sábado, 4 de julho de 2015 By: Fred

{clube-do-e-livro} Nora Roberts - Laços de Gelo, nora roberts - luz na tormenta, Nora Roberts - luzes do norte






Digitaliza��o: Vick e Eve Dallas


Copyright(c) 1995 by Nora Roberts

T�tulo original: Born in Ice

Capa: Leonardo Carvalho

Editora��o: DFL

2008
Impresso no Brasil
Printed in Brazil

CIP-Brasil. Cataloga��o na fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros - RJ














Todos os direitos reservados pela:
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A Todos os meus ancestrais que
viajaram atrav�s da espuma.






Fui um andarilho selvagem por muitos anos.

- THE WILD ROVER

Queridos Leitores:

A Irlanda ocupa um lugar especial no meu cora��o. Os extasiantes campos verdes sob c�us de chumbo, o cinza dos muros de pedras, o majestoso desmoronamento
de um castelo em ru�nas, muitos saqueados pelos malditos cromwellianos. Amo o modo como o sol pode brilhar atrav�s da chuva, fazendo-a parecer gotas de ouro, e as
flores podem florescer selvagemente nos jardins e nos campos. � uma terra de penhascos �ngremes e pubs obscuros e enfuma�ados. De magias, lendas e cora��es partidos.
H� beleza mesmo no ar.
E o Oeste da Irlanda � a paisagem mais deslumbrante de um pa�s deslumbrante.
L� os engarrafamentos s�o freq�entemente vacas sendo conduzidas ao campo pelo fazendeiro. L�, uma estrada ventosa do interior, fechada por cercas vivas de
f�csias selvagens, pode levar a qualquer lugar. L� o rio Shannon brilha como prata e o mar quebra nos penhascos como trov�o.
Mas, al�m do interior, o que h� de mais magn�fico na Irlanda � o irland�s. Verdade. � terra de poetas, guerreiros e sonhadores, mas � ainda uma terra que abre
os bra�os aos estrangeiros. A hospitalidade irlandesa � simples e delicada. �, ou deveria ser, a defini��o da palavra "boas-vindas".
Ao escrever La�os de Gelo, a hist�ria de Brianna Concannon, quis mostrar a incompar�vel generosidade de esp�rito, a simplicidade de uma porta aberta e a for�a
do amor. Ent�o, venha e sente-se um momento em frente ao fogo, coloque um pouco de u�sque no seu ch�. Ponha os p�s para cima e deixe suas preocupa��es para l�. Gostaria
de simplesmente lhes contar uma hist�ria.


Slaint�,
Nora






O
vento selvagem zunia praguejando sobre o Atl�ntico e golpeava, com os punhos, os campos dos condados do Oeste. Pesadas gotas de chuva ferroavam o solo e a�oitavam
a carne de um homem a ponto de lhe moer os ossos. Flores que haviam desabrochado brilhantemente entre a primavera e o outono escureciam sob a geada assassina.
No interior dos chal�s e pubs, as pessoas se reuniam em torno do fogo e falavam sobre suas fazendas e telhados, sobre as pessoas queridas que tinham emigrado
para a Alemanha ou para os Estados Unidos. Quase n�o importava que tivessem ido no dia anterior ou havia uma gera��o. A Irlanda estava perdendo seu povo, assim como
parecia ter perdido sua l�ngua.
Havia algum coment�rio ocasional sobre The Troubles, aquela intermin�vel guerra no Norte. Mas Belfast estava longe da aldeia de Kilmilhil, em quil�metros e
tamb�m em emo��o. As pessoas se preocupavam mais com suas lavouras, seus animais, os casamentos e com as perdas que viriam com o inverno.
A poucos quil�metros da vila, numa cozinha aquecida pelo calor e pelo cheiro bom de um assado, Brianna Concannon olhava pela janela, enquanto a chuva gelada
atacava seu jardim.
- Estou vendo que vou perder minhas columbinas. E tamb�m as dedaleiras.
Partia-lhe o cora��o pensar naquilo, mas ela desenterrara o que conseguira, guardando as plantas na pequena e atulhada cabana atr�s da casa. A tempestade chegara
bem depressa.
- Voc� plantar� mais na primavera. - Maggie observava o perfil da irm�. Brie se preocupava com suas flores como uma m�e com seus beb�s. Com um suspiro, Maggie
massageou sua pr�pria barriga protuberante. Ela ainda ficava at�nita ao pensar que era ela quem estava casada e esperando um beb�, e n�o sua irm�, que amava a vida
dom�stica. - E voc� vai adorar fazer isso.
- Acho que sim. Mas preciso mesmo de uma estufa. Andei olhando algumas em revistas. Acho que d� para fazer uma. - E provavelmente poderia adquiri-la na primavera,
se fosse cuidadosa. Sonhando acordada com as plantas que floresceriam em seu novo cercado de vidro, retirou uma fornada de muffins de amora. Maggie lhe trouxera
as frutas do mercado de Dublin. - Voc� vai levar isto para casa.
- Vou sim. - Maggie riu e tirou um da cesta, jogando-o de uma m�o para outra, a fim de esfri�-lo, antes de morder. - Depois de encher a barriga. Rogan toma
conta de cada gr�o que ponho na boca.
- Ele quer ver voc� e o beb� saud�veis.
- Ah, sim. E acho que ele est� querendo saber quanto de mim � beb� e quanto � gordura.
Brianna olhou a irm�. Maggie tinha ficado redonda e delicada, uma aura de contentamento envolvendo-a, � medida que chegava ao �ltimo trimestre da gravidez,
o que contrastava intensamente com o excesso de energia e petul�ncia a que Brianna estava habituada.
Ela est� feliz, Brianna pensou, apaixonada. E sabe que seu amor � correspondido.
- Voc� n�o engordou quase nada, Margaret Mary. - Brianna falou e observou um humor malicioso, em vez de irrita��o, iluminar os olhos de Maggie.
- Fiz uma aposta com uma das vacas de Murphy, e estou ganhando dela. - Terminou de comer o muffin, procurando, descaradamente, por outro. - Em poucas semanas
n�o vou conseguir ver al�m da minha barriga, para enxergar a ponta da pipeta para soprar vidro. Vou precisar mudar a t�cnica.
- Poderia tirar umas f�rias de seus vidros. - Brianna observou. - Sei que Rogan lhe falou que voc� j� produziu o bastante para todas as galerias dele.
- E o que faria, al�m de morrer de t�dio? Tive uma id�ia para uma pe�a especial para a galeria nova, aqui em Clare.
- Que n�o abrir� antes da primavera.
- At� l� Rogan ter� cumprido sua amea�a de me amarrar na cama, se eu fizer qualquer movimento na dire��o da oficina. - Suspirou, mas Brie suspeitou que ela
n�o estava se incomodando muito com a amea�a. Nem com a domina��o sutil de Rogan. Temeu que ela estivesse abrandando.
- Quero trabalhar enquanto puder. E � bom estar em casa, mesmo neste inverno. Imagino que voc� n�o ter� nenhum h�spede.
- Acontece que terei. Um ianque, na pr�xima semana. - Brianna voltou a completar a x�cara de ch� de Maggie, depois a sua, antes de se sentar. O cachorro, que
esperara pacientemente ao lado da cadeira, deitou a enorme cabe�a no seu colo.
- Um ianque? S� um? Um homem?
- Hummm. - Brianna acariciou a cabe�a de Concobar. - Um escritor. Reservou um quarto. Quer refei��es tamb�m, por um per�odo indefinido. Pagou um m�s adiantado.
- Um m�s! Nesta �poca do ano? - Surpresa, Maggie olhava para fora, enquanto o vento sacudia as janelas da cozinha. Acolhedor � que o tempo n�o estava. - Bem
que dizem que os artistas s�o exc�ntricos. O que ele escreve?
- Livros de mist�rio. J� li alguns e ele � bom. Ganhou pr�mios e existem at� filmes adaptados de suas hist�rias.
- Um escritor de sucesso, americano, passando o pior do inverno numa pousada, no Condado de Clare. Bem, ter�o muito o que comentar no pub.
Maggie lambeu as migalhas dos dedos c estudou a irm� com olhos de artista. Brianna era uma mulher ador�vel, toda r�sea e ouro, pele sedosa e porte elegante.
O cl�ssico rosto oval, a boca delicada, sem pintura e, freq�entemente, s�ria demais. Olhos verde-claros, que tendiam a sonhar, membros longos e esguios, cabelos
que lembravam fogo - uma cabeleira vasta e rebelde que quase sempre escapava dos grampos.
E dona de um bom cora��o, Maggie pensou. Inteiramente ing�nua, apesar de seu contato com estranhos como dona da pousada, sobre o que se passava no mundo al�m
do port�o de seu jardim.
- N�o sei o que pensar disso, Brie, voc� sozinha em casa, com um homem, por muitas semanas.
- Com freq��ncia fico sozinha com os h�spedes, Maggie. � como ganho a vida.
- Voc� raramente tem um �nico h�spede, e em pleno inverno. N�o sei quando devemos voltar a Dublin e...
- N�o vai estar aqui para cuidar de mim? - Brianna sorriu, mais divertida do que ofendida. - Maggie, sou uma mulher adulta. Uma empres�ria adulta, que pode
cuidar de si mesma.
- Voc� est� sempre muito ocupada cuidando dos outros.
- N�o comece a falar da mam�e. - Os l�bios de Brianna se crisparam. - Fa�o muito pouco agora que ela est� na casa dela com Lottie.
- Sei exatamente o que voc� faz - Maggie falou num rompante. - Correndo cada vez que ela estala os dedos, ouvindo suas lam�rias, levando-a ao m�dico toda vez
que ela se imagina com uma doen�a fatal. - Maggie levantou uma das m�os, furiosa consigo mesma por se ver dominada, outra vez, pela raiva e pela culpa. - Isso n�o
� da minha conta, agora. Esse homem...
- Grayson Thane - Brianna completou, mais do que agradecida pelo fato de o assunto ter se desviado da m�e delas. - Um respeit�vel autor americano que deseja
um quarto tranq�ilo, num bem gerenciado estabelecimento no Oeste da Irlanda. Ele n�o tem interesse na propriet�ria. - Pegou o ch� e bebeu. - E o dinheiro que vou
receber vai pagar minha estufa.





N
�o era incomum para Brianna ter um h�spede ou dois em Blackthorn Cottage durante as piores tempestades do inverno. Mas janeiro era um m�s fraco e, freq�entemente,
sua casa ficava vazia. Ela n�o se incomodava com a solid�o, nem com os gemidos assombradores do vento, nem mesmo com o c�u de chumbo que vomitava chuva e gelo dia
ap�s dia. Tudo isso lhe dava tempo para planejar.
Ela apreciava ter viajantes, aguardados ou n�o. Do ponto de vista comercial, libras e centavos sempre contavam. Al�m disso, Brianna gostava de companhia e
da oportunidade de servir e oferecer uma casa tempor�ria para aqueles que passavam pelo seu caminho.
Nos anos que sucederam � morte do pai e � mudan�a da m�e, transformara a casa no lar que desejara quando crian�a, com fogo na lareira, cortinas de renda e
aromas de assados vindos da cozinha. Embora tivesse sido Maggie, a arte de Maggie, que lhe permitira expandir-se, pouco a pouco. Era algo que Brianna nunca esqueceria.
Mas a casa era sua. Seu pai tinha entendido seu amor e sua necessidade daquilo. Ela cuidava de sua heran�a como de uma crian�a.
Talvez fosse o tempo que a fazia pensar no pai. Ele morrera num dia como aquele. De vez em quando, em certos momentos, quando estava sozinha, descobria que
ainda carregava alguns resqu�cios de tristeza, com lembran�as, boas e m�s, enterradas.
Trabalho era do que ela precisava, disse a si mesma, afastando-se da janela, antes que come�asse a pensar muito.
Com a chuva caindo, decidiu adiar uma ida � vila e enfrentar uma tarefa que vinha evitando havia um bom tempo. N�o esperava ningu�m naquele dia e sua �nica
reserva s� viria no fim da semana. Com o cachorro grudado nela, Brianna carregou vassoura, balde, panos e uma caixa vazia para o s�t�o.
Limpava o lugar com certa regularidade. Nenhum p� era permitido na casa de Brianna por muito tempo. Mas havia caixas e caixotes que ignorava, na rotina do
dia-a-dia. N�o mais, disse a si mesma, e abriu a porta do s�t�o. Dessa vez, faria uma faxina completa. E n�o permitiria que sentimentos a impedissem de lidar com
lembran�as remanescentes.
Se o lugar fosse limpo de uma vez por todas, pensou, ela poderia comprar material e pagar a m�o-de-obra necess�ria para reform�-lo. Daria um loft bem aconchegante,
pensou, inclinada sobre a vassoura. Talvez com uma daquelas janelas no telhado. Amarelo-claro nas paredes para trazer o sol para dentro. Polimento com cera e um
de seus tapetes no ch�o. J� podia v�-lo, a linda cama coberta com uma colcha colorida, uma cadeira bonita e uma pequena escrivaninha. E se ela tivesse...
Sacudiu a cabe�a e riu sozinha. Estava indo r�pido demais.
- Sempre sonhando, Con - murmurou, acariciando a cabe�a do c�o. - O que � preciso aqui � suor e nenhuma piedade.
As caixas primeiro, decidiu. Era hora de livrar-se de pap�is velhos, de roupas velhas.
Trinta minutos depois, tinha pilhas organizadas. Uma delas daria para a igreja doar aos pobres, outra transformaria em esfreg�es. Guardaria a �ltima.
- Ah, veja isto, Con. - Com rever�ncia, apanhou uma roupinha de batismo, alisando gentilmente as dobras. Fr�geis ramos de alfazema inundaram o ambiente. Bot�es
min�sculos e barras de renda enfeitavam o linho. Obra de sua av�, Brianna concluiu sorrindo. - Ele a guardou - murmurou. Sua m�e jamais legaria tais pensamentos
sentimentais �s futuras gera��es. - Veja s�, Maggie e eu devemos ter usado isto. E papai a guardou para nossos filhos.
Sentiu uma ang�stia t�o familiar que mal a percebeu. N�o havia beb� dormindo num ber�o para ela, nenhum embrulhinho macio esperando para ser acalentado, mimado,
amado. Mas Maggie, pensou, desejaria isto. Dobrou cuidadosamente a roupinha outra vez.
A caixa seguinte estava cheia de pap�is que a fizeram suspirar. Teria de l�-los, pelo menos passar os olhos. O pai tinha guardado cada pedacinho de correspond�ncia.
Devia haver recortes de jornais tamb�m. Id�ias, ele diria, para novas aventuras.
Sempre uma nova aventura. Separou v�rios artigos que ele recortara sobre inven��es, paisagismo, carpintaria, com�rcio. Nenhum sobre fazendas, observou com
um sorriso. Nunca havia sido um fazendeiro. Encontrou cartas de parentes, de companhias para as quais ele havia escrito na Am�rica, na Austr�lia, no Canad�. E ali
estava o recibo de compra do velho caminh�o que tiveram quando era crian�a. Um documento a fez parar e franzir as sobrancelhas, confusa. Parecia um tipo de certificado
de a��es. Minas Triquarter, em Gales. Pela data, parecia que as comprara apenas poucas semanas antes de morrer.
Minas Triquarter? Outra aventura. Papai gastando um dinheiro que quase n�o t�nhamos. Bem, teria de escrever para esta companhia Triquarter e ver o que seria
feito. Era improv�vel que as a��es valessem mais do que os pap�is onde estavam impressas. Assim sempre fora a sorte de Tom Concannon com neg�cios.
Aquela brilhante alian�a de bronze que ele sempre buscava nunca enfeitara o dedo de sua m�o.
Brianna remexeu mais a caixa, divertindo-se com cartas de primos, tios e tias. Eles o tinham amado. Todos o tinham amado. Quase todos, corrigiu-se, pensando
na m�e.
Afastando aquele pensamento, apanhou tr�s cartas amarradas com uma fita vermelha desbotada. O endere�o do remetente era Nova York, mas isso n�o era surpresa.
Os Concannon tinham muitos conhecidos e parentes nos Estados Unidos. O nome, entretanto, era um mist�rio para ela. Amanda Dougherty.
Desdobrou a carta, observando a letra caprichada e uniforme. Com a respira��o presa na garganta, voltou a ler, palavra por palavra:

Meu querido Tommy,
Falei a voc� que n�o escreveria. Talvez eu n�o devesse enviar esta carta, mas precisava fingir, ao menos, que posso falar com voc�. Voltei a Nova York apenas
por um dia. Voc� parece j� estar t�o longe, e os dias que tivemos juntos, mais preciosos. Estive no confession�rio e recebi minha penit�ncia. Embora, no meu cora��o,
nada do que aconteceu entre n�s seja pecado. Amor n�o pode ser pecado. E eu sempre amarei voc�. Um dia, se Deus for generoso, encontraremos um jeito de ficarmos
juntos. Mas, se isto n�o acontecer, quero que voc� saiba que venerarei cada momento que nos foi dado. Sei que � meu dever dizer-lhe para honrar o sacramento do matrim�nio,
devotar-se aos dois beb�s que ama tanto. E digo isto. Mas, talvez por ego�smo, tamb�m lhe pe�o que alguma vez, quando a primavera chegar a Clare, e o Shannon estiver
iluminado com a luz do sol, pense em mim. E como voc� me amou durante aquelas poucas semanas. Amo voc�.
Sempre, Amanda

Cartas de amor, pensou sombriamente. Para seu pai. Escritas, percebeu olhando a data, quando ela era crian�a.
Suas m�os gelaram. Como deveria uma mulher, uma mulher adulta, de vinte e oito anos, reagir ao descobrir que seu pai amara uma mulher, outra mulher que n�o
sua m�e? Seu pai, com seu riso vivo, seus planos in�teis. Aquelas eram palavras escritas apenas para os seus olhos. No entanto, como poderia n�o l�-las?
Com o cora��o batendo pesadamente no peito, Brianna abriu a seguinte.

Meu querido Tommy,
Li e reli sua carta at� decorar cada palavra. Meu cora��o se parte ao pensar em voc� t�o infeliz. Eu tamb�m, muitas vezes, contemplo o mar e imagino voc� olhando
para mim atrav�s da �gua. Tenho tanto para lhe falar, mas tenho medo de somente aumentar a dor no seu cora��o. Se n�o h� amor em rela��o � sua esposa, deve haver
o dever.
N�o preciso dizer que suas filhas devem ser sua prioridade. Sei, soube todo o tempo, que elas s�o as primeiras em seu cora��o e em seus pensamentos. Deus o
aben�oe, Tommy, por pensar tamb�m em mim. E pelo presente que voc� me deu. Pensei que minha vida seria vazia, agora sei que ser� plena e rica. Amo voc� agora mais
do que quando nos separamos. N�o fique triste quando pensar em mim. Mas pense em mim.
Sempre, Amanda

Amor, Brianna pensou, enquanto os olhos se enchiam de l�grimas. Havia tanto amor ali e t�o pouco fora dito. Quem teria sido esta Amanda? Como teriam se encontrado?
E quantas vezes seu pai havia pensado nessa mulher? Quantas vezes a tinha desejado?
Enxugando uma l�grima, Brianna abriu a �ltima carta.

Meu querido,
Rezei e rezei antes de escrever esta carta. Pedi a Nossa Senhora ajuda para fazer o que � certo. N�o tenho certeza do que seria mais correto em rela��o a voc�.
S� espero que o que vou contar a voc� lhe proporcione alegria, e n�o tristeza.
Lembro-me das horas que passamos juntos no meu quartinho da pousada, admirando o Shannon. Como voc� foi gentil e delicado, como ambos est�vamos cegos pelo
amor que varreu nossas almas. Nunca senti e nunca sentirei novamente um amor assim t�o profundo e inabal�vel. Ent�o, eu me sinto grata, embora nunca possamos ficar
juntos, por ter algo precioso para lembrar que fui amada. Estou gr�vida de um filho seu, Tommy. Por favor, fique feliz por mim. N�o estou s� e n�o tenho medo. Talvez
eu devesse estar envergonhada. Solteira, gr�vida do marido de outra mulher. Talvez a vergonha apare�a, mas agora estou apenas cheia de alegria.
Fiquei sabendo h� algumas semanas, mas n�o tive coragem de contara voc�. Encontrei-a agora, quando senti o primeiro despertar da vida que fizemos dentro de
mim. Preciso dizer o quanto esta crian�a ser� amada? J� me imagino segurando nosso beb� nos bra�os. Por favor, meu querido, pelo amor do nosso filho, n�o deixe nem
tristeza nem culpa entrarem em seu cora��o. E, por amor a nosso filho, estou indo embora. Apesar de pensar em voc� cada dia, cada noite, n�o escreverei novamente.
Amarei voc� por toda a minha vida, e sempre que olhar para a vida que criamos naquelas horas m�gicas, perto do Shannon, eu o amarei ainda mais.
D� a suas filhas tudo aquilo que sente por mim. E seja feliz.
Sempre, Amanda

Um filho. Com olhos marejados, Brianna cobriu a boca com a m�o. Uma irm�. Um irm�o. Santo Deus! Em algum lugar, havia um homem ou uma mulher ligada a ela pelo
sangue. As idades deviam ser pr�ximas. Talvez tivessem a mesma cor, as mesmas fei��es.
O que poderia fazer? O que seu pai poderia ter feito, tantos anos atr�s? Teria procurado pela mulher e pelo filho dele? Teria tentado esquecer?
N�o. Brianna acariciou as cartas delicadamente. N�o tinha tentado esquecer. Havia guardado as cartas para sempre. Fechou os olhos, sentando-se no s�t�o levemente
iluminado. E ele tinha amado sua Amanda. Para sempre.

Precisava pensar antes de contar a Maggie o que havia encontrado. Pensava melhor quando estava ocupada. N�o podia mais olhar o s�t�o, mas havia outras coisas
que poderiam ser feitas. Esfregou, poliu e cozinhou. A singela familiaridade dos afazeres dom�sticos e o prazer dos aromas que desprendiam iluminavam seu esp�rito.
Colocou mais carv�o no fogo, preparou um ch� e come�ou a projetar sua estufa.
A solu��o acabaria vindo, disse para si mesma. Depois de vinte e cinco anos, uns poucos dias pensando n�o prejudicariam ningu�m. Uma parte do adiamento era
covardia, uma necessidade fr�gil de evitar o tormento das emo��es da irm�, ela reconhecia isto.
Nunca dissera ser uma mulher valente.
Com seu esp�rito pr�tico, escreveu uma carta quase comercial para a Minas Triquarter, em Gales, e deixou-a de lado para postar no dia seguinte.
Tinha uma lista de tarefas para a manh�, chovesse ou fizesse sol. Quando acabou de ajeitar o fogo para a noite, estava grata por Maggie ter estado ocupada
demais para aparecer. Mais um dia, talvez dois, e ela mostraria as cartas � irm�.
Mas esta noite poderia relaxar, deixar sua mente vazia. Algum prazer era tudo do que precisava, concluiu. Na verdade, suas costas do�am um pouquinho por ter
exagerado na faxina. Um banho demorado com alguns sais que Maggie lhe trouxera de Paris, uma x�cara de ch�, um livro. Usaria a banheira grande do andar de cima e
trataria a si mesma como um h�spede. Em vez de sua cama estreita no quarto pr�ximo � cozinha, dormiria esplendorosamente no que chamava de su�te nupcial.
- Somos reis esta noite, Con - falava com o cachorro, enquanto derramava uma quantidade generosa dos sais na �gua corrente. - Jantar na bandeja em sua cama,
um livro escrito pelo nosso j� quase h�spede. Um americano muito importante, lembre-se - acrescentou, enquanto Con golpeava o ch�o com a cauda.
Tirou a roupa e deixou-se deslizar na �gua quente e perfumada. Suspirou profundamente. Uma hist�ria de amor seria mais apropriada para o momento do que um
suspense intitulado The Bloodstone Legacy. Mas acomodou-se na banheira e mergulhou na hist�ria de uma mulher assombrada pelo passado e amea�ada pelo presente.
A hist�ria a prendeu tanto que, quando a �gua esfriou, segurou o livro com uma das m�os, continuando a ler, enquanto secava o corpo com a outra. Tremendo,
vestiu uma longa camisola de flanela e soltou os cabelos. S� o h�bito arraigado fez com que deixasse o livro de lado tempo suficiente para arrumar o banheiro. Mas
n�o se preocupou com o jantar na bandeja. Em vez disso, aconchegou-se na cama, puxando a coberta.
Mal podia ouvir o vento bater nas janelas, a chuva golpe�-las. Cortesia do livro de Grayson Thane, Brianna estava no ver�o opressivo do Sul dos Estados Unidos,
ca�ada por um assassino.
Passava da meia-noite quando o cansa�o a venceu. Caiu adormecida com o livro ainda nas m�os, o cachorro ressonando nos p�s da cama e o vento uivando como uma
mulher assustada.
Sonhou, naturalmente, com terror.

* * *

Grayson Thane era um homem de impulsos. Reconhecendo isto, geralmente aceitava os desastres causados por essa sua caracter�stica t�o filosoficamente quanto
os triunfos. No momento, era for�ado a admitir que dirigir de Dublin a Clare, no meio do inverno, enfrentando uma das mais terr�veis tempestades, fora um erro.
Mas, mesmo assim, era uma aventura. E vivia atrav�s delas.
Nos arredores de Limmerick, um pneu furou. Na verdade, o pneu rasgou inteiro, Gray se corrigiu. Aventureiro que se preza tem que passar por isso. Quando acabou
de troc�-lo, estava como um rato afogado, apesar da capa que escolhera em Londres na semana anterior.
Por duas vezes se perdera, indo dar em ruas estreitas e cheias de vento, pouco maiores que um fosso. Suas pesquisas informaram que perder-se na Irlanda era
parte do charme.
Ele se esfor�ava para se lembrar disso.
Estava faminto, encharcado at� a alma e com medo de ficar sem gasolina, antes de encontrar qualquer coisa remotamente parecida com uma pousada ou uma vila.
Em sua mente, ele seguira o mapa. Visualizar era um talento que tinha nascido com ele e podia, com um pequeno esfor�o, reproduzir cada linha do mapa detalhado
que sua anfitri� lhe enviara.
O problema era que estava escuro feito breu, a chuva inundava seu p�ra-brisa como a corrente de um rio, e o vento a�oitava seu carro naquele l�gubre arremedo
de estrada, como se o Mercedes fosse um carrinho de brinquedo.
Desejava ardentemente um caf�.
Quando a estrada bifurcou, Gray optou pela esquerda. Se n�o encontrasse a pousada ou qualquer coisa parecida, dormiria no carro e tentaria novamente na manh�
seguinte.
Era uma pena n�o poder apreciar a zona rural. Tinha a sensa��o, na negra desola��o da tempestade, que era exatamente o que estava procurando. Queria escrever
seu livro aqui, entre os penhascos e os campos do Oeste da Irlanda, com a amea�a feroz do Atl�ntico e as vilas calmas aglomeradas contra ele. Seu her�i, cansado
do mundo, poderia chegar em meio a uma tempestade.
Apertou os olhos em meio � escurid�o. Uma luz? Pediu a Deus que fosse. Percebeu o lampejo de um letreiro balan�ando forte com o vento. Manobrou o carro na
dire��o da luz e sorriu.
O letreiro dizia Blackthorn Cottage. Apesar de tudo, seu senso de dire��o n�o falhara. S� esperava que sua anfitri� comprovasse a fama da hospitalidade irlandesa
- afinal, estava chegando com dois dias de anteced�ncia. E eram duas da madrugada.
Gray procurou uma entrada para carros, n�o vendo nada al�m de sebes encharcadas. Sacudindo os ombros, parou o carro na estrada, enfiando as chaves no bolso.
Tinha tudo do que precisava para passar a noite, numa mochila a seu lado. Pegando a bolsa, deixou o carro onde estava e entrou na tormenta.
Ela o golpeava como uma mulher brava, com dentes e unhas. Cambaleando, abrindo caminho em meio aos canteiros de f�csia. Levado mais pela sorte do que pelo
racioc�nio, correu at� o port�o do jardim. Abriu-o, e ent�o lutou para fech�-lo outra vez. Gostaria de enxergar a casa mais nitidamente. Em meio � escurid�o, s�
tinha uma vaga id�ia de sua forma e tamanho com aquela �nica l�mpada brilhando na janela do andar de cima.
Usou a luz como um farol e come�ou a sonhar com caf�.
Ningu�m respondeu �s suas batidas. Com o vento gemendo, duvidava que algu�m pudesse ouvir qualquer batida. Levou menos de dez segundos para decidir, ele mesmo,
abrir a porta.
Outra vez, apenas uma vaga id�ia. A tempestade �s suas costas, o calor ali dentro. Sentia aromas - lim�o, cera, alfazema e alecrim. Imaginou se a velha senhora
irlandesa que dirigia a pousada fazia seu pr�prio pot-pourri. Imaginou se ela levantaria para lhe preparar uma refei��o.
Ent�o, ouviu um grunhido profundo, feroz - e ficou tenso. A cabe�a tumultuou, os olhos estreitaram. Por um momento atordoante, sua mente esvaziou.
Mais tarde, pensaria que era cena de um livro. Um dos seus, talvez. A linda mulher, o ondular da camisola branca, os cabelos derramando como ouro nos ombros.
Seu rosto p�lido � luz oscilante da vela que segurava na m�o. Sua outra m�o apertava a coleira de um cachorro que rosnava e grunhia como um lobo. Um cachorro cujos
ombros alcan�avam a cintura dela.
Ela o fitava do alto dos degraus como a vis�o que ele havia suplicado. Parecia esculpida em marfim ou gelo. Estava t�o im�vel, t�o absolutamente perfeita.
Ent�o, o c�o avan�ou. Com um movimento que agitou sua roupa, ela o conteve.
- Est� deixando a chuva entrar - falou numa voz que s� veio alimentar sua fantasia. Delicada, musical, no ritmo irland�s que ele come�ava a descobrir.
- Desculpe. - Voltou-se, desajeitadamente, para a porta atr�s dele, fechando-a de modo que a tempestade se tornou apenas uma tela de fundo.
O cora��o dela ainda batia acelerado. O barulho e a rea��o de Con a tinham acordado de um sonho de persegui��o e terror. Agora, olhava para um homem de preto,
deselegante, com exce��o do rosto que estava na sombra. Quando ele se aproximou, ela manteve a m�o tr�mula segurando firme na coleira de Con.
Um rosto comprido e estreito, ela via agora. O rosto de um poeta com seus olhos escuros e curiosos e a boca s�ria. Um rosto de pirata, endurecido pelos ossos
proeminentes e pelos cabelos longos e crestados de sol, com seus cachos �midos.
Tolice ter medo, repreendeu a si mesma. Afinal, era s� um homem.
- Ent�o, est� perdido? - perguntou.
- N�o. - Sorriu de modo lento, agrad�vel. - Me encontrei. Esta � Blackthorn Cottage?
- Sim, �.
- Sou Grayson Thane. Estou alguns dias adiantado, mas a Sra. Concannon est� me esperando.
- Ah! - Brianna murmurou alguma coisa ao cachorro que ele n�o entendeu, mas teve o efeito de relaxar a fera. - Eu o esperava na sexta, Sr. Thane. Mas seja
bem-vindo. - Come�ou a descer os degraus, o c�o a seu lado, o casti�al tremulando. - Sou Brianna Concannon - falou estendendo a m�o.
Arregalou os olhos por um momento. Esperara uma gentil senhora com cabelos grisalhos, presos num coque.
- Acordei voc� - disse ele.
- Normalmente, aqui dormimos cedo. Entre, venha para perto do fogo. - Dirigiu-se para a sala, acendendo as luzes. Apagou o casti�al e voltou para apanhar o
casaco molhado dele. - Noite terr�vel para viajar.
- Foi o que descobri.
Ele n�o era deselegante sob a capa. Embora n�o fosse t�o alto quanto a imagina��o inquieta de Brianna calculara, era esbelto e vigoroso. Como um boxeador,
ela pensou, e ent�o sorriu para si mesma. Poeta, pirata, boxeador. O homem era um escritor e um h�spede.
- Aque�a-se, Sr. Thane. Posso lhe servir um ch�? Ou prefere que eu... -J� ia se oferecer para lhe mostrar o quarto, quando se lembrou de que ela mesma estava
dormindo nele.
- Estive sonhando com um caf� nas �ltimas horas. Se n�o for muito inc�modo.
- N�o � problema. Nenhum problema mesmo. Fique � vontade. Era um cen�rio bonito demais para ficar sozinho.
- Vou at� a cozinha com voc�. J� incomodei bastante tirando-a da cama a esta hora. - Estendeu a m�o para Con cheirar. - � um cachorro. Por um instante achei
que fosse um lobo.
- � um c�o de ca�a. -A mente dela j� estava ocupada pensando nos detalhes. - Esteja � vontade para vir se sentar na cozinha. Est� com fome, n�o est�?
Afagando a cabe�a de Con, sorriu para ela.
- Srta. Concannon, acho que amo voc�. Ela enrubesceu com o cumprimento.
- Bem, voc� entrega seu cora��o f�cil demais s� por um prato de sopa.
- N�o foi o que ouvi a respeito de sua comida.
- � mesmo? - Entrando na cozinha, ela pendurou o casaco encharcado num cabide atr�s da porta.
- Um amigo de um primo do meu editor esteve aqui um ano atr�s. O coment�rio era que a dona de Blackthorn cozinhava como um anjo. - Ele n�o ouvira que ela tamb�m
parecia um.
- � um grande elogio. - Brianna colocou a chaleira no fogo, depois algumas conchas de sopa numa panela para esquentar. - Pena que s� posso lhe oferecer o b�sico
esta noite, Sr. Thane, mas n�o ir� para a cama com fome. - Tirou um p�o de uma cesta e fatiou-o generosamente. - Viajou muito, hoje?
- Sa� tarde de Dublin. Ia ficar mais um dia, mas me deu vontade de vir logo para c�. - Sorriu, pegando o p�o que ela colocara na mesa e mordeu-o antes que
ela pudesse oferecer manteiga. - Era hora de pegar a estrada. Voc� cuida daqui sozinha?
- Cuido sim. Lamento que voc� ter� pouca companhia nesta �poca do ano.
- N�o vim pela companhia - disse, observando-a preparar o caf�. A cozinha come�ava a cheirar como o para�so.
- Para trabalhar, voc� falou. Deve ser maravilhoso ser capaz de escrever hist�rias.
- Tem seus momentos.
- Gosto das suas. - Falou simplesmente, enquanto pegava uma tigela azul-escura no arm�rio.
Grayson levantou a sobrancelha. As pessoas geralmente come�avam a fazer d�zias de perguntas a essa altura. Como voc� escreve, onde encontra suas id�ias - a
pergunta mais detest�vel -, como publica? E perguntas eram seguidas pela terr�vel informa��o de que a pessoa tinha uma hist�ria para contar.
Mas ela s� disse aquilo. Gray pegou-se sorrindo outra vez.
- Obrigado. �s vezes, eu tamb�m. - Inclinou-se, inspirando profundamente, quando ela colocou a tigela de sopa na frente dele. - Isso n�o me cheira ao b�sico.
- S�o legumes com pedacinhos de carne. Se quiser, posso preparar um sandu�che.
- N�o, est� �timo. - Provou e suspirou. - Realmente �timo.
- Observou-a novamente. Sua pele sempre parecia t�o delicada e lisa? Ou era o sono? - Estou tentando lamentar ter acordado voc� - ele disse e continuou a comer.
- Mas com esta sopa fica dif�cil.
- Uma boa pousada est� sempre aberta aos viajantes, Sr. Thane.
- Colocando o caf� ao lado dele, fez sinal para o cachorro, que imediatamente se levantou, deixando seu posto ao lado da mesa da cozinha. - Se quiser, sirva-se
de mais sopa. Vou preparar seu quarto.
Ela saiu, apressando os passos ao subir as escadas. Teria de trocar os len��is da cama, as toalhas no banheiro. N�o lhe ocorreu oferecer a ele um dos outros
quartos. Como �nico h�spede, tinha direito ao melhor.
Trabalhou rapidamente e j� estava colocando as fronhas rendadas nos travesseiros, quando ouviu barulho na porta.
Sua primeira rea��o foi angustiar-se por v�-lo parado na soleira da porta. A seguinte foi de resigna��o. Era a casa dela, afinal. Tinha direito de usar todos
os c�modos.
_Andei me dando umas merecidas feriazinhas - disse ela,
puxando o edredom.
Estranho, ele pensou, que uma mulher apenas arrumando os len��is pudesse parecer t�o afrontosamente sexy. Devia estar mais cansado do que imaginara.
- Parece que tirei voc� da cama, em todos os sentidos. N�o precisava se mudar.
- � por este quarto que est� pagando. � quente. Acendi o fogo, e voc� tem seu pr�prio banheiro. Se voc�...
Ela se interrompeu porque ele avan�ou atr�s dela. O frio na espinha a fez enrijecer, mas ele apenas pegou o livro na mesa ao lado da cama. Brianna pigarreou
e deu um passo atr�s.
- Adormeci enquanto estava lendo - come�ou a dizer. Ent�o arregalou os olhos, aflita. - N�o quero dizer que ele me tenha feito dormir. S� que... - Ele estava
sorrindo, ela observou. N�o, ele estava rindo para ela. Torceu os cantos da boca em resposta. - Tive pesadelos.
- Obrigado.
Ela relaxou novamente, voltando-se para ajeitar a ponta do len�ol e do edredom numa dobra de boas-vindas.
- E voc� aparecendo no meio da tempestade me fez imaginar o pior. Tive certeza de que o assassino havia saltado para fora do livro, com uma faca ensang�entada
na m�o.
- E quem � ele?
Ela ergueu uma sobrancelha.
- N�o sei, mas tenho minhas suspeitas. Tem um modo inteligente de misturar emo��es, Sr. Thane.
- Gray - ele disse, devolvendo-lhe o livro. - Afinal, de um modo meio confuso estamos dividindo uma cama. - Tomou a m�o dela antes que ela pudesse pensar no
que dizer. Ent�o a deixou confusa, levando-a aos l�bios. - Obrigado pela sopa.
- Seja bem-vindo. Durma bem.
N�o tinha d�vida de que dormiria. Brianna mal havia sa�do e fechado a porta quando ele se despiu e desabou nu na cama. Havia um delicado aroma de lil�s no
ar, lil�s e algum perfume dos campos no ver�o, que ele reconheceu ser dos cabelos dela.
Adormeceu com um sorriso no rosto.






C
hovia ainda. A primeira coisa que Gray notou quando abriu os olhos, pela manh�, foi o tempo fechado. Poderia permanecer assim desde a aurora at� o crep�sculo. O
rel�gio antigo sobre a lareira marcava nove e quinze. Estava otimista o suficiente para apostar que eram nove e quinze da manh�.
N�o havia observado o quarto na noite anterior. O cansa�o da viagem e a figura bonita de Brianna Concannon fazendo sua cama haviam embotado seu c�rebro. Fazia
isto agora, aquecido sob as cobertas. As paredes eram forradas de papel, de modo que as diminutas violetas e os bot�es de rosa subiam do piso ao forro. O fogo, apagado
agora, fora montado numa lareira de pedra, e blocos de carv�o estavam arrumados em uma caixa pintada, ao lado.
Havia uma escrivaninha que parecia antiga e forte. Sua superf�cie brilhava de t�o polida. Uma l�mpada de bronze, um velho tinteiro e um pote de vidro com pot-pourri
estavam sobre ela. Sobre a c�moda espelhada, um vaso com flores desidratadas. Duas cadeiras estofadas em cor-de-rosa claro ladeavam uma mesinha. Havia um tapete
debruado sobre o piso, combinando com as cores suaves do quarto e os desenhos das flores silvestres na parede.
Gray recostou-se na cabeceira da cama, bocejou. N�o necessitava de ambientes quando trabalhava, mas gostou. Considerando tudo, tinha escolhido bem.
Pensou em se virar e voltar a dormir. Ainda n�o tinha fechado a porta da jaula atr�s dele - uma analogia que usava freq�entemente para escrever. Manh�s frias
e chuvosas, em qualquer parte do mundo, eram para ser curtidas na cama. Mas lembrou-se de sua anfitri�, a linda Brianna, de faces rosadas. A curiosidade sobre ela
o fez levantar-se cautelosamente, pisando no ch�o gelado.
Ao menos a �gua era quente, pensou, meio zonzo, sob o chuveiro. E o sabonete tinha um aroma suave, praticamente de uma floresta de pinheiros. Viajando como
costumava viajar, j� enfrentara muitos chuveiros gelados. O simples ar caseiro do banheiro, as toalhas brancas com um charmoso toque de renda lhe agradavam perfeitamente.
Mas tamb�m os ambientes geralmente lhe agradavam, desde uma barraca no deserto do Arizona at� hot�is luxuosos na Riviera. Gray gostava de pensar que mudava o cen�rio
para satisfazer suas necessidades - at�, � claro, suas necessidades mudarem.
Nos pr�ximos meses, ele imaginou que o confort�vel chal� na Irlanda estaria bom. Particularmente com o acr�scimo do benef�cio de sua linda anfitri�. Beleza
era sempre algo mais.
N�o viu raz�o para fazer a barba. Enfiou um jeans e uma camisa surrada. Como o vento tinha diminu�do consideravelmente, poderia dar uma caminhada pelos campos,
ap�s o caf�, e at� conhecer os arredores.
Mas foi o caf� que o fez descer.
N�o estava surpreso de v�-la na cozinha. O lugar parecia ter sido projetado para ela - a lareira fumacenta, as paredes brilhantes, as bancadas arrumad�ssimas.
Ela prendera os cabelos nesta manh�, observou. Imaginou que ela achava que era mais pr�tico. E talvez fosse mesmo, pensou, mas o fato de alguns fios escaparem
e flutuarem em torno do pesco�o e do rosto tornava-os pr�ticos, sedutores.
Era provavelmente uma p�ssima id�ia sentir-se atra�do pela anfitri�.
Ela estava assando alguma coisa e o aroma fez sua boca salivar. Certamente era o cheiro da comida e n�o a vis�o dela pr�pria, no avental branco bem passado,
que mexia com seus horm�nios.
Voltou-se para ele, os bra�os ocupados com uma grande tigela, cujo conte�do ela continuava a bater com uma colher de pau. Piscou, surpresa. Ent�o sorriu num
acolhimento prudente.
- Bom-dia. J� quer tomar seu caf�-da-manh�?
- Quero isso que est� cheirando.
- Isso n�o. - Com uma habilidade que ele teve de admirar, colocou o conte�do da tigela numa forma. - N�o est� pronto ainda e � um bolo para o ch�.
- Ma�� - ele disse cheirando o ar. - Canela...
- Seu olfato � bom. Quer um caf�-da-manh� irland�s ou prefere algo mais light?
- Light n�o � o que tenho na cabe�a.
- �timo, ent�o. A sala de jantar fica depois da porta. Levarei caf� e alguns p�es para aliment�-lo.
- Posso comer aqui? - Lan�ou-lhe seu mais charmoso sorriso, apoiando-se na porta. - Ou voc� se incomoda de algu�m ficar olhando enquanto cozinha? - Ou apenas
olhando para ela, pensou, fazendo o que quer que fosse.
- De maneira alguma. -Alguns h�spedes preferiam isto, embora muitos gostassem de ser servidos. Estendeu-lhe o caf� que j� tinha esquentado. - Gosta puro?
- Assim mesmo. - Bebeu em p�, olhando para ela. -Voc� cresceu nesta casa?
- Cresci. - Deixou algumas salsichas gordas escorregarem para a panela.
- Acho que mais parece uma casa do que uma pousada.
- Este era o objetivo. T�nhamos uma fazenda, sabe, mas vendemos a maior parte das terras. Conservamos a casa e o chalezinho no caminho, onde moram minha irm�
e o marido, de tempos em tempos.
- De tempos em tempos?
- Ele tem uma casa em Dublin tamb�m. � dono de galerias de arte. Minha irm� � uma artes�, uma artista.
- Ah, o que ela faz?
Ela sorriu ligeiramente, enquanto continuava cozinhando. Muitas pessoas achavam que artista era sin�nimo de pintor, o que sempre irritou Maggie. - Uma artista
do vidro. Ela sopra vidro. - Brianna apontou para a tigela no centro da mesa da cozinha. Tons past�is se combinavam, a borda fluida, como p�talas lavadas pela chuva.
- � um trabalho dela.
- Impressionante. - Curioso, aproximou-se e passou a ponta do dedo em torno da borda ondulada. - Concannon - murmurou. Ent�o riu para si mesmo. - N�o creio,
M. M. Concannon, a sensa��o irlandesa?
Os olhos de Brianna dan�aram de prazer.
- � assim que a chamam mesmo? Ah, ela vai adorar. - O orgulho flamejava. - E voc� reconheceu o trabalho dela...
- Tinha que reconhecer, acabei de comprar uma... n�o sei exatamente o que �. Uma escultura, eu acho. Galerias Worldwide, Londres, duas semanas atr�s.
- A Galeria de Rogan. Marido dela.
- Bem adequado. - Caminhou at� o fog�o para voltar a encher a x�cara. As salsichas fritas cheiravam quase t�o bem quanto a anfitri�.
- � uma pe�a surpreendente. Gelo branco em vidro, com fogo pulsando no interior. Achei que parecia a Fortaleza da Solid�o. - Diante de seu olhar inexpressivo,
ele riu. - Pelo visto, voc� n�o anda por dentro das hist�rias em quadrinhos. O santu�rio do Super-Homem, no �rtico, eu acho.
- Ela vai gostar disto. Maggie � boa em santu�rios. - Num gesto inconsciente, prendeu os fios de cabelos soltos com os grampos. Os nervos estavam um pouquinho
abalados. Ela sup�s que era pela maneira como ele a olhava, aquela avalia��o franca e indisfar��vel, desconfortavelmente �ntima. Era o lado escritor nele, disse
a si mesma, e deixou as batatas ca�ram na gordura fervente.
- Est�o construindo uma galeria aqui em Clare - ela prosseguiu.
- Estar� aberta na primavera. Aqui est� um mingau de aveia para come�ar, enquanto o resto est� cozinhando.
Mingau de aveia. Era perfeito. Uma manh� chuvosa em uma pousada irlandesa e mingau de aveia numa tigela marrom. Rindo, sentou-se e come�ou a comer.
-Vai escrever um livro que se passe aqui, na Irlanda? - Olhou
por sobre o ombro. - N�o sei se posso lhe perguntar isso.
- Claro. Este � o plano. Lugar retirado, campos chuvosos, penhascos altos. - Sacudiu os ombros. - Pequenas vilas ordeiras. Cart�es-postais. Mas que paix�es
e ambi��es se encontram por baixo delas?
Agora ela riu, virando o bacon.
- N�o sei se voc� acha as paix�es e ambi��es em nossa cidade � altura de suas inten��es, Sr. Thane.
- Gray.
- Sim, Gray. - Apanhou um ovo, quebrando-o com uma das m�os na frigideira fumegante. - Agora mesmo, as minhas andaram bem altas, quando uma vaca de Murphy
derrubou a cerca e pisoteou minhas rosas no �ltimo ver�o. E, pelo que me lembro, Tommy Duggin e Joe Ryan tiveram uma briga sangrenta do lado de fora do pub de O'Malley,
n�o muito tempo atr�s.
- Por causa de uma mulher?
- N�o, por uma partida de futebol na televis�o. Mas estavam um pouco b�bados na ocasi�o, foi o que me contaram, e fizeram as pazes t�o logo as cabe�as pararam
de girar.
- Bem, de qualquer forma, fic��o n�o � mais do que uma mentira.
- N�o � n�o. - Os olhos dela, suavemente verdes e s�rios, encontraram os dele quando colocou o prato na mesa. - � um tipo diferente de verdade. Seria a sua
verdade na �poca em que escreveu, n�o seria?
A percep��o dela surpreendeu-o e quase o embara�ou.
- Sim. Seria mesmo.
Satisfeita, ela voltou ao fog�o para arrumar salsich�es, tiras de bacon, ovos e panquecas de batata numa travessa.
- Voc� ser� a sensa��o na vila. Voc� sabe que n�s, irlandeses, somos loucos por escritores.
- N�o sou Yeats.
Ela sorriu, satisfeita quando ele transferiu saud�veis por��es de comida para o seu prato.
- Mas voc� n�o quer ser, quer?
Ele ergueu os olhos, mastigando a primeira fatia de bacon. Ela o havia apanhado assim, t�o r�pido? Logo a ele, que se orgulhava de sua pr�pria aura de mist�rio
- sem passado, sem futuro.
Antes que pudesse pensar numa resposta, a porta da cozinha escancarou e uma mulher entrou em meio � chuva de vento.
- Algum cabe�a oca largou o carro no meio da rua, ao lado da casa, Brie. - Maggie parou, despindo uma capa encharcada, e olhou para Gray.
- Culpado - ele falou, levantando a m�o. - Esqueci. Vou tir�-lo dali.
- Sem pressa agora. - Acenou para que voltasse a se sentar e tirou o casaco. - Termine seu caf�. Tenho tempo. Voc� deve ser o escritor ianque, n�o �?
- Duplamente culpado. E voc� deve ser M. M. Concannon.
- Isso mesmo.
- Minha irm�, Maggie - disse Brianna, enquanto servia um ch�. - Grayson Thane.
Maggie sentou-se com um leve suspiro de al�vio. Os chutes do beb� faziam uma tempestade por si s�s. - Um pouco cedo, n�o?
- Mudan�a de planos. - Era uma vers�o mais impetuosa de Brianna, Gray pensou. Cabelos mais vermelhos, olhos mais verdes... mais agu�ados. - Sua irm� foi delicada
o bastante para n�o me deixar dormir no jardim.
- Ah, delicada � uma coisa que Brie realmente �. - Maggie serviu-se de um peda�o de bacon no prato. - Bolo de ma��? - perguntou, cheirando o ar.
- Para o ch�. - Brianna tirou uma forma do forno, colocando outra no lugar. - Voc� e Rogan s�o bem-vindos.
- Talvez a gente apare�a. - Pegou um p�ozinho de uma cesta e come�ou a mordisc�-lo. - Planeja ficar por algum tempo, n�o �?
- Maggie, n�o amole meu h�spede. Tenho uns p�ezinhos sobrando, se quiser levar para casa.
- Ainda n�o estou indo embora. Rogan est� ao telefone e ficar� at� o dia do Ju�zo Final. Estava indo � cidade para comprar p�o.
- Tenho sobrando para lhe dar. Maggie sorriu e mordeu o p�o outra vez.
- Achei que voc� teria. - Voltou os agu�ados olhos verdes para Gray. - Ela cozinha o bastante para toda a vila.
- Talento art�stico est� no sangue - Gray disse naturalmente. Depois de espalhar gel�ia de morango numa fatia de p�o, passou o pote amistosamente para Maggie.
- Voc� com o vidro, Brianna com a comida. - Sem constrangimento, olhou para o bolo esfriando sobre o fog�o. - Quanto tempo at� a hora do ch�?
Maggie riu para ele.
- Acho que vou gostar de voc�.
- Tamb�m acho que vou gostar de voc�. - Levantou-se. - Vou tirar o carro.
- Voc� poderia apenas coloc�-lo na rua. Ele lan�ou a Brianna um olhar confuso.
- Como assim na rua?
- Ao lado da casa, a entrada para carro, voc� diria. Precisa de ajuda com a bagagem?
- N�o, d� para trazer sozinho. Prazer em conhec�-la, Maggie.
- O prazer � todo meu. - Lambeu os dedos, esperando at� ouvir a porta fechar. - Ele � melhor do que na foto na capa dos livros.
- �.
- N�o d� para imaginar um escritor com um corpo desse, todo forte e musculoso.
Sabendo que Maggie estava esperando por uma resposta, Brianna se manteve de costas.
- Admito que ele tem um belo f�sico. S� n�o podia esperar que uma mulher casada, no sexto m�s de gravidez, fosse prestar tanta aten��o assim ao corpo dele.
Maggie bufou.
- Aposto que qualquer mulher prestaria aten��o nele. E, se voc� n�o prestou, � melhor ver o que h� de errado com voc�, al�m dos olhos.
- Meus olhos v�o muito bem, obrigada. E n�o era voc� que estava preocupada comigo, por eu ficar sozinha com ele?
- Isto foi antes de eu decidir gostar dele.
Com um suspiro, Brianna olhou de relance para a porta da cozinha. Duvidava que tivesse muito tempo. Umedeceu os l�bios e manteve as m�os ocupadas, arrumando
a lou�a do caf�.
- Maggie, gostaria que arranjasse um tempinho para voltar mais tarde. Preciso falar com voc� sobre um assunto.
- Fale agora.
- N�o, n�o posso. - Olhou para a porta da cozinha. - Precisamos estar sozinhas. � importante.
- Voc� est� chateada.
- N�o sei se estou chateada ou n�o.
- Ele fez alguma coisa? O ianque? - Apesar da barriga, Maggie j� se levantara e estava pronta para brigar.
- N�o, n�o. N�o tem nada a ver com ele. - Irritada, Brianna colocou as m�os na cintura. - Voc� acabou de dizer que gostou dele.
- N�o, se ele estiver chateando voc�.
- Bem, ele n�o est�. N�o me pressione com isso agora. Voc� vem mais tarde, quando eu tiver certeza de que ele est� bem acomodado?
- Claro que venho. - Preocupada, Maggie acariciou o ombro da irm�. - Quer que Rogan venha tamb�m?
- Se ele puder. Sim - decidiu, pensando no estado de Maggie. - Por favor, pe�a a ele para vir com voc�.
- Antes do ch�, ent�o. Duas, tr�s horas?
- Est� bom. Leve os p�ezinhos, Maggie. Vou ajudar o Sr. Thane a se instalar.


Nada desagradava mais a Brianna do que confrontos, palavras r�spidas, emo��es amargas. Crescera numa casa onde o ar estava sempre fervendo com elas. Ressentimentos
cresciam at� estourar. Desapontamentos explodiam em gritos. Para se defender, ela sempre tentara controlar os pr�prios sentimentos, dirigindo-os o quanto podia para
o extremo oposto dos ataques de ira que haviam servido de prote��o � irm�, ante o tormento de seus pais.
Tinha de admitir para si mesma que muitas vezes desejara acordar uma manh� e descobrir que seus pais haviam decidido ignorar a igreja e as tradi��es e buscar
os pr�prios caminhos. Por�m, com mais freq��ncia, com muito mais freq��ncia, tinha rezado por um milagre, milagre de ter os pais descobrindo um ao outro novamente
e reacendendo a chama que os unira tantos anos antes.
Agora entendia, ao menos em parte, por que aquele milagre nunca podia ter acontecido. Amanda. O nome da mulher era Amanda.
Sua m�e teria sabido? Teria sabido que o marido que acabara por detestar amara outra mulher? Sabia que havia uma crian�a, adulta agora, resultado daquele amor
imprudente, proibido?
N�o podia perguntar. Nunca perguntaria, Brianna prometeu a si mesma. A cena terr�vel que causaria seria mais do que poderia suportar.
J� passara a maior parte do dia temendo dividir o que tinha descoberto com a irm�. Como conhecia Maggie muito bem, sabia que haveria sofrimento, raiva e uma
profunda desilus�o.
Tinha adiado isso por horas. Covardia, reconhecia envergonhada. Mas disse a si mesma que precisava de tempo para aquietar o pr�prio cora��o antes de poder
enfrentar a f�ria de Maggie.
Gray chegara na hora certa. Ajud�-lo a instalar-se no quarto, responder �s suas perguntas sobre as vilas da vizinhan�a e do interior. E perguntas ele tinha
�s d�zias. Quando finalmente o viu seguir em dire��o a Ennis, estava exausta. A energia mental dele era surpreendente, lembrando um contorcionista que ela vira uma
vez, numa feira, torcendo-se e transformando-se em formas mirabolantes, recompondo-se outra vez para repetir tudo de novo.
Para relaxar, ajoelhou-se, a fim de esfregar o ch�o da cozinha.
Eram quase duas horas quando ouviu os latidos de boas-vindas de Con. O ch� estava em infus�o, os bolos j� tinham esfriado e os pequenos sandu�ches que preparara
estavam cortados em tri�ngulos caprichados. Torceu as m�os uma vez, ent�o abriu a porta da cozinha para a irm� e o cunhado.
- Vieram caminhando?
- Sweeney reclama que preciso de exerc�cio. - O rosto de Maggie estava rosado, os olhos agitados. Inspirou longamente, cheirando o ar. - E vou precisar mesmo,
depois do ch�.
- Ela anda gulosa estes dias. - Rogan pendurou seu casaco e o de Maggie no cabide na porta. Podia ter vestido cal�as velhas e sapatos refor�ados para caminhar,
mas nada podia ocultar o que sua esposa chamava a marca de Dublin que havia nele. Alto, moreno, elegante, podia estar usando um smoking ou trapos. - Foi sorte voc�
nos ter chamado para o ch�, Brianna. Ela esvaziou nossa despensa.
- Bem, temos bastante aqui. Sentem perto do fogo que j� vou servir.
- N�o somos h�spedes - Maggie protestou. - Podemos ficar muito bem na cozinha.
- Passei o dia todo aqui. - Era uma desculpa tola. Para ela, n�o havia lugar mais convidativo na casa toda. Mas ela desejava, necessitava da formalidade da
sala para o que precisava ser feito. - Acendi a lareira e est� bem quentinho l�.
- Eu levo a bandeja - Rogan se ofereceu.
Mal se acomodaram na sala, Maggie pegou um peda�o de bolo.
- Coma um sandu�che - Rogan disse a ela.
- Ele me trata mais como uma crian�a do que como uma mulher carregando uma crian�a. - Mas pegou um sandu�che primeiro. - Estive contando a Rogan sobre seu
atraente ianque. Longos cabelos dourados, m�sculos bem delineados e grandes olhos castanhos. Ele n�o vai nos acompanhar para o ch�?
- Estamos adiantados para o ch� - Rogan observou. - Li seus livros - disse a Brianna. - Tem uma maneira inteligente de colocar o leitor no redemoinho.
- Eu sei. - Ela sorriu ligeiramente. - Adormeci a noite passada com a luz acesa. Ele foi dar uma volta at� Ennis e arredores. Ele � muito gentil, vai postar
uma carta para mim. - O modo mais f�cil, pensou, era, muitas vezes, pela porta dos fundos. - Achei alguns pap�is quando estava l� em cima, no s�t�o, ontem.
- J� n�o cuidamos dessas coisas antes? - Maggie perguntou.
- Deixamos uma por��o de caixas do papai sem mexer. Quando a mam�e estava aqui, parecia melhor n�o tocar nisso.
- Ela s� ia reclamar e esbravejar. - Maggie fez uma careta diante da x�cara de ch�. - Voc� n�o devia ter ido mexer nos pap�is dele, sozinha, Brie.
- N�o me importo. Estive pensando que poderia transformar o s�t�o em um loft para h�spedes.
- Mais h�spedes. - Maggie revirou os olhos. - Voc� � invadida por eles agora, durante a primavera e o ver�o.
- Gosto de ter pessoas em casa. - Era um velho argumento que ambas nunca veriam com os mesmos olhos. - De qualquer modo, j� era hora de ver essas coisas. Havia
algumas roupas tamb�m, n�o mais do que trapos agora. Mas encontrei isto. - Levantou-se e foi at� uma caixinha. Pegou a roupinha branca rendada. - � um trabalho da
vov�, tenho certeza. Papai deve t�-la guardado para seus netos.
- Ah... - Tudo em Maggie se enterneceu. Seus olhos, sua boca, sua voz. Estendeu as m�os, pegando a roupinha. - T�o pequena - murmurou. Exatamente no momento
em que ela acariciava o linho, o beb� se mexeu.
- Acho que sua fam�lia deve ter separado alguma tamb�m, Rogan, mas...
- Usaremos esta. Obrigado, Brie. - Um olhar para o rosto da esposa, e ele decidira. - Aqui, Margaret Mary.
Maggie pegou o len�o que ele oferecia e secou os olhos.
- Os livros dizem que s�o os horm�nios. Pare�o sempre estar transbordando.
- Deixe-me guardar para voc�. - Depois de recolocar a camisolinha na caixa, Brianna deu o pr�ximo passo e mostrou o certificado das a��es. -Achei isto tamb�m.
Papai deve ter comprado ou investido, qualquer coisa que seja, pouco antes de morrer.
Uma olhada no papel fez Maggie suspirar.
- Outro de seus esquemas para fazer dinheiro. - Estava quase t�o emocionada com as a��es quanto ficara com a camisolinha de beb�. - Bem pr�prio dele. Ent�o
ele pensou que iria �s minas, n�o �?
- Bem, ele tentou mais alguma coisa. Rogan franziu o cenho para o certificado.
- Voc�s querem que eu descubra algo sobre essa companhia?
- Escrevi para eles. O Sr. Thane est� enviando a carta para mim. N�o dar� em nada, imagino. - Nenhum dos esquemas de Tom Concannon surtira algum resultado.
- Mas voc� pode guardar os pap�is para mim, at� que eu tenha uma resposta.
- S�o dez mil a��es - Rogan apontou. Maggie e Brianna sorriram uma para a outra.
- E se valerem mais do que os pap�is onde est�o impressas, ele ter� quebrado seu recorde. - Maggie sacudiu os ombros e serviu-se de bolo. - Ele estava sempre
investindo em alguma coisa ou come�ando um novo neg�cio. Seus sonhos eram grandes, Rogan, e seu cora��o tamb�m.
O sorriso de Brianna se turvou.
- Encontrei mais alguma coisa. Algo que preciso mostrar a voc�. Cartas.
- Ele era famoso por escrev�-las.
- N�o. - Brianna interrompeu, antes que Maggie pudesse iniciar uma de suas hist�rias. Diga logo, ordenou a si mesma, quando o cora��o abrandou. Ande. - Estas
foram escritas para ele. S�o tr�s, e acho que seria melhor que voc� mesma as lesse.
Maggie p�de ver que os olhos de Brianna estavam gelados e distantes. Uma defesa, sabia, contra algo entre um aborrecimento e o desespero.
- Muito bem, Brie.
Sem dizer nada, Brianna apanhou as cartas, colocando-as na m�o da irm�.
Maggie teve apenas de olhar para o endere�o do remetente no primeiro envelope para que seu cora��o ficasse pesado. Abriu a carta.
Brianna ouviu o s�bito soar do sofrimento. Os dedos que estavam fechados se torceram. Viu Maggie levantar-se, apertar a m�o de Rogan. Uma mudan�a, Brianna
pensou com um leve suspiro. Um ano antes, Maggie teria recusado qualquer tipo de ajuda.
- Amanda. - Havia l�grimas na voz de Maggie. - Ele falou Amanda, antes de morrer. Parado l� no penhasco em Loop Head, naquele recanto que ele amava tanto.
�amos l� e ele brincava que atravessar�amos num barco, e nosso pr�ximo porto seria um pub em Nova York. - Agora as l�grimas rolavam. - Em Nova York. Amanda estava
em Nova York.
- Ele disse o nome dela. - Brianna levou os dedos � boca. Conteve-se com dificuldade, antes que voltasse ao seu h�bito de inf�ncia de roer as unhas. - Lembro-me
de voc� ter dito algo sobre isso no vel�rio. Ele disse mais alguma coisa, alguma coisa sobre ela?
- N�o disse nada, apenas o nome dela. - Maggie limpou as l�grimas com um gesto furioso. - N�o disse nada ent�o, nada mais. Ele a amava, mas n�o fez nada.
- O que ele poderia ter feito? - Brianna perguntou. - Maggie...
- Alguma coisa. - Rolaram mais l�grimas e houve mais f�ria quando Maggie levantou a cabe�a. - Qualquer coisa. Meu Deus, ele passou a vida num inferno. Por
qu�? Porque a Igreja diz que � pecado agir de outro modo. Bem, ele j� tinha pecado, n�o tinha? Havia cometido adult�rio. Eu o culpo por isto? Acho que n�o posso,
ao lembrar o que ele enfrentou nesta casa. Mas, por Deus, ele n�o poderia ter ido at� o fim?
- Ele ficou por n�s. - A voz de Brianna soou firme e fria. - Voc� sabe que ele ficou por n�s.
- Devo me sentir agradecida?
- Vai culp�-lo por amar voc�? - Rogan perguntou calmamente. - Ou conden�-lo por amar mais algu�m?
Os olhos dela brilharam. Mas o rancor que lhe veio � garganta se transformou em tristeza.
- N�o, nem uma coisa nem outra. Mas ele devia ter tido mais do que lembran�as.
- Leia as outras, Maggie.
- Vou ler. Voc� tinha acabado de nascer quando estas foram escritas - falou enquanto abria a segunda carta.
- Eu sei - Brianna falou num sussurro.
- Acho que ela o amou muito. D� para sentir o carinho. N�o � pedir muito querer amor, carinho. - Maggie olhou para Brianna, buscando algum sinal. N�o viu nada,
a n�o ser a mesma fria neutralidade. Suspirando, abriu a �ltima carta, enquanto Brianna sentava-se tensa. - S� queria que ele... - As palavras lhe faltaram. - Ah,
meu Deus. Um beb�. - Instintivamente a m�o dela desceu para cobrir o seu. - Ela estava gr�vida.
- Temos um irm�o ou uma irm� em algum lugar. N�o sei o que fazer.
Choque e f�ria fizeram Maggie pular. X�caras chacoalharam quando ela empurrou a cadeira para andar pela sala.
- O que fazer? J� foi feito, n�o foi? Vinte e oito anos atr�s, para ser bem exata.
Aflita, Brianna j� ia se levantar, mas Rogan a deteve.
- Deixe-a - murmurou. - Ela vai melhorar depois.
- Que direito ela tinha de dizer isso a ele e depois ir embora? Que direito ele tinha de deix�-la? - Maggie inquiriu. - E agora, voc�s acham que isto sobra
para n�s? Para n�s irmos atr�s? N�o estamos falando agora de uma crian�a abandonada, Brianna, mas de uma pessoa adulta. O que isso tem a ver conosco?
- Nosso pai, Maggie. Nossa fam�lia.
- Ah, sim, a fam�lia Concannon. Deus nos ajude. - Atordoada, ela se inclinou sobre a lareira, olhando cegamente para o fogo. - Ent�o ele era t�o fraco assim?
- N�o sabemos o que ele fez ou podia ter feito. Talvez a gente nunca saiba. - Brianna inspirou lentamente. - Se a mam�e soubesse...
Maggie interrompeu-a com uma risada curta e amarga.
- Ela n�o sabia. Voc� acha que ela n�o teria usado uma arma dessa para derrub�-lo de vez? Deus sabe que ela usou tudo o mais.
- Ent�o, n�o h� motivo para contar agora, h�? Maggie voltou-se lentamente.
- Voc� n�o quer dizer nada?
- Para ela, n�o. De que adiantaria mago�-la? Maggie apertou os l�bios.
- Voc� acha que isso a magoaria?
- Tem tanta certeza assim de que n�o?
A agita��o abandonou Maggie t�o rapidamente quanto a dominara.
- N�o sei. Como posso saber? Sinto como se eles fossem dois estranhos agora.
- Ele amava voc�, Maggie. - Rogan levantou-se e foi at� ela. - Voc� sabe disso.
- Sei. - Ela deixou-se abra�ar. - Mas n�o sei o que sinto.
- Acho que poder�amos tentar encontrar Amanda Dougherty - Brianna come�ou - e...
- N�o estou conseguindo raciocinar. - Maggie fechou os olhos. Havia emo��es demais duelando dentro dela para deixar que ela visse, como desejava, a dire��o
certa a tomar. - Preciso pensar a respeito, Brie. J� levou tanto tempo assim... Pode esperar mais um pouco.
- Desculpe, Maggie.
- N�o se sinta respons�vel por isso. - Um pouco de vivacidade voltou � voz de Maggie: - Voc� j� tem muito com que se preocupar. Me d� s� uns dias, Brie, e
decidiremos juntas o que fazer.
- Tudo bem.
- Gostaria de ficar com as cartas por enquanto.
- Claro.
Maggie aproximou-se da irm� e acariciou seu rosto p�lido.
- Ele tamb�m amava voc�, Brie.
- Do modo dele.
- De todos os modos. Voc� era seu anjo, seu bot�o de rosa. N�o se preocupe. Vamos encontrar um jeito de fazer o melhor.


Gray n�o se importou quando o c�u de chumbo come�ou a derramar chuva outra vez. Parou junto ao parapeito de um castelo em ru�nas observando um rio indolente.
O vento assobiava e gemia entre as rachaduras da pedra. Ele poderia ficar sozinho n�o somente neste lugar, mas neste pa�s, no mundo.
Era, decidiu, o lugar perfeito para um assassinato.
A v�tima poderia ser atra�da para c�, poderia estar seguindo antigos e sinuosos caminhos de pedra, poderia desaparecer desamparadamente, at� que qualquer migalha
de esperan�a se dissolvesse. N�o haveria escapat�ria.
Aqui, onde sangue antigo fora derramado, onde se infiltrara por entre pedras e terras ainda que n�o t�o profundamente, morte fresca poderia acontecer. N�o
por Deus, n�o pelo pa�s, mas por prazer.
Gray j� sabia quem era seu vil�o, podia imagin�-lo ali golpeando com a faca, cujo fio brilhava, � luz morti�a. Conhecia sua v�tima, o terror e a dor. O her�i
e a mulher que ele amaria eram t�o claros para Gray como o fluxo vagaroso do rio abaixo.
E sabia que teria de come�ar logo para cri�-los com palavras. N�o havia nada de que gostasse mais, quando escrevia, do que fazer seus personagens respirarem,
dando-lhes carne e osso. Descobrindo suas experi�ncias, seus medos secretos, cada desvio e cada �ngulo de seu passado.
Talvez isso fosse por n�o ter seu pr�prio passado. Tinha constru�do a si mesmo, camada por camada, t�o habilidosa e cuidadosamente como criava seus personagens.
Grayson Thane era quem tinha decidido ser, e sua habilidade de contar hist�rias lhe dera condi��es de se tornar quem era e o que desejava ser, com algum estilo.
Nunca se consideraria um homem modesto, mas se considerava n�o mais do que um escritor competente, um fiandeiro de contos.
Escrevia para entreter primeiro a si mesmo e reconhecia sua sorte em atingir a sensibilidade do p�blico.
Brianna estava certa. N�o queria ser um Yeats. Ser um bom escritor significava sustentar-se e fazer o que escolhesse. Ser um grande escritor trazia responsabilidades
e expectativas que ele n�o queria enfrentar. �quilo que Gray escolhia n�o encarar ele simplesmente virava as costas.
Mas havia ocasi�es, como esta, em que ele se perguntava como seria se tivesse ra�zes, antepassados, uma total devo��o � fam�lia ou � p�tria. As pessoas que
haviam constru�do aquele castelo que ainda existia, aqueles que haviam lutado l�, morrido l�. O que tinham sentido? O que tinham desejado? E como podiam batalhas
travadas havia tanto tempo ainda soar no ar, de forma t�o clara como a m�sica fatal de espada contra espada?
Havia escolhido a Irlanda por isso, pela hist�ria, pelas pessoas cujas lembran�as eram remotas e cujas ra�zes eram profundas. Por pessoas, admitiu, como Brianna
Concannon.
Era uma estranha e interessante recompensa que ela fosse t�o parecida com a hero�na que ele procurava.
Fisicamente, era perfeita. Aquela beleza delicada, luminosa, a gra�a simples, os modos calmos. Mas, sob a concha, em contraste com aquela generosa hospitalidade,
havia um certo alheamento, uma certa tristeza.
Complexidades, pensou, deixando a chuva golpear-lhe o rosto. Ele adorava contrastes e complexidades - quebra-cabe�as para resolver. O que havia legado aquele
assombro aos seus olhos, aquela frieza defensiva aos seus modos?
Seria interessante descobrir.





P
ensou que ela estivesse fora, quando voltou. Concentrando-se nos aromas como um c�o de ca�a, Gray foi direto para a cozinha.
Foi a voz dela que o fez parar - suave, calma e gelada. Sem sequer pensar em bisbilhotar, voltou-se e seguiu para a porta da sala.
Ele podia v�-la ao telefone. A m�o em garra no aparelho, um gesto de raiva ou nervosismo. N�o podia lhe ver o rosto, mas a tens�o nas costas e ombros denunciava
bem seu humor.
- Acabei de chegar, mam�e. Tive de buscar algumas coisas na vila. Estou com um h�spede.
Houve uma pausa, Gray observou enquanto Brianna levava a m�o � testa, esfregando-a com for�a.
- Sim, eu sei. Sinto que isso a tenha aborrecido. Vou a� amanh�. Posso...
Deteve-se obviamente interrompida por algum coment�rio �cido do outro lado. Gray afastou a vontade de entrar na sala e acalmar os ombros tensos.
- Levarei voc� aonde quiser amanh�. Nunca disse que estava ocupada demais e sinto que n�o esteja se sentindo bem. Farei as compras, sim, sem problemas. Antes
do almo�o, prometo. Tenho que ir agora. Estou com uns bolos no forno. Levarei um para a senhora, tudo bem? Amanh�, mam�e, prometo. - Murmurou um at� logo e voltou-se.
O abatimento do rosto, pela ang�stia que sentia, se transformou em choque quando viu Gray e enrubesceu. - Voc� caminha em sil�ncio - disse com um leve tom de aborrecimento.
- N�o o ouvi chegar.
- N�o quis interromper. - N�o sentia constrangimento algum por ouvir sua conversa, nem por observar as rea��es perturbadas que se refletiam no rosto dela.
- Sua m�e mora perto?
- N�o, bem longe. - A voz era cortante agora, aguda, com a raiva que se revolvia dentro dela. Ele ouvira seu sofrimento pessoal e nem achara importante o suficiente
para se desculpar. - Vou servir seu ch� agora.
- Sem pressa. H� bolos no forno. Ela o encarou.
- Menti. Devo lhe dizer que abri minha casa para voc�, mas n�o minha vida pessoal.
Ele aceitou com um aceno de cabe�a.
- Devo lhe dizer que sempre me intrometo. Voc� est� chateada, Brianna. Acho que deveria tomar um ch�.
- J� tomei, obrigada. - Seus ombros continuavam tensos quando se moveu passando diante dele. Gray a deteve com o mais leve ro�ar de sua m�o no bra�o dela.
Havia curiosidade nos olhos dele, e ela se ressentiu por isso. Havia pena, e isso ela n�o queria.
- Muitos escritores t�m ouvidos t�o abertos quanto um bom atendente de bar.
Ela se mexeu. Apenas um lev�ssimo movimento, mas colocou dist�ncia entre eles, e atingiu seu prop�sito.
- Sempre cismo com pessoas que julgam necess�rio contar seus problemas pessoais ao homem que lhes serve cerveja. Trarei seu ch� para a sala. Tenho muito que
fazer na cozinha para ter companhia.
Gray passou a l�ngua nos dentes, enquanto ela sa�a. Sabia que tinha sido posto exatamente no seu lugar.

* * *

Brianna n�o podia culpar o americano pela curiosidade. Tamb�m tinha a sua. Gostava de descobrir sobre as pessoas que passavam pela sua casa, ouvi-las falar
sobre sua vida e sua fam�lia. Podia ser injusto, mas preferia n�o falar da sua. Era muito mais confort�vel o papel de espectador. E mais seguro tamb�m.
Mas n�o estava brava com ele. A experi�ncia lhe ensinara que mau humor n�o resolvia nada. Paci�ncia, boas maneiras e um tom calmo eram prote��es mais efetivas
e uma arma contra a maioria dos confrontos. Serviram a ela muito bem durante o jantar, e, ao final, parecia que ela e Gray tinham retomado suas posi��es adequadas
de anfitri� e h�spede. O convite casual para que ela o acompanhasse ao pub da vila tinha sido recusado t�o casualmente quanto fora feito. Brianna tinha passado uma
hora agrad�vel, terminando a leitura de seu livro.
Agora, com o caf�-da-manh� servido e a lou�a lavada, preparava-se para dirigir at� a casa da m�e e dedicar o resto da manh� a Maeve. Maggie ficaria aborrecida
ao saber, Brianna pensou. Mas a irm� n�o entendia que era mais f�cil, certamente menos estressante, simplesmente satisfazer a necessidade que a m�e tinha de tempo
e afei��o. Inconveni�ncias � parte, eram apenas poucas horas de sua vida.
Quase um ano atr�s, antes do sucesso de Maggie tornar poss�vel instalar Maeve com uma acompanhante em sua pr�pria casa, Brianna ficava � disposi��o de seus
chamados e acenos vinte e quatro horas por dia, cuidando de doen�as imagin�rias, ouvindo reclama��es de suas pr�prias neglig�ncias.
E sendo lembrada, a toda hora, que Maeve tinha cumprido seu dever dando-lhe a vida.
O que Maggie n�o entendia, e pelo que Brianna continuava a se sentir culpada, era que estava disposta a pagar qualquer pre�o pela serenidade de ser a �nica
dona de Blackthorn Cottage.
E hoje o sol estava brilhando. Havia vest�gios da long�nqua primavera na brisa leve. N�o duraria, Brianna sabia. Aquilo tornava a luz luminosa e o ar suave
mais preciosos. Para aproveitar mais, abriu as janelas de seu velho Fiat. Teria de fech�-las novamente e ligar o lento aquecedor, quando apanhasse a m�e.
Olhou de relance para o pequeno e lindo Mercedes que Gray alugara - sem inveja. Ou talvez s� com uma pontinha de inveja. Era t�o eficientemente vistoso. E
combinava com o motorista, � perfei��o. Imaginou como seria sentar-se atr�s daquele volante s� por uns minutos.
Quase se desculpando, afagou o volante de seu Fiat, antes de girar a chave. O motor se esfor�ou, grunhiu e tossiu.
- Ah, logo agora! N�o acredito - murmurou, girando a chave novamente. - Vamos, querido, coragem. Ela odeia quando me atraso.
Mas o motor apenas gaguejou, ent�o morreu com um gemido. Resignada, Brianna saiu e levantou o cap�. Sabia que o Fiat, com freq��ncia, mostrava o humor de uma
velha chata. Mas, comumente, ele podia ser persuadido com alguns golpes e pancadas dados com as ferramentas que levava na mala.
Estava pegando uma caixa de ferramentas meio amassada quando Gray apareceu na porta da frente.
- Problemas com o carro? - gritou.
- Ele � temperamental. - Brianna atirou para tr�s os cabelos e levantou as mangas do su�ter. - S� precisa de um pouco de aten��o.
Com os polegares enfiados nos bolsos da frente dos jeans, ele se aproximou e olhou embaixo do cap�. N�o era arrog�ncia, mas quase.
- Quer que eu d� uma olhada?
Ela o encarou. Ainda n�o se barbeara. A barba por fazer deveria faz�-lo parecer desleixado e desarrumado. No entanto, a combina��o disso com os cabelos dourados
presos atr�s num rabo-de-cavalo eri�ado fez Brianna imaginar um astro de rock americano. Ela riu da id�ia.
- Entende mesmo de carros ou est� oferecendo ajuda porque acha que � sua obriga��o por ser homem?
Ele ergueu uma sobrancelha, enquanto pegava a caixa de ferramentas da m�o dela. Teve de admitir que ficara aliviado por ela n�o estar mais brava com ele.
- Chegue para tr�s, senhorita - ele falou num tom de voz arrastado do Sul. - E n�o esquente sua linda cabe�a. Deixe um homem cuidar disso.
Impressionada, ela balan�ou a cabe�a.
- Voc� falou exatamente como imaginei Buck falando em seu livro.
- Tem um bom ouvido. - Lan�ou-lhe um sorriso antes de se enfiar embaixo do cap�. - � um pe�o arrogante, n�o �?
- Hummm. - Embora estivessem falando de um personagem de fic��o, ela n�o tinha certeza se seria delicado concordar com ele. - Geralmente � o carburador. Murphy
prometeu consert�-lo quando tiver tempo.
Ainda com a cabe�a e os ombros embaixo do cap�, Gray simplesmente girou a cabe�a, lan�ando-lhe um olhar seco. - Bem, Murphy n�o est� aqui, est�?
Teve de admitir que n�o. Mordeu o l�bio, enquanto observava Gray trabalhar. Ela apreciara o oferecimento, de verdade. Mas o homem era um escritor, n�o um mec�nico.
N�o poderia arcar com o preju�zo, se ele estragasse alguma coisa.
- Geralmente, mexo aqui - para mostrar, inclinou-se ao lado de Gray e apontou -, depois ligo o carro.
Ele se voltou e ficaram olho no olho, boca com boca. Ela cheirava esplendidamente, como o ar puro e l�mpido da manh�. Enquanto ele a olhava, um rubor tingiu
as faces dela, os olhos se abrindo um pouco mais. Sua rea��o r�pida e obviamente espont�nea poderia t�-lo feito sorrir, se seu sistema operacional n�o estivesse
em pane.
- N�o � o carburador, desta vez - falou, imaginando o que ela faria se ele grudasse os l�bios justamente naquela pulsa��o em sua garganta.
- N�o? - Ela n�o conseguiria se mexer, mesmo que corresse risco de vida. Os olhos dele resplandeciam, pensou bobamente, fa�scas douradas em meio ao castanho,
assim como nos cabelos. Esfor�ou-se para continuar respirando. - Geralmente �.
Ele se moveu, um teste para ambos, at� que os ombros se tocaram. Os ador�veis olhos dela se turvaram de confus�o, como um mar sob c�us inconstantes. - Desta
vez � o cabo da bateria. Est� oxidando.
- Foi um inverno �mido.
Se ele se inclinasse apenas um pouquinho, sua boca encontraria a dela. Ao pensar nisso, ela sentiu um frio no est�mago. Seria rude, ele seria rude, estava
certa. Beijaria como o her�i do livro que tinha acabado de ler na noite anterior? Os dentes a mordiscando, enfiando a l�ngua? Todo ele numa busca ardente e feroz,
enquanto as m�os...
Ah, Deus. Estava enganada, Brianna percebeu, ela conseguiria se mexer, se corresse risco de vida. Sentiu como se tivesse acontecido, embora ele n�o tivesse
se movido, nem mesmo piscado. Atordoada com a pr�pria imagina��o, recuou abruptamente, deixando escapar um gemido angustiado, quando ele tamb�m se mexeu.
Ficaram parados,-quase abra�ados, sob a luz do sol.
O que ele faria?, pensou. O que ela faria?
Ele n�o sabia, ao certo, por que resistira. Talvez por causa das sutis ondas de medo vibrando nela. Talvez pelo choque, ao descobrir que tinha seu pr�prio
medo, comprimindo-lhe a boca do est�mago.
Foi ele quem deu um passo atr�s, um passo essencial.
- Vou limpar o cabo para voc� - ele disse. - E tentaremos outra vez.
As m�os dela procuraram uma pela outra, at� entrela�ar os dedos.
- Obrigada. Preciso ligar para a minha m�e, dizendo que vou me atrasar.
- Brianna. - Esperou que ela parasse de recuar, at� que os olhos dela encontrassem os dele. - Voc� tem um rosto incrivelmente atraente.
Quando ouviu o elogio, n�o sabia ao certo como se portar. Concordou com a cabe�a.
- Obrigada. Gosto do seu tamb�m. Ele levantou a cabe�a.
- Qu�o cautelosa voc� quer ser a respeito disso?
Ela levou um momento para entender, outro para encontrar a voz:
- Muito. Acho que muito.
Gray viu-a desaparecer na casa, antes de voltar ao trabalho.
- Tinha medo disso - murmurou.

Logo que ela se p�s a caminho - o Fiat realmente precisava de uma boa revis�o -, Gray fez uma longa caminhada pelos campos. Disse a si mesmo que estava absorvendo
a atmosfera, pesquisando, preparando-se para trabalhar. Era uma pena que se conhecesse o bastante para entender que estava se acalmando de sua rea��o a Brianna.
Uma rea��o normal, assegurou a si mesmo. Afinal, ela era uma mulher bonita. E j� havia algum tempo que ele n�o sa�a com mulheres. Era de esperar que sua libido
se reanimasse.
Houve uma mulher, uma assistente de sua editora na Inglaterra, por quem ele se apaixonara. Brevemente. Mas suspeitara de que ela estava mais interessada em
como seu relacionamento contribuiria para sua carreira do que em curtir o momento. Fora aflitivamente f�cil para ele evitar que o relacionamento se tornasse �ntimo.
Estava ficando cansado, concluiu. O sucesso podia causar isso. Qualquer prazer e orgulho que trouxesse teria um pre�o. Uma aus�ncia crescente de confian�a,
uma vis�o mais deturpada: isso raramente o incomodava. Como poderia, se confian�a nunca fora mesmo seu ponto forte? Melhor, pensava, ver as coisas como eram do que
como desejaria que fossem. Deixar os eu quero para a fic��o.
Podia considerar sua rea��o a Brianna dessa maneira. Ela seria o prot�tipo para a sua hero�na. Uma mulher ador�vel, serena e sossegada, carregava segredos
nos olhos, gelo e brasa, conflitos se agitando sob a pele.
Que tipo de pessoa ela era? Com o que sonhava, de que tinha medo? Eram perguntas a que ele responderia enquanto constru�a a mulher com palavras e imagina��o.
Tinha inveja do assombroso sucesso da irm�? Ressentia-se das exig�ncias da m�e? Havia algum homem que ela desejava e que a desejava tamb�m?
Aquelas eram perguntas que demandavam respostas enquanto descobria Brianna Concannon.
Gray come�ou a pensar que teria de juntar todas elas, antes de poder contar sua hist�ria.
Sorriu para si mesmo, enquanto caminhava. Diria a si mesmo aquilo, pensou, porque queria saber. E n�o tinha qualquer escr�pulo em bisbilhotar pensamentos e
experi�ncias de algu�m. E nenhuma culpa em juntar aos seus.
Parou, girando lentamente, enquanto olhava em torno de si. Era um lugar onde algu�m podia se perder, pensou. Grandes extens�es de reluzentes campos verdes,
bifurcados com muros de pedra acinzentada, pontilhados com vacas gordas. A manh� estava t�o clara, t�o radiante, que era poss�vel ver o brilho das vidra�as nos chal�s
a dist�ncia, o agitar das roupas penduradas nos varais secando ao vento.
Acima, o c�u era uma ta�a cheia de azul, um perfeito cart�o postal. No entanto, no lado oeste desta ta�a, nuvens se aglutinavam, bordas arroxeadas amea�ando
tempestade.
Ali, que parecia ser o centro de um mundo cristalizado, ele podia sentir o cheiro de grama e gado, vest�gios do mar levados pelo ar, e o t�nue, muito t�nue
cheiro de fuma�a da chamin� de uma casa. Havia o som do vento na grama, o estalar da cauda das vacas e o clarim forte de um p�ssaro que celebrava o dia.
Quase se sentia culpado por trazer assassinatos e dist�rbios, ainda que ficcionais, para tal lugar. Quase.
Tinha seis meses, Gray pensou. Seis meses antes de o pr�ximo livro chegar �s prateleiras e de embarcar, t�o animadamente quanto poss�vel, no trem-fantasma
de turn�s e entrevistas. Seis meses para criar a hist�ria que j� se formava em sua cabe�a. Seis meses para desfrutar este pedacinho do mundo e as pessoas dali.
Ent�o ele os abandonaria, como j� abandonara d�zias de outros lugares, centenas de outras pessoas, e seguiria em frente. Era bom nisto: seguir em frente.
Gray pulou um muro baixo e passou para o pr�ximo campo.
O c�rculo de pedras logo atraiu seus olhos e imagina��o. J� vira monumentos bem maiores, estivera na sombra de Stonehenge e sentira o poder. Este s� tem cerca
de dois metros e meio, a pedra principal n�o � mais alta do que um homem. Mas, ao v�-lo ali, parado, silencioso, entre vacas que pastavam desinteressadas, parecia-lhe
maravilhoso.
Quem teria constru�do aquilo e por qu�? Fascinado, Gray rodeou a circunfer�ncia externa primeiro. Somente uma das vergas permanecia no lugar, as outras haviam
ca�do em alguma noite distante. Ao menos, esperava que tivesse sido � noite, durante uma tempestade, e o som delas tombando na terra teria vibrado como o brado de
um deus.
Passou uma das m�os sobre a pedra maior. Estava quente do sol, mas trazia algo assustadoramente g�lido. Podia usar isso?, imaginou. De alguma maneira combinar
esse lugar e os ecos de uma antiga magia em seu livro?
Teria acontecido algum assassinato ali? Caminhou para dentro do c�rculo, para o centro. Um local para sacrif�cios, meditou. Um ritual em que sangue borrifaria
a grama verde, manchando a base das pedras.
Ou talvez tivessem feito amor ali. Um desesperado e �vido emaranhado de membros, a grama fria e �mida embaixo, a lua cheia e branca flutuando acima. As pedras
protegendo, em guarda, enquanto o homem e a mulher se perdiam no desejo.
Podia imaginar os dois com igual clareza. Mas a segunda o atra�a mais, muito mais. S� conseguia ver Brianna deitada na grama, os cabelos soltos, os bra�os
erguidos. A pele dela seria alva como leite, macia como veludo.
Os quadris delgados se arqueariam. E, quando ele a penetrasse, ela gritaria. Aquelas unhas cuidadas arranhariam as costas dele. O corpo dela se arremessaria
como um cavalo selvagem sob o dele, mais r�pido, mais profundo, mais forte, at�...
- Bom-dia...
- Jesus! - Gray saltou para tr�s. Respira��o ofegante, boca seca. Mais tarde, prometeu a si mesmo, mais tarde seria divertido, mas agora se esfor�ou para arrancar
de sua cabe�a aquela fantasia er�tica e prestar aten��o no homem que se aproximava do c�rculo de pedras.
Era moreno, notavelmente atraente, vestido em roupas de fazendeiro, rudes e grosseiras. Talvez sujas, Gray julgou, um dos estonteantes irlandeses morenos que
ostentavam cabelos negros e olhos de cobalto. Os olhos pareciam bem amistosos, algo divertidos.
O cachorro de Brianna saltitava muito feliz em seus calcanhares. Ao reconhecer Gray, Con pulou no c�rculo para saud�-lo.
- Um lugar interessante - o homem disse no sotaque musical dos condados do Oeste.
- N�o esperava encontrar isto aqui. -Afagando a cabe�a de Con, Gray caminhou at� uma fresta entre as pedras. - N�o est� registrado em nenhum dos mapas tur�sticos
que tenho.
- N�o est� n�o. � o nosso totem, sabe, mas n�o nos importamos em compartilh�-lo ocasionalmente. Voc� deve ser o ianque de Brie. - Estendeu uma m�o grande e
�spera de trabalho. - Sou Murphy Muldoon.
- Das vacas que pisoteiam rosas? Murphy estremeceu.
- Cristo, ela nunca esquecer� isso. E n�o repus at� o �ltimo arbusto? Voc� deve estar achando que as vacas pisotearam seu primog�nito. - Olhou para Con em
busca de apoio. O cachorro sentou-se, inclinou a cabe�a emitindo sua pr�pria opini�o. - Ent�o est� hospedado em Blackthorn?
- Sim. Estou tentando sentir o clima da regi�o. - Olhou em volta, outra vez. - Acho que invadi suas terras.
- N�o atiramos em invasores nos dias de hoje.
- Bom ouvir isso. - Gray examinou seu companheiro novamente. Havia rigidez ali, pensou, por�m muito af�vel. - Eu estava no pub da vila, a noite passada, no
O'Malley, e bebi uma cerveja com um homem chamado Rooney.
- Voc� quer dizer que pagou uma cerveja para ele. - Murphy riu.
- Duas. - Gray riu de volta. - Ele mereceu, pagou com as fofocas da vila.
- Algumas das quais provavelmente s�o verdadeiras. - Murphy pegou um cigarro, ofereceu-lhe outro.
Sacudindo a cabe�a, Gray enfiou as m�os nos bolsos. S� fumava quando estava escrevendo.
- Acho que seu nome foi mencionado.
- N�o duvido nada.
- O que o jovem Murphy est� perdendo - Gray come�ou imitando Rooney, de uma forma que fez Murphy explodir numa risada - � uma boa esposa e filhos fortes para
trabalhar a terra com ele. Ele procura perfei��o, o Murphy, ent�o passa as noites sozinho numa cama fria.
- E quem diz isso � Rooney, que passa a maior parte das noites no pub, reclamando que a esposa o leva a beber.
- Ele falou isso tamb�m. - Gray desviou o assunto para a pergunta que o interessava mais. - E que, desde que o janota roubou Maggie debaixo de seu nariz, voc�
estaria cortejando a irm� mais nova.
- Brie? - Murphy sacudiu a cabe�a enquanto soltava a fuma�a. - Seria como acariciar minha irm� ca�ula. - Ele ainda sorria, mas seus olhos estavam cravados
em Gray. - Isso era o que voc� queria saber, Sr. Thane?
- Gray. Sim, � o que eu queria saber.
- Ent�o, vou deixar uma coisa bem clara. V� com calma. Costumo proteger minhas irm�s. - Satisfeito por definir sua posi��o, Murphy tragou calmamente. - Voc�
� bem-vindo para entrar e tomar um ch�.
_Obrigado pelo convite, mas fica para outro dia. H� coisas que
preciso fazer hoje.
- Bem, ent�o vou deix�-lo ir. Gosto de seus livros - disse isso t�o espontaneamente que Gray se sentiu duplamente cumprimentado. - H� uma livraria em Galway
que voc� vai gostar de visitar se for para aqueles lados.
- Pretendo.
- Vai encontr�-la, ent�o. Recomenda��es a Brianna, sim? E pode dizer que n�o tenho nenhuma broinha em minha despensa. - O sorriso dele iluminou o lugar. -
Ela vai ficar com pena de mim.
Depois de assoviar para o cachorro, que deitara a seu lado, caminhou com a eleg�ncia segura de quem atravessa as pr�prias terras.
J� estava no meio da tarde quando Brianna voltou para casa, extenuada, exaurida, tensa. Ficou agradecida por n�o encontrar nenhum vest�gio de Gray, apenas
um bilhete rabiscado �s pressas, deixado sobre a mesa da cozinha:

Maggie ligou. Murphy est� sem broinhas.

Uma estranha mensagem, pensou. Por que Maggie ligaria para falar que Murphy estava sem broinhas? Com um suspiro, deixou o bilhete de lado. Automaticamente
colocou a chaleira no fogo para o ch�, antes de separar os ingredientes de que precisava para o frango caipira que encontrara, como um pr�mio, no mercado.
Ent�o suspirou, rendendo-se. Sentou-se novamente, dobrou os bra�os sobre a mesa, deitou a cabe�a sobre eles. N�o chorou. L�grimas n�o ajudariam, n�o mudariam
nada. Fora um dos maus dias de Maeve, cheio de artimanhas, queixas e acusa��es. Talvez os dias ruins fossem piores agora, porque, no �ltimo ano, tinha havido mais
dias bons do que ruins.
Quer admitisse ou n�o, Maeve amava sua casinha. Gostava muito de Lottie Sullivan, a enfermeira aposentada que Brianna e Maggie haviam contratado para acompanhante.
Entretanto, nem o dem�nio seria capaz de arrancar esta simples verdade de sua boca. Estava muito mais contente do que Brianna pensara que fosse capaz.
Mas Maeve nunca esquecia, nunca, que Maggie era respons�vel por quase cada peda�o de p�o que sua m�e desfrutava. E parecia nunca parar de se ressentir disso.
Este dia tinha sido um daqueles em que Maeve descontara na filha mais nova, reclamando de tudo. Com o desgaste adicional das cartas que Brianna encontrara,
estava simplesmente exausta.
Fechou os olhos e concedeu-se alguns instantes para seus desejos. Desejava que sua m�e fosse feliz. Que reconquistasse qualquer que fosse o prazer que tivesse
tido na juventude. Desejou, ah, desejou mais do que tudo que pudesse amar a m�e com um cora��o aberto e generoso, e n�o apenas com dever frio e desespero arrasador.
E desejou uma fam�lia, a casa cheia de amor, vozes, risadas. N�o apenas h�spedes transit�rios que chegavam e partiam, mas permanentes.
Se desejos fossem moedas, Brianna pensou, ser�amos ricos como Midas. Levantou-se, sabendo que a fadiga e a depress�o desapareceriam logo que come�asse a trabalhar.
Gray teria um bom frango assado para o jantar, refor�ado por um p�o de ervas e um rico molho.
E Murphy, que Deus o aben�oe, teria suas broas.





E
m poucos dias, Brianna se acostumara � rotina de Gray e ajustara-se a ela. Ele era bom de garfo, raramente perdia uma refei��o, embora logo tenha percebido que n�o
era muito de respeitar hor�rios. Entendia que ele estava com fome quando come�ava a rondar a cozinha. Qualquer que fosse a hora, ela lhe preparava um prato. E tinha
de admitir que apreciava v�-lo gostar de sua comida.
Muitas vezes, ele sa�a para o que ela chamava de "suas excurs�es". Se pedia sugest�es, ela dava algumas indica��es ou sugeria algum lugar que ele poderia gostar
de ver. Mas, geralmente, ele sa�a com um mapa, um caderno e uma c�mera.
Ela ia ao quarto dele, quando ele estava fora. Qualquer um que arruma coisas de outra pessoa come�a a compreend�-la. Brianna percebeu que Grayson Thane era
bem cuidadoso com as coisas que pertenciam a ela. As macias toalhas dos h�spedes nunca estavam jogadas no ch�o ou amontoadas e �midas em algum canto, nunca havia
nenhuma roda molhada, de copo ou x�cara, esquecidos sobre os m�veis. Mas tinha total descuido e descaso com o que era dele. Podia limpar a lama das solas antes de
entrar. Entretanto, nunca limpava o couro caro ou o engraxava.
Ent�o ela o fazia.
As roupas traziam etiquetas de lojas finas do mundo todo. Mas nunca eram passadas e muitas vezes eram jogadas negligentemente sobre uma cadeira ou penduradas,
de qualquer jeito, no guarda-roupa.
Por conta pr�pria, ela come�ou a lavar a roupa dele, e tinha de admitir que era prazeroso pendurar suas camisas na corda quando o dia estava ensolarado.
Ele n�o guardava lembran�as de amigos ou fam�lia, n�o fazia nenhuma tentativa de personalizar o quarto onde morava agora. Havia livros, caixas deles - mist�rios,
novelas de horror, suspenses de espionagem, romances, cl�ssicos, livros de n�o-fic��o sobre procedimentos policiais, armas e assassinato, psicologia, mitologia,
bruxaria, um manual de mec�nica, o que a fez sorrir, e assuntos bem variados, como arquitetura e zoologia.
Parecia n�o existir algo que n�o o interessasse.
Sabia que preferia caf�, mas tomaria um pouco de ch�, se fosse bem forte. Tinha dentes como de um garoto de dez anos, e a energia de um.
Ele era curioso - n�o havia assunto sobre o qual n�o perguntasse. Mas havia uma gentileza natural nele que tornava dif�cil repeli-lo. Nunca deixava de se oferecer
para fazer alguma coisa para ajud�-la ou para levar algum recado, e j� o vira, sorrateiramente, dar peda�os de comida para Con quando pensava que ela n�o estava
olhando.
De modo geral, era um h�spede excelente - ele lhe oferecia companhia, lucro e o trabalho que adorava. Ela lhe proporcionava uma boa estrutura. Embora n�o conseguisse
relaxar totalmente perto dele. Ele nunca se referira �quele momento de s�bita atra��o entre eles. Mas ela estava ali - no modo como sua pulsa��o subia quando entrava
num c�modo e o encontrava inesperadamente. Na maneira como seu corpo se excitava quando ele dirigia aqueles olhos dourados para ela e simplesmente a olhava.
Brianna se culpava por isso. Fazia muito, muito tempo desde que se sentira profundamente atra�da por um homem. Desde que Rory McAvery lhe deixara uma cicatriz
no cora��o, um vazio em sua vida e uma repulsa cruel por qualquer homem.
Como nutria esse tipo de sentimento por um h�spede, Brianna decidira que era sua obriga��o calar.
Mas, enquanto estendia a colcha na cama dele, afofava seus travesseiros, imaginava aonde suas excurs�es o levariam hoje.


Ele n�o havia ido longe. Gray decidira andar naquela manh� e desceu a estrada estreita, vagando sob os c�us sombrios e amea�adores. Passou por algumas constru��es,
viu o abrigo de um trator, fardos de feno empilhados do lado de fora. De Murphy, imaginou, e come�ou a pensar como seria ser um fazendeiro.
Possuir terras, ser respons�vel por elas. Arar, plantar, cuidar, ver as coisas crescerem. Ficar de olho no c�u, cheirando o ar, pressentir uma virada do tempo.
N�o uma vida para Grayson Thane, pensou, mas imaginou que alguns a achariam gratificante. Observara aquele simples orgulho de propriet�rio no andar de Murphy
Muldoon, um homem que sabia que seus p�s pisavam no que era seu.
Mas possuir terra, ou qualquer coisa, significava ficar preso a ela. Teria de perguntar a Murphy como se sentia a respeito disso.
Gray podia ver o vale desse local, e a encosta das montanhas. De longe veio o �gil e feliz latido de um c�o. Con, talvez, procurando aventuras, antes de ir
para casa e deitar a cabe�a no colo de Brianna.
Gray tinha de invejar o privil�gio do cachorro.
Com uma careta, Gray enfiou as m�os nos bolsos. Andava se esfor�ando para manter aquelas m�os longe de sua sutilmente sexy anfitri�.
J� dissera a si mesmo que ela n�o usava aqueles aventais impec�veis ou prendia os cabelos num coque para seduzi-lo. Mas funcionava assim. Era improv�vel que
ela zanzasse pela casa cheirando a flores silvestres e cravo s� para enlouquec�-lo. Mas ele estava padecendo.
Al�m da atra��o f�sica - o que j� era bem dif�cil de controlar -, havia aquele ar de segredos e tristeza. Tinha de transpor aquela parede de reserva e descobrir
o que a estava preocupando. O que estava pondo sombras em seus olhos.
N�o que pretendesse envolver-se com ela, assegurou a si mesmo. Sentia-se apenas curioso. Conquistar amigos era coisa que fazia facilmente, por interesse sincero
e natureza af�vel. Mas amigos �ntimos, do tipo com que um homem mant�m contato ao longo dos anos, com quem se preocupa, de quem sente falta quando est� longe, n�o
estavam em sua programa��o.
Grayson viajava livre e freq�entemente.
O pequeno chal� com a porta da frente extravagantemente pintada o fez parar. Um anexo fora constru�do na parte sul, quase t�o grande como a casa original.
A terra que tinha sido deslocada era agora uma montanha de barro que deliciaria qualquer crian�a de cinco anos.
A pequena casa descendo a rua?, pensou. Onde a irm� de Brianna e o cunhado moravam de tempos em tempos? Ele concluiu que a porta magenta era coisa de Maggie
e entrou para dar uma olhada.
Durante os poucos minutos seguintes, deu-se ao prazer de ficar bisbilhotando a nova constru��o. Algu�m sabia o que estava fazendo ali, pensou. A estrutura
era firme, o material era da melhor qualidade. O anexo foi feito para o beb�, deduziu, avan�ando para a parte de tr�s. Foi ent�o que se deparou com um pr�dio nos
fundos.
A oficina de vidro dela. Contente com a nova descoberta, avan�ou pelo caminho no gramado �mido. Ao chegar l�, colocou as m�os em concha contra o vidro e examinou-a.
Podia ver fornos, bancadas, ferramentas, que despertaram sua curiosidade e imagina��o. Prateleiras repletas de trabalhos em andamento. Sem nenhum escr�pulo, dirigiu-se
� porta.
- Est� querendo ter seus dedos quebrados?
Voltou-se. Maggie estava parada na porta dos fundos do chal�, uma x�cara fumegante numa das m�os. Vestia um su�ter folgado, cal�as de veludo cotel� e uma carranca.
Gray riu para ela.
- N�o exatamente. � aqui que voc� trabalha?
- �. Como voc� trata pessoas que, sem serem convidadas, bisbilhotam seu est�dio?
- N�o tenho um est�dio. Que tal um tour? Ela melhorou o humor.
- Voc� � bem atrevido, n�o �? Mas tudo bem, j� que n�o estou fazendo nada. Sua majestade j� saiu - reclamou, atravessando o gramado. - Nem me acordou. Deixar
um bilhete � tudo o que ele faz, dizendo para tomar um caf� decente e manter os p�s para o alto.
-E voc� fez isso?
-Eu teria feito se n�o tivesse ouvido algu�m andando pela minha
propriedade.
- Desculpe. - Mas ainda ria para ela. - Para quando � o beb�?
- Primavera. - Sem querer, ela se enterneceu. Bastava mencionar o beb�. -Ainda tenho algumas semanas pela frente, e se o pai continuar me paparicando terei
que mat�-lo. Bem, entre ent�o, j� que est� aqui.
- Vejo que esta hospitalidade af�vel vem de fam�lia.
- N�o. -Agora, um sorriso se insinuou nos l�bios dela. - Brianna ficou com toda a amabilidade. Olhe - falou, enquanto abria a porta. - N�o toque em nada ou
quebro seus dedos.
- Sim senhora. � lindo! - Come�ou a explorar no minuto em que entrou, caminhando para as bancadas, inclinando-se para checar o forno. - Voc� estudou em Veneza,
n�o?
- Estudei sim.
- O que a levou a optar por esta profiss�o? Deus, odeio quando me fazem esta pergunta. Esque�a. - Riu para si mesmo e caminhou at� as pipetas. Os dedos comichavam
de vontade de tocar nelas. Cauteloso, olhou de volta para ela, avaliando. - Sou bem maior do que voc�.
Ela concordou com a cabe�a.
- Mas sou malvada. - Brincou e apontou um estilete para ele. Ele avaliou a l�mina. - �tima arma para um assassinato.
- Vou me lembrar disto na pr�xima vez que algu�m interromper meu trabalho.
- Ent�o, como � o processo? - Olhou para os desenhos espalhados sobre o banco. - Rascunha suas id�ias?
- Muitas vezes. - Bebericou o ch�, olhando para o sujeito. Na verdade, havia algo no modo como ele se movia, leve e fluido, sem qualquer alvoro�o, que a fez
ansiar pelo seu bloco de desenhos. - Querendo aprender?
- Sempre. Deve ser bem quente aqui dentro, quando os fornos est�o funcionando. Voc� funde as coisas aqui, e depois?
- Fa�o um esbo�o, uma bola. - Durante os trinta minutos seguintes ela lhe explicou, passo a passo, todo o processo de soprar um vaso de vidro feito � m�o.
O homem era cheio de perguntas, pensou. Perguntas intrigantes, admitiu, do tipo que faz voc� ir adiante do processo t�cnico at� � inten��o da cria��o que existe
por tr�s. Ela poderia ter resistido a elas, mas o entusiasmo dele tornava mais dif�cil. Em vez de apress�-lo, descobriu-se respondendo �s perguntas, demonstrando,
rindo com ele.
- Continue assim e vou encarregar voc� do pontel, cara. - Divertida, deslizou a m�o sobre a barriga. - Bem, entre e tome um ch� quentinho.
- Voc� n�o teria alguns bolinhos, biscoitos, de Brianna? Maggie ergueu a sobrancelha.
- Tenho.
Pouco depois, Gray estava instalado na cozinha de Maggie, com um prato de biscoitos de gengibre.
- Juro que ela devia vender isso - disse, com a boca cheia. - Ficaria rica.
- Ela prefere d�-los �s crian�as da vila.
- Fico surpreso por ela n�o ter filhos. - Esperou um golpe. - N�o observei nenhum homem aparecer para uma visita.
- E voc� � do tipo observador, n�o �, Grayson Thane?
- Seria de esperar. � uma mulher bonita.
- N�o discordo. - Maggie colocou �gua quente num bule de ch�.
- Voc� me faz puxar pelo resto - murmurou. - Ela tem algu�m ou n�o?
- Por que n�o pergunta a ela? - Irritada, Maggie deixou o bule sobre a mesa, fechando o rosto para ele. Ele tinha o talento, pensou, de fazer voc� querer lhe
contar o que ele queria saber. - N�o. - Colocou com um baque uma caneca na mesa, na frente dele. - N�o tem ningu�m. Ela espanta e afasta todos. Prefere passar a
vida cuidando dos h�spedes ou correndo a Ennis toda vez que nossa m�e funga. Autoflagelamento � o que nossa Santa Brianna sabe fazer melhor.
- Est� preocupada com ela - Gray murmurou. - O que a est� aborrecendo, Maggie?
- � assunto de fam�lia. Deixe pra l�. - Muito depois, ela encheu a x�cara dele e a dela. Suspirou, ent�o, e sentou-se. - Como sabe que ela est� aborrecida?
- Transparece. Nos olhos. Assim como nos seus, agora.
- Logo tudo vai se resolver. - Maggie fez um esfor�o determinado para deixar aquilo de lado. - Voc� sempre se intromete na vida das pessoas assim?
- Quase sempre. - Provou o ch�. Estava forte o bastante para levantar um defunto. Perfeito. - Ser escritor � uma �tima desculpa para ser curioso. - Ent�o os
olhos dele mudaram, ficaram s�rios. - Gosto dela. � imposs�vel n�o gostar. Me incomoda v�-la triste.
- Pode ser amigo dela. Voc� tem talento para fazer com que as pessoas falem. Use-o com ela. Mas tenha cuidado - acrescentou antes que Gray pudesse falar. -
Ela � muito sens�vel. Se voc� a ferir, fa�o o mesmo com voc�.
- Combinado. - Hora de mudar de assunto, pensou. Apoiou o p� cal�ado de bota sobre o joelho. - Ent�o, que hist�ria � essa com nosso chapa, o Murphy? O cara
de Dublin realmente roubou voc� debaixo do nariz dele?
Por sorte, ela j� tinha engolido o ch� ou teria engasgado. Come�ou a rir contidamente, at� irromper numa gargalhada que fez seus olhos se encherem d'�gua.
- Perdi alguma piada? - Rogan perguntou da soleira da porta. - Respire fundo, Maggie, est� ficando vermelha.
- Sweeney. - Ela engoliu o ar numa risada e buscou a m�o dele. - Este � Grayson Thane. Estava querendo saber se voc� apertou a goela de Murphy para me cortejar.
- N�o de Murphy - disse divertido -, mas tive que apertar v�rias partes de Maggie, terminando com a cabe�a dela, que precisava de algum ju�zo. � um prazer
conhec�-lo - acrescentou, estendendo a Gray a m�o livre. - Passei muitas horas entretido com suas hist�rias.
- Obrigado.
- Gray ficou me fazendo companhia - Maggie falou. - E, agora, estou num �timo humor para gritar com voc� por n�o me acordar esta manh�.
- Voc� precisava dormir. - Serviu-se de ch�, estremecendo depois do primeiro gole. - Puxa, Maggie, precisa sempre fazer t�o forte assim?
- L�gico. - Inclinou-se para a frente, apoiando o queixo na m�o. - De que parte dos Estados Unidos voc� �, Gray?
- Parte alguma, em particular. Mudo sempre.
- Mas e sua casa?
- N�o tenho casa. - Mordiscou outro biscoito. - Do jeito que viajo, n�o preciso de uma.
A id�ia era fascinante. Maggie inclinou a cabe�a, examinando-o.
- Voc� simplesmente vai de um lugar para outro com o qu�?... carregando as roupas nas costas?
- Basicamente, pouco mais do que isso. �s vezes acabo pegando alguma coisa � qual n�o resisto, como aquela escultura sua em Dublin. Aluguei um espa�o em Nova
York, uma esp�cie de dep�sito para guardar coisas. � onde est�o meu editor e meu agente. Ent�o, volto sempre uma ou duas vezes por ano. Posso escrever em qualquer
lugar - falou com um dar de ombros. - Ent�o, escrevo.
- E sua fam�lia?
- Voc� est� se intrometendo, Margaret Mary.
- Ele que come�ou - disparou para Rogan.
- N�o tenho fam�lia. Voc�s j� escolheram o nome do beb�? - Gray perguntou simplesmente mudando de assunto.
Reconhecendo a t�tica, Maggie franziu a sobrancelha. Rogan lhe deu uma cutucada no joelho por sob a mesa, antes que ela pudesse dizer qualquer coisa.
- N�o chegamos a um acordo. Mas esperamos decidir antes de ele ir para a universidade.
Delicadamente, Rogan conduziu a conversa para um papo descontra�do e impessoal, at� que Gray levantou-se para sair. Logo que ficou sozinha com o marido, Maggie
tamborilou os dedos sobre a mesa.
- Eu teria descoberto mais sobre ele, se voc� n�o tivesse interferido.
- N�o � da sua conta. - Inclinou-se e beijou-a na boca.
- Talvez seja. Gosto bastante dele. Mas seus olhos brilham quando fala em Brianna. N�o estou certa se gosto disto.
-N�o � da sua conta tamb�m.
-Ela � minha irm�.
-E bem capaz de se cuidar sozinha.
-Voc� entende muito disso - ela grunhiu. - Os homens sempre acham que conhecem as mulheres, quando n�o conhecem absolutamente nada.
- Conhe�o voc�, Margaret Mary. - Num movimento delicado, ergueu-a da cadeira, tomando-a em seus bra�os.
- O que voc� est� querendo?
- Estou querendo levar voc� para a cama, deix�-la nua e fazer amor com todo o cuidado do mundo.
- Ah, � mesmo? - Ela atirou os cabelos para tr�s. - Est� � querendo me distrair do assunto.
- Vamos ver se consigo fazer isso direitinho.
Ela sorriu e jogou os bra�os em volta do pesco�o dele.
- Acho que devo, pelo menos, lhe dar uma chance.

Quando Gray voltou a Blackthorn Cottage, encontrou Brianna passando cera no ch�o da sala, em c�rculos lentos, quase amorosos. A cruzinha de ouro que ela muitas
vezes usava balan�ava na corrente fininha como um p�ndulo e refletia r�pidos lampejos de luz. Ela colocara uma m�sica, uma melodia alegre que acompanhava cantando
em irland�s. Encantado, agachou-se ao lado dela.
- O que essas palavras significam?
Ela estremeceu. Ele tinha um jeito de se mover que apenas agitava o ar. Afastou os cabelos dos olhos e continuou polindo.
- � sobre ir para a guerra.
- Soa t�o alegre para ser sobre guerra.
- Ah, somos felizes o suficiente para lutar. Voc� voltou mais cedo do que de costume. Quer um ch�?
- N�o, obrigado. Acabei de tomar um na casa de Maggie. S� ent�o ela levantou os olhos.
- Esteve visitando Maggie?
- Pensei em dar uma volta e acabei na casa dela. Ela me levou para conhecer sua oficina de vidro.
Brianna riu. Ent�o, vendo que ele estava s�rio, sentou-se nos calcanhares.
- E como, por Deus, voc� conseguiu uma proeza dessas?
- Pedi. - Sorriu. - Ela estava um pouco irritada no in�cio, mas acabou cedendo. - Inclinando-se para Brianna, ele respirou fundo. - Voc� cheira a lim�o e cera
de abelhas.
- N�o � nenhuma surpresa. - Teve de limpar a garganta. - � com o que estou lustrando o ch�o. - Deixou escapar um som sufocado, quando ele lhe pegou a m�o.
- Voc� deveria usar luvas para fazer trabalhos pesados.
- Elas me atrapalham. - Sacudiu a m�o, mas ele a reteve. Embora tentasse olhar firme, s� conseguiu um olhar angustiado. - Voc� est� no meu caminho.
- J� vou embora. - Ela parecia t�o divinamente bela, pensou, ajoelhada no ch�o com o pano de polir e as faces ruborizadas. - Saia comigo esta noite, Brie.
Deixe-me lev�-la para jantar.
- Tenho um... tenho carneiro - gaguejou - para fazer uma torta.
- N�o d� para guardar?
- D�, mas... Se voc� enjoou da minha comida...
- Brianna. - Sua voz era doce, persuasiva. - Quero lev�-la para sair.
- Por qu�?
- Porque tem um rosto lindo. - Ro�ou os l�bios pelos n�s de seus dedos, fazendo o cora��o dela saltar para a garganta. - Porque acho que seria bom para voc�
ter outra pessoa cozinhando, ao menos por uma noite.
- Gosto de cozinhar.
- Eu gosto de escrever, mas � sempre bom ler alguma coisa que algu�m mais tenha suado em cima.
- N�o � a mesma coisa.
- Claro que �. - Com a cabe�a inclinada, lan�ou-lhe um olhar cortante. - Voc� n�o est� com medo de ficar sozinha comigo num restaurante, est�?
- Que coisa boba para se dizer! - Que coisa boba, percebeu, para ela sentir!
-�timo, ent�o est� combinado. �s sete. - Esperto o bastante para saber quando recuar, Gray ergueu-se e saiu.


Ela disse a si mesma para n�o se preocupar com o vestido, mas se atormentou do mesmo modo. Afinal, escolheu o que Maggie havia trazido de Mil�o. Mangas longas
e gola alta, parecia simples, bem b�sico, at� que fosse vestido. Com um corte bem-feito, a l� leve e delicada, tinha um drapeado sobre as curvas revelando tanto
quanto escondia.
Calma, Brianna disse a si mesma, ele fica bem para jantar fora, e era um pecado n�o us�-lo, j� que Maggie gastara tempo e dinheiro com ele. E o contato com
a pele era ador�vel.
Irritada com a cont�nua agita��o dos nervos, pegou o casaco, um preto liso, com forro remendado, e dobrou-o sobre o bra�o. Era s� um convite para uma refei��o,
lembrou a si mesma. O gesto delicado de um homem que ela vinha alimentando por mais de uma semana.
Inspirando fundo pela �ltima vez, saiu do quarto para a cozinha e come�ou a descer para o hall de entrada. Ele acabara de descer as escadas. Envergonhada,
ela hesitou.
Ele parou onde estava, um p� ainda no degrau de baixo, segurando o corrim�o. Por um momento, eles s� fitaram um ao outro, num daqueles estranhos e fugazes
instantes de magia. Ent�o ele se adiantou e a sensa��o se desvaneceu.
- Ora, ora... - Os l�bios dele se curvaram num lento e satisfeito sorriso. - Voc� parece uma pintura, Brianna.
- Voc� est� usando terno. - E est� lindo nele.
- Ag�ento um de vez em quando. - Pegou o casaco dela, colocando-o sobre os ombros.
- Voc� ainda n�o disse aonde vamos.
- Comer. - Colocou um bra�o em torno da cintura dela e levou-a para fora.
O interior do carro a fez suspirar. Cheirava a couro, e o couro era macio como manteiga. Ela deslizou os dedos sobre o assento, enquanto ele dirigia.
- � muita gentileza sua fazer isto, Gray.
- Isso nada tem a ver com gentileza. Estava ansioso para sair e desejava ter voc� comigo. Voc� nunca vai ao pub � noite.
Ela relaxou um pouco. Ent�o era aonde iam.
- N�o tenho ido ultimamente. Gosto de dar uma passada l�, uma vez ou outra, para ver todo mundo. Os O'Malley ganharam outro neto esta semana.
- Eu sei. Eles me ofereceram uma cerveja para comemorar.
- Acabei de fazer um saco para o nen�. Devia ter trazido comigo.
- N�o vamos ao pub. Que saco � esse?
- Uma esp�cie de fronha, voc� coloca o beb� dentro. - Quando passaram pela vila, ela sorriu. - Olhe, l� est�o o Sr. e a Sra. Conroy. Mais de cinq�enta anos
casados e ainda andam de m�os dadas. Devia v�-los dan�ando.
- Foi o que tamb�m me disseram sobre voc�. - Olhou para ela. - Que voc� j� ganhou concursos.
- Quando era crian�a. - Sacudiu os ombros. Arrependimentos eram um prazer idiota. - Nunca levei a s�rio. Era s� um divertimento.
- O que faz por divertimento, agora?
- Ah, uma coisa ou outra. Voc� guia bem para um ianque. - Deixou escapar uma risada diante de sua apar�ncia calma. - Quero dizer que h� muita gente da sua
terra que tem dificuldade para se adaptar �s nossas ruas e dirigir do lado certo.
- N�o vamos discutir qual � o lado certo, mas passei muito tempo na Europa.
- Voc� n�o tem um sotaque que eu possa localizar, isto �, outro al�m do americano. Fa�o um tipo de jogo com isto, sabe, imaginando sobre os meus h�spedes.
- Deve ser porque n�o sou de lugar algum.
- Todo mundo � de algum lugar.
- Nem todo mundo. H� mais n�mades por a� do que voc� imagina.
- Ent�o, voc� est� dizendo que � um cigano. - Ela jogou os cabelos para tr�s e analisou o perfil dele. - Bem, � algo em que n�o tinha pensado.
- O que quer dizer?
- A noite em que voc� chegou. Achei que parecia um pouco com um pirata, ou um poeta, tamb�m um boxeador, mas n�o um cigano. Mas combina tamb�m.
-E voc� parecia uma vis�o, camisola branca balan�ando, cabelos soltos, coragem e medo, em guerra, nos olhos.
-N�o estava com medo. - Ela viu a placa pouco antes de ele sair na estrada. - Aqui? Castelo Drumoland? Mas n�o podemos.
-Por que n�o? Fui informado de que a cozinha � excelente.
-E � mesmo, mas muito caro tamb�m.
Ele riu, diminuindo a marcha para desfrutar a vista do castelo, cinzento e glorioso no alto da montanha, brilhando sob as luzes.
- Brianna, sou um cigano muito bem pago. Assombroso, n�o �?
- Verdade. E os jardins... voc� n�o pode ver bem agora. O inverno tem sido t�o rigoroso, mas eles t�m jardins bel�ssimos. - Ela olhou o gramado, avistando
um canteiro de roseiras ainda em bot�es. - Nos fundos h� um jardim-de-inverno. � t�o lindo que nem parece real. Por que voc� n�o ficou num lugar como este?
Ele estacionou o carro e desligou-o.
- Quase fiquei, ent�o ouvi falar de sua pousada. Pode chamar de impulso. - Lan�ou-lhe um sorriso luminoso. - Gosto de impulsos.
Desceu do carro, tomando a m�o dela para gui�-la pelo caminho de pedras at� o enorme vest�bulo.
Era espa�oso e luxuoso, como castelos deviam ser, com madeira escura e grossos tapetes vermelhos. Havia um aroma de madeira do fogo, o brilho dos cristais,
o som solit�rio de uma harpa.
- Fiquei num castelo na Esc�cia - ele come�ou, andando na dire��o da sala de jantar, com os dedos entrela�ados nos dela. - E outro na Cornualha. Lugares fascinantes,
cheios de espectros e sombras.
- Voc� acredita em fantasmas?
- Claro. - Os olhos dele encontraram os dela, enquanto ele se adiantava para lhe tirar o casaco. - Voc� n�o?
- Acredito sim. Temos alguns l� em casa, sabe?
- O c�rculo de pedras.
Embora tivesse ficado surpresa, percebeu que n�o devia. Ele teria estado l� e teria sentido.
- L� sim, e em outros lugares. Gray voltou-se para o ma�tre.
- Thane - disse simplesmente.
Foram recepcionados e conduzidos at� a mesa deles. Quando Gray recebeu a carta de vinhos, olhou para Brianna.
- Gostaria de tomar um vinho?
- Seria bom.
Depois de uma r�pida olhada, sorriu para o sommelier.
- Chassagne-Montrachet.
- Sim, senhor.
- Com fome? - perguntou a Brianna, que estava quase devorando o card�pio.
- Estou tentando decor�-lo - ela sussurrou. - Jantei uma vez aqui com Maggie e Rogan e quase consegui copiar este frango ao mel e vinho.
- Leia por prazer - sugeriu. - Conseguiremos uma c�pia do menu para voc�.
Olhou-o por sobre o card�pio.
- Eles n�o dar�o uma c�pia para voc�.
- Claro que sim.
Com uma risadinha, ela escolheu seu prato ao acaso. Depois que tinham feito os pedidos e provado o vinho, Gray inclinou-se para a frente.
- Agora me fale. Ela piscou.
- Falar o qu�?
- Sobre os fantasmas.
- Ah. - Sorriu, deixando um dedo deslizar pelo c�lice. - Bem, acontece que, alguns anos atr�s, havia dois amantes. Ela estava noiva de outro, ent�o se encontravam
em segredo. Ele era pobre, um simples fazendeiro, e ela, filha de um lorde ingl�s. Mas eles se amavam e faziam planos desesperados para fugir e ficar juntos. Uma
noite, encontraram-se no c�rculo de pedras. L�, pensaram, naquele lugar sagrado, m�gico, eles pediriam aos deuses para aben�o�-los. Ela estava gr�vida dele, sabe,
e n�o tinham tempo a perder. Ajoelharam-se l�, bem no centro, e ela lhe contou que esperava um filho dele. Dizem que choraram juntos, com alegria e medo, enquanto
o vento a�oitava, frio, e as pedras os protegiam. E l� se amaram pela �ltima vez. Ele disse a ela que iria pegar seu cavalo no campo, juntar tudo o que podia, e
voltaria para busc�-la. Fugiriam naquela noite.
Brianna suspirou, os olhos sonhadores.
- Ent�o, ele a deixou l�. No centro do c�rculo de pedras. Mas, quando chegou � fazenda, estavam esperando por ele. Os homens do lorde ingl�s. Atacaram-no,
de modo que seu sangue manchou a terra, queimaram sua casa e sua colheita. Enquanto morria, ele s� pensava em sua amada.
Interrompeu-se com aquele senso inato de quem sabe contar bem uma hist�ria. O harpista, em outro canto da sala, dedilhava suavemente uma balada de amor malfadado.
- E ela o esperou l�, no centro do c�rculo de pedras. Enquanto esperava, sentiu frio, tanto frio que come�ou a tremer. A voz do amante chegou a ela atrav�s
dos campos, como l�grimas no ar. Ela soube que ele estava morto. Ent�o, deitou-se, cerrou os olhos e levou a si mesma at� ele. Quando a encontraram, na manh� seguinte,
ela estava sorrindo. Mas estava fria, muito fria, e seu cora��o n�o batia mais. H� noites que, se voc� fica no centro do c�rculo de pedras, consegue ouvi-los sussurrando
promessas um ao outro e a grama cresce �mida pelas suas l�grimas.
Deixando escapar um longo suspiro, Gray recostou-se e bebericou o vinho.
- Voc� tem talento, Brianna, para contar hist�rias.
- Conto apenas como me contaram. Voc� v� como o amor sobrevive. Ao medo, ao sofrimento e at� mesmo � morte.
- J� os ouviu sussurrando?
-J�. E chorei por eles. E os invejei. - Recostou-se, espantando a melancolia. - E que fantasmas voc� conhece?
- Bem, vou contar uma hist�ria a voc�. Nas montanhas, n�o muito longe dos campos de Culladon, um �nico montanh�s vagava.
- Isto � verdade, Grayson, ou voc� est� inventando? Tomou a m�o dela e beijou.
- Voc� � quem vai me dizer.






N
unca tivera uma noite como aquela. Cada detalhe colaborava para uma lembran�a maravilhosa - o homem deslumbrante que parecia fascinado por cada uma de suas palavras,
a decora��o rom�ntica do castelo, sem as inconveni�ncias medievais, a gloriosa comida francesa, o vinho fino.
N�o sabia, ao certo, como lhe retribuiria - particularmente o menu que Gray conseguira do ma�tre, com seu poder de sedu��o.
Come�ou da �nica maneira que sabia, planejando um caf�-da-manh� especial.
Quando Maggie chegou, a cozinha estava repleta de aromas de fri-turas e Brianna cantava.
- Bem, vejo que est� tendo uma �tima manh�.
- Estou mesmo. - Atirou pra cima uma grossa fatia de torrada temperada. - Quer tomar caf�, Maggie? H� mais do que o suficiente.
- J� tomei. - Aquilo foi dito com algum arrependimento. - E Gray?
- N�o desceu ainda. Geralmente ele j� est� cheirando as panelas a esta hora do dia.
- Ent�o estamos sozinhas no momento.
- Sim. - Sua apar�ncia tranq�ila se desfez. Colocou o �ltimo peda�o de torrada cuidadosamente no prato e levou-o para o forno para se manter quente. - Voc�
veio para falar sobre as cartas.
- Deixei voc� se preocupando com isto tempo demais, n�o? Sinto muito.
- N�s duas precis�vamos pensar. - Brianna cruzou as m�os sobre o avental e encarou a irm�. - Que quer fazer, Maggie?
- O que quero � n�o fazer nada, fingir que nunca as li, que elas n�o existem.
- Maggie...
- Deixe-me terminar - falou bruscamente e come�ou a andar pela cozinha como um gato mal-humorado. - Quero continuar como sempre, manter minhas pr�prias lembran�as
de papai. N�o quero pensar ou me preocupar com uma mulher que ele conheceu e levou para a cama, muito tempo atr�s. N�o quero pensar num irm�o ou numa irm� adulta
em algum lugar. Voc� � minha irm� - falou veementemente. - Voc� � minha fam�lia. Acredito que essa Amanda refez sua vida em algum lugar, de algum modo, e n�o gostaria
se nos intromet�ssemos nela agora. Quero esquecer, quero que essa hist�ria desapare�a. � esse meu desejo, Brianna.
Parou, apoiando-se na bancada, e suspirou.
- � isso que quero - repetiu -, mas n�o � o que deve ser feito. Ele disse o nome dela. Quase que a �ltima coisa que falou em vida foi o nome dela. Ela tem
o direito de saber. E eu tenho o direito de amaldi�o�-la por isso.
- Sente-se, Maggie. N�o vai fazer bem a voc� ficar t�o transtornada.
- Claro que estou transtornada. N�s duas estamos. Temos modos diferentes de lidar com isto. - Com um aceno de cabe�a, afastou Brianna. - N�o preciso sentar.
Se o beb� ainda n�o est� acostumado com meu humor, ter� que aprender logo. - Calada, fez um esfor�o para se acalmar, inspirando profundamente. - Precisamos contratar
um investigador, um detetive, em Nova York. � o que voc� quer, n�o �?
- Acho que � o que devemos fazer - Brianna falou cautelosamente. - Por n�s mesmas. Por papai. Como faremos?
- Rogan conhece muita gente. Far� algumas liga��es. Ele � maravilhoso ao telefone. - Como viu que Brianna precisava disso, esfor�ou-se por sorrir. - Esta ser�
a parte mais f�cil. N�o sei quanto tempo vamos levar para encontr�-la. E s� Deus sabe o que faremos, se e quando nos defrontarmos com ela. Essa Amanda pode estar
casada, com um monte de filhos e uma vida feliz.
- J� pensei nisso. Mas temos que descobrir, n�o temos?
- Sim. - Avan�ando, Maggie tomou o rosto de Brianna gentilmente entre as m�os. - N�o se preocupe tanto, Brie.
- N�o vou me preocupar, se voc� tamb�m n�o se preocupar.
- � um pacto. - Maggie beijou-a levemente para selar o compromisso. - Agora v� alimentar seu ianque pregui�oso. Acendi meu forno e tenho trabalho para fazer.
- Nada pesado, n�o �?
Maggie devolveu o sorriso, quando se voltou para a porta.
- Reconhe�o meus limites.
- N�o, voc� n�o reconhece, Margaret Mary - Brianna gritou, quando a porta bateu. Parou por um momento, perdida em pensamentos, at� que os movimentos de Con
a despertaram. - Quer sair, n�o �? Tudo bem. V� ver o que Murphy est� fazendo.
Mal abriu a porta, Con disparou. Depois de um latido satisfeito, estava saltitando pelos campos. Ela fechou a porta ao ar �mido e pensou no que fazer. J� passava
das dez e tinha muito trabalho pela frente. Se Gray n�o iria descer para o caf�, ela o levaria para ele.
Uma olhada no menu sobre a mesa a fez sorrir novamente. Cantarolando, arrumou a bandeja de caf�. Ergueu-a e subiu as escadas. A porta dele estava fechada,
o que a fez hesitar. Bateu levemente, mas n�o obteve resposta, e come�ou a morder o l�bio. Talvez estivesse doente. Preocupada, bateu de novo, mais forte, e chamou
o nome dele.
Pensou ter ouvido um grunhido e, equilibrando a bandeja, conseguiu abrir a porta.
A cama parecia ter sido o palco de uma guerra. Len��is e cobertores estavam num emaranhado de n�s, o edredom nos p�s da cama quase caindo todo no ch�o. E o
quarto estava congelando.
Atravessando a soleira da porta, ela o viu e ficou olhando-o fixamente.
Ele estava � escrivaninha, os cabelos desgrenhados, os p�s descal�os. Havia uma pilha de livros ao lado dele, enquanto os dedos corriam sobre as teclas de
um laptop. Pr�ximo ao cotovelo estava um cinzeiro cheio de pontas de cigarro. O ar tinha o cheiro deles.
- Com licen�a. - Nenhuma resposta. Os m�sculos dos seus bra�os come�avam a doer pelo peso da bandeja. - Grayson.
- O qu�? - A pergunta saiu como uma bala, fazendo-a recuar um passo.
Moveu a cabe�a bruscamente.
Era o pirata outra vez, ela pensou. Parecia perigoso e violento. Quando os olhos dele se fixaram nela, sem nenhum sinal de reconhecimento, ela suspeitou que
ele pudesse ter enlouquecido durante a noite.
- Espere - ele ordenou, atacando o teclado outra vez. Brie esperou, confusa, por quase cinco minutos. Ent�o, ele se inclinou para tr�s, esfregou as m�os no
rosto com for�a, como algu�m que acabasse de despertar de um sonho. Ou, ela pensou, de um pesadelo. Ent�o se voltou novamente para ela, com aquele ligeiro sorriso
familiar. - � o caf�?
- Sim, eu... J� passa das dez e meia, e como voc� n�o desceu...
- Desculpe. - Levantou-se, pegou a bandeja das m�os dela e colocou-a sobre a cama. Pescou um peda�o de bacon com os dedos. - Comecei no meio da noite. Acho
que foi a hist�ria do fantasma que deu o clique inicial. Deus, como est� frio aqui!
- Bem, n�o � de admirar. Vai acabar com uma pneumonia, sem nada nos p�s e com o fogo apagado.
Ele apenas riu quando ela se ajoelhou na frente da lareira e come�ou a colocar mais carv�o. Ela falara como uma m�e, repreendendo uma crian�a insensata.
- Eu ia acender.
- Est� tudo muito bem, mas n�o � saud�vel ficar sentado aqui no frio, fumando, em vez de fazer uma refei��o decente.
- Cheira muito melhor do que algo s� decente. - Paciente, agachou-se ao lado dela, passando a m�o negligentemente amig�vel pelas suas costas. - Brie, voc�
me faz um favor?
- Se eu puder...
- V� embora.
At�nita, ela girou a cabe�a. Enquanto ela o olhava boquiaberta, ele segurou suas m�os, sorrindo.
- N�o se ofenda, querida. � que s� sou capaz de morder quando interrompem meu trabalho, e estou bem no meio dele agora.
- Com certeza, n�o pretendo ficar no seu caminho.
Voltou a parecer um pouco aborrecido. Estava tentando ser diplom�tico, n�o estava?
- Preciso mergulhar nisso enquanto est� funcionando, ok? Ent�o, apenas esque�a que estou aqui em cima.
- Mas seu quarto... Voc� precisa de len��is limpos e o banheiro...
- N�o se preocupe com isto. - O fogo estava crepitando agora, tal como a impaci�ncia dentro dele. Ele a fez levantar-se. - Voc� vai poder arrumar tudo quando
eu der uma parada. Agradeceria se voc� deixasse algo pra comer do lado de fora da porta de vez em quando. � tudo que preciso.
- Tudo bem, mas... - Ele estava quase a arrastando para a porta. Ela se irritou: - Voc� n�o precisa me p�r para fora. Estou saindo.
- Obrigado pelo caf�.
- N�o tem... - Ele fechou a porta na sua cara. - De qu� - ela disse entre dentes.

Pelo resto daquele dia e mais outros dois, ela n�o ouviu nenhum ru�do dele. Tentou n�o pensar no estado do quarto, se ele tinha se lembrado de manter o fogo
aceso ou se tinha se preocupado em dormir. Sabia que estava comendo. Cada vez que trazia uma nova bandeja, a anterior estava do lado de fora da porta. Raramente
sobrava mais do que um farelo no prato.
Poderia se sentir sozinha em casa, se n�o estivesse t�o atenta � presen�a dele. Duvidava muito que ele tivesse pensado nela um minuto.
Ela estava certa. Ele realmente dormia de vez em quando, cochilos povoados por sonhos e vis�es. Comia, saciando o corpo, enquanto a hist�ria alimentava o esp�rito.
Estava simplesmente sendo levado.
Em tr�s dias escreveu mais de cem p�ginas. O texto ainda estava meio duro, �s vezes sem ritmo, mas j� tinha a ess�ncia dele.
Tinha assassinato, e era divertido e astuto. Tinha desesperan�a e sofrimento, desespero e mentiras.
Ele estava no c�u.
Quando, afinal, deu uma parada, jogou-se na cama, puxou as cobertas por cima da cabe�a e dormiu como um morto.
Quando acordou, passou os olhos demoradamente pelo quarto e concluiu que uma mulher t�o forte como Brianna n�o desmaiaria diante daquela vis�o. A vis�o dele
pr�prio, entretanto, quando se examinou no espelho do banheiro, era outro assunto. Passou a m�o pela barba do queixo. Concluiu que parecia algo que tivesse sa�do
de um p�ntano.
Arrancou a camisa, fazendo uma careta diante do cheiro dela e de si mesmo, e entrou no chuveiro. Trinta minutos depois, estava vestindo roupas limpas. Estava
um pouco tonto e todo dolorido pela falta de exerc�cios. Mas a excita��o ainda se mantinha. Abriu a janela do quarto e aspirou o cheiro daquela manh� chuvosa.
Um dia perfeito, pensou. No lugar perfeito.
Sua bandeja do desjejum estava do lado de fora da porta, a comida fria. Percebeu que tinha dormido demais e, erguendo a bandeja, desejou que pudesse convencer
Brianna a esquent�-la outra vez.
E quem sabe ela sairia para dar uma volta com ele... Gostaria de companhia. Talvez pudesse convenc�-la a ir a Galway, passar o dia com ele, entre as pessoas.
Tamb�m poderiam...
Parou na porta da cozinha e o sorriso alargou-se de orelha a orelha. L� estava ela, sovando a massa do p�o, os cabelos presos no alto, o nariz sujo de farinha.
Era uma vis�o maravilhosa e ele estava de �timo humor. Baixou a bandeja com um barulho que a fez sobressaltar-se e olhar para ele. Ela mal come�ara a sorrir
quando ele avan�ou, segurou seu rosto entre as m�os e beijou-lhe a boca.
As m�os dela se fecharam na massa. A cabe�a rodopiou. Antes que pudesse reagir, ele recuou.
- Oi, grande dia, n�o �? Sinto-me incr�vel. Voc� n�o pode prever quando a coisa vem, entende? E, quando chega, � como um trem-bala atravessando sua cabe�a.
Voc� n�o pode par�-lo. - Pegou um peda�o de torrada fria de sua bandeja e j� ia mordisc�-lo quando percebeu. Seus olhos fixaram-se nos dela outra vez. Ele deixou
a torrada cair no prato.
O beijo tinha sido apenas um reflexo de seu humor, leve, efusivo. Agora, alguma rea��o retardada o dominava, retesando seus m�sculos, percorrendo sua espinha.
Ela continuou ali, olhando para ele, os l�bios ainda entreabertos de surpresa, os olhos escancarados.
- Espere um minuto - ele murmurou, aproximando-se dela outra vez. - Espere s� um minuto.
Mesmo que o teto desabasse, ela n�o teria conseguido se mover. Mal p�de respirar quando as m�os dele lhe tomaram o rosto, gentilmente desta vez, como um homem
experimentando uma textura. Os olhos permaneceram abertos, a express�o neles n�o inteiramente de prazer, enquanto se inclinava para ela desta vez.
Ela sentiu os l�bios dele ro�arem os seus, suaves, ador�veis. O tipo de toque que n�o deveria fazer o sangue ferver. Contudo, incendiou. Ele a fez se voltar
at� que seus corpos se encontrassem, inclinou a cabe�a dela para tr�s, a fim de que o beijo pudesse ir mais fundo.
Um som - ang�stia ou prazer - arranhou sua garganta, antes que as m�os fechadas relaxassem.
Sua boca era algo para se saborear, ele notou. Bela, generosa, d�cil. Um homem n�o devia ter pressa numa boca como aquela. Ele pressionou levemente os dentes
no l�bio inferior dela e estremeceu ao murm�rio surdo e impotente que ouviu. Lentamente, vendo os olhos dela se embara�arem at� fechar, explorou seus l�bios com
a l�ngua, mergulhando-a fundo em sua boca.
Tantos aromas sutis!
Era maravilhoso como podia sentir a pele dela se aquecer, os m�sculos suavizarem, o cora��o acelerar. Ou talvez fosse o cora��o dele. Algo rugia em sua cabe�a,
pulsava em seu sangue. S� quando o desejo come�ou a crescer, com a viol�ncia maliciosa que o acompanhava, que ele recuou.
Ela estava tremendo. Seu instinto o avisou de que, se continuasse, machucaria a ambos.
- Foi melhor do que imaginei - ele conseguiu dizer. - E olhe
que tenho uma senhora imagina��o.
Cambaleando, ela apoiou uma das m�os na bancada. Os joelhos tremiam. Apenas o medo da humilha��o evitou que a voz tremesse tamb�m.
- � assim que voc� se comporta sempre que sai de sua caverna?
- N�o � sempre que tenho a sorte de ter uma linda mulher por perto. - Balan�ou a cabe�a, estudando-a. O cora��o batia na garganta, a pele ainda estava ruborizada.
Mas, a n�o ser que estivesse enganado, ela j� estava reconstruindo aquele fr�gil muro protetor. - Isso n�o foi normal. N�o h� por que fingir que foi.
- Normalmente n�o sou beijada por um h�spede quando estou fazendo p�o. N�o posso saber o que � normal para voc�, posso? - Os olhos dele se alteraram, escurecendo
com sinais de irrita��o. Quando ele avan�ou, ela recuou. - Por favor, n�o.
Agora os olhos escurecidos se estreitaram.
- Seja mais espec�fica.
- Preciso terminar isto. A massa precisa crescer de novo.
- Est� fugindo, Brianna.
- Muito bem, n�o me beije assim outra vez. - Deixou escapar um suspiro convulsivo e inspirou novamente. - N�o tenho as defesas necess�rias.
- Isto n�o precisa ser uma batalha. Gostaria de levar voc� para a cama, Brianna.
Nervosa, para ocupar as m�os, agarrou uma toalha de prato e come�ou a limpar as m�os sujas de farinha.
- Bem, isto � meio grosseiro.
- � honesto. Se n�o estiver interessada, � s� dizer.
- N�o encaro as coisas t�o casualmente como voc�, com um sim ou um n�o, e est� tudo bem. - Lutando para manter a calma, ela dobrou a toalha com cuidado, deixando-a
de lado. - E n�o tenho nenhuma experi�ncia neste assunto.
Maldita fosse ela por se manter t�o fria, enquanto o sangue dele estava fervendo.
- Quem se importa com isso?
- A pessoa com quem voc� est� falando. Agora, saia daqui, para eu poder voltar ao meu p�o.
Ele simplesmente segurou seu bra�o e a fitou nos olhos. Virgem?, suspeitou, deixando a id�ia circular e fazer sentido. Uma mulher que parecia ser virgem, que
reagia como se fosse.
- Tem alguma coisa errada com os homens por aqui? - falou alegremente, esperando quebrar a tens�o. Mas o resultado foi um brilho de dor nos olhos dela que
o fez se sentir um verme.
- � da minha conta, n�o �, como vivo minha vida? - Sua voz tinha gelado. - Bem, respeitei seus desejos e seu trabalho nestes �ltimos dias. Poderia fazer o
mesmo e me deixar cuidar do meu?
- Tudo bem. - Deixou-a se afastar, chegando para tr�s. - Vou dar uma sa�da. Quer que traga alguma coisa para voc�?
- N�o, obrigada. - Enfiou as m�os na massa novamente e come�ou a sovar. - Est� chovendo um pouco - ela falou calmamente. - Vai precisar de um casaco.
Caminhou at� a porta e se voltou.
- Brianna. - Esperou, at� que ela levantasse a cabe�a. - Voc� n�o chegou a dizer se estava ou n�o interessada. Presumo que esteja pensando no assunto.
Saiu a passos largos. Ela prendeu o ar, at� ouvir a porta bater atr�s dele.


Gray gastou o excesso de energia com um longo passeio e uma visita aos penhascos de Mohr. Para dar aos dois tempo para se recompor, parou para almo�ar num
pub em Ennis. Gastou as calorias de uma por��o grande de peixe e fritas vagando pelas ruas estreitas. Algo numa vitrine fisgou seu olhar e, seguindo o impulso, entrou
e pediu para embrulhar.
Quando voltou a Blackthorn, quase se convencera de que o que havia experimentado na cozinha com Brianna fora mais resultado da alegria pelo trabalho do que
qu�mica.
Contudo, quando entrou em seu quarto e encontrou-a de joelhos no ch�o do banheiro, um balde ao lado e um esfreg�o na m�o, a balan�a pendeu para o outro lado.
Se um homem n�o estava enlouquecido por sexo, por que uma cena daquela fazia seu sangue ferver?
- Voc� tem id�ia de quantas vezes j� encontrei voc� nesta posi��o?
- Ela olhou por sobre o ombro.
- � um modo honesto de ganhar a vida. - Soprou os cabelos para tr�s. - Vou lhe dizer uma coisa, Grayson Thane. Voc� vive como um porco quando est� trabalhando.
Ele levantou a sobrancelha.
- � assim que voc� fala com todos os seus h�spedes?
Ele a pegara. Um pouco afogueada, atirou o pano de volta no ch�o.
- J� vou terminar aqui, se voc� est� querendo voltar pro quarto. Tenho outro h�spede chegando no fim da tarde.
- Hoje? - Fez uma careta nas costas dela. Gostara de ter o lugar s� para si. T�-la s� para si. - Quem �?
- Um cavalheiro ingl�s. Ligou logo depois que voc� saiu, nesta manh�.
- Bem, quem � ele? Quanto tempo vai ficar? - E que diabos ele quer?
- Uma noite ou duas - ela falou calmamente. - N�o questiono meus h�spedes, como voc� deve saber.
- S� acho que voc� devia fazer mais perguntas. N�o pode simplesmente deixar estranhos zanzando por sua casa.
Divertida, ela sentou-se e sacudiu a cabe�a para ele. Uma combina��o de desprez�vel e elegante, ela pensou, com os cabelos dourados presos atr�s, como um pirata,
os ador�veis olhos amuados, botas caras, jeans surrados, camisa amarrotada.
- � exatamente o que eu fa�o. Creio que voc� mesmo andou zanzando por a�, na calada da noite, n�o faz muito tempo.
- � diferente. - Diante de seu olhar inexpressivo, ele deu de ombros. - � mesmo. Escute, voc� n�o vai levantar e parar com isso? Parece que vai devorar o maldito
ch�o.
- Pelo visto, o passeio de hoje n�o animou nem um pouco.
- Estou bem. - Rondou pelo quarto, ent�o rosnou. - Voc� bagun�ou minha escrivaninha.
- Tirei o p� e limpei os cinzeiros, se � isso que quer dizer. Mal toquei nessa sua maquinazinha a�, s� a levantei e pus no lugar outra vez - Embora tivesse
sido penosamente tentada a levantar a tela e dar uma olhada no trabalho.
- Voc� n�o tem que ficar limpando tudo atr�s de mim, o tempo todo. - Bufou enfiando as m�os nos bolsos, enquanto ela simplesmente ficou parada com o balde
na m�o, olhando para ele. - Droga, eu devia ter imaginado. N�o faz nada bem para o meu ego saber que voc� n�o est� nem tentando me conquistar. - Fechou os olhos,
deixou escapar o ar. - Ok, vamos tentar de novo. Trouxe um presente para voc�.
- Trouxe? Por qu�?
- Por que diabos n�o traria? - Pegando a sacola que deixara sobre a cama, entregou a ela. - Vi isso e achei que voc� ia gostar.
- Gentileza sua. - Puxou uma caixa da sacola e come�ou a tirar a fita que a fechava.
Ela cheirava a sabonete, flores e desinfetante. Gray cerrou os dentes.
- Se n�o quiser que eu a jogue nesta cama que acabou de arrumar, � melhor se afastar.
Surpresa, ela levantou os olhos, as m�os paralisadas sobre a caixa.
- Falo s�rio.
Cautelosa, ela umedeceu os l�bios.
- Tudo bem. - Recuou um passo, depois outro. - Assim est� melhor?
O absurdo de tudo aquilo finalmente prevaleceu. Incapaz de fazer outra coisa, ele riu para ela.
- Por que voc� me fascina, Brianna?
- N�o tenho id�ia. Nenhuma mesmo.
- Deve ser por isto - ele murmurou. - Abra seu presente.
- Estou tentando. - Soltou a fita, levantou a tampa e tirou o papel de seda. - Oh, � lindo! - O prazer iluminou seu rosto quando ela pegou um chal� de porcelana.
Era delicado, a porta da frente aberta, acolhedora, um jardim bem cuidado com cada min�scula petalazinha perfeita. - � como se voc� pudesse chegar e entrar.
- Me fez pensar em voc�.
- Obrigada. - O sorriso era mais f�cil agora. - Voc� comprou isto para me amansar?
- Primeiro me diga se funcionou. Agora ela riu.
- N�o, n�o digo. Voc� j� tem vantagem suficiente.
- Tenho mesmo?
Alertada pelo ronronar de sua voz, ela se concentrou na tarefa de aconchegar o chalezinho em meio ao papel de seda.
- Preciso cuidar do jantar. Quer que eu traga na bandeja?
- Esta noite n�o. A primeira onda j� passou.
- O novo h�spede deve chegar l� para as cinco. Ent�o voc� ter� companhia no jantar.
- Formid�vel.

Gray se preparara para n�o gostar do cavalheiro ingl�s logo de cara, como um c�o defendendo seu territ�rio. Mas era dif�cil sentir-se amea�ado por aquele homenzinho
de careca lustrosa e arrogante sotaque de col�gio interno ingl�s.
Seu nome era Herbert Smythe-White, de Londres, um vi�vo aposentado que estava na primeira etapa de uma viagem de seis meses � Irlanda e � Esc�cia.
- Viajo por puro prazer - disse a Gray durante o jantar. - Nancy e eu n�o fomos aben�oados com filhos. Ela se foi h� quase dois anos. Agora, de repente, me
vi enfurnado dentro de casa. T�nhamos planejado fazer uma viagem como esta, mas o trabalho sempre me manteve muito ocupado. - O sorriso era mesclado de arrependimento.
- Decidi ent�o viajar sozinho mesmo, como um tributo a ela. Acho que ela gostaria disso.
- � sua primeira parada?
- Sim. Voei para Shannon e aluguei um carro. - Sorriu, tirando os �culos de aros de metal e polindo as lentes com um len�o. - Estou munido de todas as armas
de um turista, como mapas e guias. Ficarei um ou dois dias aqui, antes de seguir para o Norte. - Colocou os �culos de volta no nariz proeminente. - Mas estou com
medo de ter experimentado a melhor parte antes de tudo. A Srta. Concannon serve uma mesa excelente.
- Isso nem se discute. - Estavam dividindo a sala de jantar e um suculento salm�o. - Com que trabalhava?
- Mercado financeiro. Lamento ter passado muito da minha vida preocupado com n�meros. - Serviu-se de outra colher cheia de batatas em molho de mostarda. -
E o senhor, Sr. Thane? A Srta. Concannon me falou que � escritor. N�s, os tipos mais pr�ticos, sempre invejamos os criativos. Nunca tive tempo de ler por prazer,
mas certamente pegarei um de seus livros agora que nos conhecemos. Est� viajando tamb�m?
- N�o, no momento. Estou instalado aqui por enquanto.
- Aqui na pousada?
- Isso mesmo. - Desviou o olhar para Brianna quando ela entrou.
- Espero que tenha sobrado espa�o para a sobremesa. - Colocou uma grande tigela de pav� sobre a mesa.
- Ah, minha querida. - Atr�s das lentes polidas, os olhos de Smythe-White dan�aram com prazer, e talvez um pouco de gula. - Vou estar com alguns quilos a mais
antes de sair da sala.
- Est� enfeiti�ado para que as calorias n�o contem. - Serviu-lhes por��es generosas. - Espero que ache seu quarto confort�vel, senhor. Se desejar alguma coisa,
� s� pedir.
- Est� tudo exatamente como eu queria - ele garantiu. - Preciso voltar quando seu jardim estiver florescendo.
- Espero que volte. - Deixou-lhes um bule de caf� e uma garrafa de conhaque.
- Mulher ador�vel - Smythe-White comentou.
- Realmente.
- E muito jovem para administrar um estabelecimento sozinha. Pensei que tivesse um marido, uma fam�lia.
- Eficiente � o que ela �. - A primeira colherada de pav� derreteu na boca de Gray. Eficiente n�o era a melhor palavra, concluiu. A mulher era uma bruxa na
culin�ria. - Ela tem uma irm� e um cunhado logo abaixo, nesta rua. E � uma comunidade pequena. Sempre tem algu�m batendo � porta da cozinha.
- � uma sorte. Imagino que seria um lugar bem solit�rio, de outra maneira. Contudo, observei, quando vinha dirigindo para c�, que h� poucos vizinhos. - Sorriu
outra vez. - Acho que estou estragado pela cidade, e de toda maneira n�o me envergonho de gostar de multid�es e movimento. Vou levar algum tempo para me habituar
a uma noite calma.
- Ter� bastante tempo. - Gray serviu conhaque num dos c�lices e, a um aceno do companheiro, serviu tamb�m no outro. - Estive em Londres, n�o muito tempo atr�s.
De que parte voc� �?
- Tenho um pequeno apartamento perto de Green Parle. N�o tive coragem de manter minha casa depois que Nancy se foi. - Suspirou, girando o conhaque. - Deixe-me
dar-lhe um conselho que n�o pediu, Sr. Thane. Desfrute seus dias. N�o invista todos os seus esfor�os no futuro. Perde-se demais.
- � de conselhos assim que sobrevivo.


Horas mais tarde, a lembran�a do pav� que sobrara tirou Gray da cama quente e do bom livro que lia. A casa gemeu um pouco � sua volta enquanto desencavou um
moletom e vestiu-o. Desceu as escadas de p�s descal�os com gulosos sonhos de se empanturrar.
Claro que n�o era sua primeira investida noturna � cozinha desde que se instalara em Blackthorn. Nenhuma sombra ou rangido das bancadas perturbou-o, enquanto
entrava furtivamente na cozinha escura. Acendeu a luz do fog�o, n�o querendo acordar Brianna.
Ent�o desejou n�o ter pensado nela ou no fato de que ela dormia bem do outro lado da parede. Naquela longa camisola de flanela, imaginou, com uns bot�ezinhos
na gola. T�o comportada que a fazia parecer ex�tica - com certeza fazia um homem, um homem lascivo, imaginar o corpo que todo aquele tecido escondia.
E, se continuasse com aqueles pensamentos, nem todo o pav� do mundo satisfaria seu apetite.
Um v�cio de cada vez, cara, disse a si mesmo. E pegou a tigela. Um som vindo de fora o fez se deter para escutar. Justo quando estava a ponto de ignorar aquilo
como gemidos de casa antiga, ouviu o arranhar.
Com a tigela numa das m�os, foi at� a porta da cozinha, olhou em volta e n�o viu nada, a n�o ser a noite. De repente, o vidro se encheu de P�los e dentes caninos.
Gray abafou um grito e se equilibrou para n�o ir ao ch�o. Entre praguejar e dar uma risada, abriu a porta para Con.
- Menos de dez anos de vida, muit�ssimo obrigado. - Co�ou as orelhas do c�o e, como Brianna n�o estava por perto, decidiu dividir o pav� com sua companhia
canina.
- O que pensa que vai fazer?
Gray se endireitou, batendo a cabe�a na porta do arm�rio que n�o tinha fechado. Uma colherada de pav� desabou na tigela do cachorro e foi logo abocanhada.
- Nada. - Gray esfregou a cabe�a dolorida. - Deus do c�u, com voc� e seu cachorro terei sorte se viver at� o meu pr�ximo anivers�rio.
- Ele n�o deve comer isso. - Brianna tirou a tigela das m�os de Gray. - N�o � bom para ele.
- Eu ia comer. Agora preciso de uma aspirina.
- Sente que vou dar uma olhada no galo ou no buraco que fez na cabe�a, n�o importa.
- Muito engra�adinha. Por que apenas n�o volta para a cama e... N�o chegou a concluir a frase. De onde estava, Con subitamente
retesou-se, rosnou e, com um grunhido, saltou em dire��o � porta da entrada. Foi falta de sorte de Gray estar no caminho.
O peso de setenta quilos de m�sculos o fez cambalear, chocando-se contra a bancada. Viu estrelas quando o cotovelo estalou contra a madeira e ouviu ao longe
o comando r�spido de Brianna.
- Voc� se machucou? - O tom agora era de uma reconfortante preocupa��o maternal. - Voc� est� t�o p�lido, Gray. Con, sentado!
Ouvidos zumbindo, estrelas girando diante dos olhos, tudo o que Gray conseguiu fazer foi desabar na cadeira que Brianna puxara para ele.
- Tudo isso por uma maldita tigela de doce.
- Vamos, procure s� respirar agora. Deixe-me dar uma olhada no seu bra�o.
- Merda! - Arregalou os olhos quando ela flexionou seu cotovelo e a se dor irradiou. - Est� tentando me matar s� porque quero voc� nua?
- Pare com isso - repreendeu-o suavemente, enquanto gemia vendo a contus�o. - Vou pegar uma pomada boa para isso.
- Prefiro morfina. - Suspirou encarando o c�o, que permanecia tr�mulo diante da porta. - Que diabos h� com ele?
- N�o sei. Con, pare de agir como um idiota sanguin�rio e sente. - Passou a pomada numa gaze. - Talvez seja por causa do Sr. Smythe-White. Con estava andando
por a�, quando ele chegou. N�o foram apresentados. Pode ser que tenha sentido o cheiro.
- � uma sorte que o velho n�o tenha dado muita bola pro pav�. Ela apenas sorriu, endireitando-se para examinar a cabe�a de Gray.
Seus cabelos eram lindos, pensou, t�o dourados e sedosos.
- Ah, Con n�o o machucaria. S� ficaria cercando-o. �, voc� vai ficar com um baita galo.
- N�o precisa ficar t�o contente com isso.
- Vai ensinar voc� a n�o dar mais doces ao cachorro. Vou preparar uma compressa de gelo e... - Deixou escapar um gritinho, quando Gray a puxou para o seu colo.
As orelhas do cachorro se levantaram, mas ele apenas se aproximou e cheirou as m�os de Gray.
- Ele gosta de mim.
- � f�cil conquist�-lo. Deixe-me levantar ou vou dizer a ele para morder voc�.
- N�o morderia. Acabei de lhe dar pav�. Vamos ficar assim s� um pouco, Brie. Estou fraco demais para incomodar voc�.
- N�o acredito nisso nem um minuto sequer - falou num sussurro, mas cedeu.
Gray embalou a cabe�a dela em seu ombro e sorriu quando Con descansou a dele no colo dela.
- Assim est� bom.
- Est� mesmo.
Ela sentiu um pequeno aperto no cora��o, enquanto ele a abra�ava suavemente sob a luz fraca do fog�o e a casa dormia em volta deles.





B
rianna precisava de um toque de primavera. Mesmo sabendo que n�o se podia ter certeza de que ela come�aria mais cedo, aquela sensa��o n�o mudaria. Pegou as sementes
que andara juntando, um radiozinho port�til e levou-os para o pequeno galp�o que tinha equipado como uma estufa tempor�ria.
N�o era grande coisa e ela era a primeira a admitir isso. N�o mais que um metro quadrado, com um ch�o de cascalho, o galp�o era mais usado para dep�sito do
que para plantar. Mas ela fizera Murphy colocar vidros e um aquecedor. As bancadas ela mesma fizera, com um pouco de habilidade e uma grande dose de orgulho.
N�o havia espa�o nem equipamento para o tipo de experimentos com que sonhava. Entretanto, podia dar �s suas sementes um come�o antecipado nos vasos que encomendara
num cat�logo de jardinagem.
A tarde era sua, de toda maneira. Gray estava mergulhado no trabalho e o Sr. Smythe-White estava fazendo uma excurs�o ao Ring of Kerry. Todos os assados e
consertos do dia estavam feitos. Ent�o, logo era o momento do prazer.
Poucas coisas a deixavam t�o feliz quanto mexer na terra. Com um grunhido, ergueu um saco de mistura para vasos at� a bancada.
No pr�ximo ano, prometeu a si mesma, teria uma estufa profissional. Nada muito grande, mas agrad�vel. Plantaria mudas e cultivaria bulbos, de modo que poderia
ter uma primavera quando quisesse. Talvez at� tentasse algum enxerto. Mas, no momento, estava contente por cuidar das sementes.
Em poucos dias, pensou cantarolando com o r�dio, os primeiros brotos despontariam do solo. Verdade que gastava horrores com o combust�vel para manter a temperatura
ideal. Teria sido mais inteligente usar o dinheiro para fazer uma revis�o no carro. Mas n�o seria t�o prazeroso.
Espalhou as sementes, gentilmente batendo a terra, e deixou a mente divagar.
Como Gray fora gentil na noite anterior, lembrou. Aconchegado com ela na cozinha. N�o tinha sido t�o assustador, nem, admitiu, t�o excitante, como quando ele
a beijara. Havia sido algo agrad�vel e tranq�ilo, t�o natural que por um momento pareceu como se os dois vivessem ali.
Um dia, tempos atr�s, sonhara em dividir pequenos e doces momentos como aquele com algu�m. Com Rory, pensou com uma antiga e est�pida ang�stia. Ent�o tinha
acreditado que se casaria, teria filhos para amar e uma casa para cuidar. Quantos planos fizera, pensou, sonhos cor-de -rosa e apaixonados, em que viviam felizes
para sempre.
Mas, naquela �poca, era apenas uma menina, e apaixonada. Uma menina apaixonada acredita em qualquer coisa. Acredita em tudo. N�o era mais uma menina agora.
Parara de acreditar quando Rory partira seu cora��o, dividindo-o em duas metades doloridas. Sabia que ele agora estava morando perto de Boston com a esposa,
filhos e formando uma fam�lia. E, tinha certeza, sem sequer pensar naquele doce in�cio de primavera em que ele a cortejara e fizera promessas.
Isso j� faz muito tempo, recordou-se. Agora ela sabia que o amor n�o dura para sempre e que promessas nem sempre s�o cumpridas. E se ainda carregava uma semente
de esperan�a que desejava ardentemente florescer, isso s� magoaria a si mesma.
- C� est� voc�! - Olhos agitados, Maggie irrompeu no galp�o. - Ouvi a m�sica. Que diabos est� fazendo aqui?
- Estou plantando flores. - Distra�da, Brianna passou o dorso da m�o no rosto, sujando-o de terra. - Feche a porta, Maggie, est� deixando o calor sair. O que
houve? Parece a ponto de explodir.
- Voc� n�o vai adivinhar nem em um milh�o de anos. - Com uma risada, Maggie rodou pelo pequeno galp�o, pegando o bra�o de Brianna para faz�-la girar. - Vamos!
Tente!
- Voc� vai ter trig�meos.
- N�o! Deus me livre.
O humor de Maggie estava contagiante o bastante para fazer Brianna rir e acompanh�-la naquela dan�a improvisada.
- Voc� vendeu uma de suas pe�as por um milh�o de libras para o presidente dos Estados Unidos.
- Ah, que id�ia! Quem sabe n�o mandamos mesmo um cat�logo para ele? Mas n�o � nada disso, voc� passou longe. Vou lhe dar uma dica, ent�o. A av� de Rogan ligou.
Brianna soprou os cabelos ca�dos nos olhos.
- Isso � uma dica?
- Seria se prestasse aten��o. Brie, ela vai casar! Vai casar com o tio Niall, semana que vem, em Dublin.
- O qu�? - A boca de Brianna se abriu �quelas palavras. - Tio Niall, Sra. Sweeney, casados?
- N�o � legal? N�o � muito legal? Voc� sabe que ela tinha uma quedinha por ele, quando era garota em Galway. Encontraram-se novamente, depois de cinq�enta
anos, por causa da gente, Rogan e eu. Agora, por tudo que � mais sagrado, eles v�o oficializar. - Deu uma risada, jogando a cabe�a para tr�s. - E ent�o, al�m de
sermos marido e mulher, Rogan e eu vamos ser primos.
- Tio Niall. - Era s� o que Brianna conseguira dizer.
- Devia ver a cara de Rogan, quando recebeu a not�cia. Parecia um peixe, a boca fechando e abrindo, sem sair uma palavra. - Bufando de tanto rir, ela inclinou-se
sobre a bancada de Brianna. - Ele nunca se acostumou com a id�ia de que eles estavam namorando. Mais do que namorando, se chegaram a tanto, mas deve ser mesmo dif�cil
para um homem imaginar sua vov� de cabelos brancos se aconchegando no pecado.
- Maggie. - Vencida, Brianna cobriu a boca com a m�o. O riso abafado logo se transformou numa gargalhada.
- Bem, est�o legalizando tudo agora com um arcebispo, n�o fizeram por menos. - Respirou fundo, olhando em volta. - Tem alguma coisa para comer aqui?
- N�o. Quando vai ser? Onde?
- No pr�ximo s�bado, na casa de Dublin. Uma cerim�nia pequena, ela falou, s� para a fam�lia e os amigos chegados. Tio Niall tem oitenta anos, Brie, voc� consegue
imaginar isso?
- Consigo e acho mesmo formid�vel. E vou ligar para eles depois de terminar aqui e limpar tudo.
- Rogan e eu estamos indo para Dublin, hoje. Ele est� ao telefone agora. Meu Deus, tomando provid�ncias. - Deu um sorriso. - Est� tentando agir como um chefe
de fam�lia sobre isso.
- Ele ficar� contente por eles, depois que se acostumar com a id�ia. - A voz de Brianna soou distante quando ela come�ou a pensar no que daria aos noivos.
- A cerim�nia vai ser � tarde, mas talvez voc� prefira chegar na noite anterior. Ent�o teremos algum tempo.
- Chegar? - Brianna encarou a irm� outra vez. - Mas n�o posso ir, Maggie. N�o posso sair daqui. Estou com um h�spede.
- Claro que voc� vai. - Erguendo-se da bancada, segurou o queixo dela. - � tio Niall. Ele a espera l�. � s� um maldito dia, Brianna.
- Maggie, tenho obriga��es aqui e n�o tenho como ir a Dublin e voltar.
- Rogan mandar� o avi�o apanhar voc�.
- Mas...
- Ah, deixe Grayson Thane. Ele pode preparar suas pr�prias refei��es por um dia. Voc� n�o � empregada dele.
Os ombros de Brianna ficaram tensos. Os olhos se tornaram frios.
- N�o, n�o sou. Sou uma mulher de neg�cios que deu sua palavra. N�o posso simplesmente ficar flanando um fim de semana em Dublin e dizer ao homem para se virar.
- Ent�o, leve-o junto. Se est� preocupada que o homem v� morrer sem voc� para cuidar dele, leve-o com voc�.
- Lev�-lo para onde? - Gray abriu a porta e fitou as duas mulheres cautelosamente. Da janela do quarto, vira Maggie correr para o galp�o. A curiosidade finalmente
o fizera parar de trabalhar e os gritos cuidaram do resto.
- Feche a porta - Brianna disse automaticamente. Lutava contra o embara�o de que ele tivesse entrado numa discuss�o de fam�lia. Suspirou uma vez. O pequeno
galp�o estava, agora, cheio de gente. - Est� precisando de alguma coisa, Grayson?
- N�o. - Ergueu a m�o, passando o polegar sobre a sujeira no rosto dela. Um gesto que fez os olhos de Maggie se estreitarem. - Voc� est� com o rosto sujo de
terra, Brie. O que est� fazendo?
- Tentando plantar algumas sementes, mas h� pouco espa�o para elas agora.
- Cuidado com as m�os, rapaz - Maggie murmurou. Ele apenas sorriu e enfiou-as nos bolsos.
- Ouvi falarem meu nome. Algum problema?
- N�o haveria, se ela n�o fosse t�o teimosa. - Maggie empinou o queixo e decidiu jogar a responsabilidade para Gray: - Ela precisa ir a Dublin, no pr�ximo
fim de semana, mas n�o quer deixar voc�.
O sorriso de Gray se transformou numa risada satisfeita enquanto seu olhar ia de Maggie para Brianna.
- Ela n�o quer?
- Voc� pagou por cama e comida - Brianna come�ou a falar.
- Por que precisa ir a Dublin? - ele interrompeu-a.
- Nosso tio vai casar - Maggie contou. - Ele vai querer que ela esteja l�, e est� certo. Eu disse que, se ela n�o quer deixar voc�, deve lev�-lo.
- Maggie, Gray n�o quer ir a um casamento com pessoas que n�o conhece. Ele est� trabalhando e n�o pode simplesmente...
- Claro que posso - Gray cortou-a. - Quando partimos?
- �timo. Voc�s ficar�o na nossa casa l�. Isto j� est� certo. - Maggie esfregou as m�os. - Agora, quem ir� contar para a mam�e?
- Eu...
- N�o, deixe comigo - Maggie decidiu, antes que Brianna pudesse responder. Ela sorriu. - Ela realmente vai odiar. Mandaremos o avi�o para busc�-la s� no s�bado
pela manh�. Ent�o voc�s n�o ser�o atormentados por ela durante toda a viagem. Tem um terno, Gray?
- Um ou dois.
_Ent�o est� pronto, n�o est�? - Inclinou-se para beijar as duas
faces de Brianna. - Organize-se para ir na sexta - ordenou. - Ligarei de Dublin.
Gray passou a l�ngua pelos dentes, quando Maggie bateu a porta.
- Mandona, n�o �?
- Se �. - Brianna piscou, sacudindo a cabe�a. - Mas n�o � de prop�sito. S� que ela pensa que est� sempre certa. E adora o tio Niall e a av� de Rogan.
- Av� de Rogan.
- � com quem ele vai casar. - Voltou para as sementes, esperando clarear a mente com o trabalho.
- Parece at� novela.
- Parece mesmo. Gray, � muita gentileza sua mostrar-se t�o compreensivo, mas n�o � necess�rio. Eles n�o v�o sentir minha falta, realmente, e ser� um aborrecimento
para voc�.
- Um fim de semana em Dublin n�o � um aborrecimento para mim. E voc� quer ir, n�o quer?
- Esta n�o � a quest�o. Maggie deixou voc� numa posi��o dif�cil. Ele colocou a m�o sob o queixo dela, levantando-o.
- Por que tem tanta dificuldade para responder �s perguntas? Voc� quer ir, n�o quer? Sim ou n�o?
- Sim.
- Ok, ent�o vamos.
Os l�bios dela come�aram a se curvar, at� que ele se inclinou para eles.
- N�o me beije - ela falou fracamente.
- Bem, isso sim � um aborrecimento para mim. - Mas ele se conteve inclinando-se para tr�s. - Quem machucou voc�, Brianna? Os c�lios baixaram, toldando seus
olhos.
- Talvez eu n�o responda �s perguntas porque voc� pergunta demais.
- Voc� o amava?
Ela virou a cabe�a, concentrando-se em seus vasos.
- Sim, muito. Era uma resposta, mas ele descobriu que n�o o agradou.
- Ainda est� apaixonada por ele?
- Seria uma idiotice.
- N�o � uma resposta.
- � sim. Fico fungando no seu pesco�o quando est� trabalhando?
- N�o. - Mas ele n�o recuou. - Mas voc� tem um pesco�o t�o atraente. - Provando o que dizia, abaixou-se para ro�ar os l�bios sobre sua nuca. N�o fez mal a
seu ego senti-la estremecer. - Sonhei com voc� a noite passada, Brianna. E escrevi sobre isso hoje.
Muitas das sementes espalharam-se sobre a bancada, em vez de na terra. Ela se ocupou recolhendo-as.
- Escreveu sobre isso?
- Fiz algumas mudan�as. No livro, voc� � uma jovem vi�va que batalha para reconstruir a vida sobre um passado penoso.
Involuntariamente, ela se viu for�ada a voltar-se para olh�-lo.
- Voc� me colocou em seu livro?
- Partes de voc�. Seus olhos, esses maravilhosos olhos tristes. Seus cabelos. - Ele levantou a m�o para toc�-los. - Espessos, lisos, da cor de um frio p�r-do-sol.
Sua voz, esta cad�ncia suave. Seu corpo, esguio, flex�vel, com uma gra�a inconsciente de bailarina. Sua pele, suas m�os. Vejo voc� quando escrevo, ent�o escrevo
sobre voc�. E, al�m do f�sico, h� sua integridade, sua lealdade. - Sorriu. - Seus bolos para o ch�. O her�i est� t�o fascinado por ela quanto eu sou por voc�.
Gray firmou as m�os na bancada, dos dois lados dela, prendendo-a.
- E ele continua esbarrando nesta mesma coura�a que voc�s duas t�m. Fico pensando quanto tempo vai levar para quebr�-la.
Ningu�m nunca falara tais palavras sobre ela antes, tais palavras a ela. Uma parte dela ansiava por rolar nelas, como se fossem seda. Outra parte permanecia
cautelosamente atr�s.
- Voc� est� tentando me seduzir. Ele levantou a sobrancelha.
- Como estou me saindo?
- N�o consigo respirar.
- � um bom come�o. - Chegou mais perto, at� que sua boca estivesse a um sussurro da dela. - Deixe-me beij�-la, Brianna.
Ele j� estava daquele jeito, de vagarosa vertigem, que fazia os m�sculos dela se desfazerem. Boca com boca. Algo t�o simples, mas que fazia tudo oscilar no
mundo dela. Mais e mais at� que ela tivesse medo de nunca mais recuperar o equil�brio.
Ele tinha destreza, e com a destreza tinha paci�ncia. Sob ambas estava o vislumbre da viol�ncia reprimida que ela sentira nele uma vez. A combina��o penetrou
nela como uma droga, enfraquecendo-a, atordoando-a.
Ela desejava como uma mulher desejava. Ela temia como a inoc�ncia temia.
Delicadamente ele soltou os dedos com que ela se agarrava � bancada. Com a boca deslizando sobre a dela, ele ergueu seus bra�os.
- Abrace-me, Brianna. - Deus, ele precisava dela. - Beije-me.
Como o estalo de um a�oite, as palavras calmas dele a incitaram. Subitamente ela estava colada nele, a boca ardente e desejosa. Cambaleante, ele recuou, apertando-a.
Os l�bios dela estavam quentes, famintos, o corpo vibrando como uma corda de harpa puxada. A erup��o da paix�o era como lava escorrendo atrav�s do gelo, fren�tica,
inesperada e perigosa.
Havia o cheiro elemental da terra, o gemido dos foles irlandeses no r�dio, o sabor suculento de mulher na boca dele e a tr�mula excita��o dela em seus bra�os.
Ent�o ele estava cego e surdo a tudo, menos a ela. As m�os dela agarradas em seus cabelos, sua respira��o ofegante enchendo-lhe a boca. Mais, apenas querendo
mais, ele empurrou suas costas contra a parede do galp�o. Ouviu o grito dela - de susto, dor, excita��o -, antes que ele silenciasse o som, devorando-o, devorando-a.
As m�os dele corriam sobre ela, quentes, invasivas, possessivas. E a respira��o dela se tornou um gemido. Por favor... Queria implorar algo a ele. Ah, por
favor. A dor, uma dor... profunda, implac�vel, gloriosa. Mas ela n�o sabia o come�o daquilo ou como iria terminar. E o medo a mordia como um lobo - medo dele, de
si mesma, do que ainda tinha de conhecer.
Ele desejava sua pele - sentir e provar a carne dela. Queria estar dentro dela at� que ambos esvaziassem. O ar cortava seus pulm�es, enquanto ele agarrava
a camisa dela, as m�os prontas para arrancar e rasgar.
E seus olhos encontraram os dela.
Seus l�bios estavam machucados e tr�mulos, o rosto p�lido como gelo. Olhos arregalados, terror e desejo guerreavam neles. Ele baixou os olhos, viu seus dedos
brancos pela for�a. E as marcas que seus dedos �vidos deixaram em sua pele ador�vel.
Recuou como se ela o tivesse agredido. Ent�o levantou as m�os. N�o sabia, ao certo, o que ou quem estava repelindo.
- Desculpe - conseguiu dizer, enquanto ela continuava parada, pressionada contra a parede, engolindo em seco. - Desculpe. Machuquei voc�?
- N�o sei. - Como podia saber, quando n�o havia nada al�m daquela dor terr�vel latejando? Nunca sonhara que podia sentir aquilo. N�o sabia que era poss�vel
sentir tanto. Confusa, esfregou as faces �midas.
- N�o chore. - Enfiou a m�o tr�mula nos cabelos. - J� estou me sentindo s�rdido demais.
- N�o, n�o... - Engoliu as l�grimas. N�o sabia por que derram�-las. - N�o sei o que aconteceu comigo.
Claro que n�o sabia, ele pensou amargamente. N�o lhe falara que era inocente? E tinha agido com ela como um animal. Mais um minuto e a teria jogado no ch�o
e...
- Pressionei voc� e n�o h� perd�o para isso. S� posso lhe dizer que perdi a cabe�a e pe�o desculpas. - Queria achegar-se a ela, afastar-lhe os cabelos emaranhados
do rosto. Mas n�o ousou. - Fui grosseiro e assustei voc�. N�o acontecer� outra vez.
- Sabia que voc� seria. - Estava mais firme agora, talvez porque ele parecesse t�o tr�mulo. - Durante todo o tempo, eu sabia. N�o foi isto, Grayson. N�o sou
t�o fr�gil assim.
Ele percebeu que ainda era capaz de sorrir.
- Ah, voc� � sim, Brianna. E eu nunca fui t�o desajeitado. Pode parecer o momento errado para lhe dizer isso, mas n�o deve ter medo de mim. N�o vou machuc�-la.
- Eu sei. Voc�...
- E vou tentar ao m�ximo n�o apressar voc� - ele interrompeu-a. - Mas eu a quero.
Ela percebeu que precisava se concentrar para respirar normalmente outra vez.
- N�o podemos ter sempre o que queremos.
- Nunca acreditei nisto. N�o sei quem era ele, Brie, mas ele se foi. Eu estou aqui.
Ela concordou.
- Agora.
- H� apenas o agora. - Sacudiu a cabe�a antes que ela pudesse rebater. - Este lugar � t�o estranho para filosofia quanto para sexo. N�s dois estamos bem excitados,
n�o �?
- Acho que se pode dizer isso.
- Vamos entrar. Desta vez eu vou preparar um ch� para voc�. Ela arqueou os l�bios.
- E voc� sabe fazer?
- Estive observando voc�. Venha.
Estendeu a m�o. Ela olhou-o hesitante. Depois de olhar cautelosamente o rosto dele - estava calmo agora, sem aquela estranha luz selvagem, assustadora e excitante
-, deslizou a m�o na dele.
- Talvez fosse bom ter algu�m nos vigiando esta noite.
- Como? - Ela voltou a cabe�a, enquanto sa�am.
- De outro modo, voc� pode se esgueirar at� o meu quarto e se aproveitar de mim.
Ela deixou escapar uma risada.
- Voc� � esperto demais para que algu�m se aproveite de voc�.
- Bem, voc� pode tentar. - Aliviado por nenhum dos dois estar tremendo agora, ele passou o bra�o amigavelmente pelos ombros dela.
- Por que n�o comemos um peda�o de bolo com o ch�? Relanceou os olhos para ele, quando chegaram � porta da cozinha.
- O meu ou o que a mulher faz no seu livro?
- O dela � apenas na minha imagina��o, querida. Agora, o seu...
- Gelou quando abriu a porta. Instintivamente empurrou Brianna para tr�s de si. - Fique aqui. Bem aqui.
- O que foi? Voc� est�... ah, meu Deus! - Sobre o ombro dele, ela p�de ver o caos na sua cozinha. Latas haviam sido emborcadas, arm�rios, esvaziados. Farinha
e a��car, pimenta e ch� despejados no ch�o.
- Eu disse para ficar aqui - ele repetiu, quando ela tentou afast�-lo.
- N�o, n�o fico. Olhe essa bagun�a.
Ele impediu sua passagem com um bra�o na porta.
- Guarda dinheiro nas latas? J�ias?
- N�o seja maluco! Claro que n�o. - Ela pestanejou. - N�o tenho nada para ser roubado e ningu�m faria isso.
- Bem, algu�m fez e pode estar ainda dentro de casa. Onde est� o cachorro? - murmurou.
- Deve estar fora com Murphy - falou friamente. - Sai para fazer muitas visitas � tarde.
- Corra at� a casa de Murphy, ent�o, ou de sua irm�. Darei uma olhada por aqui.
Ela se adiantou.
- Lembro a voc� que esta � minha casa. Eu mesma vou olhar.
- Fique atr�s de mim. - Foi tudo o que ele disse.
Checou primeiro os c�modos dela, ignorando o esperado grito de revolta, quando viu as gavetas reviradas, as roupas jogadas.
- Minhas coisas.
- Veremos depois se falta alguma coisa. Melhor checar o resto.
- Que maldade � essa? - perguntou, exasperada, enquanto seguia atr�s de Gray. - Ah, malditos sejam! - praguejou, quando viu a sala.
Tinha sido uma busca r�pida, corrida, fren�tica, Gray pensou. Algo nada profissional e idiotamente arriscado. Pensava nisto, quando outra id�ia o atravessou.
- Merda! - Subiu as escadas de dois em dois degraus, irrompendo na confus�o de seu quarto, atirando-se direto para o laptop. - Algu�m vai morrer - murmurou,
ligando o computador.
- Seu trabalho. - Brianna deteve-se p�lida e furiosa, na porta. - Estragaram seu trabalho?
- N�o. - Percorreu p�gina por p�gina, at� se dar por satisfeito. - N�o, est� aqui. Tudo bem.
Ela deixou escapar um suspiro, antes de voltar-se para o quarto do Sr. Smythe-White. As roupas tinham sido atiradas para fora das gavetas e do arm�rio, a cama
fora arrastada.
- Deus do c�u, como vou explicar isso a ele?
-Acho que � mais importante saber o que estavam procurando.
Sente-se, Brianna - Gray ordenou. - Vamos pensar a respeito.
-O que h� para pensar? - Mas ela sentou-se na beirada do colch�o revirado. - N�o tenho nada de valor aqui. Umas poucas libras, algumas quinquilharias. - Esfregou
os olhos, impaciente consigo mesma pelas l�grimas que n�o conseguia conter. - N�o pode ter sido algu�m da vila ou das redondezas. Deve ser algum vagabundo, um caroneiro,
talvez, esperando achar um pouco de dinheiro. Bem... - Respirou tr�mula. - Deve ter se desapontado com o que encontrou aqui. - Levantou os olhos, abruptamente, empalidecendo
outra vez. -Voc�? Tinha algum dinheiro?
- A maior parte s�o cheques de viagem. Ainda est�o aqui. - Sacudiu os ombros. - Levou umas poucas centenas de libras, � tudo.
- Umas poucas... centenas? - Ela saltou da cama. - Levou seu dinheiro?
- N�o � importante. Brie...
- N�o � importante? - Ela cortou-o. - Voc� est� morando sob meu teto, um h�spede em minha casa, e teve seu dinheiro roubado. Quanto era? Resolverei isso.
- Claro que n�o. Sente-se e pare com isso.
- J� disse que resolverei.
Paci�ncia esgotada, ele a segurou firmemente pelos ombros e empurrou-a de volta � cama.
- Pagaram-me cinco milh�es pelo meu livro mais recente, al�m dos direitos autorais para o exterior e para filmes. Algumas poucas centenas de libras n�o v�o
me quebrar. - Os olhos dele se estreitaram, quando os l�bios dela se curvaram novamente. - Respire fundo. Agora. Ok, outra vez.
- N�o interessa se voc� tem ouro brotando das m�os. Sua voz falhou, deixando-a humilhada.
- Quer chorar mais? - Ele suspirou fortemente, sentou-se ao lado dela, preparou-se para isso. - Ok, deixe rolar.
- N�o vou chorar. - Fungou, passando as palmas das m�os para secar o rosto. - Tenho coisas demais a fazer. Vou levar horas para colocar tudo em ordem aqui.
- Teremos que chamar a pol�cia?
- Para qu�? - Levantou as m�os e deixou-as cair. - Se algu�m tivesse visto um estranho espreitando, meu telefone j� estaria tocando. Algu�m queria dinheiro
e o levaram. - Examinou o quarto, imaginando quanto seu outro h�spede teria perdido e que enorme rombo isto faria em suas preciosas economias. - N�o quero que voc�
fale a esse respeito com Maggie.
- Droga, Brie...
- Ela est� com seis meses. N�o quero preocup�-la. - Lan�ou-lhe um olhar firme atrav�s de olhos ainda brilhantes pelas l�grimas. - Sua palavra, por favor.
- Est� bem, como quiser. Mas quero a sua de que vai me contar exatamente o que est� faltando.
- Vou. Vou ligar para Murphy e contar a ele. Ele vai se informar. Se houver alguma coisa para saber, saberei at� a noite. - Calma outra vez, ela se levantou.
- Preciso come�ar a colocar as coisas em ordem. Come�arei pelo seu quarto, ent�o poder� voltar ao trabalho.
- Eu darei um jeito no meu quarto.
- Sou eu que...
- Est� me enchendo o saco, Brianna. - Esticou-se lentamente, at� que ficou frente a frente com ela. - Vamos deixar isso bem claro. Voc� n�o � minha empregada,
minha m�e ou minha esposa. Posso guardar minhas pr�prias roupas.
- Como preferir.
Praguejando, pegou seu bra�o, antes que ela pudesse sair de perto dele. Ela n�o resistiu, mas permaneceu im�vel, apenas olhando por cima do ombro dele.
- Ou�a. Voc� est� com um problema e quero ajudar. Pode p�r isto na sua cabe�a?
- Quer ajudar mesmo? - Inclinou a cabe�a e falou com todo o calor de uma geleira: - Podia ir pegar algum ch� com Murphy. Parece que ficamos sem.
- Vou ligar para ele - Gray disse calmamente. - E pedir que traga um pouco. N�o vou deixar voc� aqui sozinha.
- Como queira. O n�mero dele est� na agenda, na cozinha... --A voz dela sumiu, quando a imagem de sua ador�vel cozinha lhe veio � mente. Fechou os olhos. -
Gray, voc� pode me deixar sozinha por um instante? Ficarei melhor.
- Brianna. Tocou o rosto dela.
- Por favor. - Desmoronaria completa e humilhantemente se ele fosse gentil agora. - Ficarei bem, quando estiver ocupada. E gostaria de um ch�. - Abrindo os
olhos, for�ou-se a sorrir. - Verdade.
- Muito bem. Vou descer. Agradecida, atirou-se ao trabalho.





G
ray, muitas vezes, brincara com a id�ia de comprar um avi�o.
Algo como o belo jatinho que Rogan deixara ao dispor dele e de Brianna para a viagem a Dublin seria perfeito. Poderia decor�-lo como lhe agradasse, brincar
com os comandos de vez em quando. Nada o impediria de aprender a pilot�-lo.
Certamente seria um brinquedo interessante, pensava, enquanto estava instalado no confort�vel assento de couro ao lado de Brianna. E ter seu pr�prio meio de
transporte eliminaria a dor de cabe�a de providenciar passagens e ficar � merc� dos imprevistos das companhias a�reas.
Mas possuir alguma coisa - qualquer coisa - equivalia � responsabilidade de mant�-la. Era por isso que, por exemplo, alugava carros, nunca comprava.
E embora houvesse algumas vantagens na privacidade ou conveni�ncia de um lindo jato, ele pensou que perderia contato com as multid�es e com os companheiros
de viagem, al�m dos peculiares percal�os de um v�o comercial.
Mas n�o desta vez. Deslizou a m�o sobre a de Brianna, quando o avi�o come�ou a taxiar.
- Gosta de voar?
- N�o v�o com muita freq��ncia. - A antecipa��o de se lan�ar ao c�u fez seu est�mago se contrair um pouco. - Mas, sim, acho que gosto. Gosto de olhar para
baixo. - Sorriu, quando olhou para o ch�o desaparecendo embaixo. Ficava sempre fascinada ao se ver acima de sua pr�pria casa, das montanhas, correndo atrav�s das
nuvens para algum outro lugar. - Suponho que isso n�o � novidade para voc�.
- � divertido pensar para onde se est� indo.
- E onde se estava.
- N�o penso muito nisso. Apenas estive l�.
Enquanto o avi�o subia, ele p�s a m�o sob o queixo dela, virando seu rosto para examin�-la.
- Voc� ainda est� preocupada.
- N�o � certo sair assim, e com tanto luxo tamb�m.
- A velha culpa cat�lica. -A culpa nos olhos dela se aprofundou quando ele riu. - J� ouvi falar desse fen�meno. Se n�o est� fazendo algo construtivo e realmente
est� curtindo n�o fazer, voc� vai para o inferno. Certo?
- Que bobagem! - Torceu o nariz, irritada porque aquilo em parte era verdade. - Tenho responsabilidades.
- E est� se esquivando delas. - Ele soltou um gemido e segurou a cruz de ouro que ela usava. - � uma tenta��o para o pecado, n�o �? O que � exatamente uma
tenta��o?
- Voc� � - ela disse, afastando a m�o dele.
- Sem brincadeira? - Aquela id�ia o atra�a enormemente. - Gosto disso.
- Voc� gostaria mesmo. - Ela colocou um grampo ca�do no lugar. - Mas n�o tem nada a ver com isto. Estou me sentindo culpada porque n�o estou habituada a simplesmente
fazer as malas e partir de repente. Gosto de planejar as coisas.
- Perde metade da gra�a.
- Aumenta a gra�a na minha maneira de pensar. - Ela mordeu o l�bio. - Sei que � importante ir a Dublin para o casamento, mas sair de casa assim, justamente
agora...
- Murphy est� cuidando do cachorro - Gray lembrou. - E dando uma olhada na casa. - Uma olhada atenta, Gray estava certo, j� que conversara com ele em segredo.
- O velho Smythe-White foi embora dias atr�s. Ent�o n�o tem nenhum h�spede com que se preocupar.
- H�spedes - ela disse automaticamente, sobrancelhas levantadas. - Duvido que ele v� recomendar Blackthorn para algu�m, depois do que aconteceu. Embora ele
tenha sido bastante compreensivo.
- Ele n�o perdeu nada. "Nunca viajo com dinheiro, sabe" - Gray falou imitando a voz afetada de Smythe-White. - "� um convite para problema."
Ela riu um pouco, como ele esperava.
- Ele pode n�o ter sido roubado, mas duvido que tenha tido uma noite em paz sabendo que seu quarto foi invadido e suas coisas, jogadas. - Motivo pelo qual
ela se recusou a cobrar pela hospedagem dele.
- Ah, sei l�. Eu n�o me incomodei. - Soltou o cinto de seguran�a e levantou para andar pelo corredor. - Seu cunhado � um cara de classe.
- � sim. - Suas sobrancelhas se eri�aram, quando Gray voltou com uma garrafa de champanhe e duas ta�as. - Voc� n�o vai abrir isto. � um v�o t�o curto e...
- Claro que vou abrir. N�o gosta de champanhe?
- Adoro, mas... - Seus protestos foram cortados pelo som alegre da rolha pulando. Suspirou como uma m�e quando v� o filho pular numa po�a de lama.
- Ent�o... - Sentou-se outra vez, enchendo as duas ta�as. Depois de lhe estender uma delas, brindou cristal com cristal e riu. - Conte-me sobre a noiva e o
noivo. Voc� falou que eles t�m oitenta anos?
- Tio Niall sim. -J� que n�o era poss�vel colocar a rolha de volta na garrafa, ela bebeu. - A Sra. Sweeney � alguns anos mais jovem.
- Imagine! - Aquilo o divertia. - Entrando na gaiola do casamento nesta idade.
- Gaiola?
- Uma s�rie de proibi��es e nenhuma sa�da f�cil. - Desfrutando o champanhe, degustou-o na l�ngua antes de engolir. - Ent�o ele era uma paix�o de inf�ncia?
- N�o exatamente - murmurou, ainda com a cara fechada por conta da descri��o dele sobre casamento. - Eles cresceram em Galway. A Sra. Sweeney era amiga de
minha av�, que era irm� do tio Niall, entende? E a Sra. Sweeney tinha uma queda pelo tio Niall. Ent�o minha av� casou-se e foi para Clare. A Sra. Sweeney casou-se
e foi para Dublin. Perderam o contato uma com a outra. Ent�o Maggie e Rogan come�aram a trabalhar juntos, e a Sra. Sweeney fez a conex�o entre as fam�lias. Escrevi
sobre isso a tio Niall e ele veio a Dublin. - Sorriu ao pensar naquilo, quase n�o notando, quando Gray tornou a encher o copo dela. - Os dois n�o se largam desde
ent�o.
- As voltas do destino. - Gray ergueu sua ta�a num brinde. - Fascinante, n�o �?
- Eles se amam - ela disse com um suspiro. - S� espero... - interrompeu e olhou pela janela novamente.
- O qu�?
- Espero que tenham um �timo dia, agrad�vel mesmo. S� estou preocupada pensando se mam�e n�o vai estragar tudo. - Virou-se para ele de novo. Embora aquilo
a envergonhasse, era melhor que ele soubesse para n�o ficar muito chocado, se houvesse uma cena. - Ela n�o vem para Dublin hoje. N�o vai dormir na casa de Maggie,
em Dublin. Disse que vir� amanh�, cumprir� seu dever e voltar� imediatamente.
Ele levantou a sobrancelha.
- N�o fica feliz na cidade? - perguntou, mesmo pressentindo que era algo totalmente diferente.
- Mam�e n�o � uma mulher que fique feliz em lugar algum. Devo lhe dizer que ela pode ser dif�cil. Ela n�o aprova, sabe, o casamento.
- O qu�? Acha que estas crian�as loucas s�o muito jovens para casar?
Brianna curvou os l�bios, mas seus olhos n�o refletiam aquilo.
- � dinheiro casando com dinheiro, como ela mesma diz. E ela... bem, tem opini�es fortes sobre o fato de estarem morando juntos, sem a b�n��o de Deus.
- Morando juntos? - N�o conseguia parar de rir. - Sem a b�n��o de Deus?
- Morando juntos - ela falou afetadamente. - E, como mam�e lhe dir� se tiver uma chance, a idade dificilmente os absolveria do pecado da fornica��o.
Ele se engasgou com a bebida. Enquanto ria e tossia tentando respirar, percebeu o brilho no olhar enviesado de Brianna.
- Desculpe, compreendo que n�o � pra ser engra�ado.
- Algumas pessoas acham f�cil rir das cren�as dos outros.
- N�o tive a inten��o. - Mas mal conseguia controlar o riso. - Meu Deus, Brie, voc� acabou de me dizer que o homem � octogen�rio, que sua ruborizada noiva
est� quase l�. Voc� realmente n�o acredita que eles v�o para o fogo do inferno porque... - Decidiu que preferia encontrar um modo mais delicado de colocar aquilo.
- Eles tiveram uma rela��o madura, fisicamente satisfat�ria.
- N�o. - Um pouco do gelo do olhar derreteu. - N�o, eu n�o, claro. Mas mam�e acredita ou diz que acredita, porque � mais f�cil reclamar. Fam�lias s�o complicadas,
n�o s�o?
- Pelo que observo... N�o tenho uma para me preocupar.
- Nenhuma fam�lia? - O resto do gelo derreteu-se em compaix�o. - Perdeu seus pais?
- De certo modo... - Seria mais adequado dizer que eles o tinham perdido.
- Sinto muito. E n�o tem irm�os, irm�s?
- Nada. - Alcan�ou a garrafa, outra vez, para encher sua ta�a.
- Mas voc� tem primos, certamente. - Todo mundo tem algu�m, pensou. - Av�s, tios, tias.
- N�o.
Ela apenas olhou, desolada. N�o ter ningu�m. N�o podia conceber aquilo. N�o podia tolerar aquilo.
- Voc� est� me olhando como se eu fosse uma crian�a enjeitada que largaram na sua porta. - Aquilo o divertia e estranhamente o tocava. -Acredite, querida,
prefiro assim. Nada de la�os, nada de v�nculos, nada de culpas. - Voltou a beber, como que para selar aquelas palavras. - Simplifica minha vida.
Melhor dizer que a torna vazia, ela pensou.
- N�o o incomoda n�o ter ningu�m esperando por voc� em casa?
- Me alivia. Talvez me incomodasse, se eu tivesse uma casa, mas tamb�m n�o tenho nenhuma.
O cigano, ela lembrou, mas n�o o tinha considerado assim literalmente, at� agora.
- Mas, Grayson, n�o ter nenhum lugar seu...
- Nenhuma hipoteca, nenhum gramado para cortar ou vizinho para apaziguar. - Inclinou-se sobre ela para olhar pela janela. - Veja, l� est� Dublin.
Mas ela olhou para ele, sentiu por ele.
- Mas, quando deixar a Irlanda, para onde ir�?
- N�o decidi ainda. Isto � que � bom.


- Voc� tem uma casa linda. - Menos de tr�s horas ap�s ter aterrissado em Dublin, Gray esticava as pernas para o fogo, na sala de Rogan.
- Obrigado por me receber aqui.
- � um prazer. - Rogan lhe ofereceu um c�lice de conhaque, depois do jantar.
Estavam sozinhos no momento, enquanto Maggie e Brianna tinham ido ao apartamento da av� dele para ajudar a noiva com os arranjos de �ltima hora.
Rogan ainda sentia dificuldades em pensar na av� como uma futura noiva nervosa. E mais dificuldades ainda em imaginar o homem, que estava agora mesmo conversando
com o cozinheiro, como seu futuro av�.
- Voc� n�o parece muito satisfeito com isso.
- Com isso o qu�? - Rogan olhou de relance para Gray e acabou sorrindo. - N�o, desculpe, n�o tem nada a ver com voc�. Acho que me sinto um tanto desconfort�vel
sobre amanh�.
- Nervosismo por se despedir da noiva?
O melhor que Rogan conseguiu foi um grunhido. Compreendendo seu anfitri�o, Gray empurrou a bochecha com a l�ngua e tocou no ponto inc�modo.
- Niall � um personagem interessante.
- Uma figura�a - Rogan murmurou. - Realmente.
- Os olhos de sua av� brilhavam durante o jantar. Agora, Rogan suspirou. Ela nunca parecera t�o feliz.
- Eles est�o loucos um pelo outro.
- S�o dois contra um. Podemos domin�-lo, arrast�-lo at� as docas e enfi�-lo num navio para a Austr�lia.
- N�o pense que j� n�o considerei essa possibilidade. - Sorriu, agora mais solto. - Ningu�m foi for�ado a nada, n�o �? E sou for�ado a admitir que o homem
a adora. Maggie e Brie est�o deliciadas. Ent�o eu me vi derrotado.
- Gosto dele - Gray disse com um sorriso de desculpas. - Como n�o gostar de um homem que veste um casaco da cor de uma ab�bora de Halloween com sapatos de
crocodilo enfeitados?
- L� vem voc�. - Rogan acenou a m�o gentilmente. - Em todo caso, estou contente por proporcionar a voc� um casamento durante sua estada na Irlanda. Est� confort�vel
em Blackthorn?
- Brianna tem um grande talento para proporcionar conforto.
- Tem mesmo.
A express�o de Gray tornou-se s�ria, enquanto olhava para seu drinque.
- Aconteceu uma coisa alguns dias atr�s e acho que voc� deve saber. Ela n�o quer que eu fale a respeito, principalmente com Maggie. Mas gostaria que ficasse
a par.
- Tudo bem.
- A pousada foi arrombada.
- Blackthorn? - Surpreso, Rogan colocou o conhaque de lado.
- Est�vamos do lado de fora, no galp�o que ela usa para plantar. Devemos ter ficado l� por uma meia hora, talvez um pouco mais. Quando voltamos, algu�m tinha
revirado a casa.
- O qu�?
- Deixando tudo de cabe�a pra baixo - Gray explicou. - Uma busca r�pida, desorganizada, eu diria.
- Isso n�o faz sentido. - Ele se inclinou para a frente, preocupado. - Levaram alguma coisa?
- Eu tinha algum dinheiro no meu quarto. - Sacudiu os ombros. - Parece ter sido tudo. Brianna garante que ningu�m da vizinhan�a faria isso.
- Ela tem raz�o. - Rogan se recostou outra vez, pegou o conhaque, mas n�o o bebeu. - � uma comunidade pequena e unida, e Brie � muito querida por l�. Chamaram
a pol�cia?
- Ela n�o quis, n�o viu raz�o. Falei com Murphy, em particular.
- Isto foi bom - Rogan concordou. - Eu pensaria que foi algum estranho que passou por ali. Mas at� isto parece fora do comum.
- Sem encontrar qualquer explica��o, tamborilou com os dedos o
c�lice. - Voc� j� est� l� h� algum tempo. Deve ter alguma impress�o das pessoas, do jeito do lugar, da atmosfera.
- Pela l�gica, � uma coisa que n�o vai acontecer de novo. - Gray deu de ombros. - Contudo, acho que n�o faria mal a ningu�m se voc� ficasse de olho, quando
voltasse.
- Farei isto. - Rogan franziu a testa, olhando o conhaque. - Pode ter certeza.
- Tem um �timo cozinheiro, Rogan, meu rapaz. - Niall irrompeu na sala, carregando uma bandeja com lou�a e uma enorme torta de chocolate. Era um homem grande,
desfilando dez quilos de excesso de peso como um distintivo de honra. E, de algum modo, parecia mesmo com uma daquelas ab�boras de Halloween, com seu casaco cor-de-laranja
e a gravata verde-lim�o. - Um pr�ncipe, o que ele �. - Niall apoiou a bandeja, radiante. - Ele me deu esse doce para ajudar a acalmar meus nervos.
- Eu tamb�m estou nervoso. - Rindo, Gray levantou-se para cortar um peda�o da torta.
Niall explodiu numa risada e deu um tapa cordial nas costas de Gray.
- � isso a�. Bom apetite, rapaz! Por que a gente n�o aproveita para jogar uma sinuquinha? - Piscou para Rogan. -Afinal de contas, esta � minha �ltima noite
de homem livre. Nada mais de farra com os rapazes pra mim. Algum u�sque para molhar a garganta?
- U�sque. - Rogan olhou para o rosto largo e sorridente de seu futuro av�. - Tamb�m tomaria uma dose.


Tomaram v�rias. E ent�o, mais algumas. Quando a segunda garrafa foi aberta, Gray tinha de apertar os olhos para ver as bolas na mesa de sinuca, e elas ainda
tendiam a se misturar. Acabou fechando um olho completamente.
Ouvindo o estalo das bolas, recuou.
- Ponto meu, senhores. Ponto meu. - Inclinou-se pesadamente sobre o taco.
- O desgra�ado do ianque n�o quer perder esta noite. - Niall bateu nas costas de Gray e quase o atirou de nariz na mesa. -Arrume de novo, Rogan, meu rapaz.
Vamos jogar outra.
- N�o consigo enxerg�-las - Rogan falou lentamente antes de levantar a m�o na frente do pr�prio rosto e examin�-la. - N�o consigo nem sentir meus dedos.
- Voc� precisa � de outro u�sque. - Como um marujo a bordo de um conv�s inclinado, Niall tomou o rumo da garrafa. - Nem uma gota sequer - falou tristemente
ao levantar o cristal. - Nem uma maldita gotinha sobrou.
- N�o tem mais u�sque em Dublin. - Rogan se afastou da parede que o mantinha em p�, mas voltou a ela, combalido. - Bebemos tudo. Completamente b�bados. Ah,
meu Deus. N�o sinto minha l�ngua tamb�m. Eu a perdi!
- Vamos ver. - Querendo ajudar, Gray largou pesadamente as m�os nos ombros de Rogan. - Ponha pra fora! - Olhos apertados, ele sacudiu a cabe�a. - Tudo bem,
cara. Ela est� a�. S� que voc� est� com duas l�nguas. Esse � o problema.
- Estou casando com minha Chrissy amanh�. - Niall ficou de p�, balan�ando perigosamente para a esquerda, depois para a direita, olhos vidrados, sorriso brilhante.
- Linda Chrissy, la belle de Dublin.
Arremessou-se para a frente, estatelando-se como uma sequ�ia. Com os bra�os apoiando solidariamente um ao outro, Rogan e Gray olharam para ele.
- O que fazemos com ele? - Gray perguntou. Rogan passou uma de suas duas l�nguas nos dentes.
- Acha que ele est� vivo?
- N�o parece.
- N�o comecem o vel�rio ainda. - Niall levantou a cabe�a. - S� me ajudem a levantar, caras. Vou dan�ar at� de madrugada. - A cabe�a bateu no ch�o outra vez,
com um baque surdo.
- N�o est� t�o mal, est�? - Rogan perguntou. - Quando estou b�bado, d� nisso.
- Um pr�ncipe. Vamos levant�-lo. N�o pode dan�ar desse jeito.
- Certo! - Cambalearam at� ele. Quando levantaram Niall sobre os joelhos, estavam sem ar e rindo como idiotas. - Levante, seu moleir�o! � como tentar levantar
uma baleia encalhada.
Niall abriu os olhos turvos, atirou a cabe�a para tr�s e come�ou a cantar com a voz engrolada, mas surpreendentemente emocionado.
- Pra mim isso � tudo, bebida, felicidade, beber feliz. Pra mim, cerveja e cigarro � tudo. - Grunhiu, equilibrando-se sobre um p�, quase atirando Gray ao ch�o.
- Bem, gastei todo o meu dinheiro com mulheres, bebendo gim. Por todo o Oeste por onde andei.
- Voc� ter� sorte se andar at� a cama - Rogan lhe disse. Ele s� mudou de tom:
- Se voc� tem asas, leve-me ao palco onde as abelhas cantam durante todo o dia...
Bem anestesiado pelo u�sque, Rogan se juntou a eles, de modo que os tr�s oscilavam sobre os p�s.
- Se voc� bebeu demais e n�o consegue seguir adiante... Aquilo atingiu Gray como algo t�o maravilhosamente divertido
que ele se juntou ao coro de risos.
Com a harmonia e a afei��o dos b�bados, eles cambalearam agarrados na parede. Quando chegaram � base da escadaria, estavam numa interpreta��o bem encharcada
de u�sque de "Dicey Riley".
- Bem, n�o diria que foi apenas o pobre velho Dicey Riley que os levou a beber, diria, Brie? - Maggie parou a meio caminho da escadaria com a irm�, estudando
o trio.
- N�o diria n�o. - Cruzando as m�os na cintura, elegantemente, Brianna sacudiu a cabe�a. - Pelo jeito deles, tomaram v�rios primeiros goles.
- Cristo! Ela � bonita, n�o �? - Gray resmungou.
- Sim. - Rogan ria intensamente para a esposa. - Me tira o f�lego, Maggie, meu amor, venha me dar um beijo.
- Vou lhe dar � minha m�o. - Mas ela ria, enquanto descia as escadas. - Olhem s� para voc�s, pobres b�bados. Tio Niall, voc� j� tem bastante idade para saber
o que fazer.
- Casar, Maggie Mae. Onde est� minha Chrissy? - Tentou se virar e sentiu seus dois apoios se inclinando como domin�s.
- Dormindo na cama dela, como voc� tamb�m deveria estar. Vamos, Brie, vamos tirar estes guerreiros do campo de batalha.
- Est�vamos jogando sinuca. - Gray riu para Brianna. - Eu ganhei!
- Seu ianque desgra�ado - Niall disse afetuosamente, beijando Gray direto na boca.
- Bem, j� est� legal, n�o est�? - Maggie tratou de passar um bra�o em torno de Rogan. - Vamos agora, por aqui. Um p� na frente do outro. - De alguma maneira,
eles conseguiram acertar os passos. Desovaram Niall primeiro.
- Ponha Rogan na cama, Maggie - Brianna lhe falou. - Vou levar este aqui, ent�o volto para tirar os sapatos do tio Niall.
- Ah, imagina como vai ficar a cabe�a deles amanh�. - A perspectiva fez Maggie sorrir. - Vamos, Sweeney, vamos para a cama. Cuidado com essas m�os. - Mesmo
o considerando inofensivo naquele estado, a ordem veio com uma risada. - Voc� n�o tem id�ia do que fazer com elas no seu estado.
- Aposto que tenho.
- Ah, mas voc� est� cheirando a u�sque e cigarros. - Brianna suspirou e cruzou o bra�o de Gray sobre os ombros, firmando-o. - Voc� sabe que o homem j� tem
oitenta anos, voc� sabia. Devia t�-lo parado.
- Ele � uma p�ssima influ�ncia, aquele Niall Feeney. Tivemos de brindar aos olhos de Chrissy, aos l�bios, aos cabelos e �s orelhas. Acho que brindamos aos
seus dedos dos p�s tamb�m, mas as coisas ficaram turvas na hora deles.
- N�o me admira... Aqui est� sua porta. S� um pouquinho adiante, agora.
- Seu cheiro � t�o bom, Brianna. - Com o que ele pensou ser um movimento suave, farejou, como um cachorro, o pesco�o dela. - Venha para a cama comigo. Posso
lhe mostrar algumas coisas. Todo o tipo de coisas maravilhosas.
- Hum-hum. V� deitando. Assim. - Eficientemente, levantou as pernas dele para cima da cama e come�ou a tirar os sapatos.
- Deite comigo. Posso lev�-la a muitos lugares. Quero ficar dentro de voc�.
As m�os dela tremeram desta vez. Olhou rispidamente para ele, mas seus olhos estavam fechados, seu sorriso, sonhador.
- Fique quieto agora - murmurou. - Durma.
Cobriu-o com um cobertor, afastou-lhe os cabelos da testa e o deixou roncando.

O mal-estar j� era esperado. Deve-se pagar pelos excessos, e Gray estava sempre pronto a pagar pelos seus. Mas parecia um pouquinho exagerado ter de fazer
uma m�rbida viagem ao inferno por causa de uma noite idiota.
Sua cabe�a estava rachada ao meio. Algo que n�o era evidente, o que o aliviara consideravelmente, quando tratou de se arrastar at� o banheiro na manh� seguinte.
Parecia desfigurado, mas inteiro. Obviamente o corte dentado era dentro de seu c�rebro.
Provavelmente estaria morto at� o final da tarde.
Os olhos eram pequenas bolas de fogo. O lado de dentro da boca tinha sido esfregado com alguma coisa abomin�vel demais para imaginar. O est�mago se contra�a
e afrouxava como um punho nervoso.
Come�ou a desejar que estivesse mesmo morto antes do final da
Como n�o havia ningu�m por perto, permitiu-se algumas poucas lam�rias, quando entrou no chuveiro. Teria jurado que o cheiro de u�sque estava exalando de seus
poros.
Movendo-se com a cautela de um velho ou doente, saiu da banheira e enrolou uma toalha na cintura. Fez o que p�de para tirar aquele gosto horr�vel da boca.
Quando voltou ao quarto, gemeu, tapando os olhos com as m�os a tempo, esperava, de evitar que explodissem sua cabe�a. Algum s�dico abrira as cortinas � luz
do sol.
Os olhos de Brianna se arregalaram. A boca ficou aberta. Al�m da toalha pendurada frouxamente na cintura, ele vestia apenas algumas gotas de �gua do chuveiro.
O corpo dele era... a palavra primoroso explodiu na mente dela. Esbelto, musculoso, deslumbrante. Pegou-se cruzando os dedos e engolindo em seco.
- Trouxe o caf� numa bandeja. Achei que voc� podia estar se sentindo indisposto.
Cautelosamente, Gray abriu os dedos apenas o suficiente para enxergar entre eles.
- Ent�o isto n�o � a ira de Deus. - A voz estava rouca, mas ele temia que a tentativa de clare�-la lhe trouxesse danos irrevers�veis. - Por um minuto, achei
que estava sendo surrado pelos meus pecados.
- � s� mingau, torradas e caf�.
- Caf�... - pronunciou a palavra como se fosse uma prece. - Podia me dar um pouco?
- Claro. Trouxe tamb�m aspirinas.
- Aspirinas. - Ele podia ter chorado. - Por favor.
- Tome-as primeiro, ent�o. - Estendeu-lhe as p�lulas com um copo de �gua. - Rogan est� t�o mal quanto voc� - disse, enquanto Gray engolia os comprimidos, esfor�ando-se
para impedir que sua m�o acariciasse os cabelos molhados e encaracolados. - Tio Niall est� inteiro.
- Que figuras! - Gray caminhou cautelosamente at� a cama. Sentou-se, rezando para que a cabe�a n�o rolasse de cima do pesco�o. - Antes de ir adiante, preciso
me desculpar por alguma coisa?
- Desculpar-se comigo?
- Com qualquer um. U�sque n�o � meu veneno usual e estou meio confuso sobre os detalhes, depois que come�amos a segunda garrafa. - Observou-a por entre os
olhos semicerrados e notou que ela estava sorrindo. - Alguma coisa engra�ada?
- N�o... bem, sim, mas n�o � delicado achar engra�ado. - Ela afinal sucumbiu e deslizou a m�o pelos cabelos dele, como faria com uma crian�a que tivesse abusado
dos doces. - Estava s� pensando que � muito gentil da sua parte ir logo pedindo desculpas mesmo estando assim. - Seu sorriso tornou-se afetuoso. - Mas n�o, n�o h�
por que se desculpar. Voc� s� ficou b�bado e bobo. N�o causou nenhum estrago.
- F�cil para voc� falar. - Equilibrou a cabe�a. - N�o tenho o h�bito de beber assim. - Estremecendo, buscou o caf� com a m�o livre. - Na verdade, acho que
nunca tinha bebido tanto assim de uma vez s� e duvido que v� beber de novo.
- Voc� vai se sentir melhor depois que comer alguma coisa. E tem algumas horas antes de ter de ir ao casamento, se sentir que consegue.
- N�o o perderia. - Resignado, Gray pegou o mingau. Cheirava bem. Deu uma provada e esperou para ver como seu organismo o aceitaria. - N�o vou com voc�?
- Estou saindo daqui a alguns minutos. H� coisas para fazer. Voc� ir� depois com Rogan e tio Niall... j� que � imposs�vel que voc�s tr�s se metam em alguma
confus�o numa viagem t�o curta.
Ele rosnou e tomou outra colherada de mingau.
- Precisa de mais alguma coisa, antes que eu v�?
- Voc� j� acertou os pontos principais. - Balan�ando a cabe�a, ele a estudou. - Tentei convencer voc� a vir para a cama comigo a noite passada?
- Tentou.
- Acho que me lembro disso. - Sorriu ligeiramente. - N�o sei como voc� resistiu.
- Pois �, consegui. Vou indo, ent�o.
- Brianna. - Lan�ou-lhe um olhar r�pido e perigoso. - N�o desistirei da pr�xima vez.

Christine Rogan Sweeney podia estar perto de se tornar bisav�, mas ainda era uma noiva. N�o importava quantas vezes se tinha dito que era bobagem ficar nervosa,
sentir-se atordoada, seu est�mago ainda saltava.
Iria casar dali a poucos minutos. Prometer-se a um homem que amava ternamente. E receber a promessa dele. E seria uma esposa novamente, depois de tantos anos
vi�va.
- Est� linda! - Maggie manteve-se atr�s, quando Christine virou-se frente ao espelho. O traje rosa-p�lido brilhava com pequenas p�rolas nas lapelas. Sobre
os brancos cabelos brilhantes, um elegante chap�u com um pequeno v�u.
- Sinto-me bonita. - Riu e virou-se para abra�ar Maggie e depois Brianna. - N�o importa quem saiba. Imagino se Niall est� t�o nervoso como eu.
- Ele est� andando de um lado para outro como um felino africano - Maggie disse. - E perguntando as horas a Rogan cada dez segundos.
- Bom. - Christine respirou longamente. - Isto � bom. Est� quase na hora, n�o est�?
- Quase. - Brianna a beijou em cada face. - Vou descer agora para ver se tudo est� de acordo. Desejo muitas felicidades a voc�... tia Christine.
- Ah, querida. - Os olhos de Christine encheram-se de l�grimas. - Como voc� � delicada!
- N�o fa�a isto - Maggie avisou. - Vai fazer com que todas n�s choremos. Avisarei quando estivermos prontas, Brie.
Com um r�pido aceno, Brianna apressou-se logo em sair. Havia fornecedores, naturalmente, e a casa estava cheia de empregados. Por�m um casamento era coisa
de fam�lia e ela queria tudo o mais perfeito poss�vel.
Os convidados andavam pela sala, redemoinhos de cores, fragmentos de risadas. Um harpista ro�ava as cordas em suaves notas de sonho. Guirlandas de rosas tinham
sido entrela�adas no corrim�o e jarros delas estavam artisticamente distribu�dos pela casa.
Pensou que poderia se esgueirar at� a cozinha, apenas para ter certeza de que tudo estava bem, quando avistou sua m�e e Lottie. Colocando um sorriso brilhante
no rosto, ela avan�ou.
- Mam�e, voc� est� bonita!
- Bobagem. Lottie me importunou para gastar um bom dinheiro num vestido novo. - Mas ro�ou a m�o, espalhafatosamente, sobre a manga de linho leve.
- Est� linda. E voc� tamb�m, Lottie.
A acompanhante de Maeve sorriu afetuosamente.
- Gastamos escandalosamente, sim. Mas n�o � todo dia que voc� vai a um casamento t�o chique. O arcebispo - ela disse com um sussurro e um pestanejar. - Imagine.
Maeve torceu o nariz.
- Um padre � um padre, n�o importa o que esteja vestindo. Acho que ele pensou duas vezes antes de celebrar este casamento. Quando duas pessoas viveram em pecado...
- Mam�e. - Brianna manteve a voz baixa, mas gelidamente firme. - N�o hoje. Por favor, se voc� simplesmente...
- Brianna. - Gray avan�ou, tomou a m�o dela, beijou-a. - Voc� est� fabulosa!
- Obrigada. - Ela tentava n�o enrubescer, enquanto os dedos dele se fechavam possessivamente em torno dos dela. - Mam�e, Lottie, este � Grayson Thane. � um
h�spede de Blackthorn. Gray, Maeve Concannon e Lottie Sullivan.
- Sra. Sullivan. - Tomou a m�o de Lottie, fazendo-a rir quando a beijou. - Sra. Concannon. Meus parab�ns pelas suas lindas e talentosas filhas.
Maeve olhou-o carrancuda. Os cabelos dele eram t�o longos como os de uma garota, observou. E o sorriso tinha mais do que um toque demon�aco.
- Um ianque, �?
- Sim, senhora. Estou gostando muito do seu pa�s. E da hospitalidade de sua filha.
- H�spedes geralmente n�o v�m a casamentos na fam�lia.
- M�e...
- N�o, n�o v�m - Gray falou brandamente. - � outra coisa que achei encantadora em seu pa�s. Estranhos s�o tratados como amigos, e amigos nunca como estranhos.
Posso acompanh�-las aos seus lugares?
Lottie j� estava enfiando seu bra�o no dele.
- Ande, Maeve. Quando vamos voltar a receber o convite de um rapaz bonito como este? Voc� � escritor, n�o �?
- Sou. - Conduziu as duas mulheres, lan�ando sobre os ombros um r�pido sorriso convencido para Brianna.
Ela teria sido capaz de beij�-lo. Justo quando suspirou de al�vio, Maggie fez um sinal do alto da escadaria.
Quando o harpista iniciou a marcha nupcial, Brianna deslizou para o fundo da sala. Sua garganta apertou quando Niall tomou lugar na frente da lareira e olhou
para o alto da escadaria. Talvez seus cabelos estivessem ralos e sua cintura grossa, mas agora ele parecia jovem e ansioso, completamente nervoso.
A sala zumbia em expectativa, enquanto Christine desceu lentamente as escadas, virou-se e, com os olhos brilhando por tr�s do v�u, dirigiu-se a ele. O arcebispo
os aben�oou e a cerim�nia come�ou.
- Tome. - Gray esgueirou-se para o lado de Brianna alguns momentos depois e ofereceu-lhe o len�o. - Estou sentindo que precisa disso.
- � t�o bonito. - Ela passou-o de leve nos olhos. As palavras a atravessaram. Amar. Honrar. Respeitar.
Gray ouviu: At� que a morte os separe. Uma pena de pris�o perp�tua. Ele sempre pensara que havia uma raz�o para as pessoas chorarem nos casamentos. Passou
o bra�o sobre os ombros dela, apertando-a afavelmente.
- Anime-se, est� quase terminando - murmurou.
- Est� apenas come�ando - ela corrigiu-o e se permitiu descansar a cabe�a no ombro dele.
Soaram aplausos quando Niall, direta e entusiasticamente, beijou a noiva.





V
iagens em avi�es particulares, champanhe e casamentos luxuosos era tudo muito bom e bonito, mas Brianna estava contente de estar em casa. Embora soubesse muito bem
que n�o
dava para acreditar no c�u ou no ar agrad�vel, ela preferia pensar que o pior do inverno j� tinha passado. Sonhava com sua linda estufa nova, enquanto cuidava
das sementes no galp�o. E planejava reformar o s�t�o, enquanto pendurava a roupa lavada.
Na semana em que voltou de Dublin, teve a casa s� para si. Gray ficou trancado no quarto, trabalhando. De vez em quando, ele surgia para um passeio ou perambulava
pela cozinha, sentindo o aroma da comida.
N�o tinha certeza se estava aliviada ou amuada porque ele parecia preocupado demais para tentar conseguir mais beijos dela.
Contudo, era for�ada a admitir que sua solid�o era mais agrad�vel ao saber que ele estava no andar de cima. Podia sentar-se diante da lareira � noite, ler,
tricotar ou arquitetar seus planos, sabendo que, a qualquer momento, ele poderia aparecer e juntar-se a ela.
Mas n�o foi Gray quem interrompeu seu tric� numa tarde fria, mas sua m�e e Lottie.
Escutou o carro do lado de fora, sem muita surpresa. Vizinhos e amigos paravam e entravam muitas vezes, quando viam a luz acesa. Deixou o tric� de lado e caminhou
at� a porta, quando ouviu a m�e e Lottie discutindo do lado de fora.
Brianna s� suspirou. Por motivos que lhe escapavam, parecia que as duas mulheres gostavam de se bicar.
- Boa-noite - cumprimentou, beijando as duas. - Que bela surpresa!
- Espero n�o perturbar voc�, Brie. - Lottie revirou os olhos alegres. - Maeve meteu na cabe�a que dev�amos vir e aqui estamos.
- � sempre um prazer receber voc�s.
- N�s sa�mos, n�o sa�mos? - Maeve devolveu. - Ela estava com muita pregui�a para cozinhar. Ent�o tive que me arrastar at� um restaurante, n�o importando como
me sentia.
- At� Brie deve enjoar de sua pr�pria comida, de tempos em tempos - Lottie disse, enquanto pendurava o casaco de Maeve no cabide da entrada. - Mesmo boa como
�. E � bom sair de vez em quando e ver gente.
- N�o preciso ver ningu�m.
- Queria ver Brianna, n�o queria? - Dava prazer a Lottie marcar um pequeno ponto. - � por isso que estamos aqui.
- Quero um ch� decente, e n�o aquela �gua que servem no restaurante.
- Vou fazer. - Lottie afagou o bra�o de Brianna. - Aproveite a visita da mam�e. Sei o lugar das coisas.
- E leve esse cachorro para a cozinha com voc�. - Maeve lan�ou a Con um olhar de impaciente antipatia. - N�o o quero babando perto de mim.
- Voc� vai me fazer companhia, n�o vai, rapaz? - Animada, Lottie acariciou Con entre as orelhas. - Venha com a Lottie, aqui, bom menino.
Obediente, e torcendo por um petisco, Con foi atr�s dela.
- Acendi a lareira, mam�e. Est� bem aconchegante. Vamos sentar l�.
-Desperd�cio de combust�vel - Maeve resmungou. - J� est� bem quente.
Brianna ignorou a dor de cabe�a que surgia atr�s dos olhos.
-Fica mais confort�vel com o fogo. Gostou do jantar?
Maeve soltou um grunhido quando se sentou. Gostava da sensa��o acolhedora e da vis�o do fogo, mas estava decidida a n�o admitir.
- Me carregar para um lugar em Ennis e pedir pizza. Pizza de todos os sabores!
- Ah, sei de que lugar est� falando. Servem uma �tima comida l�. Rogan disse que a pizza parece com a dos Estados Unidos. - Brianna pegou o tric� de novo.
- Sabia que a irm� de Murphy, Kate, est� esperando beb� novamente?
- A garota pare como uma coelha. J� � o que... o quarto?
- O terceiro. Ela tem dois meninos, agora espera que seja uma menina. - Sorrindo, Brianna levantou o delicado fio cor-de-rosa. - Estou fazendo esta manta para
dar sorte.
- Deus dar� a ela o que Ele quiser dar, n�o importa a cor com que voc� tricote.
As agulhas de Brianna ressoavam tranq�ilamente.
- Ent�o Ele dar�. Recebi uma carta de tio Niall e tia Christine. Tem uma foto linda do mar e das montanhas. Est�o se divertindo muito no cruzeiro, visitando
as ilhas gregas.
- Lua-de-mel nesta idade. - Por dentro, Maeve ansiava por ver as montanhas e o mar estrangeiros. - Bem, se voc� tem dinheiro suficiente, pode ir aonde quiser
e fazer o que quiser. Nem todos n�s podemos voar para lugares quentes no inverno. Se eu pudesse, talvez meu peito n�o doesse tanto com o frio.
- Anda se sentindo mal? - A pergunta foi autom�tica, como as respostas para a tabuada de multiplica��o que aprendera na escola. Envergonhada, ergueu os olhos
e esfor�ou-se. - Desculpe, mam�e.
- J� estou acostumada com isto. Dr. Hogan n�o faz mais nada do que estalar a l�ngua e dizer que estou bem. Mas s� eu sei o que sinto, n�o �?
- Voc� sabe sim. - O tric� de Brianna reduziu a velocidade, quando ela sugeriu: -Acho que se sentiria melhor se pudesse sair para tomar sol.
- Ah. E onde vou arranjar sol?
- Maggie e Rogan t�m uma vila no Sul da Fran�a. Dizem que � muito bonito e quente l�. Lembra que ela mandou umas fotos?
- Viajou com ele para pa�ses estrangeiros antes de estarem casados.
- Est�o casados agora - Brianna falou suavemente. - N�o gostaria de ir l�, mam�e, voc� e Lottie, por uma semana ou duas? Teria um agrad�vel descanso ao sol,
e a brisa do mar � sempre muito ben�fica.
- E como eu iria para l�?
- M�e, voc� sabe que Rogan mandaria o avi�o para lev�-la. Maeve podia imaginar. Sol, empregados, a linda e enorme casa
com vista para o mar. Poderia ter tido um lugar assim s� para ela se... Se.
- N�o vou pedir favores �quela menina.
- N�o precisa. Eu pe�o para voc�.
- N�o sei se estou disposta a viajar - Maeve disse, pelo simples prazer de tornar as coisas dif�ceis. - A viagem a Dublin me cansou.
- Mais uma raz�o para voc� tirar umas boas f�rias - Brianna retrucou, conhecendo bem o jogo. - Falarei com Maggie amanh� e acertarei tudo. Ajudarei voc� a
fazer as malas, n�o se preocupe.
- Ansiosa para se livrar de mim, n�o �?
- M�e. - A dor de cabe�a estava aumentando rapidamente.
- Tudo bem, eu vou. - Maeve agitou a m�o. - Pela minha sa�de, embora o bom Deus saiba como afetar� meus nervos ficar entre aqueles estrangeiros. - Os olhos
dela se estreitaram. - E onde est� o ianque?
- Grayson? Est� l� em cima, trabalhando.
- Trabalhando! - bufou irritada. - S� queria saber desde quando contar hist�ria � trabalhar. Qualquer pessoa neste condado conta suas hist�rias.
- Imagino que passar para o papel seria diferente. E h� ocasi�es em que ele desce, depois de ter ficado l� por algum tempo, com a apar�ncia de quem esteve
limpando fossas. Parece mesmo bem cansado.
- Parecia bem animado em Dublin... quando passava a m�o em voc�.
- O qu�? - Brianna perdeu um ponto do tric� e encarou-a.
- Pensa que sou t�o cega quanto doente? - Manchas cor-de-rosa tingiram as faces de Maeve. - Fiquei mortificada ao ver como voc� deixou que ele a tratasse em
p�blico.
- Est�vamos dan�ando - Brianna falou entre dentes, com l�bios que se haviam tornado duros e frios. - Estava ensinando a ele alguns passos.
- Eu sei o que vi. - Maeve cerrou os dentes. - E pergunto a voc� se tamb�m est� dando seu corpo a ele.
- Se estou... -A l� rolou pelo ch�o. - Como pode me perguntar uma coisa dessas?
- Sou sua m�e e pergunto o que bem entender. Com certeza, metade da vila est� comentando de voc�, aqui, sozinha com ele, noite ap�s noite, com um homem.
- Ningu�m est� comentando isso. Dirijo uma pousada e ele � meu h�spede.
- Um caminho conveniente para o pecado. Eu disse isso desde que voc� inventou de come�ar este neg�cio. - Ela balan�ou a cabe�a, como se a presen�a de Grayson
ali apenas confirmasse sua opini�o. - Voc� n�o me respondeu, Brianna.
- Nem deveria, mas vou responder. N�o dei meu corpo a ele, nem a ningu�m mais.
Maeve esperou um momento. Ent�o balan�ou a cabe�a outra vez.
- Bem, voc� nunca foi mentirosa; portanto, vou acreditar.
- N�o me importa o que acredita. - Era raiva, ela sabia, que fazia os joelhos tremerem quando se levantou. - Pensa que tenho orgulho e sou feliz por nunca
ter conhecido um homem, por nunca ter encontrado algum que me amasse? N�o quero viver minha vida sozinha ou ficar para sempre fazendo roupinhas de beb� para os filhos
de outras mulheres.
- N�o levante a voz para mim, menina!
- De que vai adiantar se eu levantar a voz pra senhora? - Brianna aspirou o ar profundamente, esfor�ando-se para se acalmar. - E se eu n�o levantar tamb�m.
Vou ajudar Lottie com o ch�.
- Voc� vai ficar onde est�! - Com express�o severa, Maeve inclinou a cabe�a. - Devia agradecer a Deus pela vida que leva, minha menina. Tem um teto sobre a
cabe�a e dinheiro no bolso. Posso n�o gostar da forma como o ganha, mas voc� teve algum sucesso em sua escolha do que muitos considerariam um modo de vida honesto.
Pensa que um homem e beb�s substituem isso? Bem, est� errada, se pensa assim.
- Maeve, com que est� atormentando a menina agora? - Aborrecida, Lottie entrou com a bandeja de ch�.
- Fique fora disso, Lottie.
- Por favor. - Fria e calmamente, Brianna inclinou a cabe�a. - Deixe-a terminar.
- Vou terminar. Um dia, tive alguma coisa que podia chamar de minha. E perdi. - A boca de Maeve tremeu um pouco, mas ela a firmou, obstinada. - Perdi qualquer
chance que tive de ser o que eu desejava. Desejo e nada mais do que o pecado dele. Com uma crian�a na barriga, o que eu podia ser, exceto a esposa de um homem?
- A esposa de meu pai - Brianna falou vagarosamente.
- � o que eu era. Concebi um filho no pecado e paguei por isso durante toda a minha vida.
- Concebeu dois filhos - Brianna a lembrou.
- Sim, concebi. A primeira, sua irm�, carregou esta marca com ela. Selvagem ela era e sempre ser�. Mas voc� foi uma filha do casamento e do dever.
- Dever?
Com as m�os agarrando os bra�os da cadeira, Maeve inclinou-se para a frente, a voz mais amarga:
- Pensa que eu queria que ele me tocasse outra vez? Pensa que gostei de ser lembrada por que nunca teria o que meu cora��o desejava? Mas a Igreja diz que a
finalidade do casamento � a procria��o. Ent�o cumpri meu dever com a Igreja e o deixei fazer outro filho em mim.
- Dever - Brianna repetiu, e as l�grimas que deveria chorar congelaram em seu cora��o. - Sem amor, sem prazer. � de onde eu vim?
- N�o precisava dividir minha cama com ele, quando soube que carregava voc�. Suportei outra gravidez, outro parto e agradeci a Deus por ser o �ltimo.
- Nunca dividiu uma cama com ele. Todos esses anos.
- N�o haveria mais filhos. Com voc�, eu tinha feito o que podia para me absolver de meu pecado. Voc� n�o tem a agressividade de Maggie. H� uma frieza em voc�,
um controle. Usar� isso para se manter pura... a menos que deixe algum homem tent�-la. Quase foi assim com Rory.
- Eu amava Rory. - Detestava saber que estava t�o pr�xima das l�grimas. Pelo pai, pensou, e pela mulher que ele amara e deixara ir.
- Voc� era uma crian�a. - Maeve desprezou o sofrimento da juventude. - Mas � uma mulher agora, e bonita o bastante para atrair os olhos de um homem. Quero
lembrar a voc� o que pode acontecer se deixar que eles a persuadam a ceder. Este a� em cima vir� e ir� embora quando quiser. Esque�a isto ou pode acabar sozinha
com uma crian�a crescendo sob o seu avental e com vergonha em seu cora��o.
- Tantas vezes eu ficava imaginando por que n�o havia amor nesta casa. - Brianna inspirou tr�mula e se esfor�ou para manter a voz firme. - Sabia que voc� n�o
amava papai, ou n�o podia de algum modo. Do�a saber isso. Mas quando eu descobri por Maggie, sobre seu canto, sua carreira e como a tinha perdido, achei que tinha
entendido e me compadeci pelo sofrimento que deve ter passado.
- Voc� nunca vai poder entender o que � perder tudo o que sempre quis.
- N�o, n�o vou. Mas tamb�m n�o posso entender uma mulher, qualquer mulher, sem amor no cora��o pelos filhos que carregou e deu � luz. - Levantou as m�os para
o rosto. Mas n�o estava molhado. Seco e frio como m�rmore contra os dedos. - Sempre culpou Maggie por simplesmente ter nascido. Agora, vejo que n�o fui nada mais
do que um dever para a senhora, um tipo de penit�ncia por um pecado anterior.
- Criei voc� com cuidado - Maeve come�ou.
- Com cuidado. N�o, � verdade que nunca levantou a m�o para mim como fazia com Maggie. � um milagre que ela n�o tenha crescido me odiando s� por isso. Era
fogo com ela e disciplina fria comigo. E isso funcionou bem e nos fez, suponho, o que somos.
Com todo cuidado, ela voltou a sentar-se e pegou a l�.
- Eu queria amar a senhora. Costumava me perguntar por que nunca pude lhe dar mais do que dever e lealdade. Agora vejo que a falha n�o estava em mim, mas na
senhora.
- Brianna. - Consternada, e profundamente abalada, Maeve levantou-se. - Como pode me dizer estas coisas? Se tentei poupar voc�, proteger voc�.
- N�o preciso de prote��o. Sou sozinha, n�o sou? E virgem, bem como a senhora deseja. Estou tricotando uma manta para o filho de outra mulher, como fiz antes
e farei de novo. Tenho meu neg�cio, como disse. Nada mudou aqui, m�e, mas, para acalmar minha consci�ncia, n�o lhe darei menos do que sempre lhe tenho dado, apenas
posso parar de me repreender por n�o dar mais.
Olhos secos novamente, ela olhou para cima.
- Pode servir o ch�, Lottie? Quero lhe falar sobre as f�rias que voc� e mam�e v�o ter em breve. J� esteve na Fran�a?
- N�o. - Lottie engoliu o n� na garganta. Seu cora��o sangrava pelas duas mulheres. Lan�ou um olhar de tristeza para Maeve, n�o sabendo como confort�-la. Com
um suspiro, serviu o ch�. - N�o - repetiu -, nunca estive l�. Estamos indo, ent�o?
- Isso mesmo. - Brianna recuperou o ritmo do tric�. - Logo, se quiserem. Falarei sobre isso com Maggie amanh�. - Percebeu a compaix�o nos olhos de Lottie e
for�ou um sorriso. - Ter�o que comprar um biqu�ni.
Brianna foi recompensada com uma gargalhada. Depois de colocar a x�cara sobre a mesa, ao lado de Brianna, Lottie tocou-lhe o rosto frio.
- � uma grande garota! - murmurou.

Uma fam�lia de Helsinque passou o fim de semana em Blackthorn. Brianna manteve-se ocupada cozinhando para o casal e as tr�s crian�as. Sem piedade, levou Con
para a casa de Murphy. O lourinho de tr�s anos parecia n�o resistir a lhe puxar as orelhas e o rabo, uma indignidade que Con sofria silenciosamente.
H�spedes inesperados ajudavam a manter a mente dela livre das reviravoltas emocionais que a m�e causava. A fam�lia era barulhenta, tempestuosa e faminta como
ursos logo depois da hiberna��o.
Brianna adorou cada momento com eles.
Na hora da despedida, brindou-os com beijos nas crian�as e d�zias de bolos para a viagem at� o sul. No momento em que o carro deles desapareceu da vista, Gray
surgiu atr�s dela.
- J� foram?
- Ai! - Apertou a m�o no cora��o. - Voc� quase me matou de susto. - Voltando-se, ajeitou os fios delicados de cabelos que escapavam do coque no alto da cabe�a.
- Pensei que fosse descer para se despedir dos Svenson. O pequeno Jon perguntou por voc�.
- Ainda tenho os dedinhos grudentos do Jon por todo o meu corpo e nos meus pap�is. - Com um sorriso meio enviesado, Gray enfiou os polegares nos bolsos da
frente. - Uma gracinha o garoto, mas, santo Deus, ele n�o parava nunca!
- Garotos de tr�s anos geralmente s�o ativos.
- � pra mim que voc� diz isso? Basta dar uma voltinha com um nos ombros e j� est� comprometido para o resto da vida.
Agora ela sorriu, recordando-se.
- Voc� parecia t�o delicado com ele. Aposto que nunca esquecer� o ianque que brincou com ele na pousada irlandesa. - Balan�ou a cabe�a. - Quando foi embora,
estava carregando o carrinho que voc� comprou para ele ontem.
- Carrinho... ah, o caminh�o, certo. - Sacudiu os ombros. - Encontrei-o por acaso, quando estava tomando f�lego na vila.
- Encontrou-o por acaso - ela repetiu balan�ando a cabe�a devagar. - Assim como as bonecas para as duas meninas.
- � isso. De toda maneira, costumo mesmo reclamar dos COPs.
- COPs?
- Crian�as de Outras Pessoas. Mas agora - deslizou as m�os displicentemente pela cintura dela - estamos sozinhos outra vez.
Num gesto r�pido de defesa, ela pressionou a m�o no t�rax dele, antes que pudesse pux�-la para mais perto.
- Tenho que cumprir uma miss�o.
Ele baixou os olhos para a m�o dela, levantou a sobrancelha.
- Uma miss�o?
- Isso mesmo, e uma montanha de roupas para lavar, quando voltar.
- Vai pendurar as roupas que acabou de lavar? Adoro ver voc� pendurando a roupa na corda... especialmente quando h� brisa. � incrivelmente sexy.
- Que coisa mais boba pra se dizer! O sorriso dele se alargou.
- � uma coisa para ser dita para fazer voc� corar tamb�m.
- N�o estou corando. - Podia sentir o calor nas faces. - Estou impaciente. Preciso sair, Grayson.
- Que tal se eu levar voc� aonde precisa ir?
Antes que ela pudesse falar, ele ro�ou ligeiramente sua boca na dela.
- Senti sua falta, Brianna.
- Como pode... Eu estava bem aqui.
- Senti sua falta. - Viu os c�lios dela baixarem. Suas respostas t�midas e inseguras lhe davam uma estranha sensa��o de poder. Puro ego, pensou divertido.
- Onde est� sua lista?
- Minha lista?
- Voc� sempre tem uma.
Ela desviou os olhos outra vez. Aqueles enevoados olhos verdes estavam atentos e apenas um pouco medrosos. Gray sentiu uma onda de calor espalhar-se da ponta
dos p�s at� os quadris. Os dedos se apertaram convulsivamente na cintura dela, antes que ele se obrigasse a recuar, respirando fundo.
- Essa demora est� me matando - ele murmurou.
- O qu�?
- Nada. Pegue sua lista e seja l� o que for. Vou levar voc�.
- N�o tenho uma lista. Apenas vou � casa de minha m�e ajud�-la a fazer as malas para a viagem. N�o precisa me levar.
- Quero dar uma volta. Quanto tempo vai demorar l�?
- Duas horas, talvez tr�s.
- Levo voc� e a apanho depois. De qualquer modo, vou sair - continuou antes que ela discutisse. - Assim, economizo gasolina.
- Est� bem. Se voc� tem certeza. Estarei pronta num minuto. Enquanto esperava, Gray caminhou para a alameda do jardim da
frente. No m�s em que estava l�, j� vira tempestades, chuva e a luz luminosa do sol da Irlanda. Sentara-se nos pubs da vila, ouvindo fofocas, m�sica tradicional.
Vagara pelos caminhos onde os fazendeiros arrebanhavam as vacas de campo em campo e subira as escadas ventosas dos castelos em ru�nas, escutando os ecos da guerra
e da morte. Visitara t�mulos e meditara na beirada de penhascos altaneiros, observando o mar ondulado.
De todos os lugares que visitara, nenhum parecia t�o completamente atraente como a vis�o do jardim da frente de Brianna. Mas n�o estava inteiramente certo
se atraente era o local ou a mulher que estava esperando.
De qualquer modo, sua temporada ali seria um dos mais agrad�veis cap�tulos de sua vida, concluiu.

Depois de deixar Brianna na elegante casa nos arredores de Ennis, ficou vagando. Por mais de uma hora escalou rochas em Burren, batendo fotografias na mem�ria.
A completa vastid�o o deliciava, assim como o Altar dos Druidas, aonde iam tantos turistas com suas c�meras.
Andou sem rumo, parando onde queria - uma praiazinha deserta, exceto por um garotinho e um cachorro enorme, um campo onde as cabras pastavam e o vento assoviava
atrav�s da grama, uma vilazinha onde uma mulher que contava seus trocados, ganhos com barras de chocolate, com dedos reum�ticos e retorcidos, lhe ofereceu um sorriso
doce como a luz do sol.
Uma abadia em ru�nas, com uma torre redonda, atraiu seus olhos, fazendo-o parar na estrada para dar uma olhada mais de perto. As torres redondas da Irlanda
o fascinavam, mas ele as encontrara principalmente na costa leste. Para proteger-se, sup�s, da aflu�ncia de invasores pelo mar irland�s. Aquela estava inteira, inc�lume,
e constru�da sobre um curioso declive. Gray gastou algum tempo circulando, estudando e imaginando como podia us�-la.
Havia t�mulos l� tamb�m, alguns antigos, outros novos. Sempre ficara intrigado pelo modo como gera��es podiam se unir t�o confortavelmente na morte, quando
raramente conseguiam isso em vida. Para si mesmo, escolheria a maneira viking - um navio no mar e uma tocha.
Mas para um homem que lidava com a morte como um grande neg�cio, preferia n�o demorar nos pensamentos sobre a pr�pria mortalidade.
Quase todos os t�mulos por onde passara estavam enfeitados com flores. Muitas delas estavam cobertas com caixas de pl�stico, �midas pela condensa��o do ar,
as flores apresentando n�o mais que uma cor esmaecida. Pensava por que aquilo n�o o divertia. Deveria. Em vez disso, estava tocado, movido pela devo��o � morte.
Tinham pertencido a algu�m, alguma vez, pensou. Talvez fosse esta a defini��o de fam�lia. Pertencer uma vez, pertencer sempre.
Ele nunca tivera aquele problema. Ou aquele privil�gio.
Andou por ali, imaginando quando os maridos, as esposas, os filhos viriam para colocar as coroas e as flores. No dia da morte? No dia do nascimento? No dia
do santo que dava nome ao morto? Na P�scoa, talvez. Era um dia importante para os cat�licos.
Perguntaria a Brianna, decidiu. Era alguma coisa que, indiscutivelmente, poderia trabalhar no livro.
N�o poderia dizer por que tinha parado justo naquele momento, por que olhava para aquela l�pide em especial. Mas foi o que fez e ficou ali sozinho, a brisa
lhe agitando os cabelos, olhando para o t�mulo de Thomas Michael Concannon.
O pai de Brianna?, pensou sentindo um estranho aperto no cora��o. As datas pareciam certas. O'Malley lhe contara hist�rias sobre Tom Concannon, quando Gray
tomara uma Guinness no pub. Hist�rias repletas de afei��o, sentimento e humor.
Gray sabia que ele tinha morrido repentinamente nos penhascos de Loop Head, quando apenas Maggie estava com ele. Mas as flores sobre o t�mulo, Gray tinha certeza,
eram coisa de Brianna.
Tinham sido plantadas sobre ele. Embora o inverno houvesse sido duro com elas, Gray podia ver que foram recentemente cuidadas. Mais do que umas poucas e bravas
folhas verdes estavam brotando, � procura do sol.
Nunca estivera no t�mulo de algu�m que tivesse conhecido. Embora freq�entemente fizesse visitas � morte, n�o tinha havido peregrina��o ao lugar de descanso
de algu�m com quem tivesse se importado. Mas ele sentira um impulso, agora, que o levou a se agachar e passar levemente a m�o sobre o t�mulo bem cuidado.
E desejou ter trazido flores.
- Tom Concannon - murmurou. - Voc� � bem lembrado. Falam de voc� na vila e sorriem quando tocam no seu nome. Acho que esse � o melhor epit�fio que algu�m poderia
desejar.
Estranhamente contente, sentou-se ao lado de Tom um instante e olhou a luz do sol e as sombras sobre as pedras que os vivos tinham colocado em honra dos mortos.


Deu tr�s horas a Brianna. Foi obviamente mais do que o suficiente, pois ela saiu da casa t�o logo ele parou defronte. Seu sorriso de boas-vindas transformou-se
num olhar de especula��o, quando a observou mais de perto.
O rosto dela estava p�lido e ele sabia que isso acontecia quando ela ficava aborrecida ou comovida. Os olhos, embora frios, mostravam tra�os de tens�o. Ele
olhou em dire��o � casa, viu a cortina mexer. De onde estava teve apenas um vislumbre do rosto de Maeve, mas t�o p�lido quanto o da filha, e parecia igualmente infeliz.
- As malas est�o prontas? - ele perguntou suavemente.
- Sim. - Entrou no carro, m�os apertadas em torno da bolsa, como se aquele fosse o �nico modo de evitar que ca�sse. - Obrigada por ter vindo.
- Muitas pessoas consideram fazer as malas um saco. - Gray arrancou com o carro e, por algum tempo, manteve a velocidade moderada.
- Pode ser. - Normalmente ela gostava. A expectativa de ir a algum lugar e, mais ainda, a expectativa de voltar para casa. - Est� tudo arrumado agora e elas
estar�o prontas para ir pela manh�.
Deus, ela s� queria fechar os olhos e escapar da dor de cabe�a lancinante e da culpa terr�vel mergulhando no sono.
- Quer me contar o que aborreceu voc�?
- N�o estou aborrecida.
- Est� magoada, infeliz e p�lida como gelo.
- � algo particular. Assunto de fam�lia.
Surpreendeu-se ao perceber o quanto seu rep�dio lhe doeu. Mas apenas deu de ombros e mergulhou no sil�ncio.
- Desculpe. - Agora ela realmente fechou os olhos. Queria paz. N�o podiam lhe dar sequer um momento de paz? - Foi indelicadeza minha.
- Esque�a. - De qualquer modo, n�o precisava dos problemas dela, lembrou a si mesmo. Ent�o a olhou de relance e praguejou enquanto suspirava. Ela parecia exausta.
- Quero dar uma parada.
Ela j� ia contestar, mas manteve a boca e os olhos fechados. Ele fora muito gentil em traz�-la, lembrou. Ela certamente podia tolerar uns minutos a mais, antes
de enterrar toda a tens�o no trabalho.
Gray n�o falou outra vez. Estava sendo levado pelo instinto, torcendo para que a escolha que tinha feito trouxesse-lhe de volta a cor �s faces e o calor da
voz.
Ela n�o abriu os olhos, at� que ele freasse e desligasse o carro. Ent�o ela apenas fitou o castelo em ru�nas.
- Voc� precisava parar aqui?
- Eu quis parar aqui - ele corrigiu. - Encontrei isto no meu primeiro dia. Tem um papel importante no meu livro. Gosto da sensa��o daqui.
Saiu do carro e rodeou o cap� para abrir a porta para ela.
- Vamos. - Quando ela n�o se moveu, abaixou-se para soltar seu cinto de seguran�a. - Vamos. � lindo! Espere at� ver a paisagem l� de cima.
- Tenho roupa para lavar - reclamou, percebendo o mau humor na pr�pria voz, enquanto sa�a do carro.
- Isso n�o vai levar a nada. - Tomara a m�o dela e puxava-a pela grama alta.
Ela n�o teve coragem de dizer que as ru�nas tamb�m n�o levariam a nada.
- Est� usando este lugar em seu livro?
- Uma cena de assassinato fabulosa. - Riu � rea��o dela, ao desconforto e ao olhar assustado. - N�o est� com medo, est�? N�o costumo encenar minhas hist�rias.
- N�o seja bobo. - Mas estremeceu uma vez, enquanto caminhavam entre as altas paredes de pedras.
Havia grama crescendo selvagem no ch�o, pontas verdes abrindo caminho por entre as fendas das pedras. Acima dela, podia ver onde existiram pavimentos uma vez,
tantos anos atr�s. Mas agora tempo e guerra deixaram a vista para o c�u totalmente livre.
As nuvens flutuavam silenciosas como fantasmas.
- O que sup�e que fizeram aqui, bem aqui? - Gray refletiu.
- Viveram, trabalharam. Lutaram.
- Tudo muito gen�rico. Use sua imagina��o. N�o pode ver pessoas caminhando aqui? � inverno e est� frio de congelar os ossos. Camadas de gelo sobre barris de
�gua, geada estalando como galhos secos sob os p�s. O ar arde com a fuma�a de fogueiras. Um beb� est� chorando, com fome, ent�o p�ra quando a m�e oferece o seio.
Ele a levou junto com ele, fisicamente, emocionalmente, at� que ela conseguiu ver quase como ele via.
- Soldados est�o se exercitando aqui fora e pode-se ouvir o barulho de espada contra espada. Um homem corre, coxeando por causa de um ferimento antigo, a respira��o
exalando nuvens frias. Venha! Vamos l� em cima!
Puxou-a para uma escada de caracol estreita. Vez ou outra, havia uma fenda na pedra, uma esp�cie de caverna. Ela imaginava se pessoas teriam dormido ali ou
armazenado coisas. Ou talvez tentado se esconder do inimigo que sempre os encontraria.
- Haveria uma velha carregando uma l�mpada a �leo aqui, e ela teria uma cicatriz enrugada sobre a m�o e medo nos olhos. Outra est� trazendo palhas novas para
o ch�o, mas ela � jovem e est� pensando no amante.
Gray mantinha a m�o dela na sua, parando quando chegaram a um desn�vel no meio do caminho.
- N�o acha que devem ter sido os cromwellianos que saquearam isto? Deve ter havido gritos, o mau cheiro de fuma�a e sangue, aquele baque surdo e s�rdido do
metal despeda�ando ossos e o uivo agudo que um homem deixa escapar quando a dor o atravessa. Lan�as indo direto � barriga, prendendo um corpo ao ch�o onde os membros
se retorceriam antes dos nervos morrerem. Corvos circulando acima, esperando pela festa.
Virando-se, viu os olhos dela arregalados e perplexos, e soltou uma risada.
- Desculpe, viajei.
- � uma b�n��o ter uma imagina��o assim. - Tremeu outra vez e esfor�ou-se para engolir. - Acho que n�o quero que me fa�a ver isto t�o claramente.
- A morte � algo fascinante, especialmente a do tipo violento. Homens est�o sempre ca�ando homens. E este lugar � pr�prio para um assassinato... do tipo moderno.
- Do seu tipo - ela murmurou.
- Hum, ele brincar� com a v�tima primeiro. - Gray come�ou quando voltaram a subir. Estava acorrentado em sua pr�pria mente, verdade, mas podia ver que Brianna
n�o estava mais aborrecida com o que quer que tivesse acontecido na casa da m�e. - Far� com que tanto a atmosfera quanto estes fantasmas de fuma�a se agitem no medo
como um veneno de a��o lenta. Ele n�o ter� pressa, gosta da ca�ada, adora. Pode farejar o medo como um lobo, pode farej�-lo. � o cheiro que se instala no sangue,
que o faz bombear, que o excita como sexo.
E a v�tima corre, se precipita, perseguindo aquele fino fio de esperan�a. Mas ela respira r�pido. O som disso ecoa, levado pelo vento. Ela cai... os degraus
s�o trai�oeiros no escuro, na chuva. Molhados e lisos, s�o armadilhas. Mas ela se agarra e sobe. O ar entrando e saindo dos pulm�es, os olhos selvagens.
- Gray...
- Ela � quase um animal como ele agora. O terror elimina as camadas de humanidade, do mesmo modo que o sexo bom ou o desejo verdadeiro. A maioria das pessoas
pensa que j� experimentou todos os tr�s, mas � raro at� mesmo conhecer uma sensa��o inteiramente. Mas ela conhece a primeira agora, conhece o terror, como se fosse
s�lido e vivo, como se pudesse apertar as m�os em volta de sua garganta. Ela quer um buraco, mas n�o existe nenhum para se esconder. E ela pode ouvi-lo subindo,
lento, incans�vel, atr�s dela. Ent�o ela alcan�a o topo.
Ele conduz Brianna para fora das sombras, para a sali�ncia larga da parede onde flui a luz do sol.
- E ela est� encurralada!
Ela reagiu quando Gray a fez girar, quase gritou. Rugindo numa risada, ele a levantou do ch�o.
- Jesus, que plat�ia!
- N�o � nada engra�ado. - Ela tentou se livrar.
- � maravilhoso! Estou planejando v�-lo mutilando-a com um punhal antigo, mas... - Passou o bra�o sob os joelhos de Brianna e carregou-a para a parede. - Talvez
ele simplesmente devesse jog�-la pelo lado.
- Pare! - A autopreserva��o fez com que ela atirasse os bra�os em torno dele e apertasse.
- Por que n�o pensei nisso antes? Seu cora��o est� pulsando, seus bra�os est�o me abra�ando.
- Seu tirano!
- Livrou sua cabe�a dos problemas, n�o?
- Vou guardar meus problemas, obrigada, e bem longe dessa sua imagina��o mirabolante.
- N�o, ningu�m faz isso. -Aconchegou-a um pouco mais perto. - Fic��o � sobre isso, livros, filmes, qualquer coisa. Proporciona uma fuga da realidade e deixa
que voc� se preocupe com os problemas dos outros.
- O que faz com voc�, que conta a novela?
- A mesma coisa. Exatamente a mesma coisa. - Colocou-a no ch�o e virou-a para a vista. - � como uma pintura, n�o �? - Gentilmente, atraiu-a para si, at� que
as costas dela se aninharam contra ele. - Logo que vi este lugar, ele me conquistou. Chovia na primeira vez em que vim aqui e parecia que as cores deviam se derreter.
Ela suspirou. Ali estava a paz que sempre quisera. Neste seu estranho rodopio, ele a tinha trazido para ela.
- � quase primavera...
- Voc� sempre cheira a primavera. - Inclinou a cabe�a, ro�ando os l�bios em sua nuca. - E tem o gosto dela tamb�m.
- Voc� est� deixando minhas pernas bambas, outra vez.
- Ent�o � melhor se firmar em mim. - Virou-a, segurando seu queixo com a m�o. - N�o beijo voc� h� dias.
- Eu sei. - Reunindo toda a coragem, manteve os olhos no n�vel dos dele. - Tenho desejado que voc� fa�a isso.
- Essa era a id�ia. - Tocou os l�bios nos dela, comovendo-se quando ela deslizou as m�os pelo seu t�rax e tomou-lhe o rosto entre elas.
Ela se abrira para ele espontaneamente, um murm�rio de prazer t�o excitante quanto uma car�cia. Com o vento rodopiando em torno deles, ele a puxou, cuidando
para manter as m�os suaves, a boca gentil.
Todo o estresse, a fadiga e a frustra��o desapareceram. Estava em casa, era tudo o que Brianna podia pensar. Em casa era onde sempre desejava estar.
Com um longo suspiro, ela descansou a cabe�a no ombro dele, abra�ando-o.
- Nunca me senti assim.
Nem ele. Mas este era um pensamento perigoso e que teria de considerar.
- � bom para n�s. H� algo bom nisso.
- Eu sei. - Ela levantou o rosto para ele. - Tenha paci�ncia comigo, Gray.
- Terei. Quero voc�, Brianna, e quando estiver pronta... - Recuou, deslizando as m�os pelos bra�os dela, at� seus dedos se entrela�arem. - Quando estiver pronta.





G
ray imaginaria se seu apetite andava maior por conta da outra fome, que estava longe de ser satisfeita. Achou que o melhor era levar a coisa filosoficamente e deliciar-se
com o pudim de p�o de Brianna tarde da noite. Fazer ch� tamb�m estava se tornando um h�bito, e ele j� colocara a chaleira no fog�o para esquentar a �gua antes de
servir o pudim numa tigela.
Desde os seus treze anos, n�o se via t�o obcecado por sexo. Ent�o tinha sido Sally Anne Howe, uma das residentes do Lar para Crian�as Simon Brent Memorial.
A velha e boa Sally Anne, Gray lembrava agora, com corpo bem desabrochado e olhos astutos. Era tr�s anos mais velha do que ele, e mais do que desejosa de dividir
seu charme com algu�m em troca de cigarros e barras de chocolate.
Na �poca achava que ela era uma deusa, a resposta �s preces de um adolescente barulhento. Podia olhar para tr�s agora, com pena e raiva, vendo que o ciclo
de abuso e falhas no sistema tinha levado uma jovem bonita a acreditar que seu �nico valor estava aninhado entre as pernas.
Tivera muitos sonhos doces com Sally Anne depois das luzes apagadas. E tivera tamb�m bastante sorte para roubar um ma�o inteiro de Marlboro de um dos conselheiros.
Vinte cigarros garantiram-lhe vinte transas. E aprendera r�pido.
Ao longo dos anos, tinha aprendido um tanto mais, com garotas de sua idade, e com profissionais que manipulavam seus neg�cios nos becos escuros que cheiravam
a gordura ran�osa e suor azedo.
Tinha apenas dezesseis anos quando se livrou do orfanato e ganhou a estrada com roupas na mochila e vinte e tr�s d�lares, em trocados mi�dos e notas amassadas,
no bolso.
Liberdade era o que queria, liberdade das regras, regulamentos, dos infind�veis ciclos do sistema, onde fora mantido durante a maior parte de sua vida. Achara,
usara e pagara por ela.
Viveu e trabalhou naquelas ruas por um longo tempo, antes de dar a si mesmo um nome e um objetivo. Tivera bastante sorte em ter um talento que o salvou de
ser engolido por outros famintos.
Aos vinte anos, tivera sua primeira majestosa e tristemente autobiogr�fica novela embaixo do bra�o. O mundo editorial n�o ficou impressionado. Aos vinte e
dois, elaborara um caprichado e esperto livrinho policial. Os editores n�o vieram correndo, mas um sopro de interesse de um assistente de editor o manteve fechado
num alojamento barato, trabalhando numa m�quina de datilografia manual, por semanas.
Aquele, ele tinha vendido. Por uma mixaria. Nunca algo significou tanto para ele.
Dez anos mais tarde, quando podia viver como queria, sentiu que escolhera bem.
Colocou a �gua no bule e uma colherada de pudim na boca. Quando olhou para a porta do quarto de Brianna, divisou um fio de luz enviesado sob ela e sorriu.
Ele tamb�m a escolhera.
Seguindo seus planos, colocou o bule e duas x�caras numa bandeja e bateu � porta. - Pode entrar.
Ela estava sentada junto � pequena escrivaninha, empertigada como uma freira, em sua camisola de flanela e chinelos, os cabelos numa tran�a solta sobre um
ombro. Gray engoliu corajosamente a saliva que lhe inundara a boca.
- Vi a luz. Quer ch�?
- Seria bom. Estava acabando de cuidar de alguns pap�is.
O cachorro espregui�ou-se junto dos p�s dela e foi se esfregar em Gray.
- Eu tamb�m. - Apoiou a bandeja para co�ar o p�lo de Con. - Assassinatos me deixam com fome.
- Matou algu�m hoje?
- Brutalmente. - Falou isso com tal prazer que Brianna riu.
- Talvez seja isto o que deixa voc� t�o mal-humorado de vez em quando - ela sugeriu. - Todos aqueles assassinatos emocionantes purgando em seu corpo. Voc�
sempre... - Ela deteve-se, dando de ombros, quando ele lhe estendeu a x�cara.
- Vamos, pergunte. Voc� raramente pergunta alguma coisa sobre o meu trabalho.
- Porque imagino que todos perguntam.
- Perguntam mesmo. - Acomodou-se melhor. - N�o ligo.
- Bem, estava pensando se voc� sempre cria um personagem com base em algu�m que voc� conhece... e ent�o o mata.
- Teve um nojento gar�om franc�s em Dijon. Eu o estrangulei.
- Ah. - Esfregou a m�o na garganta. - Como foi?
- Para ele ou para mim?
- Para voc�.
- Satisfat�rio. - Comeu uma colherada do pudim. - Quer que eu mate algu�m para voc�, Brie? Terei o maior prazer...
- N�o, no momento n�o. - Ela se mexeu e metade dos pap�is foi parar no ch�o.
- Precisa de uma m�quina de escrever - disse, enquanto a ajudava com os pap�is. - Melhor ainda, um computador. Pouparia seu tempo para escrever as cartas comerciais.
- N�o, se eu tiver que procurar cada tecla. - Enquanto ele lia a correspond�ncia dela, Brie levantou a sobrancelha, divertida. - Isto n�o � muito interessante.
- Hummm. Ah, desculpe, for�a do h�bito. O que � Minas Triquarter?
- Ah, s� uma empresa em que parece que papai investiu. Achei os certificados de a��es entre as coisas dele, no s�t�o. J� escrevi a eles uma vez - acrescentou,
um pouco aborrecida. - Mas nada de resposta. Ent�o estou tentando outra vez.
- Dez mil a��es. - Gray apertou os l�bios. N�o � qualquer trocado.
- �, se entendi o que quer dizer. Tinha que conhecer meu pai... estava sempre atr�s de um novo projeto para ganhar dinheiro que custava mais do que ele ganharia.
Mas isto precisa ser feito. - Levantou uma das m�os. - Isto � s� uma c�pia. Rogan ficou com o original para guardar e mandou esta para mim.
- Devia pedir a ele para checar.
- N�o gosto de incomod�-lo com isso. J� tem um prato cheio com a galeria nova e com Maggie.
Ele devolveu-lhe a c�pia.
- Mesmo a um d�lar a a��o, � uma quantia bem substancial.
- Ficaria surpresa se cada a��o valesse mais do que um centavo. Deus sabe que ele n�o teria pago muito mais. O mais prov�vel � que essa companhia tenha fechado.
- Ent�o sua carta teria voltado. Ela apenas sorriu.
- Est� aqui h� bastante tempo para conhecer o correio irland�s. Acho... - Os dois olharam quando o cachorro come�ou a rosnar. - Con?
Em vez de responder, o c�o rosnou de novo e os p�los das costas se eri�aram. Em dois passos, Gray chegou � janela. N�o viu nada, a n�o ser neblina.
- Cerra��o - ele resmungou. - Vou dar uma olhada em volta... N�o - disse, quando ela come�ou a levantar. - Est� escuro, frio e �mido, e voc� vai ficar aqui.
- N�o tem nada l� fora.
- Con e eu vamos descobrir. Vamos. - Estalou os dedos e, para surpresa de Brianna, Con respondeu imediatamente. Trotou nos calcanhares de Gray.
Ela guardava uma lanterna na primeira gaveta da cozinha. Gray Pegou-a antes de abrir a porta. O c�o estremeceu uma vez. Ent�o quando Gray falou "v�", ele saltou
na n�voa. Em segundos, o som de suas patas, correndo, era engolido pelo sil�ncio.
A cerra��o distorcia o facho da lanterna. Gray movia-se com cuidado, olhos e ouvidos filtrando. Ouviu o latido do c�o, mas de que dire��o ou dist�ncia n�o
podia dizer.
Parou sob as janelas do quarto de Brianna, percorrendo o ch�o com a luz. Ali, no lindo canteiro, estava uma �nica marca de p�.
Pequeno, Gray notou, abaixando-se. Quase pequeno o bastante para ser de uma crian�a. Podia ser uma coisa simples assim, crian�as fazendo farra. Mas, quando
continuou a circundar a casa, ouviu o som de um motor se afastando. Praguejando, apressou o passo. Con surgiu na n�voa como um mergulhador emergindo na superf�cie
de um lago.
- Sem sorte? - Como consolo, Gray afagou a cabe�a de Con, enquanto ambos fitavam a cerra��o. - Bem, receio que eu possa saber o que est� acontecendo. Vamos
entrar.
Brianna ro�a as unhas, quando eles voltaram � cozinha.
- Voc�s demoraram.
- Quisemos circular em volta da casa. - Deixou a lanterna sobre a bancada, passando a m�o no cabelo �mido. - Isso pode estar relacionado com o arrombamento.
- N�o sei como. Voc�s n�o encontraram ningu�m.
- Porque n�o fomos r�pidos o bastante. H� outra explica��o poss�vel. - Enfiou as m�os nos bolsos. - Eu.
- Voc�? O que quer dizer?
- J� me aconteceu algumas vezes. Uma f� superentusiasmada descobre onde estou. Muitas vezes me chamam como se f�ssemos velhos camaradas, outras vezes apenas
seguem meu rastro como uma sombra. De vez em quando, arrombam uma porta, atr�s de um suvenir.
- Mas isso � terr�vel.
- � irritante, mas totalmente inofensivo. Uma mulher mais audaciosa pegou a chave do meu quarto no Ritz de Paris, despiu-se e se enfiou na cama comigo. - For�ou
um sorriso. - Foi... desconfort�vel.
- Desconfort�vel - Brianna repetiu, depois de conseguir fechar a boca. - O que... n�o, acho que n�o quero saber o que voc� fez.
- Chamei os seguran�as. - Seus olhos brilhavam, divertidos. - H� limites para o que fa�o pelos meus leitores. De qualquer maneira, desta vez parecem ter sido
crian�as, mas, se fosse uma das minhas f�s extremosas, voc� iria preferir que eu procurasse outras acomoda��es.
- Eu n�o. - O instinto protetor dela voltou a atuar. - Elas n�o t�m o direito de invadir sua privacidade dessa maneira e voc� n�o sairia daqui por causa disso.
- Deixou escapar um suspiro. - Voc� sabe que n�o s�o s� suas hist�rias. Ah, elas s�o mesmo arrebatadoras... tudo parece t�o real e h� sempre alguma coisa her�ica
que supera toda cobi�a, viol�ncia e tristeza. Tem seu visual, tamb�m.
Ele estava encantado com a descri��o dela sobre seu trabalho e respondeu distraidamente:
- Como?
- Seu rosto. - Olhou para ele. - � um rosto ador�vel. Ele n�o sabia se ria ou se se retra�a.
- Verdade?
- � sim. - Ela pigarreou. Havia um brilho nos olhos dele que ela conhecia bem demais para confiar. - E a pequena biografia na capa... mais ainda o que falta
nela. � como se voc� viesse de lugar nenhum. Esse mist�rio � bem atraente.
- Eu realmente n�o vim de lugar algum. Por que n�o volta ao meu rosto?
Ela recuou.
- Acho que tivemos bastante emo��o por uma noite.
Ele se aproximou, at� colocar as m�os sobre os ombros dela e a boca ro�ar suavemente seus l�bios.
- Vai conseguir dormir?
- Sim. - Ela prendeu a respira��o, at� expirar lentamente. - Con ficar� comigo.
- Cachorro sortudo. V� dormir ent�o. - Esperou que ela e o c�o se ajeitassem. Ent�o fez algo que ela nunca fizera em todos os anos em que vivera na casa.
Trancou as portas.

O melhor lugar para espalhar ou colher novidades era, logicamente, o pub da vila. Durante as semanas em que esteve no Condado de Clare, Gray desenvolveu uma
afei��o quase sentimental pelo O'Malley. Naturalmente, durante as suas pesquisas, ele andara por numerosos outros lugares, mas o O'Malley tornara-se para ele a coisa
mais pr�xima de um bar da esquina de casa que j� experimentara.
Ouviu o ritmo da m�sica ao chegar � porta. Murphy, pensou. Estava com sorte. Mal entrou, foi saudado pelo nome ou com um aceno alegre. O'Malley come�ou a servir
uma caneca de Guinness, antes mesmo que ele se plantasse num banco.
- Ent�o, como est� indo a hist�ria? - O'Malley perguntou.
- Bem. Duas mortes, nenhum suspeito.
Com um movimento de cabe�a, O'Malley deslizou a caneca at� debaixo do nariz de Gray.
- N�o sei como um homem pode lidar com a morte o dia todo e ainda ter um sorriso no rosto � noite.
- Anormal, n�o �? - Gray riu para ele.
- Tenho uma hist�ria para voc�. - Isto veio de David Ryan, que estava sentado na ponta do balc�o e acendia um de seus cigarros americanos.
Gray ajeitou-se em meio � m�sica e � fuma�a. Sempre havia uma hist�ria e ele era t�o bom ouvinte quanto narrador.
- Havia uma mo�a que vivia no interior, perto de Tralee. Bonita como o sol nascente, cabelos cor-de-ouro e olhos t�o azuis como Kerry.
A conversa acalmou e Murphy baixou a m�sica, de modo que era agora um pano de fundo para a hist�ria.
- Acontece que dois homens vieram cortej�-la - David continuou. - Um era um sujeito chegado aos livros, o outro, um fazendeiro. A seu modo, a mo�a amava os
dois, pois o cora��o dela era t�o inst�vel quanto era bonito seu rosto. Ent�o, gostando de aten��o como toda mulher gosta, deixou os dois balan�arem o cora��o por
ela, fazendo promessas a cada um. E a� come�ou a crescer um negrume no cora��o do jovem fazendeiro, lado a lado com seu amor pela mo�a.
Ele parou, como os contadores de hist�ria geralmente fazem, e estudou a brasa vermelha na ponta do cigarro. Deu uma tragada profunda, soltou a fuma�a.
Ent�o, uma noite, ele esperou pelo rival na estrada e, quando o sujeito estudioso veio, assoviando, pois a mo�a generosamente lhe dera uns beijos, o fazendeiro
saltou e derrubou o jovem amante no ch�o. Era uma noite de luar e ele arrastou o coitado pelos campos, e, embora o cara ainda respirasse, ele o enterrou bem no fundo.
Quando surgiu a aurora, semeou feno sobre ele e p�s fim � competi��o.
David parou outra vez, tragou profundamente o cigarro, pegou a caneca.
- E a�? - Gray perguntou, interessado. - Ele se casou com a mo�a.
- N�o, na verdade, n�o. Ela fugiu com um funileiro naquele mesmo dia. Mas o fazendeiro teve a melhor e mais sanguin�ria colheita de feno da vida.
Houve um estrondo de risadas e Gray apenas sacudiu a cabe�a. Ele se considerava um mentiroso profissional e dos bons. Mas a competi��o ali era feroz. Em meio
�s risadas, Gray pegou sua caneca e foi juntar-se a Murphy.
- Davey tem uma hist�ria para cada dia da semana. - Murphy falou, delicadamente rolando os dedos sobre as teclas de sua gaita.
- Imagino o que meu editor faria com ele. Soube de alguma coisa, Murphy?
- N�o, nada que preste. A Sra. Leery achou que podia ter visto um carro no dia dos problemas. Acha que era verde, mas n�o prestou muita aten��o.
- Algu�m andou espreitando a pousada na noite passada. Eu o perdi na cerra��o. - Gray lembrou, desgostoso. - Mas andou perto o bastante para deixar uma pegada
num canteiro de flores de Brie. Pode ter sido uma crian�a. - Pensativo, bebericou a cerveja. - Algu�m andou perguntando por mim?
- Voc� � assunto todo dia - Murphy falou secamente.
- � a fama. Mas estava falando de algum estranho.
- N�o que eu saiba. Melhor voc� perguntar nos correios. Por qu�?
- Acho que podia ter sido uma f� superentusiasmada. J� passei por isso antes. Ent�o novamente... - Sacudiu os ombros. - � assim que minha cabe�a funciona,
sempre supondo al�m da realidade.
- Tem uma d�zia de homens a postos, se algu�m causar algum problema a voc� ou Brie. - Murphy desviou os olhos, quando a porta do pub se abriu. Brianna entrou
com Rogan e Maggie. Murphy ergueu a sobrancelha ao voltar-se para Gray. - E uma d�zia de homens para arrastar voc� para o altar, se n�o tomar cuidado com o brilho
em seu olhar.
- Como? - Gray pegou a caneca de cerveja outra vez, e os l�bios se curvaram. - Estava s� olhando.
- Sim. Sou um andarilho - Murphy cantarolou - e muitas vezes s�brio, sou um andarilho de alto grau. Pois, quando estou bebendo, estou sempre pensando como
conseguir a companhia do meu amor.
- A caneca ainda est� pela metade. - Gray resmungou e levantou-se, caminhando na dire��o de Brianna. - Achei que voc� estava costurando.
- Estava.
- N�s a obrigamos a sair - Maggie explicou com um suspiro, enquanto se empoleirava num banco.
- Persuadimos - Rogan corrigiu. - Um copo de Harp, Brie?
- Obrigada, quero sim.
- Ch� para Maggie, Tim - falou e sorriu ante o resmungo da esposa. - Um copo de Harp para Brie, uma caneca de Guinness para mim. Outra, Gray?
- Chega para mim. - Gray encostou-se no bar. - Ainda me lembro da �ltima vez que bebi com voc�.
- Por falar no tio Niall - Maggie emendou -, ele e a noiva est�o passando alguns dias na ilha de Creta. Cante alguma coisa alegre, Murphy!
Obedientemente, ele atacou de "U�sque na Garrafa", marcando o ritmo com o p�.
Prestando aten��o na letra da m�sica, Gray sacudiu a cabe�a.
- Por que voc�s, irlandeses, sempre falam da guerra nas m�sicas?
- Falamos? - Maggie sorriu, bebendo o ch�, enquanto esperava para entrar no coro.
- Algumas vezes trai��o ou morte, mas a maioria � sobre a guerra mesmo.
- Verdade? - Sorriu sobre a borda da x�cara. - N�o saberia dizer. Talvez porque tivemos de lutar por cada cent�metro do nosso pr�prio solo durante s�culos.
Ou...
- N�o a fa�a come�ar - Rogan implorou. - H� um cora��o rebelde a�.
- H� um cora��o rebelde dentro de cada homem e mulher irlandeses. Murphy tem uma voz maravilhosa. Por que n�o canta com ele, Brie?
Desfrutando o momento, ela bebericou sua Harp.
- Prefiro ouvir.
-Gostaria de ouvir voc� - Gray falou, deslizando a m�o pelos
cabelos dela.
Maggie estreitou os olhos ao gesto dele.
- Brie tem uma voz fant�stica. Sempre fic�vamos imaginando de quem herdara isso, at� descobrirmos que nossa m�e tamb�m j� teve uma voz assim.
- Que tal "Danny Boy"? Maggie revirou os olhos.
- Pode contar que um ianque vai pedir isso. Um brit�nico escreveu esta can��o, um forasteiro. Cante "James Connolly", Murphy. Brie vai acompanhar voc�.
Com um aceno de cabe�a resignado, Brianna foi sentar-se junto de Murphy.
- Eles t�m uma harmonia ador�vel - Maggie comentou, olhando para Gray.
- Humm. Ela canta pela casa quando esquece que tem algu�m l�.
- E quanto tempo pretende ficar aqui? - Maggie perguntou, ignorando a cara feia de Rogan.
- At� terminar meu livro - Gray falou com ar ausente.
- E ent�o parte para o pr�ximo?
- Certo. Para o pr�ximo.
Embora agora Rogan tivesse a m�o presa no pesco�o dela, Maggie come�ou a fazer alguns coment�rios perspicazes. Foram os olhos de Gray, mais do que a contrariedade
de Rogan, que a fizeram parar. O desejo neles despertara seus instintos protetores. Mas havia algo mais agora. Ela imaginava se ele tinha no��o disso.
Quando um homem olha uma mulher daquele jeito, algo mais al�m dos horm�nios est� envolvido. Ela teria de pensar naquilo, Maggie concluiu, e ver como isso a
afetava. Nesse meio-tempo, pegou o ch� outra vez, ainda olhando para Gray.
- Vamos observar - murmurou. - Vamos s� observar.
Uma can��o transformou-se em duas, duas em tr�s. Can��es de guerra, can��es de amor, as hip�critas e as tristes. Em sua cabe�a, Gray come�ou a criar uma cena.
O pub enfuma�ado estava cheio de barulho e m�sica, um santu�rio divorciado do horror externo. A voz da mulher levava o homem que n�o queria ser levado. Ali,
ele pensou, justo ali seu her�i perderia a batalha. Ela estaria sentada na frente do fogo, as m�os elegantemente cruzadas no colo, a voz altiva, natural e bonita,
os olhos t�o assombrados quanto a can��o.
E ele a amaria ent�o, a ponto de dar a pr�pria vida, se preciso fosse. Ele poderia esquecer o passado com ela e olhar para o futuro.
- Voc� est� t�o p�lido, Gray. - Maggie puxou-o pelo bra�o, at� que se sentasse num banco. - Quantas cervejas tomou?
- S� essa. - Esfregou a m�o no rosto para se recuperar. - � s�... trabalho - ele concluiu. Era isso, com certeza. Estivera somente pensando nos personagens,
na elabora��o da mentira. Nada pessoal.
- Parecia estar em transe.
- � a mesma coisa. - Deixou escapar um pequeno suspiro, rindo de si mesmo. - Acho que vou tomar outra, afinal de contas.





C
om a cena do pub que tecera na imagina��o se repetindo em sua cabe�a, Gray n�o teve uma noite tranq�ila. Embora n�o pudesse apag�-la, tampouco conseguiu escrev�-la.
Ao menos n�o escreveu bem.
Se havia uma coisa que desdenhava, era a simples id�ia de um bloqueio de escritor. Normalmente dava de ombros e continuava trabalhando, at� que a irritante
amea�a passasse. Tal amea�a, �s vezes pensava, era como uma nuvem escura que iria ent�o pairar sobre outro escritor desafortunado.
Mas, dessa vez, estava travado. N�o conseguia se mover na cena, nem al�m dela, e passou grande parte da noite torcendo o nariz para o que havia escrito.
Ap�tica, pensou. Estava apenas administrando a cena apaticamente. Por isso, estava saindo t�o fria.
Impaciente era o que estava, admitiu amargamente. Sexualmente frustrado pela mulher que podia paralis�-lo apenas com um olhar.
Repreendeu-se por estar obcecado pela anfitri�, quando devia estar obcecado pela cena do assassinato.
Resmungando, levantou-se da escrivaninha e se aproximou da janela. Foi uma sorte que a primeira coisa que viu foi Brianna.
L� estava ela, sob a sua janela, arrumada como uma freira num empertigado vestido cor-de-rosa, os cabelos presos no alto, submissos a alguns grampos. Por que
estava de saltos altos?, perguntou-se, aproximando-se mais da janela. Sup�s que ela chamaria os simples escarpins de sapatos pr�ticos, mas eles acrescentavam coisas
insensatamente deliciosas �s pernas dela.
Enquanto ele olhava, ela entrou no carro, os movimentos ao mesmo tempo pr�ticos e graciosos. Colocara, antes, a bolsa no assento ao lado, pensou. Ent�o afivelou
cuidadosamente o cinto de seguran�a, verificou os espelhos. Nada de se enfeitar no retrovisor, notou. Apenas um r�pido ajuste para checar se estava adequadamente
alinhado. Ent�o, virou a chave.
Mesmo atrav�s do vidro, p�de ouvir a tosse cansada do motor. Ela tentou outra vez, mais uma terceira. A essa altura, Gray j� estava sacudindo a cabe�a e descendo
as escadas.
- Por que diabos voc� n�o manda consertar esta coisa? - gritou para ela, enquanto passava pela porta da frente.
- Ah. - Ela estava fora do carro agora e tentava levantar o cap�. - Estava funcionando bem um ou dois dias atr�s.
- Este traste n�o funciona bem h� uma d�cada. -Afastou-a com o cotovelo, irritado por ela estar t�o cheirosa enquanto ele se sentia como um pilha de roupa
suja. - Olhe, se precisa ir � vila para alguma coisa, pegue meu carro. Vou ver o que posso fazer com isso.
Defendendo-se automaticamente da rapidez das palavras dele, ela ergueu o queixo.
- Obrigada da mesma forma, mas vou a Ennistymon.
- Ennistymon? - Enquanto tentava visualizar o mapa, ele levantou a cabe�a debaixo do cap�, tempo bastante para fit�-la. - Para qu�?
- Ver a galeria nova. V�o abrir daqui a algumas semanas e Maggie perguntou se eu poderia ir dar uma olhada. - Fitava as costas dele, enquanto ele esticava
fios e praguejava. - Deixei um bilhete para voc�, e comida que voc� pode esquentar, j� que ficarei fora quase o dia todo.
- Voc� n�o vai a lugar algum nisto. A correia est� arrebentada, o combust�vel est� vazando e � um bom motivo de aposta se esse motor vai ligar. - Endireitou-se,
notando que hoje ela usava brincos, argolas douradas que apenas ro�avam o l�bulo das orelhas. Eles acrescentavam um ar de celebra��o que o irritou sem qualquer motivo.
- Voc� n�o tem nada que sair dirigindo por a� nessa lata velha.
- Bem, � o que tenho para dirigir, n�o �? Agrade�o seu inc�modo, Grayson. Verei se Murphy pode...
- N�o me venha com esses ares de rainha indiferente. - Bateu a tampa do cap� com tanta for�a que a fez estremecer. Deus, ele pensou. Isto prova que ela tem
sangue nas veias. - E n�o jogue Murphy na minha cara. Ele n�o pode fazer nada al�m do que j� fiz. V� para o meu carro, volto num minuto.
- E por que eu deveria ir para o seu carro?
- Para eu poder lev�-la � maldita Ennistymon. Dentes cerrados, ela colocou as m�os nos quadris.
- � muita gentileza oferecer, mas...
- Entre no carro - vociferou, enquanto se encaminhava para a casa. - Preciso esfriar a cabe�a.
- Eu esfriaria para voc� - ela murmurou. Abrindo a porta do seu carro, apanhou a bolsa. Gostaria de saber quem tinha pedido a ele para lev�-la. Melhor ir a
p� do que sentar no mesmo carro com aquele homem. E se ela quisesse chamar Murphy, bem... ela, inferno!, chamaria.
Mas, antes, precisava se acalmar.
Respirou profundamente uma vez, outra, antes de caminhar bem devagar por entre as flores. Como sempre, elas a acalmaram, o fr�gil verde apenas come�ando a
brotar. Precisavam de algum trabalho e cuidado, pensou, abaixando-se para arrancar uma erva invasora. Se o tempo estivesse bom, no dia seguinte ela come�aria. At�
a P�scoa, o jardim estaria no auge.
Os perfumes, as cores. Sorriu um pouquinho para o bravo e jovem narciso.
Ent�o, a porta abriu-se com um estrondo. O sorriso desapareceu quando ela se levantou e voltou-se.
Ele n�o tinha se preocupado em fazer a barba. Os cabelos estavam molhados e presos atr�s por uma fina tira de couro, roupas limpas, ainda que um pouco desbotadas.
Sabia muito bem que o homem tinha roupas decentes. Por que ela mesma n�o as lavava e passava?
Lan�ando-lhe um r�pido olhar, pegou as chaves do bolso do jeans.
- No carro.
Ah, ele precisava baixar a bola um pouco, precisava mesmo. Ela caminhou at� ele lentamente, gelo nos olhos e fogo na l�ngua.
- E o que aconteceu para estar t�o alegre nesta manh�? Muitas vezes, at� mesmo um escritor entende que a��es podem
falar mais alto do que palavras. Sem dar a nenhum deles tempo para pensar, puxou-a contra ele, olhou satisfeito o susto que tomara conta de seu rosto e grudou
sua boca na dela.
Foi brusco, faminto e cheio de frustra��o. O cora��o dela disparou, parecia a ponto de explodir em sua cabe�a. Ela teve um instante para sentir medo, um momento
para desejar, at� que ele a puxou novamente.
Os olhos, ah, os olhos dele eram ardentes. Olhos de lobo, pensou estupidamente, cheios de viol�ncia e energia assombrosa.
- Entendeu? - rugiu, furioso com ela, consigo mesmo, quando ela apenas olhou. Como uma crian�a, ele pensou, que recentemente apanhou sem motivo.
Era um sentimento de que ele se lembrava muit�ssimo bem.
- Meu Deus, estou ficando louco! - Esfregou as m�os no rosto e espantou a besta de dentro dele. - Desculpe. Entre no carro, Brianna. N�o vou atacar voc�.
Explodiu novamente quando ela n�o se moveu, nem sequer piscou.
- N�o vou tocar em voc�, porra!
Ela recuperou a voz, embora n�o t�o firme como teria gostado:
- Por que est� t�o bravo comigo?
- Eu n�o estou! - Recuou. Controle-se, lembrou a si mesmo. Geralmente era bom nisso. - Desculpe - repetiu. - Pare de olhar para mim como se eu tivesse batido
em voc�.
Mas ele tinha. N�o sabia que raiva, palavras r�spidas, sentimentos duros a magoavam mais do que uma m�o violenta?
- Vou entrar. - Encontrou suas defesas, finas paredes que definiram seu temperamento. - Preciso ligar para Maggie e dizer que n�o posso ir l�.
- Brianna. - Ia alcan��-la, mas ent�o ergueu as duas m�os num gesto que combinava frustra��o e um pedido de paz. - Quer que eu me sinta pior ainda?
- N�o sei, mas acho que ficar� melhor depois de comer alguma coisa.
- Agora ela vai preparar meu caf�. - Fechou os olhos, respirando fundo. - Humor controlado - murmurou e olhou para ela de novo. - N�o foi isto que voc� disse
que eu era, n�o muito tempo atr�s? Estava apenas um pouco abaixo da marca. Escritores s�o bastardos miser�veis. Temperamentais, mal-intencionados, ego�stas, egoc�ntricos.
- Voc� n�o � nada disso. - Ela n�o podia explicar por que se sentia obrigada a defend�-lo. - Temperamental, talvez, mas nenhuma das outras coisas.
- Sou. Dependendo de como vai indo o livro. Agora mesmo, est� indo mal. Dei de cara com um obst�culo, uma parede, um n�. Uma maldita fortaleza, e descontei
tudo em voc�. Quer que eu me desculpe outra vez?
- N�o. - Ela abrandou, estendendo a m�o para o rosto barbado dele. - Parece cansado, Gray.
- N�o dormi nada. - Manteve as m�os nos bolsos, os olhos nos dela. - Cuidado com sua solidariedade, Brianna. O livro � apenas um dos motivos de eu estar t�o
rude nesta manh�. Voc� � o outro.
Ela deixou cair a m�o, como se tivesse tocado uma chama. O r�pido recuo fez os l�bios dele se curvarem.
- Quero voc�. D�i desejar voc� desse jeito.
- D�i?
- Isso n�o � motivo para ficar feliz consigo mesma. Ela corou.
- N�o tive a inten��o...
- Isto � parte do problema. Vamos, entre no carro. Por favor - acrescentou. - Vou enlouquecer tentando escrever hoje, se ficar aqui.
Tocou na tecla certa. Deslizando para dentro do carro, esperou que ele entrasse tamb�m.
- Quem sabe se voc� assassinar mais algu�m.
Ele percebeu que podia rir, afinal de contas. - Ah, estou pensando nisso.


A Galeria Worldwide de Clare era um primor. Recentemente constru�da, fora projetada como um solar elegante, decorado com jardins formais. N�o era a altiva
catedral da galeria de Dublin, nem o opulento pal�cio de Roma, mas um edif�cio digno, especialmente concebido para abrigar e mostrar o trabalho de artistas irlandeses.
Tinha sido o sonho de Rogan e, agora, a realidade dele e de Maggie.
Brianna projetara os jardins. Embora n�o tivesse podido plant�-los ela mesma, os paisagistas usaram seus desenhos. Ent�o caminhos de tijolos eram cercados
de rosas, e canteiros largos e semicirculares foram plantados com lupinos e papoulas, cravos e dedaleiras, colombinas e d�lias, todas suas favoritas.
A galeria era constru�da de tijolos, em cor-de-rosa claro, com janelas altas, graciosas, adornadas em cinza-pastel. Dentro do grande vest�bulo, o piso era
ladrilhado em azul-escuro e branco, com um candelabro Waterford no alto e a amplid�o das escadas de mogno levando ao segundo andar.
- Isto � de Maggie - Brianna murmurou, atra�da pela escultura que dominava a entrada.
Gray viu duas figuras geminadas, o vidro frio apenas tocado pelo calor, a forma notavelmente sexual, estranhamente rom�ntica.
- � a Remiss�o. Rogan a comprou antes de estarem casados. N�o a venderia a ningu�m.
- Posso ver por qu�. - Ele precisou engolir em seco. O vidro sinuoso era um golpe er�tico no seu j� sofrido organismo. - � um come�o estonteante para um tour
pela galeria.
- Ela tem um dom especial, n�o tem? - Gentilmente, apenas com a ponta dos dedos, Brianna tocou o vidro frio que a irm� tinha criado do fogo e dos sonhos. -Acho
que dons especiais tornam as pessoas temperamentais. - Sorrindo, olhou Gray por cima do ombro. Parecia t�o inquieto, pensou. Impaciente com tudo, especialmente consigo
mesmo - E dif�ceis, porque sempre exigir�o muito de si mesmas.
- E tornam um inferno a vida de todos � sua volta quando n�o
conseguem. - Aproximando-se, tocou nela, em vez de tocar o vidro. Voc� n�o guarda rancor, guarda?
-Para qu�? - Dando de ombros, ela girou para admirar as linhas
simples e s�brias do vest�bulo.
- Rogan queria que a galeria fosse como um lar para a arte, entende? Ent�o h� uma sala, uma sala de desenho, at� uma sala de jantar e uma de estar l� em cima.
- Brianna tomou a m�o dele e guiou-o em dire��o �s portas duplas. - Todos os desenhos, esculturas, at� os m�veis s�o de artistas irlandeses e artes�os. E... ah!
Ficou petrificada. Inteligentemente disposto sobre o fundo e ao lado de um diva baixo estava um delicado v�u em audacioso azul que se esva�a num verde frio.
Ela avan�ou e correu a m�o sobre ele.
- Eu fiz isto - murmurou. - Para o anivers�rio de Maggie. Eles o puseram aqui. Eles o puseram aqui, na galeria de arte.
- Por que n�o deveriam? � bonito. - Curioso, ele olhou mais de perto. - Voc� teceu isto?
- Sim. N�o tenho muito tempo para tecer, mas... - Ela engoliu a voz, receando chorar. - Imagine. Numa galeria de arte, com todas estas obras e quadros maravilhosos.
- Brianna.
- Joseph.
Gray olhou o homem atravessar a sala em passos largos e envolver Brianna num grande e caloroso abra�o. Tipo art�stico, Gray pensou com uma careta. Uma turquesa
presa na orelha, rabo-de-cavalo, terno italiano. Lembrava-se de ter visto o homem no casamento em Dublin.
- Cada vez que a vejo, est� mais ador�vel.
- E voc� cada vez mais sem senso. - Ela riu. - N�o sabia que estava aqui.
- S� vim passar o dia, ajudar Rogan com alguns detalhes.
- E Patr�cia?
- Em Dublin. Com o beb� e a escola, n�o consegue sair.
- Ah, o beb�, e como est� ela?
- Linda. Como a m�e. - Joseph olhou para Gray e estendeu a m�o. - Voc� deve ser Grayson Thane. Sou Joseph Donahue.
- Ah, desculpe. Gray, Joseph administra a galeria de Rogan em Dublin. Achei que tinham se conhecido no casamento.
- N�o tecnicamente. - Mas Gray apertou-lhe a m�o amigavelmente. Lembrava que Joseph tinha uma esposa e uma filha.
- Vou direto ao assunto. Sou um grande f� seu. Acontece que trouxe um livro para Brie passar a voc�. Espero que n�o se incomode de autografar para mim.
Gray decidiu que, provavelmente, poderia aprender a gostar de Joseph Donahue.
- Ser� um prazer.
- Muita gentileza sua. Vou avisar Maggie de que voc�s est�o aqui. Ela mesma vai querer lhes mostrar a galeria.
- Que trabalho maravilhoso voc� fez aqui, Joseph! Todos voc�s.
- E valeu a pena cada hora de insanidade. - Deu uma olhada r�pida e satisfeita pelo local. - Vou procurar Maggie. Fiquem � vontade. - Parou na porta, virou-se
e riu. - Ah, lembre-se de perguntar a ela sobre a venda de uma pe�a para o presidente.
- Presidente? - Brianna repetiu.
- Da Irlanda, querida. Ele fez uma oferta pelo Invicto esta manh�.
- Imagine - Brianna suspirou, enquanto Joseph sa�a depressa -, Maggie sendo conhecida pelo presidente da Irlanda.
- Posso dizer a voc� que ela est� ficando conhecida em todo o mundo.
- Eu sei disso, mas parece... - Riu, incapaz de se expressar melhor. - Como isto � maravilhoso. Papai teria ficado t�o orgulhoso. E Maggie, ela deve estar
nas nuvens. Voc� sabe como �, n�o? O que sente quando algu�m l� seus livros.
- Sei sim.
- Deve ser maravilhoso ter talento assim, ter alguma coisa para dar, algo que toque as pessoas.
- Brie - Gray ergueu a ponta do delicado v�u azul-esverdeado. - Como voc� chama isto?
- Ah, qualquer um pode fazer isto, s� que leva algum tempo. Para mim, arte � algo que permanece. - Aproximou-se de um quadro, um �leo audacioso e colorido
de Dublin em pleno movimento. - Sempre quis... n�o que eu tenha inveja de Maggie. Embora tenha sentido um pouquinho de inveja, sim, quando ela foi para Veneza e
eu fiquei em casa. Mas fizemos o que t�nhamos de fazer. E, agora, ela est� aqui, criando algo muito importante.
- Voc� tamb�m. Por que faz isso? - perguntou, irritado. - Por que sempre acha que o que voc� faz ou pensa est� em segundo plano? Voc� pode fazer mais do que
qualquer pessoa que eu tenha conhecido.
Ela riu, voltando-se para ele outra vez.
- S� porque voc� gosta da minha comida.
- Sim, gosto da sua comida. - N�o retribuiu o sorriso. - E de seu trabalho, seu tric�, suas flores. Do jeito que voc� torna o ar perfumado, o jeito como coloca
os len��is, quando arruma a cama. Gosto de como pendura as roupas na corda e passa minhas camisas. Voc� faz todas estas coisas e mais, e faz tudo parecer t�o f�cil.
- Bem, n�o custa muito...
- Custa - cortou a frase dela, o g�nio explodindo outra vez, sem motivo algum. - Voc� n�o sabe que muitas pessoas simplesmente s�o incapazes de cuidar de uma
casa ou n�o t�m o m�nimo interesse, n�o fazem id�ia de como alimentar algu�m? Preferem jogar fora o que t�m a cuidar dos outros. Tempo, coisas, filhos.
Parou, aturdido pelo que tinha sa�do de dentro dele, aturdido por tudo aquilo estar dentro dele para sair. Quanto tempo aquilo ficara escondido? E o que faria
para enterrar tudo outra vez?
- Gray.
Brianna ergueu a m�o para acariciar seu rosto, mas ele recuou. Nunca se considerara vulner�vel, pelo menos durante muitos anos. Mas, naquele momento, se sentia
muito fora de controle para ser tocado.
- O que quero dizer � que o que voc� faz � importante. N�o deve se esquecer disso. Vou dar uma olhada por a�. - Voltou-se abruptamente para a porta da sala
e saiu apressado.
- Puxa... - Maggie entrou vindo do sagu�o. - Foi uma explos�o bem interessante.
- Ele precisa de uma fam�lia - Brianna murmurou.
- Brie, ele � um adulto, n�o um beb�.
- Idade n�o acaba com a necessidade. Ele � t�o sozinho, Maggie, e nem mesmo sabe disso.
- Voc� n�o pode adot�-lo como se fosse um bichinho perdido. - Balan�ando a cabe�a, Maggie aproximou-se. - Ou pode?
- Sinto alguma coisa por ele. Nunca pensei que teria esse sentimento por algu�m outra vez. - Olhou para as m�os, que mantinha bem apertadas, e ent�o soltou-as.
- N�o, n�o � verdade. N�o � a mesma coisa que senti por Rory.
- Maldito seja esse Rory.
- Voc� sempre diz isso. - E, ent�o, Brianna sorriu. - Isto � fam�lia. - Beijou as faces de Maggie. - Agora, me conte, como est� se sentindo com o presidente
comprando seu trabalho?
- J� que � uma boa grana... - Ent�o atirou a cabe�a para tr�s e riu. - � como ir � lua e voltar. N�o posso evitar. N�s, os Concannon, simplesmente n�o somos
sofisticadas o bastante para enfrentar isso com indiferen�a. Ah, queria tanto que papai...
- Eu sei.
- Bem. - Maggie respirou fundo. - Tenho que lhe dizer que o detetive que Rogan contratou n�o encontrou Amanda Dougherty ainda. Est� seguindo pistas, seja l�
o que isso queira dizer.
- Tantas semanas, Maggie, a despesa...
- N�o comece a chatear querendo usar seu dinheiro. Casei com um homem rico.
- E todos sabem que voc� s� queria o dinheiro dele.
- N�o, queria o corpo dele. - Piscou e enla�ou o bra�o no de Brianna. - E j� notei que seu amigo Grayson Thane tem um que faria qualquer mulher balan�ar.
- Eu tamb�m j� notei.
- Que bom, isso mostra que voc� n�o esqueceu como se olha. Recebi um cart�o de Lottie.
- Eu tamb�m. Importa-se se elas ficarem a terceira semana?
- Por mim, mam�e poderia ficar na vila pelo resto de sua vida. - Suspirou diante da express�o de Brianna. - Est� bem, est� bem. � que fico feliz por ela estar
se divertindo, embora ela n�o v� admitir isso nunca.
- Ela � grata a voc�, Maggie. S� n�o sabe como expressar isso.
- N�o preciso mais que ela expresse. - Maggie pousou a m�o em sua barriga. - J� tenho o que � meu e isso faz toda a diferen�a. Nunca pensei que pudesse ter
um sentimento t�o forte em rela��o a algu�m, e a� apareceu Rogan. Ent�o achei que nunca poderia gostar tanto de algu�m ou de qualquer outra coisa. E agora gosto.
Por isso, talvez entenda um pouco como n�o querer e n�o amar a crian�a que se carrega na barriga pode arruinar tanto a vida de uma pessoa, e como querer e amar essa
crian�a pode iluminar a vida de outra.
- Ela n�o me quis tamb�m.
- Por que voc� diz isso?
- Ela me contou. - Brianna percebeu que dizer aquilo foi como se livrar de um peso. - Dever. Foi somente para cumprir um dever. Nem mesmo para papai, mas para
a Igreja. � um jeito frio de ser colocada no mundo.
N�o era de raiva que Brianna precisava agora, Maggie entendeu, e tomou o rosto da irm� nas m�os.
- Pior para ela, Brie. N�o pra voc�. E quanto a mim, se o dever n�o tivesse sido cumprido, eu � que estaria na pior.
- Ele nos amou. Papai nos amou.
- Sim. E � o que importa. Vamos, n�o se aborre�a com isso. Vou levar voc� l� em cima e mostrar o que andamos fazendo.
No sagu�o, Gray deixou escapar um longo suspiro. A ac�stica no pr�dio era boa demais para se guardarem segredos. Agora ele entendia um pouco da tristeza que
assombrava os olhos de Brianna. Estranho que eles tivessem a aus�ncia do carinho da m�e em comum.
N�o que essa aus�ncia o assombrasse tamb�m, assegurou a si mesmo. Libertara-se daquilo havia muito tempo. Deixara a crian�a assustada e solit�ria nos c�modos
sombrios do Lar para Crian�as Simon Brent Memorial.
Mas gostaria de saber quem era Rory. E por que Rogan tinha contratado detetives para procurar uma mulher chamada Amanda Dougherty?
Gray sempre achara que o melhor caminho para se encontrarem respostas era perguntar.

* * *

- Quem � Rory?
A pergunta despertou Brianna de seu calmo devaneio, enquanto Gray dirigia tranq�ilamente, descendo as estreitas e ventosas estradas que levavam para fora de
Ennistymon.
- Como?
- N�o como, e sim quem. -Jogou o carro para mais pr�ximo da beira da estrada, quando um VW carregado fez a curva na m�o dele. Provavelmente um americano inexperiente,
pensou com certa presun��o. - Quem � Rory? - repetiu.
- Anda ouvindo fofocas no pub, n�o �?
Em vez de preveni-lo, o gelo da voz dela s� o provocou mais:
- Claro, mas n�o foi l� que ouvi esse nome. Voc� o mencionou para Maggie, na galeria.
- Ent�o voc� andou bisbilhotando uma conversa particular.
- Isso � uma redund�ncia. N�o seria bisbilhotar, se a conversa n�o fosse particular.
Ela retesou o corpo no banco do carro.
- N�o h� necessidade de corrigir minha gram�tica, obrigada.
- N�o � quest�o de gram�tica, mas... esque�a. - Deixou o assunto cozinhar um pouco. - Ent�o, quem era ele?
- E por que seria da sua conta?
- Voc� s� est� me deixando mais curioso.
- Era um rapaz que conheci. Est� pegando a estrada errada.
- N�o h� estradas erradas na Irlanda. Leia o guia. � aquele que magoou voc�? - Lan�ou um olhar na dire��o dela e sacudiu a cabe�a.
- Bem, isto j� responde. O que aconteceu?
- Est� pensando em colocar isso num de seus livros?
- Pode ser. Mas, antes, � pessoal. Voc� o amou?
- Amei. Ia casar com ele.
Ele se pegou fazendo careta e batendo com um dedo sobre o volante.
- Por que n�o casou?
- Porque ele rompeu comigo quase no altar. Isto satisfaz sua curiosidade?
- N�o. S� me diz que esse Rory obviamente era um idiota. - N�o p�de evitar a segunda pergunta e ficou surpreso por querer saber:
- Voc� ainda o ama?
- Seria extremamente idiota da minha parte, j� que isso aconteceu h� dez anos.
- Mas ainda d�i.
- Ser rejeitada sempre d�i. Ser motivo da piedade de todos d�i. Pobre Brie, coitadinha da Brie, ser abandonada dois dias antes do casamento. Ser largada com
um vestido de noiva e seu triste enxovalzinho enquanto seu noivo foge para a Am�rica, em vez de se casar com ela. Est� satisfeito? - Virou-se para olhar para ele.
- Quer saber se eu chorei? Chorei. Se esperei que ele voltasse? Esperei.
- Pode me bater se isso fizer com que se sinta melhor.
- Duvido que fa�a.
- Por que ele se foi?
Ela soltou um gemido que era tanto de aborrecimento quanto de lembran�a.
- N�o sei. Nunca soube. Isto � o pior de tudo. Ele me procurou e disse que n�o me queria, eu n�o o teria, nunca me perdoaria pelo que eu tinha feito. E, quando
tentei perguntar o que queria dizer, me empurrou, derrubando-me no ch�o.
As m�os de Gray apertaram o volante.
- Ele o qu�?
- Me derrubou - ela disse calmamente. - E o orgulho n�o me deixou ir atr�s dele. Ent�o, depois de algum tempo, dei meu vestido de noiva. Kate, a irm� de Murphy,
usou-o quando casou com Patrick.
- Ele n�o vale a tristeza que voc� traz nos olhos.
- Talvez n�o. Mas o sonho valia. O que voc� est� fazendo?
- Parando o carro. Vamos subir at� os penhascos.
- N�o estou vestida para escalar terrenos �ngremes - ela protestou, mas ele j� estava fora do carro. - Meus sapatos n�o s�o adequados, Gray. Posso esperar
aqui, se voc� quer dar uma olhada.
- Quero olhar com voc�. - Ele a puxou do carro e levantou-a nos bra�os.
- Que est� fazendo? Ficou louco?
- N�o � longe, e imagine que linda foto nossa aqueles ador�veis turistas l� v�o levar para casa. Voc� fala franc�s?
- N�o. - Confusa, virou a cabe�a para olhar no rosto dele. - Por qu�?
- Estava s� pensando que, se fal�ssemos franc�s, eles pensariam que n�s �ramos... franceses, sabe? Ent�o, quando voltassem a Dallas, contariam ao primo Fred
sobre o rom�ntico casal franc�s que tinham visto perto da costa. - Beijou-a com intimidade, antes de coloc�-la no ch�o, perto da beira de uma pedra inclinada.
A �gua estava da cor dos olhos dela hoje, ele notou. Aqueles olhos frios, verdes, enevoados, que falavam de sonhos. Estava claro o suficiente para que ele
pudesse ver os vigorosos morros das ilhas Aran e um pequeno barco que navegava entre Innismore e o continente. O ar estava fresco, o c�u de um azul melanc�lico que
poderia e mudaria a qualquer momento. Os turistas, um pouco al�m, falavam num complicado sotaque que o fez sorrir.
- � bonito aqui. Tudo. Voc� s� precisa virar a cabe�a para ver alguma coisa empolgante. - Intencionalmente, ele voltou-se para Brianna. - Absolutamente empolgante.
- Voc� est� tentando me agradar por ter bisbilhotado minhas coisas.
- N�o, n�o estou. E n�o terminei de bisbilhotar e gosto de bisbilhotar. Ent�o seria hip�crita pedir desculpas. Quem � Amanda Dougherty e por que Rogan est�
procurando por ela?
O choque se estampou no rosto dela, fazendo a boca tremer.
- Voc� � muito rude.
- J� sei disso. Diga alguma coisa que eu n�o sei.
- Vou voltar. - Mas, quando se virou, ele segurou seu bra�o.
- Vou levar voc� num minuto. Vai acabar torcendo o tornozelo com esses sapatos. Especialmente se vai se apressar.
- N�o vou me apressar, como voc� insiste em... E, depois, isso n�o � da sua... - Exaurida, ela deixou escapar um suspiro de raiva. - Por que perderia meu tempo
dizendo a voc� que isso n�o � da sua conta?
- N�o fa�o id�ia.
O olhar se estreitou no rosto dele. Meigo � o que ele era. E teimoso como duas mulas.
- Voc� s� fica insistindo at� eu contar.
- Agora voc� captou. - Mas ele n�o sorriu. Em vez disso, afastou um fio de cabelo que tremulava no rosto dela. Os olhos eram intensos, determinados. - � o
que est� perturbando voc�. Ela � que est� perturbando voc�.
- Nada que voc� possa entender.
- Voc� ficaria surpresa com o que eu entendo. Sente-se aqui. - Levou-a at� a pedra e sentou-se ao lado dela. - Conte-me uma hist�ria. Ser� mais f�cil desta
vez.
Talvez fosse. E talvez contar tudo pudesse aliviar esse peso em seu cora��o.
- Anos atr�s, havia uma mulher que tinha a voz de um anjo, ou assim dizem. E a ambi��o de us�-la para ter sucesso. Estava descontente com a vida de filha de
dona de estalagem e saiu a viajar, vivendo de sua m�sica. Um dia, ela voltou, pois a m�e estava doente, e ela era uma filha conscienciosa, sen�o amorosa. Ela cantava
no pub da vila, por prazer, para o prazer dos clientes e por algumas libras. L� ela conheceu um homem.
Brianna observou o mar como que imaginando o pai conquistando o olhar da m�e, ouvindo a voz dela.
- Algo muito excitante brotou entre eles. Podia ter sido amor, mas n�o do tipo que dura. Ent�o, eles n�o resistiram ou n�o puderam resistir. E assim, pouco
depois, ela se descobriu gr�vida. A Igreja, sua cria��o e as pr�prias cren�as n�o lhe deixaram outra escolha sen�o casar e desistir do sonho que tivera. Ela nunca
foi feliz depois daquilo, e n�o teve compaix�o bastante para fazer o marido feliz. Logo depois de o primeiro filho nascer, ela concebeu outro. N�o daquela maneira
excitante como da outra vez, mas por um frio senso de dever. Dever cumprido, recusou ao marido sua cama e seu corpo.
Foi o suspiro dela que fez Gray estender a m�o, cobrindo a dela com a sua. Mas ele n�o falou. N�o ainda.
- Um dia, em algum lugar perto do rio Shannon, ele conheceu outra mulher. Houve amor profundo, permanente. Qualquer que fosse o pecado deles, o amor era maior.
Mas ele tinha uma esposa, voc� sabe, e duas filhas pequenas. Ele e a mulher que o amou viram que n�o havia futuro para eles. Ela o deixou, voltou para a Am�rica.
Escreveu tr�s cartas a ele, cartas ador�veis, cheias de amor e compreens�o. E na terceira ela disse que estava esperando um filho dele. Ia embora, dizia, e ele n�o
devia ficar preocupado, pois ela estava feliz por ter uma parte dele crescendo dentro dela.
Uma ave marinha gritou, atraindo o olhar dela. Observou a ave voar em dire��o ao horizonte, antes de continuar a hist�ria:
- Ela nunca mais escreveu a ele, e ele nunca a esqueceu. Aquelas lembran�as deviam t�-lo confortado ao longo do desalento de seu casamento respeitoso e por
todos os anos vazios. Acho que foi assim, pois foi o nome dela que ele falou antes de morrer. Ele disse Amanda, enquanto observava o mar. E muito tempo depois que
as cartas foram escritas, uma de suas filhas as encontrou, no s�t�o, onde ele as guardara, amarradas com uma fita vermelha desbotada.
Virou-se para Gray, ent�o.
- N�o h� nada que ela possa fazer, entende, para fazer voltar o tempo, fazer aquelas vidas serem melhores do que foram. Mas uma mulher que foi amada assim
n�o merece saber que nunca foi esquecida? E o filho dessa mulher e desse homem n�o tem o direito de conhecer o pr�prio sangue?
- Encontr�-los pode magoar ainda mais voc�. - Ele olhou para as m�os deles entrela�adas. - O passado tem um monte de armadilhas terr�veis. � uma linha t�nue,
Brianna, que liga voc� e o filho de Amanda. Algumas muito mais fortes s�o rompidas todos os dias.
- Meu pai a amou. O filho que ela teve � da fam�lia. N�o h� mais nada a fazer, exceto encarar esses fatos.
- N�o para voc� - murmurou enquanto os olhos examinavam o rosto dela. Havia for�a misturada com tristeza. - Deixe-me ajud�-la.
- Como?
- Conhe�o muita gente. Encontrar algu�m envolve pesquisa, telefonemas, contatos.
- Rogan contratou um detetive em Nova York.
- � um bom come�o. Se n�o descobrir alguma coisa logo, me deixar� tentar? - Levantou a sobrancelha. - N�o diga que � gentileza minha.
- Tudo bem, n�o direi, embora seja. - Levantou as m�os de ambos at� o rosto. - Fiquei brava com voc� por me for�ar a contar. Mas ajudou. - Encostou a cabe�a
na dele. - Voc� sabia que ajudaria.
- Sou um curioso nato.
- Voc� � sim. Mas sabia que ajudaria.
- Geralmente ajuda. - Levantando, puxou-a da pedra. - � hora de voltarmos. Estou pronto para trabalhar.





A
corrente que a hist�ria apertara em torno de sua garganta prendeu Gray � escrivaninha por v�rios dias. A curiosidade girava a chave na fechadura de vez em quando,
enquanto h�spedes iam e vinham.
Ele tinha tido tudo s� para si, ou quase, por tantas semanas, pensou, que poderia achar o barulho e a algazarra irritantes. Em vez disso, era agrad�vel, como
a pr�pria pousada, colorida como as flores que come�avam a desabrochar no jardim de Brianna, brilhante como aqueles preciosos primeiros dias de primavera.
Quando ele n�o sa�a do quarto, encontrava sempre uma bandeja ao lado da porta. E, quando sa�a, sempre havia comida e alguma nova companhia na sala. Muitos
ficavam s� uma noite, o que lhe agradava. Gray preferia sempre contatos r�pidos, descomplicados.
Mas, uma tarde, ele desceu, est�mago roncando, e encontrou Brianna no jardim da frente.
- Estamos sozinhos?
Ela lan�ou um olhar por baixo da aba do chap�u de jardim. - Sim. Por um dia ou dois. Quer comer alguma coisa?
- Posso esperar voc� terminar. O que est� fazendo?
- Plantando. Quero amores-perfeitos aqui. Eles sempre parecem t�o arrogantes e convencidos. - Sentou-se nos calcanhares. - Ouviu o cuco cantando, Grayson?
- Um rel�gio?
- N�o. - Riu e bateu de leve a terra em volta das ra�zes. - Ouvi o cuco cantar quando caminhei com Con de manh� cedo, o que quer dizer tempo bom. E havia duas
pegas chilreando, o que significa prosperidade. - Curvou-se de volta ao trabalho. - Ent�o, talvez outro h�spede encontre o caminho daqui.
- Supersticiosa, Brianna. Voc� me surpreende.
- N�o vejo por qu�. Ah, o telefone! Uma reserva.
- Eu atendo. - Como j� estava de p�, chegou primeiro ao telefone da sala. - Blackthorn Cottage. Arlene? Sim, sou eu. Como vai, linda?
Franzindo os l�bios, Brianna deteve-se junto da porta, limpando as m�os no pano que enfiara no c�s da cal�a.
- Penduro meu chap�u em qualquer lugar - ele respondeu, quando ela perguntou se estava se sentindo em casa na Irlanda. Quando viu que Brianna j� ia saindo
da sala, levantou a m�o em um convite. - Que tal Nova York? - Viu Brianna hesitar e voltar. Gray entrela�ou os dedos nos dela e come�ou a acarinhar. - N�o, n�o esqueci
que est� chegando. N�o tenho pensado muito. A inspira��o � que me leva, querida. - Enquanto Brianna tentava livrar-se dele com a cara franzida, ele apenas ria e
a mantinha presa.
- Fico contente de ouvir isso. Qual � o neg�cio? - Parou, ouvindo e sorrindo diante dos olhos de Brianna. - � generoso, Arlene, mas voc� sabe como me sinto
sobre comprometimentos por longo tempo. Quero um de cada vez. Como sempre.
Enquanto ouvia, entre grunhidos de concord�ncia e "hummms" de interesse, apertava o pulso de Brianna. N�o fazia mal ao ego dele sentir o pulso dela saltando.
- Parece mais do que bom para mim. Claro, enrole os brit�nicos um pouco mais, se acha que pode. N�o, n�o tenho lido o London Times. Verdade? Isto � bom, n�o
�? N�o, n�o estou sendo esnobe. � �timo! Obrigado. Eu... o qu�? Um fax? Aqui? - Riu abafado, inclinou-se e deu um beijo r�pido e amistoso na boca de Brianna. - Obrigado
por tudo, Arlene. N�o, mande mesmo pelo correio, meu ego pode esperar. Para voc� tamb�m. Manterei contato.
Despediu-se e desligou ainda com a m�o de Brianna presa na dele.
Quando ela falou, o gelo na voz baixou a temperatura da sala em torno de dez graus.
- N�o acha que � uma grosseria ficar namorando uma mulher ao telefone e beijando outra?
A express�o dele, j� divertida, iluminou-se ainda mais.
- Voc� est� com ci�me, querida?
- Claro que n�o.
- S� um pouquinho. - Tomou a outra m�o dela antes que pudesse escapar e levou-a aos l�bios. - Ora, isto � um progresso. S� odeio ter que dizer a voc� que estava
falando com minha agente, que, embora seja importante para o meu cora��o e meu tal�o de cheques, � vinte anos mais velha do que eu e uma orgulhosa vov� de tr�s netos.
- Ah! - Odiava sentir-se idiota quase tanto quanto odiava ter ci�me. - Acho que voc� vai querer comer algo agora.
- Pelo menos dessa vez, comida � a �ltima coisa que passa pela minha cabe�a. - O que havia nela estava muito claro nos olhos dele, quando a puxou para mais
perto. - Voc� est� realmente atraente neste chap�u.
Ela virou a cabe�a justo a tempo de evitar a boca dele. Os l�bios apenas tocaram sua face.
- Eram boas not�cias, ent�o, a liga��o dela?
- Muito boas. Meu editor gostou da mostra dos cap�tulos que mandei duas semanas atr�s e fez uma proposta.
- Que bom! - Ele parecia bastante faminto pelo jeito como mordiscava a orelha dela. - Voc� ent�o vende os livros antes de escrev�-los, como um contrato.
- N�o todos ao mesmo tempo. Faz eu me sentir numa gaiola. - Tanto que acabei de dispensar uma proposta espetacular para um projeto de tr�s novelas. - Negocio
um de cada vez e, com Arlene na retaguarda, negociamos bem.
Um calor se espalhava no est�mago dela, enquanto ele explorava calmamente seu pesco�o.
- Cinco milh�es, voc� me falou. N�o consigo nem imaginar quanto � isso.
- N�o desta vez. - Ele contornou seu queixo. - Arlene subiu para seis ponto cinco.
Aturdida, ela recuou.
- Milh�es? D�lares americanos?
- Soa como monop�lio, n�o �? - Riu. - Ela n�o est� satisfeita com a proposta brit�nica, e como meu livro atual est� firme em primeiro lugar na lista do London
Times, ela est� fazendo uma press�ozinha. - Distraidamente, ele a abra�ou pela cintura, apertou os l�bios na sobrancelha dela, na t�mpora. Sticking Point estr�ia
em Nova York no pr�ximo m�s.
- Estr�ia?
- �... O filme. Arlene acha que eu deveria ir para apremiere.
- Do seu pr�prio filme? Claro que deve.
- N�o existe "deve". Parecem coisas t�o antigas. Agora o que est� valendo � Flashback.
Seus l�bios ro�aram os cantos da boca de Brianna, e sua respira��o come�ou a ofegar.
- Flashback!
- O livro que estou escrevendo agora. � o �nico que importa. - Os olhos dele se estreitaram, perderam o foco. - Ele tem que encontrar o livro. Droga! Como
pude n�o perceber isso? � a coisa toda! - Recuando, enfiou uma m�o nos cabelos. - Depois que encontrar, n�o ter� escolha, ter�? � o que o faz pessoal!
Cada nervo do corpo dela se agitava ao contato dos l�bios dele.
- De que est� falando? Qual livro?
- O di�rio de Deliah. � o que liga o passado ao presente. N�o haver� sa�da depois de l�-lo. Ter�... - Gray sacudiu a cabe�a, como um homem entrando ou saindo
de um transe. - Tenho que voltar ao trabalho.
Ele estava no meio das escadas e o cora��o de Brianna ainda batia estupidamente.
- Grayson?
- O qu�?
J� estava imerso no pr�prio mundo, ela notou, dividido entre pra-zer e irrita��o. A impaci�ncia brilhava em seus olhos, olhos que ela duvidava que a estivessem
vendo.
- Quer comer alguma coisa?
- Deixe uma bandeja quando puder. Obrigado. Foi-se.
Bem... Brianna colocou as m�os nos quadris e tratou de rir para si mesma. O homem quase a seduzira e nem sabia disso. Desligado, foi embora com Deliah e seu
di�rio, assassinato e mutila��es, deixando-a palpitando como um rel�gio descompassado.
Melhor assim, pensou. Todos aqueles beijos e mordiscadas a tinham deixado fraca. Que tolice sentir-se assim por causa de um homem que iria embora de sua casa
e de seu pa�s t�o negligentemente como sa�a de sua sala.
Mas aquilo a fez pensar como seria, enquanto caminhava para a cozinha. Como seria ter toda aquela energia, toda aquela aten��o, toda aquela habilidade focada
somente nela. Mesmo que por pouco tempo. Mesmo que s� por uma noite.
Saberia ent�o, n�o saberia? Como seria dar prazer a um homem? E receb�-lo? A solid�o poderia ser amarga depois, mas o momento poderia ser m�gico.
Poderia... S�o muitos "poderia", resignou-se, e foi preparar um generoso prato de cordeiro frio e croquetes de queijo para Gray. Levou a bandeja at� o quarto
dele sem dizer uma palavra sequer.
Ele n�o tomou conhecimento dela, nem ela esperava isso agora. N�o quando ele estava debru�ado sobre o laptop, olhos fixos, os dedos �geis. Apenas resmungou
quando ela serviu o ch� e deixou uma x�cara ao lado de seu cotovelo.
Quando ela se pegou sorrindo e percebeu um forte desejo de correr a m�o naqueles ador�veis cabelos com pontas de ouro, decidiu que era uma boa hora de ir at�
Murphy e pedir que consertasse seu carro.
O exerc�cio ajudou a aliviar a tens�o nervosa do desejo. Era sua esta��o favorita do ano, a primavera, quando os p�ssaros cantavam, as flores brotavam e as
colinas brilhavam t�o verdes que a garganta se apertava s� de olhar para elas.
A luz era dourada e o ar t�o claro que podia ouvir o put-put do trator de Murphy, dois campos adiante. Encantada pelo dia, levantou a cesta que carregava e
cantou para si mesma. Enquanto pulava um murinho de pedras, sorriu para o potrinho que mamava avidamente, enquanto a m�e comia grama. Parou um momento para admirar,
mais alguns instantes para afagar a mam�e e o beb�, e continuou a caminhar.
Talvez fosse at� a casa de Maggie depois de ver Murphy. Faltavam poucas semanas para o beb� chegar. Algu�m precisava cuidar do jardim de Maggie, aguar um pouco.
Rindo, parou, curvando-se quando Con correu pelo campo em sua dire��o.
- Ajudando na fazenda ou s� ca�ando coelhos? N�o, isto n�o � seu - falou, erguendo a cesta, enquanto o cachorro farejava em volta. - Mas tenho um bom osso
em casa esperando por voc�. - Ouvindo o cumprimento de Murphy, ela levantou-se e acenou para ele.
Ele desligou o trator, saltando dele, enquanto caminhava pela terra rec�m-arada.
- �timo dia para plantar, n�o �?
- Maravilhoso - concordou e olhou para a cesta. - O que tem a�, Brie?
- Um suborno.
- Ah, sou duro na queda.
- Bolo de f�cula.
Ele fechou os olhos e soltou um suspiro exagerado.
- Sou todo seu.
- Assim que se fala. - Mas segurou a cesta torturantemente fora de seu alcance.
- � meu carro outra vez, Murphy. Agora ele parecia aflito.
- Brianna, querida, j� est� na hora de enterr�-lo. O tempo passou.
- N�o pode apenas dar uma olhadinha? Ele olhou para ela, depois para a cesta.
- O bolo � todo pra mim?
- Cada farelo.
- Fechado. - Pegou a cesta, colocando-a no assento do trator. - Mas estou avisando: vai precisar de um novo carro antes do ver�o.
- Ent�o vou ficar precisando mesmo. Meu cora��o est� todo na estufa, ent�o o carro vai ter que ag�entar um tiquinho mais. Teve tempo de ver meus desenhos para
a estufa, Murphy?
- Tive. D� pra fazer sim. - Aproveitando a pausa no trabalho, acendeu um cigarro. - Fiz s� alguns ajustes.
- Voc� � um amor, Murphy. - Rindo, beijou as faces dele.
- � o que todas as garotas me dizem. - Afastou um cacho de cabelo da testa. - O que seu ianque iria pensar se visse voc� me paquerando bem aqui na minha terra,
hein?
- Ele n�o � meu ianque. - Ela se moveu. Mexeu-se enquanto Murphy apenas levantava a sobrancelha. - Voc� gosta dele, n�o gosta?
- Dif�cil n�o gostar. Ele est� perturbando voc�, Brianna?
- Um pouquinho, talvez. - Suspirou, desistindo. N�o havia nada em seu cora��o que n�o pudesse contar a Murphy. - Na verdade, muito. Eu gosto dele. N�o sei
o que fazer com isto, mas gosto muito dele. � diferente do que era com Rory.
� men��o desse nome, Murphy franziu a testa e fitou a ponta do cigarro.
- Rory n�o merece um s� pensamento seu.
- N�o perco tempo pensando nele, mas agora, com Gray, veio tudo de novo, entende? Murphy... voc� sabe que ele ir� embora. Como Rory foi. - Olhou para longe.
Podia falar aquilo, Brianna pensou, mas n�o podia lidar com a compaix�o nos olhos de Murphy, quando falava. - Tento entender, aceitar. Digo a mim mesma que ser�
mais f�cil, que pelo menos saberei por qu�. Sem saber, em toda a minha vida com Rory, o que estava faltando em mim...
- N�o falta nada em voc� - Murphy falou bruscamente. - Tire isso da cabe�a.
- J� tirei... ou quase. Mas eu... - Desarmada, ela voltou-se e fitou as colinas. - Mas o que h� comigo ou falta em mim que faz um homem ir embora? Ser� que
exijo muito dele ou n�o o suficiente? Haver� uma frieza em mim que os congela?
- N�o h� nada de frio em voc�. Pare de se culpar pela crueldade de outro.
- Mas tenho s� a mim mesma para questionar. J� faz dez anos. E esta � a primeira vez que me sinto assim abalada. E � assustador porque n�o sei como enfrentaria
outra decep��o. Ele n�o � Rory, eu sei, e mesmo...
- N�o, ele n�o � Rory. - Furioso por v�-la t�o perdida, t�o infeliz, Murphy jogou fora o cigarro, amassando-o na terra. - Rory era um idiota, incapaz de ver
o que tinha, dando ouvidos a quaisquer mentiras. Devia agradecer a Deus por ele ter ido embora.
- Que mentiras?
Uma chama agitou os olhos de Murphy, que logo se acalmaram.
- Qualquer uma. J� est� no final do dia, Brie. Verei seu carro amanh�.
- Que mentiras? - Segurou o bra�o dele. Havia um zumbido em seus ouvidos, um aperto no est�mago. - O que voc� sabe a esse respeito, Murphy, que nunca me contou?
- O que eu poderia saber? Rory e eu nunca fomos amigos.
- N�o, n�o foram - ela falou lentamente. - Ele nunca gostou de voc�. Tinha ci�me porque �ramos chegados. N�o conseguia entender que voc� era como um irm�o
para mim. - Ela continuou, sem tirar os olhos de Murphy. - Umas duas vezes, chegamos a discutir por causa disso, e ele reclamou que eu era muito pr�diga em beijos,
quando eram para voc�.
Algo perpassou no rosto de Murphy, antes que ele pudesse controlar.
- Bem, n�o disse a voc� que ele era um idiota?
- Falou alguma coisa a ele sobre isso? Ele disse alguma coisa para voc�? - Ela esperou, at� que o desalento que crescia em seu cora��o a dominou por completo.
- Voc� vai me contar, Murphy, por Deus que vai. Tenho o direito de saber. Chorei at� minha �ltima l�grima por causa dele, sofri com os olhares de compaix�o de todos
os que conhecia. Vi sua irm� se casar com o vestido que fiz com minhas pr�prias m�os. H� dez anos sinto um enorme vazio dentro de mim.
- Brianna.
- Voc� vai me dizer. - Decidida, ela o encarou. - Posso ver que voc� tem uma resposta. Se � meu amigo, vai me dizer.
- N�o � justo.
- Duvidar de mim mesma todo esse tempo � mais justo?
- N�o quero magoar voc�, Brianna. - Gentilmente, ele acariciou o rosto dela. - Preferiria cortar um bra�o a ter que magoar voc�.
- Se souber, vou sofrer menos.
- Talvez. Talvez. - Ele n�o podia saber, nunca soubera. - Maggie e eu achamos...
- Maggie? - ela o cortou surpresa. - Maggie tamb�m sabe? Ah, estava perdido agora, percebeu. E n�o tinha outra sa�da, a n�o ser entregar todo mundo.
- O amor dela por voc� � t�o forte, Brianna. Ela faria qualquer coisa para proteger voc�.
- Vou lhe dizer o que digo sempre para ela. N�o preciso de prote��o. Conte-me o que voc� sabe.
Dez anos, ele pensou, era um longo tempo para um homem honesto guardar um segredo. Dez anos eram longos tamb�m para uma mulher inocente suportar a culpa.
- Ele veio me procurar um dia, quando eu estava trabalhando aqui no campo. E me agrediu inesperadamente. Como n�o gostava muito dele, eu parti pra cima tamb�m.
Mas n�o posso dizer que fazia aquilo de cora��o, at� ele dizer o que disse. Afirmou que voc� tinha andado... comigo.
Aquilo ainda o embara�ava e, sob o embara�o, descobriu a mesma raiva aguda que n�o diminu�ra com o tempo.
- Disse que o hav�amos feito de bobo, pelas costas, e que n�o se casaria com uma prostituta. Dei um soco na cara dele por isso. - Murphy falava com raiva,
os punhos bem cerrados ante a lembran�a. - N�o sinto ter feito aquilo. Tamb�m teria quebrado seus ossos, mas ele me disse que tinha ouvido aquilo da boca de sua
pr�pria m�e. Que voc� tinha transado comigo e que provavelmente estaria gr�vida de mim.
Ela estava mortalmente p�lida agora, com o cora��o petrificado.
- Minha m�e disse isso a ele?
- Ela disse... que n�o poderia, em s� consci�ncia, deix�-lo casar na igreja, quando voc� tinha pecado comigo.
- Ela sabia que eu n�o tinha... - sussurrou. - Sabia que n�s n�o t�nhamos...
- S� ela sabe o que a fez dizer isso ou acreditar nisso. Maggie apareceu quando eu estava me lavando e contei a ela, antes que tivesse tempo de pensar melhor.
A princ�pio, achei que ela fosse acertar as contas com Maeve com os pr�prios punhos, e tive que segur�-la at� que se acalmasse um pouco. Conversamos e ela achava
que Maeve tinha feito aquilo para manter voc� em casa.
Ah, sim, Brianna pensou. Uma casa que nunca tinha sido um verdadeiro lar.
- E eu cuidaria dela, da casa e de papai.
- N�s n�o sab�amos o que fazer, Brianna. Juro que eu teria arrastado voc� do altar, se voc� fosse em frente e tentasse se casar com aquele miser�vel, idiota.
Mas ele fugiu no dia seguinte, e voc� estava sofrendo tanto. N�o tive coragem, nem Maggie, de contar a voc� o que ele tinha dito.
- N�o teve coragem. - Ela apertava os l�bios. - O que voc� n�o tinha, Murphy, nem voc� nem Maggie, era o direito de esconder isso de mim. Voc� n�o tinha o
direito, assim como minha m�e n�o tinha o direito de dizer tais coisas.
- Brianna.
Ela afastou-se num rompante antes que ele pudesse toc�-la.
- N�o, n�o! N�o posso falar com voc� agora. N�o posso falar com voc�. - Voltou-se e correu.
N�o chorou. As l�grimas haviam congelado em sua garganta e ela se recusava a deix�-las correr. Atravessou os campos sem nada enxergar, envolta pela n�voa atordoante
de tudo o que acontecera. Ou quase acontecera. Toda a inoc�ncia fora despeda�ada agora. Todas as ilus�es reduzidas a p�. Sua vida era feita de mentiras. Uma vida
concebida na mentira, alimentada de mentiras.
Quando chegou em casa, sufocava os solu�os. Parou, apertando os punhos at� que as unhas se enterrassem na carne.
Os p�ssaros ainda cantavam e as tenras flores jovens, que ela mesma plantara, dan�avam na brisa. Mas ela nem percebeu. S� via a si mesma, chocada e aterrorizada,
quando as m�os de Rory a atiraram ao ch�o. Depois de todos esses anos, ainda podia ver a perplexidade que a dominou ao olhar para ele e perceber raiva e desgosto
em seu rosto, antes que se virasse, deixando-a para sempre.
Fora marcada como uma prostituta, n�o fora? Por sua pr�pria m�e. Pelo homem que amara. Que grande piada, logo ela que nunca sentira o peso do corpo de um homem.
Com toda a calma abriu a porta e fechou-a atr�s de si. Ent�o seu destino fora decidido em nome dela naquela manh�, muito tempo atr�s. Bem, agora, naquele mesmo
dia, ela teria seu destino nas pr�prias m�os.
Deliberadamente subiu as escadas, abriu a porta de Gray e a fechou �s suas costas.
- Grayson?
- H�?
- Voc� me deseja?
- Claro. Mais tarde. - Ele levantou a cabe�a, os olhos emba�ados. - O qu�? O que voc� disse?
- Voc� me deseja? - ela repetiu. O corpo t�o tenso quanto a pergunta. - Voc� disse que me desejava e agiu como se me desejasse.
- Eu... - Fez um esfor�o sobre-humano para arrancar-se do mundo imagin�rio at� a realidade. Ela estava terrivelmente p�lida, percebeu, e seus olhos tinham
um brilho gelado. Ela estava machucada. - Brianna, o que est� acontecendo?
- Uma pergunta simples. Agradeceria por uma resposta.
- Claro que desejo voc�. O que... que diabos est� havendo? - Levantou-se da cadeira num salto, boquiaberto, quando ela come�ou a desabotoar a blusa rapidamente.
- Pare! Pelo amor de Deus, pare com isso agora!
- Voc� disse que me desejava. Estou fazendo o que voc� quer.
- Eu disse pare. - Em tr�s passadas estava arrancando a blusa dela tamb�m. - O que deu em voc�? O que aconteceu?
- Nada demais. - Percebeu que come�ava a tremer e esfor�ou-se para disfar�ar. - Voc� tem tentado me persuadir a ir para a cama, agora estou pronta. Se n�o
pode perder tempo agora, basta dizer. - Seus olhos brilharam. - Estou acostumada a ser rejeitada.
- N�o � uma quest�o de tempo...
- Bem, ent�o... - Afastou-se para arrumar a cama. - Voc� prefere as cortinas abertas ou fechadas? Para mim, tanto faz.
- Deixe essas malditas cortinas! - O modo cuidadoso como ela dobrava as cobertas atingiu-o como sempre. O est�mago contraiu-se sob as garras do desejo. - N�o
vamos fazer nada disso.
- Ent�o, voc� n�o me deseja. - Quando se endireitou, a blusa se abriu, dando a ele uma torturante vis�o da pele p�lida e do impec�vel algod�o branco.
- Voc� est� me matando - ele murmurou.
- �timo. Vou deix�-lo morrer em paz. - Com a cabe�a erguida, marchou at� a porta. Num gesto r�pido com as m�os, ele a manteve fechada.
- Voc� n�o vai a lugar algum antes de me falar o que est� acontecendo.
- Nada, parece, ao menos com voc�. - Encolheu-se contra a porta, esquecendo-se agora de controlar a respira��o para manter a voz livre da dor que a desarticulava.
- Com certeza deve haver um homem em algum lugar que a qualquer momento aparecer� para me proporcionar prazer.
Ele mostrou os dentes.
- Voc� est� me aborrecendo.
- Ah, � mesmo, que pena! Mil desculpas. � uma pena que eu tenha incomodado voc�. Apenas achei que voc� cumpriria o que disse. O problema sou eu, n�o �? - murmurou,
as l�grimas brilhando nos olhos. - Estou sempre acreditando.
Teria de lidar com as l�grimas, Gray pensou, ou com qualquer crise emocional por que ela estivesse passando, sem toc�-la.
- O que aconteceu?
- Descobri. - Os olhos n�o eram frios agora, mas devastados e desesperados. - Descobri que nunca houve um homem que tivesse me amado. Nunca me amou, realmente.
E que minha pr�pria m�e mentiu, mentiu odiosamente, para afastar de mim at� mesmo aquela pequena chance de felicidade. Ela disse a ele que eu havia dormido com Murphy,
contou isso a ele, e que eu podia estar gr�vida dele. Como poderia casar comigo acreditando nisso? Como ele p�de acreditar nisso, se me amava?
- Pare um instante. - Ele esperou que a torrente de palavras dela fizesse sentido em sua cabe�a. - Est� dizendo que sua m�e disse ao cara que ia casar com
voc�, esse Rory, que voc� tinha feito sexo com Murphy e podia estar gr�vida?
- Ela disse isso a ele para eu n�o sair de casa. - Inclinando-se para tr�s, fechou os olhos. - Esta mesma casa, como era ent�o. E ele acreditou. Acreditou
que eu pudesse ter feito aquilo, acreditou, ent�o nem chegou a me perguntar se era verdade. S� disse que n�o me queria e se foi. E todo esse tempo, Maggie e Murphy
sabiam e esconderam isso de mim.
V� com calma, Gray avisou a si mesmo. Areia movedi�a emocional
- Escute, estou fora dessa situa��o, e diria, como um observador profissional, que sua irm� e Murphy ficaram de boca fechada para evitar que voc� sofresse
mais do que j� estava sofrendo.
- Era minha vida, n�o era? Voc� sabe o que � n�o saber por que n�o � desejado, passar a vida apenas sabendo que n�o � desejado, mas sem saber por qu�?
Sim, ele sabia, muito bem. Mas imaginou que esta n�o era a resposta que ela desejava.
- Ele n�o merecia voc�. Isto devia lhe dar alguma satisfa��o.
- N�o d�. N�o agora. Achei que voc� me mostraria.
Recuou cautelosamente, enquanto o ar lhe bloqueava os pulm�es. Uma linda mulher, desde o primeiro instante. Inocente. Oferecendo-se.
- Voc� est� perturbada. - Esfor�ou-se por falar com firmeza. - N�o est� pensando com clareza. E tanto quanto isto me fa�a sofrer, h� regras.
- N�o quero desculpas.
- Voc� quer um substituto. - A viol�ncia abrupta da afirmativa surpreendeu os dois. N�o percebeu que aquele germezinho estava em sua cabe�a. Mas o expulsou,
enquanto crescia. - N�o sou nenhum duble para um desgra�ado que desprezou voc� dez anos atr�s. O passado j� era, entendeu? Ent�o, bem-vinda � realidade. Quando levo
uma mulher para a cama, ela vai pensar em mim, s� em mim.
A pouca cor que tinha voltado ao rosto dela desapareceu.
- Sinto muito. N�o quis dizer isso, n�o pretendia que fosse assim.
- � exatamente o que parece, porque � exatamente o que �. Recomponha-se - ordenou, morrendo de medo que ela come�asse a chorar outra vez. - Quando souber o
que quer, me diga ent�o.
- Eu s�... precisava sentir que, de algum modo, voc� me deseja. Pensei... queria ter alguma coisa para lembrar. Apenas uma vez, saber como � ser tocada por
um homem de quem eu gostasse. - A cor voltou, a humilha��o tingindo-lhe as faces enquanto Gray a fitava. - N�o tem problema. Eu sinto muito por tudo isso.
Abriu a porta num rompante e desapareceu.
Sentia muito, Gray pensou, fitando o espa�o onde ela estivera. Podia at� sentir o ar vibrar no seu lugar.
Muito bom, cara, pensou desgostoso, enquanto come�ava a andar pelo quarto. �timo servi�o. Sempre ajuda bater em algu�m que est� por baixo.
Mas, droga! Ela fizera com que se sentisse como dissera a ela. Um substituto conveniente para um amor perdido. Estava infeliz por ela ter de enfrentar aquele
tipo de trai��o, aquele tipo de rejei��o. N�o havia nada que ele entendesse melhor. Mas ele conseguira se recuperar, n�o � verdade? Ela tamb�m conseguiria. Ela tamb�m.
Ela desejava ser tocada. Precisava apenas ser consolada. Com a cabe�a latejando, andou at� a janela e voltou. Ela o desejava... um pouco de compaix�o, um pouco
de compreens�o. Um pouco de sexo. E ele a tinha mandado embora.
Exatamente como o famoso Rory.
O que esperavam que ele fizesse? Como poderia t�-la levado para a cama, com toda aquela dor, medo e confus�o fervendo em torno dela? Ele n�o precisava das
complica��es de outras pessoas.
Ele n�o queria outras pessoas.
Ele queria ela.
Como se fizesse um juramento, encostou a cabe�a no vidro da janela. Poderia escapar daquilo tudo. Nunca tivera problemas para escapar de algo. Bastava sentar-se,
pegar os fios de sua hist�ria e mergulhar nela.
Ou... ou poderia tentar alguma coisa que talvez afugentasse a frustra��o do ar, para ambos.
O segundo impulso era mais atraente, muito mais atraente, embora bem mais perigoso. Caminhos seguros eram para covardes, disse a si mesmo. Pegando as chaves,
desceu as escadas e saiu da casa.





S
e havia alguma coisa que Gray sabia fazer com estilo, era criar cen�rios. Duas horas depois de ter sa�do de Blackthorn Cottage, estava de volta a seu quarto dando
os toques finais nos detalhes. N�o pensara muito depois do primeiro passo. Algumas vezes era mais s�bio - e certamente mais seguro - n�o demorar, imaginando como
a cena podia transcorrer ou o cap�tulo acabar.
Ap�s uma �ltima olhada no ambiente, balan�ou a cabe�a em tom de aprova��o e desceu as escadas para encontr�-la.
- Brianna.
Ela n�o se voltou da pia, onde meticulosamente cobria um bolo com glac� de chocolate. Estava mais calma agora, mas n�o menos envergonhada de seu comportamento.
Horrorizara-se mais de uma vez nas �ltimas duas horas pelo modo como se atirara para ele. Atirara-se, lembrava outra vez, e n�o fora aceita.
- Sim, o jantar est� pronto - disse calmamente. - Vai querer aqui embaixo?
- Preciso que voc� v� l� em cima.
- Tudo bem. - Era grande o al�vio por ele n�o pedir uma aconchegante refei��o na cozinha. - S� vou preparar uma bandeja para voc�.
- N�o. - Colocou a m�o no ombro dela, sentindo-se constrangido quando sentiu seus m�sculos tensos. - Preciso que voc� suba comigo.
Bem, teria de enfrent�-lo, mais cedo ou mais tarde. Secando cuidadosamente as m�os no avental, ela se virou. N�o percebeu qualquer condena��o no rosto dele
ou a raiva que atirara sobre ela antes. Mas isso n�o ajudava muito. - H� algum problema?
- Venha e voc� me dir�.
- Tudo bem.
Seguiu-o. Deveria desculpar-se outra vez? N�o tinha certeza. Melhor seria fingir que nada fora dito. Deixou escapar um suspiro quando se aproximaram do quarto
dele. Ah, s� esperava que n�o fosse nada, como o encanamento. A despesa, justo agora, iria...
Esqueceu-se do encanamento t�o logo entrou. Esqueceu tudo.
Havia velas colocadas em todos os lugares, a luz suave tremeluzin-do como ouro derretido contra o crep�sculo cinza do quarto. Flores emergiam de meia d�zia
de vasos, tulipas e rosas, fr�sias e lilases. Num balde de prata descansava uma garrafa de champanhe gelada, ainda fechada. M�sica vinha de algum lugar. Harpa. Ela
olhou, confusa, para o micro system sobre a escrivaninha.
- Gosto das cortinas abertas - ele disse.
Brianna cruzou as m�os sob o avental onde s� ela saberia que estavam tremendo.
- Por qu�?
- Porque a gente nunca sabe quando vai ter a luz da lua. Os l�bios dela se curvaram, muito levemente.
- N�o, quis dizer por que voc� fez tudo isto?
- Para fazer voc� sorrir. Dar a voc� tempo para decidir se � o que realmente quer. Para ajudar a persuadir voc� de que �.
- Teve tanto trabalho. - Os olhos deslizaram para a cama. Ent�o se voltaram nervosamente para o vaso de rosas. - N�o devia. Fiz voc� se sentir obrigado a isso.
- Por favor. N�o seja idiota. A escolha � sua. - Mas se aproximou dela, tirou o primeiro grampo de seus cabelos e deixou-o ao lado. - Quer que lhe mostre o
quanto a desejo?
- Eu...
- Achei que deveria mostrar, ao menos um pouquinho. - Tirou outro grampo, um terceiro, depois simplesmente enfiou as m�os entre os cabelos soltos. - Ent�o
voc� decide quanto quer dar.
A boca deslizou sobre a dela, carinhosa como ar, er�tica como pecado. Quando seus l�bios se abriram, ele deslizou a l�ngua entre eles, provocando a dela.
- Isto deve lhe dar uma id�ia. - Moveu os l�bios sobre seu queixo, subiu at� a t�mpora e voltou a mordiscar o canto da boca. - Diga que me quer, Brianna. Quero
ouvir voc� dizer isto.
- Quero. - N�o podia nem ouvir a pr�pria voz, apenas o rumor dela na garganta, onde a boca dele estava aninhada agora. - Desejo voc�. Gray, n�o consigo pensar.
Preciso...
- S� de mim. Voc� s� precisa de mim nesta noite. Eu s� preciso de voc�. - Seduzindo-a, deslizou as m�os suavemente pelas costas dela. - Deite-se comigo, Brianna.
- Ergueu-a no colo, embalando-a. - Quero levar voc� a tantos lugares...
Deitou-a na cama onde os len��is e a colcha tinham sido desdobrados como num convite. Os cabelos dela se espalharam como ouro em fogo sobre o linho claro,
suas ondas delicadas refletindo o brilho da luz dos candelabros. Em seus olhos transtornados a batalha entre d�vida e desejo.
O est�mago dele contra�a-se ao olhar para ela. De desejo, sim, mas tamb�m de medo.
Ele seria o seu primeiro. N�o importava o que acontecesse depois na vida dela, ela se lembraria daquela noite, e dele.
- N�o sei o que fazer. - Fechou os olhos, excitada, embara�ada, encantada.
- Eu sei. - Deitou-se ao lado dela. Mergulhou em sua boca mais uma vez. Ela tremia sob o corpo dele, o que fez com que um grande p�nico lhe desse um n� nas
entranhas. Se ele se movesse muito r�pido... E se se movesse muito lento... Para acalmar a ambos, separou os dedos dela, beijando-os um a um. - N�o tenha medo, Brianna.
N�o tenha medo de mim. N�o vou machucar voc�.
Mas ela estava com medo. E n�o apenas da dor que sabia que viria, junto com a perda da inoc�ncia. Estava com medo de n�o ser capaz de dar prazer e n�o conseguir
sentir a verdadeira realidade daquilo.
- Pense em mim... - murmurou, com um beijo ainda mais profundo, arrebatador. Se n�o fizesse nada mais al�m, jurou que exorcizaria o �ltimo fantasma do sofrimento
dela. - Pense em mim... -Quando repetiu isso, soube, de algum lugar escondido dentro dele, que precisava daquele momento tanto quanto ela.
T�o doce, ela pensou atordoada. Estranho que a boca de um homem pudesse ter um sabor assim t�o doce e ser t�o firme e macia ao mesmo tempo. Fascinada com o
gosto e a textura, percorreu os l�bios dele com a ponta da l�ngua e ouviu um ronronar calmo em resposta.
Um a um, seus m�sculos foram relaxando enquanto o sabor dele a inundava. E como era bom ser beijada assim, como se fosse durar para sempre. Como era bom sentir
o peso de seu corpo, as costas fortes, quando ousou deixar suas m�os correrem por elas.
Ele enrijeceu-se gemendo baixinho, quando as m�os hesitantes dela deslizaram por seus quadris. J� estava rijo e mexeu-se levemente, preocupado com o fato de
que pudesse assust�-la.
Lentamente, ordenou a si mesmo. Delicadamente.
Passou a al�a do avental sobre a cabe�a dela, desamarrou a da cintura e tirou-o. Os olhos dela se agitaram, os l�bios curvaram-se.
- Vai me beijar outra vez? - A voz era de mel, abafada agora, e quente. - Tudo se transforma em ouro, aos meus olhos, quando voc� me beija.
Encostou a cabe�a na dela e esperou um momento at� achar que podia fazer a gentileza que ela pedia. Ent�o tomou sua boca, engolindo o suspiro ador�vel e suave
que ela deixava escapar. Ela parecia dissolver-se embaixo dele, os tremores dando lugar � docilidade.
Nada mais sentia, a n�o ser a boca dele, aquela boca maravilhosa que festejava t�o suntuosamente na dela. Ent�o a m�o dele tocou sua garganta, como se testando
a velocidade do pulso que se agitou antes de ele cair sobre ela.
Ela n�o percebera que ele desabotoara sua blusa. Quando os dedos dele percorreram o suave volume do seio sob o suti�, os olhos dela se abriram. Os dele estavam
presos nos dela, com uma concentra��o t�o intensa que trouxe os tremores de volta. Ela come�ou a protestar, alguns murm�rios de recusa, mas o toque dele era t�o
sedutor, n�o mais que um afago dos dedos em sua carne.
Ela percebeu que n�o era nada assustador. Era delicado e t�o doce como o beijo. Quando ela ia relaxar novamente, os dedos sagazes deslizaram sob o algod�o
e encontraram o ponto sens�vel.
O primeiro suspiro dela rasgou-o por dentro - aquele som, a sensa��o de despertar do corpo dela, arquejando, em surpresa e prazer. Ele apenas a tocara, pensou,
enquanto seu sangue palpitava. Ela n�o tinha id�ia de quanto mais existia.
Deus, ele estava desesperado para lhe mostrar tudo.
- Relaxe. - Ele a beijou uma, duas vezes, enquanto os dedos continuavam a despert�-la, e a m�o livre dele explorando para vencer a barreira. - Apenas sinta.
N�o tinha escolha. As sensa��es a atravessaram, setas fininhas de prazer e de choque. A boca dele engolia os suspiros estrangulados, enquanto ele lhe tirava
as roupas, deixando-a nua at� a cintura.
- Deus, voc� � t�o linda! - Sua primeira vis�o daquela pele branca, os seios pequenos que cabiam t�o perfeitamente nas palmas das m�os dele quase o anularam.
Incapaz de resistir, baixou a cabe�a e os provou.
Ela gemeu, longa, profunda, roucamente. Os movimentos do corpo dela sob o dele eram puro instinto, e n�o projetados para deliberadamente dominar seu controle.
Ent�o ele a satisfez, gentilmente, e encontrou seu pr�prio prazer nascendo do dela.
A boca dele era quente. O ar estava bastante abafado. Cada vez que ele a puxava, empurrava, flu�a, havia uma resposta agitada na boca do est�mago dela. Uma
agita��o que crescia e crescia como alguma coisa perto demais da dor, perto demais do prazer, para separ�-los.
Ele sussurrava palavras docemente ador�veis que coloriam sua imagina��o como um arco-�ris. N�o importava o que dizia, teria dito a ele se pudesse. Nada importava,
desde que ele nunca, nunca parasse de toc�-la.
Tirou a pr�pria camisa pela cabe�a, ansiando por sentir carne contra carne. Quando se abaixou outra vez, ela murmurou algo, lan�ando os bra�os em torno dele.
Apenas suspirou de novo, quando a boca dele deslizou mais para baixo, pelas costas, pelas costelas. Sua pele esquentava, os m�sculos pulsando e tremendo sob
os l�bios e as m�os dele. Ele ent�o percebeu que ela estava perdida no t�nel escuro das sensa��es.
Cuidadosamente afrouxou a cal�a dela, expondo a carne nova, lentamente, explorando-a suavemente. Quando seus quadris se arquearam uma vez em inocente concord�ncia,
ele cerrou os dentes e lutou contra o desejo cortante de possu�-la, apenas possu�-la e saciar o desejo de seu corpo tenso.
As unhas dela se cravaram em suas costas, provocando um gemido de deleite secreto dele, enquanto as m�os desciam nos quadris dela. Percebeu que ela ficou tensa
outra vez e suplicou por for�as, a qualquer deus que o estivesse ouvindo.
- N�o at� que voc� esteja pronta - murmurou e voltou a pressionar pacientemente os l�bios sobre os dela. - Prometo. Mas quero ver voc�. Toda voc�.
Endireitou-se, ajoelhando. Havia medo nos olhos dela outra vez, embora seu corpo estivesse tremendo em desejos sufocados. Ele n�o conseguia firmar as m�os
ou a voz, mas as mantinha suaves.
- Quero tocar voc� toda. - Os olhos dele fitando os dela, enquanto ele tirava o jeans. - Toda.
Quando ele se despiu, o olhar dela foi atra�do inexoravelmente para baixo. E o medo dobrou. Sabia o que iria acontecer. Afinal, era filha de um fazendeiro,
ainda que um fazendeiro pobre. Haveria dor, sangue e...
- Gray...
- Sua pele � t�o suave. - Olhando-a, correu um dedo por sua coxa. - Ficava pensando como voc� seria, mas voc� � muito mais atraente do que imaginei.
Insegura, ela cruzou um bra�o sobre o seio. Ele deixou o bra�o l� e voltou de onde come�ara. Com beijos leves, lentos, embriagantes. E ent�o as m�os cuidadosas,
pacientes, habilidosas, que sabiam onde uma mulher gostaria de ser tocada. Mesmo quando a pr�pria mulher n�o o soubesse. Desamparadamente ela cedeu sob o corpo dele
outra vez, a respira��o se agitando r�pido, em arquejos, quando as m�os dele correram sobre o est�mago em dire��o ao terr�vel, glorioso calor.
Sim, ele pensou, lutando contra a excita��o.
- Abra para mim. Deixe-me. Apenas me deixe...
Ela estava �mida e quente onde ele a apalpava. Um gemido escapou da garganta dele, quando ela se retorceu e tentou resistir.
- Vamos, Brianna. Deixe-me possu�-la. Apenas deixe.
Estava agarrada � beira de um penhasco muito alto somente pelas pontas dos dedos. O terror a dominara. Estava escorregando, sem controle. Havia muitas coisas
acontecendo em seu corpo ao mesmo tempo para a sua carne ardente suportar. As m�os dele eram como tochas contra ela, queimando, desnudando-a impiedosamente, at�
que n�o tivesse outra escolha a n�o ser lan�ar-se no abismo do desconhecido.
- Por favor - solu�ou. - Oh, meu Deus, por favor.
Ent�o o prazer, aquela torrente fluida, inundou-a, roubando-lhe o ar, a mente, a vis�o. Por um momento glorioso, ficou cega e surda a tudo, exceto a si mesma,
aos choques aveludados que a dominavam.
Entregou-se �s m�os dele, fazendo-o gemer como algu�m que est� morrendo. Ele estremeceu como ela. Ent�o, com o rosto enterrado na pele dela, levou-a �s alturas
outra vez.
Vencendo a cadeia do seu pr�prio controle, esperou que ela atingisse o m�ximo prazer.
- Abrace-me. Abrace-me - murmurou, tonto com o pr�prio desejo enquanto lutava para deslizar gentilmente dentro dela.
Ela era t�o pequena, t�o mi�da, t�o deliciosamente quente. Usou cada fragmento de for�a de vontade que lhe sobrara para n�o arremeter gulosamente dentro dela,
quando a sentiu pr�xima.
- S� um segundo - prometeu a ela. - S� um segundo, e ser� bom de novo.
Mas ele se enganara. Nunca deixou de ser bom. Sentiu-o romper a barreira de sua inoc�ncia, preench�-la com ele mesmo, e n�o sentiu nada, a n�o ser felicidade.
- Amo voc�. - Ela arqueou-se para encontr�-lo, para receb�-lo. Ele ouviu as palavras vagamente, sacudiu a cabe�a para neg�-las.
Mas ela estava abra�ada a ele, levando-o a um po�o de bem-querer. E ele, desamparado, p�de apenas se afogar.

Voltar no tempo e no espa�o foi, para Brianna, como deslizar sem peso por uma nuvem fininha. Suspirou, deixando a gravidade branda lev�-la, at� que estava
de novo na cama antiga e grande, a luz dos candelabros flamejando vermelho e ouro em suas p�lpebras fechadas e o verdadeiramente incr�vel prazer do peso de Gray
pressionando-a contra o colch�o.
Pensou vagamente que nenhum livro que lera, nenhuma conversa que ouvira de outras mulheres, nenhum sonho acordado secreto poderia ter lhe ensinado o quanto
era simplesmente bom ter o peso de um homem nu sobre o seu.
O corpo dele era uma cria��o maravilhosa, mais bonita do que ela imaginara. Os longos bra�os musculosos eram fortes o bastante para levantarem-na, gentis o
bastante para ampar�-la, como se fosse um ovo vazio, facilmente quebr�vel.
As m�os, palmas largas, dedos longos, sabiam inteligentemente onde tocar e afagar. E havia ainda os ombros largos, as costas ador�veis, os quadris estreitos
descendo at� as coxas rijas, �s pernas firmes.
Rijo. Sorriu para si mesma. N�o era um milagre que algo t�o rijo, t�o firme e forte pudesse ser coberto com uma pele lisa e suave?
Ah, sem d�vida, pensou, o corpo de um homem era uma coisa gloriosa.
Gray sabia que, se ela continuasse o tocando, ficaria completamente louco. Se parasse, certamente se queixaria.
Aquelas lindas m�os-de-servir-ch� deslizavam sobre ele, sussurrando toques, explorando e desenhando seu corpo, como se ela estivesse memorizando cada m�sculo
e cada curva.
Estava ainda dentro dela, n�o suportaria afastar-se. Sabia que devia, devia acalmar-se e dar a ela tempo para se recompor. Por mais que tivesse se esfor�ado
para n�o machuc�-la, sempre havia algum desconforto.
Al�m disso, ele estava t�o contente - ela parecia t�o contente. Toda a tens�o que vibrava dentro dele ante o pensamento de possu�-la pela primeira vez - a
primeira vez dela - tinha se transformado numa felicidade pregui�osa.
Quando aquelas car�cias excitaram-no outra vez, ele for�ou a mover-se, apoiando-se nos cotovelos para olhar para ela.
Estava sorrindo. Ele n�o podia dizer por que achava aquilo t�o afetuoso, t�o perfeitamente atraente. Os l�bios dela se curvaram, os olhos calorosamente verdes,
a pele suavemente ruborizada. Agora, com aquele primeiro fluxo de desejos e nervos acalmados, ele podia desfrutar o momento, as luzes, as sombras, o prazer ondulante
da estimula��o.
Pressionou os l�bios na testa dela, em suas faces, em sua boca.
- Minha linda Brianna.
- Foi lindo para mim. - A voz era abafada, ainda enrouquecida pela paix�o. - Voc� tornou tudo muito bonito para mim.
- Como est� se sentindo agora?
Ele perguntava, ela pensou, tanto por delicadeza quanto por curiosidade.
- Fraca - respondeu. E com um riso r�pido: - Invenc�vel. Por que ser� que uma coisa t�o natural como esta pode fazer tal diferen�a numa vida?
As sobrancelhas dele se uniram e se abrandaram outra vez. Responsabilidade, pensou, isto era responsabilidade dele. Teve de lembrar-se que ela era uma mulher
adulta, e a escolha tinha sido dela.
- Sente-se confort�vel com esta diferen�a? Ela sorriu lindamente, a m�o tocando seu rosto.
- Esperei tanto por voc�, Gray.
O r�pido sinal de defesa interior acendeu-se. Mesmo impregnado dela, ardente, maldi��o!, ainda meio excitado, ele acendeu. V� com calma, advertiu uma parte
fria e controlada de sua mente. Alerta: Intimidade � Vista.
Ela viu a mudan�a nos olhos dele, um sutil mas perceptivo distanciamento, mesmo quando levou sua m�o ao rosto dele, virou-a para que os l�bios lhe pressionassem
a palma.
- Estou esmagando voc�.
Ela queria dizer "N�o, fique", mas ele j� sa�a dali.
- N�o tomamos o champanhe. - � vontade com a nudez, rolou para fora da cama. - Por que n�o toma um banho enquanto abro a garrafa?
Ela sentiu-se subitamente estranha e desconfort�vel, onde se sentira apenas natural com ele em cima e dentro dela. Agora tateava os len��is desajeitadamente.
- O len�ol - come�ou a falar, mas logo se calou, enrubescida. Sabia que estava manchado com sua inoc�ncia.
- Cuidarei disso. - Vendo-a enrubescer ainda mais, aproximou-se, compreensivo, da cama novamente e tomou o queixo dela entre as m�os. - Posso trocar os len��is,
Brie. E mesmo se n�o soubesse como antes, j� teria aprendido observando voc�. - A boca ro�ou a dela, a voz tornou-se mais rouca: - Sabe quantas vezes fiquei louco
s� de olhar voc� alisar e prender meus len��is?
- N�o. - Havia um lampejo de prazer e desejo. - Verdade? Ele apenas riu e encostou a testa na dela.
- Que boa a��o maravilhosa eu fiz para merecer isto? Conseguir voc�? - Recuou, mas seus olhos brilhavam outra vez, fazendo o cora��o dela bater lenta e pesadamente
contra as costelas. - V� tomar seu banho. Estou querendo fazer amor com voc�, de novo - falou, for�ando um sotaque que fez os l�bios dela se curvarem. - Se voc�
quiser.
- Quero sim. - Inspirou profundamente, preparando-se para levantar nua da cama. - Quero muito. N�o vou demorar.
Quando ela entrou no banheiro, ele suspirou profundamente. Para se equilibrar, disse a si mesmo.
Nunca tivera algu�m como ela. N�o era s� por nunca ter experimentado a inoc�ncia antes, e isso j� era muito. Mas ela era �nica para ele. As rea��es dela, aquela
hesita��o e avidez duelando entre si. Com a absoluta confian�a dela brilhando acima de tudo.
"Eu amo voc�", ela dissera.
N�o valia a pena pensar nisso. Na maioria dos casos, mulheres tendem a romantizar, misturar sexo com emo��es. Certamente uma mulher que experimentava sexo
pela primeira vez estaria inclinada a misturar desejo com amor. Mulheres usavam palavras e as exigiam. Sabia disso. Por isso, era muito cuidadoso quando escolhia
as suas.
Mas alguma coisa tinha jorrado dentro dele quando ela sussurrou aquela frase exagerada e mal empregada. Calor e desejo e, por um breve instante, s� uma batida
do cora��o, um desejo desesperado de acreditar. E de fazer eco �s suas palavras.
Sabia que, por mais que estivesse disposto a fazer tudo o que pudesse para n�o mago�-la, tudo para faz�-la feliz enquanto estivessem juntos, havia limites
para o que poderia dar a ela. Para qualquer um.
Aproveite o momento, lembrou a si mesmo. Aquilo era tudo. Esperava que pudesse ensin�-la a aproveitar os momentos tamb�m.


Sentiu-se estranha enquanto enrolava a toalha em volta do corpo, ap�s o banho. Diferente. Era algo que jamais poderia ser explicado a um homem, sup�s. Eles
n�o perdiam nada quando se entregavam pela primeira vez. N�o havia nada que se dilacerasse dentro deles pr�prios para receber o amor. Mas n�o se lembrava da dor,
nem a ard�ncia entre as coxas a fazia pensar na viol�ncia da invas�o. Era na uni�o que pensava. A doce e c�ndida liga��o do acasalamento.
Olhou-se no espelho emba�ado. Parecia quente, concluiu. Claro que era o mesmo rosto que ela olhara vezes incont�veis, em incont�veis espelhos. Mas n�o havia
ali uma ternura que nunca observara antes? Nos olhos, em torno da boca? O amor fizera isto. O amor que levava no cora��o, o amor que provara pela primeira vez em
seu corpo.
Talvez fosse apenas na primeira vez que uma mulher se sentisse t�o dona de si mesma, t�o despida de tudo, exceto corpo e alma. E talvez, por ela ser mais velha
do que a maioria, o momento fosse assim t�o mais avassalador e precioso.
Ele a desejava. Brianna fechou os olhos para sentir melhor aquelas longas, lentas ondas de prazer. Um homem bonito, com uma mente bonita e um cora��o generoso
a desejava.
Toda a vida sonhara em encontr�-lo. Agora o tinha.
Entrou no quarto e o viu. Colocara len��is limpos e deixara uma de suas camisolas de flanela branca nos p�s da cama. Estava de p� agora, os jeans desabotoados
soltos na cintura, champanhe borbulhando nos copos, candelabros brilhando nos olhos.
- Estou querendo que voc� a vista - falou, quando ela olhou para a camisola limpa e fora de moda. - Desde a primeira noite que fico pensando em tir�-la de
voc�. Vi voc� descendo as escadas, um casti�al numa das m�os, um c�o enorme na outra, e minha cabe�a come�ou a girar.
Ela segurou uma manga. Quanto desejou que fosse seda ou renda, ou alguma coisa que fizesse o sangue de um homem esquentar.
- N�o � nada muito sedutora.
- Est� enganada.
Como n�o tinha outra coisa e aquilo parecia agrad�-lo, deslizou a camisola sobre a cabe�a, deixando a toalha cair enquanto a flanela descia. O gemido abafado
dele a fez sorrir, em meio � incerteza.
- Brianna, que vis�o voc� �! Deixe a toalha - falou, quando ela se abaixava para peg�-la. - Venha c�, por favor.
Caminhou at� ele, o meio-sorriso no rosto e os nervos amea�ando engoli-la, ao pegar o copo que ele lhe estendia. Bebericou-o, descobrindo que o espumante em
nada aliviava sua garganta seca. Ela pensou que ele olhava para ela do jeito que um tigre olharia para um cordeiro, antes de se lan�ar sobre ele.
- Voc� n�o jantou - ela disse.
- N�o. - N�o a assuste, idiota!, avisou a si mesmo e resistiu ao desejo de devor�-la. Sorveu um gole lento de champanhe, olhando-a, querendo-a. - Estava mesmo
pensando que gostaria. Pensando que poder�amos comer aqui em cima, juntos. Mas agora... - Come�ou a enrolar no dedo um fio �mido dos cabelos dela. - Voc� pode esperar?
Ent�o seria simples assim novamente, ela pensou. E novamente escolha dela.
- Posso esperar o jantar. - Mal podia fazer as palavras atravessarem o calor em sua garganta. - Mas n�o posso esperar voc�.
Caminhou, quase naturalmente, para os bra�os dele.





U
m cotovelo nas costelas fez Brianna despertar, ainda meio grogue. A primeira vis�o da manh�, depois de uma noite de amor, foi o ch�o. Se Gray tomasse conta de mais
um cent�metro de cama, ela estaria nele.
Levou apenas alguns segundos, e um arrepio no ar frio da manh�, para perceber que n�o tinha sequer uma pontinha do len�ol ou cobertor sobre ela.
Gray, ao contr�rio, estava confortavelmente coberto ao lado dela, como uma mariposa num casulo.
Esparramado no colch�o, dormia feito morto. Gostaria de poder dizer que a posi��o aconchegada dele e o cotovelo alojado pr�ximo ao seu rim eram de um namorado,
mas estavam mais para a avareza. Suas tentativas de puxar a coberta e empurr�-lo n�o o fizeram mexer-se um mil�metro sequer.
Ent�o � assim que funciona, pensou. O homem, obviamente, n�o tinha o h�bito de dividir.
Poderia ter ficado para lutar por sua parte - apenas por princ�pios -, mas o sol j� brilhava nas janelas. E havia muito a fazer.
Seus esfor�os para escapar da cama em sil�ncio, a fim de n�o perturb�-lo, se mostraram desnecess�rios. No minuto em que seu p� tocou o ch�o, ele grunhiu, mexendo-se
para se apossar de sua pequena parte do colch�o.
Contudo, os res�duos de romance permaneciam no quarto. As velas escavaram a pr�pria cera durante a noite. A garrafa de champanhe estava vazia no balde de prata
e as flores perfumavam o ar. Cortinas abertas deixavam passar os raios de sol, em vez de raios de luar. Ele tornara tudo perfeito para ela, ela lembrou. Soubera
como fazer tudo perfeito.
Os acontecimentos da manh� n�o foram exatamente como imaginara. No sono, ele n�o parecia um menino inocente dormindo, mas um homem bem satisfeito consigo mesmo.
N�o houve car�cias ou murm�rios de "bom-dia" para celebrar o primeiro despertar juntos, como amantes. Apenas um rosnar e um empurr�o para coloc�-la no lugar.
Os muitos humores de Grayson Thane, ela ponderou. Talvez ela mesma pudesse escrever um livro sobre esse assunto.
Divertida, jogou a descartada camisola sobre a cabe�a e desceu as escadas.
Nada como uma doce x�cara de ch� para esquentar o sangue, decidiu. E como o c�u parecia promissor, lavaria algumas roupas e penduraria na corda para pegar
o ar da manh�.
Imaginou que seria bom arejar a casa e foi abrindo as janelas, enquanto caminhava. Pela sala, viu Murphy debru�ado sob o cap� de seu carro.
Observou-o um momento, as emo��es confusas. A raiva que tinha sentido dele duelava com lealdade e afei��o. A raiva j� estava diminuindo quando saiu e caminhou
pelo jardim.
- N�o esperava ver voc� - ela disse.
- Falei que daria uma olhada.
Olhou para tr�s. Ela estava de camisola, os cabelos desgrenhados da noite, p�s descal�os. Ao contr�rio de Gray, o sangue dele n�o inflamou. Para Murphy, ela
era apenas Brianna, e levou alguns instantes tentando identificar algum sinal de mau humor ou perd�o. N�o notou nada. Ent�o voltou a seu trabalho.
- O arranque est� ruim - ele resmungou.
- J� me disseram isso.
-O motor est� doente como um cavalo velho. Posso levar algumas pe�as para consertar. Mas seria colocar dinheiro bom em cima de ruim.
-Se desse para ag�entar durante o ver�o at� o outono... -
Brianna se deteve, enquanto ele praguejava com um suspiro. Ele simplesmente n�o podia ser frio com ela. Tinha sido seu amigo por toda a vida. E sabia que fora
por amizade que agira daquele jeito.
- Murphy, desculpe.
Ele endireitou-se e voltou-se para ela, os olhos revelando tudo o que sentia.
- A mim tamb�m. Nunca quis fazer voc� sofrer, Brie. Deus � testemunha disso.
- Eu sei. - Aproximou-se e passou os bra�os em torno dele. - N�o devia ter sido t�o grosseira, Murphy. N�o com voc�. Nunca com voc�.
- Voc� me assustou, admito. - Passou os bra�os firmes em volta dela. - Passei a noite preocupado... com medo de que voc� n�o me perdoasse, e nunca mais assasse
bolinhos para mim.
Ela riu como ele esperara. Sacudindo a cabe�a, beijou-o sob a orelha.
- Fiquei muito brava, mais com o fato do que com voc�. Sei que fez aquilo por carinho. E Maggie tamb�m. - Segura, com a cabe�a no ombro dele, Brianna fechou
os olhos. - Mas minha m�e, Murphy, por que agiu daquele jeito?
- N�o sei dizer, Brie.
- Voc� n�o diria mesmo. - Ela se afastou para examinar o rosto dele. Um homem t�o bonito, pensou, com toda essa bondade interior. N�o era justo pedir a ele
para condenar ou defender sua m�e. E queria v�-lo sorrir novamente. - Conte-me, Rory o machucou muito?
Murphy fez um ar de esc�rnio, coisa de homem, Brianna pensou.
- M�os fracas � o que ele tem, e nenhum estilo. N�o teria me acertado o primeiro, se eu estivesse esperando.
Brie cutucou a bochecha com a l�ngua.
- N�o, tenho certeza. E voc� sangrou o nariz dele por mim, Murphy querido?
- Muito mais do que isso. Quando acabei com ele, seu nariz estava quebrado e deve ter perdido uns dois dentes.
- Voc� � meu her�i. - Beijou-o nas duas faces, levemente. - Sinto que ele tenha usado voc� assim.
Ele sacudiu os ombros.
- Fiquei contente de ter sido eu a socar aquele rosto, esta � a verdade. Nunca gostei daquele canalha.
- N�o - Brianna disse baixinho. - Nem voc� nem Maggie. Parece que voc�s dois viam alguma coisa que eu n�o via, ou fui eu que vi alguma coisa que n�o estava
l�.
- N�o pense mais nisso, Brie. Aconteceu anos atr�s. -J� ia tocar seu ombro, quando se lembrou da graxa nas m�os. - Volte agora ou vai ficar suja. O que est�
fazendo aqui fora descal�a?
- Fazendo as pazes com voc�. - Riu e olhou para a estrada ao ouvir o ronco de um carro. Quando avistou Maggie, cruzou as m�os, levantando a sobrancelha. -
Avisou a ela, n�o �? - resmungou para Murphy.
- Bem, achei que era melhor. - E ele tamb�m achava melhor, agora, recuar elegantemente, afastando-se da linha de fogo.
- Ent�o. - Maggie caminhou em volta das columbinas, os olhos no rosto de Brianna. - Acho que voc� quer falar comigo.
- Quero sim. Voc� n�o acha que eu tinha o direito de saber, Maggie?
- N�o eram os direitos que me preocupavam. Era voc�.
- Eu o amava. - Inspirou profundamente, em parte com al�vio ao perceber que toda aquela emo��o ficara no passado. - Eu o amei mais tempo do que teria amado,
se soubesse de tudo.
- Talvez seja verdade e sinto muito por isso. N�o pude contar a voc�. - Para desconforto dos tr�s, os olhos de Maggie se encheram de l�grimas. - Simplesmente
n�o pude. Voc� j� estava t�o machucada, t�o triste e perdida. - Apertando os l�bios, lutou contra as l�grimas.
- N�o sabia o que era melhor.
- Foi uma decis�o de n�s dois. - Murphy se juntou a Maggie.
- N�o havia como traz�-lo de volta para voc�, Brie.
- Acham que eu ia quer�-lo de volta? - Um brilho de raiva, mais ainda de orgulho, a percorreu, enquanto jogava os cabelos para tr�s. - Voc�s fazem t�o pouco
assim de mim? Ele acreditou no que ela dizia-N�o, eu n�o ia quer�-lo de volta. - Ela bufou e tentou respirar mais lentamente. - E estou pensando que, se eu estivesse
no seu lugar, Margaret Mary, teria feito o mesmo. Teria amado voc� o bastante para fazer o mesmo.
Esfregou as m�os e ent�o estendeu uma.
- Vamos entrar que vou preparar um ch�. Voc� j� tomou caf�, Murphy?
- Nada digno de ser mencionado.
- Chamo voc� quando estiver pronto, ent�o. - Tomando a m�o de Maggie, virou-se e viu Gray parado na porta. N�o havia como conter o rubor que tomou conta de
seu rosto. Uma combina��o de prazer e embara�o que fez seu cora��o disparar. Mas sua voz estava firme o bastante, e o aceno da cabe�a, natural. - Bom-dia, Grayson.
Ia come�ar a preparar o caf�.
Ent�o ela queria levar a coisa de forma calma e casual, Gray notou, retribuindo o bom-dia.
- Parece que vou ter companhia para comer. Bom-dia, Maggie. Maggie mediu-o de alto a baixo, enquanto caminhava com Brianna para a casa.
- Para voc� tamb�m, Gray. Voc� parece... descansado.
- O ar irland�s me faz bem. - Afastou-se para deix�-las passar.
- Vou ver o que Murphy est� fazendo.
Desceu pelo caminho e parou perto do capo aberto.
- Ent�o, qual o diagn�stico?
Murphy apoiou-se no carro e olhou para ele.
- Voc� poderia dizer que j� era.
Entendendo que ambos n�o falavam de motores, Gray enfiou os polegares nos bolsos da frente e balan�ou sobre os calcanhares.
- Ainda cuidando dela? N�o posso censur�-lo por isso, mas n�o sou Rory.
- Nunca achei que fosse. - Murphy co�ou o queixo, pensativo.
- Ela � corajosa, nossa Brie. Mas mesmo mulheres fortes podem ser machucadas se n�o forem tratadas com cuidado.
- N�o pretendo ser descuidado. - Ele ergueu uma sobrancelha.
- Pensando em me bater, Murphy?
-Ainda n�o. - E sorriu. - Gosto de voc�, Grayson. Espero n�o ser chamado depois para quebrar seus ossos.
- Isso vale para n�s dois. - Satisfeito, Gray olhou para o motor.
- Vai dar a esta coisa um enterro decente?
O suspiro de Murphy foi longo e sentido.
- Se pud�ssemos.
De acordo, inclinaram a cabe�a sob o cap�.


Na cozinha, Maggie esperava que o caf� perfumasse o ar e Con mastigava alegremente seu desjejum. Brianna vestira-se rapidamente e, j� de avental, cortava bacon.
- J� comecei tarde. E ent�o n�o vai dar tempo para preparar uns bolinhos frescos ou broas. Mas tenho bastante p�o.
Maggie sentou-se � mesa, sabendo que a irm� preferia que n�o ficasse no caminho.
- Voc� est� bem, Brianna?
- Por que n�o deveria estar? Vai querer salsichas tamb�m?
- Tanto faz. Brie... - Maggie enfiou a m�o nos cabelos. - Ele foi o seu primeiro, n�o foi? - Quando Brianna largou a faca, sem dizer nada, Maggie levantou-se
da mesa. - Acha que eu n�o saberia, s� de ver voc�s dois juntos? O jeito como ele olha para voc�. - Passava as m�os, distraidamente, sobre a pesada barriga enquanto
caminhava.
- O que voc� est� aparentando.
- Tenho uma faixa na testa dizendo "mulher deflorada"? - Brianna perguntou friamente.
- Droga, sabe que n�o � isso que estou dizendo. - Exasperada, Maggie parou para encarar a irm�. - Qualquer um com alguma perspic�cia pode ver o que h� entre
voc�s. - E a m�e delas tinha perspic�cia, Maggie pensou aborrecida. Maeve estaria de volta em poucos dias.
- N�o estou tentando interferir ou dar conselhos, se conselhos n�o s�o bem-vindos. S� quero saber... preciso saber se voc� est� bem.
Brianna sorriu e deixou os ombros relaxarem.
- Estou bem, Maggie. Ele foi maravilhoso comigo. Muito delicado e gentil. � um homem delicado e gentil.
Maggie tocou o rosto de Brianna, acariciou seus cabelos.
- Voc� est� apaixonada por ele.
- Sim.
- E ele?
-Ele est� acostumado a viver sozinho, indo e vindo quando quer, sem amarras.
Maggie balan�ou a cabe�a.
- E voc� pretende mudar isso?
Com um pequeno "humm" na garganta, Brianna voltou-se para o fog�o.
- N�o acha que posso?
- Acho que ele � um idiota, se n�o ama voc�. Mas mudar um homem � como andar no melado. Muito esfor�o para pequenos progressos.
- Bem, n�o seria tanto mud�-lo, mas deix�-lo escolher entre as op��es que existem. Posso lhe oferecer um lar, Maggie, se ele deixar. - Sacudiu a cabe�a. -
Oh, � muito cedo para pensar t�o longe. Ele me fez feliz. � o bastante por ora.
Maggie esperava que fosse verdade.
- Que vai fazer em rela��o � mam�e?
- No que se refere a Gray, n�o vou deix�-la estragar as coisas. - Os olhos de Brianna gelaram, enquanto se voltava para acrescentar cubos de tomate na panela.
- Quanto ao resto, n�o decidi ainda. Mas eu mesma vou resolver isso, Maggie. Voc� me entende?
- Entendo. - No oitavo m�s de gravidez, ela sentou-se novamente. - Tivemos not�cias do detetive de Nova York, ontem.
- Tiveram? Ele a encontrou?
- O neg�cio � mais complicado do que pensamos. Ele encontrou um irm�o, um policial aposentado, que ainda vive em Nova York.
- Bem, ent�o � um come�o, n�o �? - Ansiosa por mais, Brianna come�ou a bater a massa das panquecas.
- Receio que seja mais uma barreira. A princ�pio, o homem se recusou at� mesmo a admitir que tinha uma irm�. Quando o detetive pressionou... ele tinha c�pias
da certid�o de nascimento de Amanda e tudo... esse Dennis Dougherty disse que n�o tinha visto nem ouvido falar em Amanda por mais de vinte e cinco anos. Que, para
ele, ela n�o era sua irm�, desde que se tinha metido em problemas e fugido. N�o sabia para onde, nem queria saber.
- � triste para ele, n�o �? - Brianna murmurou. - E os pais dela? Os pais de Amanda?
- Os dois j� morreram. A m�e, no ano passado. H� uma irm� casada e morando no Oeste dos Estados Unidos. Ele falou com ela tamb�m, o detetive de Rogan, e, embora
ela parecesse ter um bom cora��o, n�o ajudou muito.
- Mas ela deve saber - Brianna protestou. - � claro que sabe como encontrar a pr�pria irm�.
- N�o � bem assim. Parece que houve uma confus�o na fam�lia quando Amanda anunciou que estava gr�vida e que n�o diria o nome do pai. - Maggie parou e apertou
os l�bios. - N�o sei se ela estava protegendo papai, a si mesma ou a crian�a. Mas, segundo a irm�, houve palavras �cidas de todos os lados. Eles t�m sangue irland�s
e v�em uma filha gr�vida e solteira como uma mancha no nome da fam�lia. Queriam que ela fosse embora, tivesse a crian�a e a abandonasse. Parece que ela se recusou
a fazer isso e simplesmente desapareceu. Se ela voltou a fazer contato com os pais outra vez, o irm�o n�o disse e a irm� n�o sabia de nada.
- Ent�o, n�o temos nada.
- Quase isso. Ele descobriu, o detetive, que ela visitou a Irlanda anos atr�s, com uma amiga. Agora ele est� tentando localiz�-la.
- Ent�o vamos ter paci�ncia. - Trouxe um bule de ch� para a mesa e franziu o rosto ao olhar para a irm�. - Voc� est� t�o p�lida.
- Estou s� cansada. Dormir n�o � t�o f�cil como era antes.
- Quando vai ao m�dico de novo?
- Hoje � tarde. - Maggie for�ou um sorriso, enquanto servia o ch�.
- Ent�o vou levar voc�. N�o pode ir dirigindo. Maggie suspirou.
- Voc� parece Rogan. Ele vai voltar da galeria para me levar.
- �timo. E voc� vai ficar aqui comigo, at� que ele chegue para lev�-la. - Mais preocupada do que contente, quando n�o ouviu nenhuma argumenta��o, Brianna foi
chamar os homens para o caf�.

* * *

Ela passou o dia feliz, paparicando Maggie, recebendo um casal americano que havia estado na pousada dois anos antes. Gray sa�ra com Murphy para ver as pe�as
do carro. O c�u estava claro, o ar quente. Logo que viu Maggie sair, segura com Rogan, Brianna dedicou-se por uma hora a cuidar de seu canteiro de ervas.
Len��is rec�m-lavados balan�avam na corda, m�sica vibrava atrav�s das janelas abertas, seus h�spedes desfrutavam um ch� com bolos na sala e o cachorro cochilava
numa r�stia de sol ao lado dela.
N�o poderia estar mais feliz.
As orelhas do c�o se eri�aram e ela levantou a cabe�a, quando ouviu o barulho de carros.
- � o caminh�o de Murphy - disse a Con, que j� estava de p�, abanando a cauda. - O outro n�o reconhe�o. Voc� acha que vamos ter mais um h�spede?
Satisfeita com tal possibilidade, Brianna levantou-se, limpou a terra do jardim do avental e se encaminhou para a casa. Con corria na frente, latindo alegre
em sauda��o.
Viu Gray e Murphy, os dois ostentando sorrisos bobos, quando o cachorro os recebeu como se fizesse dias, e n�o apenas horas, desde que tinham sa�do. Seus olhos
passaram pelo bonito seda azul, de �ltimo tipo, estacionado na frente do caminh�o de Murphy.
- Achei que tinha ouvido dois carros. - Olhou em volta, ansiosa. - Eles j� entraram?
- Quem? - Gray quis saber.
- As pessoas que estavam dirigindo esse carro. Tem alguma bagagem? Preciso preparar um ch�.
- Eu estava dirigindo - Gray disse. - E n�o me importaria de tomar um ch�.
- Voc� tem sorte, cara. - Murphy falou num suspiro. - N�o tenho tempo para ch� - continuou se preparando para sair. - Minhas vacas devem estar me procurando.
- Piscou os olhos para Gray, abanou a cabe�a e entrou no caminh�o.
- Ent�o, o que est� acontecendo? - Brianna perguntou, quando o caminh�o de Murphy voltava � estrada. - O que voc�s andaram aprontando? Por que voc� veio dirigindo
esse carro se j� tem o seu?
- Algu�m tinha que dirigir e Murphy n�o gosta de ningu�m atr�s do volante de seu caminh�o. O que acha dele? - Num gesto masculino, Gray deixou a m�o deslizar
pelo p�ra-lama do carro, t�o amorosamente como faria se fosse um ombro liso e sedoso.
- � lindo.
- Voa como um foguete. Quer ver o motor?
- Acho que n�o. - Ela franziu as sobrancelhas. - Enjoou do outro?
- Outro o qu�?
- Carro. - Ela riu, jogando os cabelos para tr�s. - O que voc� tem, Grayson?
- Por que n�o senta nele e d� uma experimentada? - Encorajado pelo riso dela, pegou-a pelo bra�o e empurrou-a para o lado do motorista. - Tem s� trinta mil
quil�metros rodados.
Murphy o tinha avisado de que trazer um carro novo seria t�o idiota como cuspir ao vento.
Querendo agrad�-lo, Brianna entrou no carro e colocou as m�os no volante.
- �timo. Parece mesmo com um carro.
- Mas voc� gosta dele? - Encostou os cotovelos na base da janela e sorriu para ela.
- � um �timo carro, Gray, e tenho certeza de que voc� vai adorar dirigi-lo.
- � seu.
- Meu? O que quer dizer com � seu?
- Sua lata-velha vai para o limbo das sucatas. Murphy e eu concordamos que n�o tinha conserto. Ent�o comprei este para voc�.
Ele ganiu quando ela escancarou a porta e o atingiu, proposital-mente, na canela.
- Pode levar de volta para o lugar de onde veio. - Sua voz soou amea�adoramente fria, enquanto ele esfregava a canela. - N�o estou em condi��es de comprar
um carro novo, e, quando estiver, vou escolher sozinha.
- Voc� n�o est� comprando nada. Eu estou comprando. Eu comprei. - Ele se endireitou e enfrentou o gelo com o que, ele tinha certeza, era um bom motivo. - Voc�
estava precisando de um transporte confi�vel e dei um jeito nisso. Deixe de ser cabe�a-dura.
-Cabe�a-dura, �? Voc� � que est� sendo bem arrogante, Grayson Thane. Sair e comprar um carro sem nem um "com sua permiss�o", N�o quero que tomem decis�es por
mim e n�o quero ser tratada como uma crian�a.
Ela queria gritar. Ele podia ver que ela lutava contra o �mpeto, tentando encobrir com uma dignidade g�lida que o fez querer sorrir. Sendo um homem inteligente,
ele manteve a express�o contida.
- � um presente, Brianna.
- Uma caixa de bombons � um presente.
- Caixa de bombons � lugar-comum - corrigiu-a e ent�o recuou. - Vamos apenas dizer que esta � minha vers�o de caixa de bombons. - Moveu-se espertamente, deixando-a
entre seu corpo e a lateral do carro. - Voc� quer me ver preocupado cada vez que vai � cidade?
- N�o h� por que se preocupar.
- Claro que h�. - Antes que ela pudesse escapar, deslizou os bra�os em torno dela. - Vejo voc� cambaleando pela estrada, s� com o volante na m�o.
- A culpa � da sua imagina��o. - Virou a cabe�a, mas os l�bios dele lhe ro�aram o pesco�o. - Pare com isso. Voc� n�o vai me enrolar desse jeito.
Ah, mas ele achava que iria.
- Voc� realmente tem umas cem libras para jogar fora numa causa perdida, minha pr�tica Brianna? E realmente quer pedir ao pobre Murphy para ficar remendando
aquele traste dia sim, dia n�o, s� para manter seu orgulho?
Ela come�ara a rosnar, mas ele cobriu firmemente os l�bios dela com os seus.
- Voc� sabe que n�o - ele murmurou. - � s� um objeto, Brianna. S� uma coisa.
A cabe�a dela come�ou a girar.
- N�o posso aceitar isso de voc�. E pare de me tocar. Estou com h�spedes na sala.
- Passei o dia todo esperando para tocar voc�. Na verdade, passei o dia todo esperando para lev�-la para a cama. Seu perfume � maravilhoso.
- � o alecrim do canteiro de ervas. Pare com isto. N�o consigo raciocinar.
- N�o raciocine, apenas me beije. S� uma vez.
Se sua cabe�a n�o estivesse rodando, poderia pensar melhor. Mas os l�bios dele j� estavam nos seus, e os seus j� cediam se entreabrindo. Receptivos.
Ele avan�ou aos poucos, aprofundando o beijo lentamente, saboreando a gradual excita��o dela, o delicado perfume de ervas que se desprendia das m�os que ela
levou ao rosto dele, a d�cil e quase relutante rendi��o do corpo dela junto ao seu.
Por um momento, ele esqueceu que a mudan�a tinha sido resultado de sua persuas�o e simplesmente desfrutou.
- Voc� tem uma boca maravilhosa, Brianna. - Mordiscou-a, deliciando-se. - Gostaria de saber como consegui viver longe disso por tanto tempo.
- Voc� est� tentando me distrair.
- Distra� voc�. E a mim. - Afastou-a um pouco, maravilhando-se ao ver que o que pretendera ser um beijo de brincadeira tinha deixado seu cora��o descompassado.
- Vamos esquecer todas as quest�es pr�ticas e outros motivos racionais que ia usar para convencer voc� a ficar com o maldito carro. Quero fazer isso por voc�. �
importante para mim. Ficaria feliz se aceitasse.
- N�o � justo apelar para o meu cora��o - ela murmurou.
Ela poderia manter-se firme diante das quest�es pr�ticas, ignorar os motivos racionais. Mas como recusar este calmo pedido ou escapar daquele olhar?
- Sei disso. - Praguejou impaciente. - Eu sei. Deveria sair de perto de voc� agora mesmo, Brianna. Fazer as malas e ir para longe. --Praguejou de novo, enquanto
ela mantinha os olhos parados. - Haver� uma hora em que voc�, provavelmente, vai desejar que eu tivesse feito isso.
- N�o, n�o haver�. - Apertou as m�os, com medo de que, se o tocasse, fosse capaz de agarr�-lo. - Por que comprou um carro para mim, Grayson?
- Porque voc� precisava - falou isso num impulso, e ent�o se reequilibrou. - Porque eu precisava fazer alguma coisa por voc�. N�o � uma despesa grande, Brie.
O dinheiro n�o � nada para mim.
- Ah, eu sei disso. Voc� est� nadando em libras, n�o �? Pensa que eu ligo para o seu maravilhoso dinheiro, Grayson? Pensa que gosto de voc� porque pode comprar
para mim um carro novo?
Ele abriu a boca e fechou-a, estranhamente humilhado.
- N�o, n�o penso nada disso. N�o acho que voc� d� a m�nima para isso.
- Bem, ent�o isto est� entendido. - Ele estava t�o carente, ela pensou, e nem mesmo sabia disso. O presente tinha sido muito mais para ele do que para ela.
E isto ela podia aceitar. Voltou-se para dar outra olhada no carro. - Voc� foi muito gentil e n�o fui nada delicada, nem no pensamento nem nas a��es.
Sentiu-se estranhamente como um menininho perdoado por alguma travessura.
- Ent�o, vai aceitar.
- Vou. - Voltou-se e beijou-o. - E muito obrigada. Ele abriu um sorriso.
- Murphy me deve cinco libras.
- Apostaram em mim, n�o �? - O divertimento soou na voz dela. Aquilo era bem t�pico.
- Id�ia dele.
- Humm. Bem, acho que vou entrar pra ver se meus h�spedes est�o bem. Ent�o podemos sair para dar uma volta.

Ele foi at� ela naquela noite, como esperara que fosse, e novamente na noite seguinte, enquanto os h�spedes dormiam tranq�ilamente no andar de cima. A pousada
estava lotada, como ela gostava. Quando sentou para fazer as contas, estava com a alma leve. Estava quase pronta para comprar o material a fim de fazer a estufa.
Ele a encontrou na pequena escrivaninha, enrolada no roup�o, o l�pis ro�ando os l�bios, olhos sonhadores.
- Pensando em mim? - murmurou, inclinando-se para mordiscar-lhe o pesco�o.
- Realmente estava pensando em exposi��o ao sol e vidro temperado.
- Mais um ponto para a estufa. - Ele conseguira chegar para beijar seu queixo quando seus olhos ca�ram sobre uma carta que ela abrira. - O que � isso? Resposta
daquela companhia de minera��o?
- Sim, finalmente. Eles conseguiram fechar as contas. Teremos mil libras quando entregarmos as a��es.
Ele recuou franzindo a testa.
- Mil? Por dez mil a��es? N�o parece certo.
Ela apenas sorriu e levantou-se para soltar os cabelos. Normalmente era um ritual que ele apreciava, mas, desta vez, apenas continuou a olhar os pap�is sobre
a mesa.
- Voc� n�o conheceu papai - disse a ele. - � muito mais do que eu esperava. Uma fortuna, realmente, j� que seus projetos sempre custavam mais do que rendiam.
- Um d�cimo de libra por a��o. - Pegou a carta. - Quanto disseram que ele pagou por isso?
- Metade disso, como pode ver. N�o me lembro de nada que ele tivesse feito que rendesse t�o bem. S� preciso dizer a Rogan para enviar-lhes os certificados.
- N�o.
- N�o? - Ela deteve-se com uma escova na m�o. - Por que n�o?
- Rogan investigou a companhia?
- N�o, ele j� tem que se preocupar com Maggie e com a galeria que abre na pr�xima semana. S� pedi a ele que guardasse os certificados.
- Deixe-me ligar para o meu corretor. Olhe, n�o faz mal a ningu�m dar uma olhada nos prospectos da companhia, obter alguma informa��o. Alguns dias n�o v�o
atrapalhar em nada, n�o acha?
- N�o, mas acho que � muito inc�modo para voc�.
- Basta dar um telefonema. Meu corretor adora ser incomodado.
- Largando a carta, aproximou-se dela e pegou a escova. - Deixe que eu fa�o isto. - Virou o rosto dela para o espelho e come�ou a passar a escova em seus cabelos.
- Exatamente como um quadro de Ticiano - murmurou. - Todas essas sombras dentro de sombras.
Ela ficou muito quieta, olhando-o no espelho. Surpreendia-se ao perceber o quanto aquilo era �ntimo, como era excitante v�-lo cuidar de seus cabelos. O modo
como os dedos dele passavam por entre os fios depois da escova. Muito mais que seu couro cabeludo come�ou a se arrepiar.
Ent�o os olhos dele se ergueram e encontraram os dela no espelho. A excita��o cresceu dentro dela quando viu a chama do desejo no olhar dele.
- N�o, n�o ainda. - Segurou-a como estava, quando come�ou a virar para ele. Largou a escova e afastou os cabelos de seu rosto.
- Veja - murmurou, e ent�o deslizou os dedos por seu corpo, at� o cinto do roup�o. -J� imaginou como parecemos juntos?
A id�ia era t�o chocante, t�o excitante, que ela n�o p�de falar. Olhou nos olhos dela, enquanto desamarrava o roup�o.
- Posso ver em minha mente. Algumas vezes, surge no meio do meu trabalho, mas � dif�cil de incomodar.
As m�os dele tocaram-lhe levemente os seios, fazendo-a tremer, antes que ele come�asse a desabotoar a camisola de gola alta.
Sem palavras, impotente, ela olhava aquelas m�os se movendo sobre ela, sentia o calor espalhando-se sob a pele, sobre ela. As pernas pareciam derreter. Ent�o
n�o teve escolha sen�o se apoiar contra ele. Como se estivesse num sonho, ela o viu puxar a camisola por seus ombros, apertar os l�bios sobre a pele nua.
Um tremor de prazer, uma chama de calor.
A respira��o se transformou num pequeno ru�do de satisfa��o quando a ponta da l�ngua dele provocou a curva de seu pesco�o.
Era t�o assombroso ver quanto sentir. Embora seus olhos se arregalassem, quando ele deslizou a camisola por sua cabe�a, ela n�o protestou. N�o conseguira.
Fitou com espanto a mulher no espelho. Ela mesma, pensou vagamente. Era ela que via, porque podia sentir aquele toque leve, devastador das m�os dele se curvando
para lhe tomar os seios.
- T�o branca. - A voz dele enrouquecera. - Como marfim, com pontas de p�talas num tom rosado. - Olhos escuros e intensos, ele pressionou os mamilos com os
polegares, fazendo-a tremer, ouvindo-a gemer.
Era magnificamente er�tico ver o corpo dela curvar-se para tr�s, sentir o peso leve se rendendo contra ele, enquanto ela cedia ao prazer.
Quase como que para experimentar, ele passou a m�o pelo tronco dela, sentindo cada m�sculo tremer sob a sua palma. O perfume dos cabelos flu�a pelos seus sentidos,
a seda daqueles longos membros brancos e a vis�o deles estremecendo no espelho.
Ele queria dar a ela como nunca quisera dar a algu�m antes. Acalmar e excitar, proteger e acender. E ela, pensou, pressionando os l�bios contra a sua garganta
novamente, era t�o perfeita, t�o absurdamente generosa.
Apenas um toque, ele pensou, ao seu toque toda aquela dignidade fria e maneiras calmas se derretiam.
- Brianna. - O ar estava voltando aos seus pulm�es, mas ele o prendeu, at� que os olhos dela, nublados, levantaram-se mais uma vez para o reflexo dos dele.
- Veja o que acontece quando a toco.
Ela ia come�ar a falar, mas a m�o dele deslizou suavemente para baixo, excitando-a, encontrando-a j� quente e �mida. Mesmo quando ela gritou o nome dele, em
parte num protesto, em parte por incredulidade, ele a acariciou, suavemente a princ�pio, depois com mais for�a. Mas seus olhos estavam ardentes de concentra��o.
Era assombroso, chocante, ver a pr�pria m�o possuindo-a ali e sentir aqueles lentos e longos golpes que provocavam em resposta uma vertigem. Seus pr�prios
olhos mostravam a ela que se movia contra ele agora, exigente, ansiosa, quase suplicante. Qualquer pensamento de mod�stia fora esquecido, abandonado, quando ela
levantou os bra�os, enla�ando-os no pesco�o dele, os quadris respondendo ao seu ritmo crescente.
E ela era como uma mariposa presa por uma lan�a de prazer, aguda e doce. Seu corpo ainda tremia quando ele a levantou, levando-a para a cama, para lhe mostrar
mais.





-A
inaugura��o � amanh� e ele est� me impedindo de ir � festa. - Com o queixo apoiado no punho fechado, Maggie olhava as costas de Brianna. - E ele ainda me enfiou
na sua cozinha, s� para voc� poder me vigiar.
Pacientemente, Brianna recheava os petit-fours que assara para o ch�. Tinha oito h�spedes, contando Gray, inclusive tr�s crian�as bem agitadas.
- Margareth Mary, o m�dico n�o falou para voc� ficar com os p�s para cima, e que, como o beb� j� encaixou, voc� pode ganh�-lo antes do que pensar
- Ele n�o sabe de nada. - Emburrada como se ela mesma fosse uma crian�a, Maggie fechou a cara. - Vou estar gr�vida pelo resto da vida. E se Sweeney pensa que
vai me deixar fora da inaugura��o, amanh�, est� muito enganado.
- Rogan nunca disse que pretende fazer isso. Ele s� n�o quer que voc� fique... - Ela quase disse "atrapalhando", mas tomou mais cuidado com as palavras. -
Exagerando hoje.
- � minha galeria tamb�m - resmungou. Suas costas a estavam torturando como uma dor de dente e sentira algumas fisgadas. S� umas fisgadas, tranq�ilizou-se.
Apenas dores, assegurou a si mesma. Provavelmente o cordeiro que comera � tarde.
- Claro que � sua tamb�m - Brianna procurou acalm�-la. - E todos n�s estaremos l�, amanh�, para a inaugura��o. Os an�ncios nos jornais estavam �timos. Vai
ser um grande sucesso, n�o vai?
Maggie s� grunhiu.
- Cad� o ianque?
- Trabalhando. Trancou-se no quarto para se defender da menininha alem� que toda hora entrava l�. - Sorriu. - Ele � um amor com crian�as. Ficou jogando com
ela ontem � noite. Ent�o ela se apaixonou por ele e n�o o deixa em paz.
- E voc� est� pensando que pai ador�vel ele ser�. Brianna ficou impass�vel.
- N�o disse isso. Mas seria mesmo. Devia ver como ele... - Parou de repente, quando ouviu abrir a porta da frente. - Se forem mais h�spedes, darei a eles meu
quarto e dormirei na sala.
- Voc� pode muito bem ir dormir na cama de Gray - Maggie comentou, e ent�o estremeceu quando reconheceu as vozes vindas do hall. - Ah, que maravilha! Tive
esperan�as de que ela mudasse de id�ia e decidisse ficar na Fran�a.
- Controle-se! - Brianna pediu, apanhando mais x�caras para o ch�.
- As viajantes do mundo est�o de volta - Lottie saudou alegremente, enquanto arrastava Maeve para a cozinha. - Ah, que lugar lindo voc�s t�m l�, Maggie. Como
um pal�cio. Que dias maravilhosos passamos.
- Fale s� por voc� - Maeve resmungou, deixando a bolsa sobre o balc�o. - Bandos de estrangeiros seminus andando pela praia.
- Alguns homens eram lindos. - Lottie riu. - E teve at� um vi�vo americano que andou flertando com Maeve.
- Tolice. - Maeve sacudiu a m�o, mas as faces se ruborizaram. - N�o dei a m�nima para aquele tipo. - Sentando, Maeve olhou atentamente para Maggie. Franziu
os l�bios, com isso disfar�ando a s�bita preocupa��o. - Voc� est� abatida. Logo ver� o que sofre uma mulher quando entra em trabalho de parto.
- Muit�ssimo obrigada.
- Ah, a menina � forte como um cavalo. - A voz de Lottie era firme, quando bateu levemente nas costas de Maggie. - E jovem o bastante para ter meia d�zia de
crian�as.
Maggie revirou os olhos e for�ou uma risada.
- N�o sei qual de voc�s me deprime mais.
- Foi bom terem voltado a tempo para a inaugura��o da galeria amanh� - Brianna, com muito tato, mudou de assunto, enquanto servia o ch�.
- Ah! Para que vou perder meu tempo num lugar de arte?
- N�o perderemos. - Lottie lan�ou-lhe um olhar carrancudo.
- Maeve, voc� sabe muito bem que falou que ficaria feliz em ver o trabalho de Maggie e todo o resto.
Maeve se mexeu, desconfort�vel.
- Eu disse que estava surpresa de haver tanto barulho por uns peda�os de vidro. - Franzindo as sobrancelhas, voltou-se para Brianna, antes que Lottie pudesse
embara��-la ainda mais. - Seu carro n�o est� a� na frente. Desintegrou, finalmente?
- Disseram-me que n�o tinha mais jeito. Estou com um novo, o azul ali fora.
- Um novo. - Maeve baixou a x�cara ruidosamente. - Desperdi�ando seu dinheiro num carro novo?
- O dinheiro � dela - Maggie come�ou acaloradamente, mas Brianna a calou com um olhar.
- S� � novo para mim. � um carro usado e n�o o comprei. - Ela tomou coragem: - Grayson comprou-o para mim.
Por um momento, houve sil�ncio. Lottie fitava o ch� com os l�bios apertados. Maggie preparou-se para saltar em defesa da irm�, lutando para ignorar a dor.
- Comprou para voc�? - A voz de Maeve era dura como pedra.
- Voc� aceitou isso de um homem? N�o se importa com o que as pessoas v�o pensar ou dizer?
- Imagino que as pessoas pensar�o que � um gesto generoso e dir�o o mesmo. - Parou de rechear os petit-fours e pegou a x�cara de ch�. Suas m�os logo estariam
tremendo. Ela odiava reconhecer isso.
- Elas v�o pensar � que voc� se vendeu para ele. E n�o se vendeu? Foi isso que fez?
- N�o. -A palavra foi frigidamente calma. - O carro � um presente e aceitei como tal. N�o tem nada a ver com o fato de sermos amantes.
Pronto!, pensou. Conseguira dizer. Sentia um aperto no est�mago, as m�os j� iam tremer, mas ela conseguira dizer aquilo.
Com os l�bios brancos, fuzilando-a com os olhos azuis, Maeve levantou-se num rompante.
- Voc� se prostituiu.
- N�o. Entreguei-me a um homem de quem gosto e que admiro. Entreguei-me pela primeira vez - falou, surpresa ao notar que as m�os permaneciam firmes. - Embora
a senhora tenha dito algo diferente.
O olhar de Maeve fixou-se em Maggie, cheio de amargura e raiva.
- N�o, eu n�o contei a ela - Maggie falou suficientemente calma. - Devia ter contado, mas n�o fiz isso.
- Pouco importa como descobri. - Brianna cruzou as m�os. Havia certa frieza dentro dela, um gelo terr�vel, mas iria at� o fim: - A senhora sabe que perdi qualquer
felicidade que poderia ter tido com Rory.
- Ele n�o era nada - Maeve retrucou. - Um filho de fazendeiro que nunca se tornaria um homem de verdade. Com ele, voc� s� teria uma casa cheia de filhos chorando.
- Eu queria filhos. - Uma dor atravessou o gelo. - Queria uma fam�lia e uma casa, mas nunca saberemos se eu teria encontrado isso com ele. A senhora se encarregou
de tudo e ainda envolveu um homem bom e honesto em suas mentiras. Foi para me salvar, m�e? Acho que n�o. Gostaria de poder pensar assim. Foi para me manter presa.
Quem cuidaria da senhora e desta casa se eu tivesse casado com Rory? Nunca saberemos sobre isso tamb�m.
- Fiz o que era melhor para voc�.
- O que era melhor para a senhora.
Como sentiu as pernas bambas, Maeve sentou-se outra vez.
- Ent�o � assim que me retribui. Entregando-se em pecado ao primeiro homem que agrada aos seus caprichos.
- Entregando-me com amor ao primeiro e �nico homem que me tocou.
- E o que far� quando ele fizer uma crian�a em sua barriga e for embora assoviando?
- Isto � assunto meu.
- Agora ela est� falando como voc�. - Enraivecida, Maeve voltou-se para Maggie. - Voc� a jogou contra mim.
- Voc� mesma fez isso.
- N�o meta Maggie nisso. - Num gesto protetor, Brianna colocou a m�o no ombro da irm�. - Isto � entre n�s, m�e.
- Alguma chance de conseguir... - Entusiasmado com a tarde de trabalho bem-sucedido, Gray irrompeu na cozinha, recuando ao se deparar com as visitas. Embora
percebesse a tens�o que dominava o ambiente, for�ou um sorriso amig�vel. - Sra. Concannon, Sra. Sullivan, � bom t�-las de volta.
Maeve cerrou os punhos.
- Seu canalha sem-vergonha, arder� no fogo do inferno ao lado de minha filha.
- Modere a l�ngua na minha casa. -A ordem r�spida de Brianna abalou-os mais do que a maldi��o amarga de Maeve. - Desculpe-me, Gray, pela indelicadeza de minha
m�e.
- N�o se desculpar� com ningu�m por mim.
- N�o - Gray concordou, sacudindo a cabe�a para Maeve. - N�o h� necessidade. Pode me dizer o que quiser, Sra. Concannon.
- Prometeu-lhe amor e casamento, uma vida de devo��o para lev�-la para a cama? Pensa que n�o sei o que os homens dizem para conseguir o que querem?
- Ele n�o me prometeu nada - Brianna come�ou, mas Gray a cortou com um olhar firme.
- N�o, n�o fiz promessas. N�o mentiria para Brianna. E tamb�m n�o a abandonaria, se me falassem algo a respeito dela de que eu n�o gostasse.
- Voc� tamb�m partilhou com ele segredos de fam�lia. - Maeve voltou-se para Brianna. - J� n�o basta condenar sua alma ao inferno?
- Vai ficar eternamente mandando suas filhas para o inferno? - Maggie desferiu, antes que Brianna pudesse falar. - Como n�o foi capaz de encontrar a felicidade,
precisa impedir que a gente encontre? Ela o ama. Se pudesse enxergar atrav�s de sua amargura, saberia disso, e s� isso importaria. Mas ela ficou � sua disposi��o
a vida toda, e a senhora n�o pode suportar a id�ia de que ela tenha encontrado algo, algu�m para ela.
- Maggie, j� chega - Brianna murmurou.
- N�o chega n�o. Voc� n�o vai dizer isso, nunca diria. Mas ela vai ouvir de mim. Ela me odeia desde o momento em que nasci e tem usado voc�. N�o somos filhas
para ela, mas uma esp�cie de penit�ncia e muleta. Alguma vez ela me desejou felicidade com Rogan e com o beb�?
- E por que deveria? - Maeve devolveu, os l�bios tr�mulos. - Para voc� jogar meus votos na minha cara? Voc� nunca me deu o amor a que uma m�e tem direito.
- Eu teria dado. - A respira��o de Maggie come�ou a ficar dif�cil, quando se levantou. - Deus sabe o quanto eu queria isso. E Brianna tentou. Alguma vez a
senhora ficou grata por tudo de que ela desistiu em prol do seu conforto? Em vez disso, arruinou toda a chance que ela teve de ter a casa e a fam�lia que queria.
Bem, n�o far� isso de novo, n�o desta vez. N�o vir� � sua casa falar desse jeito com ela ou com o homem que ela ama.
- Falo como quero para minha pr�pria carne e sangue.
- Parem, voc�s duas! - A voz de Brianna era cortante como um chicote. Estava p�lida, g�lida, e o tremor que conseguira controlar transformara-se em calafrios.
- Precisam estar sempre brigando desse jeito? N�o serei o porrete que usam para se agredir. Tenho h�spedes na sala - disse ofegante. - Prefiro que n�o sejam expostos
� infelicidade da minha fam�lia. Maggie, sente-se e se acalme.
- Brigue sozinha ent�o - Maggie falou furiosamente. - Vou embora. - Mal disse isso, uma fisgada a golpeou, fazendo com que se agarrasse ao encosto da cadeira.
- Maggie!!! - Assustada, Brianna segurou-a. - O que voc� est� sentindo? � o beb�?
- Foi s� uma pontada. - Mas logo se transformou numa dor monstruosa que a apavorou.
- Voc� est� p�lida! Sente-se. Vamos, sente-se e n�o discuta comigo. Lottie, enfermeira aposentada, levantou-se rapidamente.
- Quantas fisgadas voc� j� teve, querida?
- N�o sei. Uma e outra durante toda a tarde. - Deixou escapar um suspiro de al�vio quando a dor passou. - N�o � nada, juro. Ainda faltam duas semanas, ou quase
isso.
- O m�dico disse que poderia ser a qualquer hora, a partir de agora - Brianna lembrou-a.
- O que os m�dicos sabem?
- Verdade, verdade. - Sorrindo brandamente, Lottie rodeou a mesa e come�ou a massagear os ombros de Maggie. - Alguma outra dor, querida?
- As costas, um pouco - admitiu. - Isso me incomodou a tarde toda.
- Hummm. Bem, apenas respire calmamente e relaxe. N�o, nada de ch� para ela agora, Brianna - falou antes que Brianna pudesse servir. - Vamos ver daqui a pouco.
- N�o estou em trabalho de parto. - A cabe�a de Maggie ficou atordoada com a id�ia. - Foi o cordeiro, s� pode ter sido.
- Talvez seja. Brie, voc� n�o serviu ch� para o seu rapaz.
- Estou bem. - Gray olhava de uma mulher para outra, imaginando o que fazer. Recuar, decidiu, seria provavelmente o melhor para todos. -Acho que vou voltar
ao trabalho.
- Ah, eu adoro seus livros - Lottie falou alegremente. - Li dois deles durante as f�rias. Fico imaginando como voc� cria todas aquelas hist�rias e as escreve
com palavras t�o bonitas.
Tagarelou, prendendo sua aten��o e de todos, enquanto Maggie recuperava o ritmo da respira��o.
- Tudo bem, s� de quatro em quatro minutos, eu diria. Respire, querida, muito bem, garota. Brie, acho melhor chamar Rogan agora. Ele vai querer nos encontrar
no hospital.
- Oh... - Por um instante, Brianna n�o conseguiu raciocinar, muito menos se mover. - Vou ligar para o m�dico.
- Tudo vai ficar bem. - Lottie pegou a m�o de Maggie, segurando firme, enquanto Brianna sa�a correndo. - N�o se preocupe. Ajudei a trazer muitos beb�s ao mundo.
J� est� com a mala arrumada em casa, Maggie?
- Sim, est� no quarto. - Ela estremeceu quando uma contra��o passou. Estranho, sentia-se mais calma agora. - No closet.
- O rapaz vai traz�-la para voc�. N�o �, querido?
- Claro. - Adoraria. Isto o levaria para fora da casa, distante da terr�vel perspectiva do parto. - Vou agora mesmo.
- Est� tudo bem, Gray. - Dominada por uma nova calma, Maggie for�ou um sorriso. - N�o vou parir na mesa da cozinha.
- �timo. - Lan�ou-lhe um sorriso inseguro e escapuliu.
- Vou pegar seu casaco agora - Lottie falou para Maggie, lan�ando um olhar significativo para Maeve. - N�o esque�a a respira��o.
- N�o vou esquecer. Obrigada, Lottie. Vou ficar bem.
- Voc� est� apavorada. - Gentilmente, Lottie inclinou-se, segurando o rosto de Maggie com as duas m�os. - � natural. Mas o que vai acontecer tamb�m � natural.
Algo que s� uma mulher pode fazer. S� uma mulher pode entender. O bom Deus sabe que, se um homem tivesse de faz�-lo, haveria muito poucas pessoas no mundo.
Isto fez Maggie rir.
- S� estou um pouquinho apavorada. E n�o s� por causa da dor. Estou pensando no que fazer depois.
- Voc� saber�. Logo ser� m�e, Margaret Mary. Deus a aben�oe. Maggie fechou os olhos quando Lottie saiu. Podia sentir as mudan�as em seu corpo, a magnitude
delas. Imaginava as mudan�as em sua vida, a enormidade delas. Sim, logo seria m�e. O filho que ela e Rogan tinham gerado estaria em seus bra�os e n�o no �tero.
Amo voc�, pensou. Juro que s� lhe mostrarei amor.
A dor voltou trazendo um gemido em sua garganta. Apertou os olhos com mais for�a, concentrada na respira��o. Atrav�s da bruma da dor, sentiu uma m�o cobrir
a sua. Ao abrir os olhos, viu o rosto da m�e, l�grimas e, talvez, pela primeira vez em toda a vida, um verdadeiro entendimento.
- Desejo que seja feliz, Maggie - Maeve disse lentamente. - Com o seu beb�.
Ao menos por um instante, havia uma ponte sobre o precip�cio. Maggie virou a m�o e apertou a da m�e, palma com palma.

* * *

Quando Gray voltou correndo, segurando firmemente a mala, Lottie estava levando Maggie para o carro de Brianna. Todos os h�spedes estavam do lado de fora,
acenando.
- Ah, obrigada por ter sido t�o r�pido. - Brianna pegou a mala, ent�o olhou em volta, confusa. - Rogan est� indo para o hospital. Ele desligou antes que eu
pudesse dizer tchau. O m�dico disse para lev�-la direto para l�. Tenho de ir com ela.
- Claro que sim. Ela vai ficar bem.
- Sim, ela vai ficar bem. - Brianna mordiscou a unha do pole-gar. - Vou ter de deixar... todos os h�spedes.
- N�o se preocupe com as coisas aqui. Cuidarei de tudo.
- Voc� n�o cozinha.
- Levo todos para jantar fora. N�o se preocupe, Brie.
- N�o, � bobagem minha. Estou t�o confusa. Desculpe, Gray.
- N�o. - Mais firme, ele segurou o rosto dela em suas m�os. - N�o pense em nada disso agora. V� ajudar sua irm� a ter o beb�.
- Vou sim. Voc� pode ligar para a Sra. O'Malley, por favor? O n�mero est� na minha agenda. Ela vir� cuidar das coisas, at� que eu volte para casa. E se pudesse
avisar Murphy. Ele gostaria de saber. E...
- Brie, v�. Vou ligar para todo o condado. - Apesar do p�blico, deu-lhe um beijo r�pido e firme. - Pe�a a Rogan para me mandar um charuto.
- Sim, tudo bem, estou indo. - Correu para o carro.
Gray ficou para tr�s e a observou dirigindo com Lottie e Maeve. Fam�lia, pensou, com um sacudir de cabe�a e um tremor. Gra�as a Deus n�o tinha de se preocupar
com uma.


Mas se preocupava com ela. A tarde chegou ao fim e transformou-se em noite. A Sra. O'Malley veio, assumindo as tarefas da cozinha, apenas meia hora ap�s o
seu SOS. Batendo panelas, tagarelava alegremente sobre suas experi�ncias em trabalhos de parto, at� que Gray, nauseado, se recolheu ao quarto.
Melhorou quando Murphy apareceu e tomou um u�sque com ele, num brinde a Maggie e ao beb�.
Mas, quando a pousada foi se aquietando e as horas foram avan�ando, Gray n�o foi capaz de trabalhar ou dormir - duas atividades que sempre usara para escape.
Como ficou acordado, teve muito tempo para pensar. Quanto mais desejava evitar, a cena na cozinha mais e mais voltava � sua cabe�a. Que tipo de problema tinha
causado a Brianna simplesmente por desej�-la! N�o considerara a fam�lia nem a religi�o dela. Pensaria ela como a m�e?
Sentiu-se constrangido ao pensar em almas e eternas maldi��es. Qualquer coisa eterna o deixava desconfort�vel, e maldi��o certamente estava no topo da lista.
Ou teria Maggie exposto o pensamento de Brianna? Seria muito menos perturbador. Todo aquele discurso sobre amor. Do seu ponto de vista, amor podia ser t�o
perigoso quanto maldi��o e ele preferia se afastar de qualquer envolvimento pessoal.
Por que as pessoas n�o podiam manter as coisas simples?, pensava, enquanto andava pelo quarto de Brianna. Complica��es faziam parte da fic��o, mas, na realidade,
a vida era muito mais tranq�ila um dia depois do outro.
Mas era est�pido, admitiu, e incrivelmente ing�nuo acreditar que Brianna Concannon n�o era uma complica��o. N�o admitira que ela fosse �nica? Inquieto, abriu
a tampa de um vidrinho sobre a c�moda. E cheirou.
Somente desejava estar com ela - por ora, disse a si mesmo. Curtiam um ao outro, gostavam um do outro. Exatamente agora e neste exato lugar eles serviam um
ao outro muito bem.
� claro que poderia recuar a qualquer hora. � claro que poderia. Com um grunhido, voltou a tampar o vidrinho.
Mas o perfume dela permaneceu nele.
Ela n�o estava apaixonada por ele. Talvez pensasse que estava, porque era o primeiro. Era natural. E talvez, apenas talvez, estivesse um pouquinho mais envolvido
com ela do que j� estivera com algu�m mais. Porque era diferente de qualquer outra. Por isso era natural.
Ent�o, quando seu livro estivesse terminado, eles teriam terminado tudo tamb�m. Ele se mudaria. Levantando a cabe�a, olhou-se no espelho. Nenhuma surpresa.
Era o mesmo rosto. Se havia um pequeno brilho de p�nico nos olhos, preferiu ignorar.
Grayson Thane olhou para si mesmo. Para o homem que fizera do nada. Um homem com quem se sentia confort�vel. Um homem que se movia pela vida, como escolhera
se mover. Livre, sem bagagem, sem arrependimentos.
Havia lembran�as. Podia bloquear as desagrad�veis. Fazia isso havia anos. Um dia, pensou, olharia para tr�s e se lembraria de Brianna, e seria suficiente.
Por que, diabos, ela n�o ligava?
Olhou-se e se afastou do espelho antes que pudesse ver alguma coisa que preferia evitar. Ela n�o tinha por que telefonar, disse a si mesmo, bisbilhotando os
livros na estante. Era assunto dela. Assunto de fam�lia, e n�o tinha nada a ver com isso. Desejava n�o ter.
S� estava curioso a respeito de Maggie e do beb�. Se estava esperando, era apenas para satisfazer sua curiosidade.
Sentindo-se melhor, escolheu um livro, esticou-se na cama dela e come�ou a ler.

Brianna encontrou-o l�, �s tr�s da manh�. Cambaleou numa onda de alegria e cansa�o ao v�-lo dormindo sobre sua colcha, um livro aberto no peito. Sorriu tolamente
radiante, ela sabia. Mas esta era uma noite para tolices.
Despiu-se silenciosamente, dobrou as roupas sobre uma cadeira, deslizou dentro de uma camisola. No banheiro cont�guo, procurou aliviar o cansa�o do rosto.
Deparou-se com o pr�prio sorriso refletido no espelho e deu uma risada.
Voltando ao quarto, abaixou-se para acariciar Con, que estava enrolado num tapete aos p�s da cama. Com um suspiro, apagou a luz e deitou-se sem se importar
em retirar as cobertas.
Ele se virou instantaneamente, o bra�o passando por cima dela, o rosto se aninhando em seus cabelos.
- Brie. - A voz era pastosa de sono. - Senti falta de voc�.
- Estou de volta. - Ajeitou-se na cama, curvando-se para ele. - Durma.
- � dif�cil dormir sem voc�. Muitos sonhos antigos sem voc�.
- Shhhh. - Acariciou-o, deixando-se levar pelo sono. - Estou aqui.
Ele acordou completamente, num salto, piscando confuso.
- Brie. - Pigarreou e levantou-se. - Voc� voltou.
- Sim. Voc� dormiu lendo.
- Ah... sim. - Depois de esfregar as m�os no rosto, apertou os olhos para enxerg�-la na penumbra. - E Maggie?
- Est� bem, est� maravilhosa. Ah, foi t�o bonito, Gray. - Excitada com o assunto, sentou-se, abra�ou os joelhos. -Amaldi�oou Rogan, jurando vingan�as horrorosas.
Ele continuava beijando as m�os dela, dizendo que respirasse. Ent�o ela ria, dizendo que o amava e o amaldi�oava outra vez. Nunca vi um homem t�o nervoso, apavorado
e amoroso ao mesmo tempo.
Ela suspirou outra vez, sem nem notar que seu rosto estava �mido.
- Como era de esperar, havia muita conversa e confus�o. Toda vez que tentavam nos colocar para fora, Maggie amea�ava levantar-se e sair. "Minha fam�lia fica
ou vou com ela", ela dizia. Ent�o, ficamos. E foi t�o... maravilhoso.
Gray secou as l�grimas dela.
- Vai me contar o que ela teve afinal?
- Um menino. - Brianna fungou. - O menino mais lindo do mundo. Cabelos pretos, como os de Rogan. Uns cachinhos que parecem um halo. E os olhos da Maggie. S�o
azuis agora, � claro, mas o formato deles � de Maggie. E ele choramingava tanto, como se nos amaldi�oasse por t�-lo trazido a esta confus�o. Os punhos fechados.
Vai se chamar Liam. Liam Matthew Sweeney. Deixaram-me segur�-lo. - Descansou a cabe�a no ombro de Gray. - Ele olhou para mim.
- N�o vai me dizer que ele sorriu para voc�.
- N�o. - Mas ela sorriu. - N�o, s� olhou para mim, muito s�rio, como se quisesse descobrir o que devia fazer com toda aquela confus�o. Nunca segurei uma vida
t�o novinha antes. � diferente de tudo, de tudo o mais no mundo. - Aconchegou-se a ele. - Queria que voc� estivesse l�.
Para sua pr�pria surpresa, ele descobriu que desejara o mesmo.
- Bem, algu�m tinha de cuidar do rancho. A Sra. O'Malley veio voando.
- Deus a aben�oe. Vou ligar para ela amanh� para contar as novidades e agradecer.
- Ela n�o cozinha t�o bem quanto voc�.
- Voc� acha? - Riu para si mesma, deliciada. - Espero que voc� n�o tenha dito isso a ela.
- Sou o rei da diplomacia. Ent�o � isso. - Beijou a testa de Brianna. - Ela teve um menino. Qual o peso?
- Tr�s quilos e duzentos.
- E a hora... quer dizer, a que horas ele nasceu?
- Ah, era mais ou menos uma e meia.
- Droga, acho que o alem�o ganhou.
- Como?
- Fizemos um bol�o. Um bol�o do beb�. Sexo, peso, hora do nascimento. Tenho quase certeza de que Krause, o alem�o, foi quem chegou mais perto.
- Uma aposta, �? E de quem foi a id�ia? Gray passou a l�ngua pelos dentes.
- De Murphy. O homem aposta por tudo.
- E qual foi seu palpite?
- Menina, tr�s quilos e quatrocentos, meia-noite em ponto. - Beijou-a outra vez. - Cad� meu charuto?
- Rogan lhe mandou um bem legal, excelente. Est� na minha bolsa.
- Vou lev�-lo ao pub amanh�. Algu�m vai ter de oferecer uma rodada.
- Ah, pode apostar nisso tamb�m. - Ela soltou um pequeno suspiro, juntou os dedos. - Grayson, sobre esta tarde. Minha m�e.
- N�o precisa falar sobre isso. S� cheguei num mau momento.
- N�o foi s� isso, e � tolice fingir.
- Tudo bem. - Sabia que ela insistiria em explicar tudo, mas n�o toleraria ver o humor dela se estragar. - N�o vamos fingir. S� n�o vamos pensar nisso agora.
Falaremos depois, tanto quanto quiser. Esta noite � para celebrar, n�o acha?
O al�vio aqueceu-a. J� tinham sido muitas emo��es para um dia s�.
- Voc� est� certo.
- Aposto que n�o comeu nada.
- N�o.
- Que tal eu trazer um pouco do frango frio que sobrou do jantar? Comeremos na cama.


















F
oi bem f�cil evitar assuntos s�rios na semana seguinte. Gray mergulhou no trabalho e Brianna se desdobrava entre os h�spedes e o sobrinho novo. Sempre que tinha
um minuto livre, encontrava uma desculpa para correr at� o chal� de Maggie e envolver-se com as fun��es da nova m�e e seu beb�. Maggie estava t�o encantada com seu
filho que quase n�o reclamou por perder a inaugura��o da galeria nova.
Gray teve de admitir que o garoto era um vencedor. Andara por perto do chal� uma ou duas vezes quando precisava esticar um pouco as pernas e clarear a mente.
Ao entardecer era a melhor hora, quando a luz apresentava aquela intensidade t�o especial da Irlanda, o ar era t�o l�mpido que podiam ser apreciados quil�metros
das colinas cor-de-esmeralda, o sol golpeando uma faixa estreita do rio a dist�ncia, fazendo-o refletir corno uma espada de prata.
Encontrou Rogan, metido num velho jeans e camiseta, agachado no jardim da frente, arrancando diligentemente as ervas daninhas.
Uma vis�o interessante, Gray pensou, de um homem que podia pagar um batalh�o de jardineiros.
-Al�, papai. - Com um largo sorriso, Gray se inclinou sobre o port�o.
Rogan virou-se sobre os saltos velhos das botas.
- Oi, cara, chegue mais. Fui expulso de casa. Mulheres. - Sacudiu a cabe�a em dire��o ao chal�. - Maggie, Brie, a irm� de Murphy, Kate, que veio Para uma visita,
e mais algumas senhoras da vila. Est�o conversando sobre amamenta��o e hist�rias de parto.
- H�-h�. - Gray lan�ou um olhar magoado � cabana enquanto atravessava o port�o. - Est� me parecendo que voc� � que fugiu, e n�o que foi expulso.
- Verdade. Por ser minoria, nem posso chegar perto de Liam. E Brianna insinuou que Maggie ainda n�o devia cuidar do jardim, que estava ficando cheio de mato.
Ent�o levantou a sobrancelha para mim naquele jeito delas. Logo entendi o recado. - Olhou ansiosamente para o chal�. - Que tal tentarmos entrar pela cozinha para
uma cerveja?
- Aqui fora � mais seguro. - Gray sentou-se, dobrando as pernas. Amistosamente, alcan�ou uma erva daninha e a arrancou. Pelo menos parecia mato. - Estava querendo
falar mesmo com voc�. Sobre aquelas a��es.
- Que a��es?
- As tais... das Minas Triquarter.
- Ah, sim. Esqueci-me completamente disso com todas essas coisas acontecendo. Brianna teve not�cias, n�o �?
- Ela recebeu not�cias de algu�m. - Gray co�ou o queixo. - Pedi ao meu corretor para dar uma pesquisada. � interessante.
- Est� pensando em investir?
-N�o, e nem poderia, se quisesse. N�o existe nenhuma Mina Triquarter, nem em Gales nem em qualquer outro lugar que ele localizasse. Rogan franziu o cenho.
- Quebraram?
-Parece que nunca existiu uma Minas Triquarter, o que significa que as a��es n�o t�m valor algum.
- Estranho, ent�o, que algu�m possa estar querendo pagar mil libras por elas. Seu detetive deve ter se enganado em alguma coisa. A companhia pode ser bem pequena,
n�o aparecer em nenhuma lista.
- Pensei nisso. E ele tamb�m. Ali�s, ele ficou t�o curioso resolveu investigar um pouco mais e at� ligou para o n�mero que estava no cabe�alho da carta.
- E ent�o?
- O n�mero est� desativado. Ocorreu-me que qualquer um pode ter uma folha de papel timbrado. Assim como qualquer um pode alugar uma caixa postal, como aquela
em Gales, para onde Brianna escreveu carta.
- � verdade. Mas n�o explica por que algu�m estaria querendo pagar por algo que n�o existe. - Rogan franziu o rosto olhando para longe. - Tenho alguns neg�cios
para ver em Dublin. Mesmo sabendo que Brie n�o me perdoar� por levar Maggie e Liam embora, precisamos partir no fim da semana. Ser�o poucos dias e eu mesmo poderei
dar uma olhada nisso, enquanto estiver l�.
- Acho que vale a pena uma viagem a Gales. - Gray encolheu os ombros quando Rogan olhou para ele. - Voc� est� meio sobrecarregado agora, mas eu n�o.
- Est� pensando em ir a Gales?
- Sempre quis brincar de detetive. E � muita coincid�ncia, n�o acha, que, logo depois de Brie ter encontrado as a��es e enviado a carta, a pousada tenha sido
invadida? - Deu de ombros outra vez. - Ganho a vida juntando coincid�ncias em enredos.
- E vai contar a Brianna o que pretende fazer?
- Em parte. Estou pensando em fazer uma viagem r�pida a Nova York. Brianna vai gostar de um fim de semana em Manhattan.
Agora as sobrancelhas de Rogan subiram.
- Imagino que sim, se conseguir convenc�-la a deixar a pousada durante a alta esta��o.
- Acho que consigo.
- E Nova York fica bem longe de Gales.
- N�o seria complicado desviar o caminho na volta para Clare. Seriam mais uns dias de viagem. Pensei em ir sozinho, mas, se precisar falar oficialmente com
algu�m, precisaria dela, de Maggie ou da m�e delas. - Sorriu de novo. - Acho que Brie � a melhor op��o.
- Quando voc�s iriam?
- Em uns dois dias.
- Voc� � bem apressado - Rogan comentou. - Acha que consegue que Brianna se mexa t�o r�pido assim?
-Vou precisar de muito charme. Estou economizando.
-Bem, se conseguir, mantenha contato comigo. Da minha parte, farei o que puder para investigar o assunto. Ah, e se precisar de muni��o extra, pode mencionar
que temos v�rios trabalhos de Maggie expostos na Galeria Worldwide de Nova York.
O som de risadas de mulher encheu o ar. Sa�ram da casa, todas rodeando Maggie, que tinha Liam na curva do bra�o. Houve despedidas e uma chuva de �ltimas paparica��es
no beb�, antes que as visitas pegassem as bicicletas e sa�ssem pedalando.
- Posso segur�-lo? - Gray estendeu os bra�os e pegou-o de Maggie. Sempre se divertia com o modo como Liam o olhava com seus solenes olhos azuis. - Ei, voc�
ainda n�o est� falando? Rogan, acho que j� � hora de o tirarmos das mulheres para lev�-lo ao pub para uma cerveja.
- Ele j� ganhou a cerveja dele desta noite, obrigada - Maggie informou. - Leite de m�e.
Gray afagou o queixo do beb�.
- O que � isso? Ele est� de vestido? Estas mulheres est�o fazendo de voc� um maricas, garoto!
- N�o � um vestido! - Brianna inclinou-se para beijar a cabe�a de Liam. - � um cueiro. Logo estar� usando cal�as. Rogan, voc� s� precisa esquentar aquele prato
que eu trouxe, quando quiser jantar. - Torceu a cara diante de sua tentativa de jardinagem. - N�o arrancou bem o mato. Precisa tirar as ra�zes.
Ele riu, beijando-a.
- Sim senhora.
Acenando com a m�o, tamb�m riu.
- Estou indo. Gray, devolva o beb�. Os Sweeney j� tiveram companhia demais por hoje. Vai colocar os p�s para cima? - perguntou a Maggie.
Vou. Obrigue-a a fazer o mesmo - disse a Gray. - H� dias que ela est� cuidando de duas casas. Gray pegue a m�o de Brianna. - Eu podia carregar voc� de volta.
- N�o seja bobo. Tenha cuidado. - Deixou a m�o na de Gray, enquanto atravessavam o jardim em dire��o � rua. - Ele j� cresceu tanto - murmurou. - E ele ri,
agora, para a gente. J� pensou o que se passa na cabe�a de um beb� quando est� olhando para voc�?
- Imagino que fica pensando se esta vida ser� muito diferente da anterior.
Surpresa, ela voltou a cabe�a.
- Voc� acredita mesmo nesse tipo de coisa? Jura?
- Claro. S� uma viagem n�o faz sentido para mim. Nunca ter�amos feito tudo s� numa tentativa. E, estando num lugar como este, voc� pode sentir o eco de almas
antigas cada vez que respira.
- Algumas vezes, tenho a impress�o de que j� andei por aqui antes. - Ela estendeu a m�o distraidamente, deixando-a passar sobre as flores vermelhas de f�csia
que ladeavam o caminho. - Bem aqui, mas em tempo diferente e num corpo diferente.
- Conte-me essa hist�ria.
- H� um sil�ncio no ar, uma paz. A estrada � somente um caminho, muito estreito, mas sem buracos. Posso sentir o cheiro de carv�o queimando. Estou cansada,
mas isto � bom, porque estou indo para casa, para algu�m. Algu�m me espera logo adiante. Muitas vezes, quase posso v�-lo, parado l�, acenando para mim.
Brie parou, sacudiu a cabe�a, diante de sua pr�pria tolice.
- � idiotice. S� imagina��o.
- N�o deve ser. - Ele se abaixou, arrancou uma flor silvestre ao lado da estrada e estendeu a ela. - No primeiro dia em que caminhei por aqui, n�o consegui
observar tudo o suficiente, com tempo. N�o era s� por ser algo novo. Era como se estivesse lembrando. - Num impulso, ele se virou, tomou-a nos bra�os e beijou-a.
Ent�o era isso, percebeu. De vez em quando, ao segur�-la, quando sua boca encontrava a dela, havia uma imagem disso em algum lugar de sua mente.
Como uma lembran�a.
Afastou aquela sensa��o. Era hora, decidiu, de come�ar a convenc�-la a fazer o que ele queria.
- Rogan falou que precisa voltar a Dublin por alguns dias.
Maggie e Liam ir�o com ele.
- Ah. - Sentiu o punhal agudo da tristeza, antes de demonstrar resigna��o. - Bem, eles tamb�m t�m uma vida l�. Acabo me esquecendo disso, quando est�o aqui.
- Vai sentir falta deles.
- Vou sim.
- Eu tamb�m preciso fazer uma viagenzinha.
- Uma viagem? - Agora ela tentou conter um estremecimento de p�nico. -Aonde vai?
- Nova York. A estr�ia, lembra?
- Seu filme. - For�ou um sorriso. - Ser� emocionante para voc�.
- Poderia ser, se voc� fosse comigo.
- Ir com voc�? - Ficou im�vel, olhando-o embasbacada. - A Nova York?
- Alguns dias. Tr�s ou quatro. - Tomou-a nos bra�os outra vez, ensaiando uns passos de valsa. - Podemos ficar no Plaza, como Eloise.
- Eloise? Quem...
- N�o importa. Explico depois. Iremos de Concorde. Chegaremos l� sem voc� sentir. Poderemos visitar a Worldwide - acrescentou como um argumento extra. - Vamos
fazer tudo o que um turista faz, comeremos num restaurante ridiculamente caro. Voc� pode conseguir alguns menus novos por l�.
- Mas n�o posso. De verdade. - Sua cabe�a girava e n�o conseguia acompanhar os c�rculos r�pidos da dan�a. -A pousada...
- A Sra. O'Malley disse que ficar� contente em ajudar. Quero voc� comigo, Brianna. O filme � importante, mas n�o vou achar nenhuma gra�a sem voc�. � um grande
momento para mim. N�o quero que seja apenas uma obriga��o.
- Mas Nova York...
E logo ali. Murphy ficar� contente de cuidar de Con, a Sra. O'Malley est� doida para tomar conta da pousada.

- Voc� j� falou com eles. - Tentou interromper a dan�a, mas Gray continuava a rodopi�-la.
- Claro. Sabia que voc� n�o iria se n�o acertasse tudo primeiro.
- N�o iria. E n�o posso...
- Fa�a isso por mim, Brianna. - Cruelmente, sacou sua melhor arma. A verdade: - Preciso de voc� l�.
Soltou um longo e lento suspiro.
- Grayson.
- Isto � um sim?
- Devo estar louca. - E soltou uma risada. - Sim.


Dois dias depois, Brianna estava a bordo do Concorde, atravessando o Atl�ntico. O cora��o estava preso na garganta. Andara assim desde que fechara a mala.
Estava indo para Nova York. Simplesmente isso! Deixara seu neg�cio nas m�os de outra pessoa. M�os capazes, tinha certeza, mas n�o as suas.
Concordara em ir a outro pa�s, atravessar um oceano inteiro com um homem de quem nem era parente, num avi�o bem menor do que imaginara.
Certamente tinha enlouquecido.
- Nervosa? - Tomou a m�o dela, levando-a aos l�bios.
- Gray, eu nunca devia ter feito isso. N�o sei o que deu em mim. - Claro que sabia. Ele estava dentro dela, de todos os modos poss�veis.
- Est� aborrecida com a rea��o de sua m�e?
Fora abomin�vel. Palavras duras, acusa��es, maldi��es. Mas Brianna sacudiu a cabe�a. J� se resignara aos sentimentos de Maeve por Gray e pela rela��o deles.
- S� fiz as malas e sa� - murmurou.
- Dif�cil. - Riu para ela. - Voc� fez, pelo menos, uma d�zia de listas, preparou comida para um m�s e estocou no freezer, deu faxina na pousada toda... - Parou
de repente, porque ela n�o parecia apenas nervosa. Parecia mesmo aterrorizada. - Amor, relaxe, n�o h� por que ter medo. Nova York n�o � t�o ruim como dizem.
N�o era Nova York. Brianna virou a cabe�a, enterrando-a em seu ombro. Era Gray. Mesmo que ele n�o percebesse isso, ela sabia que n�o havia ningu�m mais no
mundo por quem ela teria feito aquilo, exceto fam�lia. Mesmo que ele n�o percebesse, ela sabia que ele se tornara uma parte vital e complicada de sua vida, como
sua pr�pria carne e osso. - Fale-me sobre Eloise outra vez.
Ele manteve a m�o dela nas suas, acariciando-a.
- Ela � uma menininha que vive no Plaza com sua bab�, com Weenie, seu cachorro, e com Skipperdee, sua tartaruga.
Brianna sorriu, fechou os olhos e deixou-o contar a hist�ria.


Havia uma limusine esperando por eles no aeroporto. Gra�as a Rogan e Maggie, Brianna j� experimentara uma limusine antes e n�o se sentiu uma tola completa.
No assento luxuoso, encontrou um lindo buqu� com tr�s d�zias de rosas e uma garrafa de Dom Perignon gelada.
- Grayson. - Embevecida, ela afundou o rosto nos bot�es.
- Tudo o que tem a fazer � se divertir. - Estourou o champanhe, deixando-o borbulhar na borda. - E eu, seu anfitri�o, mostrarei a voc� tudo o que h� para ver
na Big Apple.
- Por que a chamam assim?
- N�o fa�o a menor id�ia. - Estendeu-lhe uma ta�a de champanhe e brindou com ela. - Voc� � a mulher mais bonita que j� conheci.
Ruborizada, enfiou a m�o por entre os cabelos despenteados pela viagem.
- Tenho certeza de que meu visual est� perfeito.
- N�o, voc� fica melhor em seu avental. - Quando ela riu, Grayson aproximou-se e mordiscou-lhe a orelha. - Na realidade, estava imaginando se voc� o vestiria
para mim, alguma vez.
- Eu o uso todos os dias.
- Bem... Falo de usar s� o avental. Ficou ainda mais vermelha e lan�ou um olhar distra�do � cabe�a do motorista atrav�s do vidro de seguran�a.
- Gray...
- Ok, cuidaremos das minhas lascivas fantasias mais tarde. O que quer fazer primeiro?
- Eu...- Ainda gaguejava s� com a id�ia de ficar na cozinha, usando nada al�m do avental.
- Compras - ele decidiu. - Depois de fazermos o check-in vou dar algumas liga��es e partiremos para as ruas.
- Vou ter que comprar alguns suvenires. E tem aquela loja de brinquedos, aquela famosa.
- F.A.O. Schwartz.
- Isto. Eles ter�o alguma coisa maravilhosa para Liam, n�o �?
- Com certeza. Mas estou pensando mais na Quinta e na Quarenta e Sete.
- O que � isto?
- Vou levar voc�.
Ele mal lhe deu tempo de olhar estupidamente a estrutura de pal�cio do hotel, o opulento sagu�o do Plaza com seu tapete vermelho e candelabros cintilantes,
os uniformes elegantes do pessoal, a magn�fica ornamenta��o de arranjos florais e as gloriosas vitrinas com displays expondo j�ias estonteantes.
Subiram no elevador at� o topo e ela entrou numa suntuosa su�te, t�o alta que se podia ver a luxuriante ilha verde do Central Park. Ele a arrastou para dentro
e, enquanto ela se refrescava um pouco da viagem, ele esperou, impaciente, para arrast�-la de novo para fora.
- Vamos caminhar. � a melhor maneira de ver Nova York. - Pegou a bolsa dela, cruzando a al�a do ombro at� a cintura. - Carregue-a assim, com a m�o nela. Seus
sapatos s�o confort�veis?
- Sim.
- Ent�o voc� est� pronta.
Ela ainda tentava recuperar o f�lego quando ele a puxou.
- � uma cidade maravilhosa na primavera - falou, enquanto come�avam a descer a Quinta.
- Tanta gente! - Ela olhou uma mulher passar correndo com seus leggings brilhando sob o short de seda. E outra, com cal�a de couro vermelho e um trio de argolas
balan�ando no l�bulo da orelha esquerda.
- Voc� gosta de gente.
Ela olhava um homem andando na frente, gritando ordens num celular.
- Sim.
Gray afastou-a do caminho de uma bicicleta ziguezagueante.
- Eu tamb�m. De vez em quando.
Ele apontava coisas para ela, prometia todo o tempo que quisesse na loja de brinquedos, divertia-se ao v�-la boquiaberta diante das vitrinas das lojas e da
incr�vel variedade de pessoas que andavam apressadas pela rua.
- Fui a Paris uma vez - disse a ele, sorrindo ao vendedor ambulante que anunciava cachorro-quente. - Para ver a exposi��o de Maggie l�. E achei que nunca na
minha vida veria nada t�o formid�vel. - Rindo, apertou a m�o dele. - Mas isto aqui �.
Estava adorando. O barulho constante e quase violento do tr�fego, as ofertas brilhantes dispostas numa loja ap�s a outra, as pessoas, absortas e correndo para
os seus pr�prios neg�cios, os pr�dios imensos brotando de todos os lugares e transformando as ruas em desfiladeiros.
- Aqui!
Brianna olhou para o pr�dio da esquina, cada vitrina derramando j�ias e pedras preciosas.
- Ah, o que � isso?
- � um bazar, querida. - Excitado s� pela alegria de estar ali, com ela, empurrou aporta. - Uma verdadeira orgia.
O ar de dentro da loja vibrava com as vozes. Compradores se misturavam por toda a loja examinando os mostru�rios. Viu diamantes, an�is e mais an�is brilhando
pelos vidros. Pedras coloridas como arco-�ris, o brilho sedutor do ouro.
- Meu Deus, que lugar! - Estava deliciada andando pelos corredores com ele. Parecia outro mundo, com todos aqueles compradores e vendedores discutindo o pre�o
de colares de rubis e brincos de safiras. Quantas hist�rias teria para contar quando voltasse a Clare!
Parou com Gray diante de uma vitrina e riu baixinho.
- Duvido que v� encontrar meus suvenires aqui!
- Eu vou. Acho que s�o p�rolas. -Acenou com um dedo para que a vendedora se mantivesse longe e estudou as pe�as. - P�rolas cairiam bem.
- Vai comprar um presente?
- Exatamente. Este. - Acenou para a funcion�ria. J� tinha formado uma imagem na cabe�a, e as tr�s voltas de p�rolas leitosas se encaixavam perfeitamente.
Escutou meio desatento, enquanto a funcion�ria apregoava a beleza e o valor do colar. Tradicional, ela dizia, simples e elegante. Um bom investimento. E, naturalmente,
uma pechincha.

Gray tomou o colar, testou o peso, estudou as pe�as resplandecentes.
- O que acha, Brianna?
- � maravilhosa.
- Claro que � - a vendedora disse, percebendo a possibilidade de venda, e n�o mera especula��o. - N�o encontrar� nada igual, n�o com este pre�o. Um visual
cl�ssico como este voc� pode usar com qualquer coisa, vestidos para a noite, roupas di�rias. Um cashmere leve blusa de seda. Um pretinho b�sico.
- Ela n�o fica bem de preto - Gray disse, olhando para Brianna - Azul-noite, tons past�is, verde-musgo, tudo bem.
Brianna sentiu um frio no est�mago enquanto a vendedora concordava com Gray.
- Sabe, voc� est� certo. Para a pele dela, o senhor pode escolher j�ias elegantes ou em tons past�is. N�o s�o todas as mulheres que podem usar os dois. Experimente.
Ver� por si mesma como caem lindamente.
- Gray, n�o. - Brianna recuou, esbarrando em outro comprador. - Voc� n�o pode. Isso � rid�culo.
- Benzinho - a vendedora interrompeu-a -, se um homem quer comprar uma gargantilha dessas para voc�, � rid�culo discutir. Com quarenta por cento de desconto
tamb�m.
- Ah, acho que voc� pode melhorar essa oferta - Gray falou displicentemente. N�o era pelo dinheiro, ele mal olhara a min�scula etiqueta presa discretamente
ao fecho de diamantes. Era por puro esporte. - Vamos ver como fica.
Brianna parou, olhos cheios de ang�stia, enquanto Gray fechava o colar no seu pesco�o. Caiu como uma luva sobre a blusa simples de algod�o.
- Voc� n�o pode comprar uma coisa dessas pra mim. - Recusava, embora os dedos formigassem de vontade de tocar as p�rolas.
- Claro que posso. - Inclinou-se, beijando-a de leve. - Me de esse prazer. - Endireitando-se, estudou-a por entre os olhos apertados. - Acho que � quase t�o
bonita quanto eu procurava. - Encarou a funcion�ria. - Qual � sua oferta?
- Querido, estou praticamente dando a voc�. Voc� j� viu que essas p�rolas combinam perfeitamente.
-
- Hum-hum. - Virou o pequeno espelho sobre a mesa para
Brianna. - D� uma olhada - sugeriu. - Fique com elas por uns minutos. Deixe-me ver aquele broche l�, o cora��o de diamantes.
- Ah, � uma pe�a linda. Tem um bom olho. - �gil, a vendedora alcan�ou-o e colocou sobre o balc�o, em uma almofada de veludo preto. - Vinte e quatro pedras
em corte brilhante. Topo de linha.
- Lindo. Brie, acha que Maggie gostaria disso? Um presente para
a nova mam�e.
- Ah. - Ela estava lutando para n�o deixar o queixo cair. Primeiro a vis�o de si mesma no espelho com as p�rolas em torno do pesco�o e agora a id�ia de que
Gray compraria brilhantes para a sua irm�. -Adoraria. Como poderia n�o adorar? Mas voc� n�o pode...
- O que voc� prop�e para eu levar os dois?
- Bem... - A vendedora tamborilou os dedos no peito. Com uma express�o sofrida, pegou uma calculadora e come�ou a fazer contas. O total que rabiscou num bloco
fez o cora��o de Brianna parar.
- Gray, por favor.
Ele apenas fez um gesto para que se calasse.
- Acho que voc� pode conseguir mais do que isso.
- Assim voc� vai acabar comigo - falou a mulher.
- Veja se voc� n�o consegue um pouquinho mais. Ela grunhiu, resmungando sobre margens de lucro e qualidade da
mercadoria. Mas refez os c�lculos, dividiu um tanto e colocou a m�o no cora��o.
- Estou cortando minha pr�pria garganta. Gray piscou para ela, pegando a carteira.
- Pode embrulh�-los. Mande-os ao Plaza.
- Gray, n�o.
- Desculpe. - Abriu o fecho das p�rolas, passando-as negligentemente � vendedora deliciada. - Voc� as ter� para esta noite. N�o � muito inteligente andar por
a� com elas.
- N�o � isso que quero dizer, e voc� sabe...
- Voc� tem uma voz linda - a vendedora falou para distra�-la. - � irlandesa?
- Sou sim. Voc� v�...

- � a primeira viagem dela aos Estados Unidos. Quero que tenha alguma coisa especial para se lembrar disso. - Tomou a m�o de Brianna e beijou cada um de seus
dedos, de um modo que fez at� cora��o c�nico da vendedora acelerar. - Quero muito isso.
- Voc� n�o tem que comprar coisas para mim.
- Isso � parte da beleza da coisa. Voc� nunca pede nada.
- E de que parte da Irlanda voc� �, benzinho?
- Do Condado de Clare.
- Tenho certeza de que � maravilhoso. E voc� vai... - Ao ler o nome no cart�o de cr�dito que Gray entregara, a mulher soltou um grito: - Grayson Thane! Meu
Deus, li todos os seus livros. Sou sua maior f�. Espere at� meu marido saber. � seu maior f� tamb�m. Vamos assistir ao seu filme, na semana que vem. Mal posso esperar.
Voc� me daria um aut�grafo? Milt n�o vai acreditar.
- Claro. - Apanhou o bloco que ela lhe estendera. - Voc� � Marcia? - perguntou indicando o cart�o sobre a vitrina.
- Sim, sou eu. Voc� mora em Nova York? Nunca informam isso na contracapa dos livros.
- N�o, n�o moro. - Sorriu devolvendo-lhe o bloco, para tentar distra�-la e evitar mais perguntas.
- "Para Marcia" - ela leu -, "uma j�ia entre as j�ias. Afetuosamente, Grayson Thane." - Sorriu-lhe radiante, sem, no entanto, se esquecer de pedir a ele que
assinasse a nota do cart�o de cr�dito. - Volte sempre que procurar algo especial. E n�o se preocupe, Sr. Thane, vou enviar isso ao hotel agora mesmo. E voc�, curta
bem seu colar, benzinho. Curta Nova York.
- Obrigada, Mareia. Recomenda��es a Milt. - Satisfeito consigo, virou-se para Brianna. - Quer olhar mais alguma coisa?
Atordoada, ela apenas sacudiu a cabe�a.
- Por que faz isso? - conseguiu falar, quando estavam outra vez na rua. - Como torna imposs�vel para mim dizer n�o quando quero recusar algo?
- Voc� merece - falou suavemente. - Est� com fome? Eu estou. Vamos comer um cachorro-quente.
- Gray. - Ela o deteve. - � a coisa mais bonita que j� tive disse solenemente. - E voc� tamb�m �.
- �timo. - Pegou a m�o dela e levou-a at� a esquina seguinte, calculando que j� a tinha amaciado o bastante para que ela o deixasse comprar-lhe o vestido perfeito
para a estr�ia.

Ela discutiu. Perdeu. Para equilibrar as coisas, Gray recuou quando ela insistiu em pagar as quinquilharias que queria levar para a Irlanda. Divertiu-se ajudando-a
com o troco na moeda americana, nada familiar. Fascinava-o o fato de ela parecer mais deslumbrada com a loja de brinquedos do que com as joalherias e butiques finas
que visitaram. E, quando a inspira��o surgiu, descobriu-a ainda mais fascinada por uma loja de utilidades para cozinha.
Encantado com ela, carregou suas sacolas e bolsas at� o hotel, seduziu-a na cama, dedicando bastante tempo a uma tarde de longo e luxuriante amor.
Levou-a para tomar vinho e jantar no Le Cirque, e, num rasgo de romantismo nost�lgico, foram dan�ar no Rainbow Room, onde desfrutou tanto quanto ela a decora��o
fora de �poca e o som de uma banda fant�stica.
Amou-a outra vez, at� que ela adormeceu exausta ao seu lado. Ele ficou acordado.
Ficou acordado por um longo tempo, sentindo o perfume das rosas que dera a ela, afagando a seda de seus cabelos, ouvindo a respira��o calma e cadenciada dela.
Em algum momento, durante aquele ressonar na penumbra, ele pensou nos muitos hot�is onde dormira sozinho. Nas muitas manh�s em que acordara sozinho, tendo
como companhia apenas as pessoas que criara em seu c�rebro.
Pensou como ele preferira assim. Sempre preferira. E como, com ela enrodilhada a seu lado, n�o conseguia voltar a ter aquela sensa��o de contentamento solit�rio.
Certamente o faria, quando o tempo deles tivesse acabado. Ainda sonhando, alertou a si mesmo para n�o se fixar no amanh�, muito menos no ontem.
Estava vivendo hoje. E o hoje era quase completamente perfeito.




N
a manh� seguinte, Brianna ainda estava t�o deslumbrada com Nova York que queria ver tudo de uma s� vez. N�o se incomodava de mostrar claramente que era uma turista,
batendo fotos com a c�mera, olhando para cima, o pesco�o dobrado para ver o topo dos pr�dios. Qual era o problema se ficava mesmo embasbacada? Nova York era um espet�culo
barulhento e elaborado, feito para extasiar os sentidos.
Lera atentamente o guia na su�te, listando e assinalando cuidadosamente cada lugar que tinha visto.
Agora teria de enfrentar a perspectiva de um almo�o de neg�cios com a agente de Gray.
- Arlene � formid�vel - Gray assegurara a Brianna, enquanto a arrastava pela rua. - Voc� vai gostar dela.
- Mas este almo�o. - Embora diminu�sse o passo, ele n�o permitiu que ela voltasse, como teria preferido. - � como uma reuni�o de neg�cios. Devia esperar por
voc� em algum lugar ou talvez encontr�-lo quando tivesse terminado. Poderia ir � Saint Patrick agora, e...
- J� disse que levo voc� � Saint Patrick, depois do almo�o.
E levaria mesmo, ela sabia. Estava mais do que disposto a lev�-la a qualquer lugar. Todos os lugares. Ainda naquela manh� l� estava ela no alto do Empire State
Building, absolutamente maravilhada. Andaram de metr�, comeram numa delicat�ssen. Tudo o que fizera e tudo o que vira giravam em sua cabe�a como um caleidosc�pio
de cor e som.
E, mesmo assim, ele prometia mais.
No entanto, a perspectiva de almo�ar com uma agente de Nova York, uma mulher obviamente formid�vel, era amedrontadora. Teria arranjado uma desculpa convincente,
talvez at� mesmo inventado dor de cabe�a ou cansa�o, se Gray n�o parecesse t�o excitado com a id�ia.
Observou-o enfiar displicentemente uma nota na lata junto a um homem que cochilava encostado na parede de um pr�dio. Nunca deixava de fazer isso. Qualquer
aviso dizendo "sem-teto", "desempregado" ou "veterano do Vietn�" chamava sua aten��o. E sua carteira.
Tudo captava sua aten��o. N�o perdia nada e via tudo. E aqueles pequenos gestos de delicadeza com pessoas estranhas, que outros pareciam nem mesmo admitir
que existissem, eram um tra�o de sua personalidade.
- Ei, cara, precisa de um rel�gio? Tenho alguns lindos aqui. S� vinte paus. - Um homem negro e magro abriu uma pasta, mostrando uma exposi��o de Gucci e Cartier
falsificados. - Tenho um rel�gio lind�o para a madame aqui.
Para desalento de Brianna, Gray parou.
- � mesmo? Eles funcionam?
- Ei. - O homem riu. - Tenho cara de qu�? Marca o tempo, cara. Igualzinho �queles que custam mil paus na Quinta.
- Deixe-me dar uma olhada. - Gray escolheu um enquanto Brianna mordia o l�bio. O homem lhe parecia perigoso, olhos correndo de um lado para outro. - Tem muitos
concorrentes nesta esquina?
- N�o, tenho um representante. Rel�gios �timos, fica lindo na madame. Vinte paus.
Gray deu uma sacudida no rel�gio, segurou-o perto do ouvido.
- �timo. - Passou uma nota de vinte para o homem. - V�m vindo dois tiras - disse baixinho e prendeu a m�o de Brianna em seu bra�o.
Quando ela olhou para tr�s, o homem tinha sumido.
- Eram roubados? - ela perguntou, apavorada.
- Provavelmente n�o. � seu. - Ajustou o rel�gio no pulso dela - Pode funcionar por um dia ou um ano. Nunca se sabe.
- Ent�o, por que comprou?
- Ei, o cara tem de sobreviver, n�o tem? O restaurante � logo aqui.
Aquilo a perturbou o bastante para que se sentisse desconfort�vel com suas roupas. Sentia-se sem gra�a e r�stica, al�m de idiota com aquela bolsinha "I Love
New York", guardando os suvenires do Empire State.
Tolice, garantiu a si mesma. Encontrava pessoas novas todo o tempo. Gostava de pessoas novas. O problema, pensava, enquanto Gray a introduzia no Four Seasons,
era que desta vez eram pessoas ligadas a ele.
Tentou n�o olhar, enquanto ele a conduzia.
- Ah, Sr. Thane. - O ma�tre o saudou calorosamente. - Faz tanto tempo. A Sra. Winston j� est� aqui.
Atravessaram a sala com seu longo e brilhante bar, as mesas cobertas de linho j� repletas de pessoas para o almo�o. Uma mulher levantou quando viu Gray.
Brianna viu primeiro o bonito tailleur vermelho, o brilho do ouro na lapela e nas orelhas. E, ent�o, os sedosos cabelos louros e curtos, o lampejo de um sorriso,
antes que a mulher fosse engolida pelo abra�o entusi�stico de Gray.
- Bom ver voc�, minha querida.
- Meu viajante predileto. - A voz era rouca, com uma pitada de rispidez.
Arlene Winston era mi�da, mal chegava a um metro e meio, mas tinha as formas bem definidas de quem malhava tr�s vezes por semana. Gray dissera que era av�,
mas seu rosto quase n�o tinha rugas, os agudos olhos acastanhados contrastando com a complei��o delicada e as fei��es de duende. Com seu bra�o ainda em volta da
cintura de Gray, estendeu a m�o a Brianna.
- E voc� � Brianna. Bem-vinda a Nova York. Nosso garoto tem divertido voc�?
- Tem sim. � uma cidade maravilhosa. Prazer em conhec�-la, Sra. Winston.
- Arlene. - Por um momento, reteve a m�o de Brianna carinhosamente entre as suas. Mesmo com a afabilidade do gesto, Brianna percebeu uma avalia��o r�pida e
cuidadosa. Gray simplesmente ficou parado atr�s, sorrindo.
- N�o � linda?
- Realmente. Vamos sentar. Espero que n�o se importe, pedi champanhe. Uma celebra��ozinha.
- Os brit�nicos? - Gray perguntou, sentando-se.
- Isso mesmo. - Sorriu enquanto as ta�as eram servidas com o l�quido borbulhante que j� estava sobre a mesa. - Quer falar logo de neg�cios ou vamos deixar
para depois do almo�o?
- Vamos nos livrar logo.
Obediente, Arlene dispensou o gar�om, apanhou a pasta e tirou um arquivo com v�rios fax.
- Aqui est� a proposta dos ingleses.
- Que mulher! - Gray falou, piscando para ela.
- As outras ofertas estrangeiras est�o aqui... e o �udio. J� come�amos a levantar o pessoal do filme. E tenho seu contrato. -Acomodou-se, deixando Gray examinar
os pap�is, enquanto ela sorria para Brianna. - Gray contou que voc� � uma cozinheira incr�vel.
- Ele � que gosta de comer.
- E como gosta! Pelo que ouvi dizer, voc� � dona de uma pousada encantadora. Blackthorn, n�o �?
- Blackthorn Cottage. N�o � nada muito grande.
- Imagino que seja bem familiar. - Arlene examinou Brianna sobre o copo de �gua. - E calma.
- Calma, certamente. As pessoas v�o ao Oeste por causa da Paisagem.
- Que, segundo me disseram, � espetacular. Nunca estive na Irlanda, mas Gray, com certeza, agu�ou minha curiosidade. Quantas
pessoas pode acomodar?
- Bem, tenho quatro quartos de h�spedes, ent�o isso varia, dependendo do tamanho das fam�lias. Oito fica confort�vel, mas muitas vezes tenho doze ou mais,
com crian�as.
- E cozinha para todos, cuida do lugar sozinha?
- � algo como cuidar de uma fam�lia - Brianna explicou Muitas pessoas ficam s� por uma noite ou duas e seguem seu caminho
Casualmente, Arlene ia fazendo Brianna falar, pesando cada um de suas palavras, analisando cada inflex�o, julgando. Gray era mais do que um cliente para ela,
muito mais. Uma mulher interessante, concluiu. Reservada, um pouco nervosa. Obviamente capaz, observou tamborilando na mesa com a unha pintada, enquanto interrogava
Brianna sobre detalhes da zona rural.
Elegante, ela percebeu, boas maneiras... ah... viu o olhar de Brianna divagar - apenas por alguns segundos - e deter-se em Gray. E notou o que desejava ver.
Brianna voltou o olhar, viu o cenho de Arlene franzido e lutou para n�o ficar vermelha.
- Grayson falou que voc� j� tem netos.
- Claro, tenho. E depois de uma ta�a de champanhe estou quase mostrando todas as fotos.
- Adoraria v�-las. Verdade. Minha irm� acabou de ter um beb�.
- Tudo nela se aqueceu, os olhos, a voz. - Tamb�m tenho fotos.
- Arlene. - Gray levantou os olhos dos pap�is, olhando-a outra vez. - Voc� � a rainha dos agentes.
- E n�o se esque�a disso. - Estendeu-lhe uma caneta, enquanto acenava pedindo o vinho e os card�pios. - Assine o contrato, Gray, e vamos celebrar.

Brianna calculava que bebera mais champanhe desde que conhecera Gray do que teria bebido em toda a vida antes dele. Enquanto se entretinha com uma ta�a, estudava
o card�pio e tentava n�o fazer careta aos pre�os.
- Vamos encontrar Rosalie mais tarde - Gray disse, referindo se � reuni�o agendada com sua editora -, depois vamos � estr�ia. Voc� vai, n�o vai?
- N�o a perderia por nada - Arlene assegurou. - Quero frango - acrescentou, passando o menu ao gar�om, que esperava. - Agora -continuou depois de terem feito
os pedidos -, conte-me como est� indo o livro.
-Vai bem. Incrivelmente bem. Nunca trabalhei em nada que
flu�sse t�o bem assim. A primeira prova j� est� quase pronta. - T�o r�pido?
- Est� fluindo bem. - O olhar se fixou em Brianna. - Como
uma m�gica. Talvez seja a atmosfera. A Irlanda � um lugar m�gico.
- Ele trabalha bastante - Brianna acrescentou. - Algumas
vezes, n�o sai do quarto por dias. E nem pense em perturb�-lo. � capaz de morder voc� como um pitbull.
- E voc� morde de volta? - Arlene quis saber.
- Geralmente n�o. - Brianna sorriu quando Gray cobriu sua m�o com a dele. - Por causa da minha irm�, j� estou acostumada com esse tipo de comportamento.
- Ah, sim, a artista. Voc� tem experi�ncia com temperamentos art�sticos.
- Tenho mesmo - respondeu com uma risada. - Acho que as pessoas criativas passam por momentos mais dif�ceis do que o resto de n�s... Gray precisa manter a
porta do seu mundo fechada, enquanto est� nele.
- Ela n�o � perfeita?
- Creio que � - Arlene respondeu complacente.
Mulher paciente, ela esperou at� o final da refei��o para dar o pr�ximo passo.
- Gostaria de uma sobremesa, Brianna?
- N�o ag�ento, obrigada.
- Gray vai querer. Nunca aumenta um grama... - falou sacudindo a cabe�a. - Pe�a alguma coisa bem pecaminosa, Gray. Brianna e eu vamos ao toalete para podermos
falar de voc� a s�s.
Quando Arlene levantou, Brianna n�o teve outra op��o sen�o segui-la. Lan�ou um olhar confuso a Gray por sobre o ombro, quando sa�ram.
O banheiro feminino era t�o glamouroso quanto o bar. Sobre a bancada, uma cole��o de vidros de perfume, lo��es, at� cosm�ticos.
Arlene sentou-se de frente para o espelho, cruzou as pernas e fez um gesto para Brianna acompanh�-la.
- Est� excitada com a estr�ia, hoje � noite?
- Sim. � um grande momento para ele, n�o �? Sei que j� fizeram filmes de seus livros antes. Vi um. O livro era melhor.
- Esta � a garota! - Arlene riu, balan�ando a cabe�a. - Sabe
que, antes de voc�, Gray nunca trouxe uma mulher com ele para se encontrar comigo?
- Eu... - Brianna gaguejou, imaginando a melhor resposta.
- Acho isso muito significativo. Nosso relacionamento vai al�m dos neg�cios, Brianna.
- Sei. Ele tem muito carinho por voc�. Fala em voc� como se fosse sua fam�lia.
- Sou sua fam�lia. Ou t�o pr�xima disso quanto ele se permite. Tenho um profundo carinho por ele. Quando me contou que estava trazendo voc� a Nova York, fiquei
mais do que surpresa. - Casualmente, Arlene abriu seu estojo de maquiagem e passou p� sob os olhos. - Fiquei pensando como � que uma piranha irlandesa conseguiu
fisgar meu garoto?
Quando a boca de Brianna se abriu, os olhos gelados, Arlene ergueu a m�o.
- A primeira rea��o de uma m�e superprotetora. E que se modificou logo que pus os olhos em voc�. Perdoe-me.
- Claro. - Sua voz soou dura e formal.
- Agora voc� est� aborrecida comigo, e tinha mesmo de ficar. Adoro Gray h� mais de uma d�cada, me preocupo com ele, brigo com ele, o conforto. Fico torcendo
para que encontre algu�m de quem ele goste, algu�m que o fa�a feliz. Porque ele n�o � feliz.
Fechou o estojo e, por for�a do h�bito, pegou um batom.
- Ah, ele talvez seja a pessoa mais bem-ajustada que conhe�o, mas falta felicidade em algum canto de seu cora��o.
- Eu sei - Brianna murmurou. - Ele � muito sozinho.
- Era. Notou o modo como olha para voc�? Est� quase atordoado. Teria ficado preocupada com isso se n�o tivesse visto o modo como voc� olha para ele.
- Eu o amo - Brianna escutou-se dizer.
- Ah, minha querida, posso ver isso. - Estendeu a m�o para segurar a de Brianna. - Ele lhe contou sobre seu passado?
- Muito pouco. Guarda tudo para si, finge que n�o existe. Arlene apertou os l�bios, concordando com a cabe�a.
-Ele n�o � mesmo de repartir. Estou junto dele como ningu�m piais, h� um longo tempo, e n�o sei quase nada. Uma vez, depois de sua primeira venda de um milh�o
de d�lares, ficou um pouco b�bado e contou mais do que pretendia. - Sacudiu a cabe�a. - N�o acho que deva contar a voc�. Algo como um padre em confiss�o, voc� h�
de entender.
- Sim.
- S� posso dizer uma coisa. Teve uma inf�ncia miser�vel e uma vida dif�cil. Mesmo assim, ou talvez por isso, � um homem generoso e
- Sei que �. �s vezes, generoso at� demais. O que fa�o para ele parar de me comprar coisas?
- N�o fa�a nada. Ele precisa disso. Dinheiro n�o � importante para Gray. Tudo isso simboliza muito para ele, e o dinheiro n�o � mais do que um meio para um
fim. Se me permitir lhe dar um conselho, n�o desista, seja paciente. Ele s� se sente em casa no trabalho. Ele sabe disso. Fico pensando se j� percebeu que voc� est�
fazendo um lar para ele, na Irlanda.
- N�o. - Brianna relaxou o bastante para sorrir. - N�o percebeu. Eu tamb�m n�o at� h� pouco. No entanto, seu livro j� est� quase terminado.
- Mas voc� n�o. E agora tem algu�m a seu lado, se precisar.

Horas mais tarde, enquanto Gray fechava o z�per de seu vestido, Brianna pensava nas palavras de Arlene. Era um gesto de amante, pensou, quando Gray beijou-lhe
o ombro. De marido. Sorriu para ele no espelho.
- Voc� est� lindo, Grayson.
Estava mesmo, com o blazer preto, sem gravata, com aquela sofistica��o casual que ela sempre associara aos astros de cinema e da m�sica.
- Quem vai olhar para mim enquanto voc� estiver por perto?
- Todas as mulheres.
- Quem sabe. - Colocou o colar de p�rolas em torno do pesco�o dela, sorrindo enquanto apertava o fecho. - Quase perfeito. - Avaliou, virando-a para olh�-la.
O tom de azul-noite iluminava a pele clara. O decote deslizava pela curva dos seios, deixando os ombros nus. Prendera os cabelos de modo que ele podia brincar
com os pequenos cachos que escapavam, fazendo c�cegas nas orelhas e na nuca.
Ela riu, quando ele a fez girar lentamente.
- Antes voc� disse que eu estava perfeita.
- Disse. - Tirou uma caixa do bolso e abriu-a. Havia mais p�rolas nela, duas gotas luminosas que se derramavam de solit�rios diamantes flamejantes.
- Gray...
- Shhh. - Prendeu os brincos nas suas orelhas. Um gesto experiente, ela pensou com desagrado, suave e �gil. - Agora est� perfeita.
- Quando comprou isso?
- Escolhi quando compramos o colar. Marcia adorou quando liguei depois e pedi que me mandasse.
- Aposto que adorou mesmo.
Incapaz de fazer outra coisa, ergueu as m�os e alisou um brinco. Sabia que tudo aquilo era verdade, embora n�o conseguisse acreditar - Brianna Concannon num
luxuoso hotel em Nova York, usando p�rolas e diamantes, enquanto o homem a quem amava sorria para ela.
- N�o adianta eu dizer que n�o devia ter feito isso, n�o �?
- N�o mesmo, diga s� obrigada.
- Obrigada. - Concordando, ela apertou o rosto de encontro ao dele. - Esta noite � sua, Grayson, e voc� me faz sentir como uma princesa.
- S� pense em como vamos parecer alinhados se algu�m da imprensa se preocupar em bater uma foto.
- Se preocupar? - Ela apanhou a bolsa, enquanto ele a conduzia para a porta. - � o seu filme. Voc� o escreveu.
- Escrevi o livro.
- Foi o que eu disse.
- N�o. - Deslizou um bra�o pelos ombros dela, enquanto caminhavam para o elevador. Ela podia parecer uma estrangeira glamourosa, notou, mas ainda cheirava
como Brianna. Delicada, doce e sutil. - Voc� falou que era meu filme. N�o �. � o filme do diretor, do produtor, dos atores. E � o filme do roteirista. - Quando a
porta do elevador se abriu, entraram e ele apertou o bot�o para o sagu�o. - O romancista est� no fim da lista, querida.
- Isso � rid�culo. A hist�ria � sua, s�o seus personagens.
- Era. - Sorriu para ela. Estava ficando indignada por ele e
achou aquilo agrad�vel. - Eu o vendi, ent�o qualquer coisa que tenham feito, para melhor ou pior, voc� n�o me ouvir� reclamar. E, nesta noite, as aten��es
certamente n�o estar�o voltadas para o "baseado no romance escrito por..."
- Bem, deveriam estar. N�o teriam nada sem voc�.
- Certo!
Lan�ou-lhe um olhar quando entraram no sagu�o.
- Est� ca�oando de mim.
- N�o, n�o estou. Estou adorando voc�. - Beijou-a para provar que falava a verdade, conduzindo-a para fora, onde a limusine estava esperando. - A dica para
sobreviver a uma venda a Hollywood � n�o levar a coisa para o lado pessoal.
- Voc� mesmo poderia ter escrito o roteiro.
- Pare�o masoquista? - Quase tremeu diante da id�ia. - Obrigado, mas trabalhar com um editor � o mais pr�ximo que quero chegar de escrever para um comit�.
- Recostou-se, enquanto o carro avan�ava em meio ao tr�fego. - Fui bem pago, vou ter meu nome na tela por alguns segundos e se o filme for um sucesso, e os coment�rios
iniciais parecem indicar que ser�, minhas vendas v�o aumentar.
- N�o tem nenhum aborrecimento?
- Muitos. S� que n�o a esse respeito.

A foto deles foi batida no momento em que desceram no cinema. Brianna piscou por causa das luzes, surpresa e mais do que um pouco confusa. Ele comentara que
seria ignorado e j� um microfone foi colocado � frente deles, antes de darem dois passos. Gray respondeu facilmente perguntas, evitou-as tamb�m facilmente, todo
o tempo apertando com firmeza a m�o de Brianna, enquanto abriam caminho at� o cinema.
Surpresa, olhava em volta. Havia pessoas ali que vira somente em revistas famosas, em telas de cinema e na televis�o. Algumas vagavam pelo hall como fariam
pessoas comuns, curtindo uma �ltima tragada, conversando entre drinques, fofocando ou tratando de neg�cios.
De vez em quando, Gray a apresentava a algu�m. Respondia com palavras que julgava certas e guardava nomes e rostos, para sua volta a Clare.
Alguns se vestiam muito bem, outros mal. Viu diamantes e viu jeans. Havia bon�s de beisebol e ternos de milhares de d�lares. Sentiu cheiro de pipoca, como
sentiria em qualquer cinema de qualquer continente, e cheiro de goma de mascar junto com perfumes sutis. E sobre aquilo tudo havia uma t�nue camada de glamour.
Quando ocuparam seus lugares no cinema, Gray passou o bra�o sobre o encosto da cadeira dela, virando-se de modo que sua boca estivesse junto da orelha dela.
- Impressionada?
- Terrivelmente. Sinto como se tivesse entrado num filme, em vez de vir ver um.
- Isto � porque eventos assim n�o t�m nada a ver com a realidade. Espere at� a festa.
Brianna deixou escapar um suspiro. Fora um longo caminho desde Clare. Um caminho muito longo mesmo.
N�o teve muito tempo para avaliar aquilo. As luzes diminu�ram, a tela se iluminou. Por alguns momentos, sentiu uma pontada aguda de emo��o ao ver o nome de
Gray surgir, permanecer, ent�o esvanecer.
- � maravilhoso! - sussurrou. - � mesmo maravilhoso!
- Vamos ver se o resto � t�o bom.
Achou que era. A a��o era arrebatadora, num ritmo de suspense que a envolveu totalmente. Parecia n�o importar que tivesse lido o livro, soubesse das reviravoltas
do enredo, reconhecesse cada trecho das palavras de Gray no di�logo. O est�mago se apertava, os l�bios se curvavam, os olhos se arregalavam. Num certo momento, Gray
passou um len�o �s m�os dela para que pudesse secar as faces.
- Voc� � o p�blico perfeito, Brie. N�o sei como assistia a filmes sem voc�.
- Shhh. - Suspirou, pegou a m�o dele, segurando-a durante o cl�max, at� os cr�ditos finais, enquanto os aplausos ecoaram na sala.
- Diria que foi um sucesso.

* * *

- N�o v�o acreditar - Brianna falou, enquanto sa�am do elevador no Plaza, horas depois. - Eu mesma n�o acreditaria! Dancei com Tom Cruise - Rindo nervosamente,
um pouco alta pelo vinho e pela excita��o, virou-se numa r�pida pirueta. - Voc� acredita?
- Tenho que acreditar. - Gray abriu a porta. - Eu vi. Ele parecia bem interessado em voc�.
- Ah, ele s� queria falar sobre a Irlanda. Tem uma grande admira��o por ela. Ele � t�o charmoso, e loucamente apaixonado pela esposa. E pensar que podem realmente
ir e ficar na minha casa.
- N�o me surpreenderia encontrar o lugar cheio de celebridades depois desta noite. - Bocejando, Gray tirou os sapatos. - Voc� encantou todo mundo com quem
conversou.
- Voc�s, ianques, nunca resistem ao sotaque irland�s. - Abriu o fecho do colar, deixando as p�rolas correrem pelas m�os antes de guard�-las no estojo. - Estou
t�o orgulhosa de voc�, Gray. Todo mundo comentando como o filme � maravilhoso, e toda aquela conversa sobre Oscars. - Sorriu para ele, enquanto tirava os brincos.
- Imagine s� voc� ganhando um Oscar.
- N�o ganharia. - Tirou o blazer, largando-o descuidadamente ao lado. - N�o escrevi o filme.
- Mas... - grunhiu um som de desgosto, enquanto tirava os sapatos e abria o z�per do vestido. - Isso n�o � certo. Devia ganhar um.
Ele riu e, tirando a camisa, olhou para ela sobre o ombro. Mas o gracejo morreu em sua boca.
Ela tirara o vestido e estava ali parada, s� com a lingerie sem al�as que ele comprara. Azul-noite. Seda. Renda.
Desprevenido, ele estava duro como a�o, quando ela se abaixou para desprender a meia fum� das ligas. Lindas m�os com unhas aparadas e sem pintura deslizaram
sobre uma coxa longa e lisa, sobre o joelho, a panturrilha, disciplinadamente enrolando a meia.
Ela dizia alguma coisa, mas ele n�o conseguia ouvir, a cabe�a atordoada. Parte de seu c�rebro o avisava para sufocar o violento arroubo de desejo. Outra parte
dizia que era urgente possuir, como desejava possuir. Violenta, r�pida e descuidadamente.
Meias habilmente dobradas, ela levantou os bra�os para desprender os cabelos. As m�os dele cerradas, enquanto aqueles cachos de ouro e fogo se derramavam sobre
os ombros nus. Podia ouvir a pr�pria respira��o t�o r�pida e rude. E quase podia sentir aquela seda rasgar-se em suas m�os e sentir a carne embaixo ficar quente,
provar daquele calor quando a boca se fechasse avidamente sobre ela.
Obrigou-se a se virar. S� precisava de um momento, garantiu, para recuperar o controle. N�o seria correto assust�-la.
- E ser� divertido contar a todo mundo. - Brianna largou a escova e, rindo outra vez, deu outra pirueta. - N�o posso nem acreditar que j� estamos no meio da
noite e continuo completamente acordada. Feito uma crian�a que tenha ganhado muitos doces. Parece que nunca mais vou precisar dormir. - Girou em torno dele, envolvendo-lhe
a cintura com os bra�os, apertando-se contra suas costas. - Ah, foi tudo t�o maravilhoso, Gray. Nem sei como agradecer a voc�.
- Voc� n�o tem que agradecer. -A voz era rouca, cada c�lula do corpo em alerta total.
- Ah, mas voc� est� acostumado a esse tipo de coisa. - Inocentemente percorreu suas costas, de um ombro a outro, com uma sucess�o de r�pidos beijinhos. Ele
trincou os dentes para conter um gemido. - Acho que voc� n�o � capaz de imaginar como esta noite foi emocionante para mim. Mas voc� est� todo tenso. - Instintivamente
ela come�ou a massagear seus ombros e suas costas. - Voc� deve estar exausto e eu estou aqui tagarelando feito uma matraca. Vamos deitar? Logo, logo dou um jeito
nessa tens�o.
- Pare! - A ordem a cortou. Virando-se bruscamente, apertou-lhe os pulsos, de modo que ela s� conseguiu parar e olhar. Parecia furioso. N�o, ela percebeu.
Parecia perigoso.
- Grayson, o que est� acontecendo?
- N�o v� o que est� fazendo comigo? - Quando ela abanou a cabe�a, puxou-a de encontro a si, os dedos se enterrando na carne. P�de ver a perplexidade nos olhos
dela dando lugar ao come�o da compreens�o, e ent�o ao p�nico. E agarrou-a.
- Maldi��o! - A boca esmagou a dela, faminta, desesperada. Se ela o tivesse empurrado, ele a teria puxado de volta. Em vez disso, ela levantou uma m�o tr�mula
at� seu rosto e ele ficou perdido.
- S� uma vez - murmurou, arrastando-a para a cama. -S� uma.
N�o era o amante paciente e terno que conhecera. Era selvagem, � beira da viol�ncia, com m�os que puxavam, e rasgavam, e possu�am. Tudo nele era agressivo
- sua boca, suas m�os, seu corpo. Por um instante, como ele usasse tudo aquilo para golpear seus sentidos, ela teve medo de simplesmente se partir, como vidro.
Ent�o, o lado negro dos desejos dele a arrastou, chocou, excitou e aterrorizou ao mesmo tempo.
Ela gritou, confusa, enquanto aqueles dedos impacientes a levavam, sem piedade, ao cl�max. A vis�o se turvou, mas podia v�-lo atrav�s dela. Em meio �s luzes,
que tinham deixado acesas, os olhos eram ferozes.
Chamou-o pelo nome outra vez, solu�ando enquanto ele a puxava, deixando-a de joelhos. Estavam colados um ao outro sobre a cama desarrumada, as m�os dele lhe
moldando o corpo, levando-a cruelmente � loucura.
Impotente, ela se curvou, estremecendo quando os dentes dele lhe arranharam a garganta, o seio. Ele ent�o a sugou avidamente, como se faminto pelo gosto dela,
enquanto seus dedos impacientes a levavam impiedosamente para mais al�m.
Ele n�o conseguia pensar. Todas as vezes em que fizera amor com ela, tinha lutado para manter um lado do c�rebro frio o suficiente para manter as m�os gentis,
o ritmo leve. Desta vez, s� havia fogo, uma esp�cie de inferno cheio de contentamento, que brotava tanto da mente quanto do corpo, afastando qualquer civilidade.
Agora, bombardeado pelo seu pr�prio desejo e ansiando pelo dela, o controle estava fora do seu alcance.
Desejava-a padecendo, resistindo, gritando.
E a teve.
Mesmo a seda era um grande obst�culo. Furioso agora, rasgou-a ao meio, empurrando-a sobre as costas, para poder devorar a carne recentemente exposta. Podia
sentir as m�os dela se enfiando em seus cabelos, as unhas dela cravando em suas costas, enquanto se atirava nela, cheio de prazer.
Ent�o seu arquejar, o estremecimento, o grito abafado, quando ele mergulhou a l�ngua dentro dela.
Ela estava "morrendo". Ningu�m poderia sobreviver ao fogo, � press�o que continuava aumentando e explodindo, aumentando e explodindo, at� que seu corpo n�o
fosse mais que uma massa tr�mula de nervos submissos e desejos indescrit�veis.
As sensa��es se atropelavam, sobrepondo-se r�pido demais para que fosse capaz de separ�-las. Apenas sabia que ele estava fazendo coisas nela, coisas incr�veis,
perversas, deliciosas. O novo cl�max atingiu-a como um soco. Erguendo-se, agarrou-se a ele, movendo-se at� estarem rolando na cama. Sua boca corria sobre ele, t�o
�vida agora quanto arrebatada. As m�os conquistadoras o encontraram, o tocaram, fazendo-a estremecer num prazer inexperiente e furioso, quando ele gemeu.
-Agora! Agora! - Tinha de ser agora. Ele n�o podia mais se conter. Suas m�os deslizaram pela pele �mida, agarraram firmemente seus quadris para ergu�-la. Mergulhou
profundamente dentro dela, ofegante, enquanto a posicionava para receber ainda mais dele.
Montou nela firme, penetrando-a mais cada vez que ela se levantava para encontr�-lo. Olhou seu rosto, quando ela afundou na vertigem do derradeiro cl�max.
O modo como seus olhos sombreados escureceram, quando seus m�sculos contra�ram-se em torno dele.
Sentindo algo perigosamente pr�ximo � dor, esvaziou-se dentro dela.








R
olara de cima dela e olhava o teto. Sabia que, por mais que se amaldi�oasse, n�o podia desfazer o que tinha feito. Todo o cuidado, toda a prud�ncia e, num instante,
estragara tudo. Arruinara tudo.
Agora ela estava encolhida a seu lado, tremendo. E tinha medo de toc�-la.
- Desculpe - finalmente falou, percebendo a inutilidade do pedido. - Nunca pensei tratar voc� desse jeito. Perdi o controle.
- Perdeu o controle - ela murmurou, pensando como um corpo podia se sentir fraco e energizado ao mesmo tempo. - Acha que precisa dele?
Sua voz estava fraca, ele notou, e rouca por causa do choque, imaginou.
- Sei que pedir desculpas � o fim da picada. Posso trazer alguma coisa para voc�? Um copo d'�gua. - Apertou os olhos fechados e amaldi�oou-se outra vez. -
Falando em fim da picada... Vou buscar uma camisola. Quer uma camisola.
- N�o, n�o quero. - Conseguiu se mexer o suficiente para examinar o rosto dele. Ele n�o a olhava, observou, s� fitava o teto. - Grayson, voc� n�o me machucou.
- Claro que machuquei. Vai ficar cheia de manchas roxas para provar.
- N�o sou t�o fr�gil assim - disse com uma ponta de exaspera��o
- Tratei voc� como... - N�o podia dizer, n�o para ela. - Devia ter sido gentil.
- E voc� foi gentil. Gosto de saber que custa a voc� algum esfor�o ser gentil. E gosto de saber que fiz alguma coisa que fez voc� se esquecer de ser. - Os
l�bios se curvaram, quando afastou os cabelos na testa dele. - Pensa que me assustou?
- Sei que assustei. - Afastou-se dela, sentando-se. - N�o tive cuidado.
- Realmente me assustou. - Ela fez uma pausa. - E gostei. Amo voc�.
Ele encolheu-se, apertou a m�o que ela colocara na dele.
- Brianna - come�ou sem saber como continuar.
- N�o se preocupe. N�o preciso que repita isso.
- Ou�a, muitas pessoas confundem sexo com amor.
- Imagino que voc� tem raz�o. Grayson, acha que eu estaria aqui com voc�, acha mesmo que eu estaria aqui com voc� assim se n�o o amasse?
Ele era bom com palavras. D�zias de desculpas razo�veis e t�ticas de defesa passavam por sua mente.
- N�o - falou, afinal, encarando a verdade. - N�o acho. O que s� torna tudo pior - murmurou, levantando-se para pegar as cal�as.
- Nunca deveria ter deixado as coisas irem t�o longe. Eu sabia disso. A culpa � minha.
- N�o h� culpa alguma nisso tudo. - Buscou a m�o dele outra vez para que voltasse a se sentar na cama, em vez de ficar caminhando.
- Voc� n�o devia ficar triste por saber que � amado, Grayson. Mas ficava. Triste, em p�nico e, por um breve instante, desejoso.
- Brie, n�o posso retribuir com o que voc� deseja ou deveria desejar. N�o h� futuro comigo, nenhuma casa no campo com crian�as p�tio. N�o h� nenhuma possibilidade.
- � uma pena que pense assim. Mas n�o estou lhe pedindo nada disso.
- � o que voc� deseja.
- � o que desejo, mas n�o o que espero. - Lan�ou-lhe um sorriso surpreendentemente calmo. -J� fui rejeitada antes. Sei muito bem o que � amar e n�o ter o amor
da pessoa de volta, no m�nimo n�o tanto quanto se deseja ou precisa. - Sacudiu a cabe�a antes que ele pudesse falar. Por mais que eu possa querer continuar a seu
lado, Grayson, vou sobreviver sem voc�.
- N�o quero mago�-la, Brianna. Eu me preocupo com voc�. Gosto de voc�.
Ela ergueu a sobrancelha.
- Sei disso. E sei que est� preocupado porque gosta de mim mais do que jamais gostou de algu�m.
Ele abriu a boca, fechou-a e sacudiu a cabe�a.
- Sim, � verdade. � algo novo para mim. Para n�s dois. -Ainda inseguro de seus movimentos, tomou a m�o dela, beijou-a. - Daria mais a voc� se pudesse. E lamento
n�o ter, pelo menos, preparado voc� para uma noite dessas. Voc� � a primeira... mulher inexperiente com quem estive, ent�o tentei ir devagar.
Intrigada, ela levantou a cabe�a.
- Deve ter ficado t�o nervoso quanto eu estava, na primeira vez.
- Mais. - Beijou sua m�o outra vez. - Muito mais, acredite. Estou acostumado com mulheres que conhecem todas as manhas. Experientes ou profissionais, e voc�...
- Profissionais? - Ela arregalou os olhos. -J� pagou para levar mulheres para a cama?
Olhou de volta para ela. Devia ter ficado muito mais confuso do que percebera para vir com uma hist�ria dessas.
- N�o recentemente. De toda maneira...
- Por que teve que fazer isso? Um homem como voc�, que tem sensibilidade?
- Olhe, foi h� muito tempo. Outra vida. N�o me olhe assim - explodiu. - Quando se tem dezesseis anos e se est� sozinho pelas ruas, nada � gr�tis. Nem mesmo
sexo.
- Por que estava sozinho e pelas ruas aos dezesseis anos? Ele recuou. Havia tanto vergonha quanto raiva em seus olhos.
- N�o vou falar disso.
- Por qu�?
- Deus do c�u... -Agitado, enfiou ambas as m�os nos cabelos. - � tarde. Temos que dormir.
- Grayson, � t�o dif�cil contar para mim? N�o h� quase nada n�o saiba a meu respeito, coisas ruins e boas. Acha que vou desprezar voc�, se souber?
Ele n�o tinha certeza e disse a si mesmo que n�o se importava
- N�o � nada importante, Brianna. Nada a ver comigo agora, conosco.
Os olhos dela se esfriaram e levantou-se para pegar a camisola que dissera n�o querer.
- � claro que � problema seu, se prefere me deixar fora disso.
- N�o � o que estou fazendo.
Enfiou a camisola pela cabe�a, ajustando as mangas.
- Como voc� quiser.
- Inferno! Voc� � �tima, n�o �? - Furioso com ela, enfiou as m�os nos bolsos.
- N�o sei o que quer dizer.
- Sabe muito bem - retorquiu. - Joga a culpa, espalha indiferen�a e cai fora.
- Concordamos que n�o � da minha conta. - Aproximando-se da cama, come�ou a esticar os len��is que tinham desarrumado. - Se � culpa que est� sentindo, n�o
� por minha causa.
- Voc� me pegou... - resmungou. - Sabe como me pegar. - Suspirou, vencido. - Voc� quer saber, tudo bem, ent�o. Sente, vou lhe contar uma hist�ria.
Virou as costas para ela, revirando a gaveta atr�s de um ma�o de cigarros que carregava sempre, pois s� fumava quando estava trabalhando.
- A primeira coisa de que me lembro � o cheiro. Lixo come�ando a apodrecer, mofo, cigarros - acrescentou, olhando atravessado para a fuma�a que subia em espirais.
- Erva. N�o do tipo que voc� cultiva, mas do tipo que se traga. Provavelmente nunca sentiu o cheiro dessa erva, n�o �?
- N�o, nunca. - Mantinha as m�os no colo e os olhos nele.
- Bem, � minha primeira lembran�a. O sentido do olfato � o mais forte de todos, permanece em voc�, seja bom ou ruim. Lembro-me dos sons tamb�m. Vozes altas,
m�sica alta, algu�m fazendo sexo no como do lado. Lembro-me de sentir fome e de n�o poder sair do quarto porque ela me prendera outra vez. Estava chapada quase todo
o tempo e nunca lembrava que tinha uma crian�a que precisava comer. Ele procurou em v�o por um cinzeiro, ent�o se inclinou sobre a c�moda. Descobriu que, afinal
de contas, n�o era t�o dif�cil falar. Era quase como criar uma cena na cabe�a. Quase.
- Uma vez ela me disse que sa�ra de casa quando tinha dezesseis anos. Queria fugir dos pais, das regras. Eram quadrados, ela me disse. Ficaram loucos quando
descobriram que ela usava drogas e levava rapazes para o quarto. Estava s� vivendo sua vida, fazendo suas coisas. Ent�o, um dia, saiu, pegou uma carona e foi parar
em S�o Francisco. L� podia ter entrado na onda hippie, mas foi parar nas drogas, experimentando um monte de porcarias, pedindo esmola ou se vendendo para pagar por
elas.
Ele simplesmente lhe contara que a m�e era prostituta e drogada, e ficou esperando algumas exclama��es chocadas. Quando ela s� continuou olhando para ele com
aqueles olhos calmos, circunspectos, sacudiu os ombros e prosseguiu:
- Tinha provavelmente dezoito anos quando ficou gr�vida de mim. De acordo com sua hist�ria, j� tinha feito dois abortos e estava apavorada com outro. Nunca
p�de ter certeza sobre quem era o pai, mas sabia que era um dentre tr�s caras. Juntou-se com um deles e decidiu me manter. Quando eu tinha um ano, encheu-se dele
e foi morar com outro. Ele era seu cafet�o, arranjava-lhe drogas, mas batia nela um pouco demais, e ent�o ela o abandonou.
Gray bateu as cinzas do cigarro e fez uma pausa para Brianna comentar. Mas ela n�o disse nada, continuou sentada na cama, com as m�os cruzadas.
- De qualquer maneira, passaram-se mais dois anos. At� onde posso lembrar, as coisas ficaram como antes. Ela passava de um homem para outro, presa naquelas
porcarias. Em termos eruditos, acho que pode se dizer que ela tinha uma personalidade aditiva. De vez em quando me batia, mas nunca me surrava de verdade... isso
exigiria um pouco mais de esfor�o e interesse. Prendia-me para evitar que eu ficasse vagando quando ela estava na rua ou encontrando seu traficante. Viv�amos na
sujeira e me lembro do frio. Fazia um frio do diabo em S�o Francisco. Foi assim que o fogo come�ou. Algu�m no pr�dio trouxe um aquecedor port�til. Eu tinha cinco
anos, estava sozinho e trancado em casa.
-Ah, meu Deus, Grayson... -Apertou as m�os na boca. -Oh, Deus...
- Acordei sufocado - disse na mesma voz distante. - O quarto estava cheio de fuma�a e eu podia ouvir as sirenes e os gritos. Eu gritava e batia na porta. N�o
podia respirar e estava assustado. Lembro-me apenas de deitar no ch�o e chorar. Ent�o um bombeiro arrombou a porta e me pegou. N�o me lembro de ele ter me carregado.
N�o me lembro do fogo, s� da fuma�a no quarto. Acordei no hospital, e uma assistente social estava l�. Uma coisinha linda com grandes olhos azuis e m�os macias.
E havia um tira. Ele me deixou nervoso, porque eu aprendera a n�o confiar em nenhuma autoridade. Perguntaram se eu sabia onde minha m�e estava. Eu n�o sabia. Mas,
quando j� estava bem para deixar a cust�dia do hospital, fui despejado no sistema. Eles me puseram numa institui��o para crian�as �rf�s, enquanto procuravam por
ela. Nunca a encontraram. Nunca mais a vi.
- Ela nunca procurou por voc�.
- N�o, nunca. N�o foi um mau neg�cio. A casa era limpa, eles me alimentavam regularmente. O grande problema para mim era a disciplina rigida, e eu n�o estava
acostumado com disciplinas. Houve algumas possibilidades de ado��o, mas eu deixava claro que n�o dariam certo. N�o queria ser uma imita��o de filho, n�o importava
o quanto as pessoas fossem boas ou m�s. Algumas eram realmente boas pessoas. Eu era o que chamavam de intrat�vel. Preferia assim. Ser um causador de problemas me
conferiu uma identidade. Ent�o causei muitos problemas. Era um garoto brig�o, com a l�ngua ferina e uma conduta m�. Gostava de arranjar brigas, porque eu era forte,
r�pido e geralmente podia vencer.
"Eu era previs�vel", continuou com um meio sorriso. "Isso era o pior. Eu era produto do meio onde crescera e abominavelmente orgulhoso disso. Nenhum maldito
conselheiro, psiquiatra ou assistente social iria fazer minha cabe�a. Me ensinaram a odiar as autoridades, e isso foi uma coisa que ela me ensinou muito bem."
- Mas a escola, a casa... foram boas para voc�? Um brilho de esc�rnio acendeu em seus olhos.
- Ah, sim, formid�vel. Tr�s metros quadrados e uma cama. Exalou um suspiro impaciente diante da express�o consternada dela.
Voc� � s� uma estat�stica, Brianna, um n�mero. Um problema. E h� mil outras estat�sticas, e n�meros, e problemas por a�. Claro, numa percep��o tardia, posso
dizer que alguns deles realmente se importavam, realmente tentaram fazer diferen�a. Mas eram o inimigo, com suas perguntas e testes, suas regras e disciplina. Ent�o,
seguindo o exemplo de minha m�e, fugi aos dezesseis anos. Vivi nas ruas, entregue � minha pr�pria sorte. Nunca me envolvi com drogas, nunca me vendi, mas n�o h�
muitas outras coisas que n�o tenha feito.
Afastou-se para longe da c�moda e come�ou a andar pelo quarto.
- Roubei, enganei, apliquei golpes. E um dia tive uma revela��o, quando um cara que eu estava sacaneando percebeu a coisa e me encheu de porrada. Quando voltei
a mim, num beco, com a boca cheia de sangue e v�rias costelas quebradas, pensei que podia provavelmente arranjar um jeito melhor de ganhar a vida. Parti para Nova
York. Vendi montes de rel�gios na Quinta Avenida - disse com uma ponta de sorriso. - Joguei cartas e comecei a escrever. Tive uma educa��o razo�vel na casa. E gostava
de escrever. N�o podia admitir isso aos dezesseis anos, sendo um tremendo filho-da-puta. Mas aos dezoito, em Nova York, n�o parecia t�o ruim. O que parecia ruim,
o que de repente come�ou a parecer realmente ruim, era eu ser o mesmo que ela era. Decidi ser algu�m diferente.
"Mudei meu nome. Mudei a mim mesmo. Consegui um emprego de verdade, servindo mesas numa espelunca no Village. Fui me livrando daquele pequeno cafajeste, at�
me tornar Grayson Thane. E n�o olhei para tr�s, porque era in�til."
- Porque machucava voc� - Brianna falou tranq�ilamente. - E o deixava bravo.
- Talvez. Mas principalmente porque n�o tem nada a ver com o que sou agora.
Queria lhe dizer que tinha tudo a ver com quem ele era, o que tinha feito de si mesmo. Em vez disso, levantou-se para encar�-lo.
- Amo quem voc� � agora. - Sentiu uma ang�stia, por ele estar se afastando do que ela queria realmente lhe oferecer. - � t�o penoso para voc� saber disso,
e saber que posso sentir pena da crian�a, do rapaz e admirar o que surgiu?
- Brianna, o passado n�o importa. N�o para mim - insistiu.-
� diferente para voc�. Seu passado reporta a s�culos. Est� mergulhada nele, a hist�ria, a tradi��o. Formou voc� e, por causa disso, o futuro � t�o importante.
Voc� planeja a longo prazo. Eu n�o. N�o posso. Danem-se, n�o quero isso. S� existe o agora. As coisas como s�o agora mesmo.
Ele pensava que ela n�o podia entender aquilo depois do que lhe contara? Podia compreend�-lo t�o bem, o garotinho sofrido, aterrorizado pelo passado, aterrorizado
porque n�o havia futuro. Segurando-se desesperadamente a qualquer coisa que pudesse agarrar no presente.
- Bem, estamos juntos agora, n�o estamos? - Carinhosamente envolveu o rosto dele com as duas m�os. - Grayson, n�o posso deixar de amar voc� para deix�-lo mais
confort�vel. N�o posso fazer isso para me deixar mais confort�vel. Simplesmente � assim. Perdi meu cora��o para voc� e n�o posso voltar atr�s. Duvido que o fizesse,
se fosse poss�vel. N�o significa que voc� tenha que aceit�-lo, mas seria bobo se n�o fizesse isso. N�o custa nada para voc�.
- N�o quero machucar voc�, Brianna. - Segurou-a pelos pulsos. - N�o quero machucar voc�.
- Sei disso. - Ele machucaria, claro. Admirava-se que ele n�o pudesse ver que magoaria a si mesmo tamb�m. - Aproveitaremos o agora e agradeceremos por isso.
Mas me diga uma coisa. - Beijou-o levemente. - Qual � seu nome?
- Deus do c�u! Voc� n�o desiste mesmo.
- N�o. - Seu sorriso era calmo agora, surpreendentemente confiante. - N�o � algo que eu considere um defeito.
- Logan - murmurou. - Michael Logan. Ela riu, fazendo-o sentir-se um idiota.
- Irland�s. Eu devia ter percebido. O dom de falar que voc� tem e todo esse poder de sedu��o.
- Michael Logan - ele disparou - era um pobre de esp�rito, algu�m do mal, um ladr�ozinho de moedas que n�o valia um cuspe.
Ela suspirou.
- Michael Logan era uma crian�a abandonada, problem�tica, que precisava de amor e carinho. E voc� est� errado em odi�-lo tanto. Mas vamos deix�-lo em paz.
Ent�o ela o desarmou apertando-se contra ele, repousando a cabe�a em seu ombro. As m�os deslizavam em suas costas, acalmando-o. Ela devia estar aborrecida
com o que ele contara. Devia estar atemorizada com o modo como ele a tratara na cama. Mas estava ali, abra�ando-o, oferecendo a ele um amor incrivelmente profundo.
- N�o sei o que fazer em rela��o a voc�.
- Voc� n�o tem que fazer nada. - Ro�ou os l�bios no ombro dele. - Voc� me deu os melhores meses da minha vida. E vai se lembrar de mim, Grayson, enquanto viver.
Ele suspirou profundamente. N�o podia negar isso. Pela primeira vez na vida, estaria deixando uma parte de si mesmo para tr�s, quando fosse embora.

Foi ele que se sentiu desconfort�vel na manh� seguinte. Tomaram caf� na sala da su�te, junto � janela de onde se via o parque. E esperou que ela lhe atirasse
no rosto alguma coisa que ele falara. Infringira a lei, dormira com prostitutas, chafurdara nos esgotos das ruas.
Entretanto, ela sentou-se na frente dele, parecendo t�o fresca como uma manh� em Clare, falando alegremente sobre a visita que fariam � Worldwide antes de
irem para o aeroporto.
- N�o est� comendo nada, Grayson. Sente-se bem?
- Estou �timo. - Cortou a panqueca que pensou que queria. - Acho que sinto falta de sua comida.
Era exatamente a coisa certa a dizer. O olhar preocupado dela se transformou num sorriso de deleite.
- Voc� a ter� amanh� outra vez. Vou fazer algo especial para voc�. Soltou um grunhido em resposta. Tinha desistido de falar a ela sobre a viagem a Gales. N�o
queria estragar a alegria de Nova York.
Agora se perguntava por que pensara que poderia. Nada do que havia despejado sobre ela na noite anterior abalara sua tranq�ilidade.
- Ah, Brie, n�s teremos que fazer um pequeno desvio na volta � Irlanda.
- � mesmo? - Franzindo o rosto, baixou a x�cara. - Tem neg�cios em algum lugar?
- N�o exatamente. Vamos at� Gales.
- Gales?
- � sobre as suas a��es. Lembra que falei a voc� que pediria a meu corretor para checar algumas coisas?
- Sim. Ele encontrou algo estranho?
- Brie, a Minas Triquarter n�o existe.
- Mas claro que existe. Tenho as a��es. Recebi a carta.
- N�o h� Minas Triquarter em nenhum mercado de a��es. Nenhuma companhia com este nome listada em lugar algum. O n�mero de telefone no cabe�alho � falso.
- Como pode ser? Ofereceram mil libras.
- � por isso que iremos a Gales. Acho que vale a pena a viagem para fazer uma pequena checagem pessoal.
Brianna sacudiu a cabe�a.
- Tenho certeza de que seu corretor � competente, Gray, mas ele deve ter deixado passar alguma coisa. Se a companhia n�o existisse, n�o emitiriam a��es nem
ofereceriam dinheiro para compr�-las de volta.
- Emitiriam a��es, se isso fosse uma fachada - respondeu, remexendo a comida, enquanto ela o olhava. - Um engodo, Brie. Tenho uma pequena experi�ncia com trapa�as
em a��es. Voc� tem uma caixa postal, um n�mero de telefone e voc� p�e � venda. Para pessoas que investir�o. Pessoas querendo fazer dinheiro r�pido. Voc� tem um terno
e um papo, coloca alguns pap�is juntos, imprime um prospecto e certificados falsos. Pega o dinheiro e desaparece.
Ela ficou quieta por um momento, digerindo tudo aquilo. Realmente podia ver justo seu pai caindo em tal golpe. Sempre se lan�ara imprudentemente nos neg�cios.
Na verdade, n�o esperara nada quando come�ara a investigar o assunto.
- Creio que posso entender isso. E tem a ver com a sorte de meu pai nos neg�cios. Mas como explica que tenham respondido e oferecido dinheiro?
- N�o posso explicar. - Embora tivesse algumas id�ias a respeito. - � por isso que vamos a Gales. Rogan vai mandar seu avi�o nos apanhar em Londres e nos levar.
Depois nos deixar� no aeroporto de Shannon, quando estivermos prontos.
Entendo. - Cuidadosamente deixou o garfo e a faca ao lado.
Discutiu isso com Rogan, por ser homem, e os dois planejaram tudo.
Gray limpou a garganta, passou a l�ngua nos dentes.
- Queria que voc� desfrutasse a viagem at� aqui sem aborrecimentos. - Quando ela apenas fixou nele seus calmos olhos verdes, ele encolheu os ombros. - Voc�
est� esperando um pedido de desculpas, e n�o ter� um. - Cruzou as m�os, descansando-as na beirada da mesa, e n�o disse nada. - Voc� � boa em dar gelo, mas n�o vai
funcionar. Fraude est� fora de sua al�ada. Eu faria essa viagem sozinho, mas certamente precisaria de voc�, j� que as a��es est�o em nome de seu pai.
- E estando no nome de meu pai � assunto meu. � gentil de sua parte querer ajudar.
- Foda-se.
Ela estremeceu, sentiu o est�mago embrulhar-se ante a inevitabilidade da discuss�o.
- N�o fale assim comigo, Grayson.
- Ent�o n�o use esse irritante tom de professora prim�ria comigo. - Quando ela levantou, os olhos dele flamejaram, apertados. - N�o saia, maldi��o!
- N�o serei amaldi�oada ou tratada aos gritos, nem ficarei me sentindo inadequada, porque sou apenas uma filha de fazendeiro de um condado do Oeste.
- Que diabos isso tem a ver com o assunto? - Quando ela continuou andando para o quarto, ele levantou-se bruscamente da mesa. Agarrou seu bra�o, fazendo-a
voltar-se. Um lampejo de p�nico atravessou o rosto dela, antes que ela o contivesse. - Eu disse para n�o sair!
- Vou pra onde quero, assim como voc�. Vou me vestir agora e me aprontar para a viagem que voc� t�o cuidadosamente planejou.
- Se voc� quer me agredir, tudo bem. Mas vamos acertar tudo isso.
-Tenho a impress�o de que voc� j� acertou tudo. Est� machucando meu bra�o, Grayson.
- Desculpe. - Largou-a, enterrando as m�os nos bolsos. - Olhe, achei que voc� ficaria um pouco chateada, mas n�o esperava que algu�m t�o razo�vel como voc�
fizesse tempestade em copo d'�gua.
- Voc� combinou coisas pelas minhas costas, tomou decis�es por mim, decidiu que eu n�o seria capaz de enfrentar por mim mesma estou fazendo tempestade em copo
d'�gua? Tudo bem, ent�o. Tenho certeza de que devia estar envergonhada de mim mesma, n�o �?
- Estou tentando ajudar voc�. - Sua voz elevou-se outra vez, e ele esfor�ou-se para control�-la, assim como seu g�nio. - Isso n�o tem nada a ver com ser inadequada,
tem a ver com o fato de voc� n�o ter experi�ncia. Algu�m invadiu sua casa. N�o consegue juntar as coisas?
Ela o fitou, p�lida.
- N�o. Por que n�o junta as coisas para mim?
- Voc� escreveu sobre as a��es, ent�o algu�m faz buscas em sua casa. R�pida e desordenadamente. Talvez algu�m desesperado. N�o muito tempo depois, h� algu�m
do lado de fora de sua janela. H� quanto tempo vive naquela casa, Brianna?
- Toda a minha vida.
- Alguma coisa parecida aconteceu antes?
- N�o, mas... N�o.
- Ent�o, faz sentido conectar os pontos. Quero ver at� onde vai toda essa hist�ria.
- Devia ter me dito tudo isso antes. - Tr�mula, abaixou-se at� o bra�o da cadeira. - N�o devia ter escondido isso de mim.
- � apenas uma teoria. Por Deus, Brie, voc� j� tem tanta coisa na sua cabe�a! Sua m�e, Maggie e o beb�, eu. Toda essa hist�ria para encontrar a mulher que
esteve envolvida com seu pai. N�o queria aumentar suas preocupa��es.
- Estava tentando me proteger. Estou tentando entender isso.
- Claro que estava tentando proteger voc�. N�o gosto de ver voc� preocupada. Eu... - Deteve-se, aturdido. O que quase tinha dito? Deu um longo passo atr�s,
mentalmente, daquelas tr�s dif�ceis palavras e, fisicamente, dela. - Voc� � importante para mim - disse cuidadosamente.
- Tudo bem. - Subitamente cansada, afastou os cabelos da testa.
- Sinto ter feito uma cena por causa disso. Mas n�o esconda coisas de mim, Gray.
- N�o esconderei. - Tocou o rosto dela, e seu est�mago se contraiu. - Brianna.
- O que foi?
- Nada. - Deixou cair a m�o. - Nada mesmo. Melhor nos aprontarmos, se vamos visitar a Worldwide.

Chovia em Gales e era muito tarde para fazer algo al�m do check-in no cinzento hotelzinho onde Gray reservara um quarto. Brianna teve apenas uma fugaz impress�o
da cidade de Rhondda, da desolada fileira de casas em apertados conjuntos, do c�u triste que golpeava a estrada com a chuva. Partilharam uma refei��o que Brianna
n�o provou, e ent�o desabaram, exaustos, na cama.
Esperara que ela reclamasse. As acomoda��es n�o eram as melhores e a viagem tinha sido brutal, at� para ele. Mas ela n�o disse nada na manh� seguinte, apenas
se vestiu e perguntou o que fariam em seguida.
- Imaginei que poder�amos dar uma checada nos correios, ver se nos leva a algum lugar. - Ele a observou prender os cabelos no alto, gestos precisos, embora
tivesse sombras sob os olhos. - Voc� est� cansada.
- Um pouco. Toda essa mudan�a de fuso hor�rio, imagino. - Espiou pela janela onde p�lidos raios de sol lutavam contra o vidro. - Sempre pensei em Gales como
um lugar selvagem e bonito.
- Grande parte � assim. As montanhas s�o espetaculares e a costa tamb�m. A pen�nsula Lleyn � um pouco tur�stica demais, cheia de ingleses de f�rias, mas realmente
maravilhosa. H� ainda os planaltos muito pastorais e tradicionalmente gauleses. Se voc� visse as charnecas ao sol da tarde, veria como o pa�s � selvagem e bonito.
- Voc� j� esteve em tantos lugares. � surpreendente que possa se lembrar assim de todos.
- Sempre h� alguma coisa que fica gravada na sua mente. - Olhou ao redor do melanc�lico quarto do hotel. - Sinto por isso aqui, Brie. Era o mais conveniente.
Se quiser ficar mais um ou dois dias, posso lhe mostrar as paisagens.
Ela sorriu � id�ia de jogar para o alto todas as suas responsabilidades e sair viajando com Gray por colinas e praias estrangeiras.
- Preciso voltar para casa logo que terminarmos o que viemos fazer N�o posso abusar da boa vontade da Sra. O'Malley por muito mais tempo. - Virou-se do espelho.
- E voc� est� querendo voltar ao trabalho. D� para perceber.
- Me pegou. - Tomou as m�os dela. - Quando eu terminar o livro, terei algum tempo antes de viajar para pensar no pr�ximo. Poderemos ir a algum lugar. Qualquer
lugar que goste. Gr�cia ou o Sul do Pac�fico. Oeste da �ndia. Gostaria? Algum lugar com palmeiras e praia, �gua azul, areia branca.
- Parece ador�vel. - Ele, Brianna pensou, que nunca fazia planos, estava fazendo agora. Achou mais sensato n�o chamar a aten��o para isso. - Talvez seja complicado
me afastar novamente em t�o pouco tempo. - Apertou a m�o dele, antes de solt�-la para pegar a bolsa. - Estou pronta, se voc� tamb�m est�.

Encontraram os correios facilmente, mas a mulher encarregada do balc�o parecia imune ao charme de Gray. N�o era sua fun��o dar nomes de pessoas que alugavam
caixas postais, disse a eles energicamente. Poderiam ter uma se quisessem, e ela tamb�m n�o ficaria falando com estranhos.
Quando Gray perguntou a respeito da Minas Triquarter, recebeu em resposta um sacudir de ombros e uma careta. O nome n�o significava nada para ela.
Gray considerou uma propina, mas outra olhada no jeito empertigado da mulher o fez desistir da id�ia.
- Queimamos um cartucho - disse, quando deixaram o pr�dio dos correios.
- N�o acredito que voc� pensasse que seria t�o f�cil.
- N�o, mas �s vezes voc� acerta quando menos espera. Vamos tentar algumas companhias de minera��o.
- N�o dev�amos relatar tudo o que sabemos �s autoridades locais?
- Faremos isso.
Checou, incans�vel, escrit�rio ap�s escrit�rio, fazendo as mesmas perguntas, recebendo as mesmas respostas. Ningu�m em Rhondda ouvira falar da Triquarter.
Brianna deixou-o assumir o controle, pelo simples prazer de observ�-lo trabalhar. Parecia que ele podia se ajustar, como um camale�o, a qualquer personalidade que
escolhesse.
Podia ser charmoso, bruto, met�dico, astuto. Era, sup�s, como ele pesquisava um assunto sobre o qual deveria escrever. Fez perguntas intermin�veis, por vezes
bajulando ou tiranizando pessoas pela resposta.
Depois de quatro horas, ela j� sabia mais sobre minas de carv�o e acerca da economia de Gales do que tinha vontade. E nada sobre a Triquarter.
- Voc� precisa de um sandu�che - Gray decidiu.
- N�o recusaria um.
- �timo, vamos nos reabastecer e reavaliar a quest�o.
- N�o quero que voc� fique desapontado porque n�o conseguimos nada.
- Mas conseguimos. Sabemos, sem sombra de d�vida, que n�o existe a Minas Triquarter, nunca existiu. A caixa postal dos correios � um embuste e tem todas as
probabilidades de ter sido alugada por quem est� � frente do neg�cio.
- Por que pensa assim?
- Eles precisam dela at� que acertem com voc�, e algum outro investidor pendente. Imagino que devem ter limpado tudo. Vamos tentar aqui. - Conduziu-a a um
pequeno pub.
Os aromas eram familiares o bastante para deix�-la com saudades de casa, as vozes apenas estranhas o bastante para serem ex�ticas. Escolheram uma mesa onde
Gray imediatamente examinou o fino card�pio de pl�stico. - Hummm... batata recheada... N�o deve ser t�o gostosa quanto a sua, mas j� resolve. Quer experimentar?
- Para mim est� �timo. E ch�.
Gray fez o pedido e inclinou-se para a frente.
- Estou pensando, Brie, se a morte de seu pai logo depois de ter comprado as a��es tem algo a ver com isso. Voc� disse que encontrou os certificados das a��es
no s�t�o.
- Sim. N�o mexemos em todas as caixas depois que ele morreu. Minha m�e, bem, Maggie n�o teve coragem, e deixei como estava porque...
- Porque Maggie estava sofrendo, e sua m�e n�o deixava voc� em paz.
- N�o gosto de cenas. - Apertou os l�bios e fitou o tampo da mesa. - Era mais f�cil recuar, afastar-me. - Seus olhos ficaram distantes. - Maggie era a luz
da vida de meu pai. Ele me amava, sei que sim, mas o que havia entre eles era algo especial. Apenas entre eles. Ela estava sofrendo tanto, e houve uma briga sobre
a casa, por ter ficado para mim e n�o para minha m�e. Mam�e estava azeda, brava, e deixei as coisas rolarem. Queria come�ar meu neg�cio, voc� sabe. Ent�o era mais
f�cil evitar as caixas, limp�-las de vez em quando, e dizer a mim mesma que mexeria nelas aos poucos.
- E, afinal, voc� mexeu.
- N�o sei por que escolhi aquele dia. Talvez pelo fato de as coisas estarem mais ou menos acomodadas. Mam�e em sua pr�pria casa, Maggie com Rogan. E eu...
- N�o estava sofrendo tanto por causa dele. J� havia passado tempo suficiente para que voc� fizesse coisas pr�ticas.
- � verdade. Achei que poderia cuidar das coisas que ele guardara, sem sofrer muito, sem ficar pensando que tudo poderia ter sido diferente. E tamb�m por um
pouco de ambi��o. - Suspirou. - Estava pensando em reformar o s�t�o para h�spedes.
- Esta � minha Brie. - Tomou-lhe a m�o. - Ent�o ele guardara os certificados l�, e anos se passaram sem que ningu�m os encontrasse. Ou mexesse com eles. Imagino
que eles os tenham cancelado. Por que se arriscariam a fazer contato? Se fizessem qualquer investiga��o, saberiam que Tom Concannon morrera e seus herdeiros n�o
tinham negociado as a��es. Deviam ter se perdido, ter sido destru�dos ou jogados fora por engano. Ent�o voc� escreveu a carta.
- E aqui estamos. Ainda n�o explica por que me ofereceram dinheiro.
- Ok, vamos continuar com as suposi��es. � uma de minhas grandes habilidades. Suponha que, quando o neg�cio foi feito, fosse
um embuste completo, como expliquei em Nova York. Ent�o imagine que algu�m se torne ambicioso ou tenha sorte. Expanda o neg�cio. Triquarter estava fora do
esquema, mas as fontes, o lucro, a organiza��o ainda estavam l�. Talvez preparasse outro golpe, talvez se metesse em algo legal. Talvez estivesse mexendo com coisas
no lado direito da lei, usando-as como cobertura. N�o seria uma surpresa se o neg�cio legal come�asse a funcionar? Talvez tenham tido mais lucro do que com a trapa�a.
Ent�o � preciso livrar-se daquela parte obscura, ou, pelo menos, encobri-la.
Brianna esfregou a testa enquanto sua refei��o era servida. - Est� tudo t�o confuso para mim.
- Alguma coisa sobre aqueles certificados de a��es perdidos. Dif�cil dizer o qu�. - Deu uma boa garfada. - Hum, n�o chega nem aos p�s da sua. - E engoliu.
- Mas h� alguma coisa, e eles a querem de volta, at� mesmo pagam para t�-la de volta. Ah, n�o muito, n�o o bastante para deixar voc� suspeitando ou interessado em
investimentos futuros. S� o suficiente para fazer valer a pena vender.
- Voc� sabe mesmo como todos esses neg�cios funcionam, n�o �?
- Demais. Se n�o fosse para escrever... - Deteve-se sacudindo os ombros. N�o era algo para se estender. - Bem, podemos considerar uma sorte que eu tenha tido
algumas experi�ncias nessa linha. Vamos fazer umas paradas depois de comer e ent�o procuraremos os tiras.
Ela concordou, aliviada por transferir toda aquela confus�o para as autoridades. O lanche ajudou a levantar-lhes o �nimo. Pela manh�, estariam em casa. Sobre
o ch�, come�ou a sonhar com seu jardim, a acolhida de Con, o trabalho em sua pr�pria cozinha.
- Terminou?
- Hummm? Gray sorriu para ela.
- Viajando?
- Estava pensando na casa. Minhas rosas devem estar florescendo.
- Amanh�, a esta hora, estar� em seu jardim. - Prometeu e,
depois de pagar a conta, levantou.
Na rua, passou o bra�o pelos ombros dela.
- Quer experimentar o transporte local? Se pegarmos um �nibus, atravessar� a cidade mais rapidamente. Posso alugar um carro se voc� quiser.
- N�o seja bobo. Um �nibus est� bom.
- Ent�o vamos... espere. - Empurrou-a para a porta do pub. - N�o � interessante? - murmurou, fitando o outro lado da rua. - N�o � simplesmente fascinante?
- O que foi? Voc� est� me esmagando.
- Desculpe. Esconda-se o mais que puder e d� uma olhada para o outro lado da rua. - Os olhos dele come�aram a cintilar. - Na dire��o dos correios. O homem
carregando o guarda-chuva preto.
Ela espiou.
- Sim - disse, depois de um momento. - H� um homem com um guarda-chuva preto.
- N�o lhe parece familiar? Pense em alguns meses atr�s. Se bem me lembro, voc� nos serviu salm�o e pav�.
- N�o sei como voc� pode se lembrar tanto da comida. Esticou-se mais, apertando os olhos. - Parece algu�m bem comum para mim. Como um advogado ou um banqueiro.
- Bingo! Ou isso foi o que ele nos disse. Nosso banqueiro aposentado de Londres.
- O Sr. Smythe-White. - A s�bita lembran�a a fez rir. - Bem, � estranho, n�o �? Por que estamos nos escondendo dele?
- Porque � estranho, Brie. Porque � muito, muito estranho que seu h�spede de uma noite, aquele que dizia estar fazendo turismo quando sua casa foi invadida,
esteja passeando por uma rua em Gales, indo justamente para os correios. Quer apostar que ele aluga uma caixa postal l�?
- Oh! - Ela deixou-se cair contra a porta. -Jesus Cristo! O que vamos fazer?
- Esperar. E depois segui-lo.
-







N
�o tiveram de esperar muito. Apenas cinco minutos depois que Smythe-White entrou nos correios, saiu novamente. Deu uma r�pida olhada para a direita, para a esquerda,
e ent�o correu pela rua, o guarda-chuva dan�ando a seu lado como um p�ndulo.
- Droga, ela contou a ele.
- O que �?
- Venha, r�pido! - Gray pegou a m�o de Brianna e correu atr�s de Smythe-White. -A funcion�ria dos correios ou qualquer coisa que seja. Contou a ele que estivemos
fazendo perguntas.
- Como sabe?
- De repente, ele sai em disparada. - Gray examinou o tr�fego, praguejou e puxou Brianna em ziguezague entre um caminh�o e um sed�. O cora��o dela foi parar
na garganta quando os dois motoristas reagiram com buzinadas ensurdecedoras. J� de sobreaviso, Smythe-White olhou para tr�s, avistou-os e come�ou a correr.
- Fique aqui - Gray ordenou.
- N�o fico n�o. - Correu atr�s dele, as longas pernas a mantendo n�o mais do que tr�s passos atr�s. Sua ca�a pode ter se esquivado mudado de dire��o, empurrando
pedestres, mas era uma dura disputa com aqueles dois jovens e saud�veis perseguidores nos seus calcanhares.
Como se tivesse chegado � mesma conclus�o, deteve-se diante de uma farm�cia, ofegante. Tirou um len�o impecavelmente branco do bolso para secar a testa, e
ent�o virou-se, arregalando os olhos por tr�s das lentes brilhantes.
- Ora, Srta. Concannon, Sr. Thane, que surpresa! - Ele teve bom senso e condi��es de sorrir agradavelmente, mesmo com a m�o sobre o cora��o em disparada. -
O mundo �, realmente, um lugar pequeno. Est�o passando f�rias em Gales?
- N�o mais do que o senhor - Gray respondeu. - Temos neg�cios para discutir, cara. Vai falar aqui ou devemos procurar a pol�cia local?
Smythe-White piscou inocentemente. Num gesto habitual, tirou os �culos, poliu as lentes.
- Neg�cios? Receio estar completamente perdido. � sobre aquele infeliz incidente em sua pousada, Srta. Concannon? Como lhe disse, n�o perdi nada e n�o tenho
nenhuma reclama��o.
- N�o surpreende que o senhor n�o tenha perdido nada, j� que foi quem fez o estrago. Tinha que atirar todas as minhas coisas no ch�o?
- Como?
- Parece melhor a pol�cia, ent�o - Gray falou segurando Smythe-White pelo bra�o.
- Receio n�o ter tempo para passear agora, embora fosse �timo estar com voc�s. - Tentou, e fracassou, soltar-se do aperto de Gray. - Como pode provavelmente
ver, estou com pressa. Um compromisso que esqueci completamente. Estou bastante atrasado.
- Quer os certificados das a��es de volta ou n�o? - Gray teve prazer de ver o homem hesitar, reconsiderar. Atr�s das lentes dos �culos que ele cuidadosamente
recolocava, de repente os olhos dele se tornaram dissimulados.
- Acho que n�o entendi.
- Entendeu muito bem, assim como n�s. Uma trapa�a � uma trapa�a, em qualquer pa�s, em qualquer l�ngua. S� n�o tenho certeza sobre a pena por fraude, jogos
de confiss�o, falsifica��o de a��es no Reino Unido, mas eles podem ser bem rudes com profissionais no lugar de onde venho. E voc� usou os correios, Smythe-White.
O que foi provavelmente um erro. Desde que ponha um selo e entregue ao setor de correios local, a fraude se torna fraude postal. Um neg�cio muito mais s�rdido.
Deixou Smythe-White absorver aquilo, antes de continuar:
- E ent�o existe a id�ia de que sua base � Gales e aplicou seu golpe atravessando o mar da Irlanda. Caracteriza um crime internacional. Voc� devia estar olhando
longe.
- Ora, ora, n�o vejo raz�o para amea�as. - Smythe-White sorriu novamente, mas o suor come�ara a escorrer em sua testa. - Somos pessoas razo�veis. E � um problema
pequeno, um problema muito pequeno que podemos resolver com facilidade, e para a satisfa��o de todos.
- Por que n�o falamos a esse respeito?
- Sim, sim, por que n�o? - Animou-se instantaneamente. - Com um drinque. Adoraria oferecer um drinque aos dois. H� um pub logo depois de dobrar a esquina.
Calmo. Por que n�o tomamos uma cerveja amigavelmente, ou duas, enquanto esmiu�amos todo esse neg�cio?
- Por que n�o? Brie?
- Mas acho que dev�amos...
- Conversar - Gray disse brandamente e, mantendo uma das m�os firme no bra�o de Smythe-White, segurou o dela. - H� quanto tempo est� no jogo? - Gray perguntou
com alguma intimidade.
- Ah, meu caro, desde antes de voc�s dois terem nascido, imagino. Estou fora agora, de verdade, completamente fora. Dois anos atr�s,
minha esposa e eu compramos uma pequena loja de antiguidades em Surrey.
Pensei que sua esposa tinha morrido - Brianna falou, enquanto Smythe-White caminhava para o pub.
- Ah, n�o. Iris est� em �tima forma. Cuidando das coisas para mim, enquanto dou um fim neste pequeno neg�cio. Vamos muito bem - acrescentou, quando entraram
no pub. - Muito bem mesmo.
Al�m da loja de antiguidades, temos participa��o em v�rios outros empreendimentos. Todos perfeitamente legais, asseguro a voc�. - Cavalheiro ao extremo, puxou
a cadeira para Brianna. - Uma companhia de viagens, a First Flight, j� deve ter ouvido falar. Impressionado, Gray levantou uma sobrancelha.
- Tornou-se uma das maiores empresas na Europa. Smythe-White empertigou-se.
- Gosto de pensar que minhas habilidades empresariais t�m algo a ver com isso. Come�amos, mais exatamente, fazendo contrabandos clandestinos. - Riu, desculpando-se,
para Brianna. - Minha querida, espero que n�o esteja muito chocada.
Ela simplesmente sacudiu a cabe�a.
- Nada mais pode me chocar, neste ponto.
- Podemos pedir uma Harp? - perguntou, fazendo o papel de anfitri�o af�vel. - Parece apropriado. - Depois de acomodados, Smythe-White fez o pedido. - Bem,
como disse, n�s realmente fizemos um pouco de contrabando. Fumo e bebidas principalmente. Mas n�o t�nhamos muito gosto por isso, e o turismo acabou realmente trazendo
mais lucro, sem riscos, por assim dizer. E como Iris e eu j� temos certa idade, decidimos nos aposentar. Num modo de dizer. Sabe que o neg�cio das a��es foi um dos
nossos �ltimos? A minha Iris sempre gostou de antig�idades. Ent�o usamos os lucros daquilo para comprar pe�as e suprir nossa lojinha. - Encolheu-se sorrindo timidamente.
- Suponho que seja de mau gosto falar a esse respeito.
- N�o deixe que isso o interrompa. - Gray reclinou-se na cadeira quando as cervejas foram servidas.
- Bem, imagine nossa surpresa, nossa consterna��o, quando recebemos sua carta. Mantive aquela caixa postal aberta porque temos interesses em Gales, mas o neg�cio
da Triquarter era coisa do passado. Completamente esquecido. Fico constrangido de dizer que seu pai, descanse em paz, se encaixou em nossos esfor�os de reorganiza��o.
Espero que acreditem quando digo que o achei um homem muito agrad�vel.
Brianna apenas suspirou.
- Obrigada.
- Devo dizer que Iris e eu quase nos apavoramos quando soubemos de voc�. Se f�ssemos relacionados com aquela antiga vida, nossa reputa��o, o pequeno neg�cio
que constru�mos com amor nos �ltimos anos poderia estar arruinado. Para n�o falar, ent�o, ah... - Tocou de leve os l�bios com o guardanapo. - Ramifica��es legais.
- Voc� podia ter ignorado a carta - Gray disse.
- E consideramos isso. Ignoramos a princ�pio. Mas, quando Brianna escreveu novamente, sentimos que alguma coisa tinha de ser feita. Os certificados. - Ele
teve o m�rito de ruborizar. - � meio amea�ador admitir isso, mas atualmente assino meu nome real. Arrog�ncia, suponho, e n�o estava usando naquela �poca. Trazer
aquilo � tona agora, chamar a aten��o das autoridades, podia ser realmente inoportuno.
- � como voc� disse - Brianna murmurou, olhando para Gray. - � quase exatamente como voc� disse.
- Sou bom nisso - murmurou, acariciando a m�o dela. - Ent�o voc� foi a Blackthorn para conferir a situa��o, por si mesmo.
- Sim. Iris n�o p�de me acompanhar, pois est�vamos esperando uma remessa importante de pe�as Chippendale. Confesso que estava bem entusiasmado por ter de agir
na surdina outra vez. Um pouco de nostalgia, uma pequena aventura. Fiquei absolutamente encantado com sua casa, e mais do que apenas um pouco preocupado quando descobri
que voc� tinha rela��es de parentesco com Rogan Sweeney. Afinal, ele � um homem importante, inteligente. Preocupou-me que ele tivesse se envolvido. Ent�o... quando
a oportunidade se apresentou, dei uma r�pida busca, eu mesmo, atr�s dos certificados.
Colocou a m�o sobre a de Brianna, apertando-a paternalmente.
- Pe�o desculpas, realmente, pela desordem e inconveni�ncia. N�o sabia quanto tempo teria sozinho, entende? Esperava que, se pudesse botar as m�os neles, colocar�amos
um ponto final em todo esse neg�cio infeliz. Mas...
- Dei os certificados para Rogan guardar - Brianna falou.
- Ah, estava com medo de algo assim. Achei estranho ele n�o ter ido adiante.
- A esposa dele estava perto de ter o beb�, e ele ainda estava abrindo uma galeria nova. - Brianna parou de repente, percebendo que estava quase se desculpando
pelo cunhado. - Eu mesma podia resolver o assunto.
- Comecei a suspeitar disso depois de poucas horas na sua casa. Um esp�rito organizado � um perigo para algu�m no meu neg�cio anterior. Voltei mais uma vez,
achando que podia dar outra busca mas com seu c�o e seu her�i em casa tive que fugir. Brianna encarou-o.
- Voc� estava espiando na minha janela.
- Sem qualquer inten��o desrespeitosa, juro. Minha querida, sou velho o bastante para ser seu pai e completamente feliz no casamento. - Resmungou um pouco,
como se insultado. - Bem, propus comprar as a��es de volta e a oferta est� de p�.
- Por meia libra cada - Gray lembrou-o secamente.
- O dobro do que Tom Concannon pagou. Tenho os pap�is, se voc� quiser ter provas.
- Ah, tenho certeza de que algu�m com seu talento pode aparecer com qualquer documento de transa��o que queira.
Smythe-White deixou escapar um longo e sofrido suspiro.
- Sei que acha que tem o direito de me acusar desse tipo de comportamento.
- Acho que a pol�cia ficar� fascinada com seu comportamento. Olhos fixos em Gray, Smythe-White tomou um gole r�pido de cerveja.
- De que isso serviria agora? Duas pessoas na flor da idade, com os impostos em dia, esposos devotados... arruinados e mandados para a pris�o por imprud�ncias
passadas.
- Voc� enganou pessoas - Brianna retorquiu. - Enganou meu pai.
- Dei a seu pai exatamente aquilo por que ele pagou, Brianna. Um sonho. Ele saiu feliz do nosso neg�cio, esperando, como muitos esperavam, ganhar alguma coisa
de quase nada. - Sorriu-lhe gentilmente. - Ele s� queria mesmo ter essa esperan�a.
Como aquilo era verdade, ela n�o achou nada para dizer.
- Isso n�o torna a coisa certa - respondeu afinal.
- Mas j� reparamos nossos atos. Mudar de vida � algo que exige muito esfor�o, querida. Exige trabalho, paci�ncia e determina��o.
Ela encarou-o outra vez, porque suas palavras atingiram o alvo. Se o que ele dizia era verdade, havia duas pessoas naquela mesa que tinham feito aquele esfor�o.
Condenaria Gray pelo que fizera no passado? Desejaria ver alguma falha antiga vindo � tona e o arrastando?
- N�o quero que o senhor e sua esposa sejam presos, Sr. Smythe-White.
- Ele conhece as regras - Gray interrompeu, apertando forte a m�o de Brianna. -Aqui se faz, aqui se paga. Talvez possamos evitar as autoridades, mas a cortesia
vale mais do que mil libras.
- Como expliquei... - Smythe-White come�ou.
- As a��es n�o valem nada - Gray completou. - Mas os certificados. Eu diria que chegariam a dez mil.
- Dez mil libras? - Smythe-White gritou, enquanto Brianna simplesmente se deixou ficar sentada, com a boca aberta. - � chantagem. � roubo. �...
- Uma libra por unidade - Gray concluiu. - Mais do que razo�vel com o que ganhou com elas. E com o apreci�vel lucro que recebeu dos investidores. Acho que
o sonho de Tom Concannon pode se tornar realidade. N�o acho que seja chantagem. Penso que � justi�a. E justi�a n�o � algo negoci�vel.
P�lido, Smythe-White recostou-se na cadeira, pegou novamente o len�o e secou o rosto.
- Meu jovem, est� esmagando meu cora��o.
- Que isso, s� seu tal�o de cheques! Que � gordo o suficiente para bancar isso. Voc� causou uma s�rie de problemas a Brie, uma s�rie de preocupa��es. Vasculhou
a casa dela. Agora, enquanto posso compreender sua situa��o, n�o imagino que perceba o que exatamente aquela casa significa para ela. Voc� a fez chorar.
- Ah, sim, � verdade. - Smythe-White sacudiu o len�o, tocando o rosto de leve. - Pe�o desculpas, sinceramente. Aquilo foi terr�vel, realmente terr�vel. N�o
fa�o id�ia do que Iris diria.
- Se ela � inteligente - Gray falou pausadamente -, acho que diria "pague logo e d� gra�as a Deus".
Ele suspirou, enfiando o len�o no bolso.
- Dez mil libras. � um homem duro, Sr. Thane.
- Herb, acho que posso cham�-lo de Herb, porque, neste momento, ambos sabemos que sou seu melhor amigo.
Ele concordou com tristeza.
- Infelizmente � verdade. - Mudando de t�tica, olhou esperan�oso para Brianna. - Com certeza eu a fiz sofrer e sinto terrivelmente por isso. Vamos resolver
logo isso. Pensei que talvez pud�ssemos cancelar o d�bito com uma troca. Uma linda viagem para voc�. Ou m�veis novos para sua pousada. Temos algumas pe�as ador�veis
na loja.
- Dinheiro resolve - Gray falou, antes que Brianna pudesse pensar numa resposta.
- � um homem duro - Smythe-White repetiu e deixou cair os ombros. - Creio que n�o tenho escolha. Preencherei um cheque.
- Ter� que ser em dinheiro. Outro suspiro.
- Sim, claro. Tudo bem. Ent�o, n�s vamos fazer um acordo. Naturalmente n�o carrego comigo uma quantia dessas numa viagem de neg�cios.
- Claro que n�o - Gray concordou. - Mas pode consegui-la. Para amanh�.
- Realmente, um ou dois dias seriam mais razo�veis - Smythe-White come�ou, mas, ao ver o brilho nos olhos de Gray, rendeu-se:
- Mas posso ligar para Iris. N�o ser� dif�cil ter o dinheiro aqui, amanh�.
- Aposto que n�o. Smythe-White sorriu desanimado.
- Se me der licen�a, preciso ir ao toalete. - Sacudindo a cabe�a, levantou-se e andou at� o fundo do pub.
- N�o entendo - Brianna sussurrou quando Smythe-White j� n�o podia ouvir. - Fiquei quieta porque voc� estava me chutando por baixo da mesa, mas...
- Cutucando voc� - Gray corrigiu. - Estava s� cutucando voc� e...
- Sim, e vou ficar mancando por uma semana. Mas a quest�o � que voc� o est� deixando escapar e fazendo com que pague uma quantia enorme. N�o parece certo.
- � absolutamente certo. Seu pai queria seu sonho e ele esta conseguindo seu sonho. O velho Herb sabe que muitas vezes os neg�cios d�o errado e voc� vai ter
que arcar com o preju�zo. N�o quer que ele v� preso, nem eu.
- N�o, mas pegar o dinheiro dele...
- Ele pegou o de seu pai, e aquelas quinhentas libras n�o devem ter sido f�ceis para sua fam�lia dispensar.
- N�o, mas...
- Brianna. O que seu pai diria?
Abatida, apoiou o queixo sobre o punho.
- Pensaria que era uma grande piada.
- Exatamente. - Gray dirigiu os olhos ao toalete masculino, apertando-os. - Ele est� demorando muito. Espere um pouco aqui.
Brianna fez uma careta para o copo. Ent�o os l�bios come�aram a se curvar. Era realmente uma grande piada. Seu pai teria gostado muito daquilo.
N�o esperava ver o dinheiro, n�o aquela quantia enorme. N�o mesmo. Bastava saber que eles tinham acertado tudo, sem nenhum preju�zo.
Olhando de soslaio, viu Gray, olhos agitados, irromper do banheiro masculino e correr ao bar. Teve uma r�pida conversa com os gar�ons antes de voltar � mesa.
Seu rosto clareou outra vez, quando se deixou cair na cadeira e pegou a cerveja.
- Bem - Brianna falou depois de esperar um momento.
- Ah, ele fugiu. Pela janela. Velho cafajeste esperto.
- Fugiu? - Confusa pela reviravolta nos acontecimentos, fechou os olhos. - Fugiu - repetiu. - E pensar que me fez gostar dele, acreditar nele.
- � exatamente o que se pode esperar de um trapaceiro. Mas, nesse caso, conseguimos descobrir muita coisa.
- O que vamos fazer agora? S� n�o quero ir � pol�cia, Gray. N�o vou ficar bem comigo mesma imaginando aquele homenzinho e a esposa na cadeia. - Um pensamento
repentino atravessou-lhe o c�rebro, fazendo com que arregalasse os olhos. - Ah, que inferno! Ser� que ele realmente tem uma esposa?
- Provavelmente. - Gray tomou um gole de cerveja, pensativo. - Com o que temos agora, vamos voltar a Clare, deix�-lo cozinhando. Esper�-lo. Ser� bem f�cil
encontr�-lo novamente, se e quando quisermos.
- Como?
- Por meio da First Flight Tours. E tamb�m tem isso. -Ante os olhos at�nitos de Brianna, Gray puxou uma carteira do bolso. -Peguei a carteira dele quando est�vamos
na rua. Por medida de seguran�a - explicou quando ela continuava boquiaberta. - Depois de todos estes anos, at� que n�o estou t�o enferrujado assim. - Sacudiu a
cabe�a para si mesmo. - Devia estar envergonhado. - Ent�o riu e bateu com a carteira na palma da m�o. - N�o fique t�o chocada, s� tem uns trocados e a carteira de
identidade.
Calmamente, Gray contou as notas da carteira e enfiou no pr�prio bolso.
- Ele ainda me deve cem libras, mais ou menos. Diria que carrega o dinheiro de verdade num clipe. Tem um endere�o em Londres - Gray continuou, atirando fora
a carteira roubada. - Dei uma olhada nela no banheiro. H� tamb�m a foto de uma mulher bastante atraente, muito conservada. Diria que � Iris. Oh, e o nome dele �
Carstairs. John B., n�o Smythe-White.
Brianna passou os dedos pelos olhos.
- Minha cabe�a est� girando.
- N�o se preocupe, Brie, garanto que vamos ouvir falar dele outra vez. Pronta pra ir?
- Acho que sim. - Ainda zonza com os acontecimentos do dia, ela levantou-se. - Muito atrevimento mesmo. Ele nos enganou at� nisso... n�o pagou nossa cerveja.
- Ah, pagou sim. - Gray enfiou um bra�o no dela, saudando o barman na sa�da. - Ele � o dono deste maldito pub.
- Ele... - Ela deteve-se, olhou para ele e come�ou a rir.
-




E
ra bom voltar para casa. As aventuras e o glamour de uma viagem eram �timos, Brianna pensava, assim como o simples prazer de sua pr�pria cama, seu pr�prio teto e
a vista familiar de sua pr�pria janela.
N�o se importaria de voar para outro lugar de novo, desde que houvesse uma casa para onde voltar.
Contente por estar de volta � sua rotina, Brianna trabalhava no jardim, escorando os brotos de suas delf�nias e chap�us-de-padre, enquanto o perfume das lavandas
rec�m-florescidas inundava o ar. Abelhas zumbiam por perto, flertando com suas lupinas.
Do fundo da casa vinham os sons de risadas de crian�as e os excitados latidos de Con, enquanto corria atr�s da bola que os visitantes americanos atiravam para
ele.
Nova York parecia t�o longe, t�o ex�tica, como as p�rolas que guardara no fundo da gaveta da c�moda. E o dia que passara em Gales era como um jogo estranho
e pitoresco.
Ergueu os olhos, ajustando a aba do chap�u, para ver a janela de Gray. Ele estava trabalhando, quase que sem parar desde que haviam desfeito as malas. Imaginava
onde andaria agora, em que lugar, em que �poca, que pessoas estariam ao redor dele. E como estaria seu humor quando voltasse para ela.
Irritado, se a coisa andasse mal, pensou. Sens�vel como um c�o perdido. Se andasse bem, estaria faminto - por comida e por ela. Sorriu consigo mesma e delicadamente
amarrou os talos fr�geis �s estacas.
Como era surpreendente ser desejada como ele a desejava. Surpreendente para ambos, concluiu. Ele n�o estava mais habituado �quilo do que ela. E isso o preocupava
um pouco. Distraidamente, deixou os dedos deslizarem por uma moita de sininhos.
Sabia que lhe contara coisas sobre ele que nunca contara a ningu�m mais. E isso o preocupava tamb�m. Que tolice pensar que ela o desprezaria pelo que havia
passado, pelo que fizera para sobreviver!
Podia apenas imaginar o medo e o orgulho de um rapaz que nunca conhecera o amor e as exig�ncias, as tristezas e o consolo de uma fam�lia. Como fora sozinho
e como se fizera sozinho entre o orgulho e o medo. E de algum modo moldara-se num homem zeloso e admir�vel.
N�o, ela n�o o desprezaria. Apenas o amava mais, por saber de tudo isso.
A hist�ria dele a fizera pensar na sua pr�pria, a examinar sua vida. Os pais n�o tinham amado um ao outro e isso fora desastroso. Mas Brianna sabia que tivera
o amor do pai. Sempre soubera e se confortara com isso. Tivera um lar e ra�zes que mantinham corpo e alma ancorados.
E, a seu modo, Maeve a tinha amado. Ao menos, a m�e sentira sua responsabilidade para com os filhos que conhecera, a ponto de ficar com eles. Poderia ter virado
as costas a qualquer hora, Brianna pensava. Isso nunca lhe ocorrera antes e meditava agora a respeito, enquanto se deliciava com as lidas do jardim.
A m�e poderia ter deixado a fam�lia que tinha criado - e se ressentido por isso. Poderia ter voltado � carreira que significava tanto para ela. Mesmo que apenas
o dever a tivesse mantido, era mais do que Gray tivera.
Maeve era dura, amargurada e muitas vezes distorcia as escrituras que lia t�o religiosamente para adapt�-las a seus objetivos. Podia usar os c�nones da Igreja
como um martelo. Mas havia ficado.
Com um pequeno suspiro, ajeitou-se para cuidar da planta seguinte. Chegaria a hora para o perd�o. S� esperava que houvesse perd�o nela.
- Deveria estar contente quando cuida do jardim, e n�o aborrecida. Com a m�o no chap�u, Brianna levantou a cabe�a para olhar Gray.
Um dia bom, percebeu. Quando ele tinha um dia bom, podia-se sentir o prazer vibrando nele.
- Estava divagando um pouco.
- Eu tamb�m. Levantei, olhei pela janela e vi voc�. Por Deus, n�o consegui pensar em mais nada.
- Est� um �timo dia para ficar ao ar livre. E voc� come�ou a trabalhar na madrugada. - Com movimentos r�pidos e estranhamente leves, prendeu uma estaca em
outra planta. - Est� indo bem, ent�o?
- Incrivelmente bem. - Sentou-se ao lado dela, sentindo prazer em aspirar o ar perfumado. - Mal consigo me suportar. Assassinei uma linda jovem hoje.
Soltou uma risada.
- E parece muito satisfeito.
- Gostava muito dela, mas ela tinha de ir. E o assassinato dela vai detonar o esc�ndalo que levar� � desgra�a do assassino.
- Foi nas ru�nas onde estivemos que ela morreu?
- N�o, aquela era outra. Esta encontrou seu destino em Burren, perto do Altar dos Druidas.
- Ah. - Involuntariamente, Brianna tremeu. - Sempre gostei daquele lugar.
- Eu tamb�m. Ele a deixou esticada sobre a cruz de pedra, como uma oferenda a um deus sanguin�rio. Nua, � claro.
- Claro. E suponho que algum turista desafortunado ir� encontr�-la.
- J� encontrou. Um estudante americano num passeio pela Europa. - Gray estalou a l�ngua. - Acredito que nunca mais ser� o mesmo. - Inclinando-se, beijou o
ombro dela. - Ent�o, como foi seu dia?
- N�o t�o cheio de acontecimentos. Despedi-me daqueles ador�veis rec�m-casados de Limerick, esta manh�, e cuidei das crian�as americanas, enquanto os pais
descansavam. - Com seus olhos de �guia, avistou uma min�scula erva daninha e impiedosamente arrancou-a do canteiro. - Eles me ajudaram a assar uns p�ezinhos. Depois,
a fam�lia passou o dia em Bunratty, aquele parque folcl�rico. Voltaram h� pouco. Estou esperando outra fam�lia esta noite, de Edimburgo, que esteve aqui dois anos
atr�s. Eles t�m dois adolescentes, dois meninos que ficaram meio apaixonados por mim, na �ltima vez.
- Verdade? - Distraidamente, deixou um dedo correr pelo ombro dela. - Vou ter que intimid�-los.
- Ah, imagino que j� superaram isso. - Olhando de soslaio, sorriu curiosa, diante do suspiro dele, - O que foi?
- Estava s� pensando que voc� provavelmente arruinou a vida daqueles garotos. Nunca encontrar�o ningu�m que se compare a voc�.
- Que absurdo! - Pegou outra estaca. - Falei com Maggie hoje � tarde. Ficar�o em Dublin por mais uma ou duas semanas. E teremos o batizado quando voltarem.
Murphy e eu seremos os padrinhos.
Trocando de posi��o, ele sentou-se com as pernas cruzadas.
- O que isso significa, exatamente, na religi�o cat�lica?
- Ah, nada muito diferente, imagino, do que significa em qualquer outra religi�o. Falaremos pelo beb� durante o servi�o, como seus padrinhos. E prometeremos
cuidar da educa��o religiosa dele, se algo acontecer a Maggie e Rogan.
- Uma grande responsabilidade.
- � uma honra - respondeu com um sorriso. - Nunca foi batizado, Grayson?
- N�o tenho a m�nima id�ia. Provavelmente n�o. - Deu de ombros e levantou a sobrancelha diante da fisionomia melanc�lica dela. - O que foi agora? Preocupada
porque vou arder no inferno por ningu�m ter respingado �gua sobre a minha cabe�a?
- N�o. - Pouco � vontade, olhou para longe outra vez. E a �gua � apenas um s�mbolo de limpeza do Pecado Original.
- Como assim original?
Ela olhou de volta para ele e sacudiu a cabe�a.
- N�o vai querer que eu lhe ensine catecismo agora, e n�o estou tentando converter voc�. Por falar nisso, Maggie e Rogan v�o convid�-lo para a cerim�nia.
- Tudo bem, eu vou. Ser� interessante. E como est� o beb�?
- Ela disse que Liam est� crescendo a olhos vistos. - Brianna se concentrou no que as m�os estavam fazendo e tentou n�o deixar seu cora��o se confranger muito.
- Contei a ela sobre o Sr. Smythe-White, quero dizer, Sr. Carstairs.
- E ent�o?
- Quase morreu de rir. Acha que Rogan n�o vai achar nenhuma
gra�a, mas n�s duas concordamos que � t�pico de papai se meter numa confus�o dessas. � como se o tiv�ssemos de volta por alguns instantes. "Brie", ele diria,
"se voc� n�o arrisca alguma coisa, nunca ganha alguma coisa." E tenho de lhe dizer que ela ficou impressionada com sua esperteza para localizar o Sr. Carstairs,
e achou que voc� gostaria do trabalho para o qual contratamos o detetive.
- Sem sorte naquilo?
- Na verdade, h� alguma coisa. - Sentou-se outra vez, descansando as m�os sobre as coxas. -Algu�m, creio que um dos primos de Amanda Dougherty, acha que ela
pode ter ido embora para o norte de Nova York, para as montanhas. Parece que j� esteve l� e gostava muito da regi�o. O detetive est� indo para l�, para, ah, qual
� mesmo aquele lugar onde Rip van Winkle adormeceu?
- Catskills?
- Isso mesmo. Ent�o, com sorte, ele vai encontrar alguma coisa l�. Gray pegou uma estaca do jardim e examinou-a com um olhar
ausente, pensando que daria uma �tima arma.
- O que vai fazer se descobrir que tem uma meia-irm� ou irm�o?
- Bem, acho que escreveria � Srta. Dougherty primeiro. - J� pensara sobre isso, cuidadosamente. - N�o quero magoar ningu�m. Mas, pelo tom das cartas dela para
papai, acho que seria o tipo de mulher que gostaria de saber que ela e seu filho s�o bem-vindos.
- E eles seriam... - Ele meditou, deixando a estaca de lado. - Este estranho, de... vinte e seis... vinte e sete anos, seria bem-vindo.
- Claro. - Balan�ou a cabe�a, surpresa com o fato de que ele duvidasse daquilo. - Ele ou ela teria o sangue de papai, n�o teria? Como Maggie e eu temos. Ele
n�o gostaria que vir�ssemos as costas para a fam�lia.
- Mas ele... - Gray parou, sacudindo os ombros.
- Est� pensando que ele pr�prio virou - Brianna disse suavemente. - N�o sei se foi exatamente assim. Acho que nunca saberemos o que ele fez, quando soube.
Mas virar as costas, n�o, n�o seria pr�prio dele fazer isso. Ele guardou as cartas dela, e, conhecendo-o, acho que deve ter sofrido pelo filho que nunca poderia
ver.
O olhar dela acompanhou o esvoa�ar de uma borboleta colorida
- Era um sonhador, Grayson, mas, acima de tudo, era um homem de fam�lia. Desistiu de algo importante para manter a fam�lia unida. Nunca poderia imaginar que
chegasse a tanto, at� ler aquelas cartas.
- N�o o estou criticando. - Pensou no t�mulo e nas flores que Brianna plantara sobre ele. - Apenas odeio ver voc� preocupada.
- Ficarei menos preocupada quando descobrirmos o que for poss�vel.
- E sua m�e, Brianna? Como acha que vai reagir se tudo isso vier � tona?
Os olhos dela esfriaram, virou o queixo numa express�o decidida.
- Cuidarei disso quando chegar a hora. Ela ter� de aceitar a realidade. Por uma vez na vida, ter� de aceitar.
- Ainda est� zangada com ela - ele notou. - Por causa de Rory.
- Rory � passado, n�o existe mais.
Ele tomou as m�os dela antes que pudesse apanhar as estacas. E esperou pacientemente.
- Tudo bem, estou zangada sim. Pelo que fez ent�o, pelo modo como falou com voc�, e talvez, mais do que tudo, pelo modo como fez o que eu sinto por voc� parecer
errado. N�o estou acostumada a ficar zangada assim. Me d� dor de est�mago.
- Ent�o espero que n�o v� ficar zangada comigo - disse enquanto ouvia o barulho de um carro se aproximando.
- Por que ficaria?
Sem dizer nada, ele levantou-se e a puxou. Juntos, viram o carro chegar e parar. Lottie se inclinou com um aceno af�vel, antes que ela e Maeve descessem.
- Liguei para Lottie - Gray murmurou, apertando a m�o de Brianna quando a sentiu tensa entre as suas. - Tipo um convite para uma visitinha.
- N�o quero outra discuss�o com h�spedes em casa. - A voz de Brianna estava gelada. - N�o devia ter feito isso, Grayson. Teria ido v�-la amanh� e discutido
na casa dela, e n�o na minha.
- Brie, seu jardim � uma pintura - Lottie gritou, quando se aproximaram. - E que dia maravilhoso para cuidar dele. - Com seu jeito maternal, abra�ou Brianna
e beijou-lhe o rosto. - Divertiu-se em Nova York?
- Sim, me diverti.
- Vivendo na alta sociedade - Maeve rosnou. - E deixando a
dec�ncia para tr�s.
- Ah, Maeve, pare com isso. - Lottie fez um gesto impaciente. - Quero ouvir tudo sobre Nova York.
- Entrem para um ch� ent�o - Brianna convidou. - Trouxe algumas lembrancinhas.
- Ah, voc� � um amor. Lembrancinhas da Am�rica, Maeve. - Sorriu para Gray enquanto caminhavam para a casa. - E seu filme, Grayson? Foi legal?
- Foi. - Colocou a m�o dela em seu bra�o e o afagou com uma batidinha. - Depois, tive de competir com Tom Cruise pela aten��o de Brianna.
- N�o me diga! - Lottie quase gritou, os olhos arregalados de surpresa. - Ouviu isso, Maeve? Brianna conheceu Tom Cruise!
- N�o dou a m�nima bola para atores - Maeve grunhiu, deses-peradamente impressionada. - Aquela vida desregrada, todos se divorciando.
- Que nada! N�o perde nunca um filme de Errol Flynn quando passa na telinha. - Ponto ganho, Lottie valsou pela cozinha e foi direto ao forno. - Agora, vou
preparar o ch�, Brianna. Assim voc� pode buscar nossos presentes.
- Tenho algumas tortas de cereja para o ch�. - Brianna lan�ou um olhar a Gray quando rumou para o quarto. - Fresquinhas, assadas nessa manh�.
- Ah, que del�cia! Sabe, Grayson, Peter, meu filho mais velho, foi para a Am�rica. Para Boston, visitar primos que temos l�. Conheceu o porto onde voc�s, ianques,
tiravam o ch� ingl�s do barco. Voltou duas vezes e levou os filhos. O filho dele, Shawn, vai mudar para l� e arrumar um emprego.
Enquanto falava sobre Boston e a fam�lia, Maeve mantinha um sil�ncio emburrado. Logo, Brianna voltou, trazendo duas caixinhas.
- H� tantas lojas l� - comentou, determinada a se mostrar alegre. - Para onde quer que se olhe tem algo � venda. Foi dif�cil decidir o que trazer para voc�s.
- O que quer que seja ser� ador�vel. - Curiosa, Lottie largou o prato de tortas e foi pegar sua caixa. - Ah, olhem s� para isto! - Levantou uma pequena garrafa
decorada em dire��o � luz, onde ela refletiu um azul forte.
- Se voc� quiser, pode p�r perfume nela ou ent�o usar como enfeite.
- � linda como n�o podia deixar de ser - declarou. - Olhe s� como tem flores esculpidas dentro dela. L�rios. Que gentileza, Brianna. Ah, Maeve, a sua � vermelha
como rubi. Com papoulas. N�o vai ficar linda sobre a c�moda?
- S�o muito bonitas. - Maeve quase n�o podia resistir a passar o dedo sobre o desenho. Se tinha alguma fraqueza, era por coisas bonitas. Sentia que nunca tivera
sua parte justa delas. - Foi bondade sua lembrar-se de mim enquanto estava hospedada num grande hotel, convivendo com estrelas de cinema.
- Tom Cruise - Lottie falou, ignorando displicentemente o sarcasmo dela. - Ele � t�o lindo como parece nos filmes?
-At� mais, e charmoso tamb�m. Talvez ele e a esposa venham aqui.
- Aqui? - Extasiada com a id�ia, Lottie levou a m�o ao cora��o.
- Bem aqui, em Blackthorn Cottage? Brianna sorriu.
- Foi o que ele disse.
- Que dia ser� esse? - Maeve resmungou. - O que um homem rico e t�o viajado vai querer num lugar assim?
- Paz - Brianna disse friamente. - E boas comidas. O que todos querem quando ficam aqui.
- E voc� tem bastante disso em Blackthorn - Gray acrescentou.
- Viajo muito, Sra. Concannon, e nunca estive num lugar t�o ador�vel e t�o confort�vel como este. Devia ter orgulho de Brianna pelo seu sucesso.
- Hum. Sei muito bem como voc� deve estar confort�vel aqui, na cama de minha filha.
- S� um idiota n�o estaria - respondeu afavelmente, antes que Brianna pudesse retrucar. - A senhora merece elogios por ter criado uma mulher t�o bondosa e
af�vel, e ao mesmo tempo com c�rebro e dedica��o para dirigir um neg�cio de sucesso. Ela me surpreende.
Aturdida, Maeve n�o disse nada. O cumprimento era uma rea��o que ela n�o esperara. Estava ainda procurando o insulto, quando Gray se dirigiu � bancada.
- Tamb�m trouxe uma coisinha para voc�s duas. - Deixara a sacola na cozinha, antes de sair para falar com Brianna. Preparando o cen�rio, pensou, para que tudo
fosse como queria.
- Ora essa, n�o � gentil? - Surpresa e prazer transpareciam na voz de Lottie enquanto aceitava a caixa que Gray lhe oferecia.
- � s� uma lembrancinha - Gray disse, sorrindo, enquanto Brianna simplesmente olhava para ele, confusa. O suspiro de prazer de Lottie o deliciou.
- � um passarinho. Olhe s�, Maeve, um p�ssaro de cristal. Veja como capta a luz do sol.
- Voc� pode pendur�-lo num fio na janela - Gray explicou. - Vai fazer um arco-�ris para voc�. Voc� me faz lembrar um arco-�ris, Lottie.
- Ah, deixa disso. Arco-�ris. - Piscou com olhos �midos e levantou-se para dar um abra�o apertado em Gray. - Vou pendurar bem na janela da frente. Obrigada,
Gray, voc� � um homem ador�vel. Ele n�o � ador�vel, Maeve?
Maeve grunhiu, hesitando diante de sua caixa de presente. Por direito, sabia que devia lhe atirar a coisa na cara, em vez de aceitar o presente de um homem
daquele tipo. Mas o p�ssaro de cristal de Lottie era t�o lindo. E a combina��o de cobi�a e curiosidade fez com que abrisse a caixa.
Sem fala, levantou o vidro em forma de cora��o. Tamb�m tinha uma tampa e, quando a abriu, a m�sica fez-se ouvir.
- Ah, � uma caixinha de m�sica. - Lottie bateu palmas. - T�o linda e engenhosa. Que m�sica est� tocando?
- Stardust - Maeve murmurou e conteve-se antes que come�asse a cantarolar. - Uma m�sica bem antiga.
- Um cl�ssico - Gray acrescentou. - Eles n�o tinham nada irland�s, mas esta parecia combinar com a senhora.
Os cantos da boca de Maeve se levantaram, enquanto a m�sica a encantava. Ela pigarreou, encarando Gray. Um olhar direto.
- Obrigada, Sr. Thane.
- Gray - corrigiu com carinho.

Trinta minutos depois, Brianna colocava as m�os nos quadris. Estavam s� ela e Gray na cozinha agora, e o prato de tortas estava vazio.
- Foi como um suborno.
- N�o, isso n�o foi como um suborno - disse, imitando-a. - Foi um suborno. Danado de bom tamb�m. Ela sorriu para mim antes de sair.
Brianna bufou.
- N�o sei de quem ficar mais envergonhada, se de voc� ou dela.
- Ent�o pense nisso como um pacto de paz. N�o quero sua m�e deixando voc� triste por minha causa, Brianna.
- Esperto voc� foi. Uma caixa de m�sica.
- Tamb�m acho. Cada vez que ela ouvi-la, vai pensar em mim. N�o vai levar muito tempo para se convencer de que n�o sou um tipo t�o ruim, afinal.
Ela n�o queria rir. Era uma situa��o ultrajante.
- J� a tinha analisado, n�o �?
- Um bom escritor � um bom observador. Ela est� habituada a reclamar. - Abriu a geladeira e pegou uma cerveja. - O problema � que ela n�o anda tendo nada para
reclamar ultimamente. Deve ser frustrante. - Abriu a garrafa e tomou um gole. - E est� com medo de que voc� se afaste dela. E n�o sabe como se aproximar.
- E espera que eu o fa�a.
- Voc� o far�. Voc� � assim. Ela sabe disso, mas est� preocupada que desta vez seja uma exce��o. - Levantou o queixo de Brianna com a ponta do dedo. - N�o
ser�. Fam�lia � algo muito importante para voc�, e voc� j� come�ou a perdo�-la.
Brianna virou-se para arrumar a cozinha.
- N�o � sempre confort�vel ter algu�m olhando dentro de voc� como se fosse de vidro. - Mas ela suspirou, ouvindo o pr�prio cora��o. - Talvez eu tenha come�ado
a perdo�-la. N�o sei quanto tempo o processo vai durar. - Lavou as x�caras, meticulosamente. - Seu plano, hoje, com certeza, o acelerou.
- Essa era a id�ia. - Por tr�s dela, deslizou os bra�os pela sua cintura. - Ent�o, n�o est� brava.
Virando-se, descansou a cabe�a em seu ombro, onde mais gostava de ficar.
- Amo voc�, Grayson.
Ele afagou-lhe os cabelos, olhando pela janela, sem dizer nada.


Os dias que se seguiram tiveram uma temperatura agrad�vel, do tipo que fazia trabalhar no quarto, como viver um eterno crep�sculo. Era f�cil perder a no��o
do tempo, mergulhar no livro com apenas uma vaga percep��o do mundo em torno dele.
Estava se aproximando do assassino, do violento encontro final. Desenvolvera um respeito pela mente do vil�o, espelhando perfeitamente as mesmas emo��es de
seu her�i. O homem era t�o inteligente quanto corrupto. N�o louco, Gray meditava, enquanto outra parte de seu c�rebro visualizava a cena que estava criando.
Alguns chamariam o vil�o de louco, incapazes de conceber que a crueldade e a desumanidade dos assassinatos pudessem brotar de uma
mente n�o distorcida pela insanidade.
Gray sabia bem disso, tanto quanto seu her�i. O assassino n�o era louco, mas fria e sanguinariamente s�o. Era simplesmente, muito simplesmente, mau.
J� sabia exatamente como a ca�ada final se desenvolveria, quase
todos os passos e palavras estavam claros em sua mente. Na chuva, no escuro, entre as ru�nas varridas pelo vento onde sangue j� fora derramado. Sabia que o
her�i veria apenas por um instante o pior de si mesmo refletido no homem que ele perseguia.
E aquela batalha final seria mais do que certo contra errado, bem contra mal. Naquele precip�cio de ventos uivantes, encharcado pela chuva, seria uma luta
desesperada pela reden��o.
Mas aquilo n�o seria o fim. E era em busca daquela desconhecida cena final que Gray corria. Imaginara, desde o come�o, o her�i deixando a vila, deixando a
mulher. Ambos tinham sido irrevogavelmente transformados pela viol�ncia que arruinara aquele calmo lugar. E pelo que acontecera entre eles.
Ent�o, cada um seguiria com o que lhes restava da vida, ou tentaria. Separados, porque os criara como duas for�as dinamicamente opostas, que certamente se
atra�am, mas nunca por muito tempo.
Agora n�o estava t�o claro assim. Imaginava aonde o her�i estava indo e por qu�. Por que a mulher se voltava lentamente, como havia planejado, movendo-se em
dire��o � porta da pousada, sem olhar para tr�s.
Deveria ter sido simples, verdadeiro para os personagens, satisfat�rio. Quanto mais pr�ximo de alcan�ar aquele momento, mais apreensivo ficava.
Chutando a cadeira, olhou inexpressivamente para o quarto. N�o tinha id�ia de que horas do dia seriam ou por quanto tempo ficara acorrentado ao trabalho. Mas
uma coisa era certa: estava exausto.
Precisava caminhar, decidiu, com chuva ou sem chuva. E precisava parar de criticar a si mesmo e deixar aquela cena final se desdobrar do seu pr�prio jeito,
e no seu tempo.
Come�ou a descer as escadas, maravilhado com o sil�ncio, antes de lembrar que a fam�lia da Esc�cia tinha ido embora. Quando rastejara para fora de sua caverna
tempo suficiente para notar, divertira-se vendo os dois rapazes andarem atr�s de Brianna, competindo pela aten��o dela.
Era dif�cil culp�-los por isso.
O som da voz de Brianna fez com que se voltasse para a cozinha:
- Bom-dia, Kenny Feeney. Visitando sua av�?
- Sim, Srta. Concannon. Ficaremos aqui por duas semanas.
- Fico contente de ver voc�. Cresceu bastante. Quer entrar e tomar uma x�cara de ch� com bolo?
- Adoraria.
Gray viu um garoto em torno de doze anos dar um sorriso de dentes tortos quando entrou, saindo da chuva. Ele carregava alguma coisa grande e aparentemente
pesada, enrolada em jornais.
- Vov� lhe mandou uma perna de cordeiro, Srta. Concannon. N�s o abatemos esta manh�.
- Ah, que gentileza dela! - Com vis�vel prazer, Brianna pegou o medonho pacote, enquanto Gray, escritor de romances policiais sedentos de sangue, sentia o
est�mago embrulhar.
- Preparei um bolo de groselha. Que tal uma fatia e depois levar o resto para ela?
- Tudo bem. - Educadamente, descal�ando as botas de cano alto, o garoto despiu a capa de chuva e o bon�. Ent�o viu Gray. - Bom-dia - disse polidamente.
- Ah, Gray, n�o ouvi voc� descer. Este � o jovem Kenny Feeney, neto de Alice e Peter Feeney, da fazenda no fim da rua. Kenny, este � Grayson Thane, um h�spede.
- O ianque - Kenny disse enquanto sacudia solenemente a m�o de Gray. - Voc� escreve livros com assassinatos, minha av� diz.
- Verdade. Voc� gosta de ler?
- Gosto de livros sobre carros e esportes. Talvez voc� possa escrever um livro sobre futebol.
- Vou pensar nisso.
- Quer um peda�o de bolo, Gray? - Brianna perguntou, enquanto cortava. - Ou prefere um sandu�che agora?
Ele lan�ou um olhar cauteloso para o monte embaixo do jornal. Imaginou-o balindo.
- N�o, nada. Agora n�o.
- Voc� mora em Kansas City? - Kenny quis saber. - Meu irm�o mora. Foi para os Estados Unidos tr�s anos atr�s. Ele toca numa banda.
- N�o, n�o moro, mas j� estive l�. � uma cidade bonita.
- Pat diz que � o melhor lugar do mundo. Estou guardando dinheiro, a� vou poder ir pra l� quando tiver idade suficiente.
- Vai nos deixar ent�o, Kenny? - Brianna passou a m�o pelos cabelos vermelhos desgrenhados.
- Quando tiver dezoito anos. - Deu outra mordida feliz no bolo, engolindo-o com ch�. - Voc� pode conseguir um bom trabalho l� e pagam bem. De repente eu jogo
num time americano de futebol. Eles t�m um, l� mesmo em Kansas City, sabe?
- Ouvi falar. - Gray sorriu.
- O bolo est� legal, Srta. Concannon. - Kenny raspou at� o �ltimo farelo.
Ao sair pouco depois, Brianna observou-o correr em disparada pelos campos, o bolo empacotado embaixo do bra�o, como uma de suas preciosas bolas de futebol.
- Tantos deles v�o embora. Dia ap�s dia, ano ap�s ano, n�s os perdemos. - Sacudindo a cabe�a, fechou a porta da cozinha outra vez. - Vou dar um jeito em seu
quarto, agora que voc� saiu.
- Estava indo dar uma caminhada. Por que n�o vem comigo? - S� se for bem r�pido. Deixe-me... - Sorriu desculpando-se, quando o telefone tocou. - Boa-tarde,
Blackthorn Cottage. Oh, Arlene, como vai? - Estendeu a m�o para falar com Gray. - � bom ouvir voc�. Sim, estou bem. Gray est� bem aqui, eu vou... oh? -A sobrancelha
subiu, e ent�o sorriu outra vez. - Seria �timo! Naturalmente voc� e seu marido s�o mais do que bem-vindos. Setembro � uma �tima �poca do ano. Estou t�o contente
que estejam vindo. Sim, tenho Quinze de setembro, por cinco dias. Claro que sim, d� para fazer muitos passeios partindo daqui. Devo enviar alguma informa��o? N�o,
ser� um prazer. Estou ansiosa tamb�m. Sim, Gray est� aqui, como eu disse. S� um momento.
Ele pegou o telefone, mas olhou para Brianna.
- Ela vem � Irlanda em setembro?
- De f�rias, ela e o marido. Parece que despertei sua curiosidade. Ela tem novidades para voc�.
- Hum-hum. E a�, linda! Dando uma de turista pelos condados do Oeste? - Riu, balan�ando a cabe�a quando Brianna lhe ofereceu ch�. - N�o, acho que vai adorar.
O tempo? - Olhou pela janela a chuva que ca�a forte. - Magn�fico! - Piscou para Brianna enquanto bebericava o ch�. - N�o, n�o recebi seu pacote ainda. O que h� nele?
Sacudindo a cabe�a, murmurou para Brianna:
- Cr�ticas do filme. - Parou ouvindo. - Quais s�o os elogios? Humm. Brilhante, gosto de brilhante. Espere, repita isso. "Da mente f�rtil de Grayson Thane"
- repetiu para Brianna. - Digno do Oscar. Dois polegares para cima. - Ele riu. - O filme mais poderoso do ano. Nada mau, mesmo que ainda seja maio. N�o. N�o estou
debochando. � �timo! Melhor ainda! Refer�ncias ao novo livro - disse a Brianna.
- Mas voc� ainda n�o terminou o livro novo.
- N�o esse livro novo. O que vai sair em julho. Esse � o livro novo, o que estou trabalhando � o manuscrito novo. N�o, estava s� explicando coisas b�sicas
sobre publica��o para a anfitri�.
Com os l�bios apertados, ele continuou ouvindo.
- Mesmo? Gosto disso.
Sem tirar os olhos dele, Brianna foi dar uma olhada no forno. Gray fazia coment�rios, murmurava algo. De vez em quando, ria ou sacudia a cabe�a.
- Ainda bem que n�o estou de chap�u. Minha cabe�a est� crescendo. Sim, a ag�ncia de publicidade me mandou uma carta enorme sobre os planos para a turn� de
divulga��o. Concordei em ficar � disposi��o deles por tr�s semanas. N�o, voc� decide sobre esse tipo de coisa. Demora muito para enviarem pelo correio. Sim, voc�
tamb�m. Direi a ela. Falo com voc� depois.
- O filme est� indo bem - Brianna disse, tentando resistir � vontade de crav�-lo de perguntas.
- Doze milh�es na primeira semana, o que n�o � de jogar fora. E os cr�ticos est�o gostando. Aparentemente gostaram tamb�m do pr�ximo livro - falou, pegando
um biscoito de uma lata. - Criei uma hist�ria densa numa atmosfera com di�logos t�o r�spidos como uma adaga afiada. Com, ah, estripamentos e humor negro e c�ustico.
N�o t�o banal assim.
- Devia estar muito orgulhoso.
- Escrevi isso h� quase um ano. - Sacudiu os ombros, mastigando. - �, � legal. Tenho um certo carinho por ele que diminuir� consideravelmente depois de trinta
e uma cidades em tr�s semanas.
- A turn� de que voc� falou.
- Certo. Programas de entrevistas, livrarias, aeroportos e quartos de hotel. - Com uma risada, atirou o resto do biscoito na boca. - Que vida!
- Acho que combina com voc�.
- Exatamente.
Ela concordou, n�o querendo ficar triste, e colocou a grelha sobre a bancada.
- Em julho, voc� disse.
- �. J� est� perto. Perdi a no��o do tempo. Estou aqui h� quatro meses.
- �s vezes parece que voc� sempre esteve aqui.
- Est� se acostumando comigo. - Passou distraidamente a m�o pelo queixo e ela p�de ver que sua mente estava em outro lugar. - Que tal uma caminhada?
- Tenho de aprontar o jantar.
- Vou esperar. - Inclinou o corpo amigavelmente sobre o balc�o. - Ent�o, qual � o jantar?
- Perna de cordeiro. Gray suspirou.
- � o que imaginava.







N
um dia claro, no meio do m�s de maio, Brianna olhava os homens cavando a funda��o para a sua estufa. Um pequeno sonho se torna realidade, pensou, atirando a tran�a
que usava para as costas.
Ela sorriu ao beb� que gorgolejava no balan�o port�til ao lado. Aprendera a ficar contente com pequenos sonhos, pensou, abaixando-se para beijar os cabelos
crespos e pretos do sobrinho.
- Ele cresceu tanto, Maggie, em t�o poucas semanas.
- Sei. E eu n�o. - Bateu a m�o na barriga, fazendo uma careta. - A cada dia n�o me sinto mais do que vaca, e s� queria saber se um dia perderei isso tudo novamente.
- Voc� est� maravilhosa.
- � o que digo a ela - Rogan acrescentou, passando um bra�o pelos ombros de Maggie.
- Voc� n�o sabe de nada. Est� enfeiti�ado por mim.
- � a pura verdade.
Brianna olhou para longe, enquanto eles sorriam um para o outro. Como era f�cil para eles agora. T�o aconchegados em seu amor, com um beb� lindo murmurando
ao lado. N�o se importou com a pontada de inveja ou com a fisgada de desejo.
- Ent�o, onde anda seu ianque, esta manh�?
Brianna olhou-a, querendo descobrir, constrangida, se Maggie estava lendo seu pensamento.
Levantou-se e saiu de madrugada, sem nem tomar caf�.
- Para onde?
- N�o sei. Rosnou para mim. Pelo menos, acho que foi para mim. O humor dele anda imprevis�vel por estes dias. O livro o est� preocupando, embora ele diga agora
que est� s� limpando. O que significa, pelo que me falou, que est� polindo.
- Estar� pronto em breve, n�o? - Rogan perguntou.
- Em breve. - E ent�o... Brianna estava abrindo uma p�gina do livro de Gray e n�o pensando em ent�os. - Seu editor telefona toda hora e manda pacotes o tempo
todo sobre o livro que est� saindo neste ver�o. Parece irrit�-lo ter de pensar em um, quando ainda est� trabalhando em outro. - Voltou a olhar para os oper�rios.
- � uma boa localiza��o para a estufa, n�o acha? Vou ficar contente de poder v�-la da janela.
- Voc� j� falou demais sobre essa localiza��o nos �ltimos meses - Maggie observou, recusando-se a mudar de assunto. - As coisas est�o bem entre voc� e Gray?
- Sim, muito bem. Ele anda um pouco aborrecido agora, como eu disse, mas seu mau humor nunca dura muito. Contei a voc�s como ele planejou uma tr�gua com mam�e?
- Esperteza dele. Uma quinquilharia de Nova York. Ela foi am�vel com ele no batizado de Liam. E eu precisei dar � luz para chegar perto disso.
- Ela � louca por Liam - Brianna disse.
- Ele � um p�ra-choque entre n�s. Ah, o que foi, querido - murmurou quando Liam come�ou a se agitar. - Sua fralda est� molhada, � isto. - Levantando-o, Maggie
o acariciou at� acalm�-lo.
- Vou troc�-lo.
- Voc� se oferece mais r�pido do que o pai dele. - Balan�ando a cabe�a, Maggie deu uma risada. - N�o, deixe que eu fa�o isto. Fique aqui cuidando de sua estufa.
Levar� s� um minuto.
- Ela sabe que quero conversar com voc�. - Rogan levou Brian na para os bancos de madeira, pr�ximos das ameixeiras-selvagens1 que inspiraram o nome da pousada.
- Alguma coisa errada?
- N�o. - Sob uma calma for�ada, percebia um certo nervosismo que n�o era comum nela. Isto, Rogan concluiu com uma leve careta tinha mais a ver com Maggie.
- Queria falar com voc� sobre o neg�cio da Minas Triquarter. Ou a inexist�ncia dela. - Ele sentou, deixando as m�os nos joelhos. - Na verdade, ainda n�o tivemos
oportunidade de falar sobre isso desde que eu estive em Dublin, e depois veio o batizado do beb�. Maggie est� satisfeita com o modo como as coisas est�o andando.
Est� mais interessada em curtir Liam e voltar aos seus vidros do que em cuidar desse assunto.
- � assim que deve ser mesmo.
- Para ela, talvez. - N�o disse o que era �bvio para eles. Nem ele nem Maggie exigiam qualquer compensa��o monet�ria que podia resultar de um acerto. - Tenho
de admitir, Brianna, n�o me parece bem. O princ�pio da coisa...
- Posso entender isso, voc� � um empres�rio. - Ela sorriu. - Voc� nunca viu o Sr. Carstairs. � dif�cil ficar com raiva dele, depois de conhec�-lo.
- Vamos separar emo��o de aspectos legais, por um momento. O sorriso dela se alargou. Imaginou que ele usasse aquele tom vivo com qualquer subalterno ineficiente.
- Tudo bem, Rogan.
- Carstairs cometeu um crime. E, embora voc� possa estar relutante em v�-lo preso, � apenas l�gico esperar alguma penalidade. Agora, sei que ele se tornou
bem-sucedido nos �ltimos anos. Cuidei eu mesmo de fazer algumas pequenas investiga��es e est� claro que seus neg�cios atuais s�o legais e bem lucrativos. Ele tem
condi��es de compensar voc� pela desonestidade na transa��o com seu pai. Seria f�cil para mim ir a Londres pessoalmente e acertar isso.
- � muita delicadeza sua. - Brianna cruzou as m�os, suspirando profundamente. - Mas lamento, Rogan, por desapont�-lo. Entendo que sua �tica foi insultada e
que s� deseja que a justi�a seja feita.
- � isso. - Contrariado, ele sacudiu a cabe�a. - Brie, posso entender a atitude de Maggie. Est� focada no beb� e no trabalho, e sempre tem algu�m para afastar
qualquer coisa que atrapalhe sua concentra��o. Mas voc� � uma mulher pr�tica.
- Sou - concordou. - Sou sim. Mas receio ter em mim alguma coisa de meu pai tamb�m. - Esticando o bra�o, colocou a m�o sobre a de Rogan. - Sabe, algumas pessoas,
por uma ou outra raz�o, come�am em bases n�o muito firmes. As escolhas que fazem n�o s�o elogi�-veis. Uma parte delas permanece l� porque � mais f�cil, ou porque
est�o acostumadas, ou at� porque preferem. Outra parte desliza de l� para situa��es mais consolidadas, sem muito esfor�o. Um pouco de sorte, de oportunidade. E outras,
uma pequena parte - disse, lembrando-se de Gray -, batalham por seu caminho para um neg�cio s�lido. E fazem coisas admir�veis de si mesmas.
Mergulhou num sil�ncio profundo, fitando as colinas. Desejando.
- Perdi voc�, Brie.
- Ah. -Abanando a m�o, ela voltou a lhe prestar aten��o. - O que quero dizer � que n�o sei quais as circunst�ncias que levaram o Sr. Carstairs de um tipo de
vida a outra. Mas ele n�o est� prejudicando ningu�m agora. Maggie tem o que quer, e eu, o que me agrada. Ent�o, por que nos preocuparmos?
- Foi o que ela me disse que voc� diria. - Levantou as m�os, vencido. - Eu tinha de tentar.
- Rogan - Maggie chamou da porta da cozinha, embalando o beb�. - Telefone. � de Dublin, para voc�.
- Ela n�o atende essa porcaria na nossa pr�pria casa, mas aqui atende.
- Ameacei n�o cozinhar para ela, se n�o atendesse.
- Nenhuma das minhas amea�as funcionou. - Ele levantou-se. - Estava esperando uma liga��o, ent�o dei seu n�mero, para o caso de n�o atendermos em casa.
- Sem problemas. Fale o tempo que precisar. - Sorriu, enquanto Maggie se aproximava com o beb�. - Bem, Margaret Mary vai dividi-lo agora ou ficar com ele s�
para voc�?
- Ele estava justamente perguntando por voc�, tia Brie. - Com uma risada, Maggie passou Liam para a irm� e instalou-se na cadeira que Rogan deixara. - Ah,
como � bom sentar. Liam estava agitado a noite passada. Juro, eu e Rogan, juntos, devemos ter ido at� Galway e voltado.
- Ser� que j� � o primeiro dentinho? - Murmurando carinhosamente, Brianna esfregou o dedo na gengiva de Liam, procurando algo inchado.
- Pode ser. Anda babando como um cachorrinho. - Fechou os olhos, deixando o corpo relaxar. - Ah, Brie, quem imaginaria que se pode amar tanto? Passei a maior
parte da vida sem saber que Rogan Sweeney existia, e agora n�o poderia viver sem ele.
Abriu um olho para ter certeza de que Rogan estava ainda na casa e n�o teria ouvido seu acesso t�o sentimental.
- E o beb�, � t�o grande esse aperto no cora��o. Quando estava gr�vida, achava que j� sabia o que era am�-lo. Mas, desde que o segurei pela primeira vez, descobri
que era muito mais do que imaginava.
Estremeceu, com um sorriso vacilante.
- Ah, s�o os horm�nios outra vez. Est�o me deixando uma manteiga derretida.
- N�o s�o os horm�nios, Maggie. - Brianna esfregou o rosto na cabe�a de Liam, sentindo o cheiro maravilhoso dele. - � ser feliz.
- Quero que voc� tamb�m seja feliz, Brie. Posso ver que voc� n�o �.
- N�o � verdade. Claro que sou feliz.
- Voc� est� sempre o vendo ir embora. E est� se for�ando a aceitar isso, antes que realmente aconte�a.
- Se ele optar por ir embora, n�o posso impedi-lo. Sempre soube disso.
- Por que n�o pode? - Maggie retrucou. - Por qu�? N�o o ama o suficiente para lutar por ele?
- Eu o amo demais para lutar por ele. E talvez eu n�o tenha a coragem. N�o sou valente como voc�, Maggie.
- � s� uma desculpa. Valente demais � o que voc� sempre tem sido, Santa Brianna.
- E, se � uma desculpa, � minha. - Ela falou brandamente. N�o entraria, prometera a si mesma, numa discuss�o. - Ele tem motivos
para partir. Posso n�o concordar com eles, mas os entendo. N�o brigue
comigo, Maggie - disse calmamente e evitou a pr�xima explos�o. - Porque isso magoa. E pude ver nesta manh�, quando saiu de casa, que ele j� estava indo embora.
- Ent�o, detenha-o. Ele ama voc�, Brie. � poss�vel ver isso cada vez que ele olha para voc�.
- Acho que sim. - E aquilo apenas aumentava a dor. - � por isso que est� apressado para ir. E est� com medo tamb�m. Medo de voltar.
- � com isto que est� contando?
- N�o. - Mas queria contar com isso. Queria muito. - Amor nem sempre � o bastante, Maggie. Podemos ver isso pelo que aconteceu com papai.
- Foi diferente.
- Foi tudo diferente. Mas ele viveu sem Amanda e fez da vida dele o melhor que p�de. Sou sua filha o bastante para fazer o mesmo. N�o se preocupe comigo -
murmurou, acariciando o beb�. - Sei o que Amanda estava sentindo, quando escreveu que era grata pelo tempo que tinham ficado juntos. N�o trocaria esses meses passados
por nada neste mundo.
Ficou em sil�ncio, observando o rosto s�rio de Rogan enquanto ele atravessava o gramado.
- Podemos ter encontrado alguma coisa a respeito de Amanda Dougherty - ele disse.

Gray n�o veio para casa para o ch� e Brianna estranhou, mas n�o se preocupou, enquanto os h�spedes se regalavam com os sandu�ches e bolos. O relat�rio de Rogan
sobre Amanda Dougherty estava sempre em sua mente, enquanto tocava o resto do dia.
O detetive n�o encontrara nada em suas buscas iniciais pelas cidades e vilas em Catskills. Para Brianna, n�o era nenhuma surpresa que ningu�m se lembrasse
de uma mulher irlandesa, gr�vida, depois de quase um quarto de s�culo. Mas Rogan, homem meticuloso, contratava pessoas meticulosas. Rotineiramente, o detetive fez
buscas em estat�sticas demogr�ficas, lendo certid�es de nascimento, morte e casamento, pelos cinco anos que se seguiram � data da �ltima carta de Amanda para Tom
Concannon.
E foi numa pequena aldeia, ao p� da montanha, que ele a encontrou.
Amanda Dougherty, trinta e dois anos, tinha sido casada, por um juiz de paz com um homem de trinta e oito anos, chamado Colin Bodine.
O endere�o dizia simplesmente Rochester, Nova York. O detetive estava ainda l� para prosseguir na busca por Amanda Dougherty Bodine.
A data do casamento era de cinco meses depois da �ltima carta enviada a seu pai, Brianna meditou. Amanda devia estar perto do final da gravidez. Ent�o era
mais prov�vel que o homem com quem casara soubesse que ela estava gr�vida de outro.
Ele a teria amado? Esperava que sim. Parecia-lhe que se tratava de um homem forte e de cora��o bondoso para dar seu nome ao filho de outro.
Apanhou-se olhando outra vez para o rel�gio, imaginando aonde Gray teria ido. Aborrecida consigo mesma, pedalou at� a casa de Murphy para inform�-lo sobre
os progressos da constru��o da estufa.
Quando voltou, j� era hora de cuidar do jantar. Murphy prometera aparecer no dia seguinte para dar uma olhada na obra. Mas a inten��o oculta de Brianna, a
esperan�a de que Gray estivesse visitando seu vizinho como fazia muitas vezes, desabara.
E agora, passadas mais de doze horas desde que ele sa�ra pela manh�, a estranheza dava lugar � preocupa��o.
Atormentou-se, n�o comendo nada enquanto os h�spedes festejavam com o peixe ao molho de groselha. Desempenhou seu papel de anfitri�, cuidando para que o conhaque
estivesse onde seria desejado, uma rodada extra de pudim de lim�o para as crian�as, que o olhavam esperan�osamente.
Cuidou para que a garrafa de u�sque no quarto de cada h�spede estivesse cheia, toalhas limpas para os banhos da noite. Fez sala, conversando com eles; ofereceu
jogos �s crian�as.
Por volta das dez da noite, quando a luz estava apagada e a casa quieta, mudara da preocupa��o para a resigna��o. Ele viria quando viesse, pensou, e se acomodou
no quarto, tric� no colo e Con a seus p�s.

Um dia inteiro dirigindo, caminhando e estudando a zona rural n�o tinha sido um grande neg�cio para melhorar o humor de Gray. Estava irritado consigo mesmo,
irritado ao ver na janela que uma luz fora deixada acesa para ele.
Apagou-a assim que entrou, como para provar a si mesmo que n�o precisava de sinais familiares. Come�ou a subir, um movimento deliberado, para provar que era
dono de si mesmo.
O rosnado leve de Con o deteve. Voltando na escadaria, Gray fez uma carranca para o cachorro.
- O que voc� quer?
Con apenas sentou, abanando o rabo.
- N�o tenho um toque de recolher e n�o preciso de um c�o est�pido esperando por mim.
Con apenas olhou para ele. Ent�o levantou a pata como se antecipando a sauda��o usual de Gray.
- Merda! - Gray voltou a descer as escadas, segurou a pata do c�o e co�ou-lhe a cabe�a. - Pronto, melhor agora?
Con levantou-se e caminhou para a cozinha. Parou, olhou para tr�s, sentou-se outra vez, obviamente esperando.
- Vou deitar - Gray disse a ele.
Parecendo concordar, Con levantou-se outra vez como se estivesse esperando para lev�-lo at� sua dona.
- Tudo bem. Como voc� quiser. - Gray enfiou as m�os nos bolsos e seguiu o cachorro at� o hall, passou pela cozinha at� chegar ao quarto de Brianna.
Sabia que seu humor estava abomin�vel e parecia que n�o conseguiria alter�-lo. Era o livro, claro, mas havia mais. Podia admitir, ao menos para si, que andava
inquieto desde o batizado de Liam.
Havia algo em tudo aquilo, o pr�prio ritual, aquela antiga, pomposa e estranhamente calma cerim�nia, cheia de palavras, cor e movimento. As roupas, a m�sica,
a luz, tudo se fundira, ou assim lhe parecera, para lutar contra o tempo.
Mas fora a demonstra��o de comunidade, a sensa��o de pertencimento que percebera em cada vizinho e amigo que tinha vindo testemunhar o batismo da crian�a,
que tinha mexido com ele mais profundamente.
Aquilo o tocara, para al�m da curiosidade, do interesse do escritor pela cena e pelo evento. Aquilo mexera com ele, a torrente de palavras, a f� inabal�vel
e o rio de continuidade que passava de gera��o a gera��o na pequena igreja da vila, acentuado pelo choro indignado de um beb�, a luz rompida atrav�s do vidro, a
madeira antiga alisada por gera��es de joelhos dobrados.
Ali estava a fam�lia tanto quanto a partilha da f�, e comunidade tanto quanto o dogma.
E o desejo s�bito e desconcertante de pertencer o deixou inquieto
e bravo.
Irritado consigo e com ela, parou na soleira da porta da salinha de Brianna, olhando-a no ritmado bater das agulhas. A l� verde se derramava sobre o colo,
na camisola branca. A luz ao lado dela focava para baixo, de modo que ela podia ver seu trabalho, sem nunca olhar para as pr�prias m�os.
A televis�o murmurava um antigo filme em preto-e-branco. Cary Grant e Ingrid Bergman, elegantemente vestidos, abra�avam-se numa adega de vinho. Not�rio, Gray
pensou. Uma hist�ria de amor, desconfian�a e reden��o.
Por algum motivo que preferiu n�o entender, o entretenimento dela irritou-o profundamente.
- N�o devia me esperar acordada. Lan�ou-lhe um olhar, sem parar as agulhas.
- N�o esperei. - Parecia cansado, ela pensou, e mal-humorado. O que quer que tivesse procurado em seu longo dia sozinho parecia n�o ter encontrado. - Comeu
alguma coisa?
- Umas besteiras hoje � tarde.
- Deve estar com fome, ent�o. -Ajeitou o tric� na cesta ao lado. - Vou preparar alguma coisa para voc�.
- Eu mesmo posso fazer, se quiser - retrucou. - N�o preciso que me trate como se fosse minha m�e.
Seu corpo se enrijeceu, mas ela apenas sentou outra vez e pegou a l�.
- Como quiser.
Ele entrou na sala, provocador.
- Ent�o?
- Ent�o o qu�?
- Cad� o interrogat�rio? N�o vai perguntar onde estive, o que andei fazendo? Por que n�o liguei?
- Como voc� mesmo observou, n�o sou sua m�e. Seus neg�cios s�o apenas da sua conta.
Por um momento, ouviram-se apenas o som das agulhas e a angustiada voz da mulher numa propaganda da televis�o, ao descobrir gordura de batata frita em sua
blusa nova.
- Ah, voc� faz o tipo indiferente - Gray resmungou e foi at� o aparelho, desligando-o abruptamente.

- Est� querendo ser grosseiro mesmo? - Brianna perguntou. -
Ou n�o consegue se controlar?
- Estou tentando chamar sua aten��o.
- Tudo bem, j� conseguiu.
- Precisa continuar fazendo isso, enquanto falo com voc�?
Como parecia n�o ter como evitar um confronto que ele t�o obviamente queria, Brianna deixou o tric� no colo.
- Assim est� melhor?
- Precisava ficar sozinho. N�o gosto de ser pressionado.
- N�o pedi nenhuma explica��o, Grayson.
- Sim, pediu. S� que n�o em voz alta. A impaci�ncia come�ou a ferver:
- Ent�o, agora, voc� est� lendo meus pensamentos.
- N�o � t�o dif�cil assim. Estamos dormindo juntos, praticamente vivendo juntos e voc� sente que sou obrigado a lhe dizer o que estou fazendo.
- � isso o que sinto?
Ele come�ou a caminhar pela sala. N�o, ela pensou, era mais como a ronda de um le�o por tr�s das grades.
- Vai ficar sentada a� e tentar me dizer que n�o est� brava?
- Pouco importa o que digo, quando voc� l� meus pensamentos. - Cruzou as m�os, descansando-as na l�. N�o brigaria com ele, disse a si mesma. Se o tempo deles
juntos estava perto do fim, n�o deixaria que as �ltimas lembran�as fossem de discuss�o e sentimentos ruins. - Grayson, posso assegurar a voc� que tenho minha pr�pria
vida. Um neg�cio para tocar, prazeres pessoais. Preencho bem meus dias.
- Ent�o n�o d� a m�nima se estou aqui ou n�o? - Ele � que sa�ra. Por que a id�ia o enfurecia?
Ela apenas suspirou. - Voc� sabe que gosto que esteja aqui. O que quer que eu diga? Que fiquei preocupada? Talvez sim, por algum tempo, mas voc� � adulto,
capaz de cuidar de si mesmo. Se achei indelicado voc� n�o me avisar que ficaria fora tanto tempo, quando � seu h�bito estar aqui todas as noites? Voc� sabe que sim,
ent�o n�o h� necessidade de lhe dizer isso. Agora, se isto o agrada, vou me deitar. Se quiser me acompanhar, ser� bem-vindo, ou ent�o suba e v� curtir seu mau humor
sozinho.

Antes que pudesse levantar-se, ele atirou as duas m�os nos bra�os da cadeira dela, enjaulando-a. Seus olhos se arregalaram, mas ela manteve fixos nele.
- Por que n�o grita comigo? Me atira alguma coisa? Me d� um chute na bunda?
- Essas coisas podiam fazer voc� se sentir melhor - ela disse calmamente. - Mas n�o � minha fun��o faz�-lo sentir-se melhor.
- Ent�o � assim? Simplesmente d� de ombros e vai para a cama? Voc� sabe muito bem que eu podia estar com outra mulher.
Por um momento, o fogo chamejou nos olhos dela, enfrentando a f�ria nos dele. Ent�o se recomp�s, pegou o tric� do colo e colocou-o na cesta.
- Est� tentando me fazer ficar zangada?
- Sim, inferno! Estou! - Afastou-se dela bruscamente. - Pelo menos, seria uma briga justa. N�o h� como atingir essa sua serenidade de gelo.
- Ent�o eu seria idiota deixando de lado esta arma formid�vel, n�o seria? - Levantou-se. - Grayson, amo voc� e, quando pensa que eu usaria esse amor para prend�-lo,
para mud�-lo, a� voc� me insulta. � por isso que devia se desculpar.
Menosprezando a arrepiante sensa��o de culpa, olhou de volta para ela. Nunca, em toda a sua vida, uma mulher o fizera sentir culpa. Imaginava se haveria outra
pessoa no mundo que pudesse, com tanta tranq�ilidade, faz�-lo sentir-se t�o idiota.
- Calculei que voc� acharia um jeito de arrancar um "sinto muito" de mim, antes disso tudo acabar.
Olhou-o fixamente por alguns instantes e depois, sem uma palavra sequer, virou-se e caminhou para o quarto.
- Cristo. - Gray esfregou as m�os no rosto, apertando os dedos
sobre os olhos fechados. Ent�o deixou as m�os ca�rem. Voc� s� pode chafurdar na pr�pria estupidez, decidiu. - Estou maluco - disse, entrando no quarto.
Ela n�o disse nada, apenas ajustou uma das janelas para que entrasse mais do ar da noite perfumada e fresca.
- Desculpe, Brie, por tudo. Estava num p�ssimo humor manh� e s� queria ficar sozinho.
N�o respondeu nem o encorajou, apenas afastou a colcha.

- N�o me ignore assim. Isto � pior que tudo. - Aproximou-se dela, colocando uma m�o hesitante em seus cabelos. - Estou tendo problemas com o livro. � pura
cretinice minha atirar tudo em cima de voc�.
- N�o espero que mude seu humor para me satisfazer.
- Voc� simplesmente n�o espera - murmurou. - Isso n�o � bom para voc�.
- Sei o que � bom para mim. - Ela come�ou a se afastar, mas ele a virou. Ignorando sua rigidez, passou os bra�os em torno dela.
- Voc� devia me botar para fora.
- Voc� j� pagou at� o fim do m�s. Pressionando o rosto nos cabelos dela, ele riu.
- Agora voc� est� sendo cruel.
Como esperar que uma mulher acompanhasse seu humor? Quando ela tentou se afastar, ele apenas a abra�ou mais.
- Tinha que sair de perto de voc� - murmurou, a m�o deslizando pelas costas dela, obrigando a coluna a relaxar. - Precisava provar que podia sair de perto
de voc�.
- Acha que n�o sei disso? - Recuando tanto quanto ele permitia, tomou o rosto dele entre as m�os. - Grayson, sei que vai embora logo e n�o vou fingir que isso
n�o v� partir meu cora��o. Mas ser� muito mais sofrido para n�s dois se gastarmos esses �ltimos dias brigando por isso. Ou em torno disso.
- Achei que seria mais f�cil se voc� estivesse furiosa. Se voc� me tirasse de sua vida.
- Mais f�cil para quem?
- Para mim. - Encostou a testa na dela e disse o que estivera evitando dizer nos �ltimos dias: - Vou embora no fim do m�s.
Ela n�o falou nada, vendo que n�o podia falar nada com a s�bita dor invadindo-lhe o peito.
- Quero ter algum tempo antes de come�ar a turn� de divulga��o.
Ela esperou, mas ele n�o a convidou, como fizera antes, para que fosse com ele para alguma praia tropical. Sacudiu a cabe�a.
- Ent�o vamos aproveitar o tempo que temos antes de voc� partir. Virou o rosto de modo que os l�bios dela encontraram os dele.
Gray a deitou lentamente na cama. E, quando a amou, foi suavemente.







P
ela primeira vez desde que abrira sua casa aos h�spedes, Brianna desejou que todos fossem para o diabo. Ressentia-se da intrus�o em sua privacidade com Gray. Embora
isso a envergonhasse, ressentia-se do tempo que ele passava fechado no quarto, terminando o livro que o tinha trazido para ela.
Lutou contra as emo��es, fez mesmo todo o poss�vel para evitar que aparecessem. � medida que passavam os dias, assegurara a si mesma de que a sensa��o de p�nico
e infelicidade desvaneceria. Sua vida era quase o que desejava que fosse. Quase.
Podia n�o ter o marido e filhos que sempre desejara, mas havia muitas outras coisas para preench�-la. Ajudava, ao menos um pouco, contar aquelas b�n��os, enquanto
ia cuidando da rotina di�ria.
Carregava as roupas de cama, rec�m-retiradas da corda, escadas acima. Como a porta de Gray estava aberta, ela entrou. Ali, deixou os len��is de lado. Quase
era desnecess�rio trocar seus len��is, desde que ele n�o dormira em nenhuma outra cama, s� na sua, por dias. Mas o quarto precisava de uma boa limpeza, decidiu,
j� que ele estava fora. A escrivaninha era uma bagun�a espantosa, para falar a verdade.
Come�ou por ali, esvaziando o cinzeiro transbordante, arrumando livros e pap�is. Torcendo, ela sabia, para encontrar alguma coisa sobre a hist�ria que ele
estava escrevendo. O que encontrou foram envelopes amassados, correspond�ncia n�o respondida e algumas notas rabiscadas com supersti��es irlandesas. Divertida, leu:

Evite falar mal das fadas na sexta-feira, porque elas est�o presentes e mandar�o algum mal se ofendidas.

Se um p�ssaro preto chegar � sua porta e olhar para voc�, � um sinal certo de morte e nada poder� evitar isso.
Uma pessoa que passe sob um galho de c�nhamo ter� uma morte violenta.

- Ora, voc� me surpreende, Brianna. Est� bisbilhotando. Completamente vermelha, ela deixou cair o bloco, escondendo as
m�os atr�s das costas. Ah, n�o era mesmo pr�prio de Grayson Thane, pensou, assustar algu�m assim?
- N�o estava bisbilhotando. Estava tirando o p�.
Ele bebericou o caf� que tinha acabado de coar na cozinha. Nunca a tinha visto t�o confusa assim.
- Cad� o pano de p�? - ele insistiu. Sentindo-se nua, Brianna cobriu-se com a dignidade.
- Ia pegar um. Sua escrivaninha est� terrivelmente bagun�ada e eu estava apenas arrumando.
- Estava lendo minhas notas.
- Estava afastando o bloco para o lado. Talvez tenha batido os olhos no que estava escrito. S�o s� supersti��es, � o que s�o, sobre o mal e a morte.
- Mal e morte s�o meu sustento. - Rindo, aproximou-se dela e pegou o bloco. - Gosto desta. Sobre Todos os Santos, � 1� de novembro.
- Sei quando � o Dia de Todos os Santos.
- Claro que sabe. De todo modo, no Dia de Todos os Santos, o ar fica cheio da presen�a dos mortos, tudo � s�mbolo de destino. Se nesta data voc� chama o nome
de uma pessoa do outro lado, e repete o nome tr�s vezes, o resultado � fatal. - Riu para si mesmo. - Imagine o que pode acontecer a voc�.
- Tolice. - E sentiu arrepios.
- � uma grande tolice. - Baixou o bloco, observando-a. Seu rubor j� havia quase desaparecido. - Sabe o problema da tecnologia? - Pegou um dos disquetes, batendo-o
na palma da m�o, enquanto a estudava com olhos risonhos. - Nenhum papel amassado, descartado pelo escritor frustrado, que os curiosos possam pegar e ler.
- Como se eu fosse fazer uma coisa dessas. -Afastou-se irritada, pegando os len��is. - Tenho que arrumar umas camas.
- Quer ler uma parte?
Ela hesitou a meio caminho da porta, olhando por sobre o ombro, desconfiada.
- Do seu livro?
- N�o, das previs�es do tempo. Claro que � do meu livro. Na verdade, h� uma parte sobre a qual seria bom ter a opini�o de algu�m daqui. Para ver se consegui
pegar o ritmo do di�logo, a atmosfera, as intera��es.
- Bem, ficarei feliz se puder ajudar.
- Brie, voc� est� morrendo de vontade de ver o manuscrito. Podia ter pedido.
- Sei muito bem como � isso, vivendo com Maggie. - Baixou os len��is de novo. - Pode lhe custar sua vida entrar no est�dio para ver uma pe�a em que ela est�
trabalhando.
- Minha natureza � mais equilibrada. - Com gestos r�pidos, iniciou o computador, inserindo o disquete apropriado. - � uma cena num pub. Cor local e a apresenta��o
de alguns personagens. � a primeira vez que McGee encontra Tullia.
- Tullia. � ga�lico.
- Certo. Significa de boa paz. Deixe-me ver se acho. - Come�ou a buscar os arquivos. - Voc� fala ga�lico?
- Falo sim. Eu e Maggie aprendemos com nosso av�.
Olhou-a fixamente. - Puta que pariu...! Nunca me aconteceu isso antes. Sabe quanto tempo gastei procurando palavras? Eu s� queria salpicar alguma aqui e ali.
- Bastava ter perguntado. Ele grunhiu.
- Tarde demais agora. Ah, est� aqui. McGee � um tira com ra�zes irlandesas. Foi � Irlanda investigar o passado de sua fam�lia, quem sabe encontrar seu equil�brio
e algumas respostas sobre si mesmo. Queria, principalmente, ficar sozinho para se reorganizar. Estava envolvido numa opera��o que acabou mal e o deixou respons�vel
pela morte de uma crian�a de seis anos que passava pelo local.
- Que coisa triste!
- Sim, ele tem seus problemas. Tullia tamb�m tem muitos problemas. � vi�va, perdeu o marido e o filho num acidente. Est� se recuperando, mas carrega consigo
um peso enorme. O marido n�o era flor que se cheirasse e muitas vezes o desejou morto.
- Ent�o se sente culpada por ele estar morto e traumatizada porque o filho lhe foi tirado, como uma puni��o por seus pensamentos.
- Mais ou menos... De toda forma, essa cena ocorre no pub da regi�o. S�o s� algumas p�ginas. Sente-se. Agora preste aten��o. - Inclinou-se sobre o ombro dela
e segurou sua m�o. - V� essas teclas?
- Sim.
- Esta vai para o in�cio da p�gina, esta para o fim. Quando terminar o que est� na tela e quiser avan�ar, pressione esta. Se quiser voltar e olhar alguma coisa
outra vez, pressione aquela. E olhe, Brianna...
- Sim?
- Se tocar qualquer uma das outras teclas, terei de cortar todos os seus dedos fora.
- Isso porque sua natureza � mais equilibrada.
- Certo. Tenho c�pia dos arquivos, mas n�o devemos desenvolver maus h�bitos. - Beijou o topo da cabe�a dela. - Vou descer, dar uma olhada nas obras de sua
estufa. Se achar qualquer coisa estranha ou simplesmente que n�o pare�a real, anote no bloco.
- Muito bem. -J� come�ando a ler, acenou para ele. - V� ent�o. Gray desceu e saiu. As seis s�ries de pedras locais, que seriam a base da estufa, estavam quase
prontas. N�o o surpreendeu ver o pr�prio Murphy colocando as pedras no lugar.
- N�o sabia que voc� era pedreiro, al�m de fazendeiro - Gray gritou.
- Ah, fa�o um pouco de tudo. Cuidado para n�o fazer a massa t�o mole dessa vez - ordenou ao adolescente magro que estava perto. - Este � meu sobrinho, Tim
MacBride, de Cork. Est� me visitando. Tim nunca se enche da m�sica country dos Estados Unidos.
- Randy Travis, Wynonna, Garth Brooks?
- Todos eles. - Um sorriso, parecido com o do tio, iluminou o rosto de Tim.
Gray se abaixou, levantou outra pedra para Murphy, enquanto discutia os m�ritos da m�sica country com o garoto. Logo estava ajudando a misturar a massa, num
papo animado com os companheiros de trabalho.
-At� que para um escritor voc� tem boa m�o - Murphy observou.
- Trabalhei numa equipe de constru��o, num ver�o. Misturando massa e levando carrinhos de m�o, enquanto o sol fritava meus miolos.
- O tempo est� agrad�vel hoje. - Satisfeito com o progresso, Murphy fez uma pausa para um cigarro. - Se continuar assim, podemos aprontar isso para Brie em
mais uma semana.
Uma semana, Gray pensou, era quase o que tinha.
- � legal de sua parte tomar tempo do pr�prio trabalho para ajud�-la nisso.
- � comhair - Murphy falou calmamente. - Comunidade. � como vivemos aqui. Ningu�m tem que ficar sozinho se pode contar com fam�lia e amigos. Haver� tr�s homens
aqui ou mais quando chegar a hora de colocar as esquadrias e os vidros E outros vir�o, se for necess�rio, fazer as bancadas e coisas assim. No final, todos sentir�o
que t�m um peda�o deste lugar. E Brianna dar� mudas e plantas para os jardins de todos. - Exalou a fuma�a. - � assim que a coisa funciona, entende? Isso � comhair.
Gray entendia o sentido. Era exatamente o que sentira e, por um momento, invejara, na igreja da vila, durante o batizado de Liam.
- Isto... n�o acaba interferindo em sua liberdade? Ao aceitar um favor, voc� n�o fica obrigado a retribuir?
- Voc�s, ianques. - Com uma risada, Murphy deu uma �ltima tragada e apertou o cigarro contra as pedras. Conhecendo Brianna, enfiou a bagana no bolso, em vez
de atir�-la para o lado. - Voc�s s� pensam em pagamento. Obrigado n�o � a palavra. � seguran�a, se voc� quer um termo mais preciso. A certeza de que basta levantar
a m�o e algu�m o ajudar� no que for necess�rio. A certeza de que voc� far� o mesmo. Voltou-se para o sobrinho.
- Bem, Tim, vamos limpar as ferramentas. Precisamos voltar.
Diga a Brie para n�o tentar mexer nessas pedras, sim, Grayson? Elas precisam assentar.
- Tudo bem, eu digo... Puxa, eu me esqueci dela. Vejo voc� depois. - Correu para casa. Uma olhada para o rel�gio da cozinha o fez estremecer. Deixara-a ali
por mais de uma hora.
E ela estava, descobriu, exatamente onde a tinha deixado.
- Levou todo esse tempo para ler meio cap�tulo.
Embora a entrada dele a surpreendesse, n�o estremeceu desta vez. Quando desviou os olhos da tela e fixou-os nele, estavam molhados.
- T�o ruim assim? - Ele sorriu surpreso ao se perceber nervoso.
- � maravilhoso. -Procurou um len�o de papel no bolso do avental. - De verdade. Essa parte em que Tullia est� sentada sozinha no jardim, pensando no filho.
Faz voc� sentir toda a sua tristeza. N�o parece uma personagem inventada.
A segunda surpresa dele foi quando experimentou algum embara�o. Em se tratando de elogio, o dela fora perfeito.
- Bem, essa � a id�ia.
- Voc� tem um dom maravilhoso, Gray, de transformar as palavras em emo��es. Fui um pouco adiante da parte que voc� queria que eu lesse. Desculpe. Eu me senti
envolvida.
- Estou lisonjeado. - Notou pela tela que ela lera mais de cem p�ginas. - Voc� est� gostando.
- Ah, muito. Tem uma coisa... diferente - disse, incapaz de definir - dos seus outros livros. Ah, � emocionante como os outros, rico em detalhes. E assustador.
O primeiro assassinato, aquele nas ru�nas. Pensei que meu cora��o ia parar quando estava lendo. Sangrando ele estava. E alegre tamb�m.
- N�o pare agora. - Acariciou os cabelos dela, atirando-se na cama.
- Bem. -Juntou as m�os, pousando-as na beira da escrivaninha, enquanto pensava nas palavras dele. - Seu humor est� ali tamb�m. E seu olho n�o perde nada. A
cena no pub. Entrei l� vezes sem conta minha vida. Pude ver Tim O'Malley atr�s do bar e Murphy tocando uma can��o. Ele vai gostar que voc� o tenha feito t�o bonito.
- Acha que ele se reconheceria?
- Ah, acho que sim. N�o sei como se sentiria sendo um dos suspeitos ou o assassino, se � isso que voc� fez no fim. - Ela aguardou esperan�osa, mas ele apenas
sacudiu a cabe�a.
- N�o acha que vou lhe contar quem � o assassino, acha?
- Ora, n�o. - Suspirou, apoiando o queixo no punho. - Quanto a Murphy, ele provavelmente vai adorar. E seu afeto pela vila, pela regi�o e pelas pessoas � vis�vel.
Nos pequenos detalhes... a fam�lia pedindo carona na volta da igreja para casa, em suas roupas de domingo, o velho caminhando com o cachorro ao longo da estrada
na chuva, a menininha dan�ando com o av� no pub.
- � f�cil escrever coisas quando h� tanto para ver.
- � mais do que voc� v� com os seus olhos, quero dizer. - Ela levantou a m�o, deixando-a cair novamente. N�o tinha palavras, como ele, para expressar o significado
exato. - � a ess�ncia disso. H� uma profundidade que � diferente do que li em seus outros livros. O modo como McGee enfrenta aquele impulso belicoso dentro dele.
O modo como ele deseja simplesmente n�o fazer nada e sabe que n�o conseguir�. E Tullia, a maneira como suporta a dor quando est� dilacerada por dentro, e a batalha
para fazer de sua vida o que precisa ser outra vez. N�o consigo explicar.
- Est� fazendo um �timo trabalho - Gray murmurou.
- Me toca. N�o posso acreditar que foi escrito bem aqui, na minha casa.
- N�o creio que pudesse ser escrito em qualquer outro lugar. Levantou-se ent�o, desapontando-a, quando pressionou as teclas. Esperava que ele a deixasse ler
mais.
-Ah, voc� trocou o nome dele - disse, quando a p�gina do t�tulo apareceu. - Reden��o Final. Gosto disso. � o tema dele, n�o �? Os assassinatos, o que acontece
com McGee e Tullia antes, e o que muda depois que se encontram?
- � assim que funciona. - Teclou, fazendo aparecer a p�gina da
dedicat�ria. De todos os livros que escrevera era a segunda vez que dedicava um. O primeiro, e �nico, tinha sido a Arlene.

Para Brianna, pelos presentes sem pre�o.

- Ah, Grayson. -A voz surgiu em meio �s l�grimas do fundo da garganta. - Sinto-me t�o honrada. Vou come�ar a chorar de novo - murmurou enterrando o rosto no
bra�o dele. - Muito obrigada.
- H� muito de mim nesse livro, Brie. - Levantou o rosto dela, esperando que ela tivesse entendido. - � alguma coisa que posso lhe dar.
- Eu sei. Vou guard�-lo como um tesouro. - Receando estragar o momento com as l�grimas, passou rapidamente a m�o pelos cabelos. - Aposto que j� quer voltar
ao trabalho. E l� se foi o dia. - Pegou as roupas de cama, sabendo que choraria no momento em que estivesse atr�s da primeira porta fechada. - Quer que traga o ch�
aqui, quando for a hora?
Balan�ou a cabe�a e apertou os olhos enquanto a observava. Imaginava se ela teria se reconhecido em Tullia. A compostura, a calma, a gra�a inabal�vel.
- Vou descer. J� fiz quase tudo o que tinha de fazer por hoje.
- Em uma hora, ent�o.
Ela saiu, fechando a porta. Sozinho, Gray sentou-se e olhou, por um longo tempo, a curta dedicat�ria.

Foram a risada e as vozes que atra�ram Gray quando desceu uma hora depois na dire��o da sala e n�o da cozinha. Os h�spedes estavam reunidos em torno da mesa
de ch�, provando os quitutes ou servindo-se. Brianna estava parada embalando gentilmente o beb� que dormia em seu colo.
- Meu sobrinho - estava explicando. - Liam. Estou cuidando dele por algumas horas. Ah, Gray. - Sorriu quando o viu. - Veja quem est� aqui.
- Estou vendo. - Atravessando a sala, Gray espiou o rosto do beb�. Os olhos abertos e sonhadores tornaram-se s�rios ao se fixarem em Gray. - Ele sempre me
olha como se soubesse de algum pecado que cometi. � intimidador.

Gray aproximou-se da mesa de ch� e j� quase decidira o que comer quando percebeu Brianna se esgueirando da sala. Alcan�ou-a perto da porta da cozinha.
- Aonde voc� vai?
- P�r o beb� para dormir.
- Por qu�?
- Maggie disse que ele devia estar com sono.
- Maggie n�o est� aqui. - Ele segurou Liam. - E nunca podemos brincar com ele. - Divertindo-se, fez caretas para o beb�. -
Onde est� Maggie?
- Ela ligou os fornos. Rogan teve de ir at� a galeria para resolver algum problema. Ent�o ela passou aqui faz uns minutos. - Com um sorriso, aproximou a cabe�a
da de Gray. - Pensei que isso nunca aconteceria. Agora tenho voc� s� para mim - murmurou. Endireitou-se quando bateram � porta. - Segure bem a cabecinha dele, com
cuidado - disse, enquanto foi atender a porta.
- Sei como segurar um beb�. Mulheres - disse para Liam. - Acham que n�o podemos fazer coisa alguma. Todas acham voc� uma gracinha agora, � cara, mas espere
s�. Em poucos anos, elas v�o achar que sua fun��o na vida � consertar eletrodom�sticos e matar insetos.
Como n�o havia ningu�m olhando, inclinou-se, beijando levemente a boca de Liam. E viu sua boquinha se curvar.
- Isso mesmo... Por que n�o vamos para a cozinha e... Deteve-se ao ouvir a exclama��o de surpresa de Brianna. Ajeitando Liam no colo, ele correu para o hall.
Carstairs estava parado na porta, um chap�u-coco acastanhado na m�o, um sorriso amig�vel no rosto.
- Grayson, que prazer v�-lo outra vez. N�o tinha certeza se voc� ainda estaria aqui. E o que � isso?
- Um beb� - Gray disse laconicamente.
- Claro que �. - Carstairs acariciou o queixo de Liam, mexe com ele. - Bonito rapaz. Devo dizer que parece um pouquinho com voc�, Brianna. A boca.
- � filho de minha irm�. O que o senhor est� fazendo aqui em Blackthorn, Sr. Carstairs?
- S� dando uma passadinha. Falei tanto com a Iris sobre a pousada e o lugar que ela quis ver pessoalmente. Ela est� no carro. - Apontou para o Bentley estacionado
no port�o da garagem. - Na verdade, esperamos que tenha um quarto para n�s esta noite.
Ela arregalou os olhos.
- O senhor quer ficar aqui?
- Imprudentemente, eu me vangloriei demais sobre sua comida.
- Inclinou-se confidencialmente. - Receio que Iris tenha ficado um pouco irritada no in�cio. Ela � realmente uma �tima cozinheira, sabe? Ela quer ver se exagerei.
- Sr. Carstairs, o senhor � um homem desavergonhado.
- Pode ser, minha querida - ele respondeu, piscando. - Pode ser. Ela suspirou.
- Bem, n�o deixe a pobre mulher sentada no carro. Traga-a para um ch�.
- Mal posso esperar para conhec�-la - Gray disse, embalando o beb�.
- Ela diz o mesmo de voc�. Est� muito impressionada por voc� ter roubado minha carteira sem que eu percebesse. Costumava ser muito atento. - Sacudiu a cabe�a,
desapontado. - Mas, ent�o, era mais jovem. Posso trazer nossa bagagem, Brianna?
- Tenho um quarto sim. Mas � menor do que aquele em que ficou na �ltima vez.
- Tenho certeza de que � encantador. Absolutamente encantador.
- Saiu para buscar a esposa.
- Voc� acredita nisso? - Brianna suspirou. - N�o sei se rio ou se escondo a prataria. Se tivesse alguma prataria.
- Ele gosta demais de voc� para roub�-la. Ent�o - Gray murmurou -, a� est� a famosa Iris.
A fotografia da carteira afanada era bem fiel � realidade, Brianna descobriu. Iris usava um vestido florido que a brisa sacudia em torno de pernas bem torneadas.
Para Brianna, Iris tinha usado o tempo no carro para ajeitar os cabelos e a maquiagem, e ent�o parecia descansada e extraordinariamente bonita quando entrou pelo
jardim ao lado do sorridente marido.
- Ah, Srta. Concannon. Brianna, espero mesmo poder cham�-la de Brianna. Penso em voc� como Brianna, claro, depois de ouvir tanto sobre voc� e sua encantadora
pousada.
A voz era suave, educada, a fala num s� f�lego. Antes que Brianna pudesse responder, Iris tomou suas m�os entre as dela.
- Voc� � mais bonita do que Johnny me falou. Que gentileza a sua, que delicadeza, conseguir um quarto para n�s, quando aparecemos assim t�o inesperadamente
� sua porta. E seu jardim, minha querida, preciso dizer que estou tonta de admira��o. Suas d�lias! Nunca tive um pingo de sorte com elas. E suas rosas s�o magn�ficas.
Voc�, realmente, precisa me contar seu segredo. Conversa com elas? Tagarelo com as minhas dia e noite, mas nunca tenho flores assim.
- Bem, eu...
- E voc� � Grayson. - Iris simplesmente ignorou a resposta de Brianna e virou-se para ele. Soltou uma das m�os de Brianna para segurar a de Gray. - Que jovem
inteligente voc� �! E t�o bonito tamb�m. Olha, voc� parece um artista de cinema. Li todos os seus livros, cada um deles. Morro de medo sim, mas n�o consigo larg�-los.
De onde tira essas id�ias emocionantes? Estava t�o ansiosa para conhecer voc�s dois - continuou, prendendo a ambos. - Atormentei o pobre Johnny at� a morte, voc�s
sabem? E agora, aqui estamos n�s.
Houve uma pausa, enquanto Iris sorria para ambos.
- Sim - Brianna descobriu que n�o tinha muito mais a dizer. Aqui estamos n�s. Ah, por favor, entrem. Espero que tenham tido uma viagem agrad�vel.
- Ah, adoro viajar, voc� n�o? E pensar que, com toda essa confus�o em torno de mim e de Johnny em nossa desperdi�ada juventude, n�s nunca viemos a esta parte
do mundo. � lindo como um cart�o-postal, n�o �, Johnny?
- �, meu amor. Certamente �.
- Ah, que casa ador�vel! T�o encantadora. - Iris retinha firmemente a m�o de Brianna, enquanto olhava em volta. - Tenho certeza de que qualquer um s� pode
se sentir confort�vel aqui.
Brianna lan�ou um olhar desamparado a Gray, mas ele apenas sacudiu os ombros.
- Espero que se sintam assim. Deixei um ch� na sala, se quiserem, ou posso lhes mostrar o quarto antes.
- Faria isso? Vamos colocar as malas l�, Johnny? Ent�o talvez possamos todos bater um bom papo.
Iris continuou a falar pelas escadas, pelo corredor do andar de cima, at� o quarto aonde Brianna os conduziu. A colcha n�o era linda? A cortina de renda, ador�vel?
A vista da janela, soberba?
Pouco depois, Brianna se encontrava na cozinha, preparando outro bule de ch�, enquanto os novos h�spedes sentavam-se � mesa, j� se sentindo em casa. Iris alegremente
embalava Liam no colo.
- Que dupla, hein? - Gray murmurou, ajudando-a a pegar as x�caras e os pratos.
- Ela me deixou tonta - Brianna cochichou. - Mas � imposs�vel n�o gostar dela.
- Exatamente. N�o d� pra acreditar que existia um pensamento inescrupuloso naquela cabe�a. Parece uma tia predileta ou a vizinha divertida. Talvez seja mesmo
melhor esconder aquela prataria.
- Shhhh. - Brianna virou-se para levar os pratos para a mesa. Carstairs imediatamente se serviu de p�o e gel�ia.
- Espero, mesmo, que voc�s se juntem a n�s - Iris come�ou, escolhendo uma rosquinha, mergulhando-a num creme consistente. - Johnny, querido, queremos resolver
logo os neg�cios, n�o �? � muito estressante ter neg�cios atrapalhando.
- Neg�cios? - Brianna pegou Liam outra vez, aconchegando-o no colo.
- Neg�cios pendentes. - Carstairs tocou a boca com o guardanapo. - Brianna, este p�o � simplesmente delicioso. Pegue um peda�o, Iris.
-Johnny falou com tanto entusiasmo sobre a sua comida. Receio ter ficado um bocadinho enciumada. Sou mais ou menos na cozinha, sabe?
- Uma cozinheira brilhante - Carstairs, leal, corrigiu, segurando a m�o da esposa e beijando-a profusamente. - Uma cozinheira magn�fica.
- Ah, Johnny, voc� exagera. - Riu como uma menina antes de empurr�-lo para o lado. Depois arqueou os l�bios e soprou-lhe diversos beijinhos. Na cena paralela,
Gray meneava as sobrancelhas para Brianna. - Mas posso entender por que ele ficou t�o encantado com a mesa que voc� p�e, Brianna. - Mordiscou delicadamente sua rosquinha.
- Temos que encontrar um tempinho para trocarmos receitas enquanto estivermos aqui. Minha especialidade � um prato de frango e ostras. E eu mesma posso dizer que
� bem gostoso. O segredo � usar um vinho realmente bom, um branco seco, sabe? E uma pitada de estrag�o. Mas j� estou atropelando tudo outra vez e n�o resolvemos
nossos neg�cios.
Alcan�ou outra rosquinha, apontando para as cadeiras vazias.
- Voc�s n�o v�o se sentar? � t�o mais aconchegante tratar de neg�cios tomando um ch�.
Para n�o contrari�-la, Gray sentou-se e come�ou a preparar seu prato.
- Quer que eu pegue o menino? - ele perguntou a Brianna.
- N�o, fico com ele. - Ela sentou-se com Liam aconchegado em seus bra�os.
- Um anjinho... - Iris falou suavemente. - E voc� tem tanto jeito com beb�s. Johnny e eu sempre lamentamos n�o ter os nossos. Mas estamos sempre metidos em
alguma aventura. Ent�o nossa vida � cheia.
- Aventuras - Brianna repetiu. Um termo interessante, pensou, para fraudes.
- Somos uma dupla do barulho. - Iris riu e o brilho em seus olhos dizia que entendia exatamente os sentimentos de Brianna. - Mas como nos divertimos! N�o seria
correto dizer que sentimos por isso, quando nos divertimos tanto. Mas, por outro lado, a gente envelhece.
- Envelhece mesmo - Carstairs concordou. - E �s vezes perde o faro. - Lan�ou a Gray um olhar suave. - Dez anos atr�s, meu rapaz, voc� nunca teria afanado minha
carteira.
- N�o aposte nisso. - Gray bebericou seu ch�. - Eu era ate melhor dez anos atr�s.
Carstairs jogou a cabe�a para tr�s e riu.
- N�o lhe disse que ele era terr�vel, Iris? Ah, devia t�-lo visto me pressionando em Gales, querida. Como o admirei. Espero que considere me devolver a carteira,
Grayson. Ao menos as fotos. A identidade pode ser facilmente substitu�da, mas sou um tanto sentimental em rela��o a fotos. E, claro, o dinheiro. O sorriso de Gray
foi ligeiro e feroz.
- Voc� ainda me deve cem libras, Johnny. Carstairs limpou a garganta.
- Naturalmente. Inquestionavelmente. S� peguei o seu, voc� entende, para parecer um roubo.
- Naturalmente - Gray concordou. - Inquestionavelmente. Acredito que discutimos recompensas em Gales, antes que voc� tivesse de sair t�o de repente.
- Realmente pe�o desculpas. Voc� me pressionou e n�o me senti � vontade para fechar um acordo sem consultar Iris primeiro.
- Somos grandes defensores de uma parceria total - Iris falou.
- Verdade. - Deu um tapinha carinhoso na m�o da esposa. - Posso dizer honestamente que todas as nossas decis�es s�o fruto de trabalho em equipe. Pensamos que,
combinado com profunda afei��o, � por isso que conseguimos quarenta e tr�s anos de sucesso juntos.
- E, claro, uma boa vida sexual - Iris falou espontaneamente, sorrindo quando Brianna engasgou com o ch�. - De outro jeito o casamento seria de fato aborrecido,
n�o acha?
- Sim, tenho certeza de que tem raz�o. - Dessa vez Brianna pigarreou. -Acho que entendo por que vieram, e aprecio isso. � bom esclarecer as coisas.
- Quer�amos mesmo nos desculpar pessoalmente por qualquer aborrecimento que tenhamos causado. E quero acrescentar minhas desculpas pela busca desajeitada e
mal planejada do meu Johnny em sua ador�vel casa. - Lan�ou um olhar duro ao marido. - Total falta de sensibilidade, Johnny.
- Foi, de fato foi. - Baixou a cabe�a. - Estou completamente envergonhado.
Brianna n�o estava bem convencida daquilo, mas sacudiu a cabe�a.
- Bem, creio que n�o houve preju�zos reais, suponho.
- N�o houve preju�zos! - Iris contestou. - Brianna, minha querida menina, tenho certeza de que ficou furiosa, e com raz�o, muito mais aflita do que sup�e.
- Ela chorou.
- Grayson. - Embara�ada agora, Brianna fixou o olhar na x�cara. - J� passou.
- S� fico imaginando o que deve ter sentido. - A voz de Iris abrandou. -Johnny sabe como me sinto em rela��o �s minhas coisas. Imagine se chego em casa e encontro
tudo revirado. Ficaria arrasada. Simplesmente arrasada. S� espero que possa perdo�-lo pelo impulso lament�vel e por pensar como um homem.
- Sim, j� perdoei. Entendo que estava sob uma forte press�o, e...
- Brianna deteve-se, levantando a cabe�a quando percebeu que estava defendendo o homem que enganara seu pai e invadira sua casa.
- Que cora��o bondoso voc� tem - Iris emendou. - Agora, se pud�ssemos tratar do inc�modo assunto do certificado das a��es pela �ltima vez. Primeiro, deixe-me
dizer que foi muita benevol�ncia, muita paci�ncia sua n�o ter procurado as autoridades em Gales.
- Gray disse que o senhor voltaria.
- Rapaz inteligente - Iris murmurou.
- E n�o via nenhuma raz�o nisso. - Com um suspiro, Brianna pegou uma torradinha e mordiscou-a. - J� faz muito tempo e o dinheiro que meu pai perdeu era dele.
Conhecer as circunst�ncias j� me satisfez.
- Voc� v�, Iris, � bem como eu lhe disse.
- Johnny. - A voz tornou-se repentinamente dominadora. A troca de olhares entre eles se manteve, at� que Carstairs exalou um longo suspiro e baixou os olhos.
- Sim, Iris, claro. Voc� est� completamente certa. Completamente certa. - Refazendo-se, revirou o bolso de dentro da jaqueta e pegou um envelope. - Iris e
eu discutimos e gostar�amos de acertar tudo para a satisfa��o de todos. Com nossas desculpas, querida - disse, entregando o envelope a Brianna. - E com nossos cumprimentos.
Constrangida, ela abriu o envelope. O cora��o despencou at� o est�mago e voltou � garganta.
- � dinheiro. Dinheiro vivo.
- Um cheque dificultaria a contabilidade - Carstairs explicou.
- E ainda ter�amos as taxas. Uma transa��o em dinheiro nos livra desses inconvenientes. S�o dez mil libras. Libras irlandesas.
- Ah, mas n�o posso...
- Voc� pode sim - Gray interrompeu.
- N�o � certo.
Come�ou a devolver o envelope a Carstairs. Os olhos dele iluminaram-se brevemente, ele estendeu os dedos. E a esposa deu-lhe um safan�o.
- Seu rapaz est� com a raz�o no neg�cio, Brianna. Est� tudo bem certo, para todos os envolvidos. N�o precisa ficar preocupada de que este dinheiro v� fazer
uma diferen�a apreci�vel em nossa vida. N�s vamos indo muito bem. Vai aliviar minha mente e meu cora��o se voc� o aceitar. E - acrescentou - nos devolver os certificados.
- Est�o com Rogan.
- N�o, eu os peguei de volta. - Gray levantou-se, dirigindo-se ao quarto de Brianna.
- Pegue o dinheiro, Brianna - Iris falou gentilmente. - Guarde-o agora, no bolso do avental. Ser� um grande favor.
- N�o consigo entend�-la.
- Suponho que n�o. Johnny e eu n�o lamentamos a vida que levamos antes. Desfrutamos cada minuto dela. Mas um pequeno seguro para resgate do t�tulo n�o far�
mal algum. - Sorriu, alcan�ou a m�o de Brianna, apertando-a. - Eu consideraria isso uma generosidade. N�s dois. N�o �, Johnny?
Ele lan�ou um �ltimo e desejoso olhar ao envelope.
- Sim, querida.
Gray voltou, trazendo os certificados.
- Creio que � de voc�s.
- Sim, sim, de fato. - Ansioso, Carstairs pegou os pap�is. Ajustando os �culos, examinou-os. - Iris - disse, com orgulho, enquanto passava os certificados
a ela para que os examinasse tamb�m. -Fizemos um trabalho de alto n�vel, n�o fizemos? Absolutamente sem falhas.
- Fizemos, Johnny querido. Com toda certeza.







N
unca em toda a minha vida tive um momento de tanta satisfa��o. - Quase ronronando, Maggie se esticou no banco do carona do carro de Brianna. Lan�ou um �ltimo olhar
para tr�s, para a casa da m�e, enquanto a irm� arrancava com o carro.
- N�o comece a tripudiar, Margaret Mary.
- Come�ando ou n�o, estou adorando. - Virou-se para colocar um chocalho na m�o agitada de Liam, acomodado na cadeirinha de seguran�a, atr�s. - Viu o rosto
dela, Brie? Ah, voc� viu?
- Vi. - Sua nobreza cedeu por instantes e um sorriso insinuou-se. - Pelo menos, voc� teve o bom senso de esfregar no nariz dela.
- Esse era o acordo. S� dir�amos a ela que o dinheiro veio
de um
investimento que papai tinha feito antes de morrer. Algo que s� agora foi pago. E eu resistiria, n�o importa quanto me custasse, de dizer que ela n�o merecia
sua ter�a parte, j� que nunca acreditara nele.
- Um ter�o do dinheiro era legalmente dela e ponto final.
- N�o vou discutir isso com voc�, ainda estou curtindo muito tudo isso. - Saboreando os �ltimos acontecimentos, Maggie cantarolou um pouquinho. - E ent�o,
quais s�o seus planos para a sua parte?
-
- Tenho algumas id�ias para incrementar a pousada. O quarto do s�t�o para um h�spede, que foi o que come�ou essa hist�ria.
Enquanto Liam animadamente arremessava o primeiro chocalho para o lado, Maggie pegou outro.
- Pensei que ir�amos a Galway fazer compras.
- Vamos. - Gray a tinha atormentado com a id�ia e quase a pusera para fora de sua pr�pria casa. Sorria agora, pensando naquilo. - Estou pensando em comprar
um daqueles processadores de alimentos profissionais. Do tipo que usam em restaurantes e em feiras de arte culin�ria.
- Isso agradaria muito a papai. - O riso de Maggie se suavizou. - � como um presente dele, n�o acha?
- Tamb�m penso assim. Parece certo. E quanto a voc�?
- Vou gastar um pouco no ateli�. O resto fica para Liam. Acho que papai gostaria. - Com o olhar distante, correu os dedos pelo painel. - Seu carro � lindo,
Brie.
- �. - Riu e disse a si mesma que teria de agradecer a Gray por tir�-la de casa por aquele dia. - Pode me imaginar dirigindo para Galway sem me preocupar que
algo vai escangalhar pelo caminho? � t�pico de Gray dar presentes maravilhosos como se fosse a coisa mais natural do mundo.
- � verdade. O cara me traz um broche de diamantes como se fosse um buqu� de flores. Ele tem um cora��o ador�vel, generoso.
- Tem mesmo.
- Falando nele, o que ele ficou fazendo?
- Ora... trabalhando ou se distraindo com os Carstairs.
- Que figuras! Sabe que Rogan me disse que quando foram � galeria tentaram convenc�-lo a vender para eles a mesa antiga da sala do andar de cima?
- N�o me surpreende nem um pouco. Ela quase me convenceu a comprar, sem ver, uma lumin�ria que disse ser perfeita para a minha sala. Daria um bom desconto
tamb�m. - Brianna riu. - Vou sentir falta quando forem embora amanh�.
- Aposto que voltar�o. - Ela hesitou. - Quando Gray vai embora?
-
- Provavelmente na semana que vem. - Manteve o olhar na estrada e a voz serena: - Pelo que sei, est� s� fazendo os ajustes finais no livro.
- E acha que voltar�?
- Espero. Mas n�o vou contar com isso. N�o posso.
- Pediu a ele para ficar?
- N�o posso.
- N�o - Maggie murmurou. - N�o pode. Nem eu poderia nas mesmas circunst�ncias. - Ainda assim, pensou, ele � um terr�vel idiota, se for. - Voc� gostaria de
fechar a pousada por alguns dias ou pedir � Sra. O'Malley para tomar conta para voc�? Poderia ir para Dublin ou ficar na vila.
- N�o, mas obrigada por isso. Acho que fico mais feliz em casa. Provavelmente era verdade, Maggie pensou, e n�o discutiu.
- Bem, se mudar de id�ia, � s� dizer. - Fazendo um esfor�o determinado para levantar o astral, voltou-se para a irm�. - O que acha, Brie? Vamos comprar uma
besteira quando chegarmos ao centro? A primeira coisa que der vontade. Algo bem in�til e caro, uma daquelas quinquilharias que costum�vamos ficar namorando, com
o nariz grudado na vitrina da loja, quando papai nos levava l�.
- Como uma bonequinha com roupas lindas ou porta-j�ias com bailarinas dan�ando na tampa.
- Ah, acho que podemos encontrar alguma coisa mais de acordo com nossa idade, mas a id�ia � essa.
- Tudo bem, ent�o. Faremos isso.

Como falaram no pai, as lembran�as tomaram conta de Brianna quando chegaram a Galway. Depois de estacionar o carro, juntaram-se ao fluxo de pedestres, consumidores,
turistas e crian�as.
Ela viu uma garotinha rindo enquanto seguia sobre os ombros do
pai.
Ele costumava fazer aquilo, lembrou. E dava voltas t�o r�pidas com ela e com Maggie que, muitas vezes, elas saltavam, gritando de alegria.

Ou ent�o segurava firmemente a m�o delas, enquanto caminhavam, contando hist�rias, � medida que eram levadas pelas ruas cheias.
Quando o navio chegar, Brianna, meu amor, eu lhe comprarei lindos vestidos como aqueles daquela vitrina.
Um dia, viremos a Galway com o bolso cheio de moedas. Espere s�, querida.
E embora, mesmo naquela �poca, soubesse que eram apenas hist�rias, sonhos, isso n�o diminu�a o prazer de ver, cheirar, ouvir.
Nem as lembran�as estragavam isso agora. A cor e o movimento da rua das lojas fizeram com que sorrisse como sempre. Gostava das vozes que se cruzavam num irland�s
cadenciado, os sons agudos e pronunciados dos americanos, o gutural dos alem�es, o impaciente dos franceses. Podia sentir o odor da ba�a de Galway carregado pela
brisa e a gordura de um pub pr�ximo.
- A� est�! - Maggie apressou o passo na dire��o de uma vitrina.
- � perfeito.
Brianna caminhou por entre a multid�o at� conseguir ver por sobre o ombro de Maggie.
- O que �?
- Aquela vaca grande e gorda. � exatamente o que eu queria.
- Quer uma vaca?
- Parece porcelana - Maggie avaliou, vendo o corpo preto-e-branco lustroso e a cara bovina sorridente. - Aposto que custa uma fortuna. Melhor. Vou comprar.
Vamos entrar.
- Mas o que vai fazer com ela?
- Dar a Rogan, claro, e fazer com que a coloque naquele escrit�rio atulhado dele, em Dublin. Espero que pese uma tonelada.
Pesava mesmo. Ent�o combinaram deix�-la com o funcion�rio da loja, enquanto terminavam de fazer as compras. Foi s� depois de terem almo�ado e Brianna ter estudado
os pr�s e contras de meia d�zia de processadores de alimentos que ela encontrou sua pr�pria loucura.
As fadas eram feitas de bronze pintado e dan�avam em fios pendurados numa roldana de metal. A um toque dos dedos de Brianna, elas giraram, as asas batendo
juntas, musicalmente.
-Vou pendurar do lado de fora da janela do meu quarto. V�o me fazer lembrar dos contos de fadas que papai costumava nos contar.
- � perfeito. - Maggie passou um bra�o em torno da cintura de Brianna. - N�o, n�o olhe o pre�o - disse, quando Brianna come�ou a procurar pela pequena etiqueta.
- Faz parte disso tudo. Qualquer que seja o pre�o, � a escolha certa. V� comprar o que voc� quer, e ent�o veremos como levar minhas coisas at� o carro.
No fim, decidiram que Maggie esperaria na loja com a vaca, Liam e o resto das sacolas, enquanto Brianna pegava o carro.
Animada, ela andou at� o estacionamento. Logo que chegassem em casa, penduraria suas fadas dan�antes, pensou. Depois se divertiria com seu novo brinquedo de
cozinha. Estava pensando como seria delicioso criar uma musse de salm�o ou triturar delicadamente cogumelos com um instrumento de precis�o.
Cantarolando, deslizou atr�s do volante, girando a igni��o. Talvez pudesse experimentar um prato para servir junto com o peixe grelhado que pretendia preparar
para o jantar. De que Gray gostaria especialmente?, pensava enquanto se dirigia para a sa�da, a fim de pagar o estacionamento. Pur� de batatas, talvez, e alguma
coisa com groselhas, se encontrasse frutos bastante maduros para a sobremesa.
Pensou na �poca das groselhas, naqueles primeiros dias de junho. Mas Gray j� teria ido ent�o. Sentiu um aperto no cora��o. Bem, de qualquer forma j� era quase
junho, pensou ao sair do estacionamento. E queria que Gray tivesse uma sobremesa especial antes de ir embora.
Brianna ouviu um grito, enquanto fazia a curva. Surpresa, jogou a cabe�a para tr�s. Apenas teve tempo de inspirar o ar para gritar quando um carro, fazendo
a volta muito fechada na contram�o, colidiu contra o dela.
Ouviu o guincho do metal rasgando, de vidro estilha�ando. Ent�o... N�o ouviu mais nada.

- Ent�o Brianna foi �s compras - Iris comentou, quando encontrou Gray na cozinha. - � �timo para ela. Nada deixa uma mulher mais bem-humorada do que se esbaldar
nas compras.
Ele n�o conseguia imaginar a pr�tica Brianna se esbaldar em nada.
- Ela foi a Galway com a irm�. Falei que nos arranjar�amos, se resolvesse n�o voltar para o ch�. - Sentindo-se um tanto dono da cozinha, Gray amontoava nos
pratos a comida que Brianna havia preparado mais cedo para eles. - De qualquer modo, somos s� n�s tr�s nesta noite.
- Ficaremos confort�veis bem aqui. - Iris colocou o bule de ch� na mesa. - Voc� fez bem em convenc�-la a passar o dia com a irm�.
- Quase tive de arrast�-la at� o carro, ela � ligada demais a este lugar.
- Ra�zes profundas e f�rteis. � por isso que ela floresce. Como as flores dela l� fora. Nunca, em toda a minha vida, vi jardins como os dela. Sabe, justo esta
manh� estava... Ah, a� est� voc�, Johnny. Bem na hora.
- Fiz uma caminhada revigorante... - Carstairs pendurou o chap�u num cabide, esfregando as m�os. - Sabe, querida, que eles ainda cuidam da pr�pria turfa?
- N�o diga.
- Verdade. Encontrei a turfeira. E havia estacas, secando ao vento e ao sol. � como voltar um s�culo atr�s. - Beijou o rosto da esposa, antes de dirigir a
aten��o para a mesa. - Ah, o que temos aqui?
- Lave as m�os, Johnny, e vamos tomar um delicioso ch�. Eu sirvo, Gray, sente-se.
Divertindo-se com eles, com o modo como se tratavam, Gray obedeceu.
- Iris, espero que n�o se ofenda se eu lhe perguntar uma coisa.
- Querido menino, pode perguntar o que quiser.
- Sente falta?
Ela n�o fingiu n�o entender enquanto passava o a��car para ele.
- Sinto sim. De vez em quando. Aquele tipo de vida no limite da emo��o. T�o revigorante. - Serviu a x�cara do marido e a sua. - E voc�? - Quando Gray apenas
levantou a sobrancelha, ela riu. - Um sempre reconhece o outro.
- N�o - disse ap�s uma pausa. - N�o sinto falta.
- Bem, voc� se afastou bem cedo. Ent�o n�o deve ter sentido o mesmo tipo de v�nculo emocional. Ou talvez sinta, e por isso nunca use nenhuma das experi�ncias
anteriores, por assim dizer, em seus livros.
Sacudindo os ombros, ele levantou a x�cara.
- Talvez eu n�o tenha motivo para olhar para tr�s.
- Sempre achei que nunca se tem uma vis�o realmente clara do vem pela frente, se n�o se olhar por cima do ombro de vez em quando.
- Gosto de surpresas. Se o amanh� j� est� decidido por que se
preocupar com isso?
- A surpresa vem do fato de que o amanh� nunca � exatamente que voc� pensa que seria. Mas voc� ainda � jovem - disse sorrindo maternalmente. - Aprender� isso
por si mesmo. Costuma consultar um mapa quando viaja?
- Naturalmente.
- Bem, � isso, entende? Passado, presente, futuro. Tudo tra�ado. - Com o l�bio inferior preso entre os dentes, mediu meticulosamente um quarto de colher de
a��car para o ch�. - Pode tra�ar uma rota. Algumas pessoas se agarram a ela, n�o importa o que aconte�a. Nenhum desvio para explorar algumas estradinhas, nenhuma
parada n�o planejada para desfrutar um p�r-do-sol particularmente maravilhoso. Uma pena. E, ah, como reclamam quando s�o for�ados a se desviar. Mas muitos de n�s
gostamos de uma pequena aventura ao longo do caminho, aquele caminho ao lado. Ter uma vis�o do destino final n�o deve impedi-los de desfrutar a viagem. Aqui est�,
Johnny querido, seu ch�.
- Deus a aben�oe, Iris.
- E s� com uma gota de creme, bem como gosta.
- Estaria perdido sem ela - Carstairs disse a Gray. - Ah, parece que temos companhia.
Gray olhou na dire��o da porta da cozinha, enquanto Murphy a abria. Con entrou na frente, sentou-se aos p�s de Gray, colocando a cabe�a em seu colo. Ao erguer
a m�o para co�ar as orelhas de Con, o sorriso desapareceu de seu rosto.
- O que foi? - Levantou-se de um salto, sacudindo as x�caras sobre a mesa. O rosto de Murphy estava muito s�rio, os olhos sombrios. - O que aconteceu?
- Houve um acidente. Brianna est� ferida.
- O que quer dizer com est� ferida? - interpelou em meio aos lamentos de Iris.
- Maggie me ligou. Aconteceu um acidente quando Brie dirigia
do estacionamento para a loja onde ela e o beb� estavam esperando.- Murphy tirou o bon�, por for�a do h�bito, e torceu a aba. - Vou levar voc� a Galway. Ela est�
no hospital de l�.
- Hospital. - Ali de p�, Gray sentiu, sentiu fisicamente, o sangue drenar para fora dele. - � grave? � muito grave?
- Maggie n�o tinha certeza. Ela acha que n�o � t�o grave, mas est� esperando para saber. Levo voc� a Galway, Grayson. Acho que podemos usar seu carro. Seria
mais r�pido.
- Preciso das chaves. - Seu c�rebro estava entorpecido, in�til. -Tenho que pegar as chaves.
- N�o o deixe dirigir - Iris disse, quando Gray saiu como um raio.
- N�o, senhora. N�o vou deixar.

Murphy n�o precisou discutir. Simplesmente tirou as chaves da m�o de Gray e foi para o volante. Como Grayson n�o dizia nada, Murphy concentrou-se em usar toda
a velocidade que o Mercedes podia oferecer. Em outra ocasi�o, talvez, apreciasse a resposta que o elegante carro oferecia. Por ora, simplesmente o usava.
Para Gray, a viagem foi intermin�vel. A paisagem exuberante do Oeste ia se sucedendo, mas eles pareciam n�o avan�ar. Era como num filme de anima��o, pensou
sombriamente, os cen�rios passando, enquanto n�o podia fazer nada, a n�o ser ficar sentado.
E esperar.
Ela n�o teria ido se ele n�o tivesse insistido tanto. Mas ele a pressionara a sair, passar o dia fora. Ent�o tinha ido a Galway, e agora estava... Cristo,
n�o sabia o que ela fazia, como estava e n�o suportava sequer imaginar.
- Devia ter ido com ela.
Com o carro passando dos cem quil�metros por hora, Murphy n�o se preocupou de olhar.
- Vai ficar doente pensando assim. Estamos quase l�, ent�o saberemos de tudo.
- Comprei o maldito carro para ela.
- Verdade. - O homem n�o precisava de compaix�o, Murphy sabia, mas de um pensamento objetivo. - E voc� n�o estava dirigindo o que bateu nele. No meu modo de
pensar, se ela estivesse naquela banheira velha que tinha antes, a situa��o seria bem pior.
- N�o sabemos como est� a situa��o.
- Logo saberemos. Ent�o, controle-se. - Pegou uma sa�da da estrada principal e avan�ou em meio ao tr�nsito intenso. - � poss�vel que ela esteja bem e nos deixe
com remorsos por estar dirigindo assim
Entrou no estacionamento do hospital. Mal tinham desembarcado, viram Rogan caminhando com o beb�.
- Brianna. - Foi tudo o que Gray p�de dizer.
- Ela est� bem. Querem que ela fique durante a noite, pelo menos, mas est� bem.
A firmeza abandonara as pernas de Gray. Ent�o segurou o bra�o de Rogan mais para se equilibrar.
- Onde? Onde � que ela est�?
- Acabaram de transferi-la para um quarto no sexto andar. Maggie ainda est� com ela. Trouxe a m�e dela e Lottie comigo. Est�o l� em cima tamb�m. Ela est� -
interrompeu-se, movendo-se para impedir que Gray corresse para a entrada. - Ela est� ferida e acho que est� sofrendo mais do que deixa transparecer. Mas o m�dico
nos disse que teve muita sorte. Alguns hematomas do cinto de seguran�a, que a prendeu, impedindo de ser pior. O ombro est� machucado, e � o que est� causando mais
dor. Tem um ferimento na cabe�a e alguns cortes. Querem que ela fique de repouso por vinte e quatro horas.
- Preciso v�-la.
- Eu sei. - Rogan permaneceu no mesmo lugar. - Mas ela n�o precisa saber o quanto voc� est� nervoso. Ela vai perceber e ficar preocupada.
- Ok. - Tentando acalmar-se, Gray pressionou os dedos sobre os olhos. - Muito bem. Vou ficar calmo, mas preciso v�-la.
- Vou subir com voc� - Murphy disse, seguindo para a entrada. Mantendo-se discreto, ele n�o disse nada enquanto esperavam o elevador.
- Por que est�o todos aqui? - Gray questionava, quando o elevador abriu. - Por que est�o aqui, Maggie, a m�e dela, Rogan e Lottie, se ela est� bem?
- S�o da fam�lia. - Murphy apertou o bot�o para o sexto andar.
- Onde mais estariam? Sabe, uns tr�s anos atr�s quebrei o bra�o e bati a cabe�a jogando futebol. N�o consegui me livrar de uma irm�, e a outra ficava na porta.
Minha m�e ficou por duas semanas, por mais que eu a mandasse para casa. E, para falar a verdade, bem que estava gostando de toda aquela paparica��o. N�o saia correndo
feito louco - Murphy avisou, quando o elevador parou. - As enfermeiras irlandesas s�o bem duronas. Olhe, aqui est� Lottie.
- Lindos, devem ter vindo voando. - Adiantou-se, um sorriso confiante. - Ela est� reagindo bem, est�o cuidando dela. Rogan conseguiu um quarto particular para
ela. Ent�o ter� privacidade e sossego. Ela j� est� se queixando de que quer ir para casa, mas, por causa da concuss�o, querem ficar de olho nela.
- Concuss�o?
- Leve, realmente muito leve - ela os sossegou, levando-os pelo corredor. - Parece que ela s� ficou inconsciente por alguns momentos. E estava l�cida o bastante
para dizer ao homem do estacionamento onde Maggie a estava esperando. Olhe aqui, Brianna, voc� j� tem mais visitas.
Tudo o que Gray p�de ver foi Brianna, branca contra os len��is brancos.
- Ah, Gray, Murphy, n�o deviam ter feito essa viagem. J� estou indo para casa.
- N�o vai n�o. - A voz de Maggie era firme. - Vai ficar aqui esta noite.
Brianna come�ou a mexer a cabe�a, mas a dor fez com que pensasse melhor.
- N�o quero ficar aqui durante a noite. Foram s� umas pancadas e hematomas. Ah, Gray, o carro. Sinto tanto pelo carro. A lateral est� toda amassada, o farol
da frente est� quebrado e...
- Fique quieta agora e me deixe olhar para voc�. - Segurou sua m�o.
Estava p�lida e havia um hematoma em seu rosto. Sobre a sobrancelha, um curativo branco. Por baixo da camisola branca e sem forma do hospital ele podia ver
mais bandagens sobre o ombro.
Como sua m�o come�ou a tremer, ele a retirou, enfiando-a no bolso.
- Voc� est� sentindo dor. Posso ver em seus olhos.
- Minha cabe�a d�i. - Sorriu fracamente, levando um dedo � bandagem. Sinto como se tivesse sido pisoteada por um time de r�gbi inteiro.
- Deviam lhe dar alguma coisa.
- Eles me dar�o se eu precisar.
- Ela tem medo de agulhas - Murphy disse, inclinando-se para beij�-la levemente. Seu pr�prio al�vio em v�-la inteira se manifestou num largo e atrevido sorriso.
- Lembro-me de voc� gemendo, Brianna Concannon, quando eu estava na sala de espera do Dr. Hogan e voc� tomava inje��o.
- E n�o tenho vergonha disso. Aquelas agulhas s�o terr�veis. N�o quero que me espetem mais do que j� espetaram. Quero ir para casa.
- Vai ficar onde est�. - Maeve falou de uma cadeira junto da janela. - Levar uma agulhada ou duas n�o � nada, depois do susto que nos deu.
- M�e, n�o � culpa de Brianna se uns americanos idiotas n�o foram capazes de saber qual lado da rua deviam usar. - Maggie trincou os dentes ao pensar nisso.
- E eles s� tiveram um arranh�ozinho.
- N�o devia ser t�o dura com eles. Foi um acidente, e quase morreram de susto. - O latejar na cabe�a de Brianna aumentou � id�ia de uma discuss�o. - Vou ficar
se for preciso, mas s� quero perguntar ao m�dico outra vez.
- Vai obedecer o doutor e descansar como ele lhe disse. - Maeve levantou-se. - E n�o h� descanso algum com todo esse pessoal fazendo barulho � sua volta. Margaret
Mary, � hora de levar o beb� para casa.
- N�o quero que Brie fique sozinha - Maggie falou.
- Vou ficar. - Gray virou-se enfrentando o olhar de Maeve firmemente. - Vou ficar com ela.
Ela sacudiu o ombro.
- Claro que n�o � da minha conta o que voc� faz. Perdemos nosso ch� - disse. - Lottie e eu tomaremos alguma coisa l� embaixo, enquanto Rogan providencia algu�m
para nos levar em casa. Fa�a o que lhe disseram, Brianna, e n�o se agite.
Ela se abaixou, um tanto dura, e beijou a bochecha n�o machucada de Brianna.
- Voc� nunca se recuperou muito rapidamente, ent�o n�o espero que desta vez seja diferente. - Os dedos tocaram por um instante onde os l�bios tinham passado.
Ent�o, virou-se e saiu, chamando Lottie.
- Ela rezou dois ter�os at� chegar aqui - Lottie murmurou. - Descanse. - Depois de um beijo de despedida, foi atr�s de Maeve.
- Bem. - Maggie deixou escapar um profundo suspiro. -Acho que posso confiar em Grayson para cuidar que voc� se comporte. Vou procurar Rogan e ver como faremos
para mand�-las para casa. Voltarei antes de ir para ver se Grayson precisa de alguma ajuda.
- Vou com voc�, Maggie. - Murphy acariciou o joelho de Brianna, coberto pelo len�ol. - Se vierem espetar alguma agulha em voc�, basta virar a cabe�a e fechar
os olhos. � o que eu fa�o.
Ela riu e, quando o quarto ficou vazio, olhou para Gray.
- Quero que voc� sente agora. Sei que est� nervoso.
- Estou bem. - Tinha medo de sentar-se e simplesmente escorregar sem for�as para o ch�o - Gostaria de saber o que aconteceu, se voc� puder me contar.
- Foi tudo muito r�pido. - Cedendo ao desconforto e ao cansa�o, cerrou os olhos por um momento. - Compramos coisas demais para carregar. Ent�o fui pegar o
carro, enquanto Maggie esperava na loja. Logo que sa� do estacionamento, ouvi algu�m gritar. Era o funcion�rio. Ele tinha visto o outro carro vindo na minha dire��o.
N�o havia mais nada a fazer. N�o dava tempo. Bateu de lado.
Come�ou a se mexer e o ombro reagiu em protesto.
- Eles iam rebocar o carro. N�o consigo lembrar para onde.
- N�o tem import�ncia. Cuidaremos disso depois. Voc� bateu a cabe�a. - Delicadamente ele estendeu a m�o, mas manteve os dedos um mil�metro distante do curativo.
- Devo ter batido. S� me lembro de que depois havia uma multid�o em volta e uma americana chorava me perguntando se eu estava bem. O marido dela j� tinha ido
chamar a ambul�ncia. Eu estava aturdida. Acho que pedi a algu�m para chamar minha irm�, e ent�o, n�s tr�s... Maggie, o beb� e eu... est�vamos saindo numa ambul�ncia.
Ela n�o acrescentou que havia muito sangue. O bastante para aterroriz�-la, at� que o atendente m�dico estancasse o fluxo.
- Sinto que Maggie n�o pudesse ter contado mais a voc�, quando telefonou. Se ela tivesse esperado at� o m�dico acabar de me atender, teria poupado voc� de
um tanto de preocupa��o.
- Eu teria me preocupado do mesmo jeito. Eu n�o... Eu n�o pude... - Fechou os olhos e fez um esfor�o para encontrar as palavras. - � dif�cil para mim encarar
a id�ia de voc� estar ferida. E a realidade � mais dura ainda.
- S�o s� umas pancadas e hematomas.
- E uma concuss�o, um ombro deslocado. - Para o pr�prio bem dos dois, ele recuou. - Me diga, � verdade ou mito que n�o se deve dormir depois de uma concuss�o,
porque podemos n�o acordar mais?
- � supersti��o. - Ela sorriu novamente. - Mas estou pensando seriamente em ficar acordada um ou dois dias, por via das d�vidas.
- Ent�o vai querer companhia.
- Vou adorar ter companhia. Acho que ficaria louca nesta cama, sozinha, sem nada para fazer nem ningu�m para ver.
- Como � isto aqui? - Com cuidado para n�o balan�ar a cama, sentou-se na beirada. - Com certeza, a comida aqui � intrag�vel. Isso � a norma nos hospitais em
qualquer pa�s desenvolvido. Vou sair, trazer alguns hamb�rgueres e fritas. Vamos jantar juntos.
- Vou adorar.
- E se vierem e tentarem dar uma inje��o em voc�, bato neles.
- N�o vou me importar se fizer isso. Faria mais uma coisa por mim?
- Basta dizer.
- Ligue para a Sra. O'Malley. Tenho hadoque pronto, � s� grelhar para o jantar. Sei que Murphy cuidar� de Con, mas os Carstairs precisam ser servidos, e mais
h�spedes v�o chegar amanh�.
Gray levou os dedos dela at� seus l�bios, depois descansou a testa neles.
- N�o se preocupe com isso. Deixe-me cuidar de voc�. Era a primeira vez em sua vida que ele fazia este pedido.








Q
uando Gray voltou com o jantar, o quarto de hospital de Brianna lembrava seu jardim. Ramos de rosas e fr�sias, buqu�s de lupinas e l�rios, alegres margaridas e cravos
se amontoavam na janela, enchiam a mesa ao lado da cama.
Gray moveu o enorme buqu� que trazia para poder enxergar por cima dele e sacudiu a cabe�a.
- Parece que estes s�o sup�rfluos.
- Ah, n�o, n�o s�o. S�o lindos! Tanta agita��o por uma simples batida na cabe�a. - Segurou o buqu� com o bra�o n�o machucado, como se fosse uma crian�a, e
afundou o rosto nele. - Estou adorando. Maggie e Rogan trouxeram estes, Murphy aqueles. E o �ltimo foi mandado pelos Carstairs. N�o foi delicadeza deles?
- Estavam realmente preocupados. - Apoiou a grande bolsa de papel que trazia. - Preciso lhe dizer que ficar�o mais uma noite ou duas, dependendo de quando
voc� sair daqui. - Isso � �timo, claro. E vou sair amanh�, mesmo que eu tenha
que fugir pela janela. - Lan�ou um olhar ansioso para a bolsa. - Trouxe mesmo o jantar?
- Trouxe. Dei um jeito de esconder para passar pela enorme enfermeira com olhos de �guia ali fora.
- Ah, a Sra. Mannion. Assustadora, n�o �?
- Me apavora. - Puxou a cadeira para perto da cama, sentou-se e come�ou a tirar coisas da bolsa. - Bon-app�tit- disse, passando a ela um hamb�rguer. - Ah,
aqui, me deixe pegar isso. - Levantou-se outra vez para tirar o buqu� do bra�o dela. - Acho que precisam de �gua, n�o �? Agora, coma. - Puxou um pacote de fritas
para ela. - Vou procurar um vaso.
Quando saiu novamente, ela tentou se mover para ver o que mais havia na bolsa que ele deixara no ch�o. Mas o ombro fez o movimento desajeitado. Recostando-se
outra vez, mordiscou o hamb�rguer e tentou n�o ficar amuada. O som de passos voltando levou-a a estampar um sorriso no rosto.
- Onde quer que eu coloque? - Gray perguntou.
- Ah, naquela mesinha l�. Sim, est� �timo. Seu jantar vai ficar frio, Gray.
Ele apenas grunhiu e, sentando-se de novo, pegou sua parte da refei��o na bolsa.
- Est� melhor?
- N�o me sinto t�o mal para ser paparicada assim, mas fico contente que tenha ficado para jantar comigo.
- Isso � s� o come�o, querida. - Ele piscou e com o hamb�rguer meio comido numa m�o revirou a bolsa.
- Ah, Gray, uma camisola. Uma camisola de verdade. - Era comprida, branca e de algod�o, e l�grimas de gratid�o lhe vieram aos olhos. - N�o sou capaz de dizer
o quanto gostei. Essa coisa horr�vel que eles p�em na gente.
- Ajudarei voc� a trocar depois do jantar. Tem mais.
- Chinelos tamb�m. Ah, uma escova de cabelo! Gra�as a Deus.
- Na verdade, n�o posso receber cr�ditos por tudo isso. Foi id�ia de Maggie.
- Deus a aben�oe. E a voc�.
- Disse que sua blusa ficou arruinada. - Ensang�entada, lembrava que ela tinha contado, e levou um momento para se firmar. - Cuidaremos disso amanh�, se lhe
derem alta. Agora, o que mais temos aqui? Escova de dentes, um vidrinho daquele creme que voc� usa todo tempo. Quase esqueci os drinques. - Estendeu um copo de papel
a ela, com tampa pl�stica e com um orif�cio para o canudo. - Uma excelente safra, disseram.
- Voc� pensou em tudo.
- Perfeitamente. At� no lazer.
- Ah, um livro!
- Uma novela bem rom�ntica. Voc� tem v�rias em sua estante na pousada.
- Gosto delas. - N�o teve coragem de dizer que a dor de cabe�a tornaria imposs�vel ler. - Voc� teve tanto trabalho.
- S� umas comprinhas r�pidas. Tente comer um pouco mais. Obedientemente ela beliscou uma batata frita. - Quando voltar
para casa, poderia agradecer � Sra. O'Malley por mim e dizer a ela que n�o se preocupe com a limpeza da cozinha?
- N�o vou voltar sem voc�.
- Mas n�o pode ficar a noite toda aqui.
- Claro que posso. - Gray deu fim ao hamb�rguer, amassou o papel e atirou-o na lata de lixo. - Tenho um plano.
- Grayson, voc� precisa voltar para casa. Descansar um pouco.
- Eis o plano - disse, ignorando-a. - Depois do hor�rio de visitas, vou me esconder no banheiro at� que as coisas se acomodem. Talvez fa�am uma vistoria. Ent�o
esperarei at� que venham e olhem voc�.
- Isso � absurdo!
- N�o, vai funcionar. Ent�o as luzes se apagam e voc� se cobre. � quando eu apare�o.
- E fica sentado no escuro pelo resto da noite? Grayson, n�o estou no meu leito de morte. Quero que voc� v� para casa.
- N�o posso fazer isso. E n�o vamos ficar no escuro. - Com um sorriso arteiro, puxou sua �ltima compra da bolsa. - V� isto? � uma luz para livros, do tipo
que voc� prende, para n�o perturbar seu parceiro de cama, se quiser ler at� tarde.
Divertida, ela sacudiu a cabe�a.
- Voc� perdeu o ju�zo.
- Ao contr�rio, estou extremamente esperto. Assim, n�o ficarei na pousada, preocupado, e voc� n�o ficar� aqui sozinha e triste. Leio para voc� at� ficar cansada.
- L� para mim? - repetiu num murm�rio. - Voc� vai ler para mim?
- Claro. N�o posso querer que voc� tente focar estas letrinhas com uma concuss�o, posso?
- N�o. - N�o se lembrava de nada, absolutamente nada na sua vida que a tivesse tocado mais. - Eu devia fazer voc� ir, mas quero muito que fique.
- Ent�o somos dois. Olha s�, parece muito bom o que diz na contracapa. "Uma alian�a mortal" - ele leu. - "Katrina nunca seria domada. A bela de cabelos ruivos
com rosto de deusa e alma de guerreira arriscaria tudo para vingar o assassinato do pai. At� mesmo casar e ir para a cama com o mais feroz dos inimigos." - Levantou
a sobrancelha. - Garota danada de garota, essa Katrina. E o her�i tamb�m n�o � nenhum incompetente. "Ian nunca se renderia. O corajoso e experiente combatente das
regi�es montanhosas, conhecido como Dark Lord, lutaria com amigos e advers�rios para proteger suas terras e sua mulher. Inimigos jurados de morte, amantes jurados
de amor formam uma alian�a que os arrasta para o destino e para a paix�o."
Folheou o livro at� a folha de rosto, pegando distraidamente uma batata frita.
- Muito bom, hein? E olha s� que casal bonito eles formam. Veja, a hist�ria se passa na Esc�cia, s�culo XII. Katrina era a filha �nica desse propriet�rio vivo.
Ele a deixou crescer livremente. Ent�o ela faz um monte de coisas de menino. Sabe lutar com espada, usar arco-e-flecha, ca�ar. Ent�o h� uma conspira��o calamitosa
e ele � assassinado, o que a torna propriet�ria das terras e v�tima daquele vil�o corrupto e um tanto insano. Mas Katrina n�o � nenhum capacho.
Brianna sorriu procurando pela m�o de Gray.
- J� tinha lido esse livro?
- Dei uma folheada enquanto esperava para pagar. Tem uma cena er�tica incr�vel, na p�gina 251. Bem, vamos ver como � que a gente se arranja com isso. Eles
provavelmente vir�o e checar�o sua press�o sang��nea, e n�o queremos que ela se eleve. Melhor se livrar das evid�ncias aqui tamb�m. -Juntou as embalagens do jantar
contrabandeado.
Mal tinha escondido tudo na bolsa e a porta se abriu. A enfermeira Mannion, grande como um jogador de r�gbi, irrompeu no quarto.
- A hora de visitas terminou, Sr. Thane.
- Sim, senhora.
- Ent�o, Srta. Concannon, como est�? Alguma tontura, n�usea, vis�o borrada?
- N�o, nada. Estou bem mesmo. Na verdade, estava querendo perguntar se...
- Bom, muito bom. - A enfermeira Mannion facilmente se esquivou do j� imaginado pedido para sair, enquanto fazia anota��es na ficha ao p� da cama. - Devia
tentar dormir. Vamos observ�-la durante a noite, a cada tr�s horas. - Ainda se movendo rapidamente, colocou uma bandeja na mesa ao lado da cama.
Brianna s� teve de dar uma olhada para empalidecer.
- O que � isso? Disse-lhe que estou bem. N�o preciso de inje��o. N�o quero. Grayson...
- Eu, ah... - Um olhar de a�o da enfermeira Mannion o fez vacilar em seu papel de her�i.
- N�o � inje��o. S� precisamos tirar um pouco de sangue.
- Para qu�? - Abandonando qualquer fingida dignidade, Brianna se encolheu. - J� perdi bastante. Pegue um pouco daquele.
- Nada de bobagens agora. D�-me seu bra�o.
- Brie. Olhe aqui. - Gray entrela�ou os dedos nos dela. - Olhe para mim. J� contei a voc� sobre a primeira vez que fui ao M�xico? Eu me juntei com algumas
pessoas e fomos no barco delas. Era no golfo. Foi verdadeiramente lindo. Ar perfumado, um mar de cristal azul. Vimos uma barracuda pequenininha nadando ao longo
do porto.
Pelo canto dos olhos, ele viu a enfermeira deslizar a agulha sob a pele de Brianna. E o est�mago dele revirou.
- Mesmo assim, mesmo assim - ele disse, falando ligeiro. - Um dos rapazes foi pegar a c�mera. Voltou, inclinou-se sobre a amurada, e a mam�e barracuda saltou
para fora da �gua. Foi como congelar a imagem. Ela olhou direto na lente da c�mera e sorriu com todos os dentes. Como se fizesse pose. Ent�o mergulhou na �gua, pegou
o beb� e nadaram para ir embora.
- Voc� est� inventando isso.
- Deus � testemunha - disse, mentindo desesperadamente. - Ele tirou a foto, mesmo. Acho que vendeu para a National Geographic ou talvez para a Enquirer. A
�ltima coisa que soube � que ele estava ainda no Golfo do M�xico tentando repetir a experi�ncia.
- Pronto. - A enfermeira colocou uma bandagem na dobra do cotovelo de Brianna. - Seu jantar est� a caminho, senhorita, se tiver lugar para ele depois de comer
um hamb�rguer.
-Ah, n�o, obrigada mesmo assim. Acho que vou descansar agora.
- Cinco minutos, Sr. Thane.
Grayson co�ou o queixo quando a porta bateu atr�s dela.
-Acho que n�o conseguimos. - Ent�o Brianna fez biquinho -
Voc� disse que bateria neles se viessem com agulhas.
- Ela � muito maior do que eu. - Inclinou-se, beijando-a levemente. - Pobre Brie.
Ela bateu com o dedo no livro que estava na cama, ao lado dela.
- Ian nunca desistiria.
- Ora, inferno! Olhe s� para o f�sico dele. Pode lutar com um cavalo... Nunca vou ter condi��es de ser Dark Lord.
-Aceito voc� mesmo assim. Barracudas sorridentes - disse e riu. - Como imagina tais coisas?
- Talento, puro talento. - Ele foi at� a porta e espiou. - N�o a estou vendo. Vou apagar a luz e me esconder no banheiro. Vamos esperar dez minutos.

Leu para ela durante duas horas, levando-a atrav�s das aventuras perigosas e rom�nticas de Katrina e Ian, sob a luz m�nima da l�mpada para livros. De vez em
quando, a m�o dele ro�ava a dela, prolongando um pouquinho o momento do contato.
Ela sabia que sempre lembraria o som da voz dele, o modo como for�ava um sotaque escoc�s, no di�logo, para diverti-la. E sua apar�ncia, pensou, o modo como
o rosto dele ficava iluminado pela pequena l�mpada, como seus olhos estavam escuros, e as ma��s do rosto, som-breadas.
Seu her�i, pensou. Agora e sempre. Fechando os olhos, Brianna deixou as palavras que ele lia penetrarem nela:
- Voc� � minha. - Ian pegou-a nos bra�os, bra�os fortes que tremiam pelo desejo que o dominava. - Por lei e por direito voc� � minha. Estou prometido a voc�,
Katrina, a partir deste dia, desta hora.
- E voc� � meu, Ian?- Corajosamente, ela enfiou os dedos nos cabelos dele, puxando-o para perto. - Voc� � meu, Dark Lord?
- Ningu�m jamais amou voc� mais do que eu - ele jurou. - Nem amar�.
Brianna adormeceu desejando que as palavras que Gray lia pudessem ser dele.
Gray olhou-a, sabendo, pelo lento e firme som da respira��o, que ela dormira. Entregou-se ent�o, enterrando o rosto nas m�os. Ficar l�cido. Prometera a si
mesmo manter-se l�cido. E a tens�o estava acabando com ele.
Ela n�o estava seriamente ferida. Mas n�o importava quantas vezes se lembrasse disso, n�o podia afastar o terror que lhe congelara os ossos a partir do momento
em que Murphy entrara na cozinha.
N�o a queria num hospital, machucada e cheia de curativos. E, de qualquer maneira, nunca quisera pensar nela ferida. E agora se lembraria sempre disso, saberia
que alguma coisa poderia acontecer com ela. Que ela poderia n�o estar, como queria que sempre estivesse, cantarolando em sua cozinha ou cuidando de suas flores.
Ele se enfurecia por ter esta imagem dela para carregar junto com as outras. E o enfurecia ainda mais o fato de que ficaria t�o preocupado que sabia que aquelas
imagens n�o sumiriam, como centenas de outras.
Lembraria Brianna, e aquele la�o tornaria dif�cil ele ir embora. E era necess�rio fazer isso rapidamente.
Meditou sobre aquilo, enquanto esperava a noite passar. Cada vez que uma enfermeira vinha ver Brianna, ele ouvia as perguntas murmuradas, as respostas sonolentas.
Uma vez, quando voltou, ela o chamou suavemente.
- Volte a dormir. - Afastou os cabelos dela da testa. - N�o amanheceu ainda.
- Grayson. - Mexendo-se, procurou a m�o dele. - Ainda est� aqui.
- Sim. - Olhou para ela, franzindo as sobrancelhas. - Ainda estou aqui.
Quando ela acordou novamente, estava claro. Distra�da, come�ou a sentar, mas a dor persistente no ombro fez com que ela se lembrasse do acidente. Mais aborrecida
agora do que angustiada, tocou os dedos na bandagem da cabe�a e procurou por Gray.
Esperava que ele tivesse encontrado uma cama vazia ou um sof� numa sala de espera para dormir. Sorriu � imagem das flores dele e desejou que lhe tivesse pedido
para deix�-las mais perto, de modo que pudesse toc�-las tamb�m.
Cautelosamente puxou um pouco a camisola e mordeu o l�bio. Havia um arco-�ris de hematomas pelo peito e tronco, onde o cinto de seguran�a a prendera. Vendo-os,
agradeceu que Gray a tivesse ajudado a vestir a camisola no escuro.
N�o era justo, pensou. N�o era certo que tivesse de estar t�o machucada nos �ltimos dias que tinham juntos. Queria estar bonita para ele.
- Bom-dia, Srta. Concannon, ent�o est� acordada. - Uma enfermeira entrou, esbanjando sorrisos, juventude e sa�de. Brianna queria odi�-la.
- Estou sim. Quando o m�dico vai me liberar?
- Ah, logo ele estar� fazendo a ronda, n�o se preocupe. A enfermeira Mannion disse que voc� teve uma noite calma. - Enquanto falava, fixou um aparelho de press�o
ao bra�o de Brianna e colocou um term�metro em sua boca. - Nada de tonturas, ent�o? Bom, bom - disse, quando ela sacudiu a cabe�a. Checou a press�o sang��nea, sacudiu
a cabe�a, tirou o term�metro, sacudindo a cabe�a novamente aos resultados. - Ent�o est� se sentindo bem, n�o est�?
- Estou pronta para ir para casa.
- Tenho certeza de que est� ansiosa. - A enfermeira tomava notas na ficha. - Sua irm� j� ligou esta manh�, e um tal de Sr. Biggs. Um americano. Falou que foi
quem bateu em seu carro.
- Sim.
- Garantimos aos dois que voc� estava descansando confortavelmente. O ombro est� doendo?
- Um pouco.
- Pode tomar alguma coisa para isso agora - disse lendo a ficha.
- N�o quero inje��o.
- Oral. - Ela sorriu. - E seu desjejum j� est� a caminho. Ah, a enfermeira Mannion disse que voc� precisaria de duas bandejas. Uma para o Sr. Thane? - Obviamente
se divertindo com a piada, olhou na dire��o do banheiro. - Sairei num momento, Sr. Thane, e poder� aparecer. Ela disse que ele � um homem muito bonito - a enfermeira
murmurou para Brianna. - Com um sorriso dos diabos.
- Ele �.
- Sorte sua. Vou lhe trazer alguma coisa para a dor.
Quando a porta fechou novamente, Gray saiu do banheiro com uma careta.
- Como � poss�vel? Aquela mulher tem um radar?
- Voc� ainda estava mesmo a�? Oh, Gray, pensei que tinha encontrado um lugar para dormir. Ficou acordado a noite toda?
- Estou acostumado a virar a noite. Ei, voc� parece melhor. - Ele se aproximou, desfranzindo a testa de puro al�vio. - Parece mesmo bem melhor.
- N�o quero pensar em como estou parecendo. Voc� parece cansado.
- N�o me sinto cansado, agora. Faminto - disse, apertando a m�o no est�mago. - Mas n�o cansado. O que acha que v�o servir para n�s?

- Voc� n�o vai me carregar para dentro de casa.
- Sim, vou. - Gray contornou o carro e abriu a porta do carona.
- O m�dico disse que voc� podia vir para casa, se ficasse calma, descansasse todas as tardes e evitasse carregar peso.
- Bem, n�o estou carregando nada, estou?
- N�o, eu � que estou. - Tomando cuidado com o ombro dela, passou um bra�o pelas costas, outro sob os joelhos. - Dizem que as mulheres acham isso rom�ntico.
- Em outras circunst�ncias. Posso caminhar, Grayson. N�o h� nada de errado com minhas pernas.
- Nada. Elas s�o perfeitas. - Beijou o nariz dela. - J� lhe disse isso antes?
- Acho que n�o. - Sorriu, embora ele tivesse batido em seu ombro e os hematomas no peito doessem. Era o que ele pensava, acima de tudo, que contava. - Bem,
j� que est� brincando de ser Dark Lord, me leve para dentro ent�o. E espero ser beijada. Bem beijada.
- Tornou-se terrivelmente exigente desde que bateu a cabe�a - Carregou-a pelo caminho. - Mas acho que tenho de ser compreensivo com voc�.
Antes que pudesse chegar � porta, ela se abriu e Maggie apareceu. -Aqui est� voc�. Pensei que f�ssemos esperar para sempre. Como est� se sentindo?
- Estou sendo paparicada. E, se voc�s n�o tomarem cuidado, vou ficar mal acostumada.
- Leve-a para dentro, Gray. Ficou alguma coisa no carro de que ela precise?
- S� algumas centenas de flores.
- Vou busc�-las. - Correu para fora, enquanto os Carstairs se apressavam da sala para o hall.
- Oh, pobre Brianna, minha querida. Est�vamos t�o preocupados. Johnny e eu quase n�o dormimos, pensando em voc� no hospital, daquele jeito. Os hospitais s�o
lugares t�o deprimentes. N�o posso entender como algu�m escolhe trabalhar em um, voc� pode? Quer ch�, alguma roupa fresca? Alguma coisa?
- N�o, obrigada, Iris - Brianna conseguiu dizer, quando teve espa�o. - Sinto ter preocupado voc�s. Foi uma coisinha � toa, realmente.
- Absurdo. Um acidente de carro, uma noite no hospital. Uma concuss�o. Ah, sua cabecinha d�i?
Estava come�ando a doer.
- Estamos contentes porque est� em casa de novo - Carstairs acrescentou e deu palmadinhas na m�o da esposa para acalm�-la.
- Espero que a Sra. O'Malley tenha deixado voc�s confort�veis.
- Garanto a voc� que ela � um tesouro.
- Onde quer que ponha estas flores, Brie? - Maggie perguntou atr�s de uma floresta de ramalhetes.
- Ah, ora...
- Vou coloc�-las no seu quarto - decidiu por si mesma. - Rogan vai subir para ver voc�, logo que Liam acorde do cochilo. Ah, e voc� recebeu liga��es de toda
a vila e comida suficiente para alimentar um ex�rcito por uma semana.
- Aqui est� nossa garota! - Secando as m�os numa toalha, Lottie apareceu, vindo da cozinha.
- Lottie. N�o sabia que voc� estava aqui.
- Claro que vim. Quero ver voc� bem acomodada e cuidada. Grayson, leve-a direto para o quarto. Precisa descansar.
- Ah, mas n�o. Gray, me ponha no ch�o. Gray apenas apertou o bra�o.
- Voc� est� se excedendo. E, se n�o se comportar, n�o leio o resto do livro para voc�.
- Isto � um absurdo. - Apesar de seus protestos, Brianna se viu no quarto, sendo deitada em sua cama. - Eu podia, ent�o, ter ficado no hospital.
- Agora, n�o se agite. Vou preparar um ch� bem gostoso para voc�. - Lottie come�ou a ajeitar os travesseiros, alisar os len��is. - Depois, vai tirar um cochilo.
Receber� muitas visitas e precisa descansar.
- Ao menos, deixe-me pegar meu tric�.
- Veremos isso mais tarde. Gray, voc� pode lhe fazer companhia. Cuide para que fique quieta.
Com um muxoxo, Brianna cruzou os bra�os.
- V� embora - disse a ele. - N�o preciso de voc�, se n�o vai me defender.
- Ora, ora, a verdade sempre aparece. - Olhando-a, reclinou-se confortavelmente no batente da porta. - Voc� est� bem ranzinza, n�o �?
- Ranzinza, eu? S� estou reclamando de estarem mandando em mim e por isso sou ranzinza.
- Est� reclamando e se aborrecendo por ser cuidada e paparicada. Isto a torna ranzinza.
Ela abriu a boca e fechou-a novamente.
- Bem, ent�o sou mesmo.
- Voc� precisa tomar seus comprimidos. - Tirou o vidro do bolso, depois foi ao banheiro encher um copo com �gua.
- Eles me deixam grogue - murmurou quando ele voltou com o rem�dio.
- Quer que eu aperte seu nariz at� que abra a boca para engolir? A simples id�ia daquela humilha��o a fez agarrar o comprimido e o copo.
- Pronto. Feliz?
- Ficarei feliz quando voc� parar de sentir dor. Ela desistiu de brigar.
- Desculpe, Gray. Estou me comportando t�o mal.
- Est� sentindo dor. - Sentou-se ao lado da cama, tomou-lhe a m�o. - J� me machuquei algumas vezes. O primeiro dia � terr�vel. O segundo, infernal.
Ela suspirou.
- Pensei que seria melhor e estou brava por n�o ser. N�o queria brigar com voc�.
- Aqui est� o ch�, docinho. - Lottie entrou e equilibrou a x�cara no pires na m�o de Brianna. - E me deixe tirar estes sapatos, vai ficar mais confort�vel.
- Lottie. Obrigada por estar aqui.
- Ah, n�o precisa me agradecer por isso. A Sra. O'Malley e eu vamos manter as coisas andando por aqui, at� que se sinta bem novamente. - Estendeu uma manta
leve sobre as pernas de Brianna. - Grayson, cuide para que ela descanse agora, sim?
- Deixe comigo. - Num impulso, ele se levantou para beijar o rosto de Lottie. - Voc� � uma do�ura, Lottie Sullivan.
-Ah, ande logo. - Ruborizada de prazer, ela retornou � cozinha.
- E voc� tamb�m, Grayson Thane - Brianna falou. - Uma do�ura.
- Ah, ande logo. - Inclinou a cabe�a. - Ela sabe cozinhar? Ela riu como ele tinha imaginado que riria.
- Nossa, Lottie � uma �tima cozinheira e n�o precisaria muito para fazer aparecer uma torta, se voc� ficar com vontade.
- Vou me lembrar disso. Maggie trouxe o livro. - Ele o apanhou de onde Maggie o tinha posto, sobre a mesa-de-cabeceira de Brianna. - Est� a fim de outro cap�tulo
do romance medieval?
- Estou.
- Voc� adormeceu enquanto eu estava lendo a noite passada - disse enquanto folheava o livro. - Qual a �ltima coisa que lembra?
- Quando ele disse a ela que a amava.
- Bem, isso certamente resume bem a coisa.
- A primeira vez. - Bateu na cama, querendo que ele se sentasse a seu lado novamente. - Ningu�m esquece a primeira vez que ouve.
- Os dedos dele deslizaram pelas p�ginas, e ele n�o disse nada. Entendendo, Brianna tocou-lhe o bra�o. - N�o deve deixar que isso o preocupe, Grayson. O que
sinto por voc� n�o deve preocup�-lo.
Preocupava. Claro que preocupava. Mas havia algo mais, e pensou que poderia lhe dar isso, ao menos.
- Me humilha, Brianna. - Levantou os olhos, aqueles inseguros olhos castanho-dourados. - E me atordoa.
- Um dia, quando voc� lembrar a primeira vez que ouviu, espero que lhe d� prazer. - Satisfeita por enquanto, ela tomou o ch� e sorriu.
- Me conte uma hist�ria, Grayson.







N
�o foi embora no primeiro dia de junho, como planejara. Poderia ter ido. Sabia que deveria ter ido. Mas parecia errado, certamente covarde, sair antes de ter certeza
de que Brianna se recuperara.
As bandagens foram removidas. Cuidara pessoalmente dos hematomas e colocara gelo para desinchar o ombro dela. Sofrera cada vez que ela se virava dormindo e
sentia desconforto. Ralhara quando ela se excedia. N�o fizera amor com ela.
Ele a desejava, todas as horas. No in�cio, receara que at� mesmo os toques mais gentis pudessem machuc�-la. Ent�o concluiu que era melhor como estava. Uma
esp�cie de transi��o, pensou, de amante para amigo, como lembran�a. Certamente seria melhor para ambos se os dias finais com ela fossem passados na amizade, e n�o
na paix�o.
O livro estava terminado, mas n�o o enviara. Gray convencera-se de que deveria passar por Nova York antes da turn� para entreg�-lo pessoalmente a Arlene. Se
�s vezes se lembrava de que convidara Brianna para viajar um pouco com ele antes da turn�, dizia a si mesmo que era melhor esquecer.
Para o bem dela. Pensava apenas nela.
Pela janela, viu que ela recolhia a roupa lavada. Os cabelos estavam soltos, batendo no rosto com a brisa forte do Oeste. Atr�s dela, a estufa brilhava � luz
do sol. A seu lado, as flores que plantara dan�avam. Apenas olhava, enquanto ela abria um prendedor, colocava-o de volta na corda, andava para o pr�ximo, juntando
len��is esvoa�antes � medida que caminhava.
Ela era, pensou, como um cart�o-postal. Algo que personificava um lugar, uma �poca, um modo de vida. Dia ap�s dia, pensou, ano ap�s ano, ela penduraria suas
roupas e len��is para secar ao vento e ao sol. E os recolheria novamente. E com ela, e aqueles como ela, a repeti��o n�o seria mon�tona. Seria tradi��o - algo que
a tornava forte e confiante.
Estranhamente perturbado, caminhou para fora de casa.
- Voc� est� for�ando demais esse bra�o.
- O m�dico disse que exerc�cio � bom. - Olhou sobre o ombro. O sorriso que curvava seus l�bios n�o chegou aos olhos, havia dias que n�o chegava. Ele estava
se afastando dela t�o rapidamente, n�o conseguia suportar isso. - S� senti uma pontada agora. Est� um dia maravilhoso, n�o est�? A fam�lia que est� conosco foi �
praia em Ballybunion. Papai costumava levar Maggie e a mim l�, �s vezes, para nadar e tomar sorvete.
- Se voc� queria ir � praia, era s� dizer. Teria levado voc�.
O tom de sua voz fez sua coluna se enrijecer. Os movimentos se tornaram mais vagarosos, enquanto soltava uma fronha do varal.
- Gentileza sua, tenho certeza, Grayson. Mas n�o tenho tempo para um passeio at� a praia. Tenho trabalho para fazer.
- Voc� s� pensa em trabalhar - explodiu. - Voc� se acaba por causa deste lugar. Se n�o est� cozinhando, est� esfregando algo; se n�o est� esfregando, est�
lavando. Pelo amor de Deus, Brianna, isto � s� uma casa.
- N�o. - Dobrou a fronha ao meio, depois ao meio outra vez, antes de colocar na cesta de vime. - � a minha casa e me agrada cozinhar nela, esfreg�-la, lav�-la.
- E nunca olha para al�m disso.
- E para onde est� olhando, Grayson Thane, que seja t�o terrivelmente importante? - Espantou-se ao ver sua anima��o transformar-se em gelo. - E quem � voc�
para me criticar por fazer um lar para mim?
- � um lar... ou uma armadilha?
Ela se voltou, e em seus olhos n�o havia nem calor nem frieza, mas uma tristeza profunda.
- � isso o que voc� realmente pensa, do fundo do cora��o? Que s�o a mesma coisa e assim deve ser? Se � isso, de verdade, sinto por voc�.
- N�o quero compaix�o - ele reagiu. - S� estou dizendo que voc� trabalha demais para muito pouco.
- N�o concordo e n�o foi isso o que voc� disse. Talvez seja o que voc� queria dizer. - Abaixou-se e pegou a cesta. - E � mais do que me disse nos �ltimos cinco
dias.
- N�o seja rid�cula! - Ele a alcan�ou para pegar a cesta, mas ela o empurrou. - Falei com voc� todo o tempo. Deixe-me levar isso.
- Eu mesma levo. N�o sou uma maldita inv�lida. - Irritada, apoiou a cesta no quadril. - Falou de mim e em torno de mim, Grayson, esses �ltimos dias. Mas para
mim, e de alguma coisa que estivesse realmente pensando ou sentindo, n�o. Voc� n�o tem falado comigo e n�o tem me tocado. N�o seria mais honesto apenas me dizer
que n�o me quer mais?
- N�o... -J� estava passando por ele a caminho da casa. Ele quase a agarrou antes de se conter. - De onde tirou essa id�ia?
- De cada noite. - Deixou a porta fechar, quase o atingindo no rosto. - Dorme comigo, mas n�o me toca. E, se viro para voc�, voc� vira para o outro lado.
- Voc� acabou de sair da porra daquele hospital.
- Sa� do hospital h� quase duas semanas. E n�o fale assim comigo. Ou, se tem mesmo que praguejar, pelo menos n�o minta. - Atirou a cesta sobre a mesa da cozinha.
- Voc� est� doido para ir embora e n�o sabe como fazer isso de um modo gentil. Est� cheio de mim. - Tirou um len�ol da cesta e dobrou-o metodicamente, dobra com
dobra. - E n�o sabe como dizer isso.
- Que estupidez! Pura estupidez.
- � engra�ado como seu jeito com as palavras sofre quando est� bravo. - Virou o len�ol sobre o bra�o, num movimento h�bil, juntando as pontas. - E est� pensando
"pobre Brie, vai ficar com o cora��o partido por minha causa". Bem, n�o vou! - Outra dobra, e o len�ol estava um quadrado perfeito para ser colocado sobre a brilhante
mesa da cozinha. - Me virei muito bem antes de voc� chegar e vou continuar me virando.
- Palavras muito frias para algu�m que vive dizendo que est� apaixonada.
- Estou apaixonada por voc�. - Pegou outro len�ol e calmamente come�ou o mesmo processo. - E me sinto uma idiota por amar um homem que t�o covardemente tem
medo dos pr�prios sentimentos. Medo do amor, porque n�o o teve quando era menino. Medo de construir um lar, porque nunca conheceu um.
- N�o estamos falando do que eu fui - Gray disse calmamente.
- N�o, voc� pensa que pode fugir disso, e foge cada vez que faz as malas e pega o pr�ximo avi�o ou trem. Ora, n�o pode n�o. N�o mais do que eu posso ficar
num lugar e fingir que cresci feliz nele. Perdi a minha parte de amor tamb�m, mas n�o tenho medo dele.
Mais calma agora, acabou de dobrar o segundo len�ol.
- N�o tenho medo de amar voc�, Grayson. N�o tenho medo de deixar voc� ir. Mas tenho medo de nos arrependermos, se n�o nos separarmos honestamente.
Ele n�o podia fugir daquele olhar que tudo compreende.
- N�o sei o que voc� quer, Brianna. - E teve medo, pela primeira vez em sua vida adulta, de ele mesmo n�o saber o que queria. Para si mesmo.
Fora dif�cil para ela dizer aquilo, mas pensara que seria mais dif�cil n�o dizer.
- Quero que voc� me toque, que se deite comigo. E, se n�o sentir mais desejo por mim, doeria muito menos se me dissesse.
Fixou os olhos nela. N�o podia ver o quanto aquilo estava custando a ela. N�o deixaria que ele visse, continuou parada, as costas retas, os olhos presos nos
dele, esperando.
- Brianna, n�o posso respirar sem desejar voc�.
- Ent�o, possua-me agora, � luz do dia.
Derrotado, aproximou-se, segurando seu rosto entre as m�os.
- Quis tornar as coisas mais f�ceis para voc�.
- N�o fa�a isso. S� fique comigo agora. Por enquanto.
Ele a pegou no colo e ela sorriu ao pressionar os l�bios na garganta dele.
- Como no livro.
- Melhor - ele prometeu, enquanto a carregava para o quarto. - Ser� melhor do que em qualquer livro. - Colocou-a no ch�o, acariciando os cabelos desalinhados
pelo vento, antes de procurar pelos bot�es da blusa. - Sofri deitado a seu lado � noite, sem tocar em voc�.
- N�o havia necessidade.
- Achei que havia. - Muito delicadamente, ro�ou as pontas dos dedos sobre as marcas amareladas na pele dela. - Voc� ainda est� machucada.
- Est�o desaparecendo.
- Vou sempre me lembrar de como estavam. E como meu est�mago apertou quando eu as vi. Como me dilacerava por dentro quando voc� gemia durante o sono. - Um
tanto desesperado, levantou os olhos para ela. - N�o gosto de me importar tanto com algu�m, Brianna.
- Eu sei. - Inclinando-se para a frente, ela pressionou o rosto no dele. - N�o se preocupe com isso agora. Somos s� n�s dois e tenho sentido tanto sua falta.
- Com os olhos semicerrados, beijou repetidas vezes seu queixo enquanto os dedos cuidavam dos bot�es da camisa. - Vamos para a cama, Grayson - sussurrou, deslizando
a camisa pelos ombros dele. - Venha comigo.
Um suspiro do colch�o, um farfalhar dos len��is, e estavam nos bra�os um do outro. Ela levantou o rosto, e sua boca buscou a dele. Ela estremeceu ao primeiro
frenesi de prazer, e ent�o um outro quando o beijo tornou-se mais profundo.
As pontas dos dedos dele estavam frias na pele dela, leves toques enquanto a despia. E os l�bios eram leves nas manchas descoloridas, como se s� por desejar
fosse capaz de faz�-las desaparecer.
Um p�ssaro cantou na pequena pereira do lado de fora e a brisa fez soar a dan�a de fadas que ela pendurara, balan�ando a delicada renda das cortinas. Agitaram-se
sobre as costas nuas dele, quando ficou sobre ela, o rosto colado em seu cora��o. O gesto a fez sorrir e envolver-lhe a cabe�a com as m�os.
Era t�o simples. Um momento m�gico que guardaria como um tesouro. E quando ele levantou a cabe�a e os l�bios buscaram os dela outra vez, ele sorriu nos olhos
dela.
Havia necessidade, mas n�o pressa, e desejo sem desespero. Se os dois pensavam que aquela seria a �ltima vez em que estariam juntos, queriam sabore�-la sem
urg�ncia.
Ela sussurrou o nome dele, a respira��o ofegante. Ele estremeceu.
Ent�o estava dentro dela, no lento ritmo do desejo. Seus olhos estavam abertos. E suas m�os, palmas contra palmas, completavam a cadeia com os dedos entrela�ados.
Um raio de luz atravessava a janela, gr�os de poeira dan�ando no ar. O grito de um p�ssaro, o latido distante de um c�o. O perfume das rosas, de lim�o, madressilvas.
E a sensa��o de ela estar ali, morna, �mida, cedendo embaixo dele, levantando-se para encontr�-lo. Os sentidos dele se agu�aram, como um microsc�pio bem focado.
Ent�o, havia somente prazer, o deleite puro e simples de perder nela tudo o que era.
Na hora do jantar, ela soube que ele estava partindo. Seu cora��o sabia, quando ficaram deitados em sil�ncio, depois de se amarem, olhando a luz do sol mover-se
atrav�s da janela.
Ela serviu os h�spedes, ouviu a tagarelice animada sobre o passeio at� a praia. Como sempre, arrumou a cozinha, lavando os pratos, guardando-os outra vez no
arm�rio. Limpou o fog�o, pensando novamente que teria de troc�-lo em breve. Talvez durante o inverno. Teria de come�ar a pesquisar pre�os.
Con farejava em volta da porta, e ent�o o deixou sair para o passeio da noite. Por um momento, deixou-se ficar ali, olhando-o correr pelas colinas � luz brilhante
do sol das longas tardes de ver�o.
Imaginou o que seria correr com ele. Apenas correr como ele estava correndo, esquecendo todos os pequenos detalhes com que preparava a casa para a noite. Esquecendo,
acima de tudo, o que teria de enfrentar.
Mas, certamente, ela voltaria. Seria para c� que ela sempre voltaria. Virou-se, fechando a porta atr�s de si. Entrou rapidamente em seu quarto, antes de subir
para Gray.
Ele estava na janela, olhando para o jardim da frente. A luz que ainda iluminava o c�u do Oeste dava-lhe um toque dourado e a fez pensar, como acontecera muitos
meses atr�s, em piratas e poetas.
- Estava com medo de que j� tivesse terminado de arrumar suas coisas. - Viu a mala aberta sobre a cama, quase cheia, e os dedos crisparam-se no su�ter que
segurava.
- Ia descer para falar com voc�. - Controlando-se, ele se virou, desejando que pudesse ler o rosto dela. Mas ela encontrara um meio de fech�-lo para ele. -
Achei que podia ir at� Dublin esta noite.
- � uma viagem longa, mas voc� ainda tem luz por um tempo.
- Brianna...
- Quero lhe dar isto - falou rapidamente. Por favor, ela queria suplicar, sem desculpas, sem justificativas. - Fiz para voc�.
Olhou para as m�os dela. Lembrou-se da l� verde-escura que ela estava tricotando na noite em que irrompera no quarto dela e come�ara uma briga. O modo como
ela se derramava sobre o branco da camisola.
- Fez para mim?
- Sim. Um su�ter. Pode us�-lo no outono ou no inverno. -Aproximou-se dele, segurando-o para medir. - Aumentei o comprimento das mangas. Voc� tem bra�os longos.
O cora��o j� vacilante dele apertou-se quando o tocou. Em toda a sua vida, ningu�m nunca fizera nada para ele.
- N�o sei o que dizer.
- Sempre que me deu um presente, dizia que eu falasse "obrigada".
- Sim. - Segurou-o, sentindo a maciez e o calor nas palmas das m�os. - Obrigado.
- Voc� merece. Quer alguma ajuda com as malas? - Sem esperar pela resposta, pegou o su�ter de volta e arrumou-o cuidadosamente dobrado na mala. - Sei que tem
mais experi�ncia nisso, mas deve achar tedioso.
- Por favor, n�o. - Tocou seu ombro com uma das m�os, mas, quando ela n�o olhou, deixou-a cair. - Tem todo o direito de estar chateada.
- N�o, n�o tenho. E n�o estou. Voc� n�o fez promessas, Grayson, ent�o n�o quebrou nenhuma. � importante para voc�, eu sei. J� olhou as gavetas? Ficaria espantado
com o que as pessoas costumam esquecer.
- Tenho que ir, Brianna.
- Eu sei. - Para manter as m�os ocupadas, ela mesma abriu as gavetas da c�moda, dolorosamente angustiada ao encontr�-las totalmente vazias.
- N�o posso ficar aqui. Quanto mais demoro agora, mais dif�cil se torna. E n�o posso dar a voc� o que precisa. Ou acha que precisa.
- Logo vai estar me dizendo que tem alma de cigano, e n�o h� necessidade disso. Eu sei. - Fechou a �ltima gaveta e voltou-se outra vez. - Desculpe por dizer
o que disse antes. N�o quero que v� embora lembrando-se de palavras r�spidas, quando existiu muito mais.
As m�os estavam cruzadas outra vez, seu s�mbolo de controle.
- Quer que eu prepare um lanche para a viagem, talvez uma garrafa t�rmica com ch�?
- Pare de bancar a anfitri� perfeita. Pelo amor de Deus, estou deixando voc�. Estou indo embora.
- Voc� est� indo - ela retrucou com voz firme e fria -, como sempre disse que iria. Talvez para voc� fosse mais f�cil se eu chorasse, me lamentasse, fizesse
uma cena, mas isso n�o combina comigo.
- Ent�o � assim. - Ele atirou algumas meias na mala.
- Voc� fez sua escolha e s� lhe desejo felicidade. � claro que ser� bem-vindo, se vier para esses lados outra vez.
Os olhos dele cruzaram com os dela enquanto fechava a mala.
- Avisarei voc�.
- Vou ajud�-lo a descer com a bagagem.
Ela estendeu o bra�o para pegar a mochila, mas ele a agarrou antes.
- Eu trouxe tudo para c�. Eu vou levar tudo daqui.
- Como quiser. - Ela cortou seu cora��o ao aproximar-se e beij�-lo levemente no rosto. - Fique bem, Grayson.
- Adeus, Brie. - Desceram os degraus juntos. Ele n�o falou nada mais at� que alcan�aram a porta da frente. - N�o esquecerei voc�.
- Espero que n�o.
Ela caminhou ao lado dele at� o carro, ent�o parou no jardim, esperando, enquanto ele guardava a mala e sentava-se ao volante.
Sorriu, levantou a m�o num aceno, ent�o voltou para a pousada sem olhar para tr�s.

Uma hora mais tarde estava sozinha na sala, com sua cesta de costura. Ouviu risadas pela janela e fechou os olhos brevemente. Quando Maggie entrou com Rogan
e o beb�, estava dando um n� num fio e sorrindo.
- Ora, chegaram tarde esta noite.
- Liam est� inquieto. - Maggie sentou-se e estendeu os bra�os para que Rogan lhe passasse o beb�. - Pensamos que talvez ele gostasse de alguma companhia. E
aqui est� um quadro, "a dona da casa na sala, costurando".
- Estou atrasada com isso. Quer beber alguma coisa, Rogan?
- N�o vou recusar. - Foi at� o bar. - Maggie?
- Sim, um uisquezinho cairia bem.
- Brie?
- Obrigada, acho que vou querer tamb�m. - Enfiou a linha na agulha, fazendo um n� na ponta. - O trabalho est� indo bem, Maggie?
- � maravilhoso estar de volta a ele. Est� indo muito bem. - Deu um sonoro beijo na boca de Liam. - Terminei uma pe�a hoje. Foram os coment�rios de Gray sobre
aquelas ru�nas de que ele gosta tanto que me deram id�ia para ela. Acho que isso funcionou.
Pegou o copo que Rogan passara a ela e ergueu-o.
- Bem, este � por uma noite repousante.
- N�o vou discutir - o marido disse com fervor e bebeu.
- Liam acha que entre duas e cinco da manh� n�o � hora de dormir. - Com uma risada, Maggie ajeitou o beb� no ombro. - Temos que lhe contar uma coisa, Brie.
O detetive que est� procurando Amanda Dougherty em... onde � mesmo, Rogan?
- Michigan. Ele encontrou uma pista dela e do homem com quem casou. - Olhou para a esposa. - E da crian�a.
- Ela teve uma menina, Brie - Maggie murmurou, embalando o pr�prio beb�. - Ele localizou a certid�o de nascimento. Amanda chamou-a Shannon.
- Como o rio. - Brianna suspirou e sentiu um aperto na garganta. - Temos uma irm�, Maggie.
- Temos. Podemos encontr�-la logo, de um jeito ou de outro.
- Espero que sim. Ah, estou feliz por terem vindo me contar. - Ajudava um pouquinho, aliviava um tanto aquele aperto no cora��o. - Vai ser bom pensar nisso.
- Por enquanto, s� d� mesmo pra pensar - Rogan avisou. - A pista que ele est� seguindo tem vinte e cinco anos.
- Ent�o seremos pacientes - Brianna disse simplesmente. Longe de estar certa sobre seus pr�prios sentimentos, Maggie trocou a posi��o do beb� e mudou de assunto:
- Queria mostrar a pe�a que acabei de fazer a Gray, para ver se ele reconhece a fonte de inspira��o. Onde ele est�? Trabalhando?
- J� foi. - Brianna enfiou a agulha direto numa casa.
- Foi aonde? Ao pub?
- N�o, acho que a Dublin ou a qualquer lugar aonde a estrada o leve.
- Quer dizer que ele foi embora? Partiu? - Levantou-se, fazendo o beb� rir de prazer com o movimento s�bito.
- Sim, faz uma hora.
- E voc� est� sentada, costurando?
- O que deveria estar fazendo?... me flagelando?
- Devia estar flagelando aquele ianque desgra�ado. E pensar que fiquei f� dele.
- Maggie. - Rogan tocou seu bra�o chamando-lhe a aten��o. - Voc� est� bem, Brianna?
- Estou bem, obrigada, Rogan. N�o seja t�o dura, Maggie. Ele est� fazendo o que � certo para ele.
-Ao inferno com o que � certo para ele! E quanto a voc�? D� para voc� segurar o beb�? - disse impacientemente a Rogan, e ent�o, com os bra�os livres, ajoelhou-se
na frente da irm�. - Sei o que sente por ele, Brie, e n�o consigo entender como ele p�de ir embora assim. O que disse quando voc� lhe pediu que ficasse?
- N�o pedi.
- N�o... Por que diabos n�o?
- Porque nos tornaria infelizes. - Ela espetou a agulha no dedo e praguejou levemente. - E tenho meu orgulho.
- Que n�o serve de nada. Voc� provavelmente se ofereceu para preparar sandu�ches para a viagem dele.
- Sim.
- Ah! - Angustiada, Maggie levantou-se e caminhou pela sala. - Voc� n�o raciocina. Nunca foi capaz de raciocinar.
- Tenho certeza de que voc� est� fazendo Brianna se sentir muito melhor com esse ataque de raiva - Rogan falou secamente.
- Estava s�... - Mas captando o olhar dele, Maggie mordeu a l�ngua. - Est� certo, claro. Desculpe, Brie. Se quiser, posso ficar um pouco lhe fazendo companhia.
Ou ent�o pego algumas coisas do beb� e passaremos a noite aqui.
- Voc�s t�m sua casa. Ficarei bem, Maggie, comigo mesma. Sempre fico.

Gray estava quase em Dublin e a cena continuava martelando na sua cabe�a. O final do livro, o maldito final n�o estava acertado. Era por isso que estava t�o
irritado.
Deveria ter enviado o manuscrito para Arlene e ter se esquecido dele. A cena final n�o o estaria alfinetando agora, se tivesse enviado. Podia estar j� se divertindo
com a pr�xima hist�ria.
Mas n�o conseguia pensar em outra, quando n�o era capaz de se livrar da anterior.
McGee tinha ido embora porque terminara o que viera fazer na Irlanda. Retomaria sua vida outra vez, seu trabalho. Tinha de ir adiante porque... porque tinha,
Gray pensou irritado.
E Tullia ficara porque a vida dela era no chal�, naquela terra, com aquelas pessoas. Estava feliz l� como nunca ficaria em qualquer outro lugar. Brianna...
Tullia, corrigiu, murcharia sem suas ra�zes.
O final fazia sentido. Era perfeitamente plaus�vel, estava de acordo tanto com o personagem quanto com o temperamento.
Ent�o por que estava atormentado por aquilo como se fosse uma dor de dente?
Ela n�o pedira a ele que ficasse, pensou. N�o derramara uma l�grima sequer. Quando percebeu que seu c�rebro tinha mudado outra vez de Tullia para Brianna,
praguejou e pisou fundo no acelerador.
Era como se esperava que fosse, lembrou-se. Brianna era sensata, uma mulher razo�vel. Era uma das coisas que admirava nela.
Se ela o amava tanto, ao menos poderia ter lhe dito que sentiria falta dele.
N�o queria que ela sentisse falta dele. N�o queria uma luz acesa na janela, n�o a queria cerzindo suas meias ou passando suas camisas. E, acima de tudo, n�o
a queria atormentando sua cabe�a.
Era independente e livre, como sempre fora. Como precisava ser. Tinha lugares para ir, um alfinete para espetar no mapa. Umas pequenas f�rias em algum lugar,
antes de iniciar a turn�, e, ent�o, novos horizontes para explorar.
Essa era sua vida. Tamborilou os dedos, impaciente, no volante. Gostava de sua vida. E estava retornando a ela novamente, justo como McGee.
Justo como McGee, pensou com uma careta.
As luzes de Dublin brilharam em boas-vindas. Relaxou ao v�-las ao saber que chegara aonde planejara. N�o se incomodava com o tr�nsito. Claro que n�o. Ou com
o barulho. J� ficara muito tempo longe de cidades.
Precisava era encontrar um hotel, fazer o check-in. Tudo que queria era poder esticar as pernas depois da longa viagem e tomar uns drinques.
Gray parou junto ao meio-fio e deixou a cabe�a cair contra o assento. Tudo o que queria era uma cama, um drinque e um quarto calmo. Inferno! Claro que era!

Brianna passou a madrugada acordada. Era bobagem deitar na cama e fingir que poderia dormir, quando n�o poderia. Come�ou a preparar o p�o, deixando a massa
crescer, antes de fazer o primeiro bule de ch�.
Serviu-se de uma x�cara no jardim dos fundos, mas n�o conseguiu se acomodar. Mesmo uma ida at� a estufa n�o a agradou. Ent�o voltou para dentro e p�s a mesa
para o caf�.
Ainda bem que os h�spedes sairiam de manh� cedo. Por volta das oito, tinha preparado um lanche quente para eles e os levado at� a porta.
Mas agora estava sozinha. Certa de que se distrairia com a rotina, arrumou muito bem a cozinha. Em cima, tirou os len��is das camas desfeitas e colocou os
que recolhera da corda no dia anterior. Juntou as toalhas �midas, substituindo-as.
Bem, n�o podia mais adiar aquilo, disse a si mesma. N�o devia. Moveu-se rapidamente para o quarto onde Gray trabalhara. Precisava de uma boa limpeza, pensou,
correndo um dedo delicadamente sobre a beirada da mesa.
Pressionando os l�bios, endireitou a cadeira.
Como poderia saber que ficaria assim t�o vazio?
Sacudiu a cabe�a. Era apenas um quarto, afinal de contas. Esperando, agora, pelo pr�ximo h�spede que viesse. E ela colocaria ali o primeiro que chegasse, prometeu.
Seria inteligente fazer isso. Ajudaria.
Foi at� o banheiro, pegando as toalhas que ele usara da barra onde tinham secado.
E p�de sentir o cheiro dele.
A dor veio t�o r�pido, t�o forte, que ela quase cambaleou. Cegamente, correu de volta ao quarto, sentou-se na cama e, enterrando o rosto nas toalhas, chorou.

Gray p�de ouvi-la chorando quando chegou �s escadas. Era um som selvagem de tristeza que o aturdiu e fez com que diminu�sse o passo antes de enfrent�-lo.
Da porta, ele a viu, embalando a si mesma para se confortar, com o rosto apertado nas toalhas.
Nem calma, pensou, nem controlada. Nem razo�vel.
Esfregou as m�os no pr�prio rosto, afastando um pouco do cansa�o da viagem e da culpa.
- Bem - disse numa voz tranq�ila -, voc�, com certeza, me enganou.
Ela levantou a cabe�a, e ele p�de ver a dor em seus olhos, sombras sob eles. Ela come�ou a levantar-se, mas ele acenou com a m�o.
- N�o, n�o pare de chorar, continue. Me faz bem saber que voc� � uma farsa. "Deixe-me ajud�-lo a fazer as malas, Gray. Quer que eu prepare um lanche para a
viagem? Ficarei muito bem sem voc�."
Ela lutou contra as l�grimas, mas n�o p�de vencer. Como elas se derramavam, enterrou o rosto outra vez nas toalhas.
- Voc� me fez ir, realmente me fez. Nem ao menos olhou para tr�s. Aquilo era o que estava errado na cena. N�o funcionou. Nunca funcionou. - Aproximou-se dela
e puxou as toalhas. - Est� se sentindo desamparada, apaixonada por mim, n�o est�, Brianna? Inteiramente apaixonada, sem truques, sem armadilhas, sem frases banais.
- Ah, v� embora! Por que voltou?
- Esqueci algumas coisas.
- N�o h� nada seu aqui.
- Voc� est� aqui. -Ajoelhou-se, tomando-lhe as m�os para impedir que cobrisse as l�grimas. - Deixe-me contar-lhe uma hist�ria. N�o, continue chorando se quiser
- disse, quando ela tentou se conter. - Mas ou�a. Eu achei que ele tinha de ir embora. McGee.
- Voc� voltou para me falar de seu livro?
- Deixe-me contar-lhe uma hist�ria. Calculei que ele tinha de ir. E da� se nunca tinha se envolvido com ningu�m do jeito que acontecera com Tullia? E da� se
ela o amava, se o havia transformado, transformado a vida dele? Completado a vida dele? Estavam a quil�metros de dist�ncia em qualquer outro aspecto, n�o estavam?
Pacientemente, olhou outra l�grima rolar pelo rosto dela. Ela estava lutando contra elas, sabia. E estava perdendo.
- Ele era um solit�rio - Gray continuou. - Sempre foi. Que diabos poderia fazer em uma vila pequena, no Oeste da Irlanda? E ela o deixou ir porque era teimosa
demais, orgulhosa demais e muito apaixonada para pedir a ele que ficasse.
"Eu me angustiei com isso", prosseguiu. "Por semanas. Estava me deixando louco. E durante todo o caminho at� Dublin fiquei remoendo isso, achando que eu n�o
pensaria em voc�, se estivesse pensando naquilo. E, de repente, percebi que ele n�o iria embora, e ela n�o o deixaria. Ah, eles sobreviveriam um sem o outro porque
desde que nasceram eram sobreviventes. Mas nunca seriam inteiros. N�o do jeito que eram juntos. Ent�o reescrevi tudo l� mesmo, no lobby do hotel em Dublin."
Ela engoliu as l�grimas e a humilha��o.
- Ent�o voc� resolveu seu problema. Bom para voc�.
- Um deles. Voc� n�o vai a lugar algum, Brianna. - Ele a segurou mais forte at� ela parar de tentar soltar as m�os.
- Quando acabei de reescrever, pensei: vou tomar um drinque em algum lugar e vou para a cama. Em vez disso, peguei o carro e vim para c�. Porque esqueci que
passei aqui os melhores seis meses da minha vida. Esqueci que queria ouvir voc� cantando na cozinha de manh� ou v�-la pela janela do quarto. Esqueci que sobreviver
n�o � sempre o bastante. Olhe para mim. Por favor.
Quando ela olhou, ele limpou uma das l�grimas com o polegar. Ent�o entrela�ou os dedos nos dela, novamente.
- E, acima de tudo, Brianna, esqueci de dizer a voc� que a amo. Ela n�o falou nada, n�o p�de, porque sua respira��o continuava
ofegante. Mas seus olhos se arregalaram e mais duas l�grimas ca�ram sobre as m�os entrela�adas.
- � novidade para mim tamb�m - murmurou. - Mais do que um choque. Ainda n�o estou certo de como lidar com isso. Nunca quis sentir isso por ningu�m, e foi f�cil
evitar, at� voc�. Isso significa la�os e responsabilidades, e significa que talvez eu pudesse viver sem voc�, mas nunca estaria inteiro.
Gentilmente levou as m�os dela aos l�bios e sentiu o sabor das l�grimas.
- Achei que voc� se livrou de mim f�cil demais na despedida de ontem � noite. Aquilo me deixou em p�nico. Estava decidido a implorar, quando entrei e ouvi
voc� chorando. Tenho de confessar que foi como m�sica para os meus ouvidos.
- Voc� queria que eu chorasse.
- Talvez. Sim. - Ele se levantou, soltando as m�os dela. - Acho que, se voc� tivesse solu�ado no meu ombro na �ltima noite, se tivesse pedido para ficar, eu
teria ficado. Ent�o eu poderia culpar voc�, se eu estragasse as coisas.
Ela sorriu e secou o rosto.
- Eu atendi voc�, n�o �?
- N�o exatamente. - Virou-se e olhou para ela. Estava t�o perfeita, notou, com o avental impec�vel, fios de cabelos escapando dos grampos, l�grimas secando
no rosto. - Eu mesmo tive de voltar atr�s. Assim n�o poderei culpar ningu�m se eu falhar. Quero que saiba que vou me esfor�ar muito para n�o falhar.
- Voc� quis voltar. - Apertou as m�os. Era t�o dif�cil esperar isso.
- Mais ou menos. Mais, realmente. - O p�nico ainda estava ali, fermentando dentro dele. S� esperava que n�o transparecesse. - Disse que amo voc�, Brianna.
- Eu sei, eu lembro. - For�ou um sorriso enquanto se levantava. - Voc� nunca se esquece da primeira vez em que ouve isso.
- A primeira vez que ouvi foi quando fiz amor com voc�. Estava contando que ouviria outra vez.
- Amo voc�, Grayson. Sei que amo.
- Vamos ver. - Remexeu o bolso at� encontrar uma caixinha.
- Voc� n�o tinha que me comprar um presente. Bastava vir para casa.
- Pensei muito nisso, voltando de Dublin. Vir para casa. � a primeira vez que venho. - Entregou-lhe a caixa. - Gostaria de fazer disso um h�bito.
Ela abriu a caixinha e, apoiando-se na cama, sentou-se outra vez.
- Perturbei o gerente do hotel em Dublin at� que ele abriu a loja. Voc�s, irlandeses, s�o muito sentimentais, nem precisei suborn�-lo. - Ele engoliu em seco.
-Achei que eu teria mais sorte com um anel tradicional. Quero que case comigo, Brianna. Quero construir um lar junto com voc�.
- Grayson...
- Sei que sou uma aposta p�ssima - apressou-se em dizer. - N�o mere�o voc�. Mas voc� me ama mesmo assim. Posso trabalhar em qualquer lugar e posso ajud�-la
aqui com a pousada.
Quando olhou para ele, o cora��o simplesmente transbordou. Ele a amava, ele a queria e ficaria ali.
- Grayson...
- Ainda terei que viajar algumas vezes. - Lentamente se aproximou dela, temendo muito que ela o rejeitasse. - Mas n�o seria como antes. E algumas vezes voc�
poderia ir comigo. Sempre voltaremos para c�, Brie. Sempre este lugar vai significar para mim quase tanto quanto para voc�.
- Eu sei. Eu...
- N�o pode saber - interrompeu-a. - Eu mesmo n�o sabia at� ir embora. � um lar. Voc� � meu lar. N�o uma armadilha - murmurou. - Um santu�rio. Uma chance. Quero
construir uma fam�lia aqui. - Enfiou a m�o pelos cabelos enquanto ela o olhava. - Deus, como quero isso. Filhos, planos a longo prazo. Um futuro. E saber que voc�
est� bem aqui, cada manh�, cada noite. Ningu�m nunca amar� voc� como eu a amo, Brianna. Quero um compromisso com voc�. - Inspirou, tr�mulo. - A partir de hoje, desta
hora.
- Ah, Grayson - murmurou, com a voz embargada. Parecia que os sonhos podiam se tornar realidade. - Eu queria...
- Nunca amei ningu�m antes, Brianna. Em toda a minha vida, n�o houve ningu�m, a n�o ser voc�. � o meu tesouro. Juro. E se voc� s�...
- Ah, fique quieto - falou entre risos e l�grimas. - Para eu poder dizer sim.
- Sim? - Levantou-a da cama outra vez, fixando os olhos nos dela. - N�o vai me fazer sofrer primeiro?
- A resposta � sim. Apenas sim. - Colocou os bra�os em volta dele, apoiando a cabe�a em seu ombro. E sorriu. - Bem-vindo ao lar, Grayson.



Fim

1 No original, blackthorns. Abrunheiro, ameixeira-brava, pruneiro. A pousada c Blackthorn Cottage. (N.T.)
??

??

??

??

2



67
Titulo original: Gabriel's Angel
Luz Na Tormenta
Para o Toni e KY e Larry, por ter o bom sentido de casar-se com as pessoas adequadas.



Argumento: Gr�vida, s� e em plena fuga para proteger ao filho que levava no ventre, Laura Malone ficou apanhada em uma estrada nevada de Avermelhado,
e a merc�
de um desconhecido. Felizmente, o �nico prop�sito do Gabriel Bradley era lhe dar cubro. Ela era um anjo loiro de olhos azul meia-noite, e Gabe teria pensado
que tinha surto da noite nevada para salv�-lo... se acreditasse nesse tipo de coisas; entretanto, tinha perdido toda esperan�a da morte de seu irm�o,
e j� s� achava consolo em sua solid�o. Enquanto esperavam a que amainasse a tormenta, confessaram-se seus segredos mais �ntimos e surgiu entre eles uma capitalista
paix�o. Quando as estradas se limparam, ficaram unidos por uma promessa, j� que Gabe sabia que Laura necessitava amparo para conservar a cust�dia de seu
filho na batalha que se morava. Estava disposto a lhe oferecer matrim�nio para ajud�-la, embora seus motivos n�o eram realmente t�o puros. O certo era que aquela
formosa e vulner�vel desconhecida lhe tinha devotado um presente de incalcul�vel valor... tinha-lhe dado uma raz�o para viver, a valentia de recuperar a esperan�a
e de soar tendo o futuro e a fam�lia que ele sempre tinha desejado.

Cap�tulo 1
Maldita neve. Gabe reduziu a segunda, diminuiu a velocidade do todoterreno a vinte e quatro quil�metros por hora, soltou um juramento e for�ou a vista ao m�ximo;
entretanto, qu�o �nico podia ver-se mais � frente do fren�tico vaiv�m dos limpador de p�ra-brisas era uma parede branca. Aquela n�o era uma tempestade de neve invernal de conto
de fadas, e os flocos de neve que ca�am pareciam t�o grandes e amea�adores como um punho.
Seria in�til parar-se a esperar a que a tormenta descampasse, disse-se enquanto tomava a seguinte curva lentamente. depois de seis meses conhecia a perfei��o
aquela estreita e lhe serpenteiem estrada e podia conduzir por ela quase com os olhos fechados, assim podia considerar-se afortunado, mas um rec�m-chegado se haveria
encontrado indefeso. Inclusive com aquela vantagem, tinha os ombros e a parte posterior do pesco�o completamente tensos. Nevada-las em Avermelhado podiam ser t�o
perigosas na primavera como em pleno inverno, e durar uma hora ou um dia; al�m disso, aquela tinha tomado por surpresa a todo mundo... tanto aos residentes como
aos turistas e ao Servi�o Nacional de Meteorologia.
S� oito quil�metros mais e poderia descarregar as provis�es, acender o fogo e desfrutar da tempestade de neve de abril no acolhedor interior de sua cabana, com
uma ta�a de caf� quente ou uma cerveja fria.
O todoterreno foi subindo pela costa como um tanque, e Gabriel se sentiu agradecido por sua resist�ncia e sua solidez. Embora demorasse tr�s vezes mais em
percorrer os trinta e dois quil�metros at� sua casa, pelo menos conseguiria chegar.
Os limpador de p�ra-brisas trabalhavam incans�veis, mas o �nico que se apreciava entre os segundos de falta de visibilidade total era uma cortina branca. Se n�o amainava,
ao anoitecer a neve teria mais do meio metro de altura. Gabe tentou animar-se dizendo-se que para ent�o j� teria chegado a casa, mas suas impreca��es ressonaram
no interior do ve�culo. Se n�o tivesse perdido a no��o do tempo no dia anterior, teria podido comprar antes as provis�es e o mau tempo n�o lhe haveria
afetado o mais m�nimo.
A estrada serpenteou em uma curva pregui�osa, e Gabe tomou com supremo cuidado. Resultava-lhe muito dif�cil conduzir lentamente, mas com o passar do inverno havia
adquirido um s�o respeito pelas montanhas e pelas estradas que as atravessavam. A cerca de seguran�a era muito s�lida, mas ao outro lado esperavam uns ravinas
escarpados que n�o perdoavam um engano. Embora tinha confian�a em si mesmo e na fiabilidad do todoterreno, tinha que ter em conta a possibilidade de que houvesse
algum carro a um lado ou em meio da estrada.
Precisava fumar. Apertou as m�os no volante, desejando acender um charuto, mas sabia que teria que esperar para poder permitir-se esse luxo. S� quatro
quil�metros e m�dio mais.
Sentiu que a tens�o de seus ombros come�ava a relaxar-se. N�o tinha visto um s� carro em mais de vinte minutos, e era duvidoso que se encontrasse com algum
a aquelas alturas, j� que qualquer com a mais m�nima sensatez teria procurado ref�gio. A seu lado, a r�dio n�o deixava de falar de estradas cortadas e eventos
cancelados.
Sempre o tinha surpreso que a gente planejasse tantas festas, jantares, recitais e representa��es para um mesmo dia, embora supunha que essa era a natureza
humana. Sempre planejando reuni�es para juntar uns com outros, embora s� fora para vender um punhado de bolos e bolachas. Ele preferia estar sozinho, ao menos
de momento; de n�o ser assim, n�o teria comprado a cabana nem teria permanecido enclausurado nela durante os �ltimos seis meses.
A solid�o lhe proporcionava liberdade para pensar, para trabalhar, para curar-se, e tinha obtido as tr�s coisas em certa medida.
Esteve a ponto de suspirar aliviado ao ver... bom, ao notar... que o carro voltava a tomar um pendente, j� que sabia que aquela era a �ltima costa antes
de sua separa��o. J� s� ficava um quil�metro e m�dio. Sua cara, que tinha estado tensa de concentra��o, come�ou a relaxar-se. Era um rosto muito magro e angular
para resultar meramente atrativo; al�m disso, tinha o nariz ligeiramente desviado por causa de um acalorado desacordo que tinha tido com seu irm�o menor na adolesc�ncia,
mas Gabe n�o lhe tinha guardado rancor por isso.
Lhe tinha esquecido ficar um chap�u, e seu comprido cabelo loiro escuro lhe emoldurava a cara e lhe chegava at� o pesco�o do agasalho imperme�vel com aspecto desgrenhado,
j� que o tinha penteado com dedos apressados horas antes. Seus olhos, de um cristalino tom verde escuro, come�avam a lhe arder depois de estar tanto tempo fixos
na neve.
Enquanto os pneum�ticos se deslizavam pelo asfalto acolchoado, jogou uma olhada ao veloc�metro, e levantou a vista de novo detr�s comprovar que s� faltava
meio quil�metro. Ent�o foi quando viu o carro que se aproximava para ele fora de controle.
Sem tempo nem para soltar um palavr�o, virou bruscamente para a direita justo quando o outro carro pareceu derrapar. O todoterreno patinou na neve, e
balan�ou-se perigosamente antes de que as rodas conseguissem aferrar-se � estrada para obter um pouco de tra��o. Por um instante Gabe acreditou que ia dar
uma volta de sino, mas quando seu ve�culo se estabilizou n�o p�de fazer outra coisa que permanecer ali sentado, olhando com a esperan�a de que o outro condutor
tivesse tanta sorte como ele.
O carro descendia inclinado a toda velocidade, e embora tudo estava ocorrendo em quest�o de segundos, Gabe teve tempo de pensar em qu�o forte seria o impacto
quando desse totalmente contra o todoterreno; entretanto, no �ltimo momento o condutor conseguiu endireitar o ve�culo, virou bruscamente para evitar a colis�o,
e come�ou a deslizar-se sem rem�dio para a cerca de seguran�a. Gabe p�s o freio de m�o, e saiu do todoterreno justo quando o outro carro me chocava contra o metal.
Esteve a ponto de cair de cabe�a, mas gra�as a suas botas de montanha conseguiu manter o equil�brio enquanto corria pela neve para o ve�culo acidentado.
Era um carro pequeno e compacto... ainda mais depois do impacto, j� que a parte direita tinha ficado colocada para dentro e o cap� parecia um acorde�o pelo lado
do passageiro. Em um instante de lucidez, horrorizou-se ao pensar no que poderia ter acontecido se o carro tivesse golpeado pelo lado do condutor.
Quando conseguiu chegar ao carro atrav�s da neve, viu uma figura desabada sobre o volante e tentou abrir a porta, mas estava fechada. Com o cora��o
na garganta, come�ou a esmurrar o guich�.
A figura se moveu, e ao ver a espessa cabeleira loira que ca�a sobre os ombros de um casaco escuro se deu conta de que era uma mulher. Nesse momento, ela
tirou-se o gorro de esqui que levava, voltou-se para o guich� e fixou a vista nele.
Estava muito p�lida, branca como o m�rmore, e inclusive seus l�bios pareciam gastos. Tinha uns olhos enormes e escuros, com as �ris quase negros devido �
como��o... e era formosa, t�o incrivelmente formosa que tirava o f�lego. Como artista viu as possibilidades naquele rosto com forma de diamante, nos ma��s do rosto
proeminentes e no carnudo l�bio inferior, mas como homem se separou de sua mente aqueles pensamentos e voltou a golpear no guich�.
Ela piscou e sacudiu a cabe�a, como se estivesse tentando limpar-lhe e Gabe viu que seus olhos eram de um tom azul meia-noite quando a como��o em
eles come�ou a desvanecer-se e deixou passo a uma express�o preocupada.
A mulher se apressou a baixar o guich�, e lhe perguntou antes de que ele pudesse articular palavra:
-Est� ferido?, dei-lhe?
-N�o, deu contra a cerca de seguran�a.
-Gra�as a Deus -disse ela, antes de apoiar a cabe�a no respaldo de seu assento por uns segundos. Tinha a boca seca, e embora lutava por control�-lo,
o cora��o parecia martillearle na garganta-. O carro come�ou a escorregar ao come�ar a descer pela costa, e acreditei que talvez poderia recuperar o controle,
mas ent�o vi seu todoterreno e pensei que ia lhe dar de cheio.
-O teria feito, se n�o tivesse girado para a cerca.
Gabe olhou de novo o cap� do carro, consciente de que o dano poderia ter sido muito major. Se ela tivesse ido a mais velocidade... mas n�o tinha sentido
perder-se em especula��es in�teis, assim que se voltou para ela de novo e tentou ver algum signo de trauma em seu rosto.
-encontra-se bem?
-Sim, acredito que sim -ela voltou a abrir os olhos, enquanto tentava esbo�ar um sorriso-. Sinto muito, devo lhe haver dado um bom susto.
-E que o diga -mas o sobressalto j� tinha passado, e estava a menos do meio quil�metro de sua casa, estado %parado na neve com uma desconhecida que n�o ia poder
tirar seu carro dali em v�rios dias-. Que dem�nios est� fazendo aqui?
Ela ignorou a brutalidade de suas palavras enquanto se desabotoava o cinto de seguran�a; tinha estado respirando fundo para tentar serenar-se, e j� se
encontrava muito melhor.
-Devo me haver equivocado de dire��o pela tormenta, porque estava tentando chegar ao Lonesome Ridge para esperar a que amainasse. Segundo o mapa, � a
popula��o mais pr�xima, e tinha medo de me parar no borda... bom, na pequena margem que h� -olhou para a cerca de seguran�a, e se estremeceu-. Suponho que
n�o vou poder tirar meu carro daqui.
-N�o, esta noite n�o.
Com express�o carrancuda, Gabe se meteu as m�os nos bolsos. A neve seguia caindo e a estrada estava deserta, assim se a deixava sozinha era poss�vel
que morrera congelada antes de que aparecesse por ali um ve�culo de emerg�ncia ou uma m�quina m�quina de limpar neve. Por muito que queria desentender-se daquela responsabilidade,
n�o podia deixar a uma mulher turma de trabalhadores em meio daquela tormenta.
-Qu�o �nico posso fazer por voc� � lev�-la a minha casa.
Sua voz era seca, carente de amabilidade, mas ela n�o se surpreendeu por isso. Era normal que estivesse zangado e impaciente, j� que quase tinha se chocado com ele
e al�m disso ia ter que seguir ajudando-a.
-Sinto muito.
Ele moveu ligeiramente os ombros, consciente de que tinha sido muito grosseiro.
-O desvio que leva a minha casa est� no topo da colina, ter� que deixar aqui seu carro e vir comigo no todoterreno.
-Muito obrigado -disse ela. Com o motor apagado e o guich� aberto, o frio estava come�ando a impregnar em sua roupa-. Perdoe as mol�stias, senhor...
-Bradley, Gabe Bradley.
-Eu me chamo Laura -acabou de tirar o cinto de seguran�a que tinha evitado que sofresse alguma ferida grave, e acrescentou-: levo uma mala na parte de
atr�s, importaria-lhe me dar uma m�o com ela?
Gabe agarrou as chaves e foi a contra gosto a procur�-la, pensando que se se tivesse posto em marcha uma hora antes j� estaria em casa, e sozinho.
A mala n�o era muito grande, e distava muito de estar nova; ao parecer, a mulher sem sobrenome viajava ligeira de bagagem. Enquanto a tirava do carro, se
disse que n�o era justo zangar-se nem mostrar-se t�o descort�s; ao fim e ao cabo, se ela n�o tivesse conseguido virar e o tivesse esquivado, a essas alturas necessitariam
um m�dico em vez de uma ta�a de caf� e de algo para esquent�-los p�s.
Gabe decidiu mostrar-se um pouco mais civilizado, e se voltou para ela para lhe dizer que fora ao todoterreno. A mulher tinha sa�do de seu carro e estava de p�
olhando-o, com a neve caindo sobre o cabelo solto, e foi ent�o quando se deu conta de que n�o s� era muito formosa, mas tamb�m al�m disso estava muito gr�vida.
-M�e de Deus-conseguiu dizer.
-De verdade que sinto lhe causar tantos problemas, e lhe agrade�o muit�ssimo que queira me ajudar -come�ou a dizer Laura-. Se posso chamar desde sua casa e conseguir
que venha algu�m a rebocar meu carro, talvez arrumaremos isto rapidamente.
Gabe n�o ouviu nenhuma palavra do que lhe estava dizendo, incapaz de apartar a vista do vulto coberto por seu casaco escuro.
-Est� segura de que est� bem?, n�o sabia que estava... necessita um m�dico?
-N�o, n�o h� problema -seu rosto, que tinha recuperado a cor gra�as ao frio, iluminou-se com um amplo sorriso-. O menino est� perfeitamente, embora pelas
patadas que me est� dando, eu diria que se incomodou um pouco com tudo este rev�o. N�o chocamos com a cerca, mas bem nos deslizamos contra ela, assim
que logo que notamos o impacto.
-Pode que haja... -sem saber muito bem como seguir, Gabe optou por dizer-: que a sacudida lhe haja... prejudicado algo.
-Estou bem -repetiu ela-. Tinha o cintur�o posto de seguran�a, e a neve amorteceu o golpe -ao dar-se conta de que ele n�o parecia muito convencido,
tornou-se atr�s o cabelo com um pouco de impaci�ncia. Embora levava umas luvas de couro debruados em seda, os dedos estavam come�ando a intumescer-se o Prometo-lhe
que n�o vou p�r me de parto aqui no meio... a menos que fiquemos aqui plantados durante nas pr�ximas semanas.
A mulher tinha raz�o... ou ao menos, isso esperava Gabe; al�m disso, come�ava a sentir-se como um idiota sob o peso do sorriso com que o olhava. Depois de uns segundos
deu-se por vencido, e alargou uma m�o para ela.
-Deixe que a ajude.
Laura sentiu que aquelas palavras t�o singelas lhe davam totalmente no cora��o, j� que podia contar com os dedos de uma m�o as vezes em que algu�m o
havia dito algo assim.
Gabe n�o sabia como terei que comportar-se com as mulheres gr�vidas, e se perguntou se seriam muito fr�geis. Sempre tinha pensado que devia ser justamente o contr�rio,
tendo em conta pelo que tinham que acontecer, mas nesse momento em que se encontrava frente a frente com uma, tinha medo de que se rompesse em mil peda�os ao
toc�-la.
Temerosa de escorregar-se na neve, Laura se aferrou com for�a a seu bra�o enquanto foram para o todo terreno.
-Este s�tio � precioso, mas a verdade � que vou desfrutar mais da neve quando estiver a coberto -comentou quando chegaram ao ve�culo. Ao ver o degrau
bastante alto que havia sob a porta, acrescentou-: parece-me que vai ter que me ajudar a entrar, n�o estou t�o �gil como antes.
Gabe colocou a primeira mala, enquanto se expor por onde podia agarr�-la. Resmungando entre dentes, p�-lhe uma m�o sob o cotovelo e outra no quadril,
e Laura conseguiu entrar no todoterreno com uma facilidade que o surpreendeu.
-Obrigado.
O grunhiu sua resposta enquanto fechava a porta de repente. Depois de rodear o ve�culo, ficou ao volante e conseguiu reincorporar-se � estrada sem muito
esfor�o.
Enquanto o s�lido ve�culo subia lentamente a costa, Laura estirou as m�os e viu que por fim tinham deixado de tremer.
-Se tivesse sabido que havia casas pela zona, teria pedida prote��o faz momento. N�o me esperava que houvesse uma nevada em abril.
-por aqui pode nevar em qualquer data -disse ele, e ficou calado por um comprido momento. Respeitava a privacidade alheia tanto como a sua pr�pria, mas as
circunst�ncias em que se encontravam se sa�am do comum-. Viaja sozinha?
-Sim.
-N�o � um pouco perigoso em sua condi��o?
-Tinha planejado estar em Denver em um par de dias -posou uma m�o sobre seu ventre, e afirmou-: n�o saio de contas at� dentro de seis semanas -respirou fundo,
consciente de que n�o tinha outra op��o que confiar nele, embora fora arriscado-. Vive sozinho, senhor Bradley?
-Sim...
voltou-se um pouco para poder v�-lo com claridade enquanto ele enfiava por um caminho lateral bastante estreito... ou o que ela sup�s que seria um caminho, j�
que estava totalmente enterrado sob a neve. Seu rosto tinha uma certa dureza, embora era muito fino para resultar tosco. Era um rosto esculpido com frieza,
como o de algum m�tico chefe guerreiro de antigamente.
Laura recordou sua express�o de assombrada impot�ncia ao dar-se conta de que estava gr�vida, e soube instintivamente que estava segura com ele. E de todos os modos
tinha que acreditar que era assim, j� que n�o ficava outra op��o.
Ele notou seu olhar e pareceu lhe ler o pensamento, porque disse com voz acalmada:
-N�o sou um man�aco perigoso.
-Me alegro -Laura esbo�ou um sorriso, e se voltou de novo para diante.
A cabana era apenas vis�vel atrav�s da neve, inclusive quando se detiveram justo diante dela; entretanto, a Laura adorou o pouco que conseguiu
vislumbrar. Era um ret�ngulo achaparrado de madeira com um alpendre coberto, janelas de pain�is quadrados e fuma�a saindo pela chamin�.
Embora estava quase totalmente enterrado sob a neve, havia um caminho de pedras plainas que levava at� os degraus de entrada, e os lados da casa
estavam flanqueados por �rvores de folha perene. Nada lhe tinha dado em sua vida a sensa��o de calidez e seguran�a que lhe transmitiu aquela pequena cabana no meio
das montanhas.
-� preciosa, deve ser muito feliz vivendo aqui.
-� pr�tico.
Gabe rodeou o todoterreno para ajud�-la a baixar, e ao inalar seu aroma pensou que cheirava a neve... ou a �gua, aquela �gua pura e virginal que descendia pelas
montanhas na primavera. Consciente de que tanto sua rea��o como suas compara��es eram absurdas, disse-lhe com voz algo brusca:
-Eu a entrarei, dentro de nada poder� esquentar-se frente � chamin� -levou-a at� a casa, e ao chegar � porta a deixou com cuidado de p� e abriu para
que entrasse-. Passe, eu trarei suas coisas.
E sem mais retornou ao todoterreno e a deixou ali sozinha, com a neve derretida de seu casaco molhando o tapete do sagu�o.
Laura levantou o olhar, e ficou boquiaberta ao ver os quadros. Cobriam as paredes, estavam amontoados em cada rinc�o e sobre as mesas, e embora s�
uns quantos estavam emoldurados, o certo era que n�o necessitavam nenhum tipo de adorno. Alguns estavam ao meio acabar, como se o artista tivesse perdido o interesse
ou a motiva��o. Havia �leos de cores vividas e chamativos, e aquarelas em tons suaves e et�reos que pareciam tirados de um sonho. Laura se tirou o casaco e
aproximou-se para v�-los mais de perto.
A gente mostrava uma cena de Paris, o Bois do Boulogne, um parque que reconheceu porque o tinha visitado em sua lua de mel. Ao contempl�-lolhe alagaram
os olhos de l�grimas e todo seu corpo se esticou, mas respirou fundo e se obrigou a olh�-lo at� que suas emo��es se estabilizaram.
Havia um cavalete debaixo de uma janela, onde a luz podia dar totalmente sobre o tecido, e embora teve a tenta��o de ir jogar uma olhada, conteve-se porque
j� tinha a sensa��o de estar invadindo a intimidade daquele homem.
Sentindo-se perdida, enla�ou as m�os com for�a enquanto a invadia um profundo desespero. colocou-se em um atoleiro, tinha o carro destro�ado, apenas
ficava dinheiro, e o beb�... o beb� n�o ia esperar at� que as coisas se solucionassem.
Se a encontravam nesse momento...
N�o, n�o foram encontrar a, disse-se enquanto separava as m�os com um gesto decidido. Tinha chegado at� ali e ningu�m ia tirar lhe a seu filho, nem nesse momento
nem nunca.
voltou-se quando sentiu que a porta da cabana se abria, e viu que Gabe deixava um mont�o de bolsas empilhadas no ch�o antes de tirar o casaco e pendur�-lo
em um cabide que havia junto � entrada.
Estava t�o magro como tinha suposto por sua cara, e embora devia medir pouco menos de um metro oitenta, gra�as a sua complei��o forte e poderosa parecia
muito mais alto. Enquanto via como se sacudia a neve das botas, pensou que tinha mais pinta de boxeador que de artista, que aquele homem parecia encaixar melhor
ao ar livre que em suntuosas mans�es.
Apesar da ascend�ncia aristocr�tica que sabia que ele tinha, a roupa de flanela e veludo cotel� que levava conjuntaba � perfei��o com aquela r�stica cabana.
Ela provinha de um ambiente muito mais modesto, e entretanto se sentia desconjurado em seu volumoso pul�ver de ponto irland�s e sua saia de l� feita a medida.
-Gabriel Bradley -disse, enquanto assinalava com um gesto as paredes-. O golpe deve me haver deixado confundida antes, porque n�o tenho feito a conex�o at�
agora. eu adoro seu trabalho.
-Obrigado -disse ele, antes de levantar duas das bolsas que tinha entrado na casa.
-Deixe que o ayu...
-N�o.
Gabe foi � cozinha sem acrescentar nada mais, e ela ficou mordendo o l�bio. Sabia que ele n�o estava precisamente encantado de ter companhia, mas n�o havia
nada que ela pudesse fazer a respeito, e se iria assim que fora razoavelmente seguro faz�-lo. At� ent�o... bom, at� ent�o Gabriel Bradley, o artista
mais importante da d�cada, teria que ag�entar-se.
Esteve tentada de sentar-se e se manter-se separada de seu caminho passivamente, e nisso passado era o que teria feito, mas as circunst�ncias a tinham trocado.
Seguiu-o at� a cozinha, que era t�o diminuta que pareceu ficar abarrotada.
-Ao menos deixe que lhe prepare algo para beber -a velha cozinha com dois fog�es n�o parecia muito confi�vel, mas Laura estava decidida a ser �til.
Gabe se voltou, e quando o movimento fez que ro�asse o volumoso ventre da mulher, surpreendeu-se pela quebra de onda de desconforto que o percorreu... e por
a pontada de fascina��o que sentiu.
-Aqui tem o caf� -resmungou, enquanto lhe dava um pacote ainda sem come�ar.
-Tem uma cafeteira?
A intriga estava na pia, que estava cheio de uma �gua que em seu momento tinha sido espumosa. Tinha-o deixado em encharcamento, para tentar tirar as manchas
que tinham ficado a �ltima vez que o tinha usado. foi tirar o, mas ao voltar a topar-se com a Laura retrocedeu um passo.
-por que n�o deixa que me eu ocupe? -sugeriu ela-. Colocarei a compra e porei a cafeteira, e enquanto voc� pode chamar para que venha algu�m a rebocar
meu carro.
-Vale. Tamb�m h� leite fresca.
-Suponho que n�o tem ch�, n�o? -sorriu ela.
-N�o.
-Ent�o tomarei um pouco de leite, obrigado.
Quando ele saiu da habita��o, Laura come�ou a colocar a comida. O espa�o era muito reduzido, assim n�o teve problemas para decidir onde ia cada coisa;
de fato, p�de utilizar seu pr�prio sistema de organiza��o, j� que ao parecer Gabe n�o tinha nenhum.
O apareceu na porta quando s� tinha esvaziado uma das bolsas, e comentou:
-N�o h� telefone.
-O que?
-N�o h� linha, est� acostumado a passar quando h� tormenta.
-V�. Est� acostumado a demorar muito em arrumar-se? -disse ela, que se tinha ficado im�vel com uma lata de sopa na m�o.
-Depende. �s vezes demora horas, e �s vezes uma semana.
Laura arqueou uma sobrancelha, mas ent�o se deu conta de que ele estava falando a s�rio.
-Suponho que isso me deixa em suas m�os, senhor Bradley.
O colocou os polegares nos bolsos dianteiros de suas cal�as, e disse com calma:
-Ent�o, ser� melhor que me chame Gabe.
Laura franziu o cenho e baixou o olhar para a lata que seguia sustentando; quando as coisas se torciam, a gente tinha que tentar olhar o lado positivo.
-Quer um pouco de sopa?
-Sim. Irei A... deixar suas coisas no dormit�rio.

Aquela mulher era de armas tomar, decidiu Gabe enquanto levava a mala dela a sua habita��o. Embora ele n�o era nenhum perito no sexo feminino, tampouco
podia considerar um completo novato, e tinha notado que ela nem sequer tinha piscado ao saber que n�o havia telefone e que se ficou incomunicada do
resto do mundo junto a ele.
Gabe se olhou no espelho que havia sobre seu velho penteadeira. Que ele soubesse, ningu�m o tinha considerado inofensivo at� esse momento. Esbo�ou um sorriso travesso;
de fato, n�o sempre tinha sido exatamente inofensivo.
Mas aquela situa��o era por completo diferente, claro.
Sob outras circunst�ncias, certamente teria desfrutado de algumas saud�veis fantasias sobre sua inesperada convidada. Aquela cara... havia algo especial e
indefin�vel em sua incr�vel beleza, e quando um homem a olhava, automaticamente come�ava a imaginar-se coisas; entretanto, embora n�o tivesse estado gr�vida,
as fantasias n�o teriam ido mais � frente. Nunca tinha sido homem de aventuras nem de confus�es de uma noite, e nesse momento n�o estava preparado para ter uma rela��o.
manteve-se celibat�rio durante os �ltimos meses, j� que o desejo de pintar havia o tornado a seduzir por fim e n�o necessitava nada mais.
Mas de um ponto de vista pr�tico, o certo era que tinha uma convidada, uma mulher s� e gr�vida, al�m de muito enigm�tica. N�o lhe tinha escapado
o fato de que n�o tinha mencionado seu sobrenome, nem lhe tinha dado informa��o alguma sobre sua identidade ou as raz�es pelas que viajava. Como duvidava que houvesse
atracado um banco ou que fora uma espi� internacional, decidiu n�o pression�-la muito de momento para conseguir informa��o.
Mas tendo em conta a virul�ncia da tormenta e qu�o isolada estava a cabana, o mais prov�vel era que tivessem que passar v�rios dias juntos, assim
prometeu-se descobrir mais costure sobre a serena e misteriosa Laura.
Enquanto contemplava seu pr�prio reflexo difuso no prato que sustentava na m�o, Laura se perguntou de novo o que ia fazer naquelas circunst�ncias. Estava
apanhada sem poder chegar a Denver, Os Anjos ou a alguma enorme cidade o suficientemente longe de Boston onde poder desaparecer. Se n�o houvesse sentido a necessidade
imperiosa de ficar em marcha essa manh�, se se tivesse ficado na habita��o daquele pequeno motel outro dia mais, possivelmente a essas horas seguiria tendo algo
de controle sobre a situa��o.
Mas n�o tinha sido assim, e nesse momento se encontrava naquela cabana, com um perfeito desconhecido. E al�m n�o era um homem qualquer, a n�o ser Gabriel Bradley,
um artista endinheirado e respeitado que provinha de uma fam�lia igualmente enriquecida e respeitada. Estava segura de que n�o a tinha reconhecido, ao menos de momento,
e se perguntou o que passaria quando ele se desse conta de quem era ela, e de quem estava fugindo. Era poss�vel que os Eagleton fossem amigos dos Bradley, e
a s� id�ia fez que sua m�o se posasse sobre seu ventre em um gesto instintivo e protetor.
N�o tirariam a seu filho. Sem importar o dinheiro que tivessem nem qu�o poderosos fossem, n�o foram poder arrebatar-lhe e se estava em suas m�os, jamais obteriam
encontr�-los, nem a ela nem a seu beb�.
Laura deixou o prato e se voltou para a janela. Era estranho olhar para fora e n�o ver nada, e a reconfortava a id�ia de que ningu�m pudesse v�-la do
exterior. Estava escondida depois de uma cortina de neve do mundo inteiro... ou quase, corrigiu-se ao pensar de novo no Gabe.
Sempre preferia procurar o lado bom das coisas quando n�o ficava outro rem�dio, assim que lhe deu voltas � id�ia de que ao melhor a tormenta tinha sido
uma b�n��o. Ningu�m poderia lhe seguir a pista com aquele tempo, e duvidava que a algu�m lhe passasse pela cabe�a procur�-la em uma pequena cabana perdida no meio
das montanhas. Ali podia sentir-se mais ou menos segura, e decidiu aferrar-se a isso.
Ouviu o Gabe mover-se na habita��o do lado, o ru�do de seus passos no ch�o de madeira, e o som de um tronco na chamin�. depois de tantos meses
de solid�o, inclusive o mero som de outro ser humano a reconfortava.
-Senhor Bradley... Gabe? -apareceu pela porta, e o viu colocando bem a tela protetora que havia diante do fogo-. Poderia limpar uma mesa?
-Para que?
-Para que possamos comer... sentados.
-Ah, sim.
Ela voltou a meter-se na cozinha, enquanto ele tentava pensar no que ia fazer com as pinturas, os pinc�is e demais artefatos que cobriam em total
desordem a mesa que em seu dia se utilizou para comer. Irritado por ter que renunciar a seu espa�o, foi deixando as coisas pela habita��o.
-Tamb�m preparei uns sandu�ches -disse Laura, ao voltar da cozinha com pratos, copos e talheres sobre uma bandeja met�lica de forno um pouco torcida.
Envergonhado e algo nervoso, Gabe foi para ela e a tirou das m�os.
-N�o deveria carregar tanto peso -disse com tom brusco.
Ela arqueou as sobrancelhas. Primeiro sentiu surpresa, j� que ningu�m a tinha mimada nunca, e embora sua vida nunca tinha sido f�cil, nos �ltimos sete meses se havia
voltado bastante dura. Depois sentiu gratid�o, e o olhou com um sorriso.
-Obrigado, mas sou muito cuidadosa.
-Se isso fosse verdade, estaria em sua cama com as pernas em alto, e n�o apanhada na neve comigo.
-� importante fazer exerc�cio -disse, embora se sentou e deixou que ele pusesse a mesa-.E tamb�m o � comer -fechou os olhos, e desfrutou de do aroma simples e revigorante
da comida-. Espero n�o ter gasto muitas coisas, mas uma vez que comecei, n�o pude parar.
-N�o passa nada -disse ele, ao agarrar meio sandu�che de queijo, beicon e rodelas de tomate. A verdade era que se acostumou a comer de p� na cozinha,
e aquela comida quente preparada sem pressas; sei saboreava mais sentado e com um prato.
-Quero te pagar pela comida e o alojamento.
-N�o faz falta -Gabe tomou uma colherada de sopa de pescado enquanto a observava. A forma em que ela levantava o queixo revelava seu orgulho e sua for�a
de vontade, e criava um interessante contraste com sua pele cremosa e seu pesco�o esbelto.
-Agrade�o-lhe isso, mas prefiro pagar pelo que recibo.
-Isto n�o � o Hilton -Gabe se deu conta de que ela n�o levava nenhuma j�ia, nem sequer um anel-.Voc� cozinhaste, assim estamos em paz.
Laura quis protestar, seu orgulho o exigia, mas o certo era que tinha pouco dinheiro, al�m das economias para o cuidado do beb� que tinha guardado
no forro da mala.
-Muito obrigado -tomou um sorvo de leite, embora n�o gostava de nada, enquanto inalava o delicioso e proibido aroma do caf�-. Leva muito tempo aqui, em
Avermelhado?
-Uns seis meses... n�o, sete.
Aquilo lhe deu um pouco de esperan�a. Pelo aspecto da cabana, n�o acreditava que ele passasse muito tempo lendo o peri�dico, e n�o tinha visto nenhuma televis�o.
-Deve ser um s�tio fant�stico para pintar.
-De momento sim.
-Quando entrei n�o podia acredit�-lo, reconheci seu trabalho em seguida. Sempre o admirei, de fato mi... um conhecido meu comprou v�rias obras tuas. Uma
delas era uma enorme selva, parecia como se a gente pudesse perder-se nela e estar completamente sozinho.
Gabe recordava o quadro, e por estranho que parecesse, tinha-lhe irradiado a mesma sensa��o. N�o estava seguro, mas acreditava que o tinha comprado algu�m do
este... de Nova Iorque ou Boston, possivelmente de Washington. Se a curiosidade que sentia por aquela mulher n�o se desvanecia, uma simples chamada a seu agente bastaria para
lhe refrescar a mem�ria.
-N�o mencionaste de onde vem.
-N�o -limitou-se a responder ela.
Embora seu apetite tinha desaparecido, seguiu comendo. Como tinha podido ser t�o parva para lhe descrever o quadro? O comprador tinha sido Tony, que
simplesmente tinha estalado os dedos e tinha feito que seus advogados o comprassem em seu nome, porque lhe tinha gostado.
-Levo um tempo em Dallas -admitiu ao fim.
Tinha vivido ali dois meses, at� que se tinha informado de que os detetives contratados pelos Eagleton estavam investigando discretamente sobre seu paradeiro.
-N�o tem acento texano -comentou ele.
-N�o, suponho que n�o. Deve ser porque vivi por todo o pa�s -aquilo era certo, e Laura conseguiu sorrir de novo-.Voc� n�o � de Avermelhado.
-S�o Francisco.
-Sim, lembran�a hav�-lo lido em um artigo sobre seu trabalho e sua vida -decidiu falar sobre ele. Por experi�ncia, sabia que os homens se distra�am facilmente
se eram o centro da conversa��o-. Sempre quis visitar S�o Francisco, parece um s�tio precioso com a ba�a, as casas antigas... -soltou um grito sufocado,
e se tocou o ventre.
-O que acontece?.
-Nada, o menino est� um pouco inquieto.
Embora ela voltou a sorrir, Gabe notou que seus olhos tinham sombras de cansa�o e que tinha empalidecido outra vez.
-Olhe, n�o tenho nem id�ia de embara�os, mas o sentido comum me diz que deveria estar tombada.
-A verdade � que estou cansada. Se n�o te importar, eu gostaria de me estirar um momento.
-A cama est� ali -ele se levantou, e como n�o sabia se ela poderia faz�-lo por si s�, ofereceu-lhe uma m�o.
-Lavarei os pratos depois, se... -sua voz se apagou quando lhe fraquejaram as pernas.
-Espera -Gabe a rodeou com os bra�os, e experimentou a estranha e lhe esmaguem sensa��o de notar como o beb� se movia contra ele.
-Sinto muito. foi um dia muito comprido, e suponho que me excedi um pouco -Laura sabia que deveria apartar-se dele, mas havia algo delicioso em poder apoiar-se
no duro e s�lido corpo de um homem-. Estarei bem depois de uma sesta.
N�o se rompeu em mil peda�os, como ele tinha acreditado no princ�pio, mas parecia t�o suave e delicada que Gabe imaginou dissolvendo-se em suas m�os. Haveria
querido reconfort�-la, seguir abra�ando-a e senti-la apoiada contra ele, confiando nele, necessitando-o. disse-se que era um parvo por pensar assim, e a elevou em bra�os.
Laura come�ou a protestar, mas se sentiu aliviada ao poder descansar os p�s.
-Devo pesar uma tonelada.
-Isso esperava, mas a verdade � que n�o.
Ela se p�s-se a rir, apesar do exausta que estava.
-� todo um gal�, Gabe.
Ele sentiu que seu desconforto se ia desvanecendo enquanto a levava a dormit�rio.
-N�o estou acostumado a flertar com mulheres gr�vidas.
-N�o se preocupe, redimiste-te ao salvar a esta de uma tormenta de neve -com os olhos fechados, Laura sentiu que a deixava sobre uma cama. Possivelmente n�o fora
mais que um colch�o e um len�ol enrugado, mas se sentiu no para�so-. Gabe, muito obrigado.
-Est� dizendo isso cada cinco minutos -cobriu-a com um edredom que tinha visto tempos melhores, e acrescentou-: se de verdade quer me dar as obrigado, durma
e n�o ponha de parto.
-Vale. Gabe...?
-O que?
-Seguir� comprovando se tiver tornado a linha do telefone?
-Sim -ela estava quase dormida, e Gabe sentiu uma pontada de culpabilidade por pression�-la estando t�o vulner�vel, j� que nesse momento n�o parecia capaz nem de
espantar a uma mosca, mas mesmo assim n�o p�de evitar lhe perguntar-: quer que chame a algu�m por ti?, a seu marido?
Laura abriu os olhos. Embora estavam nublados de cansa�o, olhou-o com express�o s�ria e ele se deu conta de que ainda seguia mais que alerta.
-N�o estou casada -disse ela com claridade di�fana-. N�o h� ningu�m a quem chamar.




Cap�tulo 2
No sonho estava sozinha, mas n�o tinha medo, j� que se tinha passado grande parte de sua vida em solid�o e se sentia mais c�moda assim rodeada de gente. Estava
imersa em uma atmosfera et�rea, aveludada... como a paisagem mar�tima que tinha visto pendurado em uma das paredes da cabana do Gabe.
Curiosamente, podia ouvir o murm�rio do oceano na dist�ncia, embora em algum rinc�o de sua mente sabia que estava na montanha. Ia caminhando por uma n�voa
perlada, com a c�lida areia sob os p�s. sentia-se a salvo, forte e extra�amente despreocupada; fazia muito que n�o se sentia t�o livre, t�o tranq�ila.
Sabia que estava sonhando; de fato, isso era o melhor de tudo, e de ter podido se teria ficado para sempre naquela doce fantasia. Seria incrivelmente
f�cil manter os olhos fechados, e aferrar-se � paz do sonho.
Ent�o o menino come�ou a chorar, a gritar, e as t�mporas come�aram a lhe palpitar para ouvir seu pranto desesperado. Come�ou a suar, e a pura cor branca da
n�voa come�ou a obscurecer-se at� converter-se em um cinza escuro e amea�ador. O ar perdeu toda calidez, e o frio a golpeou e a gelou at� os ossos.
O pranto parecia vir de todas partes e de nenhuma, o eco reverberava a seu redor enquanto procurava fren�tica ao menino. Ofegante, tentando respirar, lutou
por avan�ar entre aquela n�voa que ia envolvendo-a e espessando-se. O pranto se foi fazendo mais forte, mais desesperado, e Laura sentiu que o cora��o o martilleaba
na garganta, que sua respira��o se voltava entrecortada e que suas m�os tremiam.
Ent�o viu o formoso ber�o branco, com encaixes rosados e volantes cor azul, e sentiu um al�vio t�o grande que lhe fraquejaram os joelhos.
-N�o passa nada -murmurou ao levantar o beb� em seus bra�os-. N�o passa nada, estou aqui.
Laura sentiu o quente f�lego do pequeno em sua bochecha, o peso em seus bra�os enquanto o embalava e o arrulhava. Rodeou-a o doce aroma dos p�s de
talco enquanto o balan�ava, murmurando e acalmando-o, e come�ou a apartar a mantita que ocultava o pequeno rosto.
E de repente, descobriu que qu�o �nico sustentava em seus bra�os era uma manta vazia.

Gabe estava sentado na mesa onde tinham comido, esbo�ando a cara da Laura e pensando nela, quando a ouviu gritar. O som foi t�o esmigalhado, t�o carregado
de desespero, que rompeu o l�pis em dois antes de levantar-se de um salto e sair correndo para o dormit�rio.
-Ou�a, j� est� -tomou pelos ombros sem saber o que fazer, mas quando ela come�ou a sacudir-se com for�a, Gabe teve que lutar por controlar seu pr�prio p�nico-.Tranq�ila,
Laura, d�i-te algo?, � o menino?, Laura, me diga o que acontece.
-Tiraram a meu filho! -sua voz transbordava histeria, mas entrela�ada com f�ria-. Me ajude!, tiraram a meu filho!
-Ningu�m tirou a seu filho -ela seguia lutando contra ele com uma for�a surpreendente, e de forma instintiva a rodeou com os bra�os-. foi um sonho,
seu filho est� bem, olhe -agarrou-a pela boneca, onde o pulso pulsava desbocado, e a obrigou a p�r a m�o sobre seu ventre-. Os dois est�o a salvo, te relaxe
antes de que te fa�a mal.
Quando sentiu a vida que pulsava sob sua m�o, Laura se derrubou contra Gabe. Seu beb� estava seguro em seu interior, onde ningu�m podia toc�-lo.
-Sinto muito, tive um pesadelo.
-N�o passa nada -sem ser consciente disso, Gabe come�ou a lhe acariciar o cabelo, a embal�-la como ela tinha feito com o menino de seus sonhos, a balan��-la com ternura
em um movimento ancestral de consolo-. nos fa�a um favor aos dois, e te relaxe.
Laura assentiu, sentindo-se protegida e abrigada, algo que tinha experiente em escassas ocasi�es ao longo de seus vinte e cinco anos de vida.
-Estou bem, de verdade. Suponho que � o trauma do acidente.
O se separou dela, zangado consigo mesmo ao dar-se conta de que queria seguir abra�ando-a, amparando-a. Quando lhe tinha pedido ajuda, tinha sabido
que faria o que fora por proteg�-la, embora n�o tinha entendido por que. Era como se tivesse estado imerso em seu pr�prio sonho, ou como se de alguma forma houvesse
entrado em formar parte do dela.
No exterior seguia caindo uma cortina de neve, e a �nica luz no dormit�rio era a que entrava da sala de estar. Era t�nue e ligeiramente amarelada,
mas mesmo assim podia ver a Laura com claridade, e sabia que ela tamb�m podia v�-lo. Queria respostas, e as queria nesse mesmo momento.
-N�o me minta. Em circunst�ncias normais n�o me meteria em seus assuntos pessoais, mas s� Deus sabe por quanto tempo vais ter que estar sob meu teto.
-N�o te estou mentindo -disse ela, com voz t�o acalmada e firme, que teria sido muito f�cil acredit�-la-. Perdoa se te alarmei.
-De quem est� fugindo, Laura?
Ela ficou olhando-o com aqueles enormes olhos azuis sem dizer uma palavra. Gabe se levantou de repente e come�ou a passear-se de um lado a outro da habita��o,
mas ela permaneceu inalter�vel; entretanto, quando ele voltou a sentar-se na cama com um gesto brusco e tomou o queixo, ela ficou t�o im�vel que ele
teria jurado que por uns segundos tinha deixado de respirar. Embora a id�ia era rid�cula, teve a sensa��o de que estava preparando-se para receber um golpe.
-Sei que tem algum problema, e quero saber qu�o grave �. Quem te persegue, e por que?
Ela permaneceu muda, mas moveu uma m�o instintivamente para proteger ao filho que levava em seu seio. Como era �bvio que o beb� era a chave do assunto,
Gabe decidiu come�ar por ali.
-Seu filho tem um pai -disse com lentid�o-. Est� escapando dele?
Ela negou com a cabe�a.
-Ent�o, de quem?
-� um pouco complicado.
O arqueou uma sobrancelha, e assinalou com a cabe�a para a janela.
-Temos um mont�o de tempo. Se o tempo seguir assim, pode que passe uma semana at� que voltem a abri-las estradas.
-Irei assim que esteja espa�oso. Quanto menos saiba, melhor ser� para os dois.
-N�o me venha com essas -Gabe permaneceu uns segundos em sil�ncio, enquanto tentava esclarec�-las id�ias-. Acredito que o beb� � muito importante para ti.
-N�o h� nada que seja ou possa s�-lo mais.
-Crie que a ansiedade que leva em cima � boa para ele?
Ele viu o instant�neo brilho de dor em seus olhos, a preocupa��o, e a forma quase impercept�vel em que pareceu fechar-se em si mesmo.
-Algumas costure n�o podem trocar-se -Laura respirou fundo, e acrescentou-: a verdade � que tem direito a me perguntar.
-Mas voc� n�o pensa me responder, verdade?
-N�o te conhe�o de nada, mas n�o tenho mais remedeio que confiar em ti at� certo ponto, e s� posso te pedir que voc� fa�a o mesmo comigo.
Ele apartou a m�o de seu queixo e disse:
-Como sei que posso faz�-lo?
Laura apertou os l�bios, consciente de que ele tinha raz�o; entretanto, estar no certo �s vezes n�o bastava.
-N�o cometi nenhum crime, e n�o me persegue a pol�cia. N�o tenho fam�lia nem marido que me busque. Parece-te suficiente?
-N�o. Aceitarei-o por esta noite porque tem que dormir, mas falaremos pela manh�.
Era uma pausa... um curto, mas Laura tinha aprendido a agradecer os pequenos presentes da vida. Assentiu e esperou a que ele sa�sse da habita��o, e quando
a porta se fechou atr�s dele e a envolveu a escurid�o, voltou a tombar-se na cama. Entretanto, demorou muito, muito tempo em poder conciliar o sonho.


Laura despertou em meio de um sil�ncio absoluto, abriu os olhos e esperou a recordar onde estava. Tinha dormido em tantas habita��es distintas, em tantos
s�tios, que estava acostumada a sentir-se desorientada ao despertar.
Ent�o o recordou tudo... Gabriel Bradley, a tormenta, a cabana, o pesadelo, e a experi�ncia de despertar assustada e encontrar o amparo de seu
abra�o; mas sabia que aquela seguran�a era tempor�ria, e que seus abra�os n�o eram para ela. voltou-se para a janela com um suspiro e viu que, por dif�cil que
fora de acreditar, a neve seguia caindo, embora n�o com tanta for�a. Era �bvio que ainda n�o poderia partir.
Colocou uma m�o sob a bochecha, e seguiu contemplando a cortina branca que ca�a brandamente. Era f�cil desejar que a neve n�o parasse nunca e que o tempo
detivera-se para poder ficar ali coberta, isolada de tudo e a salvo. Mas o filho que levava dentro era prova inequ�voca de que o tempo nunca se detinha,
assim que se levantou e abriu sua mala para estar apresent�vel antes de voltar a enfrentar-se ao Gabe.
Ao sair da habita��o se deu conta de que ele n�o estava na cabana, e embora deveria haver-se sentido aliviada, o ambiente acolhedor fez que se sentisse
sozinha. Queria sentir sua presen�a, embora s� fora ouvindo-o mover-se em outra habita��o. disse-se que n�o importava onde estivesse, j� que n�o teria mais rem�dio
que voltar, assim decidiu ir � cozinha para preparar o caf� da manh�.
Entretanto, nesse momento viu a meia d�zia de bosquejos que havia sobre a mesa onde tinham comido. Seu talento como pintor era ineg�vel, e se refletia
inclusive em uns simples esbo�os a l�pis ou a l�pis-carv�o, e Laura sentiu nervos e curiosidade por saber como a via outra pessoa... n�o, n�o qualquer, a n�o ser Gabriel
Bradley em concreto.
Seus olhos pareciam muito grandes, muito misteriosos, e sua boca excessivamente suave e vulner�vel. Laura se passou um dedo por ela, e franziu o cenho. Havia
visto sua pr�pria cara infinidade de vezes em fotografias tomadas do melhor �ngulo poss�vel, imagens nas que aparecia coberta de sedas, peles e j�ias. Seu
rosto e seu corpo tinham vendido litros e litros de perfume, e aut�nticas fortunas em roupa e joalheria.
Laura Malone. Tinha esquecido quase por completo a aquela mulher, de quem se havia dito que seria o rosto dos noventa, e que tinha tido brevemente o
controle de seu pr�prio destino nas m�os. Mas aquela pessoa tinha desaparecido, tinha sido aniquilada.
A mulher dos esbo�os era mais suave, arredondada e fr�gil, mas por outro lado parecia mais forte. Laura levantou um dos desenhos e o contemplou com aten��o,
enquanto se perguntava se s� se estava imaginando que via aquela for�a porque a necessitava.
Para ouvir que a porta se abria se voltou para ela, com o esbo�o ainda na m�o, e viu entrar no Gabe, talher de neve e carregado com um mont�o de lenha.
-bom dia. Parece que estiveste ocupado, n�o?
Ele soltou um grunhido enquanto se sacudia a neve das botas, e ao ir colocar a lenha junto � chamin�, foi deixando um reguero �mido a seu passo.
-Acreditava que dormiria at� mais tarde.
-O teria feito, mas ele n�o quis -disse, dando um suave tapinha no ventre-. Preparo-te algo para tomar o caf� da manh�?
Gabe se tirou as luvas, e os deixou sobre o suporte da chamin�.
-J� comi, te fa�a algo para ti.
Laura esperou a que se tirasse o casaco. Ao parecer, as �guas tinham voltado para um leito mais ou menos amig�vel.
-Parece que j� n�o neva tanto -comentou ao fim.
O se sentou frente ao fogo para tir�-las botas. Os cord�es estavam virtualmente sorvetes.
-H� mais de um metro de espessura, e n�o acredito que pare em toda a tarde -comentou enquanto tirava um charuto-. Ser� melhor que ponha c�moda.
-Parece que j� o estou -Laura levantou o desenho, e admitiu-: sinto-me adulada.
-� muito bonita -disse ele com naturalidade, enquanto colocava as botas diante do fogo para que se secassem-. N�o posso resistir a pintar coisas formosas.
-Tem sorte -Laura deixou o desenho sobre a mesa-. � muito mais te gratifiquem ser capaz de reproduzir algo belo, que ser formoso sem mais.
Gabe arqueou uma sobrancelha ao notar a nota quase impercept�vel de amargura em sua voz.
-� estranho, mas quando a gente acredita que algu�m � formoso, quase sempre come�a a consider�-lo um objeto -explicou-lhe ela.
meteu-se na cozinha sem acrescentar nada mais, e Gabe ficou sem saber o que dizer, com o cenho franzido.
Laura preparou caf� para ele e se passou a manh� arrumando a cozinha, e Gabe lhe deixou espa�o para n�o curv�-la. antes de que anoitecesse conseguiria as respostas
que procurava, mas de momento se contentou deixando-a entreter-se enquanto ele trabalhava.
Tinha a impress�o de que precisava manter-se ocupada, embora pensava que o l�gico para uma mulher em seu estado teria sido passar o dia dormindo, ou descansando
fazendo ponto. Sup�s que devia ser energia nervosa, ou uma estrat�gia para tentar evitar a confronta��o que lhe tinha prometido a noite anterior.
Ela n�o o bombardeou a perguntas nem ficou a olhar incesantemente sobre seu ombro, assim que a manh� passou sem pena nem gl�ria. Em uma ocasi�o, levantou o olhar
e a viu sentada em um extremo do sof�, lendo um livro sobre partos, e mais tarde ela ficou a cozinhar e preparou um guisado que lhe fez a boca �gua.
Laura n�o disse grande coisa em toda a manh�, embora ele sabia que estava esperando inquieta a que voltasse a tirar o tema que tinha ficado pendente a noite
anterior. No meio da tarde, decidiu que parecia bastante descansada, assim tomou seu caderno de esbo�os e uma parte de l�pis-carv�o e come�ou a trabalhar enquanto ela
cortava ma��s sentada frente a ele.
-por que escolheu Denver?
Qu�o �nico revelou sua surpresa foi um movimento brusco e quase impercept�vel da faca, mas Laura n�o levantou o olhar nem deixou de cortar ma��s.
-Porque nunca tinha estado ali.
-Dadas as circunst�ncias, n�o teria estado melhor em um s�tio que te resultasse familiar?
-N�o.
-por que foi de Dallas?
Ela deixou a ma�� que tinha na m�o e agarrou outra.
-Porque tinha chegado o momento.
-Onde est� o pai do beb�, Laura?
-Morto -disse, sem o mais m�nimo rastro de emo��o na voz.
-me olhe.
Suas m�os se detiveram quando levantou o olhar para ele, e Gabe se deu conta de que estava sendo sincera, ao menos no que acabava de lhe dizer.
-N�o tem nenhum familiar que possa te ajudar?
-N�o.
-E a fam�lia do pai de seu filho?
Ela se sobressaltou, e se fez um corte no dedo com a faca. Gabe deixou imediatamente seu desenho e tomou a m�o, e ela p�de ver de novo seu pr�prio rosto
plasmado no papel.
-Vou a por umas ataduras.
-� s� um arranh�o -come�ou a dizer ela, mas Gabe partiu sem lhe dar tempo a seguir.
Quando retornou come�ou a lhe limpar a ferida com anti-s�ptico, e Laura voltou a sentir-se desconcertada ante a preocupa��o que mostrava por ela. Sentiu a ard�ncia
no dedo, mas Gabe a tratou em todo momento com grande cuidado e delicadeza.
-Se seguir assim, vou acabar pensando que n�o p�ra de ter acidentes -comentou ele. Estava ajoelhado ante ela, contemplando com o cenho franzido a ferida.
-E eu acabarei pensando que � um bom samaritano -Laura sorriu quando ele levantou o olhar, e acrescentou-: mas suponho que os dois estar�amos equivocados.
Gabe lhe enfaixou o dedo, e voltou a sentar-se.
-Volta a cabe�a um pouco para a esquerda -quando ela obedeceu, ele tomou seu caderno e passou a uma folha em branco-. por que querem te tirar a seu filho?
Ela se voltou bruscamente para ele, mas Gabe seguiu desenhando.
-Eu gostaria que pusesse de perfil, Laura -disse com voz tranq�ila, embora claramente exigente-. Volta a cabe�a outra vez, e levanta um pouco o queixo.
Sim, perfeito -permaneceu em sil�ncio enquanto riscava sua boca sobre o papel, e finalmente disse-: a fam�lia do pai quer te tirar a seu filho, e eu gostaria de saber
por que.
-Eu nunca hei dito isso.
-claro que sim -disse, apressando-se para captar o brilho de aborrecimento que ardia em seus olhos-. Deixa de rodeios, Laura, e me diga o que acontece.
Ela apertou as m�os com for�a, mas quando falou sua voz continha tanto medo como f�ria.
-N�o tenho por que te contar nada.
-Tem raz�o.
Gabe seguiu desenhando, mas sentiu um estremecimento de agita��o e desejo que o surpreendeu e sobre tudo lhe preocupou. Decidido a se separar de sua mente a estranha
rea��o, e a concentrar-se em lhe tirar aquela mulher as respostas que queria, acrescentou:
-Mas como n�o vou deixar o tema, ser� melhor que desembuche de uma vez.
Gabe era um perito em observar e ler as express�es de outros, assim conseguiu captar o sutil jogo de emo��es que se aconteceram no rosto de
ela. Aborrecimento, frustra��o, e aquele estranho medo que seguia tirando o de gonzo.
-Crie que te levarei a rastros at� eles? Pensa um pouco, n�o tenho nenhuma raz�o para faz�-lo.
Gabe tinha acreditado que n�o poderia conter-se e que come�aria a gritar, porque o estava tirando de gonzo, mas se surpreendeu tanto como ela quando a tirou de
a m�o, e seu assombro aumentou ainda mais quando sentiu que os dedos dela se fechavam instintivamente sobre os seus. Quando Laura levantou os olhos e o olhou, um
sem-fim de estranhas emo��es que tinha acreditado inalcan��veis para ele alagaram seu peito.
-Ontem � noite me pediu que te ajudasse.
Os olhos dela se suavizaram com gratid�o, mas disse com voz firme:
-N�o pode me ajudar.
-Pode que n�o, e pode que n�o o fa�a -mas Gabe queria ajud�-la, embora n�o entendia o porqu�-. N�o sou nenhum samaritano, Laura, nem bom nem de nenhuma outra
classe, e n�o me entusiasma a id�ia de acrescentar os problemas de outra pessoa a meus. Mas est� aqui, e eu n�o gosto de estar �s escuras.
Laura estava cansada. Cansada de fugir, de esconder-se, de tentar arrumar-lhe completamente sozinha.
Precisava ter a algu�m a seu lado, e quando Gabe a tirou da m�o e a olhou com olhos serenos e decididos, quase p�de acreditar que esse algu�m era ele.
-O pai de meu filho est� morto -come�ou a dizer, medindo suas palavras com supremo cuidado. Diria-lhe o suficiente para satisfaz�-lo, mas n�o tudo-. Seus pais,
os av�s do menino, me querem tirar isso suponho que para... n�o sei, para substituir ou recuperar algo que perderam, para assegur�-la continua��o de sua linhagem.
Eu o sinto por eles, mas este beb� n�o lhes pertence -seus olhos se acenderam com um brilho feroz e protetor, como o de uma tigresa protegendo a seus cachorrinhos-.
� meu.
-N�o acredito que ningu�m possa questionar seus direitos como m�e, por que tiveste que fugir?
-T�m muito poder e dinheiro.
-E o que?
-� que te parece pouco? -furiosa, Laura se separou dele, e se rompeu o contato que lhes tinha dado tanta calma a ambos-. Para ti � muito f�cil lhe tirar import�ncia
ao tema, porque vem de um ambiente parecido ao deles e pertence a seu mundo. Nunca aconteceste necessidades nem pen�rias e ningu�m se atreve a lhe arrebatar algo
�s pessoas como voc�, assim n�o entende o que � saber que sua vida est� em m�os de outras pessoas.
Foi dolorosamente evidente que estava falando por experi�ncia pr�pria.
-Ter dinheiro n�o significa obter sempre o que algu�m quer.
-De verdade? -voltou-se para ele, e o olhou com express�o r�gida e g�lida-. Voc� desejava ter um s�tio para pintar, onde estar sozinho e que ningu�m te incomodasse.
Teve muitos problemas para poder consegui-lo?, teve que fazer planos, que economizar ou renunciar a algo?, ou simplesmente assinou um cheque e te deveste viveu
aqui?
Gabe se levantou e a olhou com indigna��o.
-Comprar uma cabana n�o tem nada que ver lhe tirando um menino a sua m�e.
-Pode que para alguns n�o, mas ao fim e ao cabo os objetos n�o s�o mais que posses.
-Est� sendo rid�cula.
-E voc� ing�nuo.
Aquilo lhe pareceu divertido, e o aborrecimento do Gabe se esfriou um pouco.
-Isso se que � uma novidade. Anda, sente-se, p�e-me nervoso quando te move t�o bruscamente.
-N�o vou romper me -resmungou ela, embora lhe fez caso e se sentou em uma cadeira-. Sou forte e posso cuidar de mim mesma; de fato, antes de ir de Dallas me
fiz uma revis�o, e tanto o menino como eu estamos melhor que bem. Em um par de semanas ingressarei em um hospital de Denver e darei a luz a meu filho, e depois desaparecerei
do mapa.
Gabe pensou que aquela mulher era muito capaz de fazer o que estava dizendo, mas ent�o recordou o perdida e assustada que se mostrou a noite anterior.
Era in�til assinalar o estresse ao que estava submetida e suas poss�veis conseq��ncias, mas j� tinha descoberto que bot�es eram os que tinha que pulsar.
-Crie que � justo para o beb� seguir fugindo?
-Claro que n�o. � terrivelmente injusto, mas seria pior me deter e deixar que me tirassem isso.
-por que est� t�o segura de que quereriam ou poderiam faz�-lo?
-Porque eles mesmos me disseram isso. Explicaram-me o que acreditavam que seria melhor para o menino e para mim, e me ofereceram dinheiro -sua voz se encheu de veneno, c�ustico
e amargo-. Ofereceram-me dinheiro por meu filho, e quando o rechacei-me me amea�aram tirando isso sem mais -Laura n�o queria reviver aquela cena aterradora, e com esfor�o
conseguiu apagar a de sua mente.
Gabe sentiu uma tremenda repugn�ncia por aquelas pessoas �s que nem sequer conhecia, mas sacudiu a cabe�a para tentar esclarecer-lhe e poder raciocinar com
Laura.
-Seja o que seja o que queiram ou o que tentem, n�o podem apoderar-se pelas boas de algo que n�o lhes pertence. Nenhum tribunal tiraria a uma m�e
a cust�dia de seu filho sem uma boa causa.
-N�o posso ganhar esta guerra eu sozinha -fechou os olhos por um momento, lutando contra a necessidade se desesperada para tornar-se a chorar e de expulsar todo o medo
e a ang�stia que sentia-. N�o posso me enfrentar a eles em seu pr�prio terreno, e n�o penso expor a meu filho a um inferno de pleitos e lutas legais, � publicidade,
aos falat�rios e �s especula��es. Um menino necessita um lar, amor e seguran�a, e vou fazer o que fizer falta, irei aonde seja, para me assegurar de que meu
filho tem todas essas coisas.
-N�o vou discutir sobre o que � melhor para ti ou para o beb�, mas cedo ou tarde vais ter que te enfrentar a tudo isto.
-Farei-o quando chegar o momento.
Gabe se levantou, e foi � chamin� a acender outro charuto. Deveria esquecer do tema, deix�-la tranq�ila para que seguisse seu pr�prio caminho, j� que tudo
aquilo n�o era de sua incumb�ncia. N�o era seu problema. Soltou um juramento, porque sabia que de algum modo, quando ela se obstinado a seu bra�o para poder cruzar
a estrada, tinha passado a ser assunto dele.
-Tem dinheiro?
-um pouco. Bastante para pagar a fatura do m�dico, e para comprar algumas costure ao menino.
Gabe sabia que se estava procurando problemas, mas pela primeira vez em quase um ano sentia que algo era realmente importante. sentou-se no bordo da chamin�,
e a contemplou enquanto soltava uma baforada de fuma�a.
-Quero te pintar -disse com tom brusco-. Pagarei-te o sal�rio de uma modelo, al�m de te dar cama e comida.
-N�o posso aceitar seu dinheiro.
-por que n�o? depois de tudo, parece que crie que tenho muito.
-N�o quis dizer isso -disse ela, ruborizada de vergonha.
O fez um gesto displicente, como se aquilo carecesse de import�ncia.
-N�o importa o que tenha querido dizer, isso n�o tira que queira te pintar. Trabalho a meu pr�prio ritmo, assim ter� que ser paciente; n�o me d� bem transigir,
mas tendo em conta sua condi��o, estou disposto a fazer algumas concess�es e a parar quando estiver cansada ou inc�moda.
Era muito tentador, e Laura tentou esquecer-se de que j� antes tinha vivido de sua apar�ncia f�sica, e concentrar-se no que aquele dinheiro extra significaria para
o beb�.
-Eu gostaria de acessar, mas � um artista muito famoso e me reconheceriam se o retrato sa�sse � luz.
-Isso � verdade, mas eu n�o estaria obrigado a lhe dizer a ningu�m onde te conheci ou quando. Tem minha palavra de que ningu�m te encontrar� por minha culpa.
Laura permaneceu em sil�ncio uns segundos, enquanto lutava consigo mesma.
-Pode te aproximar um pouco? -perguntou-lhe ao fim.
Gabe jogou o charuto ao fogo, foi para ela e ficou em cuclillas diante da cadeira.
-D�-me sua palavra? -perguntou-lhe, enquanto o observava com aten��o. Ela tamb�m tinha aprendido a ler as express�es da gente.
-Sim.
Havia riscos que merecia a pena correr. Laura estendeu as duas m�os para ele, em sinal de confian�a.


devido � cont�nua nevada, o dia passou sem amanhecer, entardecer nem p�r-do-sol. A luz permaneceu t�nue durante toda a jornada, e a noite chegou sem maior
cerim�nia. E ent�o deixou de nevar.
Laura n�o se teria dado conta se n�o tivesse estado olhando pela janela. N�o foi descampando gradualmente, mas sim pareceu que o fluxo de flocos de neve
detinha-se em seco, como se algu�m tivesse fechado um grifo. Sentiu uma ligeira decep��o, qu�o mesma recordava haver sentido de menina quando terminava uma tormenta,
e de forma impulsiva ficou as botas e o casaco e saiu ao alpendre.
A neve chegava aos joelhos apesar de que Gabe tinha estado limpando a entrada com uma p�, e quando suas botas se afundaram e desapareceram Laura
teve a sensa��o de que a tragava uma suave e esponjosa nuvem. rodeou-se com os bra�os, e inalou o frio ar da montanha.
N�o havia nem lua nem estrelas, a luz do alpendre alcan�ava apenas a um metro de onde estava, e o �nico que se ouvia era o sil�ncio. Para alguns a enorme
len�ol de neve teria sido como um c�rcere, um obst�culo, mas para ela era uma fortaleza protetora.
Tinha decidido voltar a confiar em algu�m de novo, e ali de p�, rodeada daquela escurid�o e daquela quietude, soube que tinha feito o correto.
Gabe n�o era um homem amig�vel nem af�vel, mas era uma boa pessoa e al�m disso estava segura de que podia confiar em sua palavra. foram utilizar se mutuamente,
j� que ele a queria para sua arte e ela para ter um s�tio onde cobrir-se, mas era um interc�mbio justo. Precisava descansar, aproveitar qualquer tempo que
pudesse conseguir para recuperar-se Y. recuperar as for�as.
N�o lhe tinha confessado o cansada que se sentia, nem o esfor�o que lhe tinha suposto manter-se de p� com o passar do dia. O embara�o tinha sido f�cil desde
o ponto de vista f�sico, j� que era uma mulher forte e s�; de n�o ser assim, teria se derrubado fazia tempo, porque os �ltimos meses tinham consumido at� a
�ltima gota de suas reservas emocionais e mentais. A cabana, as montanhas e aquele homem foram lhe dar tempo para poder encher suas reservas de novo. ia necessitar as.
Gabe n�o entendia o que os Eagleton podiam chegar a conseguir com seu dinheiro e seu poder, mas ela tinha visto do que eram capazes. Tinham pago e manobrado
para ocultar os enganos de seu filho, e com umas poucas chamadas as pessoas adequadas tinham conseguido que sua morte e a da mulher que o acompanhava passasse
de ser um incidente acidentado a um acidente tr�gico.
A imprensa n�o tinha mencionado nenhuma s� vez o �lcool nem o adult�rio, e a vers�o p�blica era que Anthony Eagleton, o herdeiro da fortuna de sua fam�lia,
tinha morrido por causa de uma estrada escorregadia e de uma falha no carro, n�o por sua condu��o criminal e temer�ria estando bebido. E a mulher que o acompanhava
tinha passado a ser sua secret�ria, em vez de seu amante.
O processo de div�rcio que Laura tinha iniciado tinha ficado apagado, completamente erradicado, j� que nenhuma sombra de esc�ndalo podia recair sobre a mem�ria
do Anthony Eagleton ou sobre seu ilustre sobrenome, e Laura tinha sido pressionada para que interpretasse o papel de vi�va conmocionada e desconsolada.
E era certo que se sentou conmocionada e desconsolada, mas n�o pelo que se perdeu em uma solit�ria estrada aos sub�rbios de Boston, a n�o ser
por isso tinha desaparecido t�o logo depois de sua noite de bodas.
recordou-se que n�o servia de nada olhar atr�s, sobre tudo nesse momento, no que tinha que olhar para diante. Sem importar o que tinha passado entre o Tony
e ela, tinham criado uma vida juntos, uma vida que estava a seu cargo, a que devia amar e proteger.
Ao contemplar a neve primaveril, que chegava at� onde lhe alcan�ava a vista resplandecente e imaculada, foi capaz de acreditar que tudo sairia bem,
-No que est� pensando?
Sobressaltada, voltou-se para o Gabe com uma suave risita.
-N�o te ouvi chegar.
-N�o estava escutando -disse ele, enquanto fechava a porta detr�s de si-.Aqui fora faz bastante frio.
-est�-se de maravilha. Que espessura crie que tem a neve?
-Eu diria que um metro mais ou menos.
-Nunca tinha visto algo assim, � dif�cil imaginar que possa chegar a derreter-se e que v� crescer a erva.
Gabe n�o se p�s as luvas, assim optou por met�-las m�os nos bolsos da jaqueta.
-Cheguei aqui em novembro, e para ent�o j� estava nevado. N�o vi a paisagem de outra maneira.
Laura tentou imaginar-se como seria viver em um s�tio onde a neve n�o se derretia nunca, mas decidiu que ela necessitava a primavera, o florescer das
novelo, a cor verde, a promessa no ar.
-Quanto tempo pensa ficar ?
-N�o sei, n�o me expus isso -disse ele.
Laura lhe sorriu, embora sentiu algo de inveja ante sua atitude t�o despreocupada.
-Ter� que montar uma exposi��o com todas essas pinturas.
-Sim, suponho que terei que faz�-lo cedo ou tarde, mas n�o h� pressa -Gabe moveu os ombros, inquieto de repente. S�o Francisco, sua fam�lia e suas lembran�as
pareciam muito long�nquos.
-A arte tem que ser contemplado e admirado -murmurou ela, pensando em voz alta-. N�o deveria estar aqui escondido.
-Mas as pessoas sim?
-Refere-te para mim, ou � que voc� tamb�m est� te escondendo de algo?
-Estou trabalhando -respondeu ele com calma.
-Um homem como voc� pode trabalhar em qualquer parte, suponho que n�o tem mais que apartar a outros com um par de cotoveladas e te p�r m�os � obra.
Gabe n�o p�de evitar sorrir.
-Ao melhor, mas de vez em quando eu gosto de ter um pouco de espa�o. Quando a gente consegue fazer um nome, a gente tende a olhar por cima de seu ombro.
-Bom, eu me alegro de que devesses vivesse aqui, fora qual fosse a raz�o -Laura se apartou o cabelo da cara, apoiou-se contra um poste e admitiu sorridente-:
deveria entrar, mas n�o gosta.
Gabe entreabriu os olhos, e lhe emoldurou a cara com m�os frite e firmes.
-Seus olhos t�m algo... -murmurou, enquanto a fazia voltar-se para a luz-, dizem tudo o que um homem deseja escutar de uma mulher, mas tamb�m muitas coisas
que n�o quer ouvir. Tem uns olhos s�bios, Laura. Uns olhos s�bios e tristes.
Ela n�o respondeu, mas n�o foi porque sua mente se ficou em branco, mas sim porque se encheu de repente de tantas coisas, de tantos pensamentos
e desejos... tinha acreditado que n�o poderia voltar a sentir algo assim de novo, e jamais se teria imaginado capaz daquele desejo por um homem. Sua pele se acalorou, a pesar
de que ele a tocava com m�os frite e quase com desinteresse.
A atra��o sexual que sentia a surpreendeu, e inclusive a envergonhou um pouco; entretanto, foi a atra��o emocional, sua for�a intensa e persistente, a que
silenciou-a.
-Pergunto-me o que viu ao longo de sua vida -acrescentou ele.
Os dedos do Gabe lhe acariciaram a bochecha como por vontade pr�pria. Eram largos e magros, ideais para um artista, mas tamb�m duros e poderosos. Laura
disse-se que, como ia pintar a, era poss�vel que ele s� estivesse familiarizando-se com suas fac��es, com a textura de sua pele.
Sentiu um intenso desejo em seu interior, o desejo absurdo e inalcan��vel de ser amada, abra�ada e desejada pela mulher que era em seu interior, e n�o por sua cara
nem a imagem que podia ver-se do exterior.
-Estou um pouco cansada -disse, enquanto tentava manter a voz firme-. Acredito que me irei dormir.
Gabe n�o se separou dela imediatamente, e sua m�o permaneceu em seu rosto uns segundos mais. N�o teria sabido dizer o que foi o que o manteve ali, contemplando-a,
tentando afundar naqueles olhos que tanto o fascinavam, mas finalmente retrocedeu um passo e lhe abriu a porta.
-boa noite, Gabe.
-boa noite.
O ficou ali, � intemp�rie, perguntando-se que dem�nios lhe estava passando. Por um momento... n�o, tinha durado muito mais que um momento... tinha-a desejado.
Tirou um charuto, furioso consigo mesmo. Terei que estar caindo muito baixo, para pensar em fazer o amor com uma mulher que estava gr�vida de mais de sete meses
com o filho de outro homem.
Entretanto, demorou muito em conseguir convencer-se de que s� tinham sido imagina��es delas.

Cap�tulo 3
Gabe se perguntou no que estaria pensando. Parecia t�o serena, t�o acalmada... levava um pul�ver rosa, e o cabelo lhe ca�a em uma cascata reluzente sobre os ombros.
Esse dia tampouco se p�s nenhuma j�ia, nada que pudesse apartar a aten��o dela, nem que pudesse captar aten��o para ela.
Quase nunca usava modelos, porque inclusive os que conseguiam manter-se na pose todo o tempo que ele lhes exigia, acabavam mostrando signos de aborrecimento
e de desconforto; entretanto, Laura parecia capaz de ficar ali sentada indefinidamente, com o mesmo sorriso doce na cara.
Aquilo era parte do que queria captar no retrato, aquela paci�ncia interior, aquela... bom, Gabe sup�s que poderia considerar uma serena aceita��o
do tempo, tanto do passado como de que ficava por chegar. Ele nunca tinha sido muito paciente, nem com outros, nem com seu trabalho, nem consigo mesmo, e embora
era um rasgo que admirava nela, n�o tinha nenhuma inten��o de tentar adot�-lo.
Mas havia algo mais, algo que ia al�m daquela incr�vel beleza feminina e daquela calma da Madonna. de vez em quando vislumbrava uma certa ferocidade
nela, uma determina��o digna de um guerreiro que revelava que era uma mulher capaz de fazer o que fora necess�rio para proteger o que era dele. E a julgar por
sua hist�ria, o �nico que lhe pertencia era o menino que levava em seu ventre.
Enquanto deslizava o l�pis pelo papel, Gabe refletiu sobre o fato de que ela n�o o tinha contado tudo; de fato, s� lhe tinha contado pequenos retalhos
incompletos para evitar que ele seguisse lhe fazendo perguntas, e ele n�o tinha insistido. Normalmente n�o se conformava com uma resposta parcial se queria uma explica��o
completa de algo, mas tinha sido incapaz de pression�-la ao ver que o pouco que lhe tinha contado lhe resultava t�o doloroso.
Al�m disso, ainda ficava tempo. A r�dio seguia anunciando que as estradas permaneciam fechadas e que ainda ficava neve por chegar, e tendo em conta o imprevis�veis
que podiam resultar as Rochosas na primavera, certamente passariam duas semanas, possivelmente inclusive tr�s, at� que se pudesse viajar com total seguran�a. Era estranho,
mas embora o mais normal teria sido que se sentisse molesto por aquela companhia obrigada, o certo era que gostava daquela ruptura na solid�o que ele mesmo
imp�s-se. Fazia muito tempo que n�o fazia um retrato, possivelmente muito, mas tinha sido incapaz de enfrentar-se a um sujeito de carne e osso depois do
do Michael.
Na cabana, longe de tudas as lembran�as, tinha come�ado o processo de cura. Em S�o Francisco tinha sido incapaz de levantar um pincel, j� que a dor
fazia algo mais que debilit�-lo, tinha-o deixado vazio.
Mas ali, isolado e completamente sozinho, tinha pintada paisagens e botecos, sonhos logo que recordados, e marinhas a partir de antigos bosquejos. Tinha sido
suficiente, mas s� com a chegada da Laura havia sentido a necessidade de voltar a pintar o rosto humano.
No passado tinha acreditado no destino, em uma pauta vital que estava predestinada desde antes do nascimento, mas a morte do Michael o tinha trocado
tudo. A partir daquele momento tinha tido que lhe jogar a culpa a algu�m, a algo, e o mais f�cil de uma vez que doloroso tinha sido culpar-se a si mesmo.
Mas enquanto esbo�ava o rosto da Laura e pensava na estranha seq��ncia de circunst�ncias que a tinham levado a sua vida, come�ou a questionar-se de novo
suas cren�as... e n�o p�de evitar voltar a pergunt�-lo que estaria pensando ela.
-Est� cansada?
-N�o -respondeu Laura, sem mover-se.
Gabe a tinha colocado em uma cadeira junto � janela, em um �ngulo no que estava de cara a ele, mas que lhe permitia olhar para fora. A luz a iluminava
de cheio, sem criar a mais m�nima sombra.
-Eu gosto de contemplar a neve -seguiu dizendo ela-; agora h� algumas pisa, e eu gosto de pensar em qu�o animais podem ter acontecido sem que os hajamos
visto. Tamb�m posso ver as montanhas, e a verdade � que parecem muito velhas e amea�adoras. Para o este s�o mais acess�veis, mais amig�veis.
Gabe murmurou distra�damente sua conformidade enquanto contemplava o esbo�o que estava fazendo. Era bom, mas n�o acabava de refletir o que procurava, e queria
come�ar a trabalhar logo em um tecido. Deixou o caderno a um lado, e a observou com o cenho franzido enquanto lhe devolvia o olhar com express�o paciente
e um pouco divertida.
-Tem outra coisa que te p�r?, algo que te deixe os ombros ao descoberto?
-Sinto muito, mas meu roupeiro � um pouco limitado neste momento.
Gabe se levantou e come�ou a passear-se da chamin� � janela, e de volta � mesa. Quando se aproximou dela e lhe agarrou a cara para fazer que a voltasse
de um lado a outro, ela obedeceu sem pigarrear. depois de tr�s dias posando para ele, acostumou-se a sua atitude; �s vezes, sentia que a tratava como se
fora um acerto floral ou um fruteiro, como se aquele momento t�o especial no alpendre n�o tivesse existido. convenceu-se de que se imaginou tanto a
olhar nos olhos dele como sua pr�pria rea��o.
Ele era o artista, e ela a argila que terei que modelar. J� tinha passado por aquilo.
-Tem uma cara completamente feminina -disse ele, mais para si que para ela-. Atraente de uma vez que serena, e suave apesar da forma pronunciada dos
ma��s do rosto. Seus rasgos n�o s�o amea�adores, mas resultam incrivelmente impactantes. Isto fala de sexo -disse, enquanto seu dedo percorria com naturalidade seu l�bio inferior-,
mas seus olhos prometem amor e devo��o. E o fato de que esteja amadurecida...
-Amadurecida? -disse Laura, rendo. Suas m�os, que tinha apertado com for�a em seu rega�o quando ele tinha come�ado a falar, relaxaram-se um pouco.
-Refiro a seu embara�o, que aumenta ainda mais a fascina��o que acordadas. Uma mulher em estado reflete uma promessa, uma plenitude, e apesar da educa��o
e do progresso de hoje em dia, um mist�rio irresist�vel. Igual a um anjo.
-O que quer dizer?
Gabe come�ou a fazer provas com seu cabelo, o jogou para tr�s, empilhou-o sobre sua cabe�a e finalmente o deixou cair de novo.
-Vemos os anjos como seres et�reos e m�sticos, por cima dos desejos e as falhas das pessoas, mas a verdade � que foram humano em seu dia.
Suas palavras fizeram que Laura sonriera, e lhe perguntou:
-Crie nos anjos?
A m�o dele permanecia enredada em seu cabelo, embora se tinha esquecido por completo de que a tinha posto ali por uma raz�o pr�tica.
-Se n�o acreditasse neles, a vida n�o valeria grande costure-dijo, enquanto pensava que o cabelo dela, loiro e suave como uma nuvem, parecia o de um anjo- De repente,
sentiu-se muito inc�modo, e se apressou a apartar a m�o e a coloc�-la no bolso das cal�as.
-Quer descansar um momento? -perguntou-lhe Laura, com as m�os de novo fortemente apertadas em seu rega�o.
-Sim, deixaremo-lo por uma hora, tenho que pensar nisto.
Gabe retrocedeu automaticamente assim que ela se levantou. Quando n�o estava trabalhando, esfor�ava-se ao m�ximo por n�o ter nenhum contato f�sico com ela,
j� que lhe preocupava o muito que desejava toc�-la.
-Ponha os p�s em alto -disse-lhe. Ao v�-la arquear uma sobrancelha, acrescentou nervoso-: � o que se recomenda no livro que est� lendo. Pensei que, dadas as circunst�ncias,
n�o estaria de mais lhe jogar uma olhada.
-� muito am�vel.
-Suponho que � o instinto de sobreviv�ncia -quando lhe sorria daquela forma, sentia umas sensa��es do mais estranhas, cuja exist�ncia se negava
a reconhecer-. Se me assegurar de que te cuide como deve, h� menos possibilidades de que ponha de parto antes de que se abram as estradas.
-Ainda fica mais de um m�s -recordou-lhe ela-, mas te agrade�o que se preocupe por mim... por n�s.
-Ponha os p�s em alto -repetiu ele-; irei te buscar um pouco de leite.
-Mas...
-Hoje s� te bebeste um copo -com um gesto impaciente, indicou-lhe que se sentasse no sof� antes de ir � cozinha.
Laura se reclinou contra as almofadas com um pequeno suspiro de al�vio. Levantar os p�s n�o era tarefa f�cil, mas conseguiu apoi�-los no bordo da mesita
de caf�. Ao sentir o calor do fogo desejou poder tombar-se diante da chamin�, mas pensou com ironia que se o fazia faria falta uma grua para levant�-la.
Gabe era um homem incrivelmente am�vel, embora n�o gostava que o recordasse, disse-se enquanto o ouvia trastear na cozinha. Ningu�m a tinha tratado
assim... como a um igual, mas ao mesmo tempo necessitado de amparo; como a uma amiga, mas sem uma lista de obriga��es ou de d�vidas que pagar. Quisesse-o ele
ou n�o, algum dia encontraria a maneira de lhe pagar tudo o que estava fazendo por ela. Sim, faria-o assim que pudesse.
Se fechava os olhos e apartava seus medos, Laura podia visualizar seu futuro. Teria um pisito em alguma cidade, com uma habita��o para o menino decorado em
amarelos luminosos, brancos lustrosos e com desenhos de contos de fadas nas paredes. sentaria-se em uma cadeira de balan�o com o beb�, e o arrulharia nas largas e
silenciosas noites, enquanto o resto do mundo dormia.
E j� n�o voltaria a estar sozinha.
Ao abrir os olhos, viu o Gabe de p� junto a ela, e desejou com todas suas for�as aferrar-se a suas m�os para absorver parte da for�a e a confian�a que irradiavam
dele; entretanto, desejou ainda mais que ele voltasse a percorrer seu l�bio inferior com o dedo, lentamente, com ternura, que a tratasse como a uma mulher e n�o como a
um objeto que queria pintar.
Mas se limitou a tomar o copo de leite que lhe entregou.
-Quando o beb� nas�a e deixe de lhe dar o peito, n�o vou voltar a beber leite em toda minha vida.
-Esta � a �ltima fresca que ficava, a partir de manh� ter� que tomar em p�.
-Genial -com uma careta, Laura se bebeu meio copo de repente-. Imagino que � caf�, forte e delicioso -tomou outro gole, e acrescentou-: e se me sinto algo temer�ria,
finjo que � champanha franc�s em uma ta�a.
-L�stima que n�o tenha nenhum copo de vinho � m�o, talvez daria o pego. Tem fome?
-o de comer por dois � s� um mito, e como engorda mais, vou come�ar a mugir como uma vaca -satisfeita, voltou a reclinar-se sobre as almofadas-. O quadro
que tem de Paris... pintaste-o aqui?
Gabe lan�ou um olhar � obra em quest�o. Era um estudo caprichoso e quase surrealista do Bois do Boulogne, assim deduziu que ela conhecia o lugar.
-Sim, a partir de velhos esbo�os e de minha mem�ria. Quando esteve ali?
-Eu n�o hei dito que tenha estado em Paris.
-N�o o teria reconhecido de n�o ser assim -tirou-lhe o copo vazio da m�o, e o deixou a um lado-. Laura, quanto mais reservada-te amostras, mais ganha tenho de
descobrir seus segredos.
-Estive ali faz um ano, passei duas semanas -disse ela com rigidez.
-Voc� gostou?
-Que se eu gostei de Paris? -Laura se obrigou a relaxar-se. Tinha passado uma eternidade ap�s, quase o suficiente para poder imaginar que lhe tinha ocorrido
a outra pessoa-. � uma cidade preciosa. As flores estavam em seu apogeu, e os aromas eram algo incr�vel. Choveu sem parar durante tr�s dias, mas a gente podia sentar-se
e ver acontecer os guarda-chuva, ou contemplar como se foram abrindo os casulos das flores.
De forma instintiva, Gabe lhe cobriu as m�os com uma das suas para tentar acalmar o agitado movimento de seus dedos.
-N�o foi feliz ali.
-Estamos falando de Paris na primavera, s� uma parva n�o se sentiria feliz de estar em um s�tio assim -respondeu ela, enquanto se concentrava em relaxar as
m�os.
-O pai do menino... estava contigo?
-Que import�ncia tem isso?
N�o deveria ter nenhuma, mas Gabe sabia que a partir desse momento pensaria nela cada vez que olhasse o quadro, e tinha que sab�-lo.
-Queria-lhe?
Laura fixou a vista no fogo da chamin�, mas as respostas estavam dentro de si mesmo. Tinha querido ao Tony? Seus l�bios se curvaram ligeiramente ao
dar-se conta de que sim, tinha querido ao homem que tinha pensado que era.
-Muito. Queria-lhe muito.
-Quanto tempo leva sozinha?
-N�o estou sozinha -posou uma m�o sobre seu ventre, e seu sorriso se alargou ao sentir um movimento. Tomou uma m�o ao Gabe, e a apertou contra seu corpo-. Sente
isso? � incr�vel, verdade? Aqui dentro h� algu�m.
Gabe sentiu o suave movimento sob sua m�o, e se surpreendeu ao notar um forte golpe. Sem dar-se conta, aproximou-se ainda mais.
-Isso pareceu um gancho de direita, � como se estivesse lutando por sair -conhecia perfeitamente bem aquela sensa��o de impaci�ncia, a frustra��o
ao sentir-se apanhado em um mundo enquanto se desejava estar em outro-. O que sente voc�?
-Sinto-me viva -rendo, Laura colocou as m�os sobre as suas-. Em Dallas me puseram um monitor, e pude ouvir o batimento do cora��o de seu cora��o. Soava r�pido, impaciente,
e foi o melhor do mundo. Acredito...
Nesse momento, deu-se conta de que Gabe tinha a vista fixa nela. Suas m�os seguiam unidas e seus corpos se ro�avam, e enquanto a vida que levava em
seu interior lhe dava outra patada, Laura sentiu que seu pulso se acelerava. ficou sem f�lego ante a calidez e a intimidade daquele momento.
Gabe desejava desesperadamente tom�-la em seus bra�os. A necessidade de apert�-la contra si e abra��-la era t�o intensa, t�o aguda, que era uma dor f�sica. Sonhava
com ela cada noite, enquanto tentava dormir no ch�o da habita��o livre. Em seus sonhos, estavam acurrucados juntos em uma cama, com o quente f�lego de
ela lhe acariciando as bochechas e seu cabelo sedoso enredando-se em suas m�os; entretanto, ao despertar dizia que estava louco, e isso foi o que pensou nesse momento
antes de apartar-se dela.
Embora j� n�o se tocavam, seu corpo inteiro notou o comprido e fico suspiro que escapou dos l�bios femininos.
-Eu gostaria de trabalhar um pouco mais, se crie que pode ag�entar.
-Claro -Laura teve vontades de tornar-se a chorar. disse-se que era normal, j� que as mulheres gr�vidas tinham as emo��es a flor de pele e podiam sentir-se feridas
sem causa alguma.
-Me ocorreu algo, agora volto.
Gabe foi � habita��o onde dormia, e segundos depois voltou com uma camisa azul marinho.
-Ponha a acredito que o contraste entre a camisa de homem e sua cara pode ser a resposta.
-Vale.
Laura entrou em seu dormit�rio e se tirou o enorme pul�ver rosa, e ao come�ar a colocar um bra�o na manga da camisa notou o aroma do Gabe na grosa gosta muito
de algod�o. Era um aroma penetrante e descaradamente sexual, muito masculino. Incapaz de resistir, esfregou a bochecha contra o suave tecido. O aroma n�o era nada
delicado, mas fazia que se sentisse segura, e embora fora uma loucura, provocou nela um profundo calafrio de desejo.
N�o sabia se estava bem ter desejos de mulher, desejar ao Gabe como homem, quando estava conduzindo com uma responsabilidade t�o enorme, mas se sentia t�o perto
dele que n�o parecia nada mau. Intu�a que ele tamb�m tinha sofrido muito, e possivelmente essa similitude e seu isolamento na cabana explicavam por que sentia como se
conhecesse-o sempre.
Acabou de fic�-la camisa com um suspiro. O que sabia ela de seus pr�prios sentimentos?, a primeira e �nica vez que tinha cr�dulo neles por completo, s�
tinha conseguido sofrer. N�o sabia como definir as emo��es que Gabe despertava nela, mas o melhor seria centrar-se s� em sua gratid�o para ele.
Quando Laura voltou para a sala de estar, Gabe estava repassando os esbo�os, desprezando uns e lhe dando o visto bom a outros. Ao levantar a cabe�a e v�-la ali
de p�, deu-se conta de que sua percep��o dela estava muito, mas que muito equivocada.
Seguia parecendo um anjo dourado e de sonho, mas nesse momento parecia muito mais carnal, e ele preferia pensar nela como uma ilus�o, e n�o como uma mulher
de carne e osso que o atra�a.
-Sim, isso se aproxima mais � imagem que procuro -disse, lutando por manter a voz firme-. A cor te sinta bem, e o estilo masculino de linhas s�brias cria
um bom contraste.
-Pode que demore para recuperar sua camisa, � muito c�moda.
-Considera-a um empr�stimo.
Gabe se aproximou da cadeira, e ao v�-la assumir a pose exata de antes do descanso, voltou a perguntar-se se ela j� teria feito de modelo com anteced�ncia.
Essa era outra pergunta mais que teria que lhe expor no momento oportuno.
-vamos tentar algo diferente.
Fez-a mover-se ligeiramente enquanto murmurava para si, e Laura esteve a ponto de sorrir ao ver-se relegada de novo ao papel de vaso.
-Maldi��o, oxal� tiv�ssemos flores... rosas, uma s� rosa.
-Poderia imaginar a -Puede que lo haga -Gabe lade� la cabeza hacia la izquierda, y retrocedi� un poco-. Esto es lo que buscaba, as� que voy a pintarte directamente sobre un lienzo.
-Pode que o fa�a -Gabe inclinou a cabe�a para a esquerda, e retrocedeu um pouco-. Isto � o que procurava, assim vou pintar te diretamente sobre um tecido.
J� perdi bastante tempo em esbo�os.
-Tr�s dias.
-acabei quadros na metade de tempo quando as coisas encaixavam.
Laura podia imaginar-lhe perfeitamente sentado em um tamborete alto com seu cavalete, trabalhando febrilmente com os olhos entreabridos e com aquelas m�os largas
e poderosas em plena cria��o.
-Vi que deixaste algumas pinturas sem terminar-comentou.
-Perdi o interesse -disse ele, enquanto come�ava a desenhar largos tra�os no tecido com um pincel-. Voc� acaba tudo o que come�a?
Ela refletiu brevemente, e respondeu:
-Suponho que n�o, mas sempre se h� dito que deveria fazer-se.
-por que arrastar com algo at� o amargo final, se n�o funcionar?
-�s vezes ter� que cumprir com o prometido -murmurou ela, pensando em seus votos matrimoniais.
Gabe a estava observando com aten��o, e p�de vislumbrar o brilho de dor que relampejou em seus olhos. como sempre, apesar de que tentava evit�-lo, as
emo��es de lhe chegaram muito fundo.
-�s vezes � imposs�vel manter uma promessa.
-N�o, mas isso n�o quer dizer que esteja bem -limitou-se a dizer ela com voz suave.
Gabe trabalhou durante quase uma hora, definindo, refinando e aperfei�oando cada risco. Ela tinha a express�o exata que ele queria, pensativa, paciente e sensual,
e inclusive antes de riscar a primeira linha tinha sabido que aquela seria uma de seus melhores obra, possivelmente inclusive a melhor de todas. E tamb�m sabia que necessitaria
pint�-la de novo, em outros estados de �nimo e em outras detr�s.
Mas isso era para mais adiante; nesse momento, precisava captar a ess�ncia, a simplicidade daquela mulher. Isso podia faz�-lo riscando linhas e curvas, com
branco e negro e umas quantas sombras de cinza, mas ao dia seguinte come�aria a preencher o conjunto, a acrescentar cor e todas as complexidades. Ao acabar, teria-a
por completo no tecido e a conheceria perfeitamente, como ningu�m o tinha feito ou o faria jamais.
-Deixar�-me v�-lo antes de que esteja acabado?
-O que?
-Que se me deixar� ver o quadro -Laura n�o se moveu, mas voltou os olhos da janela para ele-. Sup�e-se que os artistas s�o temperamentais, e que n�o
voc�s gostam de ensinar seu trabalho antes de que esteja preparado.
-N�o sou temperamental -Gabe a olhou aos olhos, como desafiando-a a que lhe levasse a contr�ria.
-Sim, isso � �bvio -embora a express�o dela se manteve impass�vel, n�o conseguiu ocultar o tom de divers�o em sua voz-. Ent�o, deixar�-me v�-lo?
-N�o me importa, enquanto tenha claro que n�o penso trocar nada, embora voc� n�o goste.
Essa vez, Laura n�o p�de conter-se e p�s-se a rir, e o som livre e profundo fez que os dedos do Gabe se esticassem.
-Refere a se vir algo que fira minha vaidade? N�o se preocupe por isso, n�o sou presumida.
-Todas as mulheres formosas s�o presumidas, � normal.
-Uma pessoa s� � presumida se lhe importa sua apar�ncia.
Ent�o foi Gabe quem p�s-se a rir, embora com cinismo. Deixou o l�pis, e disse com incredulidade:
-Est�-me dizendo que te traz sem cuidado seu aspecto f�sico?
-N�o tenho feito nada para ganhar o n�o? Foi um acidente do destino, ou um golpe de sorte. Se fosse incrivelmente inteligente ou tivesse talento para algo,
suponho que me incomodaria minha apar�ncia, porque a gente n�o est� acostumada ver nada mais l� -encolheu-se de ombros, e voltou a colocar-se na pose perfeita-, mas como
n�o tenho nada mais, aprendi a aceitar que minha imagem �... n�o sei, uma esp�cie de presente que supre outras car�ncias.
-Trocaria sua beleza por algo?
-Por um mont�o de coisas, mas se trocasse uma coisa por outra tampouco me teria ganho isso, assim seguiria sem ter import�ncia. Posso te perguntar algo?
-Suponho -Gabe tirou um trapo do bolso traseiro da cal�a, e se limpou as m�os.
-Do que se sente mais orgulhoso, de sua apar�ncia f�sica ou de seu trabalho?
Ele jogou a um lado o trapo. Era estranho que ela parecesse t�o triste e s�ria, e que mesmo assim fora capaz de lhe fazer rir.
-Ningu�m me considerou nunca muito bonito, assim n�o h� d�vida poss�vel -come�ou a girar o cavalete, mas quando ela fez gesto de levantar-se, fez-lhe um gesto
para que n�o se movesse-. N�o, te relaxe. lhe jogue uma olhada da�, e me d� sua opini�o.
Laura contemplou o desenho. Era s� um esbo�o, e menos detalhado que muitos dos que ele tinha feito at� o momento; apareciam sua cara e seu torso, e sua m�o
direita estalagem justo debaixo de seu ombro esquerdo. Por alguma raz�o, parecia uma pose protetora... cautelosa, sem chegar a ser defensiva.
Pensou que Gabe tinha acertado totalmente com a camisa, j� que acentuava sua feminilidade mais que um mont�o de encaixe ou de seda. Tinha o cabelo solto, e lhe ca�a sobre
os ombros em ondas desordenadas e atrevidas que contrastavam com aquela pose serena. N�o tinha esperado encontrar nenhuma surpresa em seu pr�prio rosto, mas ao
contemplar a imagem que Gabe tinha dela, removeu-se inc�moda na cadeira.
-N�o estou t�o triste como faz que pare�a.
-J� te avisei que n�o penso trocar nada.
-Pode pintar o que te d� a vontade, s� te estou dizendo que est� equivocado comigo.
Divertido pela nota de altivez em sua voz, Gabe voltou a girar o cavalete, mas n�o se incomodou em olhar seu trabalho.
-N�o acredito.
-Eu n�o sou pat�tica.
-Pat�tica? A mulher do desenho n�o tem nada de pat�tica, eu diria que a palavra que a descreve � "valente".
Laura sorriu, e se levantou da cadeira.
-Tampouco sou valente, mas � seu quadro, assim pode fazer o que te d� a vontade.
-Nisso estamos de acordo.
-Gabe!
Laura fez um gesto brusco, e seu tom premente fez que se apressasse a ir at� ela e a tirasse da m�o.
-O que acontece? Olhe!, olhe o que h� a� fora! -disse, assinalando com a m�o que tinha livre.
Gabe sentiu a tenta��o de estrangul�-la ao dar-se conta de que o que ressonava em sua voz n�o era obriga��o, a n�o ser entusiasmo ao ver um cervo a menos de dois metros
da janela. O animal tinha a cabe�a elevada enquanto olisqueaba o ar, e arrogantemente, sem rastro de medo algum, observou-os atrav�s do cristal.
-� precioso! Nunca tinha visto um t�o grande, nem t�o de perto.
Gabe compartilhou seu entusiasmo. Um cervo, uma raposa, um falc�o voando em c�rculos... ver aqueles animais tinha sido uma das coisas que lhe tinham ajudado
a superar sua dor.
-Faz um par de semanas fui andando at� um riacho que h� a um quil�metro e meio daqui, e me encontrei � fam�lia inteira. Estava na dire��o do
vento, assim consegui fazer tr�s esbo�os antes de que me vissem.
-Este s�tio lhe pertence, lhe imagina? Acres e acres de terreno. Ele deve sab�-lo, e por isso parece t�o seguro de si mesmo -Laura se p�s-se a rir, e apoiou
a m�o livre no vidro gelado-. � como se estiv�ssemos expostos, e ele tivesse vindo a jogar uma olhada ao zool�gico.
O cervo baixou o focinho at� a neve, procurando a erva que havia debaixo ou possivelmente cheirando o rastro de outro animal. movia-se sem pressa, seguro em sua solid�o
enquanto a seu redor as �rvores gotejavam gelo e neve.
De repente, o animal levantou a cabe�a e se foi a toda pressa at� desaparecer no bosque.
Laura se p�s-se a rir e se voltou para o Gabe, mas ent�o se esqueceu de tudo.
Nenhum dos dois se deu conta de que se aproximaram tanto o um ao outro. Seguiam com as m�os entrela�adas, e o sol que entrava pela janela
ia perdendo for�a conforme a tarde dava passo de noite. A cabana, igual ao bosque que a rodeava, estava imersa em um sil�ncio absoluto.
Gabe elevou uma m�o, e acariciou seu rosto. Nem sequer se tinha dado conta de que essa tinha sido sua inten��o, mas quando seus dedos ro�aram aquela tersa bochecha,
soube que tinha necessitado faz�-lo.
Laura n�o se afastou dele. Gabe queria acreditar que teria acatado sua decis�o se ela tivesse decidido apartar-se, mas Laura n�o se moveu.
Notou que a m�o dela tremia, e se deu conta de que ele tamb�m estava nervoso. Outra nova experi�ncia. Sabia que n�o devia aproximar-se dela, o dizia
o sentido comum, mas n�o sabia se poderia resistir a tenta��o.
Sua pele era c�lida ao tato, real. N�o era um retrato, a n�o ser uma mulher de carne e osso. Fora o que fosse o que tinha passado em sua vida, o que a tinha convertido
na mulher que tinha chegado a ser, pertencia ao passado. Esse momento era o presente.
Ela seguiu olhando-o com olhos enormes e um tanto assustados, esperando sem mover-se, e Gabe soltou um juramento para seus adentros enquanto baixava os l�bios at�
os seus.
Permitir aquilo era uma loucura, e desej�-lo ainda pior, mas inclusive antes de que a boca do Gabe se posasse sobre a sua, Laura sentiu que se rendia ante ele.
Fez provis�o de valor, perguntando-se aonde ia conduzir lhes todo aquilo.
Seu primeiro e �nico pensamento quando a boca dele se posou sobre a sua foi que parecia o primeiro beijo de toda sua vida. Ningu�m a tinha beijado assim. Tinha experiente
paix�o, o r�pido e quase doloroso desejo derivado do frenesi ardente; tinha experiente exig�ncias que tinha podido satisfazer, e outras que n�o; tinha experiente
o desejo faminto e a f�ria que um homem podia sentir por uma mulher, mas jamais tinha experiente, nem sequer tinha podido imaginar, aquele tipo de devo��o.
E entretanto, apesar de tudo, intu�a nele necessidades mais desenfreadas firmemente reprimidas, que faziam que aquele abra�o fora mais excitante, mais avassalador
que nenhum outro. As m�os do Gabe estavam enterradas em seu cabelo, explorando, acariciando, enquanto seus l�bios se moviam insaci�veis sobre os seus. Laura sentiu
que o mundo se movia sob seus p�s, e soube instintivamente que ele estaria ali para afian��-la.
Gabe sabia que devia deter-se, mas era incapaz de faz�-lo. Provar o sabor de seus l�bios tinha feito que precisasse sabore�-la mais e mais, era como se houvesse
estado vazio sem sab�-lo, e nesse momento, de forma incr�vel, fulminante e aterradora, estivesse cheio e completo.
Vacilantes, inclusive inocentes, as m�os da Laura percorreram seus bra�os at� posar-se em seus ombros, e quando abriu os l�bios, Gabe notou aquela mesma curiosa
acanhamento em seu convite. Apesar de que no exterior ainda estava enterrado sob a neve, podia cheirar o aroma da primavera em seu cabelo e em sua pele, por cima
inclusive do aroma da lenha ardendo. Os troncos se moveram na chamin�, o vento do anoitecer come�ou a ulular contra a janela, e Laura suspirou.
Gabe queria seguir com a fantasia, levantar a em seus bra�os e lev�-la � cama. Precisava tombar-se junto a ela, lhe tirar a camisa e sentir sua pele contra
a sua, que ela o acariciasse e o abra�asse, que confiasse nele.
Entretanto, em seu interior se estava liberando uma aut�ntica batalha, j� que ela n�o era uma mulher sem mais. Estava gr�vida e dentro dela crescia o filho
de outro homem, um ao que ela tinha amado.
N�o tinha direito a quer�-la, e ela n�o podia confiar nele; mesmo assim, sentia-se irresistivelmente atra�do por ela, por seus segredos, por aqueles olhos que diziam
muito mais que suas palavras... e por sua beleza, que ia muito al�m da forma e a textura de sua cara, embora ela n�o parecesse sab�-lo.
Tinha que parar at� que soubesse exatamente o que queria, e at� que ela confiasse o suficiente nele para lhe contar a verdade.
Fez gesto de apartar-se dela, mas Laura enterrou o rosto em seu ombro.
-Por favor, n�o diga nada, me d� um minuto.
As l�grimas que ouviu em sua voz o sacudiram ainda mais que o beijo. O tira e afrouxa em seu interior se intensificou, e finalmente levantou uma m�o e lhe acariciou
o cabelo. Ao sentir o movimento do menino, Gabe se perguntou o que era o que ia fazer.
-Sinto muito, n�o quero ser pesada -disse ela.
Sua voz soou controlada de novo, mas mesmo assim n�o o soltou. Ao longo de sua vida, tinham sido muito poucas as vezes que algu�m se incomodou em abra��-la,
e at� esse momento n�o se deu conta do muito que o necessitava.
-N�o � pesada.
-Obrigado -Laura retrocedeu um pouco, com os olhos brilhantes de l�grimas contidas-. Suponho que foste dizer que o que aconteceu n�o foi um pouco premeditado,
mas n�o faz falta.
-N�o, n�o foi um pouco premeditado, mas n�o penso me desculpar por isso -disse ele com calma.
-J� vejo -Laura apoiou uma m�o no respaldo da cadeira, um pouco desconcertada-. Suponho que o que quis dizer � que... n�o quero que cria que eu...
maldi��o -deu-se por vencida, e voltou a sentar-se-. quis dizer que n�o estou zangada pelo beijo, e que o entendo.
-Bem -Gabe se sentia muito melhor do que esperava, e com tranq�ilidade agarrou outra cadeira e se sentou escarranchado-. O que � o que entende?
Ela tinha acreditado que deixaria o tema, que optaria pelo caminho mais f�cil, e se esfor�ou por lhe explicar como se sentia sem revelar muito.
-Que te dou um pouco de pena, e se sente um pouco respons�vel pela situa��o e pelo quadro -perguntou-se por que n�o podia relaxar-se, e por que ele a estava
olhando com uma express�o t�o estranha-. N�o quero que cria que te interpretei mal, n�o espero que...
A explica��o se estava embrulhando cada vez mais, e quando estava a ponto de abandonar o intento e calar-se, Gabe arqueou uma sobrancelha e lhe fez um gesto quase
desafiante para que acabasse de falar.
-Sei que nunca poderia te sentir atra�do por mim fisicamente... nestas circunst�ncias, e n�o quero que cria que interpretei o que aconteceu como algo mais
que... que uma esp�cie de tua amabilidade.
-Isso sim que tem gra�a -Gabe se arranhou o queixo, como se estivesse pensando no que lhe acabava de dizer-. Laura, n�o tem pinta de ser tola. Me
sinto atra�do por ti, e parte dessa atra��o � muito f�sica. Pode que fazer o amor contigo n�o seja poss�vel neste momento, mas isso n�o significa que o desejo
n�o exista.
Ela abriu a boca para dizer algo, mas acabou levantando as m�os e as deixando cair de novo.
-Seu embara�o n�o � o �nico que me impede de fazer o amor contigo, h� uma raz�o n�o t�o �bvia, mas igual de importante. Preciso saber toda sua hist�ria, Laura.
-N�o lhe posso contar isso Ella sacudi� la cabeza. Ten�a los ojos brillantes de l�grimas, pero levant� la barbilla en un gesto decidido.
-Tem medo?
Ela sacudiu a cabe�a. Tinha os olhos brilhantes de l�grimas, mas levantou o queixo em um gesto decidido.
-Tenho vergonha.
Aquela resposta tomou totalmente por surpresa.
-por que?, porque n�o estava casada com o pai do menino?
-N�o, n�o � isso. Por favor, n�o insista.
Gabe quis protestar, mas se mordeu a l�ngua porque ela estava muito p�lida, e parecia cansada e muito fr�gil.
-De acordo, deixarei-o por agora, mas quero que saiba uma coisa: sinto algo por ti, e vai ganhando for�a cada vez mais rapidamente, n�s gostemos ou n�o. Neste
momento, n�o tenho nem id�ia do que vou fazer com minhas emo��es.
Quando ele se levantou da cadeira, Laura alargou uma m�o e a posou em seu bra�o.
-Gabe, n�o h� nada que possa fazer, e n�o sabe o muito que eu gostaria que as coisas fossem diferentes.
-A vida � algo que algu�m vai construindo-se, anjo -Gabe lhe acariciou o cabelo, e depois se apartou-. Necessitamos mais lenha.
Laura permaneceu sentada na cabana vazia, e desejou com todas suas for�as haver-se constru�do uma vida melhor.

Cap�tulo 4
Durante a noite nevou um pouco mais, mas com muita menos intensidade que nos dias precedentes. Os novos cent�metros que tinham cansado descansavam em pequenos
montoncitos sobre a neve que j� se consolidou, e havia zonas onde a grossura total alcan�ava a altura de uma pessoa. Os batentes das janelas estavam
talheres de monta�itas em miniatura, que se moviam constantemente sob a a��o do vento.
O sol j� tinha come�ado a derreter a neve mais recente, e ao escutar com aten��o, Laura podia ouvir a �gua descendendo pelo canelone do telhado,
era um som reconfortante, e a fez pensar em uma la�a de ch� quente junto � chamin�, em um bom livro durante uma tarde tranq�ila, ou em uma sesta no
sof� ao entardecer.
Mas fazia s� um par de horas que tinha amanhecido, e como sempre, tinha a cabana para ela sozinha.
Gabe estava cortando lenha, podia ouvir o ru�do da tocha da cozinha, onde estava esquentando esperan�ada um copo de leite com um tablete de chocolate.
Sabia que a lenheira estava enche, e que o mont�o de troncos que havia detr�s da porta traseira era enorme, assim teriam muitos reservas embora a nevada
durasse at� junho. Gabe era um homem muito en�rgico e f�sico apesar de ser um artista, e ela entendia sua necessidade de fazer algo manual e cansado.
Pensou que aquela cena parecia algo muito... caseiro. Ela na cozinha, e Gabe cortando lenha enquanto uns largos peda�os de gelo penduravam do telhado. Seu pequeno
mundo estava em perfeita harmonia, e n�o lhe faltava de nada.
Cada manh� seguiam a mesma rotina: quando ela se levantava, ele j� estava fora apartando neve com a p�, ou cortando e carregando lenha. Lhe preparava
caf� ou esquentava o que ele tinha deixado feito, enquanto a r�dio informava do que acontecia no mundo exterior, que nunca parecia muito importante. Gabe entrava
ao cabo de um momento, sacudia-se a neve de cima e se bebia a ta�a de caf� que lhe dava, e depois ele ocupava seu s�tio depois do cavalete e ela junto �
janela.
�s vezes falavam, e �s vezes ambos permaneciam em sil�ncio.
Sob toda aquela rotina, Laura notava uma esp�cie de pressa nele que n�o acabava de entender. Embora podia pintar durante horas com movimentos controlados
e medidos, Gabe parecia impaciente por terminar. O quadro avan�ava mais r�pido do que ela tinha antecipado, e estava tomando forma no tecido... ou ao menos,
a mulher que ele via quando a olhava. Laura n�o entendia por que tinha decidido faz�-la parecer t�o et�rea, como um ser de sonho, j� que ela era uma pessoa completamente
terrestre. O menino que levava em seu ventre fazia que tivesse os p�s completamente plantados na terra.
Entretanto, tinha aprendido a n�o queixar-se, porque n�o o fazia o mais m�nimo caso.
Gabe tinha desenhado outros esbo�os, alguns de corpo inteiro e outros s� de sua cara, mas n�o lhe tinha incomodado, j� que considerava que tinha direito;
ao fim e ao cabo, era a forma em que ela podia lhe pagar por seu alojamento. Alguns dos esbo�os tinham feito que se sentisse um pouco inc�moda, como um que Gabe
tinha desenhado dela dormindo no sof� uma tarde. Nele parecia... indefesa, e de fato, havia-se sentido assim ao dar-se conta de que a tinha estado observando
e desenhando sem que ela se desse conta.
Mesmo assim, n�o lhe tinha nenhum medo, pensou enquanto removia sem muito entusiasmo a mescla de leite em p�, �gua e chocolate. Gabe tinha sido mais am�vel
pelo que ela tinha direito a esperar tendo em conta as circunst�ncias, e embora podia ser brusco e parco em palavras, era o homem mais doce e bom que
jamais tinha conhecido.
Os homens estavam acostumados a admirar seu f�sico, assim era poss�vel que Gabe tamb�m se sentisse atra�do por ela, mas em todo caso a tratava com respeito e cuidado.
Laura tinha aprendido a n�o esperar esse tipo de trato se existia uma atra��o.
encolheu-se de ombros, e se jogou a bebida em um copo. Esse n�o era o momento de pensar nos poss�veis sentimentos do Gabe, j� tinha muitos problemas e
s� se tinha a si mesmo para tentar solucion�-los. Imaginando-se que era uma ta�a de cremoso chocolate, Laura se bebeu a metade do copo de repente. Fez uma careta,
soltou um suspiro e voltou a levant�-lo, dizendo-se que em quest�o de dias poderia voltar para Denver.
Ao sentir uma pontada repentina de dor, agarrou-se a encimera e ag�entou como p�de, enquanto lutava com a necessidade instintiva de chamar o Gabe. Quando
a dor come�ou a remeter, disse-se que n�o era nada e foi lentamente � sala de estar. Naquele momento, Gabe deixou de cortar madeira, e no s�bito sil�ncio Laura
ouviu outro som; ao dar-se conta de que era um motor, alagou-a uma quebra de onda de p�nico, mas se apressou a sufoc�-la. N�o a tinham encontrado, era rid�culo pensar
que tinha sido assim; entretanto, apressou-se a ir � janela para jogar uma olhada.
Era um ve�culo de neve, e sua apar�ncia quase de brinquedo lhe teria parecido divertida, de n�o ser porque o conduzia um agente uniformizado. Laura foi at� a
porta e a entreabriu um pouco, preparada a manter-se firme se era necess�rio.

Gabe estava suando. Gostava de estar ao ar livre, j� que desfrutava de do ar fresco e do ritmo de seu trabalho, e embora o exerc�cio n�o podia lhe tirar a
Laura da cabe�a, ao menos lhe ajudava a p�r a situa��o em perspectiva.
Ela necessitava ajuda, e ele ia dar se a Michael hab�a sido el generoso.
Sabia que sua decis�o teria surpreso a algumas das pessoas que o conheciam, j� que embora ningu�m o teria acusado de ser insens�vel... ao fim e ao cabo,
seus quadros eram prova evidente de sua capacidade para a emo��o, a paix�o e a compaix�o... poucos lhe acreditavam capaz de uma generosidade incondicional.
Michael tinha sido o generoso.
Gabe sempre tinha estado mais encerrado em si mesmo, absorto em sua arte. O tinha estado mais interessado em plasmar a vida, com suas alegrias e suas penas, enquanto
que Michael a tinha abra�ado ao m�ximo.
Mas Michael j� n�o estava. Gabe baixou a tocha, e seu f�lego saiu entre os dentes para converter-se em uma nuvem branca sob o frio. A perda do Michael
tinha-lhe deixado um vazio t�o enorme, que n�o sabia se algum dia conseguiria ench�-lo.
Ouviu o ru�do do motor ao meio golpe, e deixou a folha enterrada na madeira antes de jogar uma r�pida olhada para a janela da cozinha e rodear a cabana
para ir ver quem era o visitante.
N�o tomou a decis�o consciente de proteger � mulher que havia dentro da casa; n�o foi necess�rio, j� que lhe pareceu o mais natural do mundo.
-Ol�, tudo bem? -o policial, que tinha as bochechas avermelhadas pelo vento e o frio, apagou o motor e lhe fez um gesto de sauda��o.
-Bem, obrigado -Gabe pensou que o agente, que parecia sorvete de frio, devia ter uns vinte e cinco anos-. Como est� a estrada?
Com uma breve gargalhada, o homem se desceu do ve�culo de neve.
-Digamos que espero que n�o tenha nenhum compromisso que cumprir.
-N�o, nada urgente.
-Ent�o, n�o h� problema. Sou Scott Beecham -disse, enquanto lhe oferecia a m�o.
-Gabe Bradley.
-Tinha ouvido que algu�m tinha comprado a velha casa dos McCampbell -com as m�os nos quadris, Beecham contemplou a cabana-. N�o escolheu precisamente
o melhor inverno para vir-se a viver aqui. Estamos visitando todos os residentes da zona, para ver se algu�m est� doente ou necessita provis�es.
-Comprei de todo o dia da tormenta.
-Bem. Tem sorte de ter o quatro por quatro, poderia encher uma garagem com todos os carros que se ficaram bloqueados. Estamos comprovando um compacto,
um Chevy do oitenta e quatro que se deu contra a cerca de seguran�a perto daqui. Est� abandonado, e o condutor pode haver-se perdido em meio da tormenta.
-� o carro de minha mulher.
Para ouvir aquelas palavras da porta, Laura abriu os olhos como pratos.
-Tinha medo de que me tivesse passado algo, e lhe ocorreu sair para me buscar em meio da tormenta -Gabe sorriu, e tirou um charuto-. Estivemos a ponto de
chocar, e tal e como estavam as coisas, decidi que era melhor deixar ali o carro e voltar para a cabana. Ainda n�o pude voltar para valorar os danos.
-N�o est� t�o mal como outros que vi nestes �ltimos dias. Est� bem sua mulher?
-Sim, embora os dois nos demos um bom susto.
-Imagino. vamos ter que nos levar o ve�culo, senhor Bradley -o agente olhou para a casa, e embora falou com naturalidade, era �bvio que estava alerta-.
Assim est�o casados, n�o?
-Sim.
-O nome no registro � Malone, Laura Malone.
-� seu nome de solteira -disse Gabe com calma.
Impulsivamente, Laura abriu a porta.
-Gabe?
Os dois homens se voltaram a olh�-la. O agente se tirou o chap�u, e Gabe se limitou a franzir o cenho.
-Perd�o por interromper -Laura sorriu, e comentou-: pensei que ao melhor ao agente gosta de uma ta�a de caf� quente.
O homem ficou o chap�u e respondeu:
-� muito tentador, senhora, e o agrade�o, mas tenho que ir j�. Sinto o de seu carro.
-Foi minha culpa. Sabe quando voltar� a abri-la estrada?
-Certamente, seu marido poder� baixar ao povo em um ou dois dias, mas lhe aconselho que voc� espere um pouco mais para viajar.
-Sim, acredito que n�o irei a nenhuma parte de momento -disse-lhe com um sorriso.
-Bom, ser� melhor que v� -disse Beecham, enquanto se voltava a subir ao ve�culo de neve-. Tem uma r�dio de onda curta?
-N�o.
-N�o estaria mal que comprasse uma quando for ao povo, s�o mais confi�veis que os telefones. Quando est� previsto que nas�a seu filho?
Gabe ficou sem palavras por um segundo para ouvir aquelas palavras.
-daqui a quatro ou cinco semanas.
-Ent�o t�m bastante tempo -sorridente, Beecham acendeu o motor de seu ve�culo-. S�o primerizos?
-Sim -murmurou Gabe.
-N�o h� nada igual. Eu tenho duas filhas, e a segunda decidiu nascer em A��o de Obrigado; logo que tinha dado dois bocados de bolo de caba�a, quando tive que
sair correndo ao hospital. Minha mulher segue insistindo em que foi o cheio de salsicha de minha m�e o que provocou o parto -levantou uma m�o e a voz, e se despediu
dizendo-: cuide-se, senhora Bradley.
Seguiram o ve�culo com o olhar, e quando se perdeu de vista Gabe se esclareceu garganta e entrou na casa. Laura n�o fez nenhum coment�rio, limitou-se a
apartar-se para deix�-lo passar e a fechar a porta atr�s dele.
Esperou at� que come�ou a desat�-los cord�es das botas sentado no bordo da chamin� de pedra, e ent�o lhe disse:
-Obrigado.
-por que?
-Por lhe dizer que sou sua mulher.
-Parecia a solu��o mais f�cil -comentou, ainda carrancudo, enquanto se tirava uma bota.
-Mais f�cil para mim, n�o para ti -disse ela.
Gabe se encolheu de ombros, e se levantou para ir � cozinha.
-H� caf� feito?
-Sim.
Laura o ouviu servir uma ta�a, e se deu conta de que ele tinha mentido para proteg�-la, enquanto que ela n�o tinha feito mais que receber.
-Gabe... -rogando que seus instintos e sua consci�ncia n�o se estivessem equivocando, entrou na cozinha.
-Que dem�nios � isto? -disse ele, assinalando a chaleira onde ela se preparou o leite.
A tens�o se dissipou momentaneamente.
-� chocolate desfeito... se a gente estiver o suficientemente desesperado.
-Parece... bom, prefiro n�o diz�-lo. O leite em p� est� asquerosa, n�o?
-Mais ou menos.
-Tentarei ir ao povo amanh�.
-Se puder, importaria-te... -envergonhada, Laura se deteve meia frase.
-O que quer?
-Nada, � uma tolice. Pode vir a te sentar um minuto?
Lhe agarrou uma m�o antes de que pudesse d�-la volta.
-O que � o que quer que te traga?
-Pipocas. J� te hei dito que era uma tolice -murmurou, enquanto tentava liberar sua m�o.
Gabe sentiu uma necessidade quase se desesperada para abra��-la com for�a.
-� um desejo, ou simplesmente gostam?
-N�o sei, mas cada vez que vejo a chamin�, penso em um bom prato de pipocas -Laura sorriu ao ver que Gabe n�o se burlava dela-. �s vezes posso at� as cheirar.
-Pipocas. Quer algo para as acompanhar?, pepinos japoneses em vinagre ou algo assim?
-Isso � um mito, n�o todas as mulheres gr�vidas comem essas coisas -disse ela, com uma careta.
-Est� jogando por terra todas minhas convic��es -Gabe n�o soube em que momento tinha elevado a m�o dela at� seus l�bios, mas depois do primeiro roce com seu
pele a soltou imediatamente-. N�o te puseste a camisa.
Embora j� n�o a estava tocando, parecia-lhe que ainda podia sentir a calidez e a suavidade de sua m�o.
-V� -Laura respirou fundo, ao dar-se conta de que ele n�o estava pensando nela, a n�o ser no quadro. De novo era o artista com seu modelo-. irei trocar me.
-Vale -completamente desconcertado pelo muito que a desejava, Gabe se voltou para a encimera e centrou sua aten��o na ta�a de caf�.
Entretanto, Laura tinha tomado uma decis�o para ouvir que mentia por ela, para proteg�-la, e decidiu n�o postergar mais as coisas.
-Gabe, sei que quer te p�r a trabalhar, mas eu gostaria... acredito que deveria... lhe quero contar isso tudo, se ainda quer sab�-lo.
Ele se girou para ela, e a olhou com uma express�o clara e muito intensa.
-por que?
-Porque n�o est� bem que n�o confie em ti, e porque necessito a algu�m... os dois necessitamos a algu�m.
-Ser� melhor que se sente -limitou-se a dizer ele, antes de lev�-la ao sof�.
-N�o sei por onde come�ar.
Enquanto punha outro tronco na chamin�, Gabe pensou que provavelmente seria melhor se se remontavam at� sua inf�ncia.
-De onde �? -perguntou-lhe ao sentar-se junto a ela.
-vivi em muitos s�tios... em Nova Iorque, na Pensilvania, em Maryland... minha tia tinha uma pequena granja neste Costa, ali foi onde passei mais tempo.
-E seus pais?
-Minha m�e era muito jovem quando nasci, e estava solteira. foi se viver com minha tia, at� que... at� que come�ou a ter problemas de dinheiro. Ent�o tive que
ir a casas de acolhida, mas isso n�o tem import�ncia agora.
-S�rio?
Ela respirou fundo para tentar tranq�ilizar-se.
-N�o quero que sinta pena por mim, n�o te estou contando isto para te dar l�stima.
O orgulho sereno que Gabe estava tentando captar sobre um tecido era evidente na inclina��o de sua cabe�a e no tom de sua voz, e desejou ir a por seu
caderno de esbo�os. Mas desejou ainda mais acariciar sua cara.
-Vale, n�o sentirei pena.
Laura assentiu, e continuou com sua hist�ria.
-Acredito que as coisas ficaram muito dif�ceis para minha m�e; embora ningu�m chegou a me explicar do todo a situa��o, � f�cil imaginar-lhe Era filha �nica, e
� poss�vel que queria ficar comigo, mas n�o p�de. Minha tia era maior que ela, mas tinha seus pr�prios filhos, assim que eu era s� outra boca que alimentar, e quando
faz�-lo-se voltou muito dif�cil, fui parar aos servi�os de acolhida.
-Quantos anos tinha?
-A primeira vez seis, mas por alguma raz�o as coisas nunca funcionaram. Fiquei um ano em um lugar, dois em outro... odiava n�o pertencer a nenhum s�tio, n�o
chegar a ser nunca uma parte real do que tinham outros. Aos doze anos voltei uma temporada com minha tia, mas seu marido tinha problemas e me tive que partir
ao pouco tempo.
Gabe notou um matiz estranho em sua voz, algo que fez que se esticasse.
-Que classe de problemas?
-Isso n�o importa.
Ela sacudiu a cabe�a e come�ou a levantar-se, mas Gabe a agarrou pela m�o com firmeza.
-Laura, voc� come�aste com isto, assim acaba-o.
-Bebia, e ent�o se voltava bastante desagrad�vel -admitiu ela.
-Est� dizendo que ficava violento?
-Sim. Quando estava s�brio era mal-humorado e cr�tico, mas b�bado podia chegar a ser... cruel -esfregou-se o ombro, como se estivesse acalmando uma velha ferida-.
Normalmente a empreendia contra minha tia, mas freq�entemente tamb�m ia a pelos meninos.
-Pegou-te?
-Sim, quando n�o era o bastante r�pida para me tirar a tempo de no meio -conseguiu esbo�ar um sorriso sem humor, e acrescentou-: e te asseguro que aprendi a ser
muito r�pida. Mas sonha pior do que realmente foi.
Gabe o duvidava, mas se limitou a dizer:
-Segue.
-Os servi�os sociais transladaram a outra casa, mas era como ficar guardada, � espera. Lembran�a que aos dezesseis estava contando os dias que
ficavam para me poder arrumar isso por mim mesma, para... n�o sei, poder tomar minhas pr�prias decis�es. Quando por fim alcancei a maioria de idade, mudei a Pensilvania
e consegui um trabalho de dependienta em uma loja da Filadelfia. Fiz amizade com uma clienta habitual, e um dia se apresentou com um homem baixinho e m�dio calvo,
que parecia um bulldog. Lhe disse � mulher que tinha raz�o, deu-me um cart�o profissional e me disse que fora a seu estudo ao dia seguinte. Eu n�o pensava ir,
claro, pensei que queria... tinha-me acostumado a que os homens...
-Isso n�o o duvido-dijo Gabe com secura.
Era algo que ainda a fazia sentir-se inc�moda, mas como ele n�o pareceu surpreso, decidiu deixar o tema.
-Enfim, deixei a um lado o cart�o e certamente n�o teria tornado a me lembrar dela, mas uma de minhas companheiras a viu e ficou como louca. Disse-me que era
Geoffrey Wright, ao melhor soa.
Gabe arqueou uma sobrancelha, porque Wright era um dos fot�grafos de moda mais respeitados no neg�cio... n�o, o mais respeitado; embora n�o sabia muito do neg�cio
da moda, um nome como o do Geoffrey cruzava fronteiras.
-Sim, ouvi falar dele.
-Quando me inteirei de que era um fot�grafo profissional de prest�gio, decidi ir ver o, e tudo pareceu acontecer de repente. Encontrei-me maquiada e sob os
focos antes de poder me dar conta, e embora estava passando uma vergonha incr�vel, ele pareceu n�o dar-se conta e come�ou a soltar ordens a destro e sinistro...
que se tinha que me sentar, que se queria que me levantasse, que me voltasse, que me inclinasse... colocou-me um casaco da Marta sobre os ombros, e eu acreditei que estava
sonhando. Suponho que fiz o coment�rio em voz alta, porque enquanto seguia tomando fotos p�s-se a rir e me disse que em um ano poderia vestir peles at� no
caf� da manh�.
Gabe se reclinou no respaldo do sof� sem dizer nada, enquanto imaginava envolta em peles. Lhe retorceram as v�sceras ao imaginar a convertendo-se
em uma das jovens e tempor�rios amantes do Wright.
-Em um m�s, j� tinha feito uma sess�o de fotos para a revista Mode; depois fiz outra para o Her, e outra para o Charm. Foi algo incr�vel, um dia estava vendendo
roupa, e ao seguinte jantava com desenhistas.
-E o que passou com o Wright?
-Ningu�m me tinha tratado em toda minha vida t�o bem como Geoffrey. Sabia que ele me considerava quase sempre um simples produto, mas se converteu em uma esp�cie
de c�o guardi�o. Disse-me que tinha planos para mim, que queria que come�asse pouco a pouco, e que em um par de anos n�o haveria uma s� pessoa no mundo ocidental
que n�o reconhecesse minha cara. me parecia incrivelmente emocionante, porque durante toda minha vida tinha sido completamente an�nima. lhe gostava que eu houvesse
sa�do de um nada, e embora algumas de seus outras modelos o consideravam uma pessoa fria, foi o mais parecido a um pai para mim.
-Via-o como uma figura paterna?
-Sim, suponho que sim. Mas depois de tudo o que fez por mim, de todo o tempo que investiu em mim, eu o decepcionei.
Come�ou a levantar-se de novo, mas Gabe voltou a det�-la.
-Aonde vai?
-A por um pouco de �gua.
-Fique aqui, vou procurar a.
Laura aproveitou para tranq�ilizar-se. S� lhe tinha contado a metade da hist�ria, e o pior e mais doloroso ainda estava por chegar. Quando Gabe voltou com um
copo de �gua com gelo, tomou um par de goles e retomou seu relato.
-Fomos a Paris, e me sentia como se fora Cinzenta, mas sem o medo a que chegasse a meia noite, �amos ficar nos um m�s, e como Geoffrey queria lhes dar
um ar muito franc�s �s fotos, trabalhamos por toda a cidade. Um dia assistimos a uma festa, era uma dessas incr�veis noites da primavera em que todas as mulheres
parecem formosas e os homens muito bonitos. Ali conheci o Tony.
Gabe notou que sua voz se quebrava ligeiramente e que seus olhos se escureciam de dor, e soube imediatamente que estava falando do pai de seu filho.
-mostrou-se galante e encantador, como o perfeito pr�ncipe azul, e nas duas semanas seguintes foi ver-me trabalhar cada dia. Sa�mos a dan�ar, comemos em
pequenas cafeterias e demos passeios pelos parques, e pensei que ele era tudo o que sempre tinha sonhado mas que nunca acreditei que poderia ter. Tratava-me como se
fora algo �nico e valioso, como um colar de diamantes, e houve um tempo no que acreditei que isso era amor.
Laura permaneceu em silencio durante uns segundos, pensando que aquele tinha sido seu engano, seu pecado, sua vaidade. Inclusive um ano depois, ainda lhe do�a.
-Geoffrey resmungava e dizia que era s� um menino rico tentando ligar com uma modelo, mas eu n�o quis escut�-lo. Queria me sentir amada, necessitava desesperadamente
lhe importar a algu�m, que me quisessem, assim quando Tony me pediu que me casasse com ele, n�o me pensei isso duas vezes.
-Casou-te com ele?
-Sim -Laura o olhou, e admitiu-: sei que te fiz acreditar que n�o estava casada com o pai de meu filho, pareceu-me o mais f�cil.
-N�o leva anel.
Laura se ruborizou, envergonhada.
-Vendi-o.
-J� vejo.
O tom do Gabe n�o continha condena��o nenhuma, mas mesmo assim Laura se sentiu mortificada.
-Ficamos em Paris a passar a lua de mel. Eu queria voltar para os Estados Unidos para conhecer sua fam�lia, mas Tony disse que preferia que fic�ssemos
onde est�vamos sendo t�o felizes, e me pareceu bem. Geoffrey ficou furioso comigo, exortou-me e me gritou me dizendo que me estava estragando, mas
naquele momento acreditei que se referia a minha carreira profissional e o ignorei. Muito depois, dava-me conta de que estava falando de minha vida.
Laura se sobressaltou quando um tronco se moveu na chamin�, e descobriu que lhe resultava mais f�cil continuar se olhava para o fogo.
-Acreditava que tinha encontrado tudo o que sempre tinha desejado, e ao olhar atr�s me dou conta de que aquelas semanas em Paris foram como algo m�gico, algo
que n�o � completamente real, mas que o parece porque a gente n�o alcan�a a dar-se conta de que tudo � uma miragem. Ent�o chegou o momento de voltar para casa.
Laura entrela�ou as m�os e come�ou �s mover nervosamente, um signo seguro da ansiedade que sentia. Gabe quis agarrar-lhe para tranq�iliz�-la, mas se
conteve.
-A noite antes de partir, Tony me disse que tinha que solucionar um assunto de neg�cios, e saiu. Eu fiquei esperando-o, um pouco decepcionada porque meu
marido me tinha deixado sozinha em nossa �ltima noite em Paris, mas conforme se foi fazendo tarde comecei a me assustar, e quando ele chegou �s tr�s da madrugada
estava zangada e molesta.
Voltou a ficar calada, e Gabe tomou uma colcha que havia no respaldo do sof� e o colocou sobre o rega�o.
-Tiveram uma briga, n�o?
-Sim. Ele estava muito b�bado e violento, e embora aquela foi a primeira vez que o vi assim, n�o seria a �ltima. Perguntei-lhe onde tinha estado, e ele me respondeu...
bom, basicamente me disse que n�o era meu assunto. Come�amos a nos gritar, e me confessou que tinha estado com outra mulher. Ao princ�pio acreditei que o dizia s� para me ferir,
mas ent�o me dava conta de que era verdade e comecei a chorar.
Aquilo era o pior de tudo, olhar atr�s e recordar como se derrubou.
-Isso fez que se zangasse ainda mais, e come�ou a lan�ar objetos pela su�te, como um menino com uma chilique. Gritou muitas coisas, mas em resumo me disse que teria
que me acostumar a seu modo de vida, e que n�o tinha direito a me ofender, porque eu tinha sido a zorra do Geoffrey.
Sua voz se quebrou com aquelas �ltimas palavras, e bebeu um gole de �gua para acalmar sua garganta.
-Isso foi o que mais me doeu -conseguiu dizer ao fim-. Geoffrey tinha sido quase como um pai para mim, mas nunca, jamais foi nenhuma outra coisa. E Tony sabia,
porque eu era virgem em nossa noite de bodas. Zanguei-me tanto que me levantei e comecei a lhe gritar, nem sequer sei o que lhe disse, mas ele ficou feito uma f�ria,
Y...
Gabe viu que seus dedos se esticavam no suave tecido da colcha, e que depois os relaxava de novo com delibera��o. Com um esfor�o sobre-humano, conseguiu
manter a calma ao lhe perguntar:
-Pegou-te?
N�o lhe respondeu, incapaz de pronunciar palavra, e quando Gabe posou uma m�o em sua bochecha e voltou brandamente sua cara para que o olhasse, viu que tinha
os olhos cheios de l�grimas.
-Foi muito pior que com meu tio, porque n�o consegui escapar. Tony era muito mais forte e r�pido. Meu tio simplesmente pegava a qualquer que n�o se separasse de
seu caminho a tempo, mas no caso do Tony havia algo cruel e deliberado, queria me fazer danifico. E ent�o, ele me... -Laura n�o p�de lhe contar o que tinha ocorrido
depois.
Demorou uns segundos em conseguir continuar, e Gabe permaneceu em sil�ncio, enquanto em seu interior a f�ria crescia e crescia at� que pensou que ia explorar.
Entendia que uma pessoa podia ter seu g�nio, ele mesmo era bastante temperamental, mas nunca, jamais poderia entender ou perdoar a uma pessoa que maltratasse a algu�m
mais d�bil e indefeso.
-Quando terminou, ele ficou dormido e eu fiquei ali tombada, sem saber o que fazer -continuou dizendo ela, um pouco mais acalmada-. � gracioso, mas tempo
depois, quando falei com outras mulheres que tinham sofrido experi�ncias parecidas, soube que � normal sentir que a culpa foi tua. � manh� seguinte, me
pediu perd�o chorando, e me prometeu que nunca voltaria a passar. Essa foi a pauta durante o tempo que estivemos juntos.
-Ficou com ele?
Envergonhada, Laura se ruborizou e depois empalideceu de repente.
-Est�vamos casados, e pensei que podia fazer que funcionasse. Quando chegamos � casa de seus pais, odiaram-me nada mais lombriga. Seu filho, o grande herdeiro ao
trono, casou-se a suas costas com uma mulher insignificante. Viv�amos com eles, e embora falemos v�rias vezes de nos mudar, nunca o fizemos. Eram incr�veis,
podia estar sentada � mesa com eles falando de nader�as e sentir que lhe estavam ignorando por completo. Tony foi a pior, come�ou a ver-se com outras mulheres e
quase alardeava disso diante de mim. Seus pais sabiam o que fazia e o que me estava passando, mas o ciclo n�o fez mais que ir piorando cada vez mais, at�
que soube que tinha que sair dali. Disse-lhe que queria o div�rcio.
Laura se deteve e respirou fundo antes de continuar.
-Isso pareceu fazer que reagisse por um tempo. Fez-me todo tipo de promessas, jurou-me que iria a terapia, que iria a um conselheiro matrimonial, que faria
tudo o que eu lhe pedisse, e at� come�ou a procurar uma casa para n�s dois. A aquelas alturas eu j� tinha deixado de quer�-lo, e sei que me equivoquei totalmente
ao acessar a ficar com ele, ao me enganar a mim mesma. N�o me dava conta de que seus pais estavam pressionando-o, dificultando que pudesse mudar-se, porque eles tinham
o controle financeiro. Ent�o descobri que estava gr�vida.
Laura apoiou uma m�o sobre seu ventre, com os dedos estendidos.
-Tony se mostrou um pouco... ambivalente ante a id�ia de ter um filho, mas seus pais se entusiasmaram. Sua m�e come�ou a redecorar um quarto para o menino,
comprou ber�os de �poca, colheres de prata, linho irland�s. Embora n�o acabava de me gostar da forma em que se estava fazendo cargo de tudo, pensei que possivelmente o menino
poderia nos ajudar a melhorar nossa rela��o, mas a verdade � que n�o me viam como a m�e do menino, igual a n�o me consideravam a esposa do Tony. Era seu neto,
seu legado, sua imortalidade. Tony e eu deixamos de procurar casa, e ele come�ou a beber outra vez. Parti-me a noite que chegou b�bado e me pegou.
Inalou profundamente, tentando acalmar-se, enquanto continuava com o olhar fixo no fogo.
-J� n�o me estava pegando s� , tamb�m lhe estava fazendo mal ao menino, e isso o trocava tudo; de fato, fez que me resultasse incrivelmente f�cil partir.
Enterrei meu orgulho e chamei o Geoffrey para lhe pedir um empr�stimo. Deixou-me dois mil d�lares, e com eles consegui um piso, encontrei trabalho e comecei os tr�mites do
div�rcio. Dez dias depois, Tony morreu.
Ao sentir a inevit�vel quebra de onda de dor, Laura fechou os olhos.
-Sua m�e veio para ver-me, suplicou-me que ocultasse o do processo de div�rcio e que assistisse ao funeral como a vi�va do Tony. Sua reputa��o e sua lembran�a eram
qu�o �nico importava, e acessei porque... porque ainda recordava aqueles primeiros dias em Paris. Depois do funeral, pediram-me que fora a sua casa porque t�nhamos
que falar de um par de coisas, e foi ent�o quando me disseram o que queriam, o que pensavam conseguir. Disseram que me pagariam todos os gastos m�dicos, que
teria os melhores cuidados, e que quando o menino nascesse me dariam cem mil d�lares para que fizesse a um lado. Quando me neguei, quando me zanguei pelo que
estavam sugiriendo, explicaram-me que se limitariam a me tirar a meu beb� se n�o cooperava. Era o filho do Tony, e me deixaram claro que tinham bastante dinheiro para
poder conseguir sua cust�dia. Amea�aram-me tirando a luz o "fato" de que tinha sido a amante do Geoffrey e que tinha aceito seu dinheiro, e me disseram que
tinham investigado meu passado e que demonstrariam que n�o era uma pessoa est�vel para criar a um menino. Disseram que deixariam claro que, corno av�s do beb�, podiam
lhe dar uma educa��o melhor. Deram-me vinte e quatro horas para que me pensasse isso, e o que fiz foi fugir.
Gabe permaneceu em sil�ncio, j� que se tinha ficado com um amargo sabor de boca. Tinha-lhe pedido que o contasse tudo, quase o tinha exigido, mas ao
conhecer por fim sua hist�ria n�o sabia se seria capaz de suport�-lo.
-Laura, apesar do que lhe disseram e de suas amea�as, n�o acredito que pudessem te tirar ao menino.
-Isso n�o me basta, � que n�o o v�?, n�o posso me arriscar enquanto haja a mais m�nima possibilidade. Nunca poderia me enfrentar a eles de igual a igual, n�o tenho
nem o dinheiro nem os contatos.
-Quais s�o? -ao v�-la duvidar, Gabe voltou a tomar a m�o-. confiaste em mim at� agora.
-Seu sobrenome � Eagleton. S�o Thomas e Lorraine Eagleton, de Boston.
Para ouvir aquilo, Gabe franziu o cenho. Todo mundo sabia quem eram, mas por causa da posi��o social de sua pr�pria fam�lia, aquele sobrenome representava
mais que um simples nome, que uma imagem.
-Estava casada com o Anthony Eagleton?
-Sim -Laura se voltou para ele antes de dizer com voz acalmada-: conhecia-lhe, verdade?
-A verdade � que muito pouco, era mais... -deteve-se o dar-se conta de que tinha estado a ponto de dizer que era mais da idade do Michael, e optou por dizer-:
mais jovem. Encontrei-me com ele uma ou duas vezes quando foi � costa -e o que tinha visto n�o lhe tinha gostado do mais m�nimo, assim nem sequer se incomodou
em formar uma opini�o sobre ele-. Li que tinha morrido em um acidente de tr�fico, e suponho que se mencionou que estava casado, mas este ano foi bastante dif�cil
e n�o lhe emprestei muita aten��o ao assunto. Minha fam�lia e os Eagleton coincidiram em algumas ocasione, mas n�o h� muita rela��o.
-Ent�o, sabe que � uma fam�lia com muito dinheiro. Consideram o menino uma mais de seus... propriedades, e me estiveram seguindo a pista por todo o pa�s.
Cada vez que me assento em um s�tio e come�o a me relaxar, inteiro-me de que h� detetives farejando. N�o posso... n�o vou deixar que me encontrem.
Gabe se levantou para passear-se pela habita��o, para acender um charuto, para tentar organizar suas id�ias e, sobre tudo, seus sentimentos.
-Quero te perguntar algo.
-me diga -disse ela, com um suspiro cansado.
-Quando te perguntei se tinha medo, respondeu-me que n�o, que tinha vergonha. Quero saber por que.
-Porque n�o lutei nem tentei arrumar as coisas com a for�a necess�ria, e simplesmente deixei que acontecesse. N�o tem nem id�ia de qu�o dif�cil � para mim estar
aqui sentada e admitir que permiti que me utilizassem, que me pegassem, que cheguei t�o baixo para aceit�-lo sem mais.
-Ainda se sente assim?
-N�o -disse ela, enquanto levantava o queixo-. Ningu�m vai voltar a controlar minha vida.
-Bem -Gabe se sentou no bordo da chamin�-. Anjo, acredito que passaste por um inferno, por algo pior do que ningu�m se merece. N�o importa que voc� tivesse
parte de culpa, como parece acreditar, ou que fora s� quest�o de circunst�ncias. Todo isso pertence ao passado.
-Gabe, n�o � t�o f�cil. Agora tamb�m tenho que ter em conta a meu filho.
-At� onde est� disposta a chegar para te enfrentar a eles?
-J� te hei dito que n�o posso...
Ele a interrompeu com um gesto da m�o.
-Se tivesse os meios, at� onde?
-At� o final, at� onde fizesse falta. Mas isso n�o importa, porque n�o tenho os meios.
Gabe tomou uma imers�o do charuto, contemplou-o com aparente interesse e o jogou ao fogo.
-Teria-os, se estivesse casada comigo.

Cap�tulo 5
Laura n�o respondeu, incapaz de articular palavra, e Gabe permaneceu sentado na chamin� com o olhar fixo em seu rosto. Seu enorme talento se devia em parte
a sua capacidade de centrar-se em uma express�o e captar as emo��es que se ocultavam sob a superf�cie, e possivelmente por isso era capaz de ocultar seus pr�prios sentimentos
� perfei��o.
Os troncos chispavam atr�s dele, e o sol de meia amanh� entrava pelas janelas at� ir parar a seus p�s. Parecia muito tranq�ilo, como se acabasse de
sugerir que podiam comer um prato de sopa ao meio dia, e ela n�o teria sabido dizer se o que lhe tinha proposto realmente lhe resultava t�o indiferente.
Laura se apoiou na mesa, e se levantou com cuidado antes de dizer:
-Estou cansada, vou tombar me um momento.
-Vale, depois falaremos disto.
Ela se girou de repente para ele, e Gabe n�o viu nem rastro de ang�stia nem de medo em sua cara, a n�o ser uma f�ria l�vida e fulminante.
-Como pode me dizer algo assim depois de tudo o que te contei?
-Pode que o haja dito precisamente por isso.
-V�, aqui est� outra vez o bom samaritano -Laura notou a amargura em sua pr�pria voz, mas n�o p�de fazer nada por escond�-la-. O cavalheiro em seu cavalo branco,
que acode galante e carregado de boas inten��es para salvar � inepta mujercita. Crie que deveria me ajoelhar e me sentir agradecida?, que vou voltar para
me p�r cegamente em m�os de algu�m, a entrar na mesma pauta lament�vel e destrutiva, porque um homem me oferece uma via de escapamento?
Gabe tentou controlar seu g�nio, mas decidiu deixar que ela o visse e se levantou de repente.
-N�o quero te controlar, e n�o penso deixar que me compare com um maldito maltratador alco�lico.
-Ent�o o que quer, salvar a raparigas em perigo como um caridoso cavalheiro andante?
Gabe soltou uma gargalhada, mas ainda seguia muito zangado.
-Ningu�m me acusou nunca de um pouco parecido. Uma das raz�es de minha proposta � que sou um ego�sta. Conhece-me o bastante bem para saber que sou um resmung�o,
que tenho meu g�nio e que posso me zangar, mas eu n�o pego nem utilizo �s mulheres.
Laura se esfor�ou por controlar suas emo��es, e conseguiu acalmar-se um pouco.
-Eu n�o insinuei isso, nem te comparei com ningu�m. O �nico parecido � a situa��o.
-A situa��o n�o se parece em nada, o fato de que eu tenha dinheiro � uma vantagem para ti.
-N�o me casei com o Tony por seu dinheiro.
-J� sei, disso n�o tenho nenhuma d�vida -disse ele, com voz mais suave-. Mas neste caso, estou disposto a aceitar que te case comigo pelo meu.
-por que?
Nos olhos do Gabe relampejou uma estranha express�o, mas desapareceu antes de que ela pudesse interpret�-la.
-Talvez deveria ter perguntado isso antes de nada.
-Pode, mas lhe estou perguntando isso agora -disse ela, arrependendo-se como sempre de seu arranque de f�ria e de suas duras palavras.
-Sinto algo por ti. N�o sei o que �, mas � muito forte, muito mais que qualquer outra coisa que tenha experiente em toda minha vida -Gabe levantou um dedo para
o rosto do tecido e desejou poder explicar-se melhor, mas sempre se expressou melhor atrav�s da pintura-. Sinto-me atra�do por ti, e recentemente me dei
conta de que j� levo suficiente tempo sozinho.
-Isso pode que seja suficiente, ou quase, para alguns matrim�nios, mas n�o o � para mim... sobre tudo tendo em conta a carga que teria que suportar.
-Tenho que saldar algumas conta pendentes -murmurou Gabe, antes de voltar-se para ela de novo-. Talvez lhes ajudar ao menino e me serve para fazer borr�o
e conta nova.
Ao ver a ternura e a dor em seus olhos, Laura sentiu que seu aborrecimento se evaporava por completo.
-J� nos ajudaste, e nunca poderei chegar a lhe pagar isso de que la deseara la entusiasmaba y la aterrorizaba a la vez.
-N�o quero que me pague nada -disse ele com voz cortante, impaciente-. O que quero � a ti, como quer que lhe diga isso?
-Acredito que de nenhuma.
Os nervos come�aram a corro�-la de novo, e se retorceu as m�os em um gesto de ansiedade. Estava claro que ele estava falando muito a s�rio, e a possibilidade
de que a desejasse a entusiasmava e a aterrorizava de uma vez.
-J� me equivoquei uma vez e foi terr�vel, � que n�o o v�?
Gabe se aproximou ela, separou-lhe as m�os com ternura e as manteve nas suas.
-N�o te sou indiferente?
-N�o, mas...
-N�o me tem medo?
-N�o -respondeu ela, enquanto sentia que parte da tens�o se dissipava.
-Ent�o, deixa que te ajude.
-vou ter um filho de outro homem.
-N�o -Gabe tomou seu rosto entre as m�os porque queria que ela o olhasse aos olhos-. Se te casar comigo, o menino � dos dois, tanto em privado como de
cara ao p�blico. Totalmente.
-Vir�o a por ele -disse ela, com l�grimas nos olhos.
-Deixa que venham. N�o voltar�o a te tocar, e n�o v�o levar se a menino.
Gabe lhe estava oferecendo seguran�a, e Laura se perguntou se realmente aquilo que sempre a tinha evitado podia estar s� a uma promessa de dist�ncia. Abriu
a boca, a ponto de aceitar seu oferecimento, mas ent�o sentiu um n� no est�mago e posou uma m�o na bochecha dele.
-Como vou fazer te algo assim?
A resposta do Gabe foi cobrir seus l�bios com os seus. Laura foi incapaz de negar o desejo e o desejo que os unia, j� que o saboreou quando sua boca a
devorou, e o sentiu quando a m�o dele se deslizou por seu cabelo para deter-se posesivamente em sua nuca. De forma instintiva, desejosa de dar al�m de receber, Laura
levou a outra emano a seu rosto em um tenro gesto de consolo.
Era �bvio que ela n�o era qu�o �nica tinha que lutar contra seus pr�prios dem�nios, nem a �nica que necessitava amor e compreens�o. Gabe era uma pessoa forte,
e resultava f�cil esquecer-se de que ele tamb�m podia estar acontecendo-o mau. Laura o atraiu com mais for�a para si, tentando lhe oferecer seu calor.
Gabe desejou poder afundar-se nela, em sua do�ura, em sua generosidade. Isso era o que queria captar sobre o tecido, seu calidez e seu esp�rito, embora sabia queixa-m�s
seria capaz de plasm�-lo. Aquela parte fundamental de sua beleza n�o podia pintar-se, mas podia ser protegida e adorada.
-Necessita-me -murmurou ao apartar-se ligeiramente-. E eu necessito a ti.
Laura assentiu e apoiou a cabe�a em seu ombro, por que aquelas palavras o haviam dito tudo.

Come�ou a nevar de novo, e passaram tr�s dias at� que Gabe p�de arriscar-se a ir ao povo. Laura o observou enquanto apurava sua ta�a de caf� e ficava o
casaco.

-Voltarei o mais r�pido poss�vel.
-Prefiro que tome seu tempo e v� com cuidado.
-O todoterreno � como um tanque -Gabe aceitou as luvas que lhe deu, mas n�o os p�s-. Eu n�o gosto de te deixar sozinha.
-Gabe, levo muito tempo cuidando de mim mesma.
-As coisas trocaram. Certamente, meus advogados j� me enviaram a licen�a de matrim�nio.
Ela come�ou a trastear imediatamente com os pratos do caf� da manh�, e comentou:
-Isso sim que seria rapidez.
-Pago-lhes para que sejam eficientes, e j� aconteceram tr�s dias desde que me pus em contato com eles. Se posso arrum�-lo, eu gostaria de trazer para um juiz de paz.
A Laura lhe caiu um copo da m�o, e foi parar � �gua sapon�cea.
-Hoje?
-N�o trocaste que id�ia, verdade?
-N�o, mas...
-Quero que meu nome esteja na partida de nascimento -ao v�-la duvidar, Gabe sentiu uma pontada de p�nico-. Seria menos complicado se nos cas�ssemos antes de
que nas�a o menino.
-Sim, suponho que tem raz�o.
Entretanto, tudo parecia muito precipitado... como seu primeiro matrim�nio, que tinha sido um torvelinho de flores, champanha e seda branca.
-Entendo que prefira algo mais festivo, mas nestas circunst�ncias...
-N�o, n�o me importa -voltou-se para ele, e conseguiu esbo�ar um sorriso-. Se pode arrum�-lo para celebrar as bodas hoje, n�o h� problema.
-De acordo. Laura, eu gostaria que descansasse um pouco at� que volte, n�o dormiste bem.
Ela voltou a girar-se para a pia. Havia tornado a ter o pesadelo, e n�o tinha conseguido pegar olho at� que Gabe se colocou na cama com ela.
-N�o se preocupe, procurarei n�o me cansar.
-N�o acredito que um beijo te tire muitas for�as, verdade?
Laura sorriu, voltou-se com as m�os ainda jorrando e levantou os l�bios para os seus.
-Ainda n�o estamos casados, e j� me beija como se lev�ssemos vinte anos de matrim�nio.
Gabe trocou o ambiente distendido com apenas lhe mordiscar juguetonamente o l�bio inferior. Em quest�o de segundos, Laura estava aferrando-se a ele, em um abra�o
que n�o tinha nada de despreocupado.
-Isso est� melhor -murmurou ele-.v� tombar te, estarei de volta em menos de duas horas.
-Tome cuidado.
Gabe fechou a porta, e ao pouco tempo Laura ouviu o motor do todoterreno. Foi � sala de estar, e viu como partia.
Por estranho que parecesse, n�o se sentiu sozinha apesar de que na cabana se feito um sil�ncio absoluto. Soltou uma suave gargalhada ao admitir para si que
estava um pouco nervosa, embora se disse que era o normal para uma futura noiva. Se Gabe se sa�a com a sua... e come�ava a suspeitar que quase sempre era assim...
casariam-se essa mesma tarde.
Laura se deu conta de que sua vida ia voltar a trocar por completo, mas essa vez seria melhor, porque ela se asseguraria de que fora assim.
Levava toda a manh� sentindo uma ligeira dor na parte baixa das costas, e se levou uma m�o � zona para tentar acalm�-lo. Pensando que certamente
devia-se ao colch�o e de noite inquieta que tinha passado, foi jogar lhe uma olhada ao retrato.
Gabe o tinha terminado no dia anterior, sabia porque lhe tinha advertido que n�o o tocasse, porque a pintura demoraria um par de dias em secar de tudo.
sentou-se no tamborete que ele estava acostumado a utilizar, e contemplou seu pr�prio rosto.
De modo que assim era como a via, pensou. Tinha a pele p�lida, com apenas uma ligeira sombra de cor nos ma��s do rosto, e aquela brancura, aquela qualidade transl�cida,
era em parte o que fazia que parecesse o anjo que ele a chamava �s vezes. Parecia como se estivesse apanhada em uma enso�aci�n, uma das muitas nas que se
tinha submerso durante as horas em que Gabe a pintava. Como j� lhe havia dito, a vulnerabilidade que se refletia em seus olhos e ao redor de sua boca era excessiva,
e embora a pose e a inclina��o de sua cabe�a revelavam for�a e independ�ncia, o olhar triste de seus olhos negava aquela firmeza.
Laura decidiu que estava lendo muito em um simples quadro, e ao sentir de novo a dor, levantou-se e come�ou a passear-se pela cabana enquanto se esfregava
a base das costas.
Em um par de horas, ia casar se ali mesmo. N�o haveria uma multid�o de conhecidos, nem um pianista tocando can��es rom�nticas, nem um reguero de p�talas de
rosa, mas ia ser uma noiva apesar de n�o ter toda aquela parafern�lia. Possivelmente n�o podia fazer que fora uma cerim�nia festiva, mas decidiu que ao menos se
celebraria em um s�tio ordenado e come�ou a arrumar um pouco a cabana.
Finalmente, a dor em suas costas fez que se deitasse um momento, e duas horas mais tarde ouviu que o todoterreno se aproximava. ficou ali tombada um pouco mais,
tentando aliviar o desconforto que sentia, e se disse que mais tarde se daria um comprido banho para ver se lhe passava. Saiu � sala de estar justo quando Gabe
entrava com um casal bastante maior.
-Laura, apresento-te ao senhor e � senhora Witherby. O � um juiz de paz.
-Ol�, muito obrigado por vir at� aqui.
-N�o se preocupe, forma parte de meu trabalho -disse o senhor Witherby, ajustando-as �culos empanados-. Al�m disso, seu futuro marido n�o estava disposto a aceitar
um n�o por resposta.
-N�o lhe fa�a caso a este velho cascarrabias, adora queixar-se -comentou a senhora Witherby, enquanto lhe dava uns tapinhas a seu marido no bra�o e olhava
a Laura com aten��o.
-Querem algo?, um caf�?
-N�o se preocupe, o senhor Bradley trouxe um mont�o de provis�es. Voc� sinta-se e deixe que ele se encarregue de tudo -a mulher tirou do bra�o a Laura com
uma de suas fr�geis m�os, e a levou at� o sof�-. O homem est� t�o nervoso como um pato em Natal, deixe que se mantenha ocupado um momento.
Laura n�o p�de imaginar-se ao Gabe nervoso por nada, mas sup�s que os Witherby esperavam aquela rea��o de um homem a ponto de casar-se. Para ouvi-lo trastear
com bolsas e cacharros na cozinha, sugeriu:
-Talvez teria que ir jogar lhe uma m�o.
-N�o, � melhor que fique aqui sentada -a senhora Witherby lhe indicou com um gesto a seu marido que se sentasse tamb�m, e acrescentou-: uma mulher tem direito a
que a mimem quando est� gr�vida, Deus sabe que n�o ter� muito tempo para sentar-se quando nascer o menino.
Agradecida, Laura se moveu ligeiramente para tentar aliviar a dor de suas costas.
-T�m filhos?
-Seis, al�m de vinte e dois netos e cinco bisnetos.
-E outro de caminho -anunciou o senhor Witherby, enquanto tirava uma pipa.
-Guarda agora mesmo essa coisa pestilenta -ordenou-lhe sua mulher-. N�o quero que fume em uma habita��o onde h� uma mulher gr�vida.
-N�o ia acender a -respondeu-lhe o homem, antes de come�ar a mordiscar a boquilha.
Satisfeita ao ver que seu marido se comportava, a senhora Witherby se voltou para a Laura.
-Que quadro t�o bonito, � que seu futuro algemo � um artista? -comentou, assinalando uma paisagem que poderia vender-se por uma quantidade de seis cifras.
Seu futuro algemo. Laura sentiu uma pontada mescla de p�nico e prazer para ouvir aquelas palavras.
-Sim, Gabe � um artista.
-Eu gosto dos quadros, tenho um de uma praia em cima de meu sof� -disse a mulher.
Gabe entrou na habita��o com um mont�o de flores nos bra�os, e se esclareceu garganta ao sentir-se um pouco inc�modo.
-Vendiam-nas no mercado -disse.
-E ele as comprou todas -disse a senhora Witherby, divertida, enquanto se levantava do sof�-. Tem um vaso?, sua prometida n�o pode as conduzir todas.
-N�o, acredito que... n�o sei.
-Homens -a mulher suspirou, e piscou os olhos o olho a Laura-. d�-me isso eu me ocupo delas. Voc� v� fazer algo �til, como p�r algo mais de lenha no fogo.
N�o quero que sua futura algema se resfrie.
-Agora mesmo, senhora.
Gabe n�o recordava haver-se sentido t�o in�til em toda sua vida. Foi � chamin�, desejando ocupar-se com algo.
-N�o deixe que lhe intimide, mo�o. aconteceu-se cinq�enta e dois anos me dando a tabarra -disse-lhe o senhor Witherby, que seguia comodamente sentado em uma cadeira.
-Algu�m tinha que faz�-lo -exclamou a senhora Witherby da cozinha.
O homem soltou uma gargalhada, e comentou:
-Est� seguro de que sabe onde se est� colocando?
Gabe se limpou as m�os nas cal�as e sorriu.
-N�o.
-Muito bem, disso se trata -Witherby se p�s-se a rir, e apoiou a cabe�a no respaldo da cadeira-. Essie, quer acabar de uma vez? A estes senhores gostaria
casar um dia destes.
-Mantenha a l�ngua na boca, j� perdeste os dentes que ficavam -disse a mulher, ao entrar na sala de estar com um regador cheia de flores. A
colocou no centro da mesita de caf�, assentiu com aprova��o, e deu a Laura um �nico cravo.
-Obrigado, s�o preciosas -come�ou a levantar-se, e esteve a ponto de soltar um gemido ao sentir outra pontada de dor nas costas.
Gabe se aproximou dela e se colocaram juntos frente ao fogo, enquanto a lenha crepitava e o aroma das flores se mesclava com o da fuma�a. As palavras que
pronunciaram foram simples e ancestrais, e apesar da quantidade de bodas �s que tinha assistido, a senhora Witherby se secou as l�grimas dos olhos.
"Para te amar, te honrar e te respeitar".
- "Na riqueza e na pobreza".
"E prometo te ser fiel" Gabe lhe colocou um anel muito singelo, uma simples banda de ouro que ficava muito grande, e ao olh�-lo Laura sentiu que algo crescia
em seu interior, algo quente, doce e tr�mulo. Entrela�ou os dedos com os seus, e repetiu as mesmas palavras com uma sinceridade que provinha direta do cora��o.
-Pode beijar � noiva -disse Witherby.
Gabe nem sequer o ouviu. J� estava, era irrevog�vel, e at� esse momento n�o se deu conta de quanto significava para ele.
Com a m�o da Laura ainda na sua, beijou-a e selou a promessa.
-Felicidades -a senhora Witherby posou seus l�bios ressecados na bochecha do Gabe, e depois na da Laura-. Senhora Bradley, agora sinta-se enquanto eu lhe preparo
uma ta�a de ch�, antes de que seu marido nos leve de volta a casa.
-Obrigado, mas n�o temos ch�.
-comprei um pacote -disse Gabe.
-Sim, e tudo o que lhe punha por diante. Venha, Ethan, v�em me dar uma m�o.
-� que n�o pode preparar uma ta�a de ch� voc� sozinha?
A senhora Witherby p�s os olhos em branco.
-casou a mais de quinhentas casais, e n�o entende nada de romantismo. Ethan, v�em a cozinha e deixa cinco minutos de intimidade a estes jovens.
O homem resmungou que queria ir-se jantar, mas obedeceu a sua mulher.
-S�o muito am�veis -murmurou Laura.
-N�o acredito que tivesse conseguido apartar o da televis�o, se ela n�o o tivesse tirado da casa.
Permaneceram em silencio durante uns segundos, sem saber o que fazer.
-Obrigado por pensar nas flores... e no anel -disse ela ao fim.
Gabe lhe levantou a m�o, e contemplou a j�ia.
-No Lonesome Ridge n�o h� nenhuma joalheria, mas na loja de ferragens vendem estes em uma caixa junto a um mont�o de pregos. Pode que o dedo fique verde.
Ela se p�s-se a rir, consciente de que ia entesourar o ainda mais.
-Embora n�o lhe cria isso, pode que me tenha salvado a vida ao comprar o ch�.
-Tamb�m te trouxe pipocas.
Laura se zangou consigo mesma por n�o poder controlar-se, mas se p�s-se a chorar.
-Sinto muito, n�o posso evit�-lo.
Gabe n�o soube como reagir. Estava um pouco nervoso, e as l�grimas dela n�o ajudaram a que se tranq�ilizasse.
-Olhe, j� sei que n�o foi as bodas do s�culo exatamente, poder�amos organizar uma festa ou um banquete quando voltarmos a S�o Francisco.
-N�o, n�o � isso -Laura se passou as m�os pela cara, mas as l�grimas seguiram caindo-. foi preciosa, maravilhosa... n�o sei como te dar as obrigado.
-Para come�ar, poderia deixar de chorar -Gabe se tirou um len�o enorme do bolso, que a maioria das vezes estava acostumadas usar como trapo quando pintava, e se
ofereceu-o-. Laura, estamos legalmente casados, assim n�o tem que me agradecer cada punhado de flores que te d�.
Ela se sorveu as l�grimas, e tentou sorrir.
-Acredito que foram as pipocas.
-Se seguir assim, n�o vou comprar te mais.
-Quero que saiba... -Laura se secou a cara, enquanto tentava recompor-se-. Quero que saiba que vou fazer tudo o que possa por te fazer feliz, para que
nunca te arrependa disto.
-vou arrepender me se segue fazendo que pare�a que dei a algu�m meu salva-vidas quando o navio se afunda -disse Gabe, s�bitamente impaciente-. Hei-me
casado contigo porque quis, n�o por nobreza.
-Sim, mas...
-Laura, te cale.
Para assegurar-se de que o fazia caso, Gabe fechou a boca sobre a sua, e pela primeira vez Laura se deu conta da verdadeira for�a do desejo e a paix�o
daquele homem. Com um murm�rio de surpresa, apertou-o com mais for�a contra seu corpo.
Aquilo era qu�o �nico Gabe necessitava para tranq�ilizar-se, mas quando a tens�o come�ou a desvanecer-se, come�ou a surgir nele um desejo irrefre�vel.
-Logo vamos chegar at� o final -sussurrou ele contra sua boca-. Quero fazer o amor contigo, e te asseguro que depois n�o ficar�o for�as para me dar
as obrigado.
antes de que ela pudesse pensar em uma resposta adequada, a senhora Witherby apareceu com o ch�.
-Agora, deixe que a pobrecilla descanse um pouco e que tome antes de que se esfrie -a mulher deixou a ta�a sobre a mesa que havia frente a Laura-. Sinto
fazer que tenha que sair no dia de suas bodas, senhor Bradley, mas quanto antes nos leve de volta, antes poder� voltar e lhe preparar a sua mulher esse suculento filete
que comprou para o jantar.
A senhora Witherby foi recolher seu casaco, e seguindo um impulso, Laura tirou uma das flores do regador e a deu.
-Nunca a esquecerei, senhora Witherby.
-Obrigado -emocionada, a mulher cheirou a flor-. Cuide-se, espero que tudo v� bem com o menino. Ethan, vamos.
-Voltarei em uma hora mais ou menos, as estradas n�o est�o muito mal -disse-lhe Gabe-. Laura, acredito que deveria descansar, parece exausta.
-sup�e-se que deveria estar resplandecente, mas te prometo que n�o levantarei nada mais pesado que minha ta�a de ch� at� que volte.
Contemplou como se afastava o todo terreno, passando o dedo uma e outra vez por seu anel de casada. Era incr�vel o pouco que fazia falta para trocar tanto,
disse-se enquanto se esfregava as costas dolorida.
Cruzou a habita��o para acabar o ch�, e se deu conta de que nunca lhe tinha do�do tanto, nem sequer depois de um dia inteiro de trabalho na granja de
sua tia. A dor era constante e profunda, e come�ou a se estirar e a encolher uma e outra vez. impacientou-se e tentou ignor�-lo, pensar em pipocas e em ch� quente,
mas tudo foi em v�o.
Levava sozinha menos de dez minutos, quando teve a primeira contra��o.
N�o foi a ligeira advert�ncia que mencionavam os livros, a n�o ser uma dor aguda e prolongada. Como tomou despreparada, n�o teve tempo de empregar a t�cnica de
respira��o para suport�-la, assim que se esticou e lutou contra a dor, e se desabou contra as almofadas quando remeteu.
Sua frente se cobriu de suor enquanto tentava convencer-se de que era imposs�vel que estivesse de parto. Era muito logo, um m�s antes do previsto.
Certamente era um falso alarme, causada pelos nervos e pela emo��o daquele dia.
Mas a dor de costas... lutando por manter a calma, conseguiu sentar-se. Era poss�vel que levasse toda a manh� com dores de parto?
N�o, tinha que ser um falso alarme. Tinha que s�-lo.
Mas quando teve a segunda contra��o, come�ou a cronometrar.
Quando Gabe voltou estava na cama, mas n�o p�de cham�-lo porque estava em meio de uma dolorosa contra��o; entretanto, o medo da �ltima hora se desvaneceu
um pouco. Ele estava ali, e de alguma isso forma significava que tudo iria bem. Ouviu que punha um tronco no fogo, respirou fundo quando passou a dor, e ent�o
chamou-o.
Gabe cruzou a sala de estar em tr�s pernadas para ouvir o apresso em sua voz, mas ao chegar � porta do dormit�rio se parou em seco e sentiu que o cora��o
lhe subia � garganta.
Laura estava apoiada contra os travesseiros, m�dio tombada e meio sentada, com o rosto suado e os olhos �midos e quase negros.
-Parece-me que n�o vou poder cumprir com o que acordamos -conseguiu dizer. Ao ver o mesmo terror que ela sentia refletido no rosto do Gabe, tentou
esbo�ar um sorriso tranq�ilizador-. O menino decidiu adiantar-se um pouco.
N�o lhe perguntou se estava segura, nem come�ou a protestar enlouquecido que aquilo n�o era uma boa id�ia. Quis faz�-lo, mas rapidamente esteve junto a
ela, lhe aferrando a m�o.
-Tranq�ila. Ag�enta um pouco, vou chamar para que venha um m�dico.
-Gabe, n�o h� linha -disse ela, com voz nervosa-. Tentei chamar quando me dava conta de que isto ia muito depressa.
-Vale -lutando por conservar a calma, Gabe lhe apartou o cabelo �mido da frente-. houve um acidente, a linha deve haver-se talhado. Irei a por umas
quantas mantas mais, e te levarei no todo terreno.
Laura apertou os l�bios com for�a.
-� muito tarde, n�o ag�entaria a viagem -tentou tragar, mas o medo lhe tinha secado a boca e a garganta-. Levo horas de parto, toda a manh�, mas
n�o me dei conta. Do�a-me as costas, mas n�o lhe dava import�ncia porque pensei que era culpa dos nervos e de qu�o mau tinha dormido.
-Faz horas -murmurou ele, ao sentar-se no bordo da cama. Por um momento ficou a mente em branco, mas ent�o sentiu que os dedos dela se esticavam
sobre os seus-. Quanto tempo h� entre contra��es?
-Uns cinco minutos, estive... -jogou a cabe�a para tr�s e come�ou a respirar com ofegos curtos e profundos.
Gabe lhe aconteceu a m�o sobre o abd�men, e notou que se esticava. Tinha estado lendo os livros sobre parto e cuidado de beb�s que ela tinha levado, e embora
em seu momento se havia dito que s� era para passar o momento, algo muito dentro lhe tinha levado a tentar entender pelo que estava passando. Talvez tinha sido
o instinto o que tinha feito que assimilasse os conselhos, os detalhes e as instru��es, mas ao v�-la sofrendo se esqueceu de tudo.
Quando passou a contra��o, Laura tinha a cara ainda mais suarenta.
-Cada vez s�o mais freq�entes, n�o fica muito tempo -sussurrou. Embora se mordeu os l�bios, n�o p�de evitar que lhe escapasse um solu�o-. N�o posso perder a
meu beb�.
-Ao beb� n�o lhe vai passar nada, e a ti tampouco -disse ele, enquanto lhe apertava a m�o tranquilizadoramente.
foram necessitar mont�es de toalhas, terei que esterilizar umas tesouras e tamb�m algo de linho. Se um o pensava com calma, a verdade era que resultava o bastante
simples... Gabe esperava que fora t�o f�cil na pr�tica.
-Ag�enta, vou a por um par de coisas -viu o brilho de d�vida em seus olhos, e se inclinou sobre ela-. Laura, n�o vou deixar te sozinha. vou cuidar te, confia em mim.
Ela assentiu, deixou cair a cabe�a sobre o travesseiro e fechou os olhos.
Quando Gabe voltou, tinha os olhos fixos no teto e estava ofegando. O deixou umas toalhas podas no p� da cama, e a cobriu com outra manta.
-Tem frio?
Ela negou com a cabe�a.
-Ter� que manter quente ao menino, � um pouco prematuro.
-pus mais lenha no fogo, e temos um mont�o de mantas -limpou-lhe a cara meigamente com um trapo �mido, e acrescentou-: falaste com m�dicos e h�
lido um mont�o de livros, assim sabe o que vai passar.
Laura o olhou, enquanto tentava tragar com dificuldade. Sim, sabia o que ia passar, mas ler sobre isso, imaginar-lhe era muito diferente � experi�ncia
real.
-Todos mintam -esbo�ou um d�bil sorriso ao v�-lo franzir o cenho-. Dizem-lhe que n�o d�i tanto se tenta acompanhar � dor.
Gabe se levou a m�o dela a seus l�bios, e a manteve ali.
-Grita tudo o que queira, faz que o teto se venha abaixo com seus alaridos. Ningu�m vai te ouvir.
-N�o vou trazer este menino ao mundo em meio de gritos -Laura soltou um ofego, e apertou com for�a sua m�o-. N�o posso...
-Sim, claro que pode. Ofega, me aperte a m�o. Com mais for�a. Vamos, te concentre nisso -manteve seus olhos fixos nos dela, enquanto Laura expulsava
o ar-. Est�-o fazendo bem, melhor que bem -quando o corpo dela se relaxou, Gabe foi at� os p�s da cama-. Cada vez h� menos tempo entre contra��es,
verdade? -enquanto falava, ajoelhou-se no colch�o e levantou a manta.
-J� quase se v�o acontecendo sem logo que descanso.
-Isso significa que j� se est� acabando, te aferre a isso.
Laura tentou umedecer-se seus l�bios ressecados, mas sentia a l�ngua torcida.
-me prometa que, se me passar algo...
-N�o te vai passar nada -disse ele com brutalidade.
Seus olhares voltaram a encontrar-se, a dela carregada de dor, a dele de decis�o.
-Maldita seja, n�o vou perder lhes a nenhum dos dois, est� claro? Os tr�s vamos tirar isto adiante. Agora tem trabalho que fazer, anjo.
Gabe se estremeceu com cada contra��o que sacudiu seu corpo. O tempo parecia ralentizarse enquanto ela sofria, e acelerar-se quando descansava. O ia de
um lado para outro, lhe colocando bem os travesseiros, lhe secando a cara e ajoelhando-se a seus p�s para comprovar o progresso do parto.
Embora Gabe ouvia o fogo crepitando com for�a na sala de estar, preocupava-lhe que a cabana estivesse muito fria. Depois come�ou a preocupar-se com o
calor, j� que o corpo da Laura parecia uma estufa.
Jamais se teria imaginado que o parto podia ser t�o duro para uma mulher. Sabia que ela estava exausta, mas mesmo assim conseguia superar a dor uma e outra
vez, e parecia recarregar as for�as de alguma forma nos breves momentos de pausa entre contra��es. A dor parecia sacudir a de forma implac�vel com uma
dureza terror�fica, e com sua pr�pria camisa empapada de suor, ele soltou um juramento em sil�ncio enquanto a animava a que respirasse, a que ofegasse, a que se concentrasse.
Todas suas ambi��es, suas alegrias e suas penas se desvaneceram, e s� existia aquela habita��o, aquele momento e aquela mulher.
Gabe acreditou que ela se iria debilitando com o corpo t�o castigado pela nova vida que lutava por nascer, mas conforme foram passando os minutos, Laura
pareceu encher-se de energia renovada. Com express�o fera e valorosa, tornou-se para diante e se preparou para o que estava por chegar.
-pensaste no nome? -perguntou-lhe, para tentar distrai-la.
-Fiz umas listas. Algumas noites, tentava imaginar sua apar�ncia, Y... OH, Deus.
-Ag�enta. Respira, anjo, respira.
-N�o posso, tenho que empurrar.
-Ainda n�o, ainda n�o. dentro de pouco -desde sua posi��o aos p�s da cama, Gabe a acariciou-. Laura, ofega.
Ela tentou manter a concentra��o, consciente de que se o olhava aos olhos e tirava for�a deles, conseguiria sair adiante.
-N�o posso ag�entar muito mais.
-N�o faz falta, j� vejo a cabe�a -disse ele com voz maravilhada, ao voltar a olh�-la-. Posso v�-la. Empurra na pr�xima.
Enjoada, Laura empurrou com todas suas for�as, e para ouvir um comprido e profundo gemido gutural, n�o se deu conta de que tinha sa�do de sua pr�pria boca. Gabe lhe lan�ou
gritos de �nimo, e ela come�ou a ofegar de novo.
-Bem, muito bem -ele logo que reconheceu sua pr�pria voz, nem suas pr�prias m�os. Ambas as coisas lhe tremiam-. J� tenho a cabe�a, tem um filho precioso. Agora os
ombros.
Ela se preparou, desesperada-se por ver algo.
-OH, Deus -as l�grimas se mesclaram com o suor, e Laura se cobriu a boca com as m�os-. � t�o pequeno...
-E forte como um touro. Tem que empurrar para que saiam os ombros -com a frente coberta de suor, Gabe colocou a m�o sob a cabe�a do menino e se inclinou
para diante-.Venha, Laura, vamos ver o de p�s a cabe�a.
Ela enterrou os dedos nos len��is, jogou a cabe�a para tr�s e deu a luz. por cima de sua pr�pria respira��o ofegante, ouviu o primeiro pranto do beb�.
-� um menino -com olhos �midos, Gabe sustentou � nova vida que se retorcia em suas m�os-. Tem um filho.
Enquanto as l�grimas lhe ca�am pelas bochechas, Laura se p�s-se a rir. O terror e a dor ficaram esquecidos imediatamente.
-Um menino, um menino pequeno.
-Com uns bons pulm�es, cinco dedos em cada m�o e cinco em cada p� -agarrou-a pela m�o, e a apertou com for�a-. � perfeito, anjo.
Com os dedos entrela�ados, sorriram enquanto a cabana se enchia com o ensurdecedor e indignado pranto do rec�m-nascido.


N�o podia descansar. Apesar de que Gabe queria que dormisse um pouco, Laura era incapaz de fechar os olhos. O menino, que j� quase tinha completo uma hora de vida,
estava envolto em len��is e acurrucado na curva de seu bra�o, e embora estava dormindo, ela n�o p�de conter-se e riscou seu carita com a gema de um dedo.
Era t�o pequeno... pesava dois quilogramas e m�dio segundo a balan�a de cozinha que Gabe tinha tirado e limpo a consci�ncia, media quarenta e cinco cent�metros, e
tinha um pouco de pelusilla loira na cabe�a. Laura n�o podia apartar os olhos dele.
-Suponho que sabe que n�o vai desaparecer de repente, n�o?
Ela levantou o olhar para a porta e sorriu. Tinha a pele quase transl�cida por causa da fadiga, e seus olhos resplandeciam com um brilho triunfal.
-J� sei -estendeu a m�o para o Gabe para que se aproximasse, e quando ele se sentou no bordo da cama, disse-lhe-: sei que deve estar muito cansado, mas
eu gostaria que ficasse um momento.
-Voc� tem feito todo o trabalho -murmurou ele, enquanto acariciava com um dedo a bochecha do menino.
-Isso n�o � verdade, e � o primeiro que queria te dizer. N�o o ter�amos conseguido sem ti.
-claro que sim, eu s� te dei �nimos.
-N�o -Laura lhe deu um ligeiro apert�o na m�o, para fazer que a olhasse � cara-. � t�o respons�vel por esta nova vida como eu. Sei o que disse sobre
o de p�r seu nome na partida de nascimento e sobre o de nos ajudar, mas quero que saiba que � muito mais que isso. Voc� o trouxeste para o mundo, e jamais poderei
dizer ou fazer o bastante. E n�o me olhe assim -Laura soltou uma suave gargalhada, e se acomodou entre os travesseiros-. J� sei que voc� n�o gosta de nada que te d� as obrigado,
e n�o � o que estou fazendo.
-De verdade?
-Claro que n�o -Laura lhe p�s ao menino nos bra�os, em um gesto mais eloq�ente que as palavras-. Estou-te dizendo que hoje n�o s� conseguiste uma mulher.
O beb� seguiu dormindo tranq�ilamente, acurrucado entre eles.
Sem saber o que dizer, Gabe acariciou uma pequena manita e a viu fechar-se. Como artista, tinha acreditado que entendia o que era a beleza... at� esse momento.
-estive lendo sobre os beb�s prematuros -comentou-. Tem um peso correto, e segundo o livro, um menino que nasce depois de trinta e quatro semanas de gesta��o
n�o tem por que ter nenhum problema. Mesmo assim, quero lhes levar a hospital. Crie que estar� o bastante forte para Ir avermelhado Springs amanh�?
-Sim, os dois o estaremos.
-Ent�o, iremos pela manh�. Quer comer algo?
-Comeria- um cavalo.
Gabe sorriu, mas foi incapaz de lhe devolver o menino.
-Ter� que te conformar com um filete de ternera.Y ele, n�o tem fome?
-Suponho que quando a tiver nos far� saber isso.
Igual a Laura antes que ele, Gabe sentiu a necessidade de riscar a forma de seu carita.
-O que me diz do nome?, n�o podemos seguir chamando-o "ele".
-N�o, n�o podemos -Laura acariciou a suave pelusilla que lhe cobria a cabe�a, e comentou-: pensei que ao melhor gostaria de escolh�-lo voc�.
-Eu?
-Sim. Suponho que tem algum nome preferido, ou de algu�m importante para ti, e eu gostaria que o escolhesse voc�.
-Michael -murmurou Gabe, ao contemplar ao pequeno dormido.

Cap�tulo 6
S�o Francisco. Embora Laura sempre tinha querido visitar aquela cidade, jamais tinha esperado chegar ali com um filho de duas semanas e um marido, nem ir viver
a uma elegante casa perto da ba�a.
A casa do Gabe... e tamb�m a sua, pensou enquanto esfregava sua alian�a com o polegar em um gesto nervoso. Sabia que era absurdo sentir-se inc�moda porque a
casa fora grande e preciosa, e que resultava rid�culo sentir-se pequena e insegura ao notar a opul�ncia e o poder que se respiravam no ar, mas n�o podia evit�-lo.
Ao entrar no vest�bulo, desejou com desespero voltar para a calidez reconfortante da pequena cabana. O dia que se foram de Avermelhado tinha come�ado
a nevar outra vez, e embora adorava a suave brisa primaveril e os pequenos brotos das novelo em Calif�rnia, descobriu que sentia falta do frio e a
ferocidade das montanhas.
-� preciosa -conseguiu dizer, enquanto seguia com o olhar a suave curva ascendente das escadas.
-Era de minha av�, conservou-a depois de casar-se -Gabe deixou a bagagem no ch�o, e contemplou aquele lugar t�o familiar para ele. Era uma casa que sempre
tinha-lhe gostado de muito, por sua beleza e seu equil�brio-. Quer que lhe ensine isso, ou prefere descansar um pouco?
Laura esteve a ponto de fazer uma careta, porque dava a impress�o de que ele estava falando com uma simples convidada.
-Se descansasse tanto como voc� quer, passaria-me o que fica do ano dormindo.
-Vale, ent�o te ensinarei o piso de acima.
Gabe era consciente de que soava am�vel, inclusive muito, mas tinha come�ado a ficar nervoso desde que tinham descido do avi�o, porque Laura parecia
haver-se ido refugiando mais em si mesmo conforme se foram afastando de Avermelhado. N�o teria sabido explic�-lo exatamente, mas sabia que n�o eram imagina��es delas.
Agarrou duas malas, e come�ou a subir as escadas. Estava levando a casa a sua mulher e a seu filho, e n�o estava seguro do que lhes dizer a nenhum dos dois.
-Eu utilizo este dormit�rio -entrou na habita��o, e deixou as malas aos p�s da enorme cama de carvalho-. Se voc� gostar de outra, pode arrumar-se.
Laura assentiu. Embora tinham compartilhado a habita��o do hotel enquanto o menino permanecia no hospital, s� tinham dormido juntos na cabana, a noite
antes de que Michael nascesse. Mas ali as coisas seriam diferentes... tudo seria diferente.
-� uma habita��o muito bonita.
Notou que sua voz parecia um pouco tensa, mas sorriu para tentar suavizar a situa��o. O dormit�rio, que tinha um teto elevado e estava decorado com elegantes
antiguidades, era precioso. Havia uma terra�o, e atrav�s das portas acristaladas se via o jardim que havia debaixo, onde as folhas das �rvores j� come�avam
a brotar. Os ch�os resplandecentes estavam obscurecidos pelo passo dos anos, e as cores ligeiramente descoloridas do tapete falavam de uma heran�a
transmitida atrav�s de gera��es.
-O quarto de banho est� a� -disse-lhe Gabe, enquanto ela percorria com um dedo as formas esculpidas em uma antiga c�moda-. Meu estudo est� ao final do corredor,
porque ali h� melhor luz. Acredito que poder�amos p�r ao menino na habita��o que h� ao lado desta.
Qualquer tens�o que pudesse haver entre eles sempre se relaxava ao falar do beb�.
-Eu gostaria de ir ver a. depois de estar no hospital, Michael se merece ter seu pr�prio quarto.
Foram ao dormit�rio do lado, que estava decorado em tons azuis e cinzas, e que tinha uma majestosa cama de matrim�nio e um assento acolchoado debaixo de
a janela. Como no resto de habita��es que tinham visto at� o momento, as paredes estavam decoradas com quadros; alguns deles eram do Gabe, e outros
de artistas aos que ele respeitava.
-� preciosa, mas o que vais fazer com o mobili�rio?
-Podemos armazen�-lo em algum s�tio -disse ele, sem lhe dar a mais m�nima import�ncia a todas aquelas antiguidades-. Michael pode ficar em nossa habita��o
at� que a sua esteja terminada.
-N�o te importa? Certamente vai seguir despertando de noite durante algumas semanas mais.
-Poderia lhes deixar aos dois em um hotel at� que v� bem.
Laura abriu a boca para protestar, mas ent�o viu um olhar em seus olhos que conhecia a perfei��o.
-Sinto muito, n�o consigo me acostumar.
-Pois tenta faz�-lo -disse ele, antes de ir para ela e posar uma m�o em sua bochecha.
Cada vez que fazia aquele tenro gesto, Laura estava quase disposta a acreditar que os sonhos podiam fazer-se realidade.
-Pode que n�o tenha o equipamento necess�rio para lhe dar de comer, mas posso aprender a trocar um fralda -Gabe riscou sua mand�bula com o polegar, e acrescentou-:
me d�o bem os trabalhos manuais.
Laura sentiu que lhe acendiam as bochechas, e n�o soube se apertar-se contra ele ou apartar-se. Naquele momento o menino despertou, e tomou a decis�o por ela.
-Falando de lhe dar de comer...
-por que n�o vai ao dormit�rio?, ali estar� mais c�moda. Eu tenho que fazer um par de chamadas.
Laura sabia o que se morava.
-vais chamar a sua fam�lia?
-v�o querer te conhecer. Crie que est� o bastante forte para que devam jantar?
Ela esteve a ponto de lhe dizer com brutalidade que n�o era uma inv�lida, mas sabia que ele n�o estava falando de sua for�a f�sica.
-Sim, claro que sim.
-Vale. Tamb�m o organizarei tudo para come�ar com o da habita��o do menino. pensaste em alguma cor em concreto?
-Bom, a verdade � que... -Laura tinha pensado que teria que pintar a habita��o ela mesma, e de fato queria faz�-lo, mas se recordou que as coisas haviam
trocado. A cabana se converteu facilmente em algo que pertencia a ambos, mas a casa era s� do Gabe-. Eu gostaria de uma cor amarela, com adornos
em branco -disse finalmente.

sentou-se em uma cadeira junto � janela enquanto amamentava ao Michael, que parecia estar faminto. Era maravilhoso poder estar com ele constantemente, em
vez de ter que ir ao hospital para lhe dar de comer, para toc�-lo e contempl�-lo. Tinha sido incrivelmente duro ter que deix�-lo ali, voltar para hotel onde se
hospedavam e esperar a que chegasse a hora de poder ir v�-lo de novo.
Sorridente, contemplou-o enquanto comia. O menino tinha os olhos fechados, e uma m�o apertada contra o peito dela.
J� tinha come�ado a ganhar peso, e o doutor que o tinha atendido em Avermelhado Springs lhes tinha assegurado que estava completamente s�o, enquanto a enfermeira
colocava-lhe na boneca um bracelete identificativa com seu nome: Michael Monroe Bradley.
Laura se perguntou quem seria o Michael do Gabe. N�o o tinha perguntado, mas sabia que aquele nome, aquela pessoa, era algu�m importante para ele.
-Agora, voc� � Michael -murmurou-lhe ao menino, que come�ou a ficar dormitado contra seu peito.
Mais tarde, Laura o deitou na cama, e o rodeou de travesseiros embora sabia que ainda era muito pequeno para d�-la volta. Embora sabia que era uma tolice
querer deixar alguma marca de si mesmo na habita��o, foi tirar um pente de sua mala e o deixou sobre o penteadeira antes de sair.
Encontrou ao Gabe na planta baixa, em uma biblioteca de madeira escura com uma suave atapeta cor cinza. Ao ver que estava falando por telefone fez gesto
de partir, mas lhe assinalou que entrasse sem interromper sua conversa��o.
-Os quadros deveriam chegar no fim de semana. Sim, volto a estar em circula��o. Ainda n�o o decidi, ser� melhor que voc� jogue uma primeira olhada. N�o,
vou estar muito ocupado aqui durante uns dias, mas obrigado de todas formas. J� te direi algo, adeus -Gabe pendurou o telefone, e se voltou para ela-. Onde est�
Michael?
-Dormindo. J� sei que n�o houve tempo para arrum�-lo, mas necessita um s�tio para dormir. pensei que poderia ir comprar lhe um ber�o, se pode vigi�-lo
um momento.
-N�o se preocupe, meus pais v�o chegar de um momento a outro.
-Ah.
Gabe se sentou no bordo de seu escrit�rio, e a olhou com o cenho franzido.
-Laura, n�o s�o uns monstros.
-Claro que n�o, o que passa � que... d�-me a impress�o de que estamos completamente ao descoberto. Quanta mais gente saiba da exist�ncia do Michael, mais
risco estaremos correndo.
-N�o pode mant�-lo em uma borbulha de cristal; al�m disso, pensava que confiava em mim.
-Claro que confiava... que confio em ti -embora se apressou a corrigir-se, n�o foi o suficientemente r�pida.
-Assim "confiava", em passado -comentou Gabe, mais ferido que zangado-. Laura, tomou uma decis�o. O dia que Michael nasceu, disse que era meu. Vai a
tirar-me isso perdiendo peso con rapidez, su est�mago estaba casi plano, ten�a los senos firmes y plenos, y unas caderas incre�blemente estrechas. Gabe se pregunt� c�mo ser�a
-N�o, mas aqui as coisas s�o muito diferentes. A cabana era...
-Um s�tio fant�stico para que os dois pud�ssemos nos esconder do mundo, mas chegou a hora de nos enfrentar a seguinte etapa do caminho.
-E como vai ser essa etapa?
Gabe agarrou um pisapapeles, uma esfera cor �mbar com reflexos dourados mais escuros no centro. Voltou a deix�-lo sobre a mesa, e se aproximou dela. Estava
perdendo peso com rapidez, seu est�mago estava quase plano, tinha os seios firmes e plenos, e uns quadris incrivelmente estreitos. Gabe se perguntou como seria
tom�-la em seus bra�os.
-N�o sei, mas poder�amos come��-la com isto -disse, enquanto se inclinava para ela.
Ao princ�pio a beijou com ternura, at� que notou que os nervos dela se dissolviam em seu calidez. Aquilo era o que ele tinha desejado com todas suas for�as,
aquela promessa, aquela do�ura reconfortante. Quando a apertou contra si, seus corpos encaixaram � perfei��o, como tantas vezes tinha imaginado. Ela levava
o cabelo recolhido, mas ele o soltou com um simples movimento da m�o.
Laura soltou um pequeno som, como um murm�rio que podia ser de surpresa ou de aceita��o, e lhe rodeou o pesco�o com os bra�os.
E ent�o, o beijo deixou de ser meramente tenro.
Entre eles pareceu estalar uma paix�o quase imposs�vel de conter, um desejo voraz que n�o conseguiam saciar. Laura sentiu que um desejo longamente enterrado
em seu interior come�ava a crescer e a alag�-la, e se apertou com for�a contra Gabe, sussurrando seu nome.
Os l�bios dele come�aram a lhe percorrer a cara e o pesco�o, lhe marcando a fogo a pele enquanto suas m�os a acariciavam e a exploravam com uma nova liberdade.
Era muito logo. Em algum rinc�o de sua mente que ainda conservava a prud�ncia, Gabe sabia que era muito logo para algo mais que uma car�cia ou um beijo,
mas quanto mais a saboreava, mais se acrescentava sua impaci�ncia. Finalmente, tirou-a dos ombros e a apartou ligeiramente enquanto lutava por recuperar o f�lego.
-Anjo, pode que n�o confie em mim como antes, mas quero que n�o duvide nem por um segundo que te desejo.
Cedendo � tenta��o, Laura se aferrou a ele e apertou a cara contra seu ombro.
-Gabe, est� mal desejar que pud�ssemos estar os tr�s sozinhos?
-Claro que n�o est� mau -disse ele, com a vista fixa por cima de sua cabe�a enquanto lhe acariciava o cabelo-. Mas n�o � poss�vel, e tampouco seria justo para o Michael.
-Tem raz�o -Laura respirou fundo, e retrocedeu um passo-. vou ver como est�.
Come�ou a subir as escadas, sacudida pelas emo��es que ele despertava nela, mas a meio caminho se deteve em seco, at�nita.
Estava apaixonada por ele. N�o era a classe de amor que tinha chegado a aceitar, que procedia da gratid�o e da depend�ncia, e nem sequer era o v�nculo
forte e formoso que tinham forjado na chegada ao mundo do Michael. Era algo muito mais b�sico, o amor mais elementar de uma mulher por um homem, e era aterrador.
J� tinha estado apaixonada uma vez, e tinha sido algo breve e muito doloroso, um amor que a tinha encadeado. Tinha sido uma v�tima durante toda sua vida, e embora
seu matrim�nio tinha acentuado isso ao princ�pio, ao final tinha acabado por liber�-la. N�o tinha tido mais remedeio que aprender a ser forte, a dar os passos adequados.
N�o podia voltar a ser aquela mulher, pensou enquanto seus dedos se aferravam ao corrim�o. negava-se a voltar a passar por aquilo. Isso era o que mais a havia
inquietado ao ver a casa, ao ver as coisas que continha, porque n�o era a primeira vez que entrava em um s�tio assim, e no passado se havia sentido desconjurado
e completamente indefesa.
Outra vez n�o, disse-se ao fechar os olhos. Nunca mais.
Quaisquer que fossem seus sentimentos pelo Gabe, n�o permitiria que a convertessem de novo na classe de mulher que tinha sido no passado. Tinha um filho
ao que devia proteger.
Naquele momento soou o timbre da porta, e detr�s jogar um r�pido olhar por cima do ombro, Laura acabou de subir correndo as escadas.

Quando Gabe abriu a porta, uma quebra de onda de intenso perfume e um casaco de pele lhe golpearam totalmente. Era sua m�e, uma mulher de uma beleza inalter�vel e com
umas convic��es inquebr�veis, que considerava que um mero roce das bochechas n�o era uma sauda��o adequada, e preferia apertar com for�a e durante o m�ximo
tempo poss�vel.
-Joguei-te muito de menos. N�o sabia o que faria falta para te trazer de volta, mas nunca pensei que seriam uma mulher e um filho.
-Ol�, m�e -disse Gabe, com um sorriso.
Olhou-a dos p�s � cabe�a, e decidiu que estava t�o bonita como sempre. Sua m�e tinha o cabelo loiro, as bochechas tersas e os olhos do Michael. Eram
de uma cor verde mais escura que os seus, com toques de cinza, e ao v�-los Gabe sentiu uma estranha mescla de dor e de felicidade.
-Tem muito bom aspecto.
-E voc� tamb�m, embora haja perdido mais de quatro quilogramas. vais ter que recuper�-los. Onde est�o? -Sem mais cerim�nia, Amanda Bradley entrou na casa.
-Mandy, deixa respirar ao menino -disse seu marido, um homem alto e muito inteligente, com express�o s�ria. voltou-se para seu filho, e se deram um enorme abra�o-.
Me alegro de que haja tornado, agora poder� te dar a lata a ti e me deixar� em paz.
-Posso com os dois -disse Amanda, que j� estava tirando-os luvas com movimentos r�pidos e decididos-. trouxemos uma garrafa de champanha, pensei que embora
t�nhamo-nos perdido as bodas, o parto e todo o resto, ao menos pod�amos brindar para celebrar sua chegada. Gabe, pelo amor de Deus, n�o fique a� plantado...
estou desejando conhec�-los!
-Laura subiu a ver como est� o menino, por que n�o vamos sentar nos ao sal�o?
-Vamos, Mandy -disse Clif Bradley, tomando a sua mulher do bra�o quando ela come�ou a protestar.
-Muito bem, vou te dar cinco minutos para que me explique como vai o trabalho.
-Vai muito bem -disse Gabe.
Quando chegaram ao sal�o, seus pais se sentaram, mas ele estava muito tenso para fazer o pr�prio.
-J� chamei ao Mari�n -seguiu dizendo-. Os quadros que pintei em Avermelhado deveriam chegar a sua galeria de arte no fim de semana.
-Me alegro, estou desejando v�-los.
Gabe se passeou pela habita��o com as m�os nos bolsos, presa de uma agita��o que seus pais reconheceram imediatamente.
-H� uma obra em particular com a que estou especialmente afei�oado, e penso pendur�-la aqui mesmo, em cima da chamin�.
Amanda arqueou uma sobrancelha, e lan�ou um olhar ao espa�o vazio por cima do suporte. Gabe nunca aborrecimenta encontrado nada que lhe parecesse adequado para aquele
s�tio.
-Ter�o que julgar por v�s mesmos -acrescentou ele. Tirou um charuto, mas o deixou quando Laura apareceu na porta.
Ela n�o disse nada por uns segundos, e se limitou a observar ao casal que estava sentada no sof�. Aqueles eram os pais do Gabe. Sua m�e era muito bonito;
sua pele tersa logo que estava maquiada, e seu penteado acentuava suas fac��es aristocr�ticas e sua fina estrutura �ssea. Luzia uns pendentes e um colar de esmeraldas,
e levava um vestido rosa de seda e uma estola de pele de raposa.
O pai do Gabe era alto e magro, igual a ele, e Laura viu o brilho de um diamante em seu dedo mindinho. Parecia triste e calado, mas seus olhos a observavam
com uma express�o aguda e alerta.
-Apresento-lhes a Laura, minha mulher, e a nosso filho.
Laura fez provis�o de valor, apertou ao menino contra seu peito em um gesto protetor, e entrou no sal�o. Amanda se levantou a primeira, mas s� porque sempre
parecia mover-se mais rapidamente que ningu�m.
-Me alegro de te conhecer por fim -apesar de que tinha suas reservas, a m�e do Gabe sorriu com amabilidade-. Gabe n�o mencionou qu�o bonita �.
-Obrigado -Laura sentiu que lhe formava um n� na garganta, j� que era �bvio que estava ante uma mulher formid�vel. Levantou o queixo de forma instintiva,
e comentou-: me alegro de que tenham podido vir.
Amanda notou com aprova��o o pequeno gesto de orgulho e desafio.
-Quer�amos ir receber lhes ao aeroporto, mas Gabe nos disse que n�o o fiz�ssemos.
-E com raz�o -apostilou Cliff, com sua voz tranq�ila e pausada-. Se tivesse conseguido conter a minha mulher, ter�amos esperado um dia mais.
-Tolices, quero ver meu neto. Posso?
Os bra�os da Laura se esticaram de forma autom�tica, mas ao olhar ao Gabe se relaxou um pouco.
-Claro -com grande cuidado, colocou ao pequeno nos bra�os da Amanda.
-� precioso! -disse a mulher, com um ligeiro tremor em sua sofisticada voz-. Que formoso �... -o aroma do beb�, a mescla de talco, sab�o e pele delicada,
fez-a suspirar-. Gabe me disse que foi prematuro, teve algum problema?
-N�o, est� perfeitamente bem.
Como se queria provar a verdade daquelas palavras, Michael abriu os olhos e contemplou o que lhe rodeava com express�o dormitada.
-Olhou-me! -com as esmeraldas brilhando sobre sua pele, Amanda contemplou embevecida ao menino e come�ou a lhe fazer carinhos-. olhaste a seu abuelita, a que
sim?
-Ou�a, olhou-me -Cliff se aproximou e lhe acariciou o queixo.
-N�o diga tolices, para que ia querer te olhar a ti? Anda, faz algo �til e desarrolha o champanha -Amanda seguiu arrulhando ao menino, enquanto a seu lado Laura
retorcia-se as m�os com nervosismo-. Laura, vais poder beber?, n�o me lembrei de lhe perguntar ao Gabe se lhe der o peito ao menino.
-Sim que lhe dou, mas n�o acredito que haja nenhum problema por um gole.
Amanda voltou a aprovar sua atitude, e foi sentar se ao sof�.
Laura deu um passo instintivo para diante, mas se obrigou a deter-se. Aquela mulher n�o era Lorraine Eagleton, e ela tampouco era a mesma pessoa que se havia
deixado avassalar no passado; entretanto, apesar de que tentou apartar aquela imagem da mente, viu-se de novo na parte exterior do c�rculo familiar.
-iria procurar umas ta�as, mas n�o sei onde est�o -disse com voz insegura.
Sem dizer uma palavra, Gabe se aproximou de uma vitrine e tirou quatro ta�as altas de champanha.
Cliff tomou a Laura do bra�o, e sugeriu:
-por que n�o se sinta?, suponho que estar� cansada depois da viagem.
-J� vejo que se parece com seu filho -Laura sorriu, e se sentou em uma cadeira.
Quando todo mundo teve uma ta�a, Amanda levantou a sua.
-Brindaremos por... v�, ainda n�o me h�o dito como se chama o menino.
-Michael -disse Laura.
Nos olhos da Amanda apareceu um brilho de dor, e os fechou por uns segundos. Quando voltou a abri-los, estavam �midos e brilhantes.
-Pelo Michael -murmurou, e depois de tomar um gole, baixou a cabe�a e beijou ao pequeno na bochecha. Ent�o olhou ao Gabe com um sorriso, e lhe disse-: seu pai
e eu temos uma coisa para o menino no carro, quer ir busc�-lo?
Embora n�o se tocaram e o olhar durou s� um instante, Laura viu que m�e e filho compartilhavam algum tipo de comunica��o silenciosa.
-Agora mesmo volto.
-Pelo amor de Deus, n�o nos vamos comer isso -resmungou Amanda quando Gabe saiu da habita��o.
Cliff soltou uma gargalhada, e lhe acariciou o ombro em um gesto que a Laura resultou extra�amente familiar. Ent�o se deu conta de que era algo que Gabe
estava acostumado a lhe fazer a ela, e que transbordava de uma intimidade carregada de naturalidade.
Naquele momento, o homem a tirou de seu enso�aci�n ao lhe perguntar:
-Tinha estado antes em S�o Francisco?
-N�o, havia... n�o. Eu gostaria de lhes oferecer algo, mas n�o sei o que temos -de fato, nem sequer sabia onde estava a cozinha.
-N�o se preocupe, n�o nos merecemos nada depois de irromper em sua casa quando acaba de chegar -disse Cliff, enquanto colocava o bra�o tranq�ilamente no
respaldo da cadeira.
-As fam�lias n�o irrompem -protestou Amanda.
-A nossa sim -com um enorme sorriso, Cliff se inclinou e voltou a lhe acariciar o queixo ao menino-. Sorriu-me.
-Eu diria que tem feito uma careta... av� -Amanda soltou uma gargalhada, e beijou a bochecha de seu marido.
-Suponho que o ber�o � para o Michael e as rosas para mim -disse Gabe, ao entrar no sal�o com um ber�o de madeira de pinheiro carregada de len��is com encaixe, sobre
as que descansava um ramo de rosas.
-Ah, sim, as flores, me tinham esquecido. E n�o, claro que n�o s�o para ti, s�o para a Laura -Amanda lhe entregou o beb� a seu marido e se levantou.
Laura fez gesto de levantar-se, mas viu que Cliff colocava ao menino na curva de seu bra�o sem nenhum problema.
-Necessitaremos �gua para as p�r -seguiu dizendo Amanda-. Esperem, j� vou eu a procur�-la.
Ningu�m se atreveu a lhe levar a contr�ria, e a mulher saiu da habita��o com as flores.
-� preciosa -disse Laura. Acariciou com um dedo a suave madeira do ber�o, e comentou-: pouco antes de que voc�s chegassem, est�vamos comentando que Michael
necessitava uma.
-� o ber�o dos Bradley -disse Cliff-. Gabe, acerta os len��is e vamos ver se ao menino gosta.
-Este ber�o � uma tradi��o familiar -explicou-lhe Gabe, enquanto tirava obedientemente as mantas restantes e alisava o suave tecido branco-. Construiu-a meu
bisav�, e todos os meninos da fam�lia Bradley puderam balan�ar-se nela -quando tudo esteve preparado, tomou ao pequeno de bra�os de seu pai-.vamos ver se lhe
gosta, muchachote.
Ao ver que Gabe deitava ao menino e lhe dava um pequeno empurr�ozinho ao ber�o para que se balan�asse, Laura sentiu que algo se rompia em seu interior.
-Gabe, n�o posso.
Ele estava de cuclillas junto ao ber�o, e quando levantou o olhar para ela Laura viu em seus olhos um desafio, uma provoca��o, e uma f�ria velada.
-O que � o que n�o pode?
-N�o est� bem, n�o � justo -Laura tirou o menino do ber�o-.T�m que sab�-lo.
Esteve a ponto de sair correndo, mas naquele momento Amanda apareceu com as rosas em um vaso de cristal.
A mulher notou a tens�o que vibrava no ambiente, e entrou na habita��o perguntando-se a que se devia.
-Onde quer que as ponha, Laura?
-N�o sei, n�o posso... por favor, Gabe...
-Acredito que ficar�o bem ao lado da janela -comentou a mulher com voz acalmada. Quando as teve colocado, acrescentou sem alterar-se-: bom, cavalheiros, acredito que
v�s tr�s deveriam ir entreter lhes com algo enquanto Laura e eu temos um pequeno bate-papo.
Laura sentiu uma pontada de p�nico, e se voltou para seu marido.
-Gabe, tem que dizer-lhe -Querida, no me hagas caso -se�al� con un gesto una de las sillas, y le pregunt�-: �no preferir�as sentarte? -cuando Laura lo hizo sin protestar, la mujer enarc�
Ele tomou ao menino em seus bra�os e o apoiou em seu ombro antes de olh�-la. Sua express�o era serena, mas seus olhos seguiam refletindo seu aborrecimento.
-J� o tenho feito -disse, e sem mais a deixou a s�s com sua m�e.
Amanda voltou a sentar-se no sof�, cruzou as pernas e se alisou a saia do vestido.
-Que l�stima que a chamin� n�o esteja acesa, verdade? Ainda faz bastante afresco para esta �poca do ano.
-Ainda n�o tivemos tempo de...
-Querida, n�o me fa�a conta -assinalou com um gesto uma das cadeiras, e lhe perguntou-: n�o preferiria te sentar? -quando Laura o fez sem protestar, a mulher arqueou
uma sobrancelha-. Sempre � t�o obediente?, espero que n�o, eu gostava mais quando me olhava com o queixo e a frente em alto.
Laura entrela�ou as m�os em seu rega�o.
-N�o sei o que dizer, n�o sabia que Gabe o tinha explicado tudo. Ao ver como se comportavam... -deixou a frase pela metade, mas ao ver que Amanda permanecia em
sil�ncio, esperando pacientemente a que continuasse, voltou a tent�-lo-. Pensei que acreditavam que Michael era o... o filho biol�gico do Gabe.
-Deveria supor uma diferen�a t�o grande para n�s?
Laura conseguiu recuperar a calma, ao menos na apar�ncia, e conseguiu lhe devolver o olhar sem pestanejar.
-Suponho que isso seria o que cabe esperar, sobre tudo em uma fam�lia como a sua.
Amanda franziu o cenho, enquanto refletia sobre aquelas palavras.
-Quero que saiba que conhe�o o Lorraine Eagleton -ao ver o instant�neo e lhe esmaguem medo nos olhos da Laura, a mulher se tornou atr�s. N�o estava acostumado a ter muito
tato, mas n�o era uma pessoa cruel-.J� falaremos dela em outra ocasi�o, neste momento acredito que o melhor ser� que me explique. Sou uma mulher direta e firme,
mas n�o me importa que me plantem cara.
-Isso n�o me d� muito bem.
-Ent�o ter� que aprender, n�o crie? Pode que cheguemos a ser amigas e pode que n�o, � muito logo para que possa diz�-lo, mas adoro a meu filho.
Quando se foi faz meses, n�o sabia se algum dia voltaria a recuper�-lo, mas por alguma raz�o voc� tem feito que retorne, e te estou agradecida.
-Teria voltado para casa de todas maneiras, quando se houvesse sentido preparado.
-Mas ao melhor n�o teria retornado como uma pessoa completa. Bom, deixemos o tema e vamos ao fundo da quest�o: seu filho. Gabe considera o menino como
seu pr�prio, e voc�?
-Sim.
-J� vejo que n�o duvidaste nem um momento -disse Amanda, com um sorriso id�ntico a do Gabe-, Se Gabe considerar o Michael como filho dele e voc� tamb�m, por
o que vamos sentir outra coisa Cliff e eu?
-Porque n�o tem seu sangue, sua ascend�ncia.
-Ser� melhor que deixemos aos Eagleton � margem, de momento.
Laura ficou olhando, surpreendida de que a mulher tivesse dado totalmente no branco.
-Se Gabe tivesse sido incapaz de ter filhos e tivesse adotado a um menino, eu o quereria e o consideraria meu neto, assim j� � hora de que supere todas
estas tolices e aceite a situa��o, n�o crie?
-Faz que pare�a muito f�cil.
-Parece-me que sua vida j� � bastante complicada -Amanda tomou a ta�a que tinha deixado antes sobre uma mesa-. Parece-te bem que sejamos os av�s do Michael?
-N�o sei.
-J� vejo que � sincera -comentou Amanda, antes de tomar um sorvo de champanha.
-Parece-lhe bem que seja a mulher do Gabe?
Com um ligeiro sorriso, Amanda levantou sua ta�a.
-N�o sei. Bom, suponho que teremos que esperar e ver o que acontece, n�o? Enquanto isso, n�o quereria que me pusesse impedimentos para que veja o Gabe ou a
Michael.
-N�o, claro que n�o, jamais faria algo assim. Senhora Bradley, ningu�m foi t�o bom e generoso comigo como Gabe, prometo-lhe que nunca farei nada que possa lhe fazer
dano.
-Quer-lhe?
Inc�moda, Laura lan�ou um r�pido olhar para a porta.
-N�o havemos... Gabe e eu n�o falamos que isso. Eu necessitava ajuda, e acredito que ele me precisava dar isso parte de la familia -se reclin� en el sof� y enarc� las cejas, pero sinti� una peque�a punzada de simpat�a-. Por la expresi�n de tu cara, deduzco que eso no te entusiasma.
Amanda franziu os l�bios e contemplou sua ta�a.
-Acredito que n�o foi isso o que te perguntei.
Laura voltou a levantar o queixo.
-Isso � algo que tenho que discutir com o Gabe antes de coment�-lo com ningu�m mais.
-� mais dura do que parece, gra�as a Deus -Amanda apurou sua ta�a, e a deixou de novo sobre a mesa-. Acredito que vais acabar me gostando de... embora possa que
acabemos nos odiando, claro. Mas, sem importar o que acontecer n�s dois, n�o trocar� o fato de que Gabe se comprometeu contigo e com o menino. Formam
parte da fam�lia -reclinou-se no sof� e arqueou as sobrancelhas, mas sentiu uma pequena pontada de simpatia-. Pela express�o de sua cara, deduzo que isso n�o te entusiasma.
-Sinto muito, n�o estou acostumada a pertencer a uma fam�lia.
-N�o tiveste uma vida muito f�cil, verdade?-a voz da Amanda continha um certo matiz de compaix�o, mas n�o em excesso, j� que n�o queria que Laura se sentisse
inc�moda. Naquele momento, tomou nota mental de indagar um pouco sobre os Eagleton.
-Estou tentando deixar atr�s todo isso.
-Espero que o consiga. H� coisas do passado que devem recordar-se, e outras que � melhor esquecer.
-Senhora Bradley... posso lhe fazer uma pergunta?
-Sim, mas com a condi��o de que comece a tutearme. Pode me chamar Amanda, Mandy ou qualquer outra coisa... bom, menos "mam�e Bradley", por favor.
-Trato feito. Por quem lhe p�s Michael ao menino?
Amanda voltou o olhar para o ber�o vazio, e ficou contemplando-a com uma express�o de tristeza que fez que Laura lhe cobrisse a m�o com a sua.
-Por meu filho, o irm�o pequeno do Gabe. Morreu faz aproximadamente um ano -levantou-se com um comprido suspiro, e anunciou-: � hora de que vamos, para que
possa te instalar.
-Obrigado por vir.
Laura duvidou um segundo, porque nunca estava completamente segura do que se esperava dela naqueles casos. Finalmente, obedeceu ao que lhe dizia o cora��o,
e deu um beijo a Amanda na bochecha.
-E obrigado pelo ber�o, significa muito para mim -acrescentou.
-Para mim tamb�m -a mulher passou a m�o pela madeira, antes de sair do sal�o-. Clifton, n�o foi voc� o que me disse que n�o dev�amos ficar mais de
meia hora?
Quando lhes chegou o som de sua voz do piso de acima, Amanda estalou a l�ngua e come�ou a fic�-los luvas.
-Sempre est� bisbilhotando no estudo do Gabe. N�o sabe distinguir um Monet de um Picasso, mas adora admirar o trabalho de seu filho.
-pintou uns quadros preciosos em Avermelhado, devem estar muito orgulhosos dele.
-Cada dia mais -Amanda ouviu seu marido, e elevou o olhar para o piso superior-. Se necessitar ajuda para decorar a habita��o do menino ou para procurar um bom
pediatra, n�o duvide em me dizer isso Suponho que entender� que esvazie todas as lojas de meninos que encontre a meu passo.
-Eu n�o...
-Bom, ao melhor n�o o entender�, mas ter� que toler�-lo. Cliff, lhe d� um beijo de despedida a sua nora.
-N�o fazia falta que me dissesse isso.
Em vez do beijo formal e vazio de sentimento que Laura esperava, o pai do Gabe lhe deu um enorme abra�o que a deixou aturdida e sorridente.
-Bem-vinda � fam�lia, Laura.
Ela sentiu o desejo de lhe devolver o gesto, de lhe rodear o pesco�o com os bra�os e voltar a inalar o aroma especiado da lo��o p�s-barba
que tinha notado em seu pesco�o, mas se disse que aquela rea��o era absurda e se limitou a entrela�ar as m�os.
-Obrigado, espero que voltem logo. Talvez poderiam dever jantar a semana que vem, quando tiver tido tempo de descobrir onde est� cada coisa.
-Tamb�m cozinha? -o homem lhe beliscou juguetonamente a bochecha, e disse a seu filho-: bem feito, Gabe.
Quando partiram, Laura ficou no sagu�o, esfregando-a bochecha com um dedo.
-S�o muito agrad�veis.
-Sim, sempre o pensei.
Para ouvir o tom cortante na voz do Gabe, Laura sei voltou a olh�-lo.
-Devo-te uma desculpa.
-Esquece-o -Gabe foi para a biblioteca, mas se parou em seco e se girou para ela. Que dem�nios, claro que n�o estava disposto a esquec�-lo-. Pensou que
mentiria-lhes sobre o Michael?, que haveria necessidade de faz�-lo?
Laura aceitou seu aborrecimento sem alterar-se, e admitiu:
-Sim.
Ele tinha aberto a boca para soltar algum coment�rio furioso, mas sua resposta fez que a fechasse de repente.
-V�, n�o te anda pelos ramos.
-Pensei que n�o aceitariam ao Michael como seu neto se sabiam a verdade, e me alegro de me haver equivocado. Sua m�e foi muito am�vel comigo, e seu pai...
-O que acontece ele?
Laura tinha estado a ponto de sublinhar o fato de que seu pai a tinha abra�ado, mas acreditou que ele n�o poderia entender o muito que aquilo a tinha afetado.
-parece-se muito a ti. Tentarei n�o lhes decepcionar a nenhum dos tr�s.
Gabe se passou uma m�o pelo cabelo, que lhe ca�a sobre os ombros em uma massa loira desgrenhada, como lhe gostava mais.
-Seria melhor que n�o decepcionasse a ti mesma. Maldita seja, Laura, n�o est� aqui a prova. � minha mulher, esta � sua casa, e para bem ou para mau, os Bradley
s�o sua fam�lia.
Ela apertou os dentes com for�a.
-Ter� que me dar tempo para que me acostume -disse com voz tranq�ila-. As �nicas fam�lias que conheci em minha vida apenas me toleravam, e n�o penso voltar
a passar pelo mesmo -vol