócio por outro motivo, talvez uma decepção amorosa. Ainda vou descobrir o que se passa na cabeça e no coração desse padre.
Caio riu com gosto. Sentiu—se menos nervoso.
— Você fala do padre como se ele fosse...
— Um homem, ora! Atrás daquela batina esconde—se um homem. Escute – Sarita pousou suas mãos na dele —, procure padre Osório.
— Procurá—lo? Por quê?
— Para se confessar. Você bem sabe que um padre guarda muito bem nossos segredos. Converse com ele antes de partir.
— Partir, Sarita?
— E tem outro jeito? Não seria nada agradável a cidade descobrir que Loreta Del Prate deitava—se com um jovem da sua idade, Caio. A hipocrisia da sociedade arrasaria tudo o que ela fez de bom para Bauru. Sua reputação seria destruída e toda ajuda prestada à cidade seria ignorada. Loreta não merece isso. Nem a cidade.
— Tem razão. Preciso sumir por uns tempos.
— Sim. Por uns tempos – repetiu Sarita. – Daqui um mês o assunto vai se esgotar e todos vão esquecer.
— Uma temporada longe daqui não faria mal.
— Você tem razão, querido. Ademais, você poderia arrumar uma grande encrenca com a família de Loreta. Imagino a crueldade dos filhos caso soubessem como ela morreu e que você estava com ela no momento de sua morte. Nem quero pensar a respeito.
— Família? Filhos?
Ela não era viúva e sozinha?
Sarita deu uma risadinha irônica.
— Loreta, infelizmente, deu a luz dois seres desprezíveis.
— Como assim? – indagou, sem entender.
— Ela era mulher muito bacana, mas seus filhos... – Sarita fez um esgar de incredulidade. – Bom, os dois filhos de Loreta são ardilosos, intragáveis.
— Os dois?
— Hum, hum. E, mesmo sendo insuportáveis, são figuras conhecidas e respeitadas em todo o território nacional.
— Mesmo?
— Sim. Gregório, o mais novo, é solteiro e as más línguas dizem que não gosta de mulher, por esse motivo se mudou para a capital, a fim de não ser recriminado. Afinal, morando na maior cidade do país, é mais fácil dissimular sua preferência por rapazes. Com o dinheiro da herança, recebido após a morte do pai, ele se instalou confortavelmente num apartamento em um bairro nobre da capital e montou uma empresa que fabrica perfumes. Deu—se muito bem por um tempo. Seus produtos caíram no gosto do seleto e exigente público e fazem sucesso – ela fez uma pausa. – Espere um pouco.
Sarita saiu e voltou sobraçando uma revista. Folheou algumas páginas e apontou para uma propaganda de página inteira.
— Nunca ouviu falar na marca de perfume Nero?
— Claro que já. Todo homem de bom gosto e com dinheiro usa esse perfume.
— Dizem que até exportam o perfume para diversos países. É Gregório quem fabrica esse perfume.
— Ele deve mesmo ser cheio da nota.
— Parece que ele é excêntrico, gasta demais com seus meninos e vive em dificuldades financeiras. Vira e mexe estava por estas bandas, implorando à mãe que lhe desse mais dinheiro. Viviam às turras, Loreta e o filho. Agora ele vai queimar de vez a parte da herança que lhe cabe.
Caio interessou—se.
— E o outro filho?
— Um pulha, uma casca de ferida – Sarita riu. – E bota ferida nessa casca. Genaro, o filho mais velho, tem o nome do pai. É inescrupuloso, mesquinho, autoritário, odeia ser contrariado. É grosso e estúpido. Tornou—se político corrupto e finge ser carismático para o povo.
Foi vereador aqui na cidade.
— Não me lembro.
— Você era garoto. Genaro se envolveu num esquema de corrupção e quase teve o mandato cassado. Entretanto, como tem amigos influentes no poder, saiu ileso. Ele é forte candidato para o cargo de deputado federal às eleições diretas deste ano.
— Como sabe de tanta coisa?
— Ora, trabalho no prostíbulo mais famoso do Brasil. Aqui sabemos de tudo e de todos.
— Com tanta gente importante que vem aqui...
— Pois é, meu lindo. Somos garotas bem informadas – ela encostou o dedo no queixo. – Creio que você faz bem em partir. Talvez tenha chegado à hora de tentar a carreira de modelo. Fotográfico, de preferência.
Caio riu irônico.
— As únicas fotos que tirei na vida foram para os boletins de escola e para o documento de identidade. Não sou fotogênico.
— Eu diria que você está redondamente enganado, meu caro. Você tem porte e rosto de modelo. Se souber como encontrar e se relacionar com as pessoas certas, vai fazer carreira de sucesso. Acredite.
— E o que faço?
— Como disse, tem de partir, de preferência hoje.
— Assim, sem mais nem menos?
— Tem alternativa?
— Não. Até pensei nisso. Sinto que devo partir, mas não tenho recursos. Eu não tenho dinheiro para a passagem. Será que você podia me ajudar?
— Com o maior prazer. Tenho algumas economias e posso lhe emprestar algum dinheiro.
Caio sorriu aliviado, mas logo seu semblante contraiu—se. Sarita perguntou:
— O que foi?
— De que adianta passagem se não conheço ninguém lá na capital?
— Isso é o de menos. Passagem eu lhe dou de presente. E, quanto à morada em São Paulo, eu lhe faço uma carta de recomendação.
— Como assim? Para quê?
— Tem uma ex—colega nossa de trabalho que se deu muito bem anos atrás. Conheceu um figurão rico aqui no bordel, tornou—se amante dele e, quando o velho morreu, deixou para ela um sobradão lá na capital. Fani transformou o sobradão numa pensão e vive disso. Ela poderá lhe dar guarida por uns tempos.
Fani é muito generosa, uma boa mulher. Tenho certeza de que vai ajudá—lo.
Caio mordeu os lábios. Passou a mão pelos cabelos. A idéia não era má. Iria para a capital, tentaria ser alguém bem—sucedido. Estava cansado da vida sem perspectivas em Bauru. Na verdade, se continuasse no interior, sem estudo, Caio vislumbrava um futuro totalmente embaçado, pobre e sem atrativos. São Paulo era o centro do país, a locomotiva que movia o Brasil, acreditava ele. Poderia ter muitas possibilidades de trabalho, conhecer gente importante, e até tornar-se alguém de fama e prestígio. Por que não?
— Você faria tudo isso por mim? De verdade?
Ela sorriu maliciosa.
— Posso sim, desde que você se despeça de mim. Vou sentir saudades do garotão. Venha.
Caio devolveu o sorriso malicioso e subiram até o quarto de Sarita. Chegando lá, ele a deitou e a amou com toda a intensidade, num misto de desejo e gratidão por tudo o que ela lhe fizera.
Sarita era uma mulher linda, de vasta cabeleira negra e lisa que corria até sua cintura. A pele era morena, da cor que o diabo e a maioria dos homens gostam. Os olhos negros e as sobrancelhas espessas conferiam—lhe ar sedutor, tanto que alguns clientes a chamavam de Pantera. Essa pantera era muito disputada pelos clientes. Tinha um corpo de fazer inveja, perfeito, bem torneado, cheio de curvas pecaminosas.
Após se amarem, descansaram e ao acordarem, entabularam conversação.
— Você merece uma vida melhor.
— Também acho, meu querido – assentiu Sarita. – Nunca tive preconceitos e a vida me empurrou para esse trabalho. Contudo, tenho repensado minha vida... Creio que vou me confessar com o padre Osório. Quem sabe ele me entende.
— Sarita! – exclamou Caio. – Você gosta tanto assim do padre Osório?
— Sim. Às vezes vou à missa só para vê-lo, mais nada. Por duas vezes nossos olhares se encontraram e eu sei que ele me olha diferente.
— Você, apaixonada por um padre! Essa é boa.
— Que mal há nisso? Além do mais, não pago um centavo por sonhar.
Caio a abraçou e a beijou na face.
— Você tem alguma formação?
— Comecei o curso de secretariado, mas por falta de grana, tive de parar. Meus pais morreram num acidente de carro e eu nunca me dei bem com meu irmão. Ele já era casado na época do acidente e não se mostrou muito disposto a me ajudar. Sozinha e sem recursos, uma noite conheci um cavalheiro que me prestou ajuda. Saí de Goiânia e vim direto para a Casa da Eny. Entretanto, aprendi minha lição.
— Que lição, Sarita? – indagou o jovem, interessado.
— Aprendi que sexo é bom. Usá—lo como profissão, não é errado, contudo, não me faz bem. Eu acredito em Deus, em algo invisível que rege esse Universo todo. Sou mais que a tal da pantera, sou mais que esse corpo – disse, fazendo um gesto e apontando para si mesma. – Conforme tenho me dado valor e tido consciência de que posso ser dona de meu destino e mudar a hora que bem entender, fico com menos vontade de flanar pelo mundo da prostituição. Quero voltar a estudar, concluir o curso de secretariado, encontrar um bom moço, quem sabe um ex—padre – ela sorriu maliciosa —, e ser feliz, constituir família.
— Você é especial, Sarita – volveu o rapaz, de maneira sincera. – Espero um dia poder retribuir a ajuda que está me oferecendo. Ainda vamos nos encontrar no futuro e, quem sabe, poderemos ficar juntos.
Ela riu.
— Não se iluda. Osório é minha cara-metade. Você ainda vai encontrar a sua.
— Como pode afirmar uma coisa dessas?
— Intuição feminina – ela sorriu. – Eu poderei encontrá-lo no futuro e ser sua amiga, mas nunca serei sua mulher. Posso me deitar com vários homens, mas o meu coração é de um só.
Ele fez uma careta.
— O tal padre.
— É. Enquanto eu tiver esperanças, não vou desistir.
— Queria amar alguém, de verdade.
— Há alguém no seu caminho.
— Fala de um jeito... Até me deu um arrepio!
— Minha intuição é afiada, não me engana. Algo me diz que você precisa partir. Agora é que sua trajetória de evolução vai ter início.
— O que é isso?
— Você verá. Ou melhor, vai sentir na própria pele. Para seu bem, é claro.
Sarita o beijou delicadamente nos lábios e deitou a cabeça sobre o peito musculoso e bem torneado do rapaz. Para Caio, além de um mulherão, Sarita era seu anjo bom, uma mulher de princípios, de valores. Não era hipócrita e parecia ser dona de si. Inspirava confiança. Iniciara—o no sexo, ensinara—lhe as artes secretas do amor, era amiga leal e estava lhe dando o empurrão que faltava para tomar coragem e mudar, de uma vez por todas, para a capital do Estado.
Caio voltou para casa aliviado. Pegou uma maleta, arrumou algumas roupas e pertences. Rosalina acabava de chegar da padaria. Trazia um saquinho de leite e dois pãezinhos embrulhados num papel amarronzado.
– O que está fazendo?
Ele aproximou—se de Rosalina e a abraçou com carinho.
— Está na hora de partir, mãe. Preciso me tornar gente, ganhar dinheiro. Quero tirá—la daqui desta casa, dar—lhe uma vida boa. Não quero que trabalhe para sempre e.
Rosalina pousou delicadamente o indicador nos lábios do filho.
— Você nunca pertenceu a esta cidade. Sabia que em breve partiria.
— Ao mesmo tempo me dá medo. Não queria que ficasse sozinha.
— Sei me virar. Ainda sei e posso tomar conta de mim – ela sorriu.
— Estou com dezenove anos, não tenho formação, sempre a ajudei fazendo bicos por aí. Em São Paulo – os olhos dele brilharam emocionados —, terei condições de trabalhar, crescer e ganhar dinheiro. Você sabe que acalento esse sonho há anos.
— Eu sei. Pode ir em paz, meu filho.
— Não sabia como lhe contar sobre essa vontade súbita em partir.
— É?
— Percebo que está muito calma para o meu gosto.
Ela o beijou na fronte.
— Estou tranqüila, em paz. Eu sabia que você partiria. A Norma me contou.
— A Norma lhe contou?
— Sim.
— Quando foi isso, mãe?
— Algumas semanas atrás. Por essa razão, estou em paz.
— De novo isso? – perguntou, com a voz irritadiça.
— Por que fica bravo toda vez que converso com Norma?
— Porque não é normal, mãe. Isso me dá até arrepio – redargüiu o jovem, enquanto sacudia o corpo.
— Ela é sua irmã, sempre se preocupou com você.
Ela me contou dia desses que você partiria e que eu deveria aceitar. Disse que você precisará passar por determinadas situações na vida, a fim de confrontar e libertar—se das ilusões que impedem seu espírito de amadurecer. Sem esse confronto, seu espírito não vai sossegar.
— Idéia louca essa, mãe.
— Tudo isso tem a ver com o seu passado.
— Passado? Que passado?
— Vidas passadas. Norma teve acesso a algumas de suas vidas passadas e me contou tudo. Sua irmã afirmou que o seu espírito não vai sossegar enquanto não sentir na pele as injustiças que provocou no passado. Norma disse que tudo poderia ser diferente, mas você não quer crescer de outra forma. Ela me afirmou também que você poderia evitar o sofrimento e se libertar da culpa com inteligência e sabedoria.
— Mãe, assim você me preocupa. Não gosto quando fala nesse tom. Isso é coisa de gente desmiolada, biruta. Desde que Norma morreu você tem falado em outras vidas, em reencarnação. Você já perdeu seu marido e filha, faz sentido apegar—se a alguma religião para diminuir o sofrimento. Mas não venha com esse papo furado.
— Ninguém aqui falou em religião, meu filho. Mesmo porque Espiritismo não é religião, mas ciência. E eu estou falando sobre as verdades da vida, sobre a existência do espírito que habita nosso corpo físico. Isso não esta ligado a nenhuma religião, mas sim, ao conhecimento dos valores espirituais.
— Não gosto desse tipo de assunto.
— Sinto—me aliviada. Transmiti o recado de sua irmã. Agora cabe a você decidir o que fazer.
— Eu saberei me virar – ele hesitou por instantes. Afinal, será que Rosalina ouvira algum comentário logo cedo sobre a morte de Loreta? Isilda era bem discreta e as notícias ainda iriam demorar a correr. Mesmo assim, ele procurou saber:
— você ouviu alguma coisa aí na rua?
— Ouvi sim.
Ele mordeu os lábios com força para dissimular sua angústia. Será que a cidade já estava a par do ocorrido? Ele timidamente perguntou:
— O que foi que ouviu?
— Estava na padaria e, na fila, vi um amontoado de gente em volta do rádio. Era notícia de morte. De gente famosa.
Caio sentiu as pernas falsearem por instantes e balbuciou:
— Quem mo...morreu?
Rosalina deu de ombros.
— Não sei ao certo. Não dei tanta atenção, mas acho que era mulher. E muitas pessoas pareciam estar consternadas. Deve ser pessoa muito querida.
Caio encostou—se na parede, a fim de não ir ao chão. Agora tinha certeza. A notícia da morte de Loreta vazara e logo ele seria procurado pela polícia. Tinha de partir o mais rápido possível. A cidade já sabia do crime. Ele respirou fundo e confessou:
— Eu a amo muito, mamãe.
— Eu e sua irmã também o amamos. Queremos o seu bem.
— Você só se esqueceu de que Norma está morta há alguns anos – retrucou, a fim de afastar os pensamentos que corroíam sua mente.
— E que problema tem?
Caio levou a mão a boca para evitar o estupor.
— Fala com uma naturalidade sem precedentes! Os mortos não falam. Estão mortos, oras.
— Tsk, tsk – fez Rosalina, estalando a língua no céu da boca. – Eu sou iletrada, mas tenho um pouco de conhecimento espiritual. Sua irmã tem me passado muitos ensinamentos e está mais viva do que nunca. Seu espírito vive numa outra dimensão. Norma encontra—se tão viva quanto eu e você.
— Não quero discutir.
— Estou fazendo supletivo, quero aprender a ler corretamente para comprar livros de cunho espiritual. Quero conhecer tudo o que foi publicado sobre o mundo de lá – ela apontou para o alto – e sua relação com o nosso mundo.
Sabia que o mundo espiritual influencia sobremaneira o mundo da Terra?
— Essa é boa. As coisas acontecem aqui porque tem de acontecer e ponto final.
— Ledo engano, meu filho.
Na verdade, fazemos parte do mundo de lá. A gente vem para cá por um tempo, somente para fazer com que nosso espírito vá se tornando cada vez mais lúcido, livrando—se dos medos, das inseguranças, além de resolver situações pendentes do passado, que martirizam nossa consciência e impedem nosso espírito de alçar vôos maiores em outros mundos.
— Mundo de lá... Sei, sei. Eu não acredito em nada disso. Se Norma pudesse se fazer presente, aqui e agora, na minha frente, eu poderia começar a mudar meus conceitos.
— Ela não pode fazer isso, meu filho, por dois motivos: Primeiro, porque você não possui mediunidade educada para enxergar os espíritos e segundo, ela diz que você vive preso ao mundo das ilusões e, por conta disso, está envolvido numa vibração cujo teor a afasta de você. É como se você tivesse algo ao seu redor que repele o contato com sua irmã – Rosalina tentou explicar na sua maneira simples, porém sábia, de enxergar a vida. – É mais ou menos assim: imagine quando você entra em casa e sente um cheiro forte, mas ruim, desagradável, que o enjoa. O que você faz?
— Saio correndo. Por que vou sentir um cheiro que vai me fazer mal?
— Pois bem, é como se você tivesse esse cheiro esquisito. Norma tem dificuldade de se aproximar. O máximo que ela consegue é transmitir—lhe algumas idéias à distância, mais nada.
Caio riu gostoso.
— Prometo que vou pensar no assunto – ela a abraçou com carinho e uma lágrima sentida escorreu pelo canto de seu rosto. – A Norma me faz muita falta.
— Se mudar seus conceitos acerca da vida e da morte, a falta que sua irmã lhe faz pode ser amenizada.
Ele afastou—se da mãe e nada disse. Apanhou o resto de seus pertences, meteu tudo numa maleta. Rosalina afastou—se e voltou com um saquinho.
— O que é isso, mãe?
— Um dinheirinho guardado para emergências.
Caio ia falar, mas ela tapou sua boca com carinho.
— Isso estava reservado para você, meu filho. Não vai me fazer falta. Por favor, fique com esse dinheiro.
Por consideração a mim e à Norma.
Caio caiu num choro sentido. Precisava desabafar contar à mãe o que acontecera naquela noite, mas não tinha coragem. Rosalina era pura de coração e não merecia o desgosto de saber sobre as peripécias do filho. A notícia já chegara ao rádio e ele precisava partir. Não tinha muito tempo para estender a despedida. Nem iria procurar por Padre Osório. Ficaria para outra ocasião. O tempo urgia.
Caio abraçou a mãe com carinho.
— Obrigado pela força que está me dando. Eu vou retribuir toda essa ajuda, pode acreditar.
Norma, em espírito, sorria para ambos. O teor da conversa e o amor sincero que emanava de Rosalina e Caio permitiu que ela pudesse achegar—se deles. Com delicadeza, aproximou—se e abraçou—se aos dois, iluminando toda a pequena casinha de madeira, naquele bairro pobre e distante, encravado nas extremidades de Bauru.



CAPÍTULO 3


Munido de pequena maleta numa mão, e um papel amarrotado com o endereço de Fani em outra, Caio saltou do ônibus, na estação Julio Prestes. Olhou para a cobertura colorida que cobria a estação rodoviária e se emocionou. O sol refletido por aqueles arcos dava um novo colorido à sua nova etapa de vida.
O rapaz saiu da estação e mal podia acreditar na quantidade de gente que entrava e saía, na multidão que andava pelos arredores, um grande formigueiro humano. Ao ganhar a rua ele avistou a torre da estação da Luz. Caio sorriu.
— São Paulo, aqui estou! Por favor trate—me com carinho. Ele falou para si e foi caminhando até um terminal de ônibus. Indagou um senhor na enorme fila que se formava para se entrar no veículo:
— Sabe como chego até a Rua Humaitá, na Bela Vista?
— Sei não – respondeu o homem, coçando o queixo.
Caio foi perguntando às outras pessoas que estavam na fila, até que um rapaz, de aspecto simpático, aproximou—se e retorquiu:
— Meu ônibus passa próximo dessa rua. Quando chegarmos perto eu lhe aviso ou até desço e lhe mostro onde fica.
— Obrigado moço.
— Por nada. Sabe esta cidade, além de grande, é cheia de teias, praticamente uma arapuca. Cidade grande tem muita violência, muita gente má, inescrupulosa. Você precisa fazer logo boas amizades, senão pode se dar muito mal.
Caio admirou—se com a postura do rapaz. Agradeceu a gentileza e foi puxando conversa.
— Você é daqui da cidade?
— Não, sou do Rio de Janeiro. Quer dizer, do interior do Estado. Minha família é de Vassouras.
Caio pousou a maleta no chão e estendeu—lhe a mão.
— Prazer, meu nome é Caio.
O rapaz retribuiu.
— Prazer. O meu é Guido.
— Nome diferente. Guido. Nunca ouvi antes.
O rapaz baixou o tom de voz, como se estivesse fazendo uma confissão sagrada.
— O meu nome, de verdade, é outro.
— Qual é?
Guido falou de maneira misteriosa:
— A minha profissão exige que eu adote um nome, digamos, mais charmoso.
— E o nome Guido tem charme?
— Pois se tem! Eu invento histórias, conto que minha família veio da Itália, que meu avô foi perseguido pelo ditador Benito Mussolini durante a Segunda Guerra Mundial. Floreio bastante sobre o meu passado. A clientela adora.
— Clientela? Que clientela?
— Depois eu lhe conto – respondeu Guido, entre dentes.
Caio deu de ombros. Não se interessou em saber seu nome verdadeiro. Nem tampouco o que fazia. Ele gostara dele, parecia ser simpático.
— Você me é familiar. Eu o conheço, não?
Guido esticou o lábio. Fez negativa com a cabeça.
— Nunca nos vimos antes.
— Sinto como se o conhecesse. Engraçado... Nunca o vi, mas parece que o conheço há tempo.
— Impressão. Talvez a minha simpatia, hospitalidade sei lá – Guido prosseguiu: — você veio de onde? Com esse sotaque, só pode ser do interior de São Paulo.
— Está tão forte assim?
Guido riu.
— Forrrte. Não precisa carregar tanto na letra erre.
— Eu nem percebo.
— Isso pode se tornar seu charme, sua marca registrada.
— Para quê?
— Não sei ainda. Poderá ser útil no futuro.
— Não vejo como.
— Veio de onde?
— De Bauru.
— E veio fazer o quê em São Paulo?
Caio titubeou. Não seria de bom tom dizer logo de cara que ele, recém—chegado do interior, tinha vindo à cidade grande para se tornar modelo famoso. Procurou dissimular.
— Vim tentar a sorte.
— Tem algum parente, algum lugar para ficar?
— Tenho um endereço. Devo procurar uma senhora que tem uma pensão na Rua Humaitá.
— Olha, acho meio difícil você chegar lá, pelo menos nas próximas horas.
— Não entendi.
Guido meneou a cabeça para os lados. Sorriu.
— Hei, em que mundo você vive?
— Por quê?
— Porque a Rua Humaitá é uma travessa da Rua Brigadeiro Luis Antônio.
— É?
— E essa rua está interditada hoje porque o corpo da cantora Elis Regina está sendo velado no Teatro Bandeirante.
— A Elis Regina morreu?
— Ontem. Ninguém sabe direito de quê. Também não interessa. Ela morreu mesmo. Pena que não vamos mais poder escutar sua linda voz, vê—la com seus gestos e idéias irreverentes na TV.
Elis já faz falta – finalizou, com a voz embargada.
Caio impressionou—se.
— Você é um rapaz sensível e inteligente.
— Obrigado. A vida me ensinou bastante coisa.
— Mas, se eu não posso ir até a Rua Humaitá, o que vou fazer?
A fila começou a andar e os dois subiram no ônibus. Guido foi gentil e pagou as passagens. Caio sorriu. Mal chegava à cidade e conhecia um cara bacana. Tinha uma idéia de que o pessoal da cidade grande era metido e reservado, frio e impessoal. Não era essa a impressão que ele verificava na prática.
Sentaram—se.
— Você pode ir até meu apartamento.
— Mora só?
— Divido com um amigo, lá no bairro dos Jardins. Trata—se de um dos endereços mais chiques de São Paulo. Você pode ficar comigo.
— Seu amigo não vai reclamar? Sou um estranho.
— De jeito algum. Maximiliano está a trabalho em Londres e deve voltar perto do carnaval. Estamos em janeiro e se você precisar, pode ficar comigo até ele chegar.
— Fala sério?
— Claro. Fui com a sua cara. Você parece ser um cara legal. Inspira—me confiança.
Caio sorriu emocionado. Lembrou—se de Sarita. Havia muita gente boa no mundo, pensou.
— Obrigado pela ajuda e pela força, Guido.
Guido era um moço nem bonito nem feio. Cabelos loiros, encaracolados, olhos grandes e boca carnuda. Possuía corpo bem—feito, atlético. Tinha estatura mediana, seu sorriso era encantador, embora seus olhos amendoados fossem enigmáticos e misteriosos. Era necessária muita perspicácia para medir a sinceridade do rapaz. Estava com vinte e um anos de idade.
O rapaz sorriu e, no trajeto, foi mostrando a Caio os pontos conhecidos da cidade, os prédios, monumentos, ruas e avenidas famosas. Caio não desgrudava os olhos da janelinha do ônibus e absorvia toda a informação que recebia com felicidade. Seus olhos emocionavam—se a cada indicação de Guido. A catedral da Sé, o viaduto do Chá, o Teatro Municipal, o famoso prédio da finada loja Mappin, tudo o encantava. Parecia um garoto que acabara de ganhar um brinquedo no Natal. Sua chegada a São Paulo não poderia ser melhor...
Enquanto Guido lhe servia de guia, Caio agradecia aos céus pela nova amizade.
O ônibus teve de parar por um bom tempo. O motorista nem mesmo podia fazer um caminho alternativo. O engarrafamento era enorme. Todas as vias próximas à Rua Brigadeiro Luís Antônio e adjacências estavam entupidas de carros e de gente. Muita gente que queria ir até o teatro para dar adeus à maior cantora do Brasil.
Os rapazes saltaram do ônibus.
— Acompanhe—me – solicitou Guido.
Caio assentiu com a cabeça e misturaram—se à multidão.
— Olhe – apontou Guido —, o caixão está sendo colocado no caminhão do Corpo de Bombeiros.
Os dois pararam numa esquina e, acotovelados entre muitas outras pessoas, permaneceram ora em silêncio, ora cantarolando músicas que fizeram sucesso na voz de Elis. Caio sensibilizou—se com seu novo amigo. Guido cantava e chorava ao mesmo tempo, assim como todos ao redor.
— Eu gostava muito dela. O Maximiliano tem muitos discos de Elis lá no apartamento. Vamos – ordenou —de nada vai adiantar ficar aqui embaixo desse sol. Melhor irmos andando até o apartamento. Agüenta cerca de vinte minutos de caminhada?
— Claro.
— Vamos por aqui.
Caio o acompanhou e meia hora depois, eles dobraram a Brigadeiro e entraram na Alameda Casa Branca.
Pararam diante de um prédio bem apanhado, sofisticado, cuja opulência e beleza se faziam notar.
— Chegamos meu caro.
— Nossa! – exclamou Caio. – Você mora aqui?
— Sim, por enquanto este aqui é o meu endereço. Espero que para sempre – retrucou Guido, de maneira arrogante.
Caio deu de ombros e não quis esmiuçar a vida de Guido. Nem queria. O rapaz estava sendo bom demais, mostrava ser amigo e lhe convidara para ficar hospedado em sua casa, sem cerimônias.
Guido cumprimentou o porteiro.
— Oi Malaquias.
— Como vai, seu Guido?
— Bem. Este é meu primo Caio.
— Como vai, seu Caio?
— Bem obrigado.
Guido aproximou—se do porteiro.
— Ele vai passar um tempo aqui comigo, até o Maximiliano voltar. Portanto, comunique os outros empregados do prédio. Não quero, em hipótese alguma, que meu primo seja barrado na portaria, entendeu?
— Sim, senhor. Pode deixar.
Os rapazes se afastaram e pegaram o elevador. Ao entrarem, Caio coçou a cabeça, sem entender.
— Por que disse ao porteiro que sou seu primo?
— Para não arrumar encrenca. Este prédio é cheio de cerimônias, alguns moradores reclamam das visitas que recebo e o Max então...
— Max? Quem é Max?
Guido sorriu.
— Maximiliano, o dono do apartamento. O nome é muito comprido e todo mundo o chama de Max.
— Tem certeza mesmo que o Max não vai se incomodar de eu me hospedar na casa dele?
— Fique tranqüilo. Ele é um bom camarada. Pode crer.
O elevador parou no andar e saltaram num hall decorado com gosto. Guido meteu a chave no trinco e, ao girar a maçaneta, foi como se Caio entrasse num mundo de sonhos. O apartamento de Max era puro requinte e sofisticação. Imenso, com janelas amplas e vista atraente, mobiliado com excelente bom gosto, peças e obras de arte. Tudo arrumado de maneira perfeita, organizada.
Caio não sabia para onde olhar. Lembrou—se da Casa da Eny e da casa da família rica que sua mãe trabalhava lá em Bauru, os únicos lugares que conhecera e julgara serem os mais lindos e sofisticados do mundo. Agora, no apartamento de Max, seu conceito de beleza e sofisticação adquiria novo grau de avaliação.
— Pode babar e, depois, estirar—se no sofá – sugeriu Guido, enquanto tirava a camisa e dirigia—se até o bar da sala. – Quer uma bebida?
— Não acha cedo?
— Não existe hora certa para um bom trago. Vai de quê?
— Sei lá. O que você vai beber?
— Uísque.
— Eu também quero.
— Puro ou com gelo?
— Duas pedras.
Guido pegou a garrafa e debruçou—a sobre os dois copos já com gelo. O telefone tocou e ele correu a atender.
— Sim. Claro. Que horas? Perfeito.
Guido pousou o fone no gancho e voltou ao bar.
— Que maravilha, recebi ligação de cliente.
— Cliente? – indagou Caio.
— Sim. Eu saio com algumas mulheres e recebo bom dinheiro para lhes dar prazer. São mulheres ricas, conhecidas da sociedade, de fino trato, mas que não podem ser vistas, porque senão a imprensa faz da vida delas um inferno. Foi difícil me tornar call boy, mas consegui.
Caio não entendeu.
— Call o quê?
Guido sorriu.
— Call boy, acho que vem de cowboy no inglês. São rapazes que fazem sexo com mulheres em troca de dinheiro. Tem também os chamados call táxi, que transam com homens. Eu sou uma mistura dos dois. Algum preconceito?
— Nenhum. Cada um faz o que quiser de sua vida.
— Pura necessidade – confessou Guido, dando de ombros. – Eu nunca saí com homens, mas um dia conheci o Max e então pintou um clima. No inicio me assustei um pouco, mas depois me acostumei. Transar com homem ou com uma mulher, para mim, não faz diferença. E, de mais a mais, a mesada que Max me dá para ficar só com ele e mais ninguém é mais que satisfatória. Veja por si – apontou ao redor do apartamento –, levo uma vida de luxo, ganho um bom dinheiro dele e ainda me satisfaço com as mulheres e ganho uns trocados.
— Max sabe que você sai com mulheres?
— Desconfia. Entretanto, ele viaja muito. E, quando ele viaja, eu aproveito e atendo minha clientela. Você poderia também fazer isso.
— Isso o quê?
— Ser um call boy. Você tem atributos que podem atiçar o desejo de uma mulher.
Enquanto Caio pensava nessa possibilidade, Guido serviu—se de uísque, deu meia volta no bar e entregou o outro copo a ele.
— Um brinde a você.
— A mim?
— Sim, meu amigo. A você. Que São Paulo e as mulheres ricas desta cidade possam lhe dar tudo o que você sempre sonhou.
Encostaram os copos e beberam. Caio estalou os lábios com a língua. Nunca havia tomado um uísque tão puro e que descia tão bem garganta adentro. Estava com sorte.
Havia saído de Bauru com medo, aturdido e cheio de inseguranças. Chegara à cidade grande e já encontrara um grande amigo para lhe dar atenção e suporte. Assim ele acreditava.
Caio foi acometido de leve tontura. Embora sentisse que esse não deveria ser em hipótese alguma, seu caminho a seguir, viu—se tentado. Ele aprendera a fazer sexo e sabia ser bom de cama. As meninas da Eny haviam—lhe ensinado muitas coisas e ele poderia se dar muito bem nessa nova empreitada. Ganharia bastante dinheiro até se tornar modelo famoso. Será mesmo que precisava se tornar modelo?
A tontura tinha motivo. Caio chegara a São Paulo, mas não viera sozinho. Alguns espíritos que o acompanhavam em Bauru estavam ali presentes. Ao chegarem ao apartamento, esses espíritos, sedentos de prazer, sentiram—se no paraíso.
Caio e Guido não enxergavam nem percebiam, mas no apartamento tinha um grupo de mais ou menos trinta espíritos, que entrava e saía, bebia e colava—se à aura de Guido, potencializando no jovem o desejo pelo sexo fácil e desprovido de qualquer sentimento nobre.
A consciência de Caio implorava para que ele negasse a proposta de Guido e tomasse novo rumo na vida. Todavia, sua mente perturbada pela horda de espíritos sedentos por sexo, bebida e outras paixões típicos da vida terrena, mal escutava a consciência. E a proposta de Guido tornava—se uma possibilidade bem interessante para a sua vida.



CAPÍTULO 4


Luísa fechou a porta do closet com raiva. O barulho assustou a empregada.
— O que foi?
— Nada Eunice. Nada. Estou nervosa, só isso.
— Outra briga?
Luísa suspirou profundamente. Abriu e fechou os olhos algumas vezes. Abraçou—se a Eunice.
— Você me conhece desde pequena. Quando me casei exigi que mamãe a liberasse para vir morar comigo. Você é como uma mãe para mim. Vou lhe contar um segredo.
Eunice emocionou—se.
— Eu sei disso, minha querida – apertou—a de encontro ao peito. – O que está acontecendo? Quer se abrir comigo?
— Genaro tem me tratado de maneira tão estúpida! Era tão diferente quando namorávamos...
— Tenho percebido as alterações de humor dele. Realmente Genaro parecia ser outro homem quando vocês estavam noivos.
— Não entendo, Eunice. Ele era carinhoso comigo e me respeitou de verdade. Embora vivendo numa época moderna como a atual, em que a sociedade rompeu com vários tabus, ele exigiu que eu me mantivesse pura e virgem até o casamento.
Confesso que foi difícil reprimir meu instinto, os meus desejos e quase cedi. Pensei que após o casamento teríamos uma vida intima satisfatória e feliz. Não é o que acontece.
— E esse arroxeado no pescoço?
Luísa mordeu os lábios com raiva.
— É esse o segredo.
Eunice meneou a cabeça negativamente para todos os lados.
— O que aconteceu? Conte—me.
— Quando eu reclamo de sua brutalidade, Genaro fica mais nervoso. Nesta noite ele ficou tão bravo que apertou meu pescoço.
— Isso não se faz meu Deus! – choramingou Eunice. – Eu creio que o melhor a fazer é se separar.
— Genaro disse que só será possível depois das eleições. Ele afirmou com todas as letras que me mata se eu tentar manchar sua reputação de bom homem.
Veja só, Eunice, o Genaro é pessoa benquista pela mídia. Todos o julgam simpático e charmoso. O político ideal para um novo Brasil.
— Tanta hipocrisia! Seu marido não passa de um homem inescrupuloso e corrupto. Um dia ele terá de arcar com tudo isso.
— Aqui neste país? – indagou Luísa, em tom de deboche. – Esta é a terra dos espertos. Infelizmente, não vivemos num mundo justo.
Eunice a apertou novamente de encontro ao peito.
— Não diga isso, minha querida. Ainda vai ser muito feliz. Você merece.
Continuaram abraçados por mais algum tempo até que ouviram a voz grave e irritante de Genaro romper pela casa. Luísa assustou—se.
— Ele nunca vem para casa antes do anoitecer. O que será que aconteceu?
Genaro subiu os lances de escada de maneira rápida e entrou abruptamente no quarto. Mal olhou Luísa ou Eunice.
Foi direto para o closet, meneou a cabeça e escolheu um terno escuro. Ordenou:
— Eunice, tire os amassados deste terno. Ele deve estar impecável.
— Sim senhor. Para quando?
— Para ontem, mulher – ele atirou o terno sobre os braços dela. – Seja rápida, o motorista nos aguarda. Eu e Luísa vamos viajar. Agora.
Luísa estava atônita.
— Viajar? Agora?
— Estou falando em outro idioma? – retrucou Genaro, num tom ríspido.
— Para onde?
— Bauru.
— Oras, seus comícios começarão somente quando oficializarem sua candidatura e.
Genaro a cortou.
— Que comício que nada! Vamos a um enterro. Se vista com apuro, com elegância. Mulher minha tem de estar bem vestida sempre. Entendeu?
Genaro falou e foi tirando a roupa do corpo, caminhando para o banheiro.
— Seja rápida, nada de demora. Vou me banhar e, quando estiver botando a gravata, quero você pronta.
Luísa assentiu com a cabeça. Entrou no closet e escolheu um conjunto preto, composto de casaquinho e saia. Bem elegante bem discreto e perfeito para a ocasião. Ela debruçou a roupa sobre a cama, com delicadeza, e caminhou para o banheiro. Genaro estava se enxugando.
— Quem morreu?
— Sua sogra.
Luísa não entendeu de pronto.
— Hã? O que disse?
— Minha mãe morreu. Ataque cardíaco.
Luísa levou a mão à boca.
— Pobre Loreta. Meu Deus!
Ela caminhou até o marido e o abraçou.
— Oh, querido. Agora entendo por que está tão nervoso e tão agitado. Por que não me disse antes? Por que não me telefonou? Creio que você deva estar triste, bastante abalado e.
Luísa parou de falar. Genaro a estava mordiscando a orelha, o seu pescoço. A aproximação da esposa o excitou. Ele largou a toalha e a abraçou com força.
— Genaro o que é isso?
— Eu a quero agora.
— Por favor... Como pode? Sua mãe acabou de morrer, não tenho cabeça para intimidades. Não agora.
— Eu a quero.
— É absurdo e...
Ela procurou afastar—se, mas Genaro era bem mais forte. Ele a apertou e em seguida arrancou sua roupa. Atirou Luísa contra o chão frio do banheiro e a possuiu ali mesmo. Ela chorava baixinho. Fechou os olhos e orou a Deus para que a matasse naquele instante, tamanha dor e sofrimento, enquanto seu marido praticamente a estuprava, sem dó nem piedade.


***


O carro que levava Genaro e Luísa chegou a Bauru por vota das quatro da tarde. Luísa foi calada, óculos escuros, olhos inchados de tanto chorar, fosse pela violência sofrida horas atrás, fosse pela morte da sogra. Ela gostava de Loreta, muito. A própria sogra a havia alertado sobre o comportamento bruto e insensível do filho, mas Luísa deixou—se levar pela ilusão. Sonhava em casar e ter filhos. E julgara Genaro ser o marido ideal para a realização de seus sonhos.
Filha de um cafeicultor da região de Campinas, Luísa cresceu coberta de regalias. Os negócios da família foram de mal a pior e eles perderam tudo. Apareceu um pequeno negócio de terras para seu pai em Bauru e assim mudaram para a cidade.
Luísa conheceu Genaro na festa em que ele fora coroado o mais jovem vereador do município.
Neuza, mãe de Luíza, frustrada com a vida pobre e procurando oportunidades para se tornar rica novamente, a qualquer custo, viu na filha uma mina de ouro.
Fez de tudo para que ela se casasse com Genaro. Gastou o que não podia, fez jantares, praticamente vendeu Luísa ao político.
Luísa hesitou ante o casamento, não o amava. Será que deveria mesmo se casar?
— O amor vem com o tempo – garantia a mãe.
O tempo passou e o amor não veio. Luísa ao menos queria ter um filho para dar um novo colorido à relação, mas havia algo de errado, fosse com ela, fosse com o marido. Estavam casados havia cinco anos e ela não engravidava. Nem com reza braba.
Genaro queria uma mulher pura, virgem, cujo passado, caso esmiuçado, não comprometesse o grande plano para seu futuro: tornar—se Presidente do Brasil. E Luísa era moça bonita, recatada, estudara em bons colégios, era fina, trejeitos elegantes e cativava as pessoas com seu sorriso açucarado. Era a esposa ideal para um político com as pretensões de Genaro.
Sabendo da hesitação de Luísa, na época com apenas dezessete anos de idade, Genaro prometeu a Neuza que, se ela convencesse a filha a se casar com ele, todos sairiam no lucro. O político prometera a Neuza gorda pensão vitalícia, o que encheu de cobiça os olhos de sua futura sogra.
Não obstante, a vida de casado não se mostrava tão encantadora assim. Genaro, quinze anos mais velho que Luísa, mostrara—se homem bruto e agressivo. Transava com a esposa como se estivesse sobre um animal ou uma boneca inflável. Machucava Luísa, quase a sufocava com seu peso e sua falta de amabilidade. Terminava de amá—la, pegava um paninho na cômoda ao lado da cama, limpava—se, virava—se de lado e dormia ronco alto, noite adentro.
Luísa chorava por inúmeros motivos, fosse de dor, de falta de prazer, por sentir—se usada e mal—amada. Encheu—se de coragem e, certo dia, tentou conversar com o marido sobre a intimidade de ambos.
— Querido, precisamos ter uma conversa séria.
— Que conversa? – perquiriu ele, tom seco e agressivo.
— Sobre nossa vida sexual.
— O que tem ela?
— Eu não sinto prazer e.
Genaro a cortou secamente.
— E quem foi que disse que você tem de sentir prazer?
— Bom, é que eu li numa revista feminina...
— Que absurdo é esse?
— Genaro, estamos vivendo em uma época de liberação de costumes e a mulher pode e deve sentir prazer com o companheiro. Não acho justo você deitar—se sobre mim e mal se importar se eu sinto ou não...
Luísa não terminou de falar. Iria continuar de maneira delicada e repreender o marido pelas atitudes brutas e indelicadas. Estava com vontade de afirmar, de maneira corajosa e sincera, que ela estava insatisfeita e que ele precisava ser mais gentil. A conversa foi suspensa por violento soco que atingiu em cheio seu olho esquerdo. Luísa mal teve tempo de se defender, de tão inesperado. O soco de Genaro levou—a ao chão, sem dó nem piedade.
— Mulher minha não trata desses assuntos comigo. Você é minha esposa, e não uma meretriz. Comporte—se e nunca mais toque nesse assunto.
Esse fora o primeiro – dentre muitos – socos na cara. Genaro a reprimira com veemência e nem queria mais tocar no assunto.
Para agravar a situação, o tempo passava e Luísa não engravidava. Genaro começava a perder a paciência com ela. Queria e precisava ter filhos. Todo político que se preze – acreditava, – tinha de ter, mesmo que aparentemente, uma linda e bela família.
— Depois do enterro, assim que chegarmos a São Paulo quero um filho.
— Precisamos ir ao médico – falou ela num tom indiferente. – Doutor Ribeiro disse que precisamos fazer exames e.
— Cale a boca! – bramiu Genaro. – Você não quer engravidar. Sei que toma pílula escondida.
— Quem disse isso? Eu nunca tomei pílula. Sempre sonhei em ter filhos.
— Sou cabra macho. Tenho leite.
— Algum de nós deve ter problemas.
— Só se for você – contrapôs Genaro, de maneira brusca. – Vai ver é seca. Além de chata, é seca. Como pude arrumar uma mulher tão inútil?
Luísa não respondeu. Não adiantava argumentar com Genaro. A palavra dele era lei. Sempre.
O motorista encostou o carro no meio—fio. Desceu e abriu a porta para Genaro. Ele saiu e puxou a esposa de maneira nada delicada.
— Comporte—se – falou baixinho e entre dentes. – Sou muito conhecido em Bauru. Quero que chore muito e finja sentir bastante a morte de minha mãe.
— Eu não preciso fingir – retrucou Luísa, com a voz já embargada. – Eu gostava muito de sua mãe e minhas lágrimas são sentidas. Não sou como você, que mal derrubou uma lágrima até agora e parece estar feliz com o fato de ela não estar mais entre os vivos.
— E estou.
— Não acredito no que ouço, Genaro.
— Mamãe era um tanto estouvada. Mulher boa, mas meio doidivanas. Fico grato de não ter mais de me preocupar com ela. Você não sabe o quanto ela me custava caro.
— Sua mãe? Do que está falando?
— Você é mesmo uma caipira idiota. Casei com você porque era pura e inocente. Mas nunca poderia imaginar que fosse tão burra.
— Pode me tratar de maneira polida?
— Não me desafie, Luísa ou...
— Ou o quê? Vai me encher de pancada aqui no meio da multidão? Do seu eleitorado? Isso pode manchar a sua reputação, futuro deputado Genaro.
Ele teve vontade de socá—la ali mesmo na frente de todos. Não podia. Tinha de zelar pela sua figura de bom moço. Mordeu os lábios com uma fúria incontida e logo sentiu o gosto amargo de sangue. Cerrou os punhos por trás de si. Respirou fundo e voltou à questão.
— Tem dificuldade de perceber a realidade à sua volta.
— O que isso tem a ver com Loreta?
— Mamãe era ninfomaníaca, saía com rapazotes de idade suficiente para ser seu neto e eu tive de gastar muito dinheiro para calar a boca de jornalistas e colunistas loucos para levar esse lado desconhecido de mamãe aos jornais e revistas de fofocas.
— Não acredito nisso. Sua mãe era boa.
— Boa, porém ordinária. Agora que morreu, fico aliviado. Eu sou um político de respeito e, de agora em diante, não terei que temer suas declarações e seu comportamento devasso. Logo vão esquecer dela e eu poderei continuar com meus planos de conquistar o Planalto. Você verá.
Luísa ia contestar, mas Genaro a cortou e a puxou com aspereza e violência.
— Agora vamos. Padre Osório nos espera para fazer uma oração e realizar o sepultamento.
Luísa meneou a cabeça para os lados. Como pudera se casar com homem tão vil? Por que se deixara enganar pelas aparências? Quanto mais suportaria esse marido, esse casamento fracassado desde o início e os tapas que feriam seu corpo e sua alma? Como juntar forças para se tornar forte e se separar de Genaro?
Ela abaixou a cabeça com pesar. Agora não era o momento de pensar nesse assunto.
Luísa espantou as idéias com as mãos e dirigiu—se para a sala em que velavam o corpo de Loreta.
As pessoas se acotovelavam mais para ver Genaro do que para ver o corpo da mãe dele. Queriam tirar foto ao lado dele, outros, abraçavam—no como se fossem íntimos, lamentando – de maneira notoriamente fingida – a morte de Loreta. Genaro sorria, fazendo cara de choro, contorcia o rosto numa dor jamais sentida, mas fazia muito bem seu papel. Posou para fotos, abraçou senhoras que nunca vira na vida.
Luísa aproveitou que Genaro se deixara fascinar pelos flashes e afastou—se, parando diante do caixão. Passou as mãos pela testa da sogra, abaixou—se e beijou Loreta no rosto. Em seguida fez sentida prece.
Luísa não percebeu, mas assim que começou a orar, o ambiente começou a irradiar uma luz de coloração amarelada, que brotava de seu peito, espalhava—se ao redor do caixão e concentrava—se sobre a região do umbigo de Loreta. Um espírito que trabalhava no local aproximou—se e sussurrou em seu ouvido:
— Obrigado, querida. Não sabe o quanto sua prece é importante para que possamos desatar o cordão de prata que prende o espírito de Loreta ao corpo físico. Infelizmente, a maioria das pessoas vem ao velório como se estivesse vindo a uma partida de futebol e esquece de orar pelo ente querido que acabou de desencarnar. Você fez diferente. E merece nosso agradecimento. Você ainda vai ser muito feliz.
Luísa não escutou, mas sentiu tremendo bem—estar tão logo terminou de orar. Uma lágrima sentida escorreu pelo canto de seu olho.
— Descanse em paz, Loreta.
— Falando com os mortos?
Luísa abriu os olhos e, por instantes, não conseguiu identificar a voz.
— Não vá me dizer que está tão sentida assim. Ela nem era sua parente de sangue! Você foi à agregada que se deu bem.
A voz esganiçada e malévola fez—se notar. E, para não ter dúvida de quem falava logo Luísa sentiu o mau hálito característico que a boca dele exalava. Só podia ser ele. Ela não ocultou a contrariedade em ter de cumprimentá—lo.
— Meus sentimentos, Gregório.
— Obrigado, querida cunhada. Estou muito triste,
Luísa notou o tom de deboche na voz. Procurou manter certa cordialidade na conversa.
— Fiquei bastante chocada. Loreta vendia saúde.
— E como vendia! Você não sabe do que minha mãe era capaz.
— Não entendi.
— E nem precisa – respondeu Gregório, num tom para lá de irônico.
— Chegou faz tempo?
— Logo que Isilda me ligou, peguei um jatinho e vim para cá. Desci na fazenda de um conhecido, aqui perto. Detesto viajar de carro, você sabe disso.
— Cadê Isilda? Ela gostava tanto de Loreta.
Gregório deu uma risadinha abafada.
— Digamos que Isilda fez uma longa viagem. De emergência. Creio que nunca mais a veremos.
— Estranho.
— Você deve estar triste, não?
— Nem tanto – ele sorriu. – Sabe que eu e mamãe nunca nos demos bem. Ela era bem sovina, não me ajudava. Mas era boa pessoa. Agora vai descansar no céu e eu poderei botar a mão na minha parte da herança.
— É só nisso que pensa Gregório? Na herança?
— Luísa, sua tolinha. Em que mais eu deveria pensar? Na morte da bezerra? – ele deu uma gargalhada que ecoou pela sala. Algumas pessoas espantaram—se com a risada, outras acreditaram que fosse uma catarse do filho, que Gregório estivesse em estado de choque, em decorrência da morte de sua amada mãe.
Luísa chocou—se com a ausência de sentimentos dele.
— Você e seu irmão são igualzinhos. Não tem sentimento.
— Igualzinhos não. Graças a Deus não nasci com vontade de gostar de mulher.
Ainda bem, imagine eu apaixonado por uma caipira decadente como você? Genaro é que tem estomago. Agora me dê licença, querida, tenho de tratar do enterro.
Luísa mal podia acreditar no que ouvira. Gregório e Genaro eram muito parecidos na essência. Ainda estavam muito presos nas coisas materiais, não davam a mínima para os semelhantes, não tinham respeito por nada nem por ninguém.
— Será que são felizes? – indagou para si mesma.
O espírito que terminava de desatar os últimos nós que prendiam o espírito de Loreta ao corpo físico balançou a cabeça negativamente para os lados.
— Você não faz idéia do quanto são infelizes, minha cara. Não faz a mínima idéia...



CAPÍTULO 5



Após jantarem em um restaurante sofisticado e freqüentado por figurões da alta sociedade, Caio e Guido retornaram para casa. Mal entraram no apartamento e a vontade de fazer sexo se fez notar. Algo impressionante como esses espíritos eram capazes de influenciar e tumultuar os pensamentos dos dois rapazes. Caio sentiu um arrepio gelado percorrer—lhe a espinha e um calor sem igual no baixo—ventre.
— Será que você não tem uma cliente para mim? Estou muito excitado.
— Opa! – exclamou Guido, contente. – Mal chegou à cidade e quer começar na nova profissão? — perguntou, gargalhando, enquanto enrolava um pedaço de seda. Guido preparava um cigarro de maconha.
— Eu preciso fazer sexo, Guido. Meu corpo todo anseia por isso.
— Agora é muito tarde. Madrugada. As mulheres que atendemos são ricas e de família. Elas têm sobrenome de peso, são conhecidas da sociedade. Seus maridos mal desconfiam de suas estripulias. Eu nunca posso ligar para elas. Jamais. Essa é uma das regras. Elas é que sempre ligam e, de preferência, nunca à noite. Nesta hora elas estão em casa, fingindo ser esposas amorosas e recatadas – concluiu Guido, de maneira irônica.
Ele acendeu o cigarro de maconha, tragou—o vagarosamente, prendeu a respiração por instantes, a fim de que a droga surtisse efeito e relaxasse seu corpo. Em seguida, ofereceu—o ao companheiro.
Caio contorcia—se de prazer no sofá. Pegou o cigarro e aspirou uma grande quantidade de fumaça. Sentiu que sua cabeça latejava, porém seus sentidos iam—se entorpecendo. Caio não percebia, mas os espíritos ali presentes, agora inúmeros, sugavam—lhe as energias para perpetuar em seus corpos já degradados, sensações de prazer.
— Eu tenho de fazer sexo, Guido. Estou ficando louco. Vamos a algum lugar, uma boate ou mesmo pegar uma mulher na rua.
— Isso eu não faço, embora esteja morrendo de tesão – Guido também era açoitado pelo bando de espíritos empedernidos e desejosos da energia que emanava das relações sexuais.
— Guido... Eu...
Caio parou de falar. Ele infelizmente, não suportou tamanho assédio dos espíritos. Tomado de um desejo incontido e desenfreado, atirou—se sobre Guido. Empurraram móveis e ambos foram ao chão. Um rasgava a roupa do outro e amaram—se de maneira violenta e insaciável. Enquanto ambos faziam aquele sexo induzido, alguns espíritos abraçavam—se aos corpos dos jovens para sentir prazer. Outros batiam palmas e inalavam a fumaça que saía do cigarro de maconha. E outros enfiavam – literalmente – a boca nos copos de bebida, para dali extraírem os fluidos que os entorpeciam e lhes davam a sensação de aparente euforia que a bebida causava—lhes quando estavam encarnados.
Os dois fizeram sexo por horas e, quando seus corpos físicos já não mais agüentavam e o dia estava por nascer, caíram num sono agitado e atormentado.
Seus perispíritos desgrudaram—se de seus corpos e ficaram alguns palmos acima do corpo físico. Balançavam e tremiam, enquanto alguns espíritos ainda tentavam sugar—khes as energias resultantes do ato sexual.
Num canto da sala , de maneira imperceptível a esses espíritos, por conta da diferença de sintonia energética, Norma chorava copiosamente. Havia feito prece, pedido ajuda, mas em vão. Era impossível que seu irmão recebesse algum tipo de ajuda, por ora. Caio estava usando de seu livre—arbítrio e ela não tinha como interceder e afastar aqueles espíritos do convívio de seu irmão.
O espírito bondoso de sua irmã sentiu—se impotente e também não podia ficar tanto tempo ali. O ambiente estava carregado de uma energia pesada e sufocante. Embora protegida e vibrando numa sintonia diferente daquele ambiente, Norma era atingida por uma náusea sem igual.
Também pudera. Era necessário manter a mente ligada em bons pensamentos e muito equilíbrio.
Afinal, não era qualquer espírito de luz que podia estar ali e não se deixar influenciar pela baixa vibração que o ambiente exalava. Norma era espírito evoluído, que reencarnara por amor a Caio e Rosalina. Havia programado uma estada curta na Terra e, tão logo desencarnasse, faria de tudo para ajudar, orientar e inspirar bons pensamentos à sua mãe e, principalmente, ao seu irmão.
Norma só pensava em coisas boas, a fim de não se deixar impressionar pelo ambiente carregado. Pelo chão e pelas paredes do apartamento corriam bichos astrais, na forma de larvas. Eles percorriam o ambiente e o corpo dos rapazes. Alimentavam—se dos fluidos deles. Tratava—se de criações astrais de baixa vibração, que se formam em ambientes em que o sexo é promovido de maneira irresponsável. O apartamento de Maximiliano tornara—se foco de criação dessas larvas astrais e de estada para os espíritos desencarnados e inconscientes de seu estado.
Norma orou com tanto fervor que uma forte luz brotou de seu peito e irradiou—se pelo apartamento, destruindo, por ora, as larvas astrais.
Os espíritos mais conscientes assustaram—se com a luminosidade repentina e correram dali. Outros, mais endurecidos, fincaram pé e, mesmo sentindo seus corpos serem queimados pela luz, não se deixaram abater.
A luz promoveu uma limpeza no ambiente e logo o ar sufocante se dissipou, promovendo, inclusive, um sono mais tranqüilo e reconfortante para os rapazes.
O sol já ia alto quando Caio e Guido acordaram. Meio zonzos, cabeça pesada, os dois espreguiçaram—se. Guido encarou Caio e sorriu. Levantou—se, pegou as roupas estiradas e rasgadas e sentou—se no sofá. Caio levantou—se enquanto se apoiava em alguns móveis. Seus olhos encontraram os de Guido e ele sentiu vergonha.
— Não sei o que me deu e.
Guido procurou tranqüiliza—lo.
— Chi! – ele levou o dedo para os lábios. – Não se deixe corroer pela culpa. Ambos sentimos vontade e... Passou. Acabou.
— Eu juro que isso nunca mais vai se repetir – contrapôs Caio, num misto de censura e reprovação.
— Não sou homossexual e nunca fiz isso antes e.
— Calma! – exclamou Guido. – Ninguém aqui está pondo em xeque a sua masculinidade. Aconteceu e ponto final. Prometo que esse será o nosso segredo.
— Não sei onde estava com a cabeça, Guido. Nunca fui tomado por um desejo tão incontrolável quanto este. Eu simplesmente perdi o controle sobre mim mesmo. Perdi o controle total de minhas emoções.
— Isso passa. Você mal chegou à cidade e um novo mundo se descortina à sua frente. Sabe, Caio, esse mundo de dinheiro e de possibilidades nos fascina e nos excita. Entendo porque você ficou tão louco de desejo na noite passada. Entretanto, tenho certeza de que logo você vai ter vasta clientela e ganhar muito dinheiro. Se você fizer com as mulheres um décimo do que fez comigo, vai se tornar um homem rico, em pouco tempo.
Potencial você tem. E muito.
Caio baixou os olhos de maneira envergonhada. Por fim, tornou:
— Já que aconteceu o que aconteceu entre nós – a voz de Caio era abafada –, tenho algo a lhe confessar.
— Oba, adoro confissões.
— Bom Guido, na verdade, eu quis vir a São Paulo para ser modelo.
— Modelo?
— Uma amiga em Bauru afirmou que levo jeito.
Guido o observou de maneira atenta, por instantes.
— Você leva jeito sim. Tem um rosto bonito, bem masculino. Eu posso ajudá—lo. Conheço muita gente influente. Amanhã vou levá—lo a uma boate sensacional. Tem muito figurão da alta sociedade lá.
— Não tenho dinheiro Guido.
— Com as clientes que vou lhe arrumar, logo estará com os bolsos cheios. E quem disse que precisa de dinheiro agora?
Nunca ouviu falar em convites?
— Claro. Sou caipira, mas não sou burro.
Guido riu.
— Eu sou bem relacionado, tenho convites para sairmos todas as noites, se você quiser.
— E para que isso vai servir para mim?
— Ora, Caio se quer ser modelo, você precisa fazer contatos, conhecer gente rica e influente, senão não deslanchará nem em São Paulo nem na China. O relacionamento é tudo, meu caro. No entanto... – ele hesitou.
— No entanto?
— Você se veste muito mal. Seu cabelo está mal cortado. Você é muito bonito, mas precisa de uns retoques aqui e acolá. Se aspira ser modelo, precisa de certos cuidados. A imagem é tudo. Amanhã trataremos disso – Guido aproximou—se e encostou seu rosto bem rente ao de Caio. – Abra a boca.
— O quê? – perguntou aturdido. – Eu já disse que não sou chegado e.
Guido gargalhou.
— Bobo. Abra a boca. Não vou beijá—lo, quero fazer uma inspeção. Vamos, abra a boca.
Caio abriu—a meio sem jeito. Guido olhou para dentro, perscrutou a boca do rapaz.
— Seus dentes não estão tão ruins assim. Mas precisamos procurar um dentista. Boca bonita é fundamental.
— Eu não tenho dinheiro, já disse.
— Mas eu tenho. Eu lhe empresto. Pode contar comigo.
— Não é justo.
— Sem muitas delongas, Caio. Você não quer ser um modelo famoso?
— Quero.
— Então precisa ter boa aparência. Você é um cara bonito, boa pita, tem um corpo naturalmente bem torneado, mas está com a aparência desleixada. Precisamos torná—lo um jovem atraente e sedutor. E com cara de bem—nascido. Isso é fundamental.
— Puxa, você está sendo muito legal comigo, Guido. Só uma pessoa me ajudou tanto assim na vida. E eu pensei que nunca mais fosse encontrar gente bacana assim.
— Quem é essa pessoa?
— Uma amiga de Bauru. A mesma que disse que eu levo jeito para ser modelo.
— Como ela o ajudou?
— Deu—me dinheiro para poder vir para cá, para as despesas básicas. Sarita é muito legal.
Guido riu.
— Sarita. De onde essa mulher tirou esse nome? Será que em homenagem à famosa atriz espanhola, Sarita Montiel?
— Não sei. Eu sou bronco, não tenho cultura como você. O nome dela é Sarita mesmo.
— Você gosta dela?
— Sim, mas como amiga. Ela é uma boa pessoa, ajudou—me bastante.
— Você é apaixonado por alguém?
— Não.
— Não deixou nenhum amor para trás?
— Sou muito jovem para isso.
— Isso pode comprometê—lo no futuro.
— Nada – afirmou Caio. – Totalmente desimpedido.
— Isso é bom. Nunca se envolveu com algum tipo de encrenca mais pesada?
Caio hesitou por um instante. Pensou em Loreta, na maneira como ela morrera de sua fuga e do medo de Isilda dar com a língua nos dentes. Mas também não poderia se abrir totalmente para Guido. Ele parecia ser um cara legal, porém mal se conheciam. Caio ainda estava se sentindo deveras envergonhado por ter se deitado com Guido horas antes. Seus sentimentos estavam confusos e era melhor não tocar nesse assunto. Por ora.
— Nunca me envolvi em nenhuma encrenca – considerou Caio. – Sou um rapaz do bem.
Guido aproximou—se e lhe estendeu a mão.
— Então confio. Amigos?
— Sim. Amigos.
Caio apertou a mão do companheiro e sentiu os pêlos eriçarem. A certa distancia, Norma tentava, a custo, induzi—lo a se afastar e sair daquele apartamento.
— É inútil – confidenciou Carlota, um espírito lúcido, espécie de tutora de Norma e cuja luz procurava inundar o ambiente de boas energias. Ela recebera o pedido de ajuda de Norma e seu espírito rumou até o apartamento.
Carlota, ao chegar, passou delicadamente o rosto na face de Norma e tornou, numa voz doce, porém firme:
— Ele precisa aprender a se defender, ser dono de seu destino. Não podemos ficar a mercê dele e impedir que confronte a verdade. Na vida, Norma aprendemos ou pela inteligência, ou pela dor.
— Meu irmão é bom.
— Isso não impede que ele esbarre em pessoas de má fé. Terá de aprender a reconhecer aqueles que lhe querem bem.
— Gostaria de ajudá—lo.
Então ore bastante por ele. Tenho certeza de que nossos amigos espirituais poderão prestar—lhe auxilio, na medida do possível. Agora, precisamos partir. Você já fez muito pelo ambiente. Saiba que em breve as larvas astrais voltarão com toda a intensidade, pois a mente de Guido as projeta com a maior naturalidade.
— Meu irmão está se desvirtuando do caminho que traçou antes de reencarnar. Ele prometeu que não iria se atirar no sexo. Agora sua alma anseia por isso.
— Concordo – assentiu Carlota.
— Mas Caio é dono de si. No momento em que perceber que esse não é o seu verdadeiro caminho, vai mudar.
— Pressinto que até lá ele vai se meter em encrenca. Precisará mesmo passar por tudo isso?
— Cada um é responsável por si. A vida nos deu a possibilidade de fazer escolhas, de decidir o melhor para nós. Seu irmão, no momento certo, vai acordar para as verdades da vida. Agora, precisamos partir. O tempo urge e você está há muito tempo neste ambiente pernicioso. As energias logo afetarão seu corpo perispiritual. Vamos.
Norma assentiu. Mesmo a contragosto, pousou suas mãos nas de Carlota e os dois espíritos desvaneceram no ambiente.
Caio trocou algumas outras idéias com Guido e foi para o banheiro. Tomou uma ducha reconfortante e em seguida voltou a se deitar. Jogou—se na cama e logo adormeceu.
Estava por um lado cansado da noite que tivera e por outro, extenuado diante das novidades e do que a vida lhe ofertava dali em diante. Deitou—se, todavia, não teve um sono tranqüilo.
Nos dias que se seguiram, a vida de Caio foi de festas, bebidas, mulheres e noitadas. Guido apresentou—lhe duas clientes e, como na época das peripécias com as meninas de Eny e Loreta, Caio amou—as de maneira ímpar. A propaganda correu à boa pequena e logo Caio tinha uma boa carteira de clientes. Ora ele as atendia em hotéis, ora ele as recebia no apartamento de Max, muito discretamente, a fim de não chamar a atenção dos vizinhos e, principalmente, do porteiro. O rapaz começou a ganhar dinheiro e distanciar—se de seus verdadeiros objetivos.
Havia momentos em que sua consciência o chamava para que se afastasse desse caminho. Norma, inutilmente, tentava chamar o irmão para que despertasse e tivesse tempo de se libertar desse mundo atraente, porém promíscuo. Em vão.
Caio às vezes pensava em parar, prometia a si mesmo que não mais atenderia às mulheres. Não obstante, quando recebia uma ligação, ele mal sustentava sua promessa. Marcava o encontro e, após o serviço, sentia—se triste e vazio. O remorso apoderava sua alma.
E, de mais a mais, o grupo de espíritos grudados em Caio, desejosos de que ele continuasse com aquele hábito, eram muitos e mais fortes que sua própria vontade.
Guido o levou a todos os lugares da moda, a todas as boates, bares, restaurantes em que poderiam esbarrar em gente importante, influente.
Caio cortou os cabelos à moda, comprou roupas chiques e, com os toques de Guido, tornou—se rapaz admirado e requisitado pelas mulheres, fossem clientes ou simples admiradoras de sua beleza.
Foi numa madrugada, ao saírem de um bar na região dos Jardins, perto do apartamento de Guido, que os dois foram abordados por um homem alto, rosto quadrado, nariz proeminente e de trejeitos efeminados.
— Estou lhe procurando há dias. Onde se meteu? – inquiriu Gregório, de maneira severa.
— Estava mostrando a cidade ao meu novo amigo.
— Você ficou de ir à minha casa e acertarmos o valor daquele serviço. Parece que não quer receber.
— Longe disso, eu simplesmente perdi a noção do tempo, esqueci—me.
O homem encarou Caio da cabeça aos pés.
— E você, criança, quem é? Nunca o vi por estas bandas.
— Cheguei a São Paulo faz pouco tempo – respondeu Caio. – O Guido tornou—se meu amigo e tem me levado aos lugares da moda.
— Amigo do Guido? Só amigo?
Caio não gostou da maneira como o homem lhe falou e percebeu o tom malicioso e o mau hálito exalado por aquele indivíduo de fala afetada.
— Só amigo. Por quê?
— Por nada. Você bem que podia trabalhar para mim.
— Para o senhor? Essa é boa!
— Por que não?
— Como?
— Petulante o menino. Gostei. Pelo menos você tem atitude – ele aproximou—se de Caio e o mau hálito invadiu as narinas do rapaz, provocando—lhe leve mal—estar. – Procure—me amanhã na fábrica. Aqui está meu endereço – ele retirou um cartão do paletó e o entregou a Caio.
— Estou sentindo que você poderá me passar para trás – alegou Guido.
— Você não nasceu para essa profissão.
— Eu tenho porte – objetou Guido.
— Mas não tem rosto bonito, criança.
— Mas...
O homem o cortou.
— Nem mas, nem meio mas.
E, para que trabalhar? Você vive a custa daquele rico expositor, curador, sei lá.
— Max é rico, muito rico.
— E por que quer trabalhar? Contente—se com esse seu coroa, aliás, coroa não, mina de ouro.
Disse isso e se afastou. Guido balançou negativamente a cabeça para os lados.
— Ele sempre me trata com desdém. Estou cheio dele.
— Quem é esse homem?
— Não leu o cartão?
Caio fixou os olhos no cartão e sentiu as pernas falsearem por alguns instantes. Tratava—se de um cartão comercial, e nele estava escrito: "Gregório Del Prate – Presidente". Ele então balbuciou:
— É que... Bom...
Guido riu.
— Sei, você ficou aturdido porque recebeu um cartão do poderoso Gregório Del Prate, presidente da famosa Cia. De Perfumes. Não disse que precisava sair e se relacionar? Esse homem pode lhe abrir muitas portas.
— Mas você acabou de dizer que ele lhe trata mal e que está cheio disso tudo.
— Isso não importa. Em todo o caso, vou lhe confiar alguns de meus segredos.
Ele puxou Caio pelos braços e foram para outro bar, mais sossegado. Guido cumprimentou o gerente e em seguida sentaram—se numa mesa afastada, a fim de que pudessem conversar sem serem ouvidos. Guido pediu ao garçom dois drinques e, assim que chegaram, eles brindaram. Ele começou a relatar:
— Eu conheci o Gregório há dois anos. Ele tentou me lançar como modelo de um de seus perfumes, o Netuno. Todavia, o perfume não decolou, meu rosto não caiu nas graças do público e eu fiquei sem trabalho. Aí surgiu um almofadinha metido à modelo e teve mais sorte. Sorte curta, diga—se de passagem. Marco Antônio fez campanha para o perfume Nero e, bem, você bem sabe que esse perfume vende como água, no mundo inteiro. Marco Antônio ficou famoso, apareceram outras propostas e Gregório não está podendo mais cobrir seu cachê.
Caio não emitia som. Estava mudo, o suor escorria pela fronte.
— Você está se sentindo bem? – perguntou Guido, preocupado.
— E... Estou. É que eu já ouvi esse nome em algum lugar – balbuciou sem saber o que, de fato, dizer ao amigo.
Guido continuou e não deu muita atenção à maneira desconfortável com que Caio ouvia a conversa. Caio, procurando manter as aparências, questionou:
— E como se resolveu o impasse com o Marco Antônio?
— Não precisou se resolver – respondeu Guido, sorrindo. – O idiota teve o que mereceu.
— Como assim?
— Digamos que ele sofreu um pequeno acidente e está impossibilitado de trabalhar, seja para o Gregório, seja para outra empresa ou agência de modelos.
— Sério?
— Sofreu queimaduras e não poderá voltar tão cedo ao mercado. Se é que vai ter chance de voltar para o mercado de modelo.
— Pobre coitado – rebateu Caio, sentindo compaixão pelo rapaz acidentado.
— Eu vou receber um bom dinheiro do Gregório porque fui eu quem ajudou Marco Antônio a se machucar.
— Não entendi...
Guido fez um gesto vago com a mão.
— Uma hora eu explico melhor. O bom disso tudo é que a vaga dele precisa ser preenchida na Cia. De Perfumes. Talvez Gregório queira você para ser seu novo garoto—propaganda.
— Eu não gostei dele.
— E adianta gostar ou não? O que importa são as oportunidades que aparecem.
— Mas você não queria ser o modelo do perfume Nero? Eu não posso tomar seu lugar.
— Você não vai tomar o meu lugar. Eu tenho o Maximiliano, para que vou trabalhar?
Além do mais, eu não tenho esse rosto bonito que você tem.
Caio sorriu.
— Você tem sido muito bom para mim, um grande amigo. Nunca trairia sua confiança.
— Obrigado, meu caro. Não se esqueça de que o Max é louco por mim e, quando voltar de Londres, vai me dar um apartamento e aumentar a minha mesada. Prefiro ter alguém que me sustente a trabalhar feito burro de carga.
— Vai ser dependente dele o resto da vida?
— Claro! – rebateu Guido. – Eu quero muito dinheiro, entende? Muito. Muito mais que qualquer emprego possa me dar. Eu falo em ser rico de verdade, em viver no luxo, viajar para lugares sofisticados e ficar hospedado nos hotéis mais caros do mundo. E conseguirei isso tudo trabalhando? Nunca. Com Max ao meu lado, terei isso e muito mais.
E, como ele é sozinho no mundo, sem parentes, eu vou herdar tudo o que ele tem.
— Como tem tanta certeza de que ele nunca vai deixá—lo?
— Oras, porque tenho. Max é de palavra, homem de confiança. Se ele me prometeu, vai ter de cumprir, custe o que custar.
— E se ele mudar de idéia?
Infeliz essa pergunta de Caio. Os olhos de Guido brilharam rancorosos.
— Ele não vai mudar de idéia. Isso eu nunca vou permitir.
Caio sentiu ligeiro mal—estar. Era melhor sentir o mal—estar e deixar Guido soltar suas farpas. Assim ele ganharia tempo e poderia se recompor do susto. Como esse mundo era pequeno! Numa cidade enorme como São Paulo ele tinha de topar justamente com o filho de Loreta? Será que Gregório sabia do seu envolvimento com a mãe? Não, isso não era possível. Loreta era mulher discreta e ninguém sabia de nada, a não ser a empregada. Isso era coincidência. Pura coincidência, nada mais.
Gregório, mesmo que o tivesse visto em Bauru, nunca iria imaginar que fosse a mesma pessoa. Caio agora estava mudado, outra aparência, roupas bonitas e elegantes. Estava bem distante daquele rapaz caipira, cabelos mal ajambrados e roupas puídas. Era melhor afastar essas besteiras da cabeça. Gregório nunca soubera e nunca saberia do envolvimento entre ele e Loreta. Caio tinha certeza disso. Ou melhor, precisava acreditar nisso para não começar a delirar e entrar em desespero.


CAPÍTULO 6


Luísa remexeu—se nervosamente na cadeira do consultório. O médico fazia anotações e, percebendo seu estado, parou e a encarou nos olhos. Sua voz era doce e serena.
— O que a aflige Luísa?
— Genaro deveria estar aqui comigo. O Dr. Pediu que ambos viéssemos para uma conversa séria. Mas ele não faz outra coisa a não ser comício. Mal o vejo.
— Eu precisaria falar com ambos, é claro. Mas posso lhe adiantar alguma coisa.
— E então, Dr. Ribeiro?
— Temos aqui um caso de infertilidade.
— Infertilidade?
— Sim – tornou o médico. – Falo na impossibilidade de procriação. É um problema que pode acontecer com qualquer casal e deve sempre ser considerado como de ambos, pois uma parte pode apoiar a outra e, assim, a solução será mais rápida e menos dolorosa.
— Eu sou seca, é isso?
Ribeiro sorriu.
Esse termo não é apropriado. Na verdade, Luísa, a causa da infertilidade pode estar presente em ambos os sexos.
A investigação diagnóstica deve começar pelo homem, por tratar—se de exames menos evasivos e mais simples. Depois, partimos para a mulher. Mas – ele salientou – como Genaro se recusou a fazer exames, começamos por você.
— E? – perguntou ela, apreensiva.
— Você não tem nada. Aparentemente, pode engravidar à vontade.
— Quer dizer que Genaro tem problemas?
— Sim. Seus exames me dão certeza de que você não tem problema algum para engravidar. Logicamente, o problema está em Genaro.
— Santo Deus! – exclamou Luísa.
— Ao contrário do que alguns pensam, a infertilidade não tem nada a ver com impotência. Isso tem de ficar bem claro para que Genaro não se sinta constrangido ou diminuído.
— Ele se diz cabra macho.
Doutor Ribeiro riu:
— Cabra macho, mas infértil.
— Pode ser genético, doutor?
— Não creio. Posso citar como exemplos de causa da infertilidade masculina, a obstrução do sistema de condução do espermatozóide, causas hormonais e varicocele.
— Varicocele? O que é isso?
— É o processo de dilatação das veias do testículo, semelhante àquela que ocorre nas pernas.
— Varizes?
— Isso, Luísa. Entendeu bem. Como varizes. Pode causar dor e infertilidade. O tratamento, normalmente, é cirúrgico. Pelos seus exames, tenho certeza de que o problema está com seu marido. Por essa razão, queria reunir os dois aqui no consultório.
— Genaro não vai entender. Ele diz que sou fria e jura que tomo pílulas.
— Quero que o traga ao consultório, qualquer dia, qualquer horário. Sei que ele é homem de vida pública e sua agenda de compromissos está sempre lotada. Ainda mais agora que sua candidatura foi lançada.
— É ele mal pára em casa – respondeu ela, procurando ocultar a felicidade que sentia de ver o marido raras vezes em casa.
— Deve estar muito orgulhosa de Genaro, não?
Luísa deu um sorrisinho amarelado, amuado. Procurou ocultar seu descontentamento com o marido. Estava triste, muito triste. Genaro continuava a ser grosso e bruto. Continuava a procurá—la para fazer amor e a machucava, sem dó nem piedade. Sem contar os tapas. Ela estava farta de tanto levar tapa na cara. Até quando iria suportar?
Ela estava cansada, mas Genaro lançara—se candidato às eleições para deputado federal e ela precisava segurar as pontas até o fim do ano. Estavam em abril e faltavam sete meses para a eleição.
Era muito tempo. Luísa orava todos os dias e pedia aos céus que lhe desse forças para suportar tanta dor e humilhação. Assim que saísse o resultado das urnas, ela pediria a separação. Sabia que ia arrumar encrenca com sua mãe. Mas Neuza não apanhava como ela, não sentia as dores físicas e morais que ela sentia.
Luísa despediu—se do médico, saiu do consultório e preferiu caminhar, colocar as idéias em ordem. Deixara o carro a algumas quadras de distância.
Iria até uma confeitaria ali perto e depois pegaria o carro. Precisava relaxar.
O médico fora claro. Genaro era infértil, não poderia gerar ou ter filhos. Os exames dela nada aprontavam. Doutor Ribeiro não quis afirmar com todas as letras, porquanto daria o diagnóstico preciso diante dos exames realizados por Genaro.
Por um lado isso a entristecia, visto que ela era louca por crianças e desejava ter filhos. Por outro, na atual situação em que seu casamento se encontrava uma gravidez não seria bem—vinda.
A criança iria nascer num lar triste, em que os pais não se amavam e as brigas estavam se tornando recorrentes e insuportáveis.
— Melhor assim – disse ela para si mesma. – Não quero saber de filhos por enquanto. Preciso aparar as arestas do meu casamento.
— Falando sozinha, como sempre?
Luísa voltou a si e olhou para trás assustada. Ao reconhecer a amiga, abriu largo sorriso.
— Renata! É você mesma?
— Em carne e osso!
— Quanto tempo.
As duas se abraçaram e se beijaram.
— Eu a vi saindo do consultório e quase não acreditei. Você não mudou nada nesses anos todos. Continua linda e muito exuberante.
Luísa corou.
— Obrigada. Pelo que tenho passado, isso é mais que um elogio.
— Há muito tempo penso em lhe procurar. Todavia, acabo metida no trabalho e me esqueço – Renata olhou para a amiga e viu que Luísa não estava bem. – Eu tenho certeza de que esse encontro não foi ao acaso. Você está com cara de quem precisa desabafar conversar.
— Você adivinhou – suspirou Luísa. – Estou precisando de um ombro amigo. Tem tempo para mim?
— Claro! – exclamou feliz. – Trabalhei até tarde ontem e pude sair mais cedo hoje. Fui fazer umas compras e estava indo para casa.
— Mora por aqui?
— Aqui perto. Na Alameda Casa Branca.
— Estamos morando na mesma cidade! – exclamou Luísa, feliz.
— Estamos.
— Você não escapa mais de mim, Renata.
As duas riram.
— Quer tomar um chá lá em casa?
— Adoraria.
— Depois eu a levo para casa.
— Não será necessário, meu carro está a algumas quadras daqui.
Vamos conversar muito!
— Está motorizada, Renata?
Ela sorriu.
— Minha vida mudou bastante, Luísa. Desde que cheguei a São Paulo, muitas coisas aconteceram. Coisas boas e não tão boas. Mas aprendi bastante e aqui estou. Venha, será um prazer recebê—la em casa.
Luísa sorriu feliz. Gostava muito de Renata. Ela fora uma de suas grandes amigas de colégio, lá em Campinas. Fazia alguns anos que perderam o contato e agora, milagrosamente, Renata aparecia, num momento em que Luísa estava precisando de boa companhia, de uma voz amiga que lhe desse suporte para sua vida tão atribulada e infeliz.
Um espírito jovem, vendo—as se afastar abraçadas e felizes, suspirou alegre.
— Pensei que esse encontro nunca fosse acontecer.
— Você não pode se exceder, Henry. Fique atento ao controle de suas emoções. Isso lhe custou caro no passado e aqui no astral. Está careca de saber que qualquer descontrole pode resultar numa tremenda dor de cabeça. Então, componha—se.
— Eu sei Carlota. Mas eu quero nascer, ou melhor, reencarnar. Estudei anos a fio, mudei minha postura, minha maneira de ser e tenho certeza de que Luísa não vai se importar em ser minha mãe de novo.
— Não adianta colocar a carroça na frente dos bois. Tudo tem seu tempo certo. Precisamos conversar ainda com ela e com o pai da criança.
— Se é que ele não vai me abandonar de novo – falou Henry, num tom sentido.
— O futuro a Deus pertence. Vocês terão nova chance. Poderão formar uma linda família.
— Assim espero. Aprendi tanto sobre o amor, sobre o perdão, fiz tanto curso, e, olhando para minhas vidas passadas, aprendi que a paixão causa grande estrago em nossa alma. Às vezes, precisamos de muitas vidas para nos livrarmos ou mesmo nos curarmos.
— Você tem razão – ponderou Carlota. – É grande o número de pessoas insatisfeitas afetivamente.
— Por quê? – indagou Henry. – Mesmo tendo feito muitos cursos e mudado algumas crenças em relação à afetividade, é bom ouvir seus comentários. São sempre inteligentes.
Carlota sorriu:
— Obrigada, meu querido – e continuou: — as respostas das pessoas geralmente são semelhantes. Muitas vão responder que tem medo de se envolver, que a relação íntima sempre termina em dor, que para se ter alguém é preciso ceder, abrir mão de ser você mesmo para satisfazer o outro, etc.
Carlota pousou a mão no ombro do espírito afoito e prosseguiu:
— O amor, Henry, é assunto delicado, porquanto a afetividade é feita de emoções, vibrações provocadas pela mente. Muitos condicionamentos nos trazem dor e sofrimento devido a uma maneira errada de enxergar a vida. Se aprendermos a olhar certo, a dor se vai e sentimos bem—estar.
— Concordo com você, Carlota. Cada um é responsável por sua vida afetiva e mudar a mente é mudar nossas reações afetivas. Tal evolução é trabalho de cada um.
— A paixão faz parte de um conjunto de crenças que produzem emoções sacrificiosas e doloridas.
— É só ver o que aconteceu ao meu pai, em sua última vida. Por conta da paixão, arruinou a minha vida e a da minha mãe.
— Pois é. Gostar de alguém é sempre bom, é saudável, é comunicação de alma para alma. A vida nos ensina que não temos necessidade dos outros, e sim da gente, mostrando que a fonte de segurança é o nosso espírito. Fortalecendo essa ligação, não dependemos de ninguém. E, não dependendo de ninguém, nossa busca vai se tornar mais acertada, menos dependente. Poderemos ser nós mesmos e amar de verdade.
— Torço para que Luísa compreenda isso e pare logo de sofrer.
— Antes de se envolver com alguém, é necessário, em primeiro lugar, estar bem consigo mesmo. Assumir os próprios valores é passo decisivo para uma vida afetiva sadia e feliz. Luísa tem tudo para ser feliz. Cabe a ela tomar posse de si e abrir—se para o verdadeiro amor.
— Sabemos que não será fácil, mas eles têm tudo para se ajustar.
— Estamos por perto. E Renata é uma das nossas. Sua aproximação vai fazer muito bem à Luíza.
— Assim espero Carlota.

****

Caio arrumou—se com aprumo. Depois de uma semana pensando em que atitude tomar, resolveu ir ao encontro de Gregório. Tinha certeza de que o empresário nunca soubera nem saberia de seu envolvimento com Loreta. Isso era coisa do passado, agora ele estava chegando aonde queria: a um passo de ser famoso.
Guido chegou com algumas correspondências nas mãos. Separou as que pertenciam a Maximiliano e as depositou numa caixa específica para isso. Max ligava de Londres a cada quinze dias. Guido pegava a caixa, passava para Max o teor dos envelopes e assim cuidava da correspondência, pagava as contas e mantinha a casa em ordem.
Todo fim de mês, Max lhe enviava uma boa quantia para as despesas da casa e dos empregados, bem como uma mesada para Guido.
Ele aproximou—se de Caio, sorriso largo.
— Tem correspondência para você.
Caio sorriu feliz.
— Nesses meses morando aqui com você, tomei a liberdade de dar o endereço para minha mãe. Deve ser carta dela.
Caio apanhou os envelopes e um deles era de sua mãe. Ele abriu—o rasgando a lateral com os dentes.
Na carta Rosalina dizia estar bem. Havia terminado o supletivo relativo ao ginásio. Sabia ler e escrever com desenvoltura. Quanto às novidades, informava que Eny finalmente conseguira vender a casa em que funcionava o bordel e que, por conseguinte, ela, Rosalina, perdera o emprego de faxineira. Entretanto, conseguira o emprego de bedel na mesma escola em que cursava o supletivo à noite. O salário não era tão alto, mas dava para pagar as despesas e fazer pequena poupança. Rosalina dizia que ainda sonhava em mudar para uma casa de tijolos. No mais, finalizava a carta abençoando o filho e terminava por dizer que estava freqüentando um Centro Espírita, porquanto agora ela tinha condições de ler os livros da doutrina e tantos outros que tratavam de assuntos ligados à espiritualidade.
Caio fez um esgar de incredulidade.
— Algum problema? – perguntou Guido.
— Mamãe está bem.
— Então não tem com o que se preocupar. Por que está com essa cara?
— Ela está freqüentando um Centro Espírita.
— Mesmo?
— Não gosto de ver minha mãe metida nesses assuntos.
— Por que não?
— É coisa de gente ignorante.
Guido meneou a cabeça para os lados.
— Você está sendo preconceituoso, isso sim.
— Eu?!
— Claro. Espiritismo não é sinal de ignorância, muito pelo contrário.
— Não gosto do assunto.
— Eu sou espírita.
Caio arregalou os olhos.
— Você, Guido?!
— Sou.
— Mas nunca me contou nada!
— Porque não sabia qual a sua parada, entende?
— Você acredita mesmo na existência dos espíritos?
— E como! – exclamou Guido. – Eles são grandes aliados da gente.
— Aliados?
— Sem dúvida. É só pedir e eles fazem tudo o que a gente quer.
— Como assim? – indagou Caio, sem entender.
— Na verdade eu não sou assim um espírita convencional. Eu freqüento um lugar na cidade.
— Um lugar?
— É. Uma espécie de terreiro. Lá você pede o que quiser e os espíritos fazem.
Caio gargalhou.
— Isso é patético. Então eu vou, peço e eles fazem?
— Hum, hum.
— Assim, sem mais nem menos?
— É sim. De vez em quando eu levo uma bebida ou dou um dinheiro para eles comprarem material para o trabalho. Até hoje eu me dei muito bem.
— E para que eu precisaria de ajuda?
— Acha que me aproximei do Maximiliano como?
— Como?
— Com a ajuda dos espíritos, oras.
— Está de brincadeira...
— E pensa que o Marco Antônio se queimou por quê?
— Não vá me dizer...
Guido o interrompeu, freneticamente.
— Sem dúvida foi obra dos espíritos. Eles afastaram o marco Antônio para eu ganhar o dinheiro que Gregório havia me prometido.
— Conversa fiada.
— Não é, não.
— Coincidências, mais nada.
— Os espíritos têm atuado sobre o Maximiliano. Quando voltar de Londres, eles me garantiram que o Max vai me dar um apartamento e gorda mesada.
— Por que tem tanta certeza disso?
— Porque os espíritos me asseguraram que ele está no papo. Vai fazer tudo o que eu quero. Os espíritos enfeitiçaram—no.
Caio riu novamente. Bem alto. Caminhou em direção à sala. Estava atrasado para o encontro com Gregório.
— Você e suas histórias fantasiosas. Feitiço é coisa de filme, como aquele do Elvis Presley, Feitiço Havaiano.
— Pode rir e debochar, mas é a mais pura verdade. Eu fiz um trabalho para amarrar o Maximiliano na minha vida. Ele não escapa de mim. Eu juro.
— Se você acredita, sorte sua.
Caio afastou—se, guardou a carta da mãe numa cômoda. Pegou o outro envelope. Olhou o verso e não havia remetente.
— Muito estranho – disse em voz alta –, uma carta sem remetente.
Ele abriu e, conforme lia, seu rosto foi se tornando pálido. Guido aproximou—se do amigo, mas não conseguiu ler o conteúdo da carta. Era um papel sulfite branco e as palavras eram recortadas de revistas e jornais. Estavam coladas, lado a lado, e formavam a seguinte frase:
"Você matou Loreta. Eu sei. Estou de olho em você."
— O que foi cara? – perguntou Guido, com ar interrogativo e estupefato no semblante. – Você está com uma aparência cadavérica.
— Não sei... Quer dizer... Eu... Eu...
Caio não respondeu. Seu corpo pendeu para frente e ele apoiou—se no ombro de Guido para não cair. O ar parecia lhe faltar.



CAPÍTULO 7


Loreta tinha despertado havia algum tempo no mundo espiritual. Fazia meses que havia desencarnado e estava em fase de tratamento, num posto de atendimento perto da crosta terrestre. Sentia—se fraca e infeliz.
— A fraqueza é natural – comentou a enfermeira, – visto que seu corpo físico foi sugado de suas energias vitais. Você atirou—se de maneira desenfreada ao sexo e larvas astrais formaram—se e grudaram—se ao redor de sua aura. Precisará de bom tempo para se recuperar e se livrar delas.
— Mal consigo me levantar – ela balbuciou.
— Assim será por mais algum tempo, Loreta. Até que seu perispirito possa se reequilibrar por completo e aí sim, você poderá ter alta, sair desse posto de atendimento.
— São meses aqui dentro. Estou cansada.
— Tenha paciência. Logo estará apta para sair e nos deixar.
Uma lágrima escorreu pelo canto do olho de Loreta
— Estou muito triste.
— Por quê?
— Porque fracassei. Como esposa, como mãe, como mulher. Reencarnei decidida a frear meus impulsos sexuais, a ser menos atirada em matéria de sexo e não consegui me conter. Falhei.
A enfermeira ia responder, mas a porta se abriu e Carlota entrou no quarto.
— O que se passa nessa cabecinha triste?
— Não sei Carlota. Um sentimento de impotência, de não ter feito nada certo nessa vida. Na verdade, sinto como se houvesse desperdiçado uma encarnação inteira.
Carlota fez sinal e a enfermeira se retirou. Ela caminhou até a janela, abriu as cortinas, a luz do sol invadiu o quarto, dando novo colorido ao ambiente. Carlota sorriu e aproximou—se de Loreta.
— Creio que está na hora de você fazer terapia.
— Terapia?
— Sim. Seu perispírito está se recompondo aos poucos, não obstante, você não ajuda. A mente é ferramenta poderosa para o bem—estar de nosso corpo, seja ele físico ou espiritual. Você está fazendo com que o processo se prolongue, arraste—se por tempo indeterminado.
— E o que fazer? Estou perdida. Sinto—me triste porque não fiz nada certo.
— Quem lhe disse isso?
— Minha consciência me acusa. É como se algo dentro de mim estivesse com raiva, acusando—me de que não fiz o meu melhor.
— Você fez o melhor que pôde. Tudo bem, não conseguiu cumprir com os anseios de sua alma. Exigiu muito de si mesma e acabou por não cumprir seus objetivos. Mas isso é natural, Loreta.
— Natural?
— Sim. A maioria dos encarnados volta com essa mesma sensação. Quando percebem que podiam ter feito diferente, quando constatam que a vida continua, que nada muda a não ser a dimensão que nos separa do mundo físico, muitos perdem a cabeça, querem se matar até. E isso é impossível, porquanto o corpo físico pode ser morto, mas o espírito, jamais. E a consciência os acusa.
Isso, na verdade, é bem típico dos críticos. Você é muito crítica consigo mesma?
— Sempre fui exigente, crítica nunca.
Carlota sorriu.
— É a mesma coisa. Você sempre exigiu muito de si. Isso torna nossa passagem na Terra muito pesada, visto que, pelo fato de reencarnarmos esquecidos das vidas passadas, às vezes não entendemos porque temos de passar por situações tão dolorosas. Claro que essa escolha é nobre e nós, aqui do astral, vibramos muito e procuramos ajudar quem toma essa resolução. Todavia, são poucos os que conseguem não se deixar levar pelas ilusões do mundo terreno.
— Eu me deixei levar. Sinto que não evoluí.
— Você deu vida a Genaro e Gregório. Isso conta bastante. Você procurou ser mãe amorosa, deu—lhes amor, carinho, educação, cumpriu seu papel de mãe com louvor.
— E veja no que eles se transformaram! Um não dá a mínima pelo semelhante e o outro é corrupto e engana as pessoas, além de tratar mal sua esposa.
— Você enxerga por um ângulo, eu enxergo por outro. Você fez o que uma mãe zelosa e amorosa deveria fazer. O que eles se tornaram, quando adultos, é de responsabilidade deles. A educação que você lhes deu amenizou bastante a maneira rude e cruel com que eles tratavam o próximo.
— Amenizou! – exclamou Loreta, incrédula. – Eles desprezam o ser humano.
Carlota sorriu novamente.
— Você ainda não tem condições de ver o que os dois fizeram em outras vidas. O que fazem hoje é nada, comparado aos atos cruéis do passado. E por quê? Porque você os recebeu como filhos e, de alguma maneira, seu amor os tornou menos agressivos.
— Não vejo diferença.
— Um dia você verá. E assim poderá se livrar do sofrimento que criou para si mesma. A terapia vai ajudá—la Loreta, sem dúvida.
Entretanto, só você vai poder sair desse estado de desânimo. Só você.
Loreta deu livre curso às lagrimas. A sensação de impotência e inutilidade apossava—lhe a alma e ela não tinha forças, por ora, para se livrar dessas forças destrutivas que permeavam seu espírito. Fazia parte de seu aprendizado, de seu crescimento. Logo, Loreta teria plenas condições de se livrar desse estado de tristeza e tratar de sua evolução. Essa tarefa cabia somente a ela. E a mais ninguém.


****



A conversa de Renata e Luísa fluiu agradável. Mataram as saudades, colocaram o papo em dia. Falaram do passado, dos problemas que ambas enfrentaram da falta de dinheiro, das adversidades da vida. Renata concluiu, após saborear delicioso chá de maça:
— Confesso que, olhando para trás, sinto—me vitoriosa. Quando papai morreu e perdemos tudo, eu arregacei as mangas e fui à procura de trabalho. Fui contratada pela fábrica de bebidas lá de Campinas. Depois me esforcei, estudei à noite, fiz uns bicos em alguns bares e assim me graduei em administração e vim para São Paulo.
Luísa emendou:
Hoje, passados alguns anos, você se encontra numa posição confortável, graças ao seu próprio esforço.
Renata sorriu. Pousou sua xícara no pires, sobre a mesinha, e assentiu:
— Sim. Devo muito a mim mesma. Entretanto, devo muito ao plano espiritual.
Luísa abriu e fechou os olhos algumas vezes.
— Como disse?
— Se não fossem os amigos espirituais, eu não teria conseguido.
— Explique melhor.
— Um dia eu estava sentada na cama, não conseguia dormir. Conciliar o sono estava impossível. O calor naquela noite estava insuportável e eu resolvi me sentar, no escuro mesmo. Passei a pensar na minha vida, nas perdas que tivera. Primeiro eu perdera papai. Mamãe, triste e amargurada, entrou em desespero, num desgosto muito grande e morreu alguns anos depois.
— Eu me lembro dessa fase.
Renata prosseguiu:
— Meu tio Plínio nos tirou tudo e eu e meus irmãos ficamos jogados, literalmente, na sarjeta. De repente, comecei a chorar. Eu estava para ser demitida. A fábrica de cerveja estava com dificuldades e eu sabia que possivelmente poderia ser cortada do quadro de funcionários.
Luísa interessou—se. Pegou um biscoitinho, mordeu—o na ponta e encarou a amiga.
— Estou interessadíssima. Por favor, amiga, continue.
— Eu já havia passado por tanta dificuldade que naquela noite rezei com força. Lembrei—me dos tempos de colégio e orei, orei bastante, pedindo ajuda a Deus. Então dormi.
— E?
— Sonhei que estava caminhando por uma rua comprida, embora florida e bem calçada. De repente, encontrei meu pai. Eu o abracei tão feliz tão saudosa. Ele retribuiu o abraço e assim continuamos a caminhar, de braços dados. Eu podia sentir seu perfume, o calor de sua pele. Era algo inacreditável. Papai me disse muitas coisas. Que mamãe ainda estava em recuperação e que eu deveria continuar firme em meus propósitos, que não deveria esmorecer.
Renata parou por um instante. A lembrança do pai sempre a enchia de saudade e ela não conseguia deixar de marejar os olhos. Luísa apertou—lhe a mão com carinho, encorajando a amiga a continuar seu relato.
Renata pigarreou, tossiu e, por fim, continuou.
— Papai me disse que tudo o que acontecera era porque ele havia praticado muitos atos escusos no passado e havia prejudicado meu tio Plínio.
Não obstante, meu tio poderia agir de outra maneira para resolverem à pendência do passado, sem criar laços de discórdia e tristeza. Papai assegurou—me que estava bem, que havia aprendido a lição e que, não por acaso, eu havia atraído essas adversidades por conta de meu crescimento espiritual. Pediu—me que eu fosse ao Centro Espírita perto de onde eu morava, porque lá eu iria receber ajuda dos espíritos e, em breve, se eu persistisse minha vida iria mudar para melhor, para muito melhor.
— E o que você fez? Se era um sonho...
— Pois bem. Eu acordei com a última frase de papai e vi a imagem do Centro Espírita. Naquele mesmo dia fui até lá.
— E isso a ajudou?
— Muito!
— Como sabe que o sonho tinha a ver com a realidade? Afinal, às vezes somos nós que criamos nossos sonhos. Acho que li isso em uma revista, lá no consultório do Dr. Ribeiro.
— Sei disso, mas você não vai acreditar Luisa! Assim que cheguei ao Centro Espírita fui encaminhada para atendimento.
— Como assim? Como funciona isso?
— Quando chegamos ao Centro Espírita, na recepção, sempre há alguém simpático para nos atender. Afinal, quase ninguém vai a um Centro Espírita por amor. São sempre os casos mais tristes, as curas impossíveis, a dor de perda de entes queridos. Depois que passamos por médicos, exames e igrejas desesperamo—nos e encontramos alento num Centro Espírita. Por tudo isso, o trabalho de quem está na recepção é de extrema importância.
— A idéia que sempre tive desses lugares é de que não são confiáveis, cheio de aproveitadores. Porque as pessoas chegam lá em desespero, tristes, e indivíduos inescrupulosos podem nos iludir e arrancar nosso dinheiro.
Renata sorriu.
— Quando se trata da dor humana, sempre haverá os charlatões de plantão.
Entretanto, um Centro Espírita nunca cobra por nada. O atendimento é gratuito, sempre.
— Gratuito?
— Sim. Ocorre que o Centro funciona num determinado espaço, seja um galpão ou um sobrado. Há o aluguel do espaço, o pagamento de impostos, o consumo de luz elétrica, de papel higiênico dos banheiros, de água e de copinhos para tomar água e outras tantas despesas. Se o atendimento é de graça, lógico que o Centro Espírita vive de doações, de ajuda dos que lá freqüentam. Por tudo isso há almoços beneficientes, bingos, rifas etc. Tudo para ajudar no pagamento das contas.
— Nunca havia pensado nisso, Renata.
— Pois agora pode mudar seus conceitos.
— Sem dúvida – Luísa falou curiosa. – Mas como foi o atendimento nesse Centro? Parece que você gostou muito de lá.
— Você não tem idéia de como fui bem atendida. Assim que informei sobre minha ida, a atendente me encaminhou para uma salinha e deu—me uma senha para que eu passasse em consulta com um médium da casa, a fim de saber qual o tratamento espiritual mais adequado para mim naquele momento, se devia ser um tratamento emocional ou mental. Tão logo o meu número foi chamado e me sentei, fiquei admirada com as palavras da senhora que me atendeu:
"— Seu pai está ansioso aqui do meu lado. Achava que você não fosse acreditar no sonho e não viesse. Veio aqui para dizer que o que você sonhou na noite passada nada mais foi do que um encontro entre ambos. Seu pai está bem, diz que sua mãe está em recuperação e que seu tio Plínio não merece receber sua vibração de ódio. Ele não tem culpa do que fez. Vai responder pelos seus atos, é claro, porque a vida é regida por leis, e uma delas é a da ação e reação. Seu tio precisa que você vibre luz para ele. Assim, não vai se ligar nele nem tampouco em outros problemas que não lhe dizem respeito".
Renata não conteve as lágrimas. Luísa a abraçou com carinho.
— Meu Deus! Você ouviu da atendente o mesmo que seu pai lhe disse!
— Sim. E ela ainda descreveu meu pai. Seus olhos, os cabelos, o sorriso, os óculos que ele usava... Até a roupa que ela me descreveu eu conhecia. Foi o terno com o qual nós o enterramos.
— Isso é de espantar qualquer um – asseverou Luísa, levando a mão à boca.
— E foi então que passei a acreditar na continuidade da vida. Não tinha mais dúvidas a respeito. Fui tão bem atendida e acolhida! Fiz tratamento de passes e, em quatro semanas, os passes atuaram sobre minha mente; eu me tornei outra pessoa, muito mais alegre, mais dona de mim, mais segura.
— O que me diz é formidável!
— Passei a freqüentar o Centro Espírita, fiz cursos, participei das atividades sociais e das palestras. Logo em seguida arrumei emprego numa fábrica aqui em São Paulo e tudo começou a ficar mais colorido para mim – Renata riu. – Li muitos livros e hoje sou uma pessoa melhor, comigo e com os outros.
— E seus irmãos?
— Não querem saber de melhorar. Ficam na cola de meu tio, recebem migalhas dele e estão lá, numa vidinha apertada, cheios de ódio no coração. Não é o que escolhi para mim.
— Mas você não lhes contou sobre o sonho? Ou sobre o Centro Espírita?
— Claro que contei, mas eles não acreditaram. Riram de mim. Disseram que eu estava me transformando numa doida varrida, que minha vida ia afundar em breve. Que eu estava para me tornar uma mulher ignorante e presa nessas bobagens espirituais – Renata deu de ombros, e prosseguiu: — continuei meus estudos, graduei—me em administração e hoje sou gerente de uma confecção em expansão. Apresentei ao meu chefe algumas idéias de modelos de biquínis para a próxima estação. Se forem acatadas, tenho chances de ser promovida. E ganhar mais.
— A próxima estação não está muito distante?
— Penso lá na frente, Luísa – ela fez um gesto engraçado com as mãos –, lá na frente.
— Você sempre foi diferente. Atirada, moderna, sempre adorou o novo. Está na profissão certa.
— Queria mesmo ser dona de meu próprio negócio. Mas tudo vem no tempo certo. Talvez a vida esteja me preparando para maiores responsabilidades. Sinto isso.
— Quanto aos seus irmãos, creio que não há nada que você possa fazer.
— Eu não posso mudar a opinião deles, a vida deles. Tentei ajudá—los, inclusive com dinheiro, para custear uma faculdade, para que os dois tivessem uma profissão e pudessem crescer por si mesmos. Mas eles brigaram comigo, disseram que eu queria comprá—los. E, ainda, que eu tencionava fazer isso para tê—los em minhas mãos. Pura ilusão. É que eles são assim e acreditam que, por serem manipuladores, todas as outras pessoas também o são. Cada um é responsável por si.
— Concordo... Quer dizer... Em termos – Luísa hesitou.
— Como assim?
— Somos responsáveis em termos.
— Por que diz isso?
— Ora, Renata, acha que eu gostaria de estar até hoje ao lado de Genaro? Eu quero ser feliz e veja o que a vida me fez... Sou vitima de um destino cruel. Será que o Espiritismo pode me ajudar? Será que eu fui muito má e estou agora tendo de arcar com isso?
Renata riu.
— Você está lendo muita revista de consultório.
— Mas o Espiritismo não diz que o sofrimento é causa de erros do passado?
— Não. Cada um interpreta as obras de Allan Kardec de acordo com seu grau de evolução, de acordo com suas experiências de vida. Eu diria que o sofrimento é falta de inteligência.
A gente sofre porque não faz o melhor de si. Ficamos presos às ilusões do mundo, distanciamo—nos de nossa essência, de nossos verdadeiros valores e, quando nos damos conta, estamos metidos em situações que nos trazem dor e sofrimento.
— Eu não gostaria de sofrer.
— Vivemos num mundo em que o sofrimento faz parte de nosso destino. Se não sofremos nas situações desagradáveis, sofremos pela perda de um ente querido, pela perda de um grande amigo. A dor, nesse estágio de evolução da Terra, serve para amadurecer nosso espírito, livrar—nos das amarras da ilusão de que tudo é feito segundo ordem das forças superiores que regem o Universo.
— E não é?
— Ora, Luísa, se essas forças ou Deus fizessem tudo, onde estaria o nosso mérito? De que adiantaria viver, sofrer, chorar, rir, se temos alguém – Renata apontou para cima – que faz tudo a toda hora? E, de mais a mais, se esse Deus determina tudo, por que então deixaria que vivêssemos entre guerras, discórdias, crianças mortas prematuramente e outros desatinos?
— Não sei. Talvez a minha concepção de Deus seja muito humana. Nunca me aprofundei nas verdades da vida.
— Então não crê que seja a hora de mudar?
— De mudar?
— Sim. De mudar, de deixar que essa impotência tome conta de você. Está na hora, Luísa, de abandonar a vítima que paira sobre si mesma e tornar—se adulta de verdade. Você mais parece uma criança triste e indefesa, como se todos os que a cercam fossem maiores e bem mais fortes que você.
Luísa não conseguiu conter o pranto. Abraçou a amiga com força.
— Oh, Renata, você não sabe como anda a minha vida. Estou tão triste, tão perdida. Ajude—me, por favor, ajude—me...
Renata deu forte abraço na amiga. Deixou que ela desse livre curso às lágrimas. Quando Luísa acalmou—se, ela lhe serviu nova xícara de chá.
— Quer um lenço?
— Hum, hum.
Renata pegou uma caixinha sobre a mesa e o entregou a Luísa. Ela apanhou alguns lenços de papel e assuou o nariz. Recompôs—se e bebericou sua xícara de chá.
— Sou—lhe muito grata. Não sei explicar, mas sinto que você apareceu na minha vida na hora certa.
Renata deu uma piscadinha.
— Tenho certeza de que os espíritos estão nos ajudando.
— Acha?
— Tenho certeza. Minha intuição não falha.
— Não sei, preciso entender melhor tudo isso. Você pode me ajudar?
Renata retribuiu com inquietante pergunta:
— Você está pronta para mudar?



CAPÍTULO 8


"Você matou Loreta. Eu sei. Estou de olho em você."

A frase ecoava a todo instante na mente de Caio. Martelava sua cabeça, como se alguém o estivesse acusando a todo e qualquer momento. Fazia meses que ele havia recebido aquela carta misteriosa. Quem havia feito isso? Quem? Além da frase acusadora, a pergunta também fervilhava sua mente.
Caio revirou—se na cama. Estava sem sono, triste, cansado. Fazia alguns meses que chegara a São Paulo e não conseguira nada. Digamos que não conseguira nada em relação à sua sonhada carreira de modelo.
O rapaz entregou—se ao sexo fácil e acomodou—se nessa vida libertina. Tinha suas clientes, ganhava bem. Todavia, seu corpo apresentava sinais de desequilíbrio e cansaço. Havia uma voz que pedia para ele parar com essa vida.
Caio achava seu sua consciência, não percebia que Norma estivesse sempre ao seu lado, procurando inspirar—lhe bons pensamentos. Ele não acreditava em vida após a morte, era homem de pouca ou quase nenhuma fé.
Ela tentava, sempre que possível, aproximar—se do irmão e soprar—lhe idéias positivas, a fim de que ele saísse desse circulo pernicioso e desgastante que tornara sua vida.
Se ele continuasse assim, logo seu corpo físico apresentaria sinais claros de esgotamento vital e uma doença poderia facilmente instalar—se em seu corpo debilitado.
Norma acreditava que o irmão pudesse mudar. Afinal, ela tivera acesso a algumas vidas passadas de Caio e pôde verificar que ele fora batalhador e firme em seus propósitos. O que o atrapalhava sobremaneira eram os impulsos sexuais desenfreados. Isso sim, era motivo de alarde, porquanto a paixão desenfreada e o sexo fácil haviam lhe causado grande estrago em outras vidas.
Por conta do sexo sem responsabilidade, Caio terminara sua última encarnação de maneira deplorável. Já fora hóspede do Vale do Sexo, local de permanência, no astral, de espíritos desencarnados em virtude do abuso desmedido de seus corpos em função de práticas sexuais desprovidas de qualquer sentimento nobre.
Por interferência das orações do espírito bondoso de sua irmã, Caio, às vezes, enchia—se de coragem para mudar e retomar o rumo de seus sonhos. Inicialmente, o jovem pensou em arrumar um emprego simples, mas Guido o demoveu da idéia. Queria a todo o custo que o amigo trabalhasse com ele.
Guido chegara a São Paulo havia alguns anos. Sempre fora ambicioso e prometera a si mesmo que iria ganhar a cidade, ser rico e famoso. A qualquer custo. Rosto jovem, porém comum, percebeu ser atraente de certo modo, e passou a seduzir mulheres e homens.
As chances de emprego não eram boas, visto que Guido não tinha formação, havia concluído a quarta série do primário, somente. Sabia ler e fazer adição e subtração. Divisão era algo que o atrapalhava. Vendo que o dinheiro estava por acabar, e percebendo os olhares de cobiça sobre si, resolveu tirar proveito do corpo. Foi assim que ele atirou—se no mundo da prostituição.
Seu primeiro alvo foi às mulheres.
Guido descobriu que havia um ponto próximo ao parque do Trianon, na região da Paulista, onde mulheres endinheiradas circundavam com seus carrões à procura de sexo com rapazes. Esses meninos eram chamados de call boys, garotos cuja clientela era formada única e exclusivamente por mulheres. A concorrência era pesada e logo Guido percebeu que os homens pagavam mais e exigiam menos. O sexo era mais rápido e o faturamento também.
Havia um código entre os call boys de só saírem com mulheres. Guido quebrou esse código e foi escorraçado das imediações do parque. Apanhou bastante e acabou nas mãos de rico empresário, que o ajudou, deu—lhe um teto, dinheiro. Óbvio que tudo isso em troca de sexo, com exclusividade, quer dizer, nem tanta exclusividade assim.
A infidelidade ao parceiro lhe custou à perda do teto e do homem que o sustentava. Até que numa noite apareceu Maximiliano em sua vida. Homem na faixa dos quarenta, Max, como era conhecido pelos amigos, era um homem bonito, culto e trabalhava como curador de um museu. Era responsável por trazer ao país exposições de artistas internacionais de vários ramos das artes, fossem pintores, artistas plásticos, escultores. Pessoa boníssima, Maximiliano era adorado por muitos, pessoa conhecida na sociedade.
Ele era homossexual e afeiçoou—se sinceramente a Guido. Foi aí que a vida do menino mudou, para melhor, é claro. Guido foi morar no belo apartamento de Max. Passou a ganhar uma gorda mesada para cuidar da casa, visto que Max estava sempre viajando, tratando de negociar com artistas ao redor do globo para que viessem expor suas obras no Brasil.
Guido aproveitou—se da generosidade de Max. Passou a freqüentar lugares sofisticados e conheceu Gregório. Foi quando surgiu o convite para trabalhar como modelo. Mas a campanha fracassou e Guido passou a fazer pequenos serviços escusos para Gregório.
Caio conhecia Maximiliano somente por fotos. Chegou a atender ao telefone uma vez e ouviu sua voz. Maximiliano fora gentil, discreto – nem perguntara sem nome – e pedira para transmitir um recado a Guido. Esse fora o único contato. Maximiliano deveria retornar em fevereiro, porém estavam quase no fim daquele ano. Será que ele voltaria?
Guido acendeu a luz do quarto. Caio instintivamente levou as mãos aos olhos.
— Apague a luz, por favor. Ainda é cedo.
— Você não dormiu nada esta noite – retorquiu Guido.
— Como sabe?
— Ouvi seus passos.
Caio jogou—se na cama.
— Preciso arrumar um jeito de trabalhar.
Guido riu alto.
— Você já trabalha. E as clientes que atende? Não lhe dão bom dinheiro?
— Isso não é vida. Algo dentro de mim diz que tenho de parar com essa vida leviana. A cada dia que passa estou me distanciando de meus objetivos. Eu vim para cá para me tornar um modelo, um homem que minha mãe pudesse ter orgulho e admirar. E veja no que estou me tornando: um prostituto. Até quando Guido, até quando?
Caio estava nervoso e confuso. Enquanto ele esteve dormindo, Norma aplicou—lhe um passe calmante e novamente inspirou—lhe bons pensamentos, para que acatasse suas idéias e tratasse de mudar de vida. Ele mal se lembrava de ter ouvido algo, mas sentia que estava na hora de dar uma virada em sua vida.
Guido nunca o vira desse jeito. Aproximou—se e sentou—se na cama.
— Você está bem?
— Sim, estou. É que uma voz me diz que estou indo para o caminho da perdição. Eu não quero ser michê, você me entende?
— Claro que entendo. Mas você adia sua ida até o escritório do Gregório.
Caio abaixou a cabeça. Guido tinha razão. Ele evitava o contato com Gregório, mas o que fazer? O tempo urgia e ele precisava ir até o figurão da Cia. De Perfumes. Embora atormentado com a possibilidade de que Gregório soubesse de sua ligação com Loreta, esse era um risco que ele deveria correr. O rapaz estava com o prato e o queijo nas mãos. Queria se tornar modelo. Gregório precisava de um. Era juntar a fome com a vontade de comer.
— E então? – prosseguiu Guido. – Vai deixar de arrumar desculpas esfarrapadas e ir ao encontro do presidente da Cia. De Perfumes?
— Devo ir. Estou adiando por quê? – perguntou. – Preciso e quero mudar. E também preciso de um lugar próprio para morar. Não posso viver sob o teto cujo dono mal conheço. E ainda, logo o porteiro vai começar a desconfiar das visitas femininas que recebemos. Isso não é justo com o Max.
— Justo ou não, você logo vai conhecê—lo – respondeu Guido, fazendo gestos com um dos indicadores.
Caio coçou o queixo.
— Agora é verdade? Max vem mesmo para o Brasil?
— Ligou—me ontem. Agora está tudo acertado. Ele se meteu lá com um grupo de estudos, sei lá o que anda fazendo. Esses caras ricos são muito excêntricos, sabe? Max não foge à regra. É um cara bom, legal, mas esquisito, cheio de manias. Disse—me que, assim que regressar de Londres vai mudar algumas coisas aqui em casa.
— Mesmo?
— Bom, ele pode mudar o que quiser desde que eu não saia. Daqui não saio daqui ninguém me tira.
— Eu vou ter de sair. Não compreende?
— Quando Max chegar, em breve, você terá de partir. Mas lugar a gente arruma.
— Não quero mais saber disso.
— O que deu em você? Acordou determinado!
— Algo dentro de mim exige mudanças em meu comportamento. É como se eu já tivesse vivido situação parecida e terminasse mal. Consegue compreender?
Guido fez ar de mofa.
— Não entendo, mas você é crescido e sabe o que é melhor para si. Por acaso – Guido perguntou num tom malicioso – não preferiria fazer como eu e arrumar um coroa endinheirado e carente?
— Nunca! Eu jamais me uniria a alguém por isso – antes de Guido se pronunciar ele concluiu: —não o estou julgando, mas não tenho estômago.
— Mas tem estômago para transar com várias mulheres ao mesmo tempo. Isso é patético, Caio.
— Eu não quero mais essa vida. Não tenho vínculo afetivo com as mulheres. Eu faço sexo e pronto. Acabou. Elas me pagam e vão embora. Mas você alimenta sentimentos no Maximiliano. Não tem compaixão? Não se importa com os sentimentos dele? Ou mesmo de machucar seu coração?
Guido levantou—se da cama. Andou até a janela do quarto.
— Max é grandinho e sabe se defender. Eu não sou responsável pelo que ele sente.
— Não é responsável, mas alimenta o sentimento. Isso é comprometimento. Você não pode simplesmente usá—lo e depois jogá—lo fora,
— Max vale muito para ser jogado fora. Isso é algo que não pretendo. Aliás, eu posso fazer o Max engolir você. Quer ficar morando aqui conosco?
— Como assim, engolir?
— Posso ir lá naquele lugar que eu lhe falei, lembra?
— Nem pensar! – Caio levantou—se de um salto. – Não gosto disso.
— Por quê? Já teve alguma experiência ruim?
— Não é isso, mas ouço tantas histórias ruins sobre esses pedidos...
Guido sorriu.
— Comigo não tem problema, não. Eu posso tudo. Quer dizer, esse senhor que faz os trabalhos para mim não falha. Ele é muito bom.
— Peça então para ele cuidar dos seus negócios. Dos meus, eu me entendo.
— Você é quem sabe. Se quiser uma ajuda, não hesite em me chamar – Guido rodou nos calcanhares e apoiou—se no batente da porta. Voltou o rosto para dentro do quarto e disse: — tem certeza de que não vai querer a prestimosa ajuda dos espíritos?
— Tenho.
— Não gostaria de saber se os espíritos poderiam descobrir sobre esse bilhete estranho que você recebeu?
Caio voltou a sentar—se na beirada da cama, nervoso.
— Recebi faz tempo. Deve ter sido uma brincadeira de extremo mau gosto.
— Quem sabe eu...
— Não! – bramiu Caio. – Absolutamente. Isso compete somente a mim.
— Tudo bem – replicou Guido, num tom conciliador. – Estou às ordens para ajudá—lo, caso precise.
— Obrigado.
Guido saiu do quarto e, em seguida, Caio voltou a se levantar. Havia dormido mal, as palavras daquela carta não saiam de sua cabeça. Entretanto, sua mente registrara as palavras da irmã e ele havia decidido que iria até o escritório de Gregório. Havia mais de um mês que adiara sua ida à Cia. De Perfumes. Maximiliano estava para regressar ao Brasil. Caio precisava arrumar um novo lugar para morar, mas, para isso, necessitava de um emprego decente, de uma renda que pudesse ajudá—lo a se tornar independente. E longe de sexo.
Ele não estava gostando de determinadas atitudes de Guido. Quando havia entre eles algum tipo de discórdia, um conflito que fosse Guido atirava—lhe na cara que ele estava vivendo bem na cidade grande graças a ele.
Isso o deixava triste e abatido. Caio sentia algo de estranho no ar, uma desconfiança que não sabia de onde vinha. O único registro no seu corpo era a clara sensação de medo, de fuga. Ele sentia vontade de sair daquele apartamento o mais rápido possível. Resolveu que iria procurar Gregório. Não encontrava outra solução.



*****


Norma andava de um lado para o outro do quarto, sem saber qual atitude deveria tomar. Carlota apareceu e aproximou—se dela.
— Você não deveria estar aqui. O ambiente às vezes fica pesado devido ao padrão vibratório dos pensamentos negativos de Guido. Ele não tem bons pensamentos e inunda o ambiente de energias de baixa vibração.
— Guido está manipulando meu irmão. Caio deseja ter uma vida independente e está praticamente preso a ele. Eu sinto que essa amizade não faz bem ao Caio.
— Seu irmão tem o livre—arbítrio, querida. Não se esqueça disso, jamais. Caio escolheu encontrar essas pessoas nesta etapa de sua jornada evolutiva. Ele poderia escolher outros caminhos, mas desejou que as coisas fossem por esse lado.
— Pelo menos eu tento soprar—lhe palavras de encorajamento, de força, e de procura pela espiritualidade.
— Isso fará toda a diferença – tornou Carlota, esboçando lindo sorriso. – Se Caio procurar estudar e entender a vida espiritual poderá passar pelos dissabores de maneira menos dolorida. Eu e você estamos fazendo nosso papel, inspirando—lhe bons pensamentos, ajudando—o a se afastar de atividades ilícitas, a manter um coração bom e puro. A revolta, muitas vezes, só nos afasta do caminho que traçamos na vida, e, no fim das contas, percebemos que ficamos mais cansados e tristes.
— Meu irmão é bom. Não canso de repetir isso.
— Todavia – rebateu Carlota, com candura –, Caio é quem precisa acreditar que é bom. Enquanto isso não se concretizar, vamos vibrar e pedir às forças espirituais que o ajudem a manter—se em equilíbrio.
Os dois espíritos aproximaram—se do rapaz e lhe ministraram um passe revigorante. Caio havia se sentado na cama e sentiu vontade de se deitar mais um pouco. Assim que se deitou, imediatamente sentiu um bem—estar como há muito tempo não sentia. Em seguida, espreguiçou—se, bocejou, esticou os braços e dirigiu—se ao banheiro. Entregou—se a uma ducha forte, morna e reconfortante.
Passava das dez da manhã quando Caio entrou na elegante recepção da Cia. De Perfumes. Foi atendido por uma simpática recepcionista.
— O que deseja senhor?
— Tenho entrevista com o Sr. Gregório Del Prate.
A moça pegou uma agenda ao seu lado e checou o nome.
— Desculpe—me, senhor, mas não consta reunião para esse horário. Seu nome, por favor?
— Caio Abrantes Souza.
Ela novamente checou e nada. Pegou outra lista e nada.
— Desculpe—me, senhor, mas não...
O rapaz a interrompeu com delicadeza.
— Eu é que devo pedir desculpas. Essa reunião está marcada há bastante tempo e eu não avisei...
A recepcionista sorriu e lhe deu uma piscada.
— Como se trata de um moço bonito e simpático, creio que poderei checar com o Sr. Gregório.
Caio sorriu sem graça. Afastou—se da recepção e sentou—se numa cadeira ali perto. Alguns instantes depois ela o chamou.
— O Sr. Gregório vai atendê—lo. Dirija—se até o fim deste corredor – ela fez um gesto sensual com os dedos. – Depois tome o elevador da esquerda até o último andar. Vai sair diretamente na sala do presidente.
— Obrigado.
— Por nada. Às ordens. Meu nome é Meire.
Caio devolveu o sorriso.
— Obrigado Meire.
Assim que ele se afastou ela suspirou emocionada.
— Tão bonito! Ele me lembra o Marco Antônio – Meire disse emocionada. – Ah, Marco Antônio, por onde anda você?
Caio tomou o elevador e, ao chegar ao último andar, as portas se abriram e ele saiu diretamente na sala de Gregório. O homem estava sentado em sua poltrona, atrás de sua mesa e de costas para quem entrava. Parecia que Gregório apreciava a vista da cidade, através da imensa janela de sua sala. Caio estugou o passo e aproximou—se da mesa. Gregório fez delicado movimento com o corpo e girou a poltrona com os pés. Os olhos de ambos se cruzaram. Caio sentiu um estremecimento, um mal—estar sem igual.
— Até que enfim. Se Maomé não vai à montanha...
Caio pigarreou.
— Bom dia, Sr. Gregório.
— Pode me chamar simplesmente de Gregório. O senhor me deixa mais velho do que já aparento.
— Desculpe—me.
— Sente—se, criança – Gregório fez gesto para que o rapaz se sentasse. Caio anuiu com a cabeça e sentou—se numa cadeira próxima à grande mesa talhada em ferro e com vidro. – Sabe que parece que o conheço de algum lugar?
Caio estremeceu. Será que Gregório o havia visto na casa de Loreta? Não. Era impossível.
— Eu tenho um rosto comum. Deve ser isso.
Gregório deu uma gargalhada espalhafatosa.
— Rosto comum?! Você? Está tirando sarro da minha cara, isso sim. Criança, você tem o rosto perfeito para minha nova campanha do perfume Nero. Preciso desassociar a imagem do perfume ao rosto do antigo modelo, Marco Antônio.
— Soube que ele se acidentou.
— De maneira tola. Um acidente doméstico. Imagine o que aconteceu ao garoto! Pobre Marco Antônio.
— E há chances de ele se recuperar?
— Sim. Mas as queimaduras provocadas pelo álcool deixam marcas. Sorte dele que o rosto não foi afetado, porém os braços, ah, os braços ficaram bem machucados.
— Se o rosto não sofreu queimaduras, então...
— Deixe de sentimentalismo, criança. Os meus modelos aparecem de corpo inteiro nas propagandas. Quem compra perfume quer ver um rosto bonito e corpo bem—feito, esculpido. Marco Antônio já era. Agora quero um rosto novo. E aposto em você.
— Puxa, seu... Quer dizer, Gregório. Eu sempre quis ser modelo. Você não sabe o bem que me faz ao me oferecer esse trabalho. Contudo...
Caio parou de falar. Gregório o encorajou.
— Contudo?
— Eu nunca fiz propaganda, nunca posei para fotos. Não precisaria fazer um curso?
— Eu arrumo uma equipe para você. Terá tudo e todos aos seus pés. Quando pode estar disponível para os primeiros ensaios fotográficos?
— No momento que quiser. Estou disponível.
— Muito bem. Vou confeccionar o contrato. Isso leva algum tempo, pois os advogados adoram encher os contratos com muitas cláusulas. Eu tive muita dor de cabeça com o Marco Antônio e não quero correr mais riscos.
— Você é que sabe.
— Eu vou adiantar parte de seu cachê – Gregório apertou um botão sobre um dispositivo em sua mesa. – Meire, peça para que o departamento financeiro preencha um cheque no valor de...
Caio arregalou os olhos quando ouviu o valor que lhe seria adiantado. Nunca imaginara ganhar aquilo na vida. Era muito dinheiro. Pelo menos agora teria condições de alugar um apartamento modesto, largar a profissão de call boy e encher sua mãe de orgulho.
Faria Rosalina se sentir a mãe mais feliz do mundo.
Caio sorriu. Despediu—se de Gregório com imenso sorriso nos lábios. Chegaria até o apartamento e ligaria para suas clientes. Não iria mais atendê—las. Estava convicto disso.
O rapaz desceu e, ao entrar no elevador, olhou o cheque e conferiu o valor várias vezes.
— É muito dinheiro – disse para si mesmo.
Ao sair do elevador e deparar com Meire, retribuiu—lhe a piscada.
— Sua piscada me deu sorte. Obrigado.
Meire ficou sem palavras. Abanou o rosto com as mãos.
— Além de bonito, é simpático. Mas o Marco Antonio é mais bonito.
Caio saiu do prédio da Cia. De Perfumes feliz e contente. Tinha vontade de ligar para sua mãe e contar—lhe as novidades. Mas iria esperar e assinar o contrato. Guardou o cheque no bolso do paletó e tomou um táxi. Deu ao motorista o endereço de seu banco. Enquanto o motorista avançava pelo trânsito caótico da cidade, Caio cantarolava uma canção em voga, sentindo—se o mais feliz dos homens.



CAPÍTULO 9


O avião que transportava Maximiliano aterrisou na cidade numa linda manhã. O céu era de um azul intenso, não havia uma nuvem sequer. Max finalmente retornava ao seu país depois de longa ausência. Fazia meses que partira para Londres a fim de negociar uma exposição de quadros com um pintor que despontava no circuito das artes.
Entretanto, Max conheceu, nesta estada em Londres, o Dr. Bryan Scott, médico fundador do Instituto Scott de Estudos Espirituais, voltado ao estudo de casos inexplicáveis para a ciência oficial.
Ele encantou—se com o médico, com suas experiências e resolveu ficar em Londres e absorver todo o conhecimento espiritual que esse médico pudesse lhe passar. Foi pensando no médico inglês que Max desembarcou no aeroporto. A história de Bryan Scott era impressionante.
Médico cético e ateu, Bryan Scott nunca quis saber de religião ou mesmo de espiritualidade. Considerava tudo isso uma grande bobagem, uma espécie de entorpecente para que as pessoas pudessem ser manipuladas e usadas por mentes mais fortes.
Não obstante, Scott teve todo o seu sistema de crenças sacudido e abalado quando sua filha Stella, de apenas doze anos, morreu num desastre de trem que ia do condado de Nolfork a Devon, no sul da Inglaterra. Isso ocorrera no meio da Segunda Guerra Mundial, há muitos anos.
Triste e abatido, Scott fechou—se em seu mundo e tornou—se homem mais cético ainda. Deus, segundo sua observação, não passava de uma invenção, de uma força inventada por homens espertos a fim de aproveitar—se da dor alheia.
Os anos foram passando e o coração de Scott foi embrutecendo na mesma proporção. Tornara—se homem amargo e descontente com a vida. Aposentou—se e, num dia particular, sonhou com sua filha. Stella dizia estar bem, já havia reencarnado e morava atualmente em Bristol.
Bryan Scott acordou com a cabeça embaralhada, não se recordava direito o que havia sonhado. Só se lembrava de ter visto o rosto de uma menina parecida com sua Stella, mas com os cabelos e as feições alteradas.
O tempo passou e Scott foi convidado para dar uma palestra acerca do impacto do aquecimento global sobre as pessoas, tema que já era de preocupação de algumas pessoas no início da década de 1980. O médico fez brilhante palestra, advertindo que aquela era a época certa para que toda a humanidade somasse esforços e todos os povos lutassem pela preservação do ambiente. Essa palestra foi muito comentada e discutida anos depois.
Ao sair da palestra e dirigir—se para seu hotel, Bryan Scott foi abordado por uma moça, de olhos tristes e feições simpáticas. Ela implorava para que o médico lhe desse um minuto de sua atenção.
— Necessito falar—lhe urgente.
— Em que posso ajudá—la? – questionou o médico, num tom polido.
— Minha filha Emily. Ela deseja lhe falar. Há meses quer conversar com o senhor.
— Sua filha? Mas você é muito jovem e...
Ela o cortou, com delicadeza.
— Desculpe—me, Dr. Scott, mas Emily jura que o conhece e deseja lha falar. Foi ela quem me mandou vir aqui. Disse que o senhor iria dar uma palestra e que ao terminar eu deveria convencê—lo a ir até a nossa casa.
— Por que eu iria até sua casa?
A moça apertou as mãos com certo nervosismo. Seus lábios tremeram levemente e ela, por fim, declarou:
— Minha filha diz que é a reencarnação de sua filha Stella.
Uma bomba sob a cabeça do médico não teria surtido efeito tão devastador. Scott ficou parado por alguns instantes, mudo estático, sem palavras mesmo. Aquilo era aviltante. Só podia ser brincadeira de mau gosto daquela desconhecida que vinha tocar—lhe em feridas profundas e não cicatrizadas do passado. Ou tratava—se de um milagre? Em que confiar? Ou melhor, em quem confiar?
Scott voltou do choque e balbuciou.
— Senhorita, por favor, não brinque com meus sentimentos.
Uma lágrima sentida escapou pelo canto do olho da moça.
— Sinto muito doutor, mas minha filha afirma ter sido sua filha Stella.
— Ninguém sabe que tive uma filha. Quer dizer, isso faz muitos anos. As pessoas hoje nem se recordam e.
A moça tirou um pequeno papel do bolso. Havia ali algumas anotações.
— Emily diz que foi sua filha, que nasceu no condado de Norfolk em 1932 e desencarnou em 1945 e.
Bryan Scott fez um gesto com as mãos para que ela parasse de ler.
— Por favor – tornou emocionado –, leve—me até sua filha. Eu lhe imploro.
O encontro do médico com a menina foi algo comovente e, ao mesmo tempo, surreal. Eram duas pessoas que nunca haviam se visto na vida, mas ligadas pelos verdadeiros laços do espírito.
Assim que entrou na sala e viu a pequena Emily, Scott ainda teve certa desconfiança. Achou que iria encontrar uma cópia perfeita de sua Stella, mas o que via na sua frente era uma menina magra, esquálida, doente. Os cabelos de Stella eram ruivos e encaracolados, a pele era de alvura estupenda. A menina à sua frente tinha os cabelos mal cortados, pretos e lisos. A pele era mais para morena e a aparência, no geral, em nada lembrava sua finada filha.
Scott rodou nos calcanhares e fez menção de sair. Aquilo devia ser armação, das boas. E ainda tripudiaram sobre seus sentimentos. Deveria isso sim, processar aquela mãe desmiolada e louca. Claro! Havia notado que a casa ficava em um bairro pobre, que a família não tinha recursos e que, talvez com esse "golpe" da reencarnação, elas pudessem tirar algum dinheiro dele.
O médico mordeu os lábios de raiva, estava chegando perto da porta de saída quando a menina zangou—se:
— Papai, não faça isso. Sou eu, Stella. Em outro corpo, mas sou eu.
Ele virou—se abruptamente e quase avançou sobre a menina. Tinha uma vontade louca de desferir—lhe uns bons bofetões. Antes de tomar atitude irascível, ela concluiu:
— O acidente de trem que me tirou deste mundo estava programado pelo plano maior. Era a minha hora de partir. A vovó Elizabeth resgatou meu espírito dos escombros. Eu juro que não senti nada quando desencarnei. Só me lembro de um forte estrondo, de alguns gritos e depois meu corpo começou a flutuar, como se eu estivesse boiando, como naquela vez que você me levou para nadar numa praia, na região de Brigthon. Isso se deu logo depois que vovó Elizabeth morreu, lembra—se?
Scott não tinha palavras para rebater ou professar naquele momento. Seus olhos marejaram e ele sentiu um perfume de flores bem característico que sua mãe costumava usar. Antes que ele pudesse dizer algo, Emily alegou:
— Vovó está aqui e diz que está com aquele perfume de flores que você tanto gosta. Diz que o ama muito e.
Emily não disse mais nada. Scott ajoelhou—se e abraçou a menina, cuja debilidade física se fazia notar. Emily beijou—lhe a face.
— Eu não vou viver muito mais aqui nesta dimensão. Necessito partir. Vim para lhe provar a existência da vida após a morte do corpo físico. Que o processo de morte nada mais é do que uma transformação e que nosso espírito é eterno.
As lágrimas de Scott corriam insopitáveis. Ele acariciava os cabelos negros e lisos da menina, beijava—lhe as faces, inundado de felicidade.
— Você voltou para mim. Você voltou para mim!
— Por pouco tempo, papai. Você precisa acreditar na existência das forças superiores que regem o Universo. Pode chamar de Deus, se quiser. Mas não pode deixar de acreditar nessas forças. Você é homem muito inteligente e sempre esteve ligado às verdades espirituais. Médico de renome, no passado fez estudos que comprovaram a reencarnação. Vítima de pessoas inescrupulosas e que se sentiram ameaçadas com as verdades que você iria revelar ao mundo, foi parar na fogueira dos inquisidores. Por tudo isso, está tão relutante em aceitar a existência da vida após a morte do corpo físico. Eu reencarnei neste corpo frágil – ela fez um sinal, apontando para o próprio corpinho adoecido – porque precisava chamá—lo para a sua missão. Você não pode partir deste mundo sem antes se dedicar aos estudos espirituais.
— Eu vou estudar, eu quero estudar. Entretanto, não quero perdê—la de novo. De novo, não.
— Não vai me perder papai. Só vou para outra dimensão. Assim que voltar para o nosso verdadeiro mundo, a pátria espiritual vou—me reequilibrar e logo estarei ao seu lado, inspirando—lhe, ajudando—o na fundação de seu instituto. É um trabalho grande e árduo. Você vai enfrentar preconceitos, mas não vai esmorecer, porquanto do outro lado estarão amigos espirituais determinados a ajudá—lo em seu intento.
— Não sei se nesta altura da vida...
— Nem pense nisso! – a pequena Emily o censurou. – Você ainda vai viver muito, vai morrer bem velhinho. Nunca é tarde para se começar um novo trabalho. Será de grande importância para a humanidade. O mundo atualmente precisa cada vez mais se certificar da existência do Universo espiritual. A humanidade encontra—se pronta para receber as verdades da vida.
Emily conversou algumas outras particularidades com Scott e, após se despedirem e marcarem novo encontro, ela finalizou:
— Mamãe ainda está em processo de recuperação, mas bem. Quem lhe manda lembranças é o William Moore, seu colega de faculdade. Ele está tão bem, que não tem mais medo de água. William também fará parte do projeto de criação do instituto.
Não havia mais nenhuma possibilidade de dúvidas. Bryan Scott nunca havia dito nem mesmo à sua finada filha, sobre a existência e a forte amizade entre ele e William, na época da universidade. William não sabia nadar e afogara—se no lago do campus da universidade, depois que um forte vento virou o barco que ele remava. Foi muito difícil para Scott superar a dor traumática da separação. Entretanto, mais de cinqüenta anos haviam se passado e muito raramente Scott lembrava—se do amigo.
— Fico contente que William esteja ao meu lado. Sempre estimei muito sua amizade.
Bryan Scott despediu—se da pequena Emily e de sua mãe, Sarah. Saiu daquela humilde casa, no subúrbio de Bristol, atordoado, perturbado e. feliz. Sim, aquela conversa havia lhe aberto à mente. Tudo fazia sentido, e Scott teve uma vontade louca de começar a estudar e contatar pessoas que se dedicavam seriamente aos estudos espirituais.
O médico pensou em mudar—se para perto da casa daquela que julgava ser sua filha. Iria voltar na semana seguinte para visitá—la. Queria voltar no dia seguinte, mas alguns compromissos inadiáveis não lhe permitiriam esse intento. Ele faria uma proposta para Sarah. Talvez até pudessem viver todos juntos, como uma família. Ela nem imaginava quem era o pai de Emily".
Tudo em vão. Na semana seguinte, quando ele estava livre para passar alguns dias ao lado de Emily, nova bomba. A menina havia desencarnado dois dias antes. Sarah, em prantos, entregou ao médico uma carta que a filha, em letrinhas miúdas e ainda infantis, escrevera para ele no seu leito de morte.
Na carta, Emily lhe dava indicações de como começar o projeto e quais pessoas deveria procurar inicialmente. Deu nomes, profissões, endereços. Tudo detalhado.
Bryan Scott encontrou todas as pessoas ali mencionadas. Juntos, criaram o Instituto Scott de Estudos Espirituais, que foi um sucesso desde o início e agora contava com a colaboração de muitos profissionais sérios que corriam o mundo provando a existência da reencarnação.
Maximiliano empolgou—se de tal maneira que foi esticando sua estada na Grã—Bretanha até o último instante. Uma exposição do pintor que ele queria trazer ao Brasil iria começar dali a uma semana. Ele planejava cuidar da exposição e, ao seu término, iria mudar—se de vez para a Inglaterra. Queria ingressar no instituto e dedicar—se ao estudo sério da espiritualidade.
Ele era homem culto e muito simpático. Fora alertado por Bryan Scott de que havia energias densas, bem pesadas, pairando sobre sua casa. Maximiliano deveria regressar ao Brasil, mas deveria ficar na casa de outra pessoa. Não na dele. Antes haveria a necessidade de uma boa limpeza energética para não interferir no seu sistema físico, psíquico e espiritual.
Maximiliano apanhou suas malas, botou—as no carrinho e sorriu feliz. Após passar pela policia federal, atravessou a porta de saída e seus olhos perscrutaram o ambiente, em busca de sua amiga. Mais adiante viu uma mão delicada e bem cuidada, que balançava euforicamente. Ela deu um grito lá do fundo do saguão de desembarque.
— Sou eu, Max. Cheguei a tempo.
Ele sorriu e, quando se aproximou dela, abraçaram—se com ternura. Eram amigos de longa data. E de longas vidas. Max a beijou várias vezes na face.
— Renata, não sabe quanta saudade eu estava sentindo de você.
— E eu? Acha que vim do escritório até aqui para buscá—lo por quê?
Max riu gostoso.
— Você não larga o trabalho por nada! Se veio até aqui no meio do serviço, é porque gosta de mim.
— Bobo! – exclamou ela, contente. – Eu sempre faço tudo pelos meus verdadeiros amigos. Você me ajudou tanto, sou—lhe eternamente grata pela ajuda que me deu. Aliás, esse emprego eu devo a você.
— Nem diga isso. Eu sou amigo do dono da empresa. Ele é serio competente, jamais contrataria alguém por conta de nossa amizade. Você foi contratada porque é excelente profissional. É isso.
Abraçaram—se novamente. Foram caminhando até o carro de Renata.
— Pensei que não voltaria mais.
— Eu também. Vim a trabalho, mas quero voltar em definitivo. Londres é minha casa.
— Mesmo? – uma nuvem de tristeza cobriu os olhos de Renata. – Pensei que estivesse enjoado dos ingleses. Que agora iria ficar aqui com seus amigos.
— Eu adoro o Brasil, Renata. Mas pertenço àquele mundo. Eu gosto de cumprir horário, gosto de organização.
Nosso país é maravilhoso, mas ainda estamos longe disso. Mesmo com os problemas existentes na Inglaterra, eu me identifico mais com aquele país.
— Vai ver, viveu lá muitas vezes.
Ele sorriu.
— Não tenha dúvidas. Por falar nisso, tenho tanta coisa para lhe contar!
— Adoro suas histórias!
— Pena que eu tenha que voltar ao trabalho – suspirou ele, triste.
Renata piscou o olho de maneira maliciosa.
— Tirei o dia para nós. Eu amo meu trabalho, mas está tudo acertado com meus funcionários. Sabe o quanto sou organizada, e deixei todos sob as devidas orientações. Transferi uma reunião com um cliente importante para amanhã. Pode abusar de mim à vontade.
Max a abraçou novamente.
— Como gosto de você, Renata. Se eu tivesse outra orientação sexual, com certeza você não me escaparia.
— É, nem tudo é perfeito...
Ele deu um tapinha em seu ombro e riram a valer.
— Está na hora do almoço. Sente fome?
— Muita. Sabe que sou um bom garfo.
— Vamos àquele nosso restaurante predileto. Depois para casa. Você deve estar cansado da viagem.
— Um pouco. Tenho de conversar seriamente com você sobre voltar para casa.
— O que aconteceu?
Max fez um sinal com o indicador, apontando para cima.
— Aviso dos amigos do Além. Recebi um comunicado de que não devo, em hipótese alguma, botar os pés em minha casa, por ora.
— A Mafalda, lá do Centro Espírita, alertou—me sobre algo esquisito lá no nosso prédio. Talvez seja no seu apartamento que resida o problema.
O problema reside em Guido. Mas não quero tocar neste assunto agora. Vamos almoçar e, quando chegarmos a sua casa, eu lhe conto tudo.
— Minha casa? – perguntou Renata, exagerando propositalmente no tom.
— Sim, senhora. Vou ficar hospedado na sua casa. Não sei por quanto tempo, mas vou ficar lá, até os espíritos me liberarem para voltar para a minha casa.
Entraram no carro e Renata deu partida. Saíram do aeroporto e, ao pegarem larga avenida, foram conversando, animados, sobre os mais variados assuntos.


*****


Genaro chegou à casa radiante. Fora eleito deputado federal. Um dos mais votados do país.
—Essa gente que vota é muito ignorante. Como é fácil iludir o povo. Daqui para frente, agora o caminho será o Planalto! – exclamou, enquanto batia a mão no peito.
— Falando sozinho, Genaro?
Ele virou—se para trás e deparou com Eunice. Sorriu.
— Estúpida!
— Ela fez uma careta.
— Você é estúpida e deve me tratar com deferência. De agora em diante devo ser chamado de Sr. deputado.
— Para mim será sempre Genaro. Que é isso menino? Quando você mal saiu dos cueiros eu já estava batalhando na vida.
Ele deu uma gargalhada.
— De que adiantou tanta batalha? Vai terminar a vida lavando e passando roupa para os outros. Vai morrer doméstica. Pobre.
— Valeu o esforço.
— De que valeu tanto esforço?
— Eu durmo com a consciência tranqüila, Sr. deputado – ela aumentou o tom.
— Não estou comprometida com nada nem ninguém.
— Não disse que você é estúpida? O mundo, minha cara Eunice, pertence aos espertos, àqueles que sabem tirar proveito desse povo ignorante que habita o Brasil em profusão. Adoro o povão.
Eunice balançou a cabeça para os lados, de maneira negativa.
— Isso ainda vai acabar mal. Você deverá prestar conta do que faz. Tem responsabilidade social e, se falhar, o peso da cobrança poderá ser muito maior do que talvez possa carregar.
— Que papo mais estúpido. Que responsabilidade social que nada. Eu quero mais é maracutaia. Quero meter a mão no governo e ganhar muito dinheiro. Acha que quero ser deputado e futuro presidente para quê? Para fazer algo pelo país? Ora, Eunice. Eu quero é tirar tudo e um pouco mais. Eu sou inteligente, preciso aproveitar a ignorância das pessoas.
— Vai se dar mal.
— Isso é praga?
— Pode ser.
— Praga de pobre não pega em mim.
— Cuidado para não ser preso.
Genro riu com desdém.
— Você já viu político ser preso ou cassado neste país? Já viu?
— Ainda não, mas nunca é tarde. Se continuar assim, vai se dar mal. Sei que vai.
Genaro fez gesto obsceno com um dos dedos. Eunice levou a mão à boca, estupefata.
— Grosso!
— Anda, anda. Sai da minha frente; Quero ver minha esposa. Onde está a donzela?
— No quarto, arrumando—se.
— Arrumando—se para ir aonde?
— Vai ao banco.
— Só torra o meu dinheiro. Luísa pensa que eu sou o quê? Cofre público? Ela vai se ver comigo.
— Não a maltrate, por favor – suplicou Eunice.
Genaro deu—lhe um empurrão e ela caiu sentada no sofá.
— Eu não maltrato minha esposa. Apenas lhe aplico uns corretivos, quando necessário.
Genaro falou e subiu as escadas. Eunice balançou a cabeça para os lados. Até quando Luísa iria suportar aquele homem? Ela amava Luísa como filha. Conhecera—a desde pequenina. Havia uma ligação de amor muito forte que as mantinha unidas, sob quaisquer circunstâncias.
Eunice voltou à cozinha em seguida. Foi atrás de seus afazeres. Genaro entrou no quarto e Luísa estava sentada na banqueta defronte à penteadeira. Escovava seus cabelos castanhos e sedosos.
— Estou feliz – admitiu ele. – Fui eleito. Agora sou deputado federal.
Ela continuou escovando os cabelos. Sem virar o rosto, encarando—o pelo espelho que refletia sua imagem, Luísa tornou:
— Você comprou quase todos do seu partido. Estava na cara que seria eleito.
— Não importa como fui eleito. O que importa é que fui eleito. Isso sim.
— Entendo.
— E trate de se preparar, porque nossa vida vai mudar.
— Mudar?
— Sim, viajaremos muito a Brasília. Sempre que possível você vai me acompanhar.
— Está certo. Serei a esposa de deputado mais correta e educada do mundo. Você vai ver.
— Isso sim. Nenhum deslize. Não foi à toa que me casei com você. Tem um passado imaculado. Só falta agora me dar um filho.
Luísa estremeceu. De novo Genaro vinha com a história de filhos.
O casamento ia de mal a pior. Ela estava esperando o resultado das eleições para poderem sentar e falar sobre a separação e agora ele vinha tocar no assunto de filho?
— Você precisa ir ao consultório do Dr. Ribeiro. Há exames que precisam ser feitos para diagnosticar se você é estéril.
O sangue subiu pelas faces de Genaro. Ele aproximou—se e levantou a mão. Luisa defendeu—se com a escova.
— Por favor, não me bata! – ela suplicou, de maneira comovente e apavorada.
— Você me irrita.
— Desculpe—me, mas...
Genaro a cortou, seco.
— Por que afirma que sou estéril? Eu não lhe disse que já fui pai?
— Sim... Vo... Você me disse. Mas aquele menino em Bauru não tem nenhum traço seu. Como pode afirmar que seja mesmo seu filho? Que aquela mulher não seja uma embusteira e esteja com vontade de chantageá—lo pelo resto da vida?
— Como saber? Oras, eu me deitei com ela, puxa vida! Tenho certeza de que o filho é meu. E meus advogados acreditam que o melhor é aceitar e dar—lhe gorda mesada para que ela não venha a público arranhar minha imagem. Imagine uma noticia dessas da imprensa? Minha reputação conta muito.
— Eu fiz todos os exames, Genaro. Não tenho problema algum. Custa você ir ao consultório do Dr. Ribeiro? Só para tirar essa dúvida?
— Vamos tirar a dúvida agora.
Genaro falou de maneira libidinosa. Seus olhos ardiam de paixão e Luísa assustou—se. Ela tentou se levantar, mas ele era bem mais forte. Arrancou—lhe a escova das mãos, rasgou seu vestido e a arrastou até a cama, puxando—a com extrema força. Genaro jogou a esposa sobre o leito, arrancou suas vestes de maneira rápida e, antes que Luísa pudesse escapar, ele se jogou sobre ela e a possuiu de maneira violenta.
Dessa vez Luísa não conteve a ira e o desespero invadiu sua alma. Ela gritou de dor e de humilhação. Eunice ouviu os gritos dela, mas não podia fazer nada. Absolutamente nada. Uma lágrima correu pelo canto de seu olho e ela chorou, chorou e rogou a Deus que ajudasse sua menina a se livrar daquele brutamontes sem coração.
Genaro foi rápido. Em cinco minutos havia consumado o ato. Suando muito, ele desprendeu—se do corpo da esposa. Virou de lado e fez o mesmo ritual de sempre: abriu à cômoda, pegou um paninho, limpou—se, virou—se novamente e caiu num sono profundo e pesado. Em instantes seu ronco ecoou pelo quarto, de maneira irritante.
Luísa levantou—se, sentindo uma dor sem igual no baixo—ventre. As lágrimas escorriam insopitáveis pelo rosto e ela mal tinha forças para se levantar. Foi ao banheiro, encheu a banheira, temperou a água e entregou—se ao relaxamento. Naquele instante pensou em se afogar. Era melhor.
Ela tentou uma vez. Depois outra. Quando ia tomar coragem para cometer o ato insano, Eunice entrou no banheiro.
— Eu ouvi os gritos e orei bastante. Quando ele começou a roncar, decidi entrar. Como está?
Luísa começou a chorar novamente.
— Genaro é um crápula, Eunice. Trata—me como se eu fosse um objeto, uma boneca. Ele mal liga para meus sentimentos. Veio para cima de mim, machucou—me.
— Ele a estuprou, essa é a verdade.
— Eu não agüento mais viver ao lado dele.
— Então se separe. Você tem seus pais e.
Luísa foi categórica.
— Meus pais foram comprados pelo Genaro. Eles nunca permitirão que eu me separe dele. Acha que minha mãe vai me defender? Vai ficar ao lado da filha e correr o risco de perder a casa, o carro, a mesada que Genaro lhe dá? Nunca, Eunice.
Eu não tenho ninguém que possa me ajudar. Só tenho você. E Renata.
— Converse com sua amiga. Vá ao Centro Espírita.
— Sinto medo.
— Mais medo do que apanhar de Genaro? Duvido. Depois de tudo o que você tem passado ao lado desse brutamontes, nada mais poderá lhe causar medo.
Luísa titubeou por um instante.
— Creio que você tenha razão. Renata me disse a mesma coisa dias atrás. Em outras palavras, mas com o mesmo significado. Talvez esse seja um sinal para eu procurar ajuda espiritual. Estou a ponto de explodir, Eunice.
— Ligue para sua amiga. Eu fiz almoço, mas posso guardar para o jantar. Convide—a para almoçar.
— Até pensei em ligar, mas Renata tinha compromisso hoje. Um amigo querido regressou de Londres e ela iria passar o dia com ele. Não quero, de maneira alguma, atrapalhar. Eles devem ter muitas coisas para conversar. Eu prefiro sair, dar uma volta.
— Ótimo! Vá dar uma volta.
— Você poderia vir comigo, Eunice.
— Não posso. O técnico vem consertar a máquina de lavar roupas logo mais. Se ele não der um jeito nisso hoje, terei de voltar ao tanque e não tenho mais idade para esfregar roupa. Imagine eu no tanque esfregando as cuecas de Genaro? Não mereço esse sofrimento!
Luísa riu.
— Só você para me fazer rir numa hora dessas. Não gostaria de vê—la fazendo os serviços da casa. Poderia muito bem acompanhar—me nos eventos. Eu contrato uma empregada.
— De maneira alguma. Eu não vou deixar de fazer o que gosto. Adoro cuidar da casa, das roupas, da comida, de deixar tudo limpo e em ordem. Eu nasci para isso e gosto disso. Por favor, não deprecie o meu trabalho. Afinal de contas, eu não trabalho para você, mas conduzo os serviços da casa porque gosto. Ponha isso na sua cabeça.
— Eu adoro você, Eunice.
— Eu também a adoro, minha querida.
Eunice levantou—se da beirada da banheira.
— A água deve estar esfriando. Vamos sair daí, antes que pegue um resfriado.
Luísa assentiu. Levantou—se, apanhou a toalha das mãos de Eunice e enxugou—se com vagar.
— Por que não vai almoçar fora e depois compra alguma coisa para você? Um vestido, um mimo qualquer. Dar—se um presente sempre eleva a auto—estima.
— Você tem razão, querida. Farei isso. Entretanto, estou sem cheque e sem dinheiro. O Genaro vive monitorando meus cartões de crédito. Você me deu uma boa idéia. Vou me arrumar e ir ao banco. De lá vou a um shopping, almoço e depois compro algo para mim e para você.
— Eu não preciso de nada. Seu bem—estar é o meu maior presente.
— Não senhora! Vou comprar sim. Um vestido bem bonito, do jeito que você gosta.
— Obrigada. Mas não vá gastar muito. Não confio na fonte de onde vem esse dinheiro.
Luísa riu.
— Eu vendi algumas peças de roupas num bazar e tenho umas economias. Vou comprar com o meu dinheiro. Fique tranqüila.
Eunice sorriu. Fez sentida prece ao Alto, pedindo para que os amigos espirituais pudessem ajudar Luísa a se livrar de Genaro. O mais rápido possível.



CAPÍTULO 10


Renata encostou o carro no meio-fio.
— Chegamos.
— Adoro esse lugar – aquiesceu Maximiliano.
— Eu também. A comida é deliciosa e o atendimento, um primor.
Renata entregou a chave do carro ao manobrista. Entraram no restaurante e, como ela e Max eram fregueses assíduos do estabelecimento, logo o gerente apareceu, cumprimentou—os e lhes conduziu a uma mesa afastada do burburinho. Naquela hora de almoço, o restaurante estava quase lotado e eles queriam privacidade.
Sentaram—se atrás de uma coluna, fizeram seus pedidos e, quando o garçom serviu—os de água e refrigerante, entabularam conversação.
— Eu tenho muitas coisas para lhe falar – tornou Max, de maneira alegre. – Agora faço parte do Instituto Scott de Estudos Espirituais.
— O instituto é rigoroso na seleção de seus alunos. Como chegou lá?
— Uma noite, durante um jantar com um dos artistas que pretendia trazer ao Brasil, fui apresentado ao Dr. Bryan Scott.
— Você o conheceu?
— Em carne e osso, minha amiga. Um homem admirável. Está bem velhinho, mas tem uma lucidez, uma percepção das coisas que é fascinante. Que homem brilhante!
— Eu adoraria conhecer o instituto.
— Poderá conhecê—lo, Renata. O Dr. Scott quer fazer um intercâmbio com os médiuns e outros estudiosos da vida espiritual daqui. Você bem sabe que o Brasil é o maior país espírita do mundo.
— Como também acolhemos as religiões africanas, que também acreditam no mundo espiritual e utilizam—se da mediunidade de seus trabalhadores.
— Por certo. Não é a toa que muitos estudiosos estão de olho na nossa nação.
Renata estava exultante.
— Adoraria participar. Tenho estudado muito e tornei—me amiga de Mafalda, a dirigente do Centro. Você a conheceu, antes de ir para Londres.
— E se conheci. A Mafalda foi quem me disse que essa viagem seria um marco decisivo em minha vida.
— Ela lhe disse isso?
— Disse. Mas foi um tanto vaga. Talvez estivesse querendo que eu entrasse em contato com os estudos para depois podermos conversar. Pensei muito em Mafalda durante minha estada na Inglaterra.
O garçom trouxe os pedidos e eles pararam de falar por instantes. Após o rapaz se afastar, Maximiliano falou, com voz apreensiva:
— Sabe Renata, eu recebi um aviso de que preciso fazer um trabalho de limpeza espiritual em meu apartamento antes de voltar a morar lá. Vou precisar dos préstimos de Mafalda. E contarei com sua ajuda também. Precisarei ficar em sua casa por alguns dias.
— Por mim, meu amigo, pode ficar em casa o tempo que for necessário.
— Eu fui invigilante, Renata. Coloquei em minha casa um rapaz que mal conhecia. Um perigo.
— Eu mal paro em casa. É muito difícil encontrar algum vizinho. Creio que nunca tenha visto esse... Como é o nome?
— Guido – respondeu ele, de maneira enfadonha. – Fui tomado de pena e comiseração e resolvi convidá—lo para morar comigo. Nunca cometi um erro tão crasso em toda a minha vida.
— Você se deixou levar pela pena e esse sentimento nunca deve ser alimentado. Mas você colocou o menino lá. Por acaso aconteceu alguma coisa? Eu recebi uma mensagem dos amigos espirituais de que havia algo de estranho no prédio e que deveria fazer determinadas orações. Tive de comprar inclusive um livro de salmos. Leio o de número 91 diariamente.
— A leitura dos salmos é poderoso instrumento de ligação com as forças espirituais superiores. No instituto, há um grupo de estudiosos que se debruçam sobre o poder dos salmos e como sua leitura nos beneficia.
— Por enquanto é o que faço. Mas você soube de mais alguma coisa?
Maximiliano passou a mão pelos cabelos.
— Sim. Fui alertado de que o ambiente em casa está impregnado de energia sexual de baixa vibração. Parece que Guido usou minha casa como local para promover orgias.
— Nunca vi nenhum movimento estranho no prédio.
— Ele botou um rapaz para morar lá.
— É sério?
— Sim.
— Sem o seu consentimento?
— Eu nunca deveria ter deixado minha casa nas mãos de um estranho.
— Não adianta se lamentar. O estrago foi feito e, pelo jeito, o apartamento está impregnado de energias negativas.
— Por essa razão eu não posso entrar lá.
Há necessidade de uma defumação e da utilização de algumas ervas que talvez Mafalda nos oriente a usar.
— Mafalda é boa na indicação de ervas. Tenho certeza de que vão conseguir reequilibrar as energias de sua casa.
— Assim espero.
— Escute, Max.
— Sim?
— Você, eu, Mafalda e os espíritos amigos vamos promover essa limpeza no ambiente, certo?
— Certo.
— E o que vai fazer com esse tal de Guido?
Max suspirou.
— Precisaremos ter uma conversa dura e firme. Eu não posso mais alimentar essa pena que sinto dele. Isso só vai nos causar mais dissabores. Um amigo meu, em viagem recente a Londres, disse que o viu várias vezes na companhia de outro jovem. Eu sabia que ele tinha hospedado um moço no prédio, mas, engraçado, não sinto que esse rapaz passe algo de negativo.
— Vai ter de tirá—los de sua casa.
— O que me preocupa, Renata, é que alguns amigos me alertaram que Guido anda com aquele empresário, Gregório Del Prate.
Renata levou a mão à boca, estupefata.
— Que horror! – ela bateu por três vezes a mão sobre a mesa. – Se seu amiguinho anda metido com Gregório Del Prate, então vamos ter de exorcizar a sua casa!
Maximiliano riu a valer.
— Você é danada, Renata. Danada!
— E não? O mundo todo sabe que Gregório é o capeta em forma de gente. Sabemos de tantas coisas ruins que ele aprontou com pessoas próximas a nós, gente do bem...
— Pois é. Vou ter uma conversa definitiva com Guido. Quero marcar um encontro com ele hoje mesmo.
— Pode ser lá em casa.
— Não acho uma boa idéia. Ele pode se revoltar e.
— E o quê? Ora, Max, estamos ligados ao bem. Aliás, somos pessoas de bem. Vamos orar e pedir a ajuda aos nossos amigos do astral superior. Minha casa é um santuário e tenho certeza de que, sendo lugar neutro, seu amiguinho Guido não vai fazer nada. Podemos também recorrer à Mafalda.
— Ela poderia nos atender hoje?
Renata deu um risinho abafado.
— Conversei ontem com Mafalda. Ela disse que posso procurá—la a hora que quiser. Podemos almoçar e ir ao Centro Espírita. Não está cansado?
— Não. Estou ótimo. Quero resolver essa situação o mais rápido possível.


*****

Caio entrou no banco e foi até o caixa. A instituição estava vazia e ele logo foi atendido. Chegou ao caixa e fez o depósito em sua conta.
— Preciso sacar algum dinheiro.
— Vou verificar com o gerente, senhor. O cheque é desta mesma agência e, se tiver fundo, o senhor poderá retirar quantia limitada. Este valor – o caixa apontou para o cheque – somente é liberado caso o senhor faça pedido de saque com quarenta e oito horas de antecedência.
— Onde aguardo?
— Aqui mesmo. Já volto.
Caio sorriu e assentiu com a cabeça. O caixa foi até o gerente, que viu o cheque e imediatamente ligou para a Cia. de Perfumes. Conversou com Gregório e, em seguida, permitiu que Caio sacasse determinada quantia. O gerente assinou o cheque e o devolveu ao caixa, que pegou o dinheiro, contou as notas por duas vezes e, em seguida, entregou—as a Caio.
— O senhor pode conferir?
— Não é necessário, você já fez isso por duas vezes.
O caixa sorriu e agradeceu. Caio rodou nos calcanhares e, enquanto contava algumas notas, de cabeça baixa, deu tremendo esbarrão na moça que também saía do banco. O choque foi tão grande que ela se desequilibrou e caiu.
— Mil desculpas – foi o que ele pôde pronunciar. Abaixou—se imediatamente e a ajudou a se levantar e se recompor. – Machucou—se?
— De maneira alguma. Eu me desequilibrei, mais nada. Está tudo bem.
— Mesmo? Não quer um copo d'água?
Luísa sorriu e Caio estremeceu. Nunca vira mulher mais bonita em toda a sua vida. Seu coração bateu descompassado e ele procurou ocultar a emoção.
— Desculpe—me mais uma vez.
Ela estendeu a mão. Achou—o bonito e simpático.
— Eu adoraria tomar um refresco.
— Está muito calor – tornou Caio.
— Quer me acompanhar?
— Desde que eu pague.
— Oras, por quê?
— Eu fui o responsável pelo acidente. Depois, vou levá—la para casa.
— Não será necessário – Luísa apontou com o dedo. – Há uma lanchonete na outra esquina. Vamos até lá?
— Meu nome é Caio.
— Muito prazer. O meu é Luíza.
Caio assentiu com a cabeça. Não tinha palavras. Estava atordoado com tamanha beleza. Seu coração continuava batendo descompassado. A cada esbarradinha, a cada toque entre seus corpos, Caio sentia um leve tremor, uma sensação que nunca sentira na vida. Nem mesmo nos braços de Sarita.
Será que isso era o que Sarita lhe dissera sobre cara—metade?
Caio estava com os pensamentos confusos, não conseguia articular direito as palavras, tamanha a emoção diante daquela mulher que lhe despertava os mais nobres e puros sentimentos.
Caio estava encantado. Era como se a conhecesse, como se já a tivesse visto em algum lugar? Ele tinha essa certeza. De onde a conhecia?
Enquanto caminhavam em direção à lanchonete, Henry suspirou feliz.
— Até que enfim eles se encontraram. Eu pensei que isso nunca fosse acontecer.
— Continua ansioso, não é mesmo? – inquiriu Carlota.
— Por certo. Eles foram meus pais. E serão de novo.
— Você não vê que tudo na vida ocorre na hora e no tempo certos?
— Sim, mas...
Carlota prosseguiu, sem deixá—lo falar.
— Quantos cursos fez aqui no astral? Será que não aprendeu nada?
Henry abaixou a cabeça, envergonhado.
— Não é isso, Carlota. A ansiedade é natural. Sei que tudo corre no tempo certo, tudo está programado no Universo e não cai uma folha de uma árvore sem o consentimento do Alto. Entretanto, fui abandonado pelo meu pai e demorei muito para perdoá—lo. Amargurado pelo seu abandono, tornei—me um péssimo filho para minha mãe. Ela não merecia esse desgosto. Já havia sido abandonada, e eu me senti revoltado. Não juntei forças para lhe dar suporte, carinho e atenção.
Carlota levou a mão delicadamente sobre seus lábios.
— Você fez o que achou melhor.
— Agora quero fazer tudo diferente.
— Primeiro aguardemos até que Luísa torne—se mais forte, dona de si. Há necessidade de ela mudar crenças e atitudes que a impedem de crescer. Ela é muito insegura, ainda. Ao lado de Genaro. Ela deve ter a noção de que também tem força, e, assim, tudo poderá ser diferente.
— Eu gosto de Caio. Ele aprontou muito e deixou minha mãe numa situação de penúria.
— Ele fez o melhor que pôde. Sabe que ele se comprometeu a ajustar—se com vocês dois. Vamos ver se ele é forte o suficiente para agüentar o tranco que virá pela frente.
— Farei o possível para ajudá—lo. Meu pai ontem, meu pai hoje...
— Calma Henry. Ainda nem conversamos com eles. Essa etapa – o seu reencarne – só poderá ocorrer depois de determinadas situações mal resolvidas entre Caio, Gregório, Luísa e Genaro. Depois que isso se resolver, poderemos traçar sua nova vida.
— Estou louco para voltar ao orbe, Carlota. Quero jogar bola, dormir de tarde, tirar férias. Aqui no astral se trabalha e se estuda muito. Estou cansado de tantas atividades.
Carlota riu.
— Pena que os encarnados não pensem como você. Para os habitantes da crosta terrestre, o nosso mundo é o do descanso. Pobres coitados, não sabem aproveitar essa vida cheia de situações que lhes permitem viver entre doses cavalares de descanso.
— Quem me dera poder ir a uma praia e refestelar—me na areia, tomar banho de mar, ficar deitado e receber os raios benéficos do sol em minha pele. Ah, Carlota, que saudade dessa vida boa.
— Ora, ora, você nunca viveu no Brasil!
— Mas agora eu quero viver aí sim. Quero reencarnar neste solo sagrado e, se possível, fazer meus pais se mudarem para uma cidade litorânea.
— Você e seus planos. Vamos Henry. Deixemos Caio e Luísa se conhecerem, ou melhor, se reconhecerem. Era chegado o momento.
— Só um instante.
Henry afastou—se e aproximou—se de Luísa, beijando—lhe a fronte.
— Se cuida mãe! Logo estaremos juntos.
Luísa não registrou o beijo, mas sentiu tremendo bem—estar.
Assim que recebeu o beijo de Henry ela sorriu. Caio novamente encantou—se com aquele sorriso singelo e sincero.
Entraram na lanchonete, sentaram—se em banquetas ao redor do balcão. Pediram um guaraná.
— O que você faz afinal, Caio? – perguntou Luísa, de maneira inocente.
— Sou modelo.
— Modelo?
— Sim. Farei campanha para um perfume.
— Adoro perfume. Puxa um rapaz importante.
Caio sorriu.
— Nem tanto. Ainda não assinei contrato, sabe? Mas recebi um adiantamento. Estava agora a pouco no banco para efetuar o depósito em minha conta.
— Eu estava sem dinheiro e vim para pegar algum.
Caio notou a aliança dourada no dedo anular dela. Sentiu uma tristeza, um desapontamento sem igual. Quis que o chão se abrisse e ele sumisse.
— O que foi? Parece triste.
Caio dissimulou.
— Seu marido não lhe dá dinheiro?
— Como sabe que sou casada?
— Notei sua aliança.
Luísa corou.
— Bom observador – ela baixou os olhos, um pouco envergonhada.
— Você está bem? Também me parece triste.
— Eu sou uma mulher triste. Vivo presa a um casamento sem amor.
O semblante de Caio iluminou—se. Havia uma chance...
— Oras, então por que não se separa? Hoje é tão comum entre os casais.
— Adoraria ter essa coragem. Mas meu marido é político, acabou de se eleger deputado federal. Uma separação a essa altura dos acontecimentos não lhe faria bem.
— Você é pura de coração – rebateu Caio.
— Por que diz isso?
— Está interessada no bem—estar de seu marido.
— Não é bem assim. Minha família também está metida nisso – Luísa afastou os pensamentos com as mãos. – A história é longa.
— E quem vai cuidar do seu bem—estar?
— Você tem razão. Entretanto, o que fazer? Eu não tenho formação, sempre fui criada para ser dona de casa. Se eu me separar de meu marido, como sobreviverei?
— Para tudo tem jeito na vida – redargüiu Caio. – Eu sou do interior, sabe? Cheguei a São Paulo determinado, a princípio para seguir a carreira de modelo. Mas no começo eu me afastei de meus objetivos e acabei me envolvendo em outras atividades.
— O que você fez?
Caio enrubesceu.
Luísa o fitou. Estava esperando a resposta. Será que podia confiar nela? Eles mal se conheciam, entretanto, Caio sentiu—se tão à vontade na companhia dela, que não hesitou em ser franco e direto.
— Eu sempre fui ligado em sexo – ele pigarreou e Luísa arregalou os olhos. Ele iria parar, mas ela fez menção com a cabeça para que ele continuasse. – Cheguei a São Paulo e, influenciado por um amigo, comecei a ganhar dinheiro com sexo. Eu me prostituía.
Luísa levou a mão à boca.
— Oh, que triste. Como pôde ter estomago para viver disso?
— Prazer e necessidade, aliados. Eu sempre tive um fraco por sexo e também precisava de dinheiro. Juntei a fome com a vontade de comer.
— E você ainda faz... Isso?
— Não mais.
— Não mesmo?
Caio meneou a cabeça para os lados.
— Pensei muito em minha mãe, que vive lá no interior. Ela não merece isso. Deu duro para criar a mim e minha irmã.
— Ah, você tem uma irmã?
— Tive. Norma morreu anos atrás.
— Sinto muito – respondeu Luísa.
— Eu também não tenho pai. Ele morreu quando éramos pequenos. Eu tinha dois anos e nem me lembro da figura paterna. Mamãe sempre foi mulher batalhadora e fez de tudo para que eu me tornasse alguém na vida. Por esse motivo, prometi a mim mesmo que, de agora em diante, só serei motivo de orgulho para ela.
— Fico feliz que pense dessa forma.
— Você continua sorrindo e conversando comigo.
— E daí?
— Não me recrimina pela vida que tive?
— Por que o recriminaria?
— Preconceito, talvez...
— Eu acabei de conhecê—lo e o que você fez de sua vida até agora não é do meu interesse. Claro, de agora em diante, ficarei de olho em você. Creio que ganhei um amigo.
Caio sentiu brando calor no peito. Nunca tinha sentido algo semelhante por alguém antes. Ele se sentiu imediatamente atraído por ela. Apaixonado seria o termo mais adequado. Amor à primeira vista seria perfeito para traduzir esse encontro. Mas o que fazer? Luísa era casada. Acima de tudo, deveria – e queria – respeitá—la.
— Você é muito legal, Luísa. Obrigado por não me recriminar. Eu prometo a você que serei um grande amigo e você terá muito orgulho de mim.
— Assim espero.
Terminaram de beber o refrigerante. Caio pagou a conta e, antes de se despedirem, ele disse:
— Eu ainda não tenho lugar para ficar. Estou de mudança. Importa se me der seu telefone? Espero, até a semana que vem estar em outro apartamento. Só meu.
— Que inveja. Adoraria ter um apartamento só para mim, uma vida independente, ser feliz.
Caio encarou—a nos olhos.
— Você tem tudo para ser feliz.
Luísa estremeceu. A presença de Caio a desestabilizou. Não sabia se pela beleza ou pela inocência. Ou por outros fatores que por ora ela não saberia explicar. Mas sentia algo como há muito tempo não sentia. Ela disfarçou.
— Espero que um dia isso aconteça.
— Bom, preciso ir e cuidar de minha vida. Apenas diga—me uma coisa...
— Sim?
— Gostaria de me ajudar na decoração do apartamento?
— Oh, adoraria!
— Eu devo arrumar um lugar por estes dias. Depois, terei de comprar móveis, objetos para a casa e não levo muito jeito para isso. Você me ajudaria?
— Mas é claro. Façamos o seguinte. Eu vou lhe dar o telefone de casa.
Caio hesitou.
— E seu marido? Não pode arrumar encrenca com você?
— Não. Ele é muito ocupado com política. Agora que se elegeu deputado deve ficar mais em Brasília que em casa. Graças a Deus.
Caio riu por dentro. Parecia que Luísa era infeliz no casamento. Para ele, havia uma chance. Ele disfarçou o que ia a seu coração.
— Assim que arrumar o apartamento, eu ligo.
— Combinado – Luísa abriu a bolsa e retirou um cartão. – É melhor me ligar após o almoço. Nesse horário meu marido nunca está em casa.
— Eu ligarei sim – Caio lhe estendeu a mão. – Prazer em conhecê—la, Luísa.
— O prazer foi todo meu.
Caio a viu sumir pela rua. Sentiu novamente aquele calor no peito.
Não queria se separar dela. Não queria que aquela conversa terminasse. Já sentia saudade da companhia de Luísa. Será que era normal?
Ele não saberia responder. Sorriu para si mesmo e voltou para casa, feliz.




CAPÍTULO 11



Maximiliano e Renata chegaram ao Centro Espírita pouco antes da abertura dos trabalhos espirituais da tarde. Geralmente, durante as tardes, eram feitas consultas e tratamento de passes. Caso houvesse algum problema espiritual mais sério – como obsessão, por exemplo –, a pessoa era encaminhada para o horário da noite, no qual havia um grupo de médiuns da casa treinados para esse tipo de trabalho.
Os dois foram recebidos por uma moça simpática que os conduziu imediatamente à sala de Mafalda. Ela bateu levemente e Mafalda deu ordem de entrar.
— Mafalda, aqui está a Renata e seu amigo.
— Faça—os entrar.
A moça fez sinal para os dois e eles entraram. Em seguida, perguntou solícita:
— Aceita uma água, um café?
— Não quero nada – respondeu Renata.
— Eu também não desejo nada. Obrigado – redargüiu Maximiliano.
Mafalda levantou—se e foi até eles. Cumprimentou Renata com um beijo e um abraço. Era mulher muito afetuosa e demonstrava isso nos cumprimentos e trato com as pessoas.
— Como vai, minha querida?
— Estou muito bem, Mafalda. Melhor, impossível. Sempre ligada com os amigos espirituais do bem.
— É assim que se faz – ela encarou Maximiliano e abriu largo sorriso. – Estava lhe esperando, meu amigo. Bom ter vindo aqui.
— Nosso último encontro foi tão rápido! Espero poder ter mais de seu tempo.
Mafalda o beijou na face e o abraçou efusivamente. De seu corpo emanava um calor agradável, que fez Max se sentir muito confortável.
— Os espíritos me avisaram que você viria.
— Mesmo?
— Sim. Por favor – ela fez sinal para duas poltronas –, sentem—se.
— Eu sabia que você poderia nos atender, Mafalda.
— Você foi intuída a trazer o Max até aqui.
— Eu?!
— Sim. Você tem progredido bastante aqui em nosso Centro. Procura estudar com afinco, tem construído dentro de si uma fé inabalável. Tem progredido bastante no caminho do bem. Os espíritos amigos contam com encarnados como você.
— Obrigada, Mafalda. Desde que vim para cá, minha vida mudou para melhor. Eu cresci muito, em todos os níveis. E creio que os espíritos amigos podem contar comigo para o que der e vier.
— Por tudo isso, usaram—na como instrumento para trazer nosso nobre amigo até aqui.
— Eu sou um simples mortal – rebateu Max. – Tenho ainda muito que aprender.
— Por certo, meu amigo. Entretanto você se ligou a um poderoso grupo de estudiosos lá na Inglaterra e juntos realizarão grandes feitos no mundo.
Max estava estupefato.
— Como sabe disso?
— Eu sei de muitas coisas – respondeu Mafalda, num sorriso encantador. – E sei que, neste momento, precisamos nos dedicar à limpeza astral de sua casa.
— Parece que o ambiente está bastante contaminado por energias perniciosas.
— A energia sexual – tornou Mafalda, numa voz levemente alterada – é rica em ectoplasma. Os espíritos desencarnados, perdidos entre esta e a outra dimensão, necessitam desse fluído para se sentirem "vivos". Afinal, não aceitam a morte do corpo físico nem tampouco querem se desligar dos prazeres da carne.
Eles nem piscaram os olhos. Absorviam cada palavra.
— Todavia, nos tempos atuais, o sexo descontrolado e inconseqüente será freado por um tipo de vírus, digamos assim, que já está se instalando no corpo de algumas pessoas aqui no orbe. Esse vírus vai trazer à tona o questionamento acerca do sexo e suas conseqüências, quando mal utilizado.
— Faz sentido – disse Max. – Lá na Inglaterra li algo sobre um tipo raro de câncer que está destruindo a imunidade das pessoas. Parece um tipo de vírus que é transmitido pelo sangue contaminado e relações sexuais.
— Pois é. A humanidade passará por um período sombrio nesse aspecto e teremos de repensar a maneira como praticamos o sexo.
— Eu não ouvi nada a respeito – comentou Renata.
— Logo você saberá. O mundo inteiro vai ser atingido por esse vírus. Ele não vai respeitar sexo, cor, raça, nada. Será um vírus democrático, atingirá todos aqueles que fazem mau uso das funções sexuais. E por essa razão – Mafalda refletiu –, precisamos retirar as energias que permeiam sua casa.
Maximiliano sentiu—se envergonhado. Nunca deveria ter permitido que Guido morasse em sua casa. Sentira pena do rapaz e estava agora diante de uma grande encrenca. Mafalda absorveu—lhe os pensamentos e rebateu:
— Agora não adianta se martirizar, meu amigo. Você deve conversar com o rapaz que mora em sua casa e afastá—lo de lá o mais rápido possível. Nossos amigos espirituais estarão ao seu lado para ajudá—lo.
— Fico agradecido, Mafalda.
— E tem mais.
Max levantou o sobrolho.
— Mais?
— Sim. Esse rapaz que está na sua casa está consorciado a espíritos de baixa vibração. Ele foi à procura de um médium que utiliza sua sensibilidade de maneira torpe e pediu que fizessem um feitiço para prejudicar você.
— Um feitiço para me prejudicar?
— Acha que você colocou o rapaz dentro de sua casa só por conta da pena que sentiu?
— E não foi? – perguntou Max, aturdido.
— Não. Alguns espíritos negativos aproveitaram o seu fascínio pelo garoto e assim conseguiram influenciar sua mente para que ele ficasse em sua casa. Por tempo indeterminado.
— Não posso crer!
— Mas é verdade. Recomendo que sempre precisamos ter controle absoluto de nossa mente. Não podemos nos deixar interferir por pensamentos maledicentes vindos de encarnados ou desencarnados.
— Vou tomar conta de meus pensamentos. Mafalda pode acreditar. Não vim aqui por acaso.
— Conte comigo – finalizou ela. – E com os espíritos de luz que prestam serviços aqui nesta casa espírita.
Mafalda abriu uma gaveta, pegou um bloco de papel e fez algumas anotações. Depois, entregou—o a Max.
— Você deve comprar essas ervas e utilizá—las na defumação de sua casa. Sabe fazer defumação?
— Nunca diz, mas não acredito que seja um bicho—de—sete—cabeças.
— E não é. A energia extraída da queima dessas ervas higieniza o lar, arrancando dele formas astrais nocivas ao nosso corpo físico e, por conseguinte espiritual.
Você terá de fazer isso por sete dias seguidos, sem interrupção.
— Como procedo? – perguntou Max, interessado.
— Comece pela compra das ervas. Compre também um defumador.
— Onde compro isso?
— Em casas que vendem artigos religiosos.
— E depois?
— Coloque as ervas no defumador, acenda—as e, quando começarem a produzir fumaça, está na hora de trabalhar na queima das energias nocivas. Comece pelos fundos da casa.
— Eu moro em apartamento.
— Comece pela área de serviço. Depois, se tiver banheiro e quarto de empregada, passe por eles. Vá para a cozinha, os quartos, banheiro, vá passando por todas as dependências do apartamento até chegar à sala e à porta de entrada. Passe o defumador pelos quatro cantos de cada parede, em todos os cômodos. Não se esqueça de abrir todas as janelas, porque essas ervas produzirão bastante fumaça. E, não se espante caso a fumaça aumente em determinados cantos.
— Por que isso?
— Quando a fumaça aumenta, é porque há uma forte concentração de energia negativa no local. É natural. Enquanto você defuma a casa, Renata pode auxiliá—lo.
— Em que eu poderia ajudá—lo, Mafalda?
— Assim que Maximiliano começar a defumação da casa, gostaria que você ficasse ao lado dele e fosse lendo, em voz alta, o salmo de número 91. Esse salmo é poderoso. A vibração da leitura dele, em voz alta, ajuda na limpeza.
— E quando acabar a leitura do salmo?
— Recomece. Leia—o quantas vezes for necessário, até que Maximiliano termine a defumação. Depois, peguem o defumador e deixem—no na porta de trás da sala, por sete dias seguidos.
Seria importante – ela ressaltou – que nesses dias ninguém entrasse na casa. Nem empregados, ninguém.
— Para mim não tem problema – tornou Max. – Eu farei tudo o que for possível para que seja restabelecido o equilíbrio e a harmonia em meu lar.
— Quando passarem os sete dias é prudente que você pinte as paredes de sua casa, além de providenciar uma boa faxina na casa toda. Limpe armários, jogue fora tudo o que não precisa mais. A limpeza física também é importante. Livre—se de roupas, objetos, livros, tudo o que não for necessário. Que seja retirado de sua casa e doado a alguma instituição filantrópica.
— Posso trazer para cá. Vocês não organizam bazares para arrecadação de dinheiro para manter o funcionamento do Centro?
Mafalda sorriu.
— Faça o que achar melhor, meu filho. Agora vá. O tempo urge. Quando tiver feito tudo o que falamos aqui, volte para nova conversa.
Max e Renata se despediram de Mafalda com largo sorriso nos lábios. Depois, ambos foram convidados a tomar um passe. Aceitaram imediatamente. Foram conduzidos a uma salinha aconchegante. Nada de luxo. Algumas cadeiras em círculo, uma mesa lateral, um jarro d´água e alguns copinhos com água fluidificada. A música na sala era acolhedora e envolvente.
Os dois se sentaram nas cadeiras e dois médiuns ministraram—lhes um passe reconfortante. Renata e Maximiliano sentiram agradável sensação de bem—estar. Terminado o passe, tomaram a água fluidificada e saíram em paz.
Foram até o carro.
— Max – ponderou Renata –, somos vizinhos há anos. Creio que agora chegou o momento de eu retribuir a ajuda que você me prestou nos tempos de vacas magras. Como lhe disse no restaurante, pode ficar em casa o tempo que for necessário.
Tenho um quarto de hóspedes e ele será todo seu.
— Agradeço de coração. Vou adorar ficar em sua casa. Adoro sua companhia.
Entraram no carro. Renata deu partida e foram para o prédio em que moravam.

*****

Luísa chegou a casa e o brilho em seus olhos se fazia notar. Eunice, vendo—a em estado de graça, não conteve a alegria e perguntou:
— Há muito tempo que não a vejo assim tão feliz. Como foi o passeio?
— Eunice, você tem razão. Faz tempo que não me sentia tão bem. Tive uma tarde tão agradável...
— Fico feliz em vê—la dessa maneira. Essa é a Luíza que conheço. Alegre, sorridente.
— O Genaro já voltou?
— Está lá em cima. Disse que vai a Brasília amanhã. Quer que você vá junto.
— Não! Isso não. Eu quero ficar aqui. Não gosto de política e não quero me meter nesse mundo.
— Vá com calma e exponha o assunto ao seu marido.
— É o que vou fazer.
Luísa deixou a bolsa sobre o aparador, ajeitou os cabelos e subiu decidida a enfrentar o marido. Com jeito. Entrou no quarto e Genaro terminava de arrumar a mala.
— Demorou muito. Precisa fazer sua mala.
— Não quero ir a Brasília. Sabe que não gosto de política. Nem mesmo o acompanhei nos seus comícios.
— Agora é diferente, Luíza. Tenho reputação a zelar. Você é minha esposa, precisa estar ao meu lado. Pelo menos agora. Só para a posse.
— Ninguém vai notar a minha falta.
— Você é caipira mesmo. Às vezes me pergunto por que me casei com você. E ainda gasto um dinheiro danado com a sua família.
— Não precisa me ofender.
— Tudo bem que tenha um passado incólume, limpo. Mas é muito sonsa. Você não tem gosto pelo poder?
— De maneira alguma. O poder não me seduz.
— Boba. Como pode dizer uma coisa dessas?
— O poder não me seduz. Em absoluto.
— Você é quem sabe. Quer ficar? Pois que fique. Eu vou. Mas se começarem a perguntar sobre minha esposa, você terá de ir a todo custo para o Planalto. Não quero dar motivo para fofocas.
Luísa riu com gosto. Genaro irritou—se.
— O que é? Está rindo de quê?
Ela tentou parar de rir.
— Você fala sobre reputação. Tem medo de que seu nome vá para a lama. Mas você se esquece de que é irmão de Gregório? E os comentários acerca de seu irmão são os mais sórdidos possíveis.
— Gregório é um torto, um anormal.
— Não o julgo pela sua homossexualidade, mas Gregório é maledicente, provocativo, atiça as pessoas. Ele desrespeita todos ao seu redor.
— As pessoas tem pena de mim porque eu tenho um irmão pederasta.
— Mas que fofocam sobre vocês, ah, fofocam.
Luísa falava de maneira espontânea. Não tinha a intenção de ser maldosa. Mas não foi o que Genaro interpretou. Acreditou que ela estivesse tripudiando sobre ele.
O soco veio de maneira rápida, violenta e dolorida. Luísa o recebeu de maneira desprevenida e seu corpo tombou para trás. Ela imediatamente foi ao chão.
Genaro avançou sobre a mulher e desferiu—lhe violentos golpes. Na cabeça, nos braços, no abdome. Luísa urrava de dor.
Mal podia se defender. Genaro era alto, forte. Ela possuía estatura mediana, era magra.
Eunice ouviu o barulho e os gritos. Subiu os degraus da escada aos pulos. Entrou no quarto e mal podia acreditar no que via. Genaro sentado sobre a esposa, enchendo—a de sopapos.
— Desgraçada! Maldita! Nunca mais ouse falar de mim, de meu irmão, de minha família. Inútil! Você deve me agradecer por me ter como marido. Eu sustento seu pai, sua mãe, seus irmãos vagabundos. Bando de parasitas. Eu os odeio! Odeio!
Luísa não tinha mais forças para se defender. A vista estava embaçada, o sangue escorria—lhe pela fronte. Um dos socos cortou—lhe o supercílio. Outro arrebentou o lábio superior.
Diante da cena tão cruel, Eunice, num ato de defesa, pulou sobre Genaro. Passou a mordê—lo na orelha e puxou—lhe os cabelos. Genaro sentiu tremenda dor e saiu de cima da esposa. Luísa teve forças ainda para se arrastar e esconder—se embaixo da cama. Eunice o enfrentou.
— Covarde! Você é um covarde.
— Cale a boca ou vou acabar com você também – vociferou ele, levando a mão à orelha.
Eunice encheu—se de coragem.
— Pois venha e bata! Bata bastante. Porque vou sair daqui com sua esposa e vamos direto para uma delegacia. Vamos prestar queixa contra você.
Ele riu à beça.
— Estúpida. Crê que algum delegado vai acreditar em vocês? Não se esqueça de que somos homens e pensamos da mesma forma.
— Eu quero ver o estrago que isso vai causar na sua imagem de bom político.
Genaro mordeu os lábios de raiva.
— Se forem à delegacia, eu corto o dinheiro que mando para a família de Luísa. Quem vai custear o tratamento do pai dela? O espírito santo?
— Chega de ameaças.
— Não chega, não! Luísa está presa a mim. Eu mando e desmando nela. A família dela está do meu lado. Eu comprei todos eles. Vá, Eunice – Genaro bramia –, vá e faça um boletim de ocorrência. Eu destruo a família de Luísa. Acabo com a doce vida da Neuza. E destruo você também.
Ele falou, voltou até a cama, fechou a mala e saiu do quarto, batendo a porta com força. Desceu as escadas, saiu de casa, ganhou a rua e chamou um táxi.
Eunice correu até a cama. Abaixou—se e delicadamente puxou Luísa pelo braço.
— Minha menina – disse entre lágrimas –, dessa vez ele abusou. Você está muito machucada.
Luísa balbuciou:
— Ligue... Ligue para a Renata. Peça que ela venha até aqui. Por favor.
— Não! De maneira alguma. Primeiro precisamos de um médico. Vou ligar para o Dr. Ribeiro.
— Eu suplico... Por... Fa... Vor... Ligue para Renata.
Luísa falou e imediatamente pendeu o rosto para o lado. Desmaiou tamanha a surra que levara do marido.


*****

Maximiliano instalou—se confortavelmente no quarto de hóspedes que Renata lhe oferecera. Era um quarto simples, com uma cama de viúvo, uma cômoda e um guarda—roupa de duas portas. Numa delas havia um espelho oval. Era um quarto de solteiro do início do século, estilo art nouveau.
Renata tinha bom gosto. As paredes eram pintadas de verde bem clarinho e o lustre e o abajur eram peças de vidrilhos coloridos, em tons de amarelo. No chão, para completar a decoração, um tapete persa de cor delicada.
— Vou gostar de ficar aqui. Adoro esse estilo de móveis.
— Eu também Max. Esses móveis eram de meu avô, quando solteiro.
Ficou na casa dele até sua morte. Quando ele morreu, meus irmãos quiseram jogar tudo fora. Afirmaram que era velharia, lixo.
Max meneou a cabeça para os lados.
— Seus irmãos não têm percepção pelo belo. Olhe só para esses móveis – apontou. – Não tem um prego sequer. Tudo era feito por encaixe. Algo que não se faz há muitos anos.
— Agora estão bem cuidados, em boas mãos e serão usados por você. Faça bom uso deles.
— Obrigado.
A empregada apareceu, aflita.
— Dona Renata, telefone para a senhora.
— Quem é?
— Da parte de D. Luíza. Parece que aconteceu alguma coisa séria lá na casa dela.
Renata coçou a cabeça.
— Genaro deve ter aprontado alguma – ela virou—se para Max e solicitou: – tome um banho, descanse e depois ligue para o Guido. Pode chamá—lo aqui em casa. Não se esqueça, antes de ele entrar aqui, de fazer prece e pedir a presença e orientação de nossos amigos espirituais.
— Você não vai ficar?
— Não Max. Você deve estar sozinho com ele. A Alzira estará por aqui se precisar. Eu vou atender ao telefone. Sinto que minha amiga Luíza precisa de mim.
— Está certo.
Renata foi até a sala e atendeu ao telefone. Ficou espantado com o relato de Eunice. Genaro tinha passado dos limites. Ela precisava ir ao encontro da amiga e convencer Luísa a acompanhá—la a uma delegacia e, depois, ao Centro Espírita. Sentia que Luísa corria sério risco de morte.
Maximiliano tomou um banho reconfortante. Depois, descansou por duas horas. O sono reparador, aliado ao passe de horas atrás, fez—lhe muito bem. Ele despertou disposto. Lavou o rosto, escovou os dentes. Abriu um livro espírita e fez a leitura de um trecho.
Fez uma prece pedindo ajuda aos amigos espirituais e solicitou que Guido fosse beneficiado pela energia emanada pelos espíritos de luz.
Feito isso, Max ligou para seu próprio apartamento. Guido atendeu de maneira eufórica.
— Pensei que não viesse mais. Você deveria estar aqui há algumas horas. O que aconteceu?
— Preciso conversar com você.
— Aconteceu alguma coisa, Max?
— Não, nada. Você poderia vir até o quarto andar?
— Quarto andar? Por quê?
— Estou hospedado na casa de uma amiga aqui no prédio e preciso conversar com você.
Guido ficou com a pulga atrás da orelha.
— O que é isso? Hospedado na casa de uma amiga?
— Sim.
— Aqui é sua casa, oras!
— Eu sei Guido, mas não posso ir até aí. Poderia vir até o quarto andar?
— Está bem, irei.
Guido desligou o aparelho de maneira intrigante. Por que Maximiliano não queria subir até seu próprio apartamento?
— Que coisa estranha – disse para si mesmo. – Homem esquisito esse Max.
Guido estava só de shorts. Foi até seu quarto, pegou uma camiseta, calçou um par de sandálias e desceu. Alguns minutos depois estava na porta do apartamento de Renata.
Alzira sabia de sua chegada e, assim que ele tocou a campainha, conduziu—o até pequena saleta.
— Seu Max já vem.
— Obrigado.
Guido ficou sentado por alguns minutos. Logo, Maximiliano entrou na saleta. Estava trajando um robe de algodão branco. Sua aparência estava ótima. Guido levantou—se e procurou abraçá—lo. Max deu um passo para trás e lhe estendeu a mão.
— Como vai, Guido?
O rapaz estranhou a maneira fria e distante de Maximiliano. Sentiu que estava em apuros. Ele apertou a mão de Max, meio sem graça.
— Nossa quanto tempo fora!
— Pois é. Agora estou de volta. Precisamos conversar.
— Qual assunto?
— Vou direto ao ponto.
— Sou todo ouvidos.
— Eu gostaria que você saísse de minha casa.
Guido não entendeu. Ou fez que não entendeu.
— Como é que é?
— Isso mesmo, Guido. Eu não o quero mais morando em minha casa.
— Você não pode fazer isso comigo, Max. Volta de Londres e me despacha assim, sem mais nem menos?
— Sinto muito, mas não o quero mais em minha casa.
— Eu cuidei de tudo direitinho, paguei os empregados, as contas. Por que isso agora?
— Porque chegou à hora de implementar mudanças em minha vida. Quero e preciso estar só. Eu o coloquei em casa porque tive pena de você – Max nem quis falar sobre o tal médium que tentara enfeitiçá—lo. – Confesso que essa atitude minha foi um erro. Nunca tivemos laços afetivos.
— Como não?
— Tudo em nossa relação foi por conta de interesse.
— Imagine Max...
— Você não gosta de mim.
Max falou sem tirar os olhos dos de Guido. O rapaz sentiu—se invadido por aqueles olhos firmes e penetrantes. Abaixou o rosto.
— Somos amigos. Eu nunca fiz nada que você pudesse...
Max o cortou.
— Você trouxe um desconhecido para casa. Para dentro de minha casa.
— Ele é um cara legal. Achei que não tinha problema algum. Aliás, se esse for o problema, estamos resolvidos. Eu o alertei de que teria de mudar caso você chegasse.
— Se fosse só isso... – Max hesitou. – O Valter esteve em Londres meses atrás e me disse que você continua circundando o parque Trianon.
Guido sentiu as faces arderem. Então Maximiliano sabia de suas estripulias? Ele prometera que não se envolveria com mulheres e sexo. Precisava ganhar novamente sua confiança. Era isso.
— Escute Max. Eu errei. Perdoe—me, sim? Eu cometi alguns deslizes, mas quem não os comete? Vamos passar uma borracha em cima disso. Vamos recomeçar do zero.
— Eu não tenho de recomeçar nada. É um bom rapaz, mas não quero mais nada com você. Quero ficar só.
Guido o encarou.
— Conheceu alguém! Só pode ser isso.
— De forma alguma.
— Quem é o desgraçado que vai me substituir? Quem é?
— Não tem ninguém em minha vida. Ninguém vai substituí—lo. Simplesmente quero viver sozinho e em paz.
— Não pode arrancar—me de sua casa de uma hora para outra. Eu não saio.
— Por favor – pediu Max, num tom apaziguador.
— Quero ver quem me tira de lá.
— Eu já previa essa sua atitude. Por essa razão, liguei para o delegado Telles, conhecido meu. Ele está a caminho do prédio.
Guido desesperou—se. Tinha pavor de polícia. Não queria saber de encrenca. Não gostava de delegados de polícia.
— Não precisa botar a polícia no meio disso.
— Infelizmente, terei de usar de força policial, caso não queira sair de minha casa de maneira civilizada.
Max saiu da saleta e voltou minutos depois.
— Neste envelope tem um punhado razoável de dinheiro.
O suficiente para você poder se hospedar num hotel simples por alguns dias.
Guido pegou o envelope, abriu—o e apanhou o maço de notas, dizendo:
— É. Isso dá para uma semana, caso eu me instale numa boca de porco, no centro da cidade.
— É tudo o que posso fazer por você – respondeu Max, de maneira firme.
— Você vai se arrepender de ter feito isso comigo. Vai pagar por isso.
— Pode me ameaçar e fazer o que quiser. Telles já está a caminho.
A janela da saleta dava para a rua e Max foi até ela. De repente, uma sirene se fez ouvir.
— O delegado Telles chegou.
— Não!
— Você tem meia hora para fazer sua mala e sair.
Guido bufou de raiva. Não tinha saída. O barulho da sirene o deixava em pânico. Já passara pela polícia quando adolescente. Sabia que, se fosse para uma delegacia, talvez não mais saísse dela. Era melhor pegar o dinheiro, fazer sua mala e partir. Pelo menos por ora.
— Eu vou embora, mas ainda vou cruzar seu caminho.
— Pode me ameaçar. Estou ligado ao bem. Nada de mal pode me acontecer. Não se esqueça de que tudo o que fizer voltará para você. Faz parte da vida. É lei.
Guido amassou o punhado de notas, cerrou o punho. Saiu batendo as portas. Alzira ouviu o barulho e correu até a saleta.
— Deu tudo certo, seu Max?
— Por enquanto, sim. Creio que o pior já passou.
Max apareceu na janela e fez sinal positivo para o delegado. Telles sorriu e repetiu o sinal.
— Tem certeza de que está tudo bem?
— O rapaz já se foi, Telles. Obrigado.
— Se precisar, pode ligar. Estarei de plantão no distrito.
— Obrigado.
O delegado entrou no veículo, desligou a sirene, e ficou à espreita, esperando o rapaz sair. Telles estacionou o carro do outro lado da calçada.
— Vou me certificar da saída desse garoto. Depois vou embora.
Guido entrou no apartamento feito uma bala de canhão. Pegou suas roupas e meteu—as numa mala grande. Pegou outros pertences de Max, como alguns objetos de valor e um quadro que ele julgava ser autêntico e valer uma fortuna.
— Esse desgraçado vai me dar mais dinheiro. Eu ainda vou voltar aqui.
Ele disse isso em voz alta e em seguida Caio apareceu na soleira, enrolado numa toalha.
— O que foi? Está com uma cara!
— O Max me expulsou de casa. Quer dizer, expulsou nós dois – fez sinal com os dedos.
— Onde ele está?
— Alguns andares abaixo. Está hospedado na casa de uma amiga.
— Uê. Estranho. Por que ele não vem para a própria casa?
— Vai entender o que se passa na cabeça dessa bicha excêntrica!
— Não precisa ofendê—lo, Guido. Ele deve ter suas razões.
— Eu não me conformo. O pai—de—santo me garantiu que o Max iria voltar para mim, sabe?
— Ainda freqüenta esse lugar?
— Claro! Os espíritos sempre me ajudaram.
Caio riu.
— Ora, se os espíritos ajudam—no, por que está sendo expulso da casa de Max?
— Alguma interferência, das bravas. Pode ter certeza. Ainda vou tirar essa história a limpo.
— Melhor não se meter em encrenca, Guido. Olhe só – Caio retirou um maço grande de notas do bolso –, fui contratado pelo Gregório.
Recebi um bom adiantamento. Vou procurar apartamento e você poderá ficar comigo. É o mínimo que posso fazer. Você foi tão legal comigo. Ajudou—me desde que aqui cheguei.
— Agradeço a oferta, mas não posso aceitar. Eu vivo num apartamento de luxo, encravado num dos bairros mais caros do país. Não vou morar num apartamento pequeno e apertado. Não nasci para isso.
— E vai para onde?
— Para a casa do Gregório, é claro.
— Do Gregório?
— Ele me deve alguns favores. Não vai recusar—me estada. Até que o pai—de—santo me ajude a voltar para cá.
— Bom, se você pensa assim... Não quer ir comigo até um hotel? É tarde e talvez o Gregório não esteja em casa.
— Ele vai me atender, Caio. Gregório sempre me atende. Eu afastei o Marco Antônio do caminho dele, não afastei? Agora chegou o momento de ele me retribuir.
Guido terminou de arrumar suas coisas. Caio notou que ele pegava alguns objetos de valor.
— Isso lhe pertence?
— Não pertencia. Mas agora me pertence. O Max pensa que vou sair só com a ninharia que ele me deu? Essas peças valem um bom dinheiro. Conheço um antiquário na cidade que vai me pagar boa quantia por elas.
— É roubo.
Guido fuzilou—o com os olhos.
— Não se meta em minha vida! Ficou morando aqui de favor esse tempo todo e não tem o direito de me recriminar.
Caio baixou os olhos. A amizade de Guido estava mesmo por um fio. Ele não era rapaz confiável. Sentiu que precisava se afastar dele o mais depressa possível. Foi até seu quarto, fez sua mala e saiu. Na portaria, pediu auxilio a Malaquias para lhe chamar um táxi.
— Conhece algum hotel bom e barato aqui por perto, Malaquias?
— Olha seu Caio, tem uma pensão muito boa na Rua Humaitá. Não é longe daqui.
A pensão da Rua Humaitá! Como Caio havia se esquecido dela? Fazia meses que tinha chegado a São Paulo e havia se esquecido completamente do endereço que Sarita lhe deu.
— Malaquias, é uma pensão decente?
— Uma das melhores da região. Fica num casarão antigo, bem bonito, bem conservado. Parece que é freqüentado por gente de nível.
— É para lá que eu vou.
— O senhor é um bom homem, seu Caio. Não tem nada a ver com seu primo. Nem parecem parentes.
Caio riu. O táxi chegou e ele abriu a porta de trás. Meteu a mala dentro e curvou o corpo para dentro. Antes de entrar, encarou Malaquias e redargüiu:
— O Guido não é e nunca foi meu primo.
— Como?
— Nem meu amigo ele é mais.
Caio entrou no táxi e deu ao motorista o endereço da pensão de Fani.
Malaquias ficou na porta do prédio, coçando o queixo.
— Não são primos? Então é o quê? – uma nuvem de dúvida perpassou pela cabeça de Malaquias. Ele a rebateu e fez o sinal da cruz. – Cruz—credo! Homem com homem dá lobisomem!
A rua estava escura e Telles, ao ver Caio colocando a mala no táxi acreditou que fosse Guido. Satisfeito com a partida do rapaz, ligou o carro, acelerou e foi embora.



CAPÍTULO 12


Norma acompanhava o irmão dentro do táxi. Estava feliz com sua decisão em se afastar de Guido.
— Oh, Caio, estou tão feliz que tenha partido. Você vai gostar da Fani. O lugar e as pessoas são amáveis. E ainda terá uma surpresa tão agradável...
Caio não registrou as palavras da irmã, mas se lembrou de Norma com carinho. Disse para si mesmo:
— Minha irmã, sinto tanta saudade de você. Será que depois que morreu você virou pó? Uma menina tão bonita, tão alegre – uma lágrima escapou de seu olho –, tão cheia de vida! Norma, será que você continua viva em outro mundo? Será isso possível?
Caio abaixou a cabeça e chorou baixinho. O motorista percebeu e, de maneira gentil, apanhou uma caixinha de lenços no porta—luvas e a estendeu para o rapaz.
Norma, emocionada, passava delicadamente as mãos nos cabelos do irmão amado.
— Querido, eu estou bem. Muito bem. Tenho aprendido muitas coisas. Estou mais amadurecida. Entretanto, preocupo—me com você. Sei que cada um é responsável por si mesmo, mas eu não posso deixar de ajudá—lo, na medida do possível.
Não gostaria que você se envolvesse com Gregório. Ele é um homem mau. Nutre uma paixão doentia por você, que vem de outras vidas. Afaste—se dele o quanto antes.
Caio absorvia os dizeres da irmã de maneira entrecortada. Registrava pouca coisa, visto que nunca fora um rapaz de fé. Por essa razão, a inspiração da irmã lhe vinha de maneira débil, tosca.
De repente, veio em sua mente à imagem de Gregório e ele sentiu um frio percorrer—lhe a espinha. Desde sempre tivera reservas com o empresário, todavia o homem iria lhe abrir as portas do sucesso, da fama. Deveria seguir sua intuição e se afastar? Ou deveria seguir adiante, fazer dinheiro, ter fama? Caio estava indeciso. Não sabia ao certo o que fazer.
O táxi chegou e ele levantou a cabeça. Pagou o motorista, pegou sua mala e, ao descer, parou por instantes na porta da pensão.
O prédio era um casarão estilo eclético, muito em voga nas construções brasileiras de classe abastada no início do século. Predominavam vários estilos arquitetônicos. Tratava—se de um casarão enorme, muito bem conservado. A pintura, em tons de amarelo e laranja, dava certo realce à construção.
— De dia deve ser muito bonito – disse Caio para si mesmo. – Mal parece uma pensão.
Ele tocou a sineta e, em seguida, uma moça bem novinha e bem simpática o atendeu.
— O que deseja?
— Vim procurar D. Fani. Ela está?
— Ih, moço, D. Fani está em Bauru. Volta somente daqui a alguns dias.
— Puxa, eu precisava muito falar com ela. Eu venho de Bauru. Foi uma amiga em comum que me deu o endereço.
A menina sorriu e o convidou a entrar.
— Ela não está, mas o senhor pode falar com o José. Ele cuida da pensão quando D. Fani viaja.
— Será que ele pode me atender?
— O senhor espera aqui na recepção que eu vou chamá—lo, está bem?
A menina saiu e Caio sentou—se numa poltrona antiga, porém conservada. Olhou ao redor. O local era muito bem cuidado. As paredes bem pintadas e ornamentadas com graça e sem ostentação. Alguns objetos bonitos, quadros de arte, um tapete oval e a própria estrutura da casa davam certo charme ao ambiente. Logo em seguida apareceu um senhor na faixa dos cinqüenta, parrudo e de estatura mediana. Entretanto, possuía belo sorriso.
— Boa noite.
— Boa noite, senhor. Meu nome é Caio, venho de Bauru.
— Celinha me contou. Quem o mandou para cá?
— Foi uma amiga em comum, a Sarita.
O rosto de José iluminou—se.
— Você é amigo de Sarita? A Sarita da Casa da Eny?
— Essa mesma. Um anjo bom que me ajudou bastante. Foi a Sarita que me mandou procurar a D. Fani.
— Fani está tratando de negócios em Bauru e regressa a São Paulo na semana que vem. Você vai querer um quarto?
— Se possível.
José coçou o queixo. A pensão estava lotada. Era muito popular e estava sempre cheia. Celinha ouviu a conversa e os interrompeu.
— Seu José, o Itamar ainda não voltou de viagem. Ele vai demorar a chegar de Araçatuba.
— É verdade. A família do Itamar está lhe dando muito trabalho. É – disse pensativo –, acho que você pode ficar no quarto dele. Não é o melhor da casa, mas é aconchegante.
— Para mim está ótimo, seu José. Um quarto é tudo o que estou precisando.
— Pretende ficar quanto tempo aqui?
— Não sei ao certo. Acabei de arrumar trabalho e logo terei condições de alugar um apartamento.
— Você é solteiro?
— Sou sim senhor.
— Tem namorada?
— Não.
— Meu filho, guarde seu dinheiro ou use—o para fazer uma poupança e comprar seu próprio imóvel. Vai pagar aluguel para quê, se tem a pensão da Fani? Aqui você vai gastar bem menos, vai ter roupa lavada e comida todo dia. Quer dizer, café da manhã e almoço. Não servimos jantar.
— Não sou de comer muito.
— Fechado – José fez um sinal para Celinha. – Leve o moço até o quarto do Itamar. Providencie roupas limpas e mostre—lhe onde fica o banheiro.
— Pode deixar seu José.
Celinha conduziu Caio até o andar superior. Eram várias portas, circundadas por um corredor bem iluminado. No fim do corredor havia outra escada, menor.
— O que é isso?
— O quarto do Itamar fica no sótão. É um pouco menor, porque D. Fani o dividiu em dois, mas proporciona privacidade. Você poderá ficar mais à vontade ali.
Caio subiu as escadas e entrou no primeiro quarto. Era um cômodo todo pintado de branco, que lhe causou agradável sensação. O chão era de tábuas corridas. Havia uma cama de solteiro, uma cômoda e uma pequena escrivaninha, com uma cadeira. Ao lado da cama, uma mesa de cabeceira e um pequeno abajur.
— O quarto é muito bom. Gostei.
— Sabia que o senhor ia gostar. Vou pegar roupa de cama limpa. Volto já.
Celinha saiu e Caio colocou a mala sobre a cama. Abriu—a e retirou suas roupas. Ajeitou—as na cômoda. Naquele instante, lembrou—se de Luísa. Sentiu uma sensação esquisita no peito, uma dor que não era física.
— Será que ela está bem? Será que vai querer me ver de novo?
Caio não percebeu, mas o espírito de sua irmã Norma, ao seu lado, enquanto lhe ministrava um passe reconfortante, respondeu—lhe:
— Ela não está bem, mas vai ficar melhor. Você vai vê—la sim, muitas outras vezes, se Deus quiser.


*****

Renata chegou à casa de Luísa e, ao vê—la toda machucada ficou arrasada.
— Custo a crer que o crápula tenha feito essa crueldade com você, minha amiga.
Renata falou e aproximou—se de Luísa. Ela estava com o rosto inchado e os olhos semicerrados. O lábio superior também estava inchado e uma atadura no supercílio completava o quadro de sua desgraça. Ambas se abraçaram e foi inevitável que as lágrimas corressem, em ambas as faces.
— Luísa, pelo amor de Deus, largue esse homem. Genaro ainda vai matá—la.
— Ele disse que – Luísa falava com certa dificuldade – se eu o largar, vai parar de sustentar minha família, vai deixar de custear o tratamento do meu pai.
— E o que você tem a ver com isso? Seu bem—estar não conta? Saiba que se você morrer, Genaro vai deixar de ajudar sua família. Não acha melhor arregaçar as mangas, ir à luta e fazer algo por si mesma? Melhor arrumar um emprego, alguma função. Assim poderá ajudar no tratamento do seu pai.
— E meus irmãos?
— Francamente Luísa! Seus irmãos são adultos e saudáveis. Eles podem trabalhar.
— E o que posso fazer? Eu não sou formada em nada.
— Tem tanto emprego que não precisa de formação! Você pode ser vendedora, telefonista, sei lá, Luísa – a voz de Renata era enérgica –, tem muita coisa aí para se fazer. É só querer.
— Tenho medo.
— Você é insegura. Sempre foi. Desde o tempo de colégio. Nunca sabia em que time jogar, nunca sabia qual doce escolher, se queria chocolate ou paçoca. Será que ainda vai ter de levar mais surras como esta para aprender a ser dona do próprio destino?
— Assim você me insulta.
— Sou sua amiga, oras.
— Sou vitima de um crápula, de um homem que me iludiu esses anos todos.
— Conversa fiada.
— Fala assim porque não precisa. Vive bem, tem salário, é independente.
— Sou independente porque corri atrás de minha independência, oras! Acha que tudo caiu do céu? Você bem sabe que comi o pão que o diabo amassou Luísa. Passei muito aperto nessa vida, mas sempre confiei em mim, na minha força de vencer toda e qualquer adversidade.
Luísa começou a chorar baixinho. Eunice entrou na sala.
— Renata, quer um chá?
— Aceito Eunice. Pelo jeito, a noite aqui vai ser longa.
Eunice assentiu com a cabeça e saiu. Gostava de Renata e ela tinha a peculiaridade de dizer tudo o que ela – Eunice – queria falar à sua menina, mas não tinha coragem.
— Que Luísa abra essa cabeça e enxergue que precisa largar esse homem. Só assim ela será feliz.
Eunice fez o sinal da cruz e foi para a cozinha.
Renata aproximou—se de Luísa e acariciou sua face – procurou o lado que não estava inchado ou machucado.
— Minha amiga, eu tenho a obrigação de lhe falar às claras. A verdade dói, mas é necessária. Você precisa abrir os olhos. A vida está lhe mostrando o quanto você se maltrata.
— O quanto eu me maltrato?
— Sim, Luísa. Você não percebe, mas está deixando de fazer o que quer. Está se privando de uma vida melhor, mais feliz, não quer arriscar, fica com medo e por tudo isso está acuada, sentindo—se pequena, frágil e indefesa.
— É assim que me sinto. Estou tão cansada de tudo isso...
— E não crê que esteja na hora de uma mudança? Rever suas crenças, mudar atitudes? Sabe Luísa, a vida, em hipótese alguma, nos pune ou nos faz sofrer. É o resultado de nossas atitudes que nos trazem sensações de desconforto. Veja só: você acredita que seja impossível separar—se de Genaro. Usa a desculpa de que ele sustenta sua família.
— Mas...
Renata a cortou.
— Mas nada. Sua família sabe se virar. Seus irmãos podem arrumar trabalho, progredir na vida, como todo mundo. Eles podem ajudar no tratamento do seu pai. Você está dando força demais ao seu marido.
— Creio que sim.
Renata acariciou os cabelos em desalinho da amiga. Tinha verdadeira afeição por Luísa. Por essa razão, mesmo mantendo postura firme, ela deixou que uma lágrima escapasse pelo canto de seu olho, ao afirmar:
— Ninguém é mais forte que ninguém. Você é tão forte quanto Genaro. Coloque isso na sua mente.
Luísa assentiu com a cabeça. Não queria pensar em mais nada. Todavia, nos escaninhos de sua alma, ecoava a frase: você é forte, você é forte...



CAPÍTULO 13


Os dias seguiram céleres. O tempo parecia correr mais que o habitual durante as semanas que sucederam os fatos ocorridos até então.
Genaro mal voltava a São Paulo. Como deputado federal, além do salário, recebia verba para moradia. Infelizmente, consorciado a outros deputados de má índole, Genaro criou um forte esquema de corrupção que desviava dinheiro público para o seu cofre e para o cofre desses amigos deputados. Ele comprou um lindo apartamento em Brasília e, algum tempo depois, passou a fazer de seu apartamento local de festas e orgias. Mulheres, bebidas, drogas e alguns deputados eram presenças constante no apartamento de Genaro.
Não poderia ser melhor para Luísa. Nos dias que se seguiram, a dor física foi—se dissipando mais rapidamente do que a dor moral. Os ferimentos cicatrizaram e, incentivada por Renata, ela passou a freqüentar o Centro Espírita coordenado por Mafalda. Os resultados se faziam notar: após o tratamento inicial de quatro semanas, Luísa apresentou sinais de melhora, tanto exterior quanto interior. Ela sempre ficava mexida toda vez que assistia a alguma palestra proferida no Centro. Maximiliano fez a limpeza no apartamento conforme as orientações de Mafalda.
Surtiu o efeito desejado. O poder energético das ervas por ela indicadas foram capazes de fazer uma forte e total higienização do apartamento. As energias densas, bem como as larvas astrais, foram completamente dissipadas do local. A leitura do salmo, proferida por Renata, fez com que o ambiente fosse inundado por uma energia apaziguadora e harmoniosa. A casa de Max voltou a se tornar um lar habitável.
Max também passou a freqüentar o Centro amiúde e ia pegando anotações aqui e acolá com os médiuns. Fazia suas anotações, vertia para o inglês e colocava no correio para o Dr. Bryan Scott. Assim, continuava mantendo o intercâmbio de idéias e estudos pertinentes às coisas espirituais.
Guido recebeu ajuda de Gregório, mas se instalou num hotel, no centro da cidade. Não era o que desejava, mas Gregório prometeu que em breve a vida de Guido iria mudar. Não satisfeito com essas promessas e com profundo ódio de Max, por ter sido expulso do apartamento, Guido não hesitou e marcou uma consulta com seu pai—de—santo.
Cabe aqui ressaltar que, inadvertidamente, muitas pessoas de má índole se autodenominam pais—de—santo ou mesmo zeladores de terreiros, cuja mediunidade é usada de maneira torpe, única e exclusivamente com objetivos de explorar a dor humana. Essas pessoas de má fé não tem ligação ou vínculo com os verdadeiros pais e mães—de—santo que trabalham de maneira séria e atendem com muito amor a todos os que necessitam de ajuda na hora dos apertos.
Guido freqüentava um local, digamos assim, de baixíssima vibração. O médium que lá se autodenominava pai—de—santo, havia se desentendido na tenda espírita em que trabalhava. Irritado, e julgando—se dono de poderes "mágicos", sem ao menos perceber que estava sendo assediado por espíritos gananciosos e cheios de más intenções, ele alugou um galpão na periferia da cidade e lá realizava todo e qualquer tipo de serviço, principalmente serviços espirituais que pudessem – e devessem – prejudicar o próximo.
Esse era o único intento do "terreiro" desse falso pai—de—santo que se auto—intitulava Pai Juão – com a letra "u" no lugar da letra "o". Para os clientes mais assíduos, permitia ser chamado por seu Juão.
Guido saltou do ônibus e andou algumas quadras. Chegou a frente a uma portinhola preta, numa casa de extremo abandono. As paredes estavam praticamente sem tinta e a energia que pairava sobre o local ajudava a construção, aos olhos humanos, parecer mais decadente e feia do que já era.
Ele bateu na porta e logo um rapazote de seus catorze anos veio atender.
— Preciso falar com Pai Juão. Urgente.
— Marcou consulta?
— Não, mas sou cliente assíduo. Não ta lembrado de mim, menino?
O rapazote coçou a cabeça.
— Acho que lembro sim. Ah – o rapaz bateu com a mão na testa –, foi você quem me deu aquele par de tênis para ser atendido na frente dos outros no mês passado, não foi?
Guido sorriu, satisfeito.
— Sim. Fui eu. Será que seu Juão pode me atender?
— Ele está terminando uma consulta. Vai levar mais uns dez minutos. Pode entrar.
Guido acenou com a cabeça e entrou. O local era muito decadente. As paredes eram caiadas e mal pintadas, a tinta já havia quase toda se desgrudado das paredes. Guido passou por um corredor escuro, abafado e úmido. O cheiro de mofo era forte e ele teve de prender a respiração para passar. Chegou a uma espécie de pátio, com algumas cadeiras de plástico, dispostas de maneira uniforme. No fim do pátio ou quintal, chegava—se a dois cômodos. Num deles Juão fazia os atendimentos. No outro, realizavam—se os trabalhos solicitados pelos clientes.
Aos olhos humanos, o local era sujo e decadente. Aos olhos espirituais, o lugar era muito mais feio muito mais sujo e muito mais poluído energeticamente.
Espíritos umbralinos, cuja vibração era baixíssima, entravam e saíam do segundo cômodo, onde os trabalhos de Juão eram realizados. Carregavam bichos, plantas, ossos, etc.
Alguns minutos depois, uma senhora de aspecto carrancudo saiu, passou por Guido sem cumprimentá—lo e sumiu pelo corredor escuro. Pai Juão apareceu na porta do cômodo onde fazia atendimento:
— Ora, ora, você aqui! De novo?
Guido levantou—se de maneira rápida. Suas feições não eram as mais simpáticas possíveis.
— Estou muito irritado, seu Juão.
— O que foi dessa vez? O pederasta cortou sua mesada? – ele falou e deu uma gargalhada.
— Maximiliano me expulsou de casa. Fui parar num hotel lá no centro da cidade. Uma boca de porco.
— Eu já sabia disso.
— Já?
— Sim. Fui alertado de que não poderia brigar com esse Max. Ele está protegido pelos filhos do Cordeiro.
— Como assim? – Guido parecia não entender.
— Seu amiguinho está com uma proteção danada de seres ligados à luz. Eu não tenho força para lutar contra eles. Nem quero.
— Mas você me prometeu. Disse—me que Max seria meu, que faria tudo o que eu quisesse. Que minha vida estava na flauta!
— Pois é. Entretanto, eu não esperava que ele fosse se aliar aos espíritos de luz. Sabe de uma coisa? Quando você veio aqui e pediu para que eu o "amarrasse" a você foi fácil. Ele era invigilante nos pensamentos, não tinha muita religiosidade, era homem que não possuía ligação com a espiritualidade. De repente, ele se uniu a um bando de gente metida a estudar o Espiritismo, começou a ter companhia constante de seres da luz. Tornou—se impossível para o meu bando mantê—lo amarrado.
— Você conseguiu afastar o Marco Antônio.
— Mas isso foi sopa no mel. Esse menino mal sabia rezar o Pai—Nosso. Tinha a cabeça oca. E, cá entre nós, meus espíritos adoram uma cabeça oca. Mas esse tal de Max tem uma cabeça dura. Não tenho como me meter com ele.
— E agora Juão? O que faço? Estou sem dinheiro. Pressionei um empresário e ele não quer me ajudar.
— Com esse aí eu posso fazer alguma coisa. O que você quer dele?
— Quero que ele me dê dinheiro. Estou pensando em chantageá—lo.
— Tem como fazer chantagem?
— Tenho. Eu tenho uma carta na manga.
— Então, não precisa de minha ajuda.
— Você pode dar uma forcinha. Esse homem é mau e sovina. Indivíduo ardiloso.
— Entre, vamos consultar os guias.
Guido acompanhou Juão e entraram num pequeno cômodo úmido e abafado. O local era fracamente iluminado por duas velas pretas acesas sobre uma mesa pequena e retangular. Sobre a mesa, alguns ossos ou pedaços de ossos, cartas e também bebidas.
Juão fez menção para que Guido sentasse a sua frente. Ele sentou—se numa cadeira, em frente à mesa. Juão deu meia—volta e sentou—se. Respirou fundo e entrou em contato com seus guias espirituais.
— O que você deseja, de verdade?
— Ser rico. Muito rico.
— Mais especifico, por favor.
— Quero dinheiro, seu Juão. Não importa como seja. Pode ser por meio de chantagem, não importa. Se me ajudar a arrancar dinheiro desse empresário, eu o recompensarei regiamente.
Juão riu.
— Vamos ver.
— Ou pode fazê—lo gostar de mim. Amarre—o para mim.
— Isso é impossível. Esse homem tem o coração ruim, duro e embrutecido. Nunca vai se apaixonar, pois alimenta uma paixão doentia por outro. O buraco nessa história é mais embaixo.
— O que pode fazer, então?
— Eu posso fazer com que ele lhe dê dinheiro, mas duvido que ele se torne um novo Max em sua vida. Esse fulano é mais esperto do que você imagina.
Guido ia falar, mas se assustou com o grito que Juão deus no quarto. Ele até arregalou os olhos. Juão foi tomado por uma força, um espírito que desejava há muito se comunicar com Guido. Com a voz totalmente alterada, mais rouca e grave, ele falou:
— Você fez um pacto com esse tal de Gregório. Pensa que não sabemos de tudo?
Guido estremeceu na cadeira. Ninguém sabia de nada. Ninguém.
— Você não o ajudou? Agora é hora de ele lhe ajudar.
— Como assim?
— Deixe de ser idiota, rapaz! Lembre—o do serviço que você fez tempos atrás. E diga a ele que, se não lhe der dinheiro, você vai botar a boca no trombone. Vai a público fazer escândalo.
— Acha que isso vai me ajudar a ter o que quero?
— Marque um encontro com ele e diga tudo isso. Eu e meus comparsas estaremos ao seu lado para lhe inspirar bons pensamentos – o espírito falou e deu uma tremenda gargalhada. – Depois, ainda, poderá afastar e prejudicar seu amigo, o caipira.
— Eu o iludi, mas me afeiçoei a ele. Não gostaria de prejudicá—lo. Sinceramente. Não gostaria que nada de mal acontecesse a Caio.
— Bom, entre ele e você se dar mal, o que prefere?
— Também não sou trouxa. Prefiro salvar a minha pele.
— Então conte com nosso apoio.
— O meu dinheiro está acabando e Gregório é mais forte, mais poderoso.
O espírito deu uma gargalhada pavorosa, fazendo Guido assustar—se.
— Ora, e suas clientes?
— O que têm elas?
— Nesse meio tempo, enquanto preparamos o ambiente para você atacar o empresário, por que não às ameaça?
— Ameaçar?
— Sim. Faça chantagens, as mais diversas. Faça—as sentirem medo, aproveite da culpa que sentem por estarem traindo seus maridos. Com certeza, essas mulheres ricas poderão lhe dar mais dinheiro do que você imagina, em troca de não terem seus nomes jogados na lama.
— Gostei da idéia.
O espírito fez uma lista a Guido para que ele comprasse "material" para ajudá—lo em seu intento, além de uma nota preta para o dito pai—de—santo. Guido concordou, afinal, acreditava piamente que dessa vez, finalmente, dar—se—ia bem na vida.
Guido deixou a casa de Juão e começou a seguir o conselho dos espíritos. No dia imediato, passou a ligar e aterrorizar algumas clientes, que, com medo de serem desmascaradas e serem motivo de escândalo, passaram a lhe dar dinheiro em troca de silêncio.


*****

Caio deixou de procurar apartamento, por ora. Seguiu os conselhos do bom e querido José. A convivência na pensão fez com que ambos criassem um forte elo emocional, permeado pelo carinho e amizade. Era como se José fizesse o papel de pai de Caio. Como perdera seu pai ainda muito cedo, quando ele mal tinha completado dois anos de idade, José preenchia a falta que ele sentia de uma figura paterna.
Gregório o estava enrolando com a assinatura do contrato.
O tempo corria e Gregório ligava para a pensão, conversava com Caio e pedia para que ele tivesse paciência. Logo ele assinaria o contrato para a campanha. Caio começou a sentir que algo estranho estava acontecendo. Foi ter com José, que agora se tornara seu amigo e confidente.
— Eu fui uma única vez ao escritório dele e agora ele não me deixa mais ir. Diz que está atarefado, cheio de compromissos e que logo me chamará para assinar o contrato.
— Quer saber? – disse José, realmente preocupado. – Esse homem o está enrolando. Não sei o porquê, mas parece que tem algo muito estranho nessa história.
— Mas ele me deu dinheiro. Bastante até. Por que iria me enrolar? Não consigo entender.
— Eu sinto que você deve se afastar dele. Procure estudar, arrumar um emprego qualquer. O emprego dignifica o homem. Você é muito jovem para ficar parado.
— Eu queria ser famoso, ter dinheiro.
— E acha que só sendo modelo terá fama e sucesso? Há tantas profissões que poderá lhe proporcionar isso, meu filho. Pense bem.
— Eu vou pensar.
— Se você estivesse apaixonado, talvez pensasse diferente.
— Eu, apaixonado? – Caio imediatamente lembrou—se de Luísa. E, só de lembrar, seu coração vibrava. Ele não respondeu nada.
José prosseguiu:
— Sim. Se houvesse uma mulher por quem você tivesse um sentimento nobre, sincero, de amor puro, talvez pensasse em melhorar na vida e ter um emprego. Uma relação de amor sempre nos impulsiona para o crescimento.
Caio vislumbrou o futuro ao lado de Luísa. Em sua mente, os dois caminhavam juntos, de mãos dadas, os filhos correndo na frente deles. É, se ele quisesse um futuro promissor, precisava pensar em arrumar trabalho, crescer, estudar, progredir. Ele apoiou o braço no ombro de José.
— Você fala com uma propriedade, como se já tivesse amado alguém na vida. Pelo que sei você é só.
Uma lágrima desceu pelo rosto de José. Ele fechou os olhos e imediatamente flashes do passado invadiram sua mente. Ele respirou fundo, deu uma pigarreada e tornou, com ar melancólico:
— Eu tive um grande amor. Já fui casado.
— Casado?
— Sim.
— E o que aconteceu? Separou—se?
— Não. Pior. Eu fiquei viúvo.
— Oh, meu amigo. Sinto muito.
José encostou as costas na cadeira e deixou o corpo relaxar. Suspirou e contou parte de sua vida. Confiava e tinha imenso carinho por Caio. Afinal, ele poderia ser o filho que perdera anos atrás.
— Eu me casei há muitos anos e tivemos um filho. Éramos pobres, porém eu e minha mulher trabalhávamos duramente. Eu era vigia numa fábrica de bebidas e ela trabalhava como faxineira. Tivemos um único filho, que levou meu nome, embora o chamássemos de Zezinho.
Os olhos de José brilhavam emocionados. Ele continuou sua história:
— Zezinho cresceu, tornou—se rapaz bonito, inteligente, sensível. Trabalhava de dia e estudava à noite. Éramos uma família feliz até...
Caio percebeu o tom emotivo na voz de José. Passou delicadamente a mão em seu ombro, como sinal para que ele continuasse seu triste relato.
— Bom, morávamos numa favela. Era o que o nosso dinheiro permitia pagar. Eu trabalhava a noite inteira e, numa madrugada de forte chuva, o barraco não suportou. Houve um deslizamento de terra e muitas casinhas foram pegas de supetão. A minha foi uma delas. E, lá dentro, estavam minha esposa e meu filho...
José não conseguiu finalizar. As lágrimas desciam sem cessar. Caio também se emocionou e o abraçou.
— José que tristeza. Não sei o que falar.
José recuperou—se da emoção. Enxugou o rosto com as costas da mão.
— Pois é, meu filho. Isso aconteceu há mais de dez anos. Eu larguei o emprego de vigia e, por intermédio de um amigo vim parar aqui na pensão da Fani. Ela sensibilizou—se com minha história e me deu emprego. Eu moro aqui, faço a manutenção da pensão e vou levando minha vida. Confesso que sou feliz, embora tenha muita saudade de minha esposa e meu Zezinho – ele acariciou o rosto de Caio. – Meu filho, hoje, teria a sua idade. Por tudo isso me afeiçoei tanto a você. Gostaria que você se tornasse o homem próspero e feliz que idealizei para meu filho. Coisa de pai. Desculpe—me.
— De maneira alguma. Eu perdi meu pai muito cedo e você tem preenchido essa lacuna em minha vida. Sou feliz por tê—lo encontrado em meu caminho.
Abraçaram—se emocionados. Ali se restabelecia uma forte amizade, oriunda de outras vidas.
Como a pensão não oferecia jantar, foram comer num restaurante ali próximo, barato e com comida excelente. Caio contou a José sobre sua vida e sentiu—se confortável e seguro para lhe contar sobre Loreta e a curta vida de prostituição que tivera na capital.
— Fico feliz que tenha abandonado essa vida. Ela só nos degrada o físico e o espírito.
— Eu conheci uma moça, José.
— É mesmo?
— Sinto que a amo. Meu coração trepida só de pensar em Luísa.
— Amar faz bem ao espírito.
Caio entristeceu—se.
— Ela é casada...
— Não se meta mais em encrencas, meu filho.
— O casamento não vai bem, ela quer se separar.
— Só a procure quando estiver separada. Se é que ela vai se separar.
— O que faço com o que sinto por ela? Tenho saudades.
— Aguarde. Tenha paciência. Peça a Deus para ajudá—lo.
— Eu não sou um homem de fé, José. Não acredito em nada. Tive uma vida muito dura e não creio que Deus esteja ao meu lado.
— Como não, meu filho? Você não está vivo? E saudável?
— Sim, mas minha vida poderia ser diferente.
— Faça—a diferente. Isso depende de nós. Mesmo com toda a desgraça que se abateu em minha vida, nunca deixei de ir à missa. Eu vou todo domingo, faça chuva ou faça sol. Fui criado no catolicismo e, embora não seja católico praticante, gosto de missa e sou devoto de Santa Rita de Cássia. A santa das causas impossíveis.
— É mesmo?
— Se quiser, um dia eu o levo lá na paróquia que leva seu nome. Fica no bairro do Pari. Você vai gostar.
Caio riu. Não tivera formação religiosa na sua vida e para ele tudo era novidade. Se fosse para agradar José, com certeza ele iria a tal Igreja. Terminaram de conversar, José pagou a conta e voltaram para a pensão.
Na entrada, José sacou a carteira do bolso e tirou um folhetinho, desses distribuídos nas portas das igrejas, com a imagem da santa.
— Tome. Guarde com você. Se bater uma saudade forte da moça casada, peça à Santa Rita que o ajude. Espero que ela possa ajudá—lo quando precisar.
Caio o abraçou, comovido.
— Obrigado, meu amigo.
Entraram na pensão. Assim que atravessaram o jardim de entrada, ouviram vozes altas vindas da recepção. Não imaginavam que gritaria era aquela, se era confusão ou conversa entre as mulheres.
Caio entrou primeiro no saguão. Uma senhora de costas conversava alegremente com as demais, enquanto gesticulava e movia os braços e o corpo. Elas voltaram à atenção para Caio e imediatamente a senhora voltou o corpo para trás. Ela o olhou de cima a baixo e, vendo José pelo ombro do rapaz, perguntou:
— Quem é você, rapaz?
— Meu nome é Caio.
— O famoso Caio!
— Ainda não sou famoso...
Ela riu, aproximou—se e o beijou no rosto, de maneira afável.
— Prazer. Meu nome é Fani. Sou a dona da pensão.
Caio abriu largo sorriso.
— Eu pensei que a senhora não existisse!
— Por quê?
— Porque falaram que voltaria de Bauru em uma semana e faz mais de mês. Eu pensei que todos estavam mentindo para mim. As pessoas riram da forma ingênua e espontânea com o jeito que Caio falou. José aproximou—se e a cumprimentou.
— Como vai, Fani?
— Estou muito bem.
— Fez boa viagem?
— Fiz. Estou cansada de ficar tantas horas sentada – ela disse, olhando ao redor. – Pelo visto, você cuidou direitinho da pensão.
— Não fiz mais que minha obrigação.
Celinha intrometeu—se entre os dois.
— Eu também ajudei. Bastante.
— Eu sei querida. Você é nosso braço direito.
Celinha sorriu.
— Obrigada. Eu adoro trabalhar aqui, se bem...
— Se bem? – encorajou Fani.
— Se bem que o trabalho anda pesado. Depois que a Dinorá foi embora, não consigo dar conta de tudo.
Muita comida para fazer, muito hóspede para atender, muita roupa para lavar e haja faxina. Parece que o pó adora esse casarão.
O riso foi geral. Fani continuou.
— O trabalho de Dinorá faz falta. Fui a Bauru resolver alguns negócios, vendi uma casa e agora vou reformar o casarão. Teremos novos quartos, mais modernos e mais espaçosos para servir os hóspedes.
Celinha bateu palmas.
— Que bom, D. Fani. Mas o serviço vai ficar mais pesado.
— Não precisa fazer beicinho. Pensando nisso, já contratei mais uma pessoa para ajudar nas lidas domésticas.
— Ufa! – fez Celinha, passando a mão pela testa. – Quem é essa pessoa?
— Uma antiga conhecida. Está lá em cima. No quarto ao lado de Caio – ela aproximou—se do rapaz e o encarou nos olhos. – Não quer subir e ver quem é? Aposto que você vai gostar.
Caio abriu largo sorriso. Só podia ser Sarita. Seu anjo voltara! Ele iria lhe falar de Luísa, perguntar ao seu anjo se tudo aquilo que estava sentindo era amor. Sarita sabia dessas coisas e poderia confirmar.
O rapaz foi caminhando até o quarto, ansioso. Subiu os lances da escada de maneira rápida. Abriu a porta do quarto e quase teve uma síncope. Seus olhos arregalaram e suas pernas falsearam por instantes. Ele só pôde balbuciar:
— Mãe...


CAPÍTULO 14


O tratamento espiritual a que Luísa fora submetida fizera com que ela melhorasse bastante. Os bons espíritos trabalharam em seu corpo emocional, reequlibraram seu chacra cardíaco. Aos poucos, ela passou a rever conceitos e mudar algumas atitudes que iriam acelerar o crescimento de seu espírito.
A sua única preocupação era arrumar algum trabalho por conta da doença do pai. Luísa prontificou—se a ajudar no tratamento de Inácio, cujos rins estavam paralisados e ele necessitava fazer diálise, três vezes ao dia. O governo não oferecia material com regularidade e, temendo o pior, Luísa fora condescendente com o marido, que pagava o tratamento do pai dela no hospital particular mais caro de Bauru.
Luísa havia conversado com Renata sobre a possibilidade de arrumar um emprego e a amiga ficou de ver, na empresa em que trabalhava se havia algum cargo de auxiliar ou recepcionista, porquanto Luísa não tinha formação profissional. Concluíra o ensino médio e tinha parado de estudar para se casar com Genaro.
Diante disso, ela sentiu força para poder enfrentar os pais, principalmente a mãe, e convencê—los de que, caso todos se unissem – ela e os irmãos –, o pai não precisaria mais da ajuda de Genaro e, assim, ela poderia se livrar de vez do marido.
Algo de inesperado, triste e, de uma certa maneira, reconfortante, atingiu Luísa e sua família. No fim do tratamento espiritual, ela recebeu a notícia de que seu pai tinha morrido. Luísa entristeceu—se, afinal, mesmo não tendo afinidades com o pai, fora ele que a criara e lhe dera um teto até o casamento com Genaro. Ela fora criada de maneira esmerada e só não teve mais porque Inácio perdeu tudo anos atrás. Ela sentia que não amava o pai, que nunca o amara, mas nutria por ele um sentimento de gratidão.
Luísa compareceu ao enterro sozinha. Genaro estava em Brasília, metido entre maracutaias e alegou impossibilidade de viajar até Bauru para o evento fúnebre.
Ela mudara algumas posturas e, vestida de firmeza, duas semanas após a morte do pai, retornou para conversar com sua mãe. O encontro não foi tão amigável assim. Seus irmãos fuzilaram—na com o olhar, logo que ela entrou na casa, ante a possibilidade de perderem a gorda mesada de Genaro. Sua mãe foi mais dura:
— Só pensa em você? E o que será de nossas vidas? – Neuza falava de maneira agressiva. – Eu a coloquei no mundo, enchi—a de mimos e carinho. Demos boa educação, que – Neuza metia—lhe o dedo em riste – a ajudou a conseguir um marido rico. Essa você vai nos dever pelo resto da vida.
— Eu não posso mais manter esse casamento.
— Não seja estúpida!
— Não precisa me ofender.
— Quer que eu fale como?
— Você não conhece Genaro como eu.
— Bobagem. Genaro é homem conhecido, político influente e importante. Logo terá cargo mais alto, quem sabe até será presidente do país. E você fica querendo abandonar o barco?
Vocês não imaginam o inferno que está sendo minha vida nesses anos todos.
Neuza exasperou—se.
— É você que nem ao menos imagina como será as nossas vidas se perdermos a mesada de Genaro.
— Mãe, entenda. Eu tinha medo de me separar porque Genaro bancava o tratamento de papai. Agora que ele morreu, um peso foi arrancado de minhas costas. Meus irmãos podem ajudá—la no sustento da casa.
— Esperou Inácio morrer para se virar contra nós?
— Eu me preocupava com o estado de saúde do papai, mas, agora, não vejo por que vocês têm de continuar recebendo mesada do Genaro.
— Acha que na idade em que estou eu vou trabalhar?
— Não é isso...
— Quer ver sua mãe esfregando chão e lavando privada?
— Não foi o que imaginei. Creio que você esteja dramatizando sua vida.
— Eu dramática?
— Sim. Está carregando nas tintas do drama. Eu preciso seguir minha vida, ser dona de meu destino. Não posso mais ficar sob as asas de um marido truculento.
— Agüente. Seja esperta. Manipule—o.
Luísa suspirou fundo e falou num tom alto.
— Ele bateu em mim!
— Ah! Ele bateu em você? – rebateu Neuza, com desdém. – O que você fez para ele tomar atitude extremada?
— Está defendendo Genaro?
— Boa coisa não foi Luísa. Você sempre foi muito mimada, muito cheia de nhenhenhém. Um nojo de menina.
Luísa não podia acreditar no que estava ouvindo. A mãe defendia o genro com unhas e dentes. Tratava—a como um objeto, como um trampolim para que eles vivessem essa boa vida que Genaro lhes proporcionava.
— Eu vou me separar.
— Engravide.
— O quê?
— Isso mesmo – tornou Neuza de maneira veemente. – Engravide. Tenha um filho dele. Assim você poderá arrancar—lhe dinheiro pelo resto da vida. Nada como um filho.
— Eu nunca faria isso, mãe. Nunca usaria uma criança para arrancar dinheiro. Não combina com meus princípios.
— Tola. Acha que princípios põem comida à mesa?
— Claro que não, mas pelo menos durmo com a consciência tranqüila.
— Você está mudada. O que tem feito?
— Nada de mais.
— Não Luísa, eu a conheço bem. Você está diferente, mais dona de si. De onde tirou essa panca?
— Que panca?
— Quem a ensinou a fazer isso?
Luísa titubeou.
— Não é bem assim... Algum tempo atrás tive uma discussão horrível com Genaro. Ele me bateu, sofri muito e fui procurar ajuda num Centro Espírita.
Neuza bufou de raiva. Aquilo não podia ser verdade. Ouvira errado.
— Não! – protestou num tom maledicente e, num riso forçado, disparou: — você não pode estar metida com isso.
— Eu passei a freqüentar um Centro Espírita e tenho melhorado muito. Fiz tratamento espiritual, aprendi...
Neuza foi curta e grossa.
— Chega! – exclamou um tom grave.
— Deixe—me explicar, por favor.
— Além de burra agora se meteu com essa gente ignorante que afirma se comunicar com espíritos? Isso sim é o fim da picada. Só mesmo uma tonta como você para cair na armadilha dessa gente que só quer tirar proveito da dor alheia.
— Quem lhe disse isso? De onde tirou essas idéias?
— Não tirei. Elas existem. É o que as pessoas dizem por aí.
Espírito, fantasma, é tudo invenção da mente humana. Já foi comprovado que não passa de balela.
— Como também já comprovaram a existência da reencarnação. Há livros sérios acerca do assunto e.
— Chega, Luísa.
— Mas, mãe...
— Não quero mais uma palavra sobre espírito aqui dentro de minha casa.
— Está certo. Eu vou respeitá—la. Nossos pontos de vista são diferentes.
— Totalmente diferentes.
— Mas o Otávio e o Paulo podiam trabalhar e ajudar aqui no sustento da casa.
— Está louca?
— Por quê? Falei alguma bobagem?
— Seus irmãos não têm idade para trabalhar.
— Eles são adultos, oras!
— São estudantes universitários.
— Mãe! Quantos rapazes na idade deles cursam faculdade à noite e trabalham de dia para ajudar suas famílias? Inúmeros.
— Seus irmãos são diferentes.
— O que há de diferente neles?
— Precisam de tempo para estudar.
— Você os defende. Quer transformar seus filhos em quê? Em inúteis?
Neuza não conteve a raiva e deu um tapa na cara da filha.
— Nunca mais fale assim de seus irmãos. Eles não merecem a irmã que têm.
Luísa passou a mão pela face ardida e vermelha.
— Você nunca mais vai encostar o dedo em mim!
— Vai me ameaçar?
— Eu juro. Daqui para frente, vocês que se virem. Eu vou me separar. Acabou a mamata.
— Nem pense nisso, sua...
Luísa nem quis ouvir mais. Pegou sua bolsa e falou:
— Adeus, mãe.
Neuza gritava e dirigia à filha palavras duras e agressivas. Por sorte, Luíza estava ligada aos espíritos de luz e não deu ouvidos às barbaridades proferidas por aquela mulher que podia ser qualquer coisa, menos sua mãe.


****


Guido conseguia manter—se com o dinheiro que arrancava de suas clientes, por meio da chantagem. Mas isso era muito pouco para ele. Tinha sede de mais, muito mais.
Certa noite ele foi à mansão de Gregório. Precisava de mais dinheiro. Entrou no jardim de inverno e Gregório o esperava, com um robe de seda preto.
— Vou direto ao assunto, Gregório. Estou precisando de um adiantamento.
— Não.
— Por quê?
— Porque você já ganhou bastante dinheiro.
— Eu o ajudei. Fiz tudo o que você mandou.
— E ainda fará mais.
— Quanto ao dinheiro?
— Semana que vem lhe dou mais.
— Jura?
— Palavra de Gregório Del Prate.
— Estou precisando agora.
— E o que recebe de suas chantagens com as ricaças?
— Esse dinheiro dá para pagar comida, mais nada. Você precisa me ajudar.
Gregório levantou—se e dirigiu—se até uma parede ao lado da estante. Tirou de lá um quadro e Guido percebeu que se tratava de um cofre. Gregório abriu e de lá tirou algumas notas.
— Isso serve para você?
Guido apanhou os maços rapidamente, como se Gregório pudesse mudar de opinião. Ele contou as notas e sorriu.
— Dá para mais alguns dias.
— Alguns dias? Está louco? – vociferou Gregório. – Esse dinheiro é para mais de mês. Veja lá como gasta! Economize.
— Não sei fazer economia.
— Procure um panaca igual ao Maximiliano. Aí fora – fez gesto com as mãos – tem um monte de homem carente e cheio de grana.
— Para que vou atrás deles se tenho você?
— Não gosto que fale comigo nesse tom!
— Eu posso arruinar sua vida, Gregório.
Gregório aproximou—se e lhe meteu o dedo em riste. Guido nem se importou com aquele mau hálito ácido e insuportável.
— Se fizer novas ameaças a mim, eu acabo com a sua raça, entendeu?
— É que, depois de tudo o que lhe fiz...
— Cuidado comigo, Guido.
— Você podia me arrumar um apartamento, um carro...
— Ficou maluco?
— Eu fiz coisas que se vier a público, poderão acabar com a sua vida.
Gregório enfureceu—se. Odiava ser chantageado. Deu um tapa no rosto de Guido.
— Você nem ouse me chantagear! Se eu ouvir outra vez dessa boca suja, mesmo nas entrelinhas, que vai me chantagear, eu dou cabo de sua vida, entendeu? Eu acabo com você!
Gregório falou de maneira tão assustadora que Guido estremeceu. O proprietário da Cia. De Perfumes era mais forte, sem dúvida. Ele não podia criar uma situação de animosidade com Gregório. Não agora. Precisava ganhar mais tempo. Quem sabe o Juão não resolveria logo seus problemas?
Ele levou a mão ao rosto e contemporizou.
— Está certo. Perdi a cabeça. Desculpe—me.
— Assim está melhor. Agora pegue esse dinheiro e suma.
Guido assentiu com a cabeça e saiu. Pelo menos agora teria dinheiro para mais alguns dias.
Entretanto, ao sair da mansão, ele mentalizou o local onde ficava o cofre. Era lá que ele tinha de atacar.


****


Maximiliano estava confortavelmente sentado em sua sala quando a campainha tocou. A empregada foi atender e, em seguida, Renata surgiu linda e exuberante. Trazia Luíza a tiracolo.
— Boa noite, amigo.
Max levantou—se e foi ao encontro delas. Cumprimentou Renata e, em seguida, Luísa.
— Eu a vi no Centro da Mafalda algumas vezes, mas não quis me aproximar. Você parecia estar num outro mundo – comentou Max, enquanto conduzia as duas moças para se sentarem ao seu lado, num gracioso sofá.
— Eu passei por momentos muito difíceis. Recentemente perdi meu pai e parece que também perdi minha família.
Renata aduziu:
— Luísa é casada com Genaro Del Prate.
— O político? – inquiriu Max.
— Esse mesmo – respondeu Luísa. – Nosso casamento sempre foi um fiasco e eu tentei me separar. Genaro me bateu sempre me ameaçou com surras e outras ameaças.
— Por que não prestou queixa na delegacia?
— Genaro ameaçou—me caso eu fizesse um boletim de ocorrência. E, de mais a mais, de que adiantaria prestar queixa? Nós, mulheres, não temos direito algum. Os delegados riem de nós.
— Riem? – perguntou Max, estupefato.
Renato afirmou.
— Certa vez acompanhei uma amiga à delegacia para prestar queixa contra o marido. Fiquei impressionada com o descaso das autoridades. Eles trataram—na como se fosse culpada por ter apanhado. Como se o marido tivesse razão para espancá—la.
— É uma pena – disse Max. – Os homens não podem continuar cometendo agressões contra suas companheiras. É injusto e desumano.
Luísa tornou, de maneira doce.
— Agora me sinto forte para seguir adiante.
— Seu marido é um homem covarde. Homem que agride sua mulher deveria ser preso, mas infelizmente vocês ainda – fez, apontando para as duas – são recriminadas. Eles batem, matam e ainda declaram, com a maior cara lavada, terem sido feridos na honra.
Renata intercedeu.
— Está havendo mudança de valores no Brasil. Infelizmente, ainda, a sociedade é chamada a rever seus conceitos diante de crimes bárbaros e aí sim, clama para que certas leis sejam revistas e mudadas.
— Concordo – ajuntou Max. – Lembre—se do caso Lindomar Castilho (O cantor Lindomar Castilho foi condenado a doze anos de reclusão, por homicídio doloso e tentativa de homicídio. Ele cumpriu seis anos em regime semi—aberto, por bom comportamento, tendo ganhado a liberdade em 1996, retornando sua carreira artística em seguida – Nota do Autor), quando o tema é a violência contra a mulher. O cantor matou sua esposa, aliás, ex—esposa – porquanto a separação havia já sido assinada por ambos – e também cantora Eliane de Grammont recentemente. Até agora o caso reverbera na sociedade e tenho certeza de que, por conta desse crime bárbaro e de tantos outros nunca noticiados, muitas mudanças virão, para benefício das mulheres que sofrem como você, Luísa, nas mãos de homens covardes e que, em breve, não mais terão a lei a seu favor.
— Ainda vale a figura da "legítima defesa da honra", que justificava crimes covardes como o cometido pelo cantor. As entidades feministas, porém, estão pressionando as autoridades para que a justiça seja feita – ajuntou Renata.
— Afinal – concluiu Luísa –, quem ama, não mata.
— Pois é. E você – Max apontou para Luísa – precisa se fortalecer e procurar meios de se desligar de seu marido antes que seja tarde demais.
— Por que me diz isso?
— Pela ficha dele...
— Falando assim, Max você me assusta.
— Genaro é homem vil, inescrupuloso. Você temia se separar, porquanto seu pai necessitava de ajuda no tratamento médico. Estava atordoada e preocupada porque não via possibilidade de arrumar um trabalho que pudesse cobrir essas despesas. Entretanto, a vida foi generosa com você.
— Generosa? Como?!
— Luísa, a vida tirou seu pai de cena. Você está enxergando as coisas de maneira muito torpe. Veja o lado positivo das coisas, mesmo que se trate de uma perda, de uma tragédia, até. Tudo na vida é para o nosso melhor, para o nosso crescimento, para a nossa evolução.
— Max tem razão – concordou Renata. – Você se preocupava com seu pai, com seu tratamento. Ele partiu, terminou sua jornada nesta vida. Seu pai cumpriu o que tinha de cumprir. Você deve orar para que o espírito dele possa estar recebendo ajuda num Posto de Socorro no astral e agradecer a Deus por não ter de se preocupar com seu tratamento. É uma maneira diferente de enxergar o que nos acontece na vida. A morte de Inácio, no fim das contas, fez um bem a você.
— Pensando desse modo, sim – asseverou Luísa. – Concordo.
— E sua mãe e irmãos terão de se virar. Você não está fazendo tudo sozinha? – perguntou Max.
— De certa forma.
— Claro, você tem seus amigos, tem a Renata, a mim, Mafalda e os bons amigos espirituais. Mas você é que tem feito as mudanças por si. Que sua família também aprenda a mudar com as adversidades da vida. Você não é responsável pela vida deles. Só pela sua.

— E minha mãe não me quer por perto. Não gosta de mim. Eu sinto – contrapôs Luísa.
— E por que vai ficar ao lado de quem não lhe quer bem?
— Mas ela é minha mãe, Max.
— E daí?
— Eu sinto culpa.
— Neuza comprometeu—se a lhe dar a vida. Ela foi responsável pelo seu reencarne. Merece todo o seu respeito. Entretanto, você não é obrigada, de maneira alguma, a ter de aturá—la pelo resto da vida, a não ser que você a ame. Você a ama?
— Não. Sinceramente, não.
— Mas pode fazer um esforço para também não nutrir nenhum sentimento de raiva. Isso não nos faz bem, Luísa. Quer voltar junto dela na próxima encarnação?
— Eu?!
— É
— Deus me livre – Luísa bateu na madeira três vezes.
— O amor e a raiva caminham juntos. Esses sentimentos criam laços entre os espíritos. E, se nos ligam, vão nos manter juntos em outras vidas, movidos pelo sentimento de amor ou de ódio. Por tudo isso, mesmo que você não goste de sua mãe, procure compreendê—la e perdoá—la pelos seus atos insanos.
— Compreender e perdoar?
— Sim. Perdoar para você se livrar do sentimento de raiva que as une. E compreendê—la porque Neuza foi criada de outra maneira, numa outra época, faz parte de outra geração. É uma mulher embrutecida, perdeu tudo na vida.
— Mas... – Luísa ia protestar. Max fez sinal com a cabeça e continuou: — tudo bem, a vida de cada um é reflexo do conjunto de suas atitudes e crenças, ninguém no mundo é punido, digamos assim, em vão. Sua mãe atraiu essa experiência para sua vida e, se tirou proveito ou não das experiências pela qual passou, isso é problema dela. Mas você cresceu, procurou forças dentro de si para mudar.
Tem estudado bastante, procurado entender os mecanismos que regem nossa vida. Tem condições de perdoar e seguir em frente.
Renata concluiu:
— Você não precisa, minha amiga, ficar lambendo sua mãe ou mesmo manter com ela uma relação de falsidade, visto que ambas não se dão bem. Mas não custa nada perdoá—la e vibrar para que ela acorde e saia das teias de ilusões que criou.
— Isso mesmo – ajuntou Max. – Vibre para que Neuza possa crescer e se libertar das ilusões que a impedem de enxergar a força que seu espírito tem para viver sem depender de ninguém. Esse trabalho é só da sua mãe. Ninguém poderá fazer por ela. Mas perdoar, deixar de sentir rancor e mágoa, isso vai ajudar você a se libertar e seguir adiante, com mais segurança, mais fé.
Luísa emocionou—se. As palavras dos amigos ajudavam—na bastante a refletir e ver que poderia, sem dúvida, perdoar sua mãe e seguir adiante.



CAPÍTULO 15


Caio abraçou sua mãe e assim permaneceram por longo tempo. A emoção impedia que pudessem dizer alguma coisa. O abraço sincero, forte, quente e afetuoso causou—lhes uma sensação de indescritível bem estar.
Rosalina afastou—se e mediu o filho da cabeça aos pés.
— Você está tão bonito! Diferente, bem vestido.
— Obrigado, mãe.
— O que anda fazendo?
— Tenho muita coisa para contar, mas agora quero saber o que você faz aqui. Que surpresa é essa? Veio para ficar?
— Sim. A proposta de Fani foi irrecusável.
— Mas você estava trabalhando na escola, ganhando bem, pensava até em comprar uma casinha...
— Pois é, meu filho, entretanto muitas coisas aconteceram. A escola fechou por falta de verbas públicas. Eu perdi me emprego. Por sorte, consegui concluir o supletivo. Formei—me no ginásio.
— Fico feliz que tenha se graduado. Era um sonho antigo.
— Agora sei ler, escrever e fazer contas diversas. Tornei—me uma mulher muito mais inteligente, mais culta e mais lúcida. Mais feliz.
— Como fez para se sustentar?
— Voltei a fazer faxina e lavar roupa para fora. Consegui me manter. Foi quando reencontrei a Fani em Bauru. Um dia estava saindo da venda do seu Gomes e ela lembrou—se de mim. Conversamos, falei de minha situação e foi então que veio a proposta.
— Qual proposta?
— Eu vou trabalhar só na cozinha fazer as refeições. O salário é bom e eu terei um teto para morar. E agora, vendo que você está aqui ao meu lado, o que mais quero?
Ele a abraçou e a beijou várias vezes no rosto.
— Estava mesmo morrendo de saudades, sabia? Muita saudade.
— Eu também.
— Ninguém mais vai nos separar.
— Sabe, filho, a Norma me falou que iríamos nos encontrar. Só não sabia como. Esta cidade é tão grande, e veja só: mal cheguei e o reencontrei.
Caio afastou—se e coçou a cabeça.
— Continua com essas idéias?
— Que idéias? Eu disse que sua irmã me procurou, oras.
— Mãe!
— Norma mandou uma carta para mim.
— Como assim? Uma carta?! – perguntou estupefato.
— Uma carta psicografada.
— Mãe, não entendo dessas coisas e...
Rosalina silenciou o filho com o indicador em seus lábios.
— Chi! Calma. Deixe—me explicar melhor.
Ela foi até sua bolsa e pegou um envelope.
— No Centro Espírita que eu freqüentava em Bauru, havia sessões em que levávamos o nome de nossos entes queridos desencarnados e esperávamos até que eles se comunicassem. Isso poderia levar dias ou semanas, sendo que algumas pessoas eram chamadas, outras não. Eu custei a receber notícias de sua irmã.
Quando fui chamada, certa noite, após uma sessão, meu coração transbordou de alegria. Uma carta endereçada a mim!
— E o que diz a carta?
Rosalina riu misteriosa.
— Para você tomar cuidado e prestar mais atenção às pessoas a sua volta.
— Grande coisa.
— E disse—me que vou me casar de novo!
— Mãe, que absurdo é esse?
— Por que absurdo?
— Não creio que Norma esteja entre nós. Por acaso – perguntou de maneira desafiadora – a letra na carta é dela?
Rosalina moveu a cabeça para os lados.
— Você não entende nada das coisas espirituais. Claro que a carta vem com a letra do médium que a escreveu.
— Sei...
— Segundo a doutrina espírita, meu filho, a psicografia é uma das múltiplas possibilidades de expressão mediúnica existentes. Allan Kardec classifica—a como um tipo de manifestação inteligente, digamos assim, por consistir na comunicação discursiva escrita de um espírito, por intermédio de um médium, seja homem ou mulher, com quantos se prestem a ler—lhe os textos.
Ele coçou o queixo, meio intrigado. Rosalina prosseguiu:
— O fenômeno ocorre pela intercessão da vontade do espírito comunicante sobre a vontade passiva do médium que, apesar de ceder sua vontade para que a comunicação se dê, estando consciente, interfere mais ou menos no seu teor e forma.
— Nunca ouvi falar disso.
— Porque não lê, oras!
— Existe publicação sobre esse assunto é? – perguntou em tom de deboche.
Rosalina nem ligou. Sentia que Caio era resistente para aceitar e compreender os fenômenos mediúnicos. Ela finalizou:
— Em descrições contidas nas obras da série André Luiz (coleção intitulada A Vida no mundo espiritual, do espírito André Luiz, composta por dezesseis livros psicografados pelos médiuns Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira e publicados pela FEB – Federação Espírita Brasileira Editora – Brasília, DF. No movimento espírita brasileiro a coleção também é conhecida como Série Nosso Lar (N.A.)), existe uma interligação entre os chamados centros de força do perispírito do desencarnado com o encarnado intermediário, permitindo que ele atue na produção de textos, consoante sua vontade.
— Está falando difícil para me impressionar?
— Não, para que você desperte para a verdade. Só isso.
A postura de Rosalina surpreendeu Caio. Ela falava com propriedade, de maneira articulada, usando até palavras mais difíceis. Sua aparência estava melhorada, ela estava mais bonita, embora algumas rugas teimassem em ocupar o canto dos olhos.
— Você acredita mesmo que Norma tenha se comunicado?
— Sem dúvida alguma.
Caio pegou o envelope das mãos da mãe. Abriu e tirou a carta. Era uma comunicação curta, de algumas linhas, mas Norma falava em Roberval e que também estivera com Elza. Ele abriu e fechou a boca sem poder articular som.
— As pessoas desse Centro Espírita a conhecem?
— Não a ponto de saberem que seu pai se chamava Roberval e que sua avó se chamava Elza.
Caio abraçou a mãe. Sentiu forte emoção, e a lembrança de Norma veio forte à sua mente.
— Ah, mãe – tornou ele, emocionado –, será que Norma está perto de mim? Será que ela me protege?
— Caio querido! – Rosalina alisou seus cabelos. – Norma afirma na carta que está sempre ao seu lado. Será que você não poderia ser mais flexível e abrir—se ao conhecimento espiritual?
— Ainda estou confuso, mas prometo que, qualquer hora, pego um livro seu.
— Está certo, meu filho.
Abraçaram—se e continuaram conversando. Caio contou de maneira empolgada à mãe sobre o contrato e a campanha do perfume. Rosalina sentiu uma pontada no peito, um desconforto sem igual. Alertou o filho.
— Creio que você poderia ir atrás de outra atividade. Esta cidade é tão grande, pode lhe proporcionar muitas coisas boas. Lembre—se do que sua irmã disse na carta. Cuidado com quem você se envolve.
— Ouvi isso hoje do José. Ele me falou a mesma coisa.
— Caio meu filho, preste atenção aos sinais que a vida lhe dá. Eu mal conheço esse José e tanto ele quanto eu, mais a carta de sua irmã, dizem—lhe a mesma coisa?
— Bom...
Rosalina aumentou o tom.
— No mesmo dia? Não é para pensar?
— É. Creio que sim.
— Abra os olhos, meu filho. Cuidado com gente que é lobo em pele de cordeiro. Você sabe do caráter desse Gregório Del Prate, ou melhor, da falta de caráter. Você não está sendo enganado.
— Eu sei.
— Os fatos se mostram à sua frente.
— Entendo.
— Tome cuidado com o que você vai fazer.
— Mas e se eu não aceitar?
— Assinou alguma coisa?
— Não.
— Fica mais fácil.
— Não é tão fácil assim, mãe.
— Por quê?
— O Gregório me deu um adiantamento.
— Devolva.
— Como?
— Devolva o dinheiro.
— Contudo, eu usei um pouco do dinheiro.
— Não tem problema. Você poderia pegar o dinheiro e sumir. Não assinou nada. Mas você tem caráter, é um homem bom. Por esse motivo, pegue o que tem no banco, não importa a quantia e devolva ao Gregório.
— E o resto do dinheiro?
— Diga que no tempo certo vai lhe pagar aquilo que falta. E pronto. Livre—se dele.
— Você tem razão. Mas, mãe, se eu devolver o dinheiro, vou viver de quê?
— Eu converso com Fani. Você fica no meu quarto e não pagará mais a pensão. Ficaremos apertados, mas sobreviveremos. Depois, você vai se ajeitar colocar uma roupa bonita e ir à cata de emprego. Tenho certeza de que logo estará estudando e trabalhando. Vamos, meu filho, força!
Caio a beijou demoradamente na fronte.
— Você é a melhor mãe do mundo.
— Você é o melhor filho do mundo – rebateu Rosalina.
Caio despediu—se da mãe e foi para seu quarto. Deitou—se na cama e lembrou—se da irmã querida.
— Será que Norma tentou se comunicar comigo? Será que depois da morte existe algo? Será?
Caio pensou na irmã, na saudade que sentia dela e, dessa forma, adormeceu.
Norma estava com ele desde que Rosalina chegou. Não queria perder o reencontro entre mãe e filho. Ficou emocionada ao vê—los juntos.
— Ele continua resistente – disse para Carlota.
— Você fez o que lhe foi permitido, Norma.
— Infelizmente, ele vai arrumar encrenca.
— Se o espírito dele precisar passar por essa experiência, paciência. Não podemos, de maneira alguma, interferir na escolha das pessoas. Você lhe mandou a mensagem. Para bom entendedor, bastam as entrelinhas.
Isso é sinal de que a espiritualidade entendeu que Caio não precisaria passar por situações desagradáveis. Entretanto, o espírito dele anseia passar por isso. Entende que é algo mais forte que a própria vida?
— Sim, entendo.
— Seu irmão precisa, deseja, mesmo que inconscientemente, passar por essa provação. Caso contrário Caio teria grande vontade de procurar um Centro Espírita. Isso faria toda a diferença.
— Você tem razão, Carlota. Isso faria toda a diferença. Todavia, meu irmão está fazendo suas escolhas. O melhor a fazer é orar e pedir para que seja feito o melhor.
— Isso mesmo. Que tal darmos um passe no perispírito de seu irmão? Aproveitamos que ele adormeceu e lhe ministramos um passe revitalizante. Amanhã, com certeza, ele vai acordar mais bem—disposto.
Norma pendeu a cabeça afirmativamente. Os dois espíritos ergueram as mãos. Fecharam os olhos, concentraram—se e aplicaram um passe sobre o perispírito de Caio, que descansava há alguns palmos do corpo físico. Feito isso, as duas desvaneceram no ar.


****

Luísa sentia—se mais forte. Renata tinha lhe conseguido entrevista na empresa em que trabalhava. Era para o cargo de recepcionista. O salário era pouco, mas dava para Luísa começar a sentir o sabor da independência e a pagar suas contas.
Após a entrevista, ela foi almoçar com Renata.
— Fiquei tão feliz! A gerente de recursos humanos gostou de mim. Disse que sou simpática, comunicativa e que talvez o cargo seja meu. Ela tem mais duas moças para entrevistar, mas sinto que o cargo será meu.
— Eu também acredito nisso – ponderou Renata. – Você quer mudar crescer, está colocando muita força em seu caminho.
Isso faz com que tudo ao nosso redor comece a mudar. Para melhor, sempre.
— Genaro mal sabe disso.
— Mas vai saber. Ele vem para as festas de fim de ano?
— Não. Disse que tem compromissos inadiáveis.
— É verdade?
— Não. Papo furado. Sei que ele deve estar se divertindo com mulheres e desviando dinheiro publico a torto e a direito.
— Problema dele, Luísa. Um dia Genaro terá de arcar com as conseqüências de suas atitudes. Sejam elas boas ou não.
— Será?
— Mas é claro, minha amiga! E, se a justiça dos homens for cega e falha, ninguém escapará da justiça divina.
— Não sei, não. Isso me incomoda profundamente. Genaro aprontou muito quando era vereador em Bauru. Desviou dinheiro e veja: ele foi um dos deputados federais mais votados do país. Como pode?
— Todo político inescrupuloso um dia acaba metendo os pés pelas mãos. Genaro começou com pequenos golpes, pequenos desvios de dinheiro público. Ele vai querer mais e, uma hora, vai se dar mal.
— Duvido. Todo político é esperto.
— Também não vamos generalizar Luísa. Um político é um indivíduo ativo que atua em nome de um grupo social. Pode ser formalmente reconhecido como membro ativo de um governo ou uma pessoa que influencia a maneira como a sociedade é governada por meio de conhecimentos sobre poder político e dinâmica de grupo. Essa definição inclui pessoas que estão em cargos de decisão no governo, e pessoas que almejam esses cargos tanto por eleição, quanto por indicação, fraude eleitoral, hereditariedade etc. Apesar de a política ter historicamente sido considerada uma profissão honrada – existem políticos que efetivamente promovem o bem—estar de seu eleitorado ou de seu povo –, muitas pessoas, atualmente. Mesmo em países democráticos, tem uma opinião negativa a respeito dos políticos como classe.
Existem muitos Genaros por aí, inescrupulosos, cujas promessas não são verdadeiras. Também são, ocasionalmente, acusados de desvios de verba para o seu próprio interesse e não para o interesse do povo. De fato, casos de corrupção política não são raros.
— Conheço políticos que dariam seu sangue para que nosso país melhorasse em todos os aspectos.
— Sei disso, Luísa. No entanto, Genaro não é o tipo. Políticos como Genaro são poucos, mas causam grande estrago, seja pelo desvio de dinheiro, seja por arranhar a imagem da classe por expressiva parcela da população. E não devemos nos importar com eles. Neste mundo ou em outro, um dia eles terão de se acertar com o Universo.
— Pedi que Genaro viesse a São Paulo para conversarmos sobre a separação. Ele disse que isso é conversa fiada e que não vai me dar nada. Que estou delirando.
— Você não precisa ficar à mercê dele. Sabe disso.
— E se ele não der a separação? O que faço? Ficarei presa a ele pelo resto da vida?
— Claro que não, amiga. Ninguém fica preso a ninguém. O tempo da escravidão acabou há muito tempo.
— Sei, mas Genaro afirmou com todas as letras que não me dará a separação. Divórcio nem pensar.
— Então, contrate um advogado e entre com o pedido de separação litigiosa.
— Como assim?
— Existem dois tipos de separação judicial. A consensual, que é a mais comum e todos saem ganhando, porque é mais simples e rápida. Todavia, isso ocorre quando o marido e a mulher estão de pleno acordo quanto à separação. No seu caso, como Genaro não quer, em hipótese alguma, dar—lhe a separação, então, Luísa, não tem jeito. Você terá de requerer uma separação litigiosa. Isso quem vai tratar são os advogados de ambos. Eles vão lá brigar com o juiz.
— Eu não tenho dinheiro, Renata.
— Você pode exigir pensão.
— Não quero dinheiro de Genaro. Quero assinar os papéis, separar—me e viver minha vida.
— Se precisar de advogado, eu posso lhe arrumar um.
— Ai é que está. Eu estou completamente dura.
— Você pode requerer assistência judicial gratuita. Todavia, creio que o melhor a fazer é arrumar dinheiro para pagar o advogado. O que conheço é muito bom, cobra um valor justo e parcela.
— Eu tenho algumas jóias. Poderia vendê—las.
— Excelente idéia, Luísa.
— Jóias caras.
— Pegue as suas jóias, leve—as até um avaliador, faça cotação de preço e venda. Você já terá dinheiro para pagar seu advogado. E tem a casa de vocês. Pelo menos, meio a meio.
Luísa meneou a cabeça para os lados, de forma negativa.
— A casa é de Genaro. Ele a comprou antes do casamento. E nos casamos em regime de comunhão parcial de bens, ou seja, só temos de dividir algo caso Genaro tenha comprado após nosso casamento.
— Se você quiser, pode ir para casa e por lá ficar, quanto tempo necessitar.
— Agradeço, mas eu tenho Eunice. Não posso deixá—la. Ela sempre me ajudou, ela sempre foi uma mãe para mim.
— Eu posso dispensar a minha empregada e Eunice pode trabalhar para mim.
Luísa mordeu os lábios, aflita.
— Não sei ao certo. Não seria justo invadirmos sua privacidade. Você é solteira e.
— E nada – rebateu Renata. – Sou independente, solteira e não estou à procura de um amor. Não por enquanto. Estou mais focada em minha carreira, em fazer o meu pé—de—meia. Na hora certa vai aparecer um homem bom, de preferência bonito – ela riu –, que eu ame com todas as minhas forças. Saberei disso no dia em que eu pousar meus olhos nos dele.
— Como tem tanta certeza de que será assim?
— É a minha intuição trabalhando a meu favor. Você verá Luísa, logo vou encontrar o amor de minha vida. Eu mesma vou lhe dizer.
Luísa ergueu seu copo.
— Façamos um brinde ao amor!
— Ao amor – respondeu Renata.


*****

Caio estava sentado no banco do jardim da pensão quando Celinha veio correndo ao seu encontro.
— O que foi?
— Chegou carta para você! – exclamou ela, de maneira graciosa.
— Obrigado.
Caio apanhou o envelope pardo e, ao constatar que não havia remetente, sentiu um frio no estômago. Fazia tantos meses que não recebera carta, e por um fio de esperança acreditou que aquele trote de mau gosto havia parado lá trás. Ledo engano. Com as mãos trêmulas, ele abriu o envelope e lá estava escrito a mesma frase, cujas letras coladas na carta, eram recortadas de revistas e jornais.

" Você matou Loreta. Eu sei. Estou de olho em você."

Celinha notou que a cor do rosto dele mudou repentinamente e perguntou:
— Recebeu alguma noticia ruim?
— Na... Não – ele balbuciou. – É carta de um amigo. – Mentiu.
— Vou para a cozinha. Aceita um copo d'água com açúcar?
— Sim, Celinha. Aceito.
A menina correu até a cozinha e, em seguida, voltou ao pátio com o copo d'água com açúcar.
— Beba, vai lhe fazer bem.
Caio sorveu cada gole com vontade. Devagar, acalmou—se.
— Obrigado, Celinha.
José estava fazendo manutenção no telhado e desceu para o lanche da tarde. Notou o ar preocupado estampado na face do rapaz.
— O que foi?
— Nada, José.
— Tem certeza?
Caio não agüentava mais. Tinha de dividir com alguém essa brincadeira de mau gosto que estava lhe azucrinando a vida.
— Sente—se aqui, José.
O senhor obedeceu e, em poucas palavras, Caio lhe contou tudo. José já sabia de Loreta, mas não das circunstancias em que ela tinha morrido. Ele coçou o queixo, mordiscou os lábios.
— Deixe—me ver a carta.
Caio a retirou do bolso. José checou.
— Onde está o envelope?
— O envelope?
— Sim. Deixe—me vê—lo.
Caio meteu a mão no bolso e retirou o envelope pardo.
— De nada vai adiantar José. O envelope não tem remetente. Nunca saberei quem manda isso para mim.
— Alguém que o conhece bem e que está bem perto.
— Como pode afirmar isso?
— Eu adoro ler romances policiais, inclusive li muitos livros da Agatha Christie – José riu. – Quem está lhe mandando estas cartas nunca leu livro algum da maior escritora policial de todos os tempos. Está tudo muito fácil.
— Não estou seguindo—o. Explique—se melhor.
José ajeitou—se no banco.
— Meu filho, primeiro, você recebeu uma carta no apartamento de seu amigo, certo? Quem sabia que você estava lá?
Hum, bem, quando me mudei para lá as únicas pessoas que sabiam de meu endereço eram minha mãe e Sarita.
— Pois bem, esqueçamos de sua mãe. Rosalina não faria uma brincadeira dessas com você e – ele salientou – nem desconfia que você era metido com essa dona, certo?
— Sim.
— Vamos à segunda pessoa.
— Sarita. Ela foi um anjo bom que me ajudou. Ela não pode estar metida nisso.
— Por que não?
— Porque Sarita nem imagina que eu estou morando na pensão. Como a carta veio direto para este endereço?
— Puxa – José deu uma batida de leve no peito de Caio –, o garoto está ficando esperto. Portanto, descartamos sua mãe e Sarita. Quem mais conviveu com você aqui na cidade?
— O Guido. Mas ele é meu amigo. Quer dizer, foi meu amigo. Ajudou—me desde que cheguei. Ofereceu—me um teto para morar, foi muito gentil.
José o olhou desconfiado.
— Quando a ajuda é demais, o santo desconfia.
— E, de mais a mais – completou Caio –, Guido não é de Bauru, jamais saberia do meu envolvimento com Loreta.
José ficou pensativo por instantes. De repente veio um flash em sua mente. Ele pegou o envelope da mão de Caio e olhou no carimbo dos correios. Mostrou para Caio:
— Veja.
— O que?
— Veja o carimbo do correio.
— O que tem?
— Foi postado na região central da cidade.
— E daí?
— Daí que temos uma pista. Quem o está chantageando mora aqui na cidade. Quem mora no centro?
— Eh, bem – ele coçou a cabeça –, o Guido mudou—se para um hotel no centro da cidade e...
José o interrompeu.
— Você tem o outro envelope?
— Tenho. Está lá no quarto.
— Suba e pegue—o. Vamos ver onde foi postado.
Caio subiu rapidamente os lances de escada. Apanhou o envelope e o carimbo era claro: Jardins. Ele desceu as escadas e, esbaforido, entregou—o a José.
— Foi carimbado na agência dos Jardins.
— Quem mora nos Jardins?
— Eu morava nos Jardins... Com o Guido!
— Se eu fosse você, meu caro, iria atrás desse rapaz. Creio que ele tenha de lhe dar muitas explicações.
— Não sei onde ele mora. Nunca mais nos vimos. Já faz algum tempo.
— Vocês conhecem alguém em comum?
— Sim. O dono da Cia. De Perfumes.
José sentiu um aperto no peito, uma sensação muito desagradável.
— Não fale com esse homem. Algo me diz que você deve ficar quieto. Tente achar esse Guido. Ele poderá contar a verdade.
— Mas a cidade é grande. Mesmo sabendo que a carta foi postada no centro, sabe que a região é enorme, lotada de hotéis.
— Aguarde meu filho. Tudo acontece no tempo certo.


CAPÍTULO 16


Naquela noite, os trabalhos espirituais no Centro Espírita dirigido por Mafalda correram de maneira tranqüila, como de costume. Luísa além de participar do curso sobre mediunidade, ajudava na triagem das pessoas que eram atendidas. Renata e Maximiliano trabalhavam como atendentes e encaminhavam as pessoas para os devidos tratamentos, após pequena entrevista.
Mafalda havia proferido uma linda palestra sobre a força interior que há em cada um de nós. Ressaltou a disciplina necessária para que nossos pensamentos sempre estejam voltados para o bem, não importa a situação em que nos encontremos. O desânimo e a maledicência, como ela disse no final, são os grandes vilões que emperram a nossa escalada evolutiva no bem.
Em seguida, ela deu passagem para outro médium que, incorporado, falou sobre a evolução do Espiritismo no Brasil. Falou também sobre as religiões africanas trazidas ao Brasil pelos escravos. Um tabu entre as casas espíritas brasileiras. Todavia, como Mafalda era mulher sem preconceitos e à frente de seu tempo, deixava que seus médiuns incorporassem espíritos que geralmente não se manifestavam num Centro Espírita convencional.
O médium pigarreou e a modulação de sua voz alterou—se levemente.
— Gostaria de lhes falar hoje sobre a história do médium Zélio Fernandino de Moraes.
A platéia estava num silêncio só. O médium prosseguiu.
— Nos idos de 1908, acometido de doença misteriosa, o médium fora levado à Federação Espírita de Niterói e, durante os trabalhos da sessão espírita, incorporou espíritos que afirmavam ser de índio e escravo. O dirigente da mesa exigiu de todas as maneiras, que eles se retirassem, por acreditar que não passavam de espíritos atrasados ou até mesmo mistificadores.
Mais tarde, naquela mesma noite, um dos espíritos se nomeou como Caboclo das 7 Encruzilhadas. Devido à hostilidade e à forma como essas entidades de luz foram tratadas, porquanto imaginem o preconceito ao negro ou então a um espírito que afirmava ter sido negro, quando encarnado, no início deste século, elas resolveram iniciar uma nova forma de culto, onde qualquer espírito pudesse trabalhar.
No dia seguinte, os espíritos começaram a atender na residência de Zélio a todos os que necessitavam de ajuda, e, posteriormente, fundaram a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade. Essa nova forma de religião, inicialmente chamada de Alabanda, acabou recebendo o nome de Umbanda, religião sem preconceitos, que acolheria a todos que a procurassem: encarnados e desencarnados, em todas as bandas, quer dizer, em todos os lugares.
O espírito terminou sua explanação e agradeceu emocionado. Em seguida, o médium voltou a si, pigarreou e sentou—se. Mafalda tomou a palavra:
— Nosso Centro foi fundado sob os preceitos de Allan Kardec. Seguimos os ensinamentos contidos em seus livros. Entretanto, por que o Brasil sempre foi tido como pátria do Espiritismo?
A platéia meneou a cabeça para os lados.
— Porque neste solo sagrado, existe uma infinidade de espíritos amigos que vêm prestar ajuda e auxílio, não importando se é em um Centro Espírita convencional ou Centro de Umbanda. Aqui em meu centro, recebemos a assistência de falanges de espíritos ligados a várias religiões. Ora, se recebemos ajuda de espíritos que fazem parte da falange de Maria, que são da corrente de Clara e Francisco, ligados ao catolicismo, por que devemos recusar a ajuda de espíritos que se apresentam como preto—velhos, caboclos, ou índios? Por que iremos ser preconceituosos a ponto de impedir que essas entidades evoluídas – ela frisou – e cheias de luz e conhecimento sejam tratadas diferentemente de um espírito que vivera encarnado como padre ou freira? Por quê?
Mafalda suspirou e esboçou leve sorriso.
— Quando você tem dor de dente, vai ao dentista. Quando tem dor de barriga, vai a outro especialista. Quando tem dor de cabeça, vai a outro. Cada médico é especialista numa determinada parte do corpo, num determinado órgão. E, da mesma maneira que funciona a medicina, funcionam as coisas no astral. Se você precisa de um passe restaurador, a fim de manter seu equilíbrio, receberá fluidos da corrente de espíritos ligados a Maria, mãe de Jesus. Se você necessita de, além do passe, um banho de ervas, a fim de higienizar sua aura e arrancar os miasmas negativos que circundam seu corpo energético, precisará que um espírito ligado à mata ou à manipulação de ervas lhe dê a receita certa. Por essa razão, nosso Centro é diferente. Não tocamos atabaques porque não nos familiarizamos somente com os espíritos ligados à Umbanda. Entretanto, nossa casa é espírita, sim, trabalha com equipes de espíritos de luz, não importando a que bando pertença. Desde que trabalhem para o bem da humanidade, todos serão bem—vindos nesta casa.
Mafalda recebeu uma salva de palmas dos presentes.
Ela teve bastante fibra e coragem para admitir que sua casa era aberta para todo e qualquer tipo de espírito de luz, desde que trabalhasse ou mesmo orientasse as pessoas para o bem, para o seu melhor, para evoluir, sempre.
Quando todos se retiraram do Centro, Max, Luísa e Renata foram ter com ela.
— Fiquei impressionado com o discurso, Mafalda. Impressionado. Parabéns.
— Obrigada. Mas eu precisava falar isso para as pessoas. Não podemos criar preconceito dentro do Espiritismo. Isso não se faz. Se Allan Kardec não citou essa gama de espíritos formidáveis em seus livros, é porque não teve tempo para estudá—los e conhecê—los. O Espiritismo, assim como o mundo espiritual, está em crescimento e renovação constantes. Devemos sempre estudar os livros básicos da doutrina espírita. Lá encontraremos sempre material que vai nos ajudar a compreender o mundo espiritual e, acima de tudo, o nosso mundo. Mas cabe a nós percebermos que o mundo espiritual é muito maior, cheio de equipes ligadas às mais variadas correntes. Como acontece na Terra. Procuramos manter a paz e harmonia entre brancos, negros, orientais, árabes, muçulmanos, palestinos, judeus, católicos e evangélicos. O nosso país sempre teve a característica de acolher todo e qualquer imigrante. As religiões aqui se respeitam. Não seria diferente com os espíritos.
— Concordo com você, Mafalda – tornou Renata. – Se orássemos e pedíssemos aos espíritos do bem que limpassem a casa de Max, isso seria impossível.
Mafalda sorriu.
— Isso mesmo! A casa de Max estava tão impregnada de energias astrais de baixa vibração, que orações não seriam suficientes para dissipá—las do ambiente. Necessitávamos também de defumação, porquanto o poder higienizador das ervas, extraído da queima delas, é que pôde, efetivamente, limpar o ambiente daquelas energias nocivas.
— Isso prova que devemos ter a mente aberta e o coração também. Creio que não podemos, em hipótese alguma, tratar nossos amigos espirituais de acordo com a hierarquia da Terra – ponderou Maximiliano.
— Você está certo, Max – concordou Mafalda. – Eu passei por uma situação muito parecida a do médium Zélio, fundador da Umbanda, anos atrás.
— É mesmo? – perguntou Luísa, interessada. – E o que aconteceu?
— Eu fazia parte de um grupo de doutrinação num Centro Espírita kardecista, há muitos anos. Num determinado momento da sessão, por meio da vidência, vi o espírito de um preto—velho aproximar—se, com sua candura, e pedir para que ajudássemos outro espírito que ele havia resgatado no Umbral, depois de um longo período de negociações com entidades que o mantinham preso. O dirigente de nosso trabalho, não só insultou o espírito amigo, como pediu que ele se retirasse da casa. Mentalmente, conversei com o preto—velho e prestei o auxílio necessário ao outro, que precisava ser doutrinado e encaminhado, posteriormente, a um Posto de Socorro no astral. Depois deste incidente, passei a estudar com profundidade as obras de Kardec e algumas publicações de religiões africanas. Atualmente, procuro, aqui em meu Centro, dar passagem a todo e qualquer espírito, desde que seja para fazer o bem.
— Não teme ser julgada por espíritas ou mesmo umbandistas ortodoxos?
— Não, Renata. Eu tenho a minha consciência tranqüila e sei que estou amparada por espíritos de luz. Afinal, fazemos parte do mesmo Universo, somos governados por um mesmo Deus. Isso é o que importa.
Continuaram a conversa. Na saída, Max foi buscar o carro e elas aguardaram no portão. Mafalda foi cumprimentada por uma senhora que ficara encantada com a casa espírita.
Devo dizer que adorei o lugar e gostaria muito de freqüentá—lo, amiúde.
— Seja bem vinda.
Ela estendeu a mão.
— Prazer, meu nome é Rosalina.
— Prazer, chamo—me Mafalda.
— Eu sei. Foi uma amiga que me indicou o seu Centro. Vim para tomar um passe e confesso que me senti muito bem.
— Que bom. Venha quantas vezes quiser. Aliás, você não veio aqui por acaso.
— Não?
— Não. Você foi enviada aqui pela sua filha Norma.
Rosalina levou a mão à boca, estupefata.
— Minha... Minha filha?
— Sim. Ela esteve presente na sessão de hoje. É espírito lúcido e zela muito por você e seu filho. Eu sabia que iria encontrá—la em breve, porquanto Norma me pediu que eu intercedesse e pedisse a você que trouxesse seu filho para cá. Ele necessita fazer um tratamento espiritual e aprender a lidar com sua sensibilidade.
Rosalina não tinha palavras. Estava profundamente emocionada. Renata e Luísa também se emocionaram e cumprimentaram—na. Iriam entabular conversação, mas Maximiliano apareceu com o carro próximo à calçada, buzinando.
— Vamos meninas, senão hoje não voltaremos para casa. Muita mulher junto dá muita conversa.
Todos riram. Mafalda despediu—se deles. Rosalina fez o mesmo, mas como a sessão acabara tarde, Maximiliano lhe ofereceu carona.
— Eu moro não muito longe daqui. Vou pegar o ônibus e.
Max não a deixou terminar de falar.
— Não senhora. Suba no carro, é uma ordem.
Rosalina aceitou de bom grado. Fazia pouco que chegara a São Paulo e ainda se perdia com os ônibus. Embora soubesse o ponto e o ônibus que deveria tomar para regressar à pensão, preferiu ir ao carro com eles. Simpatizou com os três.
Max parou no meio—fio. Rosalina saltou do carro e despediu—se. Luísa saltou também para passar para o banco da frente.
Nesse momento, Caio apareceu na porta da pensão. Os olhos dos dois se encontraram. E, efetivamente, ambos sentiram um friozinho na barriga.
— Você aqui? – perguntou ele, de maneira surpresa.
— Vim dar carona a esta senhora.
— Minha mãe, por sinal.
Luísa sorriu surpresa.
— Rosalina é sua mãe?
Rosalina respondeu:
— Pelo menos é o que consta na certidão de nascimento.
Os três riram. Maximiliano e Renata cumprimentaram o jovem de dentro do carro. Caio abaixou e acenou.
— Queria encontrá—la, mas fiquei com receio.
— Eu passei por tanta coisa. Depois eu lhe conto.
— Podemos nos ver?
— Sim. Você mora aqui?
— Moro.
— Amanhã eu dou uma passadinha aqui. Pode ser na hora do almoço?
— Pode sim.
Despediram—se. Rosalina e Caio entraram na pensão e Luísa sentou—se no banco da frente do carro. Max deu partida e, logo adiante, assim que o carro dobrou a esquina, Renata deu uma cutucada na amiga.
— Conhece esse bonitão de onde?
— Conheci há algum tempo, na porta do banco.
— Sei...
Luísa virou o corpo para trás.
— É verdade. Conhecemo—nos de maneira engraçada até. Demos um esbarrão um no outro e fui ao chão. Ele foi educado, fomos a uma lanchonete, tomamos um refresco e depois...
— Depois? – perguntou Max, interessado.
— Depois nada, oras. Dei meu telefone a ele.
— Ele ligou? – indagou Renata.
— Não. Creio que ficou triste ao saber que eu era casada.
— Esse rapaz é correto e bom, além de possuir rara beleza. Faz o quê? – inquiriu Max.
— Ele me disse que é modelo.
— Pelo menos tem rosto para isso. É muito bonito.
— Também achei – ajuntou Renata. – Será que Luísa vai desencalhar?
— O que é isso? Eu mal me separei do Genaro.
— Questão de tempo, somente. Logo você será livre e poderá amar de novo.
— Não sei se quero isso para minha vida.
— O quê? Vai me dizer que não quer mais saber de um amor na sua vida? Você só tem vinte e quatro anos de idade! – exclamou Renata.
— Entretanto, tenho outros planos. Quero arrumar emprego, separar—me. Depois pensarei nisso.
— Acho que vai ter de pensar nisso antes do tempo – revidou Max.
— Eu também acho. Você não virá aqui amanhã?
— Sim, mas...
— Nada de, mas. Seus olhos a incriminam. Você está gostando desse moço.
— Não dá para negar – disse Max.
— Será? – Luísa voltou o rosto para frente do carro. Ela havia achado Caio um tipo bem interessante. Talvez tivessem a mesma idade ou até fosse mais novo que ela. Bom, isso não importava. Mas ele não ligara também.
— Vou admitir que ele mexe com qualquer mulher – disse ela entre risos.
— Você virá conversar com ele amanhã? – inquiriu Max.
— Sim. Espero.
— Acho que desse mato vai sair coelho.
— Por que me diz isso?
— Intuição, minha amiga. Intuição.


CAPÍTULO 17


No dia seguinte, Luísa acordou bem—disposta. Tomou uma chuveirada, escolheu um vestido de alças azul—claro – o calor estava insuportável –, maquiou—se levemente, passou batom e aspergiu delicioso perfume sobre o corpo. Estava encantadora.
Apanhou sua bolsa e desceu as escadas sorridente e feliz. Chegou até a cozinha e sentiu o cheiro gostoso do café.
— Hum! Fez café para mim?
— Fiz – respondeu Eunice. – Do jeito que você gosta.
Luísa estalou nela um beijo na bochecha.
— Você é tudo para mim, Eunice.
— E você é meu tesouro, minha linda. Por favor, sente—se. Vou servir o café.
— Está tarde. Eu tenho um almoço e...
— Um cafezinho com leite e uma torrada. Só isso. Você está muito magra.
— Estou com o corpo ótimo.
— Precisa ficar mais forte.
— Preocupação boba, a sua.
— A Neuza ligou hoje cedo.
— O que minha mãe queria?
— Estava fula da vida. Disse que não quer mais ver você na frente, nem pintada de ouro.
— Minha mãe disse isso?
— Disse sim.
— Bom, depois de nosso último encontro, tive certeza de que nunca mais iríamos nos falar.
— Entendo.
— Ela me bateu em defesa de meus irmãos. Não gosta de mim.
— Mas você deve esquecer. Perdoar e esquecer. Não carregue mágoas em seu coraçãozinho. Isso não faz bem para sua alma.
— Você tem razão. Quando vou ao Centro, sempre coloco o nome dela e de meus irmãos na caixinha de orações.
— Continue assim. Não se ligue à sua mãe ou aos seus irmãos pelos laços da discórdia.
— Assim pretendo. Em todo o caso – Luísa mordeu uma torrada com manteiga e, em seguida, sorveu um pouco de café com leite – o que minha mãe queria tão cedo? E tão nervosa?
Ela disse que você arruinou a vida dela.
— Por que motivo?
— O Genaro cortou—lhes a mesada. Ela disse que o Paulo está trabalhando numa fazenda lá perto e que vai ter de parar de estudar. E que Otávio está deprimido. Que tudo é culpa sua.
— A culpa que minha mãe tenta jogar em mim não cola mais. Meus irmãos são adultos, saudáveis, inteligentes. Podem arrumar emprego e dar outro rumo às suas vidas. E mamãe também é jovem. Mal completou quarenta e três anos. Eu não estou à cata de um? Ela que também vá à procura de trabalho.
— Concordo com você, mas Neuza estava muito brava.
Luísa riu.
— Isso quer dizer que Genaro está me pressionando.
Imagine quando eu contratar um advogado e lhe pedir a separação? Que Deus me dê forças.
Foi só falar no nome do capeta, ele apareceu. Genaro abriu a porta de casa de maneira escancarada e bruta, como de costume. Luísa levou a mão ao peito. Seu coração disparou.
— É ele Eunice. Ele voltou.
— Calma, minha filha. Muita calma. Vamos orar.
— Não dá tempo...
Luísa estava muito nervosa. Mal conseguia concatenar os pensamentos. Genaro entrou na cozinha e a encarou com desdém.
— Olá. Vim dar uma passadinha para saber como andam as coisas.
— Olá – disse Luísa, de forma lacônica. – O que veio fazer aqui?
— Nada especial. Tinha uns contratos para assinar, uns amigos da Câmara dos Vereadores para conversar. Volto logo mais a Brasília.
— Como anda a vida por lá?
— Muito boa!
— Tenho visto seu nome nos jornais.
— Estou fazendo amigos e conquistando a simpatia do povo. Você sabe o quanto sou carismático.
Luísa segurou o riso.
— O que foi? Não acha que sou carismático?
— Você tem poder persuasivo, Genaro. Mas de que adianta enganar as pessoas?
— Porque elas merecem ser enganadas. Só isso. Eu sou esperto. Estou acima do bem e do mal.
— Está se sentindo muito dono de si.
— Eu não me sinto, eu sou dono de mim – ele corrigiu.
— Estou atrasada. Volto mais tarde. Ah – ela aproximou—se do ouvido de Genaro –, espere—me para conversarmos.
— O que é que temos para conversar? Não pode ser agora?
Luísa consultou o relógio. Ainda tinha tempo de sobra.
Sentiu—se temerosa, mas tinha de enfrentar o marido. Talvez, depois da conversa, ele a mandaria sair de casa. Renata já sabia desta possibilidade e avisara Malaquias, o porteiro, de que Luísa e Eunice poderiam aparecer a qualquer momento. Ela estava pronta para tudo.
— Está bem. Vamos ao escritório.
— Não. Prefiro conversar lá em cima.
— Lá em cima?
— Sim.
Luísa olhou de esguelha para Eunice. Ela assentiu com a cabeça. Luísa saiu da cozinha e subiu para o quarto. Genaro foi logo atrás. Ele fechou a porta, sentou—se na beirada da cama. Ela sentou—se na banqueta da penteadeira.
— Pois bem – disse ele –, o que quer conversar?
— Precisamos falar de nosso futuro.
— Nosso futuro?
— É Genaro. Você mal pára em casa e.
— Você não quis ir comigo para Brasília. Aliás, temos de resolver essa situação. As pessoas me cobram a presença de minha esposa. Você vai ter de começar a freqüentar algumas festas comigo.
— Não tenciono ir a Brasília.
— Mulher de político tem de ir a Brasília. Ninguém mandou casar—se comigo.
— Pois é sobre isso que quero conversar.
— O que é?
— Bom, Genaro, acho que nosso casamento chegou ao fim.
— Você acha?
Luísa estranhou a maneira como ele falava. A voz estava pastosa, os olhos esbugalhados. Genaro parecia estar drogado. Só podia ser isso. Ele jamais se comportaria de maneira tão tranqüila.
— Vou procurar um advogado. Chegamos ao fim do ano e quero começar o próximo dentro de nova perspectiva de vida.
Genaro balançou a cabeça para cima e para baixo.
Você faça o que achar melhor.
— Só isso? – ela espantou—se.
— Só.
Genaro falou, levantou—se e foi para a porta. Passou a chave pelo trinco, tirou—a e meteu no bolso. Voltou—se para Luísa.
— Agora vamos conversar no meu tom.
— Como assim? – ela assustou—se de verdade. O rosto de Genaro parecia estar transfigurado. O sorriso cínico no canto dos lábios denotava que ele iria aprontar alguma. – O que vai fazer?
Ele não respondeu. Tirou o cinto da calça e o levantou. Virou a parte da fivela em direção a Luísa. Ela mal teve tempo de se defender. Os golpes foram em todo o corpo. A fúria de Genaro era demoníaca. Dessa vez ele foi longe demais.
— Cadela! – vociferava ele. – Pensa que pode comigo? Pensa que pode se separar de mim? Nunca. Ouviu? Nunca!
Luísa mal podê gritar. A dor era tanta que ela tentou, em vez de gritar, correr para a porta. Estava trancada. Ela fechou os olhos e pensou no Centro Espírita. Mais nada.
Genaro bateu e bateu. Depois, quando ela estava desacordada, ele baixou suas calças, arrancou—lhe o vestido e ainda a possuiu. Luísa não sentiu nada. Ajudada pelos espíritos, ela desmaiou e seu perispírito fora afastado do corpo físico.
Quando Genaro terminou o ato, ouviu o barulho de sirene lá embaixo. Chegou perto da janela e avistou uma viatura e alguns policiais que saltaram do veículo e entraram correndo em sua casa.
— Meu Deus! – exclamou ele. – Estou perdido.


****

Caio também acordara bem—disposto naquele dia. Dormira e sonhara com Luísa. Pareciam discutir. No sonho, ambos usavam roupas antigas – ele recordava vagamente deste detalhe – e ele pedia seu perdão. Ela chorava e lhe dizia não.
Ele despertou ainda com as imagens nítidas na mente.
— Que estranho! – disse para si mesmo, ao levantar—se da cama.
Lembrou—se de que logo mais ela viria ao seu encontro. Iria lhe falar do sonho estranho. Caio tomou um banho demorado e, em seguida, vestiu—se com apuro. Colocou uma camisa pólo, uma calça jeans e mocassim. Perfumou—se. Desceu para o desjejum. Entrou na cozinha e cumprimentou sua mãe.
— Bom dia, mãe.
— Bom dia, filho. Hoje é o dia que vai devolver o dinheiro?
— Vou ligar para o Gregório. Preciso saber se ele pode me atender hoje.
— É bom resolver logo essa pendência.
— Vou resolver, mãe. Depois vou atrás de uma agência de modelos. Quem sabe eu arrumo alguma coisa?
— Faça isso – ponderou Rosalina. – No entanto, o mais importante é livrar—se desse homem. Ele não é bom.
Caio sentou—se na mesa e serviu—se de café e leite. Pegou um pedaço de pão e, enquanto passava manteiga, tornou:
— Luísa vem para cá logo mais.
Rosalina abriu largo sorriso.
— É uma moça encantadora. Conheci—a ontem, no Centro Espírita. Gostei dela.
— Eu também.
— Você a conhece de onde?
— Encontramo—nos por acaso. Faz uns meses. Mas o corre—corre do dia—a—dia não permitiu que nos encontrássemos novamente.
— Vocês formam um lindo par.
Caio rebateu.
— Ora, mãe, Luísa é casada. Por mais que eu tenha sentido uma forte atração, não posso me declarar.
Rosalina fechou o cenho.
— Ela é casada?
— Sim.
— Que pena. Assim que os vi, senti que nasceram um para o outro.
Caio riu.
— Não delire, mãe.
— Mas é verdade. Eu senti isso. Aprendi a dar muito valor à minha intuição e ela me diz que há uma boa chance de vocês se entenderem.
— E de que adiantaria isso? Não tenho estudo nem profissão definida. O que poderia oferecer a ela? Nada.
— Pois trate de arrumar algo para oferecer a ela. Vá atrás de uma agência de modelos ou de empregos. Não importa. Depois, como não precisamos pagar aluguel, economizamos e você volta a estudar. Tudo tem jeito na vida, meu filho.
— Sei disso. Vou pensar no caso. Entretanto, deixe—me primeiro conversar com Luísa. Como ela é casada, creio que seremos bons amigos, a principio.
Rosalina nada disse. Voltou aos seus afazeres. Caio terminou seu café, estalou um beijo na face da mãe e foi para o jardim. Faltava pouco para o horário combinado.
O tempo passou. Minutos, mais minutos, até completar uma hora. Depois outra e depois mais outra hora. Passava das três quando Caio desistiu de esperar. Sentiu—se verdadeiramente desapontado. Estava com vontade de conversar com Luísa, falar de seus planos, de sua vida, contar inclusive sobre o sonho que tivera na noite anterior. Pelo jeito – pensou ele – Luísa havia pensado bem e, por ser casada, preferiu não ir ao seu encontro. Uma pena. Ele sentiu uma dor no peito sem igual.
Triste por não revê—la, o coração apertado e a mente confusa, Caio foi tratar de resolver suas pendências com Gregório. Ligou para a Cia. De Perfumes e foi informado de que Gregório estava viajando e voltaria somente após os festejos de Ano—Novo.
— O que fazer? – perguntou para si mesmo. – Melhor esperar. Deixarei o dinheiro aplicado no banco e, assim que Gregório voltar de viagem, devolverei tudo.



CAPÍTULO 18


O barulho ensurdecedor da sirene causou pânico em Genaro. Ele mal teve tempo de concatenar suas idéias. Antes que pudesse destrancar a porta do quarto, um grupo de policiais armados invadiu o cômodo. Genaro acuou—se num canto.
Max foi um dos primeiros que entrou e viu o corpo de Luísa desfalecido no chão, ao pé da cama.
— Chamem uma ambulância. Temos uma mulher gravemente ferida – falou a um dos policiais.
Renata entrou logo atrás. Ao ver o corpo da amiga caído e ferido, correu ao seu encontro.
— Minha amiga, por favor, não desista! Estamos aqui. As pessoas que a amam estão aqui. Vai ficar tudo bem.
Luísa não emitia um som, um movimento. Estava desacordada. A surra de Genaro foi de uma violência inenarrável. Um quadro triste de se ver.
Em seguida, a ambulância chegou e Luísa foi socorrida. Eunice e Renata acompanharam a amiga na ambulância. Maximiliano e um policial tentavam fazer com que Genaro saísse daquele estado catatônico.
— Você está bem? – perguntou o policial.
Nenhuma resposta. Os olhos de Genaro permaneciam fixos no chão.
Ele estava de cócoras e parecia estar alheio a tudo e a todos ao seu redor. Max tentou trazê—lo de volta à realidade. Deu um tapinha em seu ombro.
— Genaro, você pode nos escutar?
Nada. Nenhum movimento. O policial declarou:
— Precisamos levá—lo à delegacia. Teremos de tomar o depoimento dele, da empregada, que nos ligou e, assim que possível, colher o depoimento de Luísa.
— Esse caso vai cair como uma bomba na carreira política de Genaro – sentenciou Max.
— Não creio – ajuntou o policial. – Ele é político bem relacionado e tem muito carisma junto ao seu eleitorado.
— Mas o que ele fez foi um ato insano, desprezível. A violência contra a mulher precisa ser levada ao conhecimento de toda a sociedade. Não podemos mais permitir atos de agressão desse porte.
— Todavia – afirmou o policial –, infelizmente ainda não temos mecanismos legais que possam dar proteção às mulheres que sofrem agressões de seus companheiros. Espero que logo possamos ter leis mais justas e mais duras contra esse tipo de ato.
— As mulheres ficarão contra Genaro.
— Não creio – rebateu o policial. – Depende da maneira como o caso vai parar nos jornais. Haverá a versão de Luísa, mas Genaro poderá criar a sua.
— Isso é desumano!
— Mas o que fazer? Eu adoraria colocar esse cidadão atrás das grades. Todavia, ele é político, deputado conceituado. Não é fácil meter uma figura pública dessas no xadrez. Um político tem imunidade, tem proteção. Tenho certeza de que, assim que Genaro sair desse estado de choque, vai usar de todo seu poder e influência para sair desse escândalo de cabeça erguida e, acredite aplaudido pelo seu eleitorado.
Não deu outra. Na tardinha do mesmo dia, Genaro assinou o seu depoimento e voltou a Brasília. Nem passou pela cadeia.
Prestou seu depoimento, contou o caso a sua maneira – afirmando que Luísa o tirara do sério –, contratou um dos melhores advogados de família do país e, por meio da amizade com jornalistas e outras pessoas influentes da mídia, o caso da agressão a sua mulher não teve repercussão. Quase ninguém ficou sabendo do que ocorrera com Luísa.
Genaro saiu da cadeia e foi direto para sua casa. Fez as malas e, instruído por seu advogado, deixou a casa em direção ao aeroporto. Mudou—se para Brasília. Não tinha mais jeito. Ele deveria dar a separação e, ainda por cima, de maneira consensual.
Antes de deixar a casa, ele explodiu com o advogado.
— Vou ter de dar a casa para Luísa? Nunca!
O advogado procurou ser cordial.
— Genaro, veja só: você agrediu sua esposa e, mesmo que o escândalo não tenha vazado na imprensa, a policia está de olho em você.
— E daí?
— Caso queira uma separação litigiosa, talvez a separação de vocês vá aos jornais e todo mundo vai querer esmiuçar sua vida, vão saber das surras que você dava em Luísa.
— Mas a casa já era minha quando nos casamos. Ela não tem direito.
— Não é questão de direito, mas de perspicácia. Sabe que o povo adora um escândalo, uma fofoca forte. Você quer arranhar sua imagem de uma vez?
— Não quero, de maneira alguma.
— Pois bem – tornou o advogado –, você é benquisto, bem relacionado. Está construindo um bom patrimônio e está nervoso porque vai deixar a casa para Luísa? Pelo que sei, ela mal sabe de suas contas no exterior.
— Ela nem desconfia.
— Então, dê a casa a ela. Vai ganhar a simpatia do eleitorado. E uma pensão.
— Pensão?
— Sim.
— Terei de dar pensão a essa mulher? Já não chega a família de chupins que sustentei até pouco tempo? Isso é loucura! Não vou lhe dar nada.
— Você vai ter de dar. É a lei.
— Luísa não vai se sair bem dessa. Prometo que não vai.
— Genaro, calma. Não queira estragar sua vida por conta disso. Não almeja a Presidência da República?
— É tudo o que quero.
— Instale—se de vez em Brasília. Saia do apartamento largue as festas de arromba, compre uma bela casa no Lago Sul. Comece a se preparar para sua candidatura ao Senado. Deixe o casamento e Luísa para trás.
— Um político separado não é bem—visto pelo eleitorado.
— Então, arrume outra esposa. Case—se de novo tão logo saia o divórcio. Você não é homem feio. Tem fama e poder. Que mulher não gostaria de estar casada com você?
Genaro deu um risinho.
— Pode ser. Vamos embora que estou enjoado desta casa, de Luísa, da cara de piedade da Eunice. Vou deixar essa história para trás.
O advogado assentiu com a cabeça e, ajudando Genaro com as malas, ambos desceram as escadas e pararam diante da porta. Genaro foi até o escritório, abriu o cofre e pegou uma pasta cheia de documentos e um maço de dólares. Colocou tudo numa valise saiu para o jardim. O táxi o esperava. Meteu as malas no porta—malas e, olhando para a casa com ar de repulsa, pensou:
"Você não perde por esperar, Luísa. Ainda vou me vingar de você".
Genaro entrou no carro por uma porta e o advogado por outra. O motorista deu partida. Logo o veículo dobrou uma esquina e sumiu.
A caminho do aeroporto, enquanto eles conversavam seu advogado mal podia imaginar que, sobre a cabeça do político,
Uma grossa e espessa nuvem enegrecida pairava sobre sua cabeça, em virtude dos pensamentos maledicentes que permeavam sua mente.


*****

Rosalina chegou do Centro Espírita e foi ter com o filho. Ele estava conversando com José, quando ela o interpelou:
— Caio, precisamos conversar.
— O que foi, mãe?
— Temos de conversar – ela olhou para José e concluiu –, a sós.
José levantou—se, sorriu para ela e foi para a cozinha.
— O que foi?
Ela devolveu o sorriso a José. Caio percebeu e também riu, mas preferiu dissimular.
— Percebo que vocês se dão muito bem. Você gosta dele, né filho?
— José é o pai que nunca tive mãe. Eu não conheci meu pai.
— Como não? Você tinha dois anos quando ele morreu.
— Eu era muito pequeno, mal me lembro de seu rosto.
— Infelizmente, não tenho uma foto sequer para fazê—lo se lembrar de seu pai.
— Não tem problema. O José está fazendo muito bem esse papel.
— Fico feliz que esteja dando ouvidos aos mais velhos. Como tivemos mais experiências que vocês, às vezes, uma palavrinha pode livrá—los de uma grande encrenca.
— Tem razão. Mas o que queria falar comigo?
— Estou muito triste, meu filho. Fiquei sabendo no Centro Espírita sobre a menina bonita.
— Que menina bonita?
— Luisa.
Caio assustou—se.
— Aconteceu alguma coisa com ela?
— Parece que teve uma briga com o marido e foi internada.
— Internada!?
— Sim, meu filho. Faz alguns dias. Hoje participei de um grupo de médiuns que faz tratamento à distância. Vibramos bastante por ela. Mafalda disse que ela vai se recuperar e que logo vai iniciar nova etapa em sua vida.
Caio não sabia o que dizer. Agora tudo fazia sentido. Luísa ficara de ir ao seu encontro e desaparecera. Fazia quase uma semana. Ele acreditava que Luísa houvera se entendido com o marido, que estava vivendo feliz. E, embora estivesse triste com essa resolução, começara a acreditar, mesmo a contragosto, que nunca mais iriam se ver.
Um brilho de emoção perpassou pelos olhos do rapaz. Ele sorriu para si e perguntou à mãe:
— Onde ela está? Preciso vê—la.
Rosalina deu o endereço do hospital ao filho. Caio subiu, foi ao seu quarto, arrumou—se e saiu feito um foguete.
Celinha o viu sair daquela maneira e comentou com Rosalina:
— O que deu em seu filho?
Rosalina riu.
— Amor, Celinha. Caio corre atrás do amor.
Celinha não entendeu. Foi para o tanque terminar de lavar algumas peças de roupas dos hóspedes.
— Uai! Essa pensão está cheia de doidos, isso sim.

***

Luísa deu entrada no pronto—socorro do hospital, foi medicada e sedada. Ela teve um corte profundo no canto dos lábios e fraturou uma costela. No resto, estava bem. Quer dizer, perto da surra que Genaro lhe deu, até que Luísa se safara dessa. Pelo estado em que chegou ao hospital, parecia que ela não sobreviveria.
Mas Luísa sobreviveu. Fosse pelo carinho extremado de Renata, fosse pela dedicação de Eunice, fosse pela sua própria força interior. Luísa aprendera de forma rude e agressiva que o preço da dependência pode nos custar à própria vida.
Fazia alguns dias que estava internada. Mais um dia e receberia alta. Renata entrou no quarto carregando lindo sorriso no semblante.
— Bom dia, amiga. Como vai?
— Bem.
— Está com a cara bem melhor.
— Tenho melhorado bastante e confesso estar pronta para mudar completamente minha vida.
— Pois vai mudar mesmo. Seu marido mudou—se em definitivo para Brasília.
— Genaro partiu?
— Sim.
— Assim, sem mais nem menos?
— E o que você queria que ele fizesse? Depois do ocorrido, após ter abafado o caso na imprensa, ele teve medo e o advogado dele quer conversar com você.
— O que será?
— Genaro vai lhe dar a separação. Sem litígio.
— Você está brincando!
— Não estou não, minha amiga. Depois da covardia com a qual ele lhe atacou, não tem escapatória. Ele preza muito sua imagem de bom político e convenceu—se de que o casamento de vocês foi por água abaixo.
— Fico tão feliz! – exultou Luísa. – É a primeira noticia boa que recebo em muito tempo.
— E tem mais.
— Mais?
— Ele vai lhe deixar a casa. E vai ter de lhe dar uma pensão. Luísa revirou—se e ajeitou o corpo na cama, com delicadeza. Seu corpo doía bastante quando se mexia.
— Não quero pensão do Genaro. Na verdade, não quero nada.
— Deixe de ser orgulhosa. Você precisa se reerguer refazer sua vida. Ficou anos ao lado de Genaro como esposa dedicada e fiel. Agora chegou o momento de ser restituída.
— Mas não gostaria de manter vínculo algum com ele.
— Faça mudanças. A principio, fique na casa.
— Aquela casa me traz lembranças muito tristes.
— Venda—a. Compre outra, em outro bairro.
— Pode ser...
Renata teve um flash.
— Por que não compra um apartamento lá no meu prédio? Poderemos nos tornar vizinhas, ficar próximas e fazer companhia uma a outra.
— Não deixa de ser má idéia.
— Com o dinheiro da pensão, você vai providenciando uma poupança.
— E poderei ajudar minha mãe.
— Claro! E não se esqueça de retomar os estudos, procurar um emprego. Quando estiver bem e sentindo—se auto—suficiente, corte a pensão. Mas use a cabeça, Luísa.
— Não sei ao certo.
— De nada adianta ser orgulhosa. Você não tem condições para isso.
— Assim você me ofende.
— De modo algum. Sou sua amiga. Só falo a verdade. Você sempre se sentiu muito insegura. Desde os tempos de colégio era assim, lembra—se? Nas gincanas, ficava indecisa em qual time participar. Quer que eu repita a indecisão em comprar os doces no recreio?
Luísa riu.
— Não precisa. Você gosta de me provocar com essas histórias.
Renata sorriu.
— A indecisão faz parte de sua natureza, mas creio que é chegado o momento de rever essa sua postura de insegurança.
Está na hora de abrir os olhos e ter a coragem de olhar para dentro de si mesmo, promover mudanças, rever conceitos.
— É fácil falar. Sofri muito nesta vida. Fui criada como uma princesa e, de repente, papai perdeu tudo. Em seguida, conheci Genaro e minha família me empurrou para o casamento. Nunca tive amor, carinho, atenção. Ele sempre foi bruto comigo, sempre foi egoísta e me tratava como um pano de chão.
— É o que você é.
— Desculpe—me – disse Luísa, aturdida. – Não entendi o que disse.
— Eu falei com todas as letras, que você é um paninho de chão. A gente usa, pisa em cima e joga fora.
— Nunca pensei ser ofendida dessa forma. E ainda se diz minha amiga?
Renata ficou séria. Aproximou—se da cama e sentou—se próxima a Luísa.
— Você nunca se deu valor. Sempre se achou menos, sempre acreditou ser impotente, uma coitadinha largada no mundo. Atraiu um marido como Genaro para reconhecer que tem força. Luísa – ela acariciou os cabelos da amiga, que teimavam em lhe cobrir um dos olhos –, você é tão bonita, tão inteligente. Como pôde ser submissa por tantos anos? Por que aturou Genaro até chegar a essa situação? Se estivesse do seu próprio lado, se desse o devido valor... No primeiro tapa que levou, teria saído de casa e sua vida poderia ter sido outra.
— Mas...
— Nem mais, nem meio mas. Você agüentou o primeiro tapa. Depois veio o primeiro soco. Logo em seguida o início das surras, cada vez piores cada vez mais agressivas. Por quê? Ora, porque a vida iria lhe proteger se você nunca se deu um pingo de consideração?
As lágrimas escorriam sem cessar sobre a face de Luísa.
— Sempre tive medo de ser independente. Nunca acreditei em meu potencial.
— Talvez isso a acompanhe já há algumas vidas. Quem sabe não chegou o momento de um basta, de se livrar dessa postura que só lhe traz dor e sofrimento? O que custa tentar dar um passo à frente, mudar e crescer? Às vezes, estamos a um passo da felicidade e mal notamos.
— Como faço para mudar, Renata? Ajude—me, por favor.
Elas abraçaram—se de maneira comovente. Renata acariciava os cabelos da amiga e passava delicadamente as mãos pelas costas de Luísa.
Henry deixou que uma lágrima escapasse pelo canto de seu olho. O espírito estava deveras emocionado. Carlota tocou em seu braço, chamando—o à realidade.
— Luísa está pronta para mudar e crescer.
— Eu sinto tanto por ela! Se eu estivesse encarnado, poderia ajudá—la.
— Tenha calma, Henry. Você foi um bom filho no passado e será agora no futuro. Eu confio em você e acredito que vai fazer Luísa muito feliz. Você tem aprendido muito aqui no astral sobre o valor da família. Aproxima—se o momento de Luísa recebê—lo como filho. Creio que agora terão uma relação permeada pelo carinho, respeito e unidos, sim, pelos verdadeiros laços do amor.
— Eu tenho certeza de que farei Luísa e Caio muito felizes. Formaremos uma linda família.
— Tudo tem seu tempo. Entretanto, ainda teremos de esperar pelo desenrolar dos acontecimentos. Sabemos que Luísa e Caio mudaram bastante o jeito de ser. Seus espíritos desejam imensamente mudar para melhor. Todavia, Guido, Genaro e Gregório ainda se sentem traídos, estão presos às reminiscências do passado. Talvez não seja dessa vez que vão se libertar das mágoas.
— Quer dizer que Luísa e Caio não vão se libertar do ódio deles? Terão de estar eternamente presos a esses espíritos?
— De forma alguma – ponderou Carlota. – Luísa e Caio estão caminhando para mudanças positivas.
Querem se libertar dos erros do passado e estão reformulando suas atitudes. Ponto positivo para seus espíritos. Saiba que, ao passo que vão se libertando das amarras do passado e caminhando em direção à evolução, ambos vão deixando para trás quem não se sintonizar na mesma faixa vibratória deles.
— Como assim?
— Luísa e Caio anseiam por uma vida melhor. Querem melhorar. Genaro e Gregório, por exemplo, não querem saber de crescer, porquanto estão presos ainda ao passado. Se eles não mudarem, não haverá mais como mantê—los ligados a Luísa e Caio. Estarão, digamos assim, vibrando numa outra sintonia.
— Quer dizer que, ao mudarem as atitudes, Caio e Luísa estarão mudando seu padrão energético?
— Sim, Henry. E as nossas ligações na Terra se dão por atração energética. Quanto mais Caio e Luísa promoverem as mudanças necessárias em suas crenças e atitudes, enxergando o mundo de maneira mais lúcida, libertando—se das ilusões, mais vão se afastando da companhia de Genaro e Gregório. Ou mesmo da influência negativa de Guido.
— Interessante. Bom, creio que estou muito feliz em poder encontrar Luísa nesse estado de mudança positiva.
— E agora, o que vai fazer?
— Fiquei de visitar Loreta. Ela vai receber alta da estação de tratamento e vai para a mesma cidade espiritual que resido.
— Loreta tem progredido bastante. Vai já ao seu encontro?
— Sim.
Henry assentiu com a cabeça e aproximou—se do leito de Luísa. Estalou delicado beijo em sua fronte.
— Cuide—se mãezinha. Você precisa ficar boa para me receber como filho.
Os dois espíritos alçaram vôo, enquanto Renata e Luísa permaneceram abraçadas, em silêncio, dando—se forças para que a vida as ajudasse a continuarem firmes no propósito do crescimento de seus espíritos.




CAPÍTULO 19


Meia hora depois, Caio saltou do ônibus e, ao descer uma quadra, alcançou o hospital. Deu o nome de Luísa na recepção.
— Quarto 602. Favor preencher essa ficha de visita.
O rapaz preencheu a ficha, pegou o crachá. Ao lado da recepção ele avistou uma pequena banca de flores. Comprou um vasinho de violetas.
Tomou o elevador e, ao chegar ao andar indicado, foi caminhando pelo corredor e procurando pelo número 602. Bateu levemente na porta entreaberta. Uma voz ordenou:
— Entre.
Caio empurrou a porta e entrou. Quando seus olhos e os de Luísa se encontraram, ambos sentiram um choquinho, uma espécie de brando calor que lhes invadiu o peito.
— Fiquei sabendo a pouco do ocorrido. Teria vindo antes, se soubesse.
Luísa abriu largo sorriso.
— Seja bem—vindo.
Ele aproximou—se de sua cama e cumprimentou Renata.
— Olá.
Ela devolveu com o mesmo cumprimento e tornou, de maneira engraçada:
— Creio que estou sobrando aqui no quarto. Vou embora. O horário de meu almoço está chegando ao fim e necessito voltar ao trabalho.
Ela beijou Luísa no rosto.
— Ligue—me se precisar. Amanhã virei buscá—la, após a alta.
— Não será necessário.
— Como não?
— Eu tomo um táxi e, ademais, não quero que falte ao trabalho por minha causa.
— De maneira alguma. Eu conversei com meu chefe e está tudo acertado. Uma das enfermeiras me informou que logo cedo o médico lhe dará alta. Estarei aqui para levá—la. Será um grande prazer.
— Obrigada, minha amiga.
— Hoje à tarde irei ao distrito policial. O delegado vai tomar meu depoimento. Precisamos terminar logo com essa burocracia toda.
Renata despediu—se de Caio com um aceno. Ao sair do quarto, encostou a porta.
— O que aconteceu? – perguntou o rapaz, aturdido. – Você está bastante machucada.
— Tive uma briga feia com meu marido.
— Briga feia? Parece—me que ele bateu muito em você.
— Bateu para valer!
— Que covardia! Se eu o visse na minha frente, juro que lhe daria uma boa surra.
— Não será necessário. Não quero mais confusão. Renata indicou—me um advogado conhecido, muito bom, e não falarei mais com meu marido, quer dizer, ex—marido. Entrei com os papeis para a separação.
Caio sentiu o coração tremer. A boca ficou sem saliva e ele pigarreou, tentando disfarçar a emoção que o dominava.
— Vai mesmo se separar?
— Sim. Não posso mais viver um casamento que há muito está acabado. Faltava somente formalizar a separação.
— E o que vai fazer de sua vida?
— Recomeçar. Vou vender a casa, talvez comprar um apartamento no mesmo prédio da Renata. Pretendo voltar a estudar e me graduar. Quero ser independente, trabalhar, ganhar meu próprio sustento. Não quero mais depender de ninguém. Olhe só para mim. Este é o resultado de tanta submissão e dependência.
— Você é uma mulher forte.
— Vou estudar Direito. Pretendo prestar assistência às mulheres que sofrem violência doméstica. Assim como eu.
— Eu a admiro muito.
Ela sorriu. Caio queria lhe falar tanta coisa, mas vendo—a tão machucada, preferiu esperar por outra oportunidade. Pelo menos ela estava desimpedida. Isso já o alegrava bastante.
Luísa o arrancou de seus pensamentos.
— Como anda sua carreira de modelo?
Caio fechou o cenho.
— Não tem mais carreira.
— Por quê?
— Porque não sinto confiança no homem que quer me contratar. Conversei com minha mãe a respeito e chegamos à conclusão de que não vale a pena. Vou devolver o dinheiro do adiantamento e procurar uma agência de modelos.
— Bom para você. Mas vai viver de quê até que alguma agência se interesse por esse rosto tão bonito?
Caio enrubesceu. Abaixou a cabeça, envergonhado.
— Pretendo arrumar trabalho. Vou a uma agência de empregos procurar alguma coisa.
— Não pensa em estudar?
— Sim, mas não agora. Eu sonhei tanto com a carreira de modelo, Luísa! Preciso apostar todas as minhas fichas. Se amanhã eu perceber que esse não é o meu negócio, paciência, eu vou procurar estudar algo que me interesse que me dê futuro. Cansei de dar murro em ponta de faca. Quero ser feliz.
— Eu também. A felicidade é uma conquista interior. Estou revendo conceitos e posturas que me impedem de ser feliz. Creio que esteja a um passo da felicidade.
— Pois muito me agrada vê—la assim, cheia de ânimo e disposição, depois de tudo o que lhe aconteceu.
— Renata e eu conversávamos sobre minha vida até há pouco. Ela fez com que eu enxergasse que meu marido, perdão, ex—marido, não é o culpado de eu estar aqui nesse estado. Eu contribuí para estar aqui, de certa forma.
— O que diz é insano.
— Não é não.
— Como ele não tem culpa? E o mal que lhe fez?
— Ele não me causou mais mal do que eu estava causando a mim mesma. Caio – a voz de Luísa estava embargada –, eu permiti que as coisas chegassem a esse ponto por responsabilidade minha. Como Renata bem disse se no primeiro tapa eu tivesse revidado ou mesmo sido mais firme e enérgica, talvez o rumo dos acontecimentos fosse alterado.
— Fala de maneira como se não fosse vítima daquele infeliz. Você foi uma, oras!
— Não. Não fui. Não existem vítimas no mundo, Caio. Eu já havia aprendido sobre esse assunto numa palestra lá no Centro Espírita.
— Mamãe já me falou algo a respeito. Contudo, eu tenho um pé atrás em relação a essa crença no mundo invisível.
— Por quê?
— Ora, porque eu não vejo nada, não consigo acreditar em algo que eu não vejo.
— E quanto a sentir?
— Sentir?
—É. Nunca sentiu um arrepio, sem mais nem menos? Nunca se percebeu sendo vigiado, como se alguém estivesse ao seu lado, quando na verdade você estava sozinho?
— Isso já me aconteceu, sim. Mas não tem nada a ver com Espiritismo.
— Claro que tem. Como pode acreditar que vivemos sozinhos? Estamos rodeados de amigos espirituais, sejam eles bons ou não. É como o mundo em que vivemos. Existem pessoas boas e más. E nós nos juntamos a elas por sintonia, por vibração. O mesmo se dá com os espíritos.
— Será? Você parece ser tão inteligente.
— Obrigada.
— Mas freqüenta um Centro Espírita.
— Está sendo preconceituoso.
— Não é isso – tornou Caio, sem jeito.
— E sua mãe?
— O que tem ela?
— Crê que seja ignorante?
— De forma alguma! Eu fico confuso. Outro dia ela me trouxe uma carta psicografada pela minha irmã.
— E?
— Fiquei em dúvida.
— Havia algo na carta que despertou sua atenção?
— Sim. Falava de meu pai e de minha avó. Até o nome deles estava escrito lá. Eles morreram há muitos anos...
— Aí está uma prova incontestável.
Caio coçou a cabeça.
— Tenho medo, talvez. É difícil acreditar nisso. A ciência diz que os espíritos não existem e os intelectuais, em geral, tripudiam sobre o assunto.
— Trata—se do mecanismo de defesa dessas pessoas que não querem enxergar as verdades da vida. A reencarnação já foi comprovada. Existem livros sérios acerca do assunto, inclusive de cientistas de renome.
— É mesmo?
— Sim. Façamos o seguinte, um dia você me acompanha no Centro Espírita. Depois de assistir a uma palestra, e tomar um passe, você me diz o que achou de tudo. Assim terá como argumentar.
— Eu topo.
— Tão logo eu me recupere iremos juntos ao Centro. Para você ter uma idéia – ela se ajeitou na cama –, um amigo meu, Maximiliano, regressou de Londres cheio de histórias fascinantes sobre a existência da reencarnação. Lá na Europa o tema é estudado com afinco por muitos profissionais.
Caio não podia acreditar no nome que ouviu. Luísa conhecia Max? O famoso Max, amigo de Guido e que ele nunca conhecera? Será que era a mesma pessoa?
— Esse homem mora na Alameda Casa Branca?
— Ele mesmo. Foi ele quem deu carona à sua mãe, do Centro Espírita à pensão naquela noite, recorda—se?
— Vagamente. Ouvi falar dele, até achei que ele não fosse de verdade.
— Por quê?
— Um conhecido meu vivia dizendo que o Max iria voltar de Londres. Mas ele nunca voltava. Ia ficando. Um dia chegou, mas não tive a chance de conhecê—lo.
— Já sabe de quem se trata – tornou Luísa. – Max é um homem fascinante, um amigo fora do comum. Ele e Renata, hoje, são meus melhores amigos.
— Gostaria de fazer parte desse grupo.
— Será um prazer.
Caio queria lhe falar mais. Queria dizer a Luísa que ela era linda, mesmo machucada. Que seu sorriso era encantador e que, nos últimos dias, chegara inclusive a sonhar com ela. Entretanto, não sentiu coragem para falar tudo aquilo. Luísa estava em estado de repouso. Quando ela voltasse para casa, se a amizade continuasse ele talvez tivesse coragem para abrir o coração. E, de mais a mais, de que adiantaria lhe abrir o coração? O que ele tinha a lhe oferecer? Nada. Caio estava sem trabalho, sem estudo, sem dinheiro. Precisaria fazer alguma coisa. Urgente.
Bem que José lhe disse que quem ama cresce. Será que ele estava amando? Será que esse calor no peito, essa vontade de ficar ao lado de Luísa para sempre, esse troço que subia em sua barriga toda vez que sentia seu hálito perfumado era amor?
Caio nunca tivera sentimento parecido. Amava sua mãe, mas de outra forma. Não sentia choquinhos quando se aproximava de Rosalina. Com Loreta e Sarita sentira prazer, mas nada de o coração bater descompassado.
A conversa fluiu agradável e alguns minutos depois, quando a enfermeira chegou para lhe aplicar uma injeção, ele resolveu partir. Despediu—se e, quando ela lhe depositou um beijo na face, Caio pensou que iria ao chão, sentindo as pernas trêmulas. Ele se despediu e saiu o mais rápido possível, para que Luísa não percebesse sua emoção.
Pelo menos ele tinha a certeza de que queria e deveria mudar. Iria naquela tarde mesmo a uma agência de empregos. Iria arrumar algum tipo de serviço, mesmo que a remuneração fosse baixa. Precisava mostrar à sua mãe, à Luísa e, acima de tudo, a si mesmo, que tinha valor e podia crescer.
Foi assim que ele tomou o metrô com destino à Praça da Sé. Lá havia uma concentração grande de agências de emprego. Caio tinha certeza de que iria arrumar um.



CAPÍTULO 20


Loreta despertou cedo naquela manhã. Sabia que seria sua despedida naquela estação de tratamento. Iria morar numa colônia espiritual não muito longe da crosta terrestre. Estava feliz.
Uma enfermeira entrou no quarto e a cumprimentou.
— Como vai, Loreta?
— Vou bem. Acordei tão feliz!
— Há muito tempo que eu não a via tão bem. Você ficou meses em sonoterapia e depois custou um pouco para se livrar da depressão pós—morte.
— Já tinha ouvido falar em depressão pós—parto, mas pós—morte? Nunca.
As duas riram. A enfermeira considerou.
— Esse tipo de desânimo atinge a maioria dos desencarnados. Tão logo o espírito se vê livre do corpo físico e retorna ao mundo espiritual, começa o período, para os de mente lúcida, de avaliação da última vida terrena. Por conta de preconceito, medo, insegurança e tantos outros sentimentos negativos, esses espíritos percebem que não cumpriram com o que haviam traçado antes do reencarne.
— Foi como eu me senti. Não consegui cumprir com os objetivos previamente traçados.
Senti—me uma inútil e precisei de muita terapia para entender todo esse processo e aceitar que tudo está certo no mundo.
— Correto, Loreta. Está tudo certo, não há nada errado. Você se propôs a levar sua vida encarnada de um jeito e acabou vivendo de outro. Entretanto, o seu espírito amadureceu, de uma forma ou de outra. Mesmo não tendo conseguido seus intentos, seu espírito lucrou bastante com essa experiência na Terra. Afinal, uma vida nunca é desperdiçada, por pior que ela nos pareça.
— Sei e aprendi a aceitar essa realidade. Sinto—me mais forte para recomeçar e ajudar àqueles que amo.
— Vai se dedicar a ajudar seus filhos no orbe?
— Sim. Genaro e Gregório estão em franco desequilíbrio. Eu não os condeno, não os julgo por suas atitudes, visto que a consciência de ambos será juiz suficientemente duro a condená—los, mais adiante. Eu prefiro ficar na vibração, torcer para que eles aprendam com seus erros. Afinal, não posso mudá—los.
Carlota entrou no quarto. Sorriu para ambas.
— Bom dia.
A enfermeira a cumprimentou. Depois, despediu—se de Loreta e saiu. A sós com Carlota, Loreta declarou:
— Quero melhorar e crescer.
— Está a caminho.
— Fui fraca e deixei—me levar pelo prazer. Perdi—me no emaranhado de sensações que o prazer nos arremessa.
— O prazer faz parte da grandeza do espírito. Tudo o que fazemos de bom para nós e para os outros, enche o espírito de prazer. Mas – Carlota salientou – não confunda prazer com libertinagem, pois aí reside o desrespeito a si próprio e às pessoas ao nosso redor.
— Aprendi minha lição, de maneira árdua, mas aprendi. É por esse motivo que estou determinada a passar um bom tempo aqui no astral. Quero acompanhar a vida de meus filhos, inspirarem—lhes bons pensamentos dentro do possível.
— Ambos precisarão de muita vibração positiva.
— Vou dar o melhor de mim, Carlota.
— Seu ônibus parte em meia hora.
— Ônibus?
Carlota riu.
— Sim. Ônibus. Aqui no astral utilizamos um veículo parecido com um ônibus, que serve para transportar os espíritos para as várias colônias espirituais. Na verdade, o meio de transporte aqui se chama aeróbus.
— Se podemos voltar, por que precisamos de transporte?
— Você não consegue volitar, consegue?
— Tentei, mas ainda tenho muita dificuldade. Quando encarnada, eu tinha pavor de altura.
— Se tinha pavor de altura, como pode querer se transportar entre as dimensões, entre os vários mundos que percorremos? Consegue se imaginar sobrevoando a Terra?
— Acho lindo, mas só de pensar me dá um frio na barriga!
— É por essa e outras razões que temos meios de transporte. Espíritos recém—desencarnados, ainda sem consciência de seu real estado, são transportados nesses veículos. Espíritos doentes também. E, quando temos de atravessar determinadas faixas densas do Umbral, usamos esse meio de transporte.
— Tenho tanto a aprender, Carlota. Assim talvez eu me distancie dos prazeres sexuais. Terei mais tempo para refletir e repensar o uso do sexo.
— Faz bem. A lucidez é nossa grande amiga – ela pousou sua mão na de Loreta. – Use a seu favor, para o seu crescimento.
— É o que farei.
Carlota consultou o relógio.
— Estamos na hora. Vamos.
Loreta pendeu a cabeça para cima e para baixo, concordando. Pegou alguns pertences e saíram. Loreta despediu—se dos enfermeiros e caminhou mais uma vez pelo belo e perfumado jardim que circundava o edifício.
Em seguida, pegou na mão de Carlota e deixou—se conduzir até o ponto em que o aeróbus iria pegá—las.


****

Mais um ano se iniciou...
Luísa separou—se oficialmente de Genaro e, em seguida, vendeu a casa. Comprou um apartamento no mesmo edifício que Renata. No andar imediatamente abaixo da amiga. Eunice foi junto.
Em seguida, retomou os estudos. Ingressou na faculdade de Direito, como almejara. Luísa estava firme no propósito de se graduar e advogar para mulheres vítimas de violência doméstica e sexual.
Ela admirava o trabalho e a competência de Renata. Sua amiga tornara—se executiva bem—sucedida e aquele projeto que vislumbrara para a próxima estação foi escolhido pela direção da empresa, e, com isso, Renata foi promovida à diretora de vendas. Além, é claro, de ganhar excelente remuneração por esse feito.
Maximiliano acompanhou duas exposições de artistas de renome e estava decidido a retornar o mais rápido possível para Londres. Havia recebido uma carta do Dr. Bryan Scott, solicitando que ele voltasse para continuarem seus estudos acerca da reencarnação.
Genaro arrumara nova companheira. Marisa era bem diferente de Luísa. Mulher determinada, forte, falante e ardilosa como Genaro. Colocava—o em seu devido lugar. Por incrível que pareça, Genaro a adorava.
Gregório voltou de viagem, depois de alguns meses fora do país. Com a campanha do perfume Nero pronta, estava à procura de Caio. Fazia dois dias que havia ligado para a pensão e deixado recado.
Caio arrumou emprego naquela mesma semana que fora a uma das agências de emprego da Praça da Sé.
Conseguiu a vaga de vendedor numa butique, num shopping center em região nobre da cidade.
O rosto bonito, sorriso cativante e olhar sedutor abriram as portas para Caio. Logo, ele começou a ter um séqüito de clientes que iam à butique somente para vê—lo. A gerente da loja, aproveitando o potencial de seu mais novo empregado, deu a Caio uma promoção, para que ele pudesse trabalhar em tempo integral e, por conseguinte, aumentar o ganho, pois vivia de comissões. Quer dizer, quanto mais tempo na loja, mais ele faturava. Todos saíam ganhando e, agora, neste ano, ele pretendia retomar os estudos.
Ele e Luísa viam—se de vez em quando. Cada encontro era verdadeiro tormento para Caio. O rapaz não sabia como articular as palavras perdia—se na conversa, tamanha emoção que sentia ao aproximar—se de Luísa. Ela estava mais bonita, mais segura de si. Caio percebera que estava completamente apaixonado, mas não podia declarar—se. Ainda não.
Ele recusou os convites para ir ao Centro Espírita. Mafalda alertara Luísa para não forçar o rapaz. Dizia—lhe de que nada como um dia após o outro. Em breve, ele iria ser chamado a ter contato com o mundo espiritual. Era uma questão de tempo. Não adiantava querer arrastá—lo para o Centro. Ele deveria ir por si próprio, sem ser obrigado a nada.
Caio saiu da loja feliz naquela noite. Havia ultrapassado todas as expectativas de meta estipuladas pela sua gerente. Sua beleza fez com que a loja fechasse o mês com mais vendas do que as costumeiras. Por conta disso, o rapaz recebera grata gratificação.
Ele não cabia em si, tamanha felicidade. Chegou a casa, queria falar com José, mas já era tarde e ele havia se deitado. Rosalina também tinha ido dormir. Ele deu de ombros e foi para a cozinha. Estava com fome e Rosalina sempre deixava um prato feito para ele dentro do forno.
Caio entrou na cozinha, acendeu a luz e foi direto ao forno.
— Te peguei!
Ele deu um pulo e o coração foi quase à boca.
— Que é isso, Celinha? Não gosto quando você me assusta assim.
— Brincadeirinha.
— De mau gosto. E se eu sofresse do coração?
Ela fez uma careta.
— E se desmaiasse? Como é que ficaria?
— Eu faria respiração boca a boca. Com o maior prazer.
— Menina – censurou Caio –, anda impossível, ultimamente. O que foi que te deu?
— Hormônios à flor da pele. Pôxa – tornou ela, fazendo beicinho –, estou com dezoito anos e... Nada.
— Nada o quê, Celinha?
— Nada. Nada de beijo, nada de nada. Sem namorado, sem contato, entende?
Caio riu.
— Entendi. Você está matando cachorro a grito, é isso?
— Estou tão nervosa que estou sem grito para matar um cachorro que seja.
Caio pegou seu prato de comida.
— Quer que eu esquente? – perguntou Celinha, solícita.
— Não. Gosto de comida fria. Sente—se aí comigo – ele disse, apontando para uma cadeira ao seu lado.
— Obrigada.
— Você precisa arrumar um namorado.
— Não, Caio, preciso de outra coisa. Ainda sou virgem. Minhas amigas fazem chacota, como se eu fosse um ser do outro mundo.
— Continue assim, não dê trela para suas amigas.
— Elas não estão certas? Todas já foram para a cama com algum rapaz. Menos eu.
— Não tenho como julgar o próximo, Celinha. Fiz tanta burrada nesta vida que não tenho como atirar uma pedra que seja em alguém.
Mas creio que você deva se manter pura sim, até encontrar um homem que efetivamente desperte em você o mais nobre dos sentimentos. O sexo entre duas pessoas que se amam é a coisa mais linda do mundo.
— Como você sabe? Pelo que sei, nunca amou ninguém.
Caio enrubesceu. Essa menina era danada.
— Nunca amei – ele riu –, mas tenho experiência. Sei que o sexo sem amor é sem graça, e pode, inclusive, deixar marcas doloridas e profundas dentro de nós. Sabe Celinha – ele cortou um pedaço de bife e levou à boca –, eu fui um pervertido, fiz sexo de maneira inconseqüente, com qualquer mulher que aparecesse na minha frente. Achava também que eram os tais hormônios.
— E não eram?
— Pura balela. Eu estava sendo fraco, entregando—me a um tipo de vício. Porque sexo sem amor não passa de vício, como fumar ou beber. Note a diferença.
— Nunca pensei em nada disso. Meus pais têm idade e nunca conversaram comigo sobre sexo. Eu vim para cá há três anos e raramente escrevo ou recebo uma carta deles.
— Se você quiser, podemos conversar a respeito.
— Mas você é homem.
— E daí, qual o preconceito? Faça de conta que eu sou seu irmão mais velho. Você me pergunta e eu tento esclarecer. Se eu não souber a resposta, vou atrás.
— Obrigada, Caio. Sabia que poderia contar com você.
— Pode contar, de verdade.
— Você é um anjo bom na minha vida.
Celinha falou e ele imediatamente lembrou—se de Sarita. Como ela estaria? Onde será que morava? Soube que Eny fechara o bordel e cada uma das meninas seguiu seu rumo. Onde andaria sua amiga, seu anjo bom, que tanto o ajudara no passado? Caio fitou o nada por algum tempo, até que sentiu Celinha cutucar—lhe o braço.
— Onde estava? Na lua?
Ele voltou a si.
— Desculpe—me, mas me lembrei de uma amiga, um anjo bom que tive também.
— Cadê ela?
— Não sei Celinha. Acho que pelo mundo. Sarita é mulher de extrema sensibilidade, deve estar vivendo bem. Um dia a gente vai se encontrar, tenho certeza disso.
Enquanto Caio se refestelava com o arroz, feijão e bife com batatas fritas que sua mãe deixara no forno, Celinha ia enchendo—o de perguntas sobre sexo, desde as mais toscas e banais, básicas, até as mais cabeludas.
Caio enrubescia.
— Sobre isso eu não falo, Celinha. Você está colocando a carroça na frente dos bois. Vamos com calma.
— Desculpe—me, mas tem tanta coisa que eu quero e preciso aprender!
— Você vai experimentar tudo isso. Mas precisa aprender como eu e muita gente, a frear seus impulsos sexuais. Não dê ouvidos às suas amigas. Não fique grudada na televisão ou acredite em tudo o que lê. Você precisa aprender a domar seus sentimentos. Tem de ser dona de si mesma, e para tal, precisa ser dona do que sente. E não o contrário.
— Prometo que vou pensar sobre isso.
Ela deu um beijo na testa de Caio. Ele sorriu.
— Obrigado, irmãzinha.
Celinha se levantou. Antes de sair da cozinha, voltou o rosto para trás.
— Tem três recados de um tal de Gregório para você. Disse que deve ligar a qualquer horário. Insistente esse homem...
Ela falou e saiu. Caio sentiu o sangue gelar. Fazia meses que queria ter um encontro com Gregório. Faltava pouco para completar o que lhe devia. Dentro de mais um mês, com os juros do dinheiro aplicado e as vendas crescendo na loja, poderia, enfim, pagar o valor total daquele adiantamento. Estaria livre de Gregório. Para sempre.
Caio terminou sua refeição. Tomou um copo de refrigerante. Após, mordiscou os lábios.
— Ligou ou não ligo? – perguntou para si mesmo. – Talvez seja melhor ligar. Preciso acabar logo com essa situação.
Decidido, Caio foi até a recepção, discou o número no aparelho. Uma voz melosa atendeu ao telefone. Era Gregório.
— Olá, criança.
— Como vai? – perguntou Caio, sem jeito.
— Estou ótimo. Nada como sair desse país horroroso e ter contato com a verdadeira civilização. Detesto este mundo de tupiniquins.
— Por que fica aqui? Você é tão rico!
— Rico, mas não sou burro – disse Gregório, numa gargalhada afetada. – Em qual país do mundo eu posso sonegar os impostos, fazer caixa dois e não ser preso? Daqui não saio. De jeito algum.
— Se pensa assim...
Caio não sabia como começar. O que diria a Gregório? Que não queria mais participar de campanha publicitária nenhuma? Assim, de maneira seca? Ou era melhor conversarem cara a cara? O que fazer? Caio estava sem ação. Gregório prosseguiu:
— Seu contrato está pronto. Precisa vir buscá—lo, além de assiná—lo, claro. — Amanhã passo em seu escritório.
— Não. Precisa ser hoje. Aqui em casa.
— Hoje? É muito tarde. Passa das onze da noite.
— Precisa ser hoje. Demorei muito com o contrato. Viajei, esbaldei—me e esqueci—me da empresa e da campanha. Agora estou de volta e quero tudo para ontem.
— Eu passo aí amanhã cedinho. O que acha?
— Não.
— Pode ser às sete da manhã, se você quiser.
A fala de Gregório estava visivelmente nervosa.
— Criança, eu disse hoje, entendeu? Hoje – ele gritou.
Caio teve de afastar o fone do ouvido, tamanho o grito estridente.
— Como faço? Onde mora?
— Anote aí – Gregório deu o endereço. – Pegue um táxi. Se não tiver dinheiro, eu pago.
— Pode deixar, eu tenho como pagar.
— Espero você. Em meia hora, no máximo.
— Está certo. Meia hora.
Caio pousou o fone no gancho. Sua fronte suava. Ele não queria mais falar com Gregório, talvez nem mesmo vê—lo. Sentia por ele um asco, uma repulsa que não sabia de onde vinha.
Mas o que fazer? Precisava devolver o dinheiro que o mantinha preso a ele. Era chegado o momento de colocar as cartas sobre a mesa. Iria sair daquela casa sem contrato, sem campanha, sem nada.
Caio nem trocou de roupa. Pegou o dinheiro que julgava ser necessário para a corrida de táxi, o dinheiro que daria a Gregório e o resto guardou numa cômoda ao lado de sua cama. Fez o mínimo de barulho possível para não acordar sua mãe.
O rapaz saiu da pensão e pegou um táxi na esquina da Rua Brigadeiro Luis Antônio. Deu o endereço ao motorista.
— Acha que demora muito?
— Não há trânsito nesta hora. Chegaremos ao bairro do Morumbi em menos de vinte minutos.
Caio fez sinal afirmativo com a cabeça. Recostou a cabeça no banco e, enquanto o motorista percorria o trajeto, ele ia contemplando as ruas, as casas, os prédios. E o pensamento ia longe, muito longe.




CAPÍTULO 21


Renata saiu do trabalho e foi direto ao Centro Espírita. Freqüentava o local com assiduidade, todas as semanas e, além de fazer curso de médiuns, oferecido gratuitamente pela casa, estava ajudando no atendimento da recepção.
Munida de beleza, simpatia e, acima de tudo, carisma, arrancava sempre um sorriso, fosse de quem fosse, mesmo que a pessoa estivesse passando por sérios problemas.
Uma senhora, elegantemente vestida, aproximou—se da recepção e a cumprimentou.
— Boa noite.
— Boa noite. Em que posso ajudá—la?
— Estou com um sério problema de saúde. Fui a vários especialistas e mandaram—me para cá. Esta é a minha última esperança.
— A senhora já havia ido a um Centro Espírita?
— Nunca. Sempre fiz vista grossa em relação ao mundo espiritual. Não acreditei que isso fosse verdade, no entanto... – ela abaixou a cabeça envergonhada.
— No entanto? – Renata a encorajou.
— Eu perdi meu marido há três anos. Oduvaldo foi meu grande amor. Companheiro mesmo.
Vivemos uma linda história, construímos um lar, tivemos dois filhos lindos, hoje formados e com bons empregos. Um casou—se recentemente. O outro resolveu morar sozinho. Diz que sua profissão pode me colocar em risco e prefere ter sua privacidade. É muito independente. Eu fiquei sozinha, mas vivo muito bem. Sinto muita falta de meu marido, e.
A senhora pigarreou e continuou:
— Há três meses surgiu um nódulo no meu seio e eu preocupei—me. Fui ao médico e fiz exames. Enquanto isso passei a sonhar todas as semanas com Oduvaldo. Ele aparece bem—disposto, com lindo sorriso nos lábios e me afirma que eu não tenho nada. Que eu deveria sim, procurar uma casa espírita para aprender sobre o mundo espiritual. Afirma que eu posso me curar se quiser.
— Faz sentido. Você deve ter se encontrado com seu marido fora do corpo físico. É isso.
— Então não delirei?
— Não.
— Sabe – a senhora baixou o tom de voz –, eu tenho um filho que afirma ouvir os espíritos.
— Seu filho é médium?
— É alguma doença?
Renata riu.
— Não, minha senhora. Não é doença. Trata—se de uma sensibilidade que todos nós temos de perceber o mundo invisível. Alguns sentem isso de maneira débil, outros, com a sensibilidade aguçada, conseguem manter conversação com os espíritos.
— Hum – a senhora mordiscou o lábio. – Entendo. Mas o meu sonho foi tão real, tão vivo. Despertei, todas às vezes, sentindo inclusive o cheiro da colônia que Oduvaldo usava.
— Você esteve com ele, sem sombra de dúvidas.
— Eu gostaria muito de fazer um tratamento espiritual que me ajudasse a me livrar desse nódulo. Creio que ele – apontou para o seio – apareceu para que eu desse uma parada, criasse coragem para confrontar meus medos e começasse a mudar meu jeito de ser.
— Como assim?
— Desde que fiquei viúva, sonhei em fazer algumas coisas. Pensei em voltar a estudar, a freqüentar o clube da família, mas me julguei velha para recomeçar.
— Idade não é motivo para nos manter no ostracismo.
— Foi o que percebi. Eu não quero ficar parada e não vou mais usar minha idade como fator para me manter em casa, sem fazer nada e ainda pior, pensando besteira.
— Você está corretíssima. Vou encaminhá—la para atendimento e você explica melhor sua história.
— Obrigada.
Renata deu—lhe um papel. Nele estava impresso um número.
— Preste atenção neste numero. Assim que ele for pronunciado, dirija—se à mesa correspondente, está bem?
— Muito obrigada. Você é muito simpática.
— Obrigada. Meu nome é Renata. Qualquer dúvida é só me procurar.
— Obrigada, Renata. Meu nome é Zulmira. Foi um prazer conhecê—la.
Zulmira entrou no corredor e Renata ficou observando—a até ela desaparecer numa curva. Engraçado. Ela tinha a sensação de que conhecia Zulmira de algum lugar. Seu rosto era—lhe bastante familiar e ela sentiu por aquela senhora uma simpatia, um carinho sem igual.
Sorriu para si e voltou aos seus afazeres. Depois apareceu um senhor, carrancudo, ar desconfiado.
— Quanto tenho de pagar para ser atendido?
— Aqui não se paga nada. O atendimento é gratuito. Caso contrário não seria um Centro Espírita.
— Como não pago nada?
— Nada, senhor.
— Passo por consulta, por tratamento, posso freqüentar cursos, tudo isso sem pagar?
— Isso mesmo.
Ele encarou Renata de maneira desconfiada.
— Nem um tostão?
— Nem um tostão – ela replicou.
Ele sorriu, pegou sua senha e entrou. Quando os trabalhos estavam para ser encerrados, Mafalda a chamou.
— Vamos nos reunir após os trabalhos. Necessitamos fazer uma corrente de oração para dois amigos.
— Podem contar comigo – declarou Renata.
Após o encerramento dos trabalhos espirituais, Renata, Maximiliano, Luísa, Mafalda e mais três médiuns dirigiram—se a uma pequena sala que ficava nos fundos da casa. Era uma sala pequena, porém muito confortável. Havia algumas cadeiras dispostas em semicírculo e uma música agradável enchia o ambiente. O toque final era dado por uma luz azul, bem suave.
Mafalda fez sinal para que se sentassem. Depois, fez sentida prece e deu passagem para que um espírito se comunicasse. Ela suspirou e, alguns instantes depois, o tom de sua voz sofreu leve alteração.
— Prezados companheiros, precisamos da ajuda de vocês a fim de enviarmos energias de equilíbrio para um querido ente encarnado, bem como vibrar forte luz para outro amigo que, por ora, só poderemos atingir com nossas vibrações de amor. Sua aura enegrecida não nos permite aproximação, devido ao seu comprometimento com determinados espíritos do Umbral.
— Não podemos orar para esses espíritos também? – inquiriu Maximiliano.
— Sim, mas não podemos interferir no destino das pessoas. Cada um é responsável por suas escolhas e nós, aqui do lado espiritual, podemos tão somente emanar, com a ajuda de vocês, vibrações que ajudem a apaziguar a dor.
O espírito deu—lhes mais algumas orientações e, logo em seguida, formaram um círculo em volta de Mafalda.
Eles deram—se as mãos e começaram a orar conforme a orientação dada.


*****

Caio chegou à casa de Gregório por volta de meia—noite. Tocou o interfone. Em seguida, o próprio Gregório o atendeu e acionou o portão para que este fosse aberto e Caio pudesse entrar na residência.
O rapaz contornou elegante jardim, passou pela piscina e chegou ao jardim de inverno. Gregório estava vestindo seu indefectível robe de seda preto. Uma mão segurava um cigarro e a outra um copo com uísque.
— Oi criança. Gosto de quem cumpre com as minhas exigências.
A voz de Gregório soava meio pastosa. Ele estava um tanto embriagado pela quantidade enorme de bebida que havia ingerido. Caio falou a contragosto.
— Não tinha outro jeito. Você foi categórico. E, como eu tenho mesmo de resolver um assunto com você, preferi vir e acabar logo com esse peso em minhas costas.
— Peso nas costas? – Gregório sorriu. – Por favor – fez sinal –, sente—se porque a noite promete ser longa.
Gregório pegou a garrafa de uísque e a entornou em outro copo. Colocou duas pedras de gelo e ofereceu—o a Caio.
— Beba criança.
Caio pegou o copo e sorveu quase todo o líquido.
— Calma, assim você vai ficar tontinho.
— Quero mais – ordenou Caio.
Gregório apanhou a garrafa, aproximou—se de Caio e despejou o líquido no copo.
— Beba devagar, criança.
Sua voz soava de maneira irritante. Gregório, quando bebia, tornava—se pessoa insuportável. Se, quando sóbrio, não tinha respeito pelos outros, bêbado, então, não tinha limites.
Caio, sentado numa poltrona em frente ao homem, pegou o copo e bebeu com vagar. Gregório, por sua vez, deixou que o robe ficasse entreaberto, mostrando, propositalmente, as suas partes íntimas. Aquilo causou terrível mal—estar em Caio. Ele virou os olhos.
— Aceita um cigarro?
— Não. Parei de fumar.
— Ah, as crianças de hoje! – suspirou Gregório. – Adoro essa geração saúde.
— Preciso e quero tomar conta de meu corpo. É o único que tenho. Devo tratá—lo bem, oras.
— Faz sentido essa sua observação idiota. Perfeito para a sua idade.
— Queria logo tratar do assunto que me fez vir aqui.
— É sobre o contrato.
— É sobre isso que eu também queria lhe falar.
Enquanto isso, uma voz amiga inspirava Caio para que ele não aceitasse provocações de Gregório. O jovem captou alguma coisa.
— Então nosso primeiro assunto é o mesmo – tornou Gregório, após virar o copo e estalar a língua no céu da boca.
— Qual o outro assunto?
— Você.
Caio não entendeu de pronto.
— Desculpe—me, mas...
Gregório o cortou.
— Quero você. Pelo menos hoje. Ou tão somente hoje.
Caio levantou—se num salto. Sua face ardia, tamanho rubor.
— O que pensa que sou?
Gregório riu.
— Um prostituto.
— Olhe como fala!
— Não é o que você é?
— Eu não sou e.
— Cale a boca! – vociferou Gregório.
– Não venha dar uma de santinho para cima de mim. O Guido me contou sobre vocês.
— Foi um ato insano. Nunca havia me deitado com um homem antes. Não sei o que deu em minha cabeça. Na realidade, posso jurar que essa não é minha praia. Nunca foi.
— Mas Guido disse—me que você gostou.
— Não interessa. Foi uma loucura que cometi. E não mais se repetiu.
— Vai ter de repetir comigo.
— Nunca!
Gregório levantou—se e aproximou—se do rapaz. Chegou tão perto, que Caio pôde sentir seu hálito fétido e desagradável.
— Vai se deitar comigo. Quer queira, quer não.
— Você não pode me obrigar.
— Não vou obrigá—lo, criança. Vai me amar porque fui sempre seu.
Caio o empurrou.
— Pare com isso, Gregório! Vim aqui para falar de meu contrato, que na verdade eu não quero mais assinar. E vim também lhe devolver o dinheiro do adiantamento. Consegui um emprego e daqui uns dois meses eu lhe pago tudo o que devo.
Gregório recuperou—se do empurrão e voltou a se aproximar. Seus olhos brilhavam rancorosos.
— Não quero saber do dinheiro do adiantamento. Aquilo foi um mimo para você.
— Não! – Caio exclamou nervoso. – Vou devolvê—lo, tintim por tintim.
Gregório deu de ombros e caminhou até próximo de sua poltrona. Serviu—se de mais um trago de uísque. Caio aproveitou e tirou o maço de dinheiros que trazia no bolso.
— Aqui está – ele colocou o dinheiro sobre uma mesinha. – Não quero dinheiro dos outros.
— Orgulhoso. Além de prostituto, é orgulhoso.
— Assim você me insulta. Eu não sou prostituto.
— Mas foi. Sei de tudo a seu respeito. Você tinha uma carteira de clientes. Atendia ricaças insatisfeitas sexualmente. Guido me falou.
— Cadê o Guido? – bramiu Caio. – Tenho de falar com ele.
— Não pode. Não quero que vocês se vejam.
— Ele não tem o direito de falar assim de minha vida para qualquer um.
Gregório meteu—lhe o dedo em riste.
— Eu não sou – ele gritou – qualquer um! Sou Gregório Del Prate, dono da Cia. De Perfumes. Você, sim, é um nada, um lixo, um parasita que vive de michetagem. Você é sujo e imundo. Por tudo isso, vai fazer amor comigo. De qualquer jeito.
— Não!
— Não sai desta casa enquanto não ficar comigo.
Antes que Caio pudesse raciocinar, Gregório deu um assovio e logo dois cães pastores alemães vieram e pararam na porta do jardim de inverno. Seus latidos e a expressão de maus amigos encheram Caio de pânico.
— Eles me obedecem. Se eu gritar – ele abaixou bem o tom de voz – agora!, Eles avançam e não sobrará pedacinho de Caio para contar a história.
— Por que faz isso comigo? Estou aqui para lhe devolver o dinheiro. Sou homem de bem e não quero encrenca. Vamos esquecer que um dia nos encontramos e cada um segue seu caminho.
— De maneira alguma – Gregório tirou o robe e ficou nu na frente de Caio. O rapaz abaixou a cabeça. – O que foi? Não gostou do meu corpo? Não tem vontade de me amar?
— Pare com isso, Gregório. Eu não vou me deitar com você. Pode dar ordem aos cachorros para me atacar, mas não encostarei um dedo em você.
Os olhos de Gregório marejaram.
— Patife! Ordinário! Você tem de me amar! Eu fiz tudo o que fiz para você me amar. Eu sou sua. Você tinha de ser meu. Nunca deveria se casar com ela.
Caio estava aturdido. Os olhos de Gregório pareciam querer saltar das órbitas. Ele não estava em seu juízo perfeito. Mas o que fazer? Ele acuou—se numa parede e falou, num tom apaziguador.
— Eu não quero o contrato, não quero...
Gregório não lhe dava ouvidos.
— Eu fiz tudo por amor e agora você vai me ter. Para sempre.
Caio olhava para Gregório e para os cachorros. Eles estavam em posição de alerta. Ele não sabia o que fazer. Os cachorros só atacariam sob a ordem de Gregório. Aproveitou que ele estava delirando e andou, pé ante pé, até que atingiu a sala. De lá poderia correr pela casa e tentar uma outra saída, antes que os cães o pegassem. Quando ele ia dobrar o corredor da sala, Gregório bradou:
— Você matou Loreta. Eu sei. Estou de olho em você.
Caio imediatamente parou. Suas pernas falsearam por instantes. A frase de Gregório caiu como uma bomba na sua cabeça. Caio rodou nos calcanhares. Encarou Gregório com espanto.
— O que foi que disse?
— Não vou repetir. Eu o perturbei por um bom tempo, mas fiz tudo por amor.
— Não posso acreditar! Você não seria capaz de um ato insano desse porte.
— Fui.
— Mas por quê?
— Eu o atormentei durante longo tempo, porque eu sabia. Aliás, sempre soube do seu envolvimento com Loreta.
Caio levou a mão à boca.
— Você sabia do meu envolvimento com sua mãe?
— Sim. Você amava Loreta, uma velha. Por que não pode me amar? Por que ela e não eu? Eu sou a sua Lucy.
Caio não entendeu. Aliás, estava tão atarantado que nada mais fazia algum sentido para ele.
— É um absurdo. Eu gostava de sua mãe.
— Entretanto, transava com ela por dinheiro. A tonta da Isilda deu com a língua nos dentes.
— Isilda contou tudo?
Gregório riu com gosto.
— Nada que um bom punhado de dinheiro não abra ou feche a boca das pessoas. Isilda foi ameaçada e, sob ameaça de morte, uma pessoa é capaz de tudo. A infeliz – ele gargalhava –, antes de se borrar toda, claro, contou—me tudo sobre seu caso com mamãe.
Caio engolia as palavras em seco.
— Isilda ganhou bom dinheiro. Fugiu para o Paraguai.
O rapaz estava muito atordoado. Não esperava por essa.
— Eu... Eu...
— Sei você matou minha mãe. Eu tenho provas. Tenho você em minhas mãos. Por esse motivo – Gregório virou—se e encostou o corpo na parede, de maneira vulgar –, comece o serviço.
— O quê?
— Venha me amar.
Caio sentiu que as lágrimas escapavam—lhe pela face. Aquilo era ultrajante. Gregório o obrigava a fazer algo com o qual ele não compactuava. Ele prometera a si mesmo que não mais se envolveria em estripulias sexuais. Nem mesmo numa situação como essa, em que ele corria o risco de ser preso, caso Gregório fosse à polícia.
O rapaz não sabia o que fazer. Pela primeira vez, desde a infância, Caio ajoelhou—se no tapete da sala e rezou com fé. Não lembrava mais das orações feitas na infância, mas suplicou, a seu modo, ajuda a Deus.
Uma luz suave, porém vibrante, saiu de seu peito. O espírito de Norma estava ao seu lado e ministrou—lhe um passe calmante.
— Não ceda, Caio! – a voz dela era firme. – Não caia em tentação. Mantenha—se firme em sua fé e os danos serão minimizados.
Caio não registrou as palavras do espírito da irmã, entretanto, a imagem de Norma, sorridente, apareceu com força na sua mente. Ele terminou de rezar a sua maneira e chorou, chorou muito.
Gregório continuava naquela posição digna de compaixão.
— Vamos, acabe logo com essa ladainha. Venha me ter. Eu sempre fui melhor que minha irmã. Sempre.
Gregório falava palavras desconexas. Caio não entendia mais nada do que ele falava. Ele não tinha irmã. Do que estaria falando?
Enconstado na parede, passando a mão pelo corpo de maneira lânguida, Gregório murmurava:
— Venha amar a sua Lucy. Venha amar a sua Lucy...
Caio tapou os ouvidos e lembrou—se da santinha que José havia lhe dado. Meteu a mão no bolso e fixou os olhos no folheto com a imagem de Santa Rita de Cássia.
— Ajude—me, por favor...
Caio orou com tanta fé, que logo sentiu brando calor invadir—lhe o peito. Sentiu também uma força inexorável, vibrante, pulsante, que lhe tomava todo o ser. Ele levantou—se, fez o sinal da cruz, jogou um beijo para o Alto. Em seguida, moveu a cabeça negativamente para os lados.
— Você é doente, Gregório. Precisa se tratar.
Gregório não o escutava. A bebida havia entorpecido seus sentidos e ele continuava a repetir:
— Venha amar a sua Lucy.
— Eu vou embora. Podem vir seus cães, pode vir a sua chantagem. Eu não cedo. Juro por tudo quanto é mais sagrado nesta vida que não cedo!
Caio falou com tamanha força, tamanha propriedade, que logo passou pelos cães, sem medo, e chegou ao portão. Estava trancado. Ele nem titubeou. Subiu as grades e pulou. Surpreendentemente, os cães não o atacaram, talvez porque Gregório não tivesse lhes dado ordem de ataque.
O rapaz dobrou a esquina e chegou à Avenida Giovanni Gronchi, deserta.
Seria difícil aparecer táxi por ali. Caio foi caminhando e viu um ônibus que passava do outro lado da avenida. Ele correu, fez sinal e pegou o último ônibus com destino ao centro da cidade.
— Eu nunca deveria ter me metido com esse homem. Que Deus tenha piedade dele – disse para si mesmo, enquanto o motorista corria um pouco mais do que o normal, em virtude da quase ausência de carros nas vias àquela hora da madrugada.
Caio desceu no ponto e, algumas quadras depois, chegou à pensão de Fani. A casa estava em silêncio. Todos dormiam. Ele subiu os degraus de maneira que não fizessem estalo ou rangessem. Chegou ao seu andar e correu para o banheiro. Despiu—se e tomou uma ducha morna e reconfortante. Em seguida, dirigiu—se para o quarto. Na penumbra, aproximou—se da cama de Rosalina e beijou—lhe a testa. Sem fazer barulho, deitou—se em sua cama. Dormiu profundamente, como há muito tempo não dormia.




CAPÍTULO 22


Luísa acordou, tomou seu banho e arrumou—se com apuro para o trabalho. Antes de sair do quarto, olhou ao redor. Desde que vendera a casa e se mudara para o apartamento, sentia que tudo caminhava para melhor em sua vida. Ela saiu do quarto e disse para si mesma:
— Aqui eu sou e serei muito feliz.
Luísa havia ingressado na faculdade de Direito. Arrumara emprego numa empresa indicada por Renata. O cargo era de recepcionista, o salário não era tão formidável assim, mas dava para começar a sentir o gosto da liberdade, da independência. Contava com o dia que não mais fosse precisar da pensão de Genaro. Queria, de toda maneira, livrar—se dele, até economicamente. A separação já havia sido homologada. Mais um ano e poderia entrar com o pedido de divórcio e acabar com qualquer vínculo que fosse com seu ex—marido.
Genaro começava a virar notícia corrente nos jornais. O eleitorado estava se tornando mais exigente, mais consciente do voto, e a maioria dos políticos era composta por pessoas comprometidas com o bem do país. Infelizmente, havia uma maçã podre aqui e acolá dentro da classe política e eram essas pessoas inescrupulosas que ganhavam destaque na mídia.
O ex—marido de Luísa anunciava seu casamento, embora o divórcio ainda não o permitisse casar—se oficialmente – as pessoas nem ligavam – com Marisa, porquanto ela esperava o filho que ele tanto sonhara.
Luísa entrou na copa. Deixou a bolsa sobre o aparador e sentou—se para seu desjejum. Eunice ria e não falava nada. Serviu—lhe café, suco e torradas. Luísa encarou—a de maneira divertida.
— O que foi? Está rindo de quê?
— Nada em especial – tornou Eunice com a voz amável.
— Você não está rindo à toa. Que cara é essa? Parece uma menina arteira!
— Ah, você vai adorar essa notícia – Eunice foi até a cozinha e voltou à copa, trazendo um pedaço de mamão papaia e o jornal. Colocou a fruta sobre um pratinho e entregou o jornal a Luísa, dizendo: — leia a coluna da página inferior.
Luísa olhou para o periódico.
— E lá sou mulher de ler coluna social? Fofoca da vida de gente importante? Está me estranhando, Eunice?
Ela continuava rindo.
— Leia a última nota – ordenou, apontando com o dedo. Luísa concentrou—se na leitura da notinha. Era um texto curto, de quatro linhas.
— Leia em voz alta, por favor.
Luísa assim o fez:
"— O deputado federal Genaro Del Prate anunciou, num jantar oferecido a poucos amigos, em sua mansão, localizada no Lago Sul, em Brasília, o seu casamento com a jovem Marisa Pompeo Ramos. O casal, apaixonado e feliz, cujo enlace está programado para maio, espera o primeiro herdeiro para daqui a cinco meses".
— Viu o porquê de minha risada? – perguntou Eunice, em tom de deboche.
Luísa levou a mão à boca. Não segurou a risada.
— Nunca poderia imaginar Genaro metido numa situação como essa.
— O Genaro nunca quis ir ao consultório do Dr. Ribeiro para fazer os exames que comprovariam a sua infertilidade.
— Ele sempre se recusou. Disse—me, certa vez, durante uma discussão, que eu era seca e estava tomando pílula anticoncepcional escondido.
— Problema dele. E se um dia ele descobrir isso? Coitada dessa Marisa. Ele pode fazer picadinho dela.
— Eu é que não quero saber disso. O que acontece com Genaro não é de minha conta. Quero distância dele. Que construa sua família, não importa como, e que seja feliz.
— Você é uma mulher de fibra. Se fosse outra, Luísa estaria arrumando um jeito de extorquir a Marisa ou mesmo chantagear Genaro com a ameaça de um escândalo.
— Quero ficar longe desse tipo de comportamento. Eu nunca me aproveitaria das pessoas. Não está em mim.
Eunice a beijou no rosto.
— Você ainda vai se dar muito bem na vida, minha menina. É cheia de valores nobres.
— Deveria ter pensado assim antes de apanhar.
— Já passou.
— Como pude descer tão baixo? Por que me deixei de lado, tornei—me uma mulher submissa e sem brilho? – Luísa fitou o nada. Declarando em seguida: — não tenho um pingo de saudade da Luísa de ontem. Estou tão feliz comigo, Eunice. Sinto—me muito bem com meu progresso. Vou me formar e trabalhar para mulheres que passam pelo que passei. Tenho orgulho de mim.
— Só falta arrumar alguém.
— Como?
— Quer dizer, acho que arrumou, entretanto, não quer confessar para si mesma que está gostando dele. Ou mesmo que está apaixonada.
— Eunice, de onde tirou essa idéia?
— Eu vi você falando do rapaz, o Caio outro dia que estava com a Renata.
Luísa a censurou:
— Ouvindo atrás das portas? Que costume mais feio!
— Não. Estava preparando o chá para servi—las. Quando cheguei à saleta, notei o brilho em seus olhos toda vez que pronunciava o nome do Caio.
Luísa esboçou sorriso encantador. Seus olhos voltaram a brilhar.
— Você tem razão. Caio despertou—me sentimentos que nunca havia sentido antes.
— Nem mesmo por Genaro?
— Não. Com Genaro foi diferente. Eu era muito menina, tinha medo do futuro, de não ter proteção, e ele, por ser bem mais velho, passava—me a impressão de segurança. Genaro é homem bonito, mas nunca me cativou o coração.
— E Neuza praticamente a empurrou para aquele casamento. Eu me lembro bem.
— Nem me fale. Mamãe conseguiu me ludibriar. Eu era muito nova, muito ingênua.
— Neuza ligou de novo. Reclamando, para variar. Disse que seus irmãos estão trabalhando e que, graças ao esforço deles, ela não passa fome. Porque, se dependesse de você...
— Eu quis ajudá—la, Eunice. Assim que comecei a receber a pensão do Genaro, ofereci—lhe um valor para o mercado, pagamento de contas etc. Sabe o que ela me disse?
— O quê?
— Que esse dinheiro era muito pouco. Ou eu lhe dava mais ou então era melhor não receber nada. Problema dela. Eu tentei fazer o melhor. Se seu orgulho a deixa tão cega a ponto de recusar minha ajuda, só posso orar para que ela fique em paz. Mais nada. Minha família acabou. Agora só tenho você.
— E quanto ao Caio...
— Quanto ao Caio, não sei explicar. Encontramo—nos muito pouco, entretanto, essas poucas vezes foram suficientes para eu perceber que sinto algo diferente. Os sentimentos são conturbados.
— Como?
— Dia desses – ela confessou – sonhei que vivíamos juntos, numa outra época, e discutíamos bastante. Lembro—me de ter muita mágoa do Caio. Meu coração fica mole quando eu o vejo, mas minha mente tem lá suas reservas. Mesmo assim, quando ele foi me visitar no hospital fiquei muito feliz!
— Lembro—me disso. Você não parava de falar nessa visita. Creio que melhorou mais pela visita dele do que pelo repouso sugerido pelo médico.
Luísa soltou um risinho abafado, enquanto se levantava e pegava sua bolsa sobre o aparador.
— Você não toma jeito, Eunice. Quer me ver enrabichada de novo?
— Quero. Você é muito nova.
— Caio é mais jovem que eu.
— Qual o problema? Uns três ou quatro anos mais novo, talvez. Por quê? Tem algum preconceito em relação a isso?
— De forma alguma. Só acho tudo engraçado. Casei—me com um homem quase quinze anos mais velho que eu e agora começo a me interessar por um rapaz mais jovem.
— Talvez agora você acerte a mão. Não conheço o Caio, todavia ele deve ser um bom moço. Está mexendo com você.
— Tem razão. Eu vou ligar para ele e convidá—lo para jantar no sábado aqui em casa. O que acha?
— Perfeito. Hoje ainda é quinta—feira, tenho dois dias para preparar um belo jantar. E tempo suficiente para comprar os ingredientes necessários para um jantar especial! – exclamou Eunice, contente.
— Podemos fazer aquele macarrão com camarão e molho de especiarias que só você é capaz de fazer.
— Receita de minha sobrinha. Não lembro direito todos os ingredientes.
— Certifique—se do que precisa. Mais tarde eu ligo para você e pego a relação do que devo comprar. Vou ao mercado amanhã depois do trabalho e faço as compras.
— Será que o Caio virá?
— Ele vem. Tenho certeza. Vou ligar para ele assim que chegar ao escritório.
Luísa despediu—se de Eunice e saiu no hall do apartamento. Tomou o elevador e, surpresa agradável, encontrou Maximiliano. Ela o cumprimentou com um beijinho no rosto.
— Bom dia, vizinho.
— Bom dia, vizinha. Nossa – ele aspirou o perfume que exalava do corpo dela – que aroma delicioso.
— Obrigada. Acordei muito bem hoje.
— Eu não posso dizer—lhe o mesmo.
— Por quê?
Max não queria falar. Mudou o tom da conversa.
— Está gostando de ir ao Centro Espírita?
— Sim. Senti—me útil quando fui convidada para fazer parte daquele grupo de oração e vibração.
— Eu também gostei.
— Você tem idéia de quem eram as pessoas para as quais estávamos em oração?
— Faço alguma idéia, Luísa – tornou Max, dando de ombros. – Não nos esqueçamos do grande ensinamento: "Fazer o bem, não importa a quem". Entretanto, nesse caso específico, creio que sei para quem estávamos dirigindo nossas energias.
— Eu senti, não sei se isso é da minha cabeça ou não, que uma das pessoas para quem estávamos em oração era o Caio.
— Eu tive a mesma impressão. Quanto ao outro, lembrei—me de um conhecido de outros tempos com quem não tenho afinidades. Aliás, nunca tive.
— É mesmo?
— Sim. Quando Mafalda, incorporada, solicitou que fechássemos os olhos e entrássemos em meditação, eu tive a leve sensação de que na minha mente apareceram o rosto de Caio e desse conhecido. A energia que senti não foi das melhores.
Aliás, eu preciso ligar para a Mafalda. Tive um sonho muito ruim esta noite.
— Pesadelo?
— Sim.
O elevador chegou ao térreo. Max declarou:
— Fico por aqui. Tenho alguns compromissos no centro da cidade. Prefiro tomar um táxi. Esse trânsito me irrita profundamente.
— Eu vou até a Praça da República. Posso lhe dar carona.
— Puxa, eu adoraria.
— Você aproveita a carona e, no trajeto, conta—me sobre seu sonho.
— Resolvido.
Apertaram o botão do elevador e desceram na garagem. Caminharam em silêncio até o carro de Luísa. Entraram e ela deu partida. Quando ganharam à rua, ela perguntou, de maneira delicada.
— Pode—me dizer o que aconteceu?
— Ontem à noite, ao chegar a casa, resolvi tomar uma ducha e fui para a copa preparar um lanche. No meio da refeição, senti um calafrio, um frio perpassando minha nuca. Senti um arrepio sem igual pelo meu corpo todo.
Luísa fez um esgar de incredulidade.
— Eu, hein? Parece que recebeu a visita de algum espírito perturbado.
— Foi à impressão que tive. Pensamentos ruins vieram à minha cabeça naquele momento. Afastei—os com as mãos. Depois, fiz uma oração, mudei o teor dos pensamentos e fui para a cama. Mas, durante o sono...
— Conte—me, Max. Estou tão interessada!
— Sonhei que um conhecido de longa data aproximou—se de mim desesperado. Seu rosto estava desfigurado. Um horror. Ele dizia estar sendo perseguido e pedia minha proteção. Eu disse que não tinha o que fazer, a não ser que ele ficasse em casa. Lembro—me de que lhe ofereci o quarto de hóspedes.
— E?
Maximiliano deu um longo suspiro. Tudo parecia tão real.
— Ele foi ao quarto de hóspedes e, no sonho, eu voltei para o meu quarto. Sensações ruins se apossavam de meu corpo. Lembro—me nitidamente de passar as mãos nos braços a fim de "arrancar" aquelas sensações desagradáveis. Daí ouvi um grito de pavor. Corri ao quarto de hóspedes e vi uma cena dantesca.
Luísa estava estupefata.
— Continue.
— Esse conhecido meu estava sendo arrancado do quarto à força por espíritos enegrecidos, cheios de sombras. Algo pavoroso. Ele ainda me encarou com olhos de súplica e, quando tentei interferir, um braço tocou meu ombro. Eu não consegui olhar para trás, mas ouvi. "Cada um é responsável pelo seu destino. Você não pode e não deve se intrometer. Vibre por ele".
— E daí?
— E daí que acordei suando bicas. Minha testa estava molhada, meu pijama empapado de suor. Levantei—me, fui à cozinha, bebi um copo d'água e tomei nova ducha. Fiz nova prece e dormi melhor. Mas ainda estou impressionado com o sonho.
— Pretende falar com Mafalda?
— Hum, hum. Assim que terminar meus compromissos eu vou até o Centro Espírita. Sinto que tem algo a ver com aquela corrente de orações.
— O que pode ser?
— Não sei Luísa, mas, cá entre nós, alguma coisa muito grave aconteceu nesta noite que tive esse pesadelo.
Luísa fez o sinal da cruz. A seguir chegaram à praça. Ela encostou o carro no meio—fio e Max saltou. Abaixou na altura da janela do passageiro.
— Caso eu tenha alguma notícia, avisarei você e Renata.
— Por favor, faça isso.
— Até logo.
— Tenha um bom dia – tornou ela, apreensiva.
Impressionada com o relato, Luísa não se sentiu muito bem. Percebeu energias pesadas ao seu redor. Fez também uma prece e, em seguida, meteu—se no trabalho. Logo estava envolvida com os atendimentos na recepção e esqueceu a conversa com Maximiliano.


****

Caio despertou cedo, cheio de vigor. Espreguiçou—se na cama, sentou—se e bocejou. Lembrou—se de algumas cenas da noite anterior. Espantou tais pensamentos com as mãos.
— Faz parte do passado. Quero esquecer esta noite.
Ele levantou—se e caminhou para o banheiro. Escovou os dentes, lavou o rosto e desceu para o desjejum. Rosalina e Celinha entravam e saiam da cozinha a todo o instante. Ainda havia muitos hóspedes tomando o café da manhã.
— Quer alguma ajuda? – perguntou ele, de maneira educada.
Celinha se surpreendeu.
— Logo cedo em pé e quer nos ajudar?
— Exato.
— O que foi? Dormiu com os anjinhos?
Caio riu.
Despertei tão bem! Há muito tempo não dormia assim tão gostoso.
— Vi que chegou uma e meia da manhã.
Seu rosto mudou e ele adquiriu expressão temerosa.
— Viu? Acho que...
— Danado! Eu vi sim. Acordei para fazer xixi. Quando você entrou no banheiro para tomar banho, eu havia acabado de sair. Estava tentando pegar no sono.
— Eu cheguei antes.
— Eu sei que era você. Fiquei na espreita. Deixei a porta entreaberta e fiquei observando. Aí vi você sair do banheiro.
Caio ruborizou.
— Celinha! Como pôde?
— Oras, por quê?
—Eu saí do banheiro completamente pelado.
Ela riu maliciosa.
— Eu notei todos os detalhes.
— Celinha!
— Dormi tão melhor. Nem mais acordei para ir ao banheiro. Você é um espetáculo de homem.
— Olhe os modos! Posso ser seu irmão.
— Não poderia. Nunca. Iríamos praticar incesto.
Caio pegou um pano de cozinha, esticou—o e passou a perseguir Celinha, que corria em volta da mesa.
— Venha, cá, sua pilantra – ria ele, vou lhe dar uma sova.
Celinha corria e ria. Até que Rosalina entrou na cozinha, expressão séria.
— Vamos parar com brincadeira. Celinha – ela encarou a menina –, os hóspedes estão esperando. Cadê o café do seu Antenor? E o leite do seu Francisco? E a geléia da D. Odete?
— Desculpe—me. Vou providenciar tudo num instante.
Rosalina cumprimentou o filho.
— Bom dia.
— Bom dia, mãe. Está com uma cara tão brava. O que foi?
— Sua irmã veio me visitar hoje cedo – Caio ia responder, mas a mãe o interrompeu: – Norma está muito preocupada. Disse—me que você necessita de muita oração e que precisa ir ao Centro Espírita.
— De novo isso?
— Por que reluta tanto, meu filho? Sei que tem de ir por vontade própria, mas por que tanta defesa?
— Não é defesa. Só não acredito.
— Norma disse que não vai ter jeito. Você vai ter de passar apertos para acordar para a vida espiritual.
Ele a beijou na fronte.
— Quem sabe, na hora certa, eu vá?
— Tome seu café.
Caio sentou—se à mesa. Serviu—se de dois pãezinhos com manteiga e café com leite. Celinha saiu com uma bandeja para a sala de refeições. Caio aproveitou estar a sós com a mãe.
— Ontem à noite devolvi aquele dinheiro.
— Mesmo? Tudo?
— Quer dizer, quase tudo. Usei uma parte. Mas apliquei o saldo e recebi bom salário este mês. Se tudo continuar bem, em dois meses eu saldo a dívida com o Gregório.
— Eu não gosto desse homem. Deve ficar afastado dele.
— E estou mãe. Não quero mais saber dele.
— Nem de campanha de perfume. É melhor arrumar um emprego que lhe dê dinheiro todo mês do que essa vida instável de modelo.
— Você se engana. Um modelo profissional, famoso, ganha muito, mas muito dinheiro. Eu ainda acredito que vou conseguir mãe. Pode escrever.
Rosalina moveu a cabeça para os lados.
— Cheio de sonho. Você não desiste.
— Não. Vou à luta. Ainda mais agora que estou gostando de alguém.
O coração de Rosalina se enterneceu.
— É a moça do Centro Espírita, né? A Luísa.
Caio riu, enquanto mordiscava um bom pedaço de pão com manteiga.
— É ela mesma.
— Moça de classe, fina, educada, elegante, bonita, simpática e...
Ele cortou a mãe de maneira engraçada.
— Quanta propaganda! O que é isso? Um complô?
— Se for para a sua felicidade, e eu sinto que é – ela disse olhando nos olhos dele –, vale tudo.
Ele terminou o desjejum e despediu—se.
— Você está impossível. Quer se ver livre de mim?
— Não, meu filho. Quero vê—lo feliz.
Ao passar pela sala de refeições, ele encontrou Fani.
— Oi meninão!
— Bom dia, Fani.
— Estava à sua procura.
— O que foi?
— Telefone para você.
— Quem é?
Fani fez uma cara de suspense.
— Adivinhe!
Caio pegou o fone e ao ouvir a voz melodiosa de Luísa, sentiu um friozinho gostoso no estômago.
— Oi.
— Como vai, Caio?
— Bem. E você?
— Ótima. Quero lhe fazer um convite.
— Um convite?
— Sim. Quer vir jantar em casa no sábado?
Ele não sabia o que lhe dizer. Estava surpreso, agradavelmente surpreso.
— Sábado, é...
Luísa mordiscou os lábios do outro lado da linha. Aqueles segundos de mudez pareceram durar uma eternidade. Será que ele estava arrumando uma desculpa? Ela perguntou indecisa:
— Tem compromisso?
— Não, não. De forma alguma.
— Você demorou para dar a resposta e.
— Porque sábado é um dos melhores dias na loja. E eu saio um pouco mais tarde.
— Pode ser às dez da noite?
— Não fica tarde para jantarmos?
— Não. Eu faço um lanche antes – ela riu. – Está marcado? Sábado às dez da noite?
— Confirmado. No sábado, assim que eu sair da loja, vou direto para sua casa.
— Um beijo.
— Outro.
Caio desligou o telefone com as mãos trêmulas. O ar parecia lhe faltar. Iria jantar com Luísa, num sábado à noite. Poderia aproveitar o momento e, no decorrer do jantar ou após, declarar—lhe seu amor. Ele não sabia como fazer tal declaração e viu nesse jantar o momento certo para dizer a Luísa tudo o que ia a seu coração.
Fani o trouxe à realidade.
— Viu um passarinho verde?
— Não, Fani. É o amor. O meu amor, do qual não quero nunca mais me separar.
Ele a beijou na bochecha e saiu contente. Fani disse para si mesma, enquanto meneava a cabeça para os lados:
— Esses jovens! Quanto romantismo! Que coisa boa!



CAPÍTULO 23


O delegado Telles era um homem bem apessoado. Alto, um metro e noventa, corpo atlético. Chamava a atenção por onde passava. Tinha um rosto charmoso, uma barba preta, bem cuidada, que contrastava com o tom claro de sua pele.
Seu nome era José Carlos. Mas, desde que entrou para a polícia, recebeu a alcunha de Telles, seu sobrenome.
O rapaz adorava o que fazia. Amava sua profissão. Acreditava que havia nascido para a investigação. Tinha faro, uma maneira peculiar de resolver os enigmas que se apresentavam sobre sua mesa. Todos os casos mal resolvidos, os grandes abacaxis de maneira geral, caíam nas mãos de Telles.
Ele trabalhava na Divisão de Homicídios, ligada ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa – DHPP, um dos setores mais corretos e incorruptíveis da polícia brasileira. Seus investigadores trabalhavam com afinco e Telles fazia parte deste grupo de homens dedicados a desvendar os crimes que ocorriam na cidade. Quando o crime era de autoria conhecida, ficava a cargo dos distritos policiais. No caso de autoria desconhecida, eram encaminhados para os agentes especializados do DHPP.
A sala de Telles ficava num dos andares do Palácio da Polícia, na Rua Brigadeiro Tobias, no centro velho da cidade.
Ele encarou as pastas feitas de cartolina na sua frente e, por um instante, sua mente voltou ao passado.
Havia uma peculiaridade em Telles. Ele tinha uma intuição, como se uma voz amiga o ajudasse a desvendar os crimes aparentemente sem solução.
Tudo começou dez anos antes, quando um primo de Telles fora morto por um amigo. O crime chocou a cidade, causou comoção. O rapaz responsável pelo tiro jurara inocência. Dizia ter sido acidental, que estavam ambos brincando com a arma do pai do falecido.
O crime repercutiu bastante, ganhou as manchetes de jornais e a família do morto foi pedir alento ao famoso médium Chico Xavier.
Chico recebeu os pais do garoto morto, conversou com eles e lhes ofereceu, como sempre, palavras gentis de consolo. Alguns dias depois, o próprio Chico recebeu uma carta psicografada do espírito do menino, relatando que ele não fora assassinado, que o tiro tinha sido disparado de maneira acidental.
A carta foi anexada ao inquérito policial e, por conta dela, o rapaz que deu o tiro foi inocentado do crime.
Telles ficou impressionado com essa conexão, com a possibilidade de um mundo paralelo, coexistente com nosso mundo físico. Naturalmente, interessou—se pelos estudos espíritas. Ingressou num Centro perto de casa, estudou, e conheceu um grupo de pessoas sérias, dedicadas aos estudos do mundo espiritual.
Assim que Telles ingressou na polícia, apareceu—lhe um caso que, aparentemente, não tinha solução. Era o caso de uma mulher cujo corpo fora encontrado nas margens do rio Tietê. O marido havia morrido e seu enteado morava no exterior. Ela não tinha parentes nem tampouco amante ou coisa do gênero. Tratava—se de mulher de comportamento irrepreensível.
O crime havia ocorrido há mais de três anos e a polícia ia arquivá—lo. Nenhuma prova nenhuma evidência. Nada. O jovem Telles, com a pasta na mão, pronto para levá—la ao arquivo, sentiu os pêlos eriçarem e uma voz insistia em lhe dizer:
— O crime tem solução, não o arquive.
Aquilo ficou bombardeando a cabeça do jovem por um bom tempo. Telles escutou a intuição, foi ao encontro desse grupo de estudos espirituais e, numa noite em que discutia o caso com os amigos, um deles sentiu forte tremor pelo corpo e, em seguida, incorporou um espírito.
— Eu preciso falar com você, Telles. Só você pode me ajudar.
— Quem é você?
— Meu nome é Lena. Foi assassinada e meu corpo físico jogado às margens do rio Tietê.
Telles deu um pulo da cadeira. Olhou para seu amigo médium de maneira aturdida.
— Você?!
— Sim, estou atrás de você faz tempo, desde que resolveram arquivar o processo. Isso não pode se repetir. Aurélio me matou uma vez e ficou impune, numa outra vida. O mesmo agora não pode se repetir.
— Aurélio? Quem é Aurélio?
— Meu enteado.
— Seu enteado mora no exterior. Ele não estava aqui na época do crime.
O espírito estava ansioso. Deu uma suspirada, tomou fôlego e prosseguiu:
— Aurélio veio ao Brasil de maneira incógnita. Usou nome falso, passaporte falso, entrou no país com outra identidade. Obrigou—me a assinar uma procuração. Eu não aceitei. Depois, fez—me assinar dois cheques. Com medo de que o pior estava por vir, eu os assinei. Mesmo assim ele me matou.
— Eu não posso reabrir o processo – tornou Telles. – Não posso usar como prova o depoimento de um espírito.
— Pode. Houve um saque grande em minha conta logo após o crime.
— Verificamos isso e não pudemos rastrear quem sacou. Acreditamos ter sido algum ladrão.
— O outro cheque ele usou para pagamento de uma conta.
— Sim, verificou—se nos autos do processo que era uma conta, mas não nos despertou atenção.
O espírito finalizou.
— A conta era de Aurélio. Voltem e cheque tudo novamente. Além do mais, Aurélio ainda mantém em seu poder a arma que me tirou a vida. Podem conferir, duas balas estão faltando. São as que perfuraram meu corpo. Aurélio encontra—se em férias no país e está numa chácara, no interior do Estado. A justiça deve ser feita, antes que ele saia e não possa mais ser capturado.
O espírito falou e se foi. Telles não sabia direito o que fazer. Reunido com seu grupo, fizeram nova reunião espiritual e Lena manifestou—se numa médium que psicografava. A jovem escreveu tudo o que Lena havia anteriormente relatado a Telles.
Aurélio foi localizado na chácara e intimado a depor. O tempo passou e a promotora e o advogado de acusação não contestaram a carta psicografada.
Até que tentaram impugnar o documento no momento do julgamento, entretanto, a carta psicografada foi lida para os jurados. Aurélio foi condenado a dez anos de prisão, por homicídio doloso.
O caso repercutiu no país inteiro e Telles deu a seguinte declaração a uma jornalista:
— Sabemos que os jurados julgam sem motivo, somente por convicção íntima. Eles não têm que fundamentar suas decisões, de maneira alguma. É obvio que uma carta psicografada, para um espírita ou alguém que acredita no mundo dos espíritos, será vital para sua decisão. Mas não sabemos se havia algum jurado espírita entre o grupo que o condenou.
A meu ver, a carta foi, sim, decisiva para a condenação de Aurélio.
Após esse evento, Telles ganhou popularidade entre seus colegas de trabalho como o "delegado do Além". Ele não se importava com as brincadeiras, porquanto todos os casos não resolvidos, de autoria desconhecida, vinham até suas mãos. Entretanto, desde o caso de Lena, nunca mais houve algo tão evidente, com interferência clara dos espíritos para ajudá—lo a resolver um crime.
Telles escutava vozes, ia atrás das dicas, dava importância demasiada ao que sua intuição lhe dizia. Sempre acertava, e encontrava provas e evidências onde ninguém jamais ousaria procurar.
O delegado estava encostado em sua cadeira puída, atrás de sua mesa, observando aquelas pastas cujas capas estavam gastas pelo manuseio. Todas, em seu interior, continham desde crimes banais a cruéis, desde morte acidental a chacina, todavia, as autorais eram todas desconhecidas. Muitos marginais, pobres, pessoas sem destaque na mídia.
Era sábado e Telles estava cansado. Trabalhara muito durante a semana e queria sair talvez caminhar no parque da Luz, não muito longe dali, tomar um sorvete, relaxar.
Ele começou a arrumar as pastas, ordená—las para botar no arquivo, quando o investigador Paranhos entrou na sala feito uma bala de canhão. Trazia na mão uma pasta recém—aberta, pois a cor rosa da cartolina era nova.
— Este é para você. O caso vai esquentar os jornais e a televisão. O cadáver tem um cheiro especial.
— Cadáver é cadáver – objetou Telles. – O que tem aí em mãos?
Paranhos jogou sobre sua mesa a pasta. Nela estava escrito IP – 255/83, ou seja, inquérito policial de número duzentos e cinqüenta e cinco, ano de mil novecentos e oitenta e três. Telles abriu e leu. Voltou os olhos para Paranhos.
— Esse caso vai dar o que falar.
— Não lhe disse?
— Você tem razão, alguns cadáveres são mais especiais que outros.
Paranhos continuou:
— Veio da delegacia do Morumbi. Como não sabem a autoria do crime, mandaram direto para cá.
— Isso demanda tempo – objetou Telles. – Não podem mandar assim, sem mais nem menos, um inquérito recém—aberto. Checaram as evidências? Tomaram depoimentos? E.
Paranhos o cortou, seco:
— Este caso é quente, meu jovem. Recebi ordens lá de cima para que o processo viesse até aqui. Homem branco, trinta e quatro anos, empresário, rico e conhecido em todo o país.
Telles leu o nome da vítima.
— Gregório Del Prate?
— Sim, meu amigo. Brutalmente assassinado. Esse caso vai ser destaque nas principais mídias. E tem um detalhe picante: ele era homossexual. Parece que um grupo de ativistas gays exige justiça. Estão fazendo alarde e até uma manifestação no Largo do Arouche. E tem um bando de repórteres lá embaixo querendo suas declarações.
— Minhas. Por quê?
— Você é o delegado do Além, o xerife do invisível – brincou Paranhos. – O próprio secretário de segurança do Estado mandou um aviso a você. Quer que resolva o mais rápido possível esse crime.
— As coisas não funcionam assim. Eu tenho de checar, investigar, reunir provas, evidências. Não posso sair à cata de um culpado assim, sem mais nem menos.
— O morto era irmão do deputado Genaro Del Prate.
— E daí?
— Sabe o quanto Genaro é queridinho da mídia e amigo do general Figueiredo. Está determinado a que cassem o assassino da maneira mais rápida possível. Ele não quer que sua imagem fique associada a do irmão gay.
— Mas... – tentou argumentar Telles.
— Nem, mas nem meio, mas. O secretário de segurança está numa enrascada. A pressão lá de Brasília é forte e ele exigiu que pulemos etapas e peguemos logo o assassino.
— Gregório Del Prate assassinado! – exclamou Telles. – Esse é um abacaxi dos grandes.
— Assassinado de maneira horrível. Você precisa ver.
— Aonde ocorreu o crime?
— Em sua mansão, no bairro do Morumbi. As emissoras de televisão estão lá aguardando a saída do corpo – Paranhos fez uma cara de nojo.
— O que foi? Por que essa cara?
— Você não tem idéia de como encontramos o corpo. Em estado avançado de decomposição.
— Sério?
— Hum, hum.
— Tem idéia de quando o crime ocorreu?
— Entre quatro e seis da manhã de quinta—feira.
— Uau! – exclamou Telles. – Quase três dias.
— Pois é. Vamos – ordenou Paranhos –, temos de ir a casa e liberar o corpo para o Instituto Médico Legal. O tempo urge.
Telles assentiu com a cabeça. Pegou seu paletó sobre a cadeira, lançou—o nos ombros e partiram.
Foi difícil passar pelo bando de repórteres que lotavam o saguão do prédio da polícia, em busca de uma nota, um depoimento que fosse. O caso já estava repercutindo no país inteiro. Telles tinha de correr. A pressão em cima dele era forte demais.
A viatura da polícia chegou à mansão de Gregório pouco depois das seis da tarde. Driblaram os repórteres e curiosos que se amontoavam e acotovelavam na porta do milionário assassinado.
Após contornar o jardim e a piscina, o carro encostou próximo à entrada principal da casa. Alguns investigadores esperavam por eles. Um tomava depoimento da empregada da casa.
O outro, do empregado que cuidava da manutenção do imóvel, uma espécie de caseiro.
Telles afastou—se deles e foi entrando. Percorreu as salas, chegou às escadas e subiu.
Conforme ia subindo os lances de escada, um cheiro adocicado e enjoativo invadiu—lhe as narinas. Telles sentiu ligeiro mal—estar. Deixou de respirar pelo nariz e ficou só respirando pela boca. Assim, não precisava inalar aquele odor agridoce e malcheiroso.
Ele contornou a escada, ganhou o corredor. No fundo, ficava a suíte de Gregório. Assim que entrou, Telles voltou à cabeça para trás. Era uma cena deprimente e triste de se ver.
O corpo de Gregório estava deitado de costas na cama. Suas mãos estavam amarradas nas grades da cabeceira, com laços feitos de camisetas rasgadas. Os pés estavam envoltos por tiras de camisetas também. O corpo estava nu.
Telles respirou fundo pela boca e entrou. Aproximou—se do cadáver. A cor da pele de Gregório já adquirira o tom arroxeado. O corpo estava bem inchado e era praticamente impossível ver naquele corpo inerte a figura de Gregório Del Prate.
Seus olhos estavam esbugalhados, parecendo querer saltar das órbitas. A boca estava entupida por cuecas. Em todo o peito, marcas de sangue ressecado. As unhas dos dedos das mãos e dos pés estavam enegrecidas. Em virtude do tempo decorrido da morte, o corpo de Gregório estava em adiantado processo de decomposição. Partes da pele se desprendiam do corpo, e, o que é natural em casos assim, pelo lençol escorria quantidade considerável de matéria fecal, o que resultava nesse cheiro nauseante que impregnava o ambiente.
Telles meneou a cabeça para os lados de maneira negativa.
— Pobre homem – disse para si mesmo. – Que Deus se compadeça de sua alma.
Ele falou, fez o sinal da cruz e saiu. Voltou ao jardim de inverno e perguntou:
— Quem descobriu o corpo?
O caseiro, tímido, levantou a mão.
— Fui eu, doutor.
— Como foi? Quando o encontrou?
A empregada tomou a palavra, visto que o rapaz encontrava—se em estado de choque, sem condições de concatenar as idéias.
— Meu nome é Sueli. Tenho quarenta e três anos. Trabalho para o seu Gregório desde que ele veio de Bauru.
— Prossiga Sueli.
— Eu contei tudo ao outro investigador. Tenho de repetir?
— Se isso não a incomodar – Telles aproximou—se dela e tocou suas mãos. – Eu preciso muito saber o que aconteceu. Seu depoimento é de extrema importância para nós.
Ela concordou. Limpou o nariz com as costas da mão e iniciou seu relato:
— Sou responsável pela faxina da casa. Embora seja grande, eu dou conta de tudo, porquanto seu Gregório não permitia que se cozinhasse na casa. Fazíamos pedidos em restaurantes todos os dias, então eu tinha mais tempo para o meu serviço.
Sueli pigarreou e continuou:
— Todos os dias de manhã eu venho ao jardim de inverno e o limpo primeiro.
— Por quê?
— Porque é aqui que seu Gregório passa – ela consertou –, passava todas as noites. Era hábito. Ele podia chegar à hora que fosse. Tomava seu banho, botava o seu robe preto de seda, descia, comia algo e vinha para cá. Servia—se de bebida naquele barzinho – ela apontou para um carrinho mais à frente – e geralmente tomava uísque. Fumava bastante e sempre deixava a luz acesa e o som ligado. Era praxe.
— E por que só hoje você o encontrou? Não estranhou que ele ontem não estivesse aqui?
— Pois é. Ele me deu folga na quarta—feira. Disse—me que eu podia faltar na quinta e na sexta para resolver problemas pessoais. Seu Gregório era rude e afetado, mas era bom patrão.
— E o caseiro? Não sentiu falta do patrão?
— Décio nunca se meteu na vida de seu Gregório. Certa vez, ele ficou dois dias trancado no quarto. Dois dias – ela levantou a mão e fez sinal com os dedos. – Ficamos deveras preocupados. Eu e Décio batemos na porta e nada. Até que Décio pegou a chave reserva no escritório e abrimos o trinco.
Sueli levou as mãos à cabeça, envergonhada. Telles foi compreensivo.
— Se não quiser, não fale.
— Tudo bem. Eu nunca havia visto aquilo. O seu Gregório estava dormindo com outro homem, abraçado! Ficamos, eu e Décio, perplexos. A gente sabia que nosso patrão era homossexual, mas nunca tínhamos visto dois homens juntos.
Sueli meneou a cabeça para os lados.
— Prossiga – solicitou Telles, enquanto tomava nota em seu bloquinho.
— Levamos um puxão de orelhas, e ele disse que nunca mais deveríamos invadir sua privacidade. Não cometemos mais esse deslize. Entretanto, quando cheguei hoje cedo, o Décio comentou que o seu Gregório não saía do quarto a dois dias. Eu ri – ela levou a mão à boca, meio sem graça, por conta da ocasião – porque pensei que ele estivesse com alguém e procurei fazer meu serviço.
— Você veio até o jardim de inverno e.
— Estava como sempre eu o encontrava. Dois copos de bebida sobre a mesinha, o cinzeiro cheio de bitucas de cigarro. Exceto... – Sueli hesitou.
— Exceto? – inquiriu Telles, curioso.
— Havia algumas notas de dinheiro espalhadas, também notei o quadro que escondia o cofre lá no chão – ela apontou para o canto –, e esse bilhete... – Sueli meteu a mão no bolso do avental e pegou o bilhete. Entregou—o a Telles. Ele leu:
— Caio... O que quer dizer isso?
— Não sei. Parece à letra do seu Gregório, tinha esse nome escrito.
— Conhece algum Caio?
— Não me recordo doutor.
— Não viu nenhum estranho entrar aqui? Quem veio visitar Gregório nos últimos dias?
— Havia um moço, tal de Guido. Toda vez que vinha aqui ele e seu Gregório quase se pegavam no tapa. Gritavam e se insultavam. Mas sempre terminavam as discussões lá em cima – ela apontou, envergonhada.
— E teria visto esse Guido nesta semana?
— Faz algumas semanas que ele não aparece.
Telles continuou suas anotações.
— Como encontrou o corpo?
— Eu limpei tudo aqui. Deixei o jardim de inverno em ordem. Depois, arrumei a casa e por fim subi ao quarto. Aprendi a não incomodar seu Gregório, mas eu sentia um cheiro estranho no corredor. Muito estranho. Chamei o Décio e ficamos na dúvida, se batíamos ou não na porta. Algo me fez bater.
— E então?
— Batemos uma, duas, três vezes. Décio bateu com mais força e, mesmo correndo riscos, tivemos a sensação de que algo errado tinha ocorrido e resolvemos pegar a chave reserva – Sueli mal continha as lágrimas.
— E daí?
— Foi horrível. Assim que abrimos à porta, o cheiro nos pegou de surpresa. Eu quase desmaiei e o Décio correu ao banheiro do corredor. Teve ânsia.
— Encontraram o corpo desse mesmo jeito?
— Tinha uma camiseta sobre o rosto do seu Gregório. Eu não tive coragem de mexer. O Décio foi lá e puxou. Por esse motivo, ele ficou tão impressionado.
Telles aproximou—se do caseiro.
— Sente—se melhor?
— Sim, senhor. Depois do susto que tomei, creio que agora estou bem melhor.
— Você chegou a... – Telles deu uma olhada sobre as suas anotações – conhecer ou ver um rapaz chamado Guido?
— Conheci, sim. Ele vinha aqui de vez em quando. Dormia lá com o seu Gregório.
— Faz mais de semana que não o vê?
— Sim, senhor.
— Tem certeza?
Décio hesitou.
— Bom, na noite de quarta para quinta—feira os cachorros latiram bastante. Era pouco mais de quatro da manhã quando eu ouvi os latidos. Já havia escutado antes, por volta da uma da manhã. Mas desta vez os latidos estavam incomodando muito. Eu me levantei e fui checar. Vi um vulto pulando a grade do portão.
— Tem como identificar a pessoa?
— Não sei, não, senhor. Estava muito escuro e eu ainda estava assonado.
Paranhos aproximou—se.
— Vamos resolver esse caso num piscar de olhos. Só falta pegar esse tal de Caio.
— Como sabe que foi ele?
— A empregada não lavou os copos e mandamos checar as digitais. Se bater com as do rapaz, o caso está encerrado. Os repórteres vão sossegar, o secretário de segurança vai agradecer e os grupos de ativistas homossexuais vão aplaudir. E, obviamente, Genaro Del Prate vai ficar muito feliz. Esse caso é sopa no mel.
— Não sinto isso – contrapôs Telles. – Algo me diz que o buraco é mais embaixo.
Paranhos riu com desdém.
— O que foi? Algum ente do Além veio lhe cochichar alguma coisa?
— Não se trata disso. Algo me diz que estamos no caminho errado.
— Não me importa o caminho, desde que eu pegue o infeliz que cometeu esse crime e o bote atrás das grades.
— Vai demorar para sair o resultado das digitais.
— Engano seu. Os rapazes estão correndo a toda brida. A pressão é forte e querem solucionar esse caso o mais rápido possível.
— Entraram em contato com Genaro para cuidar do enterro?
— Ele deu uma declaração bombástica, que irritou muita gente, mas agradou em cheio àqueles setores mais endurecidos da sociedade.
— O que Genaro Del Prate disse?
— Que não fazia a mínima questão de quem fosse o criminoso. Queria, sim, que o culpado fosse preso e que acabassem logo com esse circo. Genaro afirmou que seu irmão tinha uma vida torpe, era homossexual – o que ele condena sobremaneira –, e recebeu o troco pelo seu comportamento antinatural. Genaro declarou à imprensa que a ira de Deus puniu seu irmão.
— Quanto absurdo numa única declaração – tornou Telles, perplexo.
— Acho que Genaro carregou na tinta do preconceito, mas o que fazer? Ele quer que seu eleitorado não pense que ele seja conivente com o comportamento sexual do irmão. Isso é jogada política. Mais nada.



CAPÍTULO 24


Caio trabalhou bastante naquele sábado. Deu duro para vender e ganhar boa comissão. Logo, talvez em um mês, teria condições de terminar de pagar o que devia ao Gregório, ele quisesse ou não.
O rapaz estava particularmente contente. Foi trabalhar bem vestido e levara uma mochila com roupas e apetrechos de uso pessoal. Iria sair do serviço, tomar banho na casa de um amigo, que também trabalhava no shopping, porquanto o rapaz morava perto da casa de Luísa.
Faltava pouco para fechar a loja, quando ouviram um burburinho lá fora. O falatório foi crescendo, crescendo e, em seguida, uma multidão parou na frente da loja. A gerente, as vendedoras e o próprio Caio entreolharam—se sem nada entender e deram de ombros. Não imaginavam o que poderia ser aquilo.
Um delegado entrou na loja, com pose arrogante e jeito exagerado. Dirigiu—se até Caio, visto que ele era o único homem ali presente.
— Caio Abrantes Souza?
— Sim, sou eu.
— Você está preso.
O burburinho foi geral. As pessoas falavam entre si, causando uma verdadeira bagunça na loja. A gerente aproximou—se e disse:
— Creio que o senhor esteja equivocado. Caio é bom funcionário, uma boa pessoa. Não podem entrar na minha loja, sem mais nem menos, e fazer uma acusação tão grave.
O delegado riu de maneira sarcástica.
— Eu tenho aqui uma intimação expedida pelo juiz. Enquanto levamos o rapaz para o distrito, pode ligar para a família dele e pedir um bom advogado.
Caio estava perturbado. Sua boca estava seca. Ele perguntou, pausadamente.
— Estou preso por quê?
O delegado fez suspense. Em seguida afirmou:
— Você está preso pelo assassinato de Gregório Del Prate.
A gritaria agora era geral. Dois policiais entraram na loja e algemaram Caio. Ele abaixou a cabeça de maneira triste. Não estava envergonhado. Estava triste, muito triste.
Caio foi levado à delegacia e passou horas dando à mesma declaração. Paranhos recebera ordens expressas e superiores de que deveria prender o rapaz. Genaro fizera muito barulho entre os militares e tudo foi feito de maneira muito rápida. Assim eles calavam a boca da imprensa.
Caio foi preso. Telles tentou argumentar.
— Isso não se faz. Mal abrimos inquérito policial.
— Ordens lá de cima – fez Paranhos com um movimento brusco de mão.
— E daí? A Divisão de Homicídios é conhecida como o braço da polícia com o maior número de policiais honestos. Fazemos um time que trabalha corretamente, mesmo sem ter recursos necessários para tal.
— Paciência. Eu cumpro ordens. O rapaz vai para o xilindró. A confissão dele, de que esteve na casa de Gregório na noite do crime, é prova suficiente para incriminá—lo e detê—lo. E tem mais, aqui não tem espaço para ele. Está superlotada.
O rapaz vai para uma cela no distrito do Marquês de Paranaguá. Talvez fique por lá até o julgamento.
— Vocês estão indo longe demais. Falando até em julgamento? Estão colocando a massa na frente do pão – protestou Telles. – Caio jura que saiu da casa de Gregório por volta da uma da manhã. Pegou um dos últimos ônibus do horário.
— Ele pode ter pego o primeiro ônibus que saiu da garagem, logo cedo. Quem garante? – perguntou Paranhos, de maneira duvidosa.
— Tomamos o depoimento de... – Telles deu uma passada de olho no inquérito – Célia Bastos, conhecida como Celinha. Ela declarou que viu Caio chegar a casa por volta de uma e meia da manhã.
— É a palavra dela contra a da acusação. E o caseiro? Ele confirmou que Caio foi o rapaz que pulou a grade do portão.
— O caseiro estava aturdido, nervoso. Décio me relatou que mal viu quem pulou. Podia ser Caio ou Guido.
Paranhos riu.
— Guido. Quem é esse Guido? Alguma ficha na polícia?
— Não.
— Alguém o viu?
— Também não.
— Porque não existe Guido algum. Se tivéssemos como encontrar esse rapaz – e acredito que ele não exista –, eu até relutaria em prender o pobre Caio. Mas cadê esse moço? Sumiu. Desapareceu. Escafedeu—se no mundo.
— Tem razão. O pior é que as impressões digitais num dos copos confere com as de Caio. Esse rapaz está metido numa encrenca braba. Entretanto...
Telles parou de falar. Fitou o nada, por alguns instantes. Paranhos inquiriu:
— Entretanto?
— Sinto que ele não cometeu esse crime. Caio é inocente.
— Teremos de provar isso.
— Paranhos, aí está um grave erro de nossa justiça.
Primeiro devemos checar todas as evidências, até que se prove a culpabilidade. Nós estamos começando errado. Esse menino é inocente.
Paranhos salientou:
— O Código de Processo Penal, datado de 1941, sofreu poucas modificações até hoje. O Código foi criado durante o Estado Novo de Getúlio Vargas. E, tanto Getúlio quanto nosso atual presidente, o general Figueiredo, valeram—se de ferramentas policialescas para governar.
— O despacho do juiz foi fundamentado sobre elementos probatórios e indício forte de autoria. Genaro fez tanta pressão, criou tanto caso lá em Brasília – Telles moveu os dedos para o alto – que o juiz decretou a prisão de Caio sob alegação de suspeita de que ele fuja, caso responda ao processo em liberdade.
— É uma truculência, mas estão se valendo da Lei.
— Caio vai ter de aguardar a sentença na delegacia e só será transferido para a Penitenciária do Carandiru após sentença condenatória definitiva.
— Acredita que isso vá acontecer?
— Algo me diz que não. Sinto isso – tornou Telles.
Paranhos riu alto.
— O que foi? Algum espírito veio tagarelar e contar—lhe algo que não sabemos?
— Deixe de brincadeira. Ninguém veio me procurar. É minha consciência que me chama para a realidade.
— Diga isso ao juiz amigo de Genaro. Quero ver o que ele vai mandar você fazer com sua consciência.
Paranhos continuou a rir e deixou a sala de Telles. O delegado estava sem forças. Havia feito de tudo para que Caio não fosse preso, mas em vão. A correria dentro da corporação, pressionada pelos militares, acelerou a prisão de Caio. Algumas evidências apontavam para ele, mas não eram suficientes para que ele fosse preso.
— Se fosse rico – disse Telles para si mesmo – ele nem iria para a cadeia.
Pagaria fiança, contrataria um bom advogado e responderia ao crime, se é que o cometeu, em liberdade. Infelizmente, o rapaz não tem recursos e vai amargar o diabo.
Telles sabia de alguma forma, que Caio não tinha cometido aquele crime. Tinha plena certeza de que o autor do crime fora Guido. Mas e Guido? Quem era esse moço? Onde estava? Por que sumira do mapa?
Guido efetivamente desaparecera. Sumira da vida de todos. Por ora.


****

Rosalina teve de ser acudida e levada a um pronto—socorro quando soube do que ocorrera com seu filho.
— Ele não faria uma coisa dessas. Caio é um bom menino— repetia intermináveis vezes.
— Sabemos disso – declarou Fani. – Mas o que fazer? Ele é acusado de ter matado uma pessoa importante, conhecida. O irmão da vítima é um político famoso também. Caio se meteu com gente graúda, influente e inescrupulosa. Até que prove o contrário, vai ficar preso.
— Não posso concordar com isso. Onde está a justiça neste país? Será que ela é mesmo cega?
— Não se aflija – interferiu José. – Estamos do seu lado. Também vamos dar todo o suporte necessário a Caio.
— Eu conheço um bom advogado – tornou Fani.
— Custa dinheiro. É caro – protestou Rosalina. – Meu filho não merece passar por tudo isso.
Rosalina foi medicada e o médico exigiu que ela repousasse por alguns dias. Mas ela não era mulher de ficar parada e, no dia imediato, em equilíbrio, resolveu visitar o filho na cadeia.
O distrito policial, na Marquês de Paranaguá, ficava numa rua tranqüila e arborizada, encravada na região do bairro da Consolação. Rosalina decorou o trajeto. Tomava o ônibus na Rua Brigadeiro Luís Antônio.
O ônibus dava uma volta enorme, contornava o centro e subia a Rua Martins Fontes, sentido Paulista. Quando a rua mudava de nome para Augusta, Rosalina puxava a cordinha e descia quase na esquina do distrito.
Era com pesar que ela entrava e ia ao encontro do filho, metido numa cela com mais quatro rapazes. Rosalina procurava conter o pranto. Aquilo não era justo, embora, neste dia em particular, ela precisava falar com o filho. Tinha recebido recado de Norma.
Rosalina cumprimentou algumas pessoas e, como era conhecida, foi levada pelo carcereiro para ver o filho.
O aspecto de Caio era desolador. As olheiras se faziam notar. Ele havia emagrecido, sua pele adquirira cor pálida. Ele mal se alimentava, não queria saber de mais nada. A vida, para ele, acabara no exato instante em que seus pulsos foram agraciados com aquele incômodo par de algemas.
— Trouxe um pedaço de bolo de cenoura. Você adora.
— Não quero mãe. Estou sem fome.
— Precisa se alimentar. Como pode querer ficar bem se não se ajuda?
— E me ajudar para quê? Quantos dias choramos juntos? Eu e você perdemos as esperanças. Creio que minha vida vai se encerrar aqui, dentro das grades.
— Eu não penso assim.
— Você mesma estava tão desiludida. O advogado que Fani conseguiu afirmou que irei a júri e tenho chance quase nula de ser absolvido. Disse que o juiz que expediu o mandato de prisão é amigo do Genaro. Amigo íntimo. Pode uma coisa dessas?
— Não ligo para isso. Estou confiante.
— Por quê? – o semblante dele iluminou—se por um momento. – Teve notícias de Guido? Ele apareceu?
Rosalina meneou a cabeça para os lados.
— Não, meu filho. Esse seu amigo sumiu do mapa. Parece que tomou um bom chá de sumiço.
O rosto dele voltou a entristecer—se.
— Guido nunca vai aparecer. Eu sei que houve algo entre ele e o Gregório naquela noite. Guido está metido até o pescoço com esse crime. Todavia, como vamos encontrá—lo?
— Não sei meu filho. Precisamos confiar na justiça.
— Na justiça dos homens? – ele riu com desdém. – Ela é falha, porque foi feita pelo homem. O homem não é perfeito.
— Mas se não houvessem leis, o mundo estaria perdido. Infelizmente, injustiças acontecem, mas precisamos de leis. No estágio em que nos encontramos na Terra, elas são importantes para manter a ordem social. Eu... – Rosalina hesitou por instantes, sentiu coragem e continuou: — eu recebi um comunicado de sua irmã.
Caio deu um passo para trás. Encarou a mãe com espanto.
— De novo isso? Como pode?
— Norma esteve comigo. Dessa vez foi diferente.
— Outra carta? – ele perguntou com desdém.
— Não. Ela deu comunicação no Centro da Mafalda. Não fui só eu que ouvi. Maximiliano, Renata e até Luísa ouviram o médium transmitir o recado de Norma.
Caio esboçou leve sorriso. A imagem de Luísa veio à sua mente e ele não pôde deixar de sentir imensa saudade.
— Luísa deve estar decepcionada comigo. Imagine se meter com um rapaz dito criminoso!
— Ela não se deixa levar pelas aparências. Luísa é moça culta e sensível. Ora por você todos os dias.
— Nunca veio me ver.
— Talvez ela tenha seus motivos.
— Diga a ela para vir me ver, mãe, por favor.
— Vou tentar. Na próxima reunião no Centro Espírita, falarei com ela. Agora trouxe o recado que todos eles, não só eu, recebemos de sua irmã.
Caio encarou a mãe com ar desconfiado.
— O que Norma disse dessa vez?
— Que você não é o culpado.
— Grande coisa. E quem vai acreditar num espírito?
— Norma disse que o seu espírito – apontou para Caio – desejava passar por essa experiência, a fim de aplacar a culpa que sentia por atos irresponsáveis do passado.
— Não creio que pediria uma coisa dessas. Por que sofrer?
— Você escolheu. Poderia ser de maneira inteligente, por outros meios, mas você escolheu este caminho.
— Não me lembro de ter escolhido isso. É tudo balela.
— Norma garantiu que não. Você e Gregório traziam situações mal resolvidas do passado.
— Mas eu não o matei, mãe! O que é que eu tinha de resolver, ora bolas?
— Não sei ao certo. Tudo aparece no seu devido tempo. A verdade pode demorar, mas uma hora aparece.
— Duvido.
— Todos ficaram impressionados na reunião. Sua irmã falava com propriedade. Disse que logo você vai sair da cadeia. Esse tempo servirá para você descansar, digamos assim.
— Descansar?!
— Sim. Poderá refletir sobre sua vida, pensar no que vai fazer no futuro. Você era muito desmiolado, filho. Veio a São Paulo e, em vez de batalhar pela sua carreira de modelo, preferiu o sexo fácil, afastou—se de seu verdadeiro caminho.
Caio não sabia o que dizer. Rosalina jamais poderia saber de sua vida promíscua assim que chegara a São Paulo. Como ela soubera disso? Quem lhe contara, porquanto Guido era o único que sabia e estava desaparecido. Ou José teria lhe traído a confiança?
Antes que ele pudesse formular uma pergunta, Rosalina disparou:
— Norma me contou. Tudo. Disse que vibrou muito para que você pudesse captar os pensamentos dela e sair daquela vida que iria destruí—lo. Afirmou também que você estava sendo ameaçado por outro crime que não cometeu.
Caio não podia acreditar no que ouvia. Será que existia mesmo essa outra dimensão?
Será que havia um mundo espiritual, ligado ao nosso mundo físico? Será que as pessoas morriam e iam para esse tal mundo? As perguntas fervilhavam—lhe a cabeça. De repente, Rosalina retorquiu:
— Você deve confiar na justiça divina. Ela não falha, jamais. Sua irmã mandou lhe dizer que vão descobrir quem matou Loreta. Você não é o culpado, embora tenha sido chantageado.
As lágrimas corriam—lhe sem cessar. Caio estava deveras emocionado. Rosalina falava tudo o que se passara com ele nos últimos tempos. Como ela podia saber de tanta coisa?
Ele, triste, aproximou—se das grades e estendeu os braços para Rosalina.
— Mãe, ajude—me a entender esse mundo espiritual. Pensei que estivesse ficando louca, que não queria aceitar a morte de Norma, mas vejo que tem razão. O espírito de minha amada irmã deve estar ao seu lado. Tudo o que você me disse agora – ele falava com voz entrecortada por soluços – é a pura verdade. Eu me atirei ao sexo fácil, vendi meu corpo, fui influenciado por Guido. Poderia adotar outro comportamento, mas me deixei levar pelo dinheiro que aparecia fácil. Algo dentro de mim dizia que aquilo não estava correto, que eu devia mudar.
— Era sua irmã, meu filho. O espírito de Norma sempre o acompanhou.
Ele ruborizou.
— Sempre?
— Sim. Norma presenciou muita coisa. Até o que não devia.
Caio enxugou os olhos com as costas das mãos.
— Ela é meu anjo bom. Assim como Sarita o foi.
— Fani foi a Bauru para o casamento de Sarita.
Ele esboçou largo sorriso, mostrando seus dentes alvos e perfeitos.
— Pelo menos uma notícia boa nessa fase ruim.
— Sempre gostei muito dessa menina.
— O meu anjo vai se casar? Com quem?
— Não sei, mas parece que será um grande evento. Fani me garantiu que Sarita está feliz.
— Sinto tanta saudade dela. Ela me ajudou tanto. Gostaria muito de reencontrá—la.
— Quando sair daqui, poderá ir ao seu encontro. Não crê que está na hora de voltar—se para o conhecimento do mundo espiritual? Vai ficar na cadeia pensando em quê? Em bobagens? Não acha melhor, depois do que eu lhe falei de Norma, começar a ler alguns livros e abrir sua cabeça para as verdades da vida?
— Tem razão, mãe. Depois do que me falou, não tenho dúvidas de que Norma está a meu lado. Mas não entendo nada. Sou muito cru.
— Não importa – Rosalina sorriu. – Eu sabia que você iria me escutar e abrir seu coraçãozinho combalido para a espiritualidade. Tomei a liberdade de trazer alguns livros para você.
Rosalina tirou da sacola três livros. Passou—os por entre as grades.
— São fáceis de entender, mãe?
— Claro. Um é O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec. Este livro é à base de estudo de qualquer pessoa que queira entender o mundo espiritual que nos cerca. É composto de perguntas e respostas. Trata—se de um livro de fácil leitura, porém riquíssimo em ensinamentos.
Caio olhou para o livro de capa dura. Abriu—o e deu uma folheada.
— Incrível! Há resposta para tudo.
— Pois bem – tornou Rosalina –, esse outro é mais técnico, fala sobre a reencarnação. E esse terceiro é um romance.
— Romance?
— Sim. Romance espírita. Nesse tipo de livro encontramos também muitos ensinamentos. Este aqui chama—se Entre o amor e a guerra, de Zibia Gasparetto. Tenho outros romances dela. Se você gostar desse aí – ela apontou para a capa do romance –, eu trago os outros para você ler.
— Obrigado, mãe. Creio que agora terei tempo de sobra para ler esses livros todos. Sabe que até senti fome? Vou querer um pedaço desse bolo de cenoura.
Um companheiro de cela, ligado na conversa, objetou:
— Sejam democráticos. Dêem um pedaço para cada um de nós.
Rosalina sorriu.
— Eu trouxe bolo para todos vocês. Vamos, peguem seus pedaços.
Os rapazes aproximaram—se e pegaram uma fatia de bolo. Caio pegou a sua e, depois que ele comeu, Rosalina despediu—se. Precisava voltar para a pensão, porquanto Fani estava viajando e ela e José tornavam—se responsáveis por tudo o que lá acontecia quando a patroa viajava.
Caio sentiu uma leve brisa acariciar seu rosto. Lembrou—se de Norma. Intimamente, pensou:
"Você me vê, irmã? Você me escuta? Será que continua me acompanhando?"
Ele não percebeu, mas o espírito de Norma estava a seu lado na prisão. Uma lágrima escorreu pelo canto de seu olho. Ela acariciou seus cabelos em desalinho e tornou com a voz amável:
— Estarei sempre a seu lado, meu irmão. Prometo que assim que seu espírito amadurecer e livrar—se da culpa do passado, os fatos vão se desenrolar de outra maneira, em direção à felicidade. Tenho certeza de que agradáveis surpresas virão. Para o bem de todos.
Norma o beijou na fronte e sumiu. Caio pegou O Livro dos Espíritos e começou a ler. Interessou—se amiúde e manteve—se na leitura por horas a fio. Seu espírito começava a se libertar, efetivamente, das situações mal resolvidas que ele se impusera no passado.



CAPÍTULO 25


Luísa estava sentada numa poltrona, folheando uma revista de moda. Seu olhar estava perdido, alheio. Ela mal prestava atenção nas páginas. Suas mãos viravam as folhas de maneira automática.
Sua mente voltou alguns meses atrás. Ela ainda se sentia desconfortável com tudo o que tinha ocorrido. Ainda lembrava bem daquela sexta—feira. Fora ao mercado, parecendo uma adolescente apaixonada. Comprara os ingredientes para o jantar de sábado, escolhera, inclusive, um bom vinho branco para acompanhar a refeição. Chegara à casa feliz e radiante.
No sábado, arrumou a casa com apuro. A mesa de jantar estava repleta de candelabros e velas acesas iluminavam o ambiente, de maneira romântica e acolhedora. Eunice a ajudou nos detalhes, desde a escolha da toalha branca de linho, passando pelos talheres, louças, guardanapos e taças.
A decoração do ambiente estava primorosa, não havia nada a acrescentar ou tirar. Estava tudo perfeito.
As horas foram se aproximando e a ansiedade estava difícil de ser controlada. O relógio da sala deu dez badaladas. O coração de Luísa veio à boca.
— Ele vai chegar logo – disse, sorrindo para si mesma.
Dez e meia. Onze horas. O interfone tocou e ela correu a atender. Era Malaquias, informando que o entregador de pizza estava lá embaixo.
— Eu não pedi pizza, Malaquias.
O porteiro tapou a boca do fone e percebeu que o entregador se confundira com o apartamento.
— Desculpe—me, D. Luísa, ele se enganou com o número.
Ela aproveitou:
— Malaquias, alguém apareceu aí na portaria à minha procura?
— Não, senhora.
— Não apareceu ninguém aí às dez da noite?
— Nada.
— Obrigada.
Ela desligou o interfone e a expressão em seu rosto não era das melhores. Eunice procurou contemporizar.
— Ele disse que trabalha muito no sábado. Vai ver teve de ficar até mais tarde. Vamos aguardar.
— Ele podia ao menos ter me ligado e dito que ia se atrasar. Odeio essa falta de pontualidade nas pessoas.
— Calma querida – Eunice serviu—a de uma taça de vinho branco. – Tome um pouco. Relaxe. Ele vem logo.
Luísa quis acreditar naquilo. Bebericou seu vinho e voltou para a sala. Esperou, esperou, até cochilar. Acordou com a mão de Eunice apoiada delicadamente sobre seu ombro. Ela despertou e levantou—se rápida.
— Ele está aí? Caio chegou?
— Não. Já passa das duas da manhã. Vamos nos deitar.
Luísa fez o possível para segurar as lágrimas. Nunca se sentira tão humilhada. Seu coração a enganara, pensou. Caio não estava interessado nela. Bem que ela percebeu seu mutismo ao telefone, quando o convidou. Ele não quis ser indelicado e dizer—lhe não. Foi isso! Caio aceitou o convite porque ela foi insistente. E ele era mais jovem. É obvio que tinha preferência por meninas de sua idade.
O turbilhão de emoções e pensamentos não parava de bombardear—lhe a mente. Luísa precisou de um bom tempo para pegar no sono. Dormiu até quase meio—dia.
Eunice a despertou com o semblante carregado de preocupação.
— O que foi?
— Maximiliano e Renata estão na sala. Querem lhe falar, com urgência.
— Estou com dor de cabeça. Dormi muito mal. Diga—lhes para passar aqui outra hora.
Não foi preciso Eunice ir até eles. Renata entrou no quarto e, antes que Luísa lhe fizesse uma reprimenda, ela disparou:
— Caio foi preso.
As palavras demoraram para surtir efeito em sua cabeça. Luísa ia perguntar novamente, entretanto Renata contrapôs:
— Caio foi preso ontem à noite.
Luísa remexeu—se na cama. Ajeitou o corpo, sentou—se.
— O que me diz?
— Isso mesmo que você ouviu amiga.
— Como foi? O que aconteceu?
— Ele está sendo acusado de ter matado Gregório Del Prate, seu ex—cunhado.
— Caio?
— Hum, hum.
— Ele conhecia Gregório? Como?
— Não sabemos ao certo, Luísa, mas as emissoras de TV não falam noutra coisa. As imagens da entrada dele no distrito policial passam de cinco em cinco minutos. Quer ver?
Renata foi até o aparelho de TV e o ligou. Colocou em um canal que estava dedicando o horário à cobertura do crime.
— É ele! – exclamou Luísa.
— Teve de ver com seus próprios olhos.
— Mas como?
— Eu e Max fomos até a pensão e prestamos nossa ajuda à Rosalina. Mafalda nos ligou e pediu que fizéssemos orações pelo espírito de Gregório e Caio.
Ambos precisam de muita vibração positiva.
Luísa demorou para concatenar os pensamentos. Sua mente voltou para a revista que folheava. Fazia alguns meses que separavam este dia daquele longíquo domingo, quando soube do crime pela TV. Ao saber do envolvimento de Caio com Gregório, sentiu—se mal, muito mal. Não teve coragem para visitar Caio e ouvir o seu lado da história.
Ela estava ficando paranóica, louca mesmo. Pensava em Caio todos os dias, todas as horas. Rezava por ele, fazia vibrações no Centro. Entretanto, tinha medo de visitá—lo. No fundo, ela acreditava que Caio tinha se aproximado dela por interesse. Ele era amigo – ou talvez amante de Gregório, vai saber... – e estava tripudiado sobre seus sentimentos.
Mas por que Luísa acreditava numa sandice dessas?
Ora, porque o espírito de Gregório, mesmo sabendo quem havia matado seu corpo físico, procurava incutir na mente de Luísa essas idéias disparatadas. Gregório ainda estava cego de paixão e não permitia ou queria que ninguém se aproximasse de Caio.
Ele ainda estava preso ao passado e sua cabeça, perdida e atordoada pela maneira brutal com que perdera a vida física, assim que tinha chance, aproximava—se de Luísa e inspirava—lhe esses pensamentos dúbios.
Luísa, invigilante nos pensamentos, acreditava que tudo o que passava em sua mente era dela e de sua intuição. Não suspeitava que pudesse estar sendo influenciada por um espírito.
Ela freqüentava o Centro Espírita, fazia os trabalhos, mas não levava os estudos a sério. Sentia—se útil em ajudar as pessoas, mas não fazia muito esforço para entender melhor o mundo espiritual e a si mesma.
Como havia se livrado de Genaro e agora se sentia mais forte, Luísa acreditava que não precisava ir fundo nos estudos espirituais. Estava tudo indo muito bem em sua vida, por que estudar sobre o invisível? Ela tinha mais o que fazer.
Luísa acreditava, lá no fundo, que a maneira séria com que Renata e Max se debruçavam sobre os estudos espirituais era falta de alguém em suas vidas. Se amassem ou fossem amados – acreditava ela – eles não dariam tanta importância aos estudos espíritas.
Ledo engano. A mente de Luísa começava a receber assédio de espíritos que não gostavam de quem se interessava pelos estudos espíritas. Havia um bando – como há até hoje no nosso mundo – de espíritos cuja única função é espalhar a descrença e semear a ignorância espiritual sobre os encarnados. Como muitos sempre andam com a cabeça solta, deixam—se levar e invadir por todo e qualquer tipo de pensamento, sem ao menos, dar—se ao trabalho de checar o que é seu e o que não é.
Fazia quatro meses que Caio estava preso e Luísa ainda não havia lhe feito uma visita sequer. Embora estivesse com a mente embaralhada, ela sofria. Seu coraçãozinho, impotente, gritava, debatia—se, tentava mostrar a Luísa que ela estava se distanciando de seu grande amor, influenciada por pensamentos que não eram seus.
Sentindo—se atordoada, e inspirada pelo espírito de Loreta, certa noite Luísa aguardou o fim dos trabalhos espirituais e foi ao encontro de Mafalda.
— Preciso falar com você.
— Eu sei, os espíritos me avisaram. Venha, vamos até uma sala reservada.
Mafalda despediu—se dos demais e, em seguida, conduziu Luísa até sua sala.
— Pois bem, acredita que agora poderá mudar o teor de seus pensamentos?
— Do que está falando?
— Eu prezo muito pelo seu bem—estar, Luísa – disse Mafalda com uma voz para lá de amorosa. – Sei que está sendo assediada por um espírito perturbado e, invigilante, sem tomar conta dos seus próprios pensamentos, acredita que tudo seja fruto de sua cabeça.
— E não é?
— Não, minha querida. Você está sofrendo forte interferência espiritual.
— Eu não sinto nada e....
— Não sente, mas pensa – declarou Mafalda. – Pensa que tudo que passa pela sua cabeça é seu?
— E não é?
— Nunca parou para pensar que, muitas vezes, captamos os pensamentos dos outros, sejam encarnados ou desencarnados? Não estudou o assunto aqui no Centro?
Luísa sentiu a face arder. Aprendera sobre o domínio dos próprios pensamentos, nunca se esquecera da aula em que aprendera o verdadeiro sentido de "Orai e Vigiai", tão pregado pelos espíritos. Mafalda percebeu—lhe os pensamentos.
— Orai e vigiai. Temos de prestar atenção aos nossos pensamentos. Não podemos aceitar tudo o que invade nossa mente como sendo nosso.
— Sei disso, mas é difícil saber e separar o que é meu e o que não é.
— Ora, tenha um pouco mais de paciência consigo mesma – ajuntou Mafalda. – Quando um pensamento ruim se apossar de sua mente, pergunte se ele é seu ou de outros, não importando se for de gente encarnada ou de espírito. Tanto faz. O importante é saber selecionar o que entra e permanece em nossa mente. Esse exercício compete somente a nós e mais ninguém.
Uma lágrima escapou pelo canto do olho de Luísa.
— Eu sinto que às vezes minha cabeça fica bastante tumultuada. Eu tento combater, mas os pensamentos continuam a me perturbar.
— Pela sua invigilância, está sofrendo forte ataque espiritual. Gregório está em sua cola.
— Gregório? – perguntou Luísa, de maneira espantada.
— Sim. O espírito de Gregório aproveitou a sua falta de atenção nos pensamentos e a está bombardeando com energias negativas.
Ele está fazendo com que você sinta medo, raiva, angústia.
Luísa estava estupefata.
— Por que o espírito de Gregório se ligaria em mim? Nunca tivemos nada em comum. Eu o vi pouquíssimas vezes nesta vida. Não compreendo.
A voz de Mafalda era doce, porém firme.
— O véu do passado não permite que saibamos de muitas coisas, única e exclusivamente para o nosso próprio bem. De que adiantaria ter acesso às vidas passadas?
— Facilitaria em muitas coisas.
— Como assim Luísa? – perguntou Mafalda, de maneira desafiadora. – Acaso acha que, o filho que descobre ter sido assassinado pelo pai numa outra vida terá condições de perdoá—lo e de amá—lo? Ou mesmo de manter com esse pai um convívio saudável? Será que uma mãe dará à luz um filho que, numa outra época passada a tenha feito infeliz? Será que não saber do passado acaba por se tornar ferramenta útil voltada para o nosso crescimento espiritual?
— Faz sentido. Mas não consigo, em hipótese alguma, entender por que Gregório está me assediando.
— Vocês estão vibrando no mesmo padrão energético, em primeiro lugar. Você anda negativa, descrente do futuro, acredita que a vida tenha perdido seu brilho e não faz força para mudar essa atitude de prostração que maltrata sua aura. Segundo, porque você, Gregório e Caio estão ligados pelas teias do passado. Vocês estão recebendo a chance de desfazer os laços de rancor que os prendem há algumas vidas.
As lágrimas escorriam sem cessar. Luísa levou a mão à boca para abafar os soluços. Não conseguia ter certeza, mas algo lá no cantinho de sua alma parecia constatar, parecia acreditar piamente em tudo o que Mafalda lhe falava. Sentia que tudo aquilo fazia sentido e tratava—se da mais pura verdade.
Ela pousou suas mãos nas de Mafalda.
— Não sei como agradecê—la. Tenho vontade de falar com Caio, de procurar—lhe, dar—lhe meu apoio enquanto está preso, entretanto uma força me impede.
– Impedia – corrigiu Mafalda. – Nesta noite, com a permissão do Alto, o espírito de Gregório foi afastado de você. Se mudar o teor de seus pensamentos e mantiver—se—se vigilante, sabendo selecionar o que entra em sua mente – apontou para sua cabeça – nem Gregório, nem mesmo outro espírito, nem mesmo um encarnado poderá aproveitar—se e incutir—lhe na mente pensamentos negativos.
— E os pensamentos dos bons espíritos? Não vou captar nunca mais?
— Esses vamos sempre captar, caso estejamos de bem conosco mesmos, em equilíbrio. Quando estamos invigilantes e não temos controle de nossa mente, os bons amigos espirituais não conseguem se aproximar. Fica muito difícil captarmos o que eles nos inspiram quando estamos invigilantes, em desequilíbrio.
— Eu não tenho como agradecer, Mafalda. Sinto como se um peso muito grande fosse retirado de minhas costas e minha cabeça. Sinto—me inclusive mais leve.
— É que agora você não tem companhias espirituais que a atormentam.
— Gregório foi mesmo afastado?
— Sim, esta noite. Tentamos encaminhá—lo para doutrinação, mas ele recusou—se terminantemente. Há muitos espíritos desafetos que o estão perseguindo. Gregório está colhendo o que plantou. Mas, em hipótese alguma, devemos julgá—lo. Pelo contrário. Todos somos filhos do mesmo Pai e devemos, ao menos, vibrar pelo espírito atormentado de Gregório. Seu nome está na caixa de orações do nosso Centro. Espero que essas orações aliviem seu sofrimento e possam ajudá—lo a despertar e dar novo passo no caminho de sua evolução.
Luísa despediu—se de Mafalda e saiu do Centro sentindo—se mais leve.
Em seguida, tirou as luvas cheias de sangue e as colocou no bolso. Pegou novo par de luvas e as meteu nas mãos. Olhou ao redor para ver se tinha deixado algum vestígio. Nada.
O assassino desceu as escadas, jogou sobre a mesinha uma carta que Gregório começara a escrever, tentou abrir o cofre, mas não conseguiu. Depois, pegou o maço de dinheiros que estava sobre a mesa, enfiou na jaqueta de náilon e saiu. Os cachorros, acostumados com ele, latiram muito, mas não o morderam. Ele pôde tranqüilamente ganhar o pátio, contornar a piscina, passar pelo jardim e pular o portão, escalando as enormes grades de ferro.
Décio viu o vulto pular o portão e ganhar a rua nesta hora. Eram quase cinco da manhã.
Gregório atordoado viu—se assediado por sombras escuras. Ele não conseguia lhes perceber a forma. Somente ouvia gemidos e gritos desesperados. Eram vozes, as mais variadas, cobrando—lhe satisfações de coisas que ele mal se lembrava de ter feito.
Desesperado com o número crescente de sombras ao seu redor, o espírito de Gregório ajoelhou—se, e, mesmo sentindo uma dor aguda no peito, lembrou—se de Maximiliano, conhecido seu. Max e ele não eram amigos, mas, sem saber o porquê, Gregório lembrou—se dele e assim foi arremessado para o quarto de Max.
Foi então que Max teve o sonho. Ou pesadelo. O espírito atormentado de Gregório tocou—lhe o perispírito e pediu por ajuda. Max, sem saber direito o que ocorria, ofereceu—lhe o quarto de hóspedes e voltou a dormir. Gregório acreditou que lá estaria seguro, entretanto, logo em seguida as sombras reapareceram e levaram—no de lá.
Começou o sofrimento de Gregório. Passou a ser assediado por essas sombras e por espíritos de baixa vibração ligados a elas. Embora tenha sido, quando encarnado, amoral e sem escrúpulos, ele trazia em sua memória espiritual a brutalidade que usara em outras vidas.
Logo, tomou ciência de sua força, botou as sombras, as vozes murmurantes e os espíritos para correr e passou a andar a esmo, perdido e desorientado.
Certa vez, um espírito de luz ofereceu—lhe ajuda. Gregório recusou. Noutra vez, quando tencionava perseguir seu assassino, seus planos mudaram. Gregório teve um lampejo de sua vida passada e, desta feita, passou a assediar Luísa. Aproveitou que ela andava amuada e triste, invigilante nos pensamentos, e colou—se a aura dela.
Nesta noite, os espíritos que trabalhavam no Centro Espírita conseguiram atraí—lo para a sala em que eram realizadas incorporações e doutrinação de espíritos, digamos, perturbados e sofredores.
Cabe ressaltar que, esse tipo de trabalho espiritual é feito por médiuns experientes que estudam com afinco a espiritualidade. Precisam ter muito equilíbrio e serem donos absolutos de seus pensamentos, a fim de não caírem na lábia dos espíritos empedernidos.
A doutrinação, no caso, nada mais é do que um bate—papo sincero e amigo, a fim de que o espírito possa tomar consciência de seu novo estado e ser encaminhado a uma estação de tratamento espiritual.
Loreta interveio e tentou prestar algum tipo de ajuda a ele. Em vão. Nada adiantava.
Gregório recusou—se terminantemente a receber ajuda. Saiu do Centro gritando impropérios. Esperou que Luísa saísse de lá para continuar a assediá—la. Mas algo de errado aconteceu, porquanto ele não conseguia aproximar—se dela. Era como se Luísa estivesse envolta por uma rede invisível de proteção. Gregório tentava lhe influenciar os pensamentos, porém Luísa não os captava, de forma alguma.
Louco de raiva, Gregório correu até Caio. Talvez o rapaz, triste e revoltado por estar indevidamente preso, poderia dar—lhe passagem.
— Vocês não vão ficar juntos – vociferou Gregório, enquanto fechava os olhos e mentalizava o rosto de Caio, a fim de ir ao seu encontro. – Eu juro que prefiro separar vocês a ir atrás de meu assassino.



CAPÍTULO 26


Telles coçou a barba espessa, porém bem aparada. Estava intrigado. Sentia ser assediado por amigos espirituais do bem, espíritos de luz que lhe incutiam na mente o desejo de ir além nas investigações do assassinato de Gregório Del Prate.
O secretário de segurança deixara de ser incomodado, Genaro estava tranqüilo, a TV e os jornais não deram mais atenção ao caso. A sociedade, como de costume, deixara de fazer alarde e logo esqueceu do crime.
Caio estava preso há quase um ano e, em breve, iria a julgamento. Não podiam fazer mais nada, afinal Guido, que poderia prestar alguma ajuda um esclarecimento, uma luz sobre o caso, estava desaparecido. E ninguém conhecia esse tal de Guido.
Telles acreditava na inocência de Caio. Mas o que fazer? Como apresentar evidências que pudessem mudar o rumo do caso?
O delegado meneou a cabeça para os lados. Zulmira o chamou a atenção.
— Filho, você veio até aqui me visitar e mal tocou na comida.
— Desculpe—me, mamãe – tornou ele com a voz cansada. – Estou sem fome. Perdi o apetite.
Zulmira zangou—se.
— José Carlos! – bradou ela. Aliás, ela sempre o chamava pelo nome, principalmente quando estava nervosa. – Você sempre foi de ter apetite de leão! O que está acontecendo? Algum amor mal correspondido?
Ele riu.
— Quem me dera! – exclamou ele, desiludido. – As mulheres não querem mais saber de relacionamento sério. Ganharam destaque na sociedade, são donas de seu nariz. Eu até tento algo sério, mas elas querem só se aproveitar do meu corpinho.
Zulmira riu gostoso.
— Tenho a plena convicção de que você vai encontrar a moça certa, na hora certa.
— Será?
— Sim. Todos nós temos direito à felicidade e de compartilhar a vida ao lado de alguém que possamos amar. Ser amados também ajuda, e muito, a ter uma vida mais colorida.
— Estou desacreditado. Posso parecer um homem sisudo, talvez pela minha barba e meu porte, mas não passo de um romântico inveterado. Lembra—se de como chorei feito criança no dia que soube da morte da Elis Regina?
— Lembro—me como se fosse hoje.
— Sempre sonhei em enlaçar uma mulher e dançar ao som de Dois pra lá, dois pra cá. Mas essas moças que encontro zomba desse meu comportamento romântico. Teve até uma que me chamou de frouxo.
— Azar o dela. Você é tão bonito – ela acariciou seu rosto –, tão inteligente. Tem feito brilhante carreira na polícia. Ponha em sua cabeça que você é excelente partido. E, no dia em que uma mulher reconhecer tudo de bom que você pode oferecer essa sim, será a companheira ideal que vai estar a seu lado, seja nos momentos bons, seja nos momentos ruins. E ainda vai lhe dar uma penca de filhos. Você sempre sonhou com uma família grande...
Telles sorriu e seus olhos fitaram o infinito.
— Quem me dera. Espero que um dia eu possa encontrar essa mulher. Onde será que ela se esconde?
— Talvez esteja muito próxima. Quem sabe?
— É, mãe, quem sabe.
— Bom, se você não está amuado por conta de um amor não correspondido, o que o faz ficar prostrado desse jeito?
— É o caso do rapaz preso pelo assassinato do empresário Gregório Del Prate. Não me conformo com a injustiça que estão cometendo com o Caio. Eu sinto que ele é um bom moço e que diz a verdade. Acredito em sua inocência.
— Entretanto, ele vai a julgamento.
— Pois é. As poucas evidências apresentadas contra ele foram acatadas de maneira incontestável. Todos queriam uma solução rápida para calar a imprensa e os grupos de defesa dos homossexuais. O irmão da vitima é político muito bem relacionado e comprou até o juiz, que expediu o mandato de prisão. Mas estão sendo injustos com o menino. Eu tenho ouvido as vozes...
Zulmira pendeu a cabeça para cima e para baixo.
— Sei como se sente. Lembro—me como se fosse hoje do caso da Lena Alcântara. Graças aos espíritos, e graças a você, o assassino foi condenado e está preso. Tem sentido o mesmo em relação ao Caio?
— Sim. Ouço uma voz feminina que insiste na busca da verdade. Ela me assegura que há provas que podem livrá—lo do eminente julgamento.
— Você poderia ir comigo ao Centro Espírita. Fui lá por conta daquele nódulo que me tirou noites de sono. Graças a Deus, hoje não tenho mais nada. Aprendi muito sobre espiritualidade e sou grata à casa espírita. Nessa mesma casa eu conheci a mãe do Caio. Trata—se de mulher correta, de caráter. Sempre enviamos vibrações para ele. Mafalda, a dirigente do Centro, afirma que, em breve, o caso vai se resolver.
— Mas como? Eu só ouço a voz, mais nada.
Se ao menos eu conseguisse captar o que ela quer me dizer – suspirou Telles, triste.
— Poderia me acompanhar ao Centro. Seria ótimo. Quem sabe lá não seja o ambiente propício para que você possa captar com precisão o que o espírito tanto quer lhe dizer?
— Não deixa de ser uma idéia interessante. Aquele grupo do qual eu fazia parte se desfez. Nunca mais tive contato com o Espiritismo.
— Quer me acompanhar dia desses?
— Sim. Gostaria muito.
— Certo. Quando quiser, ligue—me... O Centro não fica distante aqui de minha casa.
— Farei isso, mãe.
— Ótimo. Agora – ela apontou para o prato –, coma!
Telles sorriu e beijou Zulmira na face.
— Você é a melhor mãe do mundo.


****


Caio tentava, nesse tempo de cárcere, concatenar as idéias. Queria entender o porquê disso tudo. Havia melhorado sua conduta, abandonara a curta vida de prostituição. Mudara o comportamento, arrumara emprego e queria ser um homem de bem. Mas a vida lhe havia tirado tudo. Por quê?
Os pensamentos ferviam—lhe a mente. Ele tentou mergulhar no estudo da espiritualidade, mas em pouco tempo deixou os livros num canto da cela. Sentia—se impotente para estudar e compreender as verdades da vida. A revolta começava a tomar conta dele, porquanto o julgamento se aproximava e ele mal vislumbrava uma maneira de se safar dessa injustiça e provar sua inocência.
Havia também a ausência de Luísa. Passaram—se meses e ela não tinha ido visitá—lo. Ele acreditou que ela nutrisse algum sentimento por ele, e, se nutrira esse sentimento desvaneceu no ar por conta de sua prisão. Afinal, que mulher iria se apaixonar por um homem acusado de assassinato?
E ainda por cima, um assassinato cheio de requintes de crueldade?
Caio meneou a cabeça para os lados. Queria esquecer Luísa. Intimamente, sentia que a amava de verdade, mas o que fazer? A vida lhe havia sido muito dura e ele nem podia reclamar a sua ausência.
O espírito de Gregório aproveitou a melancolia que se apossara sobre Caio. Aproveitou a brecha criada pelo desânimo e pela desesperança e passou a assediá—lo, constantemente.
— Ela não serve para você. Como vai querer se unir a um assassino? Ela não merece seu amor. Luísa é fraca e não lhe pertence.
Gregório bombardeava Caio diariamente, incessantemente. O rapaz absorvia os pensamentos como se fossem seus. A cada dia, mais ele se deixava influenciar pelos pensamentos perniciosos daquele espírito fixado nele, tão somente nele.



****

Luísa preparou—se para aquele dia. Até que enfim ele chegara. Tomara coragem e, finalmente, iria ao encontro de Caio. Ensaiara o que falar sentia—se um tanto nervosa. Meses haviam se passado, mas, agora, livre dos assédios de Gregório e dona de seus pensamentos, ela decidiu visitar o rapaz.
Ela acreditava na inocência do jovem. Sentia que Caio não havia cometido aquele crime hediondo. Logo, tudo se resolveria e eles poderiam caminhar juntos, em busca da felicidade.
Renata apareceu no quarto e tirou—a dos pensamentos.
— Vamos. Estamos no horário.
— Estava aqui divagando – tornou Luísa, enquanto retocava a maquiagem.
— Pelo tempo perdido?
— É, Renata. Tantos meses se passaram e eu nem dei a ele o meu apoio.
— Você estava em uma outra sintonia.
Aprendeu com seus erros e está pronta para dar a cara para bater. É assim que se procede. Você acredita na inocência de Caio e sabe lá Deus como tudo vai se resolver. No entanto – Renata frisou –, você o ama.
— É verdade – Luísa levou a mão ao peito. – Caio desperta em mim os mais nobres sentimentos. Acho que o amo desde o primeiro dia, quando nos esbarramos na saída do banco.
— Sorte sua. Quisera eu encontrar um homem assim.
— Deixe de ser boba amiga – censurou Luísa. – Os convites e galanteios masculinos a perseguem!
— E de que adianta? Eu sou assediada e marco um encontro. Quando falo de mim, de minha vida profissional, é como se quem está na minha frente visse o capeta. Ser uma mulher independente assusta os homens.
Luísa protestou.
— Você é bonita, charmosa, tem um corpo escultural, é inteligente e tem seu próprio dinheiro. Será que não existe um homem sensível o suficiente para perceber o mulherão que você é?
— Obrigada pelo carinho. Eu sinto que sou tudo isso que você diz. Entretanto, eles fogem. Têm medo.
— Calma, porque sempre existe alguém para nós. É uma questão de sintonia, de estar aberta para o amor.
— Confesso que estou – sorriu Renata. – Eu quero muito encontrar um homem e ser feliz. Mais nada. Quer dizer, que seja um pouquinho romântico e leve—me num bom restaurante e depois me convide para dançar.
— Só você para me fazer rir de seus sonhos.
Renata ajuntou.
— E que também me acompanhe ao cinema, pelo menos uma vez por semana.
— Você e seus filmes – disse Luísa, enquanto passava o batom pela boca.
— Adoro cinema. Eu me transporto na tela. São duas horas em que eu me perco naquela salinha escura.
E se for um filme romântico, deixo as lágrimas correrem livremente. Saio tão bem, tão feliz.
— Depois de visitarmos Caio, podemos ir até o Cine Metro. Eu ainda não assisti a Laços de Ternura, com a Shirley MacLaine e Debra Winger.
— Dizem que esse filme arranca lágrimas até dos mais endurecidos.
— Combinado – Luísa sorriu, levantou—se da banqueta em frente à penteadeira. Apanhou sua bolsa sobre o console. – Eu pago o cinema. Hoje é por minha conta.
— Eu compro a pipoca e o refrigerante.
— Certo.
Saíram animadas e foram tagarelando até chegarem ao distrito. Assim que estacionou o carro, Renata notou a apreensão nos olhos de Luísa. Ela apoiou o seu braço no da amiga.
— Não tem volta. Chegou o momento.
— É – suspirou Luísa. – Chegou o momento.
Deixaram o carro e aproximaram—se do prédio. Luísa ergueu a cabeça e mirou os degraus. Eram muitos. Subiu com vagar. Chegou ao topo e, pedindo ajuda aos protetores espirituais, entrou de braços dados com Renata.
O Carcereiro as conduziu até o andar em que Caio se encontrava. Ao chegarem, o rapaz – de postura carrancuda – fez sinal a elas, indicando o local da cela.
Luísa caminhou a passos lentos. O braço de Renata, enlaçado ao seu, dava—lhe estímulo a continuar.
Caio estava deitado na tosca cama de sua cela. Fazia tempo que ele estava ali e havia uma troca constante de companheiros. Uns saíam para julgamento, outros eram absolvidos, outros transferidos para outras delegacias. Havia dois rapazes ali com ele, entretanto, ambos estavam deitados no canto da cela, fumando seus cigarros, alheios à realidade.
Luísa aproximou—se e segurou as grades. Falou baixinho.
— Caio.
Ele não escutou. Ela insistiu, agora com modulação de voz mais firme e perfeitamente audível.
— Caio!
O rapaz abriu os olhos e demorou um pouco para reconhecer aquela moça linda à sua frente. Aliás, eram duas, porquanto Renata estava logo atrás da amiga. Assim que concatenou os pensamentos e certificou—se de que se tratava de Luísa, em vez de sentir—se feliz com sua visita, foi tomado de incontida fúria.
Gregório estava ao seu lado e vociferava:
— Não dê ouvidos a essa vagabunda! Enquanto você está aqui preso, ela sai com outros homens. Por que veio visitá—lo só agora, depois de tanto? Para espezinhá—lo. Somente para isso.
Ele gritava e Caio absorvia tudo aquilo, como se sua própria mente estivesse produzindo aqueles pensamentos. Ele levantou—se de um salto de sua cama e aproximou—se das grades, de maneira nada cordata.
— O que faz aqui?
Luísa sentiu o sangue sumir. O tom na voz de Caio mostrava que ela não era bem—vinda.
— Eu... É... Bom
— Vai ficar gaguejando feito uma tonta?
— Bom, eu...
— O que faz aqui?
— Vim vê—lo e.
Caio a cortou. Aos olhos humanos, parecia um homem irritado e profundamente desconfortável com a presença de Luísa. Aos olhos espirituais, o rapaz estava praticamente em franco processo de incorporação. O espírito de Gregório estava tão grudado em sua aura, que Caio registrava e imediatamente transformavam em palavras os pensamentos empedernidos do espírito.
— Depois de tantos meses? Por que esse interesse tão repentino?
— Passei por uma fase difícil e...
— Você passou por uma fase difícil? E eu?
— Desculpe—me a demora em vir visitá—lo, contudo...
— Por acaso está sem homem? Você me quer, é isso?
Luísa engoliu em seco. Seus olhos marejaram. Renata sentiu uma tontura muito forte. Ela não tinha vidência, mas pôde constatar, pela sua sensibilidade educada e em equilíbrio, que Caio estava sob forte interferência espiritual. Ela procurou manter um tom apaziguador.
— Viemos em paz. Luísa gosta muito de você e só não veio esses meses todos por puro medo e insegurança. Mais nada.
— Não venha defendê—la! São todas iguais. Vocês mulheres são todas iguais. É por isso que as odeio.
Renata ia continuar, mas Caio tomado pela raiva de Gregório, bramiu:
— Saiam daqui, suas ordinárias! Saiam!
Luísa não terminou de escutar o que ele dizia. Colocou a mão na boca para abafar o soluço e saiu correndo. Renata percebeu que ele estava praticamente incorporado. Os olhos de Caio estavam esbugalhados e uma baba espessa escorria pelo canto do lábio. A imagem de Gregório veio forte e ela teve certeza de que ele estava ali. Inspirada por Norma, que ali também se encontrava, ela disparou, de maneira enérgica:
— Pode fazer o que quiser, você não tem mais o direito de separá—los. O passado já passou. Você os impediu de ficarem juntos em outra vida. Isso não mais será permitido. Eles vão ser felizes – Renata aproximou—se das grades e encarou Caio nos olhos, como se estivesse falando para além dele. – Ambos reencarnaram com esse propósito e você não tem o direito nem o poder de interferir e mudar o que está traçado. Você não pode ser mais forte que o destino.
Ela falou de maneira tão firme, tão convincente que, naquele momento, Gregório desgrudou—se de Caio, aturdido. Ele pôde ver Norma logo atrás de Renata e sentiu medo.
Caio voltou a si, meio zonzo. Não se recordava direito do que acontecera.
Olhou ao redor e não viu Luísa. Renata atravessou a mão pela grade e deu um tapinha em seu ombro.
— Melhore o teor de seus pensamentos. Leia os livros que sua mãe lhe trouxe. Vai querer estragar novamente a oportunidade que a vida lhes deu de ficarem juntos?
Caio estremeceu. Aquelas palavras atingiram fundo seu coração. Ele queria falar, mas se sentiu prostrado. Enquanto Renata saía e sumia pelo corredor atrás de Luísa, ele jogou—se na cama e chorou, chorou como há muito não chorava.
Norma aproximou—se de Gregório e, antes que ele a atacasse com seus impropérios, ela disse:
— Você não é mais a Lucy. Acorde para a realidade. Está preso entre recordações de duas vidas, desta e da outra. Num momento comporta—se como Gregório. Em outro, comporta—se como Lucy. Percebe—se que está em franco desequilíbrio. Precisa de tratamento urgente.
— Eu não posso deixá—lo. Philip é meu grande amor e verdadeiro amor.
— O que chama de amor é isso? Esse sentimento mesquinho e que só lhe causou dissabores no passado? Será que está falando do sentimento certo que nutre por Philip?
— Philip é meu.
— Não vê que agora ele está reencarnado como Caio? Não vê que o tempo é outro, que você está preso ao passado?
Gregório soluçava. A paixão doentia que sentia por Caio o feria por dentro. Arranhava sua alma. E o impedia de continuar sua jornada rumo à evolução de seu espírito. Ele deixou—se cair no chão e, ajoelhado, cobriu o rosto com as mãos.
— Eu o amo. Eu o amo.
— Será? – inquiriu Norma. – Será que o ama? Ou será um capricho que está na hora de acabar?
Gregório estava bastante confuso. Em sua mente ele via Caio, em seguida via Philip. Eram os mesmos, mas em outras épocas. Os rostos também eram bem diferentes.
Só os olhos eram os mesmos. Os mesmos por quem se apaixonara antes. Como podia ser isso? Conforme sua mente se fixava no passado, o espírito dele foi automaticamente adquirindo contornos femininos. Logo, Gregório estava com os cabelos presos em coque e suas roupas agora eram antigas, muito antigas. Ele retomara a forma de sua vida anterior. Como Lucy.
Foi então que tudo ficou vivo em sua mente. Lembrou—se do sofrimento que essa paixão lhe causara no passado e do sofrimento posterior, no astral.
Norma aproximou—se e passou a mão pelo seus cabelos.
— Lucy, precisamos ir. Philip morreu há muito tempo.
— Ele está aí – apontou.
— Caio está longe de ser aquele homem que você acreditou amar.
— Sei que ele mudou o rosto para me enganar. Mas sei agora eu sei que este é Philip.
— Não é mais.
— Meu Philip – murmurava o espírito.
— Venha se tratar, depois poderá pensar no que fazer.
— Se eu for – afirmou Gregório, agora como Lucy e com voz feminina – Philip e Sally vão ficar juntos. Eu não posso deixar isso acontecer de novo.
— E vai fazer o quê? Repetir o erro? Matar Sally por acaso trouxe Philip para seus braços?
O espírito chorava aos pés de Norma. Lucy lembrou—se das atrocidades cometidas na última existência e sentiu remorso. Começava aí a mudança de Lucy. Ou de Gregório...
Norma lhe estendeu a mão.
— Temos muito o que fazer, o que conversar. Você precisa se tratar. Este mundo não lhe pertence mais. Venha comigo.
— Para onde? – perguntou o espírito, hesitante.
— Para um lindo Posto de Socorro. Lá você vai receber atendimento, vai conseguir se livrar de suas culpas, reverem as atitudes que a levaram a desencarnar dessa maneira violenta.
Lucy, ou Gregório, apertou firme a mão de Norma e deixou—se conduzir. Norma, antes de partir, aplicou um passe calmante sobre Caio. O rapaz agora dormia um sono tranqüilo e reconfortante.



CAPÍTULO 27


O delegado Telles conversou com o advogado de Caio e falou—lhe sobre o que sentia... Acreditava piamente na inocência do rapaz.
— Entretanto – salientou o advogado —, precisamos urgentemente de evidências que provem sua inocência. O tempo urge e, se nada aparecer, infelizmente, o juiz vai expedir a sentença condenatória definitiva e Caio vai para a Penitenciária do Carandiru.
— Isso não pode acontecer, Dr. Lopes.
— Corra, Telles.
— Eu tento, mas sei que falta encaixar uma peça nesse quebra—cabeças.
— Como assim? – perguntou Lopes, interessado.
— Preciso achar esse Guido. Vou conversar com Caio.
— E o que pretende fazer?
— Ir aos locais que eles freqüentavam. Quem sabe alguém possa nos ajudar? Eu vou fazer isso, doutor, para aliviar a crise de consciência que me persegue.
— Se Paranhos descobrir que você ainda está cutucando o caso...
— Paranhos não pode nada. Ele está louco par ser transferido para Belo Horizonte, quer ficar perto da família.
Ele ganhou notoriedade com esse crime e nem quer saber se Caio vai ou não a julgamento.
Telles e Dr. Lopes conversavam enquanto subiam as escadas da delegacia. Luísa saiu em disparada do prédio. Desceu os degraus de maneira rápida e deu um esbarrão em Telles. Quase foram ao chão. Ela se segurou nos braços do delegado e sussurrou:
— Desculpe—me.
— Você está bem?
— Sim.
Luísa falou, desprendeu—se de seus braços e correu em direção ao carro. Renata saiu em seguida, de maneira apressada. Desceu os degraus rapidamente e, ao procurar Luísa, seus olhos encontraram—se com os de Telles. Ambos sentiram uma emoção diferente, como se já tivessem se visto antes.
Renata sentiu leve tremor no corpo e o delegado percebeu que suas pernas falsearam por instantes. Ela engoliu em seco e perguntou, a fim de disfarçar a emoção que aquele desconhecido lhe causara:
— Viu uma moça de cabelos castanhos e lisos passar por aqui em disparada?
Telles riu, mostrando um sorriso encantador.
— Acabou de me atropelar. Creio que foi para lá – apontou em direção aos carros estacionados na calçada.
Renata perpassou o olhar e avistou a amiga, de cabeça baixa, encostada no capô do veículo.
— Ah, lá está! Acabei de encontrá—la.
— Parece que ela não está bem.
— Hoje não é o seu melhor dia – Renata afirmou. Em seguida ela notou que não estavam sozinhos no Universo e que ao lado de Telles estava o advogado de Caio.
— Doutor Lopes, que surpresa revê—lo.
— Como vai, Renata?
— Não tão bem quanto gostaria. Depois de meses, Luísa decidiu visitar o Caio e o encontro não foi nada agradável.
— Que pena. Ela tem tanto carinho por ele.
— Muito mais que carinho, Dr. Lopes. Mas vamos esperar por dias melhores. Caio está perturbado e, como logo será expedida a sentença, sua cabeça anda confusa.
— Vou conversar com ele – ponderou o advogado.
Telles interessou—se.
— É amiga de Caio?
— Não propriamente. Sou amiga de Luísa, que gosta de Caio – ela disse rindo. – É uma história incomum. Eu me afeiçoei a mãe dele e aposto em sua inocência. Sinto que Caio é inocente.
— Eu penso da mesma forma – ele estendeu o braço e Renata não pôde deixar de notar a mão firme e os pêlos que saltavam do punho da camisa. – Prazer, sou o delegado Telles.
Renata o cumprimentou. Sentiu a mão quente e firme do delegado. Novo tremor invadiu—lhe o corpo. Renata sentia—se tal qual um vulcão, cujos tremores indicavam que logo entraria em erupção. Ela recompôs—se para não mostrar o que estava sentindo naquele momento. Afinal, era a primeira vez – pelo menos nesta encarnação – que ela se encontrava com Telles.
— Prazer. Meu nome é Renata Gonçalves.
— Encantado – ele devolveu.
Lopes percebeu o clima entre os dois e se afastou. Ambos ficaram se olhando por algum tempo, em silêncio. A emoção era muito forte. O famoso "amor à primeira vista", quando nos pega, deixa—nos desnorteados, sem ação imediata. Foi o que aconteceu entre Renata e Telles.
— Gostaria de conversar mais, entretanto minha amiga não está bem. Ela precisa de mim.
Telles tirou um cartão do bolso.
— Por favor, ligue—me assim que sua amiga estiver melhor. Estou disponível vinte e quatro horas por dia, sete dias na semana.
— É sempre direto assim? Sem rodeios? – perguntou ela, rindo.
— Quando me interesso verdadeiramente por alguém, e aconteceu somente duas vezes em minha vida, eu sou franco e direto. Não gosto de perder tempo.
— Rapaz de atitude – salientou Renata.
— Rapaz de atitude e de outras peculiaridades que adoraria serem descobertas por você.
Renata sentiu novo tremor. Era melhor se despedir, acalmar os sentimentos, socorrer Luísa. Desse jeito ela ia desfalecer nos braços do delegado. Não queria pagar mico logo de cara.
— Eu ligarei.
— Quer jantar comigo nesta semana?
— Boa idéia.
— Aguardo sua ligação.
Eles se despediram e, no caminho até o carro, Renata respirou fundo. Depois pensaria em Telles e nos sentimentos que ele tinha lhe despertado. Precisava ajudar sua amiga.
Ela aproximou—se de Luísa e a abraçou.
— Ele me odeia, Renata.
— Chi! Não diga nada agora.
— Será que ele não vai mais falar comigo?
— Não pensemos nisso agora. Vamos a uma lanchonete aqui perto. Estou com fome.
— Estou sem vontade de comer nada.
— Acompanhe—me. Que tal um suco?
— Pode ser.
Renata ofereceu—lhe a mão e dirigiram—se a uma lanchonete simpática e graciosa a duas quadras dali.


*****

Telles esboçou um largo sorriso. Essa pequena tinha lhe despertado um sentimento que há muito tempo não sentia.
Ele ainda olhou para trás e ficou observando Renata por alguns instantes.
— Que mulher linda! – disse para si. – Espero que ligue para mim.
Em seguida, ele afugentou os pensamentos com as mãos. Subiu até o andar em que Caio se encontrava. Doutor Lopes lhe fazia algumas perguntas e Telles aproximou—se.
— Como vai, meu jovem?
— Não tão bem como gostaria. Acabei de ser grosso e estúpido com quem não devia. Uma força estranha se apossou de mim. Queria sair daqui correndo e lhe dizer que tudo não passou do calor do momento. Contudo – Caio suspirou triste –, eu não tenho como sair.
— Eu acredito em você – disse Telles. – Preciso que me ajude a encontrar o verdadeiro assassino.
— Eu tenho quase certeza de que Guido é o responsável pela morte de Gregório.
— É sobre isso que eu queria lhe falar.
— O que tem em mente?
— Por ora, nada – tornou Telles. – Entretanto, sabe como eu poderia tentar localizar o Guido?
— Não faço a mínima idéia.
— Não se lembra dos lugares que freqüentavam? Talvez alguém se recorde dele, caso eu faça sua descrição.
— Pouco provável, delegado. O Guido saía com mulheres da sociedade, ricas e bem—casadas. Não creio que consiga chegar até elas.
— Você não teve um período em que se prostituiu?
Caio baixou os olhos, envergonhado.
— Sim, foi por pouco tempo, mas eu joguei os telefones fora. Quando decidi que não queria mais essa vida, rasguei agenda, perdi todos os contatos.
— Escute de onde era esse Guido?
— Como assim?
— Veio de onde?
Caio fez pequeno esforço com a mente.
— Acho que de Vassouras. Lembro—me de ter dito certa vez que sua família era de Vassouras, no Estado do Rio.
— Algo mais? Um nome, uma referência?
Caio riu.
— Ele falava que Guido era seu nome de guerra, porque dava mais glamour à profissão.
— Nunca lhe falou seu verdadeiro nome? – interveio o advogado.
— Não me recordo.
Telles mordiscou os lábios
— A imprensa não se interessa mais pelo casoe a polícia também não. Ninguém está interessado em prender o verdadeiro culpado. Para eles você é o assassino e ponto final.
— Genaro Del Prate conseguiu o que queria. Difícil você escapar – suspirou Dr. Lopes.
— Mas eu juro que não o matei. Eu juro.
Telles aproximou—se das grades e encarou Caio nos olhos.
— Você jura que é inocente?
— Do fundo de meu coração – respondeu Caio, sem desviar os olhos do delegado.
— Acredito em você. Vou tentar descobrir o paradeiro desse rapaz. Sei que temos quase nada em mãos, mas estamos a caminho.
— O tempo urge – advertiu o advogado. – Precisamos ser rápidos, se quisermos reverter o quadro.
— Vamos correr – declarou Telles.
O delegado despediu—se de Caio, deixando—o conversando com o advogado. Saiu do prédio, ganhou a rua e resolveu caminhar pelos arredores. Telles tinha a certeza de que iria encontrar Guido. Algo dentro dele dizia que, em breve, o verdadeiro assassino de Gregório seria capturado.
Logo depois, Caio despediu—se do advogado e voltou à sua cama. Antes de deitar, pegou o folheto com a imagem de Santa Rita de Cássia. Beijou o papel gasto e amassado.
— Ajude—me, por favor.
Deitou—se e fechou os olhos. Norma passou a mão sobre sua testa.
— Logo você vai sair daqui. Confie.


****

Rosalina visitou o filho no dia seguinte. Ao ouvir o relato do encontro entre ele e Luísa, ela não hesitou:
— Você merece mesmo ficar na prisão.
— Mãe! – exclamou aturdido. – Como pode afirmar uma barbaridade dessas?
— Por que não está aproveitando o período em que se encontra aí, encarcerado? Sua irmã me visitou e me disse que você anda invigilante nos pensamentos. Que você botou tudo a perder quando Luísa veio lhe visitar.
— Não sei o que deu em mim. Perdi a noção do tempo, do espaço. Era como se alguma força estranha tomasse conta de meu corpo. Eu me arrependo sinceramente. Fui muito duro com Luísa.
— Ela não merece passar por tudo isso. De que adiantou eu lhe trazer os livros para ler e entender melhor os desígnios da vida? De que adianta nossas preces para que o verdadeiro culpado seja preso e você possa se libertar? Para quê? Para continuar levando a mesma vida pregressa de sempre?
— Assim você me insulta.
— E você não nos ofende com sua postura mesquinha e arrogante? Não acha que está na hora de parar para pensar em tudo o que lhe aconteceu desde que saiu de Bauru? O que você quer dessa vida, meu filho?
Caio emocionou—se. Passou os braços pelas grades e procurou abraçar a mãe.
— Eu não sei, estou perdido. Sinto que amo Luísa, quero constituir família com ela. Ao mesmo tempo – falava com voz entrecortada pelos soluços —,
Às vezes, sinto que de nada vai adiantar nossos esforços. Como vou sair daqui?
— Norma me disse que tudo está para ser resolvido. Em breve, o assassino será encontrado.
— Ela assegura isso?
— Sim.
— Entendo...
— Ainda não acredita que o espírito de sua irmã o esteja ajudando nessa fase difícil em que se encontra?
— Eu li um pouco dos livros. Confesso que tive bastante interesse no início. Em seguida, toda vez que desejava ler, um torpor, um cansaço me tomava por completo e eu deixava a leitura de lado. Cochilava e, quando acordava, não tinha a mínima vontade de ler.
— Não se esqueça de que vivemos num mundo rodeado de espíritos de toda sorte, desde bons e desejosos em fazer o bem até aqueles de coração embrutecido, sedentos para que as pessoas não enxerguem além. Você se deixou levar por essa corrente de espíritos que não quer que aprendamos sobre o mundo espiritual.
— Por quê?
— Porque quando nossa consciência se abre para os verdadeiros valores da alma, esses espíritos empedernidos e perturbados perdem a sua força. Quanto mais caminhamos para o crescimento espiritual, menos poder eles tem de nos perturbar, influenciar, atrapalhar nossa vida. Quem é dono de si, de seus pensamentos, dificilmente é assediado por essas entidades.
— Quer dizer que eu sou o responsável por esse assédio negativo?
— Evidente. Somos responsáveis por tudo o que nos acontece. Cabe a nós procurarmos nos aperfeiçoar no bem e, assim, criar um campo de proteção que nos mantenha imunes aos ataques constantes desses espíritos.
— Ando desanimado, triste. Nem Santa Rita de Cássia tem me ajudado.
— Não meta a culpa de sua fraqueza nos ombros de uma santa. E não se esqueça de que esses seres de luz – santos, para os católicos – simplesmente são instrumentos para que possamos nos ligar às forças espirituais superiores.
— Às vezes, creio que esse tormento não acabará.
— Confie na vida. Norma assegurou—me que tudo vai acabar bem.
— Quero acreditar nisso.
— Há uma linda moça aqui fora esperando pelo seu amor. Acaso, quer deixar de viver essa experiência deliciosa que a vida lhe oferta?
— Depois de tudo que falei Luísa talvez não queira mais falar comigo.
— Será?
— Ela tem todos os motivos para se afastar de mim.
— Gosta dela?
— Sim.
— Lute pelo seu amor.
— Dentro do cárcere?
— Comece por mudar o teor de seus pensamentos. Torne—os saudáveis. Procure encarar a vida de maneira mais positiva. Ninguém agüenta uma pessoa pessimista ao seu lado. É muito chato.
— Estou muito chato mesmo. Vou recomeçar a ler os livros.
— Faça isso, meu filho. Leia bastante, procure entender o mundo espiritual. Esses ensinamentos vão ajudá—lo a tornar—se uma pessoa melhor no mundo.
— Obrigado por suas palavras gentis. Você me estimula a crescer.
— Faço isso porque o amo.
Caio notou que Rosalina estava diferente. Os cabelos estavam penteados à moda, seu vestido parecia ser novo e realçava a silhueta esguia que mantinha desde a juventude. E – detalhe que ele não pôde deixar de notar – Rosalina estava usando lindo par de brincos e o rosto estava levemente maquiado.
Ela olhou séria para o filho.
— Que tanto me olha?
— Está diferente. Mais bonita mais bem tratada.
Rosalina riu com gosto.
— Estou sim. Mudei muito nesses meses todos.
Caio desconfiou.
— Só pode ser homem.
— Sim.
— Você está interessada em algum homem?
— É. Estou gostando de alguém.
Foi só eu ficar longe que você abriu as asas? – perguntou num tom de brincadeira.
— Confesso que depois que perdi seu pai desacreditei no amor. Pensei que nunca mais fosse gostar de alguém. Mas, aqui em São Paulo, depois desses anos todos sozinha, acabei por encontrar um companheiro leal, dedicado, carinhoso.
— Está namorando?
— Hum, hum.
— Quem?
Rosalina aproximou—se das grades e baixou o tom de voz.
— Estou namorando o José, lá da pensão.
Caio não poderia receber notícia melhor. Ele abriu um sorriso de ponta a ponta.
— Jose! – exclamou contente. – Eu o adoro.
— Sim. Ele também o adora. Vê em você o filho que perdeu anos atrás. Parece que o Zezinho hoje estaria com a sua idade.
— É, sei. Sempre vi no José o pai que nunca tive. Afinal, eu mal me lembro de papai.
— Faz muitos anos...
— Fico muito feliz que vocês estejam juntos.
— Obrigada. Sabia que ia aprovar nosso namoro.
— Vou torcer para virar casamento.
— Tudo no tempo certo, meu filho – ponderou Rosalina. – Tudo no tempo certo.
Mãe e filho continuaram a falar sobre suas vidas e seus amores quando ouviram uma gritaria vindo lá de baixo. As vozes foram crescendo, crescendo e chegaram ao andar. Dois policiais arrastavam um indivíduo, e o carcereiro estava mais à frente. Correu, passou por Rosalina e abriu a cela ao lado da de Caio.
Rosalina e o filho olhavam para aquela cena com verdadeiro estupor. Os policiais jogaram o homem dentro da cela. Ele vociferou alguns palavrões. O carcereiro fechou a portinhola, meteu o trinco e gritou.
— Mais respeito, seu charlatão. Não vê que tem uma senhora aqui presente?
O homem nada disse. O carcereiro continuou:
— Eu torcia para que você fosse preso, desgraçado. Arruinou a vida de muita gente. Inclusive a minha.
O rapaz o olhou sem entender.
— Nunca vi sua cara antes.
— Mas sei de você. Minha ex—esposa foi ao seu encontro e lhe pediu para me separar da minha atual mulher. Você quase conseguiu. Numa crise de arrependimento, minha ex—esposa confidenciou—me que o procurou para fazer feitiçaria. E ainda por cima você se autodenomina pai—de—santo? Como pode querer tripudiar sobre um nome sagrado como de um zelador de tenda de Umbanda?
— Dava—me destaque.
O carcereiro riu com desdém.
— Agora quero ver, Pai Juão. Vamos ver se seus amigos do astral inferior vão ajudá—lo. Espero que apodreça na cadeia por ter atrapalhado a minha vida e a vida de tantas outras pessoas.
Juão afastou—se e sentou—se no canto da cela. Seus olhos encontraram os de Caio e ele fez uma cara de maus amigos para o jovem.
Rosalina aproximou—se do filho.
— Mantenha—se firme no bem. Ninguém pode nos machucar quando estamos ligados aos espíritos de luz.
— Pode deixar mãe. Vou seguir seus conselhos.
— Não se esqueça, Caio – ela frisou, enquanto olhava para Juão, que envergonhado, abaixou os olhos –, o mal não tem poder sobre o bem. O mal é ilusão. Só o bem é real.
Caio assentiu com a cabeça.
— Tem razão. O mal nunca vence o bem.
Abraçaram—se da maneira como podiam, separados pelas grades da prisão. Rosalina deixou um pedaço de bolo para o filho. Despediu—se de Caio, do carcereiro e voltou para a pensão.
Caio ficou muito feliz ao saber do envolvimento amoroso entre sua mãe e José. Gostava muito dele. A notícia deu—lhe ânimo para pensar no sentimento de amor que nutria por Luísa. Ele iria atrás de seu amor. Algo dentro dele dizia que logo tudo isso acabaria e ele estaria, finalmente, livre. Livre do passado. Livre para amar.




CAPÍTULO 28


Luísa terminava de tomar seu chá. Pousou a xícara delicadamente sobre o pires e considerou.
— Estou melhor, Renata. Muito melhor.
— Percebeu como o encontro com Caio serviu para lhe mostrar o mesmo que ocorria com você?
— Sim. Depois que refleti, percebi que naquele dia, não era Caio quem estava falando comigo.
— Havia a presença de um espírito que o atormentava sobremaneira.
— Tem idéia de quem era?
Renata deu de ombros.
— Acreditei que o espírito de Gregório estivesse lá, mas foi só uma impressão.
— Cruz credo! – Luísa fez o sinal da cruz. – Não quero mais pensar em Gregório ou em sua família. Que mundo pequeno esse!
— São os reencontros de vidas passadas, minha amiga. Estamos sempre nos reencontrando no mundo. Ninguém se conhece por acaso.
— Hoje eu não tenho dúvidas quanto a isso. Quero ir ao distrito novamente. Preciso conversar com Caio.
— Está caidinha por ele.
— Não! – Luísa protestou.
— Claro que está! Vocês mal se encontraram e estão assim, apaixonados. Espero pelo dia em que poderão estar juntos sem as grades. A terra vai tremer.
Luísa pegou uma almofada e atirou na amiga.
— O que é isso?
— Você está apaixonada.
— E você também. Saiu duas vezes para jantar com aquele delegado bonitão e está toda melosa.
Renata abriu e fechou os olhos, em êxtase.
— Telles é o homem da minha vida.
— Em dois encontros você afirma uma coisa dessas? Não está viajando muito no romance?
— De forma alguma – respondeu Renata, agora de forma séria, ajeitando seu corpo na poltrona. – Eu e Telles nos identificamos bastante. Somos muito parecidos. Ele não se assustou com o fato de eu ser uma executiva de sucesso e ganhar mais que ele. Pelo contrário, incentivou—me a crescer ainda mais.
— Está falando sério?
— Sim.
— Será que ele não quer ser sustentado por você?
— Como?
— Olhe o golpe!
Foi à vez de Renata atirar a almofada em direção a Luísa.
— Eu sinto que ele gosta de mim. Telles tem respeito por tudo o que consegui até hoje. Ele me admira por eu ser assim. Eu preciso de um homem que me apóie. Que me ame, e que me apóie.
— Ele parece ser um encanto de pessoa.
— Além de encantador, Telles é lindo! – Renata suspirou. – E aquela barba?
— Deve machucar o seu rosto.
— Imagine! Aquela barba me deixa louca, amiga. Quando roça em meu rosto, eu perco o juízo.
Ambas riram a valer.
— Sabe que, neste segundo jantar, Telles confidenciou—me algo que me encheu de desejo?
— O que foi?
— Ele acredita que eu tenho muito potencial para crescer profissionalmente, e me estimulou a ser dona de meu próprio negócio. Não ter mais patrão.
— Combina com você. É esforçada, trabalha com afinco, é responsável, tem garra. Não é qualquer um que pode ter seu próprio negócio. É necessário muito mais que dinheiro e tino para os negócios.
— Pois é. E o Telles falou—me de um assunto que ainda não vazou na imprensa. Se vazar, eu perco a oportunidade que vislumbro para ser dona de meu próprio negócio.
— O que é? Conte—me. Estou aflita.
— Você bem conhece a Cia. De Perfumes.
— Do Gregório – Luísa falou com ar de mofa.
— Sim. Com a morte dele, a empresa foi para seu ex—marido, o Genaro.
— Correto. O único parente de Gregório era o irmão. Nada mais justo que ele herdar a empresa.
— Aí é que está! – disse Renata, eufórica. – Genaro quer se livrar da empresa.
— Quer?
— Sim, sim.
— Por quê?
— Fiquei sabendo que ele preza muito sua imagem perante o eleitorado. É político ardiloso, mas adorado por muita gente; Entretanto, agora que está novamente casado e tem um filhinho, afirmou, dia desses, a um conhecido de Telles, que não quer mais a empresa.
— E por qual motivo?
— Genaro quer se livrar da empresa, pois parece que Gregório metia os pés pelas mãos e não cuidava da empresa com o cuidado e a responsabilidade de um empresário competente.
Parece—me que a Cia. De Perfumes está à beira de uma concordata. E pode falir.
— E? Não sei aonde quer chegar.
— Tenho algumas economias – redargüiu Renata. – Telles me estimulou a ir atrás de Genaro, procurá—lo e fazer—lhe uma oferta. Comprar a empresa por um preço baixo e trabalhar com afinco para que ela volte a crescer, conquistar novamente a credibilidade dos fornecedores e fazer da Cia. De Perfumes uma empresa rentável, com lucro e que gere mais e mais empregos.
— Boa idéia. Você acredita que tem cacife para isso?
— Acredito.
— Abandonaria seu emprego, a posição em que se encontra para se atirar em um projeto onde poderá correr riscos?
— Adoro correr riscos, Luísa. Sinto que essa era a oportunidade que estava faltando em minha vida. Vou me reunir com seu ex—marido na semana que vem.
— Ele sabe de sua amizade comigo?
— Creio que não. A única vez que me viu, de relance, foi naquele fatídico dia em que você foi brutalmente espancada. Seu ex—marido estava em estado catatônico e, com certeza, não se lembra nem de mim, nem de Max. E, de mais a mais, Genaro vive outra vida e está muito bem lá em Brasília. Ele vai me abençoar, caso eu fique com a Cia. De Perfumes. E ainda tem mais um motivo porque Genaro quer se livrar da companhia.
— Qual?
— Genaro tem horror aos homossexuais e não quer saber de nada que o ligue ao irmão. Ele desprezava Gregório e seu comportamento. Se ficar com a empresa, as pessoas vão sempre dizer que ele é dono da empresa daquele gay assassinado etc.
— Que horror.
— Pois é. Seu ex—marido pensa assim.
— Genaro sempre foi homofônico.
— Para ele, isso arranha sua imagem de político benquisto.
Como a maioria de seu eleitorado é homofônica, tanto quanto ele, Genaro só tem a ganhar ao desvincular—se da imagem de seu irmão, Gregório.
— Puro preconceito. Que idéia mais disparatada. Quem Genaro pensa que é para julgar o comportamento das pessoas? Ele seria o último a ter direito de julgar. Se as pessoas soubessem o crápula que é, o marido covarde que sempre foi.
— A verdade nunca chegará às pessoas, Luísa. Entretanto, nós não devemos julgar Genaro pelas suas idéias e pelo seu comportamento, porquanto estaremos agindo como ele.
— E deixar que ele cometa outras agressões? Permitir que xingue as pessoas e estipule o padrão correto de comportamento na sociedade?
— Não compete a nós o que virá adiante. Genaro, um dia, vai ter de responder pelos seus atos. A lei de ação e reação não tarda nem tampouco falha. Aguardemos porque, mais dia, menos dia, Genaro terá de colher o que semeou.
— Eu estou decidida, Renata. Assim que me graduar na faculdade farei o exame da Ordem e advogarei em prol das vítimas de agressão doméstica por seus companheiros.
Renata sorriu.
— Fantástico. Nada melhor que você para prestar esse tipo de serviço, amiga.
— Eu senti na própria pele o que é ser agredida dentro de casa. E tem mais.
— O quê?
— Além de agredida fui estuprada, porquanto Genaro me amava de maneira bruta, agressiva e, na maioria das vezes, sem o meu consentimento. Muitas mulheres sofrem essas agressões e não têm como e onde recorrer.
— Podem ir à delegacia e prestar queixa.
— E de que adianta, Renata? Não temos garantias. Não há punição severa para o agressor. É voltar para casa e levar mais pancada. E a maioria dos delegados ri de nós, faz chacota, é constrangedor. Eu senti isso quando fui fazer aquele boletim de ocorrência contra o Genaro.
O delegado me tratou com desdém, como se eu – machucada física e moralmente – fosse à culpada por ter apanhado.
— Ainda fazemos parte de uma sociedade machista.
— Mas sinto que tudo vai mudar.
— Por que diz isso?
— Dia desses – tornou Luísa, após mordiscar um biscoitinho – Mafalda alertou—me de que mudanças virão em benefício das mulheres. Que em breve vamos ter delegacias voltadas só para a mulher.
— Nem acredito! Isso seria o máximo. Um avanço na sociedade sem precedentes.
— E creio que isso já começou a ocorrer. Por conta do descaso do poder judiciário e da maneira como os distritos policiais lidam com a violência doméstica e sexual contra a mulher, foi criado o SOS — Mulher.
— Não foi o SOS — Mulher que apresentou em público o caso de uma mulher que tinha sido espancada pelo seu companheiro, professor da Universidade de São Paulo, intelectual, branco e de classe média alta?
— Sim. Isso foi importante para combater a idéia de que os negros, os alcoolizados e os pobres são os únicos que maltratam as mulheres.
— Situação parecida a sua, não é, minha amiga?
— Pois sim. Esse grupo de atendimento, formado há pouco tempo, é responsável por assistência jurídica, social e psicológica às mulheres vítimas de violência. "(Em 1985 foi criada a primeira delegacia da mulher). Em 1990, foi criada também, pela Prefeitura de São Paulo, a Casa Eliane de Grammont, um centro especializado no atendimento às mulheres vítimas de violência doméstica e sexual. (N.A.)"
— Interessante.
Luísa falava de maneira animada.
— O conselho criado recentemente, ligado ao SOS — Mulher, propõe políticas públicas que visam promover o atendimento às vitimas de violência,
Dando—lhes, efetivamente, essa assistência jurídica, social e psicológica.
— Acredita que o governo vai acatar essa idéia?
— Sim. O governo vai criar, muito em breve, a primeira delegacia de polícia de defesa da mulher. Pode anotar o que estou dizendo. Isso vai se concretizar.
— Existe alguma delegacia específica para o atendimento da mulher em outra cidade?
— Não. São Paulo será a primeira cidade do Brasil e do mundo a criar uma delegacia assim, em defesa da mulher.
— Torço para que isso se concretize.
— Pois vai – afirmou Luísa. – Mafalda certificou—me de que espíritos abnegados trabalham para que membros do governo sejam receptivos à implantação desse projeto.
— Dessa forma, nós, mulheres, poderemos ter um instrumento que nos ajude a combater a violência.
— E meter medo nesses homens! Está na hora de eles pararem de se sentirem os donos do mundo. Nós temos o nosso valor e, garanto que assim que eu estiver formada, vou trabalhar em algum desses órgãos em defesa da mulher. Sei que vou ajudá—las.
— Tem razão, Luísa. Você sentiu isso na própria pela. Tenho certeza de que será uma boa defensora.
Luísa abaixou a cabeça, tentando conter a emoção. Mudou o tom:
— E aquele delegado bonitão? Convidou—a para mais um jantar?
— Convidou—me. E quer que eu conheça sua mãe. Esses encontros com possíveis futuras sogras me dão um frio na barriga.
Luísa riu.
— Vou torcer para que seja uma senhora bem velhinha, bem doente, que não possa, de maneira alguma, atrapalhar a vida de vocês.
— Vire essa boca para lá – brincou Renata. – espero que seja uma mulher tão interessante quanto o filho. Mais nada.


****

Renata teve de adiar o almoço com a mãe de Telles. Genaro, assim que soube de seu interesse em comprar a quase falida Cia. De Perfumes, ligou insistentemente e até ofereceu as passagens para que Renata fosse a Brasília.
Ela explicou a situação a Telles e marcaram um novo almoço, para a semana seguinte.
Genaro a recebeu de maneira polida. Mal se recordava de tê—la visto naquele dia distante, em que a polícia apareceu em sua casa. Ele simplesmente acreditou que o rosto dela era—lhe familiar. Mas não quis entrar em detalhes.
Conversaram por duas horas. Ele fez suas considerações, falou dos problemas da fábrica e explicou que queria se ver livre da empresa.
— E quanto aos funcionários? Se não entrarmos num acordo – ponderou Renata –, muitos funcionários perderão trabalho e muitas famílias serão atingidas.
— Estou pouco me lixando para as famílias. Eu quero me livrar desse abacaxi em minhas mãos.
Renata fechou o cenho. Agora tinha certeza do caráter sem verniz de Genaro. Ela tratou de ser rápida. Apresentou sua proposta e, ao término das duas horas de conversa, Renata deixou o gabinete do deputado com uma alegria contagiante a invadir—lhe o peito.
— Eu vou transformar a Cia. De Perfumes na maior empresa de cosméticos deste país – disse para si mesma, de maneira convicta.
Ela retornou a São Paulo no mesmo dia e Telles fez questão de buscá—la no aeroporto. Ela apareceu no desembarque e ele estava lá parado, com as mãos para trás.
Quando a viu, abriu largo sorriso.
— Quanta saudade!
Ela o beijou e respondeu.
— Vimo—nos hoje cedo. Não fiquei fora um mês.
— Um dia longe de você é muito triste – antes que Renata pudesse falar alguma coisa, ele sacou de uma das mãos um lindo buquê de flores sortidas. – Para você.
Renata emocionou—se. O romantismo de Telles era contagiante. Ela pegou o buquê e aspirou o perfume delicado das flores. Em seguida, beijaram—se demoradamente.
— Amanhã você vai conhecer minha mãe.
— Amanhã vai ser o grande dia! – replicou ela, de maneira engraçada.
— Vai adorar minha mãe. Ela está louca para conhecê—la.
— Mesmo?
— Sim. Ela até que tentou arrumar uma candidata para mim algum tempo atrás.
— Não me diga! Ela se preocupa tanto assim com a sua solidão?
— É. Minha mãe insistiu, mas eu não quis conhecer a moça.
— E quem era a moça?
— Não faço a mínima idéia – respondeu Telles. – E, agora que conheci você, não quero saber de mais ninguém.
— Olha lá. Esse é nosso quarto encontro. Não acha cedo demais?
— O que posso fazer se eu a amo? Esperar para quê?
Renata corou.
— Você me surpreende Telles.
Beijaram—se novamente. Entraram no veículo, ele deu partida e o carro perdeu—se no meio da multidão de outros veículos que cortavam a avenida de acesso ao aeroporto.


****

Caio estava lendo um romance espírita envolvente, mal prestava atenção ao seu redor. Juão tentava puxar conversa, mas Caio recusava—se a conversar.
Num dia, cansado de ser assediado pelo falso pai—de—santo, encarou—o com firmeza.
— Que tanto me azucrina? Já não chega o mal que fez a tanta gente?
— Minha sensibilidade está em franco desequilíbrio. Abusei de minha mediunidade, conduzi—a de maneira torpe. Hoje sinto peso do mal que causei a muita gente.
— Ore meu amigo. Peça perdão e recomece.
— Como?
— Ajude àqueles a quem você prejudicou. Isso é um começo. Um belo começo.
Juão estava sinceramente disposto a mudar. Havia se comprometido com entidades de baixa vibração, abusara de seus poderes mediúnicos. Entretanto, sua consciência lhe cobrava o acerto de contas com as pessoas que prejudicara. Ele mal sabia como começar.
Ao que Caio respondeu:
— Comece fazendo o bem. Eduque sua mediunidade para o bem, e, ao sair da cadeia, vá trabalhar num Centro Espírita. Coloque—se à disposição de espíritos de luz, voltados à realização do bem. Isso vai ajudá—lo a amenizar a culpa que corrói seu espírito.
— Pode ser – ponderou Juão.
— Peço a Deus que me ajude, todos os dias, mesmo pagando por um crime que não cometi.
— Sei do seu caso. Você foi acusado do assassinato daquele empresário famoso.
— Pois é. Mas sou inocente. Tive o azar de estar com o falecido justamente horas antes de ele ser assassinado.
— Sabe quem é o assassino?
— Desconfio.
— Algum conhecido?
— Por que quer saber? – perguntou Caio, desconfiado.
— Para ajudar. Quem sabe, com minha mediunidade entrando na rota do bem, eu não possa ajudá—lo a localizar o assassino?
— Isso seria um milagre.
— Pois eu acredito neles. Hoje tenho a consciência de que recebi um basta da vida. Estou tendo a chance de mudar minhas crenças e atitudes. Ainda posso me tornar uma pessoa de bem.
Caio condoeu—se com Juão. O homem estava sendo sincero. Mesmo perturbado por espíritos com os quais se comprometera Juão também recebia a visita de espíritos amigos, que conhecera em outras vidas.
Juão fora um feiticeiro poderoso no passado. Nesta atual encarnação comprometeu—se a fazer o bem. Levado pela cobiça e pelo dinheiro fácil, com seu poder natural de persuasão, e a sensibilidade bem desenvolvida, passou a fazer qualquer tipo de trabalho espiritual.
Tão logo foi preso, ele passou a refletir bastante sobre suas ações. Aos poucos, foi mudando seu jeito arrogante de ser. Passou a ser mais humilde. Ainda havia chance de Juão mudar, crescer e redirecionar sua vida de acordo com os anseios de sua alma.
— Eu vou ajudar você, Caio – tornou Juão, de maneira sincera.
— Como poderia?
— Vou tirá—lo desta prisão.
— Que você e Deus me ajudem!


****


Luísa tomou coragem e reapareceu na delegacia. Dessa vez, o encontro entre ela e Caio foi completamente diferente daquele triste primeiro encontro.
Ela aproximou—se e o chamou.
— Caio.
O rapaz abriu os olhos e mal conteve a emoção.
— Você! – exclamou, de maneira espontânea. – Pensei que nunca mais a veria.
Caio se levantou e aproximou—se das grades. Luísa sentia o corpo tremer.
— Como está?
— Vou indo. Ainda não apareceu nada que pudesse me ajudar a sair daqui.
— Você vai sair.
— Assim espero, entretanto, o tempo urge.
— Mafalda afirmou no Centro que você vai sair em breve. Os espíritos estão trabalhando a seu favor.
— Eu acredito neles. Relutei, mas tive de me render às verdades da vida. Tenho lido tanto, que tudo agora para mim ficou mais claro, mais coerente.
— Para mim também. As diferenças sociais, de cor, raça, sexo, tudo tem uma razão de ser quando analisamos pelo lado espiritual, quando abrimos à mente e ampliamos nossa lucidez em busca da verdade. Eu mudei muito, Caio. Depois de meu casamento, refleti sobre o mal que me aconteceu e percebi o quanto estava longe de minha essência, da minha verdade.
— Eu também – considerou ele. – Não sei por que estou aqui encarcerado. Minha mãe afirma que tem relação com o passado.
— Não importa, Caio. Nesse tempo todo você amadureceu, cresceu, não ficou parado. Pode ter tido essa sensação porque ficou aqui, privado do mundo. Mas seu espírito cresceu. Você é um campeão.
Ele sorriu. Ergueu os braços e suas mãos enlaçaram as de Luísa. Ambos sentiram o coração bater descompassado.
— Eu prometo que vou sair daqui, recomeçar minha vida e, se você me quiser, farei de tudo para sermos uma família feliz.
Os olhos de Luísa umedeceram. Havia tanto carinho nas palavras de Caio, que ela não pôde deixar de se emocionar.
— O que diz me enche a alma de contentamento. Eu o amo muito.
Caio fechou os olhos e aproximou seu rosto da grade fria que os separava. Forçou o rosto para frente. Seus lábios e os de Luíza encontraram—se. Beijaram—se longamente. Após, ele tornou:
— Vamos ser muito felizes. Eu prometo. Não vou decepcioná—la. Dessa vez não vou ferir seus sentimentos.
— Por que diz isso?
Caio deu de ombros.
— Não sei. Talvez no passado eu a tenha feito sofrer. Não quero que isso se repita. Eu também a amo, com toda a minha força.
Luísa sentiu um brando calor invadir—lhe o peito. Ela amava Caio, mais que tudo no mundo. E se sentia amada, verdadeiramente amada.



CAPÍTULO 29


Maximiliano terminou de realizar mais uma exposição. Foi à última. Estava decidido a parar com as exposições no Brasil. Tencionava regressar em definitivo para Londres, que julgava ser seu verdadeiro lar.
Ele estava cansado do trabalho extenuante. Queria passar o resto do tempo estudando os fenômenos mediúnicos, a espiritualidade como um todo.
Londres seria sua casa, mas ele rodaria o mundo atrás de relatos, provas, declarações que comprovassem a reencarnação. Esse era seu compromisso. E Max estava muito feliz em poder retornar e reencontrar seu velho e querido amigo Bryan Scott.
Ele, Renata e Telles estavam almoçando em um restaurante pequeno e charmoso, na região dos Jardins. Após os pedidos, brindaram a sua partida.
— Eu não queria que nos deixasse – protestou Renata.
— Eu não pertenço a este lugar – redargüiu Max. – Cansei da minha vida neste país. Adoro o Brasil, mas a Inglaterra é o meu lar. O que fazer? Eu sinto isso.
— Deve ser porque viveu lá muitas vidas – tornou Telles.
— Acredito que sim. O Dr. Bryan Scott uma vez me disse que minha última encarnação foi em Londres.
— Ele revelou outros detalhes? – interessou—se Renata.
— Sim. Disse—me que você era minha sobrinha e que vivemos muito bem.
— Fui sua sobrinha? Mesmo?
— Sim. E casou—se com um implacável investigador de policia. – Seus olhos se dirigiram a Telles e Max riu malicioso. – Pelo jeito, você reencarnou em outro país, mas com profissão semelhante.
Telles sorriu contente.
— Eu amo minha profissão.
— E não a deixaria para trabalhar na Cia. De Perfumes?
— Nunca! Negócios são com minha futura esposa. Eu trato de investigar os crimes. Um casal adorável, não acha?
Eles riram à beça.
— Eu sempre fui muito grato ao Telles – tornou Max. – Se não fosse você naquela noite, próximo àquela boate, eu seria roubado e morto por aquele garoto.
— Que história é essa? – inquiriu Renata.
— Certa vez, acompanhando um amigo meu em uma ronda noturna, percebemos uma discussão acalorada entre dois rapazes. Um deles era Max, acuado. O outro sacou um canivete do bolso e só me lembro de quase jogar a viatura sobre o menino.
— Naquele dia você salvou a minha vida – disse Max, bastante emocionado.
— Foi aí que ficamos amigos.
— Por conta desse incidente, eu parei para refletir e ver o rumo que minha vida estava levando. Eu só queria dançar beber e sair da boate com qualquer um, só para me satisfazer sexualmente. Depois dessa história em que Telles fora meu anjo guardião, larguei essa vida e debrucei—me nos estudos espirituais. Como vê – Max deu uma piscada para Renata –, seu namorado é o responsável por eu estar metido até a cabeça com o mundo dos espíritos. E vivo ainda por cima!
— Ainda bem que por uma boa causa – devolveu ela.
— Sim.
Max levantou—se e abraçou Telles.
— Você me salvou de novo da enrascada com o Guido.
— Se eu o conhecesse pessoalmente, eu já estaria no seu encalço – suspirou Telles, triste.
Max aproveitou e mudou o rumo do assunto. Voltou a sua cadeira e, ao ajeitar o corpo, perguntou a Renata:
— Como anda a fábrica?
Ela suspirou.
— Trabalho é o que não falta. Tem muita coisa para fazer. Infelizmente, o Gregório não cuidava da empresa com a responsabilidade de um bom administrador. Deixou—a nas mãos de pessoas incompetentes e por um triz a empresa não foi definitivamente para o buraco. Estou trabalhando duro. Estou lá há apenas alguns meses e ainda há muito, muito trabalho.
— Vai relançar os perfumes?
— Tiramos alguns do mercado, por ora – respondeu Renata. – Vamos reformular as campanhas. Usar novos rostos. Pretendo revolucionar o mercado.
— Torço para que você tenha muito sucesso – tornou Max, com sinceridade.
— Outro dia, um antigo modelo da Cia. De Perfumes foi me procurar.
— Quem, Renata? – indagou Max, curioso.
— Lembra—se do Marco Antônio?
— Marco Antônio – Max repetiu e coçou o queixo –, não era um rapaz loiro, muito bonito, de cabelos jogados para trás?
— Esse mesmo. Fazia a campanha do perfume Nero, anos atrás.
— Lembro—me dele sim, de algumas festas. Mas me parece que ele se acidentou e sumiu.
— Sofreu queimaduras pelo corpo todo. Uma judiação – ajuntou Telles.
— Como sabe? – inquiriu Renata.
— Eu o conheço, mora no mesmo prédio que eu. Ele realizou um churrasco para os amigos, a fim de comemorar a nova campanha do perfume que iria fazer e, num descuido, em vez de jogar água sobre a chapa, pegou o frasco errado e jogou álcool.
Max e Renata fizeram um esgar de incredulidade.
— Ele perdeu o contrato e ficou sem trabalho. Continua lá no prédio, vive dando aulas de inglês, está com o condomínio atrasado...
— Ele foi me procurar na Cia. De Perfumes – tornou Renata. – Fiquei triste com seu estado, mas seu rosto está intacto. Marco Antônio continua bonito.
— Por que não o contrata para fazer alguma campanha?
— É o que pretendo fazer. Vou chamá—lo para trabalhar conosco.
— Brilhante idéia – ponderou Max. – Esse rapaz, agora me lembro bem, é muito bonito, uma simpatia de pessoa. Você está sendo justa ao contratá—lo. Tenho certeza de que Gregório lhe virou as costas.
— Foi o que aconteceu. Ele pediu ajuda e lhe foi negada. Mas agora vai ser tudo diferente. Marco Antônio será um dos modelos escolhidos para o relançamento dos perfumes masculinos.
— Um dos modelos? Você pretende contratar outros homens bonitos?
— Sim.
— Assim eu fico com ciúmes – Telles fez beicinho.
Renata o beijou delicadamente nos lábios.
— Fique tranqüilo, meu amor. Você me fisgou desde o primeiro olhar. Só tenho olhos para você e mais ninguém.
— Quisera eu ser amado assim – suspirou Max.
— Nunca se sabe...
— Quem sabe – ajuntou Telles – o seu príncipe encantado não esteja lá em Londres?
— Pode ser, pode ser – respondeu Max, de maneira jovial.
O semblante de Renata ficou mais sério. Ela fitou o nada e declarou:
— O Caio vai trabalhar comigo. Vai fazer muitas campanhas. Vai ser famoso. E vai ser feliz.
— Como tem tanta certeza disso? – perguntou Telles.
— Eu sinto. Caio vai se safar dessa e vai ser muito feliz.
— Gostaria de vê—lo – solicitou Max.
— Podemos ir amanha. O que acha? – perguntou Renata.
— Perfeito. Quero conversar com esse menino. Tenho algumas considerações a lhe fazer sobre a vida espiritual.
— O que é?
— Recebi uma carta do Dr. Bryan Scott dois dias atrás. Ele me relatou um caso espantoso.
— O que é Max? – inquiriu Renata.
— Estou curioso – completou Telles.
Max relatou o caso descrito por Bryan Scott. Ambos ficaram estupefatos com a história.
— Você precisa contar ao Caio – replicou Renata.
— É fascinante – finalizou Telles.
— Sim. Vou contar a ele. Os espíritos querem que Caio aprofunde—se cada vez mais nos estudos do mundo espiritual. Aí estará a sua salvação.
Um dia depois, Renata, Max e Telles foram à delegacia. Luísa tinha prova na faculdade e não pôde comparecer. Iria visitar seu amado no dia seguinte.
Eles aproximaram—se de Caio. O rapaz os cumprimentou e Renata os apresentou.
— Esse aqui é o nosso amigo Maximiliano. Pode chamá—lo de Max.
Caio estendeu a mão pela grade. Max o cumprimentou.
— Nós nos conhecemos rapidamente, há muito tempo, na porta da pensão. Dei carona à sua mãe.
— Eu me lembro. Entretanto, mal nos falamos. Eu queria muito conhecê—lo.
— É mesmo?
— Sim. Morei em sua casa, na época do Guido, faz um bom tempo.
Max meneou a cabeça para cima e para baixo.
— Eu me recordo. Falamo—nos umas duas vezes por telefone. Vocês deixaram uma energia pesada naquela casa – disse Max, entre sorrisos.
— Perdoe—me, Max. Eu não entendia nada do mundo espiritual nem mesmo queria acreditar que ele existia. Entretanto, o tempo aqui na prisão tem me mostrado que eu estava enganado.
— O conhecimento em geral nos abre muitas portas. O conhecimento espiritual, por conseguinte, nos abre as portas do desconhecido, ajudando—nos a compreender melhor o mundo em que vivemos e a nós mesmos.
— Tem razão – ponderou Caio. – Mudei muito nesse tempo todo. Tenho lido bastante e até arrumei um companheiro que discute comigo temas espirituais.
— Quem é?
Caio apontou para Juão, que estava na outra cela, e baixou o tom de voz.
— Ele está dormindo agora. Teve uma noite de pesadelos. Às vezes Juão é assediado por uma leva de espíritos que vem lhe cobrar satisfações. Tem a ver com seu passado, com sua consciência pesada.
— Espero que ele possa se livrar desses ataques – afirmou Telles.
— E vai – disse Caio. – O Juão prometeu que vai me ajudar a sair daqui.
— Tomara – retrucou Renata. – Preciso de você para trabalharmos bastante.
— Trabalhar?
— Sim. Pensa que vai sair da cadeia e não fazer nada? Não senhor. Vai trabalhar comigo.
— Eu não sei fazer nada – disse Caio, em tom humilde.
— Tem um rosto bonito. Está maltratado pelo tipo de vida que leva, mas com o tempo a beleza ressurgirá. Você vai ser um dos modelos da Cia. De Perfumes.
Os olhos de Caio brilharam emocionados.
— Jura?
— Sim. Não é o seu sonho?
— É.
— Não veio a São Paulo para ser modelo?
— Sem dúvida.
— Então aproveite seus dias de férias. Quando sair da cadeia, você vai trabalhar bastante.
Caio não cabia em si tamanho era seu contentamento.
— Obrigado por tudo, Renata. Não tenho palavras para lhe agradecer.
— Não tem de agradecer. Tem de fazer os homens comprarem meus perfumes. Só isso.
Caíram numa risada gostosa. Foi então que Max aproximou—se e contou a Caio sobre a carta que recebera de Bryan Scott.
— A reencarnação, meu amigo Caio, é um assunto cheio de controvérsias.
— Sei. Tenho lido a respeito.
— Neste ano, lá na Inglaterra, foi revelado um dos casos mais convincentes da história.
— É mesmo?
— Sim.
— Gostaria de me contar?
Max assentiu com a cabeça.
— Vim justamente para lhe contar essa fascinante história.
— Sou todo ouvidos – afirmou Caio.
Max apoiou—se nas grades e iniciou seu relato.
— O Dr. Joe Keeton já havia conduzido várias regressões por meio da hipnose quando conheceu o jornalista Ray Bryant. (Assuntos co—relacionados podem ser encontrados no livro Encounters with the past: astonishing accounts of hypnotic regression – que, numa tradução livre, poderia ser Encontros com o passado: relatos surpreendentes de regressão hipnótica, escrito por Joe Keeton e Peter Moss, Londres: Ed. Penguin Book Lt., 1984 (N.A.)). O Evening Post, periódico em que o jornalista trabalhava, encomendara—lhe a uma série de artigos ligados à paranormalidade. Em um desses artigos, Ray pretendia enfocar as evidências de reencarnação. E, a fim de dar à matéria um enfoque pessoal, o jornalista propôs ao Dr.Keeton que o hipnotizasse. Embora Bryant jamais tivesse sido hipnotizado, acreditou na seriedade com que Keeton conduzia seu trabalho.
Caio mostrou—se veementemente interessado. Maximiliano continuou:
— Sob efeito hipnótico, o jornalista Ray Bryant lembrou—se de algumas vidas passadas. A mais marcante, durante as sessões de hipnose, foi quando o jornalista havia vivido como um soldado, de nome Reuben Stafford, que lutou na Guerra da Criméia e, ao retornar à Inglaterra, passou os últimos anos da vida trabalhando como barqueiro no Tamisa.
De acordo com as lembranças de Bryant durante a regressão, ele reencarnou em 1822, quando nasceu em Brighthelmston, e desencarnou em 1879, quando morreu afogado em um acidente em Londres. Nessa vida anterior, o jornalista londrino adquiriu um acentuado sotaque da região de Lancashire, detalhe que refletia o fato de que Stafford passara grande parte de sua vida no norte da Inglaterra. A regressão do jornalista, em si, não constituía prova de nada, e, após testemunharem a manifestação do soldado vitoriano, dois membros da equipe de Keeton, Andrew e Margaret Selby, foram buscar evidências da existência real daquele homem.
Max suspirou e deu prosseguimento.
— Em Londres, na biblioteca Guildhall, o casal teve acesso, por coincidência, digamos assim, a uma lista com nomes de vítimas da Guerra da Criméia. Dela constava o sargento Reuben Stafford, que servia no 47º Regimento de Infantaria de Lancashire, e fora ferido na mão, na Batalha dos Quarries. Na sessão de hipnose seguinte, essas informações foram ditas por Ray Bryant. A data, o local, e o nome da batalha foram recordados por "Stafford", assim como outros fatos da sua carreira militar. Todos absolutamente corretos.
— Isso é formidável – replicou Caio.
— Tem mais – finalizou Max. – Todavia, a pesquisa do casal Selby não parou. Trabalhando alguns dias nos registros do cartório, descobriram a certidão de óbito do soldado Stafford, e puderam verificar que o militar morrera por afogamento, tendo sido enterrado em East Ham, como o jornalista revelara na primeira sessão de regressão. E, de mais a mais, os dados biográficos do soldado morto não eram publicamente conhecidos.
— Estou estupefato – concluiu Caio. – E esse caso foi revelado agora?
— Sim – tornou Max. – Faz duas semanas. O Dr. Bryan Scott me escreveu tão logo o artigo foi publicado. Por essa razão, quero voltar o mais rápido possível para Londres e debruçar—me cada vez mais sobre as evidências da reencarnação. Não há mais como duvidar.
— Estou fascinado. Tenho aprendido muito com os livros que mamãe me trouxe.
— O Max queria vir até aqui e contar esse caso pessoalmente a você – redargüiu Telles.
— Obrigado – tornou o rapaz. – Vocês fizeram meu dia. Ouvir essa explanação que prova a reencarnação e ainda ser convidado para ser modelo! Só falta a minha Luísa aqui para eu explodir de felicidade.
— Luísa está estudando bastante – ajuntou Renata. – Ela encontrou—se no Direito.
— E me encontrou – rebateu Caio. – O que mais ela quer?
Os três riram à beça. Continuaram entabulando conversação por mais alguns minutos e, algum tempo depois, Renata, Max e Telles despediram—se de Caio.
O rapaz deitou—se em sua cama e a expressão em seu rosto era puro contentamento.
Próximo dele, os espíritos de Norma e Carlota mantinham conversação.
— Estou tão feliz! – exclamou Norma. – Fiquei afastada algum tempo, dando assistência ao Gregório, quer dizer, Lucy, e nem vi o tempo passar. Parece que caminhamos para um desfecho feliz para todos.
— Sim – tornou Carlota. – Logo Caio será solto e poderá recomeçar sua vida ao lado de Luísa.
— E Henry? Eu não mais o vi – perguntou Norma.
— Ele está fazendo um cruso preparatório próprio para aqueles que vão reencarnar. Henry anseia muito por uma vida feliz ao lado de Luísa e Caio.
— Ele fora privado do convívio do pai no passado. Não vai estranhar o convívio com Caio?
— De forma alguma. Caio em outra vida os abandonou, mas agora sua consciência o chama para a responsabilidade do matrimônio e da paternidade. No fundo, ele anseia por ser bom marido e bom pai. Henry o perdoou de coração e vai nascer num lar muito feliz.
— Pelo menos alguns nós do passado foram desatados.
— Sim, Norma. E por falar em nós – Carlota adquiriu um olhar sério –, onde está Loreta? Ela não queria ver o Caio?
— Loreta virá em outra oportunidade. Está ao lado de Lucy. Elas estão se entendendo.
— Mãe e filho nesta vida, irmãs no passado. Como a vida é mágica, proporcionando—nos oportunidades diversas de reencontros e ajustes!
— Nem me fale Carlota. Sinto—me gratificada em poder ajudar a todos. Afinal, fazemos parte de uma grande família.
Carlota assentiu com a cabeça. Em seguida, beijaram a fronte de Caio e dirigiram—se para a cela ao lado.
— Vamos assoprar em Juão a evidência? – perguntou Norma, em tom de malícia.
Carlota deu uma piscadela.
— Creio que está na hora. O espírito de Caio amadureceu e ele se libertou das culpas do passado. Não precisa mais passar por essa experiência. Chegou o momento de lhe ajudar.
— E também ao Juão.
— Por certo, Juão falhou muito nesta vida, mas encontra—se sinceramente arrependido. Ele merece uma nova chance. Quem sabe, ligado ao nosso grupo, ele não venha a desenvolver um bonito trabalho espiritual na Terra?
— Tem razão, Carlota, todos merecemos uma nova chance.
As duas aproximaram—se de Juão. Ele estava adormecido. Carlota pousou a mão em sua fronte. Uma luz cristalina irradiou de sua mão e entrou na mente do rapaz. Em seguida, Norma abaixou—se na altura da nuca dele e assoprou. Juão remexeu—se na cama, seu corpo estremeceu por instantes e ele voltou a dormir.
— Terminamos nossa parte – tornou Norma.
— Que Deus abençoe a todos – finalizou Carlota.




CAPÍTULO 30


Renata chegou cedo ao Centro Espírita naquela noite. O trabalho na Cia. De Perfumes ia de vento em popa, era pesado, mas ela começava a colher os resultados de sua dedicação extremada. Ela conseguiu renegociar as dívidas com os fornecedores, pagou os salários atrasados dos funcionários e a campanha do novo perfume Adônis, estrelada por Marco Antônio, fez tremendo sucesso.
O dinheiro entrava aos montes no caixa da empresa e Renata sentia—se realizada. Era o que desejava. Ter seu próprio negócio. Aliás, um negócio bem rentável.
Ela estava intrigada com algo que acontecera no finalzinho da tarde. Não era costume, não obstante, naquela tarde em particular, Renata decidiu largar o batente mais cedo. Deixou algumas recomendações a Meire, que agora era sua secretária.
— Pode ir mais cedo. O dia foi puxado e nós merecemos um descanso maior.
— Obrigada, Renata – agradeceu Meire, sincera. – Entretanto, tenho me sentido feliz em ver a empresa voltar a crescer. Tenho orgulho de fazer parte do quadro de funcionários da Cia. De Perfumes.
— Vocês fazem por merecer. Tenho excelentes funcionários. Sem vocês, eu não conseguiria tamanho sucesso.
— Obrigada.
— Por esse motivo, hoje você pode ir para a casa mais cedo para descansar.
— Eu vou ficar mais um pouco.
— Por quê?
Meire riu.
— Marco Antônio está assinando um contrato lá no departamento de recursos humanos. Ele vai me levar para casa.
Renata balançou a cabeça para cima e para baixo.
— Entendo.
Meire ruborizou.
— Assim que ele sair, vamos embora.
— Está namorando o Marco Antônio?
— Estamos saindo.
— Torço por vocês. Marco Antônio é um bom moço e, cá entre nós, muito bonito. Veja como o rosto dele vende meu perfume!
— Ele é lindo, sim, Renata. Mas é cavalheiro, sensível. O homem dos meus sonhos.
— Vocês formam um lindo casal. Você também é muito bonita, Meire.
— Obrigada.
— Que sejam felizes. Vibrarei por vocês.
Meire sorriu e, ao chegar na porta da sala de Renata, virou o corpo e perguntou:
— Vou passar o tempo e quero jogar alguns papéis fora. Tem muita coisa do seu Gregório na minha sala.
— O quê, por exemplo?
— Contas, correspondências que fui guardando após sua morte. Há um monte lá nas minhas gavetas – ela fez um sinal com as mãos. – Posso me livrar delas?
— Pode sim. Afinal, faz mais de um ano que Gregório morreu. Genaro vendeu—me a companhia e, quando vendeu a mansão do Morumbi, mandou para cá todas as correspondências de Gregório.
Creio que podem ir para o lixo.
— E – ajuntou Meire – quando a casa foi vendida, o Genaro mandou todas as contas para cá também. Tem muito papel para jogar fora.
Renata sentiu um aperto no peito, parecia que sua intuição queria lhe dizer algo.
— Façamos o seguinte. Separe as correspondências de Gregório, as contas e tudo o mais que estiver no nome dele, coloque—as numa caixa e deixe aqui na minha sala. Faria essa gentileza?
— Não quer que eu jogue fora? Vieram muitas contas antigas lá da casa do seu Gregório. É muita papelada sem valor.
— Algo me diz que não devemos, ainda, jogá—las fora. Deixe—as aqui na minha mesa.
— Está certo. Boa noite.
— Boa noite, Meire. Até amanhã.
Mafalda deu—lhe um cutucão de leve.
— Está aqui ou em outro mundo?
— Olá Mafalda. Por que já chegou?
— Os espíritos me avisaram que você viria mais cedo. Pediram para que façamos uma corrente de orações para o Caio.
Renata preocupou—se.
— Algo ruim?
— Não creio. Vamos atender às recomendações do Alto.
Elas continuaram a conversar. Em seguida, Zulmira apareceu na recepção. Após o tratamento espiritual, ela passou a freqüentar a casa espírita amiúde. Cumprimentou—as com beijinhos na face.
Mafalda pediu licença, dizendo:
— Conto com você, Renata, para a corrente de orações no término dos trabalhos. Se quiser – convidou Zulmira – poderá participar também.
— Adoraria.
— Espero—as logo depois das dez horas.
Mafalda afastou—se, e Zulmira ajuntou:
— Adoro sentir—me útil. Hoje vamos orar por alguém em especial?
— Sim. Um amigo nosso precisa de nossas vibrações positivas. Será um prazer ter você conosco.
— Gosto muito de você, Renata – disse ela, de maneira bem espontânea.
— Eu também prezo muito a sua amizade, Zulmira. Simpatizei com você desde aquele distante dia, aqui na recepção.
— Eu também a achei muito simpática. Algo me dizia que eu a conhecia. Mas de onde?
Renata sorriu.
— Talvez de outras vidas.
— Será?
— Como diz Mafalda, os encarnados nunca se encontram por acaso.
— Creio que – Zulmira suspirou – se você conhecesse meu filho, tenho certeza de que se dariam muito bem. Entretanto – disse ela de maneira triste –, ele está apaixonado, morre de amores por uma moça.
— E isso não é bom? – perguntou Renata. – O amor não é espontâneo, não vem de graça. Amor é potencial que se desenvolve, que se educa. Seu filho merece ser feliz. Não é o que almeja?
— Sem dúvida! – exclamou Zulmira. – Bom, ele vai levá—la para jantar na minha casa qualquer dias desses. Sempre que marcamos, alguma coisa dá errado. Ou eu não posso, ou ela não pode, ou até mesmo meu filho não pode.
— Na hora certa você vai conhecê—la e tenho certeza de que vai adorá—la.
— Será?
— Confie, Zulmira. Se seu filho é tão bom como você diz, então a moça também deve ter lá seu charme, sua simpatia. Não se esqueça de que nos unimos por afinidades.
— Assim espero. Por falar nisso – ela baixou o tom de voz –, meu filho vem conhecer o Centro hoje.
Eu falo tão bem daqui, que ele está curioso para saber onde sua mãe se meteu.
Elas riram. Renata perguntou:
— Ele é médium, não é? Lembro—me de você ter me falado que ele escutava os espíritos.
— É. Você se lembra mesmo! Na profissão dele...
Zulmira começou a contar sobre a profissão do filho, todavia Renata não lhe deu ouvidos. Enquanto prestava atenção ao relato de Zulmira, ela ficou estática, dura, ao ver aquele homem barbudo entrar no Centro Espírita. Seu coração bateu descompassado e Renata sentiu a boca secar, tamanha era sua emoção.
Zulmira percebeu o estado apoplético da moça e acompanhou os seus olhos. Ela abriu largo sorriso e estendeu os braços.
— Filho! Que bom que chegou.
Telles deu um abraço bem apertado na mãe, enquanto seus olhos não desgrudavam dos de Renata. Zulmira desprendeu—se dele e apresentou:
— Essa é a moça de que lhe falo tanto.
— Renata?
— Sim.
— Você queria me apresentar a Renata, mãe?
— É! Como sabe o nome dela?
Zulmira não disse mais nada. Notou o olhar apaixonado de ambos. Telles beijou delicadamente os lábios de Renata e, antes que sua mãe pudesse articular som, ele contrapôs:
— Mãe, esta é a moça que eu tanto quero lhe apresentar.
— Como assim? – inquiriu Zulmira, sem entender.
— A Renata é a moça por quem estou perdidamente apaixonado.
Zulmira não conteve a emoção. As lágrimas escorriam pelo seu rosto. Ela abraçou—se a Renata.
— Você não sabe como estou feliz hoje. Sempre roguei a Deus que pudesse intervir e aproximar você do meu filho. Eu sentia que vocês iam se dar bem. Nasceram um para o outro.
— Você tem razão – tornou Renata, profundamente emocionada. – Nascemos um para o outro.
Os três fecharam—se num abraço caloroso. Após baixar o calor da emoção, conversaram animados, sobre as coincidências da vida. Se é que aquilo era coincidência.


***


Caio acordou com o grito desesperado de Juão.
— Eu sei! Eu sei!
Dois outros presos gritaram impropérios para Juão. Ele nem ligou. Chamou Caio, insistentemente.
— Ouça—me. É importante. Eu descobri!
Caio levantou—se de maneira irritada.
— Cale a boca, Juão. Não vê que é tarde?
— Por favor – ele fazia movimentos frenéticos com as mãos –, escute—me. É importante.
— O que foi dessa vez?
— Eu descobri a prova que vai inocentá—lo.
Caio não entendeu de pronto.
— O que foi que disse?
— Descobri a evidência que vai livrá—lo das grades.
— Deixe de besteiras, homem. Volte a dormir.
— Caio, por favor, escute—me. Eu orei muito nesses dias e comecei, sinceramente, a me perdoar e a pedir perdão aos meus desafetos, tanto encarnados quanto desencarnados. Eu jurei que se pudesse ajudar você de alguma maneira, que minha mediunidade servisse de veículo para tal. Eu quero fazer o bem, somente o bem. E jurei que, se eu pudesse ajudá—lo para valer, eu iria me redimir e usar minha mediunidade para ajudar outras pessoas. Só para fazer o bem. É verdade.
Juao falava de maneira comovente. As lágrimas escorriam pela fronte e sua voz era entrecortada por soluços. Caio sentiu que ele falava a verdade. Ele aproximou—se das grades.
— O que tem a me dizer?
— Sonhei que estava na casa do empresário assassinado.
— Gregório?
— Esse mesmo. Eu estava na casa dele e de repente eu vi um papel. Aproximei—me e, chegando bem perto, era como se eu estivesse acordado. Foi muito nítido.
— O que você viu?
— Uma conta.
— Uma conta, Juão?
— É. Uma conta de telefone. Nela está a prova de que você não matou o empresário.
Caio não conseguia articular as palavras nem mesmo concatenar os pensamentos. Juão prosseguiu:
— Eu peguei a conta nas mãos e li no canto superior: fevereiro de 1983. Você deve mandar procurar essa conta de telefone, desse mês especifico. Nela vai estar à evidência que faltava.
Caio sentiu que seu coração ia explodir. Ele mordeu os lábios, mas não conseguiu conter o pranto. Precisava falar com Telles, com Dr. Lopes, com Luísa... Ele mal cabia em si tamanho era seu contentamento.
— Prometo – ele disse a Juão – que se isso for verdade e eu for solto, farei de tudo para tirá—lo da cadeia.
— E vou trabalhar num Centro Espírita. Usarei minha mediunidade em benefício das pessoas. Serei um homem de bem. Eu juro. Depois de hoje, eu não tenho mais dúvidas de que o Alto está me ajudando. Os espíritos de luz voltaram a ficar do meu lado – exultava Juao, profundamente emocionado.
Aquela noite foi difícil para Caio conciliar o sono. Ele bem que tentou, mas a ansiedade não lhe permitia fechar os olhos. Não obstante, a corrente de orações vindas do Centro Espírita e endereçadas a ele surtiram efeito. Caio sentiu—se bem, como há muito tempo não se sentia. Num dado momento, suas pálpebras cerraram e ele dormiu um sono profundo e reconfortante.
Na manhã seguinte, após ouvirem o relato emocionado de Juão, Telles e Dr. Lopes correram até a Cia. De Perfumes.
Relataram o sonho do médium a Renata.
— É impressionante – disse ela. – Com tanta riqueza de detalhes?
— Sim – afirmou Telles. – E Juão declarou que a conta está por aqui, nos pertences de Gregório.
Renata levou a mão ao peito.
— O que foi? – inquiriu o advogado.
— Meire ontem me falou que ia fazer uma limpeza e jogar fora as contas e correspondências de Gregório.
Telles sentiu o sangue gelar.
— Você não...
Renata tranqüilizou o namorado, encostando o indicador na boca dele.
— Chi! Calma. Eu tive um pressentimento de que deveria guardar essas correspondências. Segui minha intuição.
— Graças a Deus! – ponderou Telles.
— Elas estão naquela caixa – apontou.
Telles e Lopes vasculharam os documentos, as correspondências, as contas. Acharam à conta de telefone que Juão garantiu ver no sonho. Lopes checou e, para seu espanto, verificou:
— Olhe só isso! – apontou.
Telles espremeu os olhos e não podia acreditar no que via.
— Uma chamada à distância para Vassouras? Na madrugada do crime? Às quatro e meia da manhã?
— É. Como não atentamos a esse detalhe? Por que deixamos de verificar as contas telefônicas?
— Agora não vem ao caso, Dr. Telles. Vamos rastrear essa ligação.
E assim foi feito. A polícia entrou em contato com a companhia telefônica e descobriu—se que na madrugada que Gregório fora assassinado, de sua casa fizeram uma ligação para Vassouras, no Rio de Janeiro. Com posse do número discado, chegaram à casa de um humilde caseiro de um sítio.
Finalmente, descobriram o paradeiro de Guido. Ele estava morando com os pais, na casinha anexa ao sítio. Mas Guido não pôde ir a julgamento. E nem teria condições de esperar pela sentença condenatória. Era como se seu corpo, combalido e doente, estivesse esperando por aquele momento, a fim de se redimir e desencarnar com a consciência menos pesada.
Os investigadores de polícia tomaram seu depoimento. Ele confessou ter assassinado Gregório.
Um dos investigadores, vendo o estado precário em que Guido se encontrava, perguntou ao pai:
— O que ele tem?
— Doença ruim. Parece que ele pegou esse câncer que está matando os homossexuais – falou, num tom envergonhado e triste.
Guido desencarnou três dias depois de assinar seu depoimento. Pressentindo que a morte o levaria naquela noite, solicitou ao pai que entregasse uma carta a Caio.


*****


A imprensa não se interessou pela prova que inocentava Caio. Como o culpado do assassinato de Gregório havia morrido e o crime já começava a desaparecer da mente social, nenhum alarde foi feito no dia em que o juiz expediu o alvará de soltura.
Luísa, Rosalina e José chegaram cedo ao distrito policial. Em seguida, chegaram Telles, Renata e Max. Até Celinha estava presente. Todos estavam ali para abraçá—lo, beijá—lo e ajudá—lo a reintegrar—se à sociedade, depois de um longo período preso.
As lágrimas banhavam a face de Caio. Ele não tinha palavras para expressar a sua gratidão. Todos aqueles à sua volta prezavam pelo seu bem—estar.
Caio nunca se sentiu tão amado em toda sua vida.
Luísa entregou—lhe a carta de Guido. Caio abriu o envelope e tirou o papel amarelado pelo tempo. As letras continham vários garranchos, mas ele conseguiu entender.


Prezado Caio,

Não sei quando esta carta vai chegar em suas mãos. Mas tenha a certeza de que, quando você estiver lendo essas linhas, eu não estarei mais entre o mundo dos vivos...
Eu o conhecia muito antes de nos encontrarmos no ponto de ônibus, afinal, tudo não passou de uma armação do Gregório. Ele descobriu que Loreta, sua mãe, tinha—o como amante e sentiu—se ultrajado, porém fixou na mente que se ela podia ter um rapaz lindo em sua cama, ele também podia.
Eu tentei demovê—lo da idéia, mas Gregório me deu um bom dinheiro para ir a Bauru e vigiar seus passos. Ele arquitetou tudo. Loreta não morreu de ataque cardíaco, foi assassinada. Por Gregório. Isilda colocou um pó na taça de champanhe de Loreta, pó esse fornecido por Gregório, na noite do crime.
A mãe estava morta e assim comecei a persegui—lo. Eu fiquei na espreita e vi quando você saiu da casa de Loreta, aturdido. Sabia que você ia fugir como Gregório previu. Eu o segui na viagem de ônibus. Você nem notou minha presença. Em São Paulo, eu fui um dos últimos a sair do ônibus. Fui atrás de você e, num dado momento, fingi estar na fila do ponto e apresentei—me como amigo.
Mas eu estava fazendo tudo o que Gregório queria. A idéia dele era tê—lo a todo custo. Por esse motivo quis atrai—lo para a Cia. De Perfumes.
E, para atormentá—lo, ele escrevia aquelas cartas em que dizia ser você o autor da morte de Loreta.
Foi uma espécie de vingança, não sei ao certo.
Quando Max me deixou, eu procurei Gregório e o extorqui. Arranquei bastante dinheiro dele, porque, se ele não me desse o que eu queria, eu contaria tudo sobre a morte de Loreta.
Na noite em que você esteve para lhe devolver o dinheiro, eu estava no quarto. Eu precisava de mais dinheiro e estava me deitando com Gregório.
Assim que você saiu, ele subiu para o quarto, aos prantos, dizendo que o amava e que você não podia ser de ninguém. Eu afirmei que ele era doente e que estava bêbado. Gregório pegou um papel e começou a escrever seu nome. Eu arranquei o papel da mão dele.
A nossa discussão durou até umas quatro da manhã. Eu exigi que ele me desse à combinação do cofre. Gregório me esbofeteou. Fiquei fora de mim. Corri ao banheiro, olhei—me no espelho e ao ver a marca de seus dedos no meu rosto, fiquei possesso.
Peguei um par de luvas plásticas na gaveta sob a pia, porque tencionava esganá—lo. Mas aí eu vi uma tesoura e não pensei duas vezes.
Saí do banheiro e mudei o tom de voz. Implorei para que Gregório se deitasse na cama. Ele me dizia ser Lucy. Falava que você era dele e deitou—se de costas. Aproveitei aquele momento, amarrei seus braços, peguei a tesoura e... O resto você já sabe. Não preciso dizer como o matei.
Após meu ataque de fúria, eu concatenei os pensamentos, mas já era tarde. Gregório estava morto e eu me apavorei. Pensei em meu pai e liguei para Vassouras. Meu pai ainda brigou comigo porque era madrugada e ordenou que eu ligasse pela manhã.
Eu estava atordoado, perturbado. Ainda sob o efeito do álcool e da maconha, eu meti as luvas no bolso da jaqueta, peguei o dinheiro que você deixou sobre a mesinha no jardim de inverno e, propositadamente, deixei sobre ela o papel em que Gregório escrevera seu nome.
Fui até o cofre e não consegui abri—lo. Eu estava muito nervoso. Os cães me conheciam e só latiram. Não me morderam. Eu escalei o portão, ganhei a rua e tomei um táxi em direção à rodoviária. Comprei uma passagem para o Rio de Janeiro. Quando desci na rodoviária, comprei o bilhete para Vassouras.
Eu me arrependi e decidi procurar a polícia. Entretanto, comecei a ter diarréia constante e febre. Encharcava os lençóis. Descobri estar com AIDS. A doença evoluiu de maneira rápida e, envergonhado e doente, não tive coragem de me entregar a policia.
Eu orei muito para que, de alguma forma, você pudesse não ir a julgamento. Deus me ouviu. Provavelmente agora, você está livre.
Estou com medo. Sinto que vou morrer e nunca pensei que um dia isso fosse acontecer. Pelo menos não tão cedo.
Eu não enfrentei um tribunal, mas vou enfrentar o de minha consciência.
Que Deus o abençoe.

Guido.


Caio terminou de ler e enxugou os olhos com as costas das mãos. Ele abraçou—se a Luísa e chorou, chorou muito. Não adiantava sentir raiva de Guido. Ele estava colhendo o que havia plantado. E, o mais importante era que ele estava livre. Estava solto.



EPÍLOGO


Os dias que se seguiram foram de imensa felicidade para Caio. Ele mudou—se para o apartamento de Luísa. Marcaram a data do casamento para dali três meses. Telles e Renata animaram—se e marcaram a data de seu enlace para logo mais.
Maximiliano ficaria até o casamento de Telles e Renata, e no dia imediato partiria para Londres. Não tencionava mais regressar ao Brasil.
Isilda foi localizada e presa, mas não pôde também ir a julgamento. Estava louca, atormentada por espíritos zombeteiros com os quais ela se comprometera no passado. Terminou seus dias trancafiada em uma instituição para doentes mentais.
Juão saiu da prisão com a ajuda de Caio. Não quis fazer outra coisa na vida a não ser trabalhar para o benefício das pessoas, assessorado sempre por espíritos de luz. Foi trabalhar no Centro Espírita de Mafalda.
Genaro foi pego em um esquema monstruoso de corrupção, que lesou bastante os cofres públicos. O deputado federal foi preso e seus amigos poderosos sumiram. Sentindo—se abandonado e traído, Genaro chamou repórteres de todas as mídias e descreveu o funcionamento de um sistema articulado que arrancava verbas do governo e distribuía propinas.
Depois, dedurou ministros, governadores, senadores e outros deputados. Foi um escândalo. Ele teve seu mandato cassado, perdeu seu eleitorado e nunca mais conseguiu retornar à política. Seu filho, anos depois, tornou—se importante ativista em defesa dos direitos homossexuais.
Só então, Genaro percebeu que o telhado de sua casa também era de vidro...


*****

Em uma tarde chuvosa, Caio ficou no estúdio até mais tarde, para ensaio de nova campanha publicitária. Seu rosto começava a despontar em outdoors, cartazes e páginas de revistas. A cada foto impressa, Luísa exultava de felicidade.
Nesse dia, passava das quatro quando Luísa entrou no estúdio. Era pausa para o café e ela aproveitou para beijar o noivo.
— Não tem aula na faculdade?
— Hoje não. E, mesmo que tivesse, eu não iria.
— Por quê?
Luísa fez ar de mistério.
— Trouxe alguém que deseja muito vê—lo.
— Alguém?
— Sim, que você gosta muito.
Caio deu de ombros.
— Mande entrar.
Luísa afastou—se e saiu da sala. Caio pegou uma xícara de café. Estava de costas quando ouviu a voz familiar:
— Não vai cumprimentar a sua pantera?
A xícara de café quase foi ao chão. Caio rodou lentamente nos calcanhares e gritou:
— Sarita!
Abraçaram—se de maneira afetuosa. Havia muito que Caio queria encontrá—la, mas soube que ela se casara e sumira no mundo.
— Não faz idéia do quanto desejava revê—la – ele a enlaçou pela cintura e disse à Luísa: — esse é o meu anjo bom.
— Eu sei – concordou Luísa. – E eu sou o quê?
— E agora? – perguntou Sarita. – Está numa enrascada!
— Não – objetou ele. – Luísa é meu grande amor.
Elas riram. Luísa balançou a cabeça para cima e para baixo.
— Se saiu bem, hein? Sedutor de araque.
Caio notou a barriga proeminente de Sarita.
— Você está grávida!
— Sim. De meu primeiro filho. Eu me casei e fomos para a Europa. Osório ganhou uma bolsa de estudos e eu o acompanhei. Decidimos que iríamos morar em Lisboa, entretanto, quando engravidei, decidimos que queríamos criar nosso filho em solo brasileiro. Aqui podemos ser livres, podemos nos expressar à vontade, não precisamos seguir regras rígidas de comportamento. Quero que Caio cresça nesse ambiente descontraído.
— Você disse Caio?
— Sim – respondeu Sarita. – Nosso filho vai receber o seu nome. É homenagem minha e de meu marido pela sua garra, pela sua luta, pelo que passou na cadeia esse tempo todo. Você é um vencedor. E meu filho vai ter o privilégio e o orgulho de levar o seu nome.
Caio emocionou—se. Beijou a testa de Sarita e a abraçou mais uma vez.
— Você não imagina o quanto me deixa feliz com essa homenagem. Obrigado.
— Queremos que você e Luísa sejam os padrinhos de nosso filho.
— Fico lisonjeada. – afirmou Luísa.
— Obrigado – disse Caio, enquanto segurava e beijava as mãos de Sarita. – Quando eu e Luísa tivermos nosso primeiro filho, você e seu marido também serão os padrinhos. Concorda?
— Sim. Espero que nossos filhos cresçam juntos, amigos, rodeados de carinho e de amor.
Unidos pelos laços sagrados da amizade.
— É isso aí – tornou Caio, com a voz embargada.
— Quero apresentar a você meu marido.
Sarita foi até a porta e chamou. O homem era alto, os cabelos negros jogados naturalmente para trás. A camisa estava aberta até o meio do peito e dele saltavam tufos de pêlos. Era um tipão. E Caio jurou que conhecia aquele rosto quadrado e bem apessoado de algum lugar.
Osório estendeu a mão e o cumprimentou.
— Como vai?
Caio observou mais atentamente e seus olhos quase saltaram das órbitas ao constatar quem era aquele homem.
— Padre Osório?
Osório riu.
— Padre não. Ex—padre. Larguei o sacerdócio por amor a Sarita. Desliguei—me da igreja, casamo—nos e ganhei uma bolsa para fazer pós—graduação em Teologia.
Caio abriu e fechou a boca, sem articular som. Abraçou Osório com carinho.
— Padre... Quer dizer, Osório, como estou feliz por você e Sarita.
— Eu não lhe dizia que ele me olhava de esguelha na igreja? – falou Sarita, de maneira divertida.
— É – tornou Caio, emocionado –, você estava certa.
Eles abraçaram—se e continuaram a conversa por longo tempo. Caio deixou os ensaios para o outro dia. Queria passar cada minuto ao lado de seu anjo bom. Quanta saudade sentiu de Sarita. E agora não mais se desgrudariam. Nunca mais.


****

Alguns meses depois, Caio e Luísa batizaram, conforme o prometido, o filho de Sarita e Osório, o pequeno Caio.
Dois anos se passaram e agora era o momento de Sarita e Osório fazerem o mesmo com o pequeno Henrique, um menininho lindo, forte, robusto, vendendo saúde e parecido com o pai.
Luísa e Caio, acompanhados por Rosalina, José e Eunice, chegaram primeiro à igreja de Santa Rita de Cássia. Celinha e Malaquias vieram logo atrás. Eles haviam se conhecido no dia em que Celinha ajudou Caio na mudança para o apartamento de Luísa. O namoro ia muito bem.
— É aqui que quero me casar, entendeu? – falou Celinha.
— Não sei se poderei arcar com as despesas.
— Nem pense nisso! – ela protestou. – Vamos conseguir pagar e.
Caio os interrompeu.
— Eu ajudarei nas despesas. Será meu presente de casamento para vocês.
Malaquias riu com gosto.
— Agora não tenho como dar desculpas.
Celinha fez ar de mofa, enquanto os demais caíram em sonora risada.
No caminho para o altar, Caio puxou José pelo braço.
— Eu prometi a você, meu pai, que meu filho seria batizado nesta igreja. Em sua homenagem.
José sentiu a voz embargada. Adorava quando Caio o chamava de pai.
— Obrigado, meu filho. Estou muito feliz... José parou de falar. As lágrimas o impediam de continuar. Caio o abraçou.
— Eu o amo, José. Você é o pai que nunca tive. E – ele afastou—se e riu, procurando ocultar a emoção –, trate de cuidar bem de seu neto.
José enlaçou o braço no de Rosalina. As lágrimas teimavam em cair.
Sarita e Osório chegaram em seguida. Cumprimentaram—se e ela pegou o pequeno Henrique do colo de Luísa. O padre iniciou a missa de batismo. Próximo deles, os espíritos de Norma e Carlota sorriam felizes.
— Carlota, como estou feliz que tudo tenha dado certo.
— Como vê, Norma, nada como um dia após o outro. Veja nosso pequeno Henrique. Ontem estava aqui conosco como Henry e hoje está iniciando uma nova etapa reencarnatória.
— Formam uma linda família.
— Concordo.
— Visitei Loreta e Lucy na semana passada. Lucy recusa—se a recordar—se de sua existência como Gregório. Continua presa ao passado.
Carlota suspirou.
— Isso vai ajudar esse espírito a amadurecer, rever suas atitudes pretéritas e preparar—se para mudar. Um dia chegará em que Lucy terá de enfrentar Gregório, porquanto ambos são e estão no mesmo espírito. Enfim, tudo tem seu tempo certo. Sabemos que nenhuma folha cai sem o consentimento do Pai.
— Entendo. E quanto aos que estão encarnados? Terão acesso ao passado?
— Isso não se faz necessário – ponderou Carlota. – Eles estão felizes. É o que importa.
— Tive acesso ao passado deles e agora entendo muita coisa – redargüiu Norma. – Caio e Luísa eram casados, moravam em Londres. Entretanto, Caio tinha uma queda pelo sexo fácil e traía a esposa a torto e a direito. Ele a amava, mas seus instintos falavam mais alto. Até que Caio conheceu Loreta e tiveram um tórrido romance. Loreta também tinha um fraco pelo sexo e ambos se entregaram à paixão descontrolada. Triste e com o coração partido, Luísa se separou e casou—se com Genaro. Viviam relativamente bem, até que Caio, cansado da vida degenerada que tinha, quis voltar para seu verdadeiro amor. Luísa não o aceitou e ele fez de tudo para tê—la de volta.
Carlota tornou, de maneira calma:
— Foi então que Caio arquitetou o plano para que Genaro fosse preso, por um desfalque que jamais cometera. Luísa, mesmo assim, não voltou para Caio. Amargurado, ele foi pedir ajuda a Guido.
Ardiloso e inescrupuloso, Guido era casado com Lucy, irmã de Loreta e apaixonada secretamente por Caio. Lucy encheu—se de coragem e um dia declarou seu amor a Caio – naquele tempo, Philip. Ele rejeitou—a, humilhou—a. Ela o embebedou para que ele fizesse amor com ela. Quando Caio despertou, tiveram uma calorosa discussão. Caio não queria saber de Lucy, de jeito algum. Decidida de que Caio deveria ser dela, e só dela, Lucy quis matá—lo, para que ele não fosse de mais ninguém.
— E assim foi feito – concluiu Norma. – Lucy, depois reencarnada como Gregório, preparou poderoso veneno e entregou o cálice mortal ao amado. Por um lapso, a taça foi parar nas mãos de Guido. E, pelas imagens a que tive acesso, a morte de Guido foi lenta e cruel.
— Anos depois, já no mundo espiritual, Caio arrependeu—se de ter arquitetado a prisão contra Genaro e afirmou aos amigos espirituais que sua consciência só o deixaria em paz caso ele passasse pelo mesmo.
— Ele não precisava passar por isso – objetou Norma. – Eu tinha sido sua irmã também naquela vida e aqui no astral tentei demovê—lo dessa idéia de ser preso. Mas ele insistiu e coube a mim estar ao seu lado para que não esmorecesse.
— Mas Caio quis. Seu espírito ainda precisa passar pelas experiências desagradáveis, precisa do sofrimento para crescer. Há outros espíritos que crescem de maneira menos sofrida. Como você, por exemplo.
Norma sorriu.
— Cada caso é um caso.
— Guido está muito atormentado.
— Será que vai se recuperar de tudo o que fez? – perguntou Norma.
— Na eternidade tudo é possível – ponderou Carlota. – Num momento mais à frente, Guido vai ter de enfrentar a si mesmo. Essa triste e dolorosa experiência deve ser realizada, por ele, tão somente por ele.
— Que Deus o abençoe.
Norma falou e, em seguida, o padre falou o mesmo.
— Que Deus o abençoe, Henrique Galvão Souza...
As duas sorriram. Aproximaram—se do pequenino e Henrique notou—lhes a presença. O bebê esboçou largo sorriso, o que comoveu os padrinhos e os pais. Elas se afastaram e chegaram à porta da igreja. Olharam para o sol que já ia alto e para o céu azul. Fecharam os olhos e fizeram sentida prece de agradecimento.
Em seguida, avistaram lindo jardim rodeado por árvores e flores de várias espécies.
— O que acha de caminharmos pelo jardim antes de nossa partida?
— Excelente idéia, Norma.
Os dois espíritos iluminados deram—se as mãos e entraram no jardim. Uma brisa gostosa tocou—lhes o rosto, e ambas aspiraram o ar puro e delicado daquela linda manhã.
Logo a atenção de seus espíritos foi desviada para agitado, porém gracioso, beija—flor, que, suspenso no ar, alimentava—se do néctar de uma flor. Carlota e Norma sorriram e tiveram a certeza de que o dedo de Deus está em tudo, até mesmo em pequenos gestos que nós, muitas vezes, não damos à mínima atenção.


F I M



















































JUREMA DAS MATAS

MÔNICA DE CASTRO


Meu amor pela literatura existe desde os meus tempos de menina. Sempre gostei de ler e escrever, em verso e prosa, e foi nos poemas de Manuel Bandeira que lapidei ainda mais a sensibilidade da minha alma. Gostava de escrever poemas, contos, textos diversos, e cheguei a ganhar um concurso de poesia aos treze anos, aqui na cidade do Rio de Janeiro, onde nasci, em 1962. Ao mesmo tempo, minha mediunidade despertou, e adotei o espiritismo como bálsamo do meu coração. Meu desejo sempre foi o de ser escritora. Mas a vida nos leva por caminhos diferentes, sempre em nosso benefício, e acabei me formando em Direito e passando num concurso para o Ministério Público do Trabalho. Anos depois, após o nascimento do meu filho, senti a primeira inspiração. Foi uma coisa estranha. Uma voz ficava na minha cabeça, repetindo esse nome: Rosali, e a ideia de fazer um romance brotou na mesma hora. Rejeitei a ideia e pensei: "Quem sou eu para escrever um romance?". Por outro lado, a mesma voz também me dizia: "Não custa nada tentar. O máximo que pode acontecer é não dar em nada". Aceitei a sugestão do invisível, acreditando ser o meu pensamento, e fui sentar-me ao computador. Na mesma hora, a inspiração para Uma História de Ontem surgiu espontânea, e fui escrevendo, cada dia um pouquinho. Até então, eu não sabia que estava psicografando. Foi só quando terminei o romance que recebi a psicografia do Leonel, que abre o meu primeiro livro, e nele se apresenta, dando o seu nome. Mas foi preciso uma boa dose de desprendimento para escrever, sem questionar e aceitar a interferência do espírito. Hoje, posso dizer, Leonel é parte fundamental da minha vida. Não escrevo para viver. Escrevo porque gosto e porque acredito estar levando algum bem para as pessoas. E é esse sentimento que me faz querer escrever cada vez mais. É pelas pessoas que vale a pena escrever. Pelos leitores, que estão em busca de algo, além do aqui e agora, e que acreditam no poder da fé, do autoconhecimento e do amor, como caminhos seguros para a transformação do Ser. Acredito que nós todos podemos trabalhar pelo aperfeiçoamento moral da humanidade para construir um mundo melhor.

Falando sobre o passado...

Não sei dizer se é doloroso relembrar tantos acontecimentos que se perderam na poeira dos tempos... Os anos se passaram e eu me modifiquei, tentando remodelar a imagem austera, arrogante e orgulhosa que, durante tantos séculos, ficou grafada em mim. Hoje faço parte de uma nova vida. Não daquela à qual os homens se acostumaram por ilusão, mas à real existência dos seres imortais que habitam os muitos espaços acima deste pequenino mundo que é a Terra. Gosto de viver em espírito, assim como gostei de ter um corpo de carne e desfrutar os prazeres e vícios que me satisfaziam as paixões e o ego. Agora, porém, tudo isso passou. As marcas da desilusão serviram para tornar confiante e segura a manifestação da minha vontade. Tento crescer e levar comigo tantos quantos possam me acompanhar. Mas a visão estreita do mundo ainda faz com que os olhos do homem permaneçam fechados, mesmo quando a luz da verdade desponta diante dele, quase a ofuscar-lhe a mente nebulosa. Não foi fácil acertar o ritmo dos pensamentos para trazer esta história. No entanto, ela está aqui e é real, em cada uma das existências em que experimentei a sensação da matéria densa. Os ensinamentos foram muitos e enriqueceram minha alma de uma forma que não poderia descrever. Quanta gratidão tenho a Deus pela chance de enxergar dentro de minha mais profunda essência e buscar, em mim mesma, o caminho da redenção. A dor foi necessária e me ajudou, porque eu ainda não havia compreendido o poder transformador e curativo do amor. A vida só vale a pena se for vivida pelo amor ou em busca do amor. Fora disso, tudo é ilusão e há de ficar para trás nas sombras das encarnações. A inteligência é um atributo divino e, se exercida com amor, transcende os limites da razão mesquinha e adentra, límpida e serena, o mais alto plano que a alma humana pode tocar. Por todos nós, que ainda estamos presos às tramas desse mundo de sonhos, é que resolvi contar a minha história...

CAPÍTULO I

Chovia torrencialmente quando Alejandro Velásquez deixou a taverna, ainda sentindo os efeitos estonteantes do rum e da mulher que o inebriara na cama. Foi caminhando, cambaleante, tentando recordar-se do local em que havia deixado o cavalo. Como a memória lhe falhava, sacudiu os ombros e cuspiu no chão, tomando o caminho da rua à direita, e seguiu chutando as poças e espargindo água por todo lado. Era madrugada, e não havia ninguém na rua. Um cão encharcado se aproximou, e Alejandro lhe teria dado um pontapé, não fosse o bichinho mais rápido e fugisse assustado, alertado pelo instinto de que não estava diante de uma pessoa amiga.
- Idiota - rosnou o homem, tentando equilibrar-se e seguir avante.
Quando chegou em casa, o dia estava prestes a raiar, e ele abriu a porta com estrondo, atirando-se na primeira poltrona que viu pela frente. Ali mesmo adormeceu, até que foi despertado algumas horas depois pelo murmurinho da criada, ocupada em limpar a sala enquanto cantarolava uma cantiga da moda.
- Pare com esse barulho infernal! - esbravejou ele, assustando a moça, que deixou cair a bandeja de prata que segurava.
- Senhor! - redarguiu ela, cabeça baixa e voz humilde. - Não sabia que estava aí.
Ele não respondeu. Levantou-se, coçando o queixo, e passou por ela sonolento, não sem antes lhe beliscar as nádegas e dar uma gargalhada irônica. Apesar da contrariedade, a moça nada fez e se encolheu para lhe dar passagem.
- Onde está a minha mulher? - perguntou, ainda sustentando no canto da boca aquele sorriso maroto.
- Está dormindo.
Alejandro não disse nada e saiu. No quarto, a esposa dormia placidamente, e ele parou para fitá-la por uns instantes. Era linda e lhe pertencia, por mais que ela não gostasse disso. Com gestos bruscos e desajeitados, sentou-se na cama ao seu lado e alisou os seus cabelos. Rosa abriu os olhos contrariada e fixou-os no marido, esforçando-se para conter o repúdio e não o mandar embora.
- Não o vi chegar - foi o que conseguiu dizer em sua mal disfarçada repulsa.
- Não quis acordá-la, minha querida. Você dormia feito um anjo dos céus.
Rosa sabia que era mentira, que ele havia passado a noite fora na companhia de mulheres de reputação duvidosa e de bebida farta, porém, não disse nada. Tinha vontade de xingá-lo e depois fugir correndo dali, mas não podia. O pai a forçara àquele casamento sem amor em troca de um nome que lhe salvasse a honra. Parecia que fora há muito tempo que se apaixonara por um artesão de sapatos, dono de uma oficina próxima à casa em que viviam, ainda na Espanha. De uma hora para outra, Rosa dera para fazer constantes visitas ao artesão, encomendando-lhe mais sapatos do que tinha ocasiões para usar. O pai, desconfiado, acompanhou-a em uma dessas visitas e logo percebeu um brilho diferente na troca de olhares entre os dois. Naquele momento, julgava tratar-se de uma paixão inocente e platônica, mas, ainda assim, proibiu a filha de ver o rapaz. Auxiliada por uma criada, Rosa passou a receber o moço em seu quarto todas as noites. O pai, a princípio, julgou que a obediente Rosa houvesse esquecido o artesão. Contudo, com o passar dos dias, notou que ela vivia com o olhar sonhador, sorrindo sem motivo e prestando pouca atenção aos jovens que a cortejavam. Foi quando o pai descobriu tudo. Furioso, teria matado o rapaz, mas este, mais rápido, fugiu espavorido pela sacada e nunca mais foi visto. A tristeza de Rosa só não foi maior do que o desgosto do pai, que viu, de uma hora para outra, sua reputação esvair-se nos lençóis manchados do pecado da filha. Ele já estava decidido a mandá-la para um convento quando conheceu Alejandro. Acontecera na taverna de sempre. Alejandro, abraçado a Giselle, a proprietária, sua amiga, e por vezes amante, falava com os companheiros sobre um lugar chamado Castilla de Oro1, colônia da Espanha nas recém-descobertas terras de além-mar, para onde pretendia ir assim que surgisse uma oportunidade. A novidade chamou a atenção do pai de Rosa e, em poucos minutos, estava negociado o casamento da moça. Alejandro lhe daria um nome em troca de dinheiro para a viagem e as primeiras despesas. Na véspera do casamento marcado às pressas, Alejandro repartia com Giselle a excitação que o dominava ante a perspectiva da viagem.
- Acho que o que você está fazendo é uma loucura! Deixar o mundo civilizado por uma terra de selvagens? Francamente!
- É lá que está o ouro, Giselle. Vou voltar rico!
- Conversa! Aposto que não tem nada lá além de mato e mosquitos. Sem falar nos índios que comem gente. Você vai se arrepender.

1 - Castilla de Oro – Nome dado pelos colonizadores espanhóis aos territórios da América Central, que se estendiam desde o golfo de Urabá (a oeste da atual Colômbia) até as margens do rio Belém, no Panamá.

Ele se movimentou na cama e a abraçou:
- Por que não vem comigo? Poderia ser minha amante.
- Deus me livre! Já tenho amantes suficientes aqui mesmo, na Espanha. E, depois, não nasci para essa vida de aventuras. Além do mais - ela aproximou a boca dos lábios dele e sussurrou baixinho -, estou apaixonada. De verdade.
- Sei. Por aquele velhote?
- Aquele velhote tem sido muito bom para mim, mas não, não estou apaixonada por ele. Conheci um homem de verdade.
Alejandro suspirou e ficou olhando-a. Gostava de Giselle. Eles eram amigos de longa data e, por vezes, dividiam a mesma cama. Giselle, no entanto, não era mulher de se prender a ninguém e estava envolvida com gente importante.
- Você é quem sabe - lamentou ele. - Mas vou sentir a sua falta.
- Eu também - ela se desvencilhou dele e foi apanhar a taça de vinho. - No fundo, você é como eu, Alejandro: livre e ambicioso.
- Estamos ambos em busca de uma vida de luxos. Não estou certo?
- Exatamente - concordou ela, levantando a taça em um brinde solitário.
Ele soltou novo suspiro e acrescentou em tom nostálgico:
- Reluto em deixá-la, mas já é hora de partir. Caso-me amanhã e, no outro dia, parto com minha doce esposa para Castilla de Oro.
- Sua doce esposa já experimentou o fel da desgraça - desdenhou ela. - Não vai ser fácil manter sob as rédeas uma mulher assim.
- Olhe só quem fala! Até parece que você é algum exemplo de doçura.
- É por isso mesmo que estou lhe avisando. Uma mulher conhece a outra. Sua Rosa é uma mulher experiente e apaixonada por outro homem. Aceitou esse casamento por imposição paterna. Ou você acredita mesmo que ela se apaixonou por você?
- Sei que não. Digamos que foi uma troca de interesses. Dinheiro por honra. É um preço justo.
- E a fidelidade? Faz parte do negócio?
- Você está certa de que ela vai me trair, não está?
- Ela não o ama e, na primeira oportunidade, vai cair nos braços de outro.
- Pois lhe garanto que isso não vai acontecer. Se Rosa é uma mulher fogosa, eu mesmo posso lhe oferecer o fogo de que necessita. E ela vai se dobrar a mim. Estarei sempre de olho nela.
- Bem, espero que se lembre do que lhe falei e não se surpreenda quando a encontrar na cama de outro.
- Lamento decepcioná-la, mas sei dobrar uma mulher. Rosa me será fiel, você verá.
- Infelizmente, meu caro, não verei. Você parte para o desconhecido, e eu terminarei meus dias aqui, no sossego de Sevilha.
- Escreverei para você e contarei o quanto Rosa é dedicada a mim. Só para deixá-la morta de inveja. Duvido que o seu padreco seja fiel a você.
- Ele não me interessa mais como homem. Já disse que estou apaixonada por outro, e sua fidelidade é inquestionável. É louco por mim.
- Será? Que homem é fiel se não está morto?
Ela atirou a taça em cima dele, errando o alvo, e riu gostosamente. Alejandro puxou-a para junto de si e beijou-a, deitando-se sobre ela na cama. Aquela seria a última vez que faria amor com Giselle e na Espanha. Pensar nisso causou-lhe certo arrepio. Será que nunca mais tornaria a ver a amante nem sua terra natal? E foi assim que Rosa se viu forçada àquele casamento arranjado às pressas, com um homem a quem repudiava e em cuja companhia foi enviada para o exílio. Em Castilla de Oro, a vida não transcorreu conforme o esperado. O sonho de riqueza se perdeu na ausência de ouro, e a vida permanecia estagnada na monotonia. Naquela terra estranha e sem muitas possibilidades, não havia ocupação para homens feito Alejandro, que acabou por obter permissão para se mudar para Cuba, junto com mais uma centena de espanhóis. Sem escolha, Rosa partiu com ele. Tudo isso agora era passado. A vida em Cuba se revelara bem mais agitada, o que não serviu para diminuir a aversão de Rosa por Alejandro. Ele era um homem rude e mal-educado, bebia em excesso e fazia sexo como um animal. Quase não lhe dirigia a palavra, a não ser para mandar e exigir obediência. Assim, foi com a usual repugnância que Rosa o sentiu aproximar-se, espargindo sobre ela aquele hálito repulsivo de bebida e suor. Rosa puxou o lençol alvo sobre a camisola de linho e virou o rosto, enojada, enquanto Alejandro a puxava pelo queixo para um beijo. No auge da repugnância, avistou um pequenino pedaço de pergaminho sobre o aparador da lareira, dando graças aos céus pela salvação.
- Chegou uma mensagem para você - conseguiu articular.
- Que mensagem?
Com um aceno de cabeça, Rosa indicou o pergaminho, e Alejandro a soltou com um suspiro. Apanhou-o e rompeu o lacre. Desdobrou-o, e seus olhos foram percorrendo a escrita desenhada até chegar ao fim. Leu e releu a mensagem umas três vezes, e Rosa ficou olhando-o, ansiosa para que ele lhe dissesse do que se tratava.
- Alguma coisa importante? - perguntou, tentando aparentar gentileza.
- Um convite. Para uma viagem.
- Viagem? Para onde?
- Outras ilhas - Rosa levou a mão ao peito e conteve um suspiro. - A mando de Bernal Diaz de Castilho2.
- Por quê?
- Parece que o governador acatou nosso pedido. Vamos partir em busca de índios.
Rosa não disse nada, mas, em seu íntimo, exultava. Que Alejandro fosse mandado para longe era o que ela mais queria.

2 - Bernal Diaz de Castilho - um dos cento e dez espanhóis que partiram de Castilla de Oro para Cuba, foi o cronista da expedição liderada por Francisco Hernández de Córdova ao Iucatã, no México.

No dia seguinte, ele atendeu ao chamado de Bernal e ficou sabendo que uma expedição seria montada, sob o comando de Francisco Hernández de Córdova3, a fim de capturar índios para o trabalho nas fazendas e na mineração. Seria a chance dele de adquirir escravos e estabelecer-se como fazendeiro. No caminho de volta para casa, ouviu uma voz familiar atrás de si. Ao se voltar, avistou Lúcio, seu amigo desde o dia em que chegara a Cuba, e foi ao seu encontro.
- Lúcio, meu amigo! - alegrou-se. - Há quanto tempo! Lúcio estendeu-lhe a mão e apertou a de Alejandro, sorrindo, ao mesmo tempo que dizia:
- Soube que vocês conseguiram a expedição. Era o que você queria, não era?
- Há muito tempo. Já não aguento mais esta falta de ação e aventura. E vou precisar de escravos se quiser realmente me transformar em fazendeiro. O dinheiro que meu sogro envia é suficiente para comprar a fazenda, mas, sem escravos, é quase impossível fazer algo.
- É verdade. E não há muitos disponíveis, há?
- Quem tem não quer vender. Eu também não venderia.
- Quem vai liderar a expedição?
- Um fidalgo chamado Francisco Hernández de Córdova.
- Já ouvi falar. Dizem que é muito rico e possui um povoado de índios aqui mesmo, em Cuba.
- Pois é esse homem que será o nosso capitão.
- Espero que a missão seja bem-sucedida, e que os índios não sejam selvagens.
- Não há selvageria que resista ao estrondo de um mosquete. Vamos domá-los, você vai ver.
- Pena que não poderei acompanhá-los. Tenho assuntos urgentes a tratar por aqui.
- É mesmo uma pena. Gostaria que pudéssemos ter uma aventura juntos.

3 - Francisco Hernández de Córdova - conquistador espanhol que, em 1517, liderou a expedição que descobriu a costa setentrional da península do Yucatã, onde foi travado o primeiro contato com a civilização maia.

- Oportunidades não hão de faltar, meu amigo.
- Já que vai ficar, poderia me prestar um grande favor?
- É claro! O que pedir.
Alejandro se aproximou ainda mais de Lúcio e falou baixinho:
- Você se lembra da história que lhe contei de Rosa, não lembra? - Lúcio assentiu. - Isso me deixa preocupado.
- Por quê?
- Rosa já era uma mulher experiente quando me casei com ela. Nunca se importou com reputação, ou honra, ou castidade.
- Você descobriu alguma coisa sobre ela? - horrorizou-se o amigo.
- Não é isso. Tenho certeza de que ela é fiel, mas porque eu estou aqui para satisfazê-la. Agora eu pergunto: o que fará uma mulher fogosa feito ela sem um marido para esquentar-lhe a cama?
- Você está exagerando. Rosa não me parece esse tipo de mulher.
- Ela nunca ficou sozinha. Sempre estive de olho Tela. É melhor não facilitar.
- E você quer que eu tome conta dela?
- Na minha ausência, sim. Seria um grande favor, de amigo para amigo.
- Está certo - concordou Lúcio com um suspiro. - Acho desnecessário, mas, se você insiste...
- Eu insisto. Sei que é um pedido um tanto fora do comum, mas só posso confiar em você.
- Fique tranquilo. Rosa estará bem guardada.
- Obrigado, amigo. Ah! E não deixe que ela perceba, ou, mais tarde, há de voltar-se contra mim.
- Não se preocupe. Ela não perceberá que a estou vigiando.
A conversa estava quase terminada quando um homem se aproximou. Era jovem e musculoso, e cumprimentou Lúcio como se já o conhecesse de muito tempo.
- Quero apresentá-lo a meu sobrinho, recém-chegado da Espanha - disse Lúcio para Alejandro, segurando o ombro do rapaz. - Este é Soriano e vai viajar com você.
- Muito prazer, Soriano. E seja bem-vindo. Espero que possamos ser amigos.
- Bem, aí vai então uma troca de favores - tornou Lúcio.
- Já que vou tomar conta de Rosa para você, será que se importaria de dar uma olhada em Soriano para mim? O rapaz é jovem e inexperiente.
Alejandro lançou um olhar para Soriano e revidou sorrindo:
- Com tantos músculos, talvez seja melhor ele tomar conta de mim.
- Nada me daria maior prazer, senhor - falou o rapaz, com voz servil.
- Soriano é forte, mas não tem experiência - explicou Lúcio.
- E meu irmão não me perdoaria se algo lhe acontecesse. É seu único filho varão.
- Deixe-o por minha conta - garantiu Alejandro. - Prometo defendê-lo com a minha vida e sei que você defenderá, com a sua, a minha honra de marido.
- Considero um privilégio servir ao seu lado, senhor - acrescentou Soriano, em tom embevecido. - Ouvi muito a respeito de sua intrepidez e ousadia.
- Não conte comigo para sua ama-seca, rapaz. Estarei ao seu lado para ajudá-lo a se tornar um homem. Sabe manejar uma espada?
- Sei, senhor. Mas reconheço que ainda tenho muito que aprender.
- Ótimo. Com sorte, estaremos a bordo do mesmo navio e poderemos praticar um pouco.
- E, depois, capturar muitos índios - finalizou Soriano, com ar arrebatado e sonhador.
Quando os três se despediram, havia um clima de forte expectativa no ar. Alejandro não estava acostumado a tomar conta de ninguém além de si mesmo, mas tinha que manter a palavra dada a Lúcio. Precisava que o amigo vigiasse Rosa, e o favor bem que valeria o sacrifício. Ademais, Soriano era um rapaz simpático, e poderia ser divertido tê-lo por companhia. Bastava esforçar-se para mantê-lo vivo, o que não deveria ser difícil, já que os índios que iriam capturar deveriam ser dóceis e amistosos. Ao menos era o que ele esperava.

CAPÍTULO 2

O dia da partida chegou veloz como uma flecha e Alejandro despediu-se de Rosa em casa. Ela não lhe preparou nenhuma despedida especial, mas fora carinhosa com ele na noite anterior e se entregara de um jeito ardente e apaixonado. Sim, fizera bem de impedir a Lucio que tomasse conta dela, porque uma mulher feito Rosa não se acostumaria a passar as noites sozinha. Em meio ao burburinho do porto, Alejandro avistou Lucio, que se aproximou com o sobrinho ao lado.
- Bom dia, amigo Alejandro. Entusiasmado com a viagem?
- E quem não estaria?
- É verdade. Soriano nem conseguiu dormir.
- Vá com calma, rapaz.
- É minha primeira expedição, senhor – justificou o moço. – Vim da Espanha louco por uma aventura.
- Chegar a Cuba já foi uma aventura – considerou Lucio.
- Essa é diferente. Nós vamos caçar índios!
- Espero que não sejam os índios a nos caçar - brincou Alejandro.
- Vocês estão no mesmo navio? - indagou Lúcio.
- Sim. E, por acaso, no mesmo em que viaja dom Francisco e o próprio Bernal.
Soriano lançou um olhar maravilhado para o navio e tornou com euforia:
- Se me derem licença, gostaria de embarcar logo.
- Ele não vê a hora de se lançar ao mar - comentou Lúcio, vendo o sobrinho subir a rampa da embarcação. - Espero que nada lhe aconteça.
- Nada vai lhe acontecer, eu prometo.
- Obrigado, meu amigo.
- E quanto a mim? Ou melhor, a Rosa?
- Não se preocupe, Alejandro, já disse. Estarei de olho nela.
- Sei que estará. Todavia, se por acaso acontecer de ela se encontrar com alguém...
- Isso não vai acontecer, eu lhe asseguro.
- Rosa é esperta. Enganava o pai para se encontrar com o amante artesão.
- Mas não vai me enganar. Tenho meus métodos para controlá-la.
- Que métodos?
- Pessoas que trabalham para mim e que ficarão encarregadas de vigiar sua casa à noite. Ninguém estranho entra ou sai.
- Ótimo! Aprecio a sua competência.
Despediram-se em seguida, e Alejandro embarcou no navio, em cujo convés Soriano já o aguardava. Era o dia 8 de fevereiro de 1517, e a flotilha partiu de Cuba contando com dois navios e um bergantim. Por muito tempo, Lúcio permaneceu parado no cais, vendo as embarcações se afastarem vagarosamente. Foi só quando o último mastro sumiu no horizonte que resolveu ir embora. Precisava contar a Rosa que Alejandro já partira. Foi informado de que Rosa se encontrava no jardim e partiu para lá, procurando-a pelas alamedas floridas que recendiam aos mais variados perfumes. Avistou-a perto de uma roseira e pôs-se a admirá-la. Ela usava um vestido amarelo-claro que quase se confundia com seus cabelos, e Lúcio permaneceu parado, como se a sua presença pudesse macular tamanha delicadeza. Rosa percebeu a sua chegada, encaminhou-se para ele e indagou com ironia:
- O que está fazendo parado aí feito uma estátua?
- Eu... - balbuciou ele, confuso por ter sido surpreendido naquela atitude de contemplação. - Perdoe-me, Rosa. Vim trazer-lhe notícias.
- Que notícias?
- De seu marido.
- Você sabe tão bem quanto eu que Alejandro viajou hoje.
- Eu sei. Estive com ele até há pouco, no porto. Vi, pessoalmente, quando ele embarcou e o navio partiu.
- Você viu?
- Vi.
- Quer dizer então que ele se foi e não vai mais voltar?
- Não.
- Como pode ter tanta certeza?
- Muitos perigos rondam essa viagem. O mar, os índios, os mercenários...
- E muita coisa pode acontecer, não é mesmo? - ele assentiu, sem nada dizer. - Você lamenta?
- Alejandro é meu amigo.
- Mesmo? Que provas ele lhe deu dessa amizade? Lúcio olhou-a fixamente e respondeu com voz grave:
- Deu-me a mulher para tomar conta.
Com um sorriso sardônico, Rosa argumentou:
- Creio então que você deveria estar fazendo o que ele pediu. É assim que toma conta de mim?
- Há três anos espero por esse momento.
- Não sente remorso, Lúcio? Ou medo?
- Não fui eu que escolhi partir nessa aventura insana - contrapôs ele, balançando a cabeça de um lado a outro.
- Mas Soriano...
Lúcio se aproximou e passou os dedos nos lábios de Rosa, fixando nela os olhos negros de noite.
- Soriano não é ninguém. Não temos que nos preocupar com ele.
- E se ele falhar?
- Não vai falhar.
- Você me parece muito seguro.
- Sei bem com quem estou lidando.
- Quisera eu ter a sua certeza.
- Você não tem com que se preocupar. Eu disse que cuidaria de tudo e vou cuidar, como Alejandro pediu - terminou ele, com um esgar maldoso.
Lúcio puxou Rosa para si, beijando-a apaixonadamente, até que se deitaram sobre a grama e se amaram com paixão.
- Eu a amo, Rosa - sussurrava ele, apertando-se cada vez mais contra ela. - Alejandro não merece você. Ele não sabe dar valor à mulher que tem.
- Também o amo - replicou ela, cheia de arder. - Quero ser sua para sempre.
- Você já é minha... só minha. Em breve, estaremos casados e voltaremos para a Espanha, ricos.
- Nosso plano vai dar certo, não vai? - afirmou ela, vislumbrando o momento em que entraria triunfante nos salões da Coroa de Espanha. - Não suportaria ter que me separar de você novamente. Eu odeio Alejandro, odeio!
- Calma, minha querida. Quando Soriano voltar sem Alejandro, você não terá mais que se submeter aos seus caprichos. Estaremos livres, enfim.
- E se ele não morrer?
- Isso não vai acontecer. Soriano foi muito bem recomendado.
- Tem certeza?
- Absoluta. Os índios levarão a culpa e ninguém ficará sabendo de nada.
- E se não houver nenhum embate?
- Então, Soriano forjará um acidente. Em expedições desse tipo, não é incomum.
Entre risos, Lúcio abraçou Rosa, e ambos se entregaram novamente aos prazeres do sexo. Seus pensamentos abandonaram Alejandro, que, no navio, só pensava na fortuna que faria ao retornar a Cuba com um punhado de índios para trabalhar na lavoura como escravos.
- Pensando na vida? - a voz de Soriano interrompeu os pensamentos de Alejandro, que levantou os olhos para ele e sorriu. Na verdade, sim. Estou apostando tudo nessa expedição.
- É o sonho de todo homem enriquecer, não é mesmo?
- Também não é o seu?
- Certamente. Prometi a mim mesmo que voltaria à Espanha rico, e é o que pretendo fazer. Quando voltar, vou-me casar, e Cibele vai ter tudo que meu dinheiro puder comprar.
Alejandro soltou uma gargalhada estrondosa e retrucou de bom humor:
- Sabia que havia uma mulher envolvida nisso.
- Minha. Cibele merece o melhor.
- E que mulher não merece?
Soriano não respondeu, pensando no quanto o outro se iludia com a mulher que tinha. Riu intimamente. Se Alejandro soubesse que seu falso tio havia pagado uma pequena fortuna para que ele desse cabo de sua vida, não estaria tão confiante nem tão tranquilo. O serviço encomendado parecia fácil, mas era preciso encontrar a oportunidade certa. Poderia jogar Alejandro do navio, como Lúcio primeiramente sugerira, mas quem lhe garantia que não haveria testemunhas? Eles estavam na primeira embarcação, e havia ainda mais duas repletas de homens. Não. Tinha que esperar. Nas ilhas para onde rumavam, certamente haveria um momento, uma chance para acabar com Alejandro. Riqueza era o que Soriano mais desejava obter com aquela aventura criminosa. Lembrava-se de Cibele, tão doce e tão meiga, esperando por ele na distante Madri. Precisava de fortuna para garantir a Cibele o luxo e o conforto que ela merecia. Antes de partir para Cuba, Soriano se despedira da noiva que, em lágrimas, pedira a ele para não ir.
- Por favor, Soriano, não vá - implorara ela.
- Eu vou voltar cheio de riquezas. Prometa que vai esperar por mim.
- Não preciso de riquezas, só de você.
- Você não entende, Cibele. Seu pai morreu, e sua mãe é uma pobre viúva. Quem vai cuidar de você quando ela se for?
- Você.
- Mas eu não tenho o que lhe dar.
- Não peço muito. Apenas o seu amor.
- Isso não é o suficiente. Você merece ser tratada feito uma rainha.
- Quanta ilusão, Soriano! Não é isso que importa na vida. E, depois, não creio que essa viagem vá fazê-lo tão rico quanto você pensa. O que pretende descobrir afinal? Alguma mina de ouro?
Ele sorrira enigmaticamente e a abraçara com ternura. Nem ele sabia o que o esperava em Cuba, contudo, tinha que tentar. Chegara à ilha cheio de sonhos de grandeza, mas não fora isso que encontrara. Nada das prometidas riquezas, e ele acabou envolvendo-se com homens de má vida e entregando-se ao crime. Enviava cartas apaixonadas a Cibele, que respondia a todas relatando a sua saudade. Quando Soriano achava que tudo estava perdido, eis que a oportunidade surgiu inesperada. Um fidalgo andava à procura de um homem corajoso para se engajar numa viagem ao Novo México e liquidar um inimigo. Era a oportunidade perfeita para ele enriquecer de vez e mandar buscar Cibele na Espanha para que pudessem se casar. Além de fortuna, o que mais Soriano desejava era ter em seus braços a mulher que amava, e por ela valia a pena enfrentar qualquer perigo.

CAPÍTULO 3

Durante mais de dez dias, os navios seguiram pela costa da ilha, até que, finalmente, pegaram o rumo do oceano. O mar, antes calmo e sereno, subitamente começou a ondular. A intensidade do vento aumentou e parecia impulsionar as ondas para que subissem pelo costado do navio e o invadissem. Marujos preocupados acorriam ao convés e, no corre-corre que se iniciou, tentavam manter a ordem dentro do navio e a água fora da embarcação. Durante dois dias e duas noites, a tempestade não deu trégua, levando Francisco de Córdova a temer pela segurança de seus barcos e homens, e pelo sucesso da expedição.
- Vamos todos morrer - dizia Soriano, certo de que o oceano pretendia engoli-los a qualquer momento. - E nunca mais verei Cibele.
- Ainda não, meu amigo - replicava Alejandro. - Ainda não capturei os meus índios.
- O senhor é louco?
Embora fosse essa a previsão geral entre os navegadores, o pior não aconteceu. O mar serenou de repente, e as embarcações seguiram por vários dias, atravessando águas mais amenas. Certa feita, Soriano e Alejandro divertiam-se no convés com outros navegantes, quando um grito interrompeu suas risadas:
- Terra! Terra à vista!
Todos olharam ao mesmo tempo, surpresos e ansiosos por novidades. Ao longe, uma praia de areias brancas se descortinou diante deles, terminando em frondosa floresta que parcialmente ocultava imensas e sólidas construções de pedra. Era o primeiro povoado que avistavam em quase dois meses, e a tripulação soltou vivas de genuína alegria.
- É o Grande Cairo - disse um dos navegantes, já que os espanhóis consideravam muçulmano tudo que não fosse cristão.
- O que faremos, senhor? - indagou um dos homens a Francisco.
Como o menor barco se aproximara da costa e informara que não havia perigo, Francisco de Córdova deu ordens para que os navios lançassem âncora e aguardassem. Todos permaneceram em silenciosa expectativa, olhos pregados na praia, à espera de que algo acontecesse. Foi quando uma movimentação repentina fez com que os espanhóis sustassem o fôlego, e Soriano exclamasse espantado:
- Vejam!
Canoas a remo e a vela se aproximaram com índios4 curiosos e de fisionomias risonhas, trajando roupas estranhas e coloridas, aparentemente pacíficos. Ao se aproximarem, Francisco os recepcionou com cortesia, dando ordens aos marinheiros para que lhes oferecessem as bugigangas reluzentes que haviam trazido, como prova de sua amizade. O brilho colorido das miçangas pareceu fascinar os indígenas, que respondiam com gestos amistosos e comunicativos. Estimulados pela pacata recepção, os navegantes relaxaram e tentaram comunicar-se com eles através de sinais.

4 - Índios dos povos maias.
- O que será que estão dizendo? - indagou Soriano, ante um homenzinho baixo e de braços compridos que puxava sua túnica e apontava para a praia.
- Não sei - respondeu Alejandro, fixando-se em seus cabelos negros e lisos. - Parece que querem nos levar à terra.
O linguajar dos índios era incompreensível, e Francisco, seguindo o som do que diziam, batizou de Yucatã o que ele pensava ser uma ilha. Decorrido um longo tempo, os espanhóis se convenceram de que o que eles realmente queriam era que os homens descessem à terra, e, depois de muitos gestos engraçados de ambas as partes, marcaram um novo encontro para o dia seguinte. Conforme o combinado, os nativos retornaram no outro dia com mais canoas para conduzir os navegantes à terra.
- Por que será que há tantos índios na praia? - perguntou Soriano, curioso.
- Não sei - respondeu Alejandro, abanando a cabeça para afastar um pressentimento sombrio. - Mas é melhor não facilitar.
- Levem suas armas, homens - ouviram o imediato dizer. - Esse encontro pode ser perigoso.
Do outro lado, Francisco se entendia com quem parecia ser o líder dos selvagens. Por todos os lados, então, batéis foram descidos à água, e os homens começaram a desembarcar.
- Parece que nosso capitão não confia nos nativos - comentou Alejandro. - Vamos usar nossos próprios botes, em lugar das canoas deles.
- Decisão muito mais sensata - concordou Soriano.
O cacique dos índios pareceu não se ofender com a recusa de Francisco em ocupar suas canoas e continuou a falar naquela estranha língua, sempre mostrando os dentes num sorriso gutural.
- Como são feios esses selvagens - observou Soriano. Disse bem, meu jovem amigo. Parecem mesmo selvagens. Não podemos confiar neles.
Alejandro e Soriano embarcaram em um dos batéis, e logo pisavam a areia. Mal começaram a caminhar, foram surpreendidos com a perturbadora aparição das esculturas nativas, lembrando seres diabólicos e maléficos. Ídolos de argila com cabeças monstruosas e mulheres gigantescas retratando cenas demoníacas desafiavam a mente limitada dos desbravadores cristãos. O padre que os acompanhava persignou-se três vezes, chamando de hereges aqueles índios pagãos que provavelmente haviam sido postos ali pelo próprio Satanás. A caminhada prosseguiu, mas não por muito tempo. Ainda aturdidos pelo choque causado pelas estátuas profanas, os espanhóis não perceberam a movimentação bélica dos selvagens, que surgiram de todos os lados da floresta e se atiraram sobre eles. Lanças e pedras em punho feriam e matavam com uma selvageria nunca antes experimentada, pondo no rosto uma horrível expressão de prazer ante a iminência da carnificina. O sangue começou a tingir a selva, e levou algum tempo até que os exploradores saíssem de seu torpor e conseguissem reagir, revidando a agressão. Seguiu-se um corpo a corpo feroz, e Alejandro investiu contra o índio mais próximo, gritando em desvario:
- Desgraçados!
Seguindo o movimento do companheiro, Soriano também se lançou contra eles, desferindo golpes a torto e a direito tentando atingir o máximo de selvagens que pudesse. Aos primeiros golpes, os índios recuaram, com medo daquelas armas cortantes e letais. Mas a surpresa e o espanto não duraram muito. Logo perceberam que podiam não só evitar o fio das espadas, mas também enfrentá-las com a ponta de suas lanças afiadas. Aquela certeza superou o pavor do desconhecido e lhes deu confiança. Brandindo lanças e pedras, prepararam-se para uma nova investida, exibindo olhares aterradores e sorrisos maléficos. Já iam avançar, sedentos de sangue, quando um barulho ensurdecedor e desconhecido paralisou-lhes os movimentos. O disparo dos mosquetes espanhóis encheu os selvagens de assombro e receio, pois nunca haviam escutado estampido mais terrível e tão carregado de ira. A debandada foi geral, e Francisco aproveitou para fazer cessar fogo e gritar aos seus homens:
- Bater em retirada!
Na mesma hora, Alejandro deu meia-volta, não sem antes se certificar de que Soriano estava com ele. Havia no rosto do rapaz uma expressão indefinível, que Alejandro, na pressa de fugir o mais rápido que suas pernas permitissem, não conseguiu perceber. Nem sequer notou que ele empunhava uma lança tirada das mãos de um selvagem morto.
- Está tudo bem? - perguntou Alejandro. - Não está ferido, está?
- Estou bem.
O temor de novo ataque impediu Alejandro de identificar o olhar de decepção de Soriano, que soltou a lança ao sentir a proximidade dos demais homens. Alejandro agora empunhava um mosquete, apontando-o para todos os lados, e foi recuando rapidamente, seguido de perto pelo companheiro.
- Vejam o que conseguimos apanhar - anunciou um homem, com incrível desprezo na voz.
E exibiu dois indígenas, presos pelas mãos de seus companheiros.
- Vamos embora - disse Francisco. - E tragam-nos.
Com o coração em sobressalto, fizeram o caminho de volta aos barcos, levando os dois prisioneiros e algumas peças de ouro que conseguiram furtar de uma pirâmide próxima.
- Vejo que o nosso clérigo descobriu ouro - falou Alejandro, atento ao olhar de cobiça do padre ao revirar nas mãos os utensílios dourados. - Isso pode mudar nossos planos, não é mesmo?
Soriano não respondeu, porém, ficou pensativo. Talvez fosse melhor desistir da ideia de matar Alejandro e entregar-se à pilhagem. O problema era Lúcio. Soubera, por conhecidos, que ele era rico e influente, e provocar a fúria de um homem assim poderia ser perigoso. Se Lúcio encontrara um assassino para matar Alejandro, bem poderia achar outro que o matasse. E como ficaria Cibele? Pensando nela, achou melhor não arriscar. Seguiria com o plano de matar Alejandro, e Lúcio lhe pagaria a devida recompensa, tornando-o rico para poder, finalmente, se casar com ela. Soriano perdera a primeira oportunidade que tivera de liquidar Alejandro sem levantar suspeitas. O ataque dos selvagens teria sido um álibi perfeito. Agora, contudo, tinha que esperar um outro momento. Por ora, primordial era proteger a própria vida. A ameaça dos índios era perigosa demais para que Soriano se descuidasse da segurança, então, seu plano teria que esperar. Todos embarcados, os navios retomaram a navegação. Soriano agora seguia calado, e Alejandro atribuiu seu silêncio ao horror daquela primeira incursão na floresta.
- Não se deixe abater - consolou Alejandro. - A luta faz parte de toda expedição. Ainda mais em se tratando de índios.
- Eu estou bem - afirmou Soriano, tentando parecer natural. - Foi apenas um susto, nada mais.
A embarcação avançava lentamente, ladeando a costa do que todos julgavam ser uma ilha. A imagem de Cibele acompanhava Soriano em todos os momentos, e ele não via a hora de o navio tornar a atracar para ultimar o seu propósito de entregar Alejandro aos nativos. O plano seria até perfeito, não fossem aqueles índios tão imprevisíveis e violentos. Não apenas Soriano, mas todos da expedição estavam certos de que os índios, muito embora selvagens, não seriam tão inteligentes, audazes e furiosos como revelaram ser. Diante desse quadro assustador, tenebroso e altamente arriscado, o que fazer para forjar a morte de Alejandro sem colocar em risco a própria vida? De tão absorto nesses pensamentos, Soriano não percebeu a aproximação de Alejandro nem o burburinho no convés, e foi só quando o outro tocou o seu ombro que olhou adiante. A visão, ao longe, de duas grandes torres desafiando o céu arrancou-lhe suspiros entre esperançosos e amedrontados. O navio seguiu naquela direção e atracou a poucos metros da praia. A tripulação parecia em alvoroço, e Alejandro puxou o rapaz pelo braço, falando com voz grave e apressada:
- Venha. Precisamos encher as pipas de água.
Sem nada dizer, Soriano saiu atrás de Alejandro, seguido por mais alguns marujos. Caminharam o mais silenciosamente possível, atentos a qualquer movimento na selva. Finalmente, encontraram um poço de água potável e puseram-se a encher as vasilhas, em estado de alerta constante, como se esperassem que, de uma hora para outra, uma horda de índios se atirasse sobre eles.
- Estamos muito próximos do povoado deles - comentou Soriano, indicando com o queixo as enormes construções.
- Não se preocupe - tranquilizou Alejandro. - Eles não sabem que estamos aqui e, além do mais, temos as nossas armas.
- Eu não teria tanta certeza.
Havia tremor na voz de Soriano, e Alejandro acompanhou o seu olhar assustado. Parados alguns metros adiante, alguns indígenas os fitavam imóveis. Instintivamente, Alejandro apertou o cabo de seu mosquete. Como da outra vez, os nativos se aproximaram, risonhos e amistosos, puxando os espanhóis pelas mangas das túnicas, rodeando-os como se farejassem a presa antes de devorá-la. Apesar da linguagem incompreensível, os dedos, apontando na direção da cidade, deixavam claro o desejo de que os seguissem até lá. Alejandro, desconfiado, olhou para Francisco, mas este já se havia posto em marcha ao lado dos índios, com o restante dos homens atrás deles.
- O que ele está fazendo? - sussurrou Soriano, apavorado. - Já não basta o que nos aconteceu da outra vez?
- Fique quieto! - censurou Alejandro. - Francisco sabe o que faz.
A cena parecia se repetir. Os espanhóis caminharam pela floresta com os índios ao redor, gesticulando e rindo guturalmente. Ao adentrarem o povoado, os sólidos e já conhecidos edifícios se descortinaram, seguidos de mais e mais ídolos diabólicos.
- Isso me dá calafrios - observou Soriano, acercando-se mais de Alejandro.
- Você ainda não viu nada - retrucou o outro, estacando com ar aterrado.
Surgiu à sua frente uma figura singular. Vestido numa espécie de túnica branca, um homem de cabelos negros e respingando sangue segurava nas mãos um facão igualmente ensanguentado. Atrás dele, sobre um altar de pedra parcialmente visível, jazia inerte, numa poça de sangue, um corpo retalhado e sangrento.
- Jesus Cristo! - exclamaram muitos.
- Mas o que é isso? - horrorizou-se Soriano.
- Parece que o nosso amigo acabou de praticar um sacrifício humano - constatou Alejandro, lutando entre o terror e o pânico.
- Ele está todo ensanguentado!
Todos olhavam para Francisco, esperando que ele tomasse alguma atitude, mas o capitão parecia tentar entender-se com o macabro sacerdote.
- Acho que não está adiantando - constatou Alejandro.
O sacerdote dizia estranhas palavras e gesticulava para os muitos guerreiros que acompanhavam o encontro. Mais que depressa, os índios se juntaram, apontando as lanças e fitando o grupo com olhar hostil e ameaçador. Alguém acendeu uma fogueira, e o sacerdote deu prosseguimento ao seu bailado gutural, apontando ora para o fogo, ora para os espanhóis, ora para os guerreiros, que emitiram um grito de guerra assombroso.
- O que é isso agora? - horrorizou-se Soriano.
- Acho que ele quer dizer que, se não partirmos até o fogo se extinguir, vai lançar seus guerreiros sobre nós.
- E o que Francisco está fazendo? - desesperou-se. - Por que não vamos logo embora?
- Será que ele enlouqueceu e vai combater esses demônios?
Dessa vez, até Alejandro estava com medo. Enfrentar aqueles guerreiros seria quase suicídio. Os homens começaram a se apavorar, ameaçando dar meia-volta e fugir, mas Francisco permanecia parado, na esperança de fazer-se entender.
- Vamos embora, capitão - falou um dos homens mais próximos. - Por Deus, não podemos mais continuar aqui. Se tiver amor a nossas vidas, volte conosco aos navios!
Ainda defronte ao sacerdote, Francisco ensaiou mais alguns gestos, tentando um entendimento, mas o olhar feroz do outro o convenceu a partir.
- Vamos recuar - ordenou ele, com a voz mais calma que conseguiu entoar.
Sem se virar, os homens foram recuando e, passo a passo, tomaram o caminho de volta. Só quando já se encontravam fora das vistas dos guerreiros foi que se viraram de frente e puseram-se a andar, quase a correr. Caminhando ao lado de Alejandro, Soriano ia remoendo seu fracasso. Ao mesmo tempo em que desejava que Francisco declarasse guerra aos selvagens, tinha medo do que poderia lhe acontecer. Já não aguentava mais o papel de idiota que precisava representar para ganhar a simpatia e a confiança do outro. Aqueles índios malditos, contudo, não facilitavam as coisas. Concentrar-se em Alejandro poderia custar-lhe a vida, e agora tinha duas coisas com que se preocupar: matar o outro e não se deixar matar. Finalmente, os homens chegaram aos botes e remaram de volta aos navios, que se puseram em movimento outra vez.
- Ao menos conseguimos nos reabastecer de água - comentou Alejandro, sorrindo aliviado. - Perdemos o ouro, mas garantimos a vida.
Soriano, contudo, não conseguia sorrir. Achava mesmo que nunca mais voltaria a sorrir enquanto não conseguisse executar o seu plano, que foi tornando-se uma obsessão em sua cabeça. Durante alguns dias, o mar se manteve calmo e sereno, e os navios seguiram viagem sem maiores transtornos. A calmaria, porém, durou pouco. Quando menos se esperava, o céu escureceu e os ventos expulsaram o sol para trás das nuvens espessas e carregadas. Uma tempestade se aproximava, e os navios, mais uma vez, seriam testados em sua resistência. A ventania foi aumentando, e as ondas cresciam ao redor dos barcos, como se tentassem engoli-los de uma só vez.
- Já passamos por isso antes - estimulou Francisco. - Vamos vencer mais essa tormenta.
Mas as rajadas produzidas pelo vento quase estouravam as velas, e os navios eram constantemente sacudidos pelas vagas gigantescas que os atiravam de um lado a outro. As ondas avançavam pelo convés, aproximando as embarcações do naufrágio iminente. Alejandro juntou-se ao corre-corre dos marujos para tentar manter a embarcação acima da água. Era uma luta ferrenha contra a natureza, e parecia que o navio não iria resistir. Tábuas começaram a estalar, e cordas se partiram das amarras, atirando fragmentos de lona e madeira em todas as direções. Foi tudo muito rápido. Com incrível habilidade, Soriano agarrou uma verga solta e, auxiliado pelo vento e pela inclinação do navio, que tombava para o lado onde Alejandro se encontrava, lançou-a de encontro a ele, atingindo-o em cheio na altura do ombro. Com a chuva e a ventania, o outro não conseguiu ver de onde partira o golpe, mas perdeu o equilíbrio e tombou para trás, indo bater na amurada semidestruída do convés e se precipitando para dentro do mar negro e revolto. Alejandro nem teve tempo de pensar. Em frações de segundos, viu-se aproximar do oceano faminto, que escancarava sua bocarra para levá-lo às profundezas. A sorte, entretanto, laborou a seu favor. Quando tudo parecia perdido, uma mão forte e robusta o agarrou firmemente, puxando-o para cima no exato instante em que o navio começava a adernar para o outro lado. Durante alguns instantes, Alejandro ficou pendurado, os pés se sacudindo acima do mar, até que um marujo corpulento o alçou de volta, evitando seu mergulho para a morte. Oscilando bruscamente, a embarcação retornou para cima, atirando água por todos os lados, enquanto os homens lutavam para se manter agarrados aos mastros e balaústres. Auxiliado pelo homem que o salvou, Alejandro conseguiu rastejar até alcançar a porta do porão e se atirar para dentro.
- Meu Deus, Alejandro! - gritou Soriano, correndo para ele com olhar mortificado. - Quando não o vi, tive medo de que tivesse morrido.
- Ainda não - rebateu o outro, sem de nada desconfiar. Não chegou a hora de fazer de Rosa uma viúva. Graças ao meu amigo aqui - e apontou para o marinheiro - ainda pertenço ao mundo dos vivos. Obrigado.
O marujo sorriu em resposta, e Soriano engoliu o ódio junto com o suor e a água que escorriam de seu rosto. Tinha vontade de esganar aquele marinheiro intrometido, mas precisava se conter. Perdera, até ali, a sua maior chance de liquidar Alejandro sem levantar a menor suspeita. Outra oportunidade igual àquela muito dificilmente surgiria. Passados quatro dias, a tempestade amainou e os homens conseguiram contabilizar os estragos. Velas e mastros haviam sido destruídos e, o que era pior, a água potável, misturada à do mar, não servia mais para consumo.
- O que vamos fazer? - perguntou alguém.
- Precisamos desembarcar - anunciou Francisco, após breve reflexão.
- Mas, senhor - objetou o imediato -, e os índios? Já não está claro que não são nada amistosos?
- Dessa vez estaremos preparados - afirmou ele, batendo no punho de sua espada.
Mesmo em dúvida e com medo, a tripulação desembarcou. A situação, que já era ruim, ficaria muito pior sem água. Enfrentar os selvagens lhes daria uma chance de sobrevivência. Sem água, acabariam morrendo. Não tinham alternativa. Precisavam encontrar outro poço onde pudessem reabastecer as pipas. Com o máximo de cautela possível, mais uma vez embrenharam-se na mata, procurando não chamar atenção nem dos animais silvestres. Depois de intermináveis horas, chegaram à margem de um rio. Francisco deu ordens para que alguns homens enchessem as pipas, enquanto outros, em estado de alerta, colocaram-se de vigília. De nada adiantou. Sob a proteção da floresta, os índios se acercaram dos navegadores, ameaçando-os com flechas e lanças. Os homens de Francisco, embora temerosos, permaneciam firmes em sua guarda, armas em punho, mirando a selva sem se atrever a atirar. Os selvagens surgiam e desapareciam, invisíveis atrás das árvores, confundindo os tripulantes, que não sabiam para onde apontar seus mosquetes. De vez em quando, uma flecha zunia no ar e caía em meio aos aterrados espanhóis.
- Nem pensem em desistir - avisou Francisco. - Precisamos dessa água tanto quanto de nossas vidas. Sem ela, nem adianta voltarmos. Não temos chance de sobreviver.
- Senhor - suplicou Soriano -, podemos esperar nova chuva ou buscar água em outro local. Eles nos cercaram e não podemos vê-los. Sabemos que estão lá, mas onde?
- Nada disso! Não somos covardes, somos homens! Não podemos nos deixar vencer por um bando de índios armado de flechas e pedras! Não enquanto não levarmos conosco esse líquido tão precioso!
Ninguém ousou mais discutir, e o temor da partida era uma realidade fria e cruel. Mesmo após encher todas as pipas, os exploradores não ousaram adentrar a floresta novamente. Paralisados de terror, sabiam-se sitiados pelos nativos, que os observavam à distância, camuflados pelas folhas. A tarde chegava ao fim e a noite avançava, redobrando o pânico e pondo os homens em estado de alerta total.
- Senhor, o que faremos? - indagou Alejandro.
- Vamos pernoitar. Acamparemos aqui mesmo, às margens do rio, e nos revezaremos na vigília.
Foi uma noite em que ninguém ousou dormir, temendo jamais voltar a acordar. Atentos ao menor ruído e com tochas acesas para espantar a escuridão, os homens permaneceram acordados, rezando para estarem vivos até o romper do dia e partir em segurança. Logo ao amanhecer, foram despertados com nova arremetida, e os homens já começavam a se desesperar, ameaçando abandonar seus postos e debandar, enquanto uma chuva de lanças desabava sobre eles.
- Vamos fugir! - gritou alguém.
- Ninguém sai daqui! Se formos embora, eles irão atrás de nós, e precisamos desesperadamente dessa água. Por ela lutaremos até que não sobre um único desses selvagens vivos.
Durante algum tempo foi possível resistir, mas os índios intensificaram o ataque, redobrando a brutalidade, e Francisco finalmente viu-se obrigado a ceder. Ou partiam ou pereceriam, sem chance alguma de sobreviver. Já tinham a água, agora só lhes restava tentar voltar aos navios com vida. Sob uma saraivada de flechas e lanças, os navegantes iniciaram o caminho de volta, disparando inutilmente seus mosquetes. Os nativos, agora acostumados ao barulho que faziam, não os temiam mais e guardavam distância segura, fora do alcance das balas. De repente, Alejandro soltou um grito esganiçado, carregado de medo, diante de horripilante cena:
- Eles estão tentando matar o capitão!
Uma enorme quantidade de flechas atravessava o corpo de Francisco, que, apesar de gravemente ferido, ainda respirava e tentava lutar.
- Protejam-no! - berrou alguém.
Foi uma carnificina. Francisco de Córdova, com pelo menos dez flechadas no corpo, não podia mais resistir ao ataque sangrento dos índios, cujo número aumentava a cada minuto. Seus homens conseguiram ampará-lo e saíram arrastando-o pela floresta, sob uma espessa chuva de flechas. Os nativos atacavam com ferocidade descomunal, mas havia algo estranho em sua investida. Eles feriam gravemente, porém procuravam não matar os espanhóis, queriam capturá-los vivos.
- Malditos! - vociferou Alejandro. - Querem-nos para sacrifício.
Alejandro assistiu, aterrado, a um português de barbas brancas ser arrastado pelos cabelos, mas nada pôde fazer para ajudá-lo. O ódio foi crescendo dentro dele, ao ver seus companheiros feridos, muitos deles mortos, e o capitão rastejando pela relva como uma serpente moribunda. Por todo lado, jaziam também muitos índios mortos, e, embora a visão fosse aterradora, Alejandro não conseguiu conter a cobiça ao vislumbrar as joias em ouro que adornavam seus pescoços escuros e suas orelhas compridas. A exemplo de outros homens, pôs-se a recolher as peças que conseguia alcançar, guardando-as cuidadosamente dentro das calças e debaixo da túnica. De vez em quando, tinha que parar para se proteger de um ataque direto, disparando seu mosquete naqueles que se descuidavam e se punham ao alcance de sua mira. Ia passando entre os cadáveres e recolhendo o que podia. Um colar particularmente brilhante quase ofuscou seus olhos, e, certificando-se de que não havia nenhum selvagem vivo nas proximidades, abaixou-se, hábil e ligeiro, e arrancou-o do pescoço do índio morto. Foi quando uma dor aguda perpassou-lhe as costas. Alejandro se virou apavorado, e qual não foi o seu espanto ao se deparar não com um índio carniceiro e cruel como esperava, mas com o jovem Soriano, que ainda tinha as mãos trêmulas do golpe que, covardemente, acabara de desferir no companheiro.
- O que você fez? - indignou-se, sentindo pelo outro um misto de ódio e decepção.
- Eu? - retrucou Soriano com ironia. - Não fiz nada. Por acaso essa lança me pertence? Não, claro que não. Então, quem o matou não fui eu, mas um desses selvagens malditos que o atacou pelas costas e que eu depois matei. Quem sabe aquele ali? - ele apontou para um índio caído de borco numa poça de sangue. -Não estou certo?
Soriano não conhecia Alejandro e subestimou sua força. A lança que lhe cravara não perfurou o pulmão, passando a milímetros de seu coração. Fortalecido por um ódio descomunal, arrancou a lança de seu corpo, engolindo o grito que a dor lhe causou, e atirou-se sobre Soriano, travando com ele uma luta feroz. Ambos agora lutavam pela própria vida, sabendo que um dos dois deveria morrer. No desespero da fuga, nenhum de seus companheiros notou o que estava acontecendo, e apenas Alejandro e Soriano, agora inimigos, debatiam-se, desesperados, no embate de morte. O ódio de Alejandro redobrou sua força. Poderia morrer ali, mas não vítima de perfídia. Reunindo o máximo de energia que a situação permitia, conseguiu derrubar Soriano no chão e, num gesto rápido e preciso, encostou em seu pescoço a lâmina afiada de sua espada.
- Diga, verme! - vociferou. - Por que fez isso comigo?
- Por favor... - balbuciou o outro, com medo. - Não me mate. Eu não queria feri-lo.
- Mentiroso, canalha! - tornou Alejandro, apertando ainda mais a lâmina contra a garganta de Soriano. - Exijo que me diga por que quer me matar. Por que, se só o que fiz foi lhe dar minha amizade? Vamos, patife, responda!
- Não foi culpa minha... Fui obrigado...
- Obrigado? Por quem? Quem o obrigou?
- Não posso dizer... eu morreria... Vai morrer agora, de qualquer jeito! Diga, covarde! Quem foi que o mancou me matar?
- Se eu disser... - balbuciou ele ofegante, os olhos turvos de um medo real - promete não me matar?
Alejandro não tinha a menor intenção de poupar a vida daquele traidor, mas precisava saber quem havia encomendado a sua morte.
- Prometo - respondeu entre os dentes.
- Foi o senhor Lúcio.
- O quê?! - exasperou-se. - Isso é uma infâmia! Uma calúnia! Lúcio é meu melhor amigo.
A ponta da espada de Alejandro já começava a perfurar a garganta de Soriano, e uma gota de sangue vivo brotou em seu pescoço.
- É verdade, Alejandro. Foi o senhor Lúcio. Eu só fiz o que e me mandou.
- Por quê? Por que Lúcio faria uma coisa dessas?
- Ele e sua esposa... são amantes.
- Mentiroso! - enfureceu-se Alejandro ainda mais. - Lúcio não é um traidor. Ao contrário de você, verme!
- Eu juro, meu senhor, é verdade. Lúcio queria matá-lo para poder desposar a senhora Rosa...
Alejandro não ouviu mais nada. Sentindo a presença de um índio às suas costas, puxou Soriano com extrema agilidade e atirou-o sobre o selvagem, que imobilizou os seus braços e saiu arrastando-o floresta adentro. Quase desfalecido e esvaindo-se em sangue, Alejandro rodou nos calcanhares e correu na direção oposta, torcendo para ainda conseguir alcançar seus companheiros. Os demais homens, perseguidos pelos indígenas, abandonaram as vasilhas de água, que se derramavam sobre a terra, para chegar com mais rapidez aos botes salvadores. À medida que corria, Alejandro ouvia os gritos de Soriano diminuindo à distância, imaginando o destino cruel que os índios lhe iriam. Ao alcançar a praia, alguns homens já se atiravam ao mar, em busca dos batéis, nadando desajeitadamente por causa das feridas. Alejandro se jogou na água, sentindo o ferimento arder em contato com o sal. Nem deu importância. Impulsionou as pernas o mais que pôde, tentando desviar das pedras e flechas que os índios atiravam da areia. Alguns botes, atingidos pelos projéteis, desequilibravam-se e emborcavam, sendo agarrados por mãos desesperadas que os impulsionavam feito pranchas toscas. Finalmente, o bergantim os resgatou feridos e quase mortos. À exceção de um único homem, que estranhamente saíra ileso, todos os demais haviam-se ferido gravemente. Alejandro mal respirava e apalpou o local em que Soriano lhe cravara aquela lança, sentindo uma dor lancinante espalhar-se por todo o peito. Em terra, os índios gritavam e agitavam lanças e flechas, como em um ritual macabro de guerra. Eles haviam saído vencedores em sua própria terra, e Alejandro engoliu a raiva juntamente com o sangue. Tomara-se de ódio por aqueles selvagens, transferindo a eles o ódio que sentia por Soriano, Lúcio e Rosa. Como num sonho, recordou as palavras de sua amiga Giselle, que o alertara sobre a possível traição da esposa. E ele não lhe dera ouvidos. Deveria ter escutado a voz de uma mulher experiente feito Giselle, que conhecia tão bem os desejos e as fraquezas femininas. Com os pensamentos ainda em Giselle, tombou a cabeça no chão do navio e desmaiou.

CAPÍTULO 4

Alejandro tinha a impressão de ouvir o crepitar do fogo do inferno em sua mente. Por seus olhos, pareciam passar chamas vivas e torturantes que incendiavam o seu cérebro com a dor da traição. Agitou-se em seu catre, virando o rosto para os lados e balbuciando palavras incompreensíveis. O corpo todo úmido e quente lhe dava a impressão de que havia mergulhado num poço de lava, que lhe consumia a vida na turbulência do ódio. Em agonia, abriu os olhos e saltou da cama, correndo para a em busca de ar. Ao ver as chamas que manchavam de amarelo e rubro o mar que as espelhava, parou aterrado, certo de que mundo, efetivamente, se acabava em fogo. Rapidamente, um homem se aproximou e tocou o seu ombro.
- Deveria estar deitado, Alejandro - falou com bonomia. - Perdeu muito sangue.
Só então Alejandro sentiu a ardência no tórax e apalpou as idas por onde a ponta da lança havia penetrado em seu corpo e saído do outro lado. Fixou os olhos no interlocutor e abaixou a cabeça, envergonhado por sentir tanto ódio diante do homem que o erguera da morte no dia em que fora atingido por uma verga solta. Alejandro apertou o ombro de Damian e encenou o melhor sorriso que conseguiu, apontando, em seguida, para o mar incandescente.
- O que está acontecendo?
- Tivemos que atear fogo no bergantim. Não podemos manobrar os três barcos, devido às condições da tripulação. Perdemos muitos homens e, dos que sobreviveram, a maioria está ferida.
- E o capitão?
- Por pouco não o perdemos, e ainda não está nada bem. Você não desceu à terra, desceu?
- Não. Fiquei cuidando do navio.
- Sorte a sua. Não imagina o horror que passamos com aqueles selvagens.
- Já ouvi as histórias.
- E a água? - retrucou Alejandro, a garganta seca tornando roucas as suas palavras.
- Perdemos tudo.
A partir daquele dia, a desesperança se tornou companheira constante da tripulação. Alejandro ardia em febre e sede, a língua grossa, em fogo, e a garganta, de tão seca, dava a impressão de que explodiria, soltando as cordas vocais se tentasse falar. Em dado momento, uma espécie de demência tomou conta do navio. Os marujos, alucinados, acorriam à amurada e atiravam baldes presos em cordas, bebendo água do mar na tentativa desesperada de matar a sede. Alejandro sentiu-se tentado a fazer o mesmo, porque a sede também lhe dava a ilusão de que o mar a saciaria. Mas ainda conseguia manter um mínimo de sanidade e resistia à tentação. Pegava água do mar, sim, mas para embeber a ferida, que aos poucos foi-se fechando. A água salgada só fez piorar a situação dos que a beberam, aumentando a sede e precipitando a morte. Por todo lado, homens adoeciam, acometidos de convulsões e fortes dores. Fracos em virtude das feridas e do corpo desidratado, logo começaram a morrer, e seus corpos iam sendo atirados ao mar. Até Damian foi assaltado pela insanidade que a sede causticante causava em todos. Vendo os baldes descendo à água, tornou de um deles e atirou-o também, levantando-o avidamente para levá-lo à boca.
- Não cometa essa loucura! - gritou Alejandro, dando vigoroso tapa na mão de Damian e atirando para longe a água. - A sede só vai aumentar, fazendo a saliva parecer sal. Tente suportar, meu amigo, resista!
- Não posso... - gemeu Damian. - A sede me inflama a garganta...
Damian desmaiou. Delirava e falava coisas sem nexo, e Alejandro deitou-o no catre. A seu lado, vários doentes agonizaram, atendidos pelos poucos que ainda tinham alguma resistência.
- Não entendo por que ele adoeceu tão rápido - comentou Alejandro. - Permaneceu embarcado, não tem chagas. Há outros feridos em pior situação que ainda conseguem resistir.
- Damian reservou sua ração de água para você, que estava doente - contou um marujo. - Enquanto todos ainda se saciaram, ele deitava em sua boca a porção de água que lhe cabia. Por isso você não morreu.
- Por que ele fez isso? - a voz de Alejandro denotava surpresa e emoção.
- Quem é que vai saber? - respondeu o outro.
Os olhos de Alejandro se encheram de lágrimas. Aquele, sim, ara um amigo de verdade, alguém por quem valia a pena lutar e morrer. Alisou os cabelos engordurados de Damian e pousou a mão sobre seu peito.
- Farei de tudo para que você sobreviva. De hoje em diante, será meu único amigo.
Os navios prosseguiam em sua jornada de morte, até que, finalmente, avistaram terra outra vez.
- Acha seguro desembarcarmos? - alguém perguntou a Francisco.
Com o raciocínio comprometido pelas flechadas que levara, o capitão respondeu de forma quase inaudível:
- Temos que tentar.
Quinze homens foram mandados à terra, e os que ficaram mal podiam conter a ansiedade e a esperança. Quando voltaram, o desespero foi maior. A água recolhida era salobra, não servia para beber. Os homens quedaram desanimados, aguardando sem forças a chegada da morte iminente e, àquela altura, desejada como alívio para seus sofrimentos. Em seu catre, Damian oscilava entre o delírio e a lucidez. Repetia frases desconexas e ininteligíveis, e Alejandro cuidava dele e de outros sem esperança de que sobrevivessem.
- Vamos todos morrer - diziam os marujos, desanimados.
- Não vamos, não - afirmava Alejandro, convicto. - Recuso-me a morrer antes de concretizar minha vingança.
- Não sei do que está falando, mas, de qualquer forma, estamos perdidos.
- A Situação é de extrema gravidade, mas nos resta uma esperança. Alaminos5 e os outros estão nos levando para La Florida6, por uma rota que ele julga mais segura. O único problema é que teremos que nos defrontar com mais selvagens, que, segundo eles, são ainda mais violentos.
Como era esperado, a recepção dos nativos foi deveras sangrenta. Alejandro, apesar da fraqueza, desembarcou com os outros e ainda conseguiu matar mais alguns índios, muito embora o esforço da luta reabrisse a ferida, ainda não totalmente cicatrizada. A batalha foi feroz, mas o destino, dessa vez, lutou ao lado dos espanhóis, que, apesar de exaustos e bastante machucados, conseguiram finalmente chegar aos navios com água potável.

5 - Anton de Alaminos - um dos pilotos da expedição, juntamente com Camacho e Joan Álvarez.

6 - Flórida, nos EUA, na época sob o domínio espanhol.

A água foi logo distribuída, e os feridos foram os primeiros a beber. Como a sede era desesperadora, muitos bebiam avidamente e sem parar, vindo a desencarnar poucos dias depois. Damian, contudo, sobreviveu. Quando por fim se recuperou parcialmente, saiu em busca de Alejandro, indo encontrá-lo enfraquecido sobre um catre.
- Meu amigo - disse ao enfermo -, quando caí ente, lembro-me de tê-lo deixado bem. O que aconteceu?
- Mais índios - retrucou o outro.
- Você estava ferido! Ninguém ia exigir que desembarcasse de novo.
- Eu precisava ir, Damian. Não podia simplesmente ficar sentado e aguardar. Não é da minha natureza esperar pela morte de braços cruzados.
- Mas agora a sua ferida inflamou outra vez - constatou Damian, levantando as bandagens que cobriam o corte de Alejandro.
- Eu vou ficar bem! - exclamou ele com certa fúria, erguendo o corpo e agarrando o braço do outro. - Tenho contas a ajustar com alguém.
- Muito me admira e alegra a sua determinação, mas tenha calma. Seja o que for que tiver em mente, pode contar com este seu amigo aqui.
- Obrigado - respondeu Alejandro comovido. - Você é realmente um bom amigo. E isso me faz lembrar uma coisa. Quero saber por que você deixou de beber água por minha causa.
Damian deu de ombros e respondeu com simplicidade:
- Achei que você precisava mais do que eu. E não me passou pela cabeça que fôssemos demorar tanto a encontrar água.
- Seu tolo, você poderia ter morrido.
- Mas não morri. E nem você.
- Exatamente. Nem vou morrer. Como disse, tenho contas a acertar.
- Posso saber com quem?
- Com minha mulher e seu amante.
Damian ergueu as sobrancelhas, e Alejandro contou-lhe tudo. Quando terminou, o companheiro tinha o olhar distante e pensativo.
- Sua reivindicação é justa - disse depois de algum tempo. Se minha mulher fizesse isso comigo, eu mataria ela e o cachorro que a seduziu.
- É exatamente o que pretendo fazer. É meu direito.
Com o fracasso da expedição, os navegantes retornaram a Cuba, e Alejandro deixou o navio avariado no porto, antegozando o momento em que ultimaria sua vingança contra Rosa e Lúcio. Antes, a conselho de Damian, iria se certificar da veracidade do que Soriano dissera, para não cometer uma injustiça da qual se arrependeria depois. Além do mais, precisava se recuperar do ferimento com todo o cuidado para que Rosa, aproveitando-se de seu estado debilitado, não concluísse ela mesma o serviço que Soriano não lograra terminar. Alejandro chegou em sua casa amparado por Damian, e só o olhar estupefato de Rosa já seria suficiente para dar crédito à confissão de Soriano. Rosa parecia estar diante de um fantasma e, nos primeiros minutos, não conseguiu esboçar qualquer reação. Quando recobrou o equilíbrio e conseguiu falar, Damian o havia ajudado a deitar-se na cama e dava instruções para que ela cuidasse pessoalmente do ferimento.
- Ele já está fora de perigo - avisou Damian. - Mas sua saúde ainda é precária.
- O que foi que aconteceu, Alejandro? - indagou ela, aterrada. - Não compreendo...
- Eu deveria estar morto, não é? - Rosa se sobressaltou, mas ele prosseguiu como se não tivesse percebido. - Fomos atacados por selvagens durante toda a jornada e, por sorte, sobrevivi. Além disso, devo a minha vida a meu amigo Damian aqui, que conseguiu evitar que eu caísse do navio em meio a uma tempestade.
Rosa estava muda e pálida, olhando de Alejandro para Damian assustada e surpresa. A informação da chegada de dois dos três navios que partiram naquela aventura logo se espalhou por toda a ilha, e Lúcio, sabendo que muitos navegadores haviam perecido vítimas dos ataques dos índios, correu apressado para a casa da amante, certo de que a notícia da morte de Alejandro logo chegaria aos seus ouvidos. Foi abrindo portas num rompante e adentrou o quarto de Rosa com a certeza do sucesso de sua empreitada, quase desfalecendo ao encontrar Alejandro deitado no leito, ferido, porém, vivo.
- Alejandro... - balbuciou. - Mas... Você está vivo!
- É o que parece, não é? - tornou o outro com ar de ironia. - Embora isso pareça surpreender você.
- Surpreender-me? Sim, surpreendo-me com grata alegria. Ao ouvir as notícias e ver o estado em que os navios ficaram, temi por sua integridade.
- Quanta generosidade! - ironizou novamente. - Só os amigos sinceros lamentam profundamente a morte de um homem.
Lúcio olhou de soslaio para Rosa, que não ousava levantar a cabeça, tamanho o pavor que a atitude de Alejandro lhe infligia. Pelo tom de sua voz, estava claro que já sabia de tudo.
- E onde está Soriano? - indagou Lúcio, só então percebendo que deveria ter primeiro se preocupado com a ausência do falso sobrinho.
- Não se informou na capitania? - replicou Alejandro em tom de sarcasmo.
Lúcio ficou confuso, já que era o primeiro lugar a que deveria ter ido para saber notícias do tão amado parente.
- Não... - tornou confuso. - Confesso que fiquei atarantado...
- Os índios o levaram.
- Levaram? Para onde?
- Só Deus sabe... Ou talvez saibam os deuses pagãos daqueles selvagens, porque me parece que é para eles que sacrificam pessoas.
- Sacrificam?
- Pois é. Soriano não deu sorte. Caiu nos braços de um selvagem, que o arrastou floresta adentro, sumindo com ele das minhas vistas. Por sorte não fui capturado também, ou hoje estaria estirado em alguma pedra de altar, com uma adaga cravada no coração, e meu sangue derramado pelas paredes de algum templo demoníaco - ele regozijava-se com o ar de horror de Lúcio e Rosa, e prosseguiu com toques de sadismo: - Pelo menos foi o que vimos. Um sacerdote que tinha nos cabelos o sangue ainda fresco de sua vítima. E, a julgar pela forma como aqueles índios nos perseguiam, evitando matar-nos e tentando nos prender, concluímos que o seu intento era na verdade fazer prisioneiros para oferecer em sacrifício a seus deuses diabólicos.
- E Soriano foi capturado por um desses? - revidou Lúcio, mortificado.
- Uma pena. Senti não poder ajudá-lo, mas tinha que salvar a própria pele. Diga a seu irmão que lamento muito a perda do filho amado.
- Ele... nem teve tempo de lhe dizer nada?
- O que poderia o pobre coitado me dizer? Só o que pude ouvir dele foram seus gritos de agonia desaparecendo no meio da mata.
Lúcio engoliu em seco e olhou para Rosa, cujo semblante avermelhado e rijo lhe dava uma ideia do temor que ela sentia.
- E o que houve com os navios? - continuou Lúcio, tentando aliviar a tensão.
- Foram as tempestades - explicou Alejandro. - Damian, meu novo amigo, foi quem me salvou de uma delas.
À exceção de Damian, ninguém sabia o esforço que Alejandro fazia para manter a conversa em um nível razoável de normalidade. Seu tórax ainda doía dos ferimentos, e ele sentia uma fraqueza mordaz se apoderando de seu corpo. Era preciso, contudo, demonstrar naturalidade para evitar que Rosa e Lúcio se deixassem seduzir pelo oportunismo e engendrassem um plano maligno para acabar com a sua agora frágil vida. O efeito satisfez Alejandro, que fitou Damian discretamente. O amigo permanecia parado ao lado da cama, mãos cruzadas sobre o peito, como um fiel cão de guarda. Enquanto isso, Rosa e Lúcio, acabrunhados, não sabiam ao certo o que dizer ou pensar. Pela primeira vez desde que chegara, Lúcio olhou diretamente para Rosa, que devolveu o olhar com outro de genuíno pavor. Em seu íntimo, o pavor foi-se alastrando, junto com uma quase certeza de que não tinham ainda experimentado a fúria de Alejandro.

CAPÍTULO 5

Encoberta por um manto negro, com o capuz derrubado sobre o rosto, Rosa ia caminhando pelas ruas estreitas, procurando o lado escuro das calçadas a fim de evitar ser vista. De vez em quando, parava e olhava ao redor e para trás, certificando-se de que não estava sendo seguida. Retomava a caminhada e ia avançando silenciosamente, sobressaltando-se ao menor sinal de movimento ou de barulho. Finalmente, chegou ao seu destino e bateu à porta, entrando apressada assim que ela se abriu. Do lado de fora, imperceptível, Damian espreitava. A mando de Alejandro, vinha seguindo Rosa desde que ela deixara a casa. Ainda convalescendo, encontrava-se ele preso ao leito, e Rosa se aproveitava de sua debilidade para oferecer-lhe ervas soporíficas e ausentar-se tão logo ele caísse no sono. Da primeira vez, a artimanha surtiu efeito. Todavia, no dia seguinte, Alejandro mandou chamar Damian e contou-lhe o ocorrido:
- Desconfio de que Rosa colocou alguma erva no chá para me fazer dormir. Excelente ideia! Quero que você fique de vigília todas as noites até que a veja sair e a siga. Quanto a mim, não beberei mais o remédio.
Assim foi feito. Dali em diante, todas as noites, Damian se colocava à espreita. E quando Rosa novamente ofereceu o chá a Alejandro, ele o despejou atrás da cama, sem que ela visse. Ele fingiu dormir, e ela, encobrindo-se com o manto, saiu, sem perceber que Damian a seguia à distância, oculto pelas sombras da noite. Dentro da pequena casa de pedra, Lúcio a aguardava ansioso e tomou-a nos braços tão logo fechou a porta.
- Minha querida - sussurrou ele, coberto de paixão. - Não aguentava mais a torturante demora.
- Tive que esperar Alejandro dormir - respondeu ela, beijando-o ardentemente.
- Precisamos acabar com isso. Não podemos continuar nos encontrando desse jeito.
- O que podemos fazer? Matá-lo?
- Temos que concluir o que Soriano não conseguiu fazer. O tolo, idiota, deve ter sido morto pelo próprio Alejandro.
- Você acha que foi Alejandro quem o matou?
-Tenho minhas desconfianças. Essa história de índios levando-o para o meio da selva não me convenceu. Para mim, Alejandro fez o que Soriano deveria ter feito. Matou-o e colocou a culpa nos selvagens. E, se o matou, só pode ter sido por um motivo.
- Porque descobriu a verdade - completou Rosa, totalmente aturdida com as conjeturas de Lúcio.
- Exatamente.
- Soriano deve ter-lhe contado tudo.
- Isso não importa. O importante é que nós mesmos teremos que fazer o serviço.
- Não seria mais prudente contratarmos outra pessoa?
- Alejandro deve estar alerta. E, depois, tem aquele touro que ele arranjou por amigo. Damian não desgruda do lado dele.
- Oh! Lúcio, o que vamos fazer? - ela se atirou em seus braços, chorando dolorosamente. - Eu o amo, não quero ter que me separar de você. Quero ser sua esposa, só sua.
- Você será. Encontraremos um jeito de acabar com a vida dele.
- Tenho medo. E se eu for presa?
- Isso não vai acontecer. Não vou permitir. Podemos fugir para a Terra do Brasil, e ninguém nunca há de nos descobrir.
Rosa apertou a mão de Lúcio, sentindo esvair-se a confiança que tinha antes de Alejandro partir no navio. Lúcio começou a beijá-la e, em breve, o silêncio dominou o ambiente, entrecortado pelos gemidos de prazer de Rosa. Esquecera-se, por instantes, de Alejandro, envolvida no calor excitante do amado. Com o ouvido colado contra a janela, Damian não perdia uma só palavra do que eles diziam. Quando Rosa entrou na casa, ele se aproximou e foi acompanhando a direção das vozes, que passaram de um cômodo a outro, seguindo o rastro da luz das velas. A casa era muito pequena, talvez dois ou três cômodos, e fora comprada por Lúcio para facilitar os seus encontros. Não distava muito da casa de Alejandro, para que Rosa pudesse caminhar sem ter que tomar nenhuma charrete ou carruagem, de forma a não chamar atenção. O plano o indignou, e ele partiu dali com a cabeça fervilhando de ideias de vingança. Alejandro era seu único amigo. Mesmo doente, não o abandonara e cuidara dele, assim como ele havia salvado a vida de Alejandro e cuidado de sua ferida. Tinham agora um pacto de vida, porque viviam graças aos cuidados recíprocos. Era em nome desse pacto que não pretendia deixar que Alejandro fosse enganado pela mulher e o amante, muito menos permitiria que o matassem. Damian despertou Alejandro de seu sono leve. Durante boa parte da noite, Alejandro permanecera à espera de notícias sobre o possível encontro de Rosa e Lúcio. Como o amigo demorava a voltar, cochilou por instantes, e não foi preciso muito esforço para acordá-lo.
- Damian! - exclamou eufórico, totalmente desperto. - E então? Alguma notícia? Viu alguma coisa?
- Suas suspeitas têm fundamento. Segui Rosa até uma casinha perto daqui e ouvi sua conversa com Lúcio. Pretendem matá-lo e fugir para as Terras do Brasil.
Alejandro deu uma risada abafada, porém sinistra, e acrescentou com desdém:
- Talvez devêssemos deixá-los ir. Lá também só tem índios. Com um pouco de sorte, quem sabe eles não são devorados por uma tribo de canibais?
- Gostaria de fazer com eles o que fez com Soriano?
- Não, meu amigo, não é bem assim. Para Rosa e Lúcio guardo uma vingança mais doce. Quero ter o prazer de acabar com suas vidas com minhas próprias mãos, e não posso roubar-me o prazer de vê-los agonizar e morrer.
- Sabe que vou ajudá-lo, não sabe? - Alejandro assentiu. - Você é o único amigo que tenho, e tudo farei que estiver ao meu alcance para que você lave sua honra.
- Obrigado, meu amigo. Em breve, muito em breve, alcançaremos sucesso.
- Como é que você pretende fazer isso? Eles não são tolos.
- Você vai ver. Mas, por ora, é melhor que se vá. Não seria prudente que Rosa o visse aqui a esta hora da noite. Poderia pôr todo o nosso plano a perder.
- Você já tem um plano?
Alejandro deu um sorriso enigmático e acrescentou:
- Na verdade, sim. Estou amadurecendo a ideia e logo, logo você saberá de tudo.
Damian ficou satisfeito. Despediu-se de Alejandro efusivamente e partiu antes que Rosa voltasse. Durante o mês que se seguiu, Rosa não conseguiu mais ir ao encontro de Lúcio. Embora Alejandro já estivesse praticamente reabilitado de suas feridas, fingia fraqueza e alegava sentir muita dor requisitando a companhia da esposa quase que diuturnamente. Ela já não suportava mais, contudo, não via meios de sair e ver o amante. Como Alejandro deixara de beber o chá, exigia que Rosa dormisse a seu lado, despertando sempre que ela se mexia. Louco da vida, Lúcio aparecia ocasionalmente, mais para ver Rosa do que para visitar Alejandro. Para todos os efeitos, ainda era o melhor amigo dele. Vinha poucas vezes, desculpando a escassez de visitas com a enorme quantidade de afazeres que seu cargo público exigia. Tinha certeza de que Alejandro sabia a verdade e temia ser confrontado por ele em seu próprio lar. Todos os dias, Damian ia visitá-lo, e era nesses momentos que Rosa se afastava um pouco, a pretexto de deixá-los a sós para conversarem. Não conseguia sair de casa, mas ao menos se libertava da companhia desagradável de um marido inválido e repugnante. Isso permitia a Alejandro confabular secretamente com Damian, e o plano foi-se armando e estruturando, até que chegou o dia de, finalmente, ganhar vida. Era o aniversário de Alejandro, que encomendou uma festa muito íntima para comemorar a data. Poucos amigos haviam sido convidados, e Lúcio viu naquela festa a oportunidade que tanto esperava. Com muitas pessoas e a bebida a distrair Alejandro, seria mais fácil encontrar um momento a sós com a amante, longe das vistas do rival e de Damian. Tudo estava planejado para acontecer naquela noite se nenhum contratempo os impedisse. Lúcio foi um dos primeiros a chegar, e Damian veio em seguida, com a esposa. O jantar foi servido e os convidados se deliciaram com as iguarias que Rosa mandara preparar. Em seguida, um pouco de música e muita bebida. Rosa e Lúcio sentiam uma explosão a percorrer-lhes os corpos cada vez que se viam, embora mal pudessem se falar. Durante toda a noite, aguardaram ansiosos um momento para ficarem sozinhos, mas Alejandro não lhes dava nenhuma oportunidade, solicitando a presença da mulher a seu lado por quase toda a festa. Seguindo o combinado, Damian foi um dos últimos a sair, muito embora tomasse o cuidado de colocar o xale da mulher sobre o espaldar da cadeira, sem que ela se desse conta.
- Será que vai dar certo? - murmurou ele ao ouvido de Alejandro. - E se eles não caírem na nossa armadilha?
- Eles vão cair - sussurrou Alejandro de volta. - Faz tempo que não se deitam. Devem estar ardendo de um desejo incontrolável, e é isso que vai fazê-los abandonar a prudência.
Damian e a esposa saíram e, logo em seguida, Alejandro levantou-se, apalpando as costelas com ar de sofrimento.
- Meus amigos, perdoem-me, mas preciso me recolher. Ainda estou convalescendo. Todavia, Rosa está aqui para alegrá-los. Fiquem e divirtam-se.
Como era de se esperar, os últimos convidados se retiraram logo após a saída de Alejandro, inclusive Lúcio. Rosa se despediu dele polidamente e mandou a criada para casa, a fim de no testemunhar o adultério.
- Mas, senhora - objetou a moça -, há muito que limpar.
- Amanhã você cuida disso. Sei que trabalhou demais e deve estar exausta. Pode ir.
A criada agradeceu e foi apanhar suas coisas. Assim que ela saiu, Rosa voltou correndo para a sala e abriu a porta devagarinho, dando entrada sorrateira a Lúcio.
- Aguarde-me na saleta de chá. Vou ver se Alejandro está dormindo e, em breve, estarei com você.
Lúcio puxou-a e beijou-a sofregamente, relutando em largá-la. Ela se afastou dele com um gesto brusco e subiu para ver o marido. Encontrou-o ressonando na cama, recendendo a suor e vinho. Propositadamente, ela deixou cair a escova de cabelos, que ecoou surdamente no chão de pedras, mas Alejandro não acordou. Soltou um ronco mais grave, mastigou saliva e se virou para o outro lado, parecendo dormir pesadamente. Contendo a repulsa, Rosa acercou-se dele pelo outro lado e aproximou o rosto o mais que pôde. Ficou nessa posição por alguns minutos, experimentando para ver se o marido abria os olhos. Queria certificar-se, com absoluta certeza, de que ele não estava fingindo. Após um tempo razoável, ele não se moveu, e ela se convenceu de que, efetivamente, dormia embriagado. Pé ante pé, Rosa saiu do quarto e fechou a porta, descendo as escadas às pressas, à procura de Lúcio. Ele a esperava na saleta, bebendo calmamente um cálice de vinho. Mal colocou a taça sobre a mesa, Rosa atirou-se sobre ele, arrancando-lhe as roupas e puxando as mãos dele para cima de seus seios. Nesse mesmo instante, sem que os amantes se dessem conta, Damian entrava por uma porta lateral, cuja chave Alejandro lhe dera. Ouviu sussurros e gemidos e seguiu para a saleta, onde aguardou atrás da porta, sem entrar. Em poucos instantes, Alejandro surgiu armado. Durante algum tempo, permaneceu parado, ouvindo os sons característicos do sexo e tecendo na mente a cena grotesca do amor depravado da mulher.
- Você está bem? - perguntou Damian. - Quer desistir?
- Os descarados! - rosnou Alejandro, olhando para o amigo com olhar insano e vermelho de raiva. - Não hesitam em trair-me dentro da minha própria casa.
Com a espada na mão, Alejandro empurrou a porta, entrando com Damian em seu encalço. O que viu embrulhou seu estômago e encheu-o de um ódio tão fremente que ele mal conseguiu pensar. Rosa se mexia freneticamente sobre Lúcio, apertando-lhe os flancos com as coxas e espalhando no ar os seus gemidos de luxúria e os seus gritos de prazer, enquanto o amante, de olhos fechados, lhe apertava os seios e emitia sussurros lúbricos e palavras obscenas.
Ele quase não acreditava no que via e ouvia. Rosa, que o evitava o mais que podia, entregava-se a Lúcio com a lascívia de uma meretriz, em atitude que ele, até então, só experimentara no leito das prostitutas. Com Damian como testemunha, Alejandro puxou Rosa pelos cabelos, e ela, sem entender o que se passava, soltou um grito estridente de pavor.
- Sua vagabunda, meretriz, cadela! - esbravejou Alejandro, desferindo-lhe um murro no queixo.
Rosa tombou para trás com a boca ensanguentada e Damian a segurou para que ela não fugisse.
- Alejandro, deixe-me explicar - suplicava Lúcia - Nós não queríamos. Mas você ficou muito tempo longe... Pediu-me sara tomar conta de Rosa...
- E você tomou conta tão bem que não apenas dormiu com ela, mas tramou a minha morte para poder ficar com a minha esposa e tudo que é meu.
- Não é nada disso...
À medida que ia tentando desculpar-se, Lúcio se arrastava para trás, o corpo ainda desnudo repugnando e enfurecendo cada vez mais Alejandro, que o seguia com a ponta da espada apontada para seu pescoço.
- Por Deus, Alejandro - Rosa implorou. - Tenha piedade de nós. Expulse-nos, mande-nos embora, mas não nos mate.
- Mandá-los embora seria o mesmo que reconhecer a sua vitória. Não posso deixá-los livres para que sejam felizes à custa da minha desonra.
- Nós nos amamos! - confessou Rosa. - Não temos culpa de nos amar.
- Você é minha mulher, Rosa! - vociferou ele, os olhos injetados de sangue. - Como pôde me trair com meu melhor amigo e ainda tramar a minha morte? Pensam que não sei? Como acham que Soriano morreu? - ninguém disse nada. - Eu o entreguei aos índios! Fui eu. Tive-o sob a ponta da minha espada, como você agora, Lúcio, que rasteja como um covarde, e poupei-lhe a vida para que um índio truculento o levasse.
Lúcio e Rosa não sabiam o que dizer para sensibilizar Alejandro, que cuspia sobre o rival com o ódio do inimigo voraz.
- Poupe-nos, Alejandro, por favor - gemeu Lúcio. - Em nome dos nossos anos de amizade...
- Dos anos em que você me traiu, fingindo-se meu amigo para poder dormir com a minha mulher!
De forma inesperada, Lúcio tentou se levantar para correr, mas Alejandro foi mais rápido. Atravessou a espada no coração do outro e ficou assistindo a sua breve agonia, até que o último suspiro se esvaiu de sua boca. Matar Lúcio lhe deu grande prazer, e os gritos desesperados de Rosa só fizeram aumentar a sua sanha, fazendo com que ele a encarasse com um brilho de loucura no olhar. Rosa se debatia nos braços de Damian, tentando soltar-se a todo custo.
- Por piedade, Alejandro, não me mate - ela chorava descontrolada. - Farei o que você quiser, serei sua prisioneira, nunca mais falarei com homem algum. Mas não me mate, pelo amor de Deus, não me mate!
- Se permitir que viva, cada vez que olhar para você desprezarei a mim mesmo por ter deixado impune a sua traição.
Ele ficou olhando o corpo perfeito de Rosa, que já não mais lhe pertencia, e o ódio recrudesceu em seu coração. De repente, lembrou-se da amiga Giselle, que o advertira sobre aquilo, mas a quem não quisera dar ouvidos. Alejandro tomou Rosa das mãos de Damian e a arrastou até o meio da sala.
- Vista-se - ordenou.
Aos prantos, ela se vestiu, na esperança de que a sua submissão o tocasse, e ele a perdoasse e deixasse viver. Mas não foi isso que aconteceu. Alejandro tornou a arrastá-la, dessa vez para o pátio interno, e jogou-a sobre o chão de pedras. Ela chorava cada vez mais e rastejou até ele, agarrando os seus joelhos e implorando entre lágrimas:
- Em nome de Deus, Alejandro, não me mate. Farei o que você quiser - e, vendo que Damian os seguira com uma tocha, que iluminava parte do átrio, virou para ele os olhos em súplica e prosseguiu: - Você é amigo dele. Por favor, convença-o a ter piedade e não cometer esse crime.
- Adúlteras não merecem piedade. E não há crime maior do que a traição.
Assim instigado pelas palavras de Damian, Alejandro chutou-a para o chão e estendeu a mão, onde Damian depositou a tocha que trazia consigo.
- O que vai fazer? - horrorizou-se Rosa, sentindo o calor do fogo que Alejandro aproximava dela.
- Vê-la morrer lentamente - foi a resposta cruel e fria.
Na mesma hora, Alejandro ateou fogo em Rosa, regozijando-se com seus gritos lancinantes e as voltas desencontradas que ela dava sobre o próprio corpo, numa tentativa desesperada de extinguir as chamas. Mas as chamas só se extinguiram muito tempo depois, quando a vida de Rosa já se havia esvaído.

CAPÍTULO 6

A água escorria da cascata em nuvens esbranquiçadas e densas, indo cair num lago transparente e fundo, onde Alejandro esfregava o corpo para soltar da pele o sangue ressecado dos índios que matara. Na margem, amarrada a uma árvore e com a boca amordaçada, uma mulher jovem e de pele morena acompanhava cada movimento dele, tentando imaginar o que aquele homem tão branco poderia querer com ela. Depois que terminou de se lavar, Alejandro se atirou na relva verde e ficou olhando o céu azul, praticamente ignorando sua prisioneira, que não podia nem se mover, nem falar. De repente, um estalido na mata despertou os seus sentidos, e ele passou a mão no mosquete, fazendo pontaria na direção de onde provinha o barulho. Damian apareceu com ar cansado, deu uma olhada na mulher amarrada e sentou-se perto de Alejandro, que protestou mansamente:
- Deveria tomar mais cuidado. Por pouco não atiro em você.
Damian sorriu e apontou para a mulher, indagando com ar de quem sabia a resposta:
- Mais uma? - Alejandro assentiu. - Não acha que está exagerando?
- Não - foi a resposta seca.
Em silêncio, Damian se retirou. Não tinha pena daqueles selvagens nem achava que deviam ser tratados como gente, mas Alejandro já ultrapassava os limites. Usava os índios para extravasar sua raiva e vingar-se da traição da mulher. Só que as índias não eram Rosa, e, por mais que ele matasse, jamais se veria livre da lembrança do que ocorrera naquela noite. O plano todo fora arquitetado cuidadosamente. Quando, no dia seguinte, a criada descobriu os corpos de Lúcio e de Rosa, Alejandro fora preso, mas conseguira se salvar alegando legítima defesa da honra. Damian servira como testemunha de que ele, enfermo e debilitado, fora vítima da traição da esposa e do melhor amigo, tendo flagrado os dois em adultério em sua própria casa no dia da festa de seu aniversário. Que homem suportaria a visão desse crime sem perder a cabeça e liquidar os culpados? No julgamento, Alejandro dissera que se recolhera um pouco mais cedo, em função de seu estado, e já estava quase dormindo quando ouvira um ruído estranho vindo do andar de baixo. Assustado, apanhou a espada e desceu, encontrando Damian ao pé da escada. O amigo voltara à sua casa para apanhar o xale que a mulher havia esquecido. Damian também ouvira o barulho e acompanhara o outro, que, por sua debilidade, poderia acabar nas mãos de algum bandido. Qual não foi o espanto de ambos, porém, ao descobrir Rosa e Lúcio em posição que nenhum ser humano decente ousaria relatar. Ainda assim, por insistência da defesa bem articulada, Alejandro narrou, em minúcias, os movimentos de luxúria e sem qualquer pudor em que flagrara os amantes, sua nudez, seus gestos e gemidos. Tal visão o mortificara, fazendo-o permanecer algum tempo paralisado, enquanto Damian procurava ocultar o rosto daquela cena vergonhosa. Foi quando Alejandro, tomado de ira, empunhou a espada e cravou-a no peito do rival, ateando fogo nas vestes de Rosa num gesto tresloucado de fúria. Nenhum juiz ousou discordar dos motivos mais que justos de Alejandro. Surpreender a esposa, que ele até então julgava casta e pura, nos braços de quem ele acreditava ser o seu melhor amigo foi um golpe duro demais. Qualquer homem perderia a cabeça e a razão e, num impulso vingativo, daria cabo da vida dos amantes. O depoimento de Damian, ademais, confirmava as alegações do réu, que foi absolvido por se encontrar no exercício de seu legítimo direito de defender, com sangue, a honra que a mulher indigna conspurcara. Daí em diante, Alejandro se tomou de ódio pelas mulheres e sentia prazer em lhes infligir sofrimento e dor. Não raras eram as prostitutas que se queixavam de sua brutalidade, até que chegou ao ponto de nenhuma delas querer mais dormir com ele. Passados quase dois anos de sua volta da aventura ao lado de Francisco de Córdova, Alejandro soube de uma nova expedição, dessa vez sob o comando de Hernán Cortés7, partindo de Cuba rumo ao Yucatã para a conquista de outros povos. Alejandro não aguardou o convite. Apresentou-se ao chefe da expedição e ofereceu os seus serviços, seguindo com Damian em busca de ouro e de algo que lhe permitisse extravasar sua fúria e seu desgosto. Apesar de não concordar com o modo que Alejandro escolhera para se vingar da vida, Damian não dizia nada. Afastou-se do lugar em que o amigo se encontrava e foi descansar, em sua tenda, do último ataque aos nativos. Depois que ele se foi, Alejandro permaneceu quieto por alguns momentos, fitando o vazio, até que soltou um suspiro e se levantou, aproximando-se da índia. Desamarrou-a, e ela tentou fugir, desencadeando nele uma fúria sem igual. Desde que matara Rosa, Alejandro se enfurecia por qualquer motivo, principalmente com as mulheres, e costumava espancá-las até quase deixá-las sem vida.

7 - Hernán Cortés - conquistador espanhol, responsável pela queda do império asteca, em 1519, notabilizado da violência com que atacou e dizimou povoados inteiros.

Não foi outra a reação que teve com a índia. Alejandro agarrou-a com força e desferiu-lhe vários socos no rosto, deixando-a com as faces inchadas e vermelhas. A índia começou a chorar, mas ele não se compadeceu. Deitou-a no chão e violentou-a fria e cruelmente, e depois, quando a mulher começou a dizer coisas que ele não compreendia, sacou de uma faca e cortou o seu pescoço, arrematando com indiferença:
- Ora, cale a boca.
Era apenas mais uma selvagem insignificante que nenhuma falta faria ao mundo civilizado. Depois que a matou, Alejandro limpou a faca na água do riacho e voltou para o acampamento. Ao longe, apenas alguns vestígios de fumaça cinzenta subiam do povoado que haviam acabado de queimar. Ele inspirou profundamente, como se quisesse engolir parte daquela fumaça de morte, e sorriu, satisfeito consigo mesmo. Matara muitos índios naquele dia, o que se tornara motivo de glória e satisfação para ele e os seus companheiros, que disputavam quem alcançaria a maior quantidade de selvagens abatidos. Foram muitas as jornadas que Alejandro fez na campanha Cortés, seguido por seu amigo Damian, que se orgulhava de matado quase tantos índios quanto ele. Mas faltava a Damian o entusiasmo da morte, algo que se via nitidamente nos olhos de Alejandro desde que incendiara o corpo de Rosa. Para Damian, matar os índios era parte da conquista, enquanto para Alejandro era fonte de vingança e prazer. No dia seguinte, Cortés saiu a cavalo com mais homens e alguns índios, estando Alejandro e Damian entre eles. Ao invadirem o primeiro povoado, Alejandro se distraiu, fazendo pontaria nos indígenas que fugiam assustados, enquanto os companheiros ateavam fogo às cabanas. Quando Alejandro saltou do cavalo, já sabia o que iria fazer. Vendo as índias fugirem espavoridas, encurralou uma jovenzinha de seus quatorze anos e repetiu com ela o ritual macabro que se acostumara a realizar. Estuprou-a com violência, regozijando-se ante o seu desespero, e depois a matou sem piedade. No outro povoado, a mesma coisa, e no outro também, e em todos os outros que ele invadiu. Alejandro entrava nas vilas, matava muitos índios, tocava fogo em suas casas e estuprava as índias que cruzavam o seu caminho, liquidando-as logo após. Justificava-se com o cumprimento da tarefa, executando as ordens que o capitão lhe dava. Se Cortés mandava matar, ele matava. Se mandava queimar, queimava. E dos prisioneiros que faziam, muitos eram mulheres, postas à disposição dos homens para seu divertimento e lazer. Alejandro apenas usufruía o que julgava ser seu por direito, já que, conquistadores, aos espanhóis cabia dispor de suas vítimas como parte da pilhagem. Após vários meses de ataques sangrentos, Alejandro começou a sentir os primeiros sintomas da doença. Tudo começou com um mal-estar que o deixou cansado e abatido. Haviam acabado de entrar em Tenochtitlán8 e se instalado no palácio real. Uma índia foi designada para servir os soldados, e Alejandro, ao colocar os olhos sobre ela, desejou-a instantaneamente. Enquanto ela o servia, ele a admirava e seguia todos os seus passos ao redor dos homens. Depois de comer, Alejandro se levantou e foi atrás dela atraindo-a para a floresta com falsos sorrisos. A moça seguiu-o sem de nada desconfiar, certa de que se tratava de um mensageiro do deus Quetzalcoatl9. Aproveitando-se dessa crença, Alejandro a imobilizou e estava prestes a subjugá-la, quando súbito mal-estar se apoderou de seu corpo. Uma dor profunda o trespassou, e ele soltou a índia, que, apavorada, correu para o meio da selva. Ainda pensou em ir atrás dela, mas a fadiga não permitiu. Como a campanha de Cortés já durava mais de um ano, ele atribuiu o cansaço às lutas incessantes que empreendera contra os nativos. Talvez estivesse ficando velho e precisasse ir mais devagar. Dominado pela exaustão, sentindo o corpo dolorido e trêmulo, a cabeça explodindo de dor, resolveu se deitar por uns minutos.

8. Tenochtitlán - capital do império asteca, atual Cidade do México.

9. Quetzalcoatl - deus asteca com o qual Cortés foi confundido.

Quando Damian entrou na barraca que dividia com ele, assustou-se com o seu estado. Alejandro, coberto até o pescoço, tinha gotículas de suor no rosto e tiritava de frio.
- Alejandro - chamou Damian baixinho -, o que você tem? Lentamente, Alejandro abriu os olhos e custou a focar o amigo. Quando finalmente o reconheceu, respondeu com voz sumida:
- Não sei... Sinto-me fraco, a cabeça dói, a garganta também... e o nariz... parece tampado...
Damian experimentou a testa do outro, que ardia em febre.
- Hum... acho que é melhor chamar o médico.
- Não é preciso - objetou Alejandro, segurando-o pelo punho. - É só um mal-estar. Amanhã estarei bem.
- Mas e se alguma índia lhe passou doença?
- Não... Deixe estar. Vou melhorar, você verá.
A melhora não veio. Três dias depois, Damian se apavorou com o que viu. Deitado de lado na cama, Alejandro apertava o estômago e se contorcia todo, em espasmos de dor que sacudiam o seu corpo.
- Alejandro - disse ele -, você está piorando!
- O médico... - balbuciava ele. - Vá chamar o médico... Tenho... dores horríveis... Todo o meu corpo... a barriga...
Começou a vomitar violentamente, e Damian saiu correndo da barraca. Foi chamar o médico da expedição, que entrou apressado e sussurrou penalizado:
- Ele contraiu a doença10. Só nos resta esperar que resista.
- O que... o que eu tenho... doutor? - gaguejou Alejandro. O médico não respondeu e fez com que Alejandro engolisse um preparado de ervas que o fez dormir um pouco.
- O que eu faço, doutor? - indagou Damian, preocupado.

10 - Varíola.

- Eu, no seu lugar, procuraria outro canto para dormir. Daqui para frente, os sintomas só vão piorar, e a aparência dele vai se tornar repugnante. Você não vai querer presenciar isso - acercou-se bem de Damian e cochichou ao seu ouvido: - Sem contar que é contagioso. Altamente contagioso.
Damian olhou para o médico com ar assustado, mas ainda não havia se dado conta da gravidade da situação. Em nome da sua amizade, recusou-se a sair e permaneceu ao lado de Alejandro. As pústulas começaram a aparecer pouco depois, primeiro na garganta, que ardia imensamente, e depois na boca, passando em seguida para o rosto e, por fim, espalhando-se por todo o corpo. Em toda a sua extensão, a pele de Alejandro estava coberta de bolhas purulentas. Em outras barracas, alguns soldados padeciam do mesmo mal. e logo os enfermos foram isolados num local mais afastado do palácio. O aspecto de Alejandro foi-se tornando cada vez mais repulsivo, e a certeza da malignidade daquela enfermidade caiu feito um raio sobre a cabeça de Damian, enchendo-o de pavor. Muito embora quisesse permanecer ao lado de Alejandro, o temor de contrair a doença tornou-se tão intenso que, mesmo a contragosto, decidiu afastar-se. Corroía-se de remorso por abandonar o amigo numa hora daquelas e rememorava os momentos de maior perigo que atravessaram juntos.
- Nenhum ataque de índio é tão fatal quanto essa doença advertiu o médico.
Foi impossível conter a disseminação do mal, que contaminou os índios e levou à morte mais de oitenta por cento da população, facilitando a tomada e destruição de Tenochtitlán. Alejandro, todavia, não participou de mais essa investida. Sem forças para combater tão maligna enfermidade, cerrou os olhos após intensa agonia, sozinho em sua tenda, longe da ilusão da glória e do calor das batalhas, dos selvagens e do amigo Damian.

CAPÍTULO 7

Ao despertar, Alejandro assustou-se com o que viu. Estava num lugar seco e muito quente, deitado sobre uma areia áspera e escaldante. Uma queimação espalhou-se pelas feridas, e ele as apalpou suavemente. A umidade grudou em seus dedos, algo parecido com pus misturado a sangue. Enojado, virou-se para o lado e vomitou, contudo, o que saiu de sua boca foi um jorro quente de sangue.
A muito custo, conseguiu levantar-se. Parecia que se encontrava no deserto, visto que um calor asfixiante fazia arder sua garganta e ressecar sua língua. Precisava de água, mas não via nenhuma fonte ou rio nas proximidades. Ficou a imaginar que lugar seria aquele, porém, a única coisa que lhe ocorria era que Cortés talvez tivesse mandado atirá-lo em alguma fenda de montanha para padecer no inferno e queimar consigo a doença maldita. Só que ele não morrera. Caíra no inferno, sim, mas continuava vivo e precisava descobrir uma maneira de voltar à superfície e fugir, ou Cortés mandaria matá-lo novamente. Sentiu um ódio profundo pelo capitão, que eliminava os enfermos que já não serviam mais, esquecendo-se de todos os momentos de perigo em que eles haviam arriscado as próprias vidas para defender a causa do conquistador. Alejandro sentia o corpo todo dolorido, no entanto, precisava controlar a dor e se esforçar se quisesse sair vivo dali. A sede ainda era o pior, e ele estreitou a vista para ver se conseguia vislumbrar alguma coisa que fosse líquida. Nada. Procurando mais além, pareceu-lhe divisar a silhueta de uma pessoa e caminhou para lá. Muito vagarosamente, arrastando a perna como um aleijão e mal conseguindo respirar, Alejandro se acercou do que pensou ser uma pessoa. Foi-se aproximando com ansiedade e estendeu a mão para o vulto, que se encontrava de costas para ele.
- Por favor... amigo... - balbuciou. - Ajude-me...
Foi quando o vulto se virou, e Alejandro estacou horrorizado. Agora com a visão mais nítida, notou que a pessoa era um índio e que seu corpo todo estava coberto de sangue. O índio se voltou para ele e soltou um grito lancinante, fazendo com que Alejandro rodasse nos calcanhares e tentasse correr, pois vira a lança se levantar na mão do inimigo. Inútil tentativa. Muito debilitado, não conseguiu se mover, e o índio chegou muito perto dele, quase colando o rosto ao seu, rosnando palavras ininteligíveis naquela língua nativa. Sentiu o cheiro de sangue que emanava de todos os poros do selvagem, embrulhando seu estômago. Instintivamente, virou o rosto para o lado, e novo jato de sangue amargo espirrou de sua boca. Quando Alejandro tornou a virar o rosto para frente, o índio havia desaparecido. Piscou várias vezes, para se certificar de que o que vira não era real.
- Devo estar delirando - disse em voz alta para si mesmo.
Ainda sentindo imensas dores, retomou a caminhada. Não sabia em que direção seguir, mas não fazia diferença. Estava certo de que a saída era para cima, contudo, nenhuma elevação havia. Por onde fora atirado naquela cratera, não saberia dizer. Tinha que procurar um lugar para subir. Mais adiante, uma aglomeração de pessoas atraiu sua atenção. Chegando mais perto, ouviu lamentos e gritos que eriçaram todos os seus pelos. Apesar do medo, aproximou-se cautelosamente e notou que todos tinham o corpo coberto de fuligem, como se tivessem acabado de limpar uma chaminé. As pessoas o viram e, por um momento, emudeceram, fitando Alejandro com um misto de ódio e medo. A um sinal do que deveria ser o líder, todos se empertigaram e puseram-se a urrar tão alto que Alejandro tapou os ouvidos, embora continuasse escutando a gritaria, sem, contudo, compreender o que diziam. A multidão se aproximou, e ele recuou novamente aterrado. O que ele julgava ser fuligem, na verdade, eram queimaduras enegrecidas cobrindo toda a pele de uma gente que ele constatou, horrorizado, serem novos índios. Alguns ainda soltavam fumaça, e um odor horrendo de carne carbonizada atacou as narinas de Alejandro, que, mais uma vez, foi acometido por forte náusea. Vomitou sangue novamente. Tentou recuar, mas a dor nos membros lhe dificultou a escapada, e ele tropeçou nas próprias pernas, tombando no chão sobre as pústulas, que estouraram e o picaram feito agulhas fininhas e cortantes. Imediatamente, os índios queimados se atiraram sobre ele, que se encolheu todo para receber os golpes violentos da malta enfurecida. Não podendo mais suportar a dor, Alejandro desmaiou. Ao abrir os olhos, sentiu uma viscosidade sob seu corpo e constatou que havia caído de borco em uma poça de sangue. Apesar dos músculos doridos, conseguiu levantar-se e começou a desconfiar de que havia algo de muito estranho naquele lugar e naquelas pessoas. Como podiam estar vivas com os corpos cobertos de sangue e queimaduras? Só se estivessem mortas. Mas, se havia pessoas mortas ali, era porque ele também tinha morrido e fora parar no inferno. Ou talvez tudo não passasse de um pesadelo causado pela insânia da doença, o que era mais provável.
- Isso só pode ser uma alucinação - pensou. - Não posso estar morto, e isso não é o inferno. Sinto que respiro, estou vivo.
Foi assim por muito tempo, embora Alejandro não conseguisse precisar dias ou horas. Por onde passava, vinham índios ensanguentados ou carbonizados investindo contra ele. Até que, de repente, os ataques cessaram. Quando Alejandro já relaxava, acreditando que os índios não voltariam mais, uma nova investida aconteceu. Mas dessa vez não eram índios. Eram índias. De toda parte, surgiam mulheres estranguladas e retalhadas, expondo o sexo ferido e ultrajado.
Um grupo de índias atirou-se sobre ele e, fazendo gestos obscenos, começou a provocá-lo, forçando-o a manter relações sexuais. Mesmo involuntariamente, Alejandro se excitou e assistiu, horrorizado, à dança erótica das mulheres sobre ele. Fazer sexo causava-lhe imensa dor, mas elas pareciam não se importar com as bolhas que roçavam seus corpos. Quando um grupo terminava, lá vinha outro do mesmo jeito, tão rápido que ele nem conseguia fechar os olhos e descansar. Corpos mutilados e queimados, de todos os lados surgiam espectros tenebrosos a exigir que Alejandro se deitasse com eles. As mulheres o dominavam e riam dele, de seu pênis encaroçado e de suas lágrimas de súplica.
- Por favor, não façam mais isso - implorava ele, a garganta seca ainda sem água. - Não aguento mais. Prefiro morrer! Prefiro morrer! Oh! Deus, por favor, ajude-me!
Nesse momento, as mulheres desapareceram, e ele conseguiu dormir um pouco. Quando acordou, sentiu que não estava sozinho e se encolheu todo, temendo o assédio de mais índias. O ataque, contudo, não veio, e Alejandro experimentou olhar para os lados. Perto de onde estava, um homem o observava, o abdome aberto em imenso talho bem abaixo do diafragma, por onde afluía uma grande quantidade de sangue.
- Não aguento mais - choramingou ele. - Mate-me, se quiser, mas não me torture mais com a visão do sangue.
Para sua surpresa, o homem respondeu em bom e audível espanhol:
- Não é possível matar quem já está morto.
Pelos primeiros segundos, Alejandro permaneceu fitando o interlocutor, puxando a memória para se lembrar de onde é que o conhecia. Finalmente, a lembrança se fez presente, e ele deu um salto, aterrado e atônito:
- Você!?
Soriano começou a andar em volta dele, sem chegar muito próximo, e respondeu com certa frieza:
- Quem você esperava? Um anjo de asas brancas? Sou o que há de melhor para atender o seu chamado.
O pavor dominava Alejandro, que interpretava a presença de Soriano como um ato de vingança.
- Não chamei ninguém.
Soriano ergueu uma sobrancelha e, afinando a voz, repetiu debochadamente as palavras dele:
- Oh! Deus, por favor, ajude-me! - em seguida, fulminou-o com o olhar e, apontando o dedo ensanguentado para ele, disparou: - Não foi você quem disse isso?
- Foi, mas... não esperava que alguém ouvisse. Muito menos alguém feito você.
- Pois alguém ouviu, e não fui eu. Foi alguém que está acima de mim aqui nessa treva profunda, alguém que manda, mas que também recebe ordens de outro alguém, e por aí vai. Enfim, alguém mais poderoso do que eu ouviu a sua súplica patética e covarde, e me enviou para ajudá-lo.
- Ajudar-me em quê? Vai tirar-me daqui?
- Você não tem para onde ir, Alejandro. Essa vai ser a sua casa pelos próximos quinhentos anos.
- Ficou louco? Ninguém vive tanto tempo.
- Será que você é muito burro ou fui eu que não me fiz entender? Você está morto, idiota, morto! Acabou para o mundo lá de cima. Compreendeu agora?
Ao contrário do que o próprio Alejandro esperava de si mesmo, não se surpreendeu. Na verdade, já tinha essa desconfiança, embora seu coração se recusasse a acreditar, pois ainda se sentia vivo.
- Isso aqui é o inferno?
- De certa maneira, sim, se você compreender que só vêm para cá aqueles que têm o que temer.
- Temer?
- Quando o coração do homem é negro, faz com que ele tema que a treva que nele habita se vire contra si próprio. Vendo que Alejandro não compreendera, esclareceu:
- Os que aqui estão não são almas; são sombras escurecidas pela maldade. Como o mal traz o medo do retorno, todos aqueles que não se perdoam vêm parar aqui por suas próprias culpas, que se transformam em guias para esse mundo de trevas.
Soriano deu um passo na direção de Alejandro, que andou para trás e procurou a espada na cintura.
- Não se aproxime de mim - ele pediu, quase implorou. Não suporto mais tanta vingança.
- Não vim aqui para me vingar de você, embora me agradasse ter o seu pescoço em minhas mãos.
- Se não veio se vingar, o que pretende, então?
- Você é mesmo estúpido, não é? Já não disse que está morto?
- E você veio aqui só para me dizer isso?
- Recebi uma incumbência. Como você pediu ajuda, mandaram-me aqui para avisá-lo de que seu corpo de carne está morto e que você continua vivo em essência.
- E você?
- Acho que já deu para perceber que estou morto também.
- O que foi que lhe aconteceu?
- Ora, obrigado por perguntar - desdenhou Soriano. -Mas pensei que você soubesse. Quando me entregou nas mãos daquele selvagem carniceiro, devia saber o que estava fazendo.
- Eles o sacrificaram?
Soriano exibiu a ferida sangrenta aberta na barriga e retrucou com mórbido prazer:
- Sabe o que é curioso nesses selvagens? É que conhecem procedimentos cirúrgicos melhor do que os médicos incompetentes que temos na Coroa. O sacerdote foi tão preciso com a faca que cortou a minha barriga sem tocar nenhum osso, agarrou meu coração e puxou.
- Jesus Cristo! - horrorizou-se Alejandro.
- Ele não me ajudou, mas não porque tivesse me abandonado. Fui eu que simplesmente nem me lembrei de que ele existia.
- Por favor, Soriano, pare com isso. Não estou me sentindo bem.
Soriano, contudo, pareceu ignorá-lo, deleitando-se com a reação de repulsa e pavor que suas palavras produziam.
- Na verdade - prosseguiu ele -, não vi quando ele cortou os ligamentos que prendiam meu coração ao corpo porque... morri. Mas sei que ele o arrancou para fora e o levantou ainda pulsante. O mais engraçado foi que não senti raiva dele... e nem de você por querer me matar. Meu ódio foi porque, por sua causa, eu nunca mais tornaria a ver Cibele. Se fosse só pela minha vida, eu não me importaria tanto. Quanto vale a vida de um condenado? Mas Cibele... Tudo o que eu mais queria era estar ao lado dela, todavia, por sua causa, nunca mais tornei a vê-la. Nunca... - calou-se, engolindo uma lágrima, e fulminou o outro com o olhar.
Nesse ponto, Alejandro se virou para o lado e vomitou sangue novamente, várias vezes, sentindo uma dor terrível no estômago e na garganta:
- Acho que isso ainda é pior do que a varíola - ironizou Soriano, já recuperado de sua momentânea fraqueza.
- Chega - murmurou Alejandro, quase sem conseguir falar.
- Será que você sabe por que vomita tanto sangue? - ele meneou a cabeça. - Porque todo sangue inocente que você derramou fluiu para dentro de você.
Alejandro escondeu o rosto entre as mãos e desatou a chorar convulsivamente:
- Oh, Deus, como me arrependo do que fiz! Só agora percebo o quanto fui cruel e orgulhoso.
- Ah! E sem falar na pobre Rosa e no tolo do Lucio – Alejandro ergueu a cabeça e fitou Soriano. – Não se arrepende do que lhe fez também!
- Foi por causa deles que me permiti decair – confessou Alejandro, a voz sofrida e entrecortada por soluços. – Porque o meu orgulho não me permitiu perdoar.
- Eles planejaram matar você. Então, você estava com a razão.
- Não deveria ter devolvido na mesma moeda. Vingar-me só me trouxe sofrimento.
- Sabe, Alejandro, assim como você, estou tentando compreender que a razão está com Deus, que nunca erra.
- Está arrependido também? – surpreendeu-se.
- Quase. Só não consegui ainda perdoar o que você me fez.
Nada mais se fez ouvir. Soriano desvaneceu nas brumas, deixando Alejandro entregue à total solidão. Daquele momento em diante, o calor aconteceu um pouco, e ele encontrou um poço de água lamacenta e malcheirosa, onde pôde finalmente saciar sua sede. Alejandro não poderia precisar quanto tempo havia que estava vivendo naquele inferno. Desde o encontro com Soriano, os índios haviam desaparecido, e o insulamento lhe trouxe a reflexão. Sozinho, só lhe restava seus pensamentos, e eles acabaram conduzindo-o para Deus. Pela primeira vez em sua vida, Alejandro ajoelhou-se e rezou.

CAPÍTULO 8

Era noite, e o silêncio se espalhava pela ilha adormecida, somente interrompido pelo marulho das ondas, que se despedaçavam na areia branca. A lua esbranquiçada dava seu toque especial ao mar, encobrindo as ondas como uma colcha de retalhos pálida e ondulante. Vento não havia, e apenas uma brisa morna e suave corria pela areia, sem levantar muitos grãos nem interferir nas ondas.
Tudo quieto. Contrastando com o transcorrer pacífico da noite, o coração de Damian se agitava em sobressaltos de agonia e remorso. Desde a morte de Alejandro, não conseguia se perdoar por haver abandonado o amigo em momento tão doloroso. Mas o médico fora claro ao alertá-lo sobre aquela doença maldita que deformava o rosto com suas bolhas purulentas. De que valeria morrer com Alejandro? Aquela não era uma forma aconselhável de prestar solidariedade.
Cerca de vinte anos haviam-se passado desde que Alejandro se fora. Damian nem sabia como ainda estava vivo, após ter fugido a nado da cidade índia com os bolsos carregados de ouro. Tivera que matar muitos selvagens, mas sobrevivera. Agora, Tenochtitlán estava destruída, e os índios, praticamente dizimados. Com isso, Damian perdeu o interesse pelas conquistas sangrentas e recusou ingresso em nova expedição, cuja finalidade seria liquidar de vez os povos do litoral11. Estava cansado de tanto sangue.
A mulher o havia deixado e sumido no mundo na companhia de um grumete recém-chegado de Portugal. Estranhamente, Damian nem sentiu raiva do fato. Chegou mesmo a experimentar certo alívio por ficar sozinho, pois assim não se veria obrigado a compartilhar com ninguém o seu remorso.
Damian contava agora cinquenta e sete anos, e o peso das atrocidades de toda uma vida desabou sobre sua consciência. Queria lavar a alma de tantas maldades, sentir-se leve como alguém que nunca desafiara a morte. Sem pensar no que fazia ou por que fazia, desatou o cinturão de onde pendia a espada e deixou-a cair na areia, praticamente sem ruído.
Como se o mar pudesse limpá-lo de tanta sujeira, atirou-se entre as ondas e foi nadando em direção ao horizonte, até que os músculos se cansassem e o obrigassem a parar. Ao se virar, uma enorme quantidade de água se estendia entre ele e a praia. Havia nadado uma distância que agora seria impossível refazer. A terra parecia pequenina e inacessível, e ele sentiu o medo da morte se avizinhar. Quando entrara na água, não pensava em se matar. Era como se o oceano tivesse a força e o poder de purificá-lo de seus pecados e conduzi-lo ao perdão de si mesmo. Não queria morrer. Tinha medo de se deparar com seus inimigos do outro lado e das cobranças que lhe fariam. Não. Precisava desesperadamente voltar à praia. Ergueu os braços para a primeira braçada de volta, mas desistiu logo em seguida. Inútil. A dor muscular era grande e a distância, imensa, quase invencível.
Chorou arrependido, nos lábios o gosto salgado das lágrimas e da água do mar. Os pés tentaram inutilmente alcançar alguma coisa sólida abaixo; não havia nada em que pudessem se apoiar. Cansado, seu rosto começou a afundar, para logo em seguida emergir das águas, na esperança vã de manter o nariz e a boca na superfície.
11 - Os maias.

A cada minuto, afastava-se mais e mais da costa e das chances de sobrevivência. Caíra numa correnteza que o levou lenta e mansamente para o mar aberto. Damian chorou. Queria voltar, mas não podia. A morte era inevitável, e ele precisava se curvar a ela para não sofrer ainda mais do que sofria. Entre lágrimas, finalmente parou de resistir e entregou-se ao destino.
Durante muitos anos, ficou perdido no astral inferior, vagando entre seres miseráveis feito ele. Quando finalmente recebeu auxílio para abandonar aquele mundo de treva, encontrou-se com os velhos companheiros de jornada. O primeiro que viu após o restabelecimento foi Alejandro. O amigo emagrecera, muito embora seu rosto não exibisse mais as marcas da doença.
- Alejandro - balbuciou Damian, vendo-se de frente para o amigo. - Onde estamos?
- Em uma cidade no mundo invisível.
Durante alguns minutos, Damian permaneceu em silêncio, até que Alejandro prosseguiu:
- Não se sinta culpado pelo que me aconteceu. Muito mais do que eu, você soube ser meu amigo. Era natural que tivesse medo de tão horrível doença.
O espanto dominou Damian, que retrucou constrangido:
- Você não tem raiva de mim?
- Agora não. Nos primeiros anos de minha estada nesse mundo, carreguei imensa mágoa pelo seu abandono. Mas depois percebi que o único responsável por tudo que me aconteceu fui eu mesmo.
- O que, exatamente, aconteceu a você?
Alejandro narrou a Damian tudo por que passara desde que desencarnara, e este fez o mesmo. Trocaram experiências e Alejandro continuou a contar:
- Lúcio e Rosa também se encontram aqui.
- E...?
- Ainda guardam muito rancor de mim, e de você também. Sobretudo Lúcio, que o considerou um intruso em nossas vidas.
- Eu, um intruso? Mas não fui eu que me intrometi no casamento do meu melhor amigo.
- Mesmo assim. Lúcio não consegue entender por que você ficou do meu lado e compactuou com os assassinatos. Acusa-o de cumplicidade.
- Sei que fui cúmplice, mas eu realmente era seu amigo. Posso ter cometido um crime, porém, o que me moveu foi a amizade, não a traição.
- Infelizmente, não é assim que ele vê. Tomou-se de ódio por você também. Quando alguém toca no seu nome, ele reage com rispidez e desdém, chamando-o de covarde e bajulador, insinuando que havia algum motivo obscuro na nossa amizade.
- Que motivo? - indignou-se Damian.
- Acho que ele pensa que você esperava ser favorecido com ouro.
- Você sabe que isso não é verdade, não sabe? Eu nunca quis nada seu.
- Sei disso. Mesmo porque eu nunca tive tanto dinheiro assim. E você não deveria se importar com as insinuações maldosas de Lúcio. Ele ainda não esqueceu o que lhe fizemos.
Damian ficou algum tempo pensativo, remoendo as palavras de Alejandro e imaginando até que ponto Lúcio o responsabilizava pela participação nos crimes. Depois de alguns instantes, como se quisesse desligar-se da imagem do outro, indagou subitamente:
- E Soriano? Também está aqui?
- Não.
- Ele não conseguiu perdoá-lo, então.
- Não. Mandaram-no avisar-me que eu havia morrido, e hoje sei que essa foi uma tentativa de dissolver o ódio. Ele cumpriu o que lhe determinaram, não de boa vontade, mas foi categórico em afirmar que obedecia a ordens, mas que não havia me perdoado.
- E agora? O que vai nos acontecer?
- Precisamos reencarnar, meu amigo. Só através da experiência no corpo físico conseguiremos dissolver tanto ódio e tanta mágoa.
- Entendo. Mas quanto tempo faz que estamos aqui?
- Estamos no ano de 1643.
- Mais de cem anos... - lamentou Damian. - Tanto tempo desperdiçado!
- Na verdade, nada se desperdiça na vida, e tudo por que passamos é repositório de experiências. É através delas que vamos lapidando nossa essência para, um dia, alcançarmos a unidade com o divino.
- Você está estranho, Alejandro. Tão mudado.
- Aprendi muito durante esse tempo em que estive aqui. Passei setenta anos no umbral, e faz pouco mais de cinquenta que estou nesta cidade iluminada. Foi o suficiente para rever meus valores e modificar minha consciência.
- Será que chegarei a isso também?
- Você sempre foi melhor do que eu.
- Até parece...
- É verdade. Você não se comprazia em matar nem estuprar. Fazia o que achava que era certo.
- E isso me valeu esses anos todos na treva. Fui escravizado por espíritos mesquinhos.
- Que lhe deram proteção. Não fosse por eles, você hoje estaria preso a algum maioral que o obrigaria aos trabalhos mais sórdidos e cruéis. Não foi melhor assim?
- Bom, olhando por esse ângulo...
- Não devemos nos culpar por nossas ações. Cada um faz o que sabe e dá o que tem. A ninguém pode ser cobrado mais do que possui.
- Você não se sente culpado por tudo que fez?
- E como! Tenho medo de fazer tudo de novo, caso retorne à Terra.
- Tem medo? Mas, então, como sugere que devemos reencarnar? Será que não é melhor ficar por aqui mesmo, já que é tão bom?
- Sei que é necessário. O que estou dizendo agora vem das minhas experiências na treva. Foi muito doloroso, horrível, aterrador. Aqui, tudo é perfeito. A vibração que existe no ar é de amor e compreensão. Por isso, é muito fácil sentir coisas boas. Mas me pergunto: será que eu realmente aprendi o valor da vida e do respeito ao meu semelhante? O que irá me manter firme em meu propósito de me modificar?
Damian o encarava abismado, voltando para si mesmo as perguntas que Alejandro se fazia.
- Não sei - murmurou ele. - Pergunto-me a mesma coisa.
- Precisamos experienciar situações difíceis. Só assim conseguiremos compreender, e essa compreensão será para sempre.
- Você diz que devemos sofrer? É isso?
- Disseram-me aqui que o sofrimento não é necessário. Que posso me reconciliar com a vida de uma maneira que não seja dolorosa. Eu' contudo, carrego muitas culpas. Como então me sentir merecedor de uma vida sem dores?
Damian silenciou e ficou encarando Alejandro, pensando na imensa quantidade de coisas que tinha para lhe dizer e que agora não importavam mais. Conseguiu abraçá-lo com carinho e tornou com sinceridade:
- Quero estar com você, Alejandro. Aonde você for, quero ir junto e ficar ao seu lado. Juntos, quem sabe não conseguiremos superar nossos erros e nos reconciliar com a vida? Podemos nos ajudar mutuamente.
Comovido, Alejandro apertou o ombro do amigo e declarou:
- Sua companhia será de grande ajuda. Mas quero que saiba que você não me deve nada. Sou grato por tudo o que fez por mim em vida.
- Não fiz nada por você. Salvei a sua vida num gesto impulsivo...
- Ainda assim, salvou.
- E contribuí para a sua ruína, servindo de cúmplice para o assassínio frio de duas pessoas. Terei de responder por isso.
- A sua consciência é quem vai lhe dizer por quais atitudes você deve responder. Só lhe peço que medite sobre a ignorância e a imaturidade, e se coloque disponível para o crescimento sem dor. Você pode fazer isso.
- Você não fez.
- Mas você pode.
Damian fitou-o em dúvida. Seus crimes eram muitos, e ele não estava bem certo se poderia livrar-se deles em uma única encarnação, ainda mais com a culpa que sentia. Tinha, contudo, que tentar. E era o que faria. Quitar-se-ia com os homens, com sua consciência e com a vida.
Falando sobre o passado...
Depois desses fatos tristes, segui o destino que a minha consciência traçou para mim. Não vou dizer que foi fácil. Senti na pele o sofrimento que infligi a outros, e foram muitos os momentos em que pensei desistir. Mas eu não podia. O crescimento de outras pessoas dependia em parte de mim, e eu precisava prosseguir. Se desistisse, o que seria daqueles que atrelaram seus destinos ao meu, na esperança de podermos, todos juntos, levar nossos espíritos adiante na senda da elevação espiritual?
As passagens que aqui deixo narradas não tiveram outro intuito além de mostrar todo o processo por que passei e que culminou na minha reforma. Falar do sofrimento não dói em mim, embora muitas pessoas não consigam ainda encarar com naturalidade e respeito as dores que foram criadas nesse mundo. E fomos nós que as criamos, com o nosso orgulho e a nossa falta de amor. Por que então precisamos fugir com pavor de nossa própria criação?
Não falo do sofrimento como algo bom, mas necessário, na medida em que ainda não conseguimos acreditar no poder transformador do amor. Não digo que é preciso sofrer para alcançar algum tipo de elevação espiritual, mas também não podemos negar que é através do sofrimento que o homem vem conquistando novos valores. Poderia e pode ser diferente. Ninguém precisa sofrer para ser feliz. Há muitos caminhos que conduzem ao estado de bem-aventurança, e só aqueles que conseguem compreender e respeitar a verdadeira dor é que podem se livrar dela.
É preciso viver para conhecer, experienciar para discernir, sentir para se libertar. Provar para poder dizer: eu não quero e não preciso mais disso. Apenas entendemos que não precisamos da dor depois de termos passado por ela.
Só deixa de sofrer quem já vivenciou o sofrimento e alcançou o estado de compreensão de que ele não é o único caminho para o crescimento moral do Ser.

PARTE 2

CAPÍTULO 9

Padre Gastão havia acabado de encerrar a missa quando ouviu, do lado de fora da pequena igreja de madeira, um alarido estrondoso e infernal. Uma gritaria foi ecoando pela vila, e o ruído de patas de cavalos pisando firme na pedraria do chão provocou gritos de espanto e medo, e o som do pranto das crianças invadiu os ouvidos do pároco.
- Mas que diabos está havendo por aqui? - blasfemou o padre, persignando-se em seguida.
Nem precisou chegar à porta para saber do ocorrido. Aracéli entrou esbaforida e assustada, os olhos esbugalhados de espanto.
- Padre Gastão! - exclamou ela. - Esses homens a cavalo... Estão por toda parte, assustando as crianças!
Tenha calma, Aracéli. Vou procurar ver o que está acontecendo.
Depois que o padre saiu, Aracéli sentou-se num dos bancos da igreja e ficou escutando o alarido. Aos poucos, suas pálpebras foram pesando e, à medida que o ruído lá fora diminuía, seus olhos iam se fechando lentamente, e ela acabou adormecendo. Poucos instantes depois, foi despertada pela mão do padre, que apertava seu ombro com doçura. Ela abriu os olhos lentamente e fixou-os em Gastão, que lhe sorria com bondade.
- Tenha calma. Já está tudo resolvido.
- O que foi aquilo? - indagou ela, esfregando os olhos e levantando-se devagar.
- Aventureiros, como sempre, em busca de ouro e fortuna. Um tal senhor Licínio... Acorrem a Vila Rica na ilusão do Eldorado. Onde já se viu?
Aracéli não disse nada. Pouco entendia daqueles assuntos e não lhe interessavam as loucuras do homem branco em busca do metal dourado.
Quando Aracéli nasceu, o pai, português, havia morrido numa disputa por uma jazida de ouro, assassinado por um paulista enfurecido. O choque antecipou o parto de sua esposa índia, e Aracéli veio ao mundo minutos antes do falecimento da mãe. Órfã, a pequena índia permaneceu aos cuidados de padre Gastão, que, compadecido da sorte da menina, criou-a nos arredores da paróquia, dando-lhe educação apropriada, além da religiosa.
Aracéli tornou-se uma moça muito bonita, culta e generosa, embora um pouco rebelde. Tinha as feições do pai e a cor da mãe, o que lhe emprestava um ar ao mesmo tempo exótico e gracioso. Cuidava da casa de padre Gastão e o amava como o único pai que conhecera em toda a sua vida.
Ao entrar na cidade, Licínio veio cheio de esperanças e com a certeza de que terminaria de concretizar o seu sonho de se tornar um fidalgo e receber um título de barão da Coroa. Não que ainda não possuísse dinheiro. Fizera sua fortuna traficando escravos para os senhores de engenho, mas agora estava cansado de lidar com os negros e suas constantes revoltas. Por isso, ao juntar uma boa quantia, partiu em busca de novas chances. Ouviu falar do Arraial do Padre Faria12 e em suas possibilidades mineradoras. Quando soube de sua recente transformação em sede do Conselho, não hesitou. Partiu para a recém-inaugurada Vila Rica na certeza de que se consolidaria na mineração. Vencida a concorrência com vários outros pretendentes, ganhou o direito de explorar uma considerável área de garimpo, que iria torná-lo muito mais rico do que já era.
Casado com Esmeraldina, tinha um filho de cinco anos, de nome Teodoro, a quem idolatrava. Os dois permaneciam ainda na capital, à espera de que ele arranjasse uma casa grande e confortável e começasse a mandar seus escravos para a garimpagem.
Licínio passou a primeira noite em uma hospedagem local e, no dia seguinte, saiu em busca de uma casa que lhe servisse. Depois de muito perambular, encontrou o que procurava. Era um pequeno sítio, nos arredores da cidade, onde o filho poderia crescer em meio a árvores frutíferas e correr em liberdade pelos campos. Além disso, a distância do centro manteria a esposa longe dos olhares cobiçosos de garimpeiros e mineradores.
Finalizada a compra, faltava-lhe apenas arranjar uma mucama para servir de ama-seca ao filho. Uma escrava novinha, com disposição para brinquedos infantis, lhe serviria bem. Ele não sabia onde procurar nem a quem recorrer, mas talvez o padre pudesse ajudá-lo. Lembrava-se bem do padre. Era um homem magro e baixinho, que ficara enfurecido porque ele entrara com seus cavalos pisoteando fortemente o chão. Licínio achara graça e não revidara. Era-lhe interessante travar amizade com as autoridades e os clérigos, porque era com eles que poderia obter ajuda e favores.
A porta da igreja estava aberta, contudo, não havia ninguém por ali. Andando de um lado a outro, foi informado de que o padre se encontrava atrás, na casa paroquial. Dirigiu-se para lá e bateu à porta, e foi o próprio padre quem atendeu.

12 - Arraial do Padre Faria - um dos arraiais que deram origem à Vila Rica, atual Ouro Preto (MG), fundada em 1711.

- Ah! Senhor Licínio - surpreendeu-se ele. - O que o traz aqui?
- Preciso de um favor - retrucou Licínio, passando para o lado de dentro.
- Já encontrou casa?
- Já, sim. Um sítio encantador, não muito longe do centro da cidade.
- Conheço o lugar, bem como a viúva que o vendeu. O marido morreu no garimpo...
- Lamentável...
- São coisas da vida. Bem, mas deixemos isso de lado e diga-me: o que o trouxe aqui?
- Bom, agora que encontrei um lugar para fixar minha residência, preciso de uma ama-seca para o meu filho, um menino de apenas cinco anos, um primor de criança. Por acaso o senhor não conhece aí uma negrinha jovem que esteja à venda?
Padre Gastão fitou-o com ar de desgosto e repulsa, mas não emitiu nenhum comentário. Deu um muxoxo e respondeu com secura:
- Não.
Licínio notou a contrariedade do padre e logo deduziu que ele era daqueles que condenavam a escravatura. Como não era sua intenção criar polêmicas nem estabelecer divergências ou debates filosóficos nem religiosos, mudou o tom de voz e rebateu com simpatia:
- Mas nem uma mocinha que esteja à procura de trabalho? - ele meneou a cabeça. - Olhe que pago bem.
- Não conheço ninguém - continuou o padre, agora com um tom glacial que fez gelar os ouvidos de Licínio.
- Mas nem uma...
A frase parou no ar, e Licínio estacou, de boca aberta, olhando para a figura que acabara de passar pela porta.
- Está fazendo um calor danado, padre Gastão! E está faltando de tudo lá na venda do seu Ferreira - disse Aracéli.
A jovem percebeu a presença de Licínio e deu-lhe um sorriso formal, passando para a cozinha abraçada ao saco de compras. Ele acompanhou os seus passos, sentindo a boca salivar, estupefato com a beleza da moça.
- Quem é a menina? - indagou ele, analisando os seus movimentos na cozinha contígua.
- É Aracéli.
- Ela trabalha para o senhor?
- Ela foi criada por mim. É como se fosse minha filha.
- Entendo. E será que o senhor, como bom cristão, alma generosa que é, não poderia me ceder a moça para cuidar do meu Teodoro? Seria só até eu encontrar alguém.
- Aracéli não está interessada.
- Como é que o senhor sabe? Ainda nem perguntamos a ela.
Padre Gastão tinha vontade de mandar aquele homem embora dali, mas a educação e o dever não permitiam. Nisso, Aracéli voltou segurando uma bandeja com dois copos e uma jarra. Pousou-a na mesa e serviu o refresco.
- Fiz uma limonada para os senhores - anunciou, entregando um dos copos a Licínio e o outro ao padre. - Está muito quente, e achei que gostariam de se refrescar.
- Obrigado, minha filha - falou Gastão, louco de vontade de mandá-la para o quarto.
- De nada.
Antes que ela pudesse virar-se para ir embora, Licínio retornou de seu estupor e chamou-a de volta:
- Por favor, Aracéli, fique mais um pouco. Gostaria de falar com você.
Espantada, a moça se virou para ele e olhou discretamente para padre Gastão, que fez um gesto para que ela se sentasse.
- Este é o senhor Licínio, Aracéli. Acabou de chegar à cidade.
- Senhor Licínio? Não é o homem que entrou no outro dia assustando a todos com os cascos dos cavalos?
Licínio soltou uma gargalhada e retrucou com prazer:
- Eu mesmo, mocinha. Mas já me desculpei com o bom padre pelos transtornos que causei.
- O senhor Licínio está à procura de uma ama-seca, mas já lhe disse que não conheço ninguém.
- Pensei se você não gostaria de trabalhar para mim - sugeriu Licínio, fitando-a com crescente admiração.
- Eu?! - surpreendeu-se Aracéli. - Mas, senhor, nunca trabalhei fora daqui. Só sei servir ao padre Gastão.
- Será que o padre quer você só para ele?
- Não é nada disso - interrompeu Gastão. - É que Aracéli não está acostumada.
- Ora, mas é só para cuidar de uma criança de cinco anos. Um menino lindo e inteligente. E você pode ganhar muitas coisas bonitas da patroa. Dona Esmeraldina é generosa e aprecia a companhia de jovens feito você. Não seria uma ótima oportunidade para experimentar coisas novas?
- Aracéli é só uma criança inexperiente e ingênua de dezesseis anos - arrematou o padre.
- Não sou, não! - contestou ela, com veemência. - Já sou uma moça, padre Gastão. E trabalhar fora talvez seja bom para mim. Nunca vou a lugar algum além da venda do seu Ferreira.
- Viu só? - exultou Licínio. - Ela quer.
- E o senhor vai me pagar?
Licínio balançou a cabeça e olhou de soslaio para o padre, que parecia enfurecido, embora se esforçasse para não demonstrar.
- Isso não é comum - objetou o padre. - O normal é que esse trabalho seja feito por uma negra, e o senhor pode perfeitamente adquirir uma, do jeito que está procurando, no mercado de escravos.
O olhar de espanto de Aracéli foi genuíno. Ela nunca ouvira Gastão dizer aquelas coisas. Pois se ele era radicalmente contra a escravidão, como é que agora aconselhava o senhor Licínio a comprar uma escrava?
- Padre Gastão! - exclamou Aracéli. - Como pode sugerir uma barbaridade dessas? Não é o senhor que vive dizendo que a liberdade não tem preço e que ninguém deveria comercializar seus semelhantes? O senhor mesmo diz que isso é uma vergonha!
Ele queria desesperadamente dizer-lhe que estava falando aquele absurdo tão grande só para protegê-la, mas ela não entenderia. Criara Aracéli envolta em uma campânula de proteção, afastando-a de tudo que pudesse fazer-lhe mal, principalmente homens feito Licínio. Ela se havia transformado numa moça realmente bonita e sedutora, embora não se desse conta disso.
- É para o seu bem - disse ele simplesmente.
Aracéli não discutiu. Conhecia muito bem o padre para duvidar do que ele dizia. Embora não compreendesse por que ele falava coisas tão estranhas e contraditórias, não o questionou.
- Bem, senhor Licínio, se padre Gastão não quer, então não posso ir.
- É melhor então que eu compre uma escrava? - retrucou ele com raiva.
- O senhor é quem sabe - falou ela.
Licínio retirou-se furioso. Aquilo não terminaria assim. Ver Aracéli fora como ser atingido por um furacão, e precisava acalmar a turbulência que se instalara dentro dele. Ela era uma jovem fresquinha e tenra, bem do jeito que ele gostava. E virgem. Só de pensar na virgindade de Aracéli, sentiu-se invadido por uma onda incontrolável de desejo.
- Preciso tê-la - disse para si mesmo. - Custe o que custar.
Não havia nada que o dinheiro não pudesse comprar, e ele estava disposto a pagar o mais alto preço pela inocência de Aracéli.

CAPÍTULO 10

Esmeraldina e o pequeno Teodoro somente foram chamados a Vila Rica quando a casa já estava pronta para recebê-los. Licínio espalhou escravos por toda a propriedade, mandou cuidar do pomar e do jardim, e decorar os quartos ao gosto de cada um. Queria que, quando a mulher e o filho chegassem, pensassem que entravam numa casa de sonhos.
- Finalmente! - exclamou Licínio, beijando Esmeraldina na e erguendo Teodoro no colo.
O menino envolveu o pescoço do pai e estalou-lhe um beijo no rosto:
- Saudades do papai...
- Meu menino, minha vida! -e, virando-se para Esmeraldina, prosseguiu: - Como foi a viagem?
A mulher fez cara de repulsa e respondeu com desdém:
- Horrível, como sempre. Só você para nos tirar de Salvador nos trazer para este fim de mundo.
- Não é um fim de mundo - objetou Licínio, com indignação. - É aqui que está a fortuna, a riqueza, o ouro!
- Ouro? - repetiu Teodoro, impressionado porque sabia que ouro era algo bonito e brilhante, mas cujo valor real desconhecia.
- Muito ouro, meu filho. E quando sua mãe estiver com o pescoço e as orelhas pesados de tanto ouro, quero ver se vai continuar com essa cara de desprezo.
- Isso são modos de falar comigo, Licínio? E na frente da criança?
Esmeraldina retirou o menino dos braços do marido e entregou-o à escrava idosa que a acompanhava.
- Leve-o para brincar lá fora - ordenou. - Está um lindo dia de sol.
Depois que eles saíram, Esmeraldina pôs-se a inspecionar cada canto da casa, inclusive algumas peças em ouro e prata que Licínio havia comprado. Ele não dizia nada, apenas acompanhava os seus gestos e observava o ar de surpresa que ela fazia ao constatar a riqueza de seu novo lar.
- Não posso negar que você se esmerou - reconheceu ela, fascinada e satisfeita com o luxo que a cercava. - Talvez você tenha razão... acho que vou gostar daqui.
- Fiz tudo isso por você e por Teodoro. Quero que se sintam vivendo num palácio.
- Você já começou a trabalhar?
- Sim. Logo que cheguei, mandei os escravos para o garimpo. Não se preocupe, Dina, vamos ficar muito mais ricos do que já somos.
Os olhos da mulher brilharam, e ela seguiu alisando os móveis, até que parou e fixou o olhar penetrante no marido.
- E a aia? - indagou. - Já encontrou alguém?
- Estou procurando.
- Você sabe que não gosto que Teodoro fique em companhia daquelas velhas. Ele precisa de uma mocinha que brinque com ele. E aquelas escravas que você deixou para mim não prestam para nada.
- Não tenho culpa se a última morreu.
- Nem eu. Como é que eu iria saber que aquela ferida na perna iria infeccionar e ela iria morrer?
- Bom, deixe isso para lá. São coisas que acontecem. Temos é que agradecer porque quem rasgou a perna naquele prego foi a estúpida da negra, e não o nosso Teodoro.
- É, mas agora preciso de outra escrava.
- Eu estou de olho em uma menina que vi na casa de um padre. É uma garota índia, de seus dezesseis anos, ótima para brincar com Teodoro.
- Índia? Não sei não, Licínio, nunca tivemos escravas índias.
- Essa não é escrava. Foi criada pelo padre, e é por isso que é a pessoa ideal para o nosso filho. Tem boa educação, é limpinha e de boa aparência. Muito melhor do que essas negras que a gente precisa toda hora mandar se lavar.
- Índios são selvagens. Quem me garante que essa menina não é alguma espécie de canibal?
- Que canibal, que nada! Aracéli foi civilizada pelo padre.
- Esse é o nome dela? Aracéli? - ele assentiu. - E os pais dela, onde estão?
- Acho que morreram. E ela não tem jeito de ser totalmente índia. Possui feições finas e delicadas, como as de um europeu, embora sua pele seja bem da cor do jambo.
Esmeraldina não percebeu a excessiva empolgação com que Licínio descrevia Aracéli, preocupada que estava com a possibilidade de colocar uma selvagem dentro de casa.
- Tem certeza de que ela serve para Teodoro?
- Absoluta! Você tem que ver a menina. É esperta, inteligente, lin... - ele ia dizer linda, mas corrigiu a tempo: - limpinha, como já disse. E você mesma diz que não gosta das negras.
- E não gosto mesmo. São feias e sujas, com aquela carapinha espetando o rostinho inocente de Teodoro.
- Pois então? Aracéli não é assim. Tem os cabelos negros mais lisos e lustrosos que já vi.
- Bom, isso é uma vantagem, realmente. É... pensando bem, você tem razão. Creio que ela deve servir.
- Só tem um problema.
- Que problema?
- O padre não quer deixá-la vir trabalhar conosco. Por que não?
- Ora, porque não! Porque ela serve a ele, por isso. Ele não quer perder a criada.
- E se lhe oferecêssemos dinheiro?
- Esqueça. Esse padre não é do tipo que se deixa comprar. Parece gostar de causas nobres e ser muito correto.
Esmeraldina pensou por alguns minutos. Não podia deixar que um simples padre se opusesse à sua vontade e saísse vencedor.
-Acho melhor irmos falar pessoalmente com ele. Levaremos Teodoro. Não há quem não se encante com ele e, vendo-o, talvez o padre mude de ideia.
Foi no domingo seguinte que padre Gastão e Aracéli conheceram Esmeraldina e Teodoro. Logo após a missa matinal, Licínio os apresentou. Aracéli logo se encantou com o menino, e ele com ela. A simpatia foi recíproca. Esmeraldina não era uma mulher afetiva nem carinhosa, e a criança se ressentia disso. Assim, quando Aracéli o pegou nos braços e começou a fazer brincadeiras com ele, Teodoro imediatamente sentiu a sua afeição.
- Teodoro gostou de Aracéli - observou Licínio, enquanto padre Gastão cumprimentava Esmeraldina.
- Pois é, padre, como o senhor deve saber, Teodoro e eu chegamos ainda essa semana de Salvador - tagarelava Esmeraldina. - E uma moça como Aracéli, para cuidar de nosso Teodoro, seria o ideal. É claro que podemos comprar uma escrava, mas acho que não seria aconselhável, tendo uma menina tão fina e educada bem aqui perto de nós. E livre. Não acha que seria um bom exemplo para o nosso filho ter uma criada que não fosse escrava?
- Perdão - falou o padre. - A senhora é contra a escravidão?
Espertamente, Esmeraldina havia dito aquilo. É claro que ela não era contra a escravidão. Afinal, onde encontrariam mão de obra barata sem o concurso dos negros? Todavia, pelo que Licínio lhe contara do padre, era óbvio que ele era contrário à escravatura, e fingir-se solidária a sua causa a faria simpática aos olhos dele.
- Acho que os negros são gente, como todo mundo, e deveria haver uma lei que proibisse a captura deles.
Ela nem olhou para Licínio, que abriu a boca, estupefato, pois nunca ouvira a mulher falar daquele jeito. Segundos depois, ele sorriu intimamente, já percebendo o jogo da esposa para conquistar a confiança do padre.
- Mas a senhora tem escravos, não tem?
- Infelizmente, padre Gastão - retrucou ela baixinho -, quem manda é o marido. Mas, por mim, nós não teríamos nenhum. Foi por isso que, quando Licínio falou em Aracéli, logo pensei que seria um bom começo.
- É verdade.
- E, depois, Teodoro adorou Aracéli. Olhe só como os dois se deram bem.
Aracéli e Teodoro corriam pelo pátio da igreja, brincando de esconder, e ele dava gargalhadas cada vez que ela o segurava pela cintura e o rodopiava no ar.
- São duas crianças - comentou Licínio, sentindo, outra vez, a boca salivar ao ver os seios de Aracéli subindo e descendo por baixo do vestido simples, mas desviou os olhos rapidamente, para que o padre nada notasse.
Realmente, a cena comoveu padre Gastão. Fazia muito tempo que Aracéli não tinha contato com ninguém além dele. Os pais das outras crianças não permitiam que seus filhos brincassem com um filhote de índio, como diziam pejorativamente, e ela passou a infância sozinha.
Contudo, havia Licínio. Gastão temia que houvesse intenções ocultas no interesse dele por Aracéli. Ou seriam o apego e a preocupação excessiva que o faziam imaginar uma maldade que realmente não existia? O que ele notava agora na relação entre Licínio e a família era muito carinho e atenção, e talvez Aracéli representasse para ele apenas isso: uma criada jovem para cuidar de seu filho pequeno.
- Por favor, padre Gastão, permita que ela vá - implorou Esmeraldina, que se irritava quando contrariada. - Nosso filho é pequenino, precisa de alguém com a educação de Aracéli para lhe servir de exemplo. Não pode nos ajudar?
- Bem... - hesitou o padre. - Parece mesmo que eles se deram bem.
- Quer dizer, então, que ela pode ir?
- Não sei. Vamos perguntar a ela.
Na mesma hora, Aracéli concordou. Se antes já queria ir, que diria agora, que conhecera Teodoro e se apaixonara por ele? Não poderia perder a oportunidade de cuidar de uma criança tão doce e meiga.
Ficou acertado que Aracéli dormiria com o menino, mas viria para casa aos domingos. No dia seguinte, lá estava ela, pronta para seu primeiro dia de trabalho. Ficou impressionada com a riqueza e o luxo do casarão de Licínio e adorou o jardim e o pomar, onde havia muitas árvores para subir e muitas frutas para colher.
No quarto de Teodoro, vários livros de história trazidos de Portugal enfeitavam as prateleiras, e brinquedos coloridos que Aracéli jamais havia visto se espalhavam pelo chão. Ela estava encantada com aquele mundo de brilho que sequer imaginava existir.
E Teodoro, então, era uma criança adorável. O menino também gostara muito de Aracéli, que se transformara numa espécie de irmã mais velha com quem ele podia brincar. Tudo parecia perfeito para os dois. Aracéli só não sabia que, nos momentos de brincadeira, os olhares de Licínio eram muito mais para ela do que para o filho.

CAPÍTULO 11

- Onde estão seus pais, Aracéli?
A vozinha miúda de Teodoro chegou aos ouvidos de Aracéli, que abriu os olhos e tentou focá-los no menino. O sol estava muito forte, e os dois haviam-se deitado embaixo de uma árvore para fugir do calor.
- Eles morreram.
- Que pena. Não queria que meus pais morressem.
- Eles não vão morrer.
- Você é índia?
- Sou meio índia. Minha mãe era índia, mas meu pai era português.
- O que é português?
- É quem nasce em Portugal.
- Você sabe falar a língua dos índios?
- Um pouco. O meu nome, por exemplo, significa altar do céu. Não é bonito?
- É lindo. E o meu, o que quer dizer?
- Não sei. Você não tem nome de índio.
- A sua mãe morava numa tribo?
- Morava. Padre Gastão me contou que ela foi capturada pelos bandeirantes, e meu pai a comprou, porque gostou dela.
- Não entendi. O que são bandeirantes?
Aracéli passou a mão sobre os cabelos de Teodoro e perguntou sorrindo:
- Não quer nadar?
- Quero!
Os dois estavam sozinhos perto de um riacho ao qual sempre iam e onde costumavam tirar as roupas para nadar. O que diria Esmeraldina se soubesse daquela loucura? Na certa mandaria a menina embora, horrorizada com a sua falta de pudor e o seu descaramento. Para Aracéli, não havia mal algum naquilo, talvez porque o seu sangue índio não guardasse registros de censura, e ela se deliciava sentindo a água bater em seu corpo nu.
Embora Teodoro nunca houvesse tomado um banho de rio na sua vida, adorou a experiência ao lado de Aracéli. Os dois tiravam toda a roupa e se atiravam no riacho, espargindo água por todo lado. Depois, deitavam-se ao sol para se secar, vestiam-se e voltavam para casa.
O sol já ia se pondo quando Aracéli decidiu que era hora de voltar. Não queria que Teodoro se atrasasse para o jantar, ou dona Esmeraldina reclamaria. Aproximava-se de casa quando Licínio a avistou, e ela nem percebeu que ele, da janela, acompanhava todos os seus passos, passando a língua nos lábios, consumido pelo desejo. Quando ela se aproximou ainda mais, ele saiu para a varanda.
- Aracéli - chamou, assim que ela cruzou o seu caminho.
- Pois não, senhor.
- Onde vocês estavam? Seus cabelos estão molhados.
Ele segurou a ponta dos cabelos ainda úmidos de Aracéli, esfregando-os entre os dedos como se experimentasse uma peça da mais fina seda.
- Estávamos nadando - respondeu ela, com naturalidade.
- Nadando? Onde?
- No riacho lá embaixo.
Ele ficou observando-a, pensativo, até que tornou:
- Mas suas roupas estão secas.
- Isso é porque a gente nada pelado - falou Teodoro, de forma inocente.
O sentimento de Licínio deveria ser de horror, no entanto, seu coração deu um salto, e o desejo ardeu numa espécie de febre maldita, resultado da imagem que sua imaginação construiu das gotas douradas escorrendo pelo corpo úmido e fresco de Aracéli.
- Pelados? - foi só o que conseguiu balbuciar.
- O senhor vê algum problema nisso? - redarguiu ela, notando o ar de espanto dele.
- Você costuma fazer isso sempre?
Impulsionado pela paixão ardente, Licínio agora falava e agia com mais desenvoltura, imaginando a facilidade que aquilo poderia representar para a realização de seu intento.
- Padre Gastão às vezes ralha comigo, mas nunca me proibiu.
- Nunca a proibiu?
- Ele diz que é o meu lado índio que gosta de liberdade.
- Entendo... Bem, Aracéli, não sou eu que vou censurar a sua liberdade índia. E acho que é bom para Teodoro experimentar um pouco dessa liberdade também. Contudo, advirto-a para que não deixe Esmeraldina saber. Ela não compreenderia e poderia proibi-los de voltar ao riacho. Ou, pior, poderia mesmo mandá-la embora.
- Não quero que Aracéli vá embora - protestou Teodoro com veemência.
- Então não conte nada a sua mãe.
- Não vou contar.
- Desculpe-me, senhor Licínio, mas padre Gastão me ensinou a não mentir, e não me agrada esconder a verdade de sua esposa. Se ela não aprova o que faço, não farei mais.
- De jeito nenhum! Por que vai roubar do menino esses momentos de inocente prazer?
- Porque o senhor disse que sua esposa não gosta.
- Ela não compreende. Foi criada por padrões rígidos de moral e desconhece a liberdade dos índios - ele frisou bem a palavra liberdade, mas Aracéli não conseguiu captar-lhe o sentido. - E você não precisa mentir. Basta lhe ocultar.
- Não sei. Padre Gastão não gostaria.
- Padre Gastão não está aqui e não manda na minha casa. E eu, como seu patrão, quero que você ensine meu filho a nadar. Não é nada de mais. Existe apenas uma pequena divergência entre mim e minha mulher no modo como criamos Teodoro. E eu sou o homem da casa, sou eu quem decide.
Ela o fitou em dúvida, no fundo ciente de que o que Licínio pedia não era o mais correto. Contudo, não queria contrariá-lo e não pretendia desagradar Esmeraldina porque, àquela altura, não poderia mais prescindir da companhia de Teodoro.
- Não vamos dizer nada à mamãe, não é, Aracéli? - suplicou o menino. - Por favor, diga que não vamos.
- Não, não vamos - concordou ela, embora não muito satisfeita.
- E também não vão parar de nadar no rio, não é? - questionou Licínio.
- Não vamos, não. Vamos, Aracéli? - insistiu Teodoro. - Também não.
- Viu, papai? Não precisa se preocupar com mamãe.
- Não, não preciso - concordou ele, olhando bem dentro dos olhos negros da moça e imaginando até que ponto ela seria inocente e não perceberia o que ele realmente desejava dela.
Naquele momento, algo despontou em Aracéli. Não era apenas a dúvida, mas uma desconfiança das palavras de Licínio. Ela não sabia ainda identificar o desejo que ele sentia por ela e nem imaginava o que ele poderia estar tramando. Sua intuição apenas lhe dizia que algo não estava certo na conduta do patrão. Todavia, pensar em afastar-se de Teodoro era muito doloroso. Aracéli não lembrava de ter sido tão feliz em toda a sua vida. Adorava aquele menino e não pretendia separar-se dele.
Por isso, silenciou e, naquele domingo, quando voltou para casa e padre Gastão lhe perguntou se tudo estava bem, ela disse que sim. Não queria mentir, mas o fato era que não saberia o que lhe dizer. Licínio não lhe fizera nada, nem sequer uma ameaça, e ela desconhecia o quão devastador o desejo de um homem apaixonado poderia ser.
- Dona Esmeraldina pediu-me para ir inaugurar a pequena capela que mandou construir atrás de sua casa - disse Gastão, atribuindo ao cansaço o mutismo de Aracéli. - Você sabia que ela estava construindo uma capela?
- Sabia.
- Por sua causa, acho que acabaram se apegando a mim. Minha paróquia não é a mais próxima da casa deles, nem a mais rica.
- Talvez eles gostem do senhor.
- Deve ser isso - ele se sentou ao lado dela para jantar e prosseguiu: - E como estão indo as coisas por lá?
- Muito bem. Teodoro é um menino adorável.
- Você gostou mesmo dele, não foi?
- Muito.
Embora Aracéli nada dissesse sobre o banho de rio, Gastão, em sintonia com os seus pensamentos, captou-lhes o sentido e, sem saber, foi orientando:
- Você deve tomar cuidado com o fato de ser índia. Muitas coisas que você faz aqui não são permitidas em uma casa como a do senhor Licínio.
- Como assim? - tornou ela, espantada.
- Você sabe que nunca lhe proibi os costumes de seu povo. Você tem certas liberdades que ninguém jamais permitiria aos filhos. Eu compreendo isso, porque, inclusive, acho injusto o que fizeram a sua gente. Você deveria estar lá, junto a sua tribo.
- A minha tribo não existe mais.
- Infelizmente. O seu pai foi um homem muito bom para a sua mãe e a amou de verdade. Viveu com ela muitos anos antes de você nascer e ensinou-lhe a nossa língua. E ela queria que você fosse criada como os de seu povo. Depois que ela morreu, não pude devolver você aos seus. Tive medo de que eles não a aceitassem por causa do seu sangue branco. Desculpa... A verdade mesmo é que não pude mais ficar sem você. Quem é que segura uma criança nos braços e depois consegue se separar dela?
- Por que está me contando essas coisas?
- Não sei - respondeu ele, com sinceridade. - De repente, senti um aperto no coração, um medo infinito de perder você.
- Não diga isso, padre Gastão. Eu só vou lá para trabalhar. Minha casa é aqui.
- Não é isso que me preocupa. Se você quiser se mudar para lá para ser feliz, eu não me oponho. Não sei... sinto um perigo no ar que não consigo definir. Ou talvez saiba, mas não queira acreditar.
- Assim o senhor me assusta.
- Não quero assustá-la, contudo, talvez seja melhor que você volte para casa. Dona Esmeraldina pode arranjar outra pessoa.
- Não posso fazer isso.
- É para o seu bem, criança. Você já se divertiu bastante por lá.
- Não se trata de divertimento. A verdade é que me afeiçoei ao menino.
- Compreendo, mas ele tem mãe. E você pode arrumar um trabalho junto aos órfãos se gosta de cuidar de crianças.
- O senhor não está entendendo, padre. Eu também segurei nos braços uma criança. E agora é difícil, para mim, separar-me dela.
- Está falando sério? Você gosta tanto assim desse menino?
- Gosto. E sinto que ele não só gosta, mas precisa de mim. Não posso deixá-lo agora.
Padre Gastão suspirou profundamente e afagou a cabeça de Aracéli, sentindo uma ternura sem igual por aquela menina a quem amava como filha. Sabia, contudo, o que era afeiçoar-se a uma criança e compreendia por que ela não podia afastar-se de Teodoro.
- Muito bem, então - aquiesceu. - Mas tome cuidado, por favor. Não faça nada que não seja comum entre os brancos. Pelo amor de Deus, Aracéli!
- Não se preocupe, padre. Sei me comportar direitinho ela se levantou e deu-lhe um abraço apertado, sussurrando em seu ouvido: - Amo-o muito, meu pai.
Emocionado, Gastão segurou as lágrimas nos olhos. Não queria chorar na frente dela para não demonstrar excessiva preocupação. Agora, só lhe restava orar para que tudo não passasse de um engano seu, e Aracéli não estivesse exposta a nenhum perigo.

CAPÍTULO 12

Assim que Esmeraldina entrou no quarto, foi surpreendida pela impetuosidade de Licínio, que a tomou nos braços e beijou-a longamente, vendo em seu rosto as feições morenas de Aracéli. Durante os primeiros segundos, ela se deixou beijar e depois afastou-se dele com um empurrão sutil, apertando a gola do robe para que ele não vislumbrasse o seu corpo.
- O que deu em você? - indagou. - Não pode esperar?
- Esperar pelo quê? - rebateu ele, mal conseguindo conter a febre que o dominava.
- Teodoro acabou de dormir e está sozinho. Tenho que prestar atenção a qualquer ruído em seu quarto.
- Por que não coloca uma escrava com ele, só por esta noite?
- Agora que ele se acostumou com Aracéli, não quer ninguém mais dormindo com ele. Isso é um problema.
- Como assim?
- Esse menino está muito apegado àquela índia. Quase em se importa mais comigo.
- Ele se importa tanto quanto você se importa com ele.
- Mas que infâmia! - zangou-se ela. - Tenho meus compromissos, mas você não pode negar que sou boa mãe.
- Você vive cercada de mercadores e mascates. Não se cansa de comprar coisas que nem usa?
- Ora essa, não foi você quem disse que nos tornaríamos cada vez mais ricos? Então, o que faço é apenas gastar para ostentar a nossa fortuna.
- Então não reclame que o menino não se importa com você.
Antes que Esmeraldina respondesse, ele a puxou novamente, mas ela se esquivou. Ainda não tinha dado por encerrada a discussão.
- Você não acha que Teodoro está muito apegado a Aracéli?
- De novo com isso? Por favor, Dina, deixe Aracéli para lá. Venha, preciso de você.
Sem dar importância aos apelos do marido, Esmeraldina continuava a falar:
- Ele realmente está muito apegado a Aracéli. Quando fui colocá-lo para dormir, estava chorando, dizendo que sentia saudades dela.
- Ele é só uma criança, e ela satisfaz todas as suas vontades.
- Eles passam tempo demais juntos. Talvez seja melhor mudarmos um pouco as coisas.
- Mudarmos como?
- A Marocas tem uma criada francesa. Você precisa ver só. Um luxo! Imagine o nosso filho aprendendo a falar francês e desfilando pela cidade no colo de uma lourinha com sotaque! Muito mais fino do que a cor de jambo e os vestidos sem graça de Aracéli. E até o nome da moça é mais gracioso: Marie. Elegante, não acha?
- Você não está pensando em mandar Aracéli embora, está?
- Quem sabe? Marocas me disse que pode tentar achar uma outra francesa se eu quiser. Acho que seria muito mais apropriado do que aquela caboclinha.
- Você está inventando coisas. Pois não tínhamos concordado que a índia daria uma boa ama-seca?
- Isso foi antes de eu conhecer a francesinha.
- Nada disso! Nem pense em trocar Aracéli por uma francesa. Você não está pensando no bem-estar de nosso filho. Teodoro morre se ficar sem Aracéli.
- Ele é só um menino. Com o tempo, esquece.
- Não, Dina, de jeito nenhum. E como é que fica a minha cara diante do padre, depois de tudo o que fiz para trazer Aracéli para cá?
- Desde quando você se importa com o padre?
- Você não mandou construir a capela? E não o chamou para abençoá-la? Pois então! Se o dispensarmos agora, ficaremos mal perante a sociedade.
- Quem foi que falou em dispensá-lo? Inaugurar a capela não tem nada a ver com Aracéli. E, se quer mesmo saber, acho até que ele vai gostar que ela volte para casa.
- Escute aqui, Esmeraldina! - esbravejou ele, mas de tal forma alterado que ela se assustou e se encolheu. - Eu a proíbo de despedir Aracéli. Teodoro gosta dela, e não vou permitir que você o magoe. Pelo bem do nosso filho, ela fica.
Estava encerrada a discussão. Licínio ficou tão indignado e enfurecido que até perdeu o desejo de fazer sexo com a mulher. Na verdade, queria usá-la para saciar a fome que sentia de Aracéli, mas ela o deixara realmente aborrecido. Ele, que fizera de tudo para trazer Aracéli para junto de si, não poderia permitir que a mulher, por um capricho fútil, a substituísse por uma francesa insossa e idiota.
Quanto mais pensava em Aracéli, mais Licínio enlouquecia. Fazia já alguns meses que ela estava trabalhando em sua casa e, até então, ele não se atrevera a procurá-la. Descobrir que ela costumava nadar nua no riacho o deixara deveras transtornado.
Por que lhe contara aquela particularidade? Talvez estivesse se insinuando e tentando provocá-lo. Era no que ele queria acreditar.
Na segunda-feira, ela chegou cedo e foi ao encontro de Teodoro, que se atirou em seus braços tão logo a avistou. Pelo canto do olho, Esmeraldina a observava com certo desdém, sem perceber a insânia no olhar do marido. A partir de então, Licínio seguia Aracéli por todos os lados e procurava sempre estar por perto nos lugares e momentos em que ela passava. Só não se atrevia a descer até o riacho, com medo de sua própria reação, de não conseguir se conter e dominá-la na presença do filho.
Após o jantar daquela noite, Esmeraldina esperou até que Aracéli retirasse Teodoro da mesa e comentou com o marido:
- Hoje cedo chegou uma carta de Salvador. Minha irmã teve seu quinto bebê.
- Que ótimo - disse ele, sem nenhuma emoção.
- É um menino. Finalmente, depois de quatro filhas.
- Bom para o seu cunhado.
- Estive pensando em visitá-la. Faz tempo que não vou a salvador e poderia aproveitar para matar as saudades de papai e mamãe também.
Licínio olhou-a estupefato, mal contendo a súbita euforia de ver naquela viagem a oportunidade que tanto queria para estar a sós com Aracéli.
- Se você quiser ir, por mim, está tudo bem - anunciou, com voz contida.
- Sabia que você compreenderia.
- Quando é que pretende partir?
- Creio que em duas semanas estará bom. É o tempo de inaugurar a capela e preparar um novo enxoval para mim e Teodoro. - O quê? - surpreendeu-se ele. - Pretende levar Teodoro?
- Ele precisa ver os avós. Não quero que se esqueça dos meus pais.
- Você só pode estar brincando, Dina. Teodoro não pode ir... e padre Gastão não vai permitir que você leve Aracéli com ele.
- Quem falou em levar Aracéli? Vou convidar Marocas para ir comigo, e talvez ela me ceda sua criada francesa.
Aquela notícia era inesperada. Sem Teodoro ali, não haveria motivo para que Aracéli permanecesse. Não poderia permitir.
- De jeito nenhum! - protestou ele, dando um salto da cadeira. - Teodoro não sai daqui.
- Mas o que é isso agora, Licínio?
- Não quero ficar longe do meu filho - exasperou-se ele. -Se quer ir, vá sozinha, eu não me oponho. Mas Teodoro fica.
- Você não está sendo sensato. Teodoro é criança e deve acompanhar a mãe.
- Deixá-lo comigo só vai beneficiar você, que estará mais livre para ir aos bailes de que tanto gosta.
- Você está sendo injusto! - objetou ela com veemência. - Resolveu agora que eu não dou importância ao meu filho, mas isso não é verdade. Sempre que posso, tenho-o junto a mim.
- Está certo, Dina, não vamos brigar - reconsiderou ele, com medo de despertar suspeitas na mulher. - Mas eu lhe peço que deixe Teodoro comigo. Nem bem ele se recuperou da primeira viagem, já vai ter que fazer uma segunda? E pense um pouco em mim. Vou ficar meses sem ver a minha mulher. Terei também que me separar de meu filho?
- Será por pouco tempo.
- Para mim, será como a eternidade. Você vai para Salvador se divertir com a sua família. E eu? Quem estará aqui para me confortar quando a saudade for insuportável?
Ela permaneceu algum tempo em silêncio, encarando-o e refletindo sobre o que ele lhe dissera. Ele fingia tão bem que ela não conseguiu perceber a dissimulação em suas palavras e acabou sentindo pena dele, de sua solidão naqueles muitos meses. Aracéli nem lhe passou pela cabeça. Licínio era esperto e nunca a deixara perceber a paixão que rugia em seu peito tal qual uma besta insana prestes a emergir.
- Muito bem - suspirou Esmeraldina. -Talvez você tenha razão. A viagem é mesmo muito cansativa para uma criança de cinco anos, e não quero que você se sinta tão só. Irei sozinha.
Licínio mal cabia em si de contentamento. Puxou a mulher e deu-lhe um beijo demorado e ardoroso, já imaginando como seria o gosto dos lábios carnudos de Aracéli colados ao seu. Pensar na cabocla só fez aumentar o seu desejo, e ele amou Esmeraldina com a paixão que alimentava pela outra.
A inauguração da capela aconteceu no domingo e, duas semanas depois, Esmeraldina partiu. Durante os dias que precederam a viagem, Licínio agiu como um marido dedicado, cobrindo a mulher de carinhos e atenções, satisfazendo seus desejos e mimando-a de todos os modos. Pouco olhava para Aracéli e só falava com ela o necessário para dar ordens relacionadas ao filho.
Quando a carruagem atravessou o portão e ganhou a estrada, Licínio encarou Aracéli pela primeira vez naquelas duas semanas. Ela segurava Teodoro no colo e erguia a mãozinha do menino em um gesto de adeus.
- Não fique triste, Teozinho - falou com ternura. - Sua mãe volta logo.
Ao colocar a criança no chão, Aracéli notou que Licínio a fitava insistentemente. Um rubor lhe subiu pelo rosto, contudo, antes que ele pudesse dizer alguma coisa, um burrico adentrou o pátio do casarão, e Licínio percebeu insatisfeito que se tratava de padre Gastão.
- O senhor por aqui, padre? - perguntou, disfarçando a contrariedade.
- Vim para me despedir e quase não chego a tempo. Cruzei com a carruagem agorinha mesmo e acenei para dona Esmeraldina.
- Que bom - retrucou Licínio, com ar de mofa. - E agora, padre, se me der licença, preciso ver como estão as coisas no garimpo.
Licínio saiu furioso. Estava há tanto tempo esperando por Aracéli que, por um momento, deixou-se levar pela ansiedade e quase armou um bote precipitado. Não fosse a chegada daquele padre intrometido, teria dado um jeito de se desembaraçar de Teodoro e levar Aracéli para seu quarto.
No pátio, Aracéli abraçou padre Gastão, enquanto Teodoro se distraía seguindo o rastro de algumas formigas.
- É sempre bom vê-lo, padre.
- Quero falar com você, Aracéli. Estive pensando muito e não acho que seja prudente você ficar sozinha aqui com o senhor Licínio.
- Mas, padre, não posso deixar Teodoro sozinho. Não há ninguém para cuidar dele.
- O senhor Licínio tem muitas escravas. Alguma há de servir. Mas o menino já se acostumou comigo! E foi por isso que dona Esmeraldina não o levou com ela.
- Você não entende... - padre Gastão olhou ao redor e puxou Aracéli pela mão, afastando-se com ela da casa. - Licínio não é confiável. E se ele lhe fizer alguma coisa?
Aracéli compreendeu o porquê do temor de Gastão e ficou alguns minutos pensativa. Quando falou, foi com cautela, escolhendo bem as palavras:
- O senhor está imaginando coisas. O senhor Licínio me trata bem porque eu cuido do filho dele. Só isso.
- Quisera eu ter a sua certeza, mas meu coração não se engana.
- Não precisa se preocupar. Acho que o senhor Licínio não vai me fazer nada e, além do mais, sei me cuidar. Estou sempre com Teodoro, e ele não seria louco de me atacar na frente do menino... seria?
- Não digo que ele vá atacá-la. Mas um homem vivido como ele tem lá as suas manhas. Homens feito Licínio sempre conseguem o que querem.
- Não a mim! Não sou uma coisa que ele possa obter nem pretendo me deixar seduzir. E, se quer saber, acho que o senhor exagera. Não creio que o senhor Licínio tenha algum interesse em mim. Ele é um homem rico, tem uma esposa linda e elegante, por que haveria de querer uma cabocla bronca feito eu?
Não adiantava discutir. Os jovens sempre têm a mania de achar que os mais velhos é que não sabem das coisas, e Aracéli não era diferente. Padre Gastão não conseguiria convencê-la a sair daquela casa e deixar o menino.
- Que Deus a proteja, Aracéli - desabafou ele, quase em lágrimas. - E que livre do seu caminho todo mal que você não precise encontrar.
Depois disso, ele se foi, o coração confrangido pela impotência em proteger Aracéli. Queria desesperadamente livrá-la daquele perigo, mas não via meios. Só lhe restava orar.

CAPÍTULO 13

Naquela noite, Aracéli sonhou. Ela estava caminhando por uma espécie de ravina e tinha o corpo todo pintado de vermelho. A princípio, achou que era tinta indígena, mas logo percebeu que se enganara. Passou a mão pelo corpo e sentiu a quentura do sangue. Ouviu uma gargalhada sonora e olhou espantada na direção de onde ela partia. Parado mais adiante, um índio segurava um coração palpitante e executava uma dança demoníaca, rindo às alturas, enquanto um homem branco chorava e apertava o peito, tentando conter o fluxo de sangue que afluía de um corte profundo na altura do abdome.
Acordou assustada e levantou-se de um salto, olhando para baixo como se esperasse ver sangue na umidade que fazia grudar a camisola. Enganara-se. A roupa continuava branca como sempre, sem nenhum vestígio de sangue, colada ao corpo pelo efeito do suor. Na cama ao lado, Teodoro dormia tranquilamente, e ela escancarou a janela, deixando que o ar fresco da noite a envolvesse e lhe trouxesse alívio. Tornou a deitar-se, sentindo uma espécie de presença maligna ao seu lado, e orou. Em poucos instantes, a sensação passou e ela adormeceu novamente, dessa vez, sem sonhar. O espírito que estivera junto dela havia desaparecido.
No dia seguinte, levou Teodoro para brincar do lado de fora, torcendo para não encontrar Licínio, mas ele não apareceu. No outro dia, também não. No terceiro, encontraram-se ao jantar. Ele sentou Teodoro no colo e ficou brincando com o menino, até que a comida foi servida, quando entregou o filho novamente a Aracéli. Ao passar a criança para seu colo, seus dedos acidentalmente se tocaram, e Licínio retirou os seus, apressado, abaixando os olhos e evitando encará-la mais do que o necessário.
Por dentro, ele quase explodia. Só ele sabia o esforço que precisava fazer para não arrancar a roupa de Aracéli, acariciá-la, beijá-la e amá-la com ardor e fúria. E quando sentira a pele macia dela próxima de sua mão, teve que retirá-la às pressas, como se os dedos dela estivessem em brasa, queimando-lhe a pele com a força ígnea do desejo. Não poderia se descontrolar. Não na frente do filho.
E ainda havia o padre. Licínio tinha certeza de que Gastão conhecia as suas intenções. Questionava-se se Aracéli também havia percebido alguma coisa e, em caso positivo, por que não ia embora. Se permanecia, não seria porque ela também ansiava estar com ele?
Era preciso disfarçar. Não queria arruinar o seu casamento nem que padre Gastão fizesse algum tipo de escândalo porque ele resolvera se divertir com sua indiazinha de estimação. Por isso, só por isso, Licínio procurava não demonstrar o vulcão prestes a explodir dentro de seu corpo. Tinha que se conter e aguardar o momento mais oportuno.
O sol, naqueles dias, reluzia com um calor excessivo, marcando de forma abrasiva os longos dias de verão. Acostumada a banhar-se nos rios, Aracéli saía logo cedo com Teodoro para nadar no riacho. Da janela de seu quarto, Licínio a acompanhava com os olhos, louco de vontade de segui-la. Certa manhã, não resistiu mais. Vestiu-se apressadamente e saiu sem que ninguém percebesse. Seguiu-os a uma distância segura e ocultou-se atrás de uns arbustos, sem fazer qualquer ruído.
De forma inocente, Aracéli e Teodoro se despiram e se atiraram no riacho, cuja água cristalina e refrescante logo os cingiu. Aracéli dava mergulhos e emergia perto de Teodoro, levantando o corpo dele e atirando-o na água. O menino soltava gargalhadas de prazer e se apertava ao pescoço de Aracéli, que o envolvia, e afundavam juntos. A visão do corpo nu de Aracéli foi causando uma espécie de febre em Licínio, que chegou a invejar o filho por experimentar o contato dos seios morenos da índia. Licínio sentia-se no lugar do menino, abraçando-a e apertando-a, alisando todo o seu corpo e beijando-a em suas partes mais íntimas. Quanto mais pensava, mais se excitava, e estava certo de que não conseguiria mais conter o desejo ardente. Precisava dar um jeito de afastar Teodoro de Aracéli.
Enquanto os dois se deliciavam de forma inocente na água, ele retornou para casa e mandou chamar Zenaide, escrava bajuladora, que tudo fazia para cair nas boas graças de seus senhores.
- Vá buscar Teodoro na beira do rio - ordenou. - Traga-o imediatamente, sem nem mesmo vesti-lo nem esperar por Aracéli. Leve-o para o quarto e fique com ele lá. E não saia para nada, ouviu bem? Ou vai se ver comigo.
- Sim, sinhô - foi a resposta da escrava.
Ela saiu, e Licínio foi atrás dela, pisando de leve para que ela não o notasse. Seguiu-a até a beira do riacho e retomou seu lugar atrás dos arbustos. Ao ver os dois nus dentro da água, Zenaide estacou boquiaberta e pôs as mãos nas cadeiras, falando com autoridade:
- Sinhô Licínio mandou buscar o menino. Quer que leve ele agora.
Aracéli olhou para Teodoro e fez um gesto para que ele saísse de dentro do rio. A escrava, mais que depressa, agarrou o menino pelo punho e saiu arrastando-o, sem nem mesmo dar-lhe chance de se vestir. Teodoro começou a gritar, e Aracéli saiu da água, o corpo dourado reluzindo ao sol.
- Espere um minuto - protestou ela. - Deixe-nos ao menos nos vestir.
- Sinhô Licínio mandou levar o menino assim mesmo, pelado - comunicou Zenaide, escandalizada com a nudez de Aracéli. – E você deveria se envergonhar de andar por aí desse jeito.
Sem ligar para os protestos de Teodoro e de Aracéli, a escrava pegou-o no colo e foi saindo com ele, indignada com a atitude da índia.
- Você é que deveria se envergonhar de agir dessa maneira – gritou Aracéli, revoltada. - Fala como os brancos, mas se esquece de que é negra. Não tem respeito pelo seu povo?
Zenaide se enfureceu e parou abruptamente, virando-se para Aracéli com o ódio estampado no olhar.
- Isso não é da sua conta! Eu nasci na casa de sinhá Esmeraldina, recebi educação civilizada. E ela não me ensinou a andar pelada por aí, como uma desavergonhada!
A vontade de Licínio era esganar aquela negra. Ele não a mandara questionar as atitudes de Aracéli nem lhe dar lições de moral. Queria apenas que ela tirasse o filho dali e deixasse o caminho livre para ele se aproximar.
- Ponha Teodoro no chão - falou Aracéli com firmeza. -Ele vai para casa comigo.
- Não vai, não! - objetou ela com rispidez, temendo perder a oportunidade de provar ao seu senhor que era boa escrava e sabia obedecer ordens. - Sinhô Licínio mandou que eu levasse ele, e é isso que vou fazer.
Teodoro se debatia no colo de Zenaide, que saiu com ele a passos apressados, deixando Aracéli, também furiosa, parada na beira do rio com o vestido na mão. A escrava se afastou correndo, e ela começou a se vestir às pressas, tencionando alcançá-la antes que chegasse à casa.
Logo que Zenaide passou, Licínio saiu de seu esconderijo, certificando-se de que ela não podia mais vê-lo nem ouvi-lo. Com a boca seca, aproximou-se de Aracéli, ocupada em desdobrar o vestido que tivera que despir porque, na pressa, vestira-o pelo lado do avesso. A sombra de Licínio chegou mais perto, e ela ergueu os olhos, assustada. Instintivamente, encobriu o corpo com a roupa e exclamou:
- Senhor Licínio! Teodoro... saiu agora mesmo com Zenaide. O senhor não os viu?
Ele não respondeu. Chegou bem perto dela e segurou-lhe as mãos, baixando-as de seu corpo para exibir-lhe nudez. Aracéli fez força para não se descobrir, mas ele conseguiu dominá-la facilmente e retirou o vestido das mãos dela, olhando-a com uma lascívia assustadora.
- Você é linda - balbuciou ele. - Linda...
Ele aproximou-se ainda mais, a ponto de Aracéli sentir em seu rosto a respiração ofegante dele.
- Por favor, me solte- implorou ela. - Está me machucando.
Ele não soltava. Em vez disso, puxou-a para si e comprimiu os seus lábios, forçando-a a corresponder-lhe o beijo. Aracéli tentou se soltar, mas ele dobrou os braços dela para trás e estreitou-lhe o corpo bem de encontro ao seu. Ela estava completamente nua, e ele a jogou com facilidade na areia, deitando-se por cima dela.
Fique quieta - ordenou ele. - Não quero machucá-la.
Ao mesmo tempo em que era firme, Licínio agia com cuidado, evitando feri-la. Aracéli tentou resistir, lutando para escapar, excitando-o ainda mais. Sentir o corpo dela se debatendo sob o seu foi aumentando a sua volúpia, até que não conseguiu mais se conter. Ouviu o grito lancinante de Aracéli quando a penetrou e tapou a sua boca, para que ninguém mais a ouvisse. O corpo dela acompanhava o vaivém do de Licínio, até que ela cessou de se debater e apenas chorou de mansinho.
Quando ele terminou, os olhos de Aracéli estavam secos e seu corpo, imóvel. Por um momento, Licínio pensou que a tivesse matado, mas o seu peito arfante mostrou que ela estava viva, e bem viva. Licínio saiu de cima dela e abotoou as calças, enquanto ela permanecia deitada, a virgindade perdida manchando de vermelho a areia do riacho. Não fosse isso, nada denunciaria o que acabara de acontecer. Ele fora cuidadoso e não deixara manchas em sua pele, que permanecia viçosa como sempre.
- Levante-se - falou ele por fim. - Não aconteceu nada de mais.
As palavras dele a encheram de indignação, e Aracéli, finalmente, saiu de seu torpor:
- Por que fez isso comigo, senhor Licínio, por quê?
- Do que está se queixando? Não foi você quem disse que foi criada com toda a liberdade dos índios?
Ela abaixou os olhos, magoada, e chorou novamente, dobrando os joelhos para ocultar os seios desnudos.
- Padre Gastão tentou me alertar, mas eu não quis escutá-lo. O senhor é um monstro.
Por um instante, ele sentiu pena dela e apanhou a sua roupa.
- Não sou um monstro, Aracéli - disse ele, estendendo-lhe o vestido. - O monstro estava dentro de mim, e foi você quem o ajudou a sair.
- Cada um deve domar seus próprios monstros. Não é justo usar os outros para redimir o que lhe pertence.
- Você não está entendendo. Eu queria você. Só você.
- Mas eu não queria o senhor.
- Não queria? Ora, não foi tão ruim assim, foi? - ele se abaixou e afagou o rosto dela. - Fui gentil e não a machuquei. Não vá me dizer que não gostou nem um pouquinho.
Ela não respondeu e afastou a mão dele, levantando-se para vestir-se, vagarosamente. Enquanto se vestia, Licínio foi sentindo o desejo inflando o seu corpo novamente, mas não fez nada.
- Não precisa responder - continuou ele. - Sei que gostou.
Ela o olhou com desprezo e revidou com azedume:
- Iluda-se o quanto quiser. Pouco me importa. A partir de hoje, não fico mais aqui. Vou apanhar minhas coisas e voltar para casa.
- Não vai, não - objetou ele com firmeza. Você tem responsabilidades aqui.
- Sinto muito, senhor Licínio. Amo muito Teodoro, mas não posso mais ficar. O senhor me dá nojo.
O comentário o desagradou, e ele se deixou insuflar pelo orgulho, sentindo necessidade de demonstrar-lhe a sua superioridade.
Nem pense em me deixar. Você fica enquanto eu assim determinar. Do contrário, algo muito ruim pode acontecer.
- Está me ameaçando? Pois não tenho medo do senhor, ouviu?
- Sei que não. Você é jovem, forte e corajosa. Mas padre Gastão... bem, ele não é mais nenhum jovenzinho. Vive para cima e para baixo montado naquele burrico, e, você sabe, acidentes acontecem...
- O senhor não seria capaz! - horrorizou-se ela.
Não? Pois, então, experimente deixar-me para ver. Depois não diga que não avisei.
- Cafajeste! - esbravejou ela, partindo para cima dele e tentando arranhá-lo no rosto.
Licínio riu alto e segurou-a pelos punhos, ao mesmo tempo em que dizia:
- Você é mesmo uma gata selvagem, não é? Não faz mal, gosto disso. Mas é bom que você não confunda as coisas - ele a fuzilou com um olhar de crueldade. - Serei tolerante com a sua selvageria, desde que você me obedeça e faça direitinho o que eu mandar. Ou acabo com você e o seu paizinho de saias. Ouviu bem?
As lágrimas que escorriam pelo rosto de Aracéli eram de revolta, não de submissão. Licínio, contudo, não viu a diferença nem se importaria com ela.
- Ouviu bem? - repetiu ele em tom autoritário e aterrador, ao qual ela assentiu com ódio. - Ótimo. E agora deixe-me explicar-lhe como você deve proceder. Quero que todas as noites, depois que Teodoro dormir, você desça até aqui com um cobertor limpo e perfumado. Espere-me. Assim que Esmeraldina pegar no sono, virei atrás de você. Por enquanto, como minha mulher está viajando, virei fogo em seguida. E você será boazinha. Muito boazinha. Fará tudo o que eu mandar, sem se queixar, nem chorar, nem gemer. Compreendeu?
Ela engoliu em seco e respondeu entre soluços de ira:
- O senhor não pode...
- Posso. Posso o que quiser. De hoje em diante, serei o seu dono.
- Ninguém é meu dono! - objetou ela, a raiva misturando-se à indignação. - Sou livre, não sou escrava.
- A sua liberdade é essa que agora lhe dou - arrematou ele com frieza, soltando os pulsos dela e empurrando-a levemente para longe. - E posso retomá-la a hora em que desejar.
Ele segurou-a outra vez pelos punhos e puxou-a para si, beijando-a na boca. Aracéli lutou novamente, e Licínio a afastou dele, olhando-a com ar entre divertido e intimidador, sem dizer nada. Naquele olhar, Aracéli reconheceu o peso da ameaça e temeu, sobretudo, pela vida de padre Gastão. Licínio falava sério, e ela sabia bem do que ele era capaz. Mesmo a contragosto, no emaranhado do desprezo por si mesma, do medo e de um ódio fremente daquele homem, viu-se obrigada a ceder.
Sentindo o tremor de seus braços, Licínio soube que havia vencido. Ela podia morder-se de ódio, no entanto, o medo era maior. Suas ameaças eram bem reais, e ele contava com o amor de Aracéli pelo padre para garantir a obediência dela. Ela agora lhe pertencia.
Com essa certeza, ele a puxou para novo beijo e, dessa vez, ela não resistiu.

CAPÍTULO 14

Veio o domingo, e Aracéli não apareceu em casa de padre Gastão. No outro domingo, também não, e quando chegou o terceiro e Aracéli não veio, Gastão achou que já era hora de verificar o que estava acontecendo. Montado em seu burrico, partiu para a casa de Licínio.
Foi informado de que ela estava na beira do riacho mais abaixo, e ele encaminhou-se para lá. À distância, ouvia a voz de Teodoro, embora não conseguisse escutar o que Aracéli dizia. Mais próximo, identificou as palavras do menino, que a interpelava:
- Por que você não entra, Aracéli? A água está fresca e gostosa.
- Não estou com vontade, Teozinho. Estou bem aqui, tomando conta de você.
- Mas você sempre gostou da água...
Ele parou de falar e encarou o padre, que se acercou de Aracéli. Ela se levantou apressada, julgando tratar-se de Licínio, mas relaxou os músculos e distendeu a face num sorriso verdadeiro, atirando-se nos braços de seu pai.
- Como está a minha menina? - perguntou ele, acariciando-lhe os cabelos.
- Aracéli está esquisita - respondeu Teodoro. - Não quer cais brincar e há dias não entra na água.
- Aconteceu alguma coisa? - retrucou ele, segurando o queixo miúdo de Aracéli.
- Nada, padre. Eu apenas me cansei dessas brincadeiras.
- Está cansada de mim? - era o menino. - Você vai embora?
Aracéli fez que não com a cabeça, e Teodoro saiu da água.
- Venha se vestir - disse ela, estendendo-lhe as roupas. Mas primeiro a gente não se seca?
Teodoro se estirou ao sol, e Aracéli começou a dobrar suas roupas, evitando encarar padre Gastão.
- Aracéli - chamou, e ela voltou o rosto para ele. - Eu a criei desde que nasceu. Conheço-a melhor do que ninguém e sei que alguma coisa está errada. O que é?
- Impressão sua, padre. Estou só um pouco cansada. Tenho trabalhado demais.
- É por isso que não tem ido para casa aos domingos?
- Dona Esmeraldina não está... e Teodoro precisa de mim.
- Você está mentindo. Sei que é difícil fazermos coisas às quais não estamos acostumados e, como você não está acostumada a mentir, não está mentindo direito - ela não disse nada e, quando seus olhos começaram a lacrimejar, voltou o rosto apressada. - Foi o senhor Licínio? Ele lhe fez alguma coisa?
- Não, padre. Ele não me fez nada.
Desvencilhando-se dele, Aracéli foi sentar-se ao lado de Teodoro, que abriu os olhos quando ela passou pela sua frente, barrando a claridade do sol. Padre Gastão aproximou-se também e ficou contemplando-a vestir o menino.
- Já vamos voltar? - indagou a criança.
- Está na hora do almoço, e você sabe que seu pai não gosta que se atrase.
- Padre Gastão vai almoçar com a gente?
- Depende de seu pai.
Depois de vestido, Teodoro deu a mão a Aracéli e a padre Gastão, e os três voltaram para casa em silêncio, quebrado apenas pelas ingênuas observações do menino, que apreciava os pássaros e os insetos. Da janela da sala, Licínio os viu aproximando-se e fez um muxoxo de desagrado. Não queria aquele padre intrometido interpondo-se entre ele e Aracéli. Ainda assim, saiu para cumprimentá-lo, a fim de não levantar suspeitas.
- Muito boa tarde, padre Gastão - saudou ele, estendendo a mão para o outro. - O que o traz ao meu humilde lar?
- Vim ver como Aracéli está passando. Ela não tem ido para casa, e fiquei preocupado.
- Como pode ver, ela está muito bem, cuidando de Teodoro. Não é, meu filho?
- É, sim, papai.
- O nosso trato, contudo, não foi esse - rebateu o padre. - Consenti que Aracéli viesse cuidar do menino com a condição de que fosse para casa aos domingos. Ela ainda é uma criança.
- Ela não é mais criança, padre - rebateu Licínio, com uma estranha entonação que Gastão não conseguiu definir. - Já tem dezesseis anos. Idade bastante para se casar.
- Você vai se casar, Aracéli? - retrucou Teodoro, de forma inocente.
Ela meneou a cabeça e falou com certa ousadia:
- Gostaria de ir para casa hoje, se não se importa, senhor Licínio. Quero estar com padre Gastão.
- Na verdade, importo-me sim - declarou Licínio. - E o padre deve ter coisas mais importantes a fazer do que ficar paparicando você. Não tem missas para rezar hoje?
- Já celebrei as missas matinais, e agora só tem a das dezoito horas.
- Ainda me resta tempo para aproveitar sua companhia - continuou Aracéli. - Sinto muitas saudades de meu pai.
O olhar de Licínio era assustador, ao menos para Aracéli. Ele deu um sorriso irônico, mexendo apenas o canto da boca e, olhando para o burrico do padre, acrescentou em tom mordaz:
- Bela montaria a sua, padre. Mas não é perigosa?
- O quê? - fez Gastão, o pensamento ligado em Aracéli. -Ah! O burrico? Não, é seguro.
- É preciso tomar cuidado com esses animais. Às vezes, são imprevisíveis.
Padre Gastão não compreendeu a referência ao burro, mas Aracéli identificou a ameaça velada.
- Por que o padre não almoça conosco? - tornou Teodoro. Assim, Aracéli fica feliz e não precisa ir embora.
Aracéli deu graças a Deus pela interferência de Teodoro e, para sua surpresa, ouviu a voz grave de Licínio:
- É uma boa ideia, meu filho. Vá, Aracéli, vá avisar na cozinha que temos um convidado para o almoço. E você, hoje, se sentará conosco.
Pouco à vontade, Aracéli sentou-se à mesa para almoçar, aproveitando ao máximo a companhia de padre Gastão. Ele ficou até às três horas, quando teve que partir por causa da missa das seis. Despediu-se de Licínio e de Teodoro, e Aracéli acompanhou-o até o portão.
- Gostaria que ficasse - disse ela, segurando a mão do padre e levando-a ao rosto.
Você pode voltar comigo. Não há nada que a prenda aqui. Ele não tem poder sobre você.
- Não se trata disso - retrucou ela, a voz já embargada pela emoção. - Não quero deixar Teodoro sozinho.
- Tem muita gente nessa casa para que o menino se sinta sozinho.
- Gosto de Teodoro. É por ele que fico.
Não era a verdade integral, mas também não era mentira. Padre Gastão suspirou profundamente e a abraçou com ternura, pousando-lhe demorado beijo na testa. Em seguida, montou em seu burrico e partiu.
À noite, depois que Teodoro dormiu, Aracéli apanhou o cobertor e foi ao encontro de Licínio, que já a aguardava na beira do rio. Ela mal teve tempo de estender a manta, porque Licínio a puxou pelos cabelos e deu-lhe um beijo asfixiante, ao qual ela não pôde fugir.
- O que pensa que está fazendo? - rugiu ele, os olhos chispando de cólera. - Quer pôr tudo a perder?
- Não fiz nada - gemeu ela.
- Você e esse padreco têm algum segredo. O que é? São amantes?
A insinuação causou-lhe tanta indignação que, sem sentir, Aracéli estalou-lhe uma bofetada no rosto, provocando uma fúria em Licínio que ela nunca havia visto. Na mesma hora, ele devolveu o bofetão, mas com tamanha violência que Aracéli rodopiou sobre si mesma se estatelou no chão, a vermelhidão começando a se espalhar pela face morena.
- Nunca mais, enquanto viver torne a fazer uma coisa dessas - esbravejou ele. - Se não quiser experimentar a força do meu punho ou a ponta do meu chicote.
Aracéli estava aturdida demais para falar e permaneceu sentada no chão, engolindo as lágrimas e os soluços. Não daria a Licínio o gostinho de vê-la chorando porque havia apanhado. Ele, porém, parecia não se dar conta de seu drama interior. Com uma brutalidade desconhecida, atirou-se sobre ela e forçou-a ao sexo. Aracéli se submeteu, permitindo que crescesse dentro do peito o ódio que sentia por ele.
Quando ele terminou, puxou-a para si e fez com que ela deitasse a cabeça sobre seu peito.
- Não queria bater-lhe, Aracéli, mas você provocou. Não admito que mulher alguma me bata na face - ela não disse nada.
- E quanto a você e ao padre, admito que exagerei. Peço que me perdoe a insinuação maldosa. Sei que são como pai e filha, mas o caso é que fiquei com ciúmes ao ver vocês se abraçando. Gostaria que você sentisse por mim o mesmo que sente por ele.
As palavras de Licínio causaram imenso espanto em Aracéli, que ergueu a cabeça e o encarou.
- Padre Gastão me conquistou pelo amor. O senhor me domina pelo medo. Como pode pretender que meus sentimentos por ambos sejam iguais?
- Não quero que sinta medo de mim.
- Não tenho medo do senhor. Temo a sua maldade e o que ela pode fazer a meu pai.
- É isso, Aracéli? Acha que sou mau?
- O senhor é mau. E não gosto do senhor.
A menina tinha coragem, o que causou imensa admiração em Licínio. Contudo, ele não podia permitir que Aracéli o tratasse como um igual e revidou com rispidez:
- Você não precisa gostar de mim. Basta me obedecer.
A discussão estava encerrada, porque Licínio se deitou sobre Aracéli novamente. A vontade dela era de empurrá-lo para longe e fugir correndo dali, mas sabia que ele concretizaria suas ameaças, e a vida de padre Gastão correria perigo. Por Teodoro, não temia. Apesar de gostar do menino, tinha certeza de que Licínio amava o filho acima de qualquer coisa e nada faria contra ele.
Por enquanto, sua única opção era submeter-se.

CAPÍTULO 15

Não havia dúvidas na cabeça de Gastão de que algo muito errado estava acontecendo em casa de Licínio. Aracéli estava diferente, mais séria e calada. Ela, que sempre fora uma moça alegre, parecia haver perdido o viço da juventude, e ele estava certo de que Licínio tinha alguma coisa a ver com aquilo. No entanto, não havia nada que pudesse fazer. Tentara convencer Aracéli a voltar para casa, mas ela se recusara, alegando responsabilidades para com Teodoro. No íntimo de Gastão, todavia, ele sabia que aquilo não era verdade.
Só lhe restavam suas orações. Homem de fé, acostumara-se a rezar por tudo, para pedir e agradecer, ou simplesmente para desafogar seu coração. E, todas as noites, orava para que Deus protegesse Aracéli das garras de Licínio.
Com o passar dos dias, Gastão acostumou-se a visitar a menina aos domingos, já que ela não aparecia mais em sua casa. Sempre que a via, ela estava com ar cansado e triste, mas não havia meios de fazê-la contar o que a afligia.
Até que, finalmente, Esmeraldina retornou de Salvador.
- Padre Gastão, que surpresa agradável! - exclamou ela, beijando a mão do clérigo.
- Dona Esmeraldina! - retrucou Gastão, feliz por vê-la de volta. - Quando foi que chegou?
- Ontem à noite. Foi uma viagem terrível, o senhor nem queira saber. Cheguei e logo fui dormir.
- E a família, como está?
- Oh! Muito bem. Meu sobrinho é lindo, e meu cunhado não cabe em si de contentamento.
- Fico satisfeito que esteja tudo bem.
- A propósito, padre, já que está aqui, não se importaria de rezar uma missa? Faz tempo que a capela está fechada, porque Licínio não se incomoda com religião.
- Pois deveria. A religião aproxima o homem de Deus e o ajuda a compreender a vida.
- Quer dizer então que posso contar com o senhor para a missa?
- Lamentavelmente, não vim preparado para a celebração...
- Ah! Isso não é empecilho. Mando um escravo agora mesmo a sua casa buscar o necessário.
- Mas eu preciso estar de volta para a missa das seis!
- Veja bem, padre, não é longe. A cavalo, chega-se rapidamente.
- Está certo, dona Esmeraldina, desde que eu possa levar Aracéli comigo esta tarde.
- Nem sei por que ela ainda está aqui, se o combinado foi que voltaria para casa aos domingos.
- É que Aracéli não quis deixar Teodoro sozinho. Como a senhora estava ausente, ela se dispôs a ficar.
- Bom, isso agora não será mais necessário. Ela pode retomar a rotina.
Ao receber a notícia de que Aracéli voltaria para casa naquela tarde, Licínio quase espumou de raiva. Após o primeiro momento de cólera, a reflexão levou-o a concluir que, no momento, seria o mais aconselhável. Esmeraldina passara três meses fora, e o esperado era que ele cumprisse o seu papel de marido. Não seria prudente que ele fosse ao encontro de Aracéli naquela noite.
A moça recebeu com entusiasmo a notícia de que iria para casa ao menos por uma noite. Sentia saudades de seu lar, da igreja e dos cuidados que tinha com padre Gastão. Sem falar nos passeios que estava acostumada a fazer pelas matas atrás do pátio da igreja.
Logo após a missa, Esmeraldina mandou que uma carruagem levasse padre Gastão e Aracéli para casa. Com o burrico amarrado atrás, eles partiram, e o coração da índia, pela primeira vez naqueles três meses, festejou a alegria e a liberdade.
- Feliz por estar indo para casa? - indagou Gastão, vendo que ela respirava profundamente o ar que entrava pela janela.
- Muito! Queria não ter mais que voltar.
Aracéli dissera aquilo num impulso que o padre não deixou passar despercebido.
- Por que não quer mais voltar? Pensei que gostasse do menino.
- Eu gosto... - balbuciou ela. - Mas é que sinto saudades de casa.
- Você não está sendo bem tratada naquela casa, minha filha. Eu sinto isso.
- Bobagem, padre. Teozinho é um amor de menino.
- Não me refiro à criança. Sei o quanto Teodoro a aprecia. Falo do senhor Licínio e da senhora Esmeraldina.
- Eles são apenas vaidosos - disse ela com cautela. -Mas não me incomodam.
Habilmente, Aracéli desviou a conversa para assuntos mais amenos, e Gastão não insistiu. Se havia algo errado ele iria descobrir em seu tempo certo. No momento, queria aproveitar a companhia da filha para conversarem e lerem juntos, como costumavam fazer.
Naquela noite, Licínio obrigou-se a amar a mulher, pensando que amava Aracéli. Esmeraldina não era velha, mas seu corpo já não guardava mais o frescor da juventude, castigado que fora pela gestação e o parto, ao passo que Aracéli possuía ainda as formas rígidas e macias. Mesmo assim, Licínio fez o que era esperado rapidamente e sem muito entusiasmo.
- Como ficaram as coisas por aqui? - indagou ela depois, enquanto passava a escova no cabelo.
- Muito bem.
- E Teodoro? Ele parece não ter sentido muito a minha falta.
- Isso é porque Aracéli não saiu do lado dele. Ficou o tempo todo aqui, abrindo mão até de voltar para casa aos domingos.
- Padre Gastão parece não ter gostado de tanta dedicação.
- Padre Gastão é ciumento e quer a índia só para ele. - Talvez seja melhor mesmo devolvê-la. Você sabe que faço minhas restrições a Aracéli.
- Você acabou de chegar de uma viagem longa e exaustiva. Não acha melhor deixar isso para depois?
- Tem razão. Não quero me desgastar desnecessariamente.
- Ainda mais depois desta noite - finalizou ele, carregando na doçura da voz e abraçando-a por trás.
Ela sorriu e apertou os braços dele. Encarando-o pelo espelho, questionou:
- E você? O que fez na minha ausência?
- O de sempre. Fui ao garimpo, perambulei pela cidade, fiz-lhe algumas compras...
- Compras?
Os olhos de Esmeraldina brilharam, enquanto Licínio apanhava no baú um pacote bem embrulhado em veludo vinho. Estendeu-o para ela, que o apanhou e o desembrulhou avidamente. Dentro, um maravilhoso colar de ouro e rubis reluziu à luz das velas. Ela apanhou o colar e o revirou entre os dedos, espantada com a quantidade de pedras incrustadas no metal dourado.
- Então? Gostou?
- Se gostei? É maravilhoso!
- E isso não é tudo. Passou por aqui um mercador de sedas, e veja o que consegui.
Mais uma vez, ele abriu o baú e dele retirou três peças da mais pura seda, desenrolando-as sobre a cama.
- Licínio! - exclamou ela, experimentando a maciez do tecido. - Mas são lindas!
- E de boa qualidade. E veja só o que mais!
Novamente, de dentro do baú surgiu um frasco de perfume, que ele destampou e ofereceu ao nariz de Esmeraldina, que o inspirou profundamente.
- Hum... - fez ela, maravilhada. - Que aroma!
- Direto da França, meu bem.
- E o que mais? - exaltou-se ela, pulando sobre o baú e tentando levantar-lhe a tampa. - O que mais há nesse baú do tesouro?
Licínio abriu o baú, e dentro ainda havia dois leques de pena de pavão, três pares de sapatos cintilantes, mais três peças de joias: um colar de pérolas, um brinco de brilhantes e um bracelete de ouro e prata.
- Meu Deus! Como você conseguiu tudo isso?
- Somos pessoas ricas, Dina. Tudo se compra com dinheiro.
Na verdade, as três últimas joias Licínio ganhara em apostas de dados com amigos abastados que frequentavam a mesma taverna, tendo negociado o restante com um mascate. Tudo para impressionar Esmeraldina e impedir que ela o crivasse de perguntas sobre o que fizera em sua ausência e, principalmente, sobre Aracéli.
- É tudo tão maravilhoso! - disse ela embevecida. - Oh! Licínio, você é um homem extraordinário. Realmente sabe como agradar uma mulher.
- Sei como agradar a minha mulher. Só a minha esposa merece tudo isso e muito mais.
O efeito dos presentes foi o esperado. Inebriada com tantas riquezas, Esmeraldina deixou de lado a curiosidade e a preocupação com o marido, ocupada que estava em experimentar tudo o que ganhara. Licínio sorriu, intimamente satisfeito consigo mesmo. Conhecia a ambição da mulher que ele podia sempre usar em seu benefício. Quando ela se cansou e foram dormir, Licínio custou a pegar no sono, remoendo a falta que Aracéli fazia. Acostumara-se a estar com ela todas as noites, ainda que não fizessem amor, quando ele se satisfazia em admirá-la ou simplesmente acariciar o seu corpo.
Dali em diante, precisava ter cuidado para que Esmeraldina nunca descobrisse sobre Aracéli. Se isso acontecesse, ele lamentaria muito, mas teria que se livrar dela. Como a índia não era sua escrava, não poderia simplesmente mandá-la de volta para a senzala e calar a sua boca. Havia o padre intrometido que bem poderia comprometer a sua reputação.
Pensar naquilo lhe causava angústia, porque Licínio não queria se desfazer de Aracéli. Mas sabia que, entre ela e a esposa, não haveria dúvidas sobre qual das duas escolher. Esmeraldina era a mulher virtuosa e elegante com quem se casara, aquela que mantinha o respeito de seu nome. Aracéli não passava de uma cabocla anônima, rude e sem trato, cuja serventia se limitava aos estreitos de um cobertor. Entre as duas, ficava com Esmeraldina. Com Aracéli dava vazão a seus instintos mais primitivos, ao passo que Esmeraldina lhe evocava a civilidade e a honradez. E ele tinha que manter estas últimas se quisesse conservar sua respeitabilidade e, no futuro, conquistar um título de nobreza.

CAPÍTULO 16

Foi com alívio que Licínio viu Aracéli chegar na segunda-feira, logo pela manhã. Por mais que a houvesse ameaçado, temia que ela, vendo-se a sós com o padre, lhe contasse tudo e decidisse não voltar. Se ela tomasse essa atitude, ele teria que reagir, e matar o padre era algo que, embora previsível, não era o mais aconselhável.
Sem oportunidade de falar com ela, Licínio se conformava em olhá-la à distância. Embora Esmeraldina não houvesse percebido nada de errado na conduta do marido, vivia atrás dele pela casa e não lhe dava chance de ficar a sós com Aracéli. Ao se deitarem, adormeceu abraçada a ele e, quando ele se levantou, sentindo o vazio na cama, abriu os olhos ainda a tempo de vê-lo encaminhar-se para a porta.
- Vai a algum lugar? - perguntou ela, sonolenta.
- Preciso urinar - respondeu ele, mas mudou de ideia e voltou para a cama.
- Você não queria urinar? - replicou Esmeraldina.
- Perdi a vontade. Vamos dormir.
Naquela noite, Licínio não foi ao encontro de Aracéli. Para ela, foi uma alegria. Esperou até bem depois da meia-noite, quando então desistiu e voltou para o quarto de Teodoro. Na noite seguinte, ele também não apareceu, nem na outra, nem na próxima, nem nas noites seguintes. Certa de que, com a volta da mulher, Licínio se cansara dela, Aracéli respirou aliviada e deixou de comparecer à beira do riacho.
Ao contrário do que ela imaginava, Licínio não se cansara dela. Muito pelo contrário. A cada dia, seu desejo aumentava mais e mais, insatisfeito com o amor insosso que Esmeraldina lhe oferecia. Apenas não conseguia se ausentar porque ela se agarrava a ele e despertava todas as vezes que saía do seu lado.
Até que, saturado de uma paixão mal saciada, resolveu tomar suas providências. Ao jantar, carregou nas taças de vinho, incentivando a mulher a beber, até que ela, zonza e com o rosto afogueado, acabou adormecendo pesadamente, dando a Licínio a chance de sair sem ser notado.
Chegando ao lugar do encontro, qual não foi a sua surpresa ao constatar que Aracéli não estava ali. Licínio ficou furioso e gritou alto, tão alto que espantou as corujas próximas. Voltou para casa enraivecido e foi direto ao quarto do filho. Aracéli dormia tranquilamente ao lado do menino, e ele a sacudiu com força, tapando a sua boca para que ela não gritasse de susto.
- Venha comigo - ordenou num sussurro exasperado.
Trôpega de sono, Aracéli obedeceu. Levantou-se e saiu do jeito que estava, de camisola e sem apanhar o cobertor. Ela o foi seguindo pelo corredor, temendo ser surpreendida por alguém. Licínio, contudo, parecia não se incomodar com uma possível aparição de Esmeraldina.
Chegando à beira do riacho, Licínio puxou Aracéli com violência e rasgou sua camisola, deitando-a no chão com impetuosidade.
- Nunca mais me deixe esperando - dizia ele, ao mesmo tempo em que investia contra ela. - Você é minha, Aracéli, minha! Você me deve isso!
Ela não compreendeu bem e chorou baixinho. Só quando ele terminou foi que ela tentou se explicar:
- Vim as outras noites, mas o senhor não apareceu. Então, pensei que tivesse se cansado de mim.
- Nunca! Não vim porque não consegui me desvencilhar de Esmeraldina, mas nunca vou me cansar de você. Deveria saber disso. Não se lembra do que lhe disse? - ela não respondeu. -Não se recorda de que lhe mandei vir todas as noites? Pois é isso que você tem que fazer. Se eu não vier, é porque não pude. Então, você volta para o quarto e vem na noite seguinte. Quero que faça isso sempre, quer eu compareça, quer não. Entendeu?
Ela assentiu e buscou a camisola rasgada para encobrir o corpo, porque começava a chover.
- Como vou voltar para casa desse jeito? E se dona Esmeraldina me vir?
- Minha mulher dorme um sono pesado depois que eu a embebedei. Foi a única maneira que encontrei de sair e vir ao seu encontro.
- Senhor Licínio... - começou ela a dizer pausadamente - será que não é hora de pararmos de nos encontrar? Pode ficar perigoso...
- De jeito nenhum! Não posso prescindir de você, Aracéli. Se quiser, pode se sentir envaidecida, mas você me enlouquece de um jeito que nenhuma outra mulher consegue. Nem Esmeraldina, nem as rameiras com quem andei. Você é especial e é minha.
- Não sou sua. O senhor me usa, mas eu não lhe pertenço.
- Engano seu. Você pertence a mim, e é meu direito fazer com você o que bem entender.
- Não! - bradou ela de um salto. - Jamais pertencerei ao senhor nem a ninguém. Minha alma é livre, e aprisionar o meu corpo não vai me impedir de ir ao encontro dessa liberdade. O senhor é quem está preso: na sua ignorância, na tirania e na ilusão de que é maior do que Deus!
Dizendo isso, Aracéli rodou nos calcanhares e correu de volta a casa, deixando Licínio espantado e sem ação. Pensou em correr atrás dela, mas seria abandonar a prudência. Já fora ao seu quarto no meio da noite. Retornar lá com a raiva que estava acabaria acordando todo mundo na casa. Não. No dia seguinte, ele lhe daria a lição que merecia.
Ele mal conseguiu dormir naquela noite. A todo instante, acordava com as palavras de Aracéli ressoando em seus ouvidos, e uma febre rancorosa foi tomando conta dele. Ao café da manhã, não conseguia disfarçar a raiva. Não dizia nada, mas olhava para ela como quem está prestes a trucidar o inimigo, e tanto ódio acabou despertando a atenção de Esmeraldina.
- O que foi que Aracéli fez? - perguntou ela.
- Nada - respondeu ele assustado. - Por quê?
- Você olha para ela como se quisesse devorá-la viva. Ela fez alguma coisa?
- Não.
- Maltratou Teodoro?
- Não.
- Então, o que é?
- Nada, já disse.
Depois que Esmeraldina o questionou, Licínio procurou disfarçar e não olhou mais para Aracéli, embora seu coração saltasse do peito toda vez que ela passava. Teve que aguardar até a noite para vê-la, temendo que ela não comparecesse. Como havia feito antes, serviu uma dose excessiva de vinho à mulher e, assim que ela pegou no sono, saiu do quarto.
Aracéli já o aguardava, enrolada no cobertor para se proteger da chuva. Ele se aproximou e, sem dizer nada, puxou-a para cima, beijando-a com furor. Em seguida, atirou longe o cobertor e rasgou novamente a sua camisola, deitando-a sobre a areia fria. Ele estava sendo mais bruto do que o habitual, e Aracéli gemeu de dor. Licínio fez com ela o que quis. Quando terminou, os olhos dela estavam secos, mas transmitiam um ódio que ele foi capaz de sentir.
- Você me odeia, não é? - ela não respondeu. - Se pudesse, me mataria, mas sou eu quem tem esse poder. Se me matar, seu destino é a forca, e seu paizinho de saias vai ficar muito triste. Mas eu... posso fazer com você o que bem entender - ele passou as mãos em volta do pescoço de Aracéli e começou a apertar. - Posso acabar com você aqui mesmo, agora, e nada irá me acontecer. Sabe por quê? Porque você não é nada nem ninguém. É uma caboclinha atrevida, mas mais insignificante do que um inseto. E o que é que se faz com os insetos? Nós os esmagamos. Posso esmagar você sem nenhuma consequência. Então? Quem é que ousa falar em liberdade? Eu sou livre para fazer com você o que bem entender, mas você não pode sequer pensar em me atacar ou agredir. Sua vida me pertence, está em minhas mãos, eu é que sou livre para decidir o que fazer com você.
Enquanto falava, Licínio ia estrangulando-a aos pouquinhos, enquanto Aracéli se debatia, tentando desesperadamente puxar as mãos dele de seu pescoço. O desespero dela dava-lhe um prazer mórbido, e ele continuou a apertar, até ela quase desmaiar. Quando sentiu que ela estava prestes a desfalecer, Licínio a soltou, e o ar penetrou pela garganta de Aracéli com a rapidez de um cometa, inflando seus pulmões como uma rajada de vento. Ela tossiu e se engasgou várias vezes, para divertimento de Licínio.
Logo que ela se recuperou, excitado pela proximidade da morte de Aracéli, Licínio a subjugou novamente, mas, dessa vez, ela lutou contra ele. Debateu-se sob seu corpo, aumentando ainda mais o desejo dele. Ela era pequena, e ele facilmente a dominou.
- Chega... - implorou ela num sussurro. - Não aguento mais... Por que não me matou? Preferia morrer.
- Acha mesmo que eu aniquilaria o meu brinquedo favorito? Onde é que eu iria arranjar outra caboclinha apetitosa feito você?
Aracéli o encarou com ressentimento e rancor. Naquele momento, sentia que as palavras seriam inúteis para traduzir toda a angústia que lhe ia na alma. Simplesmente balançou a cabeça e começou a se levantar, puxando o cobertor por sobre o corpo. Já nem tinha mais o que vestir.
Enrolada na coberta, o corpo todo dolorido da brutalidade e da humilhação, virou as costas a Licínio, mas, antes que começasse a retornar, ele a puxou pela mão, obrigando-a a ficar de frente para ele.
- Não fique triste nem com raiva, Aracéli - falou em tom s ameno. - Gosto de você, mas não posso permitir rebeldias. Perdê-la me levaria à loucura, por isso, não me obrigue a livrar-me você. Não seria bom para nenhum de nós.
Ela puxou a mão com força e correu para casa, atirando-se na cama e chorando copiosamente. Teodoro ouviu o seu pranto e abriu os olhos, espantado ao perceber que era ela quem chorava.
- Aracéli - chamou, saltando para a cama dela e a abraçando, sem nem perceber que ela estava nua por debaixo do cobertor. - O que aconteceu, Aracéli? Foi um sonho ruim?
- Ah! Teodoro...
Abraçou-se a ele, e chorou ainda mais, ouvindo a vozinha miúda do menino, que repetia com amorosidade:
- Não chore, Aracéli, eu estou aqui. Não vou deixar nenhum monstro pegar você.
As palavras de Teodoro só fizeram aumentar o seu pranto. Agarrada a ele, Aracéli chorava e soluçava, não se importando mais com quem pudesse ouvi-la. Do lado de fora, Licínio escutava com o ouvido grudado à porta. Ouviu distintamente o seu choro e o consolo de Teodoro. Pé ante pé, abandonou a porta do quarto do filho e voltou para sua cama.
- O que foi que houve? - perguntou Esmeraldina, sonolenta.
- Nada. Fui urinar.
Alguma coisa muito errada estava acontecendo naquela a, e essa certeza desanuviou o efeito do álcool do cérebro de Esmeraldina, que esfregou os olhos com vigor, lutando para restabelecer a sobriedade. Os olhares de Licínio para Aracéli, que ela surpreendera várias vezes, retornaram-lhe à lembrança. Seria possível que o marido estivesse se engraçando para aquela selvagem? Ela deitou a cabeça sobre o peito dele e inspirou fundamente. Um cheiro que misturava suor e sexo infiltrou-se em suas narinas, e ela afastou-se enojada.
- Por onde você andou? - inquiriu duramente.
- Fui urinar, já disse.
- Você cheira como quem acabou de fazer sexo.
Ele quase pulou da cama, mas conseguiu manter a calma aparente e redarguiu com mal contida indiferença:
- Você está sonhando. Cheiros não dizem nada.
Cheiros diziam tudo, e ela conhecia muito bem aqueles odores. Não retrucou, porém. Queria certificar-se de suas desconfianças, para depois agir. Havia muitos escravos naquela casa, e não seria difícil encontrar algum que tivesse algo para contar.

CAPÍTULO 17

Havia quietude e silêncio quando a janela do quarto de Teodoro se abriu lentamente. De modo sorrateiro e quase imperceptível, Aracéli se esgueirou pela janela e saltou para o lado de fora, sem emitir qualquer ruído. Caiu e rolou para o chão, apanhando a trouxa com suas poucas roupas. Levantou-se, sacudiu o corpo dos pedaços de grama e ainda deu uma última olhada para cima, pensando no quanto Teodoro ficaria triste quando acordasse e não a visse. Lamentava por ele, porque aprendera a amá-lo de verdade, assim como sabia que o amor do menino também era verdadeiro. Contudo, não podia mais suportar tanta humilhação.
Como uma lebre, correu para fora do pátio, sempre se ocultando nas sombras da noite. Foi correndo o mais que pôde sem fazer barulho e só parou quando a casa já não era mais visível à distância, caminhando então para dentro da noite.
Na casa de padre Gastão, tudo ainda permanecia quieto. Em breve ele despertaria para suas obrigações matinais, mas, por enquanto, as janelas estavam cerradas e não havia nenhuma lamparina acesa além daquela que guarnecia o pequenino altar em seu quarto. Aracéli experimentou a porta. Estava trancada, e ela bateu levemente. Tornou a bater, dessa vez aplicando mais força e aguardou até que um ruído lá dentro anunciou que padre Gastão havia acordado.
- Quem é? - perguntou ele, do outro lado da porta.
- Sou eu, padre, Aracéli. Deixe-me entrar.
A porta abriu-se imediatamente, mostrando um Gastão lívido e assustado.
- Aracéli! Por Deus, o que foi que houve?
Em vez de responder, ela se atirou nos braços dele e desatou a chorar. Gastão levou-a para dentro e trancou a porta, conduzindo-a até seu quarto. Ela se sentou na cama e alisou a colcha de retalhos que ela mesma costurara, pousando a cabeça na almofada macia e umedecendo-a com suas lágrimas.
- O que foi que houve, Aracéli? - repetiu o padre. - O que fizeram a você?
Ela olhou para ele e enxugou os olhos. Não queria preocupá-lo com o mal que já estava feito e não havia como desfazer.
- Não posso mais ficar naquela casa, pai - anunciou.
- Por que não? Eles a trataram mal? O senhor Licínio lhe fez alguma coisa?
Engolindo em seco, ela respondeu com Cautela:
- Não. Mas ele é uma pessoa detestável e gosta de me humilhar.
- Como? O que ele fez?
- Prefiro não falar.
- Você tem que me contar, Aracéli! É preciso que eu saiba para poder protegê-la.
- Não tenho o que contar. apenas não gosto de ser humilhada só porque sou índia.
- Então é isso? Ele a humilha porque você é índia? – ela assentiu, e ele continuou: - Não acredito. Você não está acostumada a mentir e não sabe fazê-lo direito. Mas não importa. Estou feliz porque voltou sã e salva. Todos os dias fico orando para que você retorne em segurança, e hoje Deus ouviu as minhas preces. Vamos rezar e agradecer.
Padre Gastão apanhou-a pela mão e foi ajoelhar-se com ela diante do altar. Após a breve oração, a alma de Aracéli se aquietou, embalada pela sensação de bem-estar que se espalhara no ambiente. Depois disso, ela se deitou em sua cama e, mansamente, adormeceu.
Do lado de fora, um espírito espumava de ódio. Estava conseguindo ultimar a sua vingança graças à sintonia que estabelecera com Licínio e Esmeraldina. Soriano não conseguira ainda perdoar Alejandro por tê-lo entregado aos índios. Tivera a oportunidade, muitos anos antes, quando fora enviado para esclarecê-lo sobre a sua morte. Contudo, fizera aquilo em obediência a seus superiores, quando, na verdade, o que gostaria mesmo era de cravar os dentes na jugular de Alejandro para vê-lo sangrar até a morte.
Alejandro mudara muito. De espanhol sanguinário a cabocla ingênua era um grande passo. E aquele idiota do Damian ainda pensava que era seu salvador. O que dera nele para escolher a roupagem clerical? Será que os anos de trevas o haviam modificado tanto assim? Era provável, porque ele parecia sincero em sua vocação. Soriano não podia deixar de achar aquilo tudo muito estranho, mas a esquisitice do outro não lhe interessava. O único problema era a aura que criara ao seu redor e em volta de sua casa, que não lhe permitia aproximar-se.
Com Aracéli se passara algo semelhante. Estranho como o sofrimento muda a vida das pessoas. Alejandro fora um homem cruel e arrogante, mas a índia era bem diferente disso. Ainda guardava um pouco de seu orgulho, que ela lutava com todas as forças para dominar. De onde estava, Soriano tinha o privilégio de perceber aquelas coisas.
Até Aracéli encontrar Licínio, ele fora obrigado a se manter afastado. Quando, porém, a moça caíra nas garras do garimpeiro, ele conseguira aproximar-se. Enquanto morava com o padre, Aracéli vivia cercada pelas energias poderosas de suas rezas, que o mantinham afastado, impedindo-o de se juntar a ela. Mas na casa de Licínio era diferente. A sintonia com o antigo rival de Alejandro era perfeita para que ele pudesse dar vazão a seu desejo de vingança, e ainda podia contar com a raiva de Aracéli para fortalecer ainda mais a conexão entre eles.
Não era possível, contudo, que ela se mudasse novamente para a casa do padre. Soriano, particularmente, não tinha nada contra ele, porque mal conhecera Damian em vida. Haviam-se cruzado poucas vezes no navio, e a única lembrança significativa que tinha dele era do dia em que salvara Alejandro de se precipitar no mar revolto. Já Licínio era diferente, pois tinha todos os motivos para odiá-lo também. Não fora Damian cúmplice do ato cruel e sanguinário que tirara a vida de Lúcio e de Rosa?
"Que coisa engraçada", Soriano pensou. Lúcio virara Licínio Rosa, Esmeraldina. Damian, padre Gastão. E Alejandro, que era um homem másculo, viril, arrogante e muito valente, se transformara naquela coisinha minúscula que era Aracéli. Em seu íntimo Soriano se questionou por que apenas ele não se transformara em ninguém. Passados quase duzentos anos, permanecia o mesmo Soriano espanhol, habitando o mesmo mundo de sombras, servindo aos mesmos senhores do mal. Por que só a ele não fora dada a chance de uma nova vida?
Subitamente, lembrou-se de Cibele. Será que ela também recebera uma nova chance? Desde que desencarnara, nunca mais tivera notícias suas. Teria ela reencarnado também? De repente, sentiu imensa saudade da noiva que nunca mais tornara a ver. Na certa certificando-se de que ele não retornaria de sua expedição criminosa esquecera-se dele e casara-se com outro. Não. Cibele devia ser um anjo, e anjos não se ocupavam com os que eram parte do inferno.
Soriano balançou a cabeça para afastar aqueles pensamentos de desânimo. Não adiantava nada ficar se lamentando. Tinha que aproveitar que recebera permissão para ultimar sua vingança antes que o chefão mudasse de ideia e mandasse chamá-lo de volta para algum serviço sujo. Ali onde estava, entretanto, não obteria sucesso. Precisava estimular aqueles que lhe eram receptivos, ou seja, Lúcio e Rosa.
Ninguém percebeu a fuga de Aracéli até que o dia amanheceu. Teodoro foi o primeiro a dar o sinal. Ao despertar, a moça não estava ali para ajudá-lo a se lavar e vestir, como sempre fazia. O menino se levantou assustado e, não vendo Aracéli, pôs-se a chorar, atraindo a atenção de uma escrava, que correu a chamar Esmeraldina. A mulher entrou no quarto correndo, seguida por Licínio, que pegou o filho no colo e tentou acalmá-lo.
- Aracéli sumiu - soluçava ele. - O monstro a levou embora!
- Que monstro, que nada, Teodoro- retorquiu Esmeraldina. - Ela simplesmente não tem responsabilidade alguma. Eu não falei, Licínio?
Licínio não respondeu, mas o menino continuou a lamentar:
- Foi o monstro, mamãe, eu sei. Ela estava chorando, com medo dele, e ele voltou para levá-la.
- Aracéli estava chorando ontem à noite?
- Estava.
- Por quê?
- Por causa do monstro.
Licínio afagou o menino e não olhou para Esmeraldina, que o fitava com desconfiança.
- O monstro não pegou Aracéli - tranquilizou ele. - Ela só foi visitar padre Gastão, mas logo estará de volta.
- Não, não, papai, não foi isso. O senhor não sabe, não viu...
- Eu sei. Pode acreditar em seu pai. Vou sair agora mesmo e trazê-la de volta.
Deu um beijo no menino e, sem encarar a mulher, pegou seu cavalo e partiu a galope para a casa do padre. Gastão rezava a primeira missa matinal, e Aracéli não estava com ele. Licínio foi até a casa do clérigo, nos fundos da igreja, e espiou pela janela. Aracéli estava lá dentro, varrendo o chão, e, mais do que viu, ela sentiu a presença dele e estacou assustada. Havia tanto ódio no olhar dele que ela sentiu como se uma onda a empurrasse para trás e teve que se segurar para não cair.
- Abra a porta, Aracéli - ordenou ele, mas ela não se moveu. - Abra antes que eu a arrebente ou pule a janela.
Ela abriu. Não temia Licínio naquele momento, porque ele não seria louco de tentar nada contra ela na casa de padre Gastão. Todavia, não precisava de um escândalo em sua porta nem dos comentários dos fiéis.
- O que o senhor quer? - perguntou ela, afastando-se dele
- Vim buscá-la. Teodoro pergunta por você. Está preocupado, achando que algum monstro a levou.
- Diga a ele que estou bem, que fugi para longe do monstro e não vou mais voltar.
Ela pensou que ele fosse bater-lhe, mas ele, calmamente puxou uma cadeira e se sentou.
- Acho que você não compreendeu bem. Teodoro reclama a sua presença, e eu a exijo. Creio que não preciso dizer o que irá acontecer se não vier comigo.
- Não vou voltar, senhor Licínio. Não aguento mais viver como sua escrava. Eu nasci livre. Lamento por Teodoro, mas não posso mais me sujeitar aos seus desvarios. Eu sou uma pessoa, não gosto de ser tratada como um inseto, e até os insetos são dignos de respeito.
- Você continua atrevida, falando o que quer e sem pensar.
Nesse momento, padre Gastão irrompeu pela porta. Vira quando Licínio entrara na igreja e, dominado pela aflição, tratara de encurtar a missa e terminá-la logo. Aracéli suspirou aliviada, enquanto Licínio permanecia impassível.
- Algum problema? - indagou Gastão, aproximando-se de Aracéli.
- Nenhum, padre - retrucou Aracéli. - O senhor Licínio já estava de saída.
Licínio não contestou. Com um sorriso mordaz, se levantou.
- É verdade, já estou indo - e, dando tapinhas no ombro de Gastão, concluiu: - Que bom que é um homem forte, padre.
Saiu. Gastão não compreendeu o comentário, mas Aracéli ficou alarmada. Tinha esperanças de que Licínio não concretizasse suas ameaças, que se cansasse dela e arranjasse outra escrava para satisfazer seus desejos. Todavia, o olhar maldoso que ele lhe lançara não deixava dúvidas: Licínio seria capaz de tudo para tê-la de volta.
- Padre - começou ela a dizer -, tenho medo do que o senhor Licínio é capaz.
- Ele não pode obrigá-la a voltar.
- Mas pode atentar contra o senhor. E se ele fizer alguma coisa para feri-lo?
- Não acredito nisso. Nada vai me acontecer.
- Tenho medo - ela se atirou em seus braços e repetiu chorando: - Tenho medo do que ele é capaz.
Gastão acariciava os cabelos de Aracéli, até que perguntou:
- Minha filha, responda-me com sinceridade: aconteceu alguma coisa entre vocês? - ela não disse nada. - O senhor Licínio lhe fez algo que não deveria? Vamos, pode me dizer. Não tenha medo.
Ela quase contou, mas não queria preocupá-lo com algo que já não tinha mais remédio. Todavia, mentir que nada acontecera não o convenceria, e ela resolveu relatar parte da verdade:
- Ele tentou. Quer que eu seja sua amante.
- E você?
- Eu o odeio.
Gastão sabia que a pergunta não fora bem respondida, mas conformou-se. Pela própria vibração de Aracéli, sentia que Licínio havia ultrapassado o limite da mera tentativa. Todavia, não desejava violar sua intimidade, sabendo o quanto seria doloroso e vergonhoso narrar os ultrajes a que Licínio poderia tê-la submetido. E aquilo não tinha mais importância. O importante era que ela voltara para sua casa e não precisaria mais retornar ao convívio daquele homem detestável.
- Eu jamais deveria ter consentido que você fosse trabalhar na casa dele - lamentou-se o padre.
- Fui porque quis, porque queria experimentar coisas novas, e acabei me afeiçoando a Teodoro. A única coisa que me entristece é saber que vou fazê-lo sofrer.
- Ele é uma criança, logo esquece. E tem mãe.
Teodoro não teria tempo de esquecer, porque Licínio não esqueceria e, mais cedo do que Aracéli imaginava, daria seu jeito para levá-la de volta.

CAPÍTULO 18

Licínio entrou em casa espumando de ódio. Aquilo não ficaria assim. Aracéli não era ninguém para desobedecer-lhe, e o padre não tinha o direito de se interpor entre eles. Teodoro correu para o pai, pedindo colo, e ele levantou o menino, por instantes se esquecendo do próprio ódio.
- Onde está Aracéli, papai?
- Ela está em casa de padre Gastão, como lhe disse. Precisa ajudá-lo em alguma coisa e depois voltará.
- Ufa! - desabafou ele. - Não foi o monstro então?
- Não existem monstros, meu filho. Aracéli está bem, mandou lembranças e pediu que você aguardasse por ela. Em breve, estará com você outra vez.
- Que bom.
Ao colocar o menino de volta no chão, Licínio percebeu a presença de Esmeraldina, que o fitava com ar de suspeita e indignação. Ela deu ordens para que uma escrava levasse o filho e, quando se viram a sós, anunciou:
- Enviei um bilhete a Marocas, pedindo que me arranje uma criada francesa.
- O quê? Ficou louca?
- Aracéli foi embora. Melhor assim. Teodoro precisa de uma pessoa de classe para cuidar dele.
A vontade de Licínio era agarrar a mulher pelos ombros e proibi-la terminantemente de colocar qualquer outra pessoa no lugar de Aracéli, mas não poderia ser tão imprudente.
- Espere apenas um pouco mais - pediu ele, afagando-lhe as mãos e fitando-a com uma ternura forçada. - Por Teodoro, que gosta tanto dela. Se ela não voltar até o final da semana, você pode sair em busca de sua criada francesa, e eu até a ajudarei.
Esmeraldina não tinha a menor vontade de consentir que aquela selvagem sem linha retornasse a sua casa, mas não queria desgostar o marido e acabou concordando, após um longo suspiro de resignação:
- Está bem. Mas é só até o final da semana, nem um dia a mais. Na segunda-feira, já terei outra pessoa para o lugar de Aracéli.
Até segunda-feira era tempo mais do que suficiente para dar um susto na cabocla e trazê-la de volta. Licínio mandou tirar do garimpo dois escravos de sua mais alta confiança, homens fortes, robustos e, acima de tudo, obedientes. Deu-lhes as instruções devidas, recomendando-lhes que não falhassem, ou se veriam em maus lençóis.
No dia seguinte, na hora do almoço, um bilhete chegou às mãos de padre Gastão:

"Por [avô, padri, venha em meu aussílio. Meu maridu tá morrendo, í por aqui só tem insetu que num tem respeito ninhum por náis; num tem ningum padri pra lhe dá a istrema unção. É urgenti! Moru na istradffla du mato seco, duas curva dispois du morro di San Sebastian. Gradecida i que Deus 1h! pagui. Manuela."
O sacerdote terminou de ler a mensagem, tocado pela simplicidade daquela gente que nem sabia escrever direito. Apanhou as suas coisas e, imediatamente, pôs-se a caminho, montado em seu burrico. Já estava no portão quando Aracéli vinha chegando, descalça, a saia dobrada servindo de cesta para as goiabas que colhera na mata.
- Aonde vai, padre?
- Ministrar uma extrema-unção. Não me demoro.
- Vou fazer doce de goiaba para quando o senhor chegar.
Ele riu e pôs o burrinho em movimento, seguindo devagar pela rua. A casa da mulher ficava um pouco distante da igreja, e ele esperava chegar a tempo de aliviar o coração do moribundo. Preocupado em atender pessoas que, ele pensava, precisavam de sua ajuda, nem lhe passou pela cabeça que aquele pedido de socorro nada era senão uma armadilha.
Em casa, Aracéli jogou as goiabas dentro de uma bacia e foi lavar as mãos. Depois de secá-las, apanhou uma faca e sentou-se para descascá-las e tirar-lhes os caroços. Foi quando viu o papel sujo e amassado esquecido na ponta da mesa. Limpou as mãos no avental e apanhou o papel. Depois que o leu, soltou-o no chão e escancarou a porta, correndo para a rua, na esperança de alcançar padre Gastão. Ele, porém, já havia sumido de vista. Aracéli seguiu o calçamento à sua procura, mas nem sinal dele. Desesperada, pôs-se a chorar.
Ninguém a ajudou nem parou para perguntar o que estava acontecendo. Ela ainda tentou pedir um cavalo emprestado para ir atrás dele, mas não havia quem se dispusesse a emprestar-lhe. Tampouco conseguiu uma carruagem, nem carroça, nem charrete. Nada. Ninguém estava disposto a colaborar com as estripulias de uma cabocla matreira e descalça.
Desanimada, voltou para casa, intimamente rezando para que nenhum mal acontecesse ao clérigo. A referência a insetos naquele bilhete mal escrito deixou-a desconfiada de que Licínio estava por trás de tudo e teria armado um plano para fazer mal ao clérigo.
Ao entrar em casa, parou estarrecida. Sentado na mesma cadeira do outro dia, Licínio comia uma goiaba e fitava, pela janela, a floresta mais atrás.
- Entre, Aracéli - falou ele em tom impassível. - E feche a porta.
Ela obedeceu e sentou-se defronte a ele, sem saber se o agredia ou se implorava para que não machucasse seu pai. Por fim, perguntou:
- Onde está padre Gastão?
- Pelo que li aqui - ironizou ele, apanhando o bilhete do chão -, ele foi dar uma extrema-unção.
- Nós sabemos que isso é mentira. Foi o senhor quem armou essa arapuca.
- Talvez... E talvez possa desarmá-la. Só vai depender de você.
- Ainda há tempo de desfazer tudo isso?
- É claro. Você não acha que eu iria planejar ferir o seu paizinho de saias sem antes lhe dar a chance de se arrepender e remediar o que fez, acha?
- Por Deus, senhor Licínio, o senhor não pode ser assim tão insensível! Deixe-nos em paz. Eu não sou ninguém, e o senhor é rico, pode ter a mulher que quiser.
- Acontece, Aracéli, que eu quero você - ela abaixou a cabeça, lutando para segurar as lágrimas, e ele prosseguiu: -Façamos o seguinte: você volta comigo e o padre retorna para casa ileso. Não acha que é uma troca justa?
- Se o senhor já deu ordens para alguém feri-lo, como pretende impedir uma desgraça?
- Minha cara, o lugar é longe e, montado naquele burrico, ele vai levar, no mínimo, uma hora para chegar. E acontece que tenho dois homens a meu serviço: um está na curva da estrada, aguardando que ele passe para assaltá-lo e dar-lhe uma surra como retribuição pela sua pobreza. O outro está lá fora, à espera de um sinal meu para voar em seu cavalo, passar à frente do padre e avisar o companheiro de que o plano está desfeito. Padre Gastão irá passar, não vai encontrar estradinha alguma e vai retornar indignado, julgando-se vítima de alguma brincadeira de mau gosto.
- O senhor é cruel... Como pode ter idealizado um plano sórdido feito esse?
- Você me dá trabalho. Tive que ficar plantado aqui esperando você sair para o mato e deixar o padre sozinho para então mandar o rapaz entregar o bilhete. Foi cansativo, mas valeu a pena, sabe? Por você, sou capaz de tudo... menos de sacrificar o meu filho e o meu casamento, é claro. E então? O que me diz? Volta comigo ou prefere cuidar das feridas de padre Gastão? - ela engoliu em seco e não respondeu. - Acho bom pensar depressa. O tempo está passando, e pode ser que meu homem se atrase para salvá-lo. E só Deus sabe o quanto um padre, já de certa idade, pode resistir...
- Por favor, não me obrigue a voltar para aquela casa.
- Oh! Mas não a estou obrigando! Você volta se quiser. Mas depois, não lamente as consequências quando vir o 'estrago na ara do padre. Ou o seu corpo num caixão...
Aracéli sentiu um calafrio só de pensar em seu pai morto. Licínio, contudo, não tinha mais paciência de esperar que ela se decidisse e arrematou:
- Muito bem. A escolha é sua.
Disse isso e saiu. Nem bem cruzou o portal e Aracéli já estava atrás dele, gritando em desespero:
- Espere! Não faça isso. Eu vou com o senhor, mas, por favor, não deixe que façam mal a padre Gastão! Impeça seus homens de feri-lo, eu imploro!
- Agora não sei se dá mais tempo. Você demorou muito a se decidir.
- Não! Faço qualquer coisa para salvar padre Gastão. Deito-me com o senhor aqui, agora, mas o senhor tem que salvá-lo!
Licínio deixou escapar o sarcástico riso da vitória. Deu um assobio curto, e logo um escravo apareceu.
- Pode ir, Rufino. O plano está desfeito. Depressa! Não quero que nada aconteça ao padre.
O homem saiu desabalado, e Licínio se virou para Aracéli. Não havia pensado na possibilidade de possuí-la na cama do padre, mas a ideia o agradou.
- Venha - chamou ele, passando na frente dela. - Vai ser bom fazer amor com você em uma cama, para variar. Ainda mais no leito sagrado e imaculado de seu paizinho.
- Não... - sussurrou ela, horrorizada. - Na cama de padre Gastão, não. Não podemos. Venha para a minha...
- Na sua cama não será tão divertido. Agora, se quiser que eu mude de ideia e vá atrás do meu escravo...
A imagem de padre Gastão todo ensanguentado no lombo do burrico fez Aracéli se decidir e conduzir Licínio ao quarto de seu pai. O ambiente era limpo e perfumado, como o resto da casa. A cama era simples, mas muito bem-arrumada e convidativa, com aquela colcha branca de rendas esticada sobre ela. Licínio experimentou o colchão e riu satisfeito. Agarrou a colcha com uma das mãos e puxou-a com força, exibindo o alvo e perfumado lençol. Estendeu a mão para Aracéli, que a apanhou e sentou no colo dele, lutando, como sempre, para não chorar.
- Seja boazinha comigo - considerou ele, alisando o corpo da menina e beijando o seu ouvido. - E serei bom para você.
Aracéli entregou-se sem resistir, engolindo a dor da derrota e de mais aquela humilhação. A sensação de estar vilipendiando o leito sagrado de padre Gastão ainda piorava a sua angústia, e ela se deixava usar por Licínio da forma que ele queria, na esperança de que ele terminasse logo e encerrasse aquela profanação.
Licínio demorou mais do que o usual, regozijando-se com a vitória sobre Aracéli e a conspurcação do lar e do leito imaculados do padre. A sensação de ilicitude divina só fazia aumentar o seu prazer, e ele concluiu o ato sexual sem pressa, aproveitando cada momento de dor e constrangimento de Aracéli.
Ao final, beijou-a longamente e se levantou saciado.
- Vista-se - ordenou ele em seu tom autoritário de sempre. - E vamos embora.
- Não vamos esperar padre Gastão? - retrucou ela incrédula, trocando rapidamente o lençol e esticando novamente a colcha. Pretendia queimá-lo mais tarde, para que seu pai não se deitasse sobre um leito de heresias.
- Padre Gastão vai demorar a chegar, e eu tenho pressa.
- Mas... ele vai ficar preocupado, pensando que algo me aconteceu.
- Você é uma indiazinha esperta e culta, não é? Pois então, escreva-lhe um bilhete. Garanto que ele vai entender.
Aracéli não resistiu e chorou baixinho. Sem contestar, apanhou a pena e o papel e escreveu um bilhete lacônico, informando a Gastão que tivera que voltar à casa de Licínio para cuidar de Teodoro, que adoecera em virtude de sua ausência.
- Está muito bom - elogiou Licínio, tirando o papel das mãos de Aracéli depois que ela escreveu. - Sem lamúrias nem choramingos. Agora, vamos.
- Preciso apanhar algumas roupas.
- Seja rápida.
Aracéli juntou umas poucas roupas numa trouxinha feita com o lençol que tirara da cama e saiu atrás de Licínio, sem esquecer-se de colocar o bilhete na escrivaninha de padre Gastão. Fechou a porta com cuidado e o seguiu até onde ele havia deixado a carruagem. Entrou em silêncio e fitou o vazio, sentindo que o vazio se espalhava pelo seu corpo e dominava sua alma.

CAPÍTULO 19

Só quando chegou a casa foi que padre Gastão compreendeu o motivo daquela troça. Ele não conseguira encontrar o lugar indicado no bilhete e, a princípio, julgara que fora vítima de algum galhofeiro sem fé. Só que não era brincadeira, mas uma estratégia de Licínio para levar Aracéli embora. E o bilhete que ela deixara não o convenceu. Tinha certeza de que Aracéli fora obrigada a partir.
A viagem de ida e volta até a casa fictícia minara-lhe as forças, e ele não poderia ir, naquele mesmo dia, à casa de Licínio buscar Aracéli. Tinha que esperar até a manhã seguinte.
A chegada de Aracéli foi recebida com alegria por Teodoro e desprezo por Esmeraldina. Ela abraçou o menino e cumprimentou a todos, seguindo com ele para o quarto.
- Que bom que o monstro não pegou você, Aracéli - comentou Teodoro.
Ela sorriu e o abraçou, imaginando que fora um monstro que a trouxera de volta e jamais a deixaria partir.
Padre Gastão foi vê-la logo cedo. Aracéli o abraçou de um jeito comovido, felicitando-se interiormente por ver que ele não sofrera nenhum arranhão.
- O que deu em você para partir sem me avisar, minha filha? - indagou ele, assim que se viu a sós com ela, caminhando pelo quintal do casarão.
- Não viu o meu bilhete?
- Vi. No entanto, Teodoro não me parece doente. Por que continua a mentir para mim?
- Não quero mentir para o senhor - sussurrou ela, olhando ao redor e constatando que Licínio estava a uma das janelas, vigiando todos os seus movimentos. - Só queria que estivesse bem.
- Ele a obrigou, não foi? Foi ele quem inventou aquela história toda de extrema-unção só para afastar-me de casa e obrigá-la a voltar. Que argumentos ele usou para convencê-la? - ela não respondeu. - Sei que ele fez alguma coisa. Ele a ameaçou?
- Não.
- Bateu em você?
- Não.
- Atentou contra a sua honra?
Nesse ponto, ela o fitou com amargura e retrucou com um quase desespero:
- O que é a honra, padre? É o que aparentamos no mundo externo ou é a dignidade que carregamos na alma? - ele não respondeu, confuso, e ela prosseguiu: - Mais importante do que tudo, para mim, é saber que o senhor está vivo e bem. O senhor é a minha honra, porque são os seus valores que carrego em minha alma, e não a degradação a que qualquer homem possa submeter o meu corpo.
- O que quer dizer com isso? - horrorizou-se ele. - O que o senhor Licínio fez a você?
- Nada que eu não merecesse.
- Não entendo, Aracéli. O que está dizendo?
- Não é o senhor mesmo quem diz que nada acontece no mundo que não seja da vontade de Deus? - ele assentiu. - Então, por algum motivo, Ele deve achar importante e justo que eu... que nós estejamos passando por tudo isso. Do contrário, nada nos aconteceria.
- Não sei bem o que lhe aconteceu, mas não se revolte contra Deus.
- Ao contrário, padre, é graças a Ele que consigo suportar a dor, exatamente por saber que tudo há de ter um motivo e que Deus somente quer o meu bem. É Ele quem me dá forças.
- Por Deus, Aracéli, o que foi que esse homem fez a você?
- Nada.
- Ele fez, e imagino o que seja. Mas você não precisa temê-lo nem se sujeitar a ele. Pode voltar para casa comigo, podemos até nos mudar daqui.
- O senhor não compreende. Ele irá atrás de mim aonde quer que eu vá. E o pior é o que poderá lhe acontecer caso eu não faça a vontade dele.
- Não tenho medo dele. Não tenho medo de ninguém que seja parte deste mundo, porque aqui não há quem seja mais poderoso do que Deus. E, como você mesma disse, tudo se processa segundo os Seus desígnios.
- Os desígnios de Deus são um mistério, e é por isso que faço a minha parte: para colaborar na realização de Sua obra.
- Minha menina... Quanto amadurecimento em uma alma tão jovem!
- Não se preocupe comigo, pai. Estou bem e tenho Teodoro para me confortar.
Efetivamente, o menino era a única ilha naquele oceano de torpezas, e era através dele que Aracéli via a bondade de Deus. Parecia que Ele lhe enviara um anjo bom para ajudá-la a suportar os reveses da vida. Ela procurou tranquilizar padre Gastão, que voltou para sua paróquia sem conseguir convencê-la a partir com ele.

Nas noites que se seguiram, Licínio não foi à beira do riacho, temendo alimentar as suspeitas de Esmeraldina. Realmente, ela possuía lá as suas desconfianças, mas não queria despertar a curiosidade dos escravos antes que a dúvida tivesse um fundamento real. Mesmo assim, Aracéli comparecia, por ordem de Licínio, que não queria ter a decepção de chegar à beira do córrego ardendo de desejo e não encontrar a amante pronta para saciar-lhe a fome.
Assim que Esmeraldina pareceu desligar-se de Aracéli, Licínio voltou ao riacho, e ela lá estava, aguardando por ele. Agora, porém, estava diferente. Não lhe respondia mais nem se debatia sob seu corpo, entregando-se a ele com uma passividade irritante. Licínio gostava de demonstrar sua superioridade, o que só seria possível se ela o provocasse ou contradissesse. Ela, contudo, nada fazia. Limitava-se a se deitar sobre o cobertor e permitir que ele a usasse como bem entendesse. Depois, quando ele dava a noite por encerrada, ela simplesmente se levantava e ia embora.
Licínio voltava para o quarto decepcionado. Gostava da vivacidade e do vigor de Aracéli. Sua resistência o estimulava. Excitava-o sua rebeldia. Só que Aracéli, após o susto com o padre, passara a agir como uma boneca sem vida ou uma estátua fria. Quem sabe não era uma estratégia para que ele se cansasse dela e a despedisse? Ainda assim, ela exercia sobre ele inexplicável fascínio e, fosse como fosse que ela agisse, ele jamais a deixaria partir.
- Onde você esteve? - ele ouviu a voz de Esmeraldina assim que entrou no quarto. - Foi urinar?
- Se você já sabe, por que pergunta?
Mais uma vez, ele vinha cheirando a suor e sexo. Fazia tempo que Licínio não se ausentava à noite, e agora, refletindo melhor, Esmeraldina percebia que ele não saíra desde que Aracéli se fora, somente voltando a fazê-lo depois de seu retorno.
Estranhamente, naquela noite, Licínio lhe servira vinho em excesso, causando-lhe uma sonolência gostosa e irresistível. Logo ferrara no sono, até que, de repente, sentira uma espécie de cutucão nas costelas e abrira os olhos. Não vira o espírito ávido de Soriano, que fora quem a despertara, mas percebera uma presença no quarto e chamara pelo marido. Licínio não respondera, e ela custara a se convencer de que estava só. O lugar vazio dele a sobressaltara, e ela se pôs desperta, até que ele entrou em seguida.
- Com quem esteve? - era Esmeraldina novamente.
- Não preciso de companhia para urinar. Estava sozinho.
Ela não disse nada e se virou para o lado, imaginando se Aracéli passara a noite toda no quarto de Teodoro. Custou muito a dormir e, no dia seguinte, assim que Licínio saiu para vistoriar o garimpo, mandou reunir os escravos.
- Muito bem - começou ela em tom imponente e intimidador. - Quero saber se alguém percebeu algum movimento estranho na casa nos últimos tempos. Qualquer coisa - ninguém disse nada, e ela prosseguiu, apontando para uma escrava mais velha: - Você! Viu alguma coisa?
A escrava meneou a cabeça e falou com os olhos voltados para o chão:
- Não vi nada, sinhá.
- E você? - indagou à outra, que também balançou a cabeça em negativa. - Será possível que ninguém percebeu nada estranho ultimamente? Nem quando estive fora?
Uma escrava novinha e magricela deu um passo à frente e anunciou:
- Aconteceu uma coisa, sinhá.
- O que foi, Zenaide? Pode falar.
- Não sei se tem importância...
- Deixe que eu decido o que é importante. Fale logo. O que você sabe?
Zenaide olhou para os demais, dando mostras de que estava prestes a revelar um importante e comprometedor segredo, e Esmeraldina fez sinal para que os outros escravos saíssem. Só então ela começou a contar:
- Bom, uma vez, a senhora estava viajando, e o sinhô Licínio me mandou buscar Teodoro na beira do córrego lá embaixo. Eu fui. Cheguei lá, o menino estava nadando sem roupas com aquela índia.
Esmeraldina ergueu uma sobrancelha e inquiriu:
- Aracéli também estava sem roupas?
- Estava.
- O que mais?
- Eu apanhei o menino, conforme sinhô Licínio mandou, e ela ficou reclamando. Queria que ele se vestisse, mas o sinhô me deu ordens para levar ele como estivesse. Não queria esperar. Eu achei que não era certo sair andando com o menino pelado por aí, mas não podia desobedecer o sinhô Licínio. Peguei o menino no colo e voltei para casa.
- E Aracéli?
- Ficou lá, lutando com a roupa. Eu chamei ela de desavergonhada, mas ela não se importou, não. Essa gente índia não tem pudor, sinhá Esmeraldina.
- E depois?
- Bom, depois que eu entrei com o menino, não vi mais nada. O sinhô Licínio havia saído, e fui eu que tive que vestir Teodoro, porque a índia ficou lá de moleza e não voltou.
- Ela não voltou? Hum... E você tem certeza de que o senhor Licínio não estava em casa?
- Eu procurei ele para dizer que o menino já havia chegado, mas não encontrei.
Durante alguns minutos, Esmeraldina ficou remoendo a dúvida e a raiva, até que tomou uma decisão:
- Vou incumbi-la de uma tarefa, Zenaide. Acha que conseguirá cumpri-la?
A escrava estufou o peito e respondeu cheia de si:
- O que a sinhá mandar. Sou boa em cumprir ordens.
- Pois bem. O que irei lhe dizer deve ficar apenas entre nós. Se descobrir que você contou a alguém, mando cortar-lhe a língua.
- Cruz-credo, sinhá! Não conto nada, não.
- Muito bem. Quero que você vigie Aracéli.
- Vigiar aquela índia malcriada?
- À noite. Se ela sair do quarto de Teodoro, quero que a siga.
- Por quê?
- Porque eu estou mandando! - aborreceu-se. - E se você a vir com o meu marido ou com qualquer outro homem, fique quieta e corra para me contar. Mesmo que eu esteja dormindo, quero que me acorde.
- Sim, sinhá.
- E lembre-se: não diga nada a ninguém. Se você se sair bem, far-lhe-ei um agrado.
Zenaide deu um largo sorriso, imaginando que Esmeraldina a presentearia com alguma joia maravilhosa, já antegozando um colar de esmeraldas em seu pescoço. E seria muito bom descobrir algum pecado daquela índia metida, que se julgava superior só porque era cria de um padre.
Sinhá Esmeraldina iria ver do que ela era capaz. Não falharia.

CAPÍTULO 20

Aracéli dormia um sono agitado, com o espírito de Soriano parado a seu lado, fitando seu rosto com ódio. Aquele artifício de reencarnar como mulher não servira para ludibriá-lo, pois ele conhecia bem as suas artimanhas. Estava ligado a Alejandro pelo ódio, e somente depois de ultimar a sua vingança é que poderia descansar.
Subitamente, uma luz começou a brilhar perto da janela, e ele procurou as sombras para se ocultar. Se fosse algum espírito iluminado, seria visto de qualquer jeito, mas a ilusão de estar encoberto lhe trouxe segurança, e ele recuou para dentro da penumbra. Aos poucos, uma figura feminina foi-se delineando em meio à claridade suave, até que ganhou corpo, e a forma translúcida de sua antiga noiva, Cibele, surgiu diante de seus olhos.
Ele deu um salto da escuridão e se postou em frente a ela, sem voz, imaginando de que paraíso estelar teria surgido aquela presença. Cibele sorriu para ele, que permanecia retraído, sem saber se acreditava ou não em que seus olhos viam.
- Não tenha medo, Soriano - falou o espectro de luz. -Sou eu mesma, Cibele.
- Não... não é possível - gaguejou ele. - Cibele me abandonou há muitos anos.
- Só porque você não me via não significa que não estive a seu lado.
- Você esteve?
- Não pude unir nossos corpos astrais, porque você optou por viver num mundo no qual eu não podia penetrar. Mas muitas foram as vezes em que rezei por você e senti o seu apelo quando pensava em mim.
- Ah! Cibele! Como eu gostaria de poder tocá-la novamente Tenho me sentido tão só aqui...
- Por que não vai embora?
Ele riu amargamente e respondeu com tristeza:
- Para onde? Não há nada para mim além deste mundo.
- Quanto pessimismo! Somos espíritos livres. Podemos ir aonde quisermos.
- Não é bem assim... Existem aqueles que me aprisionaram na treva e não me permitiriam sair.
- São as suas culpas que o aprisionam. É por causa delas que você mantém vivo o vínculo que o prende a seus captores. Se romper a sintonia com eles, vai conseguir sair.
- Como?
- Comece a pensar de forma diferente. Reconheça e aceite a culpa como elemento transformador. Depois, descarte-a. Você não precisa dela para manter viva a sua essência.
- Você fala em culpas com muita propriedade, mas quem tem do que se culpar é aquele assassino ali!
Soriano apontou para Aracéli, e Cibele apanhou a mão dele fechando-a na sua.
- Por que aponta os crimes de outro quando você mesmo foi autor de muitos crimes? - indagou ela, virando a mão de Soriano para o peito dele e abrindo-a sobre o coração. - Você também foi assassino e só não matou Alejandro porque ele foi mais ágil e mais esperto.
- Você não sabe o que ele fez comigo! - esbravejou, esquivando-se da aura de luminosidade de Cibele e procurando um canto de sombras. - Entregou-me para aqueles índios do inferno. E veja!
Soriano rasgou a camisa, exibindo o talho no abdome, por onde ainda afluía grande quantidade de sangue.
- Eu morri e não paro de sangrar. É a minha sina, a maldição que ele fez recair sobre mim!
Sem se importar com o sangue que agora jorrava e descia até o chão, Cibele o abraçou, envolvendo-o num halo cintilante e suave.
- Este mundo é repleto de ilusões. O sangue que derrama de você flui primeiro da sua mente. Se você deixar de acreditar na ferida, deixar de senti-la e vir a si mesmo como um homem são, seu corpo fluídico vai se recompor e você vai ver que não há nada aí além do que deveria estar.
Ela colocou uma das mãos sobre a ferida aberta e outra na fronte de Soriano, e o sangue encharcou os seus dedos. Após curtíssimo momento, como por milagre, a sangueira estancou, e as manchas vermelhas se dissiparam no ar feito éter. Não havia, em lugar algum, vestígio de sangue.
- Você fez um milagre! - exclamou Soriano, embevecido. - Cibele, você é um anjo de luz!
- Não fiz nada de mais. Eu apenas desviei momentaneamente o seu padrão mental da ferida sangrenta. Todavia, se você não alimentar essa crença, se a sua mente se voltar outra vez para a convicção de que há um talho na sua barriga que não para de sangrar, não serei eu que poderei conter o sangramento.
Em poucos instantes, como que cumprindo uma profecia, o sangue voltou a jorrar do abdome de Soriano, que o apertou freneticamente, na esperança vã de fazê-lo parar.
- Faça alguma coisa! - implorou ele. - Ponha as suas mãos milagrosas novamente sobre mim!
- Não crie ilusões desnecessárias, Soriano. Você é o responsável pela cura de si mesmo. Já lhe mostrei o caminho, agora cabe a você segui-lo ou não.
Soriano arriou no chão e começou a chorar, enquanto Cibele permanecia quieta, em silenciosa oração. Aos poucos, um fio energético e invisível foi-se estendendo para ele e penetrando por todo o seu corpo fluídico, levando-lhe uma sensação de conforto e paz. Como ele conseguira se acalmar, a prece de Cibele foi capaz de estabelecer uma união com a mente de Soriano, afastando de seus pensamentos a sensação da ferida.
O sangue parou de jorrar, e embora o talho permanecesse aberto no mesmo lugar, apenas um filete avermelhado percorria-lhe a extensão. Cibele estendeu a mão e alisou os cabelos de Soriano, que levantou os olhos e a encarou com gratidão.
- Leve-me daqui, Cibele - pediu ele. - Não aguento mais.
- Para vir comigo, basta querer.
Ele apanhou a mão dela, mas, assim que se levantou, colocou-se de frente ao leito de Aracéli, e o antigo ódio ressurgiu com toda intensidade.
- E ela? - perguntou, indicando Aracéli.
- Vai prosseguir com a sua vida.
- Se eu for embora, perderei o contato com ela?
- Certamente.
Ele soltou a mão de Cibele e se aproximou da cama.
- Não posso permitir que ela viva uma vida de felicidade enquanto eu me martirizo neste inferno.
- Disse-o bem, Soriano. É você quem se martiriza. Ninguém está lhe impondo o sofrimento.
- Ela! Ela fez isso comigo!
- Alejandro encontrou seus próprios meios de se reequilibrar com a vida. Por que não pensa em uma maneira de fazer o mesmo?
- Não posso permitir que ela seja feliz.
- Ela não é feliz. Não vê o que seu amigo Lúcio faz com ela?
- Bem feito!
- Não é benfeito nem malfeito. É o necessário, porque ela assim acreditou que seria. Aracéli já tem o seu fardo para carregar. Será que precisa de você para se debruçar sobre ele e acrescentar-lhe mais peso?
Soriano se voltou e fitou Cibele nos olhos, sentindo o quanto ainda a amava. O amor, contudo, não era mais poderoso do que o ódio que alimentava por Alejandro.
O que deseja, Cibele? - perguntou ele com voz sofrida.
- Não desejo propriamente nada. Pensei apenas que poderia despertar em você a compreensão da vida e a vontade de se modificar.
- Eu gostaria. Mas não saio do lado desse assassino enquanto não conseguir me vingar.
- Posso saber como seria essa vingança?
- Aracéli tem que morrer. Do lado de cá, vou providenciar a sua derrota definitiva.
- Alejandro já esteve do lado de cá, e você nada pôde contra ele. Ao contrário, foi o encarregado de seu esclarecimento a respeito da morte de seu corpo físico. Por que acha que, agora que Alejandro se modificou e se transformou em Aracéli, muito mais amadurecida, confiante e digna, você vai conseguir o seu intento?
- Eu tenho que tentar. Se não conseguir aprisioná-la, ao menos a terei feito sofrer e morrer.
- Morrer não é a pior coisa que pode acontecer a alguém em vida. Ao contrário, a morte é a chave da prisão. Só quando morremos nos libertamos das ilusões deste mundo e começamos a vislumbrar o caminho da verdade.
- Você fala muito bonito, Cibele, mas isso não é para mim. Vou conseguir matar Aracéli, você vai ver.
- Você não tem esse poder.
- Mas conheço quem tem e tudo vou fazer para inspirá-lo. Ou você vai tentar me impedir?
- Não posso. Não da maneira como você pensa.
- E de que maneira seria?
- Eu vou retornar, Soriano.
- Como assim, retornar?
- Vou reencarnar.
- Você vai voltar para lá? - ele apontou para o quarto e continuou sonhador. - Como eu gostaria de estar no seu lugar!
- Você pode estar não no meu lugar, mas comigo.
- Como?
- Posso esperar por você. Podemos planejar alguma coisa juntos.
- Você pode me esperar para ser minha mulher?
- Posso. Mas você vai ter que desistir de Aracéli.
- O que me pede é impossível, é maior do que minhas forças. Vingar-me de Alejandro é um sentimento poderoso que está infiltrado em meu próprio sangue.
- É por isso que ele não para de fluir. Quer mostrar a você o desperdício de energia que é a vingança.
Ele hesitou por uns momentos, e Aracéli remexeu-se na cama, atingindo sua atenção. Soriano permaneceu alguns minutos explorando o sono dela, para ver se teria acesso a seu corpo fluídico, mas ele estava adormecido junto com o físico e protegido por uma espécie de cerca energética que impedia sua aproximação.
- Amo você, Cibele - declarou ele, encarando-a com olhos úmidos. - Mas não posso desistir de Alejandro. Não depois de tudo por que passei para vê-lo sofrer. Fico feliz que você tenha a chance de reencarnar e gostaria de estar com você. Mas não posso. Tentarei acompanhar a sua nova jornada e, quem sabe, mais tarde, numa próxima vida, não poderemos nos reencontrar?
- Tudo é possível. E foi com essa esperança que pensei convencê-lo. Você não mudaria de ideia nem se soubesse que, prejudicando Aracéli, vai também me atingir?
- Isso é impossível! Você e Aracéli nada têm em comum. Ela está do lado de lá, e você, do lado da luz.
- Por enquanto. Não disse a você que vou reencarnar?
- Sim, mas...
- Vou reencarnar como filha de Aracéli, Soriano. E se você a matar, estará matando também a mim.
- Não!
- Os arranjos já estão feitos. Em breve, Aracéli vai engravidar de Licínio, e será a mim que ela carregará no ventre.
- Você não pode fazer isso!
- Já fiz. Foi a única maneira que encontrei de tentar evitar que você continue alimentando esse ódio insano. Isso tem que acabar.
- Você não compreende. Licínio não vai deixar Aracéli viver se souber que ela espera um filho seu.
- Pois então, tente impedi-lo. Com a mesma força que você busca matar Aracéli, lute pela minha vida. É a sua chance de se reencontrar com Deus.
- Mas você disse que poderia me esperar!
- E foi por isso que Aracéli não engravidou ainda. Porque eu tinha que falar com você primeiro e lhe dar essa chance. Mas você não a aceitou.
- Espere! Posso mudar de ideia. E se eu reconsiderar? Quero que você me espere. Vou voltar com você, e vamos reencarnar juntos. Por favor, não cometa essa loucura de reencarnar como filha de Aracéli.
- Suas palavras não são sinceras, Soriano. Posso ler em sua mente os sinais da mentira. Assim que eu desistir, você vai retomar os seus planos de vingança e se esquecer do compromisso que assumiu comigo.
Soriano silenciou. Ela tinha razão. Não estava sendo sincero nem conseguiria mudar de atitude tão rapidamente. O que ele pretendia, na verdade, era demover Cibele daquela ideia tenebrosa, porque não poderia prejudicar Aracéli se isso afetasse também a sua amada.
- Sinto muito - desabafou ele. - Eu queria que fosse assim, mas você tem razão. Não estou preparado para desistir de Alejandro.
- Você terá todos os motivos para reconsiderar. Ao pensar em destruir Aracéli, pense que me destruirá junto com ela. Antes ou após o meu nascimento, estaremos unidas em tudo, para o que nos acontecer de bom ou ruim.
Diante do ar estarrecido de Soriano, Cibele se despediu. Pousou-lhe um beijo terno nos lábios e esvaneceu num halo de luz, antes que ele pudesse protestar ou dizer qualquer outra coisa. Mesmo após a sua saída, sentia-se envolvido em doce perfume, que refrescava o seu coração e desanuviava sua mente, dando-lhe a oportunidade de raciocinar sem a trava da vingança.
Ele achava que o ódio por Alejandro era maior do que o amor que sentia por Cibele, mas ela conseguira plantar a dúvida em seu coração. Realmente, era mais fácil vingar-se do desafeto sabendo que a amada estava em segurança e muito bem protegida Todavia, como atentar contra a vida do outro e, ao mesmo tempo, aniquilar a única mulher que amava e que defenderia com a própria vida? Seria ele capaz de tirar a vida de alguém assim?
A resposta mais provável era que não.

CAPÍTULO 21

Nada do ocorrido naquela noite ficou registrado na mente de Aracéli, que sequer tomara conhecimento do drama que se desenrolara bem diante de seu leito. Conseguira até dormir mais tranquila, porque Licínio, temendo a atitude da mulher, não fora ao seu encontro naquela noite. Zenaide, contudo, a seguira até a beira do rio e, no dia seguinte, quando Licínio saiu para vistoriar o garimpo, foi logo contar tudo a Esmeraldina.
- E então, menina, o que foi que você viu? - indagou a mulher.
- Aracéli saiu do quarto no meio da noite, sinhá. Foi até a beira do rio, estendeu o cobertor e ficou lá sentada, olhando as estrelas.
- Ninguém apareceu?
- Ninguém.
- Muito bem. Pode ir.
Então era lá que eles se encontravam? Na beira do riacho, Bem perto de casa? O que Zenaide lhe dissera fazia sentido. Ela ficara acordada até tarde e adormecera com o corpo quase todo sobre o do marido, de forma que, se ele tivesse saído, ela teria percebido. Também não bebera vinho ao jantar. Licínio adquirira o hábito de servir-lhe além do necessário, e ela não pretendia mais se deixar embebedar para facilitar-lhe as fugas.
Na noite seguinte, o mesmo sucedeu. Esmeraldina recusou o vinho e custou muito a dormir, despertando ao menor sinal de ruído ou movimento dentro do quarto. Com isso, Licínio não conseguiu sair, e o que Zenaide teve a contar foi o mesmo do dia anterior. Aracéli saíra sozinha, esticara o cobertor e depois voltara para casa.
Na terceira noite, tudo igual, embora Esmeraldina já demonstrasse os sinais do cansaço que a falta de sono produzia. Mais uma noite, e ela começou a cochilar tão logo se deitou, mas ainda despertava quando percebia que Licínio se mexia a seu lado. Na quinta noite, contudo, não resistiu mais. As noites mal dormidas começaram a pesar, e ela ferrou no sono assim que seu corpo bateu na cama. Licínio esperou até que ela começasse a ressonar e experimentou movimentar-se. Esmeraldina soltou um ronco alto e virou para o lado, fazendo ruídos enquanto se encolhia sob o lençol.
Certificando-se de que ela dormia pesadamente, Licínio se levantou. Vestiu-se e saiu porta afora feito uma bala de canhão. Rápido e cheio de um fogo que lhe devorava as entranhas. Aracéli o aguardava no lugar de sempre, deitada no cobertor e de olhos cerrados. Licínio chegou apressado e, sem dizer nada, começou a despi-la, dando início ao seu ritual de amor.
De trás dos arbustos, Zenaide quase tombou sobre eles, tamanho o espanto que experimentava. Finalmente, alguém aparecera e, para sua felicidade, era justo o seu senhor. Esmeraldina lhe havia recomendado que voltasse ao quarto e a avisasse imediatamente, mas o fascínio da cena a paralisou. Uma inveja muda arrebatou o coração da escrava, que se pôs a imaginar-se no lugar de Aracéli, desfrutando da alegria de ser a preferida de Licínio.
Perdida em seus devaneios, Zenaide quase deixou a oportunidade escapar. Contudo, percebendo que Licínio havia terminado, e temendo que Esmeraldina lhe desse uma surra, abandonou o seu posto e voltou correndo, sacudindo a mulher com veemência.
- Acorde, sinhá Esmeraldina, ele está lá! O sinhô Licínio está lá na beira do riacho com Aracéli!
Esmeraldina teve que sacudir a cabeça várias vezes até perceber o que estava acontecendo. Ao ver a escrava gritando a seu lado, compreendeu tudo. O lugar de Licínio estava vazio, o que significava que ele estava nos braços daquela índia vagabunda.
- O que está dizendo, Zenaide? - sobressaltou-se Esmeraldina, enquanto acendia a vela na mesinha. - Que meu marido está lá na beira do rio com aquela cabocla?
- Sim, sinhá. Já deve até estar voltando.
- Por que não veio logo me avisar, sua estúpida? Eu não mandei que viesse falar comigo assim que alguém aparecesse por lá?
- Ai, sinhá, não me castigue, não. Fiquei com medo de sair de trás dos arbustos e sinhô Licínio me ver.
- Saia daqui! Não quero que ele a encontre.
A escrava saiu correndo bem a tempo de sumir de vistas quando Licínio chegou. Ele estranhou a luz em seu quarto e teve um mau pressentimento. Mesmo assim, entrou. Esmeraldina estava sentada em uma poltrona, as mãos fechadas sobre o colo, fitando-o com ar austero e frio.
- Dina! - espantou-se ele. - O que está fazendo acordada?
- Eu é que pergunto Licínio. Por que não está na nossa cama? E não me diga que foi urinar. Não aguento mais ver você ultrajar a minha inteligência.
Ele se aproximou em silêncio, sem saber o que dizer, e ajoelhou-se ao lado dela.
- Você é a única mulher que eu amo - desabafou, em tom que pareceu de desculpa.
- Ainda assim, você sai do nosso quarto sorrateiramente, no meio da noite, para se encontrar com aquela selvagem indecente e sem-vergonha!
- Do que está falando?
- Não adianta fingir, Licínio! Já sei de tudo. Você foi visto com aquela índia na beira do riacho, fazendo sabe-se lá o quê!
- Quem foi que lhe contou uma infâmia dessas?
- Atreve-se a dizer que é mentira? Por acaso você me toma por alguma camponesa ingênua e estúpida? Sei muito bem que você e Aracéli andam dormindo juntos.
Ela começou a caminhar nervosamente pelo quarto, e Licínio a acompanhava aturdido, dando voltas ao redor do próprio corpo, tentando encontrar uma desculpa convincente para dar. Não havia nenhuma. Esmeraldina era uma mulher vivida e inteligente, e qualquer coisa que ele dissesse soaria como um insulto.
- Perdoe-me, Dina - gemeu ele, vendo-se encurralado e sob pressão. - Ela não significa nada. Nada! Você é a mulher que eu amo.
- Então você confessa! Admite que se deitou com aquela índia? - ele assentiu envergonhado. - Que decepção, Licínio! E logo com uma cabocla suja?
- Ela não é suja...
- Não a defenda! Jamais ouse defender outra mulher em minha presença!
- Por Deus, Dina, ouça-me. Aracéli não representa nada para mim. É só um brinquedo, um objeto, uma coisa. Só me serve para o sexo. Não sinto nada por ela além de desejo. É a você que eu amo.
- Suponho que isso deveria servir-me de consolo.
- Não seja irônica.
- Você é quem está de ironias! Como pode chegar aqui e, descaradamente, admitir que tem dormido com a índia? Não tem vergonha? E o respeito? Perdeu o respeito por mim e por si mesmo?
- Tente compreender. Eu sou homem... ela ficou se insinuando. Você foi viajar, me deixou sozinho. Queria ter você, e você não estava aqui. No princípio, consegui me controlar. Mas a fome de sexo foi aumentando com a sua ausência, até que, um dia, não resisti mais. Quando Aracéli me provocou...
- Chega!
- Coloque-se no meu lugar - prosseguiu ele, sem dar ouvidos ao protesto de Esmeraldina. - Que homem se priva de sexo por muito tempo? Com certeza, nenhum. Você me deixou abandonado por quase três meses, Dina. Três meses! Por pouco, não enlouqueci.
- E resolveu se atirar nos braços da primeira vagabunda que apareceu, não foi?
- O que mais eu podia fazer? Aracéli ficava por aí, me provocando com aquele jeito brejeiro. Por várias vezes me contou o quanto era livre. Um dia, mandei Zenaide buscar Teodoro na beira do rio e, como ela estava demorando, fui ao seu encontro. Qual não foi a minha surpresa ao encontrar Aracéli completamente nua, junto com nosso filho. Imagine só o exemplo que ela estava dando a ele. Nadando nus, os dois! - ele fez uma pausa dramática, avaliando a reação dela, e prosseguiu: - Embora indignado, o pudor me impediu de me aproximar. Não queria que a escrava e meu filho vissem o meu constrangimento diante da nudez da cabocla. Mas não podia permitir aquele descaramento. Aracéli não tinha o direito de expor nosso filho a tanta falta de vergonha. Esperei até que Zenaide o levasse para dentro e só então me aproximei. Queria repreender Aracéli com todo o ímpeto de minha cólera, mas sabe o que ela fez? Atirou-se sobre mim e começou a me beijar e acariciar o meu corpo em partes que nem você, que é minha mulher, se atreve a tocar.
Nesse momento, Esmeraldina não conseguiu conter a repulsa e gritou contrariada:
- Basta! Poupe-me da sordidez de sua lascívia. Não quero escutar mais nada.
- Digo isso só para que você compreenda como é difícil para um homem sozinho resistir à provocação das mulheres. Aracéli pode ser índia, mas é jovem e bonita. Como acha que eu poderia resistir à tentação?
- Ela era virgem?
- Virgem? Que nada! - mentiu, e a mentira lhe deu um nó na garganta, que ele procurou engolir. - Já deve ter tido muitos homens antes de mim.
- E foi essa mulher que você trouxe para dentro da nossa casa, para cuidar de nosso filho!
- Como é que eu iria saber?
- Quando descobriu, deveria tê-la mandado embora.
- Deveria, mas não fiz. Esse foi o meu erro. Os prazeres que ela me oferecia eram tantos e tão diversos, que não consegui. Por isso, me penitencio e peço, humildemente, o seu perdão.
Ele se atirou aos pés de Esmeraldina, beijando-os em sinal de arrependimento e submissão. Foi tão convincente em seu teatro que ela se comoveu. Por uns instantes, tentou manter a postura da mulher austera e inflexível, mas logo se deixou amolecer e passou a mão gentilmente sobre a cabeça de Licínio.
- Não deveria perdoá-lo - falou com altivez. - Mas compreendo a sua fraqueza de homem. Aracéli é que não presta e deve, imediatamente, ser afastada desta casa.
- Como quiser, minha querida - concordou ele, mantendo a cabeça abaixada para que ela não percebesse a sua contrariedade.
- Quero que a mande de volta a padre Gastão agora mesmo. E diga a ele que, a partir de hoje, não precisaremos mais de seus serviços religiosos. Vou encontrar outro padre que não carregue uma meretriz na barra da batina.
A cabeça de Licínio girava com rapidez, tentando encontrar uma solução para aquele dilema. Não poderia simplesmente desfazer-se de Aracéli. Não estava ainda preparado para ficar sem o seu corpo quente e a sua boca macia. No entanto, não tinha forças para contrariar Esmeraldina, e o medo de que ela o deixasse foi-se transformando em pânico. Se não podia prescindir do corpo de Aracéli, era-lhe impossível viver sem a alma de Esmeraldina.
- Vou providenciar isso agora mesmo - anunciou ele, beijando a bainha da camisola da mulher. - E obrigado, amor da minha vida, por me perdoar e me dar uma segunda chance. Verá que não a decepcionarei e tudo farei para corrigir o meu erro.
Ele se levantou e beijou-lhe as mãos com reverência, saindo apressado para o quarto de Teodoro, onde Aracéli devia estar dormindo tranquilamente. No trajeto até os aposentos do filho, foi lutando com a mente para descobrir um meio de preservar as duas mulheres. Esmeraldina, que já o perdoara, continuava intocável em seu lar. Quanto a Aracéli, já sabia o que fazer.

CAPÍTULO 22

- Levante-se e vista-se! - ordenou Licínio, batendo nos ombros de Aracéli com exagerada impetuosidade.
Com o sono ainda leve de quem acabou de adormecer, Aracéli abriu os olhos rapidamente, surpreendendo-se com o olhar terrível e assustador de Licínio.
- Levante-se, já disse! - repetiu ele, quase derrubando-a da cama.
- O que aconteceu? - opôs ela, tentando erguer o corpo em meio aos sacolejos.
- Não discuta comigo, vagabunda! - exasperou-se. Seus dias nesta casa terminam hoje.
Com a gritaria, Teodoro despertou e fitou os dois cheio de susto. Sem nada entender, começou a chorar e saltou no pescoço de Aracéli.
- O que é isso, Aracéli? - choramingou o menino. - O monstro voltou?
- Não é o monstro - acalmou ela. - É seu pai.
O olhar de espanto do menino, que não reconhecera Licínio gesticulando no escuro, atravessou o coração do homem como uma agulha incandescente. Não queria deixar marcada no filho uma imagem de monstro, mas não tinha jeito. Ele agarrou a criança com força e puxou-a do colo de Aracéli, fazendo-a berrar e se debater.
- Me solta! Me larga! - gritava ele. - Quero ficar com Aracéli!
- Lamento, meu filho, mas, de agora em diante, Aracéli não trabalha mais aqui - e, virando-se para a moça, continuou a esbravejar: - O que está esperando? Não ouviu a minha ordem, meretriz?
Aracéli se levantou magoada. Ele estava fazendo um estardalhaço, atraindo a atenção dos escravos, que se assomavam à porta sem coragem de entrar. O mais rapidamente que pôde, Aracéli se vestiu e juntou suas coisas. Licínio fez sinal para os escravos, e Zenaide se adiantou, pegando Teodoro de Nus braços. O olhar de triunfo que lançou a Aracéli esclareceu tudo, tanto para ela quanto para Licínio.
Teodoro passou para o colo de Zenaide aos prantos, batendo nela e esticando os braços para alcançar Aracéli. A índia passou por todos de cabeça erguida e, ao cruzar com Zenaide, aproximou a cabeça do ouvido do menino e soprou:
- Não chore, Teodoro. Mesmo que eu vá embora, meu coração permanecerá junto ao seu.
O menino a fitou em lágrimas, mas se acalmou. Todas as pessoas da casa estavam nas proximidades, menos Esmeraldina. Licínio passou por eles também e agarrou o braço de Aracéli, puxando-a para o lado de fora.
- Fomos descobertos - foi só o que conseguiu sussurrar, enquanto saía com ela de casa.
Ele já havia dado ordens para que encilhassem dois cavalos e saiu puxando a montaria de Aracéli. Cavalgaram por um bom tempo, e ela começou a temer por sua vida. Do jeito que ele estava, parecia que ia matá-la. Chegaram a um casebre em ruínas e entraram.
- O que vai fazer comigo? - perguntou ela, mal ocultando o receio. - Por que me trouxe aqui? Que lugar é esse?
- Não faça tantas perguntas - respondeu ele, fitando-a diretamente nos olhos. - E não tenha medo, nada vai lhe acontecer. Vejo este casebre sempre que venho ao garimpo. Não sei a quem pertence, mas vai servir para você passar a noite. Amanhã, verei o que fazer com você.
- Acha mesmo que eu vou ficar aqui?
Ele apanhou uma corda e esticou-a, anunciando com certo sadismo:
- Tenho certeza.
Era demais a humilhação. Aracéli pensava que já havia se submetido a tudo, mas aquilo ultrapassava todo tipo de aviltamento a que alguém poderia se expor.
- Não faça isso - horrorizou-se. - Não sou um animal para ser amarrado.
- Acontece que, se eu deixá-la solta, você vai voltar correndo para a barra da saia do seu paizinho. E isso eu não posso permitir.
- Não vou fugir. Por favor, aceite a minha palavra.
Ele a olhou em dúvida e retrucou:
- E se você fugir?
- Se fugir, o senhor sabe onde me encontrar e conhece os meios para me castigar.
Licínio a fitou em dúvida, mas acabou concordando:
- Está certo. Vou dar-lhe um voto de confiança. Mas lembre-se: se tentar me enganar, nunca mais tornará a ver o seu padreco.
- Não se preocupe, dou-lhe a minha palavra.
- Ótimo.
- Será que o senhor não poderia contar a padre Gastão o que aconteceu?
- O quê? Dizer a ele que você é meu objeto de deleite? Nada me daria mais prazer, mas talvez não seja aconselhável no momento.
- Ele não sabe o que houve. Vai procurar por mim e ficar preocupado.
- Talvez você tenha razão. Foi uma das exigências de Esmeraldina que padre Gastão não reze mais missas em minha casa.
- Como foi que ela descobriu?
- Tenho quase certeza de que foi Zenaide quem contou, mas isso não importa agora.
- E como foi que Zenaide soube?
- Esmeraldina estava desconfiada e deve ter botado Zenaide para nos espionar. Isso também não me interessa. O fato é que não posso arriscar a felicidade do meu casamento.
- Por que não me deixa partir? - revidou ela, em súplica. - Já não está cansado de mim? E agora que dona Esmeraldina descobriu, não poderemos mais nos ver. Por favor, deixe me voltar para a casa de meu pai.
- Nunca! Só depois de morta é que poderá me deixar.
- Por Deus, senhor Licínio, tenha piedade! Não suporto mais viver assim.
- Pode chorar à vontade. Você me pertence, e é bom que jamais se esqueça disso. Se quer manter a integridade de padre Gastão, não me desafie. Você sabe do que sou capaz. E agora vou deixá-la. Ainda tenho uma missão a cumprir com ele.
- Diga-lhe que estou bem.
Licínio não respondeu, mas finalizou com ar ameaçador:
- Amanhã, quando voltar, nem pense em não estar aqui.
- Eu estarei.
Licínio não tinha certeza se havia agido corretamente deixando Aracéli solta, mas precisava confiar nela. O medo que a menina sentia de que ele machucasse padre Gastão era a garantia de que lhe obedeceria, e ele relaxou, certo de que ela não fugiria. Não enquanto o padre estivesse ao alcance de sua mira.
Dali, foi correndo para a igrejinha. Tudo estava às escuras, e ele passou pela lateral até chegar à casa do clérigo, atrás. Bateu à porta e esperou. Gastão logo veio abrir, talvez na esperança de que, de uma hora para outra, Aracéli voltasse para casa.
- Senhor Licínio! - alarmou-se. - Aconteceu alguma coisa a Aracéli?
- Deixe-me entrar - anunciou ele com superioridade. -Precisamos conversar.
Padre Gastão franqueou-lhe a passagem, e Licínio se instalou na cadeira que já ocupara antes. Deu uma olhada para o quarto do clérigo, com a cama desfeita, e sentiu o gosto da vitória umedecendo-lhe os lábios.
- Por Deus, homem - era a voz de Gastão, interrompendo seu regozijo, - diga-me logo o que aconteceu a Aracéli.
- Bem, padre - falou Licínio -, eu não estaria aqui a essa hora se não tivesse acontecido nada. Todavia, para tranquilizá-lo, aviso-o de que Aracéli está bem.
- Oh! - exclamou ele, fazendo o sinal da cruz. - Graças a Deus!
- Ela está bem e sob a minha proteção, embora não esteja mais em minha casa.
- Não está? Mas como? Para onde ela foi?
- Fui obrigado a escondê-la, depois que minha mulher descobriu que somos amantes.
Ele terminou a frase olhando bem fundo nos olhos de Gastão, aproveitando cada esgar de susto e indignação no rosto do sacerdote.
- O senhor não sabia? - prosseguiu Licínio. - Pensei que Aracéli lhe tivesse contado.
- Ela não tinha por que me contar, embora eu já soubesse - retrucou ele, friamente.
- Pois é. Essas indiazinhas são assim mesmo. Difíceis de serem domadas, sempre fazem o que querem. Aracéli se entregou a mim espontaneamente, não sem antes implorar que eu a possuísse.
- Está mentindo! - revoltou-se Gastão. - Aracéli não é esse tipo de mulher.
- Imagino que deva ser uma decepção para o senhor saber que a sua joia rara já passou por várias lapidações. Mas não se preocupe: isso é para deixá-la cada vez melhor.
- Se veio aqui só para me envenenar com as suas infâmias, pode ir embora - rebateu Gastão, remoendo a ira.
- Na verdade, vim para lhe dizer que minha mulher não o quer mais em nossa casa. Sabe como é, o senhor é o alcoviteiro da caboclinha.
- Eu não iria mais a sua casa nem que Deus me ordenasse!
- Blasfemando, padre? Quem diria!
- Para onde levou Aracéli? Quero vê-la.
- Infelizmente, isso não vai ser possível.
- O que fez com ela? Onde a escondeu?
- Não fiz nada, e ela está segura, muito mais segura comigo do que com o senhor. Aliás, acho até que ela prefere a minha companhia à sua.
- Pode me provocar o quanto quiser. Só me interessa o bem-estar de minha filha.
- Filha? Ela não é sua filha. Aposto que vocês já foram amantes. É isso. O senhor ficou velho e ela não conseguiu apagar a fogueira que arde dentro dela e me procurou. Diga-me, padre: alguma vez ela o beijou naquelas partes ocultas e íntimas, cujo desejo só a santidade da batina conhece?
Licínio estava passando dos limites. O que ele dizia era uma provocação desnecessária, um desrespeito, um insulto à dignidade e à honra de Aracéli, que sempre fora uma menina decente. Gastão tinha certeza de que ela só se entregara aos caprichos daquele brutamontes porque ele a obrigara e ameaçara, inclusive, matá-lo.
Sem pensar nas consequências, Gastão atirou-se sobre o outro com fúria e revolta, procurando acertar-lhe um soco no queixo. Licínio riu às gargalhadas, debochando da incapacidade e da fragilidade do sacerdote, que jamais agredira alguém em toda a sua vida.
- Herege! Canalha! Patife! - bramia o clérigo, tentando esmurrar Licínio.
O outro se esquivava com facilidade e continuava a rir, até que se cansou e juntou as mãos ao redor do pescoço de Gastão, fazendo-o parar de tentar agredi-lo e começar a se debater.
- Já fiz o mesmo com Aracéli, padre! - rilhou entre os dentes. - Não a matei porque ela me interessa. Mas o senhor... não tem serventia alguma para mim.
Empurrou-o para longe, e ele bateu no fogão, arfando e buscando o ar com agonia.
- Cachorro! - grunhiu Gastão, aparentemente sem medo de uma nova agressão.
- Para um padre, até que o seu repertório de imprecações é bem extenso. Será que está pensando em largar a batina? Por Aracéli, vale a pena. Mas não se apresse. Ela já tem dono, e não é o senhor.
- Saia daqui!
- Com todo prazer - ironizou.
Sustentando a arrogância e o ar de vitória, Licínio passou por Gastão e foi apanhar seu cavalo. Até que gostara de humilhar o padre. Por um momento, considerou devolver-lhe Aracéli, todavia, pensando melhor, mantê-la naquele casebre talvez fosse mais proveitoso. Longe de casa, poderia passar mais tempo com ela, sem se preocupar com a vigilância de Esmeraldina. Bastava descobrir a quem pertencia aquele casebre abandonado e, se fosse o caso, comprá-lo. Poderia decorá-lo e deixar Aracéli vivendo ali, onde seria só dele. Com as constantes ameaças a padre Gastão, ela continuaria se submetendo mais e mais, sem nem sequer pensar em fugir.
Admirando e elogiando a própria esperteza, esporeou o cavalo. Antes de tomar qualquer atitude com relação a Aracéli, precisava reconquistar a confiança de Esmeraldina.

CAPÍTULO 23

Não foi preciso que Licínio comprasse a velha choupana, abandonada por garimpeiros que haviam partido para uma residência melhor. Apenas levou alguns escravos e mandou que reformassem o lugar, tornando-o limpo e, na medida do possível, acolhedor. Aracéli desejava fugir, contudo, tinha medo do que poderia acontecer a seu pai.
- Quero ver padre Gastão - disse ela certa vez. - Já faz quase dois meses que estou aqui, e o senhor não me permite vê-lo.
- Para quê? Para tentar fugir? - retrucou ele com desdém. - De jeito nenhum!
- Se eu quisesse fugir, já o teria feito. Não estou presa nem amarrada. Bastava simplesmente abrir a porta e sair.
- Isso lá é verdade. Até que você tem sido boazinha e merece uma recompensa. Está certo. Vou providenciar sua visita ao padre. Mas não lhe conte nada a respeito deste esconderijo. Nem uma palavra sobre o local desta cabana, ou nunca mais tornará a vê-lo.
- Por que teme tanto padre Gastão? Ele nada pode contra alguém poderoso feito o senhor.
- Eu não o temo. Apenas não o quero se intrometendo em nossos assuntos. No final da semana, Licínio levou Aracéli, pessoalmente, para visitar padre Gastão. Assim que ele ouviu a voz de Aracéli, que entrara correndo no pátio da igreja, saiu apressado para abraçá-la. Por sorte ela chegara entre o horário das missas, de modo que ele teve tempo de ficar com ela.
- Minha filha! - exclamou ele. - Quanta saudade!
- Oh! padre, pai! Deus sabe o quanto senti a sua falta!
- Vamos deixar desses choramingos - interrompeu Licínio, fazendo cara de nojo. - Às oito da noite em ponto, mandarei alguém vir buscá-la, Aracéli. Não se esqueça do que lhe falei.
O clérigo olhou para Aracéli com ar interrogador, mas ela não disse nada. Depois que Licínio foi embora, Gastão passou o braço ao redor dos ombros dela e levou-a para dentro de casa.
- O que o senhor Licínio quis dizer com aquele: não se esqueça do que lhe falei?
- Ele não quer que o senhor saiba onde estou escondida -confessou ela, com olhos que revelavam profunda tristeza.
Gastão sentiu vontade de protestar, mas nada falou. Aracéli já havia sofrido demais, e talvez fosse melhor mesmo ele não saber. Do contrário, poderia ir visitá-la muitas vezes e provocar a ira de Licínio. Foi imensa sua alegria ao caminhar por entre os móveis simples, porém bem cuidados, e os cômodos cheios de luz. Passou pela cozinha, que também servia de sala, e pelos dois quartos, sentindo como amava aquele lugar.
- Há quanto tempo não durmo em meu quarto - considerou ela. - Sinto tantas saudades de minha vida aqui!
- Por que você não volta? Aqui é seu verdadeiro lar.
- O senhor sabe que não posso. O senhor Licínio não permitiria.
- Aos diabos com Licínio! - exasperou-se ele, logo em seguida fazendo o sinal da cruz. - Veja a que ponto esse homem me levou. Estou até praguejando contra Deus por causa dos desmandos daquele herege.
- O senhor Licínio é poderoso. Não sei do que seria capaz.
- Não a estou reconhecendo, minha filha. Você, que sempre foi uma moça livre e corajosa, com medo de um simples garimpeiro?
- Ele é mau - ela sussurrou, sentindo as lágrimas forçarem-lhe a vista. - Posso sentir a crueldade em suas palavras e seus gestos. Não tenho medo dele, pois várias foram as vezes em que o enfrentei. Temo, contudo, pelo que ele possa fazer àqueles a quem amo.
- Preocupe-se com você, Aracéli. Contra mim, ele nada pode. Sou um velho, já estou mesmo no fim da vida. Você, contudo, ainda é jovem, tem muito que viver.
- Não é verdade, padre, e nós sabemos disso - ela abaixou os olhos e segurou a mão dele. O senhor Licínio me tirou todas as chances de ser feliz.
- Cachorro! Quando penso no que ele a obriga a fazer...
- Não quero falar sobre isso. Pensar já me traz vergonha e humilhação. Falar seria uma dor insuportável.
Ele a abraçou e retrucou em lágrimas:
- A culpa foi minha. Deus falou ao meu coração que Licínio era uma pessoa egoísta e cruel. Mas eu não soube compreendê-lo.
- O senhor não tem culpa de nada. Fui eu quem quis ir trabalhar na casa dele.
- Não, minha filha, Deus falou comigo muito antes de Licínio entrar em nossas vidas, quando sua mãe me pediu que a entregasse ao seu povo. Naquela época, senti o quanto você poderia sofrer vivendo entre brancos mesquinhos e carregados de preconceito. Mas pensei que pudesse compensar isso com o meu amor. Não foi suficiente...
- Não diga isso! Seu amor foi o que de melhor eu poderia receber. E, depois, esquece-se de que meu pai era branco? Quem lhe garante que o meu povo iria aceitar uma criança sem sangue puro de índio? E se eles me evitassem também?
- Oh! Meu Deus, não sei mais o que é certo! Só o que sei é que você está sofrendo, e eu me sinto impotente para fazer qualquer coisa que a ajude. Sou um fraco, não posso enfrentar o senhor Licínio.
- Não quero que faça isso. O senhor não foi preparado para a luta. É um homem de Deus, um homem que veio ao mundo para semear a paz, não para empunhar armas.
- Sou um homem de Deus, mas não sou Deus. Apenas Ele não se revoltaria contra o que está acontecendo.
- Revolta, padre? Justo o senhor, falando em revolta?
- Sou humano, e o que o senhor Licínio está fazendo com você faz despertar o lado mais sombrio que o meu sacerdócio tenta ocultar.
Aracéli sentiu toda a força das palavras de Gastão, só então percebendo quantas lutas interiores ele devia travar consigo mesmo.
- Tem razão - falou ela. - Perdoe-me. Acostumei-me tanto a vê-lo como o padre que dirige almas que me esqueci de que o senhor também é uma alma que precisa de direção.
- Talvez eu precise até mais do que os outros, porque tenho responsabilidades para com aqueles que vêm me procurar. Se eu errar o caminho, todos que estão atrás de mim errarão também.
- Será que um sacerdote tem mesmo a função de conduzir as almas? Talvez ele tenha apenas que ajudá-las a encontrar o seu próprio caminho.
- Mas como é que eu posso ajudar alguém a encontrar o seu caminho se eu mesmo me perdi do meu?
- Não sei, padre, mas agora, refletindo em tudo o que o senhor me disse, acho que a sua responsabilidade para com as pessoas não pode ir além da orientação e dos conselhos.
- Sim, mas em que posso orientá-las, se me distanciei dos ensinamentos de Deus e pequei contra um irmão, desejando até mesmo a sua morte?
- Acho que pecado é uma palavra muito forte e pouco caridosa. Agora há pouco, o senhor mesmo me disse que era humano e tinha um lado sombrio. Por que lutar contra ele? Não seria mais fácil deixá-lo sair para, conhecendo-o, poder dominá-lo?
Ele a olhou espantado e respondeu, cheio de admiração:
- Você é uma alma nobre, Aracéli. Tem sentimentos que só podem ter sido adquiridos em algum lugar de suas vidas passadas.
- O senhor acredita nisso?
Gastão deu de ombros e acrescentou em dúvida:
- Não sei bem. A Igreja diz que é impossível, mas os índios editam, e é algo a se pensar.
- Também acredito - revelou ela, após breve reflexão. - E sinto, em minha alma, que o senhor Licínio e eu já nos encontramos em outra vida, e é por isso que ele faz essas coisas comigo. Acha que lhe devo alguma coisa.
- E você, pelo visto, também acredita que deve. Do contrário, não ficaria assim tão ligada a ele.
- E se for verdade? - ponderou ela. - Será que não é me- deixar que ele satisfaça a sua vingança e depois me deixe em paz?
- Esse raciocínio atenta contra a bondade e o amor de Deus. Vingança não é um sentimento que seja estimulado por Ele. Não, minha filha, não acredito que ninguém deva permitir a vingança, que só vai gerar mais vingança. O mal tem que acabar.
- Mas, padre, se há mesmo outras vidas, então, o senhor não só pode estar se vingando de algo que eu lhe tenha feito.
- Pode ser, mas não acredito que tenha que ser assim. Você já parou para pensar que Deus pode tê-los reunido aqui não para dar a Licínio a oportunidade de vingança, mas para que o ódio se desfaça e vocês aprendam a se amar?
- Como então explica a atitude dele?
- Acho que ele ainda não amadureceu espiritualmente e pensa, equivocadamente, que a vingança lhe trará alívio. Mas não trará. Isso é uma ilusão. A vingança é um engano que só traz sofrimento. Ninguém pode ser feliz com a consciência presa na culpa e na dor.
Aracéli se calou e ficou olhando para o clérigo, meditando sobre o que haviam conversado. Realmente, havia muito mais coisas envolvidas naquela trama do que uma simples coincidência.
- Talvez a minha consciência também esteja presa na culpa, e é por isso que eu não consigo realmente ser feliz.
Gastão puxou a cabeça de Aracéli e pousou-a sobre seu ombro, falando com indescritível doçura:
- Não sei por que você está passando por isso nem por que fui eleito o seu mentor. Todavia, precisamos unir nossas forças em prece e confiar na bondade daquele que nos guia. Eu, especialmente, tenho me desviado um pouco do caminho da oração, porque a minha alma se confrange toda vez que meu coração chora por você. Não podemos questionar os propósitos da vida, porque ela sempre nos conduz pela senda do crescimento. Precisamos confiar.
- Oh! Padre! - chorou Aracéli, abraçando-se com força a ele.
Ele afagou seus cabelos e beijou sua cabeça. Assim, entrelaçados, elevaram os pensamentos em prece e, de súbito, uma paz reconfortante foi-se espalhando no ambiente e em seus corpos.
- Venha escutar a missa das oito - chamou ele, quando já revigorados pela chama poderosa da oração e da fé.
Aracéli assistiu à missa e ajudou padre Gastão a ornamentar a igreja com flores para um batizado que aconteceria ao meio-dia. Ela se emocionou ao ver a criança nos braços da madrinha, lembrando-se do pequeno Teodoro, que deveria sentir muito a sua falta, assim como sentia a dele.
Do lado de fora da igreja, o espírito de Soriano encontrava-se sentado em uma pedra, atirando gravetos invisíveis nos pássaros que voejavam por ali. Os passarinhos, alheios à sua presença, continuavam catando pequeninos galhos físicos para levar aos ninhos.
- Mas que droga! - praguejou. - Por que é que nunca consigo seguir Aracéli até lá dentro?
Ele permaneceu parado, olhando para o alto como se esperasse que alguma voz invisível lhe respondesse, mas nada aconteceu. Seus pensamentos se voltaram para Cibele, e ele ficou imaginando por que ela não voltara para falar com ele. Será que já cumprira seu plano de reencarnar?
Soriano amassou um graveto, atirando-o longe, e ele foi despedaçar-se no tronco de uma árvore, transformando-se numa castanha que se desfez no ar. Pacientemente, aguardou até o fim do batizado, quando Aracéli surgiu em companhia de padre Gastão.
- Vou catar goiabas para fazer-lhe um doce - Soriano ouviu-a dizer.
Quando ela passou, ele se levantou e foi atrás dela. Aracéli entrou em casa com Gastão e, minutos depois, saiu, embrenhando-se na mata logo atrás. Soriano a seguiu, e uma sensação esquisita foi-se apossando dele. Viu-se, de repente, em outra selva, muito tempo atrás, seguindo Alejandro para tirar-lhe a vida.
A lembrança de seu antigo e pérfido intento causou-lhe estranho choque. Em sua sanha vingativa, não evocava o motivo que levara Alejandro a infligir-lhe tão horrenda morte. Fora ele que atraíra para si mesmo aquele destino trágico. Se não tivesse se deixado levar pela ambição, teria terminado os seus dias feliz ao lado de Cibele. Mas queria dar-lhe uma vida de princesa, mesmo contra os desejos dela, que só desejava casar-se com ele e levar uma vida simples e plena de amor.
Parou abruptamente, sem coragem de continuar seguindo Aracéli. Aquela floresta era outra, dizia a si mesmo, entretanto, não conseguia vencer o terror e prosseguir. Paralisado em seu terror, não pôde avançar, até que Aracéli retornou com as goiabas. Ela passou por ele sem se dar conta de sua presença e entrou em casa, feliz.
Subitamente, sentiu uma umidade morna descendo pelo seu corpo. A ferida voltara a sangrar, e Soriano apalpou o ventre na esperança de conter o fluxo. Não conseguiu. Tentou lembrar-se do que Cibele lhe dissera, porém, a mente embotada não encontrava a lembrança.
- O que está acontecendo comigo? - gemeu alto, mas nenhuma voz lhe respondeu.
Seus pés haviam-se desgrudado da terra, mas, ainda assim, não podia correr. Uma estranha força o prendia ali, como se suas pernas vestissem calças de chumbo. De onde estava, via e ouvia tudo o que se passava no interior da casa de padre Gastão. Foi obrigado a assistir o carinho com que ela lhe preparara o doce e os elogios que ele lhe fizera. Depois, acompanhou as conversas edificantes e reflexivas a que se entregavam e surpreendeu-se com a luminosidade rósea que envolvia toda a casa do padre.
Jamais havia percebido aquela luz tão brilhante e suave ao mesmo tempo. Só agora, que se encontrava impossibilitado de fugir, certos detalhes se lhe revelavam. Soriano, consumido pelo desejo de vingança, nunca compreendera realmente por que não conseguia entrar na casa do sacerdote. Pensava que o lar de um padre era o santuário de Deus. Agora, contudo, compreendia que não.
O que o impedia de entrar na casa de Gastão era a aura de proteção que o amor erguera em derredor. Por que nunca notara aquilo? Porque só naquele momento foi que o seu coração, tocado pela ternura de Cibele, conseguiu identificar um sentimento que ainda existia dentro dele, muito embora, naqueles anos todos, ele se houvesse esquecido de evocá-lo.

CAPÍTULO 24

Licínio tapava os ouvidos e caminhava de um lado a outro do quarto, tentando não escutar a gritaria que Teodoro espalhava pela casa toda. Fugindo da babá francesa, o menino se escondia nos cantos mais improváveis, pondo-se a berrar todas as vezes que ela o encontrava e tentava pegá-lo no colo.
- Viu o que você conseguiu, afastando Aracéli de Teodoro? - Licínio acusou Esmeraldina. - O menino parece estar possuído.
- Cruz-credo, Licínio! - Esmeraldina persignou-se e o encarou com zanga. - Teodoro foi mal-acostumado por aquela índia. Agora vai receber educação de verdade.
O berreiro diminuiu, e ele destapou o ouvido, acercando-se da mulher e tomando-lhe as mãos.
- Quando é que você vai me perdoar, Dina? - sussurrou com ar súplice. - Será que já não me puniu o bastante?
- Como posso perdoá-lo se você ainda pensa naquela sem-vergonha?
- Engano seu. Eu apenas acho que Aracéli era boa para Teodoro.
- E para você também, não é mesmo?
- Não diga isso, minha querida. Já lhe falei que Aracéli foi apenas mais uma prostituta. Você é que é minha esposa, a mulher pura e merecedora de todo o meu respeito e admiração.
- Não me venha com bajulações. Você ainda não me contou o que fez com ela.
- Eu a devolvi a padre Gastão, já disse.
- Ela que fique por lá! Teodoro está muito bem com Aneci.
- Bem se vê - ironizou ele. - Ele só falta bater naquela francesa branqueia e sem sal.
- Isso é porque ele ainda não se acostumou. Aneci é boazinha e vai pegar o jeito.
- Se ele vier um dia a compreender o que ela diz. Quem é que entende aquela fala nasalada e arrastada de erres?
- É muito fino. E quer saber? Não quero mais ouvir falar naquela cabocla desavergonhada. Se sente tanta falta dela assim, pode se juntar a ela na casa do padre. Aproveite e peça a ele para casar vocês dois.
- Que sacrilégio, Dina! Já sou casado e não quero outra mulher além de você.
- Pois, então, chega de falar em Aracéli! Ou vou pensar que você ainda a deseja e que a encontra às escondidas.
- Isso é um disparate! Nunca mais fui à casa de padre Gastão. Pergunte a quem quiser.
Ela o fitou em dúvida, mas não disse nada. Era melhor não cutucar muito, ou acabaria perdendo o moral. Para Licínio, era ui' alerta. Ele estava levando Aracéli aos domingos para ver padre Gastão, mas tinha que parar com aquilo. Alguém poderia vê-lo, e o que não faltavam eram mexeriqueiros que se compraziam em envenenar a vida alheia.
No dia seguinte, ele levou a notícia a Aracéli:
- Você não vai mais poder ver padre Gastão com tanta frequência. Minha mulher está ficando desconfiada e pode descobrir que a escondi.
- Mas, senhor Licínio, isso não é justo. Vivo aqui sozinha, e padre Gastão é minha única alegria.
- Lamento, Aracéli, mas minha mulher vem em primeiro lugar.
- Pois, então, permita que ele venha me ver. Ao menos uma vez.
- Não, de jeito nenhum!
- Por quê? O que ele poderá fazer contra o senhor se descobrir onde estou?
- Quem é que vai saber o que a cabeça daquele padre é capaz de tramar?
- Se o senhor tem medo de que ele me facilite a fuga, não deveria. Sabe muito bem que, se eu quisesse fugir, já o teria feito. Não envolveria padre Gastão nisso.
- Vou fazer o seguinte - retrucou ele, para encerrar o assunto: - Uma vez por mês, mando um escravo levá-la até ele. E é só.
Havia rancor nos olhos de Aracéli quando ela os voltou para ele:
- Tenho vivido em silêncio por todo esse tempo, obedecendo às suas ordens e submetendo-me à sua luxúria. Não vou permitir que me afaste de padre Gastão novamente.
- Você não tem que permitir nada. Será que ainda não se convenceu de que quem manda aqui sou eu? Mando nesta casa, em você e até em padre Gastão. E agora chega dessa conversa. Tenho sede do seu corpo.
Ele a puxou bruscamente e a beijou, mas ela o afastou com um gesto súbito. Tapando a boca com uma das mãos, correu porta afora, bem a tempo de evitar vomitar no soalho da sala.
- O que você tem? - perguntou ele, entre a preocupação e a desconfiança.
- Não sei dizer. Devo ter comido alguma coisa estragada. Desde ontem não me sinto bem.
Aracéli voltou para dentro, e ele ficou olhando-a com ar de suspeita. Seria possível que ela... Afastou o pensamento com a rapidez de um relâmpago, temendo que o pior tivesse acontecido.
- Como está o seu sangramento? - sondou ele, e ela silenciou, com medo da reação dele ao saber que estava grávida. Vamos, responda-me: como está o seu sangramento?
- Não é o que está pensando...
Licínio não disse mais nada. Saiu desabalado pela porta, montou no cavalo e disparou pela estrada poeirenta. Voltou duas horas depois, acompanhado de um homem que ela nunca havia visto.
- Venha cá, Aracéli - ordenou ele, puxando-a bruscamente pelo braço. - Tire a roupa e deite-se aí.
- O quê? - espantou-se ela. - Quer que eu me dispa diante de um estranho?
- Ele não é um estranho. É um médico e veio examinar você.
- Não estou doente - objetou ela, de má vontade.
- Sabemos que não está, não é mesmo? Mas o doutor está aqui para tirar a prova.
- Não preciso de médico.
Ela apertou a gola do vestido, como se quisesse proteger o corpo, e foi-se afastando para o canto da parede. O doutor fitou Licínio com impaciência e disse com irritação:
- Vamos logo com isso, senhor Licínio. Tenho muitos pacientes para atender.
O médico concordara em atender o seu chamado porque Licínio lhe pagara uma importância muito além dos seus honorários, mas não podia reter-se ali por muito tempo. Já bastante agastado, Licínio segurou Aracéli pelo pulso e atirou-a na cama falando com rispidez:
- Tire logo essa roupa, se não quiser que eu a rasgue.
- Não é preciso - contestou ela novamente. - Já sei o que ele vai encontrar.
- Mas eu quero saber! - vociferou Licínio.
- Eu estou grávida! - confessou ela, retendo os soluços.
Licínio se atirou sobre ela, que tentava afastá-lo a tapas. Deitou-a com brutalidade e rasgou toda a sua roupa.
- Examine-a! - gritou para o médico, enquanto ela chorava de humilhação.
O doutor fez um breve exame, mas só de olhar para a barriga de Aracéli já dava para reconhecer a gestação.
- Não sei como o senhor não percebeu - disse ele. - O ventre já demonstra um leve sinal de elevação.
- Arranque-o! - ordenou ensandecido. - Agora mesmo, arranque-o! Não quero um bastardo na família.
O médico guardou seus instrumentos na maleta e fixou bem o olhar em Licínio. Não entendia por que aquela gente se deitava com miseráveis feito as índias para depois se surpreenderem quando engravidavam. Contudo, não lhe cabia questionar os motivos de homens ricos feito Licínio, e ele simplesmente anunciou:
- Lamento, mas o que me pede é impossível. Há leis que o clero fez aprovar impedindo tal prática.
- Não há leis aqui entre nós. Faça o aborto e será regiamente recompensado.
- Não carrego comigo os instrumentos necessários e não estou familiarizado com essa operação. Todavia, se essa for mesmo a sua vontade, posso arranjar quem o faça, mediante quantia módica.
- O que está esperando, homem? Vá agora mesmo buscar essa pessoa!
- Para agora, não prometo. Amanhã, contudo, lhe enviarei uma parteira.
- Parteira? Isso é alguma piada?
- Uma mulher que está acostumada a esses serviços. Pague-a e tudo ficará bem.
- Está certo. Até amanhã, então. Mas não se atrase!
O médico apanhou a maleta e já ia saindo, quando voltou para dentro e, encarando Aracéli com desdém, indagou:
- Por que não manda que ela mesma faça? Esse povo índio conhece as ervas melhor do que ninguém. Duvido que ela não saiba de uma que seja abortiva.
Disse isso e saiu. Licínio voltou-se para Aracéli, mas ela foi logo se adiantando:
- Não é verdade, senhor Licínio. Eu nada sei sobre ervas. Fui criada por um padre, desconheço os segredos de meu povo.
- Idiota - murmurou ele.
- Por favor, deixe-me ficar com a criança. Para servir de alegria aos meus dias.
- Acha mesmo que vou permitir que você crie um bastardo? Um filho para se igualar a Teodoro? É muita audácia! Filhos só tenho com minha mulher legítima, que é e sempre será Esmeraldina. Você não é ninguém, Aracéli. É só... uma caboclinha apetitosa que me serve de distração - ele segurou-a pelos punhos, encarando-a com chispas nos olhos. - Minha cabocla, minha! Posso fazer com você o que bem entender. Quem vai descobrir? Quem vai se importar?
Aracéli não aguentava mais a humilhação. Ele a empurrou violentamente, e ela encolheu-se na cama, as lágrimas transbordando de seus olhos aos borbotões. Vendo-a tão frágil e tão indefesa, Licínio não teve compaixão, mas sentiu crescer dentro do peito a sensação de poder absoluto que detinha sobre ela. Aproximou-se do leito em que ela estava, nua e toda encolhida, e puxou os seus braços que abraçavam os joelhos. Forçou-a a deitar-se novamente e a beijou com fúria. Ela nem tinha mais forças para resistir. Apenas gemia baixinho e chorava, implorando a Deus que a levasse e a seu filho ainda não nascido.
Ele mordeu-lhe os lábios e olhou para ela, comprazendo-se com suas lágrimas. Ela estava deitada de costas, o corpo todo trêmulo exposto à luz das velas. Licínio foi admirando-lhe as formas, até que seus olhos ultrapassaram as coxas e se detiveram sobre o ventre. A elevação minúscula trespassou a sua vista como um dardo incandescente, e um ódio surdo se apossou dele. Instintivamente, fechou o punho e desferiu violento murro na barriga de Aracéli, que se dobrou sobre si mesma, presa de infinita dor e agonia.
O golpe foi tão forte que ela sentiu-se sufocar, um gosto acre de sangue subindo-lhe à boca. Debruçou-se sobre o ventre e vomitou em cima da cama, fazendo com que Licínio se afastasse, enojado.
- Por que fez isso? - gemeu ela, mal conseguindo articular as palavras.
Na esperança de que o feto não houvesse resistido ao golpe, Licínio permaneceu afastado, olhando com ansiedade para as coxas de Aracéli. Nenhum sangue desceu por ali, e a ideia de desferir-lhe um novo soco o assaltou, porém, algo deteve a sua mão. Talvez fosse melhor desfazer-se da cria com a erva abortiva que a parteira iria ministrar a Aracéli no dia seguinte.
Mal contendo a ansiedade, Licínio, logo pela manhã, partiu em busca do médico, que lhe forneceu o endereço da parteira. Ela estava prestes a sair para um parto, mas a soma em ouro que ele lhe ofereceu encheu os olhos da mulher de cobiça, e ela desistiu de atender à parturiente para ir com ele.
Aracéli estava na cabana, vigiada por Rufino, escravo de confiança de Licínio, e se encolheu quando ele chegou, tentando proteger a barriga com as mãos.
- Espere lá fora - disse ele para o escravo.
Rufino se foi, e Licínio aproximou-se de Aracéli com a parteira, que a encarava com ar divertido. A mulher abriu sua sacola e dela retirou um frasquinho. Entornou o conteúdo numa caneca e estendeu-a para Aracéli.
- Beba - falou com autoridade.
Aracéli não bebeu. Deu um tapa na caneca, que voou longe, derramando todo o líquido no chão. O sangue de Licínio começou a borbulhar nas veias, e ele agarrou a moça pelos ombros, sacudindo-a violentamente.
- Idiota! - vociferou ele. - Mil vezes idiota! O que foi que você fez?
Ela tentou se esquivar, mas Licínio a prendia com firmeza, fulminando-a com seu olhar de ódio.
- Deixe estar, senhor - sossegou-o a parteira. - Já prevendo essa reação, trouxe mais poções.
Ela abriu um novo frasco e, dessa vez, Licínio estava preparado. Deitou Aracéli na cama e imobilizou-a, enquanto segurava a cabeça dela para trás, forçando-a a abrir a boca. Num gesto rápido e preciso, a mulher deitou o líquido, que desceu pela sua garganta, fazendo com que Aracéli engasgasse e tossisse. Certificando-se de que ela engolira tudo, Licínio a soltou.
- Pode ir agora - falou para a mulher. - Já fez a sua parte. E lembre-se: nem uma palavra!
- Pode contar com a minha discrição, senhor. Não direi nada a ninguém.
A mulher não sabia quem ele era nem onde morava, nem lhe importava. Só o que queria era o dinheiro.
Aracéli ficou jogada sobre a cama, chorando amargamente a perda do filho que nem chegara a nascer. Nada disso comovia Licínio. Permaneceu alguns instantes a mirá-la com irritação, até que disse secamente:
- Quando esse filho descer pelas suas pernas, poderemos retomar nossa vida. Por ora, você me dá nojo - ele colocou a cabeça para fora da cabana, e o escravo reapareceu. - Tome conta dela. Amanhã voltarei para ver como estão as coisas.
Em seguida, partiu. Aracéli olhou para Rufino, que permanecia parado na porta, impassível. Naquele momento, sentiu que nada mais possuía que pudesse prendê-la à vida, ao mesmo tempo em que uma força invisível lhe dizia que não era hora de desistir.

CAPÍTULO 25

Um dia se foi, e nada aconteceu. Passaram-se mais dois, três, quatro dias sem que Aracéli desse mostras de que havia abortado a criança. As ervas que a mulher lhe ministrara não surtiram efeito.
Em casa, Licínio dava mostras de aflição ao caminhar de um lado a outro em seu gabinete ou ficar parado, o olhar perdido e a mente mergulhada no mar do desespero. Como era de se esperar, Esmeraldina percebeu-lhe o desassossego, e uma desconfiança indizível roubou-lhe a tranquilidade.
- O que está acontecendo? - perguntou ela.
Como é que Licínio iria lhe dizer que a índia que ela tanto detestava carregava no ventre um filho seu?
- Problemas no garimpo - mentiu ele.
A resposta de Licínio não a satisfez, mas ela fingiu acreditar. O que quer que fosse que estivesse acontecendo, era melhor não saber. Se havia problemas com a índia, que ele resolvesse sozinho.
Não era apenas Esmeraldina quem percebia a preocupação de Licínio. Os escravos também haviam notado, principalmente Zenaide, que ainda remoía o despeito por ter recebido de presente, em vez da maravilhosa joia com que sonhara, apenas um xale velho e puído.
Nesse ínterim, padre Gastão se contorcia de preocupação. Aracéli não aparecera naquele domingo, e Licínio não mandara ninguém avisar. Nos dias que se seguiram, a todo instante ele corria para a porta de casa ou pausava a liturgia sempre que escutava o ruído de alguém entrando atrasado na igreja. Mas nunca era Aracéli.
Quando ela não apareceu no domingo seguinte, tomou uma decisão: esperou até o término das missas matinais, montou em seu burrico e partiu para a casa de Licínio. O homem tinha que lhe dar alguma explicação.
Chegou perto da hora do almoço, e um escravo correu a anunciar a sua chegada.
- Padre Gastão? - surpreendeu-se Esmeraldina. - Aqui' Mas o que será que ele quer?
É claro que Licínio sabia o motivo que levara o outro a procurá-lo em sua casa e foi tomado de imensa raiva pela atitude do padre. Sem responder à mulher, saiu apressado ao encontro de Gastão. Ele estava na sala, em pé perto da porta, e Licínio agarrou-o pelo braço, puxando-o para o lado de fora. Passou pela lateral da casa e foi com ele para os fundos, levando-o até um tronco de árvore cuidadosamente talhado para servir de banco e estrategicamente colocado à sombra de uma mangueira.
- O que está fazendo aqui? - rilhou entre os dentes. – Minha esposa já não disse que não o quer em nossa casa?
- Quero saber onde está Aracéli. Exijo que me responda.
- O senhor não exige nada! Aracéli não lhe pertence mais Ela é minha!
- Ou o senhor me conta o que fez com ela, ou vou agora mesmo procurar sua esposa e dizer a ela que o senhor mantém Aracéli escondida.
- Quieto! - sibilou ele, apertando o braço do clérigo. - Faça isso e nunca mais a verá com vida.
- Está ameaçando-a de morte? Se quer que eu me cale diante dessa barbaridade, vai ter que me matar também!
- Muito nobre de sua parte, padre, mas sua vida não tem valor para mim. O senhor não é nada!
- Solte-me - replicou ele baixinho. - Ou vou começar a gritar.
- O senhor parece um maricas - desdenhou ele. - Já usa saias e se comporta como uma mulher. Vamos, dê os seus gritinhos!
As humilhações não atingiam padre Gastão, que só se importava com Aracéli. Alguma coisa em seu íntimo ficava martelando e dizendo que ela não estava bem.
- O que fez com Aracéli? - retrucou Gastão, olhando ao redor para ver se a via.
Com medo de que a atitude do padre acabasse atraindo a atenção de Esmeraldina, que devia estar em casa morta de curiosidade, Licínio respondeu calmamente:
- Ela não está aqui.
- Onde ela está?
- Em um lugar seguro.
- Que lugar é esse?
- Não posso dizer-lhe. Mas asseguro-lhe que ela está bem.
- Por que não a levou para visitar-me? Faz dois domingos que não a vejo.
- Não posso mais levá-la sempre. Vai ter que se contentar com visitas esporádicas, de acordo com a minha disponibilidade.
- Alguma coisa está acontecendo, senhor Licínio, sei que está. Exijo saber o que é.
- Não está acontecendo nada!
Nesse instante, a silhueta de Esmeraldina delineou-se na porta, e Licínio quis acabar logo com aquela conversa, para se livrar do padre o mais rápido possível e voltar para a esposa antes que ela resolvesse sair.
- Olhe, padre - disse ele, em tom mais ameno -, Aracéli está tendo uns probleminhas, mas nada que não se resolva.
- Ela está doente? - ele meneou a cabeça, e Gastão ficou algum tempo parado, pensando, até que exprimiu alarmado: - Ela está grávida!
O olhar silente de Licínio já dizia tudo, e Gastão abaixou a cabeça, escondendo entre as mãos os olhos umedecidos.
- Fale baixo, homem! - repreendeu Licínio, olhando ao redor. - Que isso não saia daqui, ou as consequências serão altamente desastrosas.
- Minha pobre menina... sozinha, com uma criança no ventre. Por favor, senhor Licínio, deixe-me vê-la. Permita-me levá-la de volta para casa. Cuidarei dela e da criança como sempre cuidei, e ninguém nunca ficará sabendo que o filho é seu.
A proposta até que era tentadora, mas ele não podia deixar arma tão poderosa nas mãos de seus inimigos. Só se o padre sumisse dali com Aracéli... Tudo ficaria bem, e ele não precisaria mais se preocupar com a índia nem com seu filho bastardo.
- Pensando melhor, padre, talvez o senhor esteja com a razão. Acho que já é mesmo hora de Aracéli desaparecer da minha vida.
- Deus seja louvado! Podemos ir buscá-la imediatamente.
- Calma, não se apresse. Eu não disse que ia buscá-la. Apenas concordei que seria boa ideia sumir com Aracéli da minha vida. Ela não pode continuar aqui. É perigoso demais. As más línguas falam, e logo Esmeraldina ficará sabendo. É imperioso que minha mulher não descubra nada. Muito menos Teodoro, meu único e legítimo herdeiro.
- Seu filho é uma criança amorosa e ficaria feliz com um irmãozinho vindo de Aracéli...
- Jamais ouse dizer isso novamente! - rugiu Licínio com raiva, apertando os ombros de Castão. - Meu filho, um menino branco, de linhagem pura, jamais poderia se misturar a um bastardo mestiço e rude.
Gastão engoliu em seco, mas não se deixou abater:
- Perdoe-me se o ofendi, senhor Licínio. Só o que quero é de volta minha Aracéli.
- Minha Aracéli - corrigiu ele. - Posso devolvê-la ao senhor com uma condição.
- O que quiser.
- Que o senhor a pegue e suma com ela daqui para sempre.
- Isso não é problema. Posso pedir a meus superiores que transfiram...
- De preferência, para uma paróquia do outro lado da colônia - interrompeu Licínio.
- O que o senhor quiser.
- Não posso permitir que Aracéli crie o bastardo - divagou ele.
- Não será preciso. Nós iremos embora daqui, e o senhor não terá notícias da criança.
- Não lhe dirá quem é o seu pai?
- Nunca.
- Jura?
- Juro - respondeu o clérigo, sem titubear. - Farei o que for preciso para salvar a vida de Aracéli e do filho que ela carrega.
- Ótimo. Providencie tudo para a partida e, quando estiver preparado, mande avisar-me. Só então trarei Aracéli.
- Pensei que o senhor fosse levá-la de volta imediatamente.
- Nada disso. Não posso me arriscar a expor a sua barriga. Já está ficando volumosa, sabe?
- E daí? Ninguém sabe de nada, e Aracéli vai ficar dentro de casa. Garanto-lhe que não vai aparecer em público.
- Não vou colocar em risco a honra de minha mulher e meu filho. Sempre há os mexeriqueiros, e alguém pode fazer um comentário maldoso. O senhor sabe como são essas coisas de maledicência, não sabe? A intriga logo se espalha, e aí, mesmo que não seja real, é no que todo mundo acredita. Ainda mais no meu caso, em que o mexerico é verídico.
- Mas Aracéli pode estar precisando de ajuda. Uma menina sozinha e grávida...
- Não se preocupe com isso. Aracéli não é mais menina há muito tempo. É uma mulher. E que mulher! O senhor nem imagina o quanto de experiência ela adquiriu comigo.
- Nada disso me interessa - cortou o padre, rispidamente.
- Pense no lado positivo - prosseguiu Licínio, deleitando-se com a repulsa de Gastão. - O senhor não vai mais precisar trabalhar para a Igreja. Pode ir viver com Aracéli e fazê-la trabalhar para o senhor, fazendo... o senhor sabe o quê. Garanto que não lhe faltarão clientes.
- Deveria se envergonhar! - exasperou-se Gastão, pondo-se de pé e encarando-o com revolta. - Eu sou um sacerdote e Aracéli é uma menina que foi violada em sua inocência. Nada que o senhor faça poderá macular a alma dela, que é pura e está livre dos seus pecados.
Ele acentuou bem as últimas palavras, apontando um dedo acusador para Licínio. Por uns momentos, o homem pareceu que ia reagir, mas logo relaxou as faces e sorriu maliciosa e sarcasticamente.
- Pode ir agora, padre - falou Licínio, enxotando o outro com um gesto de mãos. - E não se esqueça: quando tudo estiver pronto para a partida, avise-me. Entrego-lhe Aracéli, e vocês somem no mesmo dia.
Gastão sabia que não adiantaria mais tentar discutir com Licínio. Levantou-se furioso e voltou para o lugar onde havia deixado o burrico, retornando com incontida raiva a crescer-lhe no peito. Era-lhe difícil honrar a expressão do sacerdócio diante de um demônio feito Licínio.
Contudo, uma chance se abria. Ele estava disposto a aceitar qualquer paróquia, mesmo no mais remoto rincão, desde que levasse Aracéli consigo. E era isso mesmo que faria. Levaria sua filha dali, para um lugar onde ela pudesse criar a criança longe das atrocidades de Licínio.

CAPÍTULO 26

Depois que Gastão se foi, Licínio permaneceu arda alguns minutos sentado no banco e aguardando até que a emoção daquele encontro se dissipasse entre as árvores. Esmeraldina devia estar esperando que ele entrasse para despejar sobre ele uma saraivada de perguntas, para as quais lhe exigiria respostas convincentes.
Enquanto permanecia reunindo forças para enfrentar a mulher, um vulto pequenino se esgueirou entre as árvores, ocultando-se no mato e nos arbustos. Sem que ninguém percebesse, Zenaide os havia seguido. Ao perceber que a visita era de padre Gastão, tratara de se pôr em alerta. Quando Licínio o apanhou pelo braço, Zenaide foi espiar da janela e viu-os encaminharem-se para os fundos da casa. Da porta da cozinha, não foi difícil divisá-los no banco do pomar, e